My Whisper

By: Rhaay Alcantaras



Capítulo 01

Quando acordei meu travesseiro estava molhado. Eram lágrimas brotadas do mais fundo de uma dor inconsciente, mas nítida. Viver tem dias muito nublados quando a simples existência nos dói nos ossos. É como mergulhar num mar que não dá pé quando nem se sabe nadar... Não julgo, não culpo o mundo. "O preço de uma alegria explodida no peito, é essa angústia sem um réu..."
Eu me contorcia inteira em cólicas existenciais... E quando acho que já foi o bastante, a vida chega aos borbotões e me diz que há mais... Acordei sem uma menina dentro de mim. Antes ela tivesse me acordado com o choro mais sentido do mundo pedindo cuidado, atenção... Às vezes não sei se agüento, às vezes acho que sim. Se não, o aprendizado seria só esse sufoco. Eu preciso de ar puro e de uma mirada sincera pro horizonte amplo mesmo que tudo fique embaçado pelas lágrimas que eu não escolhi, mas que me aconteceram. Você sabe do que falo. E se eu me entregasse ao vôo? Mas sou flor, arraigada ao solo. Preciso das suas asas. De você. Me empresta uma mudança brusca? Tenho urgência!

- Amor... – ouvi me chamando em um sussurro e aquilo me doeu, eu estava sem coragem para encará-lo. Estava frustrada comigo mesma, triste e me sentindo extremamente vazia. Eu mal consegui mexer meu corpo que estava jogado na cama. Todos os meus sentidos estavam alterados, eu sentia como se fosse outra pessoa dentro de mim. Com medo do mundo abri os olhos lentamente e vi agachado próximo à cama com uma de suas mãos segurando a minha. Ele deu um leve sorriso, mas nem com o sorriso dele eu consegui me sentir melhor. – Pedi o nosso café da manhã e já deve estar chegando! – ele falou baixinho enquanto deslizava sua mão pelo meu ombro descoberto. Eu não tinha expressão e movimento algum. – Por favor, amor, levante que eu vou te ajudar a tomar um banho. – devagar puxou o cobertor que me cobria, tirou o meu cabelo do rosto e beijou minha testa eu o olhei e toda a cena do dia anterior invadiu a minha mente, lembrei de sua expressão e de todo o meu medo. Chorei. De novo.
No mesmo instante em que o inicio do desespero se instalava em meu corpo uma calma instantânea me confortou assim que me abraçou forte enquanto dizia repetitivamente que me amava e tudo ficaria bem. Ele sorriu fraco e triste depois de me soltar de seu forte abraço. Dessa vez era como se a paz estivesse na minha frente.
Deixei que ele me ajudasse a levantar e me guiasse até o banheiro, ligou a banheira e sentou-se em cima da tampa do vaso sanitário. Puxou-me pela mão e fez com eu sentasse em seu colo, passei meus braços por seu pescoço e ali mesmo afundei meu rosto. O barulho da água batendo na louça da banheira era o único som que se ouvia na casa. Ele me segurava pela cintura e fazia leves carinhos, com a outra mão mexia devagar em meu cabelo.
- Vem! – levantamos juntos e ele começou a me despir, me ajudou a entrar na banheira em seguida tirou seu moletom e entrou também. Me afundei e fiquei o máximo de tempo que pude imersa na água, quando voltei para a superfície me olhou carinhoso me levando para perto de seu corpo me fazendo ficar de costas para ele que envolveu seus braços em minha cintura.
- Me desculpe. – eu disse baixinho, eu estava com medo de falar qualquer coisa que fosse. me apertou um pouco mais forte, beijou meus ombros e minha nuca.
- Você não teve culpa de nada meu amor... – sua voz saiu triste e eu me virei para encará-lo.
- Eu realmente queria que ela ainda estivesse aqui dentro. – falei num sussurro, peguei em sua mão e a apertei sobre a minha barriga. fechou os olhos e uma lagrima escorreu por sua pele branca.

Flashback ('s POV)

Eu estava voltando para casa depois de um dia com entrevistas longas e engraçadas, adoro esse processo de divulgação que temos que fazer antes de um cd novo ser lançado. É uma rotina cansativa é claro, mas sempre me sinto recompensado depois de um show incrível. Eu estava louco pra chegar em casa e passar um tempo com a minha esposa, louco pra comer uma comida bem feita que ela fazia questão de preparar, louco pra namorá-la, admirar e conversar com a sua barriga. está grávida de três meses e qualquer pessoa pode ver a felicidade estampada em nossos rostos. Ela esta carregando o meu sonho dentro dela. O sonho de ser pai.
Meu celular começou a tocar e ao reconhecer o numero apertei o send no painel do carro.
- Oi, amor! – disse com um sorriso enquanto batia os dedos no volante do carro.
- Hey, hm... Só liguei pra saber se você vai demorar... – ela disse com uma voz doce, tenho certeza que sorria.
- Não, amor, em menos de quinze minutos eu chego, ok? – sorri.
- Ok! Amo você, beijo. – ela disse e desligou o telefone, pensei em responder mais nem deu tempo.

Como eu disse, em menos de quinze minutos o portão do prédio onde eu morava com a se abria a minha frente. Cumprimentei o porteiro super gentil e guardei o carro. Entrei no elevador encarando o espelho e bagunçando um pouco os meus cabelos, tem uma certa pessoa que gosta de me ver com o cabelo assim.
A porta se abriu no décimo andar, retirei as chaves do bolso de meu casaco e entrei em casa. Passei pela sala e não tinha ninguém. Digo, não estava ali, afinal, por enquanto somos só nós dois nesse apartamento. Confesso que eu estava ansioso demais para que finalmente chegasse o dia em que eu veria uma pequena criatura correndo pela casa, arrastando consigo os sapatos e bolsas da , sim ela estava esperando uma menina. Fui até a cozinha e a vi sentada na pia com um pote de Nutella entre as pernas. Ela sorriu assim que me viu e claro que comigo aconteceu a mesma coisa.
Me aproximei e lhe dei um selinho.
- Há quanto tempo você não comia um desses? – perguntei curioso enquanto olhava para a colher em sua mão. me olhou pensativa.
- Eu não lembro! Mas hoje quando eu estava voltando do trabalho eu juro que senti o gosto em minha boca, me deu uma vontade louca e eu precisava de um desses só pra mim! – ela respondeu e segurou firme o pote como se eu fosse roubá-lo. Sorri de leve e passei minhas mãos por sua cintura enquanto se distraia com a colher e o chocolate.
Fui até a geladeira e de lá tirei uma cerveja, a tomei enquanto assistia raspar até ver que não existia mais nada de chocolate no pote. Ela me olhou sorrindo e eu gargalhei. Seu dente estava sujo de chocolate e eu fiz sinal para que ela limpasse, sem jeito ela parou de rir e limpou os dentes. Sorriu de novo e eu sorri me aproximando dela. Depositei um leve beijo em seu ombro descoberto e fui subindo devagar até chegar em sua boca, quando ela se aproximava para me beijar eu recuava. Isso a deixava irritadinha! Quando se cansou da minha brincadeira me puxou pelo pescoço e me beijou, logo em seguida ela se afastou e me olhou com cara de nojo.
- O que tem nessa cerveja? – ela perguntou com a mão na boca, saltou da pia e correu em direção ao banheiro, sem entender nada eu corri junto com ela. se ajoelhou em frente ao vaso sanitário, me toquei do que ela ia fazer e rapidamente retirei seu cabelo do rosto, com uma mão eu segurava sua franja e com a outra o restante de seu cabelo. Ver uma pessoa vomitando não é a cena mais linda do mundo e nas poucas vezes em que passou mal eu desejei estar no lugar dela e sentir todas as coisas negativas da gravidez por ela.
A ajudei a levantar, lavou a boca e em seguida escovou os dentes.
- Tudo bem? – perguntei receoso.
- Tudo bem, amor! – ela sorriu abertamente.
- Eu me assustei! Você começou a me beijar e do nada se sentiu enjoada. – depositou suas mãos na pia e se olhava no espelho, eu estava atrás dela com o meu queixo apoiado em seu ombro. Ela sorriu de novo.
- Eu não sei o que aconteceu, mas a sua boca estava com um gosto tão... – ela me olhou pelo espelho e eu arqueei a sobrancelha. – Tão... estranho! – fez uma cara engraçada, a puxei pela cintura fazendo com que ela se virasse para mim.
- Então... Me beije de novo! – sussurrei em seu ouvido e ela apertou as unhas em meu pescoço. Me aproximei para lhe beijar e dessa vez sem brincadeiras. Quando nossas línguas se encontraram me empurrou e de novo colocou a mão na boca, de novo aquela cara de nojo. Eu parecia um daqueles personagens de desenho animado, tinha uma interrogação em meu rosto. ficou parada com uma mão na boca e a outra massageando seu pescoço, segundos depois ela relaxou os ombros e se virou pra mim.
- Isso é cansativo, esses enjôos acabam comigo! – disse enquanto caminhava para nosso quarto. Deitou-se na cama com a barriga para cima e uma de suas mãos sobre a mesma.
- Impressão minha ou o meu beijo te fez enjoar? – perguntei curioso me deitando ao seu lado, apoiei um cotovelo na cama para segurar minha cabeça, a outra mão se juntou com a de que estava sobre sua barriga.
- Vai passar! O que vai ser de mim durante o restante dessa gravidez se eu não tiver os seus beijos? – ela disse com um leve sorriso no rosto que agora tinha uma ternura indescritível. Ficamos deitados por alguns minutos apenas trocando carinhos. O telefone tocou e interrompeu o nosso momento família (eu, e o feto que ela carregava), levantei rindo de alguma coisa que ela tinha falado.
- Alô. – gargalhava e eu fiz sinal de silencio com o dedo indicador. Ela se controlou. – Erm, acho melhor não. – me olhou séria. – Por favor, tente não ligar mais pra nossa casa! – disse tentando manter a calma, saltou da cama e tirou o telefone da minha mão. Na chamada era Robert, seu irmão mais velho.
Quando ele e eram crianças os dois não se desgrudavam, eram mais que irmãos, eram amigos e companheiros em tudo. Na adolescência Robert se envolveu com pessoas erradas e não foi forte o suficiente para negar as drogas e bebidas... Meses depois ele passou a roubar os pais, foi expulso do colégio, perdeu a namorada e boa parte dos amigos. sempre foi a pessoa que mais lutou para tirá-lo desse mundo, ela se arriscou diversas vezes, chegou a ficar na mão de traficantes, sofreu ameaças e assim foi por quase dez anos até que ela desistiu de Robert e deixou tudo nas mãos de Deus. Eu evitava ao máximo falar sobre ele dentro da nossa casa, ele fazia mal para . Nos últimos dias ele ligou varias vezes para casa, mas eu só atendi o telefone duas vezes, nas outras foram a e eles sempre discutiam, ela sempre gritava com ele e quando desligava o telefone caia no choro. A gravidez dela é de risco e a ultima coisa que ela pode passar é nervoso, stress e derivados. Essas ligações dele me davam medo.
- PÁRA, PÁRA COM ISSO! NÃO VENHA ME DIZER QUE AGORA VOCE PRECISA DA MINHA AJUDA PORQUE DESSA VEZ EU NÃO QUERO TE AJUDAR! – começou a gritar, eu me aproximei dela tentando arrancar o telefone de sua mão. – NÃO ADIANTA VOCE COLOCAR OS MEUS PAIS NESSA HISTÓRIA, TODO MUNDO FEZ O QUE PODIA E O QUE NÃO PODIA PRA TE TIRAR DESSA VIDA E O QUE VOCE FEZ COM A GENTE? O QUE? – ela começou a chorar e eu me irritei mais ela segurava firmemente o telefone e saiu correndo se trancando no banheiro. Ok, agora eu fiquei tenso, eu tenho muito medo do que ele pode falar pra ela. Mais gritos! – CALA A SUA BOCA SUJA E FEDIDA, VOCE NÃO TEM MORAL PRA ME CRITICAR E FALAR QUE EU SÓ PENSO EM MIM. EU TENTEI DE TODAS MANEIRAS TE AJUDAR E NÃO VENHA ME CONTRARIAR! CAAAAAAALA A BOCA! EU ARRISQUEI A MINHA VIDA, EU PAGUEI AS SUAS DIVIDAS, EU FIZ DE TUDO PRA TE VER BEM NOVAMENTE E... E... CALA A SUA BOCA! – eu batia freneticamente na porta do banheiro e cada palavra gritada por o meu medo aumentava. Ela não pode sentir raiva, nenhum sentimento negativo pode passar perto dela. Risco! Uma gravidez de risco! continuava gritando e chorando até que ouvi um grito de dor. O barulho de algumas coisas caindo no chão fez com que eu me desesperasse e arrombasse a porta. Assim que entrei no banheiro vi que estava de joelhos no chão, suas mãos apertavam sua barriga e em sua calça havia uma grande mancha de sangue, ela estava com o rosto vermelho e molhado devido as lagrimas, ao seu lado estava o telefone e em volta alguns dos enfeites quebrados que ela deixa cuidadosamente sobre a pia. Ela me olhou chorando, eu nunca tinha visto ela chorando daquela maneira, a abracei e beijei todo o seu rosto.
- Amor, onde ta doendo? O que você ta sentindo? Não, não responde. Calma amor, calma meu anjo, amor... calma, calma... não vai acontecer nada – eu repetia varias vezes mesmo duvidando daquilo que falava. gritava e apertava meu braço com força. Peguei o telefone e disquei o numero da emergência, eu tentava passar calma pra ela, precisava se sentir segura.
A peguei no colo e sai rapidamente do nosso apartamento, o elevador estava demorando mais eu não podia arriscar a vida das minhas meninas descendo as escadas, nós morávamos no décimo andar. Eu tinha que esperar! Quando a porta do elevador se abriu o casal aparentemente mais velho se assustou com a imagem de sangrando em meus braços. O senhor perguntou se eu precisava de ajuda para carregá-la ou algo do tipo, eu neguei. Chegamos ao hall e eu já pude ver a ambulância parando, o senhor me ajudou e logo os médicos a tiraram de meus braços e a colocaram numa maca. Entrei junto com os médicos e durante o caminho para a clinica do médico de , eu não tirei meus olhos dela nem por segundos, minha mão apertava a sua, meus ouvidos e meu coração imploravam pra ouvir a gargalhada dela no lugar desse choro. Quando chegamos à clinica, ela foi levada até o médico que estava acompanhando a gravidez, eu entrei com ela e a vi sendo medicada, examinada até o doutor aparecer e nos dar a noticia de que tinha perdido a nossa menina.

Fim Flashback ('s POV)

Com a ajuda de , eu me vesti e ajeitei o cabelo. A cada passo que eu dava dentro daquele apartamento era como se uma agulha fosse aplicada em mim.
Passei a minha infância e adolescência falando pro mundo que eu iria morrer solteira e que nunca iria ter filhos. Tudo mudou quando eu conheci o e quando eu digo tudo eu quero dizer tudo mesmo! Namoramos por um ano e dois meses e numa viajem de férias ele me pediu em casamento. Nos casamos e depois disso começou a pressão: ‘Quando vocês vão ter um bebe?’ ‘Voces são um casal lindo, mal posso esperar pra ver os filhos de vocês!’ ‘Amiga, quando essa barriga vai começar a crescer?’ ‘Cara, ser pai é a melhor coisa do mundo!’ nunca escondeu de mim que o sonho da vida dele era ser pai, ter uma casa na praia com vários cachorros pelo quintal e que eu fosse até a eternidade a segunda mulher da vida dele (não adianta, não tem como competir com a mãe dele). A casa na praia nós compramos antes de casarmos, os cachorros compramos logo em seguida, eu sou a esposa dele e com o tempo ele começou a me cobrar. Quando algum casal passava por nós com um bebê no colo ele fazia questão de me cutucar e fazer sua cara típica de ‘quando vai chegar a minha vez?’. Sempre tive uma desculpa, era a faculdade na fase final, era o trabalho, a formatura, um curso aqui, outro curso ali, até que chegou ao ponto desse assunto virar motivo de briga entre nós dois e quando isso aconteceu eu me assustei. Nunca fomos o tipo de casal que tem brigas freqüentemente e nunca teve um perfil de homem irritado, mais quando o assunto era filho e quando eu me negava ele se irritava e ai começava uma briga. Depois ele pedia desculpas e falava que tentava me entender.
Um tempo depois a situação entre nós dois ficou péssima porque e iriam ser pais (as esposas combinaram de engravidarem na mesma época e isso revoltou ). Meses depois num descuido da minha parte eu acabei engravidando, eu não tinha a intenção de engravidar e quando comecei a sentir enjôos e minha menstruação não vinha nunca eu vi que já era tarde demais e o bebê já estava feito. começou a desconfiar antes de mim, fez vários comentários sobre os meus seios, perguntava freqüentemente sobre a minha menstruação e falava que era estranho demais eu não estar de TPM e coisas do tipo, eu me irritava e negava tudo. Não podia estar grávida! Até que um dia chegou em casa a tempo de me ver vomitando e então ele me carregou até a farmácia e nós compramos um teste de gravidez, chegamos em casa e ele parecia uma criança elétrica! ‘Amor, vai logo pelo amor de Deus!’ foi a frase que eu mais ouvi nos poucos minutos que fiquei trancada no banheiro enquanto encarava aquela maldita caixinha, eu não queria estar grávida! Esse é o sonho de tantas mulheres mais não era é o meu. Eu não me via com uma barriga grande, não me via acordando de madrugada pra calar o choro de uma criança, não me via fazendo coisas que mães fazem! Depois de pensar em como seria a minha vida dali em diante (porque eu já tinha certeza de que carregava uma vida dentro de mim) fiz o teste e deixei de entrasse no banheiro e visse o resultado antes de mim. Felicidade? Era o nome e sobrenome do meu marido! Então, eu resolvi que estava na hora de deixar o medo de lado e realizar o sonho de .
Em dois meses de gravidez eu já estava planejando tudo, já estava me preparando pra equipar o apartamento, mudar a decoração, comprei revistas com modelos de quartos, visitei lojas e passei horas babando em roupinhas. A gravidez me mudou por completo e eu passei a ver o ciclo da vida de uma maneira diferente.
Ouvi a campainha e em seguida entrou no quarto.
- Amor, vem comer um pouco! – ele veio até mim com um sorriso adorável. Eu sentia que ele queria me passar segurança mais eu pude ver naquele olhar o quão triste ele estava. Peguei em sua mão e fomos abraçados até a cozinha. Cada canto daquele apartamento tinha um pouco do nosso sonho. Lembrei das inúmeras vezes em que eu e nos deitamos no felpudo tapete da sala e ficamos horas vendo filmes e ele sempre estava com a mão sobre a minha barriga, às vezes ousava ter uma conversa e ficava todo bobo quando eu falava: ‘Logo ela começa a chutar’. Soltei um longo suspiro e beijou minha testa. Todas as vezes em que eu o olhava meu coração doía, eu sentia culpa, eu me sentia culpada por ter sido incapaz de segurar dentro de mim aquela criança. Eu me culpava por ter acabado com um sonho dele, me culpava por não ter engravidado antes e me culpava mais ainda por ter sido tão egoísta e só ver coisas negativas numa gravidez.


Capítulo 02

Estávamos deitados na cama vendo algum filme que tinha pegado na locadora, eu não prestava atenção e mal sabia no que pensar. As mãos dele mexiam em meu cabelo fazendo com que eu sentisse sono.
O telefone tocou e eu tive medo daquela ligação, senti medo e me lembrei da ultima vez que esse telefone havia tocado. se esticou e atendeu calmamente. Senti um alivio imenso ao ouvir uma leve risada.
- Eu acho ótimo! E vocês nem precisavam ligar né? – disse sorrindo pra mim, me sentei em sua frente e perguntei quem era, sorriu de novo e negou com a cabeça. – Na medida do possível esta tudo bem sim. – ele me olhou sério e passou a mão pelo meu rosto. – Nada demais, estávamos vendo um filme... Claro! – ele deu uma gargalhada alta e eu sorri levemente. – Vai dar a bunda seu idiota! Não, não vá dar a bunda, vem logo pra cá. – ele desligou o telefone e rapidamente pegou meus braços e os levou para trás fazendo com que eu deitasse sobre a cama totalmente indefesa.
Eu o olhava nos olhos e olhar nos olhos dele é como se eu pudesse andar sobre o mar, é uma das melhores sensações, é um dos melhores remédios. colocou uma perna de cada lado e se aproximou de mim. Fechei meus olhos.
Ele beijou o meu colo, meu pescoço, meu queixo, meu nariz, minha bochecha, beijou meus olhos, minha testa e fez o caminho de volta até parar no canto da minha boca. Senti que ele sorria e automaticamente sorri junto.
- É que eu te amo demais... – ele sussurrou e devagar me beijou. O arrepio tomou conta de mim e eu senti um calor imenso, um conforto extremamente agradável.
- E eu amo o seu jeito de me amar. – também sussurrei assim que ele separou nossas bocas. colocou uma mão em minha nuca e aproximou nossas testas, seus olhos miravam minha boca enquanto eu o acompanhava com o olhar. Vendo que lentamente ele fechou os olhos e mordeu o próprio lábio eu o beijei e o abracei o mais forte possível.

Tomei um banho relaxante e não pensei em nada enquanto sentia a água extremamente quente caindo sobre as minhas costas, me desliguei do mundo e quando desliguei o chuveiro e ouvi a ultima gota de água pingar no chão percebi que eu precisava voltar ao normal. Foi necessário um pouquinho de força de vontade para ligar o secador e arrumar o cabelo, mais um pouquinho de coragem pra abrir o closet e procurar por uma roupa legal para se ficar em casa.
- As malas estão vindo aqui pra te ver! – disse com a cara dentro da geladeira. Cena clássica! O meu do praticamente dentro da geladeira enquanto usava apenas uma boxer xadrez. Fui até ele e o abracei por trás, revirou mais um pouco a geladeira e suspirou.
- Amor, o negócio é o seguinte... Precisamos fazer compras! Você sabe que eu não tenho capacidade mental pra lembrar dessas coisas e tal. – ele se virou para mim e mexia na parte de trás de seu cabelo de uma forma engraçada. Sorri.
- Ok, vamos fazer compras! – levantei minhas mãos pro alto. gargalhou. Voltei para o quarto para trocar de roupa, uma calça jeans num tom escuro e um casaco qualquer da Hurley num tom mais claro foram as primeiras peças de roupa que vi. Enquanto caminhava até a cozinha prendi meu cabelo num rabo de cavalo bem firme.
- Já? – arregalou os olhos, o olhei superior e confirmei com a cabeça. Ele sorriu e rapidamente andou até o quarto voltando poucos minutos depois e vestido praticamente igual a mim. Usava um jeans escuro com um casaco preto que também era da Hurley e um de seus tênis largos. Irritantemente lindo demais. Se ele não fosse meu com toda a certeza do mundo eu faria de tudo para ter ele por perto.
Eu esperava na porta e quando ele se aproximou depositou um beijo em minha testa e saímos de casa.
- Hey! – um casal que morava um andar acima do nosso nos cumprimentou sorridentes assim que a porta do elevador se abriu. Sorrimos.
- Como você está, minha querida? – a mulher se soltou do do e me abraçou carinhosamente.
- Estou bem! – sorri levemente e segurou minha mão assim que a mulher me soltou.
- Ficamos felizes que você esteja bem, querida! Vocês sabem que se precisarem é só chamar, certo? – o homem que aparenta ser mais velho que nos disse sorrindo. Concordamos sorrindo e a porta do elevador se abriu, nos despedimos e caminhamos até a garagem. abriu a porta pra mim e correu até o outro lado.
- Muito tempo que o senhor não fazia isso! – disse com uma sobrancelha levemente erguida. ligou o carro e sorriu.
- É verdade, preciso voltar a ser um cavalheiro... – disse vagamente, enquanto esperava o portão da garagem se abrir ele me olhou e eu ajeitei seu cabelo. Peguei nossos óculos no porta-luvas, coloquei o meu e em seguida entreguei o dele que me agradeceu.
- O que você pretende comprar? – perguntei enquanto arrumava meu cinto de segurança.
- Qualquer coisa intoxicada! – respondeu enquanto estava super concentrado no volante. Dei um leve tapa em sua coxa. Ele sorriu pra mim.
- Sério, amor, porque eu não tenho nada em mente. – disse num tom mais sério.
- Ah , vamos numa padaria e sei lá... Eles comem de tudo mesmo! – fez pouco caso. Fizemos um longo caminho até encontrarmos uma padaria num bairro afastado e com pouco movimento, estacionou o carro.
- Acho bom você colocar seu gorro, assim vão te reconhecer e você já sabe... – olhei para minhas unhas.
- Então você também trate de se esconder porque todos sabem quem você é! – ele me deu um selinho e saiu do carro, correu até minha porta e a abriu. De mãos dadas entramos na padaria e logo na entrada, numa prateleira com os jornais mais importantes da cidade eu me assustei ao reconhecer uma foto. Parei rapidamente e me olhou curioso, apontei discretamente para o jornal que estava meio escondido por ser velho a nossa frente, abriu a boca e apertou a minha mão.
Uma foto pequena.
Na primeira pagina.
Quem estava na foto?
Eu!
Na verdade, eu e na saída do hospital. Eu estava sentada numa cadeira de rodas e tinha minha bolsa no colo, cabelo solto e óculos escuros, estava me empurrando e conversava com alguém ao seu lado. A noticia era sobre o meu aborto.
Não quis ler nada, não quis ver mais nada.
Sai da padaria rapidamente e correu atrás de mim, me apoiei no carro e senti lagrimas queimarem meu rosto. Ele se aproximou e me abraçou forte.
- Amor, desculpa por fazer você passar por isso. – ele falou baixinho, nos afastamos e tirou meus óculos e limpou minhas lagrimas, o abracei de novo. Tudo o que eu estava fingindo ter esquecido, todas as imagens e todo o sofrimento voltaram em dobro ao ver aquela foto num jornal. Perdi a vontade pra tudo, meu corpo ficou mole e um elefante começou a sambar em minha cabeça. Comecei a me questionar, eu queria entender porque tudo isso estava acontecendo comigo, eu precisava entender o sentido desse sofrimento interno que aumentava a cada dia. E quando comecei a pensar nas coisas negativas, meus olhos se abriram e eu pude ver logo a minha frente, senti que ele segurava minha mão e me olhava daquele jeito, o de sempre, o jeito dele. Pensei em como ele estava se sentindo, desde que tudo aconteceu, eu mal parei pra perguntar se ele estava bem, eu mal me preocupei com ele quando eu sei que na verdade ele esta sangrando por dentro. Aquela filha era o sonho dele.
O sonho que eu não fui capaz de realizar por ele.
Passei minhas mãos lentamente pelo rosto dele que estava tão quentinho e lentamente o vi fechando os olhos, puxou minha mão e a beijou. Sorri por dentro, limpei as ultimas lagrimas que ainda estavam em meu rosto, coloquei novamente meus óculos.
- Vamos lá, temos alguns animais pra alimentar! – disse sorrindo levemente e o puxei para voltarmos para a padaria. Sua mão estava entrelaçada a minha e eu tentava esquecer o que tinha visto a alguns minutos atrás. Tentava.
Nossos olhos percorriam as prateleiras e apontava para tudo. Peguei uma cestinha e ele logo a encheu com todas as porcarias que tinha por ali.
- Vamos fazer assim, uma pra você – disse autoritário me entregando uma cestinha vazia. Sorri. – E uma pra mim! Pronto, compre o que você quiser e eu compro as coisas vencidas, ok? – ele me beijou na bochecha.
- ! – ele me olhou assustado. – Você acha que eles vão vender produtos vencidos? – perguntei séria e ele ficou pensativo.
- Talvez eles se contentem com cerveja e chocolates... – ele disse enquanto colocava vários chocolates na cestinha.
- Até parece a primeira vez que eles vão em casa! – resmunguei e riu.
- Boa tarde, posso ajudar? – uma moça de estatura baixa se aproximou sorridente.
- Boa tarde... – disse vagamente, sua atenção estava nas cervejas.
- Por enquanto esta tudo bem, obrigada – sorri agradecida.
- Eu posso levar até o caixa! – a moça apontou para a minha cestinha cheia de porcarias.
- Pode ser. – lhe entreguei a cesta e a moça sorriu.
- Vai comprar mais alguma coisa? É mais fácil abrir uma padaria só pra você! – brinquei e mostrou a língua, nesse exato momento a moça se aproximou de nós com um sorrio iluminado.
- Eu sabia que conhecia vocês! – ela deixou a cesta no chão e sorriu mais ainda.
Eu e sorrimos levemente.
- , eu não queria te chatear mais preciso falar que peço muito a Deus que vocês superem tudo isso logo e eu sei que vocês terão os filhos mais lindos desse mundo! – me surpreendi com as palavras da pequena moça a minha frente e senti meus olhos arderem e num impulso a abracei, ela retribuiu e quando nos soltamos também a abraçou.
- Obrigada, de verdade! – agradeci enquanto íamos para o caixa, entrelaçou nossas mãos. É assim, uma vez ele me disse que quando nossas mãos estão juntas ele se sente aquecido. Não importa onde estamos ou que estamos fazendo ele sempre procura pela minha mão. ‘Não sei mais andar sozinho’ – é o argumento que ele usa. Eu também não sei mais andar sozinha.
- Boa tarde! – a moça do caixa nos cumprimentou sorridente, concordamos com a cabeça, talvez seja o receio de que mais alguém nos reconheça.
Passamos tudo no caixa, pagamos a conta e a mesma moça de estatura baixa nos ajudou a levar tudo pro carro.

Já em casa, arrumamos as coisas e foi pro banho. A campainha tocou e eu dei um sorriso sincero ao ver meus amigos com algumas flores e balões logo a minha frente.
- Ouuuun, minha linda! – foi a primeira a me abraçar, retribui o abraço com todo o cuidado porque a barriga dela já estava grande. Foi inevitável olhar pra ela e não reparar no brilho de seus olhos, no sorriso iluminado e em sua pele irritantemente perfeita.
- Senhorita ! – foi o próximo, ele me abraçou forte e me olhou sorrindo. Como se me passasse força.
- As minhas bibas chegaram! – entrou na sala rindo. Caminhou até os amigos enquanto secava seu cabelo com uma toalha da NASA.
- ... – se aproximou sorrindo idiotamente e me deu um super abraço de urso, bati em seu ombro e ele me soltou.
e apenas me olharam sorrindo e juntos me abraçaram e depositaram beijos em minha testa. Os amigos, alguém consegue viver sem eles?
Na cozinha, os homens bebiam cervejas e conversavam animadamente sobre inúmeras coisas, eles são rápidos demais e falam sobre varias coisas ao mesmo tempo. Nunca consigo acompanhar e quando penso em fazer algum comentário o assunto já é outro.
- Com licença, preciso ir ao banheiro! – disse de forma engraçada e saiu segurando a barriga.
- Ela vai ao banheiro o tempo todo! – comentou. Todos riram.
- A também – apontou para sua esposa. - É por causa da gravidez. O bebe empurra ou aperta a bexiga e elas precisam fazer xixi o tempo todo. Alguma coisa assim... – completou e no fim de sua frase ele diminuiu o tom.
- Desculpa, ! – disse com cuidado e me olhou com receio como se tivesse lembrado que eu estava ali.
- Me desculpa , não falei por mal... Desculpas! – ele veio até mim e passou a mão pelos meus cabelos.
- Está tudo bem, Judd! Vou ver se a precisa de alguma coisa. – sorri, me olhou carinhoso e eu sai da cozinha.
- Vou com você ! – pegou em meus ombros e caminhamos até o banheiro. bateu levemente na porta.
- , você vive? – perguntou curiosa. Ouvimos a descarga e uma sorridente abriu a porta.
- Faço tanta falta assim? – ela brincou e nós rimos.
- Bobona! – disse.
- , você quer conversar? – ficou séria de repente.
- Não precisa, relaxa! – sorri.
- Eu sei que você quer deitar no meu colo e falar coisas aleatórias. – pegou em minha mão e fomos até meu quarto. Deitamos em minha cama e iniciamos uma conversa sobre um assunto qualquer, de repente percebi que eu não prestava atenção em mais nada além da barriga linda das minhas amigas. Inveja.
Eu estava sentindo inveja.
Meus olhos não se decidiam entre a barriga de ou a da , meus olhos não paravam de reparar em como elas estavam extremamente lindas com aquele olhar maternal. Eu não conseguia parar de reparar na maneira como elas acariciavam a barriga, ou então na maneira como apoiavam a mão nas costas. Meus olhos aos poucos foram queimando e as lágrimas caíram sem que eu fizesse esforço. Meus ouvidos doíam devido a conversa e eu só queria não ter que olhar pra elas. Me incomodava o fato de ver que elas carregavam o que eu tanto quis.
Inveja, inveja.
- ... – me abraçou e logo senti que fez o mesmo. Escondi meu rosto com as mãos, solucei e limpei algumas lagrimas.
- Desculpa, mas ao mesmo tempo em que estou super feliz por ver vocês... Assim! – apontei para a barriga delas. – Eu sinto inveja, entende? Desculpa. – solucei de novo. As duas me olharam compreensivas e novamente me abraçaram.
- Eu não tenho duvidas de que você vai engravidar logo e essa criança vai ser a coisinha mais linda e amada do mundo inteiro! – segurou meu rosto e sorriu.
- Você vai superar, você e o vão passar por isso e eu sei que logo você vai me ligar gritando e espalhando pro mundo que vai ser mamãe. – me abraçou novamente. Eu sorri em agradecimento, eu não precisava falar nada. Elas sabiam que eu estava agradecida por cada palavra e cada demonstração de carinho.
A porta se abriu e um barulho invadiu o quarto. Nossos adoráveis dos.
Os quatro se jogaram em minha cama e um deles falou qualquer coisa idiota fazendo todos rirem. veio até mim e me deu um selinho, em seguida passou a mão pelo rosto como se estivesse limpando alguma lagrima. Ele percebeu que estava chorando. Ele me conhecia como ninguém. Ele me entendia como ninguém. E ele além de tudo me amava como ninguém pensou em me amar.
- Acho digno comermos alguma coisa! – comentou, talvez por se sentir isolado. Só ele não estava casado e isso deveria incomodá-lo.

Ficamos até tarde da noite vendo DVD's, conversando, rindo, os homens bebiam e nós mulheres nos acabávamos com os chocolates. Me distrai por algumas horas, me senti querida, mas mesmo assim era difícil evitar que meu olhar não procurasse pelas barrigas de e . Eles foram embora e levaram o barulho com eles. O silêncio me relaxou.
- Amor, quer tomar um banho? – perguntou tirando o casaco e me olhou de um jeito cafajeste.
- Daqui a pouco eu vou. – fiz pouco caso e fingi não reparar em sua barriga, peitoral, ombros, braços, mãos... Ah, as mãos! veio até mim e me encostou na parede, fixou uma mão em minha cintura e a outra acariciava minha orelha, me beijou. Me beijou exatamente do jeito que eu queria naquele momento. Lento, intenso. Espalmei minhas mãos em seu peito e mordi levemente seu queixo quando ele parou o beijo. Sorrimos.
- Eu vou primeiro pro banho! – dei um tapinha em sua bunda e ele se encolheu de uma forma engraçada. Dei-lhe um ultimo selinho e fui pro banho.
A água quente me fez relaxar, junto com a água eu deixei que toda a minha tensão fosse pro ralo. entrou no banheiro e vi que ele deixou a minha toalha sobre a pia.
- Você sempre esquece! – me mostrou a língua e saiu.
Desliguei o chuveiro, me sequei, escovei os dentes e me olhei no espelho. Me virei de lado e passei minhas mãos sobre a barriga, parei para observar meu colo e nesse instante entrou novamente no banheiro. Em silêncio ele me abraçou por trás e delicadamente beijou meus ombros.
- Vai dormir... – disse entre um beijo e outro. Eu estava arrepiada e um leve sorriso surgiu em meu rosto.
- Boa noite, meu anjo. – o beijei levemente e o deixei sozinho no banheiro, fui até o closet e vesti o primeiro pijama que vi. Me joguei na cama, logo senti meus olhos pesados. Lutei contra eles, queria esperar sair do banho, mas acabei me entregando ao sono.


Capítulo 03

‘Vem mamãe, o papai quer te ver!’
‘Amor você esta linda!’
‘Mamãe me ergue, eu não consigo ver...’
‘Porque você ta chorando?
‘Eu te amo mamãe, não precisa chorar...’


Abri meus olhos num susto, carregava o mundo sobre minhas pálpebras.
O peso de minhas lagrimas era tanto que eu me senti a pessoa mais pesada do mundo.
Meu corpo doía por inteiro e tudo o que eu via era uma pequena menina de cabelos cacheados e sorriso inocente. Fechei meus olhos, fingindo acreditar que aquilo ia passar.

‘Um bicho me mordeu, mamãe’
‘Porque ta sangrando tanto?’
‘Ta doendo mamãe...’


De novo, abri meus olhos num susto maior ainda. Um pesadelo. O pior de todos os pesadelos.
Nenhum fora tão feio e assustador quanto esse.
Minha respiração estava fora do normal, descompassada e cheguei a sentir falta de ar. Coloquei minha mão esquerda sobre o peito, lentamente fechei os olhos e tentei me acalmar.
Sem sucesso.
Lágrimas, uma mais pesada que a outra faziam questão de molhar meu rosto por completo enquanto eu ainda tentava respirar. Empurrei os cobertores para o lado e sai da cama, num impulso olhei pra trás e vi dormindo pesadamente, meu coração doeu. Tateando as paredes - enquanto sentia um elefante dançar axé em minha cabeça – caminhei até o banheiro. Ver o meu reflexo no espelho foi assustador, eu estava feia. Apoiei as mãos sobre a pia e fixei meus olhos no espelho, observando atentamente meus traços, meu cabelo, minha pele, as olheiras, e a expressão cansada.
Era tudo recente? Era.
Eu era fraca? Era.
Eu era medrosa? Também.
Encarei o chuveiro e fiz cara feia. Me rendi e fui para o banho, mais uma vez tentei deixar que tudo de ruim que estivesse habitando meu corpo fosse embora com a água pelo ralo. Fiz desenhos no espelho que ficou embaçado devido o longo banho. Escovei os dentes, sequei os cabelos, arrumei minha franja, passei hidratante e mais alguns desses cosméticos que eu tenho mais raramente uso porque acho desnecessário. Eu estava me sentindo diferente, não sei por quê.
Me enrolei em uma toalha e sai do banheiro, levei um susto ao ver a cama arrumada e sobre ela uma bandeja com algumas coisas coloridas.
- Ah, você já saiu! – entrou no quarto arfando. Seus cabelos estavam molhados e ele usava apenas uma boxer, notei que ele segurava um jornal. Olhei para ele sem entender nada, totalmente boba com a cena.
- Bom dia pra você também! – me aproximei e lhe dei um beijo na bochecha. Ele abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, negou com a cabeça e me puxou de volta me dando um selinho demorado. Sorrimos.
- Era pra ser um café da manhã surpresa, eu ia te esperar sair do banho enquanto lia o jornal distraidamente, então você ficaria boba com a cena, se jogaria na cama, comeria tudo o que tem ali – ele apontou para a bandeja – e depois você... ia me encher de beijos. É! – ele gargalhou, jogou o jornal em qualquer canto do quarto e me abraçou. – Bom dia meu anjo! – sussurrou e eu tentei respirar. – Ai meu Deus, que mulher cheirosa! – bagunçou meu cabelo e em seguida enterrou seu rosto em meu pescoço.
- Que coisa mais linda! – fiquei impressionada com a organização das frutas, geléias, torradas, sucos e derivados. O Puxei comigo e juntos sentamos na cama, um de frente para o outro.
- Eu que arrumei tudo... – disse distraidamente enquanto me servia com suco.
- Você é lindo! – o beijei na bochecha e o vi dar um de seus sorrisos abertos.
Todo o tempo fazia brincadeiras engraçadas com as frutas, zoava os nomes e comentava que um dia iria mudar o nome de tudo. Eu só conseguia rir, eu o olhava a todo o instante ainda sem acreditar que tinha alguém como ele ali do meu lado.
- ... – me chamou calmamente, o olhei estranhando a maneira como ele havia me chamado. – Com o que você sonhou essa noite? – ele perguntou cuidadosamente. Meu rosto congelou só de lembrar do pesadelo, eu estava tão bem. Porque aquela sensação ruim tinha que voltar?
- Sonhei com crianças... – disse vagamente, me segurando ao máximo pra não deixar que lágrimas invadissem meus olhos. No mesmo instante acabou com o pouco espaço entre nós e me abraçou forte.
- Quando você quiser podemos ir ao médico de novo, podemos tentar de novo, quando você quiser e sentir que pode fazer isso! – pegou em minhas mãos e olhava firmemente em meus olhos. Dei um pequeno sorriso e ao fechar os olhos senti algumas lagrimas caírem.
- Eu não vou desistir do nosso sonho e eu te prometo que logo vamos ver isso, tudo bem? – sorri e lhe dei um selinho, me segurou pela nuca me impedindo de quebrar o beijo.
- Eu te amo, te amo, não esquece isso... Você sempre vai me ter por perto e nós vamos conseguir! – ele sussurrou ainda com a boca grudada na minha e as mãos firmemente em minha nuca. Concordei com a cabeça ainda sentindo lágrimas molharem meu rosto.
Suas mãos deslizaram de minha nuca para o meu pescoço e levemente tocou meus ombros, seu olhar estava concentrado no caminho que suas mãos percorriam e sua boca estava levemente vermelha. Me aproximei novamente e o beijei. O meu melhor remédio sempre foi ele, tudo nele me faz bem e foi nele que eu encontrei tudo o que eu mais quis em um homem.
- Eu preciso me vestir – disse vagamente e sorriu encarando a ponta da toalha.
- Não acho necessário... – continuou encarando a mesma ponta da minha toalha.
- É necessário, meu amor! – o mordi na bochecha e sai da cama meio sem jeito.
- Tudo bem! – ele levantou as mãos pro alto e fez bico, lhe mandei um beijo e comecei a procurar por alguma roupa. tirou a bandeja da cama e rebolando saiu do quarto.

- Você vai querer ir comigo na Super Records ou tava querendo fazer alguma outra coisa? – entrou no quarto e sentou-se na poltrona ao lado do closet. O olhei indiferente e ele fez cara feia.
- Não tinha nada em mente, posso te acompanhar... – sentei em seu colo e ele sorriu satisfeito.
- Você sabe que eu fico feliz quando você vai comigo, não sabe? – fez sua cara adorável.
- Sei, e você sabe que eu não faço isso com freqüência por causa do meu trabalho e toda essa loucura da mídia. – apertei seu nariz e dessa vez ele fez cara feia.
- Eu entendo, não vou negar que estou feliz com sua ausência no trabalho! – deu um pequeno sorriso e analisou meu rosto. – Você vai comigo até lá, faço o que tenho que fazer e depois almoçamos em algum lugar, depois do almoço podemos fazer o que você quiser, estou disponível. – deu uma piscada.
- Podemos ir ao médico depois do almoço, o que você acha? – não estava planejando fazer isso tão cedo, mas no impulso acabei falando. Me arrependi logo depois que terminei a frase, apertei os olhos e quis sumir ou então retirar a proposta.
- Claro, meu amor! – deu um sorriso iluminado. Ok, já foi e eu não podia voltar atrás. Senti meu coração acelerar só de pensar na possível conversa com o médico. E se eu não pudesse mais ter filhos? E se a próxima gravidez fosse mais arriscada que a primeira? E se eu perdesse mais uma criança? Congelei e a minha atenção estava voltada para os meus pensamentos e meus medos. Senti bater levemente em minha coxa e com o pequeno susto me levantei rapidamente de seu colo. Ele me olhou assustado.
- Eu to bem! – coloquei a mão sobre o peito e andei rapidamente até a cozinha, abri a geladeira e enchi um copo com água, bebi rápido demais e quase engasguei. Senti ao meu lado me olhando preocupado.
- Se você não quiser, não estiver preparada nós não vamos! – ele disse carinhosamente enquanto eu mantinha meus olhos fixos no copo que agora estava vazio.
- Eu quero sim! – disse firme por fora e desmoronando por dentro, não entendia o porquê daquele impulso, não entendia o que estava falando e não tinha idéia do que eu realmente queria. Era tudo um impulso, outro ser tomando decisões por mim.
- Amor, você tem certeza? – me fez olhar em seus olhos e eu confirmei com a cabeça ainda não acreditando que eu estava fazendo aquilo comigo mesma. Eu ainda não tinha superado nada e estava falando que queria ir ao médico e talvez tentar uma nova gravidez. Era loucura total e amor demais.
Olhando nos olhos dele me lembrei porque estava me sujeitando a tudo aquilo, por mais que eu tivesse o apoio dele, por mais que ele pudesse esperar o meu tempo, a minha recuperação, eu tinha na minha cabeça de que eu tinha que ser forte e fazer isso por ele. Por ele e por mim. Claro!
- Eu tenho certeza, depois do almoço você pode ir comigo até a clínica? – perguntei seriamente, tentando transparecer certeza e confiança. Não sei se consegui, me olhava desconfiado.
- Claro que posso amor! Eu só não quero que você se sinta pressionada ou qualquer coisa do tipo. – ele beijou minha testa.
- ... – olhei fixamente em seus olhos e pensei ter sentindo tontura. - Eu quero! – forcei um sorriso.
- Então nós vamos. – me abraçou forte e depositou vários beijou no topo de minha cabeça. Fechei os olhos e me forcei a acreditar que eu estava fazendo a coisa certa. Sim, eu estava fazendo a coisa certa.


Capítulo 04

Acompanhei até a gravadora, ele teria uma curta reunião. Resolvi andar pelo prédio no pensamento positivo de que a curta reunião seria realmente curta. Passei lentamente por várias salas com instrumentos e na porta de algumas dessas salas haviam nomes de outras bandas que a gravadora apoiava, havia salas com pessoas tocando ou apenas conversando. Todos me cumprimentavam e eu abria um leve sorriso. Minha bota de salto alto e fino fazia um barulho irritante a cada passo que eu dava, eu carregava minha bolsa roxa nas mãos apenas pra ter que ocupá-las com alguma coisa, quando não estava com as mãos entrelaçadas com as de eu sentia necessidade de segurar alguma coisa, simplesmente não conseguia andar com as mãos livres.
- Bom dia, senhorita ! – Amy a secretaria sorriu singelamente para mim. Abri a boca para responder e no mesmo instante o telefone tocou, ela fez sinal para que eu esperasse e eu apenas concordei vendo-a simpaticamente atender ao telefonema, me aproximei de sua mesa e coloquei minha bolsa sobre a mesma.
Fiquei inquieta.
Peguei novamente minha bolsa e fui até um cantinho onde se encontrava água, café, bolachinhas e coisinhas pequenininhas que não iam fazer nem cócegas no meu estomago.
Fiquei apenas na água.
Voltei para perto da mesa de Amy e ela sorriu finalizando a ligação.
- Bom dia, Amy! – sorri amigavelmente e ela se levantou de sua confortável cadeira para me dar um leve abraço e um beijo em minha bochecha.
- Esperando o maridão? – brincou voltando a se sentar.
- Não tive outra escolha! – dramatizei e ela sorriu.
- Você quase não vem aqui mais, parece que te conheço há tanto tempo... – Amy disse vagamente enquanto fazia alguma coisa no computador. – Acho que é porque sempre que seu maridão entra por essa porta – ela apontou a porta atrás de mim – Sempre acabo ouvindo seu nome saindo da boca dele, é engraçado! – ela sorriu me olhando. Pensei por alguns segundos e sorri também, a verdade é que eu nunca tenho o que responder pras pessoas quando elas fazem comentários desse tipo.
- A verdade é que os meus horários são estranhos, por isso não venho com freqüência. Mas adoro esse lugar! – não que meus horários fossem realmente estranhos, não que eu não gostasse de ir lá, apenas não me sentia bem quando chegava com e sempre tinha que passar por alguma situação constrangedora como fotógrafos sem noção, perguntas indiscretas e fãs histéricas que batiam ponto diariamente na porta da gravadora. vive nesse mundo há anos, portanto sabe lidar com isso e sempre tem respostas boas pra qualquer tipo de pergunta, ao contrario de mim que tem um certo receio de multidão e odeia estar em lugares onde não se conhece nem metade das pessoas que estão presentes.
Amy sorriu com a minha resposta, passei meus olhos por uma parede e lá tinham dezenas de fotos de vários artistas, me aproximei e sorri com uma foto de , , e juntos com bebidas nas mãos e sorrisos idiotas no rosto.
- Eu to chegando, já to aqui no hall! – me virei a tempo de ver desligando o celular meio desesperado e andando desengonçadamente segurando o pequeno braço de uma criança que logo eu reconheci. Ri discretamente e ele quase passou batido por mim.
- Hey! – coloquei as mãos na cintura.
- O que? Tipo assim, aqui na gravadora? Não acredito! – ele se aproximou e me deu um forte abraço. O pequeno menino me olhava discretamente enquanto segurava firme no cós da calça de .
- Bobão! – baguncei seu cabelo e ele bufou, sorri olhando para o menino que retribuiu com um pequeno sorriso. – Estou esperando o , ele tem uma pequena...
- Reunião! – completou minha frase e em seguida gargalhou. – Puts, eu to cuidando do Steve por uns dias enquanto a minha irmã faz uma pequena viagem de lua-de-mel – o menino olhou atento para – Então, percebeu que sobrou pra mim, né? Tenho que carregá-lo comigo o tempo todo, tenho que lembrar de dar comida pra ele quando na verdade eu não lembro nem que eu tenho que comer! Enfim... Acabei perdendo a hora, acho que vão querer me matar! – ele passou a mão pelos cabelos meio agoniado.
- Idiota, então corre... Faz pouco tempo que eles começaram! – bati em seu ombro e ele me beijou na bochecha, acenou para Amy e correu em direção ao elevador esquecendo o menino logo atrás, ele procurou pelo menino e voltou até onde eu estava.
- Puta merda, ele quase não fala e eu esqueço que ele ta comigo! – se deu um tapa na testa e eu gargalhei. parou por um segundo e olhou de mim para Steve, de Steve para mim.
Tremi só de pensar no que ele podia me pedir.
- ! – o chamei um pouco alto, ele piscou varias vezes como quem sai de um transe e sorriu. – A reunião... – apontei para o elevador brincalhona.
- , posso te pedir um imenso favor? – ele me pediu inseguro, pronto, era tudo o que eu não queria. Apenas confirmei com a cabeça e olhei para Steve que segurava firmemente a mão do tio. – Você pode ficar com ele enquanto eu estiver lá dentro? Ele nem fala muito, não é hiperativo, mas não é muito certo levá-lo nessa reunião. Por favor? – encolheu os ombros e novamente olhei para Steve que tinha os olhos fixos em mim.
- Tudo bem, vai lá! – sorri amigavelmente e me abraçou agradecendo.
- Escuta aqui, moleque... – ele se abaixou e ficou na altura de Steve – Se comporta porque o tio não vai demorar e cuida da tia se não o tio mata a gente, beleza? – ele bagunçou o cabelo do pequeno menino. Steve sorriu concordando e me olhou com os olhos brilhando. se levantou as pressas e foi em direção ao elevador. – , muito obrigado e já eu volto! – ele acenou já dentro do elevador, Steve procurou pela minha mão e a segurou fortemente. Agora que eu tinha uma mão ocupada coloquei minha bolsa sobre os ombros e pensei no que faria com aquela criança.
Olhei meio desesperada para Amy e ela sorriu, se levantou de sua cadeira e veio até nós dois.
- E ai Steve, ta com fome? – ela perguntou divertida, Steve me olhou e ficou quieto.
Olhei estranhamente para Steve e ele olhou de volta para Amy.
- Tá com fome mocinho? – Amy repetiu a pergunta e novamente Steve me olhou. Estranhei sua reação. Balancei levemente a mão dele.
- Você quer comer alguma coisa? Podemos comprar sorvete, doce ou um refrigerante... – me abaixei para que eu pudesse falar com ele tendo contato visual.
- , você vai intoxicar o menino desse jeito! – Amy alertou sorrindo.
- Até onde eu sei crianças gostam dessas coisas, oras! – dei de ombros.
- Não to com fome, tia. – Steve finalmente falou e eu pude ouvir sua voz baixinha e doce. Meu coração ficou mole.
- Tudo bem então, o que você quer fazer? – perguntei ainda olhando em seus olhos e Steve pensou um pouco fazendo Amy sorrir.
- Eu te levo! – Steve me puxou pela mão me fazendo levantar rapidamente e quase tropeçar, Amy voltou para sua mesa e nos deu tchau, Steve foi até o elevador e quando entramos, ele apertou o botão do terceiro andar.
- Onde você tá me levando? – perguntei curiosa sentindo Steve apertar minha mão. Ele sorriu sapeca e fez um ‘shiiiiu’ com o dedo indicador, entortei a boca e concordei.
A porta do elevador se abriu a nossa frente e Steve saiu primeiro que eu ainda me puxando pela mão. Passamos por um pequeno corredor e logo ele parou em frente a uma porta de vidro, pude ver que naquela sala tinham vários instrumentos, fios, papéis, e um monte de aparelhos que eu tinha medo de quebrar.
- É aqui, tia! – ele abriu a porta, soltou a minha mão e foi correndo na direção do primeiro violão que viu. Sorri levemente.
Steve era sobrinho de e tinha seis anos, quando o conheci ele já tinha seus dois anos e alguns meses, ele era o mascote da banda e sempre andava com o tio ou os outros meninos. Não era impressionante ver que aos cinco anos ele já tocava violão, afinal, convivia com aquilo diariamente. Super normal ele ter criado gosto pela música.
Steve se sentou em um banco e com cuidado (e certa dificuldade) ajeitou o violão sobre as pernas, começou a dedilhar algumas coisas. Puxei outro banco e me sentei de frente para ele, sorri quando reconheci a introdução. Steve pausou e me olhou.
- Tia, por enquanto eu só sei tocar as musicas antigas do tio, ele ainda não teve tempo pra me ensinar as novas, você quer ouvir? – Sorri largamente e concordei. Ele tinha mesmo seis anos?
Sorri novamente quando ele começou a dedilhar a introdução de Five Colours In Her Hair, o primeiro sucesso da banda do tio. Steve cantava prestando muita atenção em suas mãos e apertava os olhos quando errava alguma coisa, para ajudá-lo cantei cada estrofe com ele.
Quando ele estava terminando de tocar alguma música que aprendeu na escola eu senti meu celular vibrando dentro da bolsa que estava no meu colo, fiz um sinal e Steve sorriu, me levantei da cadeira e fui até um canto da sala para atender o celular.
- Alô! – disse normalmente, não tinha visto quem era no identificador.
- Amor? – ouvi a voz de meio receosa do outro lado da linha. – Onde você está? O Steve esta com você? Tá tudo bem? – ele me encheu de perguntas e eu sorri.
- Hum... – pensei um pouco e ouvi fazer um barulho estranho com a boca. – Estou com o Steve no terceiro andar da Super Records em uma sala com a porta de vidro, nós estamos bem e ele estava tocando violão. - sorri levemente.
- Ai que susto! – ouvi um leve suspiro. – Bom, a reunião acabou agora a pouco se vocês quiserem já podem descer, esperamos vocês no estacionamento.
- Tudo bem então, beijos! – sorri e desliguei o celular. Voltei até onde Steve estava e coloquei minha bolsa no ombro.
- Seus cinco minutos de fama acabaram Steve, temos que ir embora. – fiz bico e o menino simplesmente sorriu concordando, se levantou e guardou o violão no mesmo lugar que estava antes e veio até mim segurando firme em minha mão.
Saindo do elevador, pude ver conversando com os outros meninos da banda próximos ao nosso carro.
- Você toca muito bem, sabia? – sorri para Steve bagunçando levemente seu cabelo liso.
- Tio me disse que eu toco bem porque foi ele quem me ensinou! – ele disse metido.
- Seu tio é um convencido, isso sim. – falei um pouco mais alto.
- Como é? - se virou me olhando feio.
- É o que você ouviu e ponto final! – me aproximei sorrindo, mostrou a língua e me deu um selinho.
- Steve, a cuidou bem de você? – agachou na altura do menino como se estivesse checando o corpo do pequeno. Steve concordou sorrindo ainda segurando em minha mão. Dessa vez, eu mostrei a língua para .
- Olá meninos! – acenei sorrindo, e fizeram o mesmo. procurou pela minha mão e fez uma cara surpresa ao ver que Steve a segurava. Sorri.
- Hey pequeno, que tal trocarmos? – propôs e Steve o olhou curioso. – Você me dá a mão da tia e eu te dou a mão do tio , o que você acha?
- Até parece que a minha mão é sua. – resmungou.
- A sua não, mas a da é! – Steve soltou minha mão e juntou com a de e foi para perto do tio. sorriu superior e beijou minha bochecha.
- , ele se comportou super bem mais não quis comer nada! E trate de ensinar as musicas novas da banda pra ele! – pisquei.
- Pode deixar, aliás ele deve estar atrasado pra alguma das milhões de aulas que o coitado tem durante o dia, minha irmã é louca! – pegou Steve no colo e mordeu a bochecha do menino, no mesmo instante olhei para que tinha um brilho no olhar ao ver a cena.
- Eu estou indo, a marcou um almoço com a mãe dela e eu tenho que ir. – fez uma cara de nojo e gargalhou em seguida, de um abraço meio gay em todos e me beijou na bochecha. – Tchau! –acenou e andou até seu carro, buzinou quando saiu do estacionamento.
- E aí moleque, vamos comer porcarias e depois ver revista de mulher pelada, tomar cerveja e fingir que você estava doente pra não ir a aula de sei lá o que? – cochichou no ouvido de Steve, mas mesmo assim nós ouvimos. Dei um leve tapa no ombro dele e Steve gargalhou.
- Eu vou contar pra mãe dele! – o alertei e os dois fecharam a cara.
- Tá bom, vamos comer uma comida super saudável, você vai tomar banho e eu te levo na aula que eu ainda não lembro do que é, certo Steve? – piscou para o menino de um jeito sapeca e Steve concordou. ainda olhava para os dois com um brilho nos olhos.
- Seja lá o que vocês vão fazer eu vou com vocês, estou sem esposa hoje. – deu de ombros, o olhei assustada. – A passou a manhã na academia e a tarde vai na casa da irmã, só vou vê-la a noite! – ele se explicou e eu sorri.
- Tchau, casal. – acenou e Steve fez o mesmo, os seguiu até o carro de .
me puxou pela cintura e me beijou.
- Agora, nós vamos almoçar! – me beijou na testa e abriu a porta do carro pra mim.
Meu estomago gelou. Depois do almoço nós íamos até a clinica para conversarmos com o meu médico. Perdi a fome só de lembrar e minha cabeça ficou uma bagunça, milhões de perguntas se formavam, milhões de duvidas apareciam do nada, insegurança, medo, muito medo.

Entramos no restaurante de mãos dadas e logo na entrada a recepcionista nos mostrou uma mesa disponível, agrademos e caminhamos até lá. Nos sentamos, fizemos nossos pedidos, conversamos, rimos, almoçamos e mesmo depois de tudo isso eu ainda me sentia estranha, com uma insegurança e um medo imenso. Pagamos a conta e quando estávamos nos aproximando do carro parou e fez com que eu o olhasse nos olhos.
- Você quer mesmo ir à clinica? – ele colocou as mãos em meu rosto, eu olhei para o chão e ele levantou meu rosto. Sua expressão era de preocupação, sua boca estava entreaberta e seus olhos me olhavam com uma intensidade muito grande.
- Eu quero! – respondi docemente, sorriu levemente e abriu a porta do carro pra mim.
Era a verdade. Eu queria ir até a clinica, eu queria conversar com o meu médico, eu queria fazer milhões de perguntas, queria tirar milhões de duvidas. Eu precisava saber se eu poderia engravidar novamente. Eu precisava saber, mas o receio que eu sentia em pensar na possibilidade de não poder mais engravidar era muito grande. Eu estava fazendo aquilo por ele e apenas por ele. Eu estava fazendo aquilo por ele e pelo meu medo de perdê-lo pra alguma mulher que pudesse dar a ele aquilo que eu não consegui dar: filhos. Medo de perder nos torna cegos, loucos. E o impulso fala mais alto tão alto que fere as pessoas. E eu estava me ferindo demais em ter que fazer isso.


Capítulo 05

O ar gelado ficou preso do lado de fora assim que entrei com ao meu lado na clinica e a porta se fechou atrás de nós. Agora eu podia ver com calma cada canto daquele lugar, da última vez que estive ali eu não era capaz de enxergar nada além de borrões a minha frente devido as minhas lágrimas. Uma sensação estranha me invadiu e vários flashes brigavam entre si para aparecer primeiro em minha mente. Passei meus olhos pelo pequeno hall de entrada onde havia dois sofás em tons claros com uma pequena mesa de vidro logo no centro que serviam de apoio para as revistas de fofocas sobre a vida das celebridades alheias. Eu não era exatamente uma celebridade, mas meu marido era e a última coisa que eu queria era ver meu rosto estampado nessas revistas escrotas, seja lá qual fosse a fofoca. Não queria.
- Boa tarde. – a voz da recepcionista me despertou fazendo com que eu virasse para lhe olhar.
- Boa tarde. – respondeu gentilmente. Inquieta e com a bolsa sobre meu ombro direito comecei a bater a ponta do salto da minha bota sobre o piso branco da clinica formando um baralho quase inaudível. Só eu ouvia a minha inquietação.
Só eu.
- Vocês têm horário marcado? – a recepcionista perguntou atenciosa e eu virei meu olhar para os sofás e as poucas pessoas que aguardavam sua vez para serem atendidas ali sentadas e distraídas com as revistas de fofocas. Entortei a boca e bati a ponta do meu salto com um pouco mais de força, uma mulher me olhou de relance e eu virei o rosto. apertou minha mão.
Normal, ele me conhece.
- Na verdade não, mas eu liguei durante a manhã para o doutor Michael e ele está nos esperando! – fez uma cara típica de quem tem poder e a moça anunciou nossa entrada pelo telefone. Fixei meus pés ali onde estava e ninguém iria me tirar dali. saiu andando e ao perceber que eu não fui junto olhou para trás com uma interrogação no rosto.
Fechei os olhos rapidamente pensando que aquele ato me levaria para qualquer outro lugar no mundo.
Idiota!
- Amor? – se aproximou e depositou uma mão em minha cintura. Me senti mais segura quando ele encostou em mim, pisquei algumas vezes e balancei a cabeça negativamente.
Eu não era mais uma criança. Já tinha passado por tantas coisas na vida que uma visita ao médico eu iria tirar de letra.
Assim eu esperava.
- Vamos. – dei um leve sorriso e me abraçou pelo ombro e caminhamos juntos até a sala do meu médico. No pequeno trajeto meus pensamentos se bagunçaram novamente e eu senti vontade de correr pra minha casa. Senti acariciando meu ombro e a vontade de fugir foi embora.
Juntos, demos dois toques na porta e beijou minha testa. Pronto, eu estava preparada para qualquer coisa.
A porta branca se abriu a nossa frente e um rosto conhecido apareceu.
- Olá jovens! – doutor Michael nos cumprimentou, e sorridente fez sinal para que sentássemos.
- Olá! – eu e respondemos praticamente juntos e todos sorriram de leve. Sentei na confortável cadeira branca – mas que naquele momento não me parecia nada confortável - e coloquei minha bolsa sobre minhas pernas, fixei minha mão em alguma parte da bolsa e fingi muito interesse naquilo. pegou minha mão esquerda e fez sinal para que eu olhasse para frente. Xinguei meu marido mentalmente e encarei o doutor Michael.
- Como você está, ? – ele me perguntou atencioso. Aquela pergunta soou estranha porque eu mal sabia como responder. Apertei minhas unhas na mão de como se aquilo fosse fazer com que eu me livrasse daquela pergunta.
- Estou bem. – respondi sem expressão nenhuma. O médico entortou a boca e cruzou as mãos sobre a mesa. Ok, eu não estava sendo a pessoa mais simpática do mundo e eu sabia disso.
Mas eu tinha os meus motivos!
- Doutor Michael! – o chamei num tom mais alto que o normal, ele me olhou novamente. – Eu só quero saber uma coisa... – falei um pouco mais baixo com o olhar perdido entre tantos objetos maternais que tinha naquela sala.
Eu precisava ser direta.
Aquilo era tortura demais, então porque eu teria que enrolar pra no final a pergunta ser a mesma?
Ele me olhou como quem diz ‘prossiga’.
– Quando vou poder engravidar novamente? – vomitei aquela que pareceu a frase mais longa que eu já disse em toda a minha vida. me olhou com um brilho no olhar e aquilo me confortou, um pouco. Só um pouco.
Qualquer coisinha que ele fizesse era motivo para que eu me sentisse confortável, segura. O médico me olhou cuidadosamente e respirou fundo.
Eu não tinha tanta certeza se estava realmente preparada para qualquer coisa.
- ... Você pode engravidar novamente, sim! – ele sorriu levemente. Senti apertando minha mão com certa força, o olhei rapidamente e ele tinha um sorriso singelo e esperançoso, voltei minha atenção para o médico. – Você sofreu um aborto espontâneo, mas isso foi um acidente, passou por situações complicadas durante a gravidez que eu avisei que seria de risco e infelizmente isso resultou na perda do bebê. – ele foi cauteloso com as palavras e aos poucos eu relaxei meus ombros. – Você perdeu muito sangue e ainda está um pouco fraca. – fechei meus olhos e concordei com a cabeça. – Eu vou te passar uma dieta e você terá que segui-la a risca! Aliás, nós deveríamos ter tido essa conversa no mesmo dia em que tudo aconteceu, era a coisa mais certa a se fazer. – eu não vi, mais senti os olhares do médico e de sobre mim. – Você terá que ficar de quinze a vinte dias sem relações sexuais e...
- Vinte dias? – perguntou incrédulo, abri meus olhos rapidamente.
- Sim, é pelo bem dela! Eu cometi um erro gravíssimo quando dei alta para ela sem ter conversado com vocês. – o médico apontou para mim e me olhou ainda incrédulo, sorri levemente. Doutor Michael deveria estar pensando que nós dois só sabíamos tentar fazer filhos.
Nós sabíamos como fazer filhos e fazíamos aquilo com certa freqüência, mas nunca – da minha parte – com a intenção de realmente ter um filho.
- É muito tempo... – resmungou, dei um leve tapa em sua perna.
- Olha o drama, ! – disse com uma expressão totalmente séria, resmungou mais alguma coisa e nós voltamos às atenções para o médico. Ele sorriu.
- Aqui está a sua dieta e o nome de alguns compridos que você devera tomar durante o dia só por uma semana! – ele me entregou um pequeno papel com uma caligrafia torta e feia, sorri fracamente. – Mais alguma dúvida? – ele acrescentou, olhei para e ele deu de ombros. Mordi o canto da boca.
- Acho que não... – respondi baixinho.
- Ah, estava me esquecendo! – doutor Michael falou num tom mais alto quando eu e já estávamos levantando, o olhei atenciosa. – Você pratica algum esporte? – ele perguntou em pé, com os braços cruzados.
- Vou à academia três ou quatro vezes por semana. – dei de ombros e mexeu em meus cabelos.
- Vou te recomendar só mais uma coisa. – ele se aproximou – Caminhe! Aproveite que estamos na primavera e faça caminhadas, nem que seja duas voltas no parque um dia sim e outro não, apenas caminhe e você irá me agradecer! – esticou sua mão para me cumprimentar e eu fiz o mesmo com um pequeno sorriso no rosto. deu um daqueles abraços de homens e acenamos antes de fechar a porta.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – deu um grito assim que saímos da clinica e sentimos um vento levemente frio. Ele me olhou com o rosto iluminado, um sorriso rasgado e um brilho no olhar que me deixou tonta. – Eu saaaaabia! – ele disse um pouco mais baixo, me pegou pela cintura e me girou no estacionamento me segurando firmemente com seus braços. Ele me girou no ar como um adulto gira uma criança, aquele era o instante que eu esperava, o momento que eu mais queria. Me girou até quase perder o ar, me colocou no chão e nós dois estávamos meio tontos e rindo demais.
Definitivamente eu estava preparada para qualquer coisa.
- Meu anjo! – ele me olhou ainda sorrindo largamente e depositou beijos por todo o meu rosto, suas mãos estavam em meu pescoço e as minhas seguravam firmemente o cós de sua calça. Ele parou de me beijar e me olhou da maneira mais carinhosa possível. Era o mesmo olhar que ele tinha quando me pediu em namoro, o mesmo olhar que eu vi quando tivemos a nossa primeira vez, o mesmo olhar que ele tinha todas as vezes que dizia que me amava, o mesmo olhar que eu vi no altar, o mesmo olhar que eu vi durante a nossa lua-de-mel, o mesmo olhar de todas as manhãs acordando ao meu lado, o mesmo olhar carinhoso e alegre do dia em que ele descobriu que seria pai. Aquele olhar carinhoso que era só dele e que ele só olhava daquele jeito para mim.
Nos beijamos calmamente com o leve vento frio passando por nós, nos beijamos com todo o amor reprimido, com toda a dor dos últimos dias e com toda a alegria dos últimos minutos, nos beijamos com toda a vontade de tentar de novo.
Era impossível não sorrir, eu estava feliz demais, eu estava completa e pronta pra tudo.
Nos afastamos ainda com os sorrisos bobos no rosto e me abraçou forte, passando as mãos pelos meus cabelos enquanto eu o arranhava levemente nas costas. Mesmo sem ver eu podia sentir que ele sorria, senti que ele estava aliviado por me ver feliz, senti que ele estava feliz por saber que poderíamos tentar de novo.
Há emoções que as palavras não sabem traduzir. Apenas seu coração...


Capítulo 06

O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser. O jeito que ele me olha é que me inspira e desgoverna e quando virei meu rosto vi meu sorriso nos lábios dele.
- Tão cheiroso... – disse docemente, me aproximei, o abracei, depositei minhas mãos nos bolsos de sua calça e mordi seu queixo.
- E todo seu... – ele falou baixo e apontou para o seu próprio pescoço enquanto tinha um sorriso sapeca nos lábios.
- Se eu fizer o que eu quero as fotos dessa sessão não vão ficar legais... – fingi estar pensando. – teria umas marcas roxas no pescoço de um certo integrante de uma bandinha... – continuei e gargalhou, não que eu fosse uma palhaça ou algo do tipo, mas ele era o único que gargalhava das coisas mais inúteis que eu falava.
- Amor, eu não sei se você já sabe, mas já inventaram cachecol! – ele sorriu largamente e exibiu seu pescoço, ainda apontando com o dedo como se estivesse mandando eu fazer aquilo que eu queria e que na verdade ele também queria.
- Verdade... – disse vagamente me afastando dele, ouvi um leve gemido de irritação e sorri indo até o closet. Sorri sozinha quando encontrei um cachecol azul escuro com cinza e preto, usava uma calça jeans preta com listras brancas que eram praticamente invisíveis, mas estavam lá, um cinto cinza da Hurley, uma camiseta branca com uma jaqueta de couro num tom marrom, tênis Vans e cabelos molhados com jeito de quem não faz questão de pentear. Irritantemente lindo ao extremo. ( Hanging By A Moment – Lifehouse )
Voltei para o quarto e o encontrei sentado na cama vendo alguma coisa no celular, me aproximei lhe dando um longo selinho, joguei seu celular em algum canto da cama e ajeitei o cachecol em seu pescoço. Ele me olhou indignado, como se estivesse esperando por alguma coisa. Sorri indiferente e o deitei na cama, apoiei uma mão de cada lado e encaixando minhas pernas me aproximei dele, abri sua jaqueta e lentamente passei minhas unhas grandes e bem lixadas por sua barriga e fui subindo até chegar em seu peitoral. fechou os olhos e apertou os lábios.

I'm falling even more in love with you
Estou me apaixonando cada vez mais por você
Letting go of all I've held onto
Deixando para trás tudo ao que eu havia me apegado
I'm standing here until you make me move
Estou aqui parado até que você faça eu me mover
I'm hanging by a moment here with you
Estou aqui por um momento com você.

Enquanto admirava cada traço de seu rosto lentamente tirei o cachecol que eu tinha acabado de colocar nele e fiz um leve carinho em sua nuca. Passei meus dedos por todo o seu rosto, contornei seus olhos e arrumei os pelos de sua sobrancelha, deslizei minhas mãos até sua orelha e brinquei com o lugar onde até um tempo atrás tinha um alargador.
Me aproximei de sua boca e depositei um leve beijo, lentamente fui descendo até seu pescoço e num canto próximo a gola de sua camisa eu apertei meus lábios.
tinha suas duas mãos fixas em minhas coxas e ele mal se mexia, apenas apertava os olhos e suspirava lento e longamente.
Olhei orgulhosa para a marca que eu tinha deixado naquele canto de seu pescoço e mirei o outro canto, um pouco mais acima. sorriu debilmente e voltou a apertar os lábios assim que eu apertei os meus contra o outro canto de seu pescoço, ele deslizou suas mãos por minhas pernas como se estivesse a arranhando.

Forgetting all I'm lacking
Esquecendo tudo o que necessito
Completely incomplete
Completamente incompleto
I'll take your invitation
Eu aceitarei seu convite
You take all of me now
Você pega tudo de mim.

Olhei orgulhosa novamente para a quarta, quinta, sexta ou sétima marca que eu havia deixado no pescoço de e quando me aproximei para deixar outra num impulso rápido ele me virou na cama e colocou suas pernas entre meu corpo na mesma posição que eu estava antes.
- Minha vez! – ele disse sorrindo de um jeito meio cafajeste acompanhado por um olhar fofo.
Me encolhi na cama e previ que a sessão tortura iria começar para mim. Pescoço é o ponto fraco da maioria das pessoas, mas não era o meu ponto fraco, eu simplesmente sentia cócegas quando alguém fazia qualquer coisa nessa parte do meu corpo.
E ele sabia disso.
Quando encostou os lábios no meu queixo, abriu sua boca lentamente e me mordeu eu senti todos os meus pelos arrepiarem. Ele sorriu contra o meu queixo e levantou os olhos para mim, ainda com um olhar que ficava entre o cafajeste e o fofo e mordeu meu queixo com um pouco mais de força e lentamente escorregou para o meu pescoço. Me encolhi e apertei minhas mãos em seus braços, ele riu abafado e apertou seus lábios contra o meu pescoço.

I'm living for the only thing I know
Estou vivendo para única coisa que eu conheço
I'm running and not quite sure where to go
Estou correndo e não tenho muita certeza para onde ir
And I don't know what I'm diving into
E não sei no que estou me metendo
Just hanging by a moment here with you
Apenas aqui por um momento com você.

O pescoço já não era o alvo principal de e eu já estava prestes a tirar as roupas dele e esquecer que eu estava de jejum sexual. O celular dele começou a tocar me fazendo xingar mentalmente o mal comido que estava atrapalhando aquele momento.
- Ô merda! – bufou e saiu de cima de mim, passou os olhos pelo quarto procurando pelo celular, dei de ombros e suspirei olhando para o teto. – Oi? – ele finalmente atendeu e sua respiração estava meio lerda. – Ai, droga! – ele se deu um tapa na testa. – Eu sei, eu sei, eu não esqueci, sim, eu sei, porra! Só me atrasei por alguns... – ele olhou o relógio e abriu a boca num susto – muitos minutos, logo eu chego! – desligou o celular rapidamente e correu até o banheiro. – , , , , amor, amor da minha vida o que você fez comigo? – ele voltou para o quarto com desespero na voz enquanto apontava freneticamente para o seu pescoço. Gargalhei e fui até ele, dei um selinho.
- Não sei se você já sabe, mas já inventaram o tal do cachecol. – repeti sua frase calmamente arrumando o cachecol em seu pescoço que tinha inúmeros roxos e vermelhos. Ele me olhou num desespero e sorriu levemente.
Observei com mais calma e percebi que o pescoço dele estava meio... Feio?
Sim, feio.
Minha mãe sempre falou que chupões no pescoço era coisa de puta. No caso, era a puta.
- Eu não acredito que vou passar dias usando cachecol em plena primavera, amor, você acabou comigo! – ele encostou sua cabeça em meu ombro. Sorri levemente. – Oh Deus, preciso ir ou eles me capam! – fez um leve drama.
- Vai logo e não tire isso do pescoço por nada! – apontei para o cachecol, me aproximei e lhe dei um curto beijo, ajeitei seu cabelo. Acompanhei até a porta, ele estava inquieto com aquela coisa em seu pescoço. – Fique no mínimo lindo nessas fotos e eu te amo. – um último selinho antes dele sair do apartamento.

Fechei a porta e encostei meu corpo nela enquanto sorria idiotamente meus olhos passaram pelo relógio fazendo com que eu me assustasse com o horário. Fui até o armário da cozinha e de lá tirei o último comprimido, com um pouco de água o engoli e senti-o preso na minha garganta, tossi de leve e bebi um pouco mais de água. Pronto, eu estava livre de pelo menos uma coisa.
Voltei para o quarto e fui até o closet procurando por uma roupa leve para a minha caminhada do dia. O médico pediu que eu caminhasse pelo menos três vezes por semana, mas eu sou teimosa e estou caminhando todos os dias, exceto nos fins de semana. Aproveitava para caminhar nos horários em que não estava em casa, o que normalmente acontecia do fim da tarde em diante e por ainda estar afastada do trabalho a caminhada se tornou algo útil pra fazer enquanto estava sozinha.
Fechei o fino casaco e no caminho até a sala peguei um elástico e prendi meu cabelo no alto, peguei meu iPod que estava ao lado da TV e o prendi no casaco, coloquei os fones no ouvido e deixei que qualquer música tocasse enquanto eu trancava o apartamento e ia em direção ao elevador.
As ruas tinham um movimento um pouco mais intenso que o normal por ser fim de tarde e o sol estava fraco deixando o céu entre o azul e o laranja. Entrei em uma padaria e comprei uma garrafinha de água, não que eu fosse sentir muita sede, eu comprava água apenas para ter alguma coisa para segurar. Acelerei o passo e fui em direção ao parque. Parei próximo ao pequeno lago artificial e usei algumas barras que tinham ali para me alongar. Olhei no relógio e marquei o horário mentalmente, coloquei os óculos escuros e sai andando.
Senti alguém puxando a barra do meu casaco e rapidamente me virei a tempo de ver Steve praticamente correndo enquanto tentava me acompanhar na caminhada. Pausei a música e agachei para ficar na altura dele, Steve colocou as mãos nos joelhos e bufou visivelmente bravo.
- Tia, você anda muito rápido! – ele deu um tapinha nos próprios joelhos. Sorri negando com a cabeça e o beijei na bochecha.
- Porque você não me chamou? Eu simplesmente iria parar e você não precisaria correr atrás de mim. – ajeitei seu cabelo.
- Tia, eu te chamei, mas você ta com essa coisa no ouvido – ele apontou para o iPod - E não ouviu nem quando o papai te chamou! – ele me respondeu indignado. Criança fingindo estar brava é lindo! Olhei rapidamente para o iPod e conferi o volume, realmente estava alto.
- Desculpa? – perguntei com um bico.
Steve não respondeu. Se jogou nos meus braços e me deu um abraço forte. Seus pequenos braços em volta do meu corpo fizeram com que eu me sentisse bem com o gesto dele.
- Hey, ! – Josh, pai de Steve apareceu sorridente com um violão em mãos. Steve me soltou e olhou sorrindo para o pai.
- Oi, Josh! – me levantei e o cumprimentei. Desliguei o iPod. - Vocês estão passeando? – iniciei uma conversa, abri a garrafinha que estava em minha mão e dei um pequeno gole.
- Sim, hoje eu não vou ao restaurante então tirei a tarde pra ficar com o pirralho. – Josh mexeu no cabelo de Steve. Josh era dono de um dos restaurantes mais badalados da cidade, um lugar muito aconchegante, com uma comida divina e que era freqüentado por pessoas importantes. – E você?
- Ah, eu estou apenas caminhando! – respondi amigavelmente. – Recomendações médicas. – revirei os olhos e Steve gargalhou, outro que ri das coisas idiotas que eu falo.
- E pelo visto você tem seguido as recomendações a risca! Você esta ótima, . – ele sorriu e apontou para o meu corpo.
Er.
- Obrigada. – sorri levemente e desviei o olhar para o lago.
- Só precisa cuidar com o volume desse brinquedinho, nós te gritamos e você sequer virou o rosto para o lado. – ele disse descontraído. Meus ombros relaxaram e eu sorri abertamente olhando para o ‘brinquedinho’ que estava preso no meu casaco.
- Já pedi desculpas para o Steve! – apontei para o menino e ergui as mãos para o alto.
- Ela ta desculpada, pai! – Steve se aproximou de mim, depositei minhas mãos em seus ombros.
- Aproveitando a oportunidade, você já não quer fazer aquele convite filho? – Josh piscou para o menino.
- Que convite? – inclinei a cabeça de Steve para cima para que ele pudesse me ver, ele sorriu sapeca.
- Tia, você vai na minha festa de aniversario? – ele perguntou com brilho nos olhos devido as últimas luzes do sol. Sorri levemente pela maneira doce que ele fez o convite.
- Quando vai ser essa super festa? – perguntei empolgada.
- Quando vai ser, papai? – ele perguntou em dúvida e nós rimos.
- Daqui duas semanas, – Josh respondeu sorrindo e eu concordei.
- Ok, se vai ser daqui duas semanas é porque provavelmente a agenda do seu tio vai estar livre, então a do meu marido também vai estar, então eu vou! – Steve ergueu a mão direita e nós fizemos um high five. As luzes se acenderam em volta do parque fazendo com que eu percebesse que já estava relativamente escuro, eu não costumava ficar até aquele horário caminhando.
- Bom, eu tenho que ir! – comentei meio sem graça, nunca sabia como finalizar uma conversa. Steve se agarrou em minhas pernas e eu me assustei, ele nunca foi muito apegado a mim pra ter uma reação dessas. Se fosse com eu acharia super normal, mas comigo?
- Você quer uma carona? Estamos de carro e você mora no caminho... – Josh perguntou atencioso, sorri.
- Não precisa, eu moro pertinho e eu estou caminhando, certo? – brinquei e ele concordou. – De qualquer jeito, obrigada.
- Tia, por favor, não vai esquecer da minha festa! – Steve apontou o dedo indicador para mim.
- Não vou esquecer, meu anjo. – dei um leve beijo em sua cabeça e um beijo na bochecha de Josh. – Fiquei feliz em ver vocês, dá um beijo na mamãe por mim. – apontei para Steve e ele sorriu concordando.
- Tchau, ! – Josh acenou sorrindo, dei um breve tchau e caminhando fiz o caminho de volta para casa.

O céu já estava escuro e nublado, joguei a garrafinha de água no lixo assim que passei pela portaria do prédio.
- Boa noite. – cumprimentei educadamente o porteiro do turno da noite que sorriu e fui em direção ao hall.
- ! – de longe pude ouvir alguém me chamando, virei meu rosto e ao ver quem estava no portão do prédio as minhas pernas amoleceram. – Vem aqui minha irmã! – Robert passou seus braços pelo portão e apoiou sua testa no mesmo. Meus olhos se estalaram e o porteiro me olhou apreensivo, ele conhecia Robert e tinha ordens para não deixar que ele entrasse. – Por favor! – Robert choramingou. Meu coração doeu, doeu de verdade e minhas pernas ainda estavam moles, eu não tinha nada em minhas mãos para segurar e isso me deixou totalmente insegura. Meus olhos miravam Robert e a cabine do porteiro que me olhava em dúvida, o homem saiu de sua cabine e veio até mim.
- Esta tudo bem? – ele perguntou atenciosamente. – Se a senhorita quiser eu chamo os seguranças... – ele me olhava de maneira preocupada e eu voltei meu olhar para o portão onde Robert me encarava com tristeza e eu reconhecia muito bem aquele olhar. Ignorei todas as vozes em minha cabeça que diziam repetitivamente: ‘não vá até ele’.
Ignorei o porteiro também.
Devagar e com muito medo andei lentamente até o portão. Com receio parei a alguns metros, cruzei meus braços apertando meus lábios na intenção de que fazendo isso eu teria força o suficiente para não chorar. Levantei meu olhar até o rosto de Robert, meu coração doeu ainda mais e naquele momento eu me arrependi de ter ido até ali. Tudo aquilo era doloroso demais.
- Desculpas minha irmã. – ele falou entre soluços. Seus olhos estavam vermelhos e molhados, seu rosto estava pálido acompanhado de uma expressão triste. Muito triste.
Tentei abrir minha boca para falar alguma coisa, mas eu havia apertado meus lábios com tanta força que agora para abri-los parecia a coisa mais difícil do mundo. Abaixei meu olhar para evitar que meu coração doesse mais por ver o meu irmão chorando na minha frente.
- Por favor, ... Olhe pra mim, me deixe entrar, me ouve... – ele continuou choramingando. Apertei meus olhos para que as lágrimas não saíssem, afundei minhas unhas na minha própria mão. – Eu só quero uma chance pra te mostrar que eu estou me recuperando, eu preciso do seu perdão pra viver em paz. – abri meus olhos e vi suas mãos estendidas em minha direção. Dei um passo para trás e neguei com a cabeça, ele chorou mais forte e meu coração acelerou. Eu guardava uma magoa muito grande dele e não seria uma conversa, uma explicação que ele passou horas ensaiando que iria fazer com que eu o perdoasse. Perdoá-lo pra mim era impossível, pelo menos naquele momento. Ele era a pessoa que eu mais amava no mundo, o meu herói, o meu irmão, o meu melhor amigo e além de tudo ele era o meu protetor. Mas ele mesmo acabou com tudo o que nós construímos com anos, ele desequilibrou a base da nossa família, ele mesmo afastou as pessoas dele e até o ultimo minuto eu fiquei ao seu lado. Quando eu arrisquei a minha vida por ele e vi a morte na minha frente eu percebi que eu não podia fazer mais nada para ajudá-lo, porque ele não queria ser ajudado. Então eu desisti, e não fiz mais questão de saber sobre ele.
E depois de tudo ele ainda – em parte – foi o culpado pelo meu aborto, talvez esse seja o principal motivo da minha magoa. Olhar para ele me fez lembrar o seu telefonema e de tudo o que aconteceu depois. Definitivamente eu não conseguia.
Não agora.
- Eu não posso. – olhei em seus olhos e balancei minha cabeça negativamente. Virei as costas. – Por favor, peça que os seguranças o tirem daqui. – pedi educadamente para o porteiro, ele apenas concordou.
Bloqueei minha audição para não ouvir mais nada e senti meu coração voltar a bater normalmente.


Capítulo 07

Acordei, mas não fiz questão de abrir meus olhos. Mexi meu corpo desconfortavelmente percebendo que estava sem uma meia – deveria ter perdido durante a noite – estiquei meu braço na esperança de que minha mão encontrasse as costas nuas de ou o seu cabelo macio e por fim senti apenas o lençol. Mexi em meus cabelos e voltei a procurar pela cama – ainda de olhos fechados – até que ouvi passos e barulho de coisas, coisas que eu não sabia o que eram.
Me sentei na cama finalmente abrindo meus olhos e os fechando rapidamente ao sentir a claridade machucar meus olhos graças a cortina que estava semi-aberta. Prestei um pouco de atenção e percebi que estava escovando os dentes e cantarolava alguma música qualquer enroladamente. Chutei o edredom e me sentei na cama, mexi em meus olhos e em meus cabelos novamente em seguida voltei a me deitar na cama, me espreguicei e fui capaz de ocupar praticamente a cama toda. Ainda era possível ouvir cantando.
Me levantei e com o corpo mole andei até o banheiro, a porta estava entreaberta e eu pude ver com uma toalha branca enrolada na cintura, seus cabelos molhados e suas costas ainda com vestígios de água, sua mão tinha um pouco de espuma e ele escovava os dentes como se aquilo fosse a coisa mais importante da vida dele, as vezes ele se aproximava do espelho e abria a boca exageradamente como se estivesse conferindo que tudo estava sendo muito bem escovado. Encostei meu corpo na parede e continuei o observando.
lavou a boca e guardou a escova, pegou uma toalha menor e secou seu cabelo em seguida o bagunçando com as próprias mãos. Em meus lábios tinha um leve sorriso. Ele pegou seu desodorante lendo alguma coisa no rótulo e levantou levemente uma sobrancelha, deu de ombros passou o desodorante em si – eu sorri um pouco mais – e o cheiro incrivelmente incrível daquele desodorante invadiu o banheiro e chegou até onde eu estava – respirei fundo e sorri um pouquinho mais. Agora ele lia o rótulo do meu perfume e eu me perguntei por que ele estava fazendo aquilo, colocou o meu perfume no mesmo lugar de sempre e pegou o dele e de novo ele leu o rótulo. Meu marido tem essa mania desde quando? Após alguns segundos ele tomou um banho de perfume e ainda fez questão de borrifar pelo banheiro. Sorri idiotamente cruzando meus braços e continuei o observando. voltou a pegar a tolha e secou suas costas em seguida a jogou no chão e observou seu peitoral, passou a mão pelos mamilos e brincou com seu próprio umbigo. Era impossível desfazer o sorriso em meus lábios. Ele ficou de lado e observou seus braços no reflexo do espelho, abaixou o olhar e mirou sua própria barriga.
- Eu acho que to engordando... – ele murmurou e eu ri baixinho. olhou pelo espelho em direção a porta e eu me virei. Me encolhi no canto da parede quando percebi que ele abriu a porta totalmente e tentei segurar meu riso.
- Não briga comigo! – tapei meu rosto com as mãos quando senti que ele estava logo a minha frente enquanto eu ainda prendia o riso. Ouvi sua gargalhada e me encolhi um pouco mais.
- Você estava me espiando pela fresta? – ele disse no meu ouvido com uma voz um tanto marota.
- Juro que não! – apertei um pouco mais as minhas mãos em meu rosto. Senti segurar meus joelhos.
- Isso é muito feio e eu deveria contar pra minha esposa, ela é louca de ciúmes e seria capaz de te matar! – ele continuou com a voz marota e apertou um pouco os meus joelhos. Tirei as mãos do meu rosto e segurei nos braços dele.
- Você não seria capaz... – me aproximei de sua boca e sorri. O empurrei fazendo com que ele caísse de bunda no chão e corri em direção ao banheiro trancando a porta em seguida.
- Medrosa! – bateu na porta e eu ri. – Você não conhece a minha mulher, viu? Ela vai te matar quando descobrir o que você fez. – eu encostei meu ouvido na porta e senti que ele estava com a boca encostada na pequena fresta, sua voz estava abafada e extremamente perto.
- Fala pra sua mulher... – tirei a chave da fechadura e aproximei minha boca do pequeno buraco. – Que eu não tenho culpa se ela tem um marido extremamente gostoso que canta enquanto escova os dentes enrolando numa toalha branca! – falei baixinho e pude ouvir um leve suspiro dele.
- Acho bom você abrir essa porta... – disse baixinho me fazendo sorrir do outro lado.
- Não posso, sua mulher vai me matar se eu fizer isso! – respondi divertidamente voltando a colocar a chave na fechadura.
- ! – ele aumentou a voz e eu gargalhei indo em direção ao chuveiro.

Estava secando meu cabelo distraidamente quando ouvi alguém batendo na porta. Desliguei o secador. - Amor, se você não abrir essa porta eu vou trabalhar e você só vai me ver de novo no fim da tarde. – ele batucou na porta e eu sorri. – E eu queria um beijo antes de ir, prometo que não conto pra minha esposa maluca!
Deixei o secador sobre a pia e conferi o nó na minha toalha. Abri a porta e fui surpreendida pelas mãos de segurando firmemente o meu rosto, o ouvi chutando a porta e sorri com o sorriso dele ao encarar o meu rosto que estava tão próximo ao dele. Ele me beijou com força, com a força que eu meio que já estava acostumada, mas ainda assim sempre causava um efeito novo em mim. Uma de suas mãos parou no nó da minha toalha, eu estava prestes a permitir que ele fosse em frente quando num susto em me lembrei de que eu ainda não podia. O afastei rapidamente e tirei sua mão da minha toalha, me senti meio tonta e com uma vontade imensa de voltar a beijá-lo, mas eu ainda não podia. Seus olhos me encararam em dúvida e colocou as mãos no bolso de sua calça.
- O jejum... Ainda temos uns dez dias pela frente. – disse com calma encarando seus olhos. sorriu de lado e me pegou pela cintura depositando um beijo em meu colo.
- Eu to quase ficando louco! – um leve beijo no meu pescoço. – Quase! – me olhou sério e eu sorri.
- Desculpa. – encolhi meus ombros e ele me abraçou apertado.
- Hoje... – ele beijou meu nariz e eu fechei meus olhos. – Eu vou caminhar com você! – me deu um rápido selinho, sorri idiotamente.
- Sério? – perguntei com felicidade na minha voz.
- Super sério! – ele me deu mais um selinho.
- Ótimo! Então eu te espero e vamos caminhar juntos! – envolvi meus braços em seu pescoço e confirmou com a cabeça.
- Agora eu tenho que ir. – ele se aproximou e me beijou com a suavidade e força que ele consegue ter ao mesmo tempo, definitivamente eu não queria parar, mas era necessário.
O acompanhei – ainda de toalha – até a porta e lhe dei um último beijo.

Passei pela cozinha e notei que Celeste estava colocando algumas coisas na geladeira. Ela ia três vezes por semana apenas pra organizar o apartamento, ela mesma levava as minhas roupas e as de para lavar e passar, quando eu pedia ela abastecia a geladeira – às vezes ela fazia por vontade própria quando percebia que eu ou esquecíamos, o que de fato acontecia com certa freqüência - e às vezes até deixava comida pronta. Era uma imigrante italiana e tinha seus trinta e poucos anos.
- Bom dia! – ela me cumprimentou sorridente.
- Bom dia! – sorri também.
- , eu comprei várias frutas e tem dois sucos aqui na geladeira, se a senhorita quiser eu posso fazer um lanchinho ou alguma outra coisa. – ela disse prestativa como sempre.
- Sucos! – eu adorava os sucos naturais que ela fazia. – Não vou querer nada não, obrigada. – agradeci.
Tomava meu suco distraidamente sentada no balcão da pia até que meus olhos pararam na barriga de Celeste despertando a minha atenção, ela usava uma camiseta branca meio larga com uma calça de moletom um pouco mais apertada. Pensei se ela teria engordado nos últimos dias ou se era eu quem não prestava muita atenção nela e no seu corpo. Celeste me olhou e eu mirei a sua barriga novamente, ela abaixou o olhar e ficou séria. Tinha alguma coisa ali e não saber o que era estava me incomodando. Ela teria engordado tanto assim e eu não fui capaz de notar? Se bem que eu mal a vi nas últimas semanas... Ela sorriu e saiu da cozinha, eu continuei ali tomando meu suco e em seguida ela voltou segurando algumas mudas de roupa na altura do peito, sua camiseta larga se apertou na frente deixando totalmente visível uma barriga. Meu rosto endureceu, meus dedos se abriram fazendo com que o meu copo caísse no chão causando um barulho horrível. Celeste parou próxima a porta que ia para a lavanderia e olhou pra atrás a ponto de ver os meus olhos congelados na barriga dela.
- Você... – senti minha boca seca. – Você ta grávida, Celeste?
Ela fechou os olhos lentamente e concordou com a cabeça, mesmo sentada eu senti que minhas pernas estavam moles. Como assim a Celeste estava grávida? Ela esta perto dos quarenta anos, já foi mãe duas vezes e ainda por cima – até onde eu sei – ela está separada! Como? Eu tinha certeza de que ela não planejava ter um bebê a essa altura do campeonato, então porque raios ela estava grávida e eu ainda com meus vinte e seis anos, cheia de saúde e vontade de ser mãe simplesmente não conseguia?
- Estou de cinco meses. – ela disse baixinho mexendo na barra da camiseta. Eu senti o princípio da revolta se instalando no meu corpo, num impulso eu desci do balcão e acabei pisando em alguns cacos de vidro que estavam no chão, cortei meus pés em vários lugares e a dor que eu sentia com os cortes era totalmente suportável comparada a dor que eu estava sentindo dentro de mim.
- Aiiiii... – choraminguei e me apoiei no balcão.
- Meu Deus! – Celeste se aproximou de mim e me carregou até a mesa, ela afastou uma cadeira e me ajudou a sentar. De perto eu pude ver a sua barriga, apertei as unhas na minha mão. – Um minuto. – ela apontou para mim e foi em direção ao armário voltando em seguida com uma caixinha onde tinha remédios e coisas necessárias para se fazer um curativo. Celeste voltou e colocou a caixinha em cima da mesa, em seguida se agachou colocando meu pé esquerdo sobre a sua perna. Me encolhi ao sentir os pequenos cortes arderem quando ela passou levemente o algodão - que tinha algum remédio - sobre eles. Celeste limpou corte por corte que havia nos meus dois pés com todo o cuidado do mundo.
- Acho que consigo andar... – levantei com medo de jogar todo o meu peso nos pés e quando o fiz pude sentir os pequenos cortes doerem levemente, não era nenhuma dor insuportável. – Obrigada. – sinceramente agradeci Celeste e ela sorriu.
- Desculpa por não ter lhe contado antes. – ela me olhou nos olhos com os ombros encolhidos. Eu não poderia de maneira alguma culpá-la por não ter me contado antes.
Celeste estava com a pele mais bonita, os dentes mais brancos que o normal e seus olhos tinham um brilho diferente, eu meio que me acostumei a ver isso nas mulheres grávidas e naquele momento senti meu coração ficar minúsculo ao lembrar o brilho que eu tinha no olhar durante a gravidez.
- Tudo bem. – dei de ombros caminhando em direção a sala.
Sentei no sofá colocando meu pé sobre o meu joelho e fiquei bons minutos observando os pequenos cortes. Celeste varreu os cacos que estavam no chão e continuou fazendo o seu serviço normalmente.

Em menos de uma semana eu voltaria a minha rotina normal, aproveitei o dia para responder alguns e-mails pendentes e fiz alguns telefonemas. Celeste entrou na sala.
- Eu já acabei tudo... Posso ir? – ela perguntou num tom de voz mais baixo que o normal. Tirei os óculos que eu usava apenas para leitura e fechei o laptop que estava sobre a almofada no meu colo.
- Você está bem? Digo... Você e o bebê? – apontei para a barriga dela.
- Estamos bem sim! – ela respondeu sorrindo, sorri levemente. Fiz sinal para que ela se sentasse.
- Você pretende trabalhar até quando? Eu preciso saber por que não posso ficar sem ninguém pra cuidar das coisas aqui. – eu estava me tornando meio obcecada por barrigas, meus olhos não paravam de mirar a barriga de Celeste, ela percebeu.
- Eu posso ficar mais dois meses e nesse tempo prometo arrumar alguém que seja de confiança! – entortei a boca concordando.
- Você já sabe o que é? – sorri levemente e apontei novamente para a barriga dela.
- Uma menina! – Celeste sorriu largamente, meu leve sorriso se desfez no mesmo instante.
Um silêncio matador se instalou na sala.
- E você... Está fazendo todos os exames, está tudo certinho mesmo? – perguntei preocupada.
- Sim, já fiz o pré-natal e alguns ultra-sons. – ela respondeu, concordei com a cabeça.
- Se você precisar de alguma coisa, não importa o que for é só me ligar, ok? E enquanto você sentir que consegue vir trabalhar pode vir! – devagar fui até ela e a puxei para um abraço. – Posso? – perguntei quando meus olhos novamente procuraram pela barriga dela.
- Claro! – Celeste segurou minha mão direita e devagar a colocou sobre a sua barriga. Meu coração bateu com mais força e meus olhos arderam, senti que eu choraria a qualquer momento. – É a melhor sensação do mundo, não é? – perguntei já com algumas lágrimas no rosto. Olhei para Celeste e vi que ela estava com os olhos molhados.
- É sim! – ela sorriu boba. Eu deslizei minha mão sobre a barriga dela.
- Já chuta? – me ajoelhei e coloquei as duas mãos sobre a sua barriga. Eu acariciava da mesma maneira que eu acariciava a minha quando estava grávida, com todo o cuidado e carinho possível.
- Chutou pela primeira vez na semana passada, quando eu estava no banho. – Celeste me respondeu, minha atenção estava voltada para o que as minhas mãos estavam sentindo.
O barulho de chave e a porta se abrindo despertou a minha atenção. Olhei para a porta e havia chegado. Abaixei a camiseta de Celeste, me levantei do chão e limpei as lágrimas.
- Ta tudo bem? – ele perguntou preocupado, depositou um beijou em minha testa.
- Tudo! – sorri sinceramente. olhou para Celeste e em seguida para mim. – Celeste está grávida, não é incrível? – meus olhos ficaram molhados novamente, limpou meu rosto quando algumas lágrimas caíram, ele sorriu.
- Claro que sim! E... Você esta bem? – perguntou curioso.
- Estou sim! – Celeste respondeu educadamente, pegou sua bolsa. – Agora eu tenho que ir e obrigada pela preocupação. – ela me deu um forte abraço e acenou para em seguida saiu do apartamento.
Me joguei no sofá encarando o teto.
- Não acredito nisso... – disse para mim mesma, ainda com um misto de revolta e alegria dentro de mim. Passei minhas mãos sobre o meu cabelo, se sentou no sofá pegando em minhas pernas para que elas ficassem em seu colo.
- O que aconteceu com os seus pés? – sua voz tinha um tom de preocupação e seus olhos analisavam os pequenos cortes.
- Eu quebrei um copo, estava descalça e acabei pisando nos cacos. – dei de ombros e encarei . – Não se preocupe porque a Celeste já passou remédio e não é nada demais.
- Tem certeza? A gente pode ir ao médico, esse aqui não é fundo? – ele apontou para um corte próximo ao meu dedão, sorri levemente.
- Relaxa, amor. – peguei em sua mão.
- Então não vamos poder caminhar hoje... – vagamente ainda analisava os meus pés.
- É verdade. – concordei, fiquei o observando.
- Já volto! – com cuidado ele colocou as minhas pernas para o lado, se levantou rapidamente e foi em direção ao quarto. Segundos depois ele voltou sem o tênis, o casaco e o cachecol – que ele ainda teria que usar por vários dias, devido aos chupões que eu deixei em seu pescoço – e em suas mãos ele trazia o meu hidratante para pés. Sorri levemente.
- Massagem? – perguntei ainda com um sorriso nos lábios. voltou a se sentar no sofá e com cuidado colocou os meus pés em seu colo.
- Sim, senhorita ! – ele concordou. despejou um pouco do creme em suas mãos, fez algumas pintinhas em meus dedos enquanto tinha um sorriso sapeca nos lábios e delicadamente massageou a parte de cima dos meus pés. Eu ia comentar sobre a gravidez de Celeste, mas preferi apenas sentir o toque de , preferi poupar o meu coração de mais uma dor.
Eu sempre pensei que esses amores de livros fossem apenas puras palavras para iludir nós leitores, hoje eu penso totalmente diferente, hoje eu acho que a nossa vida juntos é um livro, não um best-seller, mais um livro que nunca termina, uma história eterna, onde nós dois somos os personagens principais e nenhum vilão consegue nos destruir... Um livro monótono para os outros, porém para nós personagens, uma VIDA, um AMOR.




Capítulo 08

Às vezes eu acho que o mundo inteiro se revoltou contra mim.
Esse tipo de pensamento só passa pela minha cabeça quando eu estou sozinha e não tenho nada de importante para fazer, eu acabo dando liberdade para os meus pensamentos focarem nos fatos mais tristes. Na última noite eu não fiz questão de comentar com sobre a visita do meu irmão, também não comentei sobre a festa de aniversario do Steve e me impedi de comentar sobre a gravidez de Celeste. Quando ele estava comigo era fácil esquecer as coisas ruins. Quando ele estava longe era como se uma parte de mim estivesse fora de mim mesma, quando eu não sentia a mão dele segurar a minha eu me sentia insegura, incapaz de andar normalmente pela rua.
Estacionei o carro próximo ao meio fio daquela rua que era bem familiar para mim. Tirei a chave da ignição e peguei minha bolsa que estava no banco traseiro. Bati a porta do carro e fui até a companhia da casa de admirando tudo a minha volta – algumas das casas daquela rua foram projetadas por mim e foram construídas e decoradas pela equipe da minha empresa – sorri com a sensação de orgulho e prazer ao ver que meus rabiscos não ficaram apenas no papel.
Se fosse há alguns meses atrás eu poderia apenas entrar no elevador e descer dois andares para estar na casa dela, já que e foram meus vizinhos desde sempre, mas quando engravidou eles decidiram comprar uma casa para que a criança pudesse crescer com mais liberdade. Eles fizeram a coisa certa e agora moravam em um bairro família, em uma casa imensa, tamanho família. Tudo naquele lugar era estilo família.
O grande portão se abriu lentamente, entrei e logo vi parada próxima a porta de entrada com a sua barriga um pouco maior do que da última vez que a vi, seu cabelo agora tinha a raiz natural e ela tinha um grande sorriso iluminado – como sempre – nos lábios.
- Eu estava com saudades! – me abraçou levemente mexendo em meus cabelos.
- Eu também estava. – sorri verdadeiramente e a abracei um pouquinho mais forte.
- Entre! – ela me deu espaço para entrar. Tirei minha bolsa do ombro e a segurei com as mãos.
- Você está bem? – a olhei analisando milimetricamente seu rosto, ajeitei a sua franja e sorriu.
- Estou sim! – ela indicou a escada. – Tive alguns enjôos nos últimos dias, mas esta tudo bem. – ela sorriu novamente.
- Que bom. – apertei minhas unhas na alça da bolsa quando senti um desconforto ao ver a barriga de .
- e estão na sala, estávamos te esperando! – andamos pelo longo corredor até chegarmos à grande sala com decoração impecável. e eram impecavelmente lindos e tinham um gosto impecavelmente lindo.
A grande sala me pareceu pequena demais assim em que entrei e vi sentada no chão com algumas almofadas a sua volta e assim como a barriga dela também estava maior. Discretamente olhei para ao meu lado e voltei o meu olhar para .
- ! – a voz de despertou a minha atenção. Olhei para ele que estava próximo ao sofá que ocupava um canto inteiro da sala e sorri andando até ele. – Tudo bem? – ele me abraçou.
- Tudo certinho! – o soltei sorrindo. Apertei minhas unhas na alça da bolsa – de novo - com um pouco mais de força e fui até o centro da sala, onde estava.
- Minha linda! – ela sorriu e se levantou para me abraçar.
Apenas sorri e abri os braços para sentir ela me envolver num abraço quente e confortável.
- Vou deixar as super poderosas sozinhas, se cuidem minhas lindas! – pegou o celular que estava jogado no sofá, mandou um beijo para mim e para e nós mandamos outro de volta.
Acompanhei com o olhar. Ele parou em frente à depositando uma mão na barriga dela e com a outra no rosto da minha amiga ele a beijou. Não um beijo longo e quente, também não era um selinho, era um beijo do tipo ‘eu te amo e não demoro’.
- Senta aqui, ! – falou um pouco mais alto que o normal, abaixei o meu olhar e ela estava sentada novamente com dezenas de almofadas a sua volta. Ergui um pouco a minha calça e sentei perto de , coloquei minha bolsa no colo e arrumei algumas almofadas a minha volta também. Sorri ao terminar o circulo de almofadas a minha volta e voltei a segurar firme a minha bolsa. tinha ido acompanhar e eu estava me sentindo desconfortável – não em relação ao ambiente nem aos meus amigos, mas sim comigo mesma – com aquela situação. Ver e grávidas e mais lindas do que nunca era algo que me incomodava.
- Uhul! Estamos sozinhas. – entrou dando pulinhos – o que foi de fato engraçado, ela usava uma blusinha branca de malha, quando pulava a blusinha subia e deixava a barriga à mostra ao mesmo tempo em que seus seios pulavam junto – e se jogou nas almofadas. Eu e rimos alto.
- ! – me chamou meio desesperada. – Você não nos contou como foi a sua ida ao médico! – ela estalou os olhos e se sentou com algumas almofadas no colo. Suspirei levemente.
- Hum... Foi boa? – sorri sarcasticamente e elas ficaram sérias.
- Boa como? – gesticulou impaciente.
- O Doutor Michael é o melhor, certo? – as duas concordaram rapidamente, elas o conheciam porque era ele quem estava cuidando da gravidez delas. – Ele conversou comigo, fez algumas restrições...
- Quais? – me interrompeu, rolei os olhos.
- Restrições do tipo ‘fique vinte dias sem sexo’ – fiz aspas com as mãos e ri levemente. – Tome os remédios na hora certa e faça caminhadas. – forcei a voz e estufei o peito numa tentativa frustrada de imitar o meu médico. e gargalharam.
- O deve estar subindo pelas paredes! – falou entre risos, fechei a cara.
- Ah, amiga, isso deve ser verdade! – concordou ainda rindo.
- Vocês falam como se fosse só ele que estivesse assim – olhei para cima e segurei o riso.
- Eu saaabia! – riu mais alto apontando para mim. Desisti e por fim ri também me sentindo um pouco mais leve por deixar que a alegria das minhas amigas me contagiasse.

Aquele encontro na casa de não tinha um objetivo final, era apenas pra gente se ver e conversar um pouco já que as duas estavam com todo o tempo do mundo para fazer nada – e meio que mandaram elas se afastarem do trabalho após cinco meses de gestação, o que pra mim era um exagero para elas era cuidado de marido – e eu só voltaria a trabalhar dentro de alguns dias.
- Vocês vão à festa de aniversário do pequeno Steve, vão? – eu estava deitada no meio do sofá com uma pequena tigela de mousse de chocolate sobre a minha barriga. estava da mesma maneira a minha esquerda e sentada a minha direita, as duas com a boca suja de chocolate.
- O comentou comigo, acho que vamos! – deixou a tigela - que agora tinha apenas rastros de chocolate – no chão, próximo ao sofá.
- Eu já até comprei o presente daquela coisa fofa! – apertou as próprias bochechas, sorri com a atitude infantil da minha grande amiga.
- Ele mesmo me convidou quando me viu caminhando no parque, mas esqueci de falar com o . – dei de ombros. – Ele com certeza já está sabendo. – estiquei o braço sem olhar para baixo e deixei a tigela sobre o chão.
- Preguiçosas... – se levantou recolhendo as tigelas. Em seguida, quando ela passou por mim eu lhe dei um leve tapa na bunda fazendo com que ela se encolhesse saindo da sala apressadamente.
aproveitou e se esticou no sofá, suspirando lentamente.
- Acho que já vou embora. – falei mais para mim mesma.
- Já? – havia esquecido que ainda estava ali, devido o silêncio. Ela voltou a se sentar, peguei minha bolsa que estava no chão.
- Sim... – peguei meu celular conferindo o horário e vi que tinha uma chamada não atendida do .
- Ah! – fez bicou e veio até mim me abraçando de lado, sorri retribuindo o abraço.
- Eu também quero. – se jogou entre nós fazendo com que ríssemos divertidas e o silêncio foi quebrado pelas risadas. – MENINAS, EU PRECISO MOSTRAR UMA COISA! – nos soltou e saiu correndo desengonçadamente. – VENHAM AQUI NO QUARTO! – ela gritou.
Dei de ombros e fui com até o quarto de .
- Não precisava ter gritado. – comentou séria e rolou os olhos, ela tinha uma espécie de álbum em mãos, olhei curiosa.
- Eu e tiramos essas fotos no fim de semana, não ficaram lindas? – se sentou na cama entregando o que era de fato um álbum para eu e ver. Olhei de relance para e me sentei na cama ao lado de que tinha o álbum em mãos.
Assim que a capa de veludo azul foi aberta meus olhos estalaram ao ver a primeira foto e minha imaginação deduziu ali mesmo quais seriam as próximas. O meu rosto não tinha expressão alguma ao ver a foto de beijando a barriga de , mas os meus olhos ainda entregavam o meu desconforto. tinha um sorriso bobo nos lábios e murmurava vários ‘own’. Quando virou mais uma página revelando uma foto em que os dois estavam deitados na grama e tinha a cabeça logo ao lado da barriga de que tinha um desenho em formato de careta os meus olhos se fecharam com rapidez.
Numa outra página havia mais uma foto feliz exibindo a felicidade dos meus amigos, senti meu coração ir diminuindo a velocidade dos batimentos de acordo com a velocidade que virava as páginas daquele álbum. Percebi que minhas unhas estavam apertadas no colchão e os meus dentes estavam doendo devido a força que eu os apertei um contra o outro. Mais uma página virada, mais alguns suspiros e uma foto igual a cena que eu havia visto quando cheguei, os dois se beijando e tinha uma mão no rosto de e a outra na barriga dela, a claridade do sol refletia entre os dois e o conjunto de tudo aquilo me fez lembrar coisas que eu queria esquecer. Levantei-me às pressas causando mais barulho do que o planejado e despertei a atenção das minhas amigas – que até então não haviam percebido o meu silêncio, distraídas demais com as fotos – entortei a boca.
- O álbum está lindo, , mas eu realmente preciso ir e ir agora! – beijei a bochecha das duas rapidamente e fui em direção a porta, se levantou. – Não precisa, eu sei o caminho. – fechei a porta me sentindo imediatamente mais leve por não respirar o mesmo ar que elas. Deixando para trás o sentimento de inveja que invadia o meu corpo todas as vezes em que eu via uma mulher grávida.
Entrei no carro as pressas e joguei minha bolsa no banco do carona.
Mirei a rua à minha frente.
Encostei minha cabeça no volante, me obrigando a respirar como gente. Definitivamente eu não podia me sentir assim todas as vezes em que visse as minhas amigas ou trombasse com uma mulher grávida na rua. Era absurdo e torturante!
O médico disse que eu poderia engravidar novamente, para que isso pudesse acontecer era apenas questão de dias para que eu e pudéssemos tentar. Então, se eu não teria problema nenhum para engravidar e nada – além dos longos dias – me impedia disso porque raios eu ainda sentia essa inveja? Porque eu agia e via a situação como se eu nunca fosse ter um filho? E porque tudo na minha vida agora girava em torno de gravidez?
Quando levantei minha cabeça, a rua a minha frente já estava escura, o barulho do meu celular vibrando fez com que os meus pensamentos torturantes sumissem dando lugar a irritação por não encontrar o maldito aparelho no meio da minha própria bagunça. Tocou mais algumas vezes e ainda irritada eu virei a bolsa de cabeça pra baixo deixando tudo o que havia dentro dela cair sobre o banco.
- Alô! – atendi sem ao menos ver quem era usando o meu tom de voz normal.
- ? – joguei as tranqueiras com pressa dentro da bolsa voltando a me sentar normalmente em seguida.
- Oi! – ainda sem prestar atenção em quem era liguei o carro.
- Amor? – desliguei o carro ao ouvir perfeitamente a voz de , respirei fundo ao sentir a voz dele ecoando em meu ouvido esquerdo.
- Eu... – minha voz saiu baixa mesmo sem querer. Acomodei-me no banco com mais calma.
- Você está bem? – agora tinha preocupação na voz, ele estava usando esse tom de voz freqüentemente comigo nas últimas semanas.
- Eu estou, demorei pra atender porque o celular se perdeu na minha bolsa. – sorri levemente mordendo o canto da unha.
- Que bom. – ouvi uma leve risada também. – Só liguei pra saber como você estava e pra falar que eu vou chegar tarde em casa. - Deixei um murmúrio escapar.
- Tudo bem, meu amor – apoiei minha cabeça no vidro.
- Um beeeeeijo, ! – identifiquei a voz de .
– Sai daqui, cara! – falou com a voz um pouco distante, gargalhei.
- Um beijo pro . – falei entre risos.
- Legal, beijo pro e pro maridão nada. – falou com o peso do sarcasmo na voz.
- Pro maridão é tudo! – ri levemente ao ouvir a risada de .
- Amor, eu tô c