Capítulo 01

Quando acordei meu travesseiro estava molhado. Eram lágrimas brotadas do mais fundo de uma dor inconsciente, mas nítida. Viver tem dias muito nublados quando a simples existência nos dói nos ossos. É como mergulhar num mar que não dá pé quando nem se sabe nadar... Não julgo, não culpo o mundo. "O preço de uma alegria explodida no peito, é essa angústia sem um réu..."
Eu me contorcia inteira em cólicas existenciais... E quando acho que já foi o bastante, a vida chega aos borbotões e me diz que há mais... Acordei sem uma menina dentro de mim. Antes ela tivesse me acordado com o choro mais sentido do mundo pedindo cuidado, atenção... Às vezes não sei se agüento, às vezes acho que sim. Se não, o aprendizado seria só esse sufoco. Eu preciso de ar puro e de uma mirada sincera pro horizonte amplo mesmo que tudo fique embaçado pelas lágrimas que eu não escolhi, mas que me aconteceram. Você sabe do que falo. E se eu me entregasse ao vôo? Mas sou flor, arraigada ao solo. Preciso das suas asas. De você. Me empresta uma mudança brusca? Tenho urgência!

- Amor... – ouvi me chamando em um sussurro e aquilo me doeu, eu estava sem coragem para encará-lo. Estava frustrada comigo mesma, triste e me sentindo extremamente vazia. Eu mal consegui mexer meu corpo que estava jogado na cama. Todos os meus sentidos estavam alterados, eu sentia como se fosse outra pessoa dentro de mim. Com medo do mundo abri os olhos lentamente e vi agachado próximo à cama com uma de suas mãos segurando a minha. Ele deu um leve sorriso, mas nem com o sorriso dele eu consegui me sentir melhor. – Pedi o nosso café da manhã e já deve estar chegando! – ele falou baixinho enquanto deslizava sua mão pelo meu ombro descoberto. Eu não tinha expressão e movimento algum. – Por favor, amor, levante que eu vou te ajudar a tomar um banho. – devagar puxou o cobertor que me cobria, tirou o meu cabelo do rosto e beijou minha testa eu o olhei e toda a cena do dia anterior invadiu a minha mente, lembrei de sua expressão e de todo o meu medo. Chorei. De novo.
No mesmo instante em que o inicio do desespero se instalava em meu corpo uma calma instantânea me confortou assim que me abraçou forte enquanto dizia repetitivamente que me amava e tudo ficaria bem. Ele sorriu fraco e triste depois de me soltar de seu forte abraço. Dessa vez era como se a paz estivesse na minha frente.
Deixei que ele me ajudasse a levantar e me guiasse até o banheiro, ligou a banheira e sentou-se em cima da tampa do vaso sanitário. Puxou-me pela mão e fez com eu sentasse em seu colo, passei meus braços por seu pescoço e ali mesmo afundei meu rosto. O barulho da água batendo na louça da banheira era o único som que se ouvia na casa. Ele me segurava pela cintura e fazia leves carinhos, com a outra mão mexia devagar em meu cabelo.
- Vem! – levantamos juntos e ele começou a me despir, me ajudou a entrar na banheira em seguida tirou seu moletom e entrou também. Me afundei e fiquei o máximo de tempo que pude imersa na água, quando voltei para a superfície me olhou carinhoso me levando para perto de seu corpo me fazendo ficar de costas para ele que envolveu seus braços em minha cintura.
- Me desculpe. – eu disse baixinho, eu estava com medo de falar qualquer coisa que fosse. me apertou um pouco mais forte, beijou meus ombros e minha nuca.
- Você não teve culpa de nada meu amor... – sua voz saiu triste e eu me virei para encará-lo.
- Eu realmente queria que ela ainda estivesse aqui dentro. – falei num sussurro, peguei em sua mão e a apertei sobre a minha barriga. fechou os olhos e uma lagrima escorreu por sua pele branca.

Flashback ('s POV)

Eu estava voltando para casa depois de um dia com entrevistas longas e engraçadas, adoro esse processo de divulgação que temos que fazer antes de um cd novo ser lançado. É uma rotina cansativa é claro, mas sempre me sinto recompensado depois de um show incrível. Eu estava louco pra chegar em casa e passar um tempo com a minha esposa, louco pra comer uma comida bem feita que ela fazia questão de preparar, louco pra namorá-la, admirar e conversar com a sua barriga. está grávida de três meses e qualquer pessoa pode ver a felicidade estampada em nossos rostos. Ela esta carregando o meu sonho dentro dela. O sonho de ser pai.
Meu celular começou a tocar e ao reconhecer o numero apertei o send no painel do carro.
- Oi, amor! – disse com um sorriso enquanto batia os dedos no volante do carro.
- Hey, hm... Só liguei pra saber se você vai demorar... – ela disse com uma voz doce, tenho certeza que sorria.
- Não, amor, em menos de quinze minutos eu chego, ok? – sorri.
- Ok! Amo você, beijo. – ela disse e desligou o telefone, pensei em responder mais nem deu tempo.

Como eu disse, em menos de quinze minutos o portão do prédio onde eu morava com a se abria a minha frente. Cumprimentei o porteiro super gentil e guardei o carro. Entrei no elevador encarando o espelho e bagunçando um pouco os meus cabelos, tem uma certa pessoa que gosta de me ver com o cabelo assim.
A porta se abriu no décimo andar, retirei as chaves do bolso de meu casaco e entrei em casa. Passei pela sala e não tinha ninguém. Digo, não estava ali, afinal, por enquanto somos só nós dois nesse apartamento. Confesso que eu estava ansioso demais para que finalmente chegasse o dia em que eu veria uma pequena criatura correndo pela casa, arrastando consigo os sapatos e bolsas da , sim ela estava esperando uma menina. Fui até a cozinha e a vi sentada na pia com um pote de Nutella entre as pernas. Ela sorriu assim que me viu e claro que comigo aconteceu a mesma coisa.
Me aproximei e lhe dei um selinho.
- Há quanto tempo você não comia um desses? – perguntei curioso enquanto olhava para a colher em sua mão. me olhou pensativa.
- Eu não lembro! Mas hoje quando eu estava voltando do trabalho eu juro que senti o gosto em minha boca, me deu uma vontade louca e eu precisava de um desses só pra mim! – ela respondeu e segurou firme o pote como se eu fosse roubá-lo. Sorri de leve e passei minhas mãos por sua cintura enquanto se distraia com a colher e o chocolate.
Fui até a geladeira e de lá tirei uma cerveja, a tomei enquanto assistia raspar até ver que não existia mais nada de chocolate no pote. Ela me olhou sorrindo e eu gargalhei. Seu dente estava sujo de chocolate e eu fiz sinal para que ela limpasse, sem jeito ela parou de rir e limpou os dentes. Sorriu de novo e eu sorri me aproximando dela. Depositei um leve beijo em seu ombro descoberto e fui subindo devagar até chegar em sua boca, quando ela se aproximava para me beijar eu recuava. Isso a deixava irritadinha! Quando se cansou da minha brincadeira me puxou pelo pescoço e me beijou, logo em seguida ela se afastou e me olhou com cara de nojo.
- O que tem nessa cerveja? – ela perguntou com a mão na boca, saltou da pia e correu em direção ao banheiro, sem entender nada eu corri junto com ela. se ajoelhou em frente ao vaso sanitário, me toquei do que ela ia fazer e rapidamente retirei seu cabelo do rosto, com uma mão eu segurava sua franja e com a outra o restante de seu cabelo. Ver uma pessoa vomitando não é a cena mais linda do mundo e nas poucas vezes em que passou mal eu desejei estar no lugar dela e sentir todas as coisas negativas da gravidez por ela.
A ajudei a levantar, lavou a boca e em seguida escovou os dentes.
- Tudo bem? – perguntei receoso.
- Tudo bem, amor! – ela sorriu abertamente.
- Eu me assustei! Você começou a me beijar e do nada se sentiu enjoada. – depositou suas mãos na pia e se olhava no espelho, eu estava atrás dela com o meu queixo apoiado em seu ombro. Ela sorriu de novo.
- Eu não sei o que aconteceu, mas a sua boca estava com um gosto tão... – ela me olhou pelo espelho e eu arqueei a sobrancelha. – Tão... estranho! – fez uma cara engraçada, a puxei pela cintura fazendo com que ela se virasse para mim.
- Então... Me beije de novo! – sussurrei em seu ouvido e ela apertou as unhas em meu pescoço. Me aproximei para lhe beijar e dessa vez sem brincadeiras. Quando nossas línguas se encontraram me empurrou e de novo colocou a mão na boca, de novo aquela cara de nojo. Eu parecia um daqueles personagens de desenho animado, tinha uma interrogação em meu rosto. ficou parada com uma mão na boca e a outra massageando seu pescoço, segundos depois ela relaxou os ombros e se virou pra mim.
- Isso é cansativo, esses enjôos acabam comigo! – disse enquanto caminhava para nosso quarto. Deitou-se na cama com a barriga para cima e uma de suas mãos sobre a mesma.
- Impressão minha ou o meu beijo te fez enjoar? – perguntei curioso me deitando ao seu lado, apoiei um cotovelo na cama para segurar minha cabeça, a outra mão se juntou com a de que estava sobre sua barriga.
- Vai passar! O que vai ser de mim durante o restante dessa gravidez se eu não tiver os seus beijos? – ela disse com um leve sorriso no rosto que agora tinha uma ternura indescritível. Ficamos deitados por alguns minutos apenas trocando carinhos. O telefone tocou e interrompeu o nosso momento família (eu, e o feto que ela carregava), levantei rindo de alguma coisa que ela tinha falado.
- Alô. – gargalhava e eu fiz sinal de silencio com o dedo indicador. Ela se controlou. – Erm, acho melhor não. – me olhou séria. – Por favor, tente não ligar mais pra nossa casa! – disse tentando manter a calma, saltou da cama e tirou o telefone da minha mão. Na chamada era Robert, seu irmão mais velho.
Quando ele e eram crianças os dois não se desgrudavam, eram mais que irmãos, eram amigos e companheiros em tudo. Na adolescência Robert se envolveu com pessoas erradas e não foi forte o suficiente para negar as drogas e bebidas... Meses depois ele passou a roubar os pais, foi expulso do colégio, perdeu a namorada e boa parte dos amigos. sempre foi a pessoa que mais lutou para tirá-lo desse mundo, ela se arriscou diversas vezes, chegou a ficar na mão de traficantes, sofreu ameaças e assim foi por quase dez anos até que ela desistiu de Robert e deixou tudo nas mãos de Deus. Eu evitava ao máximo falar sobre ele dentro da nossa casa, ele fazia mal para . Nos últimos dias ele ligou varias vezes para casa, mas eu só atendi o telefone duas vezes, nas outras foram a e eles sempre discutiam, ela sempre gritava com ele e quando desligava o telefone caia no choro. A gravidez dela é de risco e a ultima coisa que ela pode passar é nervoso, stress e derivados. Essas ligações dele me davam medo.
- PÁRA, PÁRA COM ISSO! NÃO VENHA ME DIZER QUE AGORA VOCE PRECISA DA MINHA AJUDA PORQUE DESSA VEZ EU NÃO QUERO TE AJUDAR! – começou a gritar, eu me aproximei dela tentando arrancar o telefone de sua mão. – NÃO ADIANTA VOCE COLOCAR OS MEUS PAIS NESSA HISTÓRIA, TODO MUNDO FEZ O QUE PODIA E O QUE NÃO PODIA PRA TE TIRAR DESSA VIDA E O QUE VOCE FEZ COM A GENTE? O QUE? – ela começou a chorar e eu me irritei mais ela segurava firmemente o telefone e saiu correndo se trancando no banheiro. Ok, agora eu fiquei tenso, eu tenho muito medo do que ele pode falar pra ela. Mais gritos! – CALA A SUA BOCA SUJA E FEDIDA, VOCE NÃO TEM MORAL PRA ME CRITICAR E FALAR QUE EU SÓ PENSO EM MIM. EU TENTEI DE TODAS MANEIRAS TE AJUDAR E NÃO VENHA ME CONTRARIAR! CAAAAAAALA A BOCA! EU ARRISQUEI A MINHA VIDA, EU PAGUEI AS SUAS DIVIDAS, EU FIZ DE TUDO PRA TE VER BEM NOVAMENTE E... E... CALA A SUA BOCA! – eu batia freneticamente na porta do banheiro e cada palavra gritada por o meu medo aumentava. Ela não pode sentir raiva, nenhum sentimento negativo pode passar perto dela. Risco! Uma gravidez de risco! continuava gritando e chorando até que ouvi um grito de dor. O barulho de algumas coisas caindo no chão fez com que eu me desesperasse e arrombasse a porta. Assim que entrei no banheiro vi que estava de joelhos no chão, suas mãos apertavam sua barriga e em sua calça havia uma grande mancha de sangue, ela estava com o rosto vermelho e molhado devido as lagrimas, ao seu lado estava o telefone e em volta alguns dos enfeites quebrados que ela deixa cuidadosamente sobre a pia. Ela me olhou chorando, eu nunca tinha visto ela chorando daquela maneira, a abracei e beijei todo o seu rosto.
- Amor, onde ta doendo? O que você ta sentindo? Não, não responde. Calma amor, calma meu anjo, amor... calma, calma... não vai acontecer nada – eu repetia varias vezes mesmo duvidando daquilo que falava. gritava e apertava meu braço com força. Peguei o telefone e disquei o numero da emergência, eu tentava passar calma pra ela, precisava se sentir segura.
A peguei no colo e sai rapidamente do nosso apartamento, o elevador estava demorando mais eu não podia arriscar a vida das minhas meninas descendo as escadas, nós morávamos no décimo andar. Eu tinha que esperar! Quando a porta do elevador se abriu o casal aparentemente mais velho se assustou com a imagem de sangrando em meus braços. O senhor perguntou se eu precisava de ajuda para carregá-la ou algo do tipo, eu neguei. Chegamos ao hall e eu já pude ver a ambulância parando, o senhor me ajudou e logo os médicos a tiraram de meus braços e a colocaram numa maca. Entrei junto com os médicos e durante o caminho para a clinica do médico de , eu não tirei meus olhos dela nem por segundos, minha mão apertava a sua, meus ouvidos e meu coração imploravam pra ouvir a gargalhada dela no lugar desse choro. Quando chegamos à clinica, ela foi levada até o médico que estava acompanhando a gravidez, eu entrei com ela e a vi sendo medicada, examinada até o doutor aparecer e nos dar a noticia de que tinha perdido a nossa menina.

Fim Flashback ('s POV)

Com a ajuda de , eu me vesti e ajeitei o cabelo. A cada passo que eu dava dentro daquele apartamento era como se uma agulha fosse aplicada em mim.
Passei a minha infância e adolescência falando pro mundo que eu iria morrer solteira e que nunca iria ter filhos. Tudo mudou quando eu conheci o e quando eu digo tudo eu quero dizer tudo mesmo! Namoramos por um ano e dois meses e numa viajem de férias ele me pediu em casamento. Nos casamos e depois disso começou a pressão: ‘Quando vocês vão ter um bebe?’ ‘Voces são um casal lindo, mal posso esperar pra ver os filhos de vocês!’ ‘Amiga, quando essa barriga vai começar a crescer?’ ‘Cara, ser pai é a melhor coisa do mundo!’ nunca escondeu de mim que o sonho da vida dele era ser pai, ter uma casa na praia com vários cachorros pelo quintal e que eu fosse até a eternidade a segunda mulher da vida dele (não adianta, não tem como competir com a mãe dele). A casa na praia nós compramos antes de casarmos, os cachorros compramos logo em seguida, eu sou a esposa dele e com o tempo ele começou a me cobrar. Quando algum casal passava por nós com um bebê no colo ele fazia questão de me cutucar e fazer sua cara típica de ‘quando vai chegar a minha vez?’. Sempre tive uma desculpa, era a faculdade na fase final, era o trabalho, a formatura, um curso aqui, outro curso ali, até que chegou ao ponto desse assunto virar motivo de briga entre nós dois e quando isso aconteceu eu me assustei. Nunca fomos o tipo de casal que tem brigas freqüentemente e nunca teve um perfil de homem irritado, mais quando o assunto era filho e quando eu me negava ele se irritava e ai começava uma briga. Depois ele pedia desculpas e falava que tentava me entender.
Um tempo depois a situação entre nós dois ficou péssima porque e iriam ser pais (as esposas combinaram de engravidarem na mesma época e isso revoltou ). Meses depois num descuido da minha parte eu acabei engravidando, eu não tinha a intenção de engravidar e quando comecei a sentir enjôos e minha menstruação não vinha nunca eu vi que já era tarde demais e o bebê já estava feito. começou a desconfiar antes de mim, fez vários comentários sobre os meus seios, perguntava freqüentemente sobre a minha menstruação e falava que era estranho demais eu não estar de TPM e coisas do tipo, eu me irritava e negava tudo. Não podia estar grávida! Até que um dia chegou em casa a tempo de me ver vomitando e então ele me carregou até a farmácia e nós compramos um teste de gravidez, chegamos em casa e ele parecia uma criança elétrica! ‘Amor, vai logo pelo amor de Deus!’ foi a frase que eu mais ouvi nos poucos minutos que fiquei trancada no banheiro enquanto encarava aquela maldita caixinha, eu não queria estar grávida! Esse é o sonho de tantas mulheres mais não era é o meu. Eu não me via com uma barriga grande, não me via acordando de madrugada pra calar o choro de uma criança, não me via fazendo coisas que mães fazem! Depois de pensar em como seria a minha vida dali em diante (porque eu já tinha certeza de que carregava uma vida dentro de mim) fiz o teste e deixei de entrasse no banheiro e visse o resultado antes de mim. Felicidade? Era o nome e sobrenome do meu marido! Então, eu resolvi que estava na hora de deixar o medo de lado e realizar o sonho de .
Em dois meses de gravidez eu já estava planejando tudo, já estava me preparando pra equipar o apartamento, mudar a decoração, comprei revistas com modelos de quartos, visitei lojas e passei horas babando em roupinhas. A gravidez me mudou por completo e eu passei a ver o ciclo da vida de uma maneira diferente.
Ouvi a campainha e em seguida entrou no quarto.
- Amor, vem comer um pouco! – ele veio até mim com um sorriso adorável. Eu sentia que ele queria me passar segurança mais eu pude ver naquele olhar o quão triste ele estava. Peguei em sua mão e fomos abraçados até a cozinha. Cada canto daquele apartamento tinha um pouco do nosso sonho. Lembrei das inúmeras vezes em que eu e nos deitamos no felpudo tapete da sala e ficamos horas vendo filmes e ele sempre estava com a mão sobre a minha barriga, às vezes ousava ter uma conversa e ficava todo bobo quando eu falava: ‘Logo ela começa a chutar’. Soltei um longo suspiro e beijou minha testa. Todas as vezes em que eu o olhava meu coração doía, eu sentia culpa, eu me sentia culpada por ter sido incapaz de segurar dentro de mim aquela criança. Eu me culpava por ter acabado com um sonho dele, me culpava por não ter engravidado antes e me culpava mais ainda por ter sido tão egoísta e só ver coisas negativas numa gravidez.


Capítulo 02

Estávamos deitados na cama vendo algum filme que tinha pegado na locadora, eu não prestava atenção e mal sabia no que pensar. As mãos dele mexiam em meu cabelo fazendo com que eu sentisse sono.
O telefone tocou e eu tive medo daquela ligação, senti medo e me lembrei da ultima vez que esse telefone havia tocado. se esticou e atendeu calmamente. Senti um alivio imenso ao ouvir uma leve risada.
- Eu acho ótimo! E vocês nem precisavam ligar né? – disse sorrindo pra mim, me sentei em sua frente e perguntei quem era, sorriu de novo e negou com a cabeça. – Na medida do possível esta tudo bem sim. – ele me olhou sério e passou a mão pelo meu rosto. – Nada demais, estávamos vendo um filme... Claro! – ele deu uma gargalhada alta e eu sorri levemente. – Vai dar a bunda seu idiota! Não, não vá dar a bunda, vem logo pra cá. – ele desligou o telefone e rapidamente pegou meus braços e os levou para trás fazendo com que eu deitasse sobre a cama totalmente indefesa.
Eu o olhava nos olhos e olhar nos olhos dele é como se eu pudesse andar sobre o mar, é uma das melhores sensações, é um dos melhores remédios. colocou uma perna de cada lado e se aproximou de mim. Fechei meus olhos.
Ele beijou o meu colo, meu pescoço, meu queixo, meu nariz, minha bochecha, beijou meus olhos, minha testa e fez o caminho de volta até parar no canto da minha boca. Senti que ele sorria e automaticamente sorri junto.
- É que eu te amo demais... – ele sussurrou e devagar me beijou. O arrepio tomou conta de mim e eu senti um calor imenso, um conforto extremamente agradável.
- E eu amo o seu jeito de me amar. – também sussurrei assim que ele separou nossas bocas. colocou uma mão em minha nuca e aproximou nossas testas, seus olhos miravam minha boca enquanto eu o acompanhava com o olhar. Vendo que lentamente ele fechou os olhos e mordeu o próprio lábio eu o beijei e o abracei o mais forte possível.

Tomei um banho relaxante e não pensei em nada enquanto sentia a água extremamente quente caindo sobre as minhas costas, me desliguei do mundo e quando desliguei o chuveiro e ouvi a ultima gota de água pingar no chão percebi que eu precisava voltar ao normal. Foi necessário um pouquinho de força de vontade para ligar o secador e arrumar o cabelo, mais um pouquinho de coragem pra abrir o closet e procurar por uma roupa legal para se ficar em casa.
- As malas estão vindo aqui pra te ver! – disse com a cara dentro da geladeira. Cena clássica! O meu do praticamente dentro da geladeira enquanto usava apenas uma boxer xadrez. Fui até ele e o abracei por trás, revirou mais um pouco a geladeira e suspirou.
- Amor, o negócio é o seguinte... Precisamos fazer compras! Você sabe que eu não tenho capacidade mental pra lembrar dessas coisas e tal. – ele se virou para mim e mexia na parte de trás de seu cabelo de uma forma engraçada. Sorri.
- Ok, vamos fazer compras! – levantei minhas mãos pro alto. gargalhou. Voltei para o quarto para trocar de roupa, uma calça jeans num tom escuro e um casaco qualquer da Hurley num tom mais claro foram as primeiras peças de roupa que vi. Enquanto caminhava até a cozinha prendi meu cabelo num rabo de cavalo bem firme.
- Já? – arregalou os olhos, o olhei superior e confirmei com a cabeça. Ele sorriu e rapidamente andou até o quarto voltando poucos minutos depois e vestido praticamente igual a mim. Usava um jeans escuro com um casaco preto que também era da Hurley e um de seus tênis largos. Irritantemente lindo demais. Se ele não fosse meu com toda a certeza do mundo eu faria de tudo para ter ele por perto.
Eu esperava na porta e quando ele se aproximou depositou um beijo em minha testa e saímos de casa.
- Hey! – um casal que morava um andar acima do nosso nos cumprimentou sorridentes assim que a porta do elevador se abriu. Sorrimos.
- Como você está, minha querida? – a mulher se soltou do do e me abraçou carinhosamente.
- Estou bem! – sorri levemente e segurou minha mão assim que a mulher me soltou.
- Ficamos felizes que você esteja bem, querida! Vocês sabem que se precisarem é só chamar, certo? – o homem que aparenta ser mais velho que nos disse sorrindo. Concordamos sorrindo e a porta do elevador se abriu, nos despedimos e caminhamos até a garagem. abriu a porta pra mim e correu até o outro lado.
- Muito tempo que o senhor não fazia isso! – disse com uma sobrancelha levemente erguida. ligou o carro e sorriu.
- É verdade, preciso voltar a ser um cavalheiro... – disse vagamente, enquanto esperava o portão da garagem se abrir ele me olhou e eu ajeitei seu cabelo. Peguei nossos óculos no porta-luvas, coloquei o meu e em seguida entreguei o dele que me agradeceu.
- O que você pretende comprar? – perguntei enquanto arrumava meu cinto de segurança.
- Qualquer coisa intoxicada! – respondeu enquanto estava super concentrado no volante. Dei um leve tapa em sua coxa. Ele sorriu pra mim.
- Sério, amor, porque eu não tenho nada em mente. – disse num tom mais sério.
- Ah , vamos numa padaria e sei lá... Eles comem de tudo mesmo! – fez pouco caso. Fizemos um longo caminho até encontrarmos uma padaria num bairro afastado e com pouco movimento, estacionou o carro.
- Acho bom você colocar seu gorro, assim vão te reconhecer e você já sabe... – olhei para minhas unhas.
- Então você também trate de se esconder porque todos sabem quem você é! – ele me deu um selinho e saiu do carro, correu até minha porta e a abriu. De mãos dadas entramos na padaria e logo na entrada, numa prateleira com os jornais mais importantes da cidade eu me assustei ao reconhecer uma foto. Parei rapidamente e me olhou curioso, apontei discretamente para o jornal que estava meio escondido por ser velho a nossa frente, abriu a boca e apertou a minha mão.
Uma foto pequena.
Na primeira pagina.
Quem estava na foto?
Eu!
Na verdade, eu e na saída do hospital. Eu estava sentada numa cadeira de rodas e tinha minha bolsa no colo, cabelo solto e óculos escuros, estava me empurrando e conversava com alguém ao seu lado. A noticia era sobre o meu aborto.
Não quis ler nada, não quis ver mais nada.
Sai da padaria rapidamente e correu atrás de mim, me apoiei no carro e senti lagrimas queimarem meu rosto. Ele se aproximou e me abraçou forte.
- Amor, desculpa por fazer você passar por isso. – ele falou baixinho, nos afastamos e tirou meus óculos e limpou minhas lagrimas, o abracei de novo. Tudo o que eu estava fingindo ter esquecido, todas as imagens e todo o sofrimento voltaram em dobro ao ver aquela foto num jornal. Perdi a vontade pra tudo, meu corpo ficou mole e um elefante começou a sambar em minha cabeça. Comecei a me questionar, eu queria entender porque tudo isso estava acontecendo comigo, eu precisava entender o sentido desse sofrimento interno que aumentava a cada dia. E quando comecei a pensar nas coisas negativas, meus olhos se abriram e eu pude ver logo a minha frente, senti que ele segurava minha mão e me olhava daquele jeito, o de sempre, o jeito dele. Pensei em como ele estava se sentindo, desde que tudo aconteceu, eu mal parei pra perguntar se ele estava bem, eu mal me preocupei com ele quando eu sei que na verdade ele esta sangrando por dentro. Aquela filha era o sonho dele.
O sonho que eu não fui capaz de realizar por ele.
Passei minhas mãos lentamente pelo rosto dele que estava tão quentinho e lentamente o vi fechando os olhos, puxou minha mão e a beijou. Sorri por dentro, limpei as ultimas lagrimas que ainda estavam em meu rosto, coloquei novamente meus óculos.
- Vamos lá, temos alguns animais pra alimentar! – disse sorrindo levemente e o puxei para voltarmos para a padaria. Sua mão estava entrelaçada a minha e eu tentava esquecer o que tinha visto a alguns minutos atrás. Tentava.
Nossos olhos percorriam as prateleiras e apontava para tudo. Peguei uma cestinha e ele logo a encheu com todas as porcarias que tinha por ali.
- Vamos fazer assim, uma pra você – disse autoritário me entregando uma cestinha vazia. Sorri. – E uma pra mim! Pronto, compre o que você quiser e eu compro as coisas vencidas, ok? – ele me beijou na bochecha.
- ! – ele me olhou assustado. – Você acha que eles vão vender produtos vencidos? – perguntei séria e ele ficou pensativo.
- Talvez eles se contentem com cerveja e chocolates... – ele disse enquanto colocava vários chocolates na cestinha.
- Até parece a primeira vez que eles vão em casa! – resmunguei e riu.
- Boa tarde, posso ajudar? – uma moça de estatura baixa se aproximou sorridente.
- Boa tarde... – disse vagamente, sua atenção estava nas cervejas.
- Por enquanto esta tudo bem, obrigada – sorri agradecida.
- Eu posso levar até o caixa! – a moça apontou para a minha cestinha cheia de porcarias.
- Pode ser. – lhe entreguei a cesta e a moça sorriu.
- Vai comprar mais alguma coisa? É mais fácil abrir uma padaria só pra você! – brinquei e mostrou a língua, nesse exato momento a moça se aproximou de nós com um sorrio iluminado.
- Eu sabia que conhecia vocês! – ela deixou a cesta no chão e sorriu mais ainda.
Eu e sorrimos levemente.
- , eu não queria te chatear mais preciso falar que peço muito a Deus que vocês superem tudo isso logo e eu sei que vocês terão os filhos mais lindos desse mundo! – me surpreendi com as palavras da pequena moça a minha frente e senti meus olhos arderem e num impulso a abracei, ela retribuiu e quando nos soltamos também a abraçou.
- Obrigada, de verdade! – agradeci enquanto íamos para o caixa, entrelaçou nossas mãos. É assim, uma vez ele me disse que quando nossas mãos estão juntas ele se sente aquecido. Não importa onde estamos ou que estamos fazendo ele sempre procura pela minha mão. ‘Não sei mais andar sozinho’ – é o argumento que ele usa. Eu também não sei mais andar sozinha.
- Boa tarde! – a moça do caixa nos cumprimentou sorridente, concordamos com a cabeça, talvez seja o receio de que mais alguém nos reconheça.
Passamos tudo no caixa, pagamos a conta e a mesma moça de estatura baixa nos ajudou a levar tudo pro carro.

Já em casa, arrumamos as coisas e foi pro banho. A campainha tocou e eu dei um sorriso sincero ao ver meus amigos com algumas flores e balões logo a minha frente.
- Ouuuun, minha linda! – foi a primeira a me abraçar, retribui o abraço com todo o cuidado porque a barriga dela já estava grande. Foi inevitável olhar pra ela e não reparar no brilho de seus olhos, no sorriso iluminado e em sua pele irritantemente perfeita.
- Senhorita ! – foi o próximo, ele me abraçou forte e me olhou sorrindo. Como se me passasse força.
- As minhas bibas chegaram! – entrou na sala rindo. Caminhou até os amigos enquanto secava seu cabelo com uma toalha da NASA.
- ... – se aproximou sorrindo idiotamente e me deu um super abraço de urso, bati em seu ombro e ele me soltou.
e apenas me olharam sorrindo e juntos me abraçaram e depositaram beijos em minha testa. Os amigos, alguém consegue viver sem eles?
Na cozinha, os homens bebiam cervejas e conversavam animadamente sobre inúmeras coisas, eles são rápidos demais e falam sobre varias coisas ao mesmo tempo. Nunca consigo acompanhar e quando penso em fazer algum comentário o assunto já é outro.
- Com licença, preciso ir ao banheiro! – disse de forma engraçada e saiu segurando a barriga.
- Ela vai ao banheiro o tempo todo! – comentou. Todos riram.
- A também – apontou para sua esposa. - É por causa da gravidez. O bebe empurra ou aperta a bexiga e elas precisam fazer xixi o tempo todo. Alguma coisa assim... – completou e no fim de sua frase ele diminuiu o tom.
- Desculpa, ! – disse com cuidado e me olhou com receio como se tivesse lembrado que eu estava ali.
- Me desculpa , não falei por mal... Desculpas! – ele veio até mim e passou a mão pelos meus cabelos.
- Está tudo bem, Judd! Vou ver se a precisa de alguma coisa. – sorri, me olhou carinhoso e eu sai da cozinha.
- Vou com você ! – pegou em meus ombros e caminhamos até o banheiro. bateu levemente na porta.
- , você vive? – perguntou curiosa. Ouvimos a descarga e uma sorridente abriu a porta.
- Faço tanta falta assim? – ela brincou e nós rimos.
- Bobona! – disse.
- , você quer conversar? – ficou séria de repente.
- Não precisa, relaxa! – sorri.
- Eu sei que você quer deitar no meu colo e falar coisas aleatórias. – pegou em minha mão e fomos até meu quarto. Deitamos em minha cama e iniciamos uma conversa sobre um assunto qualquer, de repente percebi que eu não prestava atenção em mais nada além da barriga linda das minhas amigas. Inveja.
Eu estava sentindo inveja.
Meus olhos não se decidiam entre a barriga de ou a da , meus olhos não paravam de reparar em como elas estavam extremamente lindas com aquele olhar maternal. Eu não conseguia parar de reparar na maneira como elas acariciavam a barriga, ou então na maneira como apoiavam a mão nas costas. Meus olhos aos poucos foram queimando e as lágrimas caíram sem que eu fizesse esforço. Meus ouvidos doíam devido a conversa e eu só queria não ter que olhar pra elas. Me incomodava o fato de ver que elas carregavam o que eu tanto quis.
Inveja, inveja.
- ... – me abraçou e logo senti que fez o mesmo. Escondi meu rosto com as mãos, solucei e limpei algumas lagrimas.
- Desculpa, mas ao mesmo tempo em que estou super feliz por ver vocês... Assim! – apontei para a barriga delas. – Eu sinto inveja, entende? Desculpa. – solucei de novo. As duas me olharam compreensivas e novamente me abraçaram.
- Eu não tenho duvidas de que você vai engravidar logo e essa criança vai ser a coisinha mais linda e amada do mundo inteiro! – segurou meu rosto e sorriu.
- Você vai superar, você e o vão passar por isso e eu sei que logo você vai me ligar gritando e espalhando pro mundo que vai ser mamãe. – me abraçou novamente. Eu sorri em agradecimento, eu não precisava falar nada. Elas sabiam que eu estava agradecida por cada palavra e cada demonstração de carinho.
A porta se abriu e um barulho invadiu o quarto. Nossos adoráveis dos.
Os quatro se jogaram em minha cama e um deles falou qualquer coisa idiota fazendo todos rirem. veio até mim e me deu um selinho, em seguida passou a mão pelo rosto como se estivesse limpando alguma lagrima. Ele percebeu que estava chorando. Ele me conhecia como ninguém. Ele me entendia como ninguém. E ele além de tudo me amava como ninguém pensou em me amar.
- Acho digno comermos alguma coisa! – comentou, talvez por se sentir isolado. Só ele não estava casado e isso deveria incomodá-lo.

Ficamos até tarde da noite vendo DVD's, conversando, rindo, os homens bebiam e nós mulheres nos acabávamos com os chocolates. Me distrai por algumas horas, me senti querida, mas mesmo assim era difícil evitar que meu olhar não procurasse pelas barrigas de e . Eles foram embora e levaram o barulho com eles. O silêncio me relaxou.
- Amor, quer tomar um banho? – perguntou tirando o casaco e me olhou de um jeito cafajeste.
- Daqui a pouco eu vou. – fiz pouco caso e fingi não reparar em sua barriga, peitoral, ombros, braços, mãos... Ah, as mãos! veio até mim e me encostou na parede, fixou uma mão em minha cintura e a outra acariciava minha orelha, me beijou. Me beijou exatamente do jeito que eu queria naquele momento. Lento, intenso. Espalmei minhas mãos em seu peito e mordi levemente seu queixo quando ele parou o beijo. Sorrimos.
- Eu vou primeiro pro banho! – dei um tapinha em sua bunda e ele se encolheu de uma forma engraçada. Dei-lhe um ultimo selinho e fui pro banho.
A água quente me fez relaxar, junto com a água eu deixei que toda a minha tensão fosse pro ralo. entrou no banheiro e vi que ele deixou a minha toalha sobre a pia.
- Você sempre esquece! – me mostrou a língua e saiu.
Desliguei o chuveiro, me sequei, escovei os dentes e me olhei no espelho. Me virei de lado e passei minhas mãos sobre a barriga, parei para observar meu colo e nesse instante entrou novamente no banheiro. Em silêncio ele me abraçou por trás e delicadamente beijou meus ombros.
- Vai dormir... – disse entre um beijo e outro. Eu estava arrepiada e um leve sorriso surgiu em meu rosto.
- Boa noite, meu anjo. – o beijei levemente e o deixei sozinho no banheiro, fui até o closet e vesti o primeiro pijama que vi. Me joguei na cama, logo senti meus olhos pesados. Lutei contra eles, queria esperar sair do banho, mas acabei me entregando ao sono.


Capítulo 03

‘Vem mamãe, o papai quer te ver!’
‘Amor você esta linda!’
‘Mamãe me ergue, eu não consigo ver...’
‘Porque você ta chorando?
‘Eu te amo mamãe, não precisa chorar...’


Abri meus olhos num susto, carregava o mundo sobre minhas pálpebras.
O peso de minhas lagrimas era tanto que eu me senti a pessoa mais pesada do mundo.
Meu corpo doía por inteiro e tudo o que eu via era uma pequena menina de cabelos cacheados e sorriso inocente. Fechei meus olhos, fingindo acreditar que aquilo ia passar.

‘Um bicho me mordeu, mamãe’
‘Porque ta sangrando tanto?’
‘Ta doendo mamãe...’


De novo, abri meus olhos num susto maior ainda. Um pesadelo. O pior de todos os pesadelos.
Nenhum fora tão feio e assustador quanto esse.
Minha respiração estava fora do normal, descompassada e cheguei a sentir falta de ar. Coloquei minha mão esquerda sobre o peito, lentamente fechei os olhos e tentei me acalmar.
Sem sucesso.
Lágrimas, uma mais pesada que a outra faziam questão de molhar meu rosto por completo enquanto eu ainda tentava respirar. Empurrei os cobertores para o lado e sai da cama, num impulso olhei pra trás e vi dormindo pesadamente, meu coração doeu. Tateando as paredes - enquanto sentia um elefante dançar axé em minha cabeça – caminhei até o banheiro. Ver o meu reflexo no espelho foi assustador, eu estava feia. Apoiei as mãos sobre a pia e fixei meus olhos no espelho, observando atentamente meus traços, meu cabelo, minha pele, as olheiras, e a expressão cansada.
Era tudo recente? Era.
Eu era fraca? Era.
Eu era medrosa? Também.
Encarei o chuveiro e fiz cara feia. Me rendi e fui para o banho, mais uma vez tentei deixar que tudo de ruim que estivesse habitando meu corpo fosse embora com a água pelo ralo. Fiz desenhos no espelho que ficou embaçado devido o longo banho. Escovei os dentes, sequei os cabelos, arrumei minha franja, passei hidratante e mais alguns desses cosméticos que eu tenho mais raramente uso porque acho desnecessário. Eu estava me sentindo diferente, não sei por quê.
Me enrolei em uma toalha e sai do banheiro, levei um susto ao ver a cama arrumada e sobre ela uma bandeja com algumas coisas coloridas.
- Ah, você já saiu! – entrou no quarto arfando. Seus cabelos estavam molhados e ele usava apenas uma boxer, notei que ele segurava um jornal. Olhei para ele sem entender nada, totalmente boba com a cena.
- Bom dia pra você também! – me aproximei e lhe dei um beijo na bochecha. Ele abriu a boca como se fosse falar alguma coisa, negou com a cabeça e me puxou de volta me dando um selinho demorado. Sorrimos.
- Era pra ser um café da manhã surpresa, eu ia te esperar sair do banho enquanto lia o jornal distraidamente, então você ficaria boba com a cena, se jogaria na cama, comeria tudo o que tem ali – ele apontou para a bandeja – e depois você... ia me encher de beijos. É! – ele gargalhou, jogou o jornal em qualquer canto do quarto e me abraçou. – Bom dia meu anjo! – sussurrou e eu tentei respirar. – Ai meu Deus, que mulher cheirosa! – bagunçou meu cabelo e em seguida enterrou seu rosto em meu pescoço.
- Que coisa mais linda! – fiquei impressionada com a organização das frutas, geléias, torradas, sucos e derivados. O Puxei comigo e juntos sentamos na cama, um de frente para o outro.
- Eu que arrumei tudo... – disse distraidamente enquanto me servia com suco.
- Você é lindo! – o beijei na bochecha e o vi dar um de seus sorrisos abertos.
Todo o tempo fazia brincadeiras engraçadas com as frutas, zoava os nomes e comentava que um dia iria mudar o nome de tudo. Eu só conseguia rir, eu o olhava a todo o instante ainda sem acreditar que tinha alguém como ele ali do meu lado.
- ... – me chamou calmamente, o olhei estranhando a maneira como ele havia me chamado. – Com o que você sonhou essa noite? – ele perguntou cuidadosamente. Meu rosto congelou só de lembrar do pesadelo, eu estava tão bem. Porque aquela sensação ruim tinha que voltar?
- Sonhei com crianças... – disse vagamente, me segurando ao máximo pra não deixar que lágrimas invadissem meus olhos. No mesmo instante acabou com o pouco espaço entre nós e me abraçou forte.
- Quando você quiser podemos ir ao médico de novo, podemos tentar de novo, quando você quiser e sentir que pode fazer isso! – pegou em minhas mãos e olhava firmemente em meus olhos. Dei um pequeno sorriso e ao fechar os olhos senti algumas lagrimas caírem.
- Eu não vou desistir do nosso sonho e eu te prometo que logo vamos ver isso, tudo bem? – sorri e lhe dei um selinho, me segurou pela nuca me impedindo de quebrar o beijo.
- Eu te amo, te amo, não esquece isso... Você sempre vai me ter por perto e nós vamos conseguir! – ele sussurrou ainda com a boca grudada na minha e as mãos firmemente em minha nuca. Concordei com a cabeça ainda sentindo lágrimas molharem meu rosto.
Suas mãos deslizaram de minha nuca para o meu pescoço e levemente tocou meus ombros, seu olhar estava concentrado no caminho que suas mãos percorriam e sua boca estava levemente vermelha. Me aproximei novamente e o beijei. O meu melhor remédio sempre foi ele, tudo nele me faz bem e foi nele que eu encontrei tudo o que eu mais quis em um homem.
- Eu preciso me vestir – disse vagamente e sorriu encarando a ponta da toalha.
- Não acho necessário... – continuou encarando a mesma ponta da minha toalha.
- É necessário, meu amor! – o mordi na bochecha e sai da cama meio sem jeito.
- Tudo bem! – ele levantou as mãos pro alto e fez bico, lhe mandei um beijo e comecei a procurar por alguma roupa. tirou a bandeja da cama e rebolando saiu do quarto.

- Você vai querer ir comigo na Super Records ou tava querendo fazer alguma outra coisa? – entrou no quarto e sentou-se na poltrona ao lado do closet. O olhei indiferente e ele fez cara feia.
- Não tinha nada em mente, posso te acompanhar... – sentei em seu colo e ele sorriu satisfeito.
- Você sabe que eu fico feliz quando você vai comigo, não sabe? – fez sua cara adorável.
- Sei, e você sabe que eu não faço isso com freqüência por causa do meu trabalho e toda essa loucura da mídia. – apertei seu nariz e dessa vez ele fez cara feia.
- Eu entendo, não vou negar que estou feliz com sua ausência no trabalho! – deu um pequeno sorriso e analisou meu rosto. – Você vai comigo até lá, faço o que tenho que fazer e depois almoçamos em algum lugar, depois do almoço podemos fazer o que você quiser, estou disponível. – deu uma piscada.
- Podemos ir ao médico depois do almoço, o que você acha? – não estava planejando fazer isso tão cedo, mas no impulso acabei falando. Me arrependi logo depois que terminei a frase, apertei os olhos e quis sumir ou então retirar a proposta.
- Claro, meu amor! – deu um sorriso iluminado. Ok, já foi e eu não podia voltar atrás. Senti meu coração acelerar só de pensar na possível conversa com o médico. E se eu não pudesse mais ter filhos? E se a próxima gravidez fosse mais arriscada que a primeira? E se eu perdesse mais uma criança? Congelei e a minha atenção estava voltada para os meus pensamentos e meus medos. Senti bater levemente em minha coxa e com o pequeno susto me levantei rapidamente de seu colo. Ele me olhou assustado.
- Eu to bem! – coloquei a mão sobre o peito e andei rapidamente até a cozinha, abri a geladeira e enchi um copo com água, bebi rápido demais e quase engasguei. Senti ao meu lado me olhando preocupado.
- Se você não quiser, não estiver preparada nós não vamos! – ele disse carinhosamente enquanto eu mantinha meus olhos fixos no copo que agora estava vazio.
- Eu quero sim! – disse firme por fora e desmoronando por dentro, não entendia o porquê daquele impulso, não entendia o que estava falando e não tinha idéia do que eu realmente queria. Era tudo um impulso, outro ser tomando decisões por mim.
- Amor, você tem certeza? – me fez olhar em seus olhos e eu confirmei com a cabeça ainda não acreditando que eu estava fazendo aquilo comigo mesma. Eu ainda não tinha superado nada e estava falando que queria ir ao médico e talvez tentar uma nova gravidez. Era loucura total e amor demais.
Olhando nos olhos dele me lembrei porque estava me sujeitando a tudo aquilo, por mais que eu tivesse o apoio dele, por mais que ele pudesse esperar o meu tempo, a minha recuperação, eu tinha na minha cabeça de que eu tinha que ser forte e fazer isso por ele. Por ele e por mim. Claro!
- Eu tenho certeza, depois do almoço você pode ir comigo até a clínica? – perguntei seriamente, tentando transparecer certeza e confiança. Não sei se consegui, me olhava desconfiado.
- Claro que posso amor! Eu só não quero que você se sinta pressionada ou qualquer coisa do tipo. – ele beijou minha testa.
- ... – olhei fixamente em seus olhos e pensei ter sentindo tontura. - Eu quero! – forcei um sorriso.
- Então nós vamos. – me abraçou forte e depositou vários beijou no topo de minha cabeça. Fechei os olhos e me forcei a acreditar que eu estava fazendo a coisa certa. Sim, eu estava fazendo a coisa certa.


Capítulo 04

Acompanhei até a gravadora, ele teria uma curta reunião. Resolvi andar pelo prédio no pensamento positivo de que a curta reunião seria realmente curta. Passei lentamente por várias salas com instrumentos e na porta de algumas dessas salas haviam nomes de outras bandas que a gravadora apoiava, havia salas com pessoas tocando ou apenas conversando. Todos me cumprimentavam e eu abria um leve sorriso. Minha bota de salto alto e fino fazia um barulho irritante a cada passo que eu dava, eu carregava minha bolsa roxa nas mãos apenas pra ter que ocupá-las com alguma coisa, quando não estava com as mãos entrelaçadas com as de eu sentia necessidade de segurar alguma coisa, simplesmente não conseguia andar com as mãos livres.
- Bom dia, senhorita ! – Amy a secretaria sorriu singelamente para mim. Abri a boca para responder e no mesmo instante o telefone tocou, ela fez sinal para que eu esperasse e eu apenas concordei vendo-a simpaticamente atender ao telefonema, me aproximei de sua mesa e coloquei minha bolsa sobre a mesma.
Fiquei inquieta.
Peguei novamente minha bolsa e fui até um cantinho onde se encontrava água, café, bolachinhas e coisinhas pequenininhas que não iam fazer nem cócegas no meu estomago.
Fiquei apenas na água.
Voltei para perto da mesa de Amy e ela sorriu finalizando a ligação.
- Bom dia, Amy! – sorri amigavelmente e ela se levantou de sua confortável cadeira para me dar um leve abraço e um beijo em minha bochecha.
- Esperando o maridão? – brincou voltando a se sentar.
- Não tive outra escolha! – dramatizei e ela sorriu.
- Você quase não vem aqui mais, parece que te conheço há tanto tempo... – Amy disse vagamente enquanto fazia alguma coisa no computador. – Acho que é porque sempre que seu maridão entra por essa porta – ela apontou a porta atrás de mim – Sempre acabo ouvindo seu nome saindo da boca dele, é engraçado! – ela sorriu me olhando. Pensei por alguns segundos e sorri também, a verdade é que eu nunca tenho o que responder pras pessoas quando elas fazem comentários desse tipo.
- A verdade é que os meus horários são estranhos, por isso não venho com freqüência. Mas adoro esse lugar! – não que meus horários fossem realmente estranhos, não que eu não gostasse de ir lá, apenas não me sentia bem quando chegava com e sempre tinha que passar por alguma situação constrangedora como fotógrafos sem noção, perguntas indiscretas e fãs histéricas que batiam ponto diariamente na porta da gravadora. vive nesse mundo há anos, portanto sabe lidar com isso e sempre tem respostas boas pra qualquer tipo de pergunta, ao contrario de mim que tem um certo receio de multidão e odeia estar em lugares onde não se conhece nem metade das pessoas que estão presentes.
Amy sorriu com a minha resposta, passei meus olhos por uma parede e lá tinham dezenas de fotos de vários artistas, me aproximei e sorri com uma foto de , , e juntos com bebidas nas mãos e sorrisos idiotas no rosto.
- Eu to chegando, já to aqui no hall! – me virei a tempo de ver desligando o celular meio desesperado e andando desengonçadamente segurando o pequeno braço de uma criança que logo eu reconheci. Ri discretamente e ele quase passou batido por mim.
- Hey! – coloquei as mãos na cintura.
- O que? Tipo assim, aqui na gravadora? Não acredito! – ele se aproximou e me deu um forte abraço. O pequeno menino me olhava discretamente enquanto segurava firme no cós da calça de .
- Bobão! – baguncei seu cabelo e ele bufou, sorri olhando para o menino que retribuiu com um pequeno sorriso. – Estou esperando o , ele tem uma pequena...
- Reunião! – completou minha frase e em seguida gargalhou. – Puts, eu to cuidando do Steve por uns dias enquanto a minha irmã faz uma pequena viagem de lua-de-mel – o menino olhou atento para – Então, percebeu que sobrou pra mim, né? Tenho que carregá-lo comigo o tempo todo, tenho que lembrar de dar comida pra ele quando na verdade eu não lembro nem que eu tenho que comer! Enfim... Acabei perdendo a hora, acho que vão querer me matar! – ele passou a mão pelos cabelos meio agoniado.
- Idiota, então corre... Faz pouco tempo que eles começaram! – bati em seu ombro e ele me beijou na bochecha, acenou para Amy e correu em direção ao elevador esquecendo o menino logo atrás, ele procurou pelo menino e voltou até onde eu estava.
- Puta merda, ele quase não fala e eu esqueço que ele ta comigo! – se deu um tapa na testa e eu gargalhei. parou por um segundo e olhou de mim para Steve, de Steve para mim.
Tremi só de pensar no que ele podia me pedir.
- ! – o chamei um pouco alto, ele piscou varias vezes como quem sai de um transe e sorriu. – A reunião... – apontei para o elevador brincalhona.
- , posso te pedir um imenso favor? – ele me pediu inseguro, pronto, era tudo o que eu não queria. Apenas confirmei com a cabeça e olhei para Steve que segurava firmemente a mão do tio. – Você pode ficar com ele enquanto eu estiver lá dentro? Ele nem fala muito, não é hiperativo, mas não é muito certo levá-lo nessa reunião. Por favor? – encolheu os ombros e novamente olhei para Steve que tinha os olhos fixos em mim.
- Tudo bem, vai lá! – sorri amigavelmente e me abraçou agradecendo.
- Escuta aqui, moleque... – ele se abaixou e ficou na altura de Steve – Se comporta porque o tio não vai demorar e cuida da tia se não o tio mata a gente, beleza? – ele bagunçou o cabelo do pequeno menino. Steve sorriu concordando e me olhou com os olhos brilhando. se levantou as pressas e foi em direção ao elevador. – , muito obrigado e já eu volto! – ele acenou já dentro do elevador, Steve procurou pela minha mão e a segurou fortemente. Agora que eu tinha uma mão ocupada coloquei minha bolsa sobre os ombros e pensei no que faria com aquela criança.
Olhei meio desesperada para Amy e ela sorriu, se levantou de sua cadeira e veio até nós dois.
- E ai Steve, ta com fome? – ela perguntou divertida, Steve me olhou e ficou quieto.
Olhei estranhamente para Steve e ele olhou de volta para Amy.
- Tá com fome mocinho? – Amy repetiu a pergunta e novamente Steve me olhou. Estranhei sua reação. Balancei levemente a mão dele.
- Você quer comer alguma coisa? Podemos comprar sorvete, doce ou um refrigerante... – me abaixei para que eu pudesse falar com ele tendo contato visual.
- , você vai intoxicar o menino desse jeito! – Amy alertou sorrindo.
- Até onde eu sei crianças gostam dessas coisas, oras! – dei de ombros.
- Não to com fome, tia. – Steve finalmente falou e eu pude ouvir sua voz baixinha e doce. Meu coração ficou mole.
- Tudo bem então, o que você quer fazer? – perguntei ainda olhando em seus olhos e Steve pensou um pouco fazendo Amy sorrir.
- Eu te levo! – Steve me puxou pela mão me fazendo levantar rapidamente e quase tropeçar, Amy voltou para sua mesa e nos deu tchau, Steve foi até o elevador e quando entramos, ele apertou o botão do terceiro andar.
- Onde você tá me levando? – perguntei curiosa sentindo Steve apertar minha mão. Ele sorriu sapeca e fez um ‘shiiiiu’ com o dedo indicador, entortei a boca e concordei.
A porta do elevador se abriu a nossa frente e Steve saiu primeiro que eu ainda me puxando pela mão. Passamos por um pequeno corredor e logo ele parou em frente a uma porta de vidro, pude ver que naquela sala tinham vários instrumentos, fios, papéis, e um monte de aparelhos que eu tinha medo de quebrar.
- É aqui, tia! – ele abriu a porta, soltou a minha mão e foi correndo na direção do primeiro violão que viu. Sorri levemente.
Steve era sobrinho de e tinha seis anos, quando o conheci ele já tinha seus dois anos e alguns meses, ele era o mascote da banda e sempre andava com o tio ou os outros meninos. Não era impressionante ver que aos cinco anos ele já tocava violão, afinal, convivia com aquilo diariamente. Super normal ele ter criado gosto pela música.
Steve se sentou em um banco e com cuidado (e certa dificuldade) ajeitou o violão sobre as pernas, começou a dedilhar algumas coisas. Puxei outro banco e me sentei de frente para ele, sorri quando reconheci a introdução. Steve pausou e me olhou.
- Tia, por enquanto eu só sei tocar as musicas antigas do tio, ele ainda não teve tempo pra me ensinar as novas, você quer ouvir? – Sorri largamente e concordei. Ele tinha mesmo seis anos?
Sorri novamente quando ele começou a dedilhar a introdução de Five Colours In Her Hair, o primeiro sucesso da banda do tio. Steve cantava prestando muita atenção em suas mãos e apertava os olhos quando errava alguma coisa, para ajudá-lo cantei cada estrofe com ele.
Quando ele estava terminando de tocar alguma música que aprendeu na escola eu senti meu celular vibrando dentro da bolsa que estava no meu colo, fiz um sinal e Steve sorriu, me levantei da cadeira e fui até um canto da sala para atender o celular.
- Alô! – disse normalmente, não tinha visto quem era no identificador.
- Amor? – ouvi a voz de meio receosa do outro lado da linha. – Onde você está? O Steve esta com você? Tá tudo bem? – ele me encheu de perguntas e eu sorri.
- Hum... – pensei um pouco e ouvi fazer um barulho estranho com a boca. – Estou com o Steve no terceiro andar da Super Records em uma sala com a porta de vidro, nós estamos bem e ele estava tocando violão. - sorri levemente.
- Ai que susto! – ouvi um leve suspiro. – Bom, a reunião acabou agora a pouco se vocês quiserem já podem descer, esperamos vocês no estacionamento.
- Tudo bem então, beijos! – sorri e desliguei o celular. Voltei até onde Steve estava e coloquei minha bolsa no ombro.
- Seus cinco minutos de fama acabaram Steve, temos que ir embora. – fiz bico e o menino simplesmente sorriu concordando, se levantou e guardou o violão no mesmo lugar que estava antes e veio até mim segurando firme em minha mão.
Saindo do elevador, pude ver conversando com os outros meninos da banda próximos ao nosso carro.
- Você toca muito bem, sabia? – sorri para Steve bagunçando levemente seu cabelo liso.
- Tio me disse que eu toco bem porque foi ele quem me ensinou! – ele disse metido.
- Seu tio é um convencido, isso sim. – falei um pouco mais alto.
- Como é? - se virou me olhando feio.
- É o que você ouviu e ponto final! – me aproximei sorrindo, mostrou a língua e me deu um selinho.
- Steve, a cuidou bem de você? – agachou na altura do menino como se estivesse checando o corpo do pequeno. Steve concordou sorrindo ainda segurando em minha mão. Dessa vez, eu mostrei a língua para .
- Olá meninos! – acenei sorrindo, e fizeram o mesmo. procurou pela minha mão e fez uma cara surpresa ao ver que Steve a segurava. Sorri.
- Hey pequeno, que tal trocarmos? – propôs e Steve o olhou curioso. – Você me dá a mão da tia e eu te dou a mão do tio , o que você acha?
- Até parece que a minha mão é sua. – resmungou.
- A sua não, mas a da é! – Steve soltou minha mão e juntou com a de e foi para perto do tio. sorriu superior e beijou minha bochecha.
- , ele se comportou super bem mais não quis comer nada! E trate de ensinar as musicas novas da banda pra ele! – pisquei.
- Pode deixar, aliás ele deve estar atrasado pra alguma das milhões de aulas que o coitado tem durante o dia, minha irmã é louca! – pegou Steve no colo e mordeu a bochecha do menino, no mesmo instante olhei para que tinha um brilho no olhar ao ver a cena.
- Eu estou indo, a marcou um almoço com a mãe dela e eu tenho que ir. – fez uma cara de nojo e gargalhou em seguida, de um abraço meio gay em todos e me beijou na bochecha. – Tchau! –acenou e andou até seu carro, buzinou quando saiu do estacionamento.
- E aí moleque, vamos comer porcarias e depois ver revista de mulher pelada, tomar cerveja e fingir que você estava doente pra não ir a aula de sei lá o que? – cochichou no ouvido de Steve, mas mesmo assim nós ouvimos. Dei um leve tapa no ombro dele e Steve gargalhou.
- Eu vou contar pra mãe dele! – o alertei e os dois fecharam a cara.
- Tá bom, vamos comer uma comida super saudável, você vai tomar banho e eu te levo na aula que eu ainda não lembro do que é, certo Steve? – piscou para o menino de um jeito sapeca e Steve concordou. ainda olhava para os dois com um brilho nos olhos.
- Seja lá o que vocês vão fazer eu vou com vocês, estou sem esposa hoje. – deu de ombros, o olhei assustada. – A passou a manhã na academia e a tarde vai na casa da irmã, só vou vê-la a noite! – ele se explicou e eu sorri.
- Tchau, casal. – acenou e Steve fez o mesmo, os seguiu até o carro de .
me puxou pela cintura e me beijou.
- Agora, nós vamos almoçar! – me beijou na testa e abriu a porta do carro pra mim.
Meu estomago gelou. Depois do almoço nós íamos até a clinica para conversarmos com o meu médico. Perdi a fome só de lembrar e minha cabeça ficou uma bagunça, milhões de perguntas se formavam, milhões de duvidas apareciam do nada, insegurança, medo, muito medo.

Entramos no restaurante de mãos dadas e logo na entrada a recepcionista nos mostrou uma mesa disponível, agrademos e caminhamos até lá. Nos sentamos, fizemos nossos pedidos, conversamos, rimos, almoçamos e mesmo depois de tudo isso eu ainda me sentia estranha, com uma insegurança e um medo imenso. Pagamos a conta e quando estávamos nos aproximando do carro parou e fez com que eu o olhasse nos olhos.
- Você quer mesmo ir à clinica? – ele colocou as mãos em meu rosto, eu olhei para o chão e ele levantou meu rosto. Sua expressão era de preocupação, sua boca estava entreaberta e seus olhos me olhavam com uma intensidade muito grande.
- Eu quero! – respondi docemente, sorriu levemente e abriu a porta do carro pra mim.
Era a verdade. Eu queria ir até a clinica, eu queria conversar com o meu médico, eu queria fazer milhões de perguntas, queria tirar milhões de duvidas. Eu precisava saber se eu poderia engravidar novamente. Eu precisava saber, mas o receio que eu sentia em pensar na possibilidade de não poder mais engravidar era muito grande. Eu estava fazendo aquilo por ele e apenas por ele. Eu estava fazendo aquilo por ele e pelo meu medo de perdê-lo pra alguma mulher que pudesse dar a ele aquilo que eu não consegui dar: filhos. Medo de perder nos torna cegos, loucos. E o impulso fala mais alto tão alto que fere as pessoas. E eu estava me ferindo demais em ter que fazer isso.


Capítulo 05

O ar gelado ficou preso do lado de fora assim que entrei com ao meu lado na clinica e a porta se fechou atrás de nós. Agora eu podia ver com calma cada canto daquele lugar, da última vez que estive ali eu não era capaz de enxergar nada além de borrões a minha frente devido as minhas lágrimas. Uma sensação estranha me invadiu e vários flashes brigavam entre si para aparecer primeiro em minha mente. Passei meus olhos pelo pequeno hall de entrada onde havia dois sofás em tons claros com uma pequena mesa de vidro logo no centro que serviam de apoio para as revistas de fofocas sobre a vida das celebridades alheias. Eu não era exatamente uma celebridade, mas meu marido era e a última coisa que eu queria era ver meu rosto estampado nessas revistas escrotas, seja lá qual fosse a fofoca. Não queria.
- Boa tarde. – a voz da recepcionista me despertou fazendo com que eu virasse para lhe olhar.
- Boa tarde. – respondeu gentilmente. Inquieta e com a bolsa sobre meu ombro direito comecei a bater a ponta do salto da minha bota sobre o piso branco da clinica formando um baralho quase inaudível. Só eu ouvia a minha inquietação.
Só eu.
- Vocês têm horário marcado? – a recepcionista perguntou atenciosa e eu virei meu olhar para os sofás e as poucas pessoas que aguardavam sua vez para serem atendidas ali sentadas e distraídas com as revistas de fofocas. Entortei a boca e bati a ponta do meu salto com um pouco mais de força, uma mulher me olhou de relance e eu virei o rosto. apertou minha mão.
Normal, ele me conhece.
- Na verdade não, mas eu liguei durante a manhã para o doutor Michael e ele está nos esperando! – fez uma cara típica de quem tem poder e a moça anunciou nossa entrada pelo telefone. Fixei meus pés ali onde estava e ninguém iria me tirar dali. saiu andando e ao perceber que eu não fui junto olhou para trás com uma interrogação no rosto.
Fechei os olhos rapidamente pensando que aquele ato me levaria para qualquer outro lugar no mundo.
Idiota!
- Amor? – se aproximou e depositou uma mão em minha cintura. Me senti mais segura quando ele encostou em mim, pisquei algumas vezes e balancei a cabeça negativamente.
Eu não era mais uma criança. Já tinha passado por tantas coisas na vida que uma visita ao médico eu iria tirar de letra.
Assim eu esperava.
- Vamos. – dei um leve sorriso e me abraçou pelo ombro e caminhamos juntos até a sala do meu médico. No pequeno trajeto meus pensamentos se bagunçaram novamente e eu senti vontade de correr pra minha casa. Senti acariciando meu ombro e a vontade de fugir foi embora.
Juntos, demos dois toques na porta e beijou minha testa. Pronto, eu estava preparada para qualquer coisa.
A porta branca se abriu a nossa frente e um rosto conhecido apareceu.
- Olá jovens! – doutor Michael nos cumprimentou, e sorridente fez sinal para que sentássemos.
- Olá! – eu e respondemos praticamente juntos e todos sorriram de leve. Sentei na confortável cadeira branca – mas que naquele momento não me parecia nada confortável - e coloquei minha bolsa sobre minhas pernas, fixei minha mão em alguma parte da bolsa e fingi muito interesse naquilo. pegou minha mão esquerda e fez sinal para que eu olhasse para frente. Xinguei meu marido mentalmente e encarei o doutor Michael.
- Como você está, ? – ele me perguntou atencioso. Aquela pergunta soou estranha porque eu mal sabia como responder. Apertei minhas unhas na mão de como se aquilo fosse fazer com que eu me livrasse daquela pergunta.
- Estou bem. – respondi sem expressão nenhuma. O médico entortou a boca e cruzou as mãos sobre a mesa. Ok, eu não estava sendo a pessoa mais simpática do mundo e eu sabia disso.
Mas eu tinha os meus motivos!
- Doutor Michael! – o chamei num tom mais alto que o normal, ele me olhou novamente. – Eu só quero saber uma coisa... – falei um pouco mais baixo com o olhar perdido entre tantos objetos maternais que tinha naquela sala.
Eu precisava ser direta.
Aquilo era tortura demais, então porque eu teria que enrolar pra no final a pergunta ser a mesma?
Ele me olhou como quem diz ‘prossiga’.
– Quando vou poder engravidar novamente? – vomitei aquela que pareceu a frase mais longa que eu já disse em toda a minha vida. me olhou com um brilho no olhar e aquilo me confortou, um pouco. Só um pouco.
Qualquer coisinha que ele fizesse era motivo para que eu me sentisse confortável, segura. O médico me olhou cuidadosamente e respirou fundo.
Eu não tinha tanta certeza se estava realmente preparada para qualquer coisa.
- ... Você pode engravidar novamente, sim! – ele sorriu levemente. Senti apertando minha mão com certa força, o olhei rapidamente e ele tinha um sorriso singelo e esperançoso, voltei minha atenção para o médico. – Você sofreu um aborto espontâneo, mas isso foi um acidente, passou por situações complicadas durante a gravidez que eu avisei que seria de risco e infelizmente isso resultou na perda do bebê. – ele foi cauteloso com as palavras e aos poucos eu relaxei meus ombros. – Você perdeu muito sangue e ainda está um pouco fraca. – fechei meus olhos e concordei com a cabeça. – Eu vou te passar uma dieta e você terá que segui-la a risca! Aliás, nós deveríamos ter tido essa conversa no mesmo dia em que tudo aconteceu, era a coisa mais certa a se fazer. – eu não vi, mais senti os olhares do médico e de sobre mim. – Você terá que ficar de quinze a vinte dias sem relações sexuais e...
- Vinte dias? – perguntou incrédulo, abri meus olhos rapidamente.
- Sim, é pelo bem dela! Eu cometi um erro gravíssimo quando dei alta para ela sem ter conversado com vocês. – o médico apontou para mim e me olhou ainda incrédulo, sorri levemente. Doutor Michael deveria estar pensando que nós dois só sabíamos tentar fazer filhos.
Nós sabíamos como fazer filhos e fazíamos aquilo com certa freqüência, mas nunca – da minha parte – com a intenção de realmente ter um filho.
- É muito tempo... – resmungou, dei um leve tapa em sua perna.
- Olha o drama, ! – disse com uma expressão totalmente séria, resmungou mais alguma coisa e nós voltamos às atenções para o médico. Ele sorriu.
- Aqui está a sua dieta e o nome de alguns compridos que você devera tomar durante o dia só por uma semana! – ele me entregou um pequeno papel com uma caligrafia torta e feia, sorri fracamente. – Mais alguma dúvida? – ele acrescentou, olhei para e ele deu de ombros. Mordi o canto da boca.
- Acho que não... – respondi baixinho.
- Ah, estava me esquecendo! – doutor Michael falou num tom mais alto quando eu e já estávamos levantando, o olhei atenciosa. – Você pratica algum esporte? – ele perguntou em pé, com os braços cruzados.
- Vou à academia três ou quatro vezes por semana. – dei de ombros e mexeu em meus cabelos.
- Vou te recomendar só mais uma coisa. – ele se aproximou – Caminhe! Aproveite que estamos na primavera e faça caminhadas, nem que seja duas voltas no parque um dia sim e outro não, apenas caminhe e você irá me agradecer! – esticou sua mão para me cumprimentar e eu fiz o mesmo com um pequeno sorriso no rosto. deu um daqueles abraços de homens e acenamos antes de fechar a porta.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! – deu um grito assim que saímos da clinica e sentimos um vento levemente frio. Ele me olhou com o rosto iluminado, um sorriso rasgado e um brilho no olhar que me deixou tonta. – Eu saaaaabia! – ele disse um pouco mais baixo, me pegou pela cintura e me girou no estacionamento me segurando firmemente com seus braços. Ele me girou no ar como um adulto gira uma criança, aquele era o instante que eu esperava, o momento que eu mais queria. Me girou até quase perder o ar, me colocou no chão e nós dois estávamos meio tontos e rindo demais.
Definitivamente eu estava preparada para qualquer coisa.
- Meu anjo! – ele me olhou ainda sorrindo largamente e depositou beijos por todo o meu rosto, suas mãos estavam em meu pescoço e as minhas seguravam firmemente o cós de sua calça. Ele parou de me beijar e me olhou da maneira mais carinhosa possível. Era o mesmo olhar que ele tinha quando me pediu em namoro, o mesmo olhar que eu vi quando tivemos a nossa primeira vez, o mesmo olhar que ele tinha todas as vezes que dizia que me amava, o mesmo olhar que eu vi no altar, o mesmo olhar que eu vi durante a nossa lua-de-mel, o mesmo olhar de todas as manhãs acordando ao meu lado, o mesmo olhar carinhoso e alegre do dia em que ele descobriu que seria pai. Aquele olhar carinhoso que era só dele e que ele só olhava daquele jeito para mim.
Nos beijamos calmamente com o leve vento frio passando por nós, nos beijamos com todo o amor reprimido, com toda a dor dos últimos dias e com toda a alegria dos últimos minutos, nos beijamos com toda a vontade de tentar de novo.
Era impossível não sorrir, eu estava feliz demais, eu estava completa e pronta pra tudo.
Nos afastamos ainda com os sorrisos bobos no rosto e me abraçou forte, passando as mãos pelos meus cabelos enquanto eu o arranhava levemente nas costas. Mesmo sem ver eu podia sentir que ele sorria, senti que ele estava aliviado por me ver feliz, senti que ele estava feliz por saber que poderíamos tentar de novo.
Há emoções que as palavras não sabem traduzir. Apenas seu coração...


Capítulo 06

O amor só é lindo quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser. O jeito que ele me olha é que me inspira e desgoverna e quando virei meu rosto vi meu sorriso nos lábios dele.
- Tão cheiroso... – disse docemente, me aproximei, o abracei, depositei minhas mãos nos bolsos de sua calça e mordi seu queixo.
- E todo seu... – ele falou baixo e apontou para o seu próprio pescoço enquanto tinha um sorriso sapeca nos lábios.
- Se eu fizer o que eu quero as fotos dessa sessão não vão ficar legais... – fingi estar pensando. – teria umas marcas roxas no pescoço de um certo integrante de uma bandinha... – continuei e gargalhou, não que eu fosse uma palhaça ou algo do tipo, mas ele era o único que gargalhava das coisas mais inúteis que eu falava.
- Amor, eu não sei se você já sabe, mas já inventaram cachecol! – ele sorriu largamente e exibiu seu pescoço, ainda apontando com o dedo como se estivesse mandando eu fazer aquilo que eu queria e que na verdade ele também queria.
- Verdade... – disse vagamente me afastando dele, ouvi um leve gemido de irritação e sorri indo até o closet. Sorri sozinha quando encontrei um cachecol azul escuro com cinza e preto, usava uma calça jeans preta com listras brancas que eram praticamente invisíveis, mas estavam lá, um cinto cinza da Hurley, uma camiseta branca com uma jaqueta de couro num tom marrom, tênis Vans e cabelos molhados com jeito de quem não faz questão de pentear. Irritantemente lindo ao extremo. ( Hanging By A Moment – Lifehouse )
Voltei para o quarto e o encontrei sentado na cama vendo alguma coisa no celular, me aproximei lhe dando um longo selinho, joguei seu celular em algum canto da cama e ajeitei o cachecol em seu pescoço. Ele me olhou indignado, como se estivesse esperando por alguma coisa. Sorri indiferente e o deitei na cama, apoiei uma mão de cada lado e encaixando minhas pernas me aproximei dele, abri sua jaqueta e lentamente passei minhas unhas grandes e bem lixadas por sua barriga e fui subindo até chegar em seu peitoral. fechou os olhos e apertou os lábios.

I'm falling even more in love with you
Estou me apaixonando cada vez mais por você
Letting go of all I've held onto
Deixando para trás tudo ao que eu havia me apegado
I'm standing here until you make me move
Estou aqui parado até que você faça eu me mover
I'm hanging by a moment here with you
Estou aqui por um momento com você.

Enquanto admirava cada traço de seu rosto lentamente tirei o cachecol que eu tinha acabado de colocar nele e fiz um leve carinho em sua nuca. Passei meus dedos por todo o seu rosto, contornei seus olhos e arrumei os pelos de sua sobrancelha, deslizei minhas mãos até sua orelha e brinquei com o lugar onde até um tempo atrás tinha um alargador.
Me aproximei de sua boca e depositei um leve beijo, lentamente fui descendo até seu pescoço e num canto próximo a gola de sua camisa eu apertei meus lábios.
tinha suas duas mãos fixas em minhas coxas e ele mal se mexia, apenas apertava os olhos e suspirava lento e longamente.
Olhei orgulhosa para a marca que eu tinha deixado naquele canto de seu pescoço e mirei o outro canto, um pouco mais acima. sorriu debilmente e voltou a apertar os lábios assim que eu apertei os meus contra o outro canto de seu pescoço, ele deslizou suas mãos por minhas pernas como se estivesse a arranhando.

Forgetting all I'm lacking
Esquecendo tudo o que necessito
Completely incomplete
Completamente incompleto
I'll take your invitation
Eu aceitarei seu convite
You take all of me now
Você pega tudo de mim.

Olhei orgulhosa novamente para a quarta, quinta, sexta ou sétima marca que eu havia deixado no pescoço de e quando me aproximei para deixar outra num impulso rápido ele me virou na cama e colocou suas pernas entre meu corpo na mesma posição que eu estava antes.
- Minha vez! – ele disse sorrindo de um jeito meio cafajeste acompanhado por um olhar fofo.
Me encolhi na cama e previ que a sessão tortura iria começar para mim. Pescoço é o ponto fraco da maioria das pessoas, mas não era o meu ponto fraco, eu simplesmente sentia cócegas quando alguém fazia qualquer coisa nessa parte do meu corpo.
E ele sabia disso.
Quando encostou os lábios no meu queixo, abriu sua boca lentamente e me mordeu eu senti todos os meus pelos arrepiarem. Ele sorriu contra o meu queixo e levantou os olhos para mim, ainda com um olhar que ficava entre o cafajeste e o fofo e mordeu meu queixo com um pouco mais de força e lentamente escorregou para o meu pescoço. Me encolhi e apertei minhas mãos em seus braços, ele riu abafado e apertou seus lábios contra o meu pescoço.

I'm living for the only thing I know
Estou vivendo para única coisa que eu conheço
I'm running and not quite sure where to go
Estou correndo e não tenho muita certeza para onde ir
And I don't know what I'm diving into
E não sei no que estou me metendo
Just hanging by a moment here with you
Apenas aqui por um momento com você.

O pescoço já não era o alvo principal de e eu já estava prestes a tirar as roupas dele e esquecer que eu estava de jejum sexual. O celular dele começou a tocar me fazendo xingar mentalmente o mal comido que estava atrapalhando aquele momento.
- Ô merda! – bufou e saiu de cima de mim, passou os olhos pelo quarto procurando pelo celular, dei de ombros e suspirei olhando para o teto. – Oi? – ele finalmente atendeu e sua respiração estava meio lerda. – Ai, droga! – ele se deu um tapa na testa. – Eu sei, eu sei, eu não esqueci, sim, eu sei, porra! Só me atrasei por alguns... – ele olhou o relógio e abriu a boca num susto – muitos minutos, logo eu chego! – desligou o celular rapidamente e correu até o banheiro. – , , , , amor, amor da minha vida o que você fez comigo? – ele voltou para o quarto com desespero na voz enquanto apontava freneticamente para o seu pescoço. Gargalhei e fui até ele, dei um selinho.
- Não sei se você já sabe, mas já inventaram o tal do cachecol. – repeti sua frase calmamente arrumando o cachecol em seu pescoço que tinha inúmeros roxos e vermelhos. Ele me olhou num desespero e sorriu levemente.
Observei com mais calma e percebi que o pescoço dele estava meio... Feio?
Sim, feio.
Minha mãe sempre falou que chupões no pescoço era coisa de puta. No caso, era a puta.
- Eu não acredito que vou passar dias usando cachecol em plena primavera, amor, você acabou comigo! – ele encostou sua cabeça em meu ombro. Sorri levemente. – Oh Deus, preciso ir ou eles me capam! – fez um leve drama.
- Vai logo e não tire isso do pescoço por nada! – apontei para o cachecol, me aproximei e lhe dei um curto beijo, ajeitei seu cabelo. Acompanhei até a porta, ele estava inquieto com aquela coisa em seu pescoço. – Fique no mínimo lindo nessas fotos e eu te amo. – um último selinho antes dele sair do apartamento.

Fechei a porta e encostei meu corpo nela enquanto sorria idiotamente meus olhos passaram pelo relógio fazendo com que eu me assustasse com o horário. Fui até o armário da cozinha e de lá tirei o último comprimido, com um pouco de água o engoli e senti-o preso na minha garganta, tossi de leve e bebi um pouco mais de água. Pronto, eu estava livre de pelo menos uma coisa.
Voltei para o quarto e fui até o closet procurando por uma roupa leve para a minha caminhada do dia. O médico pediu que eu caminhasse pelo menos três vezes por semana, mas eu sou teimosa e estou caminhando todos os dias, exceto nos fins de semana. Aproveitava para caminhar nos horários em que não estava em casa, o que normalmente acontecia do fim da tarde em diante e por ainda estar afastada do trabalho a caminhada se tornou algo útil pra fazer enquanto estava sozinha.
Fechei o fino casaco e no caminho até a sala peguei um elástico e prendi meu cabelo no alto, peguei meu iPod que estava ao lado da TV e o prendi no casaco, coloquei os fones no ouvido e deixei que qualquer música tocasse enquanto eu trancava o apartamento e ia em direção ao elevador.
As ruas tinham um movimento um pouco mais intenso que o normal por ser fim de tarde e o sol estava fraco deixando o céu entre o azul e o laranja. Entrei em uma padaria e comprei uma garrafinha de água, não que eu fosse sentir muita sede, eu comprava água apenas para ter alguma coisa para segurar. Acelerei o passo e fui em direção ao parque. Parei próximo ao pequeno lago artificial e usei algumas barras que tinham ali para me alongar. Olhei no relógio e marquei o horário mentalmente, coloquei os óculos escuros e sai andando.
Senti alguém puxando a barra do meu casaco e rapidamente me virei a tempo de ver Steve praticamente correndo enquanto tentava me acompanhar na caminhada. Pausei a música e agachei para ficar na altura dele, Steve colocou as mãos nos joelhos e bufou visivelmente bravo.
- Tia, você anda muito rápido! – ele deu um tapinha nos próprios joelhos. Sorri negando com a cabeça e o beijei na bochecha.
- Porque você não me chamou? Eu simplesmente iria parar e você não precisaria correr atrás de mim. – ajeitei seu cabelo.
- Tia, eu te chamei, mas você ta com essa coisa no ouvido – ele apontou para o iPod - E não ouviu nem quando o papai te chamou! – ele me respondeu indignado. Criança fingindo estar brava é lindo! Olhei rapidamente para o iPod e conferi o volume, realmente estava alto.
- Desculpa? – perguntei com um bico.
Steve não respondeu. Se jogou nos meus braços e me deu um abraço forte. Seus pequenos braços em volta do meu corpo fizeram com que eu me sentisse bem com o gesto dele.
- Hey, ! – Josh, pai de Steve apareceu sorridente com um violão em mãos. Steve me soltou e olhou sorrindo para o pai.
- Oi, Josh! – me levantei e o cumprimentei. Desliguei o iPod. - Vocês estão passeando? – iniciei uma conversa, abri a garrafinha que estava em minha mão e dei um pequeno gole.
- Sim, hoje eu não vou ao restaurante então tirei a tarde pra ficar com o pirralho. – Josh mexeu no cabelo de Steve. Josh era dono de um dos restaurantes mais badalados da cidade, um lugar muito aconchegante, com uma comida divina e que era freqüentado por pessoas importantes. – E você?
- Ah, eu estou apenas caminhando! – respondi amigavelmente. – Recomendações médicas. – revirei os olhos e Steve gargalhou, outro que ri das coisas idiotas que eu falo.
- E pelo visto você tem seguido as recomendações a risca! Você esta ótima, . – ele sorriu e apontou para o meu corpo.
Er.
- Obrigada. – sorri levemente e desviei o olhar para o lago.
- Só precisa cuidar com o volume desse brinquedinho, nós te gritamos e você sequer virou o rosto para o lado. – ele disse descontraído. Meus ombros relaxaram e eu sorri abertamente olhando para o ‘brinquedinho’ que estava preso no meu casaco.
- Já pedi desculpas para o Steve! – apontei para o menino e ergui as mãos para o alto.
- Ela ta desculpada, pai! – Steve se aproximou de mim, depositei minhas mãos em seus ombros.
- Aproveitando a oportunidade, você já não quer fazer aquele convite filho? – Josh piscou para o menino.
- Que convite? – inclinei a cabeça de Steve para cima para que ele pudesse me ver, ele sorriu sapeca.
- Tia, você vai na minha festa de aniversario? – ele perguntou com brilho nos olhos devido as últimas luzes do sol. Sorri levemente pela maneira doce que ele fez o convite.
- Quando vai ser essa super festa? – perguntei empolgada.
- Quando vai ser, papai? – ele perguntou em dúvida e nós rimos.
- Daqui duas semanas, – Josh respondeu sorrindo e eu concordei.
- Ok, se vai ser daqui duas semanas é porque provavelmente a agenda do seu tio vai estar livre, então a do meu marido também vai estar, então eu vou! – Steve ergueu a mão direita e nós fizemos um high five. As luzes se acenderam em volta do parque fazendo com que eu percebesse que já estava relativamente escuro, eu não costumava ficar até aquele horário caminhando.
- Bom, eu tenho que ir! – comentei meio sem graça, nunca sabia como finalizar uma conversa. Steve se agarrou em minhas pernas e eu me assustei, ele nunca foi muito apegado a mim pra ter uma reação dessas. Se fosse com eu acharia super normal, mas comigo?
- Você quer uma carona? Estamos de carro e você mora no caminho... – Josh perguntou atencioso, sorri.
- Não precisa, eu moro pertinho e eu estou caminhando, certo? – brinquei e ele concordou. – De qualquer jeito, obrigada.
- Tia, por favor, não vai esquecer da minha festa! – Steve apontou o dedo indicador para mim.
- Não vou esquecer, meu anjo. – dei um leve beijo em sua cabeça e um beijo na bochecha de Josh. – Fiquei feliz em ver vocês, dá um beijo na mamãe por mim. – apontei para Steve e ele sorriu concordando.
- Tchau, ! – Josh acenou sorrindo, dei um breve tchau e caminhando fiz o caminho de volta para casa.

O céu já estava escuro e nublado, joguei a garrafinha de água no lixo assim que passei pela portaria do prédio.
- Boa noite. – cumprimentei educadamente o porteiro do turno da noite que sorriu e fui em direção ao hall.
- ! – de longe pude ouvir alguém me chamando, virei meu rosto e ao ver quem estava no portão do prédio as minhas pernas amoleceram. – Vem aqui minha irmã! – Robert passou seus braços pelo portão e apoiou sua testa no mesmo. Meus olhos se estalaram e o porteiro me olhou apreensivo, ele conhecia Robert e tinha ordens para não deixar que ele entrasse. – Por favor! – Robert choramingou. Meu coração doeu, doeu de verdade e minhas pernas ainda estavam moles, eu não tinha nada em minhas mãos para segurar e isso me deixou totalmente insegura. Meus olhos miravam Robert e a cabine do porteiro que me olhava em dúvida, o homem saiu de sua cabine e veio até mim.
- Esta tudo bem? – ele perguntou atenciosamente. – Se a senhorita quiser eu chamo os seguranças... – ele me olhava de maneira preocupada e eu voltei meu olhar para o portão onde Robert me encarava com tristeza e eu reconhecia muito bem aquele olhar. Ignorei todas as vozes em minha cabeça que diziam repetitivamente: ‘não vá até ele’.
Ignorei o porteiro também.
Devagar e com muito medo andei lentamente até o portão. Com receio parei a alguns metros, cruzei meus braços apertando meus lábios na intenção de que fazendo isso eu teria força o suficiente para não chorar. Levantei meu olhar até o rosto de Robert, meu coração doeu ainda mais e naquele momento eu me arrependi de ter ido até ali. Tudo aquilo era doloroso demais.
- Desculpas minha irmã. – ele falou entre soluços. Seus olhos estavam vermelhos e molhados, seu rosto estava pálido acompanhado de uma expressão triste. Muito triste.
Tentei abrir minha boca para falar alguma coisa, mas eu havia apertado meus lábios com tanta força que agora para abri-los parecia a coisa mais difícil do mundo. Abaixei meu olhar para evitar que meu coração doesse mais por ver o meu irmão chorando na minha frente.
- Por favor, ... Olhe pra mim, me deixe entrar, me ouve... – ele continuou choramingando. Apertei meus olhos para que as lágrimas não saíssem, afundei minhas unhas na minha própria mão. – Eu só quero uma chance pra te mostrar que eu estou me recuperando, eu preciso do seu perdão pra viver em paz. – abri meus olhos e vi suas mãos estendidas em minha direção. Dei um passo para trás e neguei com a cabeça, ele chorou mais forte e meu coração acelerou. Eu guardava uma magoa muito grande dele e não seria uma conversa, uma explicação que ele passou horas ensaiando que iria fazer com que eu o perdoasse. Perdoá-lo pra mim era impossível, pelo menos naquele momento. Ele era a pessoa que eu mais amava no mundo, o meu herói, o meu irmão, o meu melhor amigo e além de tudo ele era o meu protetor. Mas ele mesmo acabou com tudo o que nós construímos com anos, ele desequilibrou a base da nossa família, ele mesmo afastou as pessoas dele e até o ultimo minuto eu fiquei ao seu lado. Quando eu arrisquei a minha vida por ele e vi a morte na minha frente eu percebi que eu não podia fazer mais nada para ajudá-lo, porque ele não queria ser ajudado. Então eu desisti, e não fiz mais questão de saber sobre ele.
E depois de tudo ele ainda – em parte – foi o culpado pelo meu aborto, talvez esse seja o principal motivo da minha magoa. Olhar para ele me fez lembrar o seu telefonema e de tudo o que aconteceu depois. Definitivamente eu não conseguia.
Não agora.
- Eu não posso. – olhei em seus olhos e balancei minha cabeça negativamente. Virei as costas. – Por favor, peça que os seguranças o tirem daqui. – pedi educadamente para o porteiro, ele apenas concordou.
Bloqueei minha audição para não ouvir mais nada e senti meu coração voltar a bater normalmente.


Capítulo 07

Acordei, mas não fiz questão de abrir meus olhos. Mexi meu corpo desconfortavelmente percebendo que estava sem uma meia – deveria ter perdido durante a noite – estiquei meu braço na esperança de que minha mão encontrasse as costas nuas de ou o seu cabelo macio e por fim senti apenas o lençol. Mexi em meus cabelos e voltei a procurar pela cama – ainda de olhos fechados – até que ouvi passos e barulho de coisas, coisas que eu não sabia o que eram.
Me sentei na cama finalmente abrindo meus olhos e os fechando rapidamente ao sentir a claridade machucar meus olhos graças a cortina que estava semi-aberta. Prestei um pouco de atenção e percebi que estava escovando os dentes e cantarolava alguma música qualquer enroladamente. Chutei o edredom e me sentei na cama, mexi em meus olhos e em meus cabelos novamente em seguida voltei a me deitar na cama, me espreguicei e fui capaz de ocupar praticamente a cama toda. Ainda era possível ouvir cantando.
Me levantei e com o corpo mole andei até o banheiro, a porta estava entreaberta e eu pude ver com uma toalha branca enrolada na cintura, seus cabelos molhados e suas costas ainda com vestígios de água, sua mão tinha um pouco de espuma e ele escovava os dentes como se aquilo fosse a coisa mais importante da vida dele, as vezes ele se aproximava do espelho e abria a boca exageradamente como se estivesse conferindo que tudo estava sendo muito bem escovado. Encostei meu corpo na parede e continuei o observando.
lavou a boca e guardou a escova, pegou uma toalha menor e secou seu cabelo em seguida o bagunçando com as próprias mãos. Em meus lábios tinha um leve sorriso. Ele pegou seu desodorante lendo alguma coisa no rótulo e levantou levemente uma sobrancelha, deu de ombros passou o desodorante em si – eu sorri um pouco mais – e o cheiro incrivelmente incrível daquele desodorante invadiu o banheiro e chegou até onde eu estava – respirei fundo e sorri um pouquinho mais. Agora ele lia o rótulo do meu perfume e eu me perguntei por que ele estava fazendo aquilo, colocou o meu perfume no mesmo lugar de sempre e pegou o dele e de novo ele leu o rótulo. Meu marido tem essa mania desde quando? Após alguns segundos ele tomou um banho de perfume e ainda fez questão de borrifar pelo banheiro. Sorri idiotamente cruzando meus braços e continuei o observando. voltou a pegar a tolha e secou suas costas em seguida a jogou no chão e observou seu peitoral, passou a mão pelos mamilos e brincou com seu próprio umbigo. Era impossível desfazer o sorriso em meus lábios. Ele ficou de lado e observou seus braços no reflexo do espelho, abaixou o olhar e mirou sua própria barriga.
- Eu acho que to engordando... – ele murmurou e eu ri baixinho. olhou pelo espelho em direção a porta e eu me virei. Me encolhi no canto da parede quando percebi que ele abriu a porta totalmente e tentei segurar meu riso.
- Não briga comigo! – tapei meu rosto com as mãos quando senti que ele estava logo a minha frente enquanto eu ainda prendia o riso. Ouvi sua gargalhada e me encolhi um pouco mais.
- Você estava me espiando pela fresta? – ele disse no meu ouvido com uma voz um tanto marota.
- Juro que não! – apertei um pouco mais as minhas mãos em meu rosto. Senti segurar meus joelhos.
- Isso é muito feio e eu deveria contar pra minha esposa, ela é louca de ciúmes e seria capaz de te matar! – ele continuou com a voz marota e apertou um pouco os meus joelhos. Tirei as mãos do meu rosto e segurei nos braços dele.
- Você não seria capaz... – me aproximei de sua boca e sorri. O empurrei fazendo com que ele caísse de bunda no chão e corri em direção ao banheiro trancando a porta em seguida.
- Medrosa! – bateu na porta e eu ri. – Você não conhece a minha mulher, viu? Ela vai te matar quando descobrir o que você fez. – eu encostei meu ouvido na porta e senti que ele estava com a boca encostada na pequena fresta, sua voz estava abafada e extremamente perto.
- Fala pra sua mulher... – tirei a chave da fechadura e aproximei minha boca do pequeno buraco. – Que eu não tenho culpa se ela tem um marido extremamente gostoso que canta enquanto escova os dentes enrolando numa toalha branca! – falei baixinho e pude ouvir um leve suspiro dele.
- Acho bom você abrir essa porta... – disse baixinho me fazendo sorrir do outro lado.
- Não posso, sua mulher vai me matar se eu fizer isso! – respondi divertidamente voltando a colocar a chave na fechadura.
- ! – ele aumentou a voz e eu gargalhei indo em direção ao chuveiro.

Estava secando meu cabelo distraidamente quando ouvi alguém batendo na porta. Desliguei o secador. - Amor, se você não abrir essa porta eu vou trabalhar e você só vai me ver de novo no fim da tarde. – ele batucou na porta e eu sorri. – E eu queria um beijo antes de ir, prometo que não conto pra minha esposa maluca!
Deixei o secador sobre a pia e conferi o nó na minha toalha. Abri a porta e fui surpreendida pelas mãos de segurando firmemente o meu rosto, o ouvi chutando a porta e sorri com o sorriso dele ao encarar o meu rosto que estava tão próximo ao dele. Ele me beijou com força, com a força que eu meio que já estava acostumada, mas ainda assim sempre causava um efeito novo em mim. Uma de suas mãos parou no nó da minha toalha, eu estava prestes a permitir que ele fosse em frente quando num susto em me lembrei de que eu ainda não podia. O afastei rapidamente e tirei sua mão da minha toalha, me senti meio tonta e com uma vontade imensa de voltar a beijá-lo, mas eu ainda não podia. Seus olhos me encararam em dúvida e colocou as mãos no bolso de sua calça.
- O jejum... Ainda temos uns dez dias pela frente. – disse com calma encarando seus olhos. sorriu de lado e me pegou pela cintura depositando um beijo em meu colo.
- Eu to quase ficando louco! – um leve beijo no meu pescoço. – Quase! – me olhou sério e eu sorri.
- Desculpa. – encolhi meus ombros e ele me abraçou apertado.
- Hoje... – ele beijou meu nariz e eu fechei meus olhos. – Eu vou caminhar com você! – me deu um rápido selinho, sorri idiotamente.
- Sério? – perguntei com felicidade na minha voz.
- Super sério! – ele me deu mais um selinho.
- Ótimo! Então eu te espero e vamos caminhar juntos! – envolvi meus braços em seu pescoço e confirmou com a cabeça.
- Agora eu tenho que ir. – ele se aproximou e me beijou com a suavidade e força que ele consegue ter ao mesmo tempo, definitivamente eu não queria parar, mas era necessário.
O acompanhei – ainda de toalha – até a porta e lhe dei um último beijo.

Passei pela cozinha e notei que Celeste estava colocando algumas coisas na geladeira. Ela ia três vezes por semana apenas pra organizar o apartamento, ela mesma levava as minhas roupas e as de para lavar e passar, quando eu pedia ela abastecia a geladeira – às vezes ela fazia por vontade própria quando percebia que eu ou esquecíamos, o que de fato acontecia com certa freqüência - e às vezes até deixava comida pronta. Era uma imigrante italiana e tinha seus trinta e poucos anos.
- Bom dia! – ela me cumprimentou sorridente.
- Bom dia! – sorri também.
- , eu comprei várias frutas e tem dois sucos aqui na geladeira, se a senhorita quiser eu posso fazer um lanchinho ou alguma outra coisa. – ela disse prestativa como sempre.
- Sucos! – eu adorava os sucos naturais que ela fazia. – Não vou querer nada não, obrigada. – agradeci.
Tomava meu suco distraidamente sentada no balcão da pia até que meus olhos pararam na barriga de Celeste despertando a minha atenção, ela usava uma camiseta branca meio larga com uma calça de moletom um pouco mais apertada. Pensei se ela teria engordado nos últimos dias ou se era eu quem não prestava muita atenção nela e no seu corpo. Celeste me olhou e eu mirei a sua barriga novamente, ela abaixou o olhar e ficou séria. Tinha alguma coisa ali e não saber o que era estava me incomodando. Ela teria engordado tanto assim e eu não fui capaz de notar? Se bem que eu mal a vi nas últimas semanas... Ela sorriu e saiu da cozinha, eu continuei ali tomando meu suco e em seguida ela voltou segurando algumas mudas de roupa na altura do peito, sua camiseta larga se apertou na frente deixando totalmente visível uma barriga. Meu rosto endureceu, meus dedos se abriram fazendo com que o meu copo caísse no chão causando um barulho horrível. Celeste parou próxima a porta que ia para a lavanderia e olhou pra atrás a ponto de ver os meus olhos congelados na barriga dela.
- Você... – senti minha boca seca. – Você ta grávida, Celeste?
Ela fechou os olhos lentamente e concordou com a cabeça, mesmo sentada eu senti que minhas pernas estavam moles. Como assim a Celeste estava grávida? Ela esta perto dos quarenta anos, já foi mãe duas vezes e ainda por cima – até onde eu sei – ela está separada! Como? Eu tinha certeza de que ela não planejava ter um bebê a essa altura do campeonato, então porque raios ela estava grávida e eu ainda com meus vinte e seis anos, cheia de saúde e vontade de ser mãe simplesmente não conseguia?
- Estou de cinco meses. – ela disse baixinho mexendo na barra da camiseta. Eu senti o princípio da revolta se instalando no meu corpo, num impulso eu desci do balcão e acabei pisando em alguns cacos de vidro que estavam no chão, cortei meus pés em vários lugares e a dor que eu sentia com os cortes era totalmente suportável comparada a dor que eu estava sentindo dentro de mim.
- Aiiiii... – choraminguei e me apoiei no balcão.
- Meu Deus! – Celeste se aproximou de mim e me carregou até a mesa, ela afastou uma cadeira e me ajudou a sentar. De perto eu pude ver a sua barriga, apertei as unhas na minha mão. – Um minuto. – ela apontou para mim e foi em direção ao armário voltando em seguida com uma caixinha onde tinha remédios e coisas necessárias para se fazer um curativo. Celeste voltou e colocou a caixinha em cima da mesa, em seguida se agachou colocando meu pé esquerdo sobre a sua perna. Me encolhi ao sentir os pequenos cortes arderem quando ela passou levemente o algodão - que tinha algum remédio - sobre eles. Celeste limpou corte por corte que havia nos meus dois pés com todo o cuidado do mundo.
- Acho que consigo andar... – levantei com medo de jogar todo o meu peso nos pés e quando o fiz pude sentir os pequenos cortes doerem levemente, não era nenhuma dor insuportável. – Obrigada. – sinceramente agradeci Celeste e ela sorriu.
- Desculpa por não ter lhe contado antes. – ela me olhou nos olhos com os ombros encolhidos. Eu não poderia de maneira alguma culpá-la por não ter me contado antes.
Celeste estava com a pele mais bonita, os dentes mais brancos que o normal e seus olhos tinham um brilho diferente, eu meio que me acostumei a ver isso nas mulheres grávidas e naquele momento senti meu coração ficar minúsculo ao lembrar o brilho que eu tinha no olhar durante a gravidez.
- Tudo bem. – dei de ombros caminhando em direção a sala.
Sentei no sofá colocando meu pé sobre o meu joelho e fiquei bons minutos observando os pequenos cortes. Celeste varreu os cacos que estavam no chão e continuou fazendo o seu serviço normalmente.

Em menos de uma semana eu voltaria a minha rotina normal, aproveitei o dia para responder alguns e-mails pendentes e fiz alguns telefonemas. Celeste entrou na sala.
- Eu já acabei tudo... Posso ir? – ela perguntou num tom de voz mais baixo que o normal. Tirei os óculos que eu usava apenas para leitura e fechei o laptop que estava sobre a almofada no meu colo.
- Você está bem? Digo... Você e o bebê? – apontei para a barriga dela.
- Estamos bem sim! – ela respondeu sorrindo, sorri levemente. Fiz sinal para que ela se sentasse.
- Você pretende trabalhar até quando? Eu preciso saber por que não posso ficar sem ninguém pra cuidar das coisas aqui. – eu estava me tornando meio obcecada por barrigas, meus olhos não paravam de mirar a barriga de Celeste, ela percebeu.
- Eu posso ficar mais dois meses e nesse tempo prometo arrumar alguém que seja de confiança! – entortei a boca concordando.
- Você já sabe o que é? – sorri levemente e apontei novamente para a barriga dela.
- Uma menina! – Celeste sorriu largamente, meu leve sorriso se desfez no mesmo instante.
Um silêncio matador se instalou na sala.
- E você... Está fazendo todos os exames, está tudo certinho mesmo? – perguntei preocupada.
- Sim, já fiz o pré-natal e alguns ultra-sons. – ela respondeu, concordei com a cabeça.
- Se você precisar de alguma coisa, não importa o que for é só me ligar, ok? E enquanto você sentir que consegue vir trabalhar pode vir! – devagar fui até ela e a puxei para um abraço. – Posso? – perguntei quando meus olhos novamente procuraram pela barriga dela.
- Claro! – Celeste segurou minha mão direita e devagar a colocou sobre a sua barriga. Meu coração bateu com mais força e meus olhos arderam, senti que eu choraria a qualquer momento. – É a melhor sensação do mundo, não é? – perguntei já com algumas lágrimas no rosto. Olhei para Celeste e vi que ela estava com os olhos molhados.
- É sim! – ela sorriu boba. Eu deslizei minha mão sobre a barriga dela.
- Já chuta? – me ajoelhei e coloquei as duas mãos sobre a sua barriga. Eu acariciava da mesma maneira que eu acariciava a minha quando estava grávida, com todo o cuidado e carinho possível.
- Chutou pela primeira vez na semana passada, quando eu estava no banho. – Celeste me respondeu, minha atenção estava voltada para o que as minhas mãos estavam sentindo.
O barulho de chave e a porta se abrindo despertou a minha atenção. Olhei para a porta e havia chegado. Abaixei a camiseta de Celeste, me levantei do chão e limpei as lágrimas.
- Ta tudo bem? – ele perguntou preocupado, depositou um beijou em minha testa.
- Tudo! – sorri sinceramente. olhou para Celeste e em seguida para mim. – Celeste está grávida, não é incrível? – meus olhos ficaram molhados novamente, limpou meu rosto quando algumas lágrimas caíram, ele sorriu.
- Claro que sim! E... Você esta bem? – perguntou curioso.
- Estou sim! – Celeste respondeu educadamente, pegou sua bolsa. – Agora eu tenho que ir e obrigada pela preocupação. – ela me deu um forte abraço e acenou para em seguida saiu do apartamento.
Me joguei no sofá encarando o teto.
- Não acredito nisso... – disse para mim mesma, ainda com um misto de revolta e alegria dentro de mim. Passei minhas mãos sobre o meu cabelo, se sentou no sofá pegando em minhas pernas para que elas ficassem em seu colo.
- O que aconteceu com os seus pés? – sua voz tinha um tom de preocupação e seus olhos analisavam os pequenos cortes.
- Eu quebrei um copo, estava descalça e acabei pisando nos cacos. – dei de ombros e encarei . – Não se preocupe porque a Celeste já passou remédio e não é nada demais.
- Tem certeza? A gente pode ir ao médico, esse aqui não é fundo? – ele apontou para um corte próximo ao meu dedão, sorri levemente.
- Relaxa, amor. – peguei em sua mão.
- Então não vamos poder caminhar hoje... – vagamente ainda analisava os meus pés.
- É verdade. – concordei, fiquei o observando.
- Já volto! – com cuidado ele colocou as minhas pernas para o lado, se levantou rapidamente e foi em direção ao quarto. Segundos depois ele voltou sem o tênis, o casaco e o cachecol – que ele ainda teria que usar por vários dias, devido aos chupões que eu deixei em seu pescoço – e em suas mãos ele trazia o meu hidratante para pés. Sorri levemente.
- Massagem? – perguntei ainda com um sorriso nos lábios. voltou a se sentar no sofá e com cuidado colocou os meus pés em seu colo.
- Sim, senhorita ! – ele concordou. despejou um pouco do creme em suas mãos, fez algumas pintinhas em meus dedos enquanto tinha um sorriso sapeca nos lábios e delicadamente massageou a parte de cima dos meus pés. Eu ia comentar sobre a gravidez de Celeste, mas preferi apenas sentir o toque de , preferi poupar o meu coração de mais uma dor.
Eu sempre pensei que esses amores de livros fossem apenas puras palavras para iludir nós leitores, hoje eu penso totalmente diferente, hoje eu acho que a nossa vida juntos é um livro, não um best-seller, mais um livro que nunca termina, uma história eterna, onde nós dois somos os personagens principais e nenhum vilão consegue nos destruir... Um livro monótono para os outros, porém para nós personagens, uma VIDA, um AMOR.



Capítulo 08

Às vezes eu acho que o mundo inteiro se revoltou contra mim.
Esse tipo de pensamento só passa pela minha cabeça quando eu estou sozinha e não tenho nada de importante para fazer, eu acabo dando liberdade para os meus pensamentos focarem nos fatos mais tristes. Na última noite eu não fiz questão de comentar com sobre a visita do meu irmão, também não comentei sobre a festa de aniversario do Steve e me impedi de comentar sobre a gravidez de Celeste. Quando ele estava comigo era fácil esquecer as coisas ruins. Quando ele estava longe era como se uma parte de mim estivesse fora de mim mesma, quando eu não sentia a mão dele segurar a minha eu me sentia insegura, incapaz de andar normalmente pela rua.
Estacionei o carro próximo ao meio fio daquela rua que era bem familiar para mim. Tirei a chave da ignição e peguei minha bolsa que estava no banco traseiro. Bati a porta do carro e fui até a companhia da casa de admirando tudo a minha volta – algumas das casas daquela rua foram projetadas por mim e foram construídas e decoradas pela equipe da minha empresa – sorri com a sensação de orgulho e prazer ao ver que meus rabiscos não ficaram apenas no papel.
Se fosse há alguns meses atrás eu poderia apenas entrar no elevador e descer dois andares para estar na casa dela, já que e foram meus vizinhos desde sempre, mas quando engravidou eles decidiram comprar uma casa para que a criança pudesse crescer com mais liberdade. Eles fizeram a coisa certa e agora moravam em um bairro família, em uma casa imensa, tamanho família. Tudo naquele lugar era estilo família.
O grande portão se abriu lentamente, entrei e logo vi parada próxima a porta de entrada com a sua barriga um pouco maior do que da última vez que a vi, seu cabelo agora tinha a raiz natural e ela tinha um grande sorriso iluminado – como sempre – nos lábios.
- Eu estava com saudades! – me abraçou levemente mexendo em meus cabelos.
- Eu também estava. – sorri verdadeiramente e a abracei um pouquinho mais forte.
- Entre! – ela me deu espaço para entrar. Tirei minha bolsa do ombro e a segurei com as mãos.
- Você está bem? – a olhei analisando milimetricamente seu rosto, ajeitei a sua franja e sorriu.
- Estou sim! – ela indicou a escada. – Tive alguns enjôos nos últimos dias, mas esta tudo bem. – ela sorriu novamente.
- Que bom. – apertei minhas unhas na alça da bolsa quando senti um desconforto ao ver a barriga de .
- e estão na sala, estávamos te esperando! – andamos pelo longo corredor até chegarmos à grande sala com decoração impecável. e eram impecavelmente lindos e tinham um gosto impecavelmente lindo.
A grande sala me pareceu pequena demais assim em que entrei e vi sentada no chão com algumas almofadas a sua volta e assim como a barriga dela também estava maior. Discretamente olhei para ao meu lado e voltei o meu olhar para .
- ! – a voz de despertou a minha atenção. Olhei para ele que estava próximo ao sofá que ocupava um canto inteiro da sala e sorri andando até ele. – Tudo bem? – ele me abraçou.
- Tudo certinho! – o soltei sorrindo. Apertei minhas unhas na alça da bolsa – de novo - com um pouco mais de força e fui até o centro da sala, onde estava.
- Minha linda! – ela sorriu e se levantou para me abraçar.
Apenas sorri e abri os braços para sentir ela me envolver num abraço quente e confortável.
- Vou deixar as super poderosas sozinhas, se cuidem minhas lindas! – pegou o celular que estava jogado no sofá, mandou um beijo para mim e para e nós mandamos outro de volta.
Acompanhei com o olhar. Ele parou em frente à depositando uma mão na barriga dela e com a outra no rosto da minha amiga ele a beijou. Não um beijo longo e quente, também não era um selinho, era um beijo do tipo ‘eu te amo e não demoro’.
- Senta aqui, ! – falou um pouco mais alto que o normal, abaixei o meu olhar e ela estava sentada novamente com dezenas de almofadas a sua volta. Ergui um pouco a minha calça e sentei perto de , coloquei minha bolsa no colo e arrumei algumas almofadas a minha volta também. Sorri ao terminar o circulo de almofadas a minha volta e voltei a segurar firme a minha bolsa. tinha ido acompanhar e eu estava me sentindo desconfortável – não em relação ao ambiente nem aos meus amigos, mas sim comigo mesma – com aquela situação. Ver e grávidas e mais lindas do que nunca era algo que me incomodava.
- Uhul! Estamos sozinhas. – entrou dando pulinhos – o que foi de fato engraçado, ela usava uma blusinha branca de malha, quando pulava a blusinha subia e deixava a barriga à mostra ao mesmo tempo em que seus seios pulavam junto – e se jogou nas almofadas. Eu e rimos alto.
- ! – me chamou meio desesperada. – Você não nos contou como foi a sua ida ao médico! – ela estalou os olhos e se sentou com algumas almofadas no colo. Suspirei levemente.
- Hum... Foi boa? – sorri sarcasticamente e elas ficaram sérias.
- Boa como? – gesticulou impaciente.
- O Doutor Michael é o melhor, certo? – as duas concordaram rapidamente, elas o conheciam porque era ele quem estava cuidando da gravidez delas. – Ele conversou comigo, fez algumas restrições...
- Quais? – me interrompeu, rolei os olhos.
- Restrições do tipo ‘fique vinte dias sem sexo’ – fiz aspas com as mãos e ri levemente. – Tome os remédios na hora certa e faça caminhadas. – forcei a voz e estufei o peito numa tentativa frustrada de imitar o meu médico. e gargalharam.
- O deve estar subindo pelas paredes! – falou entre risos, fechei a cara.
- Ah, amiga, isso deve ser verdade! – concordou ainda rindo.
- Vocês falam como se fosse só ele que estivesse assim – olhei para cima e segurei o riso.
- Eu saaabia! – riu mais alto apontando para mim. Desisti e por fim ri também me sentindo um pouco mais leve por deixar que a alegria das minhas amigas me contagiasse.

Aquele encontro na casa de não tinha um objetivo final, era apenas pra gente se ver e conversar um pouco já que as duas estavam com todo o tempo do mundo para fazer nada – e meio que mandaram elas se afastarem do trabalho após cinco meses de gestação, o que pra mim era um exagero para elas era cuidado de marido – e eu só voltaria a trabalhar dentro de alguns dias.
- Vocês vão à festa de aniversário do pequeno Steve, vão? – eu estava deitada no meio do sofá com uma pequena tigela de mousse de chocolate sobre a minha barriga. estava da mesma maneira a minha esquerda e sentada a minha direita, as duas com a boca suja de chocolate.
- O comentou comigo, acho que vamos! – deixou a tigela - que agora tinha apenas rastros de chocolate – no chão, próximo ao sofá.
- Eu já até comprei o presente daquela coisa fofa! – apertou as próprias bochechas, sorri com a atitude infantil da minha grande amiga.
- Ele mesmo me convidou quando me viu caminhando no parque, mas esqueci de falar com o . – dei de ombros. – Ele com certeza já está sabendo. – estiquei o braço sem olhar para baixo e deixei a tigela sobre o chão.
- Preguiçosas... – se levantou recolhendo as tigelas. Em seguida, quando ela passou por mim eu lhe dei um leve tapa na bunda fazendo com que ela se encolhesse saindo da sala apressadamente.
aproveitou e se esticou no sofá, suspirando lentamente.
- Acho que já vou embora. – falei mais para mim mesma.
- Já? – havia esquecido que ainda estava ali, devido o silêncio. Ela voltou a se sentar, peguei minha bolsa que estava no chão.
- Sim... – peguei meu celular conferindo o horário e vi que tinha uma chamada não atendida do .
- Ah! – fez bicou e veio até mim me abraçando de lado, sorri retribuindo o abraço.
- Eu também quero. – se jogou entre nós fazendo com que ríssemos divertidas e o silêncio foi quebrado pelas risadas. – MENINAS, EU PRECISO MOSTRAR UMA COISA! – nos soltou e saiu correndo desengonçadamente. – VENHAM AQUI NO QUARTO! – ela gritou.
Dei de ombros e fui com até o quarto de .
- Não precisava ter gritado. – comentou séria e rolou os olhos, ela tinha uma espécie de álbum em mãos, olhei curiosa.
- Eu e tiramos essas fotos no fim de semana, não ficaram lindas? – se sentou na cama entregando o que era de fato um álbum para eu e ver. Olhei de relance para e me sentei na cama ao lado de que tinha o álbum em mãos.
Assim que a capa de veludo azul foi aberta meus olhos estalaram ao ver a primeira foto e minha imaginação deduziu ali mesmo quais seriam as próximas. O meu rosto não tinha expressão alguma ao ver a foto de beijando a barriga de , mas os meus olhos ainda entregavam o meu desconforto. tinha um sorriso bobo nos lábios e murmurava vários ‘own’. Quando virou mais uma página revelando uma foto em que os dois estavam deitados na grama e tinha a cabeça logo ao lado da barriga de que tinha um desenho em formato de careta os meus olhos se fecharam com rapidez.
Numa outra página havia mais uma foto feliz exibindo a felicidade dos meus amigos, senti meu coração ir diminuindo a velocidade dos batimentos de acordo com a velocidade que virava as páginas daquele álbum. Percebi que minhas unhas estavam apertadas no colchão e os meus dentes estavam doendo devido a força que eu os apertei um contra o outro. Mais uma página virada, mais alguns suspiros e uma foto igual a cena que eu havia visto quando cheguei, os dois se beijando e tinha uma mão no rosto de e a outra na barriga dela, a claridade do sol refletia entre os dois e o conjunto de tudo aquilo me fez lembrar coisas que eu queria esquecer. Levantei-me às pressas causando mais barulho do que o planejado e despertei a atenção das minhas amigas – que até então não haviam percebido o meu silêncio, distraídas demais com as fotos – entortei a boca.
- O álbum está lindo, , mas eu realmente preciso ir e ir agora! – beijei a bochecha das duas rapidamente e fui em direção a porta, se levantou. – Não precisa, eu sei o caminho. – fechei a porta me sentindo imediatamente mais leve por não respirar o mesmo ar que elas. Deixando para trás o sentimento de inveja que invadia o meu corpo todas as vezes em que eu via uma mulher grávida.
Entrei no carro as pressas e joguei minha bolsa no banco do carona.
Mirei a rua à minha frente.
Encostei minha cabeça no volante, me obrigando a respirar como gente. Definitivamente eu não podia me sentir assim todas as vezes em que visse as minhas amigas ou trombasse com uma mulher grávida na rua. Era absurdo e torturante!
O médico disse que eu poderia engravidar novamente, para que isso pudesse acontecer era apenas questão de dias para que eu e pudéssemos tentar. Então, se eu não teria problema nenhum para engravidar e nada – além dos longos dias – me impedia disso porque raios eu ainda sentia essa inveja? Porque eu agia e via a situação como se eu nunca fosse ter um filho? E porque tudo na minha vida agora girava em torno de gravidez?
Quando levantei minha cabeça, a rua a minha frente já estava escura, o barulho do meu celular vibrando fez com que os meus pensamentos torturantes sumissem dando lugar a irritação por não encontrar o maldito aparelho no meio da minha própria bagunça. Tocou mais algumas vezes e ainda irritada eu virei a bolsa de cabeça pra baixo deixando tudo o que havia dentro dela cair sobre o banco.
- Alô! – atendi sem ao menos ver quem era usando o meu tom de voz normal.
- ? – joguei as tranqueiras com pressa dentro da bolsa voltando a me sentar normalmente em seguida.
- Oi! – ainda sem prestar atenção em quem era liguei o carro.
- Amor? – desliguei o carro ao ouvir perfeitamente a voz de , respirei fundo ao sentir a voz dele ecoando em meu ouvido esquerdo.
- Eu... – minha voz saiu baixa mesmo sem querer. Acomodei-me no banco com mais calma.
- Você está bem? – agora tinha preocupação na voz, ele estava usando esse tom de voz freqüentemente comigo nas últimas semanas.
- Eu estou, demorei pra atender porque o celular se perdeu na minha bolsa. – sorri levemente mordendo o canto da unha.
- Que bom. – ouvi uma leve risada também. – Só liguei pra saber como você estava e pra falar que eu vou chegar tarde em casa. - Deixei um murmúrio escapar.
- Tudo bem, meu amor – apoiei minha cabeça no vidro.
- Um beeeeeijo, ! – identifiquei a voz de .
– Sai daqui, cara! – falou com a voz um pouco distante, gargalhei.
- Um beijo pro . – falei entre risos.
- Legal, beijo pro e pro maridão nada. – falou com o peso do sarcasmo na voz.
- Pro maridão é tudo! – ri levemente ao ouvir a risada de .
- Amor, eu tô com o pessoal de sempre aqui no pub casual de sempre. Prometo não demorar muito.
- Tudo bem! – apenas concordei. Nunca proibi de fazer nada e nunca me senti insegura por lhe dar essa liberdade, eu confiava nele e tinha consciência do trabalho que ele tinha e da vida que eu levaria a partir do momento em que disse sim para ele diante de centenas de testemunhas.
- Não precisa segurar o sono pra me esperar, eu amo você, meu anjo. – ele finalizou a ligação.

Voltei para casa dirigindo corretamente, me sentindo mais calma após a ligação de . Abri a porta do apartamento, joguei a bolsa e o meu casaco no sofá. Fui até a cozinha e acabei trazendo a imagem de Celeste grávida de volta a minha mente, abri a geladeira com irritação pegando um suco. Liguei a TV que havia ali mesmo na cozinha tentando me concentrar no noticiário que passava, não consegui.
Desliguei a TV e fui para o meu quarto, tirei o meu sapato parando subitamente para analisar os meus pequenos cortes e só então percebi que eles nem estavam doendo. Em frente ao espelho do banheiro eu tirei a minha maquiagem e lavei meu rosto.
- Preciso me sentir limpa novamente. – disse olhando para mim pelo reflexo do espelho. Decidi naquele instante que eu não iria mais sentir inveja ao ver a barriga das minhas amigas ou de qualquer outra mulher grávida. Eu tinha coragem e paciência o suficiente para superar isso.



Capítulo 09

Eu costumava ser minha própria proteção, mas agora não.
A minha proteção agora tinha nome e sobrenome: .
Era sexta-feira, mas não era uma sexta-feira comum com a empolgação pré fim de semana, – pelo menos para mim – mas sim uma sexta-feira que seria longa e de muito – muito – trabalho. No período da manhã eu teria uma reunião com os meus dois sócios e alguns arquitetos. Anunciei aquela reunião para que chegássemos à conclusão de qual projeto seria apresentado para um cliente extremamente importante que tínhamos. E então, mostrar o projeto no período da tarde para esse cliente. Não era o meu primeiro grande dia na minha empresa, mas eu sempre ficava nervosa com grandes projetos e a responsabilidade deles em minhas mãos.
Era um nervoso gostoso.
Celeste já havia chegado e preparava o café da manhã enquanto eu me arrumava ouvindo a opinião de sobre a minha roupa, o meu cabelo e a minha bolsa. Eu não pedia a opinião dele, era espontâneo. Ele só teria compromissos no período da tarde então me levaria até o meu trabalho. Deixei sozinho no quarto quando ele começou a brincar com o elástico de sua boxer na intenção de me provocar e ignorei o seu olhar esperançoso. Justo naquele dia eu estava livre do jejum sexual, justo naquele dia eu estava com a tensão e a preocupação predominando o meu corpo. Para não me aproximar dele e deixar que as coisas acontecessem ali mesmo e conseqüentemente eu me atrasasse, eu fui até a sala para arrumar a minha pasta e guardar o laptop.
- Bom dia, Celeste. – sorri rapidamente para ela voltando a arrumar minhas coisas.
Celeste levava um rádio consigo nos dias em que ia trabalhar em casa. Era pequeno e ela o ligava no cômodo em que estava limpando. brincou várias vezes com ela dizendo que lhe daria um iPod no natal mas ela estava fechada a conhecer tal novidade. O rádio que estava em cima da bancada tocava uma versão acústica de She Will Be Loved do Maroon 5, sorri ao identificar porque era uma música que eu gostava.
- Bom dia! – ouvi sua voz fina com um tom alegre como sempre. – O café já esta na mesa.
- Tudo bem, nós já vamos. – fechei o laptop o colocando em seguida em cima do sofá ao lado de minha pasta.
Voltei para o quarto para chamar , mas ouvi o barulho do chuveiro.
- And she will be loveeeeed... – entrei no banheiro cantarolando, passou a mão sobre o vidro embaçado do box e sorriu.
- Pega uma toalha pra mim, amor? – ele pediu com a voz confusa devido à água caindo com força sobre o seu rosto. - Até você agora? – brinquei porque quem tinha mania de esquecer a toalha era eu, não ele. Peguei uma toalha e voltei para o banheiro.
- Obrigado! – ele sorriu com a mão sobre o vidro. Deslizou os dedos e desenhou um coração no vidro embaçado me fazendo sorrir idiotamente do outro lado, contornei lentamente o seu desenho com apenas um dedo, ao terminar o coração aproximei minha boca no centro dele e beijei o vidro. fez o mesmo e eu quis abrir aquele box e tomar banho com ele, mas me controlei. Continuei sorrindo idiotamente ao o observar lavar o próprio cabelo.
Logo desligou o chuveiro e olhou para mim apontando para a toalha que estava em minhas mãos. Neguei com a cabeça, mas ele insistiu. Me aproximei abrindo o box e sorriu maroto, como uma criança ele levantou os braços e eu passei levemente a toalha sobre o seu peitoral e braços, percebi que ele acompanhava o meu olhar enquanto eu o secava cuidadosamente como se ele fosse um boneco, assim bem clichê mesmo, o meu boneco. Subi a toalha até o seu rosto e antes de enxugá-lo eu hesitei alguns segundos para olhar nos olhos dele.
- It's not always rainbows and butterflies it's compromise that moves us along… - cantou baixinho com os olhos fechados, assimilei que ele estava cantando a mesma música que eu quando entrei no banheiro. - My heart is full and my door's always open, you can come anytime you want. – ele terminou a estrofe e sorriu de lado ainda com os olhos fechados. Coloquei a toalha em volta do pescoço dele e o beijei.
- Acho que você sabe que eu te amo, certo? – finalizei o beijo com um selinho demorado e concordou com a cabeça.
- Eu ainda não estou seco. – resmungou ao perceber que eu estava me afastando.
- Você já sabe fazer isso sozinho! – apontei para o amiguinho dele e sai do banheiro ouvindo um gemido de irritação. Eu já estava em cima da hora e tinha um longo dia pela frente, estava no meu período fértil e livre do meu jejum. Tive que me segurar ao máximo para não perder o controle e ir adiante com , mas eu sabia que quando chegasse em casa no final do dia eu teria alguma surpresa preparada por ele, então era apenas questão de horas para matar a saudade reprimida e o desejo de tê-lo em mim e tudo isso somada juntamente com a possibilidade de uma nova gravidez. Eu estava nervosa e radiante!
- Esse suco está divino! – comentei com Celeste, ela apenas sorriu e continuou guardando algumas coisas no armário.
- , hoje eu vou buscar a roupa de vocês na lavanderia e...
- Já sei, eu separei o dinheiro e deixei ao lado da TV do meu quarto. – eu costumava esquecer essas coisas, mas eu tinha Celeste para me ajudar a lembrar.
- Tudo bem. – ela concordou.
- E essa garotinha, como vai? – passei minha mão levemente sobre a barriga de Celeste e voltei para a sala.
- Ela anda muito agitada, não para de chutar! – Celeste riu baixinho e eu ri junto.
- , você não é uma noiva e se continuar com essa demora eu vou me atrasar! – falei um pouco alto quando entrei no quarto para guardar algumas coisas em minha bolsa.
- Eu não sou uma moça, mas sou um marido que esta na seca a um milhão de anos! – ele abriu a porta do banheiro e me olhou sério. Sorri divertidamente. – Enquanto você ri, eu passo o maior sufoco. – ele ainda tinha um olhar sério, mas seu nariz se mexia e eu sabia que a qualquer momento ele ia rir.
Me aproximei devagar com os olhos fixos nos olhos dele.
- Eu acho bom... – fechou os olhos ao sentir que eu envolvi minhas mãos em seu pescoço. – Você ficar um pouco longe... – beijei de leve o seu queixo em seguida o olhando em dúvida. – Amor, colabora comigo! – ele balançou os joelhos impaciente.
- Tudo bem! – levantei as mãos, me rendendo. – Se veste logo e venha tomar café. – saí do quarto rindo da carência de , eu também estava daquele jeito, mas eu conseguia me controlar, ao contrário dele.

- Vamos, vamos, vamos! – entrou na cozinha apressadamente.
- Agora é você quem está com pressa? – me levantei da cadeira e dei um último gole no meu suco. escolheu uma maçã e deu uma grande mordida, em seguida acenou para Celeste que apenas sorriu.
- O ta me esperando lá na gravadora porque disse que precisa falar comigo. – mais uma mordida na maçã. Peguei minha bolsa e a joguei sobre os ombros, se antecipou e pegou minha pasta e meu laptop por mim.
- Tchau, Celeste! – fechei a porta rapidamente sem ouvir a resposta dela e já tinha chamado o elevador.
- Parece que ele ainda não consegue se comunicar pelo celular, sempre tem que ser pessoalmente! – a porta do elevador se abriu a nossa frente, entrei primeiro e entrou logo em seguida. Ajeitei meu cabelo no grande espelho com os olhos de me acompanhando. Sorri levemente.
- Fala pra ele que nós nos vemos na festinha do Steve no próximo fim de semana, já que eles adiaram. – arrumei minha franja, concordou com a cabeça ainda me acompanhando. No começo do nosso namoro eu sentia vergonha quando ele me encarava daquele jeito, me sentia envergonhada em sentir que a sua concentração estava voltada para me observar. Com o tempo eu me acostumei com essa mania dele me observar em silêncio, mas ainda sentia um leve frio na barriga. colocou a minha pasta em baixo de seu braço esquerdo e segurou a bolsa do laptop com a mão, se aproximou de mim e beijou meu ombro.
- Me desculpa por ter quebrado o clima naquela hora? – ele me olhou pelo espelho.
- Você não quebrou o clima, meu anjo. – beijei sua bochecha.
- Quebrei sim, mas foi porque eu fiquei irritadinho quando você não me secou por inteiro! – ele fez um bico extremamente fofo.
- Amor, você já sabe se secar sozinho e naquela situação quem não estava colaborando era você! – dei um tapinha em sua barriga. A porta se abriu, uniu nossas mãos e caminhamos até o carro, ele acionou o alarme e abriu a porta de trás para guardar as minhas coisas.
- Põe a sua a bolsa aqui também. – ele mesmo tirou a bolsa do meu ombro e a colocou no banco traseiro, fechou a porta e eu caminhei até o outro lado. Ajeitei o meu cinto e peguei nossos óculos no porta-luvas, se virou para mim e eu coloquei o óculos nele aproveitando para arrumar o seu cabelo do jeito que eu gostava e que ele reclamava que nunca conseguia deixar igual. Quando peguei o meu óculos segurou minha mão, olhei para ele em dúvida e ele respirou fundo tirando o próprio óculos.
- Você está linda, meu anjo. – ele apertou os próprios lábios e me deu um longo selinho.
- Foi você quem me ajudou a escolher tudo, . – justifiquei sorrindo e ele negou.
- Não falo só da sua super produção feita especialmente pro seu super dia na sua super empresa. – fiz cara feia pela maneira sarcástica que ele se referiu ao meu trabalho (não que ele não goste do meu trabalho, era apenas uma leve irritação que ele tinha na voz todas as vezes que o assunto era o meu trabalho e também a minha independência financeira). – Eu estou falando desse brilho no seu olhar hoje, tem um tempo que eu não vejo essa alegria nos seus olhos. – ele segurou meu rosto com as duas mãos me olhando atenciosamente, não consegui falar nada porque ouvir aquelas palavras saindo da boca dele era como se eu tivesse acabado de ganhar a minha primeira bicicleta. Dias atrás eu havia prometido para mim que eu iria me controlar e superar cada sentimento negativo que me invadisse quando eu visse alguma mulher grávida. Ver Celeste na manhã de hoje e conseguir perguntar pela filha dela sem que eu me sentisse incomodada foi de fato, uma superação para mim.
- Você é o motivo da alegria nos meus olhos. – coloquei minhas mãos sobre as de e o beijei levemente com um sorriso no canto dos lábios. entrelaçou nossas mãos encerrando o beijo com um selinho estalado.
- Eu amo você. – ele beijou minha aliança me fazendo sorrir com o seu pequeno gesto. Ajeitou minha franja e voltou a colocar seus óculos. Só mais um selinho e ele deu partida no carro.
Durante o caminho até o meu trabalho segurou minha mão praticamente o tempo todo e nós conversamos pouco, mas isso não era um problema. Cresci ouvindo que o silêncio entre duas pessoas só não é constrangedor quando o sentimento que as unem é verdadeiro, eu concordava totalmente com esse pensamento.
estacionou o carro no espaço reservado para os funcionários da empresa.
- Eu queria te acompanhar até a sua sala. – tirou o cinto me olhando em dúvida. Meus olhos se estalaram ao ouvir o que ele acabara de dizer.
- Sério? – o olhei esperançosa.
- Muito sério! – ele sorriu me fazendo sorrir junto. Da mesma maneira que ele ficava feliz quando eu ia com ele para a gravadora eu também ficava extremamente feliz quando ele dava o ar da graça no meu ambiente de trabalho.
saiu do carro e abriu a porta de trás para pegar minhas coisas, tirei meu cinto rapidamente e fui até ele. Coloquei minha bolsa no ombro e estava prestes a pegar minha pasta, mas negou com a cabeça.
- Eu quero levar! – sua voz era firme e eu não ousei discordar. Ele fechou a porta do carro em seguida acionando o alarme, ajeitou a pasta em baixo do braço e a bolsa com o laptop nas mãos da mesma maneira que ele havia feito mais cedo no elevador. Com a mão que estava livre ele entrelaçou na minha e então seguimos até o hall de entrada.
A empresa que meus pais haviam construído quando eu ainda era pequena era tradicional e muito respeitada por ter várias filiais pelo país. Famosa por ser a realizadora de grandes obras e por ter uma equipe incrível de profissionais extremamente capacitados para cada área que lhe fora designada. Cresci acompanhando o trabalho diário dos meus pais, muitas vezes eu ia conferir as construções com a minha mãe e achava o máximo quando me pediam para usar aquele capacete que servia para me proteger de qualquer tijolo ou ferro. Gostava de desenhar e logo nos primeiros anos de vida desenhei as primeiras casas imaginárias, recebi o apoio dos meus pais e do meu irmão o que anos depois acabou resultando em um diploma de arquiteta na área urbana.
Passamos por várias pessoas até que chegássemos a minha sala. Eu ainda tinha quinze minutos até a reunião começar.
- Eu desconfio que esteja nervosa. – fechou a porta enquanto eu deixava minha bolsa sobre a minha mesa. Ele andou até mim.
- Vou fazer você relaxar. – ele tinha um sorriso modesto nos lábios.
- , eu te freei quando estávamos em casa com toda a privacidade do mundo! O que você...
- Senta ali! – ele apontou para a grande e confortável cadeira que estava atrás de mim.
- Você não estava com pressa pra ir ver o ? – levantei levemente uma sobrancelha, riu divertidamente.
- Eu só quero fazer uma massagem em você enquanto a reunião não começa, será que você me deixa fazer isso? – ele não esperou minha resposta, me puxou pela cintura e me fez sentar na cadeira. virou a cadeira para a parede de vidro que permitia que nós tivéssemos uma ampla visão do centro da cidade.
- Eu só tenho dez minutos... – falei baixinho. Senti as mãos de tocando os meus ombros com o jeito calmo de sempre. Ele afastou o meu cabelo e massageou a região da minha nuca.
- Amor, quanta tensão num só lugar. – ele falou próximo ao meu ouvido e intensificou a massagem, senti uma dor chata e inclinei a cabeça para frente.
- Agora esta melhorando... – continuei falando baixinho, depois que massageou a minha nuca por alguns minutos a dor sumiu e eu comecei a sentir o relaxamento naquela região. Então, escorregou suas mãos para os meus ombros e os massageou com força. Apertei minhas unhas no braço da cadeira quando senti aquela dor chata novamente. Não demorou muito até que eu sentisse uma moleza gostosa e um pouco de sono, agradeci mentalmente quando parou de mexer suas mãos e arrumou o meu cabelo novamente. Encostei minhas costas na cadeira e sorri com os olhos fechados.
- Conseguiu relaxar? – senti as mãos dele parada junto as minhas no braço da cadeira e sua respiração batia no meu olho, um cheiro de maçã misturado com o cheiro do creme dental que nós dois usávamos invadiu o meu nariz devido a nossa proximidade. Sorri um pouco mais concordando com a cabeça, ele depositou um beijo no meu nariz e logo desceu um pouco me beijando extremamente devagar a ponto de que sua língua mal se mexia, apenas estava encostada na minha.
Abri meus olhos ao ouvir o telefone tocar, riu levemente e voltou a sua posição normal atrás da minha cadeira, a girei com os pés.
- Sim? – passei minha mão direita sobre a nuca. – Eu já estou indo, obrigada. – desliguei o telefone e virei minha cadeira para ficar de frente para .
- Vai dar tudo certo! – ele me puxou pela mão.
- Depois de toda essa atenção e a massagem incrível, eu tenho certeza que sim! – beijei seu ombro. Peguei minha bolsa e novamente pegou minha pasta e a bolsa com o laptop por mim.
- Fique calma... – paramos na porta. – Me liga que eu venho te buscar mais tarde. – ele passou as mãos sobre os meus cabelos e me deu um selinho.
- Pode deixar! – lhe dei mais um selinho. Ele me entregou a pasta e a outra bolsa, em seguida soltou minha mão e se virou de costas para ir embora. Mordi meu lábio inferior e andei rapidamente para alcançá-lo. – Obrigada, meu anjo. – o surpreendi e lhe mais um selinho, sorriu.
- Não tem que agradecer. – ele beijou minha testa. – Eu amo você e vai logo ou você vai se atrasar! – e agora sim um último selinho.

Entrei na sala de reuniões com os olhares discretos de algumas pessoas sob mim, coloquei minha pasta em um canto e liguei o laptop em outro canto da longa mesa. Me ajeitei na cadeira sorrindo educadamente e dei inicio a reunião.
Como eu previa, o projeto que escolhemos estava totalmente à altura do cliente. Almocei com duas designers e na parte da tarde o projeto foi apresentado para o cliente, recebendo sua aprovação imediata. Sai da sala de projetos saltitante e com o celular em mãos, pronta para ligar para .
- Parabéns pelo projeto, – Alex, meu sócio e grande amigo da minha família veio me parabenizar.
- Obrigada, Alex, mas eu não fiz isso sozinha! – sorri.
- Eu sei, mas o que seria dessa empresa sem você? – ele apontou engraçadamente pra mim e foi embora me deixando rindo sozinha. Liguei para e o primeiro toque mal chegou ao fim.
- Estou aqui no estacionamento. – ele foi rápido, ia responder mais ele já havia desligado.
Me despedi de algumas pessoas e caminhei até o estacionamento, encontrei com a cabeça apoiada no vidro e um sorriso modesto. Ele saiu do carro e pegou minhas coisas para guardar no banco traseiro, voltou até mim e me deu um selinho demorado com as mãos firmes em meu rosto.
- Como foi? – ele perguntou segurando firme minhas mãos. Seu corpo estava apoiado na porta do carro, suas pernas estavam um pouco afastadas para que eu encaixasse a minha e agora minhas mãos apertavam as dele com força.
- Deu tudo certo! – sorri abertamente e sorriu junto.
- Eu sabia. – ele soltou minhas mãos e voltou a segurar firmemente o meu rosto enquanto me beijava. Eu sentia que ele estava ansioso e agitado ao mesmo tempo, por isso quebrei o beijo.
- Quero ir pra casa. – mexi minhas mãos nervosamente, riu e abriu a porta do carro pra mim. Rapidamente ele já tinha colocado o próprio cinco e ligava o carro de uma maneira agitada sem deixar que seu sorriso desaparecesse.
- O negócio é o seguinte... – ele olhou para mim quando o semáforo se fechou a nossa frente. – Quando chegarmos em casa você terá meia hora para arrumar apenas uma mala! – fez o número um com o dedo indicador e meus olhos estalaram em sinal de curiosidade.
- Como assim? – a curiosidade dominava até a minha voz. Eu sabia que teria alguma surpresa preparada por ele no fim daquele dia, mas eu esperava um jantar especial ou coisa do tipo.
- Sem perguntas. – ele sorriu triunfante e acelerou assim que o sinal abriu.
- Mas... Eu tenho que levar o que? – odiava quando me deixavam curiosa, odiava mistérios.
- Roupas. – falou debochadamente me fazendo bufar.
- Roupas só pra mim ou pra você também? Roupas de verão ou inverno? – ria da minha agonia e leve desespero.
- Se preocupe apenas com você e suas roupas de verão porque eu já cuidei do resto. – ele me olhou rindo divertidamente. Balancei a cabeça negativamente me perguntando o que ele pretendia fazer, se eu teria que levar roupas de verão era sinal de que nós íamos para longe, já que, estávamos no outono e eu não via minhas roupas curtas e leves há algumas semanas. Pensei na possibilidade de irmos para a nossa casa na praia, mas desconsiderei porque se ele estivesse me levando para lá não seria necessário todo esse mistério.
Balançava minhas pernas impaciente e me divertia com a risada de que ria das piadas de algum programa de alguma rádio qualquer. Eu sabia que ele não iria me contar o que estava planejando então o único jeito era esperar e deixar que ele me guiasse.
Novamente, eu estava nervosa e radiante.



Capítulo 10

Entrei no apartamento com pressa e ansiedade, parecia ser a minha primeira viagem sozinha e eu encarava aquilo como a fuga de uma adolescente apaixonada.
Logo na sala estava a mala de e ela era média, o deixei sozinho e fui para o quarto.
Parei por um segundo para analisar qual mala eu levaria, eu tinha muitas porque sempre viajei muito e naquele momento eu simplesmente não sabia qual mala levar e muito menos o que colocar dentro dela. Quis dar um tapa em por me deixar tão ansiosa.
- Vinte minutos. – parou ao meu lado com os braços cruzados.
- Tudo bem, já entendi! – arrumei meu cabelo atrás da orelha e peguei uma mala média, do mesmo tamanho que a mala de . A abri em cima da cama e voltei para o closet pegando alguns biquínis, shorts jeans, blusas e vestidos leves. Arrumei tudo apressadamente e joguei na mala de qualquer jeito, depois iria pagar alguém para passar minhas roupas porque ele era o culpado da minha pressa.
- Quinze minutos. – ele abriu a porta do banheiro e sorriu. Bufei e terminei de tirar minha roupa para tomar um banho extremamente rápido. Eu odiava fazer as coisas sob pressão, mas naquele caso estava sendo relativamente divertido.
Secava meu cabelo ao mesmo tempo em que escovava os dentes, lavei a boca e fui até o closet ainda com o secador ligado (agradeço todos os dias por ter um secador com quilômetros de fio) eu peguei uma calça jeans escura e uma blusa de manga curta. Voltei para o banheiro e terminei de arrumar o meu cabelo, eu iria perder um tempo na maquiagem, mas era necessário.
- Cinco minutos. – novamente entrou no banheiro e sorriu.
- Some daqui e em quatro minutos eu vou estar na sala! – falei entre os dentes o olhando pelo espelho. arregalou os olhos e saiu.
Terminei a maquiagem e apressadamente tive que rebolar para vestir a calça jeans porque meu corpo ainda estava úmido, coloquei a blusa e por cima um sobretudo relativamente fino que ia até um pouco acima dos meus joelhos. Voltei para o banheiro e joguei minhas coisas de higiene pessoal dentro de uma nécessaire e reparei que as coisas de já não estavam ali. Com minha bolsa sobre o ombro esquerdo e a nécessaire em mãos eu passei meus olhos pelo quarto e não vi a minha mala, fui até a sala e vi encostado na porta de saída com as duas malas ao seu lado.
- Você está um minuto... – ele afastou a manga do casaco para olhar o relógio. – E trinta e dois... e três segundos atrasada. – ele me olhou feio.
- Você só pode estar brincando comigo. – andei até ele e lhe dei um selinho.
- Não estou! – ele sorriu abrindo a porta.
- Você fechou tudo? Não precisa levar mais nada? Seus documentos estão ai? – arrastei as malas até o elevador que nos esperava e trancou a porta.
- , fica quieta, meu anjo! – ele beijou minha bochecha. De repente fiquei na dúvida se eu havia pegado os meus documentos, abri a bolsa rapidamente.
- Eu esqueci... – revirei a bolsa. – Amor, nós vamos precisar do passaporte? – perguntei mordendo o lábio, nervosa.
- Eu já pedi pra você ficar quietinha! Parece criança que está indo ver o mar pela primeira vez. – ele riu debochado, fechei a bolsa e o olhei séria.
- Então nós vamos pra nossa casa na praia? – perguntei em dúvida e negou com a cabeça, suspirei alto. A porta do elevador se abriu deixando que eu visse um táxi que provavelmente estava nos esperando.
O céu estava cinza e um vento gelado me fez colocar as mãos no bolso. O porteiro do turno da noite se aproximou pedindo licença e levou as nossas malas até o táxi.
- Porque um táxi e não o nosso carro? – perguntei ansiosa. praticamente me jogou dentro do táxi com o cuidado de proteger minha cabeça com sua mão.
- Porque você não espera só mais alguns minutos? – ele me olhou de um jeito desafiador, suspirei e minha franja se mexeu levemente, não foi necessário que dissesse para onde estávamos indo, ele apenas fez um sinal positivo com a cabeça e o motorista que o olhava pelo retrovisor apenas concordou.
O olhei ainda mais ansiosa e ele beijou minha testa sorrindo de um jeito cafajeste que eu já conhecia. Apoiei minha cabeça em seu ombro, passou um braço por trás da minha cabeça e descansou sua mão em meu ombro, eu fechei os olhos na expectativa de que fazendo isso chegaríamos mais rápido onde quer estivéssemos indo.
Minutos depois abri os olhos só para me localizar e tentar imaginar para onde estava me levando, o que eu reconheci foram algumas ruas que eram próximas do aeroporto.
- Não podemos sair do país porque eu esqueci meu passaporte e você não deixou eu voltar para buscar! – em sinal de irritação bati nas minhas coxas e riu, Aquilo já havia perdido a graça e começava a me irritar. Pra que merda servia todo aquele mistério? Custava me contar? Eu ficaria feliz do mesmo jeito!
- Amor. – ele me olhou rapidamente. – Desde quando eu deixo você esquecer alguma coisa? – ele me olhou novamente. E pra que merda ele tinha que usar o tom de voz mais doce e calmo possível?
- Tudo tem sua primeira vez, oras! – todo aquele mistério e o sorriso modesto que dominava os lábios dele estavam me irritando, eu não queria me irritar.
- Não acredito que você vai se estressar por uma coisa tão... Pequena. – me olhou novamente enquanto movimentava lentamente sua mão sobre o meu ombro.
- Tudo bem. Desculpa, mas você me conhece e sabe muito bem que quando eu fico ansiosa conseqüentemente eu fico nervosa. – respirei fundo.
- Relaxa, minha querida. – ele procurou pela minha mão, quando encontrou a beijou delicadamente.
Entramos no estacionamento do aeroporto, saímos do carro e o próprio motorista tirou nossas malas e as colocou no carrinho. pagou e agradeceu.
Antes de entrar ajeitou o cabelo dentro de sua toca e colocou seus óculos escuros, coloquei o meu também.
- Me espere aqui e não fale com estranhos! – ele me fez entrar na sala de espera e sozinho foi fazer o check-in, ri sozinha com a recomendação.
Ele realmente não pretendia falar onde estávamos indo, relaxei porque em poucos minutos eu iria descobrir de qualquer maneira. Sentei em uma cadeira e pela parede de vidro observei a movimentação no saguão.
Minhas unhas eram o centro da minha atenção e eu não fazia esforço algum para ouvir o que as pessoas falavam, eu esperava pela única voz que iria me tirar dali.
- Vamos? – perguntei ansiosa assim que senti que ele se sentou ao meu lado.
- Daqui alguns minutinhos! – ele sorriu largamente passando o braço por mim e novamente descansando a mão em meu ombro. Sorri nervosa demais, eu não tinha a mínima idéia do que ele estava aprontando, não tinha a mínima idéia do lugar que estava me esperando.
Minutos depois vários vôos internacionais foram anunciados e eu tentei ao máximo prestar atenção nas chamadas, mas não calava a boca na intenção de me distrair.
- Pronto, agora nós vamos. – ele se levantou, sorri idiotamente unindo nossas mãos e sai da sala com vontade de dar pulinhos de alegria.
tentou até o último minuto esconder para onde estávamos indo. Quando ele entregou os tickets eu estiquei o meu pescoço para tentar ler alguma coisa, mas não consegui.
Não sabia como ele tinha feito tudo, mas quando eu percebi já estávamos entrando no avião e eu ainda não sabia pra onde eu estava indo! Senti vontade de perguntar para o senhor de duzentos e cinqüenta anos que estava atrás de mim e não parava de tossir, mas me controlei.
- É aqui? – apontei para as poltronas quando senti apertando minha mão e ele concordou sorrindo. Me aconcheguei, guardei a bolsa, prendi o cinto, desliguei o celular e AINDA não sabia pra onde eu estava indo. Eu estava surtando de tanta ansiedade.
Num impulso eu desprendi o cinto e fiquei de joelhos na poltrona pronta para perguntar qual era o destino daquele avião.
- ! – segurou meu braço com os olhos estalados e as sobrancelhas formando um V.
- Me fala AGORA pra onde você ta me levando! – voltei a sentar normalmente e o olhei séria.
- Você esperou até agora, o que custa esperar a aeromoça começar a falar? – ele mesmo prendeu o cinto em mim.
- Porque eu quero que você me fale! – mantive o olhar sério e riu baixo.
- Qual é a diferença? – ele prolongou o assunto. Aquilo me irritou e me fez surtar mais ainda.
- A única diferença é que aquela coisa não é meu marido! – apontei descaradamente para a aeromoça que estava no início do longo corredor, riu um pouco mais alto.
- Tudo bem... – ele soltou o cinto e num gesto rápido me puxou pela nuca me beijando de um jeito forte, senti que a saudade reprimida estava ali diante de mim e agora a língua dele só cumpria a missão de me mostrar que a saudade era forte demais. parou de respirar por dois segundos e voltou a me beijar, quando ele se afastou foi eu quem parou de respirar. Ele se aproximou novamente com os lábios molhados junto aos meus.
- Austrália. – ele sussurrou se afastando de mim. Tentei engolir a saliva, mais ficou alojada ali. Senti vontade de gritar, mas reprimi o grito.
- Austrália? – senti meu rosto quente e para controlar a euforia apertei o braço de enquanto sorria abertamente.
- Sim, Austrália. – ele também sorriu.
A aeromoça começou a falar dando as instruções necessárias e atraindo a atenção da maioria dos passageiros, menos a minha.

A minha euforia tinha um motivo especial. Eu estava voltando para a Austrália, estava voltando para o país em que me pediu em casamento! De novo, eu estava nervosa e radiante.
Não contei as horas em que fiquei no avião, percebi que havia dormido boa parte do tempo e quando acordei eu já podia ouvir as instruções para o desembarque.
- Uau, acordou! – arrumou minha franja e eu sorri pegando minha bolsa.
- Dormi muito? – perguntei ainda sonolenta.
- Praticamente a viagem inteira. – ele sorriu.
Sentimos um leve baque quando o avião pousou em terra firme e apertou minha mão. Olhei pela janela e lá fora estava escuro, apenas as luzes do aeroporto, alguns aviões e carros iluminavam a nossa volta.
se levantou primeiro e esperou por mim, uniu nossas mãos e desembarcamos.
- Eu não acredito que estamos aqui de novo! – agarrei em seu braço inalando o perfume que estava impregnado em seu casaco.
- Pra falar a verdade, nem eu. – ele beijou o topo de minha cabeça e entre pulinhos e risos discretos pegamos nossas malas. Era um pouco mais de cinco horas da manhã quando saímos do aeroporto. Ainda entre pulinhos me levou até o estacionamento e tirou do bolso uma chave que eu não conhecia, o olhei em dúvida e ele piscou acionando o alarme, em seguida abriu a porta para mim.
- Antes que você comece a me bombardear com perguntas... – ele ligou o carro e me olhou rindo. – Esse carro é nosso, digo, da banda... – ele falava com as mãos e deixava o carro seguir praticamente sozinho pelas ruas vazias. – E eu estou te levando pro mesmo lugar em que eu te pedi em casamento, você lembra? – ele pegou em minha mão e meus lábios tremiam, em meu corpo eu sentia uma onda de alegria se quebrando a cada respiração minha.
- Claro que eu lembro! – sorri largamente e apertei a mão dele com toda a minha pouca força.
Comecei a reconhecer algumas ruas e senti meu coração bater mais forte quando entrou na rua que beirava a praia que eu tanto gostava. Uma linha avermelhada riscava o céu deixando a vista que eu tinha diante dos meus olhos incrivelmente linda.
parou em frente a uma casa que eu não conhecia e era extremamente linda.
- Vem! – ele saiu praticamente correndo do carro, rapidamente pegou as malas e me puxou pela mão para entrar na casa que parecia estar esperando visitas, a limpeza era visivelmente impecável e recém feita. jogou as malas em cima de uma cama de casal e a abriu e já foi tirando de dentro uma bermuda e uma camiseta. Atirou os tênis largos em algum canto do quarto que eu mal tive tempo de procurar, jogou a calça com cinto e tudo num outro canto, o casaco ficou no caminho até o quarto e ele vestia a camiseta enquanto procurava sua carteira. De repente ele parou tudo e olhou para mim.
- Quem parece que nunca viu o mar é você, não eu. – coloquei minhas mãos na cintura. Ele não falou nada, abriu a minha mala e foi jogando as minhas roupas (que estavam levemente amassadas) sobre a cama.
- Se troca! – ele sacudiu os joelhos, impaciente e voltou a procurar pela carteira.
Coloquei o primeiro biquíni que vi, vesti um short jeans curto, revirei a mala procurando uma sandália baixa e quando achei peguei uma blusinha regata verde e andei rapidamente com as sandálias e a blusinha em mãos procurando por .
Ouvi uma buzina, apenas encostei a porta da casa e cheguei ofegante no carro. acelerou e ligou o rádio. Reconheci a música One Sweet Love – Sara Bareilles logo no começo, sorri instantaneamente.

Just about the time the shadows call
Bem na hora em que as sombras chamam
I undress my mind and dare you to follow
Eu dispo minha mente e me atrevo a seguí-lo
Paint a portrait of my mystery
Pinto um retrato do meu mistério
Only close my eyes and you are here with me
Apenas fecho meus olhos e você está aqui comigo
A nameless face to think I see
Um rosto sem nome para pensar que vi
To sit and watch the waves with me till they're gone
Para sentar e observar as ondas comigo até que elas vão embora
A heart I'd swear I'd recognize is
Um coração que eu juro que reconheceria é
Made out of my own devices.... Could I be wrong?
Feito pelos meus próprios artifícios... Eu poderia estar errada?

A música ganhou a minha atenção e tudo o que sentia era a mão de variando entre o volante e a minha mão, tudo o que eu sentia era aquele vento praiano bagunçando os nossos cabelos, tudo o que eu sentia era a mágica de tudo o que estava a minha volta.
dirigiu até um lugar muito alto e que por incrível que pareça era de fácil acesso, ele estacionou o carro.
- Espera! – ele fez sinal com a mão e saiu do carro para abrir a porta para mim. – Vem, meu anjo. – ele segurou minha mão e tapou meus olhos, segurei em seu braço apenas para me sentir firme. – Estamos atravessando a rua... – ele segurou minha cintura e me guiava, senti o vento ainda mais forte a ponto do meu corpo estremecer. – Cuidado com a pedra! – ele segurou minha perna e riu com o meu quase tropeço, apertei mais as minhas unhas em seu braço. – Vai mais devagar porque tá cheio de pedras aqui. – ele me fez ir mais devagar. – Acho melhor você tirar essas sandálias. – ri com a idéia dele, suas mãos ainda cobriam os meus olhos e agora eu havia feito um quatro com as pernas para que ele tirasse minhas sandálias. Senti meus pés tocarem o solo fresco das pedras e no mesmo instante tirou as mãos do meu rosto. – A nossa praia!

Time that I've taken
O tempo que eu tenho levado
A pray is not wasted
Rezo para que não seja desperdiçado
Have I already tasted my piece of one sweet love?
Eu já provei o meu pedaço de um doce amor?
Ready and waiting
Pronta e esperando
For a heart worth the breaking
Por um coração que valha a pena a fratura
But I'd settle for an honest mistake in the name of one sweet love
Mas eu me conformaria com um erro honesto em nome de um doce amor.

Me joguei nos braços dele e ali depositei toda a força que eu tinha para dar a ele o melhor abraço da vida dele. beijou toda a extensão do meu rosto e com calma chegou em minha boca, no mesmo instante ele apertou minha cintura e com a outra mão ele segurou o meu rosto. Dessa vez eu deixei que a saudade que eu estava dele se exibisse durante o beijo, minhas mãos seguravam com força o cós da bermuda dele, com o vento forte eu sentia que poderia voar a qualquer momento. escorregou a mão pelo meu pescoço ainda me beijando intensamente, ele brincou com a minha corrente então senti que passou a mão pelo meu colo. Sorri enquanto o beijava e ganhei uma mordida no lábio inferior como respostas. Ele passou as mãos pelos meus seios descaradamente e sorriu comigo no beijo, eu tentei me aproximar ainda mais. Os dedos dos meus pés se coçavam nas pedras e minhas mãos não paravam quietas, totalmente afobadas e indecisas. colocou minha mão direita no bolso traseiro de sua bermuda, procurou pela minha mão esquerda e apertou minha aliança, novamente sorrimos juntos entre o beijo.

Sleepless nights you creep inside of me
Noites sem dormir que você arrasta dentro de mim
Weave your shadows in the breath that we share
Tecem suas sombras na respiração que partilhamos
You take more than just my sanity
Você leva mais que minha sanidade
Take my reason not to care
Leva meu motivo para não me importar
No ordinary wings I'll need
Não vou precisar de ordinárias asas
The sky itself will carry me back to you
O céu, por ele mesmo, me levará de volta até você
Things I dream that I can do
Coisas que eu sonho que posso fazer
I'll open up the moon for you
Eu vou abrir a Lua para você
Just come down soon
Apenas desça logo.

Com pressa tirei a camiseta dele, passei minhas unhas em seu peitoral e escorreguei até o cós de sua calça, ele soltou um gemido alto sem se preocupar com mais nada no mundo. Éramos só eu e ele as seis horas da manhã no alto de uma montanha de frente para a nossa praia!

The earth that is the space between
A Terra que é o espaço no meio
I'd banish it from under me... To get to you.
Eu a baniria de debaixo de mim... Para chegar até você
An unexpected love provides
Um amor inesperado concede
My solitary's suicide... I wish I knew
Meu solitário suicídio... Eu gostaria de ter sabido.

- Você... – respirou fundo ainda com os lábios nos meus. – Você sabe que eu te amo além do que você imagina? – abri meus olhos e senti que ele me encarava seriamente. Concordei com a cabeça, ele levantou minha blusa. – Você... Sabe que não existe mais nenhuma outra mulher que eu possa amar nessa vida? – ele continuava me encarando, novamente eu concordei com a cabeça e então ele abriu o zíper do meu short. – Você sabe que tudo o que eu quis e tinha que fazer eu fiz enquanto estava solteiro, sabe? – ele pegou em meu rosto e novamente eu concordei. – Então você sabe que eu sou seu pro resto da minha vida? – ele sorriu voltando a me beijar, de novo eu concordei com a cabeça e no mesmo instante senti meu short cair no chão.
- Eu também te amo além... – respirei fundo e deixei que me deitasse ali mesmo. – De tudo! – voltei a beijá-lo, ele logo ficou por cima de mim e deixou que a saudade que sentíamos um do outro fosse morta da maneira mais doce e prazerosa possível.

Time that I've taken
O tempo que eu tenho levado
A pray is not wasted
Rezo para que não seja desperdiçado
Have I already tasted my piece of one sweet love?
Eu já provei o meu pedaço de um doce amor?
Ready and waiting
Pronta e esperando
For a heart worth the breaking
Por um coração que valha a pena a fratura
But I'd settle for an honest mistake in the name of one sweet love
Mas eu me conformaria com um erro honesto em nome de um doce amor.
One sweet love…
Um doce amor…




Capítulo 11

Acordei mais preguiçosa que o normal.
Fiquei com preguiça até para analisar o teto então, decidi levantar. Meus pés tocaram o chão gelado, virei meu rosto e não pude deixar de sorrir ao ver dormindo de lado, respirando tão pesadamente que eu poderia apostar que logo ele roncaria e ainda assim ele era lindo dormindo. Estiquei meus braços para cima na intenção de me espreguiçar e fui até o banheiro.
Quando me olhei no espelho vi uma que há muito tempo eu não via e aquilo me surpreendeu, naquele momento eu vi no reflexo do espelho uma mulher viva e de bem consigo mesma, eu estava de bem comigo mesma. Não existe sensação mais aliviante para uma mulher do que a de estar bem consigo mesma, estar de bem com o próprio corpo, de bem com a própria alma. Abri a torneira e uni minhas mãos para formar uma concha, deixando que ela se enchesse de água, em seguida joguei a água em meu rosto e o massageei levemente. Sequei meu rosto e escovei os dentes, só mais uma rápida olhada no espelho pra garantir de que o que eu via não era uma ilusão e sim a minha realidade. A realidade era que eu estava me sentindo mais linda do que nunca.
Voltei para o quarto e não me surpreendi ao ver exatamente na mesma posição e ainda com a respiração pesada saindo de seus lábios avermelhados. Agachei para pegar um vestido na minha mala que estava no chão, troquei o short jeans e a blusa de malha por um vestido amarelo que ia até o meio de minhas coxas. Comprei em uma viagem que fiz à Índia a trabalho, o vestido era bordado a mão por uma artesã indiana e era um dos meus favoritos, mesmo que fosse a segunda vez que eu o usasse. Prendi meu cabelo e calcei um par de rasteirinhas. Dei um beijo no ombro de e passei meus olhos pelo quarto à procura da chave do carro e quando a achei ao lado da TV sai de casa.

Minha rotina não era nada parecida com a de uma dona de casa, mãe de família ou qualquer coisa relacionada a isso. Ser esposa de um rockstar era de fato algo que fez a minha vida mudar. Sempre soube me virar sozinha e gostava das coisas mais práticas possíveis. Mas, essa minha independência diminuiu quando me casei, coisas que antes eram fáceis agora se tornaram complicadas e muitas vezes faziam com que eu me sentisse insegura. Um simples exemplo? Andar sozinha. Foi algo que se tornou difícil para mim, andar sem sentir a mão de entrelaçada a minha me deixava insegura. Quando eu não tinha as mãos dele por perto eu me obrigava a segurar alguma coisa, nem que fosse minha bolsa ou apenas o celular.
Peguei um pequeno carrinho para colocar algumas frutas que eu havia comprado e fui em direção ao caixa, paguei tudo e sozinha guardei as compras no carro. Quando voltei para casa já eram quase cinco horas da tarde, estava dormindo desde uma hora, um pouco depois do almoço ele desmaiou na cama. Com certa dificuldade arrumei todas as sacolas em minhas mãos e com os pés chutei a porta do carro, não me dei ao trabalho de acionar ao alarme porque bem, eu estava no paraíso e a última coisa que poderia existir naquele paraíso seria alguém interessado no carro. Abri a porta e com pressa joguei as sacolas sobre a grande mesa de vidro que ficava no centro da ampla cozinha branca, impecavelmente limpa que me dava até medo sujar.
Entrei no quarto com a intenção de acordar , suspirei alto quando o encontrei ocupando toda a cama dormindo de bruços com braços e pernas abertas, um verdadeiro largado! Me sentei num pequeno espaço que havia entre seu braço e rosto, mexi em seu cabelo num carinho cuidadoso. Ele estava realmente cansado, quem o visse dormindo apostaria que ele estava de ressaca ao algo do tipo.
Minhas unhas arranharam levemente sua nuca, nenhuma reação.
Escorreguei até seus ombros e o massageei fortemente, com a intenção de acordá-lo, ainda assim ele não teve nenhuma reação. Sua respiração parecia cada vez mais pesada e agora ele roncava. Sem dó nenhuma deslizei minhas unhas pelas costas dele e enfim, ele se encolheu.
- Você me deve uma coisa... – falei mansamente ainda o arranhando nas costas, agora um pouco devagar. Ele enterrou o rosto no travesseiro e negou com a cabeça, seu corpo nem se mexeu. – Vai me ignorar? – ri levemente. – Vai me ignorar só porque eu te cansei? – ri novamente. Ele riu também e o som de sua risada saiu abafado por causa do travesseiro. Ele tateou a cama e quando encontrou outro travesseiro ele o colocou no meio das pernas. Ri um pouco mais alto. - ?
- Hum... - ele murmurou num sussurro quase inaudível.
- Você continua me devendo uma coisa! – baguncei seus cabelos, então ele virou o rosto e me encarou com o rosto meio rosado e, também amassado denunciando suas horas de sono.
- Diga! – ele esfregou os olhos, bocejou em seguida.
- Uma caminhada, lembra? – sorri amigavelmente, com a intenção de convencê-lo apenas com o meu sorriso, não estava a fim de ficar insistindo.
- Uma caminhada, ham... Agora? – seus lábios se contraíram engraçadamente.
- Se não quiser, vou sozinha. – nem insisti. Me levantei da cama e agarrou com pressa na barra do meu vestido.
- Espera, eu vou com você, meu anjo. – ele sorriu soltando em seguida o meu vestido. – Até parece que você vai caminhar sozinha e com esse vestido. – ele apontou freneticamente para mim e entortou a boca. Sorri satisfeita.
- Então anda logo porque eu quero ver o pôr do sol. – sai do quarto para ir até a cozinha e guardar as compras que eu havia feito mais cedo.

Não demorou muito até que ele aparecesse na cozinha de banho tomado, vestindo uma bermuda clara e uma camiseta branca em mãos. Ainda havia vestígios de água em seu pescoço, barriga e costas, ele mal sabia se enxugar sozinho ou então fazia aquilo para me provocar. Corri para pegar a minha câmera que ainda estava na mala, cheguei à porta ao som de seu assovio, pendurei a câmera no pescoço e a arrumei de lado, então entrelaçou nossas mãos e saímos para atravessar a rua e pisarmos na areia.
- Eu gosto tanto dessa praia. – falei sorrindo, puxei pra molharmos os nossos pés descalços.
- A água ta boa. – ele também sorriu assim que o fim de uma onda molhou nossos pés, concordei e continuamos andando pela areia molhada.
Andamos por mais de uma hora, apenas íamos pra frente sem nos preocuparmos se estávamos longe demais, agora vestia sua camiseta porque o vento ficou mais frio devido o horário, então olhei distraída para o céu e meus olhos se estalaram ao perceber a beleza fascinante do céu a minha frente. Parei e peguei minha câmera olhando atentamente para cada ponto que me chamava atenção na intenção de pegar o melhor ângulo, não que realmente fosse necessário ou eu fosse uma fotógrafa profissional, o céu estava estupidamente lindo e até mesmo a foto de uma pessoa que nunca teve contato com uma câmera sairia extremamente perfeita. Me virei distraída e estava um pouco atrás de mim, com os braços cruzados e os olhos fixos no mar, guardei a câmera e andei até ele. Parei hesitante assim que sua mão puxou minha cintura, olhei para ele com seriedade.
- Amor... – minha voz saiu ansiosa, seu olhar sob mim era atencioso. – Você... Acha que eu vou... – arrumei meu cabelo atrás da orelha. – Vou... – fechei meus olhos e respirei fundo, ainda de olhos fechados procurei pelas mãos dele. – Conseguir engravidar? – continuei de olhos fechados, pude sentir que ele apertou minhas mãos e me puxou para perto afagando seu rosto em meu cabelo, depositou um beijo em minha testa passando as mãos delicadamente pelas minhas costas.
- É claro que vai! – senti que ele sorriu. – Não é de se duvidar que o nosso filho tenha sido feito hoje! – ele sorriu largamente, levantou meu rosto e me beijou.
- Eu não consigo parar de pensar nisso. – balancei nossas mãos no ar, me segurou pela cintura com firmeza e sorrindo voltou a me beijar.
- Será que... – ele passou a mão pelo meu rosto. – Será que teve um espermatozóide empolgado o suficiente para correr mais que os outros e... – ele riu divertidamente. – E ser o nosso filho?
- Eu espero que sim! – o abracei com alegria.
- Uhum! – ele murmurou quando voltamos a andar.
- É gostoso caminhar, mas na praia a sensação é outra. – chutei a areia.
- É aquela sensação de liberdade, aquela vontade de aprender a voar. – abriu os braços, ri.
- Isso é ilusão. – balancei a cabeça. – Ninguém pode andar com os pés fora do chão. – o olhei sorrindo.
- Não corta meu barato, amor! – ele uniu nossas mãos novamente.
- Vamos voltar? Estou com fome. – passei a mão pela barriga, me olhou sério.
- Oh céus, será que o espermatozóide vencedor já vai dar sinal de vida? – ele afundou as mãos nos cabelos em sinal de desespero. Ri divertidamente, jogando meus braços em seus ombros e lhe dei mais um beijo.
- Eu comprei algumas coisas, o que você acha de fazermos uma salada de frutas? – mordi o lábio.
- Acho digno! – ele beijou o topo de minha cabeça e atravessamos a rua para entrar em casa.
- Talvez o nosso filho possa ser feito depois dessa salada... – ri ironicamente, deu um tapinha em minha bunda.
Lavamos nossos pés num chuveiro que ficava do lado de fora da casa e depois me deixou sozinha na cozinha. Abri a geladeira, peguei algumas frutas e as coloquei em cima da pia organizando mentalmente o que cortar primeiro.
- Amooooor! – gritou rindo, deixei a faca que usava para cortar as frutas em cima da pia, sequei minhas mãos e fui até a sala que era de onde eu pensei ouvir sua voz. – Aqui no quarto! – ele gritou novamente, entrei no quarto e ele estava na sacada. – Olha isso! – ele sorriu largamente, seus dedos apontavam para a vista a nossa frente.
Parei ao lado de e senti minha respiração falhar ao ver o céu, eu tinha um amor esquisito por céus e sempre ficava sem reação quando o via tão lindo quanto ele estava naquele dia. Fechei meus olhos e respirei fundo agradecendo mentalmente por estar viva, estar com saúde e com ao meu lado. Logo as mãos dele me abraçaram por trás, seu queixo parou sob o meu ombro direito e parte do seu cabelo batia em meu rosto devido o vento forte.
- É extremamente... – respirei fundo novamente ainda de olhos fechados e procurei por uma palavra que fosse capaz de descrever o que estava a minha frente. – Lindo! – era simples, era lindo.
- Aquela nuvem tá engraçada. – pegou uma de minhas mãos e apontou para uma nuvem que na minha imaginação parecia um guarda-chuva.
- Prefiro aquela! – carreguei sua mão para apontar outro canto no céu para que ele visse uma nuvem que me lembrou um dinossauro.
- Parece um cavalo. – ele gargalhou e voltou a abaixar nossas mãos, descansando-as em minha cintura, ficamos em silêncio por um tempo. O vento forte e as mãos de alisando minha barriga me fizeram arrepiar repentinamente, me encolhi e apertou mais os braços em minha volta. O sol já estava distante demais e apenas um risco num tom avermelhado sobrou no céu que agora aos poucos era dominado por estrelas.
- A nossa salada! – me virei para ficar de frente para , ele fez uma careta.
- Pode ficar pra mais tarde... – ele beijou meu pescoço lentamente e ao mesmo tempo me trouxe para mais perto de si. Minhas mãos se afundaram nos cabelos bagunçados dele, aproximei minha boca de sua orelha e ali dei algumas mordidas, minha respiração se intensificava na medida em que ele intensificava os beijos pelo meu pescoço e às vezes descia para o meu colo. Deslizei minhas mãos pelas costas dele e ao chegar à ponta de sua camiseta a puxei para cima, então ele se arrepiou com o vento, o bico de seus mamilos ficaram pontudos e nós dois rimos quando percebemos que estávamos iguais. Ainda rindo, entre um beijo e outro começou a me puxar para entrarmos no quarto e logo sentimos o vento parar de bagunçar nossos cabelos. Desengonçadamente ele deitou na cama, me segurando pela cintura com firmeza e logo abaixou a alça do meu vestido, em seguida beijou meu queixo para embalar uma série que variava de beijos a mordidas pelo meu pescoço, ombros e principalmente meu colo que era uma das partes que ele mais gostava no meu corpo. As respirações intensas e os gemidos era o som que me incentivavam a continuar, o jeito que as mãos dele me tocavam e me seguravam com firmeza era o que me incentivava a dar o meu melhor, o olhar carregado de amor que ele mantinha fixo em mim era o que me fazia sorrir involuntariamente e era só com aquele olhar sob mim que eu tinha a certeza de que eu era uma mulher amada.

- Nós temos que comprar o presente do Steve. – comentou. Estávamos finalmente preparando a salada de frutas, eu cortava uma manga em cubinhos pequenos e lavava algumas uvas.
- Ele tem tudo, amor, eu não sei o que comprar... – sorri derrotada pela minha falta de imaginação em relação ao presente de Steve.
- Eu também não sei, queria dar uma coisa que ele ainda não tenha e desperte o interesse dele, e agora? – olhou para mim e eu balancei a cabeça.
- Essa semana nós vamos procurar alguma coisa. – me estiquei para beijar na bochecha e num descuido idiota cortei meu dedinho. Deixei um gemido de irritação escapar chamando a atenção de , liguei a torneira rapidamente e deixei que a água lavasse o pouco sangue que havia em meu dedinho.
- Tá doendo? – ele segurou minha mão para analisar o mínimo corte.
- Não, só ardendo um pouquinho. – sorri levemente, se afastou de mim e revirou os armários com pressa, bateu algumas portas e fechou algumas gavetas com um único empurrão. Então ele voltou até mim com um band-aid já aberto, segurou minha mão com delicadeza e colou o band-aid em meu dedinho. Sorriu satisfeito e me beijou levemente.
- Deixa que eu termino. – ele esticou os braços como se protegesse a pia onde as frutas estavam e eu gargalhei com tal atitude. Me sentei no balcão que ficava próximo a pia e o observei misturar todas as frutas.
- E ainda temos que comprar um presente para a filha da Celeste! – comentei repentinamente, pegou dois potinhos e colocou uma quantia da salada já pronta e se aproximou para me entregar um deles.
- E os filhos do e do ! – ele falou de boca cheia e eu concordei freneticamente me sentindo empolga pela primeira vez com a onda de gravidez que invadiu a vida das pessoas que estavam a minha volta.
- Uma delícia! – desci do balcão para pegar mais um pouco da salada.
- Eu sei, eu sei. – piscou de um jeito convencido.
- Pra que humildade, né? – o chutei levemente e ele me segurou pela cintura com uma mão enquanto a outra segurava seu pote, envolvi minhas pernas em sua cintura para que ele não ficasse muito longe.
- Eu queria que você soubesse que eu estou muito feliz! – ele fez uma espécie de aviãozinho para mim.
- Eu também estou. – falei de boca cheia e segurei uma risada, me encarou com seriedade. Largou seu potinho e pousou a mão – agora livre - em meu rosto.
- Eu estou feliz por ver o quanto você mudou. – minha expressão ficou confusa, ele sorriu. – Lembra como nós estávamos há um ano atrás? – ele perguntou com a voz hesitante.
- Lembro. – abaixei minha cabeça.
- Olha pra mim! – ele apertou minha cintura. Levantei meu rosto para encará-lo. – Você lembra como nós nos desgastamos e sofremos com aquelas brigas? – encolhi os ombros ao me lembrar da curta fase sombria que tivemos. – Aquela fase foi horrível, meu anjo, quando nós brigávamos eu não conseguia dormir direito porque você dormia toda encolhida na cama e quando eu tentava me aproximar você acabava levantando...
- Não quero lembrar. – pedi para que ele parasse, minha voz tinha um tom de súplica.
- Se naquela época alguém me dissesse que um dia você ficaria feliz em cogitar a idéia de uma gravidez, sinceramente... Eu não acreditaria. – ele respirou fundo e mexeu em minha franja. – Sempre que brigávamos eu me sentia culpado e depois te falava que entendia o seus motivos, mas na verdade eu não entendia porcaria nenhuma! – ele sorriu de lado, sem mostrar os dentes e eu assenti com a cabeça. – E agora nós conversamos sobre esse assunto com naturalidade, estávamos agora a pouco pensando em presentes para crianças e horas atrás nós cogitamos a possibilidade de você ter engravidado nessa viagem, você tem noção do quanto isso é maravilhoso e o quanto isso me alegra? Você está sonhando junto comigo e o que você me dá é exatamente tudo o que eu preciso. – agora ele mostrou os lindos dentes num sorriso alegre, beijou meus dedos olhando nos meus olhos.
- Foi isso que eu decidi fazer quando descobri que estava grávida. – involuntariamente meus lábios se entortaram. – Eu queria realizar esse sonho por você, eu queria ser menos egoísta e retribuir tudo o que você faz por mim, mas não consegui... – respirei fundo e apertou minha mão como um incentivo a não me entregar as lembranças tristes. – Mas agora eu sinto que vou te dar esse presente. – sorrimos juntos. – Sinto que vou nos dar esse presente! – segurei seu rosto com minhas pequenas mãos e o beijei intensamente.
- Eu amo você. – ele se afastou apenas para falar a frase que soava incrivelmente linda na voz dele.
- Eu também amo você, meu anjo. – voltei a beijá-lo.
- Hum... – ele se afastou novamente, bati meus pés na bancada levemente irritada e ele riu. – Nós voltamos amanhã a noite, ok?
- Já? – perguntei num muxoxo, triste por já ter que voltar para casa.
- Sim, você não trabalha não? E eu tenho uma gravação na segunda a noite, meu anjo... – ele mexeu em meus cabelos, fiz um bico ao lembrar que eu também tinha meus compromissos.
- Droga! Me promete que quando ficarmos velhinhos nós vamos morar aqui? – beijei o canto de sua boca e o olhei esperando por sua resposta.
- Prometo! – ele se virou para me beijar, sorri com a promessa.
Depois de um fim de semana na Austrália com certeza eu estaria pronta até para uma guerra!




Capítulo 12

Olhei distraidamente para o grande relógio que estava logo a minha frente e pensei na possibilidade de voltar para casa um pouco mais cedo, já era sexta-feira novamente e a semana passou num piscar de olhos, passou tão rapidamente que eu mal tive tempo para fazer muita coisa. Mordi a ponta do lápis, girei a cadeira e num impulso me levantei totalmente decidida a sair de minha sala para voltar apenas na segunda-feira.
Ao entrar no carro apoiei minha cabeça no volante quando me lembrei que ainda não tinha comprado, ou melhor, eu ainda não tinha pensado em nenhum presente para Steve, provavelmente também não. Merda. A festinha dele seria no sábado à tarde, eu tinha menos de vinte e quatro horas para comprar alguma coisa legal para um menino que faria seis anos.
No caminho até o apartamento eu prestava extrema atenção nas ruas na esperança de que alguma coisa fizesse minha imaginação aflorar, mas isso não aconteceu. Sai do elevador andando com calma enquanto pegava minha chave na bolsa, me assustei ao abrir a porta e ver Celeste tirando pó dos móveis da sala, pelo horário ela já deveria ter ido embora.
- Hey Celeste! – a chamei, tirei meu casaco e o segurei juntamente com a bolsa.
- Olá. – ela respondeu sem ao menos olhar para trás provavelmente muito ocupada em tirar o pouco pó que havia na estante, estranhei, mas resolvi não questionar. Fui para o quarto e guardei minhas coisas, tirei a bota para ficar descalça, troquei a calça jeans que estava usando por uma boxer amarela sem estampa que quase não usava e troquei a blusa por uma regata preta. Voltei para a sala e Celeste não estava mais lá, eu estava um pouco preocupada porque na quarta-feira ela havia ligado e conversou com pedindo que ele lhe desse folga naquele dia, segundo o que ele me contou ela estava tendo enjôos e tonturas e então ligou pedindo para que pudesse ficar em casa, com certeza não negou seu pedido.
- Tá tudo bem? – perguntei hesitante ao vê-la de costas para mim, na pia lavando alguns copos.
- Tudo bem. – ela respondeu com a voz baixa.
Dei de ombros, abri a geladeira para pegar alguma coisa para comer e me questionei se deveria insistir naquela conversa. Considerava Celeste como uma pessoa ‘de casa’, nunca tive muita frescura quanto a nossa relação de patroa e empregada, era mais fácil ser amiga do que ser a patroa chata. Fui até a pia para deixar o copo que havia sujado e quando me aproximei Celeste virou o rosto para o lado contrario despertando a minha curiosidade imediatamente, estranhei sua reação e a encarei esperando que ela virasse o rosto.
- Celeste? – perguntei hesitante, lentamente ela virou o rosto.
Meus olhos estalaram ao ver que em seu rosto havia uma mancha roxa próxima a boca, pouco depois reparei em seus olhos vermelhos e levemente inchados. Apertei meus lábios e me perguntava o que eu deveria falar. – O que... Aconteceu? – minha voz saiu baixa, eu sentia medo do que ela poderia responder. Celeste abaixou a cabeça e fechou os olhos ao mesmo tempo em que esticou os braços para que eu pudesse ver e conseqüentemente me assustar com as marcas vermelhas em formato de dedos largos e grossos que havia ali. – Meu Deus! – numa reação idiota coloquei minhas mãos no rosto, ainda assustada em ver as marcas em seu rosto e agora braços. – O que fizeram com você? – com cuidado a peguei pela mão e a puxei para que pudesse se sentar ao meu lado no sofá. Enquanto Celeste respirava fundo - talvez buscando forças para falar – eu pude analisar melhor seu rosto, aquele roxo em seu rosto com certeza era resultado de um soco ou algo do tipo.
- Meu marido... – Celeste falou de repente e ao que a palavra ‘marido’ saiu de sua boca ela fechou os olhos com força e caiu num profundo choro. Hesitante e com medo de machucá-la, me aproximei e lhe dei um abraço. Fechei meus olhos ao ouvi-la fungando próximo ao meu ouvido. Nunca imaginei presenciar tal situação e aquilo parecia um tanto assustador, a proporção da gravidade era muito grande! O marido bater na esposa grávida é algo imperdoável, é algo desumano. Não ousei desfazer o abraço, deixei que Celeste chorasse o quanto quisesse e precisasse naquele momento, ela precisava de um apoio e eu não iria me recusar a lhe dar o apoio que fosse necessário.
- Fica calma, vai ficar tudo bem... – usei meu tom de voz mais calmo possível, mesmo que por dentro eu estivesse meio desesperada. Celeste fungou mais algumas vezes e me soltou. Seus olhos encaravam suas mãos e seus ombros estavam encolhidos, com paciência esperei que ela falasse alguma coisa.
- Ele bebeu demais e... Nós brigamos... – Celeste limpou os lágrimas com a manga de seu fino casaco. – Não foi a primeira vez que ele me bateu... – ela voltou a chorar, me aproximei e lhe dei mais um abraço, minhas mãos faziam carinho em seu cabelo e eu sentia meu ombro molhado. – Ele é uma boa pessoa, sabe? O problema é quando ele bebe... – ela me olhou apreensiva, concordei com um sorriso singelo.
- E você vai aceitar que ele faça isso com você? – perguntei receosa. – Vai deixar que ele te bata mesmo você estando grávida? – talvez não fosse a hora certa para tais perguntas, mas não consegui me controlar.
- Ele me prometeu que não vai mais beber. – seu tom de voz era derrotado, sua expressão era a de uma pessoa cansada.
- E se ele não cumprir essa promessa? – ponderei e vi que estava indo longe demais, eu estava mexendo com os sentimentos de uma pessoa totalmente diferente de mim.
- Eu confio nele. – ela fungou pela última vez e se levantou.
- Eu te levo em casa. – falei rapidamente enquanto ela se dirigia até a lavanderia para pegar sua bolsa.
- Não precisa. – ela respondeu rapidamente, percebi que com cuidado ela limpou uma última lágrima que caiu próxima a sua boca.
- Faço questão! Só dois minutos que eu vou por uma calça. – apressadamente fui até o quarto e vesti o primeiro jeans que vi, peguei um par de all star branco e entre pulinhos voltei para a sala para ver que Celeste não estava mais lá. Terminei de colocar o all star e fui até a cozinha e tudo estava vazio e muito bem limpo, a bolsa dela não estava na lavanderia e o chaveiro de bonequinhas ainda balançava levemente na fechadura. Sai do apartamento e apertei freneticamente o botão do elevador, assim que a porta se abriu a minha frente eu entrei rapidamente e apertei o botão do térreo. Em passos largos e rápidos fui até a portaria.
- Olá! – chamei a atenção do porteiro, não lembrava o nome do homem que cuidava da portaria no período da tarde. Ele me olhou com um sorriso educado. – Você viu se a Celeste, a mulher que trabalha no décimo andar já foi embora?
- Ela acabou de sair daqui, quase não a reconheci porque ela esta com o rosto machucado. – ele me respondeu pensativo.
- Tudo bem, obrigada. – olhei para o portão de entrada e vi que o carro de estava entrando no prédio, fui até o elevador do estacionamento para esperar por ele. De longe pude ouvir duas gostosas gargalhadas e foi impossível não sorrir, estava com ele.
- ! – sorriu ao me ver perto do elevador e logo atrás vinha segurando uma caixa.
- Olá . – o abracei forte e logo se aproximou desengonçadamente para me dar um selinho.
- Cuidado, amor! – o ajudei a segurar a caixa.
- , porque você não está levando essa caixa mesmo? – entramos no elevador e cruzou os braços com um sorriso débil nos lábios.
- Porque isso aí é idéia sua então você tem que carregar as suas idéias! – levantei levemente minhas sobrancelhas e bufou.
- O que tem aqui? – perguntei ansiosa.
- O presente do Steve! – sorriu.
- , ele tá todo metido pensando que vai impressionar o moleque com esse presente. – saiu primeiro do elevador, passei por ele para abrir a porta.
- Afinal, que presente é esse? – fechei a porta e largou a caixa no chão da sala, se jogou no sofá e se sentou em frente à caixa, curiosa sentei ao seu lado.
- Um parque de diversões! – me olhou sorrindo, desviou o olhar para a caixa e abriu da mesma maneira que uma criança abriria. Encantado com o que via, sorriu orgulhoso ao revelar um mini parque de diversões feito com madeira – pelo menos parecia ser madeira – e todo vernizado, com direito a bonequinhos, animais e alguns enfeites. Sorri ao reparar minuciosamente em cada detalhe e na perfeição de tudo aquilo. – Nada de vídeo game ou robô, resolvi dar a ele um presente pra idade dele e que ele ainda não tenha. O que você achou? – ele me olhou ainda sorrindo.
Me levantei para andar em volta do brinquedo e continuei sorrindo com cada novo detalhe que eu encontrava.
– Não podia ser mais criativo, ele vai amar! – sorri.
- Eu falei, seu idiota! – atirou uma almofada em .
- Que a iria gostar eu também falei, duvido é que o Steve goste! Eu conheço meu sobrinho, né, , o moleque é vidrado em vídeo game e música e você vai dar um brinquedo de que mesmo? Madeira? – gargalhou e jogou outra almofada em .
- Se ele não gostar no ano que vem eu compro alguma coisa assim. – engatinhou até a estante e ligou o vídeo-game, entregou um controle para e então discutiram até escolherem um jogo para os dois.
- Aaaaah, eu to perdendo as manhas! Esses dias eu perdi pro , tem noção do que é perder esse jogo pra aquele merda? – ouvi resmungando enquanto fazia uma dancinha escrota para comemorar sua vitória. Peguei algumas cervejas na geladeira e levei até eles.
- Valeu, ! – ergueu uma latinha em agradecimento, me olhou e mandou um beijo.
- Vou tomar um banho, não quebrem nada. – baguncei os cabelos dos dois e fui para o quarto.
Entrei no banheiro tendo gargalhadas divertidas e palavrões como trilha sonora, sem preocupação e pressa alguma tomei um banho relaxante e ao sair do chuveiro passei um bom tempo cuidando de mim. Sequei o cabelo e arrumei minha franja e quando procurei pelo hidratante meus olhos pararam em cima de um vidro transparente com óleo corporal, era o óleo que eu havia usado para prevenir estrias durante a gravidez e eu não havia tido tempo nem de chegar à metade do vidro. Analisei meu corpo que estava envolvido por uma toalha e sem pensar muito desfiz o nó na toalha e despejei um pouco do óleo sobre minhas mãos. Respirei fundo quando minhas mãos tocaram minha barriga e senti meu próprio carinho me relaxar, me virei para encarar o meu perfil no espelho e continuei massageando minha barriga e cintura da mesma maneira que eu havia feito todos os dias dos poucos meses em que estive grávida, me perdi no meu próprio corpo e me assustei quando abriu a porta. Instintivamente cobri os seios e peguei minha toalha no chão, ele me encarou.
- Por quê? – ele se aproximou de mim ao mesmo tempo em que fechou a porta atrás de si.
- Por que o que? – com minhas mãos oleosas dei um nó qualquer na toalha e apoiei minhas mãos no grande mármore da pia.
- Por que você se assustou quando entrei? Por que se cobriu tão rápido e por que você está corada? – ele parou ao meu lado e cruzou os braços, sua boca estava semi aberta e seus olhos me encaravam pelo espelho, sorri e balancei a cabeça.
- Eu só estava muito distraída. – olhei para ele. – O que você queria?
- Vim fazer xixi. – ele respondeu normalmente e soltou o cinto que segurava sua calça, parou em frente ao vaso e fez xixi como se eu nem estivesse ali, enquanto eu ouvia o barulho do xixi dele lavei minhas mãos, se aproximou para lavar as mãos também. – Tava usando? – ele apontou para o vidro.
- Aham. – respondi rapidamente, ele sorriu.
- Vem aqui! – ele me pegou pela cintura e rapidamente desfez o nó mal feito que prendia a toalha ao meu corpo deixando que a toalha caísse no chão. me fez ficar de frente para o espelho e se posicionou logo atrás de mim, suas mãos encontraram a minha e juntos despejamos óleo em nossas mãos e juntos massageamos minha barriga. As mãos dele guiavam as minhas num carinho relaxante. – Eu adoro esse cheiro! – ele cheirou nossas mãos e voltou a massagear minha barriga e pouco depois meu quadril. Me encolhi engraçadamente quando colocou um dedo no meu umbigo, fazendo com que eu sentisse cócegas.
- Cadê o ? – perguntei distraidamente enquanto ainda sentia as mãos de acariciarem minha barriga e sentia sua respiração pacifica próxima ao meu ouvido.
- Foi atrás de mulher. – ele beijou meu ombro. – Sabe que eu não me lembro de como era a minha vida antes de você? – ele parou o carinho. Virei meu rosto para encará-lo por cima dos meus ombros.
- Eu só me lembro que sempre estava falando alguém. – falei e logo em seguida o beijei.
Amor não é se envolver com a pessoa perfeita, aquela dos nossos sonhos. Não existem príncipes nem princesas. Encare a outra pessoa de forma sincera e real, exaltando suas qualidades, mas sabendo também de seus defeitos.

Estava terminando minha maquiagem enquanto falava com algum amigo no celular. O presente de Steve já estava no carro e ficou de passar em casa com para que fossemos juntos. Estava guardando algumas coisas na bolsa quando ouvi a campainha tocar, deixei que fosse abrir a porta e segundos depois risadas invadiram meus ouvidos. Fui até a sala para cumprimentar o casal e encontrei uma um tanto mais gorda e levemente inchada. Nos abraçamos e em seguida saímos de casa.
- Vocês vão direto? – perguntou abrindo a porta do carro.
- Vamos sim, nos vemos lá. – respondi e andei com até o nosso carro. - Meu Deus, a engordou muito nesses últimos dias! – fiz o comentário sem pensar.
- É verdade, o disse que ela tá com medo de não conseguir voltar ao peso normal. – saímos da garagem do prédio.
- Será que a também engordou? – perguntei mais para mim mesma, mas ouviu.
- Há dias eu não a vejo, o não comentou nada além dos enjôos que ela anda tendo. – ele deslizou as mãos pelo volante, assenti com a cabeça.
- Eu tinha medo de engordar muito e você cansar de mim. – continuei falando mais para mim, totalmente perdida em alguns pensamentos e também alguns medos. O ouvi rindo.
- Vou continuar do seu lado com quilos a mais, rugas, cabelos brancos e chatice a mais, eu não ligo. – ele piscou rapidamente e eu sorri.
Mais alguns minutos dentro do carro e nós já estávamos próximos à casa de Naomi – irmã de . estacionou o carro, o ajudei a pegar o presente e atravessamos o grande jardim incrivelmente verde com algumas crianças correndo desesperadas entre nós. Uma decoração totalmente diversificada – que ia de Homem Aranha até alguns desenhos bonitos, mas que eu não conhecia por não serem da minha época - deixava tudo muito colorido, alegre e com cara de festa infantil. Eu mal consegui prestar atenção nas crianças que passaram por mim no curto espaço de tempo que levei para chegar até onde todos os adultos estavam porque eram todas rápidas e afobadas demais.
- Olá! – Naomi, mãe de Steve, veio nos receber com um sorriso lindo nos lábios. – Que bom que vocês vieram! – ela nos abraçou, sorrimos juntos e acenamos para alguns conhecidos. – Que belo presente! – ela admirou o tamanho do embrulho nas mãos de e olhou por cima de meus ombros. – Só preciso achar o pequeno Steve, sabe como as crianças são, não é? Não param um segundo e a cada convidado que chega eu preciso correr para procurar aquela criatura! – Naomi colocou as mãos na cintura e sorriu ao avistar Steve próximo a piscina de bolinhas que estava do outro lado do jardim. Olhei rapidamente para e o vi observar o ambiente com um sorriso tímido, ele sempre mantinha esse sorriso tímido quando estávamos em ambientes como aquele onde envolviam tantas crianças e brinquedos e pais adoráveis e aquele ar familiar - que há um ano atrás me deixava agoniada. – Só um minuto! – Naomi saiu em direção a Steve e então voltei a prestar atenção na festa.
- Está pesado? – apontei para o presente, sorriu e negou com a cabeça.
Senti uma espécie de vento passar por mim e sorri ao sentir as mãos de Steve segurar uma de minhas pernas. Eu e nos agachamos para falar com o menino e sem cerimônias Steve se jogou nos braços de , olhei para os dois e meu marido me olhou com o rosto quase se rasgando devido o grande sorriso em seus lábios, logo Steve o soltou e se jogou em mim com tamanha rapidez que eu me desequilibrei fazendo com que nós dois caíssemos no gramado. O rosto levemente vermelho e suado de Steve me fez rir, rir por sentir felicidade, uma felicidade que era totalmente nova para mim. Todos gargalharam com a cena e logo Steve se levantou para apontar freneticamente para seu presente.
- Pode abrir porque é seu – o incentivou, sem demoras o menino rasgou facilmente toda a embalagem bem feita e delicada que a moça de uma loja especializada em embrulhos havia feito.
- Se não gostar é só falar que a gente troca. – comentei rapidamente, entortou levemente a boca.
- Mãe, me ajuda! – no desespero pediu pela ajuda da mãe. Ao que todo o embrulho havia sido rasgado Steve fez uma careta ao ver seu presente.
- Não gostou? – perguntei ansiosa, prevendo o desapontamento de .
- Eu nunca vi um desses. – Steve se agachou e girou a mini roda gigante, os olhos do menino passaram lentamente por todo o parque de diversões e sua expressão era curiosa. – Tem um palco também? – ele sorriu ao ver o pequeno palco com instrumentos em miniaturas.
- Tem sim! Depois se você quiser pode trocar os bonecos e montar a sua banda! – sorriu para o menino e os dois mexeram divertidamente com os bonecos e seus instrumentos.
- Esse aqui parece o tio ... – Steve falou baixinho e olhou para .
- É o tio ! E esse aqui sou eu – pegou o bonequinho que tinha o cabelo idêntico ao seu e sorriu para o menino. – E esses são os tios e ! – ele apontou para os outros dois bonecos e Steve sorriu. - Gostou? – ele perguntou tão ansioso quanto eu.
- Eu gostei, tio, obrigado! – Steve se levantou e deu um abraço em , em seguida e dessa vez com cuidado me abraçou também. – Obrigado, tia. – ele me soltou e eu sorri. – Mãe, cadê o papai? – Steve balançou a ponta do vestido de sua mãe e Naomi ficou na ponta dos pés para procurar o marido.
- Seu pai eu não sei, mas seu tio acabou de chegar! – ela apontou para que vinha em nossa direção e tinha em mãos um presente tão grande quanto o nosso.
- Tiiiiiiiio! – Steve correu até . me abraçou pelos ombros.
- Será que ele gostou mesmo ou só foi educado? – perguntei baixinho.
- Vamos descobrir quando ele abrir o presente do -mala. – apontou para os dois que estavam um pouco mais a frente. se agachou e entregou o presente para o menino, Steve rasgou tudo e pulou freneticamente ao ver que seu presente era um violão.
- Ham, acho que ele prefere o violão. – falou em meu ouvido.
- Crianças são assim mesmo, meu anjo, não esquenta. – o beijei na bochecha. Steve arrastou até nós e o sujeito teve a audácia de sorrir vitorioso ao ver o presente de no chão com o embrulho rasgado ao lado.
- Tio, olha só o que o tio me deu. – Steve se agachou para mostrar o parque e mostrou a língua para mim, ri.
Crianças se aglomeraram em volta dos três que se divertiam com os brinquedos em miniatura e riam quando Steve tocava alguma coisa engraçada no seu mais novo violão. e chegaram e em seguida e chegaram também. Ao contrário do que pensei a estava praticamente igual, não havia engordado muito pelo que pude perceber. Ao contrário de que estava usando uma rasteirinha (calçado que ela não gostava de usar porque era apaixonada por saltos) que deixava a mostra seus pés inchados, mas ainda assim as duas estavam incrivelmente lindas. Me sentei com as duas em uma mesa e os homens ainda se divertiam com os brinquedos de Steve, percebi uma movimentação estranha quando uma música que eu conhecia muito bem começou a tocar e despertou a loucura em todas as crianças que estavam na festa. Abaixei a cabeça e sorri incrédula quando vi , , e invadirem o pequeno palco e expulsarem o DJ fantasiado de Bob Sponja. Era praticamente a mesma cena de anos atrás, na festa do meu casamento.
- Desde o começo! – pediu e foi até a pick-up para por a bendita música desde o começo.
- Não acredito que eles vão fazer isso de novo! – colocou a bolsa na cara.
- Eles vão! – gargalhou.
Então Don’t Trust Me – 3OH!3 começou a tocar e eu tive que me render para cair na risada com a cena dos quatro marmanjos no meio das crianças fazendo uma coreografia ridícula, mas que não deixava de ser engraçada.
- Black dress with the tights underneath… - começou a dublar engraçadamente e as crianças o imitavam.
- I've got the breath of a last cigarette on my teeth and she’s an actress but she ain't got no need. She's got money from her parents in a trust fund back east! – roubou a cena e dublou da maneira mais afeminada possível, Steve se aproximou dos quatro e fingia cantar a música também.
- T-t-t-tongues always pressed to your cheeks. – deslizou as mãos no ar, como se estivesse imitando um rapper ou algo do tipo e o imitou. Os quatro revezavam os trechos da música e se divertiam com algumas crianças que tentavam imitá-los.
No meu casamento a situação havia sido bem parecida, a diferença era que não havia tantas crianças e quando os quatro invadiram a pista de dança para fazer tal performance eles já estavam mais alegres que o normal, inclusive .
- Shush girl, shut your lips. Do the Helen Keller and talk with your hips! – dava tapinhas na própria bunda e chorava de rir com a cena.
- I said shush girl, shut your lips. Do the Helen Keller and talk with your hips! – repetiu os gestos de , gargalhou e em seguida apontou para mim.
- She wants to touch me, whoa oh! – os quatro cantaram o refrão juntos e Steve se exibia para uma menina que era um pouco maior que ele.
- Esse não é o meu marido. – cobriu o rosto com as mãos. – Viu, bebê, seu pai só me envergonha! – ela pousou as mãos sobre a barriga e sorriu.
- Eu já me costumei com os surtos deles. – sorriu.
- Eu também. – dei de ombros.
- Como você está, ? – aproximou sua cadeira da minha.
- Estou bem, e vocês? – apontei para as duas e suas lindas barrigas.
- Quase saindo! – fez uma careta.
- Já? – me espantei, pelas minhas contas deveria estar entrando no sétimo mês.
- Sim. – ela olhou para o palco e sorriu. – Tive uma consulta nessa semana e o meu baby esta com muita pressa! – ela riu levemente. – Brincadeira... Eu só estou com alguns problemas e vai ser necessário fazer uma cesariana.
- Nossa. – respirei fundo. – Vai dar tudo certo! – sorri para as duas e apertei as mãos de .
Uma menina de cabelos longos e lisos passou por nós chorando, parou e olhou a sua volta e chorou mais um pouco. Deixei minha bolsa na cadeira e fui até a pequena menina que ainda chorava.
- Hey, princesa! – sorri para ela e percebi que era uma criança especial. – Tudo bem? – me agachei e limpei as lágrimas que molhavam o rostinho pequeno e delicado dela. Não recebi nenhuma resposta, olhei em volta e não vi nenhum adulto com comportamento de pai que acabou de perder o filho. – Como você se chama? – insisti nas perguntas e mais uma vez a pequena me ignorou. Olhei para e e as duas me incentivaram. – Vamos procurar seus pais? – ela somente concordou com a cabeça, então a peguei em meu colo e andamos pelo jardim a procura dos pais dela.
- ? – me virei ao sentir um toque em meus ombros e vi . – Aonde você vai? – seu rosto carregava uma expressão confusa e seus olhos encaravam a criança em meu colo.
- Estou procurando os pais dela! – beijei a bochecha da menina, sorriu.
- Como é o nome dela? – ele pegou na mãozinha da menina.
- Acho que ela não fala. – sussurrei.
- Ah! – olhou para as minhas mãos que seguravam a menina e em seguida para mim. – Vamos procurar então! – ele beijou minha testa e passou as mãos pelos cabelos da menina e juntos andamos pelo jardim e ao redor da grande casa e até então nenhum sinal dos pais dela.
- Ela é tão quieta... – falei baixinho e me olhou sorrindo. – E tão lindinha! – a apertei levemente contra mim.
- Sente o poder desse cabelão. – ele apontou para os lindos cabelos da menina e sorriu de lado. No mesmo instante a menina passou a mão pelos cabelos e eu percebi que lhe faltava coordenação motora. Meu coração bateu mais rápido, parei rapidamente e analisei a situação em que estava. Totalmente nova e tentadora.
- Vamos procurar a Naomi, ela deve conhecer os pais dela. – falei rapidamente ao sentir minha respiração se intensificar. Poucas vezes na minha vida eu havia tido tamanho contato com criança e sentir o peso da pequena menina sobre as minhas mãos foi algo meio desesperador, então para controlar qualquer onda de sentimento eu resolvi devolvê-la logo aos pais.
- Naomi! – quase gritou assim que ela passou como um vulto por nós, ela girou sob os saltos e sorriu. – Conhece os pais dela? – ele apontou para a menina no meu colo e no mesmo instante Naomi sorriu mais ainda.
- Graças! Ela é filha dos meus vizinhos e a babá se descuidou. – ela se aproximou de mim e tirou a menina dos meus braços. – Vamos cantar parabéns pro Steve? Vamos? – ela nos chamou com as mãos.
- Claro! – falamos praticamente juntos. Cruzei meus braços ao sentir o vazio entre eles e os separou para entrelaçar nossas mãos. Mirei seu rosto rapidamente e beijei seu ombro ao sentir que ele estava tentando acabar com o vazio.
Dezenas de crianças rodeavam a grande mesa onde se encontrava o bolo e logo no centro dela estava Steve acompanhado por Naomi e Josh, os três sorridentes. Logo que todos saíram de seus lugares para cantar os parabéns fez questão de puxar o coro, quando chegavam na metade da música, voltava a cantar desde o inicio só para confundir e fazer as pessoas se divertirem com a mistura de frases mal cantadas. Todos batiam palmas e cantavam alegremente, Steve recebeu um beijo dos pais em cada lado do rosto. Parei os olhos em um menino um pouco mais alto que as outras crianças e que tinha uma expressão maléfica, discretamente ele escondeu uma mão entre os enfeites da mesa e puxou um docinho, virou para o lado e o enfiou na boca. Afundei o rosto no ombro de e ri sozinha.
- O que foi? – ele perguntou rindo.
- Nada. – lhe dei um selinho e fui pegar um pedaço de bolo pra nós dois.




Capítulo 13

(recomendo que deixem a música All For You – Good Night Nurse carregando e quando a letra aparecer na fic, ouçam).

Encarei a salada a minha frente como um desafio. Eu precisava comer.
Usei os talheres para me distrair e formei desenhos com os fios de cenoura. Cruzei minhas pernas e mexi meus dedos dentro da bota. Senti meu estômago cheio – apesar de não ter comido nada. Me ajeitei na cadeira tentando ficar numa posição mais confortável e no fim só consegui fazer com que o desconforto aumentasse. A cadeira parecia pequena demais pra minha agitação, era como se eu precisasse de um sofá inteiro só para que eu me sentisse bem acomodada. Deslizei minhas mãos por minhas coxas na tentativa de me fazer ficar mais calma e sorri levemente para as pessoas que estavam na mesma mesa que eu. Para disfarçar comi uma pequena parte da linda e colorida salada que enfeitava o meu prato, pedi licença e com a bolsa sob os ombros andei ansiosa até o banheiro feminino.
Fechei a porta atrás de mim e respirei fundo. Abaixei a tampa do vaso sanitário e me sentei ali mesmo com a bolsa no meu colo e o celular em mãos, pensei um pouco e a vibração do aparelho me despertou.
‘Ainda não?’
Era o que estava escrito na mensagem de texto enviada por , eu sorri sozinha e guardei o celular na bolsa. Me levantei e apoiei a bolsa na porta, levantei a tampa do vaso e lentamente abaixei minha calça já sabendo o que me esperava e querendo desesperadamente que eu estivesse enganada. Olhei incrédula para a minha calcinha e soltei um gritinho histérico e ao mesmo tempo aliviado quando vi que não havia nenhum rastro de sangue. Meus pés batiam nervosamente no chão fazendo com o que salto da bota me acalmasse com o seu barulho. Apoiei minhas mãos nos joelhos e encarei a porta branca a minha frente tendo como trilha sonora daquele momento o barulho do meu próprio salto. Na dúvida olhei de novo apenas para me certificar de que eu não estava tendo um sonho ou que tudo aquilo era fruto da minha imaginação desesperada por uma gravidez e tive a certeza de que era verdade, era a minha realidade. Me levantei e apalpei meus seios e não senti nenhuma dor como a que eu sentia nos dias que antecediam a minha menstruação, eu estava fazendo aquilo a dias e então eu sorri novamente. Peguei meu celular na bolsa e com os dedos meio trêmulos respondi a mensagem de .
‘Nem sinal!’
Sai do banheiro e passei rapidamente pela mesa onde alguns colegas de trabalho ainda almoçavam e paguei minha parte para sair logo dali. Entrei no carro e arrumei meu cabelo atrás da orelha, aumentei a temperatura do ar condicionado por ter sentido um calor repentino e dirigi até a clinica onde eu sempre me consultava. Aquele parecia ser o momento mais esperado da minha vida.
- Você vai demorar? – falei rapidamente assim que atendeu o celular.
- Não, não, meu anjo! – ele riu desesperadamente. – O vai me dar uma carona até ai porque eu pareço uma bicha e não paro de tremer, me espera! – ele desligou o telefone.
Me sentei no sofá confortável da recepção da clinica e sorri para a recepcionista, segurei o celular nas mãos e minhas botas novamente insistiam em bater no chão.
A situação era: minha menstruação estava três dias atrasada e eu sempre fui certinha quanto a isso, se havia atrasado três dias era porque alguma coisa de diferente estava acontecendo comigo. Pela manhã me fez prometer que eu iria me certificar a cada uma hora se a menstruação havia chegado ou não, eu não precisaria me certificar de nada porque quando chegasse eu iria sentir, mas prometi apenas para não desesperá-lo mais ainda e caso a menstruação não chegasse até o inicio da tarde nós iríamos até a clinica para que eu fizesse o exame de sangue. Nada de exames baratos de farmácia.
Meus olhos estavam fixos na porta e minhas mãos já suavam em volta do celular quando vi e entrando, me levantei rapidamente e se aproximou de mim com a expressão mais calma do mundo. Suas mãos tocaram meu rosto e seus lábios úmidos molharam os meus num beijo.
- , por favor, dê um jeito no seu marido! – me abraçou. – Ele parecia uma bicha louca perdendo a virgindade. – falou um pouco mais baixo e lhe deu um soquinho.
- Então você sabe como elas ficam quando perdem o cabaço, certo? – brinquei e fechou a cara. As mãos de se entrelaçaram nas minhas e ele me puxou para perto de si, encostei minha cabeça em seu peito enquanto ele brincava com minhas mãos.
- Se você quiser eu faço o grande favor de deixar o meu carro aqui e vou de táxi, precisa? – perguntou de maneira divertida.
- Eu estou de carro, obrigada, . – sorri em agradecimento.
- Tudo bem então, precisam de alguma coisa? – ele fez gestos incertos com as mãos.
- Não, dude, obrigado. – me soltou e deu um abraço no amigo.
- Então eu posso ir? Esse ambiente tipo hospital não me agrada, vocês sabem... – passou a mão pela barriga e fez uma careta.
- É só uma clinica, seu viadinho! – lhe dei um soquinho na barriga.
- Que seja! – ele levantou as mãos. – Estou indo e, por favor, me liguem quando tiverem certeza. – beijou minha testa e deu mais um abraço em . Novamente encostei minha cabeça no peito de e senti um beijo sendo depositado no alto de minha cabeça.

Meu nome seria chamado dentro de alguns minutos para que eu fosse fazer a coleta de sangue, as mãos de ainda estavam entrelaçadas as minhas e minha cabeça ainda estava encostada em seu peito. Aquele parecia ser o momento mais esperado de nossas vidas.
- . – olhei rapidamente para trás e vi uma mulher de estatura baixa e toda de branco com uma prancheta em mãos.
- Vamos lá! – me deu um sorriso encorajador e beijou minha mão.
- Olá. – a mulher nos cumprimentou educadamente e nós apenas sorrimos. Acho que a ansiedade era tanta que ficava difícil dialogar com outras pessoas. – Gravidez, anemia, colesterol, glicose... – ela falava para si mesma enquanto marcava alguma coisa. – Sente-se aqui, por favor, apóie o braço esquerdo ali. – ela me indicou a cadeira e o objeto que servia para apoiar o braço na hora da coleta. soltou minhas mãos e sorriu para mim assim que me sentei. A enfermeira se aproximou já com a agulha e o algodão em mãos, fiz uma careta ao sentir a leve picada e apertei meus lábios ao sentir o sangue sendo puxado. Aquela não era uma sensação que me agradava. – Pronto. – ela colou um pequeno adesivo e dobrou meu braço contra meu corpo. Ao levantar vacilei levemente as pernas.
- ! – ouvi a voz de me chamar.
- Calma, calma, ela se levantou rápido. – a enfermeira me estendeu um copo com água.
- Tudo bem... – falei mansamente.
- Espere mais um pouco para se levantar. – devolvi o copo para a mulher e fechei os olhos.
- Estou bem. – levantei devagar com as mãos de me ajudando.
- Ok, o exame fica pronto dentro de quarenta e oito horas. – a enfermeira sorriu e abriu a porta.
- Obrigada. – agradeci. me abraçou pela cintura e sem pressa alguma andamos até o carro.
- Por acaso você almoçou hoje? – ele abriu a porta do carro e passou o cinto de segurança pelo meu corpo.
- Almocei. – senti minha garganta seca. Desde pequena eu me sentia estranha após uma coleta de sangue, mais mole e lerda.
- O que você comeu? – ele deu partida no carro e eu apoiei minha cabeça no encosto do banco. Respirei fundo.
- Não lembro. – fechei meus olhos.
- Ok, vamos voltar com a dieta rica em ferros. – a voz dele pareceu distante, minha cabeça estava tão pesada quanto meus cílios.
- De novo não! – falei baixo.
- De novo sim, você sabe que é pro seu próprio bem. – sua voz ainda estava distante. – Amor, você tá me ouvindo? – senti um cutucão em minha perna. Apenas murmurei em resposta. – ? – mais um cutucão e em seguida senti o carro parar. – ? – novamente respondi com apenas um murmúrio. – O que você esta sentindo? – suas mãos tiraram minha cabeça do encosto do banco.
- Sono, muito sono. – molhei meus lábios ainda de olhos fechados.
- Só isso? Esta tudo bem mesmo? – abri meus olhos para encarar o rosto de carregado de preocupação.
- Estou com sede também. – novamente molhei meus lábios e sorri.
- Logo nós chegamos em casa. – ele se aproximou para me dar um selinho e voltou a ligar o carro.
Encostei minha cabeça novamente no banco e fechei os olhos, senti o alivio dominar o meu corpo, o alivio em saber que eu estava prestes a ter certeza sobre a minha gravidez. Foi um dos sonos mais curtos e mais relaxantes de toda a minha vida, teria sido mais longo se não tivesse me acordado – sem a intenção – para me tirar do carro e praticamente me arrastar até o apartamento. Eu estava tão bêbada de sono que nem me dei ao trabalho de trocar de roupa, foi fácil me jogar na cama e fechar os olhos para apagar logo em seguida.
- , , , ! – ouvi me chamando repetitivamente no ritmo de alguma música familiar, mas que por ainda estar bêbada de sono eu fui incapaz de reconhecer. Murmurei em resposta e tirei algumas mexas do meu cabelo que caiam em meu rosto.
- Você ainda esta com sede? – sua voz estava próxima demais, tive a certeza de que se eu abrisse os olhos seria capaz de contar os cílios dele.
- Uhum. – concordei com a cabeça e só então senti que minha boca estava realmente seca, abri os olhos e mirei o rosto dele. Estava tão próximo que eu cheguei a arrepiar com tamanha intensidade em seu olhar. Aquela sensação não era nova, mas ainda era intimidadora, ele conseguia me intimidar mesmo depois de anos juntos.
- Trouxe água pra você. – ele se afastou rapidamente e logo me entregou um copo com água fresca. Sorri em agradecimento e me sentei na cama para engolir o liquido em poucos segundos, sorri ao sentir minha boca molhada, odiava sentir sede. Ele recolheu o copo e se levantou para sair do quarto.
- Não! – chamei sua atenção. – Deita aqui comigo. – pedi de uma maneira manhosa, não por querer e sim por estar mole de tanto sono. Ele levantou o copo, sorriu rapidamente e saiu do quarto.
Voltei a me deitar e logo meus olhos ficaram pesados novamente. Eu precisava dormir. Esperei até que voltasse para me entregar ao sono, quando ele entrou no quarto eu bati levemente na cama indicando o lado dele.
- Só mais um pouco. – ouvi e logo senti que ele estava tirando minha bota para jogar em qualquer canto do quarto, mais alguns barulhos e eu senti o colchão afundar ao meu lado e suas mãos encostarem em mim. Deixei que ele me abraçasse de lado e me apertasse enquanto beijava minha nuca, de olhos fechados aproveitei o carinho.
- Não estou com medo. - quebrei o silêncio e no mesmo instante ele tirou a boca da minha nuca. – Digo, não está sendo como foi na primeira vez. – virei meu rosto parar poder encarar o homem a minha frente, encaixei minhas pernas nas dele e juntamos os corpos deixando apenas uma pequena distância para que eu pudesse falar. – Antes eu senti medo. – levantei meu olhar até o dele. – Agora eu não sinto. – sorri ao ver o sorriso dele.
- Não precisa ter medo. – ele me apertou um pouco e deslizou uma mão pelo meu rosto. – Vai dar tudo certo e você sempre vai me ter por perto. – seus olhos acompanhavam o percurso de sua mão e ao fim de sua frase ele sorriu para mim, com os fixos olhos em mim.
- Acho que te amar nunca vai ser o suficiente... – apertei minhas mãos em seu rosto quente e encostei minha boca na dele, ele me abraçou com força e sua respiração ficou tão intensa quanto a minha. Não abri a boca, não movi minha língua, apenas o senti ali comigo, apenas senti sua força me proteger de todo o mal que pudesse me atingir.

Totalmente impaciente encarei que estava logo a minha frente. Bati as unhas na mesa e olhei para os lados.
- Alguém nesse relacionamento tem que estar calmo. – ele bebeu um gole do seu café e sorriu do jeito mais tranqüilo possível.
- Obrigada por fazer isso por mim. – suspirei e cruzei os braços. – Dá pra você terminar de comer logo?
- Amor, respira! – ele respirou fundo e fez gestos para que eu o imitasse.
- Não estou brincando. – cerrei os olhos e bati minhas unhas na mesa com mais força.
- Nem eu! – ele aumentou os gestos e continuou respirando fundo. – Vamos, meu anjo, respira... – ele insistiu e eu me rendi para imitá-lo na respiração.
- Isso... – ele sorriu levemente e relaxou os ombros. – Mais calma? – alcançou minhas mãos e as apertou fortemente. Abaixei minha cabeça e encarei meu jeans.
- Sim, mais calma. – levantei o rosto e sorri para ele.
- Ok, vou pagar e então nós vamos sair daqui, pode ser? – ele se levantou enquanto pausadamente me explicava o que ia fazer. Apenas concordei com um aceno de cabeça acompanhado de sorriso esperançoso.
Só mais alguns minutos.
Minhas unhas estavam quase se quebrando em cima da mesa. Minhas mãos começavam a soar.
O medo queria voltar, mas eu não ia deixar que ele me ganhasse.
- Vamos! – me pegou pela mão, encarei nossas mãos entrelaçadas e lá estava a minha força.
- Vamos! – respirei fundo e sorri ao entrar no carro.
Só mais alguns quilômetros.
Meus pensamentos estavam tão agitados, milhões de flashback ao mesmo tempo, ondas de inúmeras sensações se quebrando em mim ao mesmo tempo e uma esperança imensa dominava o meu corpo e a minha alma. Olhei para o lado e sorri idiotamente para o anjo mais lindo e adorável de todos, ele segurou minha mão e delicadamente beijou minha aliança enquanto mantinha os olhos fixos na rua a nossa frente. O carro foi estacionado e minhas mãos se atrapalharam na hora de tirar o cinto, quando consegui me livrar dele sai do carro rapidamente com a bolsa em mãos, arrumei meu cabelo e esperei por , entrelaçamos as mãos e a porta da clinica se abriu a nossa frente.

Look at me, look at you,
Olhe para mim, olhe para você,
Make my day,
Faça meu dia
I Hope you think of me
Eu espero que você pense em mim
When I'm away,
Quando eu estiver longe

Lightning strikes at my soul,
Sons brilhantes na minha alma,
I breath in, deep breaths of hope,
Eu respiro, suspiro profundo de esperança,
And wake up, from my quiet dream
E acordo do meu sonho quieto
To see you so perfectly.
Para te ver perfeitamente.

- Aquela salinha... – apertei a mão de o máximo que pude e tentei não sorrir demais, não queria parecer retardada. Paramos em frente a uma sala que ficava no fim de um curto corredor pintado de branco com detalhe na cor azul bebê, havia um balcão e um recepcionista ocupado com o telefone, ao nos ver fez um breve sinal com as mãos.
Só mais alguns segundos.
Senti o olhar de sob mim e levantei o rosto para encará-lo, sorrimos juntos e apertamos nossas mãos ao mesmo tempo, o rapaz finalizou a ligação.
- ! – respondi a pergunta antes mesmo de ele abrir a boca e recebi um olhar assustado.
- Um instante. – ele sorriu singelamente e andou até a mesa que ficava do outro da sala e alcançou uma pasta branca, revirou algumas folhas e logo tirou um grande envelope branco. No mínimo uns cinco passos dele me separavam do envelope, meu olhar brilhava diante de tudo e minha mão estava sendo esmagada pela mão de . Ao que ele se aproximou eu esqueci minha educação e praticamente arranquei o envelope das mãos do rapaz. Andei rapidamente com o envelope contra o meu peito.
Só mais alguns centésimos de segundos.
- Obrigado! – ouvi a voz distante de , me virei e ele andava rápido para me alcançar.
- Abre. – estendi o envelope e senti meus olhos arderem, ele sorriu.
- Pode abrir, meu anjo. – ele devolveu o envelope e me deu um sorriso encorajador.
- Não estou com medo. – sorri nervosa e balancei as mãos no ar, consequentemente amassando o envelope.
- Então abre! – ele deu mais um sorriso, devolvi o sorriso e dessa vez meus olhos queimaram.

And it's all,
E é tudo,
And it's all for you,
E é tudo para você,
And it's all,
E é tudo,
And it's all for you,
E é tudo para você,

My day shines
Meu dia brilha
Thoughts of you,
Com lembranças de você,
Brightly glow
Brilha incandescente.

Olhei para o envelope e vi meu nome e meus dados pessoais no verso, rasguei e puxei as dezenas de folhas para fora do envelope ao mesmo tempo em que um envelope menor caiu no chão, olhei para os meus pés e um envelope colorido por bolinhas de vários tamanhos me fez rir. riu junto e nós agachamos, as mãos dele pegaram o envelope e ele sorriu apontando para mim. Deixei que o choro saísse e algumas lágrimas molharam o lindo papel colorido. Com as mãos tremulas abri e sorri instantaneamente ao ler a frase: ‘Parabéns mamãe!’
Levantei meu olhar e sorria da maneira mais linda possível, seu rosto estava igual ao meu, molhado pelas lágrimas de uma felicidade que nós estávamos esperando há meses. Segurei o envelope e me joguei nos braços do meu marido rindo e chorando ao mesmo tempo por sentir tamanha alegria, seus braços me protegeram de toda a insegurança e me mostraram que ele estaria do meu lado para tudo, eu sabia que somente ele estaria do meu lado no pior e no melhor dia da minha vida. Só ele.
Ele soltou o abraço e recolheu os papéis, nos levantamos e nos abraçamos novamente. Suas mãos me seguraram pela cintura e rapidamente ele me tirou do chão para me girar em meio ao nosso abraço. Agarrei em seu pescoço e apoiei minha cabeça em seu ombro, molhei sua camisa com minhas lágrimas e logo quando ele me colocou no chão eu limpei o rosto. colocou uma mão na boca e inclinou a cabeça para trás enquanto sorria, revirei as folhas e encontrei a que estava o resultado do meu exame e sorri mais ainda ao ler o ‘positivo’.
- Obrigado por me dar esse presente. – segurou meu rosto com suas mãos quentes e fungou baixinho, assenti com a cabeça totalmente incapaz de falar alguma coisa que expressasse minha alegria. – Te amar nunca vai ser o suficiente. – um beijo foi depositado em minha testa e entre um sorriso ele escorregou até a minha boca, entrelaçou nossas mãos e procurou pela minha língua. Meu coração batia rápido, fora de ritmo, totalmente desregulado e eu pensei que fosse desmaiar por sentir tamanha felicidade. Meu corpo foi erguido mais uma vez, finalizei o beijo com inúmeros selinhos e mordidas e em troca ganhei inúmeros sorrisos e aquele olhar, o de sempre, o dele, o olhar que ele só dava pra mim.

Run away,
Fuja,
Run away,
Fuja,
Run with me,
Fuja comigo,

Take my hand and we'll make it through,
Pegue minha mão e passaremos por isso,
I face my fears, just to see you.
Eu enfrento meus medos só para te ver.

- Vamos pra casa! – recolhi os papeis e joguei na bolsa, puxei comigo e saímos em passos rápidos, largos e mais sorridentes do que nunca.
- Vou avisar os caras. – soltou minha mão apenas para pegar o celular no bolso da calça, concordei freneticamente enquanto andava em meio a pulinhos. – Duuuuude, eu vou ser papai, papai, PAPAI, PORRA! – ele gritou e gargalhou em seguida. – Ela está supeeeer bem! – passou a mão pelo meu cabelo e sorriu. – Eu não sei, caralho, nem vimos quanto tempo o bebê tem! – mais gargalhadas. – Siiiim! É mais ou menos isso, chega, agora você já sabe então seja útil e conte pro resto do pessoal. TE AAAAMO! – ele gritou mais uma vez e fechou o flip do celular rapidamente.
- Pai! – sorri sozinha enquanto abria a porta do carro. batucou no volante e me puxou pra mais um beijo.
- Mãe! – ele sorriu. – A mãe mais linda do universo. – outro beijo.
encarou minha barriga e sorriu maliciosamente.
- Amor, nem pense nisso... – falei em tom desesperador, agora ele tinha um sorriso e um olhar malicioso. – Não, por favor, aqui não... – comecei a me abanar e ele gargalhou ao mesmo tempo em que levantou minha blusa e aproximou seu rosto da minha barriga. – Ai, meu Deus, não faça isso, ! – mais um pedido desesperador e mais uma gargalhada antes dele esfregar seu projeto de barba mal feita em minha barriga. Me contorcia no banco do carro e gargalhava alto enquanto ele se divertia ao esfregar seus pelos pontudos em mim me causando cócegas, em meio a um ataque de riso minhas pernas bateram em alguma parte do carro e eu gritei fazendo com ele parasse no mesmo instante.
- Por favor, eu não consigo respirar. – falei ofegante, me sentindo inteiramente bagunçada.
- Machucou? - ele apontou para a mina perna.
- Não... – respirei fundo e arrumei meu cabelo, ele gargalhou e se aproximou novamente da minha barriga. – , pára criatura! – implorei e ele sorriu lindamente, me olhou e depositou um beijo estalado próximo ao meu umbigo.
- Seja bem vindo, bebê. – ele falou baixinho. Minha respiração ficou mais calma e meus olhos arderam de novo, abaixou minha blusa e se aproximou para me beijar mais uma vez. Suas mãos limparam minhas lágrimas e meu coração agradeceu infinitamente por ter alguém como ele na minha vida.

And it's all,
E é tudo,
And it's all for you,
E é tudo para você,
And it's all,
E é tudo,
And it's all for you,
E é tudo para você,



Capítulo 14

(recomendo que deixem a música Awake – Secondhand Serenade carregando e quando a letra aparecer na fic, ouçam).

Abri os olhos para encarar um teto... Preto?
Apoiei os cotovelos na cama e senti minha cabeça girar com tal movimento, fechei os olhos e voltei a deitar lentamente. Alguns minutos depois senti que a tontura havia passado, com cuidado empurrei o edredom e lentamente toquei os pés no chão. Me arrastei até o banheiro me sentindo totalmente sonolenta mesmo depois de ter dormido por tantas horas.
Estava sozinha no apartamento desde a tarde anterior porque estava com a banda em Southend, onde teriam um show e uma entrevista para um programa local e provavelmente voltariam nessa madrugada ou logo pela manhã. Olhei o relógio e fui um pouco mais rápida no banho, já estava em cima da hora e eu teria várias coisas para resolver no trabalho.
O secador estava entre meus cabelos e a escova de dente estava dentro da minha boca enquanto eu estava parada em frente ao closet. Voltei para o banheiro e terminei de arrumar o cabelo, sequei a boca quando terminei de escovar os dentes e voltei para o closet. Peguei uma calça escura lisa para vestir e quando o jeans chegou em meu quadril senti dificuldade para continuar, olhei rapidamente para as minhas mãos que seguravam o cós da calça e parei em frente ao espelho, rebolei um pouco e a calça entrou. Me virei para ter uma visão do meu perfil no reflexo do espelho e percebi que eu não conseguia fechar a calça, eu até poderia conseguir se forçasse, mas não era necessário.
Sorri idiotamente com as mãos na cintura enquanto tentava enxergar os poucos centímetros de barriga que eu havia ganhado nos últimos dias. Eu já podia enxergar as mudanças no meu corpo e a cada dia eu ficava mais radiante. Troquei a calça por outra um pouco maior e terminei de me arrumar com certa urgência.
- Celeste, vou almoçar no shopping e o dinheiro para as compras de hoje está no lugar de sempre! – falei com pressa enquanto procurava por meus óculos dentro da bolsa, abri a porta e apenas mandei um beijo. Sorri para o casal que estava no elevador e ao abaixar meus olhos e ver as mãos entrelaçadas, eu senti uma saudade imensa de , precisava da mão dele junto a minha! Sorri novamente assim que a porta do elevador se abriu e me dirigi à garagem. Quando entrei no carro meu celular tocou, revirei a bolsa e peguei o aparelho para sorrir ao ver quem estava ligando.
- Saudades! – fechei os olhos e encostei minha cabeça no vidro do carro. Ouvi sua risada ecoando em meu ouvido.
- Liguei pra matar parte dela. – sua voz era divertida, calorosa.
- Só uma parte? – brinquei e rimos juntos. – Tudo bem, amor?
- Tudo ótimo! O show de ontem foi tão... – ele fez uma pausa e eu sorri. – Foi incrível!
- Fico muito feliz! – sorri sincera. – E a entrevista?
- Vai ser no inicio da noite e assim que acabar voltamos para casa, esta surtando porque a vai sair do hospital amanhã e a filha deles logo vai pra casa também e a está muito chata, não gosta de nada e está implorando pra voltar pra casa e eu quero voltar logo porque a minha mulher grávida está sozinha naquele apartamento imenso e não é legal dormir sozinho, odeio dormir sozinho porque a cama fica gigante e não tem ninguém pra roubar meu travesseiro a noite, não tem nenhuma mão brincando com a minha orelha, não tem ninguém rolando na cama e minhas mãos ficam procurando alguma coisa a noite, sabe? Não gosto de procurar e não achar, me deixa irritado! – disparou e falou tudo rápido com leves risadas. – Você gosta de dormir sozinha? – gargalhei com tal pergunta inocente.
- Eu adoro dormir sozinha porque fico com a cama gigante só pra mim, dezenas de travesseiros só pra mim, ninguém rouba meu edredom, e eu posso rolar livremente pela cama porque ninguém reclama. – tentei manter seriedade em minha voz, ficou em silêncio por alguns segundos e logo eu gargalhei.
- Não gosto quando você faz isso.
- É mentira, meu anjo. Eu odeio dormir sozinha praticamente pelos mesmos motivos que você. – ele riu alto. – E também porque não tem ninguém pra me abraçar por trás e ficar passando a ponta dos dedos sobre a minha barriga e isso sim me deixa irritada! – senti meus olhos arderem.
- Estou voltando pra casa agora mesmo, você não pode ficar irritada. – ele brincou.
- Não precisa, eu vou me controlar e te espero. – limpei uma lágrima. Era totalmente visível que eu estava sensível ao extremo.
- Melhor assim. – o ouvi puxar o ar com intensidade. – Fazia tempo que eu não sentia tanta saudade. – automaticamente limpei mais uma lágrima.
- Não faz isso comigo. – funguei.
- Desculpa amor, não é pra você chorar! – ele riu. – Por favor, pare de chorar.
- Tudo bem. – funguei mais uma vez e limpei as últimas lágrimas. – Eu estou atrasada pro trabalho.
- Vou tentar ligar antes de voltar para casa, se cuida meu anjo. – automaticamente sorri e confirmei com a cabeça.
- Volta logo e eu te amo! – antes de finalizar a ligação uni meus lábios e mandei um beijo estalado.

O caminho até o meu trabalho pareceu até mais curto depois que falei com pelo celular. Eu estava enjoada da minha própria seleção de músicas, por isso nos últimos dias tudo o que eu conseguia ouvir era rádio. Rádio no carro, no escritório e em casa porque a variação entre os estilos de músicas era grande e eu não tinha tempo para enjoar.
Fechei a porta da minha sala e observei as paredes pintadas em tom marfim, revirei os olhos me sentindo totalmente entediada com a cor da minha própria sala, cor que eu mesma havia escolhido há menos de um ano atrás. Girei sob os meus saltos e a imagem de uma sala pintada com cores alegres me veio à cabeça. Eu estava alegre. Tudo a minha volta tinha que transmitir tal alegria. Enquanto eu andava vagamente pela sala me lembrei que ainda estava no hospital e eu só a tinha visto no dia em que Ellie nasceu, a pequena filha de e minha amiga era tão frágil que teria que ficar mais alguns dias no hospital para ganhar peso, anotei mentalmente que logo que saísse do trabalho faria uma visita às duas.
Tentei adiantar o meu trabalho ao máximo, queria sair dali logo depois do almoço e quando pensei em almoço senti vontade de comer massa, muita massa. Rachel que era uma designer e trabalhava no edifício ao lado me convidou para almoçar com ela e juntas chegamos a conclusão de que queríamos nos encher de pizza e que a dieta fosse para o espaço.
Logo que estávamos satisfeitas com os inúmeros pedaços de pizza eu pedi sua opinião em relação às novas cores da minha sala.
- Olha, , o azul é hipnótico e atraente, mas não acho que seja o que você está procurando. – Rachel apontou para uma seqüência de tons azuis na tela de seu notebook.
- Eu enjoaria fácil. – concordei.
- Ham... – Rachel pareceu pensar um pouco. – O verde é sinônimo de vida e eu particularmente adoro verde! – ela sorriu rapidamente, sorri junto. – Talvez o violeta que é a cor da adrenalina e dos distúrbios, ou até mesmo o vermelho que é o instinto, a paixão! – concordei freneticamente. – Ainda temos o laranja que é a sensação de calor sabe? Normalmente as pessoas com bastante energia preferem o laranja! E por último o amarelo que é associado ao sol e a sincera ânsia de liberdade... O que mais te agradou? – Rachel se virou para me olhar.
- Adorei esse tom de verde. – apontei para uma cor suave.
- Eu gosto e se você quiser podemos misturar as cores também, tudo fica a seu critério. – ela sorriu.
- Podemos misturar esse mais escuro com esse aqui? – perguntei receosa e Rachel me incentivou sorrindo.
- O ambiente vai ficar mais envolvente, confie em mim! – ela apertou minha mão.
- Estou me sentindo pesada. – resmunguei enquanto me distraia com as opções de cores de tintas.
- Eu também estou e a culpa é sua! – Rachel me acusou com o dedo indicador, apenas neguei com a cabeça e um sorriso sarcástico.
- Não te obriguei a comer os onze pedaços de pizza mais todos esses copos de coca-cola! – retruquei com ar vitorioso.
- Não me obrigou, mas fez cara de coitada para que eu te acompanhasse e você não passasse vergonha sozinha! Malandra! – ela brincou entre risadas.
- Comeu tudo porque quis! – fiz cara feia.
- querida, eu preciso ir! – Rachel colocou seus óculos escuros. – Posso mandar entregar as tintas na sua casa?
- Claro! – sorri.
- Antes do fim da tarde elas já estarão lá.
- Obrigada, Rachel! – me levantei para nos despedirmos, em seguida me dirigi ao carro e fui para casa.

Dez horas da noite e eu não tinha nada para fazer além de esperar. Odiava esperar.
Eu estava ansiosa para ver , sentia uma saudade tão imensa que chegava a ser desconfortável. Vaguei pelo apartamento segurando um livro nas mãos enquanto procurava por algo interessante para fazer até que chegasse ou o sono me fizesse companhia.
Meus olhos pararam próxima a porta da cozinha, exatamente onde as duas latas de tintas estavam. Olhei para o relógio, olhei para as latas e olhei para a minha roupa.
Corri até o quarto e vesti um casaco vermelho de , procurei por meu par de all star e o calcei com pressa.
Conversei com o segurança e com calma abri a porta da minha sala. Meus olhos reviraram involuntariamente ao olhar aquelas paredes sem graça. Arrastei as duas latas de tinta até o centro da sala, joguei minha bolsa em cima da minha mesa, fui até a porta e peguei o rolo de pintor e mais alguns pincéis que eu havia comprado antes de ir para casa, a tarde. Espalhei jornais por toda a extensão da sala – mesmo sabendo que não seria necessário – e afastei os poucos objetos que estavam próximos as paredes.
Meu all star deslizou comigo quando dei uma volta de 360° e meus lábios se abriram num sorriso malicioso. Ergui a manga do casaco de e imaginei que se eu o sujasse ele ficaria zangado, fui até minha bolsa e peguei um elástico para prender o meu cabelo em um rabo de cavalo feito de qualquer jeito.
Com a ajuda dos meus pés consegui abrir as duas latas de tinta e sorri ao ver o exato tom de verde que eu escolhera mais cedo. Peguei um pincel e deslizei pela parede, assoprei e sorri com o resultado. Com receio mergulhei lentamente o rolo pela lata de tinta e o ergui até metade da parede, o deslizei duas vezes e aos meus olhos eu estava fazendo um bom serviço. Depois de várias tentativas eu comecei a pegar o jeito e me acostumei com o peso do rolo, num descuido alguns pingos de tinta mancharam o meu jeans e eu ri sozinha.
Passei as mãos em minha testa e massageei meu pescoço ao sentir um incomodo por estar a tanto tempo olhando para cima, aproveitei para prestar atenção e eu já havia pintado metade de uma parede! Meu jeans estava com várias manchas de tinta, meu all star branco já tinha algumas pintinhas verdes e o casaco de era praticamente verde e não vermelho como era quando eu havia o vestido em casa. Voltei a pintar e me desliguei do mundo e me perdi no meu próprio silêncio, distraída demais para qualquer coisa além das minhas paredes e tinta verde.
- Merdinha! – me xinguei quando deixei tinta pingar em meu próprio rosto. Senti até medo de me ver no espelho quando chegasse em casa.
Casa. .
Olhei para o relógio e já eram quase uma hora da manhã e no mesmo instante meu celular tocou. Deixei o rolo de tinta no chão e andei eufórica até a minha bolsa.
- Amor! – respirei aliviada.
- Onde você está? – sua voz não era calorosa, era preocupada e um tom acima do normal.
- Eu... – olhei a minha volta e sorri com a minha bagunça. – Eu estou no escritório.
- Trabalhando a essa hora? , eu não acredito! O que você tem na cabeça? Você esqueceu que esta grávida? Você esqueceu que tem que se cuidar o máximo possível? E que porra é essa de esquecer que eu chegaria hoje? – disparou e eu tentei limpar a ponta do meu all star em um pedaço de jornal. – ? – ele abaixou o tom de voz.
- Estou ouvindo. – revirei os olhos e ficamos em silêncio por dois segundos. – Vem pra cá!
- Como assim? , o que você tem? Eu acabei de chegar, to cansado e com saudade de você! – ele respirou fundo e eu sorri do outro lado.
- Vem aqui me ver, amo você! – desliguei o celular antes mesmo de ele responder. Bati palminhas como uma adolescente histérica e voltei para a minha parede.

Apenas uma luminária estava acesa quando ouvi a porta se abrindo. Instintivamente olhei para trás por sob meu ombro e vi parcialmente iluminado exibindo seu jeans escuro segurado por um cinto bege, sua camisa branca por baixo de sua jaqueta marrom e o cabelo tão perfeitamente e irritantemente lindo.
Deixei o rolo de tinta no chão e em silêncio andei até .
With every appearance by you, blinding my eyes,
Com todo seu aparecimento, cegando meu olhos,
I can hardly remember the last time I felt like I do.
Eu quase não posso lembrar a última vez que eu senti como eu me sinto
You're an angel disguised.
Você é um anjo disfarçado.

Sorri quando senti sua mão segurando a minha e a soltei apenas para ficar na ponta dos pés e o abraçá-lo forte, espremendo toda a saudade que eu senti dele. me tirou do chão para me abraçar com mais força e talvez em outra situação eu até reclamasse.

Will you stay awake for me?
Você ficará acordada para mim?
I don't wanna miss anything,
Eu não quero perder nada,
I don't wanna miss anything,
Eu não quero perder nada
I will share the air I breathe,
Eu compartilharei o ar que eu respiro,
I'll give you my heart on a string,
Eu te darei meu coração em uma corda,
I just don't wanna miss anything.
Eu só não quero perder nada.

Ele andou enquanto ainda me segurava em seus braços quentes e protetores, beijei toda a extensão alcançável de seu pescoço e envolvi minhas pernas em sua cintura. Me afastei levemente para olhar nos olhos dele e sorri quando senti que ele havia me colocado sob a mesa e consequentemente havia derrubado alguns objetos. Apertei minhas pernas em sua volta com mais força e suas mãos abriram o casaco que eu usava me deixando apenas com uma regata simples preta colada no corpo e que realçava meus seios, abriu a boca fingindo incredulidade ao perceber que era seu casaco e que ele estava manchado. Sorri inocentemente e o puxei pela nuca para beijar os lábios que eu sentia falta. Os lábios quentes e firmes que se encaixavam tão perfeitamente nos meus gelados e indecisos quanto a que região beijar primeiro.

I'm trying real hard not to shake, i'm biting my tongue,
Eu estou tentando realmente não tremer, eu estou mordendo minha língua,
But I'm feeling alive and with every breathe that I take,
Mas eu estou me sentindo vivo e com todo o respiro que eu dou,
I feel like I've won. You're my key to survival.
Eu sinto que eu ganhei. Você é minha chave para a sobrevivência.

Joguei a jaqueta de em qualquer lugar e deslizei minhas mãos por suas costas, parei quando cheguei ao cós de sua calça e levantei levemente a parte de trás de sua camiseta para arranhar lentamente o fim de suas costas. Região tentadora. Era uma das partes mais bonitas do corpo de e uma das minhas favoritas. Ele se arrepiou e minhas mãos fizeram a volta em seu corpo até levantar a parte da frente de sua camisa para arranhar a região abaixo de seu umbigo. Região perigosa. Senti que ele sorriu entre o beijo intenso e meio desesperado, sorri junto e levantei sua camiseta de uma vez, ele rapidamente ergueu os braços e a jogou para trás. Minhas mãos o puxaram pela nuca novamente e meus pés se bateram até jogarem meu tênis longe.

And if it's a hero you want,
E se é um herói que você quer,
I can save you. Just stay here.
Eu posso te salvar. Apenas fique aqui.
Your whispers are priceless.
Seus sussurros não tem preço.
Your breathe, it is dear.
Sua respiração, ela é querida.
So please stay near.
Então, por favor, fique perto.

Suspirei alto quando abriu o zíper de minha calça jeans e o beijei lentamente enquanto ele puxava minha calça para baixo. As mãos dele exploravam todas as partes do meu corpo sem malicia alguma, sem temor algum. Eram as mãos dele no meu corpo, era somente o toque dele que despertava o meu lado mais romântico e o meu lado mais selvagem. Era ele que fazia isso.
Separei nossas bocas e ouvi um gemido indignado em troca, abaixei meu olhar e me concentrei em tirar o cinto dele para poder abrir sua calça que caiu com facilidade no chão, dei o meu melhor sorriso e me abaixei levemente para o arranhar desde as coxas e subir até seu peitoral. Os joelhos de estavam agitados e ele suspirou pesadamente quando eu arranhei e mordi seu mamilo esquerdo. Desesperado ele voltou a me beijar e só se afastou para tirar minha regata por completo, minhas pernas o apertaram mais e minha respiração parou por dois segundos quando eu o senti fortemente dentro de mim.
As mãos dele afastaram o cabelo do meu rosto e num gesto de carinho ele uniu nossas testas e manteve os olhos fixos no meu.

Say my name. I just want to hear you.
Diga meu nome. Eu só quero ouvir você.
Say my name. So I know it's true.
Diga meu nome. Assim eu sei que é verdade.
You're changing me. You're changing me.
Você está me mudando, você esta me mudando.
You showed me how to live.
Você me mostrou como viver.
So just say. So just say.
Então apenas diga. Então apenas diga.

- ... – ele sussurrou tão baixo que eu não seria capaz de ouvir se sua boca não estivesse em meu ouvido.
- ... – repeti no mesmo tom inaudível de voz, o abracei forte e beijei seus ombros.
Respirei fundo e sorri quando ele se afastou, logo ele apoiou a cabeça em meu ombro e me abraçou forte.
- Eu amo você. – mais um sussurro e uma seqüência de beijos em meus ombros.
- E você é muito amado. – puxei seu cabelo e voltei a beijá-lo, agora totalmente lenta.
- Gosto quando você me beija devagar assim... – ele falou baixinho ainda com a boca na minha. – Tão devagar... Quase parando... – ele riu, me senti na obrigação de rir junto.
- Eu sei que você gosta, garotão. – dei um leve tapa em sua bunda e ele se encolheu.
- Cuidado! – ele alertou antes de morder minha língua com mais força que o normal.
- Não tenho medo. – o mordi com mais força, abri os olhos a tempo de ver que ele fazia uma careta engraçada enquanto eu o mordia.
- Deveria ter! – num gesto rápido e inesperado – da minha parte – ele me deitou na mesa e se deitou sob mim. Gargalhei alto e passei minhas mãos por todo o seu rosto, ele fechou os olhos e apertou os lábios.
- Você ficou linda com o meu casaco vermelho com pintinhas verde. – ele passou a ponta dos dedos em minha barriga. – E... – ele brincou com o meu umbigo e eu sorri. – Mais linda ainda com aquela regata! Amor, os seus seios estão incrivelmente lindos! – ele passou a mão direita sob o meu colo e me encarou. Dei um leve tapa em seu ombro e sorri. – Ah pára! Você sabe que é verdade. – ele se aproximou e me deu um selinho.
- Eu acredito! – sorri junto com ele. – Aliás, hoje aconteceu uma coisa muito legal. – sorri abertamente e me encarou com os olhos estalados. – Quando eu fui me vestir hoje de manhã uma calça não fechou, amoooor! – falei manhosa e ele riu.
- Porque não fechou? – ele perguntou desentendido e lerdo, o encarei com cinismo no olhar.
- Talvez porque a minha barriga tenha crescido um pouco, o que você acha? – apontei para minha barriga e ele riu alto.
- É a coisa mais linda que existe... – ele sussurrou e beijou toda a minha barriga e subiu entre meus seios até chegar em minha boca.
- Quero ir pra nossa casa. – arrumei o cabelo dele.
- Quero ir pra nossa cama. – ele arrumou minha franja e nós rimos. – Porque você estava aqui dando uma de pintora?
- Senti vontade de mudar as cores daqui e resolvi fazer sozinha, mas você chegou e me atrapalhou. – fiz bico.
- Te atrapalhei? Legal, quando você me chamar novamente eu nem vou dar o ar da graça. – se fez de metido e eu mordi seu queixo.
- Vamos embora! – o empurrei pelo ombro e descemos da mesa para procurar nossas roupas em meio aos jornais espalhados pela sala.
- Você conseguiu manchar a minha jaqueta! – ele quase gritou e eu me encolhi.
- Desculpa. – me aproximei e o ajudei a vestir sua jaqueta linda e agora... Manchada. negou com a cabeça e me puxou para mais um beijo, mais um abraço, mais um carinho, mais um suspiro e mais um olhar. Suas mãos quentes me puxaram para fora da minha sala e me guiaram para a nossa casa.




Capítulo 15

- Calma , fica calma… - a voz de parecia distorcida e distante, suas mãos seguravam meu cabelo e minha franja enquanto eu estava em frente ao vaso sanitário colocando todo o meu almoço para fora. Eu travava uma luta eterna com a minha mente e minha garganta, odiava vomitar, odiava sentir todas aquelas coisas dando a volta em minha cabeça, passando pela minha garganta e saindo pela boca. Era uma das sensações mais asquerosas do mundo.
Respirei fundo ao perceber que havia acabado e levei minhas mãos até a descarga ainda de olhos fechados. Senti as mãos de passarem pela minha testa com cuidado, como se estivesse limpando suor ou algo do tipo. Abaixei a tampa do vaso e esperei alguns segundos até sentir firmeza em minhas pernas para poder levantar.
- Estou melhor. – falei devagar ainda sentindo um gosto horrível em minha boca e os braços de me puxaram para cima me dando o apoio que eu precisava. Abri a torneira e uni minhas mãos como uma concha para que a água se acumulasse ali e a joguei sobre o meu rosto. Molhei minha nunca e voltei a molhar meu rosto, respirei fundo mais uma vez e escovei os dentes.
- Tudo bem? – perguntou quando fechei a porta do banheiro e me aproximei da cama. Concordei com a cabeça e me deitei ao lado dele. – Tá sentindo alguma coisa? – seus braços me puxaram fazendo com que eu descansasse minha cabeça em seu peito.
- Relaxa, estou bem. – ergui os olhos até ele e sorri, se esticou e beijou minha testa. Ficamos em silêncio por alguns minutos enquanto nos distraiamos com pequenos carinhos.
- Vamos visitar e )? – ele perguntou baixo enquanto eu sentia sua mão bagunçando meu cabelo em um carinho.
- Claro! – me sentei na cama e o olhei sorrindo.
- A Ellie saiu do hospital ontem, os dois devem estar idiotas. – ele riu.
- Tadinha, ficou quase duas semanas lá... Tão pequena e tão magrinha. – fiz bico ao projetar o tamanho de Ellie em minhas mãos.
- Ela já ganhou peso o suficiente pra poder ir pra casa. – se espreguiçou de um jeito monstruoso.
- Foi agonizante pra )... – lembrei da última vez que havia visto ) e , os dois queriam mais que tudo que Ellie saísse logo do hospital. - Acabou de ganhar a filha e a pequena não podia ir pra casa. – sorri com alegria pelos meus amigos. me lançou um olhar compreensivo.
- Hora de fazer contato com o bebê mais lindo do mundo! – ele anunciou enquanto se levantava, gargalhei já prevendo o que ele faria.
- Sem cócegas, por favor! – protestei rindo e logo segurou meus braços e me deitou na cama. Com uma seriedade forjada em seu rosto ele se posicionou em cima de mim, com uma perna de cada lado do meu corpo e me olhou sorrindo com os olhos. Coloquei minhas duas mãos no rosto e me encolhi quando as mãos de levantaram minha blusa até a altura dos meus seios.
- Vamos ver... – ele mesmo tirou as minhas mãos do meu rosto e sorriu antes de encostar seu ouvido em meu umbigo. Apoiei os cotovelos na cama me levantando um pouco para poder ver melhor e sorri quando movimentou levemente sua cabeça pela minha barriga. Sua mão direita procurou pela minha e sua mão esquerda me segurou pela cintura. – Vamos lá bebê, vamos fazer contato! – seu hálito fresco em meu umbigo fez com que eu me arrepiasse. – Amor, eu quero uma reação do bebê e não sua! – ele me olhou indignado e eu dei um tapa em sua cabeça, ele gargalhou antes de me mandar um beijo.
- Engraçadinho. – debochei e ele me ignorou voltando a encostar o ouvido em minha barriga.
- Bebê, porque você não quer fazer contato comigo? Vamos lá, não custa nada! – sua mão esquerda deslizou pela minha barriga num carinho agradável, ele esperou alguns segundos e o silêncio dominou o quarto. – Amor? – ele voltou a me olhar com um bico.
- , o nosso bebê deve estar do mesmo tamanho que um grão de arroz, tem noção de que ainda tá cedo pra ele sair me chutando ou então gritando pra poder ‘fazer contato’ com você? – fiz aspas com os dedos ao falar fazer contato e abaixou o olhar para encarar minha barriga.
- Ah, eu estou ansioso! – suas mãos pararam ao lado de minha cintura e ele ficou no meio do caminho, olhou para mim com um sorriso torto.
- Eu pedi com carinho amor, cócegas não! – dei um tapa em sua coxa. – E você é muito pesado pra ficar sentado em cima de mim.
- Eu nem soltei meu peso! – ele abriu a boca, incrédulo.
- Então se você soltar eu paro de respirar. – brinquei. se aproximou do meu rosto.
- Te faço parar de respirar de outro jeito. – ele sorriu com a boca encostada na minha e me beijou do jeito que ele sabia que me fazia perder a linha. Aproveitou que minha blusa já estava levantada até a metade e a tirou de uma vez e logo explorou todo o meu tronco, dando mais atenção aos meus seios que agora estavam visivelmente maiores. Sua língua era rápida e alcançava todos os cantos da minha boca com sutilidade, o beijo que me fazia perder a linha era esse em que ele era intenso sem ser desesperado, era sutil sem ser devagar e ainda conseguia sorrir quando estava com o meu lábio inferior preso em seus dentes. Era esse o beijo que me fazia perder a linha.
Seu corpo subiu um pouco e agora ele estava sentado – obviamente segurando o máximo de peso que conseguia – sobre a minha barriga e curvado diante de mim. Suas mãos saíram do meu colo e pararam em meu rosto, parte de seus dedos estavam em meu queixo e outra parte conseguia alcançar meus olhos enquanto ele ainda conseguia me dar o melhor beijo. Ele acariciou meu rosto ao mesmo tempo em que puxou meu lábio inferior.
- Eu te amo. – o ouvi dizer baixo quando soltou meu lábio, me senti quente por dentro. Me senti tão quente que prendi a respiração por alguns segundos numa tentativa idiota de voltar a minha temperatura normal. – Eu te amo demais! – ele voltou a tocar meus lábios com um selinho. – Muito mesmo! – ele emaranhou suas mãos em meus cabelos e quando eu abri meus olhos para encarar os dele tão próximos de mim a minha respiração falhou automaticamente. – Viu? Falei que faria você parar de respirar. – ele sorriu abertamente e voltou a me beijar. Sorri contra o beijo totalmente impedida de respondê-lo.

estava escovando os dentes enquanto eu trocava de roupa. O dia estava nublado e fresco, então aproveitei para vestir um curto casaco de linha azul clara com calça jeans e all star branco. Era apenas uma visita à casa dos meus amigos e eu me sentia confortável com aquela roupa. estava parecido, usava calça jeans e... Fui até a porta do banheiro para ver qual camiseta ele estava usando e sorri ao ver que era uma camiseta preta. Preto deixava o meu marido extremamente pegavel.
- Amor, onde você guardou o presente da Ellie? – perguntei enquanto revirava o quarto.
- Não sei. – ele apareceu e deu de ombros.
- Como não sabe? Foi você que guardou criatura! – fui em direção a sala e foi atrás de mim.
- Claro que não, foi você que guardou. – ele me ajudou a procurar.
- Foi você que guardou! – apontei freneticamente para ele.
- Te juro que não e pra falar a verdade nem lembro que presente era. – ele deu de ombros novamente e foi até a cozinha. Parei por alguns segundos para pensar. – Não é esse aqui? – ele gritou. Fui até a cozinha e vi o embrulho rosa em suas mãos.
- É sim. – sorri e peguei o presente.
- Tá esquecidinha, hein? – ele sorriu e beijou minha bochecha, revirei os olhos.
- Vamos? – peguei minha bolsa e abri a porta.
- Vou pegar minha carteira, espera ai! – deu um gole na água que estava no copo que ele segurava e correu em direção ao quarto. Sai do apartamento e chamei o elevador, logo saiu também colocando a carteira no bolso e eu admirei porque achava extremamente sexy vê-lo fazendo aquilo. Ele trancou a porta e entrelaçou nossas mãos antes de entrarmos no elevador.
- Que homem mais cheiroso... – falei mansamente descansando minha cabeça em seu ombro e respirando fundo o cheiro de sua camiseta limpa com o cheiro natural que ele emanava e a mistura do perfume viciante que ele usava. abaixou a cabeça e beijou levemente meu pescoço.
- Somos um casal cheiroso. – sorrimos juntos. Saímos de elevador e logo entramos no carro e dirigiu até a casa de e ).

O portão se abriu e estacionou o carro próximo ao grande jardim da casa. Quando sai do carro já vi parado na porta nos esperando, sorri e andei até ele.
- Ah, que cara retardada é essa? – perguntei em tom divertindo enquanto ele me abraçava mais sorridente que o normal.
- Ellie. – ele sorriu mais ainda e deu um abraço muito macho em .
- Bobão. – brinquei e ele nos deu espaço para entrar. usava uma bermuda com uma camiseta branca e meias igualmente brancas.
- Querem ver a minha boneca ou vão me zoar pra sempre? – ele indicou a escada.
- Como se você nunca fosse zoado. – debochou. A mão de estava entrelaçada à minha e com a outra eu segurava o presente de Ellie. nos guiou até seu quarto e assim que entramos vi ) deitada de lado na cama com uma coisinha embolada em milhões de cobertores ao lado.
- Own... – suspirei melosamente ao me aproximar para ver Ellie de perto. colocou as mãos em meu ombro e se aproximou também.
- Tão linda... – ele falou baixinho, sorri abertamente e olhei para que carregava a expressão mais maternal possível.
- Falem baixo! – sussurrou cuidadoso, sorri levemente.
- Estamos falando baixo. – sussurrei também. Olhei para que já estava em pé ao lado de e fui até ela. – Ela parece saudável. – a abracei com cuidado.
- Ela sofreu tanto no hospital, agora está bem! – sorriu ao admirar a filha em sua cama. me olhou com brilho no olhar e se sentou com cuidado na cama, próximo a Ellie. Novamente ele olhou para mim e foi impossível não sorrir. foi até ele e sentou-se do outro lado da menina. - Como você está? – voltei minha atenção para .
- Me sinto cansada e às vezes feia, gorda... – ela apontou para a barriga e entortou a boca. – Mas quando eu pego ela no colo... – sorriu e olhou para a cama onde e seguravam as mãozinhas de Ellie e trocavam sorrisos idiotas. – É quando eu pego ela no colo que eu me sinto bem, feliz, amada e realizada! – sorri bobamente. – E você pequena , está bem? – me guiou para fora do quarto.
- Extremamente bem! – sorri verdadeiramente. – Aliás, trouxe um presente pra ela! – entreguei o embrulho para e ela o pegou em minhas mãos com um sorriso.
- Obrigada, ! Não precisava, mas obrigada! – ela me abraçou e em seguida revelou um vestido rosa infantilmente florido e um par de sapatinhos igualmente rosa que mal cabiam na palma da mão.
- Daqui alguns meses irão servir. – brinquei e nós rimos.
- São lindos... vai adorar, ele tá cheio de mimos e frescuras com as roupas dela, acredita?
- Previsível! – balancei a cabeça me lembrando de meses atrás, quando e descobriram que estavam grávidas... e só sabiam falar sobre crianças e qual era o melhor método de educação, mesmo que no fim das contas eles concluíssem que não existia porcaria de método algum e eles educariam do jeito que quisessem.
- Vou mostrar pra ele! – voltou para o quarto e eu a acompanhei. – Amor, olha só que coisinha mais linda! – ela colocou o vestido e os sapatinhos sob a cama, me olhou sorrindo.
- Imagina a Ellie no parque com esse vestido, preciso me preparar... – mexeu rapidamente nos cabelos, fingindo – talvez não – preocupação e nós rimos.
- Quando o ligou pro e contou que você estava mesmo grávida eu fiquei tão feliz por você! Feliz de verdade, ! – um sorriso involuntário se formou em meus lábios. – Quer um chá?
- Quero. – concordei freneticamente e juntas descemos as escadas para ir até a cozinha.
- Tenho certeza que isso foi resultado daquele fim de semana na Austrália. – me olhou sugestiva enquanto preparava o chá.
- Não tenho dúvidas! – sorri empolgada. – Quer ajuda? – me aproximei da pia e negou. – Eu estou na quinta semana de gravidez, é o tempo exato da viagem.
- Vocês merecem, ! É o milagre da vida sabe? – me olhou rapidamente e eu concordei. – O não para de babar em cima da Ellie. Antes de ela nascer eu estava chata e me irritava fácil, isso meio que desgastou o meu casamento... – ela soltou um breve suspiro. – Agora tudo melhorou.
- Que bom! – passei minhas mãos pelos ombros de . – Vou pegar as canecas. – andei até o armário e peguei quatro canecas coloridas.
- Comprei umas bolachinhas divinas! Você vai gostar. – ela colocou sob a mesa um pote com as bolachinhas visivelmente divinas.
- Mamãe, ela quer te ajudar! – um bobo apareceu na cozinha com Ellie no colo, veio logo atrás segurando uma pequena toalha rosa.
- Desse jeito ela vai acordar! – colocou o chá sob a mesa e encarou , ele sorriu abertamente e mandou um beijo. – Tem como ficar brava com essa criatura? – ela se questionou e nós rimos.
- , você quer pegar? – se aproximou.
Instintivamente olhei para e seu olhar me dizia para seguir em frente.
- Tenho medo de acordar ela. – falei baixinho e fez sua típica cara de ‘e daí?’
- Se ela acordar o a faz dormir. – riu e se posicionou na minha frente. Olhei para a pequena menina aconchegada perfeitamente no colo do pai, com os pequenos olhos fechados e a calma estampando seu pequeno rosto levemente rosado, a ausência de cabelo e pelos na sobrancelha a deixava frágil, mas suas mãos unidas próximas ao seu rosto a deixavam forte. Passei minhas mãos em minha calça na tentativa de secá-las porque eu senti que estava suando. Coloquei parte do meu cabelo atrás da orelha e estiquei meus braços para poder pegar Ellie. me olhou com cuidado e passou a menina para o meu colo com calma, dando atenção especial para a leveza de seus movimentos, ele mesmo ajeitou a manta em volta da menina quando ela já estava em meu colo.
Ellie parecia caber perfeitamente entre meus braços.
Eu não sentia as minhas mãos suando enquanto a segurava, eu não sentia inveja de por segurar a filha dela em meu colo, eu não sentia raiva do mundo por pensar que nunca seria mãe, eu não sentia receio de sentir a felicidade de segurar um bebê em meus braços.
ficou ao meu lado e sorriu quando eu passei uma mão pelo rostinho de Ellie enquanto a segurava com a outra. Eu estava perdida na beleza de Ellie, olhar para ela era como se eu tivesse certeza de que não existia maldade no mundo lá fora.
- Quer pegar também? – perguntei para quando senti que estava admirada demais e que poderia chorar se continuasse com Ellie em meu colo. apenas concordou.
- Eu deixo você treinar com a minha filha. – brincou e nós rimos.
- Devagar... – sussurrou quando eu coloquei parte do corpo de Ellie em seus braços, sorri em concordância e com calma terminei de ajeitá-la no colo dele.
- Não vai deixar a baba cair em cima dela. – ficou ao lado de e apontou para a filha.
- Você tá metido demais. – mostrei a língua para ele.
- Tenho motivos né, é a minha cara! – ele apontou freneticamente para o rosto de Ellie.
- O engraçado é que ela só se parece comigo quando chora de madrugada. – brincou e abriu a boca com uma expressão totalmente cínica.
- Se hoje ela chorar eu a pego no berço. – os dois trocaram um selinho.
- Duvido que você se lembre disso depois das três da manhã. – levantou os braços e deu de ombros, como se já entregasse por saber que não levantaria. Ellie resmungou e em seguida começou a chorar, olhou rapidamente para .
- O que eu faço? – ele perguntou com agitação na voz.
- Vem aqui, minha pequena... – riu e se aproximou para pegar Ellie em seu colo, o curto espaço de tempo que demorou a troca de braços foi o suficiente para Ellie chorar com mais intensidade. a balançou levemente enquanto acariciava as mãozinhas da filha e isso foi o suficiente para que ela diminuísse o choro, em seguida saiu da cozinha e logo voltou com um carrinho de bebê.
- Vocês não querem chá? – perguntou.
- Ah, claro! – eu mesma me servi e logo esticou sua caneca para que eu a enchesse também. colocou Ellie no carrinho e se sentou conosco enquanto balançava levemente o carrinho com o pé. Bebi um pouco de chá e quando coloquei uma bolachinha na boca senti meu estomago embrulhar, mastiguei lentamente e engoli com dificuldade.
- Não gostou, ? – perguntou em tom alerta. Minha boca se abriu levemente e logo eu voltei a fechá-la. Acredito que minha expressão era de nojo.
- Amor? – se levantou e veio até mim. Olhei para ele e logo coloquei a mão na boca, sai rapidamente da mesa e fui em direção ao banheiro. Me agachei diante do vaso sanitário com pressa e logo coloquei pra fora a única bolachinha que eu havia comido. Era uma coisa tão mínima, mas dentro de mim parecia ser tão grande e tão ruim. Esperei mais alguns segundos até ter certeza de que não tinha nada para vomitar, meu estomago estava vazio desde logo após o almoço. Levantei e lavei a boca, me virei para e ele me abraçou.
- Não gosto quando isso acontece, faz parecer que você tá sofrendo. – ele disse baixo, próximo ao meu ouvido e eu apertei o abraço.
- São conseqüências amor, meu corpo infelizmente reage assim... – falei no mesmo tom de voz que ele. – Não estou sofrendo, estou mais feliz do que nunca. – o apertei mais uma vez e dei um beijo em sua bochecha antes de puxá-lo para fora do banheiro.
- Tudo bem, ? – perguntou com cuidado.
- Relaxem, estou bem. – sorri.
- Isso é só no começo, depois do terceiro, quarto mês esses enjôos vão embora! – sorriu e eu concordei. beijou o alto de minha cabeça.
- Prometo que não vamos mais comprar essas bolachinhas. – apontou o pote e nós rimos. Ellie voltou a chorar e fez com que nossas atenções se concentrassem exclusivamente nela pelo resto do dia. me chamou para ajudar a dar banho em Ellie enquanto e davam instruções sem sentidos e só atrapalhavam a minha atenção durante o banho. Depois era a vez de trocar a roupa da filha e o ajudou, os dois esqueceram de passar a pomadinha e fecharam a fralda da pequena em meio a risadas altas, brigou com e tirou a fralda de Ellie e com cuidado passou a pomada e voltou a terminar de vestir a menina. Poucos minutos depois Ellie voltou a chorar e daquela vez era um pedido de uma recém nascida com fome. Olhei atentamente se sentar na confortável poltrona posta ao lado do berço e com um sorriso ela levantou a blusa e saciou a fome de Ellie. Ficamos em silencio enquanto amamentava e Ellie voltava a cair no sono.
me abraçou pela cintura, posicionando suas mãos intencionalmente em minha barriga e beijou minha nuca. A vida é feita de mudanças e eu agradecia todos os dias por ter mudado. Eu era mais feliz assim.



Capítulo 16

Alguém prendeu minhas mãos com um nó forte em volta de uma cadeira, um nó forte o suficiente para machucar meus pulsos. Olhei para os lados e tentei enxergar algo além do escuro e a forte neblina que contrastavam de maneira sombria. Tentei levantar da cadeira, mas fracassei, minhas mãos e meus pés estavam presos em vários nós com cordas velhas. Olhei a minha volta e estranhei ao ver que dessa vez eu estava em um ambiente familiar, eu podia ver o meu quarto e um pouco mais a frente eu via alguém deitado em minha cama, ao lado da cama havia um berço. De repente as paredes do quarto começaram a cair, ao ver tudo acontecendo diante de mim eu tentei gritar, sentia a minha garganta coçando por fazer tal esforço e no fim era tudo em vão, eu não ouvia a minha própria voz. Num outro campo de visão tudo estava imóvel, inclusive eu. Apenas um flash foi o suficiente para me levar de volta ao quarto e dessa vez as paredes caiam lentamente em cima da minha cama onde ainda havia alguém dormindo e em cima do berço onde...

- ! ! – acordei ouvindo alguém me chamar. Abri os olhos e encarei o rosto de próximo ao meu. – ? – senti que minhas unhas estavam cravadas no colchão. Me sentei na cama e tentei me lembrar o que havia acabado de sonhar, minha cabeça estava bagunçada e inúmeras cenas disputavam a minha atenção.
- Bom dia! – sorri levemente para e o beijei na bochecha, ele me olhou com espanto.
- Tudo bem? Acho que você teve algum pesadelo. – ele questionou e eu dei de ombros. Se eu não me lembrava do sonho era porque ele tinha sido ruim, eu estava acostumada a não dar espaço para lembranças ruins, pesadelo era a última coisa que eu queria ter em mente.
- Estou bem! – sai da cama e me tranquei no banheiro para fazer minha higiene.
Quando sai do banheiro já não estava mais na cama, continuei vestindo a minha camisola e apenas prendi o cabelo enquanto andava até a cozinha.
- Vem comer, a mesa tá cheia de coisa saudável. – ele apontou para a mesa e arqueou a sobrancelha, olhei para a mesa e entortei a boca arrancando uma leve risada dele. Passei meus olhos pela sala e parei para ver algumas correspondências que estavam ao lado da TV.
- Precisamos conversar. – anunciei assim que sentei ao lado de , ele me olhou de relance e me serviu.
- Sobre o que exatamente?
- Sobre esse apartamento. – mordisquei minha torrada, rapidamente parou de comer e prestou atenção em mim. – Estou quase na oitava semana de gravidez... – comecei usando um tom de voz tranqüilo, ele sorriu. – Eu estou me sentindo meio sufocada aqui... Esse apartamento é imenso, mas ao mesmo tempo não tem o espaço que eu queria, entende? – entortei a boca levemente e ele apenas concordou. – Nos últimos dias eu andei desenhando e fiz um projeto pra uma casa nova, quero que você veja! – me levantei rapidamente e fui até o quarto para pegar meu notebook e minha pasta. – Tenho aqui toda infra-estrutura... – arrumei parte da minha franja em um gesto ansioso e coloquei o projeto diante de . - Aqui o jardim com a piscina e churrasqueira, mesa de sinuca e todos os jogos que você quiser, eu deixo ok? – pisquei para ele. – Garagem e o primeiro andar com a sala, cozinha, banheiro e... – respirei fundo. – No segundo andar os quartos, seu escritório, nossa super sala cinema e um quarto um pouco maior pra gente deixar os brinquedos do nosso bebê. – finalizei e deixei que olhasse o projeto sozinho. Voltei a me sentar e continuei tomando o meu café da manhã.
- Você anda ouvindo minhas conversas? – olhou para mim com seriedade.
- Nunca tive motivos pra fazer isso. – dei de ombros. – Por que tal pergunta logo agora? – ele riu.
- Eu estava falando sobre isso com os caras nos últimos dias. – manteve os olhos no projeto e um sorriso se formou em meus lábios. – Então a gente esquece a parte em que eu compraria uma casa nova e te faria uma surpresa.
- Não acredito, amor! – ri totalmente descrente e sai do meu lugar para me aconchegar em seu colo.
- Falta de diálogo... – ele beliscou levemente a minha coxa. - Eu também não estou contente com o apartamento.
- Desde... – apoiei minha cabeça em seu ombro e o abracei pela cintura. – Desde a outra vez... Eu já tinha vontade de ter uma casa gigante só pra nós três. – rimos juntos.
- Eu também. – ele beijou meu pescoço. – Então, senhora Fletcher, já sabe onde vai querer sua nova casa? – ele perguntou com autoridade, fazendo reverência.
- Vamos morar na nova vila McFly? Somos os únicos que ainda moramos na antiga, até o está morando perto do e do ! – fiz bico e balancei minhas pernas pendentes no colo de .
- Você não existe... Se troca que nós vamos sair. – ele deu um tapinha em minha coxa.
- Vamos aonde? – questionei instintivamente e ele apenas indicou a porta. Sai rapidamente de seu colo e corri até o quarto para tomar um banho e me trocar.

estacionou o carro em frente a uma casa que estava em construção e ficava em uma rua que cruzava com a rua em que e Pê moravam. Saltei do carro com pressa e o esperei vir até mim.
- Certo... – coloquei minhas mãos no bolso do meu sobretudo e o olhei sugestiva.
- Certo... – ele imitou minha ação e encarou a construção a nossa frente.
- Fala logo! – balancei meus joelhos em sinal de impaciência.
- Meses atrás, quando... – ele me olhou e eu apenas concordei. – Você sabe... – ele fez gestos incertos com as mãos. – Eu queria que nós nos mudássemos do apartamento pra uma casa e na época o falou comigo sobre esse espaço... – ele apontou o terreno a nossa frente. – Eu me interessei e cheguei a conversar com o proprietário, mas aconteceu tudo aquilo e eu acabei esquecendo de tudo... – foi cauteloso. – Mas, eu voltei a falar com o e falei novamente com o proprietário, ele começou a construção faz pouco tempo, mas ele está com problemas financeiros e não vai conseguir terminar... – me olhou sorrindo. – Então... Eu pensei em te trazer aqui pra você poder olhar, analisar a construção e se você gostar ainda tá em tempo de quebrar alguma coisa... E fazer do nosso jeito. – ele me abraçou pelo ombro e beijou o alto de minha cabeça.
Olhei para a construção que estava visivelmente no começo. O terreno me parecia ser um pouco maior que o de , a base da casa dava a entender que dali sairia uma mansão muito bem feita. Havia espaço para o jardim e tudo o que eu queria ter em minha casa, mesmo sem entrar a garagem espaçosa era totalmente visível. Tirei as mãos do meu bolso e abracei , sorri verdadeiramente enquanto sentia seus braços me apertarem contra si. Eu queria uma casa nova e eu teria uma casa nova. Eu queria construir um novo espaço para nós. Eu queria um lugar novo para abrigar a minha vida nova, a minha vida como mãe. O espaço que eu queria e precisava para fazer tudo o que eu queria estava logo a minha frente.
- Obrigada. – agradeci com toda a sinceridade que existia em mim. – Obrigada... – repeti e senti minha visão embaçada pelas lágrimas. se afastou e limpou minhas lágrimas com as pontas de seus dedos. – Eu amo você! – mais algumas lágrimas caíram e eu apertei minhas pequenas mãos no rosto de , ele sorriu e se aproximou novamente para me beijar.
- Vamos deixá-la do nosso jeito! – ele sorriu quando paramos o beijo.
- Vai ficar linda! – fiquei de frente para a construção e sorri.
- Já posso ver uma criança correndo em volta daquela piscina e depois se jogando na grama verde daquele jardim, bem ali ó. – me abraçou por trás e apontou para a piscina e grama imaginaria. Sorri e apertei sua mão.
A imagem de uma criança brincando em volta da casa apareceu em minha mente com facilidade, eu podia até ouvir uma risada divertida, eu podia até ver o brilho no olhar, eu era capaz de sentir o meu coração batendo na velocidade dos meus pensamentos e sentia o meu sorriso se alargar automaticamente.
- Vou ligar para o dono e... – sorriu. – Fechar negócio! – ele me deu um selinho e eu senti vontade de dar pulinhos de alegria. O sorriso em meus lábios não se desfazia de jeito nenhum.
- Era tudo o que queríamos! – fiz carinho em sua orelha e ele rapidamente se encolheu por sentir cócegas naquela região. – Perto dos meninos, a construção está visivelmente bem feita e ainda podemos aumentar alguma coisa... Agora pode deixar comigo que assim que ela for nossa, eu mesma vou cuidar de fiscalizar os pedreiros e depois a decoração! – apertei as mãos de com um sorriso eufórico nos lábios e ele riu.
- A decoração... Claro! – zombou entortando a boca. – Já posso te ver com pincéis e rolo de tinta querendo pintar a casa inteira! – bati levemente em seu ombro.
- Porque não me ajuda a pintar ao invés de me zoar? – questionei.
- Posso até te ajudar... – ele falou mansamente. – Mas, você vai ter que deixar a pintura divertida ou eu vou ficar entediado. – ele fez um bico e eu emaranhei minhas mãos em seus cabelos.
- Tudo comigo é diversão, meu amor. – lhe dei um selinho e ele sorriu de um jeito entediado.
- Sim. – ele me deu outro selinho. – Tudo com você é diversão e tudo sem você é perda de tempo. – ele se aproximou novamente para um selinho, mas eu não permiti que ele se afastasse.
- Ok, vai me deixar fazer uma ligação importante agora? – ele brincou e eu sorri docemente. tirou o celular do bolso e me olhou apreensivo quando o colocou no ouvido.
- Oi, Adam. – me beliscou e sorriu. – Aqui é o , lembra? Falei com você uns dias atrás... Isso mesmo! – ele bagunçou os cabelos e meus olhos acompanharam seus movimentos. – Então... Estou ligando porque eu realmente estou interessado em comprar a sua propriedade. - me olhou e eu sorri. – Amanhã? Bom, amanhã eu tenho um compromisso pela manhã, mas posso me encontrar com você após o almoço, tudo bem? – olhei para os lados e voltei a olhar . – Ótimo! – ele sorriu. – Sim, ela gostou. – ele me olhou com uma careta e eu ri. – Certo, Adam, nos vemos amanhã e fechamos negócio ok? Obrigado, tchau. – desligou o celular e me beijou.
- Amanhã? – perguntei rapidamente.
- Sim! Amanhã depois do Live Lounge que vai ser gravado na casa do . – ele voltou a me beijar.
- Posso ir junto? – perguntei por curiosidade e revirou os olhos. – Posso? – ele apenas concordou e me abraçou fortemente.
Tudo o que estava acontecendo em minha vida era somente tudo o que eu queria que acontecesse.



Capítulo 17

Havia um encanto diferente naquela manhã. Como se o doce tivesse sido derretido e virado diamante. Abri a cortina e os raios de sol iluminaram a minha visão, as folhas das árvores caiam conforme o vento balançava os galhos. Era certo que o dia seria bonito e gelado.
- Vamos? – a voz de me puxou para a realidade. Voltei a fechar a cortina e logo peguei minha bolsa em cima da cama e saímos do apartamento para ir até a casa de , onde eles gravariam um Live Lounge.
Da janela do carro eu via pessoas andando rapidamente preocupadas demais em viverem suas próprias vidas e eu ali, totalmente dispersa a qualquer coisa. Senti o carro parar e logo vi carros da imprensa e uma pequena movimentação fora da casa de . Esperei sair do carro e entramos juntos.
- Amém irmãos, um viadinho a menos. – brincou conosco logo na entrada.
- Bom dia pra você também, viadinho. – o empurrou quando passamos por ele.
- Pronto, agora só falta o . – nos cumprimentou. – Oi, ! – ele me abraçou.
- Bom dia. – sorri para ele. – Cadê a )?
- Tá por ai, ... – diminuiu o tom de voz. – A Ellie deu muito trabalho essa noite e eu meio que não fiz o que deveria porque o sono falou mais alto... Ela tá meio brava. – ele fez uma careta fingindo dor.
- Você não presta! – bati em seu ombro e ele resmungou.
- Escuta, só falta o chegar e nós já gravamos, ok? – comentou com .
- Depois eu volto. – dei um selinho nele e soltei sua mão.
Passei por algumas pessoas que andavam pela casa e a maioria sorria para mim. Procurava ) pela casa, mas não via nem a sombra dela, olhei para a escada que levava ao segundo andar e subi. Passei pelo corredor e admirei as fotos na parede e sorri ao ver que eles já tinham colocado fotos da filha. Parei em frente à porta do quarto e bati.
- ? – coloquei minha cabeça dentro do quarto e ouvi alguém fungando. – ? – aumentei o tom de voz.
- Entra. – foi apenas o que ela respondeu e assim o fiz. Entrei para ver minha amiga deitada em sua cama com a pequena Ellie nos braços, o rosto vermelho e molhado por lágrimas.
- Por que você está chorando? – fiquei preocupada ao ver que ela estava ali naquele estado enquanto tudo acontecia no andar debaixo da própria casa.
- Tá difícil, ... – ela olhou para Ellie e mais algumas lágrimas saíram de seus olhos percorrendo parte de seu rosto e caindo nas mãozinhas da pequena em seu colo.
- O que aconteceu? – me sentei ao seu lado na cama e olhei para ela como num incentivo.
- Ele não me quer mais... – chorou com mais intensidade e eu apenas estalei os olhos por sentir curiosidade. – Ele não me deseja mais.
- Não seja boba, ! – me aproximei e a abracei com o cuidado de não bater em Ellie.
- É a realidade! – ela me olhou com falso brilho no olhar causado pelas lágrimas. – Ele não me olha mais como antes, não me elogia como antes e tenho certeza que eu o broxei depois da gravidez! Você viu o quanto eu engordei? , eu nunca mais vou ter aquele corpo que eu tinha um ano atrás! E se continuar assim ele vai se cansar de mim, nunca mais vai querer me ver nua e vai procurar alguém que o estimule e desperte... – disparou a falar enquanto fazia gestos exagerados com as mãos e Ellie resmungava a cada movimento da mãe. – Estou com medo. – ela carregava uma expressão cansada no rosto.
- , você só está mais sensível que o normal e tirando conclusões precipitadas. – ela abriu a boca para questionar, mas voltei a falar antes dela. – E outra, ele não te deseja? Amiga, você esqueceu que está de quarentena? Ou você pensou que teria filhos e sua vida sexual iria continuar no mesmo ritmo? – perguntei sorrindo, na intenção de descontrair a conversa. – É tudo tão novo pra vocês e o quer curtir a filha... – fiz um rápido carinho em seu braço.
- Eu sei... – ela me olhou sorrindo. – O problema sou eu mesmo.
- Não disse que você é o problema. – protestei e me levantei da cama. – Vamos lá em baixo, eles vão gravar daqui a pouco e eu sei que o vai ficar aliviado se te ver lá.
- Preciso arrumar meu rosto. – ela apontou para a pele levemente rosada e eu ri. – Pode olhar a Ellie por alguns minutos?
- Posso. – aceitei rapidamente e voltei a me sentar na cama bem próxima a Ellie e entrou no banheiro.
- Oi boneca... – falei pertinho da pequena e usei meu tom de voz mais infantil e ridículo. Ela estava de olhos fechados e tinha uma respiração intensa. Brinquei com as mãozinhas dela e com cuidado fiz carinho em sua cabecinha. – Logo você terá uma amiguinha e vocês vão brincar juntas e depois quando ficarem mais velhas vão para a escola e depois vão começar a ir a festinhas e depois vem os namorados e talvez depois o casamento e ai vocês vão casar e eu serei avó! – disparei a falar como se Ellie estivesse entendendo tudo o que eu falava e fosse me responder em seguida. Imaginei Ellie e minha filha saindo juntas e sorri. Minha filha... Na verdade eu ainda não sabia se o meu bebê era uma menina ou um menino, a única coisa que eu tinha absoluta certeza era que eu adoraria ter uma menina.
- , vem aqui! – a voz de que vinha do banheiro me fez parar de imaginar coisas.
- Ai meu Deus... Por favor, só não chore! – olhei para Ellie com certa insegurança e passei meus braços com todo o cuidado que eu tinha por baixo dela e com calma a arrumei em meu colo e sai da cama para ir até o banheiro.
- Estou melhor? – ela apontou para o rosto agora lavado e maquiado de um jeito suave.
- Toda linda essa sua mãe, né? – brinquei com Ellie em meu colo e sorri para . – Está ótima!
- Que bom... – ela se olhou no espelho. – Vou prender meu cabelo. – ela deu um sorriso mafioso. – Ele gosta do meu cabelo preso porque mostra a nuca e... O pescoço! – continuou com o sorriso mafioso no rosto e prendeu o cabelo no alto de sua cabeça, deixando algumas mexas soltas propositalmente. – Vamos descer.
- Yep! – sai do banheiro ainda com Ellie em meu colo.
- Você pode ficar com ela um pouco? Provavelmente eu vou ter que cumprimentar algumas pessoas e ver se está tudo certo na cozinha.
- Claro. – concordei e tomei cuidado em dobro ao descer as escadas.
Os instrumentos já estavam todos arrumados na sala e os meninos estavam brincando com seus instrumentos e conversando com algumas pessoas a volta deles. acenou para o pessoal na sala e foi em direção a cozinha. logo que me viu andou até mim com um sorriso bobo.
- A minha boneca vai ver o papai tocando... – ele pegou na mãozinha da filha.
- É , ela vai! – concordei com sarcasmo. – Vai aplaudir também e depois te jogar uma calcinha. – continuei com o sarcasmo e fez cara feia. Enquanto brincava com Ellie em meu colo um fotógrafo se aproximou discretamente e tirou algumas fotos. – Depois você vai lá, chama a e tirem fotos com ela! – cochichei e ele apenas concordou.
- Já vamos começar. – ele apontou os instrumentos e voltou para o sofá, ao lado de . olhou para trás e sorriu ao me ver. Sai a procura de e ela estava na cozinha conversando com algumas pessoas.
- Começou. – falei baixinho e logo veio até mim.
- Vamos lá ver! – um sorriso se formou em seus lábios e nós paramos próximas a porta da sala. - Vocês parecem confortáveis assim, próximos... – a apresentadora se referiu a e abraçados no sofá.
- Sim, nos damos bem. – respondeu com um sorriso e todos riram. Senti alguém me cutucando e olhei para trás rapidamente.
- Oi, tia! – Steve me chamou quase gritando.
- O que você ta fazendo aqui? – perguntei sorrindo, feliz ao ver o garoto.
- O tio ta cuidando de mim, tive que vir junto. – ele fez um bico. – Eu tava lá fora no jardim.
- Ah sim! – sorri para ele. – Fala baixo!
- Tá bom. – ele revirou os olhos. – Posso pegar ela?- Steve apontou para Ellie e eu olhei para que estava preocupada demais em observar .
- Senta ali na escada que eu coloco ela no seu colo. – apontei a escada e Steve correu até lá. – Cuidado, por favor! Ela ainda é muito novinha e toda mole. – ele concordou freneticamente e esticou os braços. Me sentei ao lado dele e encaixei a pequena menina nos braços do pequeno garoto.
- Ela tá careca, tia! – Steve falou baixinho e eu ri.
- Tiveram que raspar o cabelinho dela quando nasceu porque ela teve que ficar no hospital pra pegar peso. – expliquei para ele com calma. Steve brincou com Ellie por alguns minutos, mas logo a menina começou a chorar, ele balançou ela levemente e tentou cantar alguma coisa mas nada resolveu.
- Faz ela parar. – ele me devolveu Ellie.
– Ela deve estar com fome e eu não posso revolver o problema dela. – ri sozinha e levantei da escada.
- Vou brincar, tchau tia! – não deu tempo nem de responder e ele já estava correndo para fora da casa, pronto para gastar toda a energia que tinha. Ellie continuou chorando, estava observando os meninos tocarem na sala e talvez aquele fosse o motivo do choro de Ellie, o barulho. Subi com ela em meus braços murmurando alguma música que eu acabara de inventar. Entrei no quarto de e e andei de um lado para o outro devagar, ainda cantando e balançando a menina.
- Shiiiiu... – sussurrei próximo ao ouvido dela. Minhas mãos batiam em suas costas no mesmo ritmo em que eu a balançava. Alguns minutos depois ela acalmou o choro e logo parou. Sorri sozinha, me sentindo totalmente realizada por ter conseguido calar o choro dela. Com uma mão segurando Ellie, usei a outra para ajeitar o berço e esperei que ela caísse no sono para colocá-la lá dentro. Com cuidado arrumei o corpo dela e tirei suas mãozinhas do rosto, a cobri e me perdi na beleza da menina.
A pureza de uma criança e a cor que elas colocavam na vida de qualquer ser humano – hoje - era algo que me encantava. Passei minhas mãos sobre minha barriga e senti urgência em sentir o meu bebê dando sinal de vida dentro de mim.

Voltei para o andar de baixo e várias pessoas comiam e bebiam pela casa.
- , a Ellie não está com você? – se aproximou com uma expressão curiosa.
- Ela dormiu e eu a coloquei no berço. – sorri. – Aqui tem muito barulho.
- Verdade, eu vou dar uma olhada nela. – sorriu e acenou antes de subir a escada. Procurei por algum dos meninos e não encontrei nenhum deles dentro da casa.
- Steve! – chamei o menino, ele olhou para mim rapidamente. – Cadê o mala do seu tio?
- Ele tá lá fora com os outros. – Steve se aproximou.
- Ah sim. – baguncei seu cabelo. – Vamos lá! – peguei em sua mão e o empurrei para fora da casa.
- ! Ainda não tinha te visto. – me abraçou.
- Você que chegou atrasado. – entrelacei minha mão livre com a de e ele beijou meu ombro.
- Já cansou de correr? – perguntou para Steve e o menino negou. – Eu queria fazer algumas coisas hoje e a minha irmã deixou a encrenca comigo! – ele bagunçou os cabelos.
- Leva a coisa pra sua casa, aluga uns filmes e deixa o moleque na sala. – deu de ombros e eu tive que rir.
- Vou pensar na possibilidade. – riu de um jeito maléfico.
- Se você quiser... – olhei para rapidamente e sorri. – Pode deixar ele com a gente, se o Steve também quiser, claro. – apertou minha mão.
- Sério? – se empolgou. – Claro que o Steve quer, você quer, né Steve? – o menino ao ver o olhar do tio concordou rapidamente e nós rimos.
- Pode dormir lá e amanhã a gente o devolve. – também se empolgou com a idéia.
- Acho ótimo, amo meus amigos. – sorriu abertamente. – Vamos em casa pegar suas tranqueiras. – chamou Steve e o menino soltou minha mão e foi até o tio. – Já voltamos.
Concordei com um sorriso e abracei .
- Vai ser legal! – ele falou baixinho, próximo ao meu ouvido e eu o apertei em resposta.
- Já gravaram? – voltei minha atenção para .
- Sim, era só o cover do Kings Of Leon e algumas perguntas. – ele mesmo respondeu, seu celular tocou e ele se afastou para atender.
- Ele vai conosco pra ver o dono da casa? – me referi a Steve.
- Acho que sim... Você acha melhor ele não ir? – arqueou levemente as sobrancelhas.
- Não vejo problemas. – sorri e recebi um selinho.
- Olá, . – uma voz masculina atraiu nossa atenção e sorriu. – Uma foto, por favor? – o fotógrafo apontou sua câmera e ele concordou, ia me afastar, mas o homem voltou a falar. – Os dois juntos, vocês ficam bem. – ele apontou para mim, sorri idiotamente. se posicionou atrás de mim e colocou suas mãos em minha barriga, fiz o mesmo e entrelaçamos as mãos antes de algumas fotos serem batidas. – Obrigado. – o homem agradeceu e se afastou.
- Essas vão ficar bonitas. – me deu mais um selinho.
- Vão mesmo, o dia tá lindo.
- O que vamos fazer com o Steve em casa? – ele perguntou seriamente e eu pensei por alguns segundos. Pois é... O que iríamos fazer?
- Podemos pedir pizza e jogar vídeo game ou deixar que ele quebre tudo... Sei lá! – sorri derrotada.
- Ele não quebraria nada.
- Ele não seria louco de quebrar alguma coisa...
- É, ele não vai quebrar nada. – finalizou com mais um selinho.
Voltamos para dentro da casa e as pessoas já estavam almoçando.
- Venham comer! – nos chamou. Fomos juntos até a cozinha e nos servimos. Sentamos com e nas cadeiras que ficavam no balcão da cozinha e almoçamos tranquilamente.
- Certo, ai tem roupas, brinquedos e um remédio que caso ele tenha febre a minha irmã mandou dar pra ele, comigo ele nunca precisou de remédio, mas... – deu de ombros e jogou a mochila de Steve nas mãos de .
- Ele vai sobreviver. – brinquei.
- Preciso que sobreviva, meus testículos estão nas mãos de vocês. – ele falou seriamente, entortei a boca. – Se acontecer alguma coisa com esse pirralho a minha irmã me capa.
- Não quero que você passe por isso. – riu.
- Vocês podem ficar com ele até o almoço pelo menos? – cochichou. – Porque se ela resolver dormir por lá eu não preciso me preocupar... Ah vocês, me entendem!
- Entendemos. – respondemos juntos e riu.
- Procurem por ele e se divirtam! – ele se afastou e me olhou de um jeito sacana.
- Marquei com o Adam na Starbucks perto de casa, vamos procurar a criatura? – concordei e fomos procurar Steve nos jardins da casa.
- Já estão indo? – apareceu com Ellie no colo.
- Sim, temos um compromisso agora e o Steve vai dormir em casa. – respondi com um sorriso.
- Acabei de ver ele na sala tocando violão e conversando com . – voltamos para sala e nos acompanhou.
- Vamos embora? – chamou Steve e ele rapidamente largou o violão e deu a mão para .
- Já vão? – veio até nós.
- Sim, temos aquele compromisso agora e o Steve vai dormir na nossa casa. – eu mesma respondi.
- Boa sorte! – me deu abraço, sorri em agradecimento.
- Tchau, , vem nos visitar durante a semana. – me deu um beijo no rosto e eu fiz o mesmo.
- Pode deixar! – abraçou os dois e brincou com Ellie. – Tchau boneca. – depositei um delicado beijo em sua testa.
Entramos no carro e instintivamente olhei para trás para me certificar se Steve havia colocado o cinto de segurança. Durante o caminho ele se divertiu com um mini game e ria sozinho vez ou outra. procurou pela minha mão e com os olhos fixos nas ruas a frente depositou um beijo sob a minha aliança, olhei para ele e sorri.
- Starbucks! – Steve gritou assim que estacionou o carro, olhei espantada pra ele e deu de ombros. Entramos e me guiou até a mesa onde Adam estava sentado.
- Boa tarde! – ele nos cumprimentou.
- Boa tarde. – sorri e me sentei. – Você vai querer alguma coisa? – me virei para Steve e ele concordou. – Se importa se eu não participar disso? – me aproximei de e ele me olhou rapidamente, ele sorriu e negou com a cabeça.
- O que eles vão fazer tia? – Steve grudou em meu braço e paramos em frente a vitrine, namorando as delicias que haviam ali.
- Coisas de homem. – respondi vagamente.
Eu deveria estar naquela mesa e ver como seria a negociação, talvez dar opinião e estar ao lado de naquele momento, mas com Steve ali tudo o que eu queria era passar um tempo com ele, fazer coisas diferentes das que eu estava acostumada a fazer e me sentir feliz ao ouvir a risada dele.
Compramos muffins e brownies, sentados em uma mesa afastada da que e Adam conversavam e tomamos nosso café. Steve tagarelava sobre como o tio dele era desligado e brincava com ele o tempo todo. Ele parecia se divertir muito quando estava com . Logo ele começou a zoar o tio e eu o ajudei a esculachar , talvez essa fosse uma das coisas mais divertidas, zoar era o máximo e eu havia encontrado o parceiro perfeito pra me ajudar nisso.
Não sei quanto tempo ficamos ali comendo e rindo, Steve parecia hiperativo e não calava a boca, eu estava me sentindo confortável na presença dele e me divertia com seus pensamentos infantis.
- Estão se divertindo? – se aproximou de nossa mesa, o olhei com os olhos molhados, a ponto de chorar por rir tanto.
- Um pouco. – gargalhei mais um pouco e ele se sentou ao meu lado, me roubando um muffin. – Deu certo? – me recuperei e o olhei apreensiva.
- Ainda bem que você não ficou lá, o Adam meio que me contou a vida dele e tinha urgência em vender a propriedade.
- Sério? – arqueei minha sobrancelha direita.
- Sério, ai foi fácil chegar a um acordo e amanhã mesmo um amigo já vai cuidar da documentação, lembra do Tony? – concordei, lembrando vagamente quem era. – Então, ele que vai cuidar dessa parte pra gente. – Abracei e lhe dei um beijo em agradecimento.
- Te amo! – beijei suas bochechas. – Te amo! – beijei seu nariz. – Te amo, te amo, te amo! – beijei todo o seu rosto e Steve riu.
- Também te amo. – sorriu e pegou um muffin de Steve.
- Tio! – o menino protestou. – Esse é meu! – deu língua.
- Era seu. – ele riu divertidamente.
Olhei para os dois e sorri inconscientemente. Na verdade eu não me importaria se meu filho fosse um menino, eu tinha certeza de que se fosse ele seria a própria cópia do pai e para mim, seria uma alegria imensa ver em outro rosto. Ver em meu filho seria uma alegria imensa.



Capítulo 18

Steve acordou durante a madrugada e foi até meu quarto para deitar entre e eu. não percebeu que o menino havia se aninhado entre nós e continuou dormindo pesadamente, eu que havia acordado com a inquietação do menino até ele se ajeitar entre nós dois, aproveitei que Steve se deitou de costas para mim e o abracei carinhosamente antes de voltar a dormir, dessa vez com uma sensação diferente, a sensação era de que eu estava segurando algo precioso em meus braços e que daquela vez essa preciosidade não iria fugir de mim de jeito nenhum, Steve estava seguro onde ele estava.
- No três... - ouvi sussurros enquanto despertava do meu sono ainda mantendo os olhos fechados.
- Um... - ouvi outra voz e fingi estar dormindo.
- Dois... - as duas vozes sussurraram juntas e eu me encolhi levemente.
- VAI! - os dois falaram mais alto e em seguida eu senti inúmeras mãos fazendo cócegas em todo o meu corpo. Havia mão em meus pés, cintura, pescoço, barriga e tudo o que eu consegui fazer foi rir e tentar me desvencilhar das duas crianças.
- PÁAAARA! - implorei enquanto gargalhava e os dois continuaram a sessão tortura em meio a gargalhadas. - POR FAVOR, EU VOU FICAR SEM AAAAR! , EU DISSE... PRA... PAAAAAAAARAR! - gritei e me esforcei ao máximo pra conseguir falar, eu já estava descabelada e toda bagunçada enquanto as duas crianças se divertiam com o meu ataque! Se Steve estivesse sozinho eu teria força para fazer pará-lo, mas com o ajudando eu era minoria e nunca teria força para me livrar das cócegas de e Steve juntos. - STEVE... PÁAARA! - gritei de novo e eles riram mais alto. Comecei a respirar com certa dificuldade e logo eles perceberam que eu não estava brincando.
- A gente te ama... - beijou minha testa e sorriu. - Bom dia!
- Bom dia, tia! - Steve se jogou em cima de mim e me abraçou com um sorriso digno de criança atentada.
- Bom dia pra vocês também, meus anjos! - beijei os dois na bochecha e caminhei tontamente até o banheiro para tomar um banho e me preparar psicologicamente para agüentar um dia inteiro com duas crianças.
Meu reflexo no espelho chegava a ser bizarro, minha pele estava vermelha, meu cabelo todo bagunçado e eu sentia dores no maxilar e barriga por rir tanto. Durante o banho pensei em programas legais que eu e poderíamos fazer com Steve, tive inúmeras idéias mas cheguei a conclusão de que Steve já era capaz de falar o que queria fazer. Saí do banho e sequei meu cabelo, o deixando apresentável e vesti um short jeans com uma blusa de malha fina e manga longa na cor cinza. Encarei minha blusa e por um breve momento flashes apareceram em minha mente, fechei os olhos e apoiei minhas mãos na parede quando me senti levemente tonta, os flashes duraram mais alguns segundos e na bagunça entre eles eu me lembrei de um pesadelo de dias atrás. Fiquei em silêncio e continuei me apoiando na parede até minha mente se livrar de todas aquelas imagens e quando senti que estava segura sai do quarto.
- Tio, você tem que ir pela esquerda!
- Mas eu sou melhor quando vou pela direita...
- Não é não...
Os dois foram incapazes de perceber que eu já estava na sala há algum tempo os observando enquanto eles jogavam vídeo game. Pelo chão da minha sala havia alguns copos da Starbucks já vazios e pacotes de biscoitos. Continuei apenas observando e ainda assim eles não notaram que eu estava ali, me irritei com a falta de atenção e andei até a TV, parando em frente à mesma até que um dos dois notasse que eu estava no mesmo recinto que eles.
- Pô, tia, eu não to conseguindo ver! - Steve foi o primeiro a reclamar, cruzei meus braços.
- , sai da frente pra gente continuar o jogo porque eu to pra fazer um gol a qualquer momento! - reclamou também e eu apenas fechei a cara.
- Tia... - Steve falou calmamente e continuou olhando pra algum ponto da TV que meu corpo fora incapaz de cobrir.
- Você quer jogar também? - me olhou sorrindo, bufei pela audácia da pergunta que ele havia feito e caminhei para a cozinha.
- Tia, vem jogar com a gente! - Steve chamou, ignorei o pequeno e peguei um muffin para comer. Poucos minutos depois entrou na cozinha com as duas sobrancelhas arqueadas.
- O que foi? - seus braços envolveram minha cintura. – Vem jogar com a gente!
- Não quero. – respondi rispidamente e tirei os braços dele de minha cintura.
- Olha aqui! – virou meu corpo para que eu pudesse o olhar.
- O quê? – cruzei meus braços, respirei fundo e levantei meu olhar para encarar o teto.
- O que aconteceu? Você gosta de vídeo game. – soltou meus braços e segurou minhas mãos. Abaixei meu olhar e encarei meu marido por alguns segundos, acariciou minhas mãos enquanto esperava por uma reação minha. Senti que minha garganta estava seca e continuei o encarando até que ele apertasse minhas mãos me dando incentivo a falar o que eu quisesse. – Amor?
- Acordei com medo. – falei com a voz chorosa e não tive tempo de falar mais alguma coisa sem antes sentir os braços firmes de me apertando contra o seu corpo, sem antes sentir suas mãos acariciando minhas costas e cabelo, sem antes sentir sua respiração próxima ao meu ouvido. – Tive um sonho estranho há alguns dias e...
- Não vai acontecer nada! – me interrompeu e uniu nossos lábios. Apenas nos uniu e me apertou com mais força em seus braços. – Eu te prometo que não vai acontecer nada. – ele sussurrou com a boca contra a minha e eu o apertei mais.
- Não me deixe sozinha. – pedi ainda com um tom choroso na voz. – Pelo menos por hoje, por favor.
- Nunca! – ele me deu um selinho e me puxou de volta para a sala. – Vem jogar com a gente, eu e você contra o Steve! – ele se sentou no chão e abriu as pernas me chamando para sentar entre elas.
- Oh tia, esse é o seu controle. – Steve colocou o controle em meu colo e voltou a prestar atenção na tela da TV que exibia o jogo de futebol pausado.
- Vamos ter que começar tudo de novo pra tia poder escolher o jogador dela... – reiniciou o jogo, apoiou uma almofada entre suas costas e o sofá e logo me ajeitou entre ele, fazendo com que eu ficasse praticamente deitada entre suas pernas.
- Vou humilhar vocês. – Steve esfregou uma mão na outra e logo começou a escolher seu jogador e time, em seguida fez o mesmo e quando chegou minha vez os dois opinaram na escolha do meu jogador, contrariei os dois por pura pirraça.
- Agora eu vou jogar de verdade! – usei um tom de voz ameaçador e os dois riram.
Eu já havia levado inúmeros cartões de todas as cores existentes dentre o futebol, havia perdido inúmeras chances de gols, consegui errar pênaltis e quando isso aconteceu Steve disse que nem existia graça em jogar com uma pessoa como eu. Foi ai que eu broxei.
- Não quero mais, o Steve não pára de me zoar! – larguei o controle e logo o colocou em meu colo novamente.
- Vai ceder as provocações desse pirralho? – riu e beijou meu ombro.
- Mas ele é muito melhor que eu! – protestei e ao ver que Steve estava ficando com um ar a mais de metido fiz questão de jogar uma almofada nele.
- Sou melhor que vocês dois juntos. – o menino continuou se achando.
- Aproveita pra treinar agora, porque daqui alguns meses é o nosso menino que vai estar jogando e você tem que ser boa pra ele ter orgulho da mãe! – pegou meu controle, virei meu rosto para ele e o encarei. – O que foi? – ele desviou o olhar da TV para o meu rosto e sorriu voltando sua atenção para a TV.
- Nosso menino? – perguntei baixo ainda o encarando e ele apenas concordou com a cabeça. - E você acha que ele já vai nascer jogando vídeo game?
- Assim que vocês saírem do hospital eu vou sentar aqui com ele no meu colo e nós três vamos jogar vídeo game o dia todo! – falou mansamente ainda encarando o jogo de futebol a sua frente. Então ele preferia mesmo um menino. Isso era de se esperar, afinal, todos os homens querem ter filhos homens para poder fazer coisas de homens, a preferência de não me chateou, mas me deixou com medo. As possibilidades de o meu bebê ser um menino era a mesma que as de uma menina.
- GANHEI! – o grito alucinado de Steve me assustou e logo comecei a rir com a comemoração dele: correr pela sala, pulando as almofadas que estavam espalhadas pelo chão.
- Eu deixei você ganhar porque você é meu convidado e tal... – jogou uma almofada no menino.
- Assume que ele é melhor que você! – dei um tapa na mão de e ele me lançou um olhar indignado.
- Tô com fome. – Steve parou sua comemoração apenas para nos lembrar que havia uma criança ali.
- E o que são essas porcarias aqui? – apontei para as comidas espalhadas pela minha sala e Steve deu de ombros.
- Tô com fome de comida. – ele justificou e eu sorri.
- Levanta! Vamos sair pra almoçar e depois devolver essa mala. – puxei pela mão e ele se esforçou para sair do chão jogando seu peso em mim e quase nos derrubando.
- Onde você quer comer? – me abraçou pela cintura e nós seguimos Steve pela casa.
- Pode ser no Mcdonalds mesmo. – o menino calçou o tênis.
- É isso que você chama de comida? – perguntei rindo e ele concordou.
- Steve, pega suas coisas e logo nós vamos. – o avisou e me puxou para o quarto. Fui até o closet e troquei meu short por uma skinny e colocou o velho tênis branco e preto da DC. Peguei minha bolsa e o óculos escuro e sentei na cama esperando escovar os dentes. Ele saiu do banheiro com o rosto úmido, parou no caminho para pegar sua carteira e logo parou em minha frente com um sorriso de lado.
- Vamos fazer contato? – o sorriso dele aumentou e eu cobri meu rosto. – Vamos, é rapidinho! – ele fez com que eu me deitasse na cama, tirou o óculos do meu rosto e me olhou sorrindo. Suas mãos levantaram minha blusa até a altura dos meus seios, ele deslizou lentamente suas mãos sobre a minha barriga e como sempre eu me arrepiei. – Amor! – ele me chamou com urgência na voz e eu me apoiei nos cotovelos para vê-lo melhor. – Reação do bebê, não sua! Já falei. – bufei e voltei a me deitar. Suas mãos percorriam minha barriga num carinho tentador e mantinha o ouvido encostado em meu umbigo, sussurrando tão baixo que eu mal entendia o que ele estava falando, eu só sabia que ele estava falando porque sentia sua respiração e seus lábios tocarem vez ou outra em minha pele.
A porta se abriu fazendo um barulho alto demais para o silêncio que dominava o quarto e quando levantei meu olhar vi Steve parado logo atrás de com a boca semi aberta. abaixou minha blusa e saiu da cama, se agachou diante de Steve e falou:
- Antes de entrar você tem que bater na porta e só entrar depois que te autorizarem a fazer isso. – ele explicou para o menino. – Você já tem idade pra saber que o certo é sempre bater na porta antes de entrar. – Steve encarou um canto qualquer do cômodo e eu saí da cama para me agachar ao lado de .
- Isso não é uma bronca, ok? – sorri e o beijei na bochecha.
- Vou fazer agora. – ele saiu do quarto e bateu a porta rapidamente.
- Certo, ele ainda precisa aprender a não bater portas. – comentou e eu ri baixo. Ouvimos batidas e logo Steve perguntou se podia entrar, olhei para e o respondemos juntos, Steve abriu a porta rapidamente e correu até nós dois.
- Parabéns, agora você fez certinho! – baguncei seus cabelos e o puxei pela mão para que saíssemos do quarto.
- O bom é que você deixa tudo pra trás. – nos alcançou e carregava minha bolsa e meu óculos em suas mãos.
- Ah, obrigada, amor! – coloquei a bolsa no ombro e colocou o óculos em mim me dando um selinho em seguida.
- Vamos logo! – Steve falou um pouco alto e nós saímos do apartamento rindo da pressa do menino.
Almoçamos no Mcdonalds que Steve escolheu e logo ligou para avisar que já estava sozinho e poderíamos devolver o menino.

- Se divertiu, moleque? – pegou Steve no colo e o girou no ar, arrancando gargalhadas escandalosas do menino.
- Claro que ele se divertiu, fez o que quis e estava com o casal mais legal que ele conhece. – brincou e colocou a mochila de Steve no sofá da casa de .
- Obrigado. – ele nos agradeceu e eu apenas sorri, já estava sentindo meu coração ficar pequeno por ter que me separar de Steve. – Vocês querem beber alguma coisa?
- Vou pegar umas cervejas. – não respondeu, apenas correu até a geladeira e logo voltou com as mãos cheias.
- Ah, deixa eu te adiantar que a nossa nova turnê no Japão foi confirmada! – abriu sua cerveja e suas palavras baterem de frente comigo, tamanho o impacto daquela frase na minha cabeça. Outra turnê no Japão? Logo agora que eu estava grávida novamente e não me via um dia sequer sem ao meu lado durante a gravidez?
- Foi? Mas quando? Isso não seria pra daqui alguns meses? – disparou e deu de ombros.
- É culpa da crise, cara! É melhor irmos agora! – bebeu mais cerveja e me olhou seriamente.
- , não pode! O e o estão com filhos recém nascidos, a está grávida, nós combinamos que ficaríamos por aqui enquanto isso.
- ! Vão ser só duas semanas lá e depois nós voltamos pra cá e ficamos por aqui até tudo ficar tranqüilo pra todo mundo. – largou a cerveja e encarou . Eu apenas observava a conversa paralela e sentia o medo se instalar aos poucos em cada parte do meu corpo.
- Não acredito, nós tínhamos conversado sobre isso, cara!
- Por que o desespero? A pode ir com a gente, as outras mulheres também, nunca tivemos problemas com isso. – comentou voltando a se sentar relaxadamente em seu sofá.
ficou em silêncio por um tempo e o meu estado medroso não me permitia falar nada nem pensar em muita coisa.
- O Steve já está entregue, acho melhor irmos embora. – senti as mãos do meu marido me puxando para si. Não prestei atenção em ninguém, apenas dei um rápido beijo nas bochechas de Steve e e andei rapidamente em direção ao carro.
- Outra turnê no Japão? – perguntei com a voz firme. – Não faz nem um ano que vocês foram pra lá! – coloquei meu cinto de segurança e encarei o retrovisor, não respondeu. – Desculpa, eu sei e entendo perfeitamente que é esse o seu trabalho e é o que você ama... Mas... – respirei fundo. – Eu não posso ficar sozinha por duas semanas! – ligou o carro, respirou fundo e mordeu o lábio inferior.
- Você vai comigo! – ele disse normalmente. Coloquei minhas mãos no rosto para me controlar e não falar besteira. Meu corpo estava dominado pelo medo e uma coisa era certa: eu não poderia viajar com ele. Havia muitas coisas para que eu resolvesse na empresa, coisas que somente eu poderia resolver. Não existia chance de alguém me substituir por duas semanas.
- Você sabe que eu não posso. – falei baixo.
Encarei minhas mãos e minha aliança pareceu brilhar mais que o normal, meus pés estavam gelados e pela primeira vez eu senti medo de uma viagem de . Ele procurou por uma de minhas mãos e a apertou fortemente enquanto dirigia concentradamente, fechei os olhos e retribui o aperto de mão já sentindo saudade de tê-las envolvidas em meus dedos sempre que eu quisesse e precisasse.

Continua...

n/a: Oi? Minhas lindas leitoras ainda estão vivas? Porque bem, a escritora (por incrível que pareça) está! Quase dois meses sem att de My Whisper, eu sei que é até pecado demorar tanto e eu agradeço a cada uma que me cobrou porque foi um puta incentivo! Mas o motivo da demora é esse capítulo 18, estava parada nele há muito tempo, acho ele todo bobo e não foi um capítulo que eu gostei de escrever, mas em compensação os capítulos a partir do 18 são os meus favoritos e na minha opinião os mais importantes da fic.
ME CONTEM TUDO! Foram em quais shows? Alguém conseguiu ver os viadinhos? ME CONTEM TUDO! Eu fui no dia 28 em São Paulo, não vi eles mas fiquei pertinho da grade e e e e [cai] Sem contar que... Na fila eu conheci muita gente e reflitam que eu conheci a Ana e a Vee ! Reflitam, as escritoras das melhores fics restritas desse site, morram de inveja porque eu abracei as duas e foi tão lindo, elas são lindas! E vi de novo a Cah, morram de inveja também porque dessa vez eu tenho até foto com ela, ela é linda, baiana e tem um abraço muito bom. Choveu, fez sol, mas nada me desanimou e o show superou tudo, quem tava lá tem noção do quão insano foi, digno de citação no twitter e tu-do!
Obrigada por todos os comentários e os parabéns. Na boa, eu trinco de rir quando vocês falam que querem parir logo. SE ACALMEM! Prometo, juro de pés juntos e joelhos no milho que a próxima att não vai demorar e eu vou responder alguns comentários. Só mais uma coisinha antes de finalizar essa nota: GENTE, EU NÃO SOU METIDA! JURO! Todo mundo fala isso, mas eu não sou, falem comigo ou eu vou parar de escrever QQQ sério.

MEU AR TA ACABANDO.

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