Do You Love Me Still?
Por Gabriela Rigatti
Capítulo 01
Deixava minha cabeça descansar sobre o travesseiro posto de pé, apoiado à guarda da cama, enquanto tinha em minhas mãos e encarava fixamente uma palavra perdida, ao meio de tantas outras expressas, naquele simples pedaço de papel.
Que para falar a verdade nem era tão simples.
Olhava intrigada, sem uma espécie de pensamento definido. Apenas estava perdida, quem sabe refletindo o que aquelas dez letras pareciam trazer à tona.
A enorme janela, que se localizava a frente da cama, agora já deixava a luz do sol penetrar sobre seus vitrais, iluminando assim ambos os documentos e deixando transparecer, por meio do oficio, seus raios.
- Inglaterra... - repeti em voz alta, mas mesmo assim em um tom baixo, o nome que estava cansada de ouvir ecoar em meus ouvidos desde que havia acordado naquela manhã de dezembro.
Segurava entre meus dedos não apenas simples papéis. Eram passagens aéreas. Bilhetes nomeados para duas pessoas, com destino e dia devidamente marcados, e próximos, para Londres.
Passei meus olhos detalhadamente mais uma vez pela data e destino, em seguida pelos nomes. Meu cérebro parecia demorar a raciocinar. Era difícil acreditar que depois de longos anos nos Estados Unidos, a chance de voltar para minha terra natal estava ali.
- Vejo que gostou da surpresa - uma voz lenta e abafada pelo sono invadiu meus pensamentos, ligeiramente me assustando e assim fazendo com que eu enfim soltasse as passagens ao bidê próximo.
Sem omitir fatos, eu já residia naquele país há bons seis anos. Bem, chegando ao começo do sétimo, já que logo a época do ano novo estava batendo à porta.
Havia acabado enfim minha faculdade de quatro anos à Universidade da Florida e já estava devidamente formada e com um diploma debaixo dos braços. Diploma o qual era o meu único motivo para estar ali, e agora já concluído, tudo não passava de uma enrolação de minha parte. Não possuía maiores motivos para ainda continuar morando na terra do tio Sam. Mas também nada de muito concreto já me levava ao velho continente.
- Eu só não estou acreditando - falei, descendo lentamente pela guarda da cama e depositando minhas costas de volta ao colchão. - Ainda. - conclui, voltando-me para o garoto que estava deitado ao meu lado.
- Então acredite! - ele sorriu, dando uma risadinha - Pois eu tenho certeza que o efeito da bebida há essa hora já passou. - completou.
- Mas você me pegou de surpresa mesmo - tentei esquecer o sorriso que já estava acostumada, e que mesmo assim me fazia perder a concentração, e voltei ao assunto.
- E eu achei realmente que iria te pegar de surpresa. Deve ter sido até esse o motivo que me levou a comprar as passagens sem te consultar. Queria ver essa sua cara de boba - disse.
- Você não presta! - empurrei o garoto à cama, me ajeitando de barriga para cima em meio aos lençóis. - Com isso eu realmente não tenho como rejeitar.
- Motivo número dois! - disse ao me ouvir, agora se apoiando ao cotovelo e ficando de frente para a lateral do meu corpo - E se você rejeitasse, eu te levaria do mesmo jeito. A força! - completou, aproximando e me fazendo virar para olhá-lo.
Não havia tido muito tempo para pensar, na verdade somente algumas horas, mas eu incrivelmente não conseguia dizer não naquelas circunstâncias. Mesmo que o assunto fosse importante como esse.
Contudo, nada do que eu falasse àquela cama seria com total certeza.
- Eu ainda estou tentando digerir toda aquela história de ontem à noite, porque sim, eu ainda lembro dela, mesmo você tentando me embebedar antes de chegar ao final. - agora olhei séria aos seus olhos, como se pudesse absorver a cor azul, e tomei ar para concluir - Eu não vou dizer um não. Eu aceito ir. - disse, abrindo um sorriso tímido ao final.
A reação do garoto então pareceu ser imediata. A sua face, de quem tentava prestar atenção, tornou-se radiante no segundo em que captou as palavras. Um sorriso em sinal de felicidade surgiu em seus lábios. E em um movimento rápido ele aproximou-se ainda mais, ficando quase sobre mim, beijando-me.
- Mas... - murmurei, partindo o beijo inicial, e tentei me afastar aos poucos - Mas se é assim... - tentei continuar, agora conseguindo pelo menos falar normalmente, quando o garoto pareceu optar por distribuir beijos ao meu pescoço. - Mas se realmente é assim, eu já tenho que comunicar minha mãe! - gritei, tentando me manter ainda concentrada ao assunto.
- Por que a pressa, ? - ele então ergueu sua cabeça devagar.
- Você sabe como eu sou, bonitinho - dei um tapinha ao seu rosto, e aproveitando a chance, me desvencilhei rápida de seus braços.
- Mas você com certeza pode fazer isso depois - falou sentando a cama, para me acompanhar, assim que me afastei para recolher minhas roupas jogadas em pontos diferentes do quarto – Agora volta para a cama, . - resmungou.
- Nem pensar, já ficamos tempo demais aí - enfiei minha blusa pelo buraco da cabeça, o olhando com sua ligeira cara de preguiça - E você também devia já se preocupar e começar a ajeitar tudo por aqui! - recolhi meus sapatos, sem antes atirar a boxer, que estava por cima deles, para o garoto ainda sentado à cama.
- Ah não, você é estressada demais. Temos semanas ainda. - ele agarrou sua roupa em mãos ao mesmo tempo em que se atirou para trás, de volta aos travesseiros.
- E você é um preguiçoso! Além do mais o tempo passa - adicionei, me aproximando da cama, ainda terminando de calçar meus sapatos.
- Fica aqui comigo... - suplicou, fazendo a típica chantagem emocional.
- Não vou ficar. Agora tchau para você - apoiei-me sobre as mãos ao colchão e depositei um beijo à testa do garoto.
- , estressada e malvada - falou.
- Também te amo, - falei em meio a risadas, enquanto descia os degraus que separavam o quarto, da sala do mediano loft.
A faculdade já estava concluída. Mas os sonhos que haviam sido construídos e vinham crescendo junto com ela, acabaram por ruir aos poucos.
Eu não passava de uma garota infantil, cujos sonhos haviam sido uma escapatória para acreditar que tudo um dia ficaria bem. Pensava realmente que era madura o suficiente e, que apesar de tudo, tinha meus pés bem fincados ao chão. Bom, talvez eu fosse madura para muitas coisas, mas para algumas eu havia ficado realmente cega, o que tinha me levado a ser extremamente idiota sem ao menos perceber.
O problema de estar longe de quase tudo que eu amava havia me feito construir um par de idealizações e imaginar chances; tudo para tentar preencher um vazio e dizer a mim mesma que eu tinha um grande motivo para prosseguir. Mas todos esses planos, a cada dia, se decepavam sem eu ao menos notar. E como eu era tola, estava sempre tentando acreditar e prender, como quem segura flocos de poeira ao ar, algo impossível.
Lembro-me que Maisie e minha mãe sempre me alertavam constantemente sobre a situação que eu estava cega demais para enxergar por meus próprios olhos, minha relação com Tom. Mas quando tudo em minha cabeça procurava ver o lado perfeito de tudo, eu apenas desconversava e seguia com meus bem moldados planos que seriam colocados em prática dali alguns mínimos anos. Pensava assim.
Contudo um dia as idealizações perderam a sua força, aos poucos desnutridas por falta de notícias e quem sabe até de sentimento. O reencontro em Orlando havia virado um fato passado, distante, e todo o amor que fervilhava até os primeiros anos, foi perdido nas várias viagens de cartas pelo correio.
Havíamos aos poucos sido vencidos pelo cansaço e as poucas notícias de meu namorado já me faziam ter pensamentos pessimistas. Assim, não foi muito difícil depois de três anos as minhas esperanças irem morrendo e eu percebendo que tentava apenas desesperadamente juntar pedacinhos quebrados que nem mesmo se encaixavam mais.
Resumindo, logo que pareci tomar uma boa dose de realidade e abrir meus olhos, dias depois recebi uma carta vinda da Inglaterra. Ela não se tratava de notícias de Zoe, que pelo o que sabia em últimas cartas, deixara Holloway para morar em Paris, e muito menos de , que infelizmente não recebia cartas há tempos. Era daquela pessoa que eu costumava chamar de namorado, Thomas Michael Fletcher. Aquele Tom, que já havia perdido o apelido de bolinho, mas deixara em meu dedo uma lembrança em prata da sua imaginária presença.
Posso lembrar até hoje da caligrafia corrida em apenas meras e insignificantes linhas, cujas me fizeram matar minha repentina euforia e machucar as poucas esperanças que tentavam se sustentar já debilitadas.
'Hei ,
Queria te pedir desculpas por não ter escrito uma misera carta ou ter mandando um mail qualquer para você durante esses quatro meses. Eu não sei como você se sente aí. Mails e cartas não me deixam absorver algum traço ou sentimento seu... E isso realmente é difícil.
Queria que você estivesse por perto em vários momentos que já passei por aqui. E também acho que você me queria por perto.
Sempre achei que distância não seria algo tão ardo. Até achei que nos sairíamos bem. Eu já tive muitos amigos com quem convivi anos incríveis, mas então, assim como você e eu, acabamos por nos separar. Devia ter lembrando que mesmo com eles eu acabei por não conseguir manter um laço tão forte. Porém realmente pensei que seria diferente com você. Mas vejo que me enganei. Não se assuste. Eu realmente não quero que você se sinta mal.
, eu estou relutando com meus pensamentos há semanas e pensei muito tempo antes de tomar coragem para te mandar esta carta. Então vou ser rápido de linhas para cá. Sei que estarei te magoando, mas não estou agindo só para o meu próprio ego. Estou pensando unicamente em você. Eu não acho justo deixar você perder seus melhores anos construindo sonhos já vazios. Quero te deixar enfim seguir o seu caminho, mesmo que me doa profundamente, sem mim.
Sinto-me sujo por ter que pisar nas suas últimas esperanças, e ainda por uma carta, mas também sinto que não posso mais carregar tamanho peso e nem você. Um dia você será amada de verdade, até melhor do que eu te amei, e com o tempo eu vou me tornar uma lembrança engraçada, um borrão na sua memória. Tudo que passamos vai ser lembrado como um sonho, apenas memórias, como vem acontecendo todo esse tempo.
Você pode se sentir mal, mas lembre que agora você está livre. Livre para seguir a sua vida do jeito que quiser.
E mais uma vez, desculpe. Mesmo com tudo, eu ainda sinto afeição por você. Sempre vou te amar e, por favor, não chore - por mais que eu saiba que não posso te pedir isso.'
Na época faltava, mais ou menos, um ano para meu curso ser concluído e eu enfim poder voltar, cumprido assim tudo que eu havia prometido em diversas noites para o garoto e para mim mesma todo aquele tempo. Mas infelizmente tudo, aqueles velhos sonhos, já não faziam mais parte de mim, não eram mais fervorosamente desejados e havia realmente se tornado velho demais.
Tudo que pareceu tão certo, tão meticulosamente idealizado, estava em ruínas, em forma de pó. O tempo de quatro anos havia decepado com tudo, não poupando nada, tornando tudo tão cansativo e desanimador. O amor não existia mais, era afeição e um compromisso de correntes que haviam sido feitas ainda na Inglaterra. Tolice agora.
Por toda a manhã daquele dia eu tentei enfiar em minha cabeça que aquilo era real. E lembro que foi realmente duro ter que me desfazer de metade da decoração de meu dormitório em questão de minutos. Todas as fotos colocadas em porta-retratos ou penduradas em cada milímetro do cômodo, cada carta perdida em meio aos meus pertences, presentes exposto e até mesmo a fictícia presença do garoto em meu dedo recaíram em uma caixa de papelão. Deixando um enorme vazio em cada parede, transformando o choro que caiu por todas as primeiras noites em um eco que incomodava minha amiga.
Acordava naquele momento para notar que eu havia perdido três anos da minha vida para uma pessoa que julgava ser a mais importante em todas as ocasiões. Tão importante que havia terminado comigo por um simples pedaço de folha de caderno. Ironia. Sem um vídeo, sem um telefone. Apenas palavras frias.
Frias como as lágrimas que caíram sobre meu rosto por volta de meses, frias como parte de mim havia ficado desde então, frias como meu quarto, meu mundo, minha bolha. Um lugar gelado, isolado de qualquer fervor.
Até que de uma hora para outra eu cansei de ser gelada. Era individualista demais.
Então eu conheci o fervor, o calor, uma pessoa que foi capaz de derreter, com o seu jeito ousado, o meu iglu construído com blocos pesados de gelo.
Em alguns meses apareceu em meio aquele campus lotado. Não havia notado como, mas ele tinha depositado em mim uma coragem e força para enfim notar que uma só pessoa não poderia viver em um mundo de gelo. Parecia gelado demais para sobreviver sozinho, sem alguém por perto para abraçar.
E foi com a idéia de que Tom podia estar se divertindo com em um pub e eu ali, amargurada e me privando ainda mais das coisas que havia perdido, que passei a deixar mais o meu dormitório, ligado sempre ao máximo do ar condicionado, para me infiltrar no badalado mundo de festas, que eu até então sempre desconheci em todos aqueles anos acadêmicos.
O substituto de Tom foi achado na faculdade de música, era divertido, tinha uma boa conversa, um sorriso encantador e de brinde vinha no pacote britânico, bem educado, com um espírito sem limites e desbravador de corações de pedra. Com tudo isso eu não consegui ficar intacta por muito tempo.
Resumidamente se eu havia aprendido algo com Thomas Fletcher seria que se importar demais com as pessoas e demorar a tomar atitudes, podia trazer péssimas conseqüências.
Estava formada, empregada, feliz e há dois anos com a nova pessoa que chamava de "amor".
- Aí está você! - observei uma garota conturbada, em meio a sacolas, desencostar-se da porta do prédio onde residia. - Onde você estava? Eu estou parada aqui em frente a mais ou menos uma hora, tocando feito louca no interfone. E detalhe: CONGELANDO! - gritou a última palavra, quando me aproximei dela com as chaves em mãos, empurrando com violência seu cachecol, que teimava em molhar suas franjas à bebida que ela segurava, para trás.
- Desculpe Maisie - ri com a situação, ao vê-la passar pela porta rapidamente aberta. - Eu acabei dormindo na casa do e pensei que você ficaria o dia inteiro com o Adam - me desculpei.
- Mas acabei não ficando e esqueci completamente que você estava com a minha chave! - falou, começando a subir, as escadas do prédio, afobada - Lembre-se, você tem que fazer uma chave nova e meter uma vez por todas na sua cabeça que isso aqui não é a Florida. Estava quase congelando ali fora.
Claro, pequeno detalhe que não havia mencionado ainda. Eu não residia mais em Miami, na Florida.
Nova Iorque havia sido uma escolha de mudança pessoal, uma questão de maiores oportunidades. Porque quando finalmente se sai de uma faculdade, já está devidamente entregue ao mundo. E no meu caso, Miami não era muito bem aonde gostaria de ficar por mais anos.
Por isso havia escolhido me mudar para a grande maçã, depois de já completar um ano de namoro, segura que não entraria em mais uma roubada, e perceber que trabalhar com minha mãe nunca daria mesmo certo. Em todo o caso, eu não havia me privado, mais uma vez, das únicas companhias que tinha arrumado ligação forte. Maisie e haviam ido junto comigo.
Morava agora em um, não muito espaçoso e a altura dos meus sonhos, porém confortável, apartamento que meu padrasto havia me concedido, junto com minha melhor amiga desde os tempos de Daytona. Enquanto havia optado por dividir um loft com um colega da faculdade de música. Um cara chamado Reece, canadense e maluco por festas, que quase nunca parava em casa e assim deixava o apartamento quase particular para meu namorado, com exceção das contas.
- Mai, tenho grandes novidades para te contar! - falei ao finalmente abrir a porta do apartamento e terminar de ouvir as reclamações de minha amiga sem respirar até o terceiro andar do prédio - E quando eu digo “grande”, eu não estou brincando - joguei minha bolsa e casaco ao sofá, deixando a porta para a garota fechar, enquanto segui direto para a cozinha.
- Está grávida - falou como se fosse óbvio, passando reto por mim em direção ao nosso quarto.
- Claro que não! - disse logo, nem podendo cogitar em tal hipótese - É algo melhor. Mas pensando assim, tão conturbado como ter um bebê. - encarei a porta da geladeira nem mesmo sabendo por que estava à cozinha. Era apenas uma mania de sempre chegar e abrir o eletrodoméstico.
Então segui para o quarto.
- O que foi então? - ela perguntou sem interesse a me ver, através do espelho, adentrar pela porta do cômodo. - Não achou essa blusa linda? – desconversou, olhando concentrada para a peça posta sobre seu corpo.
- Ah sim, linda - olhei para a roupa e sentei a cama - Mas voltando ao assunto, tenho uma grande novidade para te contar – repeti.
- Pois então diga logo - ela se aproximou da cama então, porém apenas por causa das sacolas cujo eu estava sentada logo atrás.
Respirei fundo.
- me convidou, quer dizer, está me obrigando a ir para Londres! - parecia soltar a frase em uníssono, tamanha era a euforia. Ou talvez a incerteza de querer repetir aquilo calmamente.
- O QUÊ? - senti suas mãos pararem de vascular as sacolas de papel - Eu não sei se eu ouvi direito, mas você me falou "para Londres" ou "a Londres"? Não sei, mas concordância verbal nessas horas muda todo o significado.
Eu ri. Se fosse Zoe Taylor eu nunca esperaria ouvir aquilo em tal momento. Mas como era Maisie, relevei e me virei para a garota.
- Eu falei querendo expressar algo definitivo - abri um sorriso para encorajá-la.
A vi se afastar das sacolas.
- Não acredito nisso. Não acredito mesmo - falou, começando a balançar suas mãos ao ar. Sinal de que estava nervosa - Como foi isso? - perguntou, sentando agora à cama que ficava ao lado da que eu estava.
E mesmo não tendo certeza se podia repetir tal assunto com detalhes, esboçando autocontrole, repeti.
- Ontem à noite, quando me ligou para passar à sua casa, não era somente para ir e ficar se amassando no sofá, ou assistindo filmes repetidos. Ele preparou um jantar! E acredite, ele próprio cozinhou - ri outra vez.
- Sorte. O Adam só sabe discar o número da pizzaria - comentou.
- Mas continuando. Conversa vai, risada vem, depois de algumas taças de vinho já ao sofá, ele pareceu ficar sério. Então retirou, do nada, aquelas duas passagens do bolso da calça, me deixando extasiada ao reparar no destino impresso. E assim sem nem esperar eu absorver o susto, começou a falar sobre todo o seu plano, me deixando mais abobada possível a cada palavra - disse.
- E sobre o que ele falou? - perguntou interessada nos detalhes, agora esquecendo suas roupas novas.
- Ele explicou-me que comprou as passagens visando me fazer uma surpresa. E até confessou que há tempos já pensava em retornar para casa. Na verdade a idéia nos últimos dias só cresceu. Resumidamente parece que alguém da sua família lhe mandou uma carta comentando que uma gravadora britânica estava abrindo testes para a formação de uma banda. Algo que já começava com grande promoção, com contrato. Um futuro garantido, entende? Então agora ele está realmente empolgado para colocar os planos em prática e fazer os testes. Só que como ele não quer me deixar, teríamos que ambos nos mudarmos, voltar para Londres - concluí.
- Mas, no caso, não seria mais simples e seguro ele ir fazer os testes, sem você, e depois esperar o resultado? Vai que ele acaba não conseguindo? Então vocês terão largado tudo de concreto aqui em Nova Iorque, pelo duvidoso lá.
- E foi exatamente isso que eu falei a ele. Mas você conhece o , sabe como ele é cabeça dura! Para você ter noção disso, ele já tem tudo esquematizado até. De acordo com os planos, os pais deles, que são donos de alguns imóveis em Londres, já têm uma casa para nós morarmos.
- Mas e o seu trabalho? - perguntou, querendo se informar ou tomar minhas dores.
- Talvez minha mãe pudesse me ajudar, afinal ela já trabalhou por tanto tempo lá. Ela conhece muitas pessoas, empresas e meios naquela cidade...
- Eu não sei por você, , mas eu achei arriscadíssima essa idéia maluca do seu namorado.
- Também achei. Mas vendo ela por outro lado, o que você acha de eu me mudar definitivamente para Londres com ele? Voltar para a minha terra, construir uma vida nova, quem sabe até casar - sonhei por um segundo alto.
- Confessando agora, eu sempre achei que você esteve ligada, de alguma forma, àquele lugar. Os seus sonhos de voltar nunca morreram, apenas foram desviados. Mas eu acho que agora, tendo essa chance de voltar já firmada, com um namorado e decidida ao que fazer, será ótimo. Vai poder recomeçar outra vida e não mais uma continuação, como você queria.
Então algo pareceu ressurgir à conversa. O meu medo, o meu receio de iniciar aquele assunto, que provavelmente tinha inúmeras chances de recair sobre algo em especial que eu não queria lembrar.
E agora estava ali a chance de fazer tudo vir à tona, o assunto aparecer a minha frente sem máscaras para se esconder.
- Você também pensou no... - minhas mãos pareceram ficar inquietas, mas talvez fosse um sinal para tirar minha atenção da conversa e ver se era sobre aquilo mesmo que eu gostaria de falar no exato momento. - Pensou no Thomas, também? - concluí.
- Sempre que eu ouvi você falar dessa cidade, o nome dele vinha logo em seguida. Então, para mim, não tem como não associar Londres ao Thomas - explicou-se.
Perdi o interesse em meus dedos que já conhecia tão bem desde a barriga de minha mãe e levantei da cama, recebendo o olhar de minha amiga como acompanhante até a janela.
- Pois eu também pensei - disse, ao olhar o céu nublado de Nova Iorque. - Não sei o que está acontecendo comigo, Maisie, mas desde ontem à noite, eu não pensei somente na vida que eu poderia levar com o . Eu pensei nele. Droga, Mai, eu pensei nele! - elevei meu tom de voz, trazendo todos os pensamentos daquela manhã de volta.
- Mas é normal isso acontecer, . Afinal você sempre pensou, que quando voltasse para Londres, seria com o único propósito de reencontrá-lo.
- Você não entende, Maisie. – a interrompi - Eu não posso mais pensar nele. Não mais! Porque eu estou me sentindo tão bem e segura com o . Eu realmente o amo, de verdade, e muito - o nervosismo já me atrapalhava ao tentar explicar.
- E eu não estou contestando o seu amor, .
- Eu não posso voltar a ter esses pensamentos sobre ele porque eu o esqueci. Ele não faz mais parte da minha vida, ele não é mais nada meu, eu não sei mais nada sobre ele e ele não é mais meu amigo - coloquei minhas mãos sobre meus ouvidos e pressionei. - Todas as memórias que eu tinha sobre nós viraram meros borrões, eu não sinto mais nada por ele e não vou voltar a sentir! - retirei minhas mãos com violência de meus ouvidos e me voltei nervosa até onde minha amiga estava, agora parada de pé atrás de mim. - Associá-lo com essa viagem não pode acontecer, Mai - envolvi com força meus braços ao seu pescoço, escondendo meu rosto em meio aos seus cabelos caídos ao ombro.
- Calma , você só associou, como qualquer outra pessoa faria. Não precisa ficar nervosa...
- Mai, eu não posso ainda sentir algo por ele - afundei meu rosto ainda mais que podia ao seu ombro.
- , eu não estou conseguindo te entender, sabe? Você estava minutos atrás toda feliz, me contando sobre as novidades, sua futura vida e agora está... chorando! - percebendo meus pequenos soluços iniciais, ela me afastou - O que está acontecendo, garota? - perguntou.
Deveria estar com meu rosto em um rosado escarlate. Sentia por minhas bochechas, e meus olhos cheios de água terminavam por me entregavam. Estava me sentindo, de minutos atrás para agora, tremendamente angustiada.
- Eu só não posso pensar nele, Mai - choraminguei para a garota, sentando agora outra vez a cama, e depositando minhas mãos sobre o rosto.
- Mas não é proibido pensar, . Você não vai trair o por somente pensar em um ex-namorado - percebi a garota se agachar a minha frente, assim retirando minhas mãos sobre o rosto - Mas por que você me falou "ainda sentir"? - perguntou.
- O quê? - a olhei demonstrando surpresa, ao limpar as lágrimas que caiam, as impedindo de se perderem sobre meus lábios.
- Por acaso você ainda sente amor pelo Tom? - perguntou docemente, pena que eu não absorvia a doçura de sua voz, muito menos do assunto.
- Sentir? - tranquei meu choro, encarando a garota por um segundo - Eu não sei. Eu não sei o que eu sinto, eu não sei como me sinto, eu não sei de mais nada!
- Está certo, vamos começar outra vez - me olhou com compreensão e sentou-se ao meu lado na cama. - Eu só vi o Tom uma vez e não sei nada além do que você me contou um dia. Mas eu posso te ajudar se todos esses sentimentos por ele estão parecendo voltar e se encontrar com os novos, de agora. Só que eu preciso que você queira me contar sem chorar.
- Eu só tive um surto - sorri, tentando afastar minha cara de idiota - Milhares de pequenas coisas pareceram invadir minha cabeça essa manhã, partículas de tudo que eu vivi na Inglaterra e não somente do meu último ano lá. E eu reconheci que seria inevitável não pensar nisso, acho normal, afinal é a minha vida, foi o meu passado. Mas então o que me deixou confusa foi só conseguir pensar nesse passado, hoje de manhã. Eu não consegui me prender por muito tempo na vida que eu vou poder levar, no meu futuro, entende? Só conseguir raciocinar que agora eu vou poder realizar aquilo que eu planejava, voltar. E o mais estranho, porque ao pensar isso, só pensei no Thomas. Porque eu sempre pensei que seria por ele que eu voltaria. E agora eu estou idealizando voltar com o . - suspirei ao conseguir explicar a minoria do que eu parecia sentir. - Eu não sei explicar quando tudo parece se embolar aqui dentro.
- Tudo bem, eu entendo. Você deve ter imaginado um final alternativo, onde você estaria prestes a acabar a sua faculdade e enfim próxima de selar a sua promessa, não com e sim com Tom.
- Mais ou menos isso também, porque na verdade foi tanta coisa - ri para não tornar tudo tão desagradável. Mesmo que fosse e estivesse sendo. - Mas também percebi que Tom me esqueceu, eu não me comunico há tempos com , e Zoe e eu nem parecemos melhores amigas desde sempre. Eu não tenho mais nada na Inglaterra. Tudo está aqui.
- Realmente te entendo. Mas acho que você não me falou se sentiu algo ressurgir pelo Tom novamente - disse.
A minha cabeça estava um turbilhão desde a noite passada, porém eu estava tentando controlar e não deixar as dúvidas quanto a garoto transparecer e ocupar o lugar das minhas expectativas com e nossa mudança.
- Continuar a disser que não sei é um clichê, mas eu não consigo esclarecer se o que senti, e sinto, é aquele amor reprimido. Eu só pensei na imagem dele, só. – falei.
- Mas você sentiu um desconforto, uma espécie de calorzinho? Você está pensando só nele agora? - perguntou.
Sim, eu estava sentindo um desconforto enorme, mas era com tais pensamentos.
- É claro que eu me sinto desconfortável por pensar nele - falei instantaneamente - Por que, o que você acha? - perguntei a minha amiga. Que pareceu pensar no meu caso, admirando a parede à frente e contorcendo sua boca.
- Eu? Não acho nada. Só sei que você precisa de um banho e descanso. Vai saber, mas tenho certeza que você não conseguiu dormir muito essa noite - acertou um tapinha em minha perna e levantou da cama, sem me dar a resposta que precisava.
No dia seguinte, já com a minha cabeça fria e aliviada, havia recebido uma ligação de , onde o garoto explicava que gostaria de conversar melhor, de preferência de roupa e totalmente sóbrio, sobre aquele assunto que até então estava sendo levado na brincadeira, como eu havia levado meus três anos de idealizações na faculdade, nossa viajem somente de ida para a Inglaterra.
Viagem que exigia muito mais que preparação material naquelas circunstâncias, e sim uma boa preparação psicológica.
- Oi bonitinho - falei ao passar ao lado do garoto, dando-lhe um beijo ao topo da cabeça, e indo me sentar à cadeira logo a sua frente naquele restaurante local.
- Oi para você também - ele afastou o paliteiro cujo parecia brincar - Como dormiu? - perguntou então.
- Ah, dormi bem - ri divertida com a pergunta, depositando meu casaco a cadeira - Você nunca pergunta isso.
- Posso começar a perguntar a partir de agora - deu o seu típico sorriso, pelo qual eu era apaixonada.
- Mas você não me pediu para vir até aqui só para perguntar como eu dormir.
- Não mesmo. Eu te chamei aqui para comermos - debochou - Mentira, te chamei aqui para conversarmos sem eu te agarrar.
- Que isso, ? - perguntei surpresa ao ouvir aquilo, ao mesmo tempo em que ri ao perceber a atendente que passava por perto arregalar os olhos.
- Está bem, te trouxe aqui porque achei mais simples. Almoçamos juntos e já começamos a falar do nosso futuro - explicou-se.
- O futuro que me assusta - brinquei. - , eu falei com a Maisie sobre o que você me disse e, assim como eu, ela achou melhor você ir sozinho e prestar o teste primeiro, antes de resolvermos nos mudar e tudo mais.
- Ela está com ciúmes! , nós vamos viver juntos em Londres, em um sobrado perto do Kensington Gardens. Eu vou passar no teste da banda e você vai conseguir algo por lá, tenho certeza. Seremos felizes.
- Você fala como se tudo fosse tão simples que até me convenço. Mas não é bem assim, . Você pode não ser aprovado e o "eu consigo algo por lá" pode não acontecer. Mas aqui as coisas...
- Aqui as coisas estão monótonas. Querida, eu te amo, mas você sempre pensa baixo demais. E isso é particularmente chato. Você tem que deixar de lado esse pessimismo, parar de pensar demais porque você sempre acaba desistindo de tudo com medo das conseqüências. Você tem que perceber que temos chances lá. É a nossa terra natal, onde crescemos! Pense na vida nova que podemos levar - seu sorriso ia abrindo mais a cada palavra, e eu tentava não lhe interromper e contar o que aconteceu quando eu deixei os sonhos me levarem demais para fora da realidade. Mas acima de outras coisas eu admirava o jeito sonhador do garoto - Ok, Londres não é melhor, nem pior que Nova Iorque, mas é o nosso lar.
- Como dizem: lar é onde o coração está, . E o meu está por inteiro deste lado do oceano - disse, logo ficando séria.
Aquilo me fez lembrar, por frações de segundos, de Tom. E era tudo o que eu estava tentando deixar afastado.
- Será que eu vou ter que deixar a pessoa que eu mais amo e me faz feliz no momento para os americanos? – bateu, brincalhão, à mesa.
- Não... - reparei então nas pessoas que olhavam - Eu vou ir com você – disse baixinho.
- Tem certeza? - perguntou em um tom alto. - Eu não quero estar te pressionando - bateu outra vez na mesa, agora fazendo o saleiro pular.
- Não está, juro - me afundei um pouco na cadeira ao perceber os olhares insistentes das pessoas da mesa ao lado - Eu vou com você – ri de estar sendo vencida pela vergonha. E mais uma vez deixávamos o assunto tornar-se uma brincadeira.
- Ela aceitou! - piscou para o senhor da mesa vizinha - Ok, mas não quero que você se arrependa depois - ele virou-se para mim, agora falando em seu tom normal.
- Não vou me arrepender, vou estar ao seu lado - sorri.
não sabia detalhadamente sobre Tom, nem do tormento que eu estava sentindo de pensar em voltar lá. Mas ao notar o quanto eu amava seu jeito, não conseguia pensar em nada a não ser aceitar.
- Acho muito bom, bom mesmo. Porque eu não estava a fim de entregar aquela passagem para o Reece ir comigo - comentou.
Não havíamos conseguido ter uma conversa séria, porque era praticamente impossível fazer aquilo com o garoto. era do tipo cabeça dura, que quando enfiava algo na cabeça, persistia até o final. E admitia, eu gostava do seu jeito. Mas às vezes quando eu gostaria de falar um pouco mais sério e expor meu ponto de vista, as suas atitudes sonhadoras me irritavam profundamente. Para ele tudo poderia ser feito, bastasse continuar acreditando. Pensar baixo não era o seu destino. pensava alto e subia cada dia mais, vivia quase em meio às nuvens. Um total contraste do que eu havia ficado. Mas quando dizem que os opostos se atraem é porque realmente é verdade. Apesar do seu jeito imaturo para ver situações sérias, ele preenchia o meu lado sonhador que havia feito questão de esquecer a dois anos e meio.
Em todo o caso tudo que havíamos comentado era sobre os seus planos, para nós, quando chegássemos a Londres. Nada de desistir e nem de pensar por mais tempo, era certo que iríamos. E eu ainda não conseguia acreditar que havia aceitado essa loucura.
Rumei para casa logo depois do almoço. Teria que tratar de começar a encaixotar cada pertence e arrumar as malas.
Ambos não levaríamos grandes móveis, pois de acordo com , a propriedade de seus pais já era mobiliada com o básico para se viver. Assim só carregaríamos conosco nossos pertences mais íntimos e roupas.
Não teríamos, a principio, grandes trabalhos com absolutamente nada por lá. Teríamos uma casa devidamente mobiliada e total apoio da família do garoto. Mas algo me incomodava além, tirando o problema com o meu passado persistente, eu não teria emprego e eu odiava ficar para desde então.
- Maisie, falei melhor com o e para o seu pesadelo nós vamos nos mudar sim - gritei em alto e bom som, enquanto trancava a porta de casa.
Estava tentando deixar somente a alegria transparecer.
- Se mudar? - ouvi uma voz familiar, mas não a de Maisie; então virei para trás num girar rápido de calcanhares.
- Mãe? - encontrei logo os olhos, cujo falavam que eu havia herdado, da mulher - O que a senhora está fazendo em Nova Iorque, ou melhor, na minha sala? - perguntei espantada, mas ao fim abrindo um sorriso de quem estava satisfeita com a surpresa.
- Isso é cara de quem gostou? - perguntou, abrindo seus braços.
- Nossa, isso sim que é surpresa! - larguei minha bolsa e chaves ao chão e fui de encontro com a mulher, que estava à frente do sofá, já de pé - Mas como você entrou, surpresa? - perguntei sorridente ao abraçá-la.
- Eu realmente esperava que você falasse "mãe, senti sua falta" e não receber um abraço depois de meses sem te ver, com um "como você entrou?" - ela riu, me afastando agora para poder olhar meu rosto.
- Desculpa, eu senti muito a sua falta - reformulei minha frase. - Mas agora, como você entrou?' perguntei novamente.
- Credo , como você está magra! - desconversou totalmente ao segurar em sua mão meu queixo, o virando de um lado para o outro, analisando meu rosto, assim como o corpo inteiro em um mesmo olhar, típico de mãe - Garanto que você só se alimenta de porcaria e ainda dorme tarde da noite - soltou-me - Veja os seus braços, parecem varetinhas! - balançou a cabeça em sinal negativo.
- Mãe! - gritei em meio a risadas.
Não podia estar acreditando que minha mãe estava ali, ainda mais que havia chegado já me analisando e reclamando.
- Ah sim, sua amiguinha Maisie me encontrou lá embaixo e me abriu a porta para que eu te esperasse - explicou-me então como teria entrado. - Ela foi até a casa de um Adam e me deixou aqui olhando suas fotos - ela então apontou para porta-retratos espalhados em cima de uma estante.
Eu tinha um pequeno tombo por fotografias.
- Ah sim, fotos - sorri, me afastando da mulher para recolher as coisas que havia largado ao chão e trancar a porta. - Mas então, o que te trás a Nova Iorque? - perguntei.
- Vim acompanhar o George. Ele veio fazer uma visitinha ao Anthony - disse.
- Ah sim, o filho problema - falei, indo agora até a cozinha.
Anthony era o filho do meu padrasto, George. E por falar nisso, ele e minha mãe haviam se casado há um ano e meio, ou dois, não me lembrava. Mas o namoro tinha sido até que longo para os antigos padrões de minha mãe. Com certeza os americanos haviam descoberto aquilo que os britânicos nunca haviam conseguido, achar a melhor maneira para conquistar . E bem, Anthony agora era o enteado, meu irmão postiço, a encrenca, o legitimo encosto.
Tony, como o chamavam, também morava sozinho em Nova Iorque, mas diferente de mim, sempre trazia seu pai para a cidade, pois ele e minha mãe ainda moravam em Miami, devido aos seus problemas em beber demais, sempre farreando com as más companhias e indo parar vez sim, outra não, na delegacia.
Eu lhe via sempre em feriados ocasionais, tipo ações de graças, páscoa e principalmente natal, quando ele e eu éramos obrigados a deixar NI para visitar nossos pais em Miami. E ele era do tipo estupidamente bonito, mas se realmente soubesse se comportar decentemente seria mais. Anthony era asqueroso como homem. Além de ser um problemático, ele tinha a auto-estima elevada demais, o que o possibilitava dar em cima de qualquer ser humano do sexo feminino que parecesse agradável aos seus olhos.
Ou seja, eu o odiava.
- Não fale assim dele. É um bom menino, apesar de tudo - disse.
- Então mãe, quer beber ou comer algo? - perguntei ignorando sua resposta, para não procurar continuar o assunto.
- Não, almocei com o George - disse, saindo do caminho das poltronas e indo até o balcão americano que separava a sala da pequena cozinha, onde eu estava fuçando nos armários - Mas voltando mais cedo, o que você falou quando entrou em casa? - perguntou curiosa.
- O que você ouviu? – respondi com uma pergunta, depositando um copo a sua frente, que agora estava sentada a uma banqueta.
- Algo sobre mudança - respondeu, a me ver seguir até a geladeira - Você não está pensando em ir morar com o seu namorado, está?
- E se eu estiver? - perguntei, retirando um jarro de água do trambolho que minha amiga havia pintado de roxo.
- Você sabe o que vão falar sobre você se isso acontecer? - a mulher se remexeu na cadeira quando me aproximei novamente.
- Mãe, eu vou morar com o , mas não aqui em Nova Iorque, até porque aqui eu moro com a Maisie e ele com o Reece. Mas sim em um sobrado próximo ao Kensington Gardens - sorri ao ver a água cristalina rebater ao fundo do copo de vidro e ir subindo até a metade dele.
Já conseguia ouvir os gritos, por isso só estava prevendo um raciocínio para começar a me explicar.
- Mas Kensington fica em... ! - ela não concluiu sua frase e já começou a me chamar pelo nome.
- Fica em Londres - sorri em dizer - Explicando melhor, vai voltar para fazer uma audição em uma gravadora local e me convidou para ir junto.
- Espera, deixe-me compreender a situação - ela fechou os olhos, sacudindo sua mão à frente do rosto - Você vai deixar tudo aqui, porque seu namoradinho vai tentar entrar para uma banda? - abriu os olhos então.
- Sim - continuei sorrindo a cada conclusão sua. - Mas antes que você ache pura loucura, deixe-me esclarecer que vamos ter uma casa só nossa, dada pelos pais de , e bem, quanto a um pequenino detalhe, o meu emprego, você vai poder me ajudar, não? - perguntei.
- , desde quando vocês estão pensando sobre isso? - perguntou.
- Bem, hoje é o terceiro dia - continuei sorrindo, esperando ouvir mais uma vez meu nome. - Mas eu amo o e...
- Por Deus, minha filha. Será que você ainda não aprendeu? - interrompeu-me - Você está se iludindo do mesmo jeito que foi com o menino dos Fletcher. Você lembra como tudo acabou? - perguntou.
- Eu não vou cometei os mesmos erros, - segurei outra vez a jarra de água e segui para a geladeira. Thomas de novo!
- O é um rapaz maravilhoso, doce, encantador, mas ele leva a vida na flauta. Garanto que ele não está pensando como vocês poderão viver por lá se ele não passar no tal teste.
Minha mãe tinha total razão em cada palavra que dizia. Mas depois de tempos só convivendo com o positivismo excessivo de , eu havia ficado afetada, achando que tudo sempre poderia dar certo. Como pensávamos.
- Mãe, eu sei que parece impensado. Bom, na verdade realmente é. Mas eu lembro uma vez, quando você me disse antes de sairmos de Londres, que o dia em que eu estivesse formada e certa das minhas atitudes eu poderia voltar. Então veja agora, eu me formei, acho mesmo que estou em perfeito juízo e mesmo assim fiquei mais anos aqui, com a senhora, mesmo que não tenha sido ao seu lado. Mas agora eu tenho uma chance de voltar. Voltar com uma vida diferente, com outras perspectivas - falei.
Vi minha mãe suspirar alto quando me aproximei do balcão.
- Eu posso tentar falar com o Theodore... - iniciou, levantando seu olhar - E ver se tem algum trabalho na filial da Inglaterra - concluiu. Minha mãe ainda continuava como presidente de uma empresa de arquitetura em Miami, e estava sempre em ligação com a filial da nossa antiga cidade.
Acho que era por isso que eu havia optado por arquitetura também. Pelo fato de ser a profissão de duas gerações seguidas e ter a minha disposição um leque cheio de chances para o futuro.
- Mas não se anime. As coisas parecem vir facilmente, mas nem sempre é assim. Você sabe! - avisou, antes de eu me apoiar por cima do balcão e lhe puxar para um abraço.
- Eu tenho sorte, dona . Sorte! - lhe dei um beijo estalado à bochecha.
- Sim, sorte. Mas, agora, quanto a esse seu namorado, o que ele espera da vida, além de levar como músico, ele vai noivar com você? - perguntou, me fazendo perder a concentração e rir.
era meio cabeça dura, assim como meu namorado, logo de início, mas era de se entender logo depois. Para desarmá-la era só ter um bom diálogo. O que ela prezava.
- Tenho certeza que vou me lembrar de você em cada lugar que eu passar, mas mesmo assim vou sentir sua falta - disse, abrindo meus olhos - Nós moramos tanto tempo em Londres...
- Anos maravilhosos - ela completou.
- E voltar vai fazer acender várias memórias que eu julguei estarem esquecidas. Sabe, mãe, - saí de seu colo e então sentei ao sofá. - eu pensei por um momento em rejeitar essa oportunidade.
- Por quê? – perguntou compreensiva, mesmo não contestando se eu resolvesse mudar de idéia mais uma vez.
- Justamente pelas memórias - respondi. - Eu não sei se conseguirei viver outra vida lá, entende? Londres só me remete a vida que deixamos para trás. Levar o que eu construí aqui nos Estados Unidos para lá me parece estranho.
Ambas tínhamos mudado muito. Nada do que fomos ao velho continente, éramos agora ali, nos Estados Unidos. Aquele tempo havia me feito de uma adolescente estúpida e enclausurada em sua própria bolha, em uma mulher decidida e com a cabeça (quase) no lugar.
- Mas por que essas lembranças te impediriam de viver? Lembranças são apenas fragmentos do que aconteceu um dia; e geralmente elas voltam para nos lembrar de algo, mesmo que seja ruim ou bom, e nos fazer sorrir ao ver que passamos por tudo e ainda estamos aqui – disse, me fazendo sorrir.
- Eu gosto de lembranças, mas me preocupo em especial com as do Thomas - respondi - Não sei como agiria passando por lugares que passei ao lado dele, agora com ao meu lado.
- Ora , não seja tola - me impulsionou para deitar outra vez ao seu colo - Claro que temos medo do que não conhecemos, mas eu sei que você não vai sentir nada disso quando chegar lá. Você agora está com o , é outra vida. Aquilo que aconteceu foi no passado - falou.
É mãe, mas nada até agora impediu o que um dia foi passado, de se infiltrar no presente. Livros de história eram a prova viva disso.
Fechei mais uma vez meus olhos, sentindo novamente seu toque aos meus cabelos, e voltei a refletir. Enquanto ainda estava me sentindo segura em seu colo.
Capítulo 02
"Gostaríamos de ter ficado mais uma semana para podermos nos despedir no aeroporto, ou quem sabe viajar com vocês até Londres. Mas você sabe dos motivos e também sabe que independente disso, já estamos torcendo para tudo dar certo há semanas.
Façam uma boa viagem e não esqueça de telefonar quando chegar!" li o bilhete de minha mãe, em meio às outras correspondências, em sua maioria contas, que em breve não me encontrariam mais àquela endereço.
O natal chegara e passara na velocidade luz. Sempre costumava ser daquele jeito e conforme mais expectativas se criavam, mas rapidamente era o efeito assustador do tempo. Minha mãe e meu padrasto haviam vindo até NI para a véspera da comemoração, mas, como estava escrito no bilhete, já haviam voltado à Miami. E isso já passava de uma semana.
Conforme o meu calendário, e as últimas malas postas à porta do apartamento, não deixavam mentir, dezembro tinha se consumido em horas desde a notícia que me dera. E agora realmente era em questão de horas que eu deixaria aquele lugar, aquela rua, aquela região, a cidade e finalmente o país. Restavam apenas horas para ter certeza que eu seguiria mesmo em frente, horas restantes para eu enfim, depois de tudo, cumprir uma promessa, mesmo que quebrada, esquecida e completamente mudada. Estava prestes a voltar.
- Nunca pensei que você tivesse tanta inutilidade posta aqui dentro - Maisie disse em meio a seus consecutivos movimentos de levantar e abaixar braços. Estava aproveitando o espaço que minhas roupas e bugigangas haviam deixado para trás, ressaltando que era um belo de um espaço, para arrumar o quarto ao seu gosto.
Tudo que eu possuía, em sua maioria estava dentro de caixas, e a julgar pela rapidez que se tornara e com ajuda da transportadora, quem sabe já estariam em minha sala na Inglaterra. Poucas coisas, como duas ou três malas, estavam ainda postas sobre minha cama recebendo sem parar pilhas de roupas e pequenos objetos pessoais. E logo não estariam mais, dando um maior espaço e eco em meio ao quarto que deixaria de ter duas camas para ficar somente com uma. Levaria meus pertences no fim da tarde até a casa de , que despacharia tudo em um vôo de transportadora, nos deixando livre de preocupações de danos em ou demora em achar bagagem em aeroporto.
- Minhas inutilidades vão ocupar outro closet, em outro país e esse será todinho seu. Fique feliz - respondi, conferindo se não havia mais espaço aonde eu pudesse enfiar mais duas blusas, dobradas como se fossem meias, à mala.
- Só não fico totalmente feliz porque você também vai ir embora junto com as suas inutilidades – disse, me fazendo sorrir.
O apartamento que morava passaria inteiramente para a garota. Um presente de despedida trocado, já que em todos aqueles anos havia sido ela quem tinha me feito companhia em momentos agradáveis e também não tão agradáveis assim. Afinal de contas, agora George havia me conseguido algo muito melhor que um apartamento bem localizado em NI, ele havia conseguido o meu mais novo emprego em Londres, em uma empresa de familiares.
Estava tudo prontamente organizado, por incrível que pudesse parecer quando todos foram comunicados da notícia, e parecia surreal, pois em pouco tempo tudo havia se tornado concreto e seguro e eu já não estava mais acostumada a ver tudo ser idealizado e dar certo sem um boa espera para acabar com qualquer plano. Assim me sentia confiante, ou quase inteiramente. Porque por falar em "tudo", eu estava tentando me concentrar por dias na árdua tarefa de só manter minhas atenções em assuntos que envolvessem uma nova vida e não uma velha, porque afinal, com tantos conselhos que eu havia tomado de pessoas íntimas, como minha mãe e Maisie, não se pode viver de passado. Porém era uma realidade persistente e impossível, como se falar a um gordinho que ele não poderia mais comer doces.
Sentia-me nervosa ao mesmo tempo em que tentava me controlar e pensar em outras maravilhas que me aguardavam. O novo me chamava evidentemente à atenção. Contudo, todas as noites que se passou desde que pus minhas mãos as passagens da British Airways, era me envolver com o velho filme preto e branco onde um dos protagonistas principais não se chamava .
- Hei , eu acho que você não retirou todas as suas bugigangas do meu closet! - a voz da garota vinda de dentro do armário era de surpresa - E dê uma olhadinha no que logo resolveu ficar para trás... – riu.
Havia conseguido fechar a última mala, e diferente das outras, em questão de simples segundos. Então agora me sentia livre a ajudar minha amiga com a nova arrumação de seu exclusivo quarto. Contudo quando virei para o lugar onde supostamente ela estaria, dei de cara com algo que eu não imaginava, e muito menos necessitava ver, em suas mãos.
No papel em meio aos dedos finos de Maisie estava a pessoa que eu costumava ser, idiotamente deslumbrada com a companhia do garoto loiro ao meu lado, de aspecto doce, e pelo que rapidamente passou por minha cabeça, no auge dos seus recém completados dezoito anos. E notar aquilo em tal situação e altura do campeonato realmente não era o que eu precisava. Porém era o que mais me seduzia a querer pensar.
- Você ainda lembrava dessa caixa? - a garota aproximou-se da cama, onde eu estaticamente havia me deixado ficar, já não destacando mais a tal fotografia em sua mão, e sim a jogando dentro de uma mediana caixa de papelão azul anil depositada em seus braços e que parecia jogar faíscas de memórias para cima de mim conforme ia se aproximando em câmera lenta. Como tudo havia ficado no momento em que meus olhos encontraram com os que o garoto da fotografia possuía - Nem sabia que você ainda a guardava - e depositou o poço de memória indesejada sobre minhas malas, me empurrando a tal foto que retirara outra vez da caixa - Eu sempre gostei das suas fotos - sorriu, voltando para o conteúdo que eu nem mais me lembrava detalhadamente.
Senti meu coração estacionar suas batidas controladas e deixar uma sensação horrível percorrer meu corpo, como se o sangue por um segundo parasse de circular e seguisse em direção a cabeça, quando pude olhar para o papel e, assim como na questão de tato, absorver melhor a imagem que havia sido congelada naquele papel com brilho da Kodak. Assim ao encontrar outra vez o olhar frio, mas mesmo assim exalando vida, e os sorrisos idiotas de felicidade à minha face e a de Tom, meu coração voltou com força, agora parecendo não se contentar em bater unicamente ao peito, mas sim à garganta. Causando-me desconforto e calor.
- Você lembrava disso tudo? - minha amiga repetiu, quando virei em sua direção com a cabeça ligeiramente atordoada e com meus movimentos lentos por ter que digerir a súbita mudança de sensações em pouco tempo - É muita coisa... que eu nem sabia que existia! - disse, se afastando da caixa e me deixando enxergar o que lá eu havia há muito tempo depositado.
Percebia que os sons ao meu redor, assim como o movimento, estavam se tornando inexistentes a cada lugar da caixa que eu olhava e encontrava rostos e pertences antigamente tão bem conhecidos. Era como achar um baú de brinquedos que há muito tempo não se via. Cada item parecia me seduzir e me levar a querer mexê-lo, até me fazendo acreditar que olhá-los não me acarretaria em qualquer problema.
E foi o que fiz quando peguei uma foto que se destacava sobre as demais e que até mesmo com o tempo de dois anos eu me lembrava aonde havia a guardado desde última vez em que a segurei em mãos. A foto da minha última tarde ao Hyde Park, a que tinha a presença de meus dois melhores amigos, em questão na época, e a de um pequeno e típico animalzinho, que havia até sido tirada por Tom, costumava ficar exposta ao mural em meu quarto na faculdade e a última vez que ela havia ficado por lá tinha sido até meu último ano, quando tudo voltou novamente para a caixa. E tudo tinha ficado ali, inclusive na mudança de Miami para NI. Não me lembrava daquilo, não a abria há um bom tempo. Ela só fazia questão de me acompanhar para onde quer que eu fosse, como algo inútil, mas que estava lá. E então agora depois de tempos ela estava aberta, libertando suas fotos e memórias vivas sobre minha cama.
Ao passar cada foto por meus dedos e escaneá-las com meus olhos, as sensações, que na época eram fortes, pareciam ser revividas. E algo dentro do meu peito se comprimia mais ao novamente senti-las.
Podia ouvir a risada gostosa de ao pé do meu ouvido, assim como os gritinhos de Zoe. Então a brisa do parque e o movimento das pessoas pareciam bem próximos, assim como a sensação de me sentir segura ao rir e abrir os braços para encontrar o garoto loiro a minha frente.
Só que era triste então cair em mim e deixar os sorrisos naquele papel, me levando a ver o lugar onde eu estava, que nem de longe parecia o Hyde, muito menos Londres. Assim o carpete claro do quarto me fazia cair de volta, e as malas ao meu lado me faziam observar a estante onde Maisie estava posta em frente, e de costas, onde se encontrava várias molduras já vazias, porém uma única completa, onde estava a garota, seu namorado, e eu.
A sensação de cair de volta à realidade, que em segundos as fotografias haviam me feito esquecer, era árdua e depressiva. Fazendo a dor comprimida em meu peito ser demonstrada em forma de água.
"We ran past strawberry fields and smelt the summer time,
When it gets dark I'll hold your body close to mine"
Em minha cabeça resquícios de várias cenas e vozes passeavam por meus pensamentos, sons e cenas tão reais mesmo há muito tempo acontecidas e ouvidas pessoalmente. Contudo um daqueles resquícios de vozes que circulavam por meio das cenas, que agora estavam mais refrescadas, se tornou tão real como em anos não havia acontecido. A voz de Tom agora parecia vir, acompanhada de um violão, do aparelho de som do cômodo. E, em meio aquilo tudo, ouvi-la tão nitidamente me trouxe um desespero aparente, fazendo meu coração, entorpecido pelas memórias, voltar a bater descontrolamente em meu peito.
Olhei para minha amiga, que estava sorridente com o controle do aparelho em mãos, e voltei-me para a caixa de fotos. Tão bagunçada, pelas inúmeras vezes que Maisie talvez pudesse ter-la derrubado ao chão sem perceber, quanto o que passava em minha cabeça.
Diversas imagens apareciam e se refletiam em minha frente, me deixando hipnotizada pelo piso do quarto. E, apesar de tudo, eu não conseguia olhar perfeitamente para o que eu imaginava. Tudo era sobrepostos, corrido e bagunçado. O passado se misturava com o presente, vozes se misturavam com pessoas, e imagens solitárias se entrelaçavam com cenas mudas. Não conseguia pensar em um só assunto, minha cabeça estava em um turbilhão e em momentos a voz de Tom parecia se destacar mais que tudo, cantando a tal música do lual, que só me fazia pensar em choro e abraços. No Worries não era um nome aconselhável.
Olhei para a caixa e levantei da cama que antes havia sentado, buscando repouso.
- ME DEIXA EM PAZ! – gritei ao mesmo tempo em que dei um violento tapa à caixa. E a vi se espatifar ao chão, jogando cada pertence, que guardava, para vários cantos do quarto. Inclusive fazendo minha amiga desligar o aparelho de som com o susto de me ver gritar e passar rápida, por meio aos papéis e fotos espalhados pelo chão, para fora do quarto.
Não sabia definir qual era o estado em que me encontrava, talvez fosse o de transe, onde o calmo já se misturava com o nervoso e anestesiava qualquer desconforto. Se alguém perguntasse como estava me sentindo, diria que indiferente. Não havia conseguido dormir, mas ter ou não horas decentes de sono não estava fazendo qualquer diferença ou alteração em meu comportamento. Estava quieta e sem vontade alguma de conversar. E agradecia que ao meu lado se encontrava um totalmente entorpecido por remédios e pelo som que saia alterado do seu iPod.
Ao outro lado, a pequena janela do avião mostrava resquícios de uma cidade encoberta por nuvens claras. Mas claras só na altitude que o avião se encontrava, pois os dias que antecediam o vôo o ar da cidade estava no seu mais escuro cinza, acompanhado da fumaça e pólvora de fogos de artifício do ano novo, que agora já estavam totalmente decepados pela garoa fina que resolvera cair.
Estava no meu caminho, aquele cujo eu conhecia cada detalhe como as costas de minha mão, onde paisagens familiares não me faltariam. E qualquer um poderia dizer que não existia melhor sensação do que voltar para onde tudo começou. Mas apesar de repetir para mim mesma que tudo não passaria do que eu já estava acostumada, eu estava com medo. Um sentimento que até se misturava com o desconhecido, como se eu estivesse prestes a ir para o meu primeiro dia de aula em um colégio onde fosse me sentir desajeitada. Era para casa onde eu estava indo, mas tudo que eu chamava agora de lar eu estava deixando para trás junto com um punhado de nuvens. Um único pedaço da vida, que me acompanhou por anos, estava na poltrona ao meu lado. E eu nem podia dividir com ela tudo que me angustiava e bagunçava meus pensamentos, me impedindo de defini-los com precisão.
Tinha medo do que poderia me esperar, como qualquer pessoa tem sobre o seu futuro. Eu já não tinha controle sobre nada, tudo não passava de incerteza e insegurança era o que eu mais sentia. Assim, necessitava me sentir segura de alguma forma, mas a única pessoa onde eu podia buscar segurança era unicamente comigo, e eu não era nem de longe um ser seguro. Meus pensamentos precisavam se ajeitar ou eu precisava parar de sentir medo de fechar os olhos e me deparar com o, que em tal momento, eu não conseguia impedir por muito tempo de pensar.
Sete horas me separavam de pisar outra vez ao lugar que nunca queria ter deixado para trás, mas que em anos eu não consegui pensar em voltar por vontade própria. Com isso era impossível eu me privar de pensar em tudo que eu havia passado por lá. Estava deixando o meu presente para trás e voltando para o meu passado, para desse modo construir o meu futuro. E essa combinação errada me deixava confusa e ao mesmo tempo nostálgica. Desejava algo novo, mas sentia falta do que há muito não me pertencia mais. E isso ocasionava em um sentimento vazio, pois presente e passado não podiam andar juntos sem causar algum efeito.
Eu chegava então à conclusão, que tudo que eu acabava por construir era feito para desmoronar. Mas com isso eu até já havia me acostumado, só estava nervosa pelo modo como a nova construção se ergueria.
- Como você se sente? – me perguntou com um sorriso ao rosto, quando ultrapassamos a porta do Gatwick e eu pude ver um pouco melhor a cidade onde me encontrava.
- Me sinto... - sorri, me aproximando do garoto e agarrando sua mão - Como se fosse minha primeira vez em Londres – tentei definir o que sentia, enquanto nos aproximávamos de um táxi. Mas eu nunca tinha sentido uma sensação parecida ao chegar a Londres, porque afinal eu não era e nunca fui turista, sempre morei naquele lugar. Tudo não passava do mesmo, do velho, do decorado. Não era grande emoção voltar para casa sempre que viajava.
- Então trate de se acostumar com as direções – ele aproximou-se do automóvel primeiro, puxando a porta do carro para mim – É sempre ao contrário, – e riu do meu momento distração, por procurar o puxador ao lado direito da porta.
Londres não estava com neve atolada em meio às calçadas, deixando tudo imundo e com o aspecto ainda mais frio, como estava em Nova Iorque. Somente estava frio, mas algo aturável, e com o céu em seu nublado favorito, deixando como sempre o clima melancólico de início de ano. Não muito diferente do meu humor, não que ele estivesse péssimo, eu até estava surpresa por não ter sentido meu coração disparar quando me acordou ao avião já aterrizado ao pátio do aeroporto. Estava neutra e até empolgada. Não podia esconder que meus olhos poderiam estar brilhando e minha cara de abobada aparecendo. Estava feliz.
- Estou ansiosa para conhecer a nossa casa – disse ao me acomodar ao banco do táxi.
- Então vamos lá – sorriu – Sussex Gardens, por favor – e falou ao motorista.
Eu havia ficado um bom tempo sem sair dos Estados Unidos que até esquecera do funcionamento da Inglaterra. Estava já tão acostumada aos padrões americanos, dos tamanhos maiores e exagerados ao aspecto mais prático e acomodado, que ao ver no lugar das extensas avenidas movimentadas de carros família e frotas de táxis amarelos, as vielas apertadas e engarrafadas da cosmopolita Londres, com seus táxis tradicionais e construções rústicas, se chocando com pessoas de vários etnias e estilos, ao lado de construções modernas, me maravilhava. Percebia que Londres nunca havia de modo se afastado, eu pertencia àquela cidade, que até mesmo construções e estabelecimentos que eu não conhecia tornavam-se de perto familiares aos meus olhos de quem, agora, parecia ver tudo como um turista.
- Fica próximo ao Hyde! – comentei ao enxergar o Marble Arch à janela de – Sempre quis morar em South Kensington – sorri, surpresa ao ainda me lembrar da geografia do lugar, quando já nos aproximávamos da rua que o garoto indicara ao motorista.
O veículo dobrou à Edgware Road e seguiu até virar na quarta rua que a cruzava ao lado esquerdo. Sussex era uma avenida arborizada e nem tão movimentada. Ficava próxima a extensão de mais famosos parques londrinos e possuía uma larga extensão de sobrados idênticos.
- Pode parar em frente ao número 12 – disse ao motorista que já estava em marcha lenta.
Então quando o automóvel parou em frente ao sobrado que indicara, eu não aguardei meu namorado acertar o preço nada barato, do Gatwick até South Kensington, e desci para observar melhor o lugar onde eu moraria. Talvez para sempre.
Desde criança eu me encantava por ambientes, e foi um dos motivos fortes para cursar arquitetura, mas eu nunca me mudei enquanto morava em Londres. Sempre havia residido ao mesmo lugar, desde a barriga de minha mãe, e sempre tive o mesmo quarto, a mesma sala, o mesmo quintal, os mesmos vizinhos e cozinha. Até, claro, me mudar para os EUA e conseguir três casas diferentes.
- É lindo! – disse, ao perceber que já havia pagado o taxista e estava se aproximando.
- Quer conhecer por dentro então? – passou por mim, rodando a chave da casa em seu dedo indicador.
A construção possuía tijolos em um tom avermelhado, puxando para o marrom, e nas duas colunas, que sustentavam um pequeno telhadinho sobre a soleira, havia trepadeiras unha-de-gato agarradas aos tijolos, formando uma parede verde até certo ponto da construção onde havia duas janelas retangulares e amplas, pintadas de branco.
- Preparada? – o garoto perguntou, arregalando os olhos em uma careta divertida, quando girou a chave ao miolo da porta e segurou a maçaneta.
- Pára com isso, – ajeitei a mochila que carregava ao ombro e empurrei eu mesma a porta preta da casa, deixando-me ver de primeira o chão de tábuas cor caramelo e as paredes em tom de branco. Absurdamente comuns, mas satisfatórias ao meu primeiro olhar deslumbrado.
Tudo parecia ter ficado algum tempo parado, mas apesar da aparência sem uso a casa não cheirava a mofo ou continha pó. Cheirava a plástico, papelão e tinta fresca, como qualquer casa em estado de mudança aparentava. Havia móveis, muitos até para o que eu imaginei, mas assim como as paredes, estantes e mesas se encontravam vazios. E era estranho para o meu gosto, que adorava fotografia e mil e um cacarecos de decoração, como almofadas e luminárias, espalhados por todos os cômodos.
Adentrei ainda mais à casa, percebendo fechar a porta principal, e olhei para a primeira e única porta à direita da casa, onde ficava a cozinha. Notei um balcão localizado ao meio do cômodo, rodeado de banquetas com o foro xadrez, e lotado de pequenas caixas fechadas de papelão, onde estava escrito “eletrodomésticos” então julguei que a mãe de havia cuidado de tudo sozinha. As paredes não fugiam de cores claras, amarelas, cobertas até a metade com pequenos azulejos quadrados em tom de branco. Os armários, como os móveis da sala, estavam com as portas abertas e vazios. A comida não fazia parte da decoração.
- O que você está lendo? – olhei para , atento a um papel, quando passei para a sala de estar, já notando a enorme, pilha, fila, carreira, seja o que denominar o plural de muitas caixas de papelão, e sem dúvidas o lindo sofá na cor vermelha posicionado ao meio da sala, de frente para um extenso e baixo balcão na cor branca, com mais algumas caixas e objetos de decoração, que eu conheci como os que eu havia comprado e tinha em NI, postos de qualquer modo por cima.
Escutei meu namorado pigarrear e movi minha atenção da escada ao canto da sala, virando-me para ele.
- “, eu espero que você e a sua namorada tenham chegado bem de viagem. Desculpe-me por não estar aí esperando por vocês e também por não ter posto tudo em seu devido lugar, mas alguns compromissos mudaram meus planos e eu também não acho que vocês gostariam que eu mexesse nos pertences de vocês. Só recebi as bagagens e caixas hoje pela manhã, muita coisa por sinal, e pedi para os rapazes da mudança colocarem a maioria na sala. As malas e o seu tesouro estão no andar de cima. Então acho que vocês terão que desencaixotar e arrumar muita coisa. Instale os eletrodomésticos, ! E não se preocupe com a limpeza, luz, gás, telefone ou água, porque eu e o seu pai já tratamos de tudo isso – o garoto parou de debochar da suposta voz que sua mãe faria ao lhe falar aquilo pessoalmente e respirou, olhando para o papel e rindo, talvez pensando se continuaria a ler o resto do bilhete – “Lembre-se que o andar de cima ainda está cheirando à tinta fresca, então não durma lá, querido. Aproveite a casa nova e venha me visitar, seu ingrato. Amor, mamãe” – dobrou o papel e me olhou.
- “Amor, mamãe” – debochei, me aproximando do garoto, que estava vindo em minha direção, e apertei suas bochechas, ao mesmo tempo em que ele me segurou pela cintura, me trazendo para perto.
- E você quer conhecer o andar de cima? – ele mudou rápido de assunto.
- Só se você me disser o que é “tesouro” – perguntei, conforme já ia me conduzindo até a escada.
- Você namora comigo há dois anos e não sabe o que é o tesouro? – então me soltou, se afastando quando chegamos próximos ao corrimão – Quem te abduziu? – perguntou, fingindo espanto.
- Ah claro! – parecia me concentrar e lembrar sob pressão que já estava acostumada a ouvir sobre o tal tesouro em questão - Seu instrumento, tesouro, ... – revirei os olhos, empurrando o garoto para que subisse e não continuasse a me impedir de fazer tal ato.
- Chloe! – adicionou.
- Que seja, . Suba! – falei.
Ele tinha mania de denominar qualquer coisa que possuísse, e com o seu instrumento não era diferente. Se chamava Chloe e havia ganho nome de mulher porque, de acordo com o seu complexo, ele se recusava a tocar em um homem e “” era um nome comum demais.
- , você pediu para pintar a parede de lilás? – perguntei ao empurrar uma, das três portas que havia ao andar de cima. E tinha me deparado com o maior cômodo, meu quarto e o do garoto, com uma parede no tom mais escuro da casa, lilás.
- Sabe, quando se tem uma namorada que no seu apartamento possuía uma geladeira, um sofá e a decoração do banheiro em tons de roxo, a gente desconfia que ela adoraria que algo em sua casa nova fosse em um tom de roxo. Então pensei, na sala seria estranho demais para a minha mãe concordar. Por que não no quarto? – disse, observando todo o lugar. – Ficou bom, não?
O quarto estaria vazio, se não fosse por mais caixas, malas e pela cama sem lençol algum posicionada ao meio de duas janelas retangulares que tratavam da iluminação interna, junto de outra próxima ao closet, que
possuía um sofá embutido abaixo do parapeito.
- Eu adorei – falei, dando uma volta ao garoto e voltando para a porta que antes havia entrado - Mas ainda está cheirando como pintura fresca – parei ao corredor para escolher se olharia por trás da porta que se localizava as minhas costas ou se olharia a que estava bem em frente. – O que tem ali? – mesmo assim segui sem esperar por respostas até a porta de madeira branca logo a frente.
- Acho que foi por isso que a minha mãe nos mandou dormir na sala – disse, me seguindo até, o que eu havia descoberto, o banheiro.
- Então já deve saber que vai ser você o escolhido para despencar o colchão até o andar de baixo – disse, ao sentar a borda da banheira.
- Eu suspeitei que eu viraria o seu escravo antes mesmo de deixarmos NI – falou-me, indo até a janela do banheiro que estava fechada.
- Gostei da banheira também – comentei, passando a mão pela borda branca.
- Que casa em Londres não tem uma banheira? – disse meio óbvio.
- A minha em Nova Iorque não tinha – falei.
- E eu disse em Londres, – e empurrou a janela para trás, a deixando aberta – Mas também, quem se importa com banheiras? Eu odeio particularmente. Você leva tempo as enchendo com água quente e quando pretende entrar a água já esfriou – filosofou.
- Mas quem disse que eu gosto por esse sentindo, ? – olhei para o garoto e sorri.
- Ah, compreendi – falou em tom de riso, assim largando a janela para trás.
- Então, será que você não estaria interessado em passar no meu banheiro essa noite e, sei lá, tomar um banho? – ergui minha sobrancelha ao final da frase, me ajeitando a borda da banheira, dando espaço para o garoto, que estava se aproximando devagar.
- Se você quiser... – depositou suas mãos, uma em cada lado de meu corpo, cercando-me – Eu posso até vir mais cedo – sorriu, quando eu o segurei pela gola da camisa.
- Que tal agora, ? – o puxei com tamanho impulso que desajeitadamente o fez
resvalar as mãos pela porcelana da banheira e cair sobre mim.
e eu não tínhamos feito nada de útil naquela tarde e noite. Bom, de útil para casa, porque para nós o dia havia sido bem útil. Tinha esquecido como era bom ter um pouco de privacidade. Não que eu nunca tivesse, até tinha. Mas ter uma casa onde você sabe que não vai entrar um amigo seu a qualquer momento e te pegar numa cena imprópria para menores de treze anos, não é o mesmo que ter a tranqüilidade de saber que é só você e aquela outra pessoa. Sem terceiros.
Agora eu estava deitada somente de roupão, o que tinha conseguido achar e tirar da mala, ao lado de , que dormia em sono profundo, pela segunda vez ao dia, ao colchão. Como minha sogra tinha mandado na carta, estávamos ao meio da sala de estar. A noite ao lado de fora estava estrelada, apesar do frio que fazia, indicando que no dia seguinte pelo menos
teríamos a presença do azul, e quem sabe do sol para esquentar, ao céu. Mas ao lado de dentro com a ajuda da calefação
novíssima, dos edredons que a mãe de havia feito questão de comprar, e junto da televisão, ligada sem volume algum, estava me sentindo confortável. estava completamente apagado ao meu colo, talvez efeito dos remédios que havia tomado ainda no avião ou somente pela agitação de logo cedo. Já eu não estava cansada, muito menos necessitando dormir. Apesar de ter tido insônia na noite passada, não era sono o que eu sentia. Só queria ficar parada, em silêncio, tentando manter-me
entretida com os cabelos do garoto, que nem ao menos notava, curtindo o efeito de nostalgia que caia sobre mim. Era um sentimento gostoso junto com uma vontade vibrante de começar a viver logo uma nova etapa. Mas mesmo sentindo tal coisa, também estava presente a incerteza de logo cedo ao avião.
Parte de mim estava presa aos pensamentos da nova vida, com e o que morar junto resultaria. Já outra pensava somente no meu passado e se ele poderia mesmo interferir em algo. Então, por hora, a fumaça ficou clara, como a
transmissão da televisão, e as coisas começaram a se alinhar em minha cabeça. Assim interrompi o movimento repetitivo, que fazia com os cabelos de meu namorado, e encarei a parede a minha frente, hipnotizada. Antes, as imagens e pensamentos, que estavam se amontoando em minha cabeça cada noite que deitava ao travesseiro, ficaram em perfeita ordem e acabaram por me mostrar uma conclusão gritante.
Os sentimentos que pensava terem ressurgido há mais ou menos um mês atrás, quando me falou sobre a viagem, não eram de forma alguma novos. Tudo aquilo nunca havia me deixado ou até mesmo estado todo o tempo escondido.
Levantei dali, visando somente me afastar de , e segui até a cozinha. Só resolvendo parar quando cheguei a frente da janela, que dava para a lateral da casa vizinha.
Havia juntado todos os fatos e agora sim eu estava com um medo real, medo do que a minha mente era capaz de produzir e me fazer acreditar.
As semanas que se passaram, após ter me feito a surpresa, eu seguia até a cama e quase nunca conseguia dormir instantaneamente. Algo sempre vinha em minha mente e afastava o sono. Coisas que me plantavam incerteza, sentimentos que eu pensava terem ressurgido, coisas que eu pensei que nunca mais sentiria ou pensaria. Mas agora eu entendia que eu não havia voltado a pensar neles. Eu nunca era havia deixado eles! Todas as noites passadas voltaram a minha cabeça e no meu subconsciente eu percebi que mesmo com todo o tempo que transcorreu, tudo que eu vivi e assisti não tinham me feito evoluir como pensava.
Eu estava ali, acordada em meio à madrugada, à cozinha da minha nova casa, com meu namorado dormindo à sala e somente com pensamentos que me levavam diretamente a uma pessoa. Eu estava indecisa,
parecendo deixar todas as luzes acessas ao meu caminho, visando impedir de começar a sentir novamente, com medo de perceber, que todo aquele tempo, sempre foi a mesma coisa. Eu nunca havia deixado de pensar, ou até mesmo o que eu temia e negava, amar ele, Tom.
Capítulo 03
- Prontinho - depositei uma caixa quadrada, e menor, dentro de outra maior, que batia a altura de minha cintura – As últimas da espécie - e sorri para o papelão, como se ele pudesse me corresponder.
Ali restavam os últimos vestígios, visíveis, de uma mudança, cujo eu estava em constante convivência, e briga, por cerca de duas semanas.
Exatos quatorze dias, desde a minha chegada, que tentava me acostumar, sem muito avanço, a nova realidade.
Para o meu gosto a casa em que estava morando era estranha, assim como viver ali estava me tornando estranha. Claro, não que eu não fosse, um pouco, de nascença ou que a casa fosse mal decorada, localizada ou velha. Pelo contrário, era um lugar limpo, aconchegante e até adorável. Mas o problema era que eu não sentia mais um quinto daquela suposta empolgação que tomara conta do meu corpo assim que deixei o aeroporto. Na verdade, eu podia jurar que havia perdido tal confiança pelo caminho, pois não conseguia idealizar e acreditar que agora aquele lugar era o meu mais novo lar.
Mudar de Daytona para Miami ou da Flórida para Nova Iorque não havia sido, nem de perto, passos tão radicais. Mas, agora, depois de anos destrocar de país, ou melhor, de continente, novamente, era um enorme. E eu já podia dizer que odiava mudanças radicais! Contudo essa situação cujo me encontrava não podia ser denominada péssima, pois afinal eu havia retornado para o caminho qual eu sempre desejei. O fato era, que ter vivido por anos longe de coisas aparentemente familiares, fizeram os hábitos e pessoas do novo lugar, que me acolhera tão bem, se tornar de estranhos, normais. Então me afastar daquelas pessoas, que por tempos tive como únicos conhecidos, de toda aquela atmosfera americana, que já podia denominar caseira, e agora ter que retornar à Inglaterra, às regras, as quais eu já não estava mais acostumada a seguir, era no mínimo complicado. Sentia-me deslocada na própria cidade que tanto dizia amar e que era o meu lar desde a simples "vida" de um espermatozóide frágil, porém vencedor. E para piorar a situação, que o meu lado dramático fazia automaticamente não se tornar uma das melhores, eu não possuía ninguém para usar como ouvinte fiel das minhas novas lamúrias. E só assim eu podia notar o quanto Maisie fazia falta e o quanto realmente a ausência de Zoe sempre havia sido insuportável. Já não conseguia acreditar na idéia que meu namorado sempre poderia ser o meu maior e mais próximo confidente.
Com coisas a serem ditadas entaladas a minha garganta e uma vontade reprimida de querer fazer acontecer, mesmo não sabendo o quê, eu foquei todas as minhas energias em organizar minha mais nova casa. E agora, depois de semanas acordando cedo, mandando comprar latas de tinta (a cor das paredes da sala haviam rebatido com o meu perfeccionismo irritante) e testar vários objetos e móveis em posições diferentes, eu havia acabado. Agora sim eu teria que procurar outra atividade, menos anti-social e tediosa, como sair de casa, ou de fato mais importante, como ir trabalhar. E essa última atividade, por sinal, eu já estava querendo pôr em prática há alguns dias.
George, que havia me tranqüilizado sobre ter um emprego em Londres, não havia me telefonado para explicar sobre os detalhes - eu adorava ouvi-los inúmeras vezes, fazia-me sentir segura -, e muito menos Bethan, sua prima, que era a responsável por tudo. Com isso eu já estava começando a ficar, aos poucos, preocupada. Tanto com a hipótese de realmente ser um emprego seguro, como assuntos a ver com orçamento da casa. Porém eu estava tentando deixar os classificados para mais tarde e ainda me manter confiante, pelo menos, quanto a ligação de Bethan. Porque já com a minha preocupação tomava um rumo, ou não, diferente. Ela direcionava-se para a tão famosa e incomodativa audição da banda, que se realizaria no dia seguinte, e se ele iria ou não ter um bom resultado nela. Era somente isso que realmente importava, a chance do meu namorado e o meu emprego. Oportunidades que necessitávamos para talvez fazer tudo voltar para os eixos que sempre haviam corrido, e assim mostrar, que a vida ali em Londres poderia sim ser muito melhor da que levávamos nos Estados Unidos.
Admirei por simples segundos o trabalho que havia me encarregado de fazer para passar o tempo naquela manhã, sem surpresa, com nada para fazer a não ser achar bagunça aonde não havia. Estava ficando mais detalhista impossível, era certeza. Todavia ser perfeccionista tinha suas vantagens, pois tudo que eu inventava de fazer, sempre colocava o meu melhor. E com aquele passatempo logo ali construído em um pedaço da parede da sala, inutilizado exceto por uma luminária posta ao canto e usada como encosto do móvel onde ficava a televisão, não havia ficado diferente. Talvez fosse pelo misto das cores que ali estavam esboçadas ou a incrível prática das pessoas que teriam batido aquelas dezenas de fotos, agora fixadas na parede de cor vermelha, mas estava uniforme. Havia me divertido em ocupar-me com algo que ao mesmo tempo fosse útil - a vida que eu havia construído desde que havia saído da Inglaterra - e tinha recebido, em troca de horas olhando fotos que remetiam a momentos engraçados e saudosos, - a maioria de todos os sorrisos, risos e carinhos trocados com - um lindo toque final na sala de estar, que serviria dali em diante para mostrar no que eu realmente teria que me focalizar.
Pois agora sim as paredes estavam da cor que eu havia escolhido e os móveis nas posições que me agradavam, e isso fazia parte do desânimo aparente, que eu sentia todos os dias de manhã ao levantar da cama, ir embora.
- Agora vamos tentar fazer disso um lar doce lar - retirei minha atenção do mediano mural e escorreguei meu dedo até o botão de ligar, do aparelho de som.
Ao ouvir os primeiros barulhos saírem de suas caixas, dei pequenos passos, ainda de costas, para trás. Até cair sobre uma das poltronas posicionadas de lado para o balcão, sabendo que agora eu poderia terminar de escutar a trilha sonora de Across the Universe, que havia comprado antes do natal, ao ver o filme na casa do namorado de Maisie. Podia dizer que havia gostado do filme pelo ator, afinal Jim Sturgess é lindo, mas o modo como as canções dos Beatles haviam sido interpretadas me agradaram e ter comprado era também um alívio para , que detestava, que até mesmo eu, mexesse em seus preciosos CDs.
"Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
(Palavras flutuam como uma chuva sem fim dentro de um copo de papel).
They slither while they pass they slip away across the universe"
(Elas se mexem selvagemente enquanto deslizam pelo universo).
Ajeitei-me a poltrona, posicionada de uma maneira ainda sim desajeitada, deixando minhas pernas dobrarem sobre o apoio das mãos e meu corpo cair sobre o encosto, assim apoiando minha cabeça e observando de modo hipnotizada e orgulhosa para as fotos à minha frente. Minha cabeça poderia estar vazia e eu somente olhando concentrada a parede, mas minha imaginação estava como sempre a todo o vapor.
"Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my opened mind,
(Um monte de mágoas, um punhado de alegrias estão passando por minha mente).
Possessing and caressing me"
(Me possuindo e acariciando).
Pisquei então, erguendo minha cabeça do estofado e agora deixando que a música penetrasse em meus ouvidos, não somente passasse sem eu absorver sua letra. Adorava letras de música e por mais que eu conhece aquela, sempre, de algum modo, músicas ganham ou perdem significados ao longo do tempo.
"Nothing's gonna change my word,
Nothing's gonna change my word"
(Nada vai mudar meu mundo).
Na verdade o problema não era somente um desconforto aparente com aquela casa e nem podia culpar unicamente a falta que estava sentindo da minha rotina e tudo que havia sido acostumada a gostar e a deixar para trás por lá. Eu nem sabia, não havia conseguido definir exatamente o porquê de eu estar sentindo tamanha inquietação. Talvez fosse pela incerteza sobre o que o dia seguinte me reservava ou apenas uma preocupação em deixar aquela casa habitável. Mas apenas tinha certeza que não era unicamente aquilo que parecia me sufocar de angústia.
"Images of broken light which dance before me like a million eyes,
(Imagens de luzes quebradas que dançam na minha frente como milhões de olhos)
They call me on and on across the universe.
(Eles me chamam para ir pelo universo).
Thoughts meander like a restless wind inside a letter box,
(Pensamentos se movem como um vento incansável dentro de uma caixa de correio).
They tumble blindly as they make their way across the universe"
(Elas tropeçam cegamente enquanto fazem seu caminho pelo universo).
Muitas vezes na adolescência eu buscava na música uma escapatória, uma maneira de sair do lugar onde eu estava sem ao menos deixar o meu quarto. Lembro até que simples letras, de cantores que nunca tinha visto ou trocado uma idéia, conseguiam me detalhar e mostrar assim como eu me sentia.
Então, empurrada pela melodia calmante daquela música, me curvei para frente, disposta, naquele momento, a refletir e a querer chegar a um motivo para a minha agitação interior.
Meus pensamentos estavam ultimamente voando incansáveis dentro de minha cabeça, que até podia ser denominada como uma caixa de correio, como na música. Há semanas não estava deixando tais "cartas" pousarem com clareza e me mostrarem, por mais de simples segundos, o que eu ficava pensando quando estava no banho ou no período, que vai do deitar até ao adormecer, na cama.
Minha mente trabalhava sem parar, reproduzindo memórias e tentando refleti-las, através dos meus olhos, quando permanecia parada. Mas eu às tratava como problemas e não deixava que muitos daqueles pensamentos terminassem, assim não podendo me levar a concluir quem ou o que estava por meio de tudo que eu pensava.
Contudo, agora, eu estava deixando as coisas se ajeitarem e enfim terem a chance de mostrar o que se passava pela minha imaginação fértil de vinte e dois anos.
"Sounds of laughter, shades of love are ringing through my opened ears,
(Sons de risos, sombras de amor estão tocando meus ouvidos abertos).
Inciting and inviting me"
(Me excitando e convidando).
Mas era óbvio que eu não tinha força o suficiente para admitir a mim mesma sobre o que eu pensava. Por mais que eu tivesse idéia sobre o que elas tratavam, afinal era eu mesma que dava vida a tudo. Era muito melhor eu tentar evitar ao máximo e não exercitá-la para correr livre. Na realidade eu tinha medo de concluir para eu mesma (mais uma vez).
Assim impulsionei-me com força para frente, tocando meus pés ao chão.
"Limitless undying love, which shines around me like a million suns,
(Um amor incondicional sem limites que brilha em minha volta como milhões de sóis).
And calls me on and on across the universe"
(E me chamam para ir pelo universo).
- Nada vai mudar o meu mundo - falei, o provável verso que seguiria a seguir, ao apertar com pressa o botão do aparelho, impedindo a música de chegar até seus minutos finais. Era incrível como certas canções passavam do limite, nos impulsionando a fazer coisas que não faríamos sem a melodia embalante. Às vezes eu não conseguia entender como do nada a letra mostrava o que eu estava pensando, passando ou querendo entender.
Olhei de perto a imagem que antes focava com minha visão turva, de quem se concentra em um ponto e até esquece de piscar, e vi , sorrindo do modo que eu dizia amar, e ainda amo, comigo segurando forte ao seu braço, que me rodeava. Nossos rostos estavam próximos e parecia ser inverno, bochechas e narizes rosados, pois o cachecol do garoto na fotografia entregava.
Eu realmente esperava que nada pudesse mudar o meu mundo. Ele podia ser denominado perfeito, do jeito que eu havia demorado em erguê-lo de volta, e nada e nem ninguém podia fazê-lo bagunçar ou atrever-se a destruí-lo. Algumas coisas na minha trajetória podiam ser feitas para caírem, mas com aquilo eu estava relutante. Mesmo que nem tudo estivesse, infelizmente, às mil maravilhas como deveria estar para dizer: perfeito.
Não querendo refletir sobre como tudo estava, ficaria ou o que eu pensava e estava pensando, agarrei com força as caixas de papelão, que havia largado antes por ali, e as arrastei pela pequena extensão que me afastava da porta principal, decidida que assim como as jogaria no lixo, depositaria junto aquele momento forçado, para ver a causa do meu desânimo, embalado por Across the Universe.
O CD não teria mais a faixa número nove por um bom tempo.
Deixei a porta se fechar atrás de mim, quando desci calmamente, batendo a base das caixas na pedra, os três degraus que separavam a calçada. A rua tinha um aspecto limpo e calmo, um tipo delator de rua familiar. Poucos carros estavam parados em toda a sua extensão e somente um lixo se destacava tanto quanto aquele de altura considerável e cor laranja berrante posto ao lado do poste de luz, quase a frente da porta do sobrado onde morava.
- Mais duas caixas para você, trambolho - falei ao me aproximar de sua tampa. Eu havia adquiro o estranho hábito, que agora estava constante, de falar com objetos inanimados. Um sintoma da aparente solidão no período da manhã. – Hm, mas vejo que você tem lixo demais - disse ao perceber que eu deveria ter-lhe entupido de restos da mudança a semana inteira ou algum vizinho, que ainda não conhecia, estava me ajudando a utilizá-lo.
Deixei as caixas ao lado do trambolho laranja, crente que logo à noite não estariam mais ali, e segui para as escadinhas.
Mas desisti de subi-las, antes mesmo de alcançá-las, e sentei-me sobre a pedra fria do segundo degrau, observando melhor a extensão da Sussex Gardens. Não havia saído muito durante aqueles dias e por isso ainda não tinha me acostumado novamente a conviver com outras pessoas que não fossem e o carteiro. E por falar nisso, não haviam cartas na caixa, mas havia um mediano caminhão estacionado frente a três sobrados do meu. Tamanha coisa branca que eu não havia percebido antes estacionada por ali, mas o que tudo indicava pelas palavras, escritas em vermelho, era de uma empresa de mudanças.
Tudo indicava que eu ganharia companheiros para bagunçar o bairro com caixas de papelão postas sobre a calçada, atrapalhando pedestres e tirando o sossego de quem gostava de ver tudo em perfeita ordem.
E por falar em companhia para algo, voltava-me a lembrar que estava praticamente sozinha naquela cidade. E não importava o fato de estar ali comigo, eu me sentia sozinha mesmo assim. Ele podia ser uma pessoa maravilhosa, mas nem por isso eu conseguia me enxergar a sua frente, lhe contando sobre o meu antigo namorado e como ele parecia estar pintando os meus sonhos e desenhando os meus pensamentos diários. com certeza, como qualquer outro, não iria receber a notícia de uma forma agradável, mesmo eu lhe avisando, antes de tudo, que pensamentos ou memórias não interfeririam em nosso relacionamento. Afinal eu estava só relembrando e isso não tinha nada demais, porque eu, ainda, não estava no ponto de pensar consecutivamente e assim querer que tudo virasse novamente realidade. Queria mais era que tudo explodisse, pois eu não gostava de sustentar dúvidas. Mesmo que sustentá-las pareça ser uma espécie de
carma.
Por isso eu estava tentando controlar tudo ao máximo, não porque queria, mas por estar com medo. Medo de focar tanto em memórias passadas, que não remetiam meus tempos de Estados Unidos, e acabar assim ofuscando em minha vida. E em hipótese nenhuma eu queria me prender a uma pessoa do passado, que nem se quer sentia algo ou lembrava de mim, e esquecer a única ali, que agora se importava realmente comigo.
Acho que mais do que tudo eu me via precisando de um ombro amigo, uma pessoa a qual eu pudesse contar e falar sobre as minhas angústias. Mas Maisie parecia intocável agora, assim como minha mãe, e Zoe não me dava notícias sobre como ela andava, desde que havia lhe enviado uma carta com meu endereço de Nova Iorque. Ela não sabia dos meus novos segredos e vida e eu não sabia de seus novos feitos e loucuras. Só sentia saudade de ouvir seus gritos histéricos, enquanto ela parecia ter esquecido dos meus traços, como sempre brincou.
E já por outro lado, eu precisava ser paparicada e me sentir o centro das atenções para o meu namorado. Mas, assim como meus ombros amigos, ele parecia distante. Havia se tornado, de uma semana pra cá, obcecado pela Chloe, a porcaria de , e passava as horas que estava em casa - era difícil agora lhe ver trocar a rua - trancado no quarto, particular do seu tesouro, treinando para o teste.
A grande conclusão era que eu estava me sentindo angustiada, precisava de uma amiga, com quem pudesse desabafar e receber conselhos tolos, precisava de e do seu carinho e talvez precisasse também de um colo de mãe. Mas todos os meus pedidos, naquele momento, pareciam um pouco distantes. Minha mãe estava longe, não via a possibilidade de achar uma amiga com quem realmente pudesse contar por ali, estava estressado com a audição e minha angustia não iria desaparecer se a cada coisa que eu olhava, só fazia me encher de memórias.
Era óbvio que eu precisava de algo que me relaxasse e me fizesse dar boas risadas. E se fosse anos atrás, iria à lanchonete aonde trabalhava. Mas veja agora, não havia mais à lanchonete, não havia mais uma mãe me esperando em casa, não havia mais uma melhor amiga vizinha do meu namorado. Tudo que eu mais gostei um dia, não existia mais ou se existia, não se lembrava de mim.
Arranquei um raminho da planta, que crescia grudada a parede de tijolos da casa, e continuei observando a rua. Tive de repente saudades do velho Chewie, o meu gato, que havia ficado em Daytona Beach junto com minha avó há alguns anos.
- Droga, . Chewie lembra Chewbacca e por conseqüência lembra... - paralisei e então revirei os olhos, balançando de leve a cabeça - Ok, pense em outra coisa - ordenei ao meu cérebro.
Então me concentrei a observar o outro lado da rua, onde agora à calçada do sobrado o caminhão estava parado com suas portas abertas. Alguns homens, vestindo uniformes da cor cinza, depositavam caixas de ferramenta em seu compartimento, enquanto outro estava parado à porta com uma moça.
- A senhorita pode ligar se surgir mais algum móvel para ser montado - ouvi o homem de bigode grisalho falar num tom nem tão discreto, referindo-se a mulher, de cabelos castanhos levemente ondulados nas pontas, enquanto eles se afastavam da porta e desciam até a calçada.
A vi, hipnotizada, pegar uma prancheta, logo perto do caminhão, e rabiscar qualquer coisa rápida ao papel, entregando de volta junto com um sorriso. Parecia que a mudança estava completa.
O senhor se afastou prontamente, assim como o seu caminhão vermelho e branco, da soleira de minha mais nova vizinha, que agora estava admirando a fachada de sua casa. Igualmente como eu havia protagonizado dias atrás.
Senti então meu coração acelerar aos poucos os seus batimentos, conforme a garota movimentava-se a calçada. Eu poderia estar muito bem enganada, afinal sete anos mudam incrivelmente uma pessoa, mas eu não podia me confundir com aquele jeito de prender o cabelo e o soltar em segundos.
Logo os batimentos do meu coração já estavam no máximo e aquele palpitar me impossibilitava de assistir mais uma seqüência de movimentos sentada ainda à pedra da minha escada.
Ergui-me animada. Eu tinha certeza!
- Zoe? - gritei, por dentro ainda incerta, mas tentando demonstrar confiança. Porém não atravessei logo a rua como meu cérebro tentava mandar estímulos para se fazer - Zoe! - repeti ao ver a garota interromper o que fazia e virar para procurar quem lhe chamava. Ou se não fosse a tal, estava virando para ver quem gritava, quebrando o silêncio da rua.
Ela pôs os olhos em cima de mim e os cerrou bem, como se estivesse fazendo força para ver ou me reconhecer. E eu me manti ao outro lado da rua duvidosa. Até ver a sua expressão mudar para um ar de riso.
A garota moveu sua mão, até então parada ao lado de seu corpo, e a posicionou sobre seu peito, o pressionando, indicando que perguntava se eu realmente chamava por ela. Assim, aquele foi o último sinal que precisava. Olhei para os lados, errados, da rua e atravessei eufórica. Não sabia o que falaria, mas sabia exatamente o que iria fazer.
Observei as costas de minha amiga, logo mais adiante, e apertei com mais força as alças de ambas as canecas, que segurava em mãos. Agora já podia dizer que conhecia, com mais clareza, a sensação idiota de se sentir extremamente feliz com somente um abraço amigo ou o prazer de apenas respirar um cheiro familiar. O seu nome era reencontro, e podia dizer que era a melhor e mais verdadeira das sensações. E eu apenas não poderia explicá-la em palavras naquele exato momento, porque talvez fossem muito além de simples frases.
Estava extasiada em poder sentir tamanha euforia e conforto correndo livremente por meu corpo. Só Deus sabia como eu havia desejado aquele momento. Mas de forma alguma o idealizado com tamanho sentimento, como havia ocorrido ao sentir minha amiga tão próxima outra vez. Por incrível que pudesse parecer, sentir somente a força do seu abraço já havia feito surgir muito mais que algumas lágrimas aos meus olhos, em simples milésimos eu pude descrever inúmeras cenas e sensações presenciadas em todos os anos que convivemos, por cartas ou não.
Indiferente do que tinha passado eu a tinha ali agora. E por isso estava assim.
- Meu Deus, eu acho que já sei cozinhar - brinquei ao me aproximar do sofá e tirar a atenção da garota, que observava a parede logo à frente desde que eu a havia deixado para ir até a cozinha.
- Parabéns, eu acho que ainda nem sei ferver água direito - disse, ao pegar a caneca que eu lhe empurrava.
Próxima do meu olhar crítico, Zoe não havia mudado quase nada. Os seus traços continuavam ali, delimitados do mesmo modo, exceto que sua altura não era mais a mesma, ela havia crescido, e seus cabelos acompanhavam a idade que agora possuía, não mais loiros e curtos, estavam mais escuros e compridos.
- Primeiro eu acho que devo me desculpar pelas cartas que deixei de escrever nos últimos dois anos - falou assim que sentamos - Eu juro que cheguei a receber a sua última, com o seu novo endereço, mas eu mal tive tempo de escrever logo em seguida. E quando eu resolvi fazer, simplesmente havia perdido o papel de vista. Sim, você pode me chamar de desorganizada, mas a culpa em questão foi da empregada. Minha casa na França estava e ficou por meses uma bagunça, nunca consegui encontrar nenhum contado. Pode me chamar de alienada também, esqueci até seus e-mails - ela riu, me olhando ao final, e levou sua caneca até a boca.
Não via motivo para ficar zangada e muito menos para contar sobre incidentes que agora já não importavam mais.
- Eu senti tanto a sua falta, uma enorme falta de tudo que eu deixei – falei ao encarar cada movimento de minha amiga. Por mais que estivesse acontecendo, em partes parecia surreal demais - Cheguei até a pensar que não conseguiria, lembro até que ficava enciumada com simples cartas. Mas a vontade de retornar só permaneceu até eu me acostumar inteiramente com a nova vida. Então as cartas diminuíram e eu perdi o sentimento possessivo quanto a você e Tom - sorri, ao vê-la rir - E depois do que ele acabou fazendo, todas as minhas, já remotas, chances de voltar trataram de se afastar de vez. Forçadas, claro, acompanhadas da certeza que agora eu não teria mais nada por aqui.
- De alguma forma as coisas nunca mais foram as mesmas sem você – a garota se pronunciou, quando eu de repente parei de refletir - Nunca mais Tom, e eu conseguimos sair com tanta freqüência, como era antes. Tudo parecia ter perdido a graça, não era como se nos divertíssemos quando estávamos juntos. Era triste, entende? - e encarou o fundo da caneca, como se fosse algo interessante, antes de depositá-la à mesa de centro - Como eu devo ter te contado por cartas, depois de alguns meses eu me tornei obsessiva pelos estudos e deixei aos poucos de falar com o Tom, mesmo morando ao seu lado. Com o eu ainda mantinha algum contato porque até aquela época ainda éramos namorados. Mas claro, nada como antes. Tanto que depois, na mesma época que eu consegui entrar para Holloway, Tom resolveu ir para a escola de teatro e enfiou na cabeça que a única saída era viajar - falou resumidamente.
Como eu ainda me lembrava, das cartas escritas por Zoe, sua relação com havia enfraquecido de uma maneira assustadora nos poucos meses que se arrastaram do final de dezembro até o verão. Ela havia realizado que teria que amadurecer a força, já havia decidido acabar com a única responsabilidade que carregava, e havia pedido demissão. Assim incompatibilidades de estudos e sonhos foram batendo cada vez mais de frente, ocasionando brigas entre as pessoas que antes eu julgava serem opostamente perfeitos um para o outro. E quando Zoe entrou para a faculdade tudo ficou realmente sério e insuportável. Não existiam mais briguinhas fofas, que tanto me faziam rir. Os assuntos começaram a se tornarem diferentes e os caminhos também. Tanto que certo dia apenas aceitou o fato do desgaste, por telefone, e Zoe o deixou seguir livre para viajar.
- Fiquei sabendo, logo depois, que ele foi morar por uns tempos em Manchester, com os tios. Mas depois que eu resolvi largar a faculdade, para fazer fotografia na França, já não sabia mais onde ele estava. Já o Thomas eu tinha certeza que continuava em Londres, mas não me pergunte, porque eu nunca soube o que ele fez desde então - espreguiçou-se, e assim se ajeitou melhor, ao sofá, ficando de frente para mim - É , você conseguiu mudar a vida de todos - e riu.
- Falando desse jeito eu até me sinto culpada, por ter sido uma espécie de caos na vida de vocês - falei em tom de brincadeira. Mas era a mais pura verdade.
- Pois não se sinta! Você fez um grande favor, fez todos por aqui caírem em si e evoluírem – sorriu, e eu a acompanhei em um risinho sem graça.
Havia ficado entorpecida com tamanha surpresa, mas agora que havíamos retomado um pouco do assunto, notei que ainda precisava, de qualquer forma, expurgar todas as palavras trancadas em minha garganta. Seu ombro estava logo ali e era chegada a hora de usá-la para aquilo, que minutos antes, eu estava reclamando que precisava.
Decidi ser rápida então.
- Zoe, eu preciso te contar, e assim espero que você entenda e me diga alguma coisa construtiva, que com todas essas mudanças, que acabaram acontecendo na minha vida de meses pra cá, eu fiquei novamente confusa e assim eu acho que acabei notando... Oh meu Deus, ok, eu acho que nunca esqueci o Tom! – praticamente gritei, sem querer continuar o longo raciocínio que estava programando para enfim poder chegar àquelas últimas palavras – Pronto falei! - e era até um alívio ouvi-las em alto e bom som, mesmo eu achando que seria uma tortura.
Era, mas eu realmente precisa liberá-las.
- Você o quê? – ela acompanhou meu tom de voz.
- Não vou repetir porque tenho certeza que você ouviu claramente. E também não sei se meu ouvido agüenta escutar outra vez – disse, notando a expressão de minha amiga.
E era a mesma que costumava fazer quando parecia encaixar as palavras em sua cabeça.
- E o seu namorado sabe? – perguntou.
- Nossa, você sabe como me deixar menos preocupada – ironizei.
- Desculpa, mas chegar aqui e encontrar você como vizinha e depois do choque ainda ouvir isso da sua boca... – a vi sacudir as mãos, como se limpasse a paisagem logo a frente – Estou me acostumando, tudo bem? – disse.
- Tudo bem, só estou esperando um conselho – avisei, tentando não me sentir culpada ao encarar minha amiga.
- É meio impossível de acreditar, é difícil de te entender. Ta não é, mas nossa você tem um namorado e já se passaram anos! Geralmente no seu caso, a pessoa acaba ficando meses em depressão e prestes a morrer. Eu sei, não deve ser fácil assimilar que você foi jogada para trás e avisada disso por uma simples carta. Mas com o tempo você acredita e entende que é melhor partir para outra, como você vez, e assim por conseqüência acaba esquecendo daquele que um dia você achou que não viveria sem – Zoe desconversou totalmente, mas eu sabia que aquela era somente a sua introdução sobre o assunto – Quando você chegou a essa frustrante conclusão? – perguntou então.
Respirei fundo, era complicado ouvir aquilo de outra pessoa, pois até então só tinha que agüentar as vozes em minha cabeça.
- Acabei percebendo na primeira noite aqui em Londres, que todo o tempo que transcorreu, eu nunca deixei de pensar em você, ou nele. Eu só achava que havia superado e colocado uma pedra em cima do passado, mas me enganei – inclinei minha cabeça para o lado, a apoiando sob minha mão, cujo braço estava posto sobre o encosto do sofá. – Eu acabei intensificando isso semanas antes da minha viagem, até cheguei a ter um surto com uma amiga em Nova Iorque, e acabei ficando insegura de voltar e ver o negócio acabar ultrapassando o limite da recordação, entende?
- E está? – perguntou-me.
- Juro que tento me desligar de dia, me ocupando com qualquer coisa, mas de noite é praticamente impossível não deitar e ver Tom em meus pensamentos. Nesses últimos dias eu até cheguei ao ponto de pensar em não ir para a cama, mas com certeza entranharia. E apesar de todo esse caos, que se encontra aqui dentro, eu não falei nada a ele. Eu tenho um verdadeiro medo de deixar esse tipo de coisa, que sinto, dominarem e aos poucos acabarem com a vida feita que eu tenho – a respondi.
- Eu sempre odiei a confusão que você mesma cria dentro de si – disse.
Todas aquelas voltas estavam me deixando mais nervosa. Se era ardo para minha própria amiga entender, imagine para mim? Com as suas palavras eu estava me sentindo cada vez mais impotente.
Levantei-me do sofá, inquieta, Zoe não estava ajudando.
- Quer mesmo saber? – perguntei logo que observei o movimento da rua pela janela – Eu tenho medo de falar em voz alta e admitir para mim mesma que é verdade, que eu nunca deixei de pensar no Tom. E aqui, na mesma cidade que ele, eu me sinto desprotegida, insegura mesmo. Sou medrosa, eu sei, e não tenho controle sobre os meus próprios pensamentos – cruzei os braços, de modo que me abraçasse – Do jeito que as coisas andam, eu só consigo ter mais certeza que eu ainda não o esqueci – disse ao passar as mãos por meus braços. Havia falado o que eu tentava esconder em minha cabeça.
- Eu não sei o que posso te falar – escutei a voz de Zoe se aproximar de onde agora eu estava de pé – Se eu te disser: “Vá em frente, , deixe o e procure pelo Tom. Afinal você sempre o amou” você com certeza vai me olhar e dizer que estou errada. Assim se eu te disser: “Trate de esquecer o Fletcher, você está melhor sem ele” você não vai se sentir melhor, vai? – perguntou-me, assim senti seus braços me rodearem em um abraço pelas costas – Nada que eu fale vai te ajudar, . Sinto muito – e depositou seu queixo sobre meu ombro.
- Mas o que você acha que eu devo fazer? – levei minha mão até a sua e a apertei. Precisava da sua opinião.
- Nada! – disse animadamente, fazendo com que eu a olhasse pelo canto do olho.
Ela então se afastou, fazendo agora com que eu pudesse me virar para olhá-la melhor.
- O melhor a fazer é apenas deixar acontecer – falou-me, antes de sorrir e voltar-se para as fotos na parede.
- Talvez estivesse mais segura, das minhas concepções de futuro, nos Estados Unidos – disse, ao seguir Zoe.
- Pense positivo, – a garota depositou o seu braço em torno do meu pescoço e me puxou para perto – Você me tem novamente e mais do que tudo você tem a ele – e apontou para uma foto de – Eu realmente gostei do seu namorado! – riu, me fazendo enfim acompanhá-la – Que horas ele chega? – perguntou-me.
Ignorei o repentino interesse.
Então lembrei, de ter esquecido a chave ao miolo da porta, ao ouvir o barulho de algo bater ao chão.
- Que tal agora? – olhei assim para Zoe, como se lhe dissesse que ela havia dado uma de vidente.
- Hei – ouvi a voz de invadir o lugar, assim que a porta pareceu abrir totalmente.
- Você está nervoso? – distraia-me em folhar uma revista, que havia comprado a caminho de Convent (já prevendo que a espera seria longa), enquanto estava em silêncio, hipnotizado pela parede branca logo à frente.
- Claro que não – respondeu-me – Só acho que meu estômago está dando voltas por diversão – e sorriu ironicamente.
- Não está, consegue até ser engraçadinho – debochei concluindo, agora o olhando.
O garoto aparentava estar ficando ainda mais pálido, conforme eu o olhava e via ao relógio de seu pulso que os minutos passavam lentamente. Eu já não tinha mais o papel de
distrai-lo, motivo pelo qual eu estava ali, afinal nem mesmo eu estava conseguindo me distrair. E apesar de lhe dizer centenas de vezes que tudo ficaria bem, eu nunca tinha participado de um concurso, nem mesmo de culinária ou de talentos, então não sabia como agir.
Contudo o meu nervosismo podia ser equivalente ao de , sentado inquieto ao meu lado, por cerca de uma hora, se entretendo em estalar os dedos.
- Pára com isso, – olhei da revista para as suas mãos, que de relance não paravam de mexer, me incomodando – Vai acabar com as suas articulações! – assim fechei sem interesse a revista, já havia lido tudo que achava interessante, e depositei minha mão sobre as suas, as apertando.
- Eu só não consigo mais esperar – disse ele, agora começando a balançar as pernas, parecendo uma criança.
- Pára com isso também – avisei ao chutar uma de suas canelas. Alguém tinha que fazer o papel da mãe.
- Eu estou nervoso! - disse-me indignado, soltando minha mão e agora se aproximando da borda da cadeira.
Suspirei. me deixava nervosa.
- . – um homem careca, que passeava de pé por meio da sala cheia, chamou pelo o nome de , fazendo o garoto levantar rapidamente e o meu coração disparar momentaneamente.
- Me deseje sorte! – foi a última coisa que o escutei falar apressado, antes de seguir até o homem.
Tudo rápido demais.
Ri.
Passei alguns minutos ali, olhando apreensiva para os lados, e em outros minutos, fazendo aquilo que tinha pedido que parasse, estalando os dedos e sacudindo meus pés. Minha perna estava fazendo movimentos fora de controle e estar ali sem notícias só fazia com que eu observasse minhas unhas, pensando em voltar ao antigo vício de exterminá-las.
Então, ao perceber que a quantidade de pessoas da sala ia diminuindo conforme o tempo, resolvi levantar e deixar tal lugar. Iria procurar qualquer outro que me acalmasse e assim fizesse a idéia, de retornar a antigos hábitos, se afastar.
- Hum, será que você está tocando agora? – perguntei sem esperar respostas, ao observar a vista ampla da região. Mesmo o prédio nem possuindo tamanha altura para ser tão ampla.
Não havia ido muito além da sala em que antes esperava. Estava em um corredor próximo dos seus arredores e era o único lugar que tinha conseguido achar, que reunia água, comida - máquinas cujo se recusavam a aceitar minhas cédulas - e saídas de emergência.
De acordo com o relógio completariam exatos trinta e cinco minutos que havia deixado a cadeira ao meu lado. E claro, não era uma grande espera, mas eu não pensava que demonstrar algumas músicas a meia dúzia de jurados fosse demorar tanto.
Ok, eu não entendia nada sobre o assunto.
Debrucei-me ao parapeito da enorme janela e permaneci. Ele havia entrado em algumas das tantas portas que se encontravam logo atrás de mim, ao branco e vazio corredor, e se resolvesse sair de alguma delas, iria me encontrar impaciente logo ali, já próxima dos elevadores.
- Deixa ele cuidar do resto. Eu vou dar uma volta, não consigo mais decidir – ouvi uma voz invadir, antes, o silêncio do corredor. E pensando que fosse meu namorado, virei-me rápida para observar.
Reparei em um garoto, quer dizer, devia ser um garoto, já que estava com somente metade do seu corpo aparecendo por uma porta e eu julgava que nenhuma mulher por ali usaria aquele tipo de calça. Bem, não importava, não parecia ser , e sim uma pessoa, que como eu, não agüentava mais.
Voltei à vista de antes, enquanto o rapaz tentava se afastar do tédio e da pessoa que deveria estar dentro da sua sala.
Pelo menos algum movimento aparente. Aquele prédio apesar da data – audições para bandas é igual a desesperados pela fama – não parecia estar nem um quinto tão agitado como eu pensava que estaria.
- Alívio para a minha cabeça – o escutei dizer logo que a porta pareceu fechar.
Com isso o olhei mais uma vez, agora podendo reparar em sua face, pensando que talvez ele pudesse estar tentando iniciar uma conversa.
Mas me enganei, já que esse olhava para frente.
Minha cabeça fez até menção de voltar a observar o céu azul, ao concluir que ele somente possuía o mesmo hábito que eu, o de falar sozinho, mas eu fiz questão de contestar e permaneci na mesma posição. Algum detalhe seu havia chamado minha atenção, fazendo assim meus olhos se estreitarem para admirá-lo melhor.
Só não podia acreditar cem por cento no que eles delatavam.
Os fechei, esperando que abri-los novamente me fizessem ver que somente estava errada. Talvez agora não fizesse mais sentido fugir dos óculos guardados ao fundo da gaveta no bidê do quarto, eu estava tendo graves problemas de vista ou quem sabe mental. Só não podia ser verdade que bem ali, a alguns metros afastado, mas mesmo assim ao meu lado, estava debruçado a janela, nada mais, nada menos que ele.
- Tom, agora você pode voltar? – a mesma voz, que antes discutia com o garoto, tornou a chamá-lo.
Ele então se virou para a única porta aberta ao corredor, fazendo com que eu também virasse apressada para a posição que antes me encontrava (sem antes puxar uma bela quantidade de cabelo para cobrir a lateral de meu rosto).
Não sabia o que estava sentindo, não estava assimilando quase nada. Esqueci de tudo que havia pensado até ali e até mesmo esqueci o que pensava no momento. Pavor era a única coisa que conseguir assimilar com clareza. Até respirar havia se tornado dificultoso.
- Ainda não – avisou.
E mais uma vez ouvi a porta se fechar.
Ele enfim havia aprendido a mandar, ou a pessoa ali era muito paciente e sem atitude.
Notei, pelo canto do olho, que Tom não havia entrado, continuava ali e agora nem mesmo estava mais parado frente ao parapeito da janela.
Continuei a observá-lo sem muita atenção, o meu nervosismo não deixava, escondida por meus cabelos, enquanto pensava em uma escapatória. Meu coração estava prestes a sair pela garganta, podia sentir suas batidas violentas ao meu peito, e eu não parecia raciocinar muito bem, as pontas de meus dedos já estavam suando, daqui a pouco meu estômago embrulharia.
Mas não iria esperar para começar a me sentir enjoada, apenas sai da posição vulnerável que me encontrava, usando a primeira coisa que meu cérebro, debilitado pela pressão da situação, me proporcionou enxergar: o tanque de água mineral próximo. Ele parecia ser uma escapatória – não muito brilhante - e também era a melhor maneira de ficar inteiramente de costas para o garoto.
Peguei, trêmula, um copo do suporte, logo acima do tanque, e posicionei abaixo da válvula azul, para disfarçar.
- Só não para atrás de mim – pensei alto, mas em um murmúrio, em um som quase inaudível, ao sentir a presença de alguém se aproximando.
Era lindo como eu sempre procurava pelos lugares que eram descobertos primeiro! Havia sido uma criança frustrada no jogo de esconde-esconde.
– Não fala comigo, não fala comigo – fechei meus olhos ao tocar a válvula da água.
Tom havia feito o que eu não queria e agora eu estava encurralada ao ver que ele podia estar logo atrás.
- Desculpe, é comigo? – ouvi o garoto perguntar.
Droga.
Então puxei o copo e enfiei o seu pouco conteúdo, que havia conseguido juntar, em minha boca.
Era apenas água, mas jurei que consistia poupa.
- Hm, não – disse, tentando imitar outra voz e sai da frente do tanque, de lado, sem virar.
- Eu acho que estou ouvindo coisas – ele falou, mas eu não fiquei para puxar assunto.
Tratei de andar, em passos apressados, para fora daquele corredor, indo de encontro à sala que antes havia deixado.
- Aí está você! – um garoto veio em minha direção, com um largo sorriso.
- Amém – suspirei alto, como se um pouco da minha apreensão fosse embora, e caminhei até ele.
Nunca havia ficado tão aliviada ao ver a minha frente.
O abracei com vontade.
- Uou, tudo isso é ansiedade para saber como eu me saí? – perguntou rindo, ao também me abraçar.
- , nós podemos ir para casa agora? – perguntei tentando aparentar calma, mas podia jurar que tremia.
- Ah sim, – o garoto diminuiu a intensidade do seu sorriso, franzindo a testa – Podemos – mas concordou.
Eu sabia que ao vê-lo deveria ter demonstrado interesse pelo o seu teste. Era o que eu estava pensando em fazer e faria. Mas agora já não passava nenhum por minha cabeça, só de pensar que Tom podia se aproximar da onde estávamos agora conversando desprotegidos.
- Mas espera só um pouquinho – sorriu mais uma vez e rapidamente retirou sua atenção de mim, olhando para trás.
Algo dentro do meu estômago se mexeu com violência. Era o último sintoma.
– Amor, aquele ali é... – o ouvi.
- ! – gritei, o impedindo de concluir.
- O quê? – ele me olhou assustado.
Não estava mais conseguindo manter a calma e o nervosismo já estava se transformando em impaciência.
agora não me causava alívio, me irritava.
- Eu preciso ir ao banheiro! – falei a única coisa que havia passado por minha cabeça sem ser a verdade.
- Ok, nós podemos ir. Mas antes eu queria que você... – ele retornou a olhar para um ponto atrás de mim.
- Agora, ! - completei, tentando indicar que era realmente sério.
– Tudo bem, vamos! – cedeu, um pouco irritado, pegando em minha mão e deixando que eu o conduzisse.
Não sabia se Tom estava logo atrás, e se era a pessoa que tanto olhava e queria me apresentar, mas tinha necessidade de sair o mais depressa possível daquele lugar. Estava amedrontada, cada músculo do meu corpo estava enrijecido e minha cabeça estava a um turbilhão. A idéia de ver o rosto do garoto novamente ou, pior, dele ver o meu, era assustadora.
Tom em minha concepção havia se tornado como um palhaço para uma pessoa com fobia.
E aí estava o efeito que eu tinha tanto medo. Acabar tendo atitudes impensadas com , ao ponto de ser tão injusta e não lhe dar a devida atenção, por culpa de Tom.
Capítulo 04
Dentre mais de sete milhões de habitantes que residem em Londres, como era possível eu ter encontrado aquele, justamente o que eu não gostaria, ao meu lado? Bem, essa era uma pergunta que eu vinha repetindo mais de uma vez por dia em minha cabeça. E algumas vezes em voz alta, mas sempre para a mesma pessoa.
Zoe não sabia como teria acontecido, ela acreditava em destino e eu apenas em uma coincidência infeliz. Ela também me falava que eu pensava demais, por isso estaria atraindo, mas eu revidava com a hipótese de minhas chances de encontrá-lo somente terem aumentado pelo fato de ter algo relacionado à música. E isso era até reconfortante, pensar que eu só o teria achado porque tinha eliminado milhões de pessoas que não se interessariam por aquele teste.
Contudo não era tão reconfortante ter a noção que vê-lo tal dia, tão próximo e diferente, tinha sido também como eliminar de vez todos os canais de televisão e ter direito a assistir apenas um.
Desde que eu havia saído apavorada, com o meu coração prestes a subir pela garganta, junto de do local da audição, que eu não conseguia mais me concentrar por tanto tempo em outra coisa, como antes milagrosamente eu conseguia exercer. Era um fato, eu o tinha visto pessoalmente de novo, mal eu admito, e agora eu não possuía somente a sua imagem com dezoito anos em minha imaginação; a cena viva e as sensações
incomodadoras da sua presença naquele corredor estavam se repetindo como um filme emperrado na minha cabeça. Seria lindo, cada detalhe, se não fosse tão desesperador. Havia se tornado muito mais óbvio, parecendo doentio. Talvez eu estivesse esquecendo dos meus próprios avisos de cuidado, fazendo assim memórias dos meus dezesseis anos parecerem atrativas novamente. Então de repente a idéia de dar alguns passos para trás não parecia mais tão contraditória. Ele estava se infiltrando perigosamente em minha vida, e nem tinha consciência disso.
Quem sabe Zoe tinha absoluta razão, eu pensava demais.
Porém quase sempre alguns momentos de bom senso perambulavam por minha cabeça, de uns tempos pra lá, sonhadora. Meu período de idealizar já havia passado há tempos e Tom já parecia ter conseguido seguir em frente com sucesso.
- Nervoso? – senti certa sensação de déjà vu ao enxergar aquele carpete azul e as poltronas de couro preto. Era também praticamente a mesma pergunta de quase dois meses atrás.
- Não tanto como aconteceu no teste – o garoto falou, largando o copo descartável ao lixo.
Lembro-me de estar na cozinha, admirando o barulho do mecanismo da torradeira, quando de repente, junto com as duas fatias de pão de forma, pulou em minha frente. Não era comum eu lhe ver logo cedo em casa, assim como já não era rotineiro eu me encontrar na cozinha àquela hora. Estava passando quase todos os dias com Zoe, que já se encontrava com a casa milagrosamente ajeitada, e não me preocupava mais com assuntos tolos como manter a minha sempre organizada; e continuava a sair com a mesma freqüência e sem ainda, ao menos, me explicar onde costumava ir. Com isso construíamos um cotidiano sem compromisso, conforme as semanas davam sinais de que passavam depressa, sem a aparente necessidade de empregos e de estarmos juntos vinte e quatro e horas por dia.
Todavia aquela entrada agitada na cozinha naquela noite, e muito menos o seu sorriso de ofuscar a minha fome, havia sido por mera saudade. Ele havia ganhado uma ótima notícia enquanto estava fora de casa, enfim havia recebido a ligação que esperava e que eu julgava, tão sem emoção, que não aconteceria mais.
Os meus momentos de vida real eram quase sempre tão curtos como os assuntos que minha amiga e eu possuíamos que não acabassem levando ao passado. Eu me encontrava assim, mais uma vez, junto de meu namorado naquele prédio em Convent Garden.
- Bom, você agora tem a certeza de estar dentro – sorri, depositando também meu copo ao lixo.
Eu estava tentando controlar a cena irritante que aqueles corredores me faziam lembrar porque queria estar ali inteiramente por . Ele se encontrava feliz e eu também assim estava. Teria que estar! Aquele seu feito me fazia voltar às minhas suposições e eu esperava mesmo que elas estivessem certas e que agora tudo fosse voltar aos trilhos, como antes. Não era nada legal ficar exercitando os tipos de pensamentos cujo eu estava. Eu apenas tinha que me concentrar em e o quanto eu havia crescido ao seu lado com mais dedicação.
Coisa que eu só lembrava com fervor ao encontrar o azul de seus olhos. Regredir, assim, não parecia mais tão atrativo.
- E você, imaginou que eu conseguiria? – se gabou. Era tão invejosa a sua alta confiança.
- Você sabe que eu nunca acreditei – lhe disse a verdade e ele desde sempre sabia que eu não era otimista.
havia sido intimado a aparecer logo cedo naquele lugar para uma reunião - pelo o que um homem chamado Matthew, veja a ironia do destino, Fletcher tinha explicado logo que chegamos, seria para conhecer os seus colegas de banda - e como não era de se duvidar, havia me carregado junto para espantar o seu nervosismo. Mas era óbvio que eu não fazia diferença para o seu sistema nervoso.
- Fico feliz por ser sincera – disse em tom de riso, me desconsertando um pouco.
Pelo menos eu ainda parecia sincera? Isso era um alívio para o meu lado que se sentia culpado.
- Só queria saber por que eles demoram tanto – retomou novamente a minha atenção, que por poucos milésimos tinha se perdido no carpete. Certas vezes a vontade de esclarecer para ele um pouco do que se passava em minha cabeça parecia tentadora. Porém quase nunca parecia ser um momento propício para tal ato.
Ele esticou um pouco a sua cabeça, olhando por cima de meu ombro, e com isso uma repentina vontade de abraçá-lo percorreu cada centímetro de meu corpo. O chamado impulso emotivo, coisas que eu sentia a necessidade de exercer em exatas horas. E bem, naquele momento eu sentia que precisava de próximo.
O abracei.
Como eu disse, eu possuía um lado culpado e muitas vezes ele sentia a necessidade de se desculpar.
- Relaxe, senhor confiante, ele só foi buscar os seus novos amiguinhos para você conhecer – disse.
- Na verdade, eu só não conheço um – ele falou, cercando minha cintura com suas mãos, admitindo.
- Só um? - disse então, sendo puxada de volta do meu impulso, me afastando do garoto que demonstrava estar me abraçando por mera educação - Você não me disse que havia conhecido os outros – reclamei.
Eu não parecia ser a única então a omitir algo.
- Dois deles assistiram ao meu teste – esclareceu – E eu cheguei sim a comentar com você, quer dizer, tentei. Até quis... - então diminuiu o ritmo de sua explicação, perdendo a concentração sobre mim, e olhou por cima de meu ombro mais uma vez – Te apresentar um deles – assim terminou sua frase abrindo um sorriso.
Aquilo me levou a crer que Fletch, como o homem pediu para ser chamado (eu agradeci) estava se aproximando, por isso me vez virar animada para trás.
Contudo ao encontrar o outro lado do corredor eu não enxerguei as quatro pessoas cujo esperava ver. Ao contrário, vi somente um garoto, que se aproximava em marcha lenta da onde nós estávamos parados, aéreo por estar tão concentrado em papéis que levava consigo.
Parecia assim, à primeira vista, alguém sem importância, mas só até eu enxergá-lo exercer o simples ato de levar a sua mão até a lateral do nariz e passar levemente os seus dedos por ela.
Meu coração, que antes batia normalmente para uma pessoa saudável, pareceu tomar a força de um principio de ataque cardíaco. Movimentos quase tão perfeitamente copiados daquele dia ao corredor que eu ousaria desconfiar. Mas só se eles não fossem idiotamente ocasionados pela mesma pessoa.
Virei depressa para , já me sentindo ameaçada, e minha primeira reação, ao notar incrédula que ele parecia querer chamá-lo, foi levar a minha mão até sua boca.
- – o olhei chorosa, pedindo assim, indiretamente, que ele não tornasse a falar em tom elevado.
- O que foi, está sentindo alguma coisa? – perguntou então preocupado, quando eu retirei meio insegura minha mão de sua boca, agora prestando atenção em minha feição alterada.
Com certeza eu estava indo do meu tom corado para o meu mais pálido. E podia sentir isso pela minha pulsação que enfraquecia com os segundos.
- Não, eu não estou bem – balancei levemente minha cabeça, piscando lentamente – Eu quero... – olhei de relance para um dos meus lados – Eu quero sair daqui, – falei tentando manter a calma em minha voz.
- Mas eu não posso sair, – ele falou em um tom angustiado – O que você está sentindo? – e assim colocou sua mão ao meu queixo, erguendo minha cabeça e olhar, que haviam abaixado involuntariamente na tentativa de esconder meu rosto um pouco melhor.
- Eu estou... Eu estou com principio de asma – menti descaradamente. Nem em minha infância eu havia sofrido com qualquer doença respiratória. – Eu preciso sair daqui – suspirei alto, tentando puxar todo o ar que conseguia. Não que eu encenasse o meu ataque, mas meu psicológico parecia acreditar na falta de oxigênio.
- , nós não podemos sair daqui – tornou a falar. Seu tom era delicado, não querendo ser rude, mas ao mesmo tempo aflito.
Eu sabia que ele não podia deixar aquele local.
- ! – uma terceira voz interrompeu a sua explicação, pela segunda vez.
- Eu vou sair sozinha então – falei, agora, apressada, retirando as mãos do garoto de meu ombro, ao escutar Tom lhe chamar por minhas costas.
Os batimentos haviam acelerado novamente.
- Como? Parece que você vai desmaiar – ele olhou-me, ainda com o olhar preocupado, e aflito me segurou outra vez, impedindo que eu o ultrapassasse - Tom, será que você pode me ajudar aqui? – pediu ajuda.
Mas aquilo só vez os meus batimentos oscilarem ente o mais baixo e o mais alto nível.
- Não! – gritei, mas logo percebi meu suposto surto. Acalmei – Não preciso de ajuda, . Eu juro que consigo me manter em pé – desvencilhei-me mais uma vez, e agora definitivo, de suas mãos - Só acabei esquecendo de um compromisso importante, você sabe como eu fico com compromissos assim, e nossa, eu quase me esqueci dele! – dei qualquer desculpa, que saiu agitada em palavras repetidas, tentando não pensar que Tom estava logo ali, parado, prestes a me ver.
- O que houve, ? – então ouvi sua voz outra vez.
Um raciocínio um pouco lento, ou eu somente estava vendo tudo acontecer rápido demais.
Não pude agir com sangue frio, por mais que eu o sentisse, e acabei olhando para trás por mero impulso.
Vi Tom, já bastante próximo, a mais ou menos duas poltronas de distância, largar as pastas que tinha em mãos. Mas quando ele foi olhar preocupado para aquela cena que eu protagonizava, acabei retornando aflita, bloqueando nosso contato visual.
- Eu te vejo em casa, ! – dei um beijo em sua bochecha, mais para disfarçar, buscando somente a escapatória.
- ! - ouvi a voz de meu namorado. Mas, ao contrário do que sempre fazia, não virei para ver o que o mesmo queria. Apenas segurei a alça de minha bolsa com mais força e apurei os passos até achar um corredor que pudesse virar.
Fechei a porta atrás de mim calmamente e ao notar que tudo estava apagado e em silêncio encostei-me em sua madeira, fechando meus olhos como se meditasse. Respirando fundo eu podia notar que o pior já havia passado há algum tempo. Mas que agora eu teria que encarar um pouco do que presenciei, ao chegar em casa e encontrar meu namorado repleto de histórias que gostaria de compartilhar.
Nunca havia me sentindo tão desconcertada por uma pessoa como fiquei, ao perceber como os meus batimentos e pensamentos estavam tão desorientados, por Tom. E ele nem ao menos tinha dirigido a palavra a mim ou pelo menos me visto. Rezava, ele não podia ter me reconhecido entre movimentos bruscos e impensados realizados, outra vez, ao corredor da gravadora. Apenas tudo o que estava sentindo era impulsionado, a se tornar tão forte e causador de falta de ar, pelo meu inconsciente problemático.
Assim nem ao menos falar com Zoe ao telefone no táxi de volta havia feito minhas suposições se tornarem calmas e não assustadoras. Era claro, elas não podiam se tornar calmas, mas ao ponto de serem assustadoras era ridículo. Eu podia ter certeza então, Tom não era apenas um jurado da audição, como ela e eu pensávamos, e de alguma forma encontrá-lo ali não havia sido somente uma coincidência infeliz. Isso me assustava e me impulsionava a ficar ainda mais culpada ao refletir que agora atual e ex se conheciam e até poderiam virar companheiros, amigos, íntimos. Era sim um ato para desespero e nessas horas só gostaria de ser uma pessoa que não se importa.
Mas, contudo, eu não podia deixar-me levar por esses impulsos complexos.
Naquela tarde, buscando ficar longe de tais incomodativos problemas, eu decidi procurar pelo endereço, que na mesma noite da boa notícia de , George havia deixado em um recado em minha secretária eletrônica.
É, eu teria uma boa escapatória de agora em diante e não precisaria mais me sentir inútil.
- Estou morta – abri meus olhos, em tempo de me desencostar da porta, e rumei, na escuridão mesmo, para o meio da sala.
Estava mesmo morta, e podia me colocar em duplos sentidos literais. Morta de cansaço, pois eu havia andando por todos os setores da empresa de arquitetura&paisagismo de Bethan, e morta no sentido do que havia presenciado logo cedo e do que iria presenciar, talvez, por todo o tempo.
Passei pelo sofá já com o meu casaco e bolsa em mãos, e pensando que podia estar (se estivesse) ao andar de cima, me aproximei da escada atirando ambas as peças ao móvel.
- O que é isto? – fiquei ligeiramente assustada, paralisando meus movimentos perto ao corrimão, ao ouvir uma voz, que julguei mesmo não ser fruto da minha imaginação, surgir assustada e em eco na sala.
Escorreguei rápido minha mão até o interruptor, que ficava próximo à escada, possibilitando que eu enxergasse muito mais do que a luminosidade da rua tratava de ocultar.
- ! – falei em tom de riso, me aproximando do sofá, onde o garoto estava com minha bolsa e casaco, embrulhados, ao seu peito – O que você está fazendo aqui? – perguntei, não esperando uma resposta sobre o que ele fazia em casa, era óbvio ele morava ali, mas sim sobre o que ele fazia no escuro.
- Eu que te pergunto isso – disse ele, sentando e assim empurrando os meus pertences para o lado.
Eu não tinha uma resposta formada, pensei que poderia pensar enquanto ia para o quarto.
- Primeiro desculpa sobre logo cedo, eu só fiquei nervosa de uma hora para outra porque... – olhei em volta e resolvi sentar a mesa de centro, que ficava exatamente a sua frente no sofá – esqueci completamente que tinha um compromisso inadiável no mesmo horário. Mas tudo bem, agora já estou corada, nota? – apontei para o meu rosto ao olhar a sua face sonolenta, mas ainda desconfiada.
- Estou vendo – ele parou de me olhar com seus olhos cerrados – O que era o seu compromisso? – perguntou.
- Ah, nada de mais, fui falar com a prima do George – não queria dar detalhes, eu sabia que a partir dali teria que perguntar por detalhes. Por mais que parte de mim não quisesse ouvi-los. – Mas agora eu quero que você me responda, o que está fazendo aqui, como foi o seu dia? – sorri confiante.
- Meu dia? – sorriu. Eu sabia que era somente eu falar no seu dia, que ele esqueceria totalmente de que estava interessado em saber sobre o porquê do meu estado de logo cedo e também o motivo para eu chegar somente àquela hora em casa – Foi ótimo – completou em meras palavras.
- Claro, somente ótimo – observei ao redor da sala – Nada mais então – falei ironicamente, me levantando.
- O que você quer ouvir sobre ele? – perguntou, levantando também. E com isso senti que o garoto me seguiria até o andar de cima – Tenho que selecionar, foram coisas demais para um dia – disse.
- Quando o Fletch apareceu com os seus amiguinhos, e eu não estava mais lá, como foi? – o ajudei, agora vendo que ele realmente me seguia, ao pisar aos primeiros degraus da escada.
- Fomos para uma grande sala, um estúdio, em outras palavras – falou empolgado, enquanto na ida rápida até o quarto eu esperava ouvir a qualquer instante o nome de Tom sair de sua boca. Estava treinando o psicológico – Fletch então nos deixou sozinho, somente eu e o , enquanto ele saiu junto com o Tom para buscar o último garoto. Parecia que ele estava atrasado ou ocupado com outra coisa, eu não sei, mas depois de eu e comermos absurdos na ausência dos outros, e falta de assunto, eles voltaram, junto com o – , que vinha falando por todo o pequeno percurso atrás de mim, pausou o seu diário, quando me viu sentar à cama imediatamente.
- ? – perguntei sem esperar que o garoto pudesse me perguntar o porquê da pergunta depois.
- É, na verdade, – explicou-me sem levar importância – Bom, depois que ele chegou, nós podemos conversar melhor, não como no dia da audição que eu troquei só umas cinco ou dez palavras ao máximo. E por último nós aproveitamos os instrumentos do lugar e tocamos pela primeira vez todos juntos – sorriu, sentando ao meu lado – Não foi como eu pensava, foi mais divertido, mais fácil – disse, então mais perto, me fazendo voltar a minha concentração para o resto de suas palavras.
Por mais que eu soubesse que falaria sobre Tom – sim, era um fato, eu teria que me acostumar ao vê-lo pronunciar o nome do garoto e ouvir todas as suas histórias. Porém não com ouvidos que estavam acostumados e sim com os que estavam ouvindo pela primeira vez – eu não estava esperando ouvir mais um nome conhecido na listagem do meu namorado.
Qual era a probabilidade desse ser outro, sendo que Tom estava incluído?
- Que ótimo – tentei transparecer que havia prestado atenção em cada palavra.
Agora eu havia ganhado outra coisa para me impedir de prestar atenção em : .
- E antes de ir, o Fletch não deixou de lembrar a todos... – o percebi, mais uma vez, parar de falar e deitar-se à cama – Você já reparou? Esse é o meu último final de semana como uma pessoa livre de compromissos e talvez um dos últimos que eu seja totalmente anônimo – falou então, admirando o teto, me forçando a olhá-lo.
Não havia pensado naquilo.
- Nossa, que intimidador – ri, deitando ao seu lado de bruços.
- Parece engraçado, não é? Mas voltando para casa eu refleti melhor – ele então me olhou sério, fazendo assim com que eu parasse de rir ao olhar em seus olhos. Era sempre daquele modo. – Imagina quando surgir todos aqueles compromissos que me levaram a chegar tarde em casa ou levantar super cedo? Fotos, autógrafos, entrevistas, ser reconhecido. Você notou que não vamos ter muitos momentos tranqüilos de você e eu? – esclareceu. Seus olhos brilhavam a cada palavra e me impossibilitavam de pensar sobre. – Pessoas vão me adorar, quem sabe te odiar, eu vou passar mais tempo fora, muitas vezes longe de casa. Turnês, fãs...
- Pára com isso, ! – o interrompi quando a reflexão séria, já havia tomado o rumo da exibição. – Você me faz ficar assustada, ou melhor, com vontade de rir – disse.
- Eu vejo você nas minhas chamadas não atendidas no celular, desesperada para me ver cruzar novamente pela porta de casa e poder me abraçar. Também consigo imaginar você tentando ser paciente com fans ou tentando mantê-las longe de mim – continuou. Sua imaginação estava num período bem fértil.
- Eu falei para você parar de falar sobre isso, – me aproximei dele à cama.
- Mas apesar de rir eu estou falando sério – avisou, parando de rir então - Eu não tinha parado para pensar em aspectos negativos quanto a isso – disse, olhando para o teto mais uma vez.
Esquecendo de qualquer outro assunto, me ajeitei sobre o seu peito, depositando a minha cabeça ao seu ombro.
- Esse sempre foi o seu sonho, entrar para uma banda, fazer o que você é bom e gosta. Não tinha assim que pensar em qualquer ponto negativo quanto a isso. Sonhos, aos nossos próprios olhos, sempre são intocáveis, perfeitos, incapazes de receber crítica ou de achar um defeito. É um sentimento de proteção e ciúmes, entende? – comparei, o olhando – Então agora você conseguiu tornar tudo real, você realizou o seu sonho, e pessoas, que antes poderiam dizer que era uma perda de tempo, dizem que essa sua amada realização tem defeitos, não é livre de problemas. Mas, , quem se importa? É o seu sonho – levantei-me então, ficando apoiada por meus cotovelos – Sempre achei que você era do tipo que conseguiria tudo que corresse atrás, e acredito sim que tem jeito com os holofotes – sorri – Mas eu deixo bem claro e avisado desde agora, se eu ver você flertando com qualquer apresentadora, modelo famosa, artista cheia da grana ou até mesmo com uma fã atiradinha, eu te capo e faço do resto desse seu sonho o inferno! – dei uma batidinha em seu peito e um ligeiro beijo em sua bochecha esquerda, logo levantando da cama.
Eu escutei a sua risada pouco tempo depois, quando ele pareceu concluir e eu cheguei à porta do closet.
- Mas em hipótese alguma eu vou te trocar tão rápido assim – disse – Vai levar um tempo até eu me tornar famoso e as mulheres começarem a se jogar para cima de mim – sentou-se na cama, me olhando debochado.
Abri a porta do closet então, não dando bola para os comentários, até engraçados, de sobre a utopia do seu futuro de popstar.
- Acho que eu as atrairia com facilidade – ouvi o garoto começar mais uma vez, enquanto eu o escutava um pouco fraco por estar dentro do armário tentando achar alguma toalha. Com certeza ele havia mexido e tirado tudo do lugar que eu meticulosamente havia tratado de arrumar por cores – Normalmente eu já atraio, isso é estranho. Será que elas gostam do meu perfume ou somente do meu lindo par de olhos azuis? – completou.
Aquilo me fez rir, confesso que até ficar um pouco na dúvida, enciumada. Só tratei de pegar qualquer toalha, uma de rosto, e resolver sair de vez do closet.
- “Será que elas gostam do meu perfume ou somente do meu lindo par de olhos azuis?” – o imitei, me aproximando da cama, onde agora ele estava deitado com as mãos apoiando a cabeça, calmamente, enquanto enrolava a toalha creme em mãos, por de trás de minhas costas. – O que você quer dizer com isso, , ou digo, garanhão? – parei a lateral da cama.
- Você não os acha atraentes? – ele piscou, com um sorriso ainda debochado aos lábios – Vai ver que foi até com eles que eu consegui entrar na banda. Sei lá, tocar parecia o de menos, eles deviam querer um tipo bonito, como eu, com olhos claros e com bom gosto para se vestir – disse.
- Ah sim, eles deram graças aos céus quando você passou pela porta – falei, ainda o admirando.
- Pois sabe que foi isso, eu pude ver o acordar e o Tom se ajeitar à cadeira – ele disse, rindo.
Eu não pude me controlar então, agi mais como uma escapatória. Não queria ouvir e nem esperava que o assunto caísse sobre aqueles garotos. Então ágil, agarrei a toalha firme e a estalei a lateral vestida do corpo de .
Ele então se esquivou, deixando sair uma pequena reclamação, mas ainda rindo.
- Nossa, como você é violenta – ele se ajeitou à cama, meio que sentando ao colchão, se protegendo com as mãos, ao mesmo tempo que querendo agarrar a toalha que eu ainda segurava e tentava lhe bater de novo.
Era engraçado.
- E nossa, como você é narcisista – disse, assim brincando, tentando fugir de sua mão que tentava puxar a toalha e consecutivamente me puxar.
- Não – falou, parando com as suas tentativas – Porque além de me amar, eu também amo você – disse docentemente então.
- Ouw , que bonitinho – curvei a cabeça para o lado, sorrindo verdadeiramente para o garoto. Fazia um tempo que eu não ouvia algo do tipo.
Tudo bem, eu me sentia realmente deslocada e envergonhada com comentários do tipo, mas eu gostava mesmo assim. Elevava o ego e a segurança, acima de tudo, quando você acaba de ouvir comentários sobre que o seu namorado, que vem saindo muito e mal passa o dia ao seu lado, vem atraindo mulheres com o perfume.
- Não é? – aumentou o seu sorriso, de modo que seus olhos brilhassem. Incrível, parecia que somente ele podia fazer aquilo. Quer dizer, outra pessoa podia fazer... Mas não vinha ao caso agora.
Distrai-me um pouco então. Questão de milésimos, mas tempo suficiente para retornar.
- Eu sou muito amoroso – ele disse, puxando a toalha e finalmente realizando o que desejava.
Caí por cima do garoto, mas precisamente ao seu colo, ganhando logo de cara, cócegas incomodadoras às costelas.
Aquilo fazia minhas pernas agirem involuntariamente, e se debaterem curvadas próximas ao rosto de , enquanto eu tentava afastar os seus braços em vão, sabendo que eu estava com os olhos bem apertados para superar o incrível desconforto, porém um pouco prazeroso, de ter dedos encostando a minha barriga.
- Ah, me desculpa! – falei rápida, parando meu movimento histérico, e risada idem, ao notar que meu joelho havia literalmente socado o seu nariz.
Eu saí de seu colo quando suas mãos passaram a apalpar a parte atingida, parando assim de me fazerem cócegas, e sentei de joelhos ao seu lado, tentando diagnosticar o tamanho da dor que o garoto podia estar sentido, apertando tão forte o seu nariz e olhos.
- Eu te machuquei, está doendo, está tudo bem? – perguntei, ao afastar seus cabelos da altura dos seus olhos, sem pensar que cada pergunta responderia a anterior – Não era a minha intenção...
- Que lindo que você se preocupa comigo! – ele então falou, retirando as duas mãos, que cobriam juntas a região do nariz e boca, mostrando-me um sorriso.
- Seu trouxa, mentiroso, idiota – falava seguidamente enquanto lhe acertava tapas – Pensei que eu tinha quebrado o seu nariz! – ele agarrou então meus pulsos, posicionando-se de pé à cama.
- Calminha – ele ria, enquanto tentava se erguer e levantar. Mas me levava consigo, ainda com os pulsos imobilizados. – Só queria te ver um pouco, mais, irritadinha. Você sabe que eu gosto – sorriu, ficando de pé ao assoalho e me deixando então livre, de joelhos, ainda à cama.
Assim percebi o quanto estávamos próximos, mesmo com tal brincadeira sem graça. E fazia algum tempo que não ficávamos assim, juntos e com assuntos sem importância.
Com isso, vendo que iria se afastar e se dedicar à outra coisa, puxei o travesseiro de cima da colcha, e tentando eternizar o momento infantil, lhe acertei o pedaço de algodão ao ombro.
- Se você quer brincar... – disse, com o travesseiro em mãos, me pondo de pé nos poucos segundos que teve para se aproximar outra vez.
- Você sabe que eu ganho de você – disse convencido.
Eu até desconversei, com minha expressão fácil de quem duvidava, mas realmente ele acabou agindo mais rápido e puxando o travesseiro de meus dedos. Fazendo-me cair sentada ao colchão.
- Não disse? – perguntou, agora caído sobre mim, bem próximo ao meu rosto.
Nos últimos dois dias eu havia recebido notícias demais. Bom, apenas quatro, mas três tinham me deixado ainda mais atordoada. Eu estava sempre aérea e pressa a coisas inúteis. E naquelas quarenta e oito horas eu havia ganhado mais notícias, que haviam sucumbido as antigas, que já estava prestes a esquecer, e criar outras, que agora com certeza eu não poderia enterrar tão fácil. havia conseguido entrar na tal banda e resgatado junto disso, duas pessoas que pensei que levaria tempo para reencontrar, ou se tivesse tanta sorte, nunca encontraria. Tom estava tão vivido como nunca e meus pensamentos sobre ele estavam tomando mais força desde que soube que ele não era apenas um jurado de concurso e sim um novo amigo do meu namorado. Assim como , que tinha vindo de prêmio.
Podia dizer que minha vida havia desdobrado e quase voltado a ser como antes. Quase.
- Senti a sua falta, – lhe disse, agora envolvendo o seu pescoço com meus braços. O olhava tão de perto que podia sentir um pouco de sua respiração batendo em meu rosto. – Falta daquele que não terminava o dia sem me dizer bom dia ou boa noite ao telefone. Falta daquele que insistia para que ficássemos um pouco mais a cama em dias livres no final de semana. Falta dessa aproximação e momentos idiotinhas – fiz uma careta, acertando um beijinho aos seus lábios, e voltando em seguida para ouvir a sua resposta.
- Acho que as coisas não serão mais como eram em Nova Iorque – certa resposta me vez sentir uma palpitação forte – Mas também não quer dizer que temos que deixar a vida mudar para ruim – completou.
Sorri com aquilo. Eu precisava de uma dose de otimismo alheio, o meu estoque estava em baixa.
deixou o seu rosto cair levemente sobre o meu, quebrando a pouca distância, colando calmamente de início os seus lábios aos meus. Aqueles toques delicados, sem pressa alguma, faziam-me sentir arrepiada. Como eu disse, momentos como aqueles que estavam acontecendo e estava por vir, havia se tornado raros. Tudo era feito sem calma, por impulso, tão sem romantismo e tranqüilidade.
Odiava me sentir paparicada demais, mas também necessitava às vezes.
Ao quebrar o beijo, paralisei na mesma posição, de olhos fechados, enquanto umedecia ainda mais os lábios.
- O seu celular está tocando – falei docemente, tornando o irritante barulhinho abafado até encantador.
- Não vou atender – disse, voltando-se agora para o meu pescoço.
Abri os olhos.
- Acho bom você atender, vai que é uma de suas mulheres, ou melhor, o Fletch? – falei ironizando.
Senti então retomar o equilíbrio, deixando que todo o peso do se corpo recaísse sobre o meu.
- Mas pensando assim, na opção número 1, acho melhor eu atender! – o empurrei, o pouco que faltava, e levantei da cama, indo à direção do barulho que o toque do celular imitia de cima do divã.
- Alô? – fiz a pronúncia mais longa e debochada que já havia feito, ou lembrado, quando atendi ao telefone no que parecia ser um dos seus últimos toques.
Não havia nome acima do número que aparecia no visor.
Esperei alguns segundos, até a voz do outro lado se revelar masculina.
Senti-me trouxa.
- "Alô... Quem fala?" – a voz perguntou incerta.
Adivinhava o porquê, de algum modo ela esperava que a pessoa que o atendesse também fosse do sexo masculino e não que possuísse aquela voz homossexual.
Aproximei-me da cama, onde olhava a cena rindo.
- Ah desculpe, você com certeza quer falar com o – cheguei a sua frente na cama, vendo o garoto me abraçar pela cintura e depositar o seu queixo sobre minha barriga.
Ele então mexeu os lábios, sem imitir som, perguntando quem era, enquanto a pessoa ao outro lado da linha não respondia à minha voz feminina.
- Quem está mudo ao outro lado da linha? – perguntei então, rezando para que não fosse alguém sério.
- Er, é o Tom – respondeu a voz.
Não preciso dizer então que instantaneamente perdi o tom de riso em que me encontrava e empurrei o telefone, sem ao menos dizer em voz alta o nome da pessoa que ligava, a .
Capítulo 05
Observei a iluminação fraca da noite, como estava fazendo por todo aquele caminho. Minhas mãos estavam paradas em cima de meu colo e os meus dedos se encontravam gelados. Quem sabe só pelo frio da estação. Mas eu sabia que era por mais um motivo. Eles estavam quase imóveis, exceto pela irritante mania que eu possuía de esfregá-los, enrolá-los, em pontas de tecidos. A barra de minha blusa então servia como uma válvula de escape, admito, quase inútil. Eu não consumia nada líquido, pastoso ou sólido fazia horas, mas meu estômago não parecia reclamar de fome. Ele só estava resmungando pelo nervosismo que meu cérebro criava e tratava de espalhar para todos os simples músculos, já rígidos, de meu corpo. O banco do táxi assim parecia totalmente desconfortável e o aquecedor aparentava estar quebrado, ao poder ver o vidro do automóvel começar a embaçar pelas laterais. E, como as árvores do Regent’s iam passando rápidas à minha vista, uma melodia nostálgica ecoava por minha cabeça. Não escutava nada parecido fazia anos e não lembrava direito o que eu estava sussurrando, só fazia questão de continuar a cantarolar mentalmente para recordar, enquanto ouvia conversar baixinho com o taxista.
- Tudo tranqüilo – a garota ao meu lado depositou sua mão, quente, por cima das minhas e aproximou-se docemente – Você vai sobreviver – deu uma risadinha fraca, que aqueceu a minha orelha.
Eu havia batido em sua porta naquela manhã e passado um longo período do tempo ouvindo a sua listagem interminável de motivos para eu conseguir me manter confiante no momento do encontro com Tom.
E teria achado até uma tarde insignificante, eu sabia que nem mil e um motivos iam me tornar confiante, se eu também não tivesse aproveitado a visita para lhe contar sobre todas as enormes notícias que havia recebido pelas horas que não havíamos nos falado.
Era até engraçado, que em um dia inteiro sem visitá-la eu havia ganhado um emprego, meu namorado havia entrado para uma banda, me mostrado o seu novo companheiro e trazido consigo outro brinde do meu passado. Seria divertido até, uma vida tão cheia de novidades por minuto, se a maioria em questão não se encaixasse na categoria ruim.
Tudo bem, não eram ruins, só eram indesejadas.
- Eu sei – forcei o meu sorriso, mesmo sabendo que não a convenceria sobre a minha resposta.
- Estamos chegando, meninas – virou para trás e avisou, ouvindo que conversávamos.
Na noite anterior, após ter desligado o telefone, o garoto havia ido até o banheiro, onde eu tinha me refugiado depois de perceber que havia falado idiotamente com Tom, e me dado à notícia de que já tínhamos um programa para o sábado à noite: “Reunião na casa do Fletcher”.
Casa do Fletcher? É, havia repetido isso inúmeras vezes, para o espelho, com caretas ao meu rosto. Não era bem o que eu planejava. Na minha concepção, duas pessoas e a sua casa por todo o final de semana era tudo que aconteceria antes daquele telefonema. Mas também, o problema aquela altura não era nem pelo fato de Tom ter atrapalhado o meu final de semana possivelmente romântico. Eu teria que encará-lo em sua própria casa agora, não? Difícil, totalmente recusável. Eu sabia, porém eu não havia tido coragem o suficiente para rejeitar o convite e acabar com a alegria em seqüência de , por mais que aquilo ameaçasse a minha. Eu havia aceitado sair do meu casulo e me expor de tal forma. Havia concordado com a idéia de deixar Tom me ver.
E mesmo tendo pensado demais e me preocupado pela noite inteira com aquela situação, quando havia clareado o dia e eu estava na casa de Zoe ouvindo os seus conselhos, que mais soavam como um mandato, eu havia percebido que agora não adiantava mais dar desculpas, esconder a minha cara e acabar fugindo. Cedo ou tarde aquilo teria mesmo que acontecer. Era inevitável.
Mas apesar de todos os problemas que aquela situação contornava e do medo aparente que eu sentia, de não poder adivinhar a reação de Tom e o que aconteceria então, eu também me dividia em relembrar todos os detalhes, idiotas, que eu imaginava sobre o reencontro, na época em que eu aguardava nos Estados Unidos.
Ele provavelmente sorriria para mim a me ver, sabendo que enfim voltei, e eu nem ao menos poderia agora sorrir de volta com a vontade que há anos atrás havia planejado fazer. Nada do que eu havia idealizado se seguiria quando os nossos olhares se cruzassem. Eu não correria até ele e o abraçaria como se fosse à última coisa que eu pudesse fazer com meus braços. Inalar o seu perfume e deixar minhas lágrimas caírem livremente por meu rosto, enquanto ele acariciaria meus cabelos e eu ouviria uma música de fundo, não aconteceria. A terra supostamente pararia de girar quando ele fosse se referir a mim, mas eu teria que tornar todo o reencontro chato e sem emoção. Abraços teriam que virar simples apertos de mão.
- Ali está ótimo – percebi apontar para uma vaga próxima à porta de um prédio.
As imagens, que eu parecia ver antes ao vidro embaçado do carro, já iam desaparecendo. Eu teria que controlar aquela mistura de sensações e sentimentos e me tornar indiferente naquele exato instante.
- Finalmente – Zoe se abrumou ao banco e segurou a maçaneta do carro, ao notar fazer o mesmo logo a frente – Não é? - e olhou-me, parada estática no banco, insinuando com a cabeça e olhar que eu teria que me mover e deixar qualquer insegurança ali mesmo, no carro.
Mas era difícil, eu não conseguia nem ao menos lembrar de duas regras que ela havia me passado naquela tarde. E nos movimentos rápidos, de abrir de carteira e portas, a melodia em minha cabeça ficava cada vez mais intensa, tornando tudo ainda nostálgico.
Mas afinal, o que era nostálgico?
- Days go by. Feelings, they go on – declarei normalmente, como se fosse normal lembrar instantaneamente de uma letra de música que há muito não se ouvia, ao descer do carro e encarar o mediano prédio de tijolos escuros, que me lembrou os armazéns de Nova Iorque.
A melodia que estava ecoando por minha cabeça era a mesma que havia escutado no caminho que fiz até o aeroporto no dia em que deixei Londres. New Found Glory.
A sensação de deixar Tom parecia a mesma agora.
- Vamos entrar logo meninas, está frio – surgiu a minha frente, interrompendo a minha vista, atenção que havia se perdido por meio dos detalhes do edifício, ao segurar a porta do táxi, onde até então eu estava parada.
Eu julgava que Tom estava se escondendo muito longe da onde eu havia parado. Afinal Londres era tão cheia de prédios e ruas escondidas. Mas eu devia prever, que assim como eu o achei tão depressa e de uma maneira inesperada, que ele morava aonde eu nem ao menos imaginava.
Bom, aquele lugar que eu não fazia questão de pensar sobre, mentira, se encontrava aos arredores do Regent’s Park, bem ali, próximo aos canais e a Camden.
- Well, unfortunately without you – falei, tão baixo que talvez somente eu tivesse escutado, e deixei a porta do automóvel para que fechasse. Enquanto buscava o apoio de Zoe para cruzar o portal do lugar.
Nunca havia nevado na Florida e muito menos Tom havia se apressado em me trazer de volta.
É, mas acho que aquilo não era bem assunto para se pensar quando eu estava prestes a ser apresentada para uma pessoa cujo eu conhecia muito bem, mas que agora eu deveria esquecer e fingir, para conhecer outra vez.
Sentia o meu estômago implorar por comida, enquanto meu cérebro dizia que eu não estava com fome e sim prestes a vomitar. Eu sentia o enjôo, ele fazia os dedos das minhas mãos suarem agora, mas eu não acreditava que tudo passaria com um simples pedaço de alimento.
Um aperto ao meu braço direito fez então o órgão dar um nó e meus olhos abrirem para encarar uma porta.
- Sorria! – a garota ao meu lado murmurou.
Então olhei o braço de , em câmera lenta, cortar minha frente e chegar até a campainha.
Pensei, por segundos, em dar qualquer desculpa e sair dali correndo, como já havia feito por duas vezes. Porém achei idiota da minha parte fazer aquilo. De algum modo, se eu fizesse, seria como dar um motivo para desconfiar. E, por incrível que fosse, era melhor eu encarar Tom, pois parecia ser a melhor opção.
- Eu não vou ligar pra pedir outra! – escutei alguém falar, o que me pareceu já bem próximo da porta.
Os segundos então que se transcorreram até eu ver aquele pedaço de madeira se mexer me pareceram eternos e absurdamente incomodadores. Era uma tortura, eu estava pensando coisas demais ao mesmo tempo, minhas mãos estavam suando, não conseguia respirar sem sentir o enjôo, causado pelas borboletas loucas que estavam debatendo suas asas fora de controle, querendo sair do meu estômago, que doía demais.
- ! – mas tudo aquilo adormeceu e foi parar em forma de suspiro, quando eu enxerguei Tom se materializar em minha frente usando uma camiseta azul marinho, eu ri internamente, com a máscara de um soldado clone de Star Wars, sobreposta de uma blusa de manga comprida cinza.
A primeira coisa que não tinha mudado com o tempo: o seu fanatismo.
Mas eu perdi a minha tranqüilidade, ao ter visto o desenho, quando corri meus olhos para o rosto do garoto e realizei que estava segurando minha mão e me puxando para dentro, acompanhado do seu olhar.
Eu pude notar, por mais que não quisesse lhe encarar, um ponto de interrogação aparecer invisivelmente em sua face conforme os seus olhos se estreitavam para ter certeza do que estava passando por sua porta. E eu não vi melhor atitude de lhe explicar, primeiramente, o que estava acontecendo, senão estender o meu dedo indicador e depositá-lo sobre meus lábios, como sinal de silêncio. Era simples, mas compreensível.
O garoto arregalou os olhos ao ver o meu gesto e por último olhou e deixou Zoe passar antes de fechar a porta.
- Essa aqui é a minha namorada, a garota que fugia todas as vezes que eu gostaria de te apresentar – falou, quando paramos ao redor da porta, para esperar Tom trancá-la outra vez.
Ninguém podia ter noção do quanto eu me sentia desprotegida.
- Prazer – disse rápido, apesar de segundos antes não pensar que faria aquilo - Em finalmente poder te conhecer, Tom – interrompendo assim qualquer possível chance do garoto falar que já me conhecia.
Ninguém também podia ter noção do quanto era difícil fingir e mesmo assim falar o seu nome.
Contudo, eu não vi o garoto fazer o que pensei que faria ao ver o meu descaso. Ele sorriu. Sorriu como eu pensava que faria se não houvesse nenhuma mentira entre nós. Tão doce. Mas, confesso, nervoso.
Ele se aproximou sorrindo, e aquilo fez com que eu estendesse minha mão com medo de um abraço.
- Digo o mesmo, finalmente – segurou minha mão. Pelo menos ele havia captado a minha idéia.
Só que o seu toque, e confiança aparente, fizeram um arrepio percorrer a minha espinha, tornando o aperto de mão tão incomodativo quanto um abraço seria e o quanto estava sendo esboçar um sorriso.
Eu podia tentar ser convincente, mas não era para tanto. Ver que ele, mesmo pego de surpresa, estava aparentemente mais calmo que eu, me incomodava também. Eu era tão fraca ao ponto de ser a única com borboletas no estômago? Bem, talvez fosse a única enjoada com o cheiro de pizza daquele lugar.
- Bom, e já que ninguém me apresenta... – puxei minha mão de volta quando ouvi minha amiga rir – Sou a Zoe e ela me trouxe para ser sua companhia feminina – disse, agarrando o meu braço e sorrindo para Tom.
- Ah, mas vocês deram sorte – o garoto falou, tirando a atenção hipnotizadora sobre mim, colocando ambas as mãos ao bolso, como se duas velhas conhecidas não estivessem mais em sua casa - Temos mais uma alma feminina na casa hoje – e indicou a sala com a cabeça.
O cômodo ficava logo ali, era tudo um conjunto, uma espécie de loft reformado. Mas somente pude prestar atenção nas pessoas que estavam presentes quando parei de notar Tom.
- Ah meu Deus! – escutei Zoe pronunciar baixinho, quando vi um garoto se afastar da mesa de centro, com um pedaço de pizza em mãos, e seguir normalmente até uma enorme janela de vidro.
- , eu falei que eu não vou pedir outra pizza! – Tom avisou, se aproximando dos sofás depressa, para chegar até a janela. Mas sem antes pular por cima das pernas de um garoto sentado ao chão.
– Você omitiu fatos, – minha amiga então deu um puxão na manga de minha blusa, no mínimo vendo, que além de estar ali, ao seu se encontrava uma garota de bonitos cabelos pretos, amarrados em um rabo de cavalo mal preso, vestindo uma blusa vermelha que ressaltava o seu tom de pele bronzeado.
Realmente, eu sabia que estaria ali. Parecia óbvio já que ele era da banda (segundo detalhe que eu havia escondido de minha amiga). Mas havia feito questão de não falar nada, porque senão, com certeza, eu estaria tendo que encarar tudo aquilo sozinha.
Pelo menos agora ela sabia que respirar e sorrir, às vezes se tornava impossível de fazer ao mesmo tempo.
- Esse é o – , percebendo que Tom havia esquecido das apresentações, olhou em nossa direção e apontou para o garoto que estava ao chão entretido com um game boy.
Sorri para , o cumprimentando com o mesmo aceno que ele havia me dado quando ouviu seu nome ser pronunciado, e olhei para a janela esperando receber o mesmo de .
Parecia que educação não era o forte ali.
Tom, que havia seguido apressado até o amigo, então voltou a prestar atenção em mim. E em também.
- Esse é o , o mal educado – ele apontou para o garoto que faltava.
Que fofinho, Fletcher havia entendido perfeitamente e estava fingindo. Adorável!
É, mas estava com medo da reação de , diferente de Tom, eu não havia chegado perto dele e tido tempo de fazer qualquer sinal. Contudo, o que se seguiu depois de ser apresentado, outra vez, foi um aceno breve, em meio a uma mordida em sua pizza. Tudo normal, sem sorrisos, sem gritos e sem apelidos. Alívio.
- E a Paige, a alma feminina que eu havia mencionado. Amiga do – a garota em questão sorriu, mas continuou na mesma posição para a janela e o amigo – E agora eu acho que vocês já podem sentar – Tom falou, quando chegou até à guarda do sofá, próxima de , e sentou.
Só agora havia percebido meu namorado sentado e Zoe e eu ainda de pé.
Bem, o pior e a única coisa que eu havia imaginado quando me falou sobre aquela reunião, supostamente havia terminado. A apresentação, em minha cabeça, era algo complicado e se seguia muito pior do que havia sido. Eu achava que não conseguiria avisar Tom, de alguma forma, e que ele acabaria por fazer algo quando me visse. Mas não, ele havia ficado quieto e agido mais indiferente do que eu mesma planejava fazer. E , esse sim havia sido a surpresa maior, havia acenado em silêncio. (Relevasse o fato de Tom ter falado com ele antes). Tudo sem revelações e sorrisos delatores.
Quem sabe não seria tão ruim assim?
Mas não diria que estava me sentindo confortável apenas pela pior parte ter passado. A apresentação só parecia difícil porque era a primeira etapa, mas agora com certeza ficaria mais embaraçoso. Eu teria que continuar. Continuar a receber olhares e sorrisos curiosos e confusos e teria que continuar a fingir.
- Querem pizza? – perguntou, quando eu e Zoe sentamos ao sofá, que ficava de costas para janela.
- Não, obrigada – respondi, não querendo fazer muito contato visual. Com era diferente, ao olhá-lo eu tinha vontade de rir, não conseguia encenar perfeitamente.
- Viu, Tom, elas não querem – reclamou para o garoto.
Estando ali e percebendo que a relação deles havia permanecido por todo o tempo que estive fora, era, por assim dizer, tocante. Sentia extrema afeição por aquilo, tudo continuava da mesma forma, eles ainda se estranhavam. Tom tentava controlar e esse revidava da forma mais infantil possível.
Por que tudo aquilo não podia ter ficado em estado de espera? Então com certeza agora aquela estaria sendo uma reunião para colocar a conversa em dia. Coisa que eu não faria na situação presente, mas que desejava secretamente. Pois tudo o que eu mais queria, e estava deixando em segundo plano, era saber sobre a vida deles durante aqueles sete anos transcorridos.
Todavia o primeiro plano insistia em meu subconsciente e de alguma forma era a prioridade: !
- E então, parece que você omitiu alguns fatos, não foi? – Zoe cochichou, olhando de soslaio para trás.
- Juro que não sabia sobre a garota – respondi rapidamente, nem sabendo se era por isso – Mas se eu falasse que também fazia parte da banda, sim ele faz, você não ia querer vir. Assim eu acabaria nesse sofá, sozinha e entediada. Ou quem sabe até conversando com Tom – disse.
- Conversar com o Tom não seria má idéia – ela curvou-se, olhando para o sofá próximo. Zoe podia observar o garoto, enquanto eu havia preferido sentar com vista para a parede – Sinceramente eu pensei que ele agiria de outra forma, afinal ele te conhece e é, ou pelo menos era, o cara que odeia mentiras – falou.
- É. Na minha imaginação, ele abriria a porta, e dando de cara comigo, perguntaria o que eu estava fazendo ali, assim estranharia e perguntaria a ele o porquê daquilo, se ele nunca havia me visto antes. Com isso Tom contaria tudo sobre nós, inclusive você e , e olá confusão! – revirei os olhos.
Aquela era a minha concepção da história.
- Acho que você pensa demais e sempre no pior – ela riu – Deve lembrar que o Fletcher é um cara legal e inteligente. Bem diferente desse ser humano aí... – a garota então indicou com a cabeça o casal logo atrás.
prestava atenção em nossa conversa, mesmo que eu tivesse certeza que ele não ouvia nada. Falávamos baixo e a sua companhia parecia estar discursando.
E quando eu o olhei, ele acenou com um sorriso.
- Hm, Tom, onde fica o banheiro? – Zoe então puxou novamente minha atenção, ao levantar do sofá.
- Naquele corredor, a primeira porta à esquerda – ouvi o garoto falar e minha amiga pegar suas coordenadas.
Ela devia estar querendo escapar, nem que fosse por minutos, dos olhares insistentes de . Mas havia me deixado sozinha a mercê disso, que de alguma forma nem me incomodavam, e dos olhares de Tom, esses sim faziam o meu estômago voltar a dar voltas com o cheiro de mussarela.
Ajeitei-me, ficando de frente para a cozinha e agora podendo olhar para o sofá onde e ele estavam sentados, ainda, acompanhando , ao chão, com o joguinho.
Apoiei meus cotovelos ao joelho, chegando mais a ponta do móvel, depositando minhas mãos ao queixo e tentando perceber o que tanto eles olhavam para o game boy. Porém eu não consegui manter minha atenção focada ao garoto no chão, eu tive que olhar para o outro, sentado à guarda do sofá.
Tom estava tão diferente. Podia detalhar rapidamente algumas mudanças aparentes. Mas era algo mais que chamava a minha atenção para a sua face clara e ainda angelical. Contudo eu não sabia explicar o quê. Talvez fosse só... saudade.
Era tão tentador lhe ver ali. Eu sentia vontade de abraçá-lo por longos minutos, absorver o que anos longe tiraram de mim. Mas então eu lembrava do que ele havia ocasionado e aquilo tirava qualquer vontade.
Acordei de meus pensamentos e então notei que o garoto me olhava intrigado, procurava o meu olhar perdido nele mesmo. Senti vergonha, pisquei rápido, cocei a nuca, me mexi ao sofá.
E fiquei feliz quando escutei .
- Tom, antes de o chegar, você lembra que havia falado a Paige sobre um
CD? – perguntou o garoto.
Tom então piscou algumas vezes e virou-se para .
- Está no final da segunda prateleira, no meu quarto – avisou.
- Então eu vou buscar – virei para o lado a tempo de ver o garoto passar ligeiro para ir à direção do interior do loft.
Corri a mão pelos cabelos, ao perder de vista, quando ele cruzou o corredor tão depressa. Andava igual, falava igual, tinha atitudes iguais. Mas o cabelo e estilo de roupas haviam mudado bastante.
Tinha gostado.
Olhei outra vez para o sofá do lado e notei Tom me observar como antes. Sorri sem opção. Eu estava me sentindo sobre uma tremenda pressão e ainda totalmente desprotegida. Gostaria que ele parasse de me observar, gostaria que Zoe voltasse do banheiro, gostaria de ir embora.
Mas então eu levantei. Vi uma melhor ocupação em fazer companhia para a garota de cabelos pretos e pele invejável que agora estava sozinha, olhando a vista privilegiada que a janela do Fletcher proporcionava.
- Oi Paige – parei ao lado da garota na janela. Era mais agradável ficar de costas para Tom.
- Ah, oi... – a garota sorriu, mas apertou os olhos.
- – a ajudei a lembrar o meu nome.
- Desculpe, eu sou uma negação para lembrar de nomes – riu.
Ela parecia muito simpática e eu podia dizer que combinava com o jeito de . Assim me senti curiosa.
- Você é namorada do... ? – resolvi então perguntar sem rodeios. Parte de mim gostaria de saber e outra queria ter a informação somente para poder repassar a minha melhor amiga.
- Oh não, não sou. Somos só amigos – ela riu, desconversando rápido.
- Que cabeça a minha, o Tom ainda apresentou vocês como amigos. Desculpe – fingi – Mas é que eu achei, vocês formam um casal bonito, sabe? – a olhei em tempo de vê-la alargar o sorriso.
- Não sei se daria algo mais sério do que amizade. é muito divertido e bonito, realmente um ótimo garoto para se querer namorar. Mas ele mora aqui em Londres e eu só fico até o natal – então me contou.
Desse modo eu não pude esconder a minha curiosidade, que já não estava querendo se esconder.
- Hm, sério? E você mora aonde? – perguntei.
- Nova Orleans, Luisiana – começou.
- Ah, Estados Unidos! Morei sete anos por lá – me intrometi – Mas sabe, nem ficando quatro anos em Miami eu consegui ficar bronzeada como você – tive que destacar o fato da sua pele ser mais corada que a minha.
Ela deu uma risada considerável e eu senti vontade de acompanhá-la. Porém Paige não pôde me responder.
- Está chovendo? – ouvi a voz de perguntar em tom de riso, consideravelmente alto.
Eu e a garota assim viramos para ver o que estava ocasionando risadinhas.
- O que houve com você, Zoe? – perguntei então, não ligando se por segundos eu teria me destacado para todo o grupo ali na sala. Minha amiga estava com o cabelo úmido e com respingos de água em sua blusa e calça.
A garota passou a mão no cabelo e revirou os olhos. Eu podia notar que ela estava prestes a surtar.
- Foi o... – passou a mão pela blusa e foi interrompida por um garoto que chegou correndo pela sala, sem nenhum
CD em mãos, e cruzou a sua frente, também, com respingos de água em sua roupa e cabelo.
- O bicho no seu banheiro, Thomas! – disse , recebendo olhares psicopatas de Zoe.
- Bicho no banheiro? – perguntou com um sorriso sarcástico aos lábios.
- , você não tinha ido até o meu quarto? – Tom então perguntou.
O garoto passou a mão pelo cabelo, sacudindo a água de lá, fazendo Zoe se afastar com nojo.
Pobre Tom, de alguma forma ainda era inocente. Parecia tão óbvio para mim.
- Eu fui, juro que fui. Mas então eu ouvi a garota gritar da porta do banheiro, me chamando – explicou-se.
Não pude me manter calada, soltei uma tossidinha fingida. Aquilo fez rir e Zoe me olhar indignada.
- Não é verdade? – voltou-se para a garota, calada – Tinha um bicho e...
- Molhou vocês com o chuveirinho! – então completou a frase de antes, fazendo assim todos voltarem à atenção para a sua idéia – Ok, desculpe – parou qualquer possível crise de risos e indicou as duas pessoas molhadas logo à frente, para continuarem a história.
Eu coloquei minha mão sobre meus lábios, queria rir. Mas Zoe estava me fuzilando com o olhar.
- Digamos que ele não é a melhor pessoa para se chamar no caso de insetos e coisa do tipo – a garota falou.
Até mesmo se aquilo fosse uma farsa, conhecendo , descobriria que não era a pessoa indicada mesmo.
- Fletcher, vou te dizer uma coisa – então seguiu até o balcão da cozinha – Dedetize o seu apartamento, amigo. Aquela barata era enorme! – disse com tanta convicção, que se não conhecesse a sua própria cara de pau e capacidade de mentir, eu acreditaria.
- Eu dedetizei antes de vir morar aqui, , e isso não faz nem quatro meses – Tom falou, com um tom de voz de quem joga uma verdade na cara da pessoa por prazer.
- Então não fez efeito! – agiu com descaso, sacudindo os ombros, agora tateando o lado interno do balcão – Mas esquece. Vamos comer? – ele então se virou para a sala com dois pratos ao ar e encarou todos ali como se Zoe e ele não estivessem molhados e Tom não tivesse acabado de desbancar toda a sua mirabolante história.
Era isso que eu gostava em . Exatamente isso.
- Traz pra cá, garoto – enfim largou o jogo e ajeitou-se ao tapete da sala.
Ah, o efeito da comida (leia: doce)...
- Mas eu ainda não consegui passar daquela fase. Sempre quando eu tento, acabo morrendo na última hora ou desistindo na metade – explicava a sobre algo difícil de se fazer ao jogo que ele estava jogando minutos atrás no apoio de e Tom, enquanto o garoto estava no banheiro possivelmente tentando matar uma barata.
Todos estávamos ali, sentados calmamente, com a segunda melhor desculpa que havia conseguido empurrar: a comida. E eu realmente ainda não sentia fome, mas me via obrigada a comer.
- Que frustrante, cara – respondeu ao amigo, empurrando um grande pedaço de torta para dentro de sua boca – Mas eu nunca consegui passar da primeira fase, então não posso te ajudar – riu de boca cheia.
Zoe, sentada ao meu lado no sofá, bufou forte, me fazendo olhá-la. Seu cabelo ainda estava úmido.
- Será que dá para parar de falar sobre vídeo game? – falou alterada. Mas logo recebeu um chute meu ao seu pé. – Por favor, claro – completou agora com um sorriso.
Ainda estava tentando fingir. Encenar que aquela era a primeira vez que via Tom e a minha frente.
Quando somente Paige e eram estranhos.
- Ah, que seja – olhou com descaso para a garota – Do que é feita essa torta, Tom? – e mudou o assunto drasticamente. Como eu ressaltei, comida era uma ótima desculpa.
- Hm, não sei ao certo – olhei interessada para Tom – Morango, acho – ele disse.
Aquilo pareceu sair como um fino agudo aos meus ouvidos, assim não me importei se estava ou não tentando chamar a atenção de todos na sala, os pedaços de torta, que eu já havia ingerido, se mexeram feito peixes em um aquário, ao meu estômago enjoado.
O esforço então não parecia tão ardo, eu cuspi o pedaço que estava mastigando, sem dó, ao chão.
Pude escutar um resmungo de Paige, sentada ao meu lado também, mas não me importei naquele momento. Somente passei a mão por meus lábios, buscando limpar qualquer resquício, e ergui minha cabeça podendo agora notar o estrago ao tapete da sala e, por assim ser, os olhares surpresos sobre mim.
Meus olhos lacrimejavam e meu coração batia desacelerado pelo susto. Todavia eu não havia vomitado.
- Tudo bem, ? – Zoe, prestativa, me empurrou um copo de água em mãos.
O segurei e ajeitei meus cabelos, em seguida ingerindo seu conteúdo. Estava bem.
- Ela é alérgica a morangos – explicou a , que olhava assustado (leia: com nojo), assim como o resto, inclusive Tom e , que eu julgava que deveriam saber, e levantou do seu lugar.
- Como eu não lembrei disso? – Tom então me olhou preocupado e eu o vi largar seu prato sobre a mesa.
- E como você ia saber, Fletcher? Você nem a conhecia para saber da alergia – disse.
As palavras não agradaram os meus ouvidos e a resposta do meu sistema nervoso, alterado, foi imediata.
A água que eu estava entornando, parou ao meio do trajeto e assim eu repeti o meu, porco, ato de cuspir.
- O que houve agora? – perguntou ligeiro, gritando. Por pouco não tinha sido atingido por todo o jato da bebida.
- Me desculpa – empurrei o copo para Zoe e me aproximei de meu namorado, que havia sentado a mesinha de centro, pelo susto - Me desculpem! – me referi agora, aflita, ao resto do pessoal.
Eu deveria estar da cor da blusa da garota ao meu lado. As maçãs de meu rosto estavam ardendo e eu gostaria de enfiar a minha cabeça em um buraco. Havia quebrado a minha meta de não chamar a atenção.
- Aonde eu arrumo algo para limpar a bagunça que fiz? – levantei apressada do sofá.
- Na cozinha... – vi Tom levantar – Mas deixa que eu mesmo limpo. Foi um acidente e minha culpa – disse.
- Não! Eu limpo – o respondi, passando por , e tomando a sua frente.
- Deixa, então, eu pelo menos te ajudar – respondeu sem graça, vindo atrás de mim.
Olhei Zoe jogar um guardanapo ao tapete da sala, voltando sorridente para Paige e para o seu prato de torta, e percebi passar, indicando que iria ao banheiro. Eu quase havia lhe dado um banho de água. Assim observei e , novamente conversarem, como se nada tivesse acontecido, e então admirei minhas mãos, apoiadas ao balcão branco da cozinha, que separava o cômodo da sala de estar, e girei para o seu interior, encontrando à minha frente algumas fotografias grudadas com ímãs à geladeira.
Não tinha uma garota (leia: possível namorada). A família do garoto continuava a mesma.
- Me desculpe por não ter lembrado dos morangos – Tom falou, abaixado, procurando algo aos armários que ficavam abaixo da pia.
- Sem problemas, você não tinha o dever de lembrar – passei as mãos por meus braços. Eu me sentia insegura por estar sozinha com ele, mesmo que logo atrás todos estivessem conversando. Alguma parte de mim desejava dialogar e estar da forma que estávamos, mas outra metade desejava mais do que tudo pegar o pano, que ele procurava, e logo ir embora de sua casa. Em outras explicações, era angustiante estar tão próximo e mesmo assim tão longe – Eu que devo pedir desculpas por ter sujado e molhado o seu tapete – disse.
- Não foi nada, eu posso limpar – assim ele levantou, finalmente fechando os armários – Mesmo depois de meses eu ainda não me sei aonde guardo coisas, como material de limpeza – e, mudando de assunto, me entregou um pacote de panos multiuso da cor azul.
Eu ri, mas não quis continuar uma conversa. Tratei de abrir o pacote.
- Ainda não acredito que você está aqui, na minha frente, na minha casa – falou, com um sorriso aos lábios.
O seu tom de voz era normal, de quem até demonstrava estar satisfeito. Mas eu não conseguia tê-lo tão próximo e ainda escutar aquele tipo de coisa. Já estava desconfortável, não necessitava ficar mais ao ponto de tremer. Tom me desconcertava, mas tudo o que eu queria era revidar o sorriso e falar que eu também, de alguma forma, estava feliz em revê-lo.
Mas não, eu não sorri por gratidão. Eu me irritei com o plástico da embalagem de panos.
- Tudo bem, eu abro para você – assim arrancou o pacote de minhas mãos.
- Me desculpe, Tom – suspirei ao vê-lo, com mais facilidade, abrir o que me incomodou.
Sentia-me frustrada comigo mesma, eu era tão fraca e medrosa. Encontrava na mentira uma melhor escapatória e deixava os meus verdadeiros sentimentos e ações serem escondidos. Envergonhava-me. Gostaria de falar normalmente com o garoto, sem sentir desconforto. Queria lhe contar o porquê das minhas atitudes, queria fazer o que realmente gostaria de fazer e assim me sentir mais à vontade. Ah, queria tanto lhe abraçar. Mas aquela parecia a melhor saída para a situação estranha que me encontrava. Silêncio.
Ele sorriu. Aquilo então me levou a fazer o mesmo com segurança. Tinha também, além de pedir desculpas, que agradecer por ele ter fingido para me ajudar, sem ao menos entender realmente o porquê de tudo.
Deixei minha mão se movimentar lentamente sobre a pia, se aproximando da onde a lateral do seu corpo estava apoiada. Pensava se realmente eu podia chegar mais perto. Porém...
- Arrumou algo para limpar? – apareceu ao outro lado do balcão, me assustando.
Eu olhei para ele e voltei-me para Tom.
- Aqui está! – ele retirou um do pacote rápido e me deu.
Sorri, recolhendo minha mão e pegando o pano.
- Obrigada - afastei-me então, sem fazer o que já tinha quase certeza.
Não seria agora que eu relembraria a sensação de abraços à cozinha.
Dei a volta ao balcão e encontrei com os braços de , que me guiaram até os sofás. Enquanto Tom permanecia à cozinha, na mesma posição. Só que agora olhando o vazio que eu havia deixado a sua frente.
Aquele poderia ter sido um momento ideal para eu pelo menos ter lhe falado algo, das tantas coisas que eu havia gasto noites pensando enquanto estava em Miami idealizando a minha volta. Podia também ter apenas feito o que eu gostaria. Abraços não tiravam pedaços, ao contrário, sempre achei que eles completavam vazios.
Mas na verdade me sentia tímida, imatura ou somente desprotegida. Tendo Tom tão perto eu revivia a sensação boba de vê-lo pela primeira vez. E de alguma forma aquela era como se fosse à primeira vez. O momento que eu havia lhe visto cruzar a lataria do carro e aparecer tímido aos meus olhos curiosos, ao outro lado da cerca, carregando um case em mãos e escondendo o seu olhar sobre o tecido de uma touca.
Bom, quem sabe até tivesse sido melhor não tê-lo tocado. Eu relembraria coisas demais. Ainda mais.
Capítulo 06
Eu deveria estar pensando nas plantas que teria que repassar para Jamie na segunda e nem ao menos havia tido tempo, ou melhor, concentração para olhar com calma. Devia estar pensando em detalhes para melhorar o meu relacionamento com , que já estava rotineiro demais. Ou até podia estar pensando em coisas banais como minha urgência em visitar uma loja com roupas decentes e sapatos compráveis. Mas eu não pensava em nenhuma das responsabilidades, preocupações ou superficialidades que deveria. Eu estava apenas deitada naquele divã preto, escutando o barulho de água escorrer pelo o vaso sanitário, com a descarga estragada, em uma das cabines daquele banheiro azulejado em preto e branco, com aparência limpa e aconchegante, que tinha um teto incrivelmente branco e atraente ao meu estado desligado. Mas que mesmo assim era um banheiro de uma casa noturna e não um consultório de psicanálise.
Eu estava aparentemente cansada, na verdade, insatisfeita com a minha (vida?) rotina. Minha única ocupação, aquela altura em que estávamos, era trabalhar; e a única distração que eu possuía, e podia chamar de lazer, era conversar com Zoe. Não tinha o que e nem onde extravasar, já estava cercada por coisas habituais. Assim, eu me sentia envolta numa saudade, numa nostalgia que até pouco tempo nem era tão forte ou nem aparentava existir. Eram tempos de Nova Iorque. Tempos em que eu saia quase todos os dias, nem que fosse para jantar no restaurante da esquina com Maisie ou passear no Central Park, na hora do almoço, para um sanduíche com meu namorado. Sentia saudade da espontaneidade, do modo de como costumava ser por lá.
Mas também, vai ver, nem era o que se podia chamar de saudade. Sabia que estava mais para uma desculpa.
Talvez, se as coisas fossem como costumavam ser, eu não me sentiria tão culpada em, por exemplo, pensar no que havia acontecido na noite passada.
Fechei os olhos e coloquei ambas as mãos, em forma de concha, sobre meu rosto. O aparente escuro deixava-me ver melhor a cena que martelava em minha cabeça, já por horas.
Estava sentada no sofá tentando não transparecer que me encontrava irritada. Bom, não dar o braço a torcer apenas para as paredes, pois não havia ninguém em casa a não ser eu. Havia recebido uma ligação de , da casa dos pais, onde ele estava jantando, me avisando que a qualquer momento alguém, em função da banda, passaria em nossa casa e largaria algo que ele havia esquecido nos estúdios. Pois é, em nossa casa, coisa que ele também havia esquecido. Ele não tinha pensando em me chamar e ignorou totalmente o fato de que eu poderia estar o esperando.
Tudo bem, eu não faria aquilo. costumava chegar, às vezes, tarde em casa e eu já estava acostumando a não criar expectativas de nos falarmos antes de dormir. Ele aparentava não se importava mais e aquilo vinha intensificado no último mês.
Até que a campainha tocou, me despertando do diálogo que imaginava ter com o garoto se ele chegasse em casa e eu ainda estivesse acordada. Mas sabia, provavelmente não aconteceria. Então não dei bola para o que estava pensando em falar e rumei até a porta para pegar o que havia esquecido. Àquela hora só podia ser, e só estava esperando, a pobre pessoa que viria entregar o que meu namorado precisava.
Não tinha o costume de olhar ao olho mágico antes de girar a maçaneta, então o fiz. Eu só queria pegar, seja lá o que fosse, e ir para o banho. Necessitava da água quente da banheira para acalmar a rejeição daquela noite.
Mas então em um simples abrir de pálpebras eu congelei. Agradeci por estar segurando a madeira da porta, minhas pernas deram um rápido balançar e no instante em que realizei quem era a pessoa, por debaixo do capuz daquele casaco preto da Volcom, eu esqueci que estava irritada com o fato de ter fingido que eu não me importava com a sua família ou que eu gostaria de entrar ao banho para ter mais um momento de reflexão e autopunição com meus pensamentos, que ultimamente, além de nostálgicos, estavam me levando também para o caminho da culpa.
- Pensei que eu encontraria o - escutei a voz da pessoa literalmente tremer, assim como a minha barriga – Ah, mas é claro, idiota, você deve morar com ele – concluiu, assim que a sua mão parou de fazer movimentos exagerados, e do tapa em sua testa, voltou a se posicionar calma ao lado do seu corpo.
- O-oi Tom – demorei a acreditar, mas voltei a piscar.
- Oi – disse puxando o capuz e deixando-me reparar melhor em seu rosto.
Não estava esperando que a pessoa que mencionara fosse Tom. Bem, talvez nem ele soubesse.
- Quer entrar? – então perguntei, vendo que podíamos ficar longos minutos nos olhando ao capacho da porta.
E eu sabia que não devia ter feito justo aquela pergunta. A sua presença me alterava e eu realmente não precisava tê-lo próximo, em carne e osso, e a minha frente, porque infelizmente ele estava a cada dez minutos perambulando em meus pensamentos. Ato totalmente irritante, tinha consciência, mas que vinha se repetindo cada vez mais. E bom, também tinha o fato das boas maneiras serem gritantes. Querendo ou não, eu tinha que me lembrar que Tom já havia me recebido em sua casa. Então era chegada a minha vez.
Percebia agora o quanto aparentava ser assustador ver tal pessoa passando por sua porta. Tinha assim a idéia do que o garoto podia ter sentido a me ver em seu apartamento. Era totalmente aceitável barrar a entrada.
Mas se ele havia levado naturalmente, ou pelos menos aparentado, a minha visita, eu também teria, deveria, fazer o mesmo.
- Surpresa ver você aqui – não arrumei coisa melhor e mais rápida, que passou por minha cabeça, ao lhe ver parado de pé, calado e observando o hall da casa.
- Surpresa até mesmo para mim – deu uma risadinha – Geralmente a essa hora eu já estou em casa há um tempo. Mas eu fiquei um pouco mais nos estúdios, para usar o piano, então quando eu acabei, percebi que estava tarde e praticamente sozinho no lugar – me explicou, sendo que eu nem queria saber.
- Então você foi o quotado para se despencar até aqui somente para trazer o que o esqueceu – deduzi.
- Na verdade não despenquei, fica no caminho para a minha casa – o garoto explicou outra vez e eu realmente não precisava me sentir idiota na sua frente. Havia esquecido o fato de ele morar uma zona acima.
- Ah claro – sorri – E er, bem, essa pasta aí é o que você veio trazer? – apontei para o que ele segurava em mãos.
Queria o despachar logo. Minha barriga tremia, assim como os meus joelhos, e aquilo me incomodava.
- É sim – ele então pareceu acordar de um transe, e como se a pasta fosse um bicho, a impulsionou rápido para que eu a pegasse – É o que o vai precisar para ensaiar, também em casa, para o nosso showcase – me respondeu, mais uma vez, sem eu ter perguntado.
Parecia que ele estava tentando se esforçar para manter uma conversa.
- Ah sim, o show. Vocês já têm músicas prontas? – perguntei.
Queria o ver ir embora, mas em outra parte eu queria demonstrar que também não me abalava com a sua presença.
- Algumas – sorriu – Quase todas aquelas que eu tinha quando namorávamos – disse.
Engoli em seco e ele então, percebendo, parou imediatamente de sorrir.
- Você quer sentar, Tom? – perguntei e, ao mesmo tempo, admirei o que havia acabado de sair de minha boca. Era totalmente ao contrário do que eu queria, do que o meu intestino enjoado desejava.
Não era capaz que agora eu nem mesmo possuía mais controle sobre o que falava.
- Tem certeza que eu não estou incomodando? – ele perguntou, devia sacar que aquela situação era constrangedora para nós dois.
- Magina! – sorri.
Eu sorri? Putaquepariu. Fato, não, fatão, eu não estava mais sob controle.
Quatro semanas haviam passado voando desde aquele último final de semana anônimo de e seus companheiros de banda. Um mês que eu havia reencontrado e visto Tom em sua casa. Tempo suficiente para se tornar um pouco mais ocupado, para eu superar a vergonha ocasionada pelo o que eu havia protagonizado à sala do garoto e para Zoe aparentemente esquecer do que havia acontecido ao banheiro. Mas não o suficiente para eu apagar as sensações ridículas que eu senti.
Completaria já um mês que eu não o via, mas agora tudo havia ido para os ares. Ele estava ali, sentado à minha poltrona, e eu logo teria mais uma cena para relembrar.
- E você vai ao show? – perguntou. E era também uma resposta bem óbvia. Mas o esforço era evidente.
- Claro – sorri, apertando minhas mãos aos joelhos.
- Legal – disse, sacudindo a cabeça como se estivesse satisfeito.
O que viria agora, silêncio? Estava na cara. Eu não me sentia a vontade para puxar assunto com o garoto. Do que iríamos falar? Não tínhamos um presente, ele era apenas, por acidente, o companheiro de banda do meu namorado. E o passado, esse com certeza não era agradável de se falar, justo com ele. Eu, pelo menos não queria mencionar.
- Bonitas fotos – comentou, me levando a parar de prestar atenção e tentar buscar assunto no esmalte descascado de minhas unhas.
Ri nervosa. Era ainda mais desconfortável ver Tom admirando fotos que eu havia tirado com . Sorrisos e risadas que não haviam sido provocadas por ele. Momentos felizes que deviam o incomodar e assim fazê-lo ignorar e não sorrir como ele fazia.
Por favor, ele também era chegado em autopunição?
Gostaria, naquele momento, que meu cérebro colaborasse, era preciso pelo menos um assunto útil, se eu não podia levantar e simplesmente o mandar embora porque o seu olhar sobre as fotografias estava me deixando nervosa. E o silêncio só tornava tudo duplamente constrangedor, alguém tinha que falar ou se mancar e ir embora logo.
- Às vezes eu pensava em você - ele falou, enfim voltando a sua atenção para outro ponto da sala, a escada.
E se ele tivesse escolhido os meus olhos não sei se ouviria aquilo e ficaria calma, como eu fiquei.
- Parecia que você ainda estava prestes a voltar a qualquer momento, mesmo eu tendo consciência de que aquela carta teria acabado com qualquer sonho seu de retornar ao Reino Unido – era ótimo que ele sabia – Mas mesmo assim eu me pegava achando que você ainda estava por lá, idealizando, e que voltaria – disse.
- E então você deve estar querendo chegar ao ponto de que eu voltei e que é totalmente estranho ver as circunstâncias que fomos nos reencontrar – talvez depois de tempos Tom e eu ainda pensávamos igual.
- Circunstâncias bem inusitadas – ele arqueou as sobrancelhas, logo as abaixando.
- Ou seja, loucura o namorado da minha ex vir dos Estados Unidos só para prestar um teste para a minha banda e eu o escolher sem nem ao menos saber que ele estava trazendo consigo a garota que anos antes dizia que voltaria a Londres somente por minha causa – falei aquilo embalada pelo assunto que tínhamos iniciado, cortando qualquer vírgula que deveria existir.
- Acertou! – ele deu uma risada, do tipo que estava surpreso por eu o interpretar certo.
Sentiria-me então envergonhada. Tudo bem, senti minhas bochechas esquentarem, mas havia falado uma das coisas que passavam em minha cabeça, quando imaginava um diálogo como aquele.
Diálogo que não era com , mas que seria totalmente útil para eu me livrar de algumas palavras entaladas em minha garganta.
- Mas queria deixar claro, se você chegou a pensar ou ainda pensa, que isso é uma espécie de vingança, logo que ficou sabendo que eu era namorada do , pode ir esquecendo. Nós dois termos nos reencontrado nessa situação, realmente foi uma coincidência – queria aproveitar o embalo do assunto e a coragem que havia ganhado, ao acertar o que o garoto pensava e fazê-lo rir, e deixar, até coisas absurdas que eu pensava, bem claras - Só não sei se infeliz... Ou feliz – enruguei a testa, completando.
Assim aquele estava parecendo o momento ideal para eu falar tudo que pensava e queria. Diferente do dia da reunião, a sua cozinha. Para falar a verdade, bem diferente. Agora eu não gostaria de abraçá-lo e lhe contar coisas curiosas e românticas do tempo que eu morava em Miami. Era ao contrário, eu só queria despejar um pouco das minhas frustrações e suposições em cima de Tom. Necessitava daquilo mais que um banho então.
Ele ficou calado, ainda olhando para a escada, só que agora sem sorrir, talvez procurasse palavras certas para falar ou realmente não tinha o que achar. Talvez eu o tivesse envergonhado ou ele estava rindo por dentro, por pensar que ser o seu colega de banda fosse, por um momento, um modo de eu me vingar. Talvez. Não sabia o que se passava em sua cabeça que o mantinha tão hipnotizado aos degraus da minha escada.
- Eu nunca até então tive a oportunidade de falar sobre aquela carta. Bem, por todo esse tempo eu nem ao menos tive a oportunidade de te ver, não é? – ele riu, então finalmente olhou para mim. Não preciso dizer que eu queria empurrar o seu rosto de volta para a escada – Agora que você está aqui, na minha frente, eu me senti na obrigação de, pelo menos, te dizer um sinto muito. Um sinto muito por tudo, tudo que eu devo ter ocasionado na sua vida com aquele simples pedaço de papel – e então ele abaixou o seu olhar. Agradeci.
Não sei se foi algum efeito colateral de ter o brilho do seu olhar sobre mim por poucos segundos, o arrepio que percorreu a minha espinha e me fez encostar a guarda do sofá ou apenas o resultado da raiva que sentia, antes, de e que agora se juntara a que sentia por Tom, ao me fazer lembrar de tudo que a sua insignificante carta havia me feito chorar. Se o assunto não tivesse chegado até ali, teria o achado agradável.
- Tudo bem, Tom. Eu já superei aquilo que estava escrito na carta e muito obrigado por você ainda lembrar e me pedir desculpas – confesso que tremi um pouco na fala – Mas eu realmente acho que essas desculpas estão fora do prazo de validade. Sabe, o tempo de pedir por elas já ultrapassou o limite. Eu te dei, mentalmente, quase um ano para você escrever outra carta e me mandar, ou até mesmo me telefonar pedindo perdão. E até as aceitaria se tivessem vindo até o término da minha faculdade – agora consegui colocar sinceridade em minhas palavras. Estava o olhando, mesmo que ele preferisse o tapete – Mas você não me mandou outra carta, não me ligou e nem ao menos foi à Flórida e me procurou. Você preferiu deixar tudo por aquele pedaço de papel. Não ligou para o que eu poderia ter sentido ou pensado naquele período. Então agora, depois de sete anos, você está na sala da minha casa e vem me dizer que sente muito... Não sei, mas, de alguma forma, essas palavras não possuem mais significado algum – suspirei alto, em sinal de que havia acabado e falado muito mais do que estava planejando.
Mas as suas desculpas possuíam significado, eu quero era a mentirosa.
Olhei ao redor da sala, eu não queria chorar. Derramar lágrimas era coisa para fracos e eu queria ser forte.
- Tudo que eu tinha certeza que sabia, voou pela janela no instante em que eu li aquela carta – senti que precisava dizer mais coisas que estavam entaladas. E Tom parecia não querer usar aquele período de tempo para se expressar – Eu idealizava, desde que o deixei naquele saguão de aeroporto, que eu acabaria a minha faculdade em exatos quatro anos e voltaria instantaneamente para Londres, para continuar da onde paramos. Mas um pouco mais decididos e fortes – disse – Grande enganação! Eu pensava em tudo, Thomas, mas nunca que você fosse acabar comigo, e, ainda por cima, por simples linhas inexplicáveis, insignificantes e burras! Pensei que nós seriamos para sempre você e eu, mas então aconteceu o que eu temia. E demorou a cicatrizar – cada palavra que eu falava e pensava agora, era como cutucar com o dedo a casquinha de uma ferida. Mas ele mesmo havia iniciado um assunto incomodativo. Assim eu só via a chance para expulsar um pouco do que eu idealizava falar e que me incomodava – Bom, eu consegui esquecer que você me magoou profundamente e eu acho que o tempo mesmo tratou de pedir desculpas por você. Mas se de alguma forma pedir desculpas agora, faz você se sentir melhor, eu as aceito, Tom. Realmente não importa mais – e com certeza havia muito mais para eu jogar para fora, mas eu não queria parecer uma sofredora reprimida, que andou por anos remoendo todos os simples atos alheios. Algo teria que ainda ficar guardado.
E as desculpas, mesmo atrasadas, estavam valendo até demais. Eu era realmente mentirosa.
Levantei do sofá quando senti que não iria cambalear.
- E se você não tem mais nada para me dizer e me entregou o que tinha que entregar, eu acho que você já pode ir – assim esqueci das boas maneiras de logo cedo. Com certeza a entidade que tinha feito com que eu deixasse Thomas entrar e o perguntasse se queria ficar um pouco mais, tinha deixado o meu corpo.
Já sentia até a coragem ir embora, quando o vi se mexer imediatamente no sofá.
- Eu não sei como eu deixei tudo escapar quando eu ainda sabia que você era o certo para mim – disse, ao levantar da poltrona e assim passar decido por mim, sem me olhar aos olhos, e buscar a saída.
Não achei nenhuma palavra que pudesse dizer ao garoto, eu só o ouvi bater a porta.
Tudo muito depressa.
E assim sentei outra vez ao sofá, se pudesse definir, em choque. Eu possuía tanto rancor assim?
Tomar o controle da situação na noite passada e ver uma bela oportunidade para expulsar algumas coisas que enchiam a minha cabeça, causando tormento, não havia sido, no geral, uma boa idéia. Tudo bem, na hora eu aparentava me sentia melhor a cada palavra dita, ignorando o fato da minha voz sair falhada e minhas mãos estarem trêmulas, eu estava falando o que eu queria falar. Senti-me mais leve.
É, mas a leveza realmente não durou muito além. Na verdade, ela passou poucos minutos depois de eu escutar a porta fechar. Thomas havia, mais uma vez, e agora eu nem ficava mais surpresa, conseguido me deixar desligada, arrependida e ao mesmo tempo com remorso, envolta em conversas e ações acontecidas com ele.
O que significava a sua última frase? Aquilo martelava em minha cabeça e, como um disco arranhado, eu só ouvia as suas últimas palavras em um rompante, ecoando por meu ouvido. Ele não sabia como tinha me deixado escapar... Isso queria dizer que ele se arrependera em algum momento do percurso? Ou ele ainda estava arrependido? Falara que eu era o certo para ele. Aquilo com certeza foi o que me fez perder a noção de tempo mergulhada na água da banheira, até ela ficar fria, naquela noite.
Mas eu tinha um pouco de noção que aquilo era tolo. Só conseguir me manter concentrada em Tom, tornando todo o resto chato e tedioso, a não ser ele, e sem saber o modo de acabar com aquilo. Sim, eu ainda tinha semancol e percebia que estava agindo como uma adolescente com um platônico, por ficar relacionando tudo ao garoto. Eu era adulta agora, por mais que estivesse difícil de enxergar, por volta das atitudes idiotas. Eu tinha que parar de me sentir enjoada e mole a sua frente, tinha que parar de exercitar aquelas memórias, tinha que acreditar que minha imaginação podia ser contida. Eu não queria mais me desligar ou me sentir culpada. Era uma sensação horrível pensar que estava traindo por puros pensamentos com outro homem.
Mas ainda assim aquilo se repetia, Tom podia ainda gostar de mim? Ou mais grave, eu estava gostando outra vez?
Eu estava perturbada psicologicamente e a dor de cabeça delatava.
- , o que você pensa que está fazendo? – ouvi a voz chocada de minha amiga. Com certeza ela estava com o seu olhar incrédulo, depositado sobre mim, e suas mãos deviam estar à cintura – ! – ouvi outra vez. Agora ela devia estar parada ao meu lado, percebia a presença.
- Me deixe ficar em paz com os meus pensamentos conturbados, Zoe – falei, ainda com a cara coberta pelas mãos. Tinha noção que ver aquilo, pelos olhos de outra pessoa, pareceria totalmente vergonhoso. Mas e daí?
- Ah, por favor, ! – ela gritou. Podia estar indignada, pelo tom de voz, mas não me abalava.
- Eu estava muito bem sozinha, só ouvindo o barulho da água do vaso sanitário – falei.
- Você tem noção de que está deitada no meio de um banheiro e que qualquer pessoa pode entrar aqui, olhar para você e achar que está drogada, bêbada ou simplesmente é louca? – perguntou, mas sabia a minha resposta – Eu não consigo acreditar que você está aqui, deitada, agindo como se fosse uma criança, enquanto o seu namorado está prestes a subir naquele palco! – obrigada Zoe, por me lembrar.
Retirei as mãos de meu rosto, agora podendo notar a garota justamente como imaginei. Ao meu lado, com um olhar penetrante, parecendo reprovador, e com as mãos à cintura. Faltou bater o pé ao chão, mãe.
- e e Tom. E Tom! Tom, Tom, Tom... – repeti – Por favor, Zoe, me deixei ficar no banheiro – pedi.
Ela até pareceu olhar-me com pena, mas tinha noção de que pena era o que ela menos sentia.
Eu tinha a trazido até aquele sobrado na Tottenham Court Road e agora estava no banheiro, tentando fugir da realidade que era olhar para o palco e imaginar Tom logo ali. E , claro.
- Óbvio que não vou deixar – ela segurou em minhas mãos e me puxou – Você me fez sair de casa, depois de quase chorar ao meu quarto, implorando para que eu te acompanhasse. Então agora você resolve ter uma crise e me deixar sozinha naquela mesa com a Paige! – gritou.
- Você não sabe o quanto é difícil olhar para ele – disse, agora sentada ao móvel – Não vou conseguir.
- Por favor, , não seja infantil ao extremo – ela revirou os olhos, me forçando a levantar.
Gritava demais, agia demais como minha mãe, irritava-me e piorava a minha dor de cabeça. Mas dei-me por vencida e a acompanhei, cambaleando, até o lado de fora daquele banheiro de aparência tão aconchegante.
Coloquei o queixo por cima do seu ombro, apenas para buscar apoio.
- Você não sabe o que aconteceu ontem à noite... – iniciei ao seu ouvido quando passamos pelo bar.
"So I told you with a smile
It's all about you"
Mas Zoe não perguntou o que havia acontecido, para eu poder lhe contar. Ela suspirou forte.
- Olha aí, , eles já entraram no palco – então eu fui obrigada a desencostar o meu queixo do seu ombro. Ela segurou com ainda mais firmeza a minha mão e me puxou, assim como andou, rápida em direção a mesa, só que agora com mais facilidade, sem fotógrafos ou menininhas chatas ao caminho, como antes eu havia encontrado para ir até o banheiro.
- Faz muito tempo que começou? – ela perguntou a Paige, logo que largou minha mão para poder sentar.
Mas eu não olhei para a garota esperando a sua resposta, porque realmente não importava se eu havia ou não perdido muito daquele show. O som ficou imperceptível por segundos, quando eu encontrei Tom logo a frente, acompanhado de um violão e parecendo totalmente concentrado em sua música. As luzes lhe caiam bem, aquele tom de azul ou violeta, sobre a sua face e camisa da cor branca, fazendo desenhos enquanto a sua cabeça balançava devagar, e de olhos fechados, abria e fechava a boca, cantando.
Não havia passado nem cinco minutos que eu implorara para não sair do banheiro e encará-lo e agora estava hipnotizada por seus movimentos. Tom era assim, aquela pessoa que se tornava tolo pensar sobre, que chegava a ser perturbador pensar sobre. Mas que quando você tinha a chance de vê-lo ou até mesmo ouvir alguém falando sobre ele, seu corpo estremecia e qualquer outro pensamento parecia estacionar, para pensar somente nele. Assim você só parecia se importar em absorver o tal momento, ao mesmo tempo em que ficava nervosa da ponta do nariz até os dedos dos pés, e sem saber como agir, só respirar.
Era idiotamente divertido e às vezes inversamente proporcional pensar em Tom.
- Alô, terra chamando... – senti um cutucão ao braço e então olhei para Zoe, incomodada.
Ela somente indicou, com a cabeça, o palco e eu compreendi o gesto. Tinha outro alguém que merecia atenção.
também estava ali e as mesmas luzes dançavam sobre ele, enquanto tocava. Mas agora eu podia ouvir a música voltar aos meus ouvidos. Ele parecia não ter mais a mágica de fazer o meu mundo entrar em câmera lenta. Contudo, o olhando em cima daquele palco, algumas memórias de Nova Iorque apareceram como um relâmpago em minha cabeça. costumava tocar em alguns bares na cidade, claro, com outra banda, e eu sempre o acompanhava, mais empolgada, à platéia. Costumávamos ser unidos por lá...
O encarei e ele sorriu, porém não senti nenhum calor ao peito. Preocupante, assim como o que eu pensava em lhe contar a cada minuto em que estávamos por perto e o silêncio reinava. Parecia que certa angústia sairia de meu peito se eu lhe falasse que já conhecia Tom e que, ultimamente, eu estava pensando demais nas circunstâncias em que nos conhecemos. Mas só parecia, eu não fazia, por medo de piorar ao invés de ajudar.
"And I would answer all your wishes
If you asked me too"
e estavam ali também, mas era como se tivesse um bloqueio e eu não pudesse prestar atenção em seus movimentos. Eu me via obrigada a olhar para a pessoa que estava em destaque na música. Seus dedos dedilhavam com segurança pelas cordas do violão, mesmo que ele estivesse ainda com os olhos fechados. E aquilo era até encorajador, me dava mais liberdade para olhá-lo sem sentir vergonha.
O som calmo da música acústica estava me fazendo ficar melhor, até esquecia da dor de cabeça.
"But if you deny me one of your kisses
Don't know what I'd do"
Mas como as coisas em minha vida não pareciam durar por muito tempo, eu mal tive a oportunidade de deixar meus pés sacudirem ao ritmo da música. Tom abriu os olhos e, como se ele soubesse, depositou o seu olhar justo sobre a mesa em que estávamos, justo sobre mim. Adeus toda a leveza, esquentei repentinamente.
E eu não consegui lhe encarar por mais de alguns segundos, a dor de cabeça voltou com força. Então o mogno da mesinha, em que estava sentada, foi escolhido para receber a atenção que eu não podia mais dividir entre e ele. Era melhor não excluir apenas um, preferia excluir todos de uma vez.
"So hold me close and
Say three words like you used to do"
Só que não olhando para o palco, eu me via mais concentrada em escutar a música que eles cantavam. E certas palavras dela não caíram bem aos ouvidos, já que os meus pensamentos estavam levando tudo para um lado fantasioso e, muitas vezes, errado.
"Dancing on the kitchen tiles
Yes you made my life worthwhile"
Panquecas, risadas, Star Wars e beijos invadiram a minha cabeça. Cozinha me lembrava exatamente aquilo. Chuva me recordava dançar em meio a poças e mostrar a Tom que não éramos de manteiga, que lembravam rodopiar em sua cozinha para relaxar as coisas e fazer surgirem risadas, em uma noite em que seus pais foram viajar e ele havia me convidado para fazer absolutamente nada.
Frasezinhas prontas e ceninhas enjoadas caíram direto em meu estômago, sim estômago, borboletas haviam sido acordadas junto com as memórias. E era tão enjoado enxergar ao lustroso mogno, que estava sendo salpicado de luminosidade violeta, cenas de quase adormecer ao sofá, enquanto de longe se podia escutar falas dos personagens a televisão ou brigar por comida na diversão de ver alguém irritado. Cada minúsculo detalhe que completava a frase que o garoto cansava de sussurrar aos meus ouvidos. Fazer a vida valer a pena era escolher ver um filme chato, apenas para ficar ao lado de quem se gosta, era acertar um beijo ao ouvido da pessoa logo de manhã e a fazer se assustar. Aquela música tinha algo a ver comigo e com ele?
Balancei a cabeça, tendo um de meus momentos sensatos, e vi no copo logo à frente, que certamente era de Zoe e parecia conter qualquer coisa menos água, uma alternativa. Empurrei para dentro de minha boca, sem pensar, o seu conteúdo. Não era possível que até uma música me fazia exercitar aqueles, já seguidos, devaneios com o Fletcher.
Só estava concentrada em um ponto da mesa logo à frente como se fosse interessante, e de fato nem era. Minha vista estava turva, eu nem ao menos podia lhe ver nitidamente para prestar atenção. Mas só a usava porque ainda não havia conseguido me manter atenta ao mundo ao meu redor. Era a melodia da tal música, me perseguindo. Ecoava em versos que eu nem sabia de cor, mas tinha alguma noção somente pela capacidade que sempre possuí de captar melodias chicletes e também pelos óbvios detalhes que ela tratava.
- Até parece que eles já se conheciam antes – pisquei, aquilo fez a mesa ficar como era e não do modo que eu enxergava. Era , estava ao meu lado e o seu braço me rodeava. Notei então que ainda estava na terra.
E eu demorei a perceber do que ele estava falando, mas seu olhar caiu sobre duas pessoas e de fato eram as titulares das vozes que mais se destacavam naquele lugar e principalmente naquela mesa.
- Comida chinesa realmente não mataria a minha fome – falou, mais interessado no seu alimento altamente calórico.
- Como se um hambúrguer ou batatas fritas matassem... – foi à vez de Zoe falar, sem encará-lo.
- Não importa. Teríamos que ter andando mais para escolher o seu restaurante e, bem, a minha escolha estava mais próxima – ele se gabou, apoiando-se sobre os cotovelos e acertando uma pequena batata frita dentro de sua boca, buscando olhar melhor para a reação da garota.
- O que seria alguns passos a mais para quem demorou, mais ou menos, meia hora para estacionar o carro, não é mesmo, ? – disse Zoe, fazendo o garoto voltar para a sua comida e eu para .
- Algumas pessoas pegam implicância rápido – sorri com a melhor desculpa que havia achado.
Realmente algumas pessoas podiam pegar implicância rápido, assim como se pode ganhar antipatia ao primeiro olhar. Porém ninguém ali sofria desses distúrbios, claro, tirando Zoe e Paige. Era um caso a parte. Algumas pessoas ali se conheciam bem demais para voltar tão rápido a ter uma convivência com tolerância. Certas coisas eram difíceis de se esconder, já outras se podia agüentar e continuar a fingir.
Nesse caso, tinha um pouco de inveja de minha amiga.
- Mas é engraçado – ele comentou, sorrindo, me fazendo ficar mais tranqüila.
Fletch havia liberado o carro, em que trouxera os meninos, para servir de transporte para sete pessoas em busca de algo para fazer após um show. Contanto que depois daquele passeio, que havia sido comer algo em um fast food qualquer, e não em um restaurante em Chinatown, como queria minha amiga, os garotos devolvessem o carro intacto. E bem, talvez fosse à preocupação de arrumar um lugar seguro, que tenha demorado tanto para estacionar.
Também não sei por que ele estava dirigindo.
Assim estávamos no Burger King da Leicester Square e as luzes azuis do teto eram estranhas a meu ver.
- Sabe o que vocês dois parecem? – me acordou de novo, dessa vez da minha distração com as luminárias. Então peguei o refrigerante, para disfarçar a minha cara de idiota, e resolvi prestar atenção no garoto – Dois namorados – completou e aquilo não pareceu uma boa idéia, as luzes eram mais interessantes, quando eu senti o refrigerante parar em minha garganta, me dando vontade de tossir.
Tossi e Zoe e pararam de falar, assim fazendo toda a atenção cair em cima do meu ataque.
- Tudo bem, eu não vou cuspir o refrigerante em vocês – falei, depositando o copo outra vez em cima da mesa e tranqüilizando Paige, que se esquivara, e , que parecia me olhar assustado.
Tudo era trauma?
Mas meu olhar estacionou, e eu me arrependi mesmo por não continuar a observar o teto, quando eu encontrei o de Tom. Com a música e a minha capacidade de desligar do nada, e claro, as luzes, eu havia me esquecido que não só minha amiga, meu namorado, e Paige estavam por lá. e Tom também estavam. Calados, interessados em somente comer e prestar atenção nos outros. Só que o outro de e Fletcher era bem diferente.
se ocupava em olhar para quem falava ou para o seu hambúrguer, desmoronado sobre a bandeja, enquanto Tom agora estava entretido comigo.
Não necessitava de contato visual com ele. Olhá-lo fazia-me lembrar do porque eu estar tão desligada e logo me remetia à conversa que tivemos na noite passada. Então, além de tudo, sentia vergonha, não mais coragem. Ele no momento só fazia as minhas bochechas corarem.
- Eu gostei do show de vocês – agradeci! Se pudesse, e não fosse estranho abraçar alguém que aparentemente não fez nada demais, agradeceria Paige por ter falado.
Mas somente a olhei, desviando de Tom e ele de mim.
- Eu também – Zoe incentivou – Pena que perdi a entrada, porque tive que ir buscar a ao banheiro – disse.
Um comentário muito útil e se não estivesse entre nós duas eu daria um belo chute em sua canela.
- É mesmo – então o garoto falou, mais uma vez, me trazendo de volta, dessa vez, dos meus planos maquiavélicos para Zoe – Eu fui te procurar duas vezes na mesa e você estava no banheiro. Por quê? – perguntou como se fosse anormal ir ao banheiro. Tudo bem, passar uma hora num banheiro público era anormal.
- Por nada, – eis que a minha mente produz a desculpa – Coisas de garota... – busquei a minha bebida.
- E adorei a primeira música – então minha vontade de abraçar Paige passou. Menina feia!
- Também gostei – minha (ini) amiga outra vez acompanhou – Foi feita para alguém? – perguntou.
Assim ela merecia mais que um chute na canela!
Meu pensamento, antes lento, estava mais acelerado agora.
- Foi feita para uma garota que o Tom conheceu – finalmente ouvi uma voz, que ainda não havia se destacado e que estava sendo guardada, enquanto os olhos admiravam a pilha de molho e pedaços de picles da comida.
, , era melhor ter ficado calado.
E então mais uma vez não pareceu uma boa idéia beber refrigerante, tosse número dois.
- Acho que eu estou ficando resfriada – resolvi adiantar para meu namorado, assustado com um possível banho.
- E quem foi? – Zoe lhe perguntou curiosa e eu me arrependi de ter pedido para ela me acompanhar naquela noite. Na verdade não havia adiantado de nada, só que ao invés de ter roubado a sua bebida, no pub logo cedo, eu engoliria aquela música a seco. E agora não precisaria ouvir esse tipo de pergunta.
- Pois é, Tom, você disse que ia nos contar – acompanhou minha amiga.
Estavam combinados!
Não era aconselhável esperar para ver no que ia dar, enquanto eu só mantinha a atenção na música que parecia começar aos alto-falantes da loja. Uma batida conhecida, agradável. Mas não, se eu ficasse para ouvir o vocalista iniciá-la, Tom poderia ceder aos dois curiosos que, sem querer, lhe pressionavam.
- Se você nunca me falou sobre a Chloe, , o Tom não precisa falar sobre a garota da música, se ele não quiser – falei, parecendo agir mais como uma defensora de fracos e pressionados, ou algo do tipo. Mas queria, mais do que tudo, apenas salvar a minha própria pele.
- Chloe? – forçou uma tossidinha.
Pronto, melhor do que tudo, retirou o seu braço de minhas costas, à cadeira, e aproximou-se da mesa para explicar sobre a sua antiga namorada ou, agora, . Mas eu não queria ouvir, tinha conseguido desviar o assunto, e finalmente poderia me desligar de novo, prestando atenção nas luminárias que imitiam luz azul, é azul, ou na música do alto-falante.
Contudo ao invés do teto eu olhei para frente e lá aqueles olhos castanhos me chamaram, como se fossem dois ímãs. Tom estava sorrindo, talvez agradecendo por eu ter o livrado da enrascada. Ou não, apenas sorria por eu ter falado, pela primeira vez na noite, o seu nome. Afinal ele não tinha o que esconder, eu tinha, ele só fazia um favor sem nem ao menos saber realmente o porquê de eu estar agindo total indiferente com ele e .
Mas era como num jogo estúpido de infância, eu não conseguia olhar por muito tempo aos seus olhos sem sentir vontade de rir ou abaixar o meu olhar para qualquer outra coisa. Saco de batatas, naquela situação.
Ele estava sentado entre e , o que ficava quase a minha frente, se fossemos em oito.
"Can't we laugh and joke around,
(não podemos rir e fazer brincadeiras,).
Remember cuddles in the kitchen?
(lembrar de abraços na cozinha?).
Yeah, to get things off the ground and it was up, up and away"
(é, para relaxar as coisas e era tão excitante).
"Oh, but it's right hard to remember that on a day like today
(oh, mas agora é meio difícil de lembrar isso, em um dia como hoje).
When you're all argumentative and you've got the face on"
(quando você está toda argumentativa e está com uma cara ruim).
Era Arctic Monkeys, aquela voz que parecia sair de um rádio, mas que na verdade saia da boca de Alex Turner.
Mardy Bum em um volume quase imperceptível não era clara para muitos que ainda estavam no restaurante, exceto por mim. Ela tinha um começo que me lembrava praia e fazia tempo que eu não ia à praia. Sentia saudades, fazia três dias que não abria qualquer vestígio de sol aos céus de Londres. E nem ao menos calor. E bem, ela era engraçada, realmente lembrava abraços. E quanto à cozinha, eu já estava acostumada, ela me perseguia. Mas só o fato da perseguição me fez acordar e olhar das batatas, para minha frente. Essas cozinhas eram parecidas.
Tom continuava ali, mas enrolando uma bolinha de guardanapo entre os dedos. Sua cabeça levemente balançava, como logo cedo, parecia desligado também, se não estivesse olhando justo para mim.
Eu não vi melhor alternativa senão sorrir. Olhar para baixo ou para cima já havia feito antes.
Retribuiu e olhou para o teto.
"Yeah, I’m sorry I was late
(é, me desculpe por estar atrasado).
Well, I missed the train and then traffic was a state
(bem, eu perdi o trem e o trânsito estava engarrafado).
But I can’t be arsed to carry on in this debate that reoccurs,
(mas eu não quero ser forçado a continuar essa discussão que sempre ocorre).
Oh when you say I don’t care.
(oh, quando você diz que eu não me importo).
Well of course I do, yeah I clearly do!"
(bem, é claro que me importo, óbvio que me importo!).
Era engraçado a música parecer estar agindo como um artifício de reconciliação. Estávamos sorrindo um para o outro e eu tinha certeza que ele também prestava atenção na letra. Parecia tão gritante, tão óbvia.
Esquecemos o fato do atraso não ser por conta de trem ou trânsito, agora que havíamos voltado a nós falar, era totalmente idiota estragar tudo com pseudo discussões. Tudo bem, ter falado com Tom na noite passada nem tinha sido uma briga, era algo mais a ver com verdades jogadas na cara (e isso não era taxado como brigar?). Mas era tão constrangedor quanto discutir, afinal ele havia saído sem olhar aos meus olhos ou dar um tchau. Alguém se importava, se não os dois, então não poderíamos nós olhar a cada encontro com tanta vergonha e desconforto como se antes de tudo aquilo, não tivesse por debaixo de olhares inseguros, pessoas que haviam vivido momentos juntos.
Pudera então a música dar um conselho ou incentivar um pedido de desculpas?
"So laugh and joke around
(então ria e faça brincadeiras).
Remember cuddles in the kitchen"
(lembre de abraços na cozinha).
- "É, para relaxar as coisas" – cantei em silêncio, tornando audível só pela música que ainda tocava.
- "E era tão excitante" – foi a vez de Tom, que me fez rir com a sua parte.
Eu precisava parar de tornar memórias atormentadoras. Tinha, se não podia abandoná-las, torná-las mais agradáveis. Como realmente elas eram.
Eu comecei a rir. Um belo pedido de desculpas ocasionado por Arctic Monkeys. E cozinhas, claro.
- Qual é a graça? – assim notei que não estava isolada em uma bolha. sorriu para mim.
- Nada não – e já que vi e Paige começarem a levantar, apenas olhei para Tom mais uma vez, porém com mais tranqüilidade, e deixei aquela cadeira dura e vermelha para trás, com o acorde final de Mardy Bum.
acompanhou meu olhar, percebendo, assim como eu, o garoto rir.
Capítulo 07
Soltei o copo vazio de café numa lixeira próxima sem nem interromper a minha caminhada. Não estava com pressa, tinha até esperado demais. Na verdade eu havia acabado de mofar na cadeira de uma cafeteria local.
Era sexta-feira, um dia agradabilíssimo, e nesse em questão, eu costumava encontrar Zoe depois do expediente de trabalho para conversarmos e assim irmos juntas para casa. Ela estava mais responsável agora, havia conseguido um trabalho em uma galeria de arte e sempre nesse dia era a encarregada de fechar o lugar.
Mas parecia que naquela sexta algum problema havia surgido, minha amiga não aparecera ao café na hora marcada e nem duas horas depois. Ela não costumava ser pontual, mas era óbvio que eu havia sido esquecida.
Olhei para o céu ao escutar um barulho, que não saia do motor de algum dos vários carros parados em um engarrafamento na longa avenida que caminhava. Extensas e pesadas nuvens cinzas esperavam para liberar, pelo que parecia, sua grossa chuva sobre as várias cabeças que passavam apressadas por mim na calçada. Eu não gostava da primavera por esse motivo, somente por esse. Estava chovendo demais ultimamente. E eu tinha idéia de que não era novidade e nem mais incomodativo, apenas algo para se acostumar, como sempre andar com um guarda-chuva. Mas não, eu não tinha, ainda, um guarda-chuva em minha bolsa. Eu sempre o esquecia num balde, ao lado da porta de casa. Então era óbvio que eu teria que apressar ainda mais meus passos até a estação de metrô mais próxima ou agüentar as conseqüências de usar um pedaço de jornal.
Estar recebendo, sem querer, cotoveladas ao caminhar já não era nada agradável, só não queria pensar como estava o movimento do metrô naquelas circunstâncias. Zoe iria ter que ouvir minhas reclamações se eu acabasse por me molhar e chegar em casa, depois de horas, totalmente amarrotada por não ter conseguido sentar. Tudo porque ela não havia me telefonado para explicar que não poderia ir ao nosso encontro habitual. Estava uma hora atrasada, comparando ao horário que eu sempre costumava ir para casa, e ver as ruas engarrafadas e o céu escurecendo cada vez mais, me agoniava. As buzinas dos carros também me irritavam.
Mas, em alguma parte, toda aquela distração que me encontrava já há duas semanas, depois do showcase dos meninos, era tranqüila. Enfim eu estava conseguindo controlar os meus momentos aéreos.
- ! – algumas das buzinas que eu escutava adormeceram, assim eu pude ouvir ou pensei ter ouvido, meu nome ao meio de toda aquela movimentação de horário de rush – ! – a buzina voltou.
Como estava caminhando perto do meio fio, olhei ao redor para ter certeza se era algo a ver comigo.
Eu tinha o hábito de ouvir alguém chamar por mim quando estava em locais tumultuados. Mas quando se escuta o nome por mais de uma vez, seguido de buzinas, se tem certeza de que não é fruto da imaginação.
Dei alguns passos para trás, ultrapassando um poste que havia bem em minha frente, e parei bem ali. Assim a buzina e a voz pararam também. Era justamente a mim que ambas geravam mais barulho a rua.
- Tom! – dei um sorriso incrédulo, ao notar que em um carro azul, na segunda faixa da avenida, o garoto estava com o vidro do carona totalmente abaixado e fazendo gestos exagerados para que eu o enxergasse.
Eu não o via desde a noite do show, quando parou em frente a minha casa depois do Burger King. Quer dizer, ele estava lá por cada dia, nem que fosse por uma memória borrada em minha cabeça. Mas era agora por menos tempo. Era uma decisão que eu havia decidido tomar quando selamos uma espécie de acordo de convivência, por olhar, no restaurante. Eu tinha e estava tentando entender que agora ele era o meu amigo e que qualquer coisa que eu pensava que ele pudesse sentir ou que eu estava sentido, era apenas fruto da minha imaginação conturbada. Mais uma. Tinha e estava tentando enfiar em minha cabeça que eu só possuía memórias legais e bonitinhas, dois velhos amigos e , o meu atual, e já por dois anos, namorado.
Desliguei um pouco, confesso, mas foi apenas para pensar no muito que eu já havia evoluído naquelas semanas, ao notar, por não sentir meus joelhos bambos e estômago doendo, que conseguia me controlar.
- Chega aqui, eu te dou uma carona! – fez sinal para eu me aproximar do carro, enquanto ele estava trancado naquele engarrafamento ocasionado por uma sinaleira, que estava com o tempo de espera alterado.
E eu até poderia me fazer de forte e não aceitar, mas uma gota de chuva acabou caindo ao meu nariz e me levando a correr para o meio da rua e entrar ao seu carro, sem refletir muito se seria ou não o certo a fazer.
Contudo, ao ver o garoto destravar a porta para que eu entrasse, notei que aquela seria uma boa ocasião para eu ter a certeza que podíamos conviver normalmente. E claro, uma ótima saída para fugir do metrô.
- Você apareceu na hora certa, Fletcher – falei ao me ajeitar ao banco do seu carro e afastar a alça de minha bolsa do ombro, a depositando sobre meu colo.
- Agradeça a você mesma, por estar em um lugar cujo fica no caminho para os estúdios – falou, tirando a sua atenção do volante e agora me observando colocar o cinto de segurança – E você pode me chamar de Tom – frisou.
- Ah claro, desculpe – ri, tentando não pensar que era nesses exatos momentos que minha barriga começava a tremer de nervosismo. Tinha que aprender a controlar meus impulsos e bem até agora nada se mexia com violência, me causando desconforto por respirar o mesmo ar que o garoto – Os estúdios ficam por aqui? – perguntei, notando o tráfego ainda estacionado – E não era para você estar por lá? – estranhei então.
- Sim, eles ficam por aqui. Umas dez quadras talvez, não sou muito bom em mentalizar ruas – ele deu uma risadinha – E bem, realmente era para eu estar focado no nosso ensaio e tentativas frustradas de escrever e reescrever algo. Mas nem todo mundo é de ferro e consegue se concentrar sem comida – ele então apontou para o banco de trás. E eu rapidamente virei, notando algumas sacolas – E eu perdi no palitinho – disse.
Eu tentava imaginar eles tirando na sorte para ver quem iria buscar a comida. Engraçado.
- E vocês pretendem ensaiar depois de comer? – perguntei por curiosidade. Minutos atrás eu gostaria de chegar em casa depressa, mas agora, que estava a salvo da chuva não tinha mais motivos para isso.
- Provavelmente não. Você conhece o , ele fica totalmente imprestável depois de comer – me disse, voltando para o painel a sua frente e ligando o limpador de pára-brisa.
Era estranho ouvir aquilo da boca de Tom. Quer dizer, eu não sabia explicar, para mim mesma, o que era estranho. Mas talvez fosse o fato de eu voltar a conviver com o garoto e tudo que ele trazia consigo, sendo que tudo, ou a maioria de tudo, não estava do modo que eu conhecia. Era estranho o escutar mencionar que já havíamos feito coisas, que conhecíamos as mesmas pessoas, sendo que não tínhamos mais a idade de quando tudo havia acontecido. Era totalmente estranho conhecer Tom, e tudo a sua volta, com dezoito anos, e agora lhe encontrar novamente, aos vinte e três. Era tão estranho parecer viver pela metade, como alguém com amnésia. Essa era a verdade.
- Tom... – então voltando a escutar o barulho da chuva, já em potencial, à lataria do carro, me tornei decidida a iniciar aquele assunto. Seria um grande teste para o meu psicológico e um grande alívio para a minha curiosidade – O que você fez durante todos esses anos que não nos falamos? – assim parei de olhar o movimento que o limpador fazia, expulsando a água de um lado do vidro, para logo ele ser salpicado de pinguinhos, e olhei para o garoto.
Se a última vez que nos falamos havia sido em minha casa e ligeiramente parecíamos ter brigado por pedidos de desculpas atrasados e atitudes impensadas na adolescência, agora eu gostaria de saber sobre momentos cujo eu já não sabia e não fazia mais parte, nem mesmo de longe. Tudo que eu gostaria de me manter informada desde o dia em que entrei em sua casa. E eu esperava obter a resposta de algumas coisas, o quanto o engarrafamento pudesse durar e Tom querer se abrir comigo, sem qualquer desentendimento entre ambos.
Ele soltou um resmungo, e eu pude ter certeza que era de surpresa, porque ele encostou a cabeça sobre o encosto do banco e olhou para o teto do carro sem aparentemente me dar algo em troca. Só o resmungo.
- Eu não sei – o vi passar a mão à cabeça, esfregando com força todo o seu cabelo, o bagunçando – Eu não lembro nem o que eu comi ontem no café da manhã – disse, agora voltando-se para mim.
- Posso te ajudar então! – falei com certa satisfação, minha barriga não tremia até então e eu estava pela maioria do tempo o olhando aos olhos – Eu acabei a minha faculdade exatamente no tempo que eu te falei que acabaria. Claro, foi meio difícil, eu perdi algumas festas para ficar estudando. E bem, eu conheci o na faculdade, mas não, ele não fazia arquitetura. Foi em uma das festas de encerramento de semanas de provas. – eu ri, agora observando os pingos caírem sobre o vidro logo a frente – Ele era muito divertido, ainda é, e sabe, ele foi um dos meus melhores amigos e o único que me fez sorrir quando eu dizia a mim mesma que não iria mais ligar para garotos. É Tom, você quase colocou na minha cabeça que eu deveria virar freira! – disse.
Eu vi Tom rir junto comigo e aquilo me deu mais confiança. Era muito melhor poder o olhar sem qualquer receio e conversar sem medo do que poderia sair de minha boca. E tudo era efeito de Arctic Monkeys!
- Eu morei por um tempinho em Miami, com a minha mãe e o meu padrasto. É, minha mãe casou outra vez e eu ainda ganhei um irmão, problema, postiço. Mas, continuando, depois decidi ir para Nova Iorque, onde eu passei a maior parte do tempo depois da faculdade. foi junto – tentava resumir tudo aos detalhes que eram de grande importância, nem dando tempo para a minha respiração acompanhar meu raciocínio. Tinha necessidade de informar a Tom – Devemos namorar por dois anos ou dois e meio. Sou péssima em algumas datas, quando todas as namoradas são psicóticas. Assim como você com as ruas – sorri para ele.
- Eu decidi que não seguiria a carreira de ator, quando estava de férias na casa dos tios de em Manchester, e que havia somente desperdiçado o dinheiro de meus pais naquela escola por três anos – ele então pareceu tomar coragem de dividir comigo um pedaço do seu passado, já sabendo parte do meu, quando eu havia parado de tagarelar – Mas eles sabiam o tempo todo que aquilo era uma fase. Eu ator, imagine. Meu pai sempre soube era que eu gostava de música. E eu agradeço por eles nem terem ficado bravos com a minha atitude de ter passado quase um ano só ensaiando, nutrindo o sonho de fazer dinheiro e ter um futuro com aquilo – falou.
- E como você acabou conseguindo a sua banda? – eu não agüentei só ouvir, eu queria perguntar.
- Eu e , passamos tempos trabalhando em um pub local, para poder sempre tocar à noite. E com os nossos salários até conseguimos gravar algumas demos, para espalharmos por aí. Mas nem chegamos a fazer isso, porque num mês de setembro, acabamos comprando uma NME só de costume, e achamos a grande chance de conseguirmos algo – me explicou – Era uma chamada avisando que estavam abertas a temporada de testes para uma boyband qualquer. E eu e ele topamos, com o pacto de só aceitarmos algo se nós dois fossemos chamados. E sabe, até acreditávamos que ambos seriamos escolhidos. Mas então somente um de nós foi, eu, e nem durou muito. Os empresários resolveram deixar a banda se tornar um trio e eu fui cortado fora sem nem ao menos ter aceitado – ele então começou a rir e eu estranhei, mas o acompanhei sem entender muita coisa – Eu achava, na época, que era invejoso demais a ponto de ter rezado para a banda ser um trio. Todavia, os caras por lá realmente haviam gostado de mim e até do . Então eu acabei entregando uma demo das nossas músicas para eles e ambos esperamos por tempos, enquanto havíamos ganhado empregos como auxiliares de audições, ou seja, filmávamos os doidos cantando e dançando – disse.
- Assim eles acabaram enjoando dos dois e resolveram presentear vocês com uma banda, logo – falei.
- Eu sempre acreditei nessa hipótese. nunca conseguia filmar as audições sem dar um toque para a pessoa ou começar a rir. Aquilo realmente os incomodava – comentou e ambos rimos – E você está rindo comigo! – mudou rapidamente de assunto, tornando o seu riso um sorriso e deixando o seu olhar pousar sobre o meu, calmo.
A verdade era que eu estava acreditando que não precisava ficar insegura ao seu lado e o meu cérebro estava absorvendo a minha idéia, esquecendo dos ataques de tremedeira ou crises de necessidade de abraços.
E eu não respondi nada, eu só sorri com maior intensidade para o garoto, esperando que aquilo lhe mostrasse que agora estava em paz comigo e meus pensamentos. Ele ainda estava por meio deles, mas era controlável.
- E ah, eu tive uma namorada – ele assim resolveu falar. Parecia ter se lembrado do nada que um dia namorara outra garota e que precisava incluir o fato no seu resumo, que ainda não estava acabado.
Bom, eu havia incluído , então fazia todo o sentido ele incluir a sua garota. Em todo o caso, o verbo não era no presente, assim alguma parte do meu corpo, que balançou ao escutar as suas palavras, se acalmou.
- Eu a conheci lá na Universal, era estagiária – ele sorriu e eu me conti para não murmurar apenas um “legal” sem importância – Florence Hornblower, o nome dela – e eu não preciso dizer que fiquei impressionada pelo fato dele não memorizar nem quantas quadras ficava os estúdios e ainda lembrar do sobrenome da sua ex-namorada – Mas não durou mais que um ano, ela se mudou para Newport, no País de Gales, e assim rompemos. Eu não iria agüentar outro namoro à distância – disse.
- Então você deve ter achado que isso devia ser praga, não do , mas minha – deduzi e ri com aquilo.
- Me assusto com as suas deduções, elas estão sempre certas – me olhou com os olhos arregalados e rindo.
E eu iria, depois de gargalhar, acertar um tapa por cada extensão dos seus braços, quem sabe com a aproximação até lhe abraçar, era um ótimo modo de agradecer pela carona. Mas a chuva pareceu apertar e com o barulho ainda mais forte à lataria do seu Mini Cooper, o garoto percebeu que o carro a frente já havia andado alguns, insignificantes, metros e que estávamos ainda parados ao mesmo lugar da minha carona.
- Será que o não vai desconfiar se aparecermos juntos por lá? – perguntei ao ver que éramos agora o segundo carro próximo à sinaleira e que logo iríamos atravessar o cruzamento e, num piscar de olhos, chegar.
- Não vejo problema – ele curvou-se para observar o semáforo ao lado de fora, em meio à chuva – Já parecemos ser amigos para ele, não? E bem, na verdade só você e eu sabemos que realmente somos há tempos – ele disse, olhando, mais uma vez em meus olhos. E tudo bem, eu seria totalmente de ferro se em nenhuma das tantas vezes que ele havia me lançado um olhar, eu não abaixasse minha cabeça.
Assim eu fiz, admirando agora minhas mãos agarradas ao tecido de minha bolsa.
- Por que você quer esconder dele que , eu e você nos conhecemos? É alguma espécie de vergonha? Porque sabe, eu acho que o não tem problemas neurológicos e eu tomo banho todos os dias – disse.
Aquilo me fez rir, mais pela última parte. Antes fosse qualquer problema desse tipo. Bem, para esclarecer, nem ao menos eu sabia o real motivo de eu ter decidido fingir para que não conhecia os (meus) seus amigos.
- Eu não sei – decidi restritamente olhar para frente – Vai ver eu resolvi agir indiferente, quando me contou sobre todos os acontecimentos do seu teste, por idiotice. Talvez eu tenha ficado atordoada demais quando acabei te encontrando lá na gravadora naquele dia – assim olhei para Tom. Eu não tinha mencionado em qualquer momento, que eu havia o encontrado no dia dos testes – Achei que pouparia constrangimento para vocês, para ele e bem, para mim, se eu fingisse que eu nunca havia visto vocês antes – disse.
Eu nunca havia parado para pensar, em detalhes, sobre o porquê de eu ter omitido aquilo de . E também não contaria, pelo menos não agora, que eu havia ficado atormentada demais por, logo que recebi a notícia que voltaria a Londres, ter pensado somente nele, Thomas. Era vergonha de dizer que talvez eu tivesse mentido por medo.
- Você me viu no dia da audição? – ele perguntou, cerrando os olhos – Ok, esquece. Eu só acho que quanto mais tempo você esconder isso dele, pior vai ser quando você decidir contar a verdade – falou.
Sabia que era a mais absoluta verdade, mas às vezes incomodava ouvir o certo da boca dos outros e notar que estava errada. Eu possuía aquela coisinha chama orgulho. Só que dessa vez não achava que ele era uma espécie de qualidade. Odiava admitir que estava errada. Por isso, e pelo fato do sinal finalmente ter nos favorecido e aberto, eu resolvi não querer continuar aquela conversa. Apenas pedi aquilo a Tom e seguimos o resto do caminho em silêncio, apenas com a companhia do barulho de minha respiração pesada e da água espalhada por todo o asfalto e ainda caindo em finas gotas, porém em grande quantidade, do céu ainda escuro.
O olhar vazio de me acompanhava desde a minha entrada, com Tom, na sala que eles esperavam por comida, até o resto da noite, junto do silêncio e respostas monossílabas ou desinteressadas. Mas não era nem isso que me preocupava, quer dizer, fazia parte. Na verdade, o assunto envolvido eram as palavras ditas por Tom, ao carro, que propagavam por meus ouvidos como se ele estivesse bem ao meu lado. A intensidade delas me fazia olhar hipnotizada para a janela ao outro lado do quarto, vendo gotas de água cair do telhado, junto com a garoa fina dos céus, agora extremamente claro, porém ainda em tom cinza. Um sábado que eu não esperava começar tão entediante e, ao mesmo tempo, com pensamentos tão ativos. Um pouco da angústia que eu havia esquecido por duas semanas começava a dar vestígios que ainda continuava em algum lugar do meu peito, o apertando só de perceber que Tom realmente havia falado a mais pura verdade e que eu vinha me metendo numa grande confusão a cada passar de hora, de dia e semana.
Eu precisava fazer a bola de neve parar de crescer. Mas como? Contar parecia tão difícil.
As gotas me irritavam, com os seus movimentos lentos e intercalados de cair, sendo que meus pensamentos estavam acelerados demais para acompanhar. Assim eu não senti mais necessidade de assistir, virei para o outro lado.
E eu encontrei um lugar vago, uma parte gelada na cama que estava tão quente, um vazio pequeno, mas que para o momento de reflexão que me encontrava, podia ser colocado como algo mais dramático. Era o lugar de e ele não estava ali ao meu lado.
Aproximei-me do seu lado na cama e depositei o meu rosto, afundei, ao seu travesseiro, vendo mais nada que o escuro e só conseguindo sentir um pouco do seu cheiro ali impregnado. Não tinha cheiro de shampoo, mas mesmo assim não era desagradável, era o cheiro que eu estava acostumada. era tão... legal.
Eu costumava, quando o via de longe no campus da faculdade, achar que ele era o tipo de pessoa cujo eu nunca conseguiria me sentir à vontade e ter ao lado. Ele era tão confiante, totalmente ao contrário de como eu agia e pensava, e às vezes até parecia chato demais. É, ele costumava me intimidar e ocasionar frios à minha barriga quando se aproximava.
Só que com o passar do tempo eu fui percebendo que ele não era nada do que eu pensava, chato, ele era legal. É, legal.
Assim, eu passei a me sentir tão segura com a pessoa que menos parecia trazer conforto. Totalmente inimaginável, mas eu havia achado nele tudo que eu não procurava encontrar. E era bom. Nosso amor era confortável e à vontade. Coisa que eu nunca imaginei que poderia ser, mas que havia sido.
Porém agora era tão difícil ver um pouco da liberdade ali. Eu já possuía uma quantidade de coisas não ditas que antes eu não costumava ter. E não estava mais conseguindo fazer o meu estômago tremer. Tom estava.
Levantei um pouco do meu rosto do travesseiro e meu olhar caiu por cima da mesa de cabeceira. O relógio do garoto estava por ali e os números marcados mostravam que já passava do meio dia.
Péssimo, .
Assim virei de barriga para cima, expulsando o edredom que trazia até meus ombros. Sabia que o teto não me daria resposta alguma e nem faria várias dúvidas evaporarem da minha cabeça. Eu queria no exato momento gritar com Tom, ele tinha feito a minha confiança ir pelo ralo, como a chuva na calçada. Mas dessa vez nem era por eu tremer na sua frente, querer lhe abraçar ou ficar pensando tanto nele, que meu cérebro passava a tentar me dizer que eu ainda gostava. Não. Agora eu estava sendo assombrada pelas suas palavras, só.
Mas eu só tinha o grande problema de tornar coisas mínimas, enormes problemas. Eu realmente não era prática e adorava sofrer. Parecia legal, dramático, coisa de personagem de livro. Mas não, no meu caso era estúpido. Eu tinha como fazer aquela angustia passar, eu tinha como eliminar dúvidas, eu tinha como fazer as coisas voltarem aos eixos. Talvez. Contudo, eu também tinha como arranjar uma confusão maior.
- Chega! – sentei-me a cama, puxando as pernas do pijama para baixo, elas sempre teimavam em subir pela noite – Vou contar – resolvi falar em voz alta, esclarecer as coisas para as paredes do quarto vazio.
Pensar que Tom havia namorado outra garota, que tinha me falado pedaços de coisas que eu tanto gostaria de saber antes, não importava agora que eu estava decidida que procuraria e lhe contaria que eu conhecia dois dos seus novos amigos e que, no caso, um havia sido meu ex-namorado, o cara que ele havia escutado eu mencionar várias vezes, na época da faculdade, o cara que resultou as lágrimas que ele tinha tratado de enxugar. Contaria também que havia omitido todos aqueles fatos por pura covardia.
E covardia essa, que se eu fosse pensar em Tom e sua vida sem mim, voltaria e tornaria a idéia, firme, de contar a , loucura. E não, não era loucura, era o sensato a se fazer.
Havia passado tão apressada, de movimentos e pensamentos, em direção ao banheiro, quando deixei o quarto, que ao sair dele, já devidamente arrumada e com mais coragem para conversar, percebi, ao chegar ao começo da escada, barulhos que não era habitual daquela casa, muito menos de um sábado, que mais parecia domingo, chuvoso. Parecia que estava assistindo televisão com um volume alto ou havia mais alguém ali.
E não foi muito agradável, ao descer alguns degraus, e perceber, que havia sim mais de uma pessoa ao sofá. E triplamente desagradável porque nenhuma delas era .
Adeus coragem.
Sim, porque foi exatamente o que aconteceu quando eu dei mais alguns passos, arrancando olhares surpresos. Mas surpresos por quê? Eles eram os intrusos, eles que haviam feito a minha coragem querer dar o fora; e assim eu que deveria estar com o olhar demonstrando surpresa. Mas eles sorriam e aquilo era um pouco animador.
- A noite foi dura? – perguntou, curvando-se para trás ao sofá, assim que eu desci os últimos degraus e encontrei com saindo da cozinha.
- Dura? – perguntei, ainda não captando muito da situação.
Eles haviam se intrometido no que eu havia planejado fazer e agora a única coisa que passava por minha cabeça, era quando eu arrumaria coragem e vontade para fazer aquilo de novo. Droga. Contudo, havia sorrido para mim ao nos encontrarmos ao meio da sala. Sorriso então que me fez entender o que falara.
- Não é da sua conta – se era o fato de eu levantar tarde, na verdade era da sua conta, ou melhor, era por ele.
- Eles chegaram aqui de manhã e você estava dormindo. Saímos para almoçar e você continuou dormindo – me explicou, passando por mim, ainda de pé em frente à escada, e seguindo para as poltronas.
- E o que vocês estão fazendo? – perguntei então, me aproximando de todos.
Não era incomodativo ter Tom ali, não mesmo. Quem sabe um pouco. Mas era incomodativo eu ter perdido uma oportunidade. Era uma pena, a bola de neve ia aumentar.
- Nós temos que colocar as idéias das nossas cabeças, no papel – falou.
- Temos que ter mais músicas – ajudou o amigo.
- Ou seja, nós estamos terminando o que não conseguimos ontem – Tom disse por último então.
Eu não sabia o que eles faziam, não costumava me contar todo o seu dia como nas primeiras semanas costumava fazer. Bem, eu também não perguntava. Eu era um péssimo exemplo também, não buscava ajudar para fazer algo melhorar. É, eu era acomodada. Mas voltando ao assunto, eu sabia que eles haviam realizado o showcase da banda, e assim me lembrava que eles tinham algumas músicas novas, além das que eu já conhecia, como aquela das memórias irritantes na cozinha.
- Nós temos bastantes músicas até, quer dizer, Tom tem – foi a vez de falar.
- Mas queremos melhorar e decidir quais vão entrar no nosso primeiro single – abriu um largo sorriso.
É, eu realmente não sabia nada da banda.
- E eu acho que só vamos conseguir melhorar e decidir com mais concentração, depois do festival – Tom disse.
E eu estava me sentindo um expectador de uma partida de tênis.
- Ok, eu acordei não faz muito – mentira, eu havia acordado há tempo suficiente para pensar na vida – E eu desci as escadas tranquilamente, pensando encontrar somente o em casa, e ao contrário, dou primeiro de cara com vocês no meu sofá. Assim eu pergunto algo e vocês começam a falar, com os olhinhos brilhando, e chegam em assuntos que eu não estou por dentro, porque não resolve me falar sobre o cotidiano da banda, nas duas, ou quatro, últimas semanas. Então vão com calma! – avisei, assim cruzando a frente deles e indo me sentar na poltrona vaga ao lado de meu namorado.
- Vamos tocar num festival em Brighton! – um animado, falou como se fosse tão óbvio.
- Exatamente daqui três semanas – Tom frisou logo em seguida.
- Mas nós vamos alguns dias antes – se meteu.
Era muito engraçado os ver falando seguidamente e uma frase somente, deixando que o próximo continuasse.
- Vocês podem detalhar tudo de uma vez, não me importo. Se for com calma, claro – alertei, rindo.
- O e o querem ir alguns dias antes, para vagabundearem – Tom iniciou.
- Mentira! Só queremos averiguar melhor o lugar do show – interrompeu.
- Como eu ia falando, nós provavelmente vamos alguns dias antes e por conta disso, e também porque vai ser o nosso primeiro show oficial, você pode nos acompanhar – completou então, não dando atenção a .
- E pode até levar a Zoe – assim se meteu, sorridente.
- Ah, pronto! Agora vai se iniciar a conversa de que o está gamado na garota irritante. Por favor, parem de empurrar ela para o meu colo, caras – assim se movimentou incomodado no sofá, olhando para e Tom, no mesmo móvel, com cara de quem havia chupado limão.
Havia voltado a me sentir um expectador de uma partida de tênis. Na real, era somente eu me encontrar com eles para eu me ver envolta em uma situação que parecia acelerada demais, confusa demais.
Eles eram hiperativos e eu quase uma tartaruga, fato.
- E quem disse que pode ser para você, ? – falou – pode estar querendo também – riu.
- Ah jura. Quem, o ? – o garoto olhou, como se achasse impossível e no tom de quem contava vantagem – Você acha que ele teria chances com ela? – assim olhou com desdém para o amigo, ao seu lado, e logo depois com um olhar superior para o seu próprio corpo.
- Na verdade eu acho que sim, – afirmei, tentando me manter estável na conversa, iniciando, assim, uma chuva de risadas para cima do garoto convencido.
Viajar, quem sabe, era tudo que eu precisava. Assim, para espairecer, ajeitar idéias e achar novamente a coragem para contar a sobre os meus problemas. Sim, viajar era uma boa.
Só não sabia se junto daqueles três.
Capítulo 08
Passei minha mão espalmada pela base do balcão e por fim a pousei sobre a sua borda, deixando meus dedos começarem a se mexer em uma escala de movimentos sincronizados, levantando-os e os abaixando com leveza. Que assim até me remetiam na possibilidade de haver teclas no lugar daquela simples madeira.
Piano... Nem me lembrava se ainda sabia tocar. Fazia muito tempo que não via tal instrumento a minha frente. O que eu possuía ainda se encontrava na casa de minha mãe, mas agora em Miami, só que não mais livre para ser utilizado, ninguém sabia tocá-lo por lá, servia apenas como um bom local para pousar milhares de porta retratos com fotos da família. Era então, apenas mais um objeto de lembrança.
Eu não ouvia barulho algum, ocasionado pelos meus limitados movimentos, somente minha respiração quase imperceptível e o mecanismo compassado do relógio na parede logo atrás. Era um pouco cedo para alguém levantar, sendo que estávamos em uma semana inteira de descanso, e o tempo ao lado de fora não parecia ser muito agradável, para fazer os passarinhos cantarolarem. Só silêncio.
Havia um calendário grudado a lateral da geladeira da cozinha, que eu só tinha reparado por possuir sempre o hábito de abrir o eletrodoméstico quando não se tem mais noção do que fazer; no caso, quando todos estavam ainda sonhando em suas confortáveis camas, enquanto eu estava de pé, pensando demais para repousar a cabeça ao travesseiro e me entregar ao sono. Eu não conseguia relaxar e as folhas de papéis, ainda no mês passado, abril, havia me incomodado ainda mais. Eram pequenas notinhas mentais e tópicos demais para a minha cabeça, problemas que nem cinqüenta copos de água acalmariam, muito menos um bloco de papel para fazer anotações.
Apesar de sempre possuir a mania de mentalizar as tarefas cujo eu era responsável, anotando-as em post it e as espalhando por todos os locais, para não esquecer de exercer tal tarefa corretamente; eu não lembrava daquilo agora. Não estava dando atenção aos transtornos obsessivos que eu possuía, estava os ignorando com louvor. Assim transformando a minha organização em completa bagunça e esquecendo de exercer várias coisas que perambulavam por minha cabeça. E isso me transtornava, porém não conseguia me organizar outra vez.
Três semanas, vinte e um dias, localizados por últimos naquele calendário praiano, sem nenhuma anotação em seu papel branco, haviam passado e eu ainda não tinha conseguido buscar uma nova maneira, um caminho mais fácil e menos tortuoso, para compartilhar com o meu problema maior, em questão. Eu ainda possuía aquele segredo, a bola de neve estava ficando cada vez maior e quase assustadora.
Contudo eu ainda conseguia olhar com o meu olhar acostumado para os culpados de toda aquela confusão e então, também, para a vítima, achando absolutamente normal esperar cada vez mais para deixar tudo claro.
Encontrar os amigos de , meus também, dois velhos conhecidos, culpados atuais pelos meus princípios de insônia e excesso de dores de cabeça, estava se tornando normal demais, do modo que eu não mais sentia alguns sintomas de asma, que teimava em pensar que tinha, ao vê-los. Era, assim, óbvio que eu estava me acostumando a enxergá-los como novos amigos. A culpa já estava virando mais um dos fatores comuns em minha vida, que nem lembrava, por todos os simples minutos, que fingir era o inverso do correto.
Segurei o copo, que levava na mão direita, perto de sua boca e o movimentei devagar, em círculos, vendo o seu conteúdo incolor girar em sentido anti-horário. E não era interessante. De fato, eu estava afundada em uma espécie de agenda, em minha cabeça, que nem prestava muita atenção, direito, no balançar do líquido.
Eu não tinha convencido Zoe a viajar comigo para Brighton. Ela se recusava, só de pensar que passaria duas semanas seguidas cruzando com ao corredor, na hora do café, almoço e jantar. Seu ego não permitia. Situação que rebaixava ainda mais o meu.
Em alguns momentos achava que conseguia ser melhor longe dela. Mas era tão nítido que eu precisava da sua presença para esquecer dos problemas e me tornar mais confiante. Era realmente uma droga Zoe possuir orgulho e eu a insegurança. Até parecia que eu havia esquecido a melhor parte de mim em Nova Iorque. A parte que podia sorrir para os amigos sem parecer falso, que só possuía preocupações fúteis e fácies de resolver, que podia se virar sozinha. E principalmente, parecia que eu havia esquecido a parte que aparentava se encaixar perfeitamente em . E eu gostaria de voltar para pegá-la, voltar para esquecer que eu parecia estar cada vez mais fixada no que eu já havia possuído e esquecendo a cada dia o que eu ainda tinha. Voltar, quem sabe, apenas para roubar um pouco do amor e segurança aos braços de minha mãe.
Talvez o conforto que eu estava procurando eu não encontraria nas conversas com Zoe ou na necessidade de colocar minha rotina novamente focada em meu namorado. Quem sabe nem seria o fato de eu esquecer o meu passado. Eu só precisava de um abraço materno e palavras faladas. Não letras na fonte
Verdana, que eu costumava enxergar toda a vez que abria o meu e-mail em busca de algo que me tele transportasse até Miami.
Porém, parecia que a grande mensagem que eu recebia a cada dia, pelo tempo estar passando depressa, os meus encontros com Tom, pelo caminho, estarem diminuindo, as minhas chances sozinhas com estarem aumentando e eu ter perdido a série de telefonemas de minha mãe, na noite retrasada, por estar dormindo, era apenas um sinal de que não adiantava buscar apoio nos outros. O problema era meu e somente eu poderia resolvê-lo. Teria que pegar os momentos com Tom e torná-los mais confortáveis, encarar o tempo com como uma grande chance de tentar encontrar a pessoa legal que eu conhecia e assim restaurar a confiança, me livrando do meu segredo; e teria que ligar para minha mãe mais vezes. Apesar dos mails sempre me remeterem a sua imagem zangada e voz em tom de quem estava decepcionada, eu precisava ouvir aqueles sermões em alto e bom som, sem o intermédio da imaginação ou da secretária eletrônica.
E ter escutado os últimos quatro recados deixados no aparelho, antes de e eu termos saído de casa na noite passada, faziam a minha saudade apertar, e mesmo que o garoto não tenha percebido o teor das mensagens, me faziam notar que minha mãe era mais uma das pessoas que me impulsionavam a me livrar, de uma vez por todas, daquela preocupação. E assim eu me sentia, ainda mais, na obrigação de contar a .
Eu estava na cidade mais saudável da Inglaterra, mas me sentia totalmente podre por dentro. Podre de pensamentos, podre de cansada e podre na questão de saúde também, eu podia sentir as minhas olheiras.
Mas eu precisava parar de me entregar ao que pensava, tinha que parar de ter aqueles momentos de alta punição, era até patético, depressivo e idiota. Eu tinha que acabar e contar logo! Ah, eu tinha que fazer tantas coisas... e o que eu menos conseguia era organizar a minha cabeça para realizar tudo aquilo.
Grande bosta!
Depositei o copo de água, com quase a mesma quantidade de líquido que eu havia servido, de volta ao balcão e interrompi os movimentos que ainda realizava com a mão esquerda sobre o móvel. Cai de volta a cozinha daquela casa e voltei-me para o meu lado esquerdo, tomando um ligeiro susto ao notar um cachorro.
Realmente eu não estava mais acostumada a ter qualquer bicho vagando pela casa, fazia muito tempo que eu havia abdicado de animais de estimação. Mas, em todo o caso, aquela não era a minha casa e nem o cão.
Estávamos agora, os garotos e eu, em uma casa local, e devo destacar, com um considerável quintal, na cidade de Brighton. E, devo destacar também, no início da semana de vagabundagem de e . Havíamos chegado ao final da noite e, por conseqüência de uma saída rápida para beber, todos ainda dormiam.
Bem, exceto eu e aquela bola de pêlos incrivelmente brancos ali.
- Perdeu o sono também? – perguntei, como se fosse normal, ao também encarar os olhos escuros do animal, destacados pela pelagem branca e também pela sua língua em tom rosa, que estava um pouco à mostra.
Ele entortou a cabeça, como se buscasse entender o que eu havia perguntado e até pareceu sorrir (acharia-me totalmente louca se eu já não tivesse lido em algum lugar, que aquela raça era conhecida pelo seu sorriso).
E sem nenhuma idéia de algo melhor para se fazer e achando o animal totalmente meigo, desencostei-me do balcão e abaixei até o piso frio da cozinha, sentando de frente para o Samoieda, que me encarava.
- Com certeza você não parece estar acordado porque está metido em uma enrascada, como eu – falei. Mas rapidamente, ao perceber que era apenas um animal, achei tolo usá-lo para falar de problemas – Acho que só está estranhando a casa – sorri, levando uma de minhas mãos até a sua orelha, assim a acariciando.
O seu pêlo dava até inveja, era macio e sedoso, agradável de se tocar, pois parecia até algodão. E não algo seco e áspero, como o meu cabelo costumava ficar quando estava no litoral. Além de, por estar sentado tão quieto, aparentava ser doce, como um gatinho, quando eu o percebi fechar os olhos com o meu toque.
Eu não tinha certeza sobre o seu nome, eu havia escutado alguma coisa enquanto estávamos no ônibus, mas parecia ser Christmas ou algo do tipo. Um nome tão bobinho e óbvio pela cor do animal, mas que eu nunca pensaria que se trataria do cachorro de Tom. É.
- Christmas é tão bobinho – falei o que pensava – Quer dizer, até que combina. É, combina – levei minha outra mão até a sua outra orelha, quando ele ergueu a cabeça ao ouvir o seu nome - Mas eu esperava que você tivesse um nome diferente, digo, algo a ver com o seu dono. Porque, sabe, Thomas tem cara de quem coloca nome de personagens de filmes da Disney ou de Star Wars, até nos seus bichos de pelúcia. Se é que ele tem bichos de pelúcia – revirei os olhos, brincando.
Era para se sentir totalmente idiota conversando tão concentrada com algo, ou alguém, que nem mesmo podia entender ou enxergar perfeitamente. Mas até que era mais interessante contar a um cachorro sobre o que eu pensava, do que ligar a televisão e ficar esperando alguém acordar para me fazer companhia. Demoraria.
- O meu gato tinha um nome mais a ver com o Tom – cruzei minhas pernas, soltando de Christmas e levando meus braços a abraçarem minhas canelas – Chewbacca! Mas claro que eu não o chamava por esse nome ridículo, Chewie parecia melhor para um animal que era menor e sem dúvida menos barulhento que o personagem. E também, faz tanto tempo que eu não o vejo... Ele deve estar velhinho e preguiçoso – suspirei, lembrando que eu havia quebrado a promessa que fizera a minha avó, de buscar Chewie depois da faculdade – Eu me lembro como o Tom gostava dele. Talvez pelo nome ou porque ele fosse meu, mas eles se davam bem. Às vezes parecia que ele estava tentando ensinar o bicho a rugir – comecei a rir – Era engraçado, o fato de ele preferir os gatos quando todos pareciam idolatrar os cachorros, bonitinho lembrar que quando olhávamos televisão, Chewie costumava deitar por cima da sua barriga e dormir. Claro, só quando ele era pequeno. E isso já faz... tempo – assim fui acalmando a minha risada, tornando o meu sorriso fraco, até percebê-lo sumir quando depositei meu queixo em um de meus joelhos e abracei com mais firmeza minhas pernas – Não foi só com o Chewie que algo mudou, foi com o seu dono também... Tanto que eu não sabia que ele podia colocar um nome tão brega em você! – me animei ao ver o cachorro curva-se até mim e com o focinho, indicar que gostaria de mais carinho – Acho que você combinava com... Vamos listar alguns personagens da Disney, já que eu não sei os de Star Wars – deixei claro, mudando rapidamente de assunto - Que tal... Bambi? Não. Dumbo? Ok, não – mexi novamente às orelhas do animal – Mickey então? Porque eu acho que Branca de Neve ficaria muito gay – ri alto ao vê-lo se mexer.
- Na verdade não fui eu que escolhi o nome – uma terceira, ou bem, segunda voz, já que Christmas não era ativo naquela conversação, surgiu em meio ao cômodo, que era dividido por sala e cozinha – Eu ganhei ele num natal e minha mãe e Carrie que acharam bonitinho presentear ele com esse nome... Brega, como você falou – Tom disse, ao ir se aproximando da onde eu estava sentada com o seu cachorro.
E eu, no mesmo instante, ao vê-lo vir em nossa direção, tratei de levantar depressa, buscando qualquer outra distração para me prender. Tinha vergonha de ele ter me visto ali, vergonha do que ele podia ter escutado.
Assim deixei Christmas ao chão e me aproximei outra vez do balcão, esboçando um sorriso para o garoto, que então fez o cachorro levantar e ir buscar um pouco da sua atenção, esquecendo de mim.
- Acho que ele está com fome – comentei ao ver Tom abaixar para fazer carinho ao animal.
- Também acho, quer dizer, tenho certeza - ele então largou a pelagem - Eu esqueci de colocar os potes com água e comida no chão ontem à noite – e levantou-se, estendendo a mão em minha direção e aproximando-se.
Sei que parecia sem fundamentos, mas a sua aproximação repentina me fez querer recuar e por um ligeiro momento um arrepio pareceu percorrer minha espinha, fazendo os pêlos de meus braços arrepiarem, só de pensar que ele poderia, talvez, me tocar.
Mas não, tudo era apenas pelos recipientes da comida do seu bicho de estimação, que estava próximo a mim.
Boboca!
Porém, notando que havia sido fraca por segundos, eu os tomei rapidamente de suas mãos.
- Pode deixar que eu mesma faço isso – sorri para o garoto, ao perceber que ele havia se assustado.
E ele concordou com a cabeça, mas não voltou ao chão para dar atenção ao seu cão. Ele encostou-se ao balcão, de costas, me vendo despejar o copo de água, que nem havia tomado, dentro da vasilha de Christmas.
- Eu passei para ir ao banheiro e percebi que havia alguém aqui em baixo, ou melhor, pensei que havia duas pessoas já acordadas – riu, e eu continuei concentrada no que fazia, agora tentando abrir um mediano pote quadrado de alumínio, que guardava a ração do cachorro. Tinha pressa e nem mesmo sabia o porquê – Então eu desci as escadas e percebi que a outra pessoa não era bem o que se pode chamar de ser humano – disse, e eu, nervosa, não sabia por que também, coloquei força demais ao pote, fazendo o seu material fazer um barulho e ao abri-lo ver alguns pedacinhos de ração voar.
- Ops, usei força demais – comentei, pegando rapidamente as rações fujonas e as jogando ao refratário, assim os segurando firme e buscando o chão, para enfim dar o que comer ao animal. Sem demonstrar interesse na conversa.
Não sabia exatamente o porquê de eu estar nervosa. Talvez fosse a folha do calendário que havia feito eu me lembrar que a minha confiança de semanas atrás havia deixado o meu corpo quando eu perdi a chance de contar a , sobre eu já conhecer Fletcher e . Isso me fazia lembrar que a viagem tinha um único objetivo para mim, eu tinha que enterrar aquela agonia em Brighton, e não mais agir como se fosse normal esconder coisas e um costume fingir ser uma coisa que não é.
Ver Tom me fazia lembrar o que eu guardava de e assim agora, talvez, estava me incomodando mais tê-lo por perto. Ou quem sabe não. Já devia saber que, quem sabe, eu nunca me acostumaria a ter outra vez, o garoto por quem havia sido apaixonada na adolescência, e de certa forma nunca quis deixar, tão próximo.
- Por isso que ele estava acordado, enquanto todos dormiam – falei, ao chão, me referindo a fome do cão.
- Bom, você não dormia – Tom então falou, me fazendo parar de observar o cão agir desesperado pela água, que eu havia rejeitado logo cedo, e de ouvir o barulho engraçado do líquido sendo sugado por sua língua.
Eu levantei, procurando me escorar a pia da cozinha, que ficava a frente de onde o garoto estava. E eu já estava pensando em abrir a minha boca para despejar qualquer desculpa auto-explicativa do porque eu ter acordado tão cedo, sendo que aquela primeira semana era apenas para descansar. Mas me conti.
- É que quando tem alguém acordado, ele não consegue descansar – o garoto completou, se explicando. Também, de certo, pensando que a sua frase anterior podia estar querendo pedir uma explicação a mim.
E eu consenti com a cabeça, cruzando os meus braços e não vendo nada melhor que olhar para Christmas.
- Eu... Eu ouvi o que você falou e... – ele tentou iniciar, mas como eu destaquei no início, quando o vi descer as escadas, tinha vergonha do que ele podia ter ouvido. E bem, ele tinha e eu não sentia necessidade de falar.
- E será que ele pode passear, Tom? – interrompi o que ele poderia continuar, e olhei do animal para o seu dono, esperando apenas uma resposta e não uma insistência no que era óbvio que eu não queria continuar.
Entrelacei ambos os cadarços de meus tênis e os amarrei, para poder levá-los com mais facilidade, já que havíamos trocado a calçada, pelas areias da praia, ou devo dizer, extensão de pequenas pedras. Nessas horas Bournemouth parecia mais atrativo, pois na hora de caminhar não se sentia o desconforto e sim uma areia fofa.
A julgar, não devia passar das dez e meia da manhã. Mas não tinha tanta certeza, já que o céu estava num azul tão desbotado que podia se entender que era cinza. E bem, não era surpresa ver várias mesclas de nuvens cobrirem um sol que mal parecia ter nascido. Deixando a praia ser iluminada por raios intercalados e tomada por uma brisa fresca, que fazia os meus cabelos se rebelarem e cruzarem mechas a todo instante, me deixando irritada por ter que tirar fios da frente de meus olhos a cada seis segundos. Nessas horas também que eu gostaria de ter cabelos curtos. Os de Tom não pareciam irritá-lo, somente o vento o fazia cerrar os olhos para observar o seu cachorro começar a correr desimpedido pela praia deserta, exceto por duas ou três pessoas, sentadas ou caminhando, mais adiante.
E o barulho das pequenas ondas, vindo de encontro com a margem cheia de pedrinhas, e de algumas gaivotas que voavam próximo dali, fazia o silêncio que seguira o garoto e eu, desde a saída da casa, ficar menos embaraçoso do que era. Tínhamos uma desculpa, como observar o horizonte com mais interesse.
- Quando eu estava descendo as escadas hoje cedo eu, sem querer, ouvi você falando sobre o seu gato... E sobre eu – ele então repetiu o discurso, o que me fez perder totalmente o interesse sobre a coloração do mar.
Eu o olhei, com certa dificuldade, já que eu não possuía controle sob o vento. Porém agradeci um pouco o fato de eu mal poder enxergá-lo sem ter mechas pelo meu rosto. Era melhor assim.
- Se você não se importar acho que eu não quero trocar o silêncio, para falar sobre isso – disse.
Estávamos nos aproximando devagar do meio da praia, tentando acompanhar, sem nenhum sucesso, a caminhada de Christmas, que estava despreocupado com companhia, próximo do mar e longe de nós.
- Eu não consigo entender – o garoto falou novamente, me fazendo perceber, de soslaio, que ele havia parado.
Assim eu virei para ele, de lado para o mar, tentando segurar o máximo de mechas atrás das orelhas.
- Eu não consigo entender por que você age dessa forma – continuou, quando notou que eu estava prestando atenção em suas palavras. Palavras cujo eu não estava entendendo – Você aparenta estar tão desprotegida em algumas situações, agindo como se estivesse sufocada, agoniada com algo, se mantendo calada e se confundindo com as palavras, quando resolve abrir a boca. Qualquer sentimento que envolva aflição – disse. E eu continuei com a minha expressão de quem demonstrava não entender, mas que pedia por mais explicações – E em outros momentos parece adquirir uma confiança que antes não possuía, podendo puxar assunto, animada, sorrindo a cada minuto que respira, até me surpreendendo com perguntas – então eu entendi a sua frustração. Mas preferi ficar em silêncio, como estava fazendo – É isso que eu não consigo entender e que consegue me deixar desconfortável, quando eu nem imaginava sentir isso, estando ao seu lado. Porque parece que você tem medo de algo, medo de mim. E isso é, pelo menos eu acho, totalmente inviável, já que eu não sou uma pessoa estranha para você – Tom abaixou suas mãos, que gesticulavam consigo, e só deixou o seu olhar sob mim. Silêncio...
Não sabia o que lhe dizer. Era absoluta verdade o que ele havia terminado de falar. E eu sentia vergonha por mim mesma. Vergonha, por saber que agir daquele modo era vergonhoso e mesmo assim continuar a fazer, como se ele não pudesse perceber. Mesmo eu sabendo que podia e na verdade havia percebido. Porém não era algo voluntário na maior parte do tempo. Eu só não sabia qual era a melhor maneira de agir a sua frente.
- Por que você age desse jeito comigo? – então ele perguntou, quando percebeu que eu não iria falar.
Eu suspirei por dentro, como se estivesse tirando um peso do meu corpo, e deixei que meu cabelo tomasse qualquer rumo, seja lá se fosse se espalhar por meu rosto ou fazer nós que depois eu me incomodaria para desfazer.
- Não sei, Tom – respondi, lhe encarando e depois virando o meu rosto para o resto da extensão da praia.
Até voltar a atenção novamente para o mar e sentir a necessidade de sentar logo ali, para pensar.
Assim fiz, largando os meus tênis e depositando os meus braços por cima de meus joelhos.
Não era como se eu não soubesse de nada, eu tinha noção. Mas era tão automático falar aquelas simples palavras, sem se dar ao trabalho de formular uma frase melhor. Parecia que tudo que eu estava fazendo era pelo caminho mais fácil. Um fácil de início, mas que depois ia se complicando cada vez mais. E que até me fazia pensar por que eu não escolhera o caminho difícil. Mas, que mesmo assim, não me fazia voltar atrás e trocar.
Admirei o mar límpido, sem nada. Não havia ninguém mergulhando, e quase nunca houvera, parecia ser tão frio para entrar; nenhum barco por perto e naquela região não havia piers ou aluguel de cadeiras.
Assim eu percebi um dos motivos do porque eu preferir responder a Tom apenas duas palavras.
- Eu prefiro responder “não sei”, não porque eu prefiro não lhe contar o porquê de eu agir dessa maneira. Mas respondo isso, porque não entendo muito bem o porquê de eu me sentir diferente, e acabar agindo também diferente, quando estou ao seu lado – respondi rápido demais então – Nota? Nota como eu pareço falar rápido demais ou pensar demais, assim falando várias palavras repetidas e frases confusas, quando estou ao seu lado? – perguntei, finalmente deixando o mar, e voltando-me para ele, de pé ao meu lado – Não sei por que eu me sinto dessa maneira e acabo fazendo isso com você – disse.
- Talvez você saiba e não queira admitir para si mesma. Ou para mim – assim ele sentou ao meu lado, na mesma posição que eu estava. Agora podendo ambos enxergar um a altura dos olhos do outro.
Intimidador por estarmos tão perto, intimidador por estarmos iniciando outra vez um assunto que poderia acabar como naquele dia em minha casa. Então do que serviria Mardy Bum e reconciliações no Burger King? Era intimidador por eu conseguir, se me esforçasse, me enxergar aos seus olhos, intimidador por, se eu estendesse o braço, poderia segurar em sua mão. Intimidador porque Tom sabia o que eu tentava omitir.
- Talvez seja porque você me lembra que eu ainda guardo um segredo do , e isso é perturbador. Então não lhe dando muita atenção ou querendo sair logo da sua frente, faz a vergonha, que eu sinto por não conseguir contar, parar de me incomodar – falei, mas sabia que aquele não era o principal motivo. Na verdade, como eu pensava, guardar o segredo de já estava virando normal – E se eu pareço, às vezes, confiante demais, é que eu esqueço disso e lembro que você é aquela pessoa que eu passei sete anos longe. Assim eu lembro do que eu gostaria de fazer, conversar normalmente e perguntar coisas que eu não sei sobre você. E agir desse modo ou do outro, depende muito de mim e da minha força para bloquear pensamentos de que eu... – assim resolvi cortar contato visual, voltando para o mar, senão acabaria por falar coisas que eu não me sentia muito segura para admitir a mim mesma e muito menos contar ao garoto – ...não estou sendo honesta com o meu namorado e com você e o – melhor então foi terminar dessa maneira, voltando a prestar atenção no castanho dos seus olhos.
- Desculpa então por eu ser, pelo o que parece, o causador de tantos problemas na sua vida – disse, dessa vez ocasionando o corte do contato visual.
O vi voltar a sua atenção para o mar, como eu estava antes, me deixando admirar o seu perfil. E assim me sentir um pouco culpada com as suas palavras. Porque, por mais que ele fosse o fator responsável pelo meu problema, e eu não gostasse de admitir, o ter por perto outra vez era bom. É, bom. Bom como ter alguém indesejado como admirador, mas que adora só pelo simples fato de ter alguém que goste e faça tudo por você.
- Mas eu vou acabar contando para o e me livrarei desse peso – iniciei, quebrando qualquer clima chato ou de culpa – Então, na questão da nossa amizade, você vai ter que me ajudar a tornar tudo menos vergonhoso e assim agradável – sorri, esperando que ele me olhasse.
E não fez, mas deixou a cara séria de lado e sorriu.
- Vai Tom, você não é um problema! – dei um cutucão ao seu braço, fazendo assim com que ele me olhasse.
- Então se eu não sou um problema e você quer tentar deixar tudo melhor, amigos podem se abraçar? – perguntou então, erguendo uma de suas sobrancelhas.
Ri. Pergunta feita rápida demais para eu demorar tanto em lhe dar uma resposta.
- Tudo bem – sacudi a cabeça em sinal positivo e sorri. Fazendo Tom abrir um também.
E como se não soubéssemos quais eram os movimentos realizados para se dar um abraço, quebramos a pouca distância, encontrando um, os braços do outro, de um modo meio desengonçado. Mas um modo que se encaixou perfeitamente, ao afundar o meu rosto em seu ombro e pescoço, sentindo o aperto iniciante de uma ação, que talvez, ambos quisessem fazer desde o primeiro encontro.
E eu não escutava música em meus ouvidos e nem poderia chorar ali. Mas o abraço podia estar levando a força e o tempo de como se fosse à última coisa que poderíamos fazer do dia. Ou só como o primeiro abraço depois de muito tempo.
Um pouco diferente do que eu imaginava, mas não era decepcionante.
Mas não podia ser tão bom e levar para tão longe, como o de não fazia.
Ergui minha cabeça, olhando por cima do ombro de Tom, e notando Christmas saltitar, indo e vindo, entre a margem do mar, perseguindo os movimentos das quebras das marolas.
Assim, com tal distração, ganhei todos os meus sentidos novamente e sai do choque térmico, que o abraço do garoto parecia ter ocasionado ao meu corpo.
Passei minha mão por suas costas, até chegar bem próxima de sua nuca e então senti algo que me fez enfim impulsionar o fim daquilo.
- Tom... – falei, recolhendo meus braços e afrouxando o abraço – Eu acho que está chovendo – completei.
Não era como se eu precisasse de um álibi para fugir daquele momento. Mas a chuva acabou agindo como um.
Agora eu não precisava mais me preocupar com os fios fora do lugar, o meu cabelo estava totalmente molhado, e eu tinha consciência que seria difícil de desfazer os nós que o vento havia feito. Mas não me importava agora, pois toda a minha aparência estava um desastre. Contudo eu me sentia bem, tendo os meus tênis amarrados um ao outro, pelos cadarços, e colocados envolta do meu pescoço, como se fosse uma toalha ou cachecol, enquanto subia a rua, acompanhando o andar de Christmas de frente e encarando um Fletcher, também inteiramente molhado - pelo menos a camiseta de ninguém era branca - vindo logo atrás do cachorro.
Passei a mão pela cerca viva de uma casa na esquina, isso indicava que a próxima casa seria a nossa, me sentindo melhor agora, do que estava sentindo quando passei, no caminho inverso, pelo mesmo lugar.
- Você ainda parece continuar feliz com um banho de chuva – Tom falou, me fazendo rir.
Era impossível esquecer, naquelas circunstâncias, que sermos surpreendidos pela chuva não era novidade.
- Acho que eu só me torno feliz com banhos de chuva, quando eu estou na sua companhia – disse, sorrindo para o garoto. E logo em seguida, quando a cerca viva foi interrompida pela caixa de correio, virei, do modo que uma pessoa normal caminharia à calçada, chamando Christmas para andar ao meu lado.
Uma quadra e meia separavam o local que Fletch havia arrumado, para passarmos aquelas semanas do festival, da praia. Um caminho bem fácil de se memorizar, ficava logo após a uma grande casa na esquina, com uma longa cerca viva; e que naquele tempo chuvoso estava deserto e calmo. Um belo bairro.
Olhei mais uma vez para trás e vi Tom se aproximar. Sorri. Então empurrei o portão, agora da nossa casa, deixando assim um Christmas totalmente magro, pelo pêlo molhado, entrar primeiro.
E só assim percebi, sentados na larga varanda frontal do lugar , e .
“Ops” seria a palavra ideal para o momento, se eu apenas não tivesse paralisado no portão, esperando Tom se aproximar e me forçar a sair do caminho.
- Bom, eu vou entrar pelos fundos junto com o Chris – Tom me disse.
E então, me sentindo obrigada, eu rumei para a entrada da casa, vendo o garoto e o animal se afastar e pensando em algo melhor do que ops, no pequeno caminho para a varanda.
- Porque não me chamaram para tomar banho de chuva também? – perguntou, me olhando se aproximar ensopada.
- Fomos levar o cachorro para passear, mas acabou chovendo – sacudi os ombros, dando aquela explicação não para o garoto, mas sim para o meu namorando, que me olhava em silêncio, sentando a uma cadeira.
- Pelo menos aproveitaram um pedaço do dia sem a chuva – falou, encarando somente os pingos escorrerem da calha do telhado para cair ao chão. Tinha uma cara de tédio, de quem não se importava com minhas explicações.
Ou se importava demais e demonstrava de menos.
Fiquei um tempo parada frente à porta da casa, fechada, esperando algum dos três falar alguma coisa de útil. Mas nada, a chuva parecia mais interessante.
- Vou entrar então, trocar essa roupa molhada – expliquei mais uma vez.
não falou nada. Se não chovesse, eu ouviria grilos ali.
- É, pessoas, preparem-se para uma rodada louca de Twister hoje à noite. Porque com essa chuva... – sacudiu a cabeça em sinal negativo, olhando com uma cara de preguiça para o tempo molhado.
O bem estar que eu estava sentindo, até mesma molhada e com frio, havia desaparecido quando Tom entrou com Christmas pelos fundos da casa e eu pela frente. Era comprovado que mau humor alheio contagiava.
Passei a mão pelo cabelo de , que estava sentando na cadeira mais próxima à entrada, dando-lhe uma ligeira bagunçada, como um cafuné, e logo empurrei a porta de casa sem vontade, entrando e deixando o tédio daquele lado.
Capítulo 09
Observava as tábuas de madeira, iluminadas pelas inúmeras cores, que pintavam aquele lugar. Caminhava calmamente, nem prestava atenção para onde eu estava me dirigindo, não olhava para frente. Só acompanhava os meus pés desviarem dos vãos entre as tábuas, progredindo cada vez mais para lugar algum. Não dava para ouvir a madeira ranger, apesar de poder saber que debaixo daquilo se encontrava apenas o mar. Mas apesar disso, eu não sentia medo. Como eu disse, não estava notando para onde eu estava sendo guiada, talvez ninguém soubesse, e não ligava para o medo de piers que eu possuía quando menor.
Eu ainda tinha medo?
Olhava para os meus pés, sem dar grande atenção ao barulho do mar. Sentia a brisa ultrapassar o fino tecido de algodão de minha blusa. Não tinha levado casaco, achava desnecessário já que o céu estava estrelado e aparentemente eu havia pensado que ficaríamos dentro de algum pub pela noite inteira. Porém não, estávamos naquele pier, a metros longe da areia e com luzes dançando a frente de meus olhos, fazendo movimentos acelerados, outras vezes lentos, piscando e permanecendo. Elas pareciam se refletir ao mar, que eu conseguia olhar de soslaio, tão escuro que não saberia definir a sua cor; se não fosse pelo reflexo da lua, para acompanhar o pisca pisca das lâmpadas das barracas e brinquedos do parque de diversões. Estava cheio, isso eu conseguia ter noção. Eu sentia e percebia o movimento das pessoas, apesar de estar tão concentrada nos meus próprios e tão desligada quanto aos que me rodeavam tão próximo. Inclusive o toque de uma, o abraço que fazia os meus ombros e o resto das minhas costas não arrepiarem com a corrente de ar.
estava isolando qualquer frio que eu poderia vir a sentir, mas não estava conseguindo fazer eu me concentrar na agitação daquele sábado à noite.
As músicas de algumas barracas se misturavam com a melodia infantil dos carrosséis logo perto, junto com os gritinhos e vozes abafadas de crianças e pais deslumbrados. Isso eu percebia. Mas como destaquei, meus pés desviando dos vãos e tentar pescar algo que preste, dos vários pensamentos podres ou não, que passeavam minha cabeça, era o que eu unicamente fazia. Ah claro, além de respirar e segurar a mão de , que caia por meu ombro. Mas fora isso, eu sentia que não estávamos de outra forma conectados.
- Não tem nada igual a Pepsi Max – ouvi a voz de se manifestar. Ele estava ao meu lado, era mais próximo do meu ouvido, o que fazia a minha audição separar a sua voz do resto da multidão com facilidade.
Então, com isso, levantei minha cabeça devagar. Seria falta de educação se em todo o passeio eu permanecesse desligada, demonstrando mais interesse com coisas idiotas, como transtornos obsessivos de não pisar entre vãos. Aquilo não era melhor, mas o silêncio entre o nosso grupo estava me matando, me deixando tão entediada que eu não conseguia nem mesmo procurar algum assunto, rápido.
Mas havia tentado.
O olhei, com uma cara de sono, mas que se esforçava para entender sobre o que falava.
- Aquilo sim é montanha russa de verdade! – continuou, colocando as mãos ao bolso e dando um sorrisinho.
Eu retribuí, tentando parecer simpática, já que ele me olhava; e apertei a mão de , com um pouco mais de força, dando um sinal de que eu ainda estava ali, tentando ao máximo prestar atenção em alguma coisa, então me mantendo presa àquele momento. Até que ouvi uma risada e aquilo me desconcentrou, cortando o ligeiro período que eu me deixei só focar e me levar pelo ato de observar minha mão entrelaçada a do garoto.
A soltei, depositando a minha, agora, ao bolso frontal da calça jeans. E por ainda querer uma aproximação, por mais que eu estivesse abraçada, de meu namorado, encaixei o meu queixo sobre o seu ombro, podendo assim olhar melhor para o dono da risada, que estava ao seu lado, só que um pouco mais a frente.
- Ah não, sério , você já andou na montanha de Blackpool? – o vi balançar a cabeça, parecendo incrédulo, me levando a crer que aquilo era uma piada.
Era?
- Claro que andei! – elevou sua voz, querendo parar com o tom de deboche, e curvou-se para frente, podendo assim observar melhor o amigo.
- Sim, eu acredito... – tentou conter o riso, fazendo acompanhar os seus passos. Mas mesmo assim um ao lado esquerdo e outro ao lado direito - Nos seus sonhos – e assim voltou a rir.
Era uma piada.
- Se você não acredita, te mostro as fotos do verão do ano passado, que... – tentou se explicar o , já retirando as mãos de dentro da calça e gesticulando.
- Fotos que a sua mamãe tirou, de você passando mal? – o outro tentou completar.
- Que maldade, – falou, rindo, me fazendo também, apertando a mão que me rodeava, tornando o abraço mais firme, ocasionando que eu levantasse a minha cabeça de seu ombro.
- Não liga, , o aí não teve coragem de ir à Pepsi, quando fomos a Blackpool – então ouvi uma voz que ainda não havia escutado, desde que entramos pelos portões do Palace Pier – É inveja - disse Tom.
- E isso não vem ao caso, Fletcher – interrompeu , olhando para , ao outro lado – Vamos corajoso, vamos andar nesta daqui mesmo. E já que você andou na Pepsi, não vou acabar saindo com um amigo que mijou nas calças, na última volta – disse, fazendo sinal para ele.
- Está insinuando alguma coisa, ? – foi a vez de Tom elevar a sua voz.
- Não, claro que não. Só estou lembrando de um amigo aleatório, que tirou com a minha cara, porque eu não topei andar naquela montanha-russa. E então ele acabou indo sozinho, e veja só, saindo todo molhado e me forçando a andar na sua companhia, sendo vítima de olhares, por dois quarteirões – pude ver revirar os olhos – Não, realmente não é você, Fletcher – disse – E vem logo, ! – virou para trás e apressou o garoto, para que se aproximasse da onde ele estava, de uma vez.
Eu só conseguia rir. Do tédio e momento de reflexão, praticamente no silêncio do nosso círculo social, eu não estava mais observando os meus pés se movimentarem. Eu notava o quanto era espontâneo ser novamente amiga daquelas duas pessoas, e ainda ganhando outra de brinde. Podia ser complicado, mas a situação não era feita somente de momentos confusos e doloridos. Era engraçado. Só tinha pena que, naquela relação, momentos daquele tipo pareciam, às vezes, pequenos e rápidos demais, comparado ao tempo que eu tirava para pensar no que estava fazendo de errado e ainda continuando a manter.
Prós e contras. Mas até agora nada de efeitos colaterais.
- Vamos comprar tickets? – perguntou, cortando minha frente e dando uma pequena corridinha até onde agora estava. Não muito longe, uns cinco passos de distância além.
- Então, será que você me deixa esquecer do incidente de ter levado uma pessoa bêbada nas costas, por mais de duas quadras, sendo que ela vomitou em cima de mim depois? Ah, lembrando que vômito, foi o único agradecimento que eu recebi por ter a salvado do súbito ataque de querer se jogar ao mar, de roupa e tudo – assim vimos, eu e , que agora tínhamos aumentado o ritmo da caminhada, Tom seguir atrás de .
- Er, que nojo – tentei ainda rir, com a corridinha de Tom até o amigo e pelo jogo de verdades que havia começado não sabia como.
Isso talvez fosse o engraçado, o fato de eles serem uma caixinha de surpresa.
E de problemas também.
- Ok caras, isso não é momento para lavar roupa suja – comentou – Além de que isso é coisa de mulherzinha – e começou a rir, me cutucando para acompanhá-lo também.
- Vai irritá-los ainda mais, ! – bati em seu peito e olhei a tempo de ver parar a sua caminhada e virar para trás. Fazendo assim Tom parar a sua frente e o riso cessar.
- Ta certo, Fletcher, pare de relembrar o passado, vai assustar quem não sabe, ainda, como somos totalmente loucos e idiotas – falou – E além do mais, você sabe que eu te amo, menino gordo – e sorriu.
- Gordo é a sua avó! – eu escutaria o resto dos possíveis xingamentos que Tom usaria para camuflar o quanto tinha vergonha dos ataques repentinos de . Eu sabia que ele ficava sem jeito com demonstrações de afeto inesperadas. Mas o que havia me feito agora perder o interesse na conversação não era o chão, talvez, já que eu olhei para ele. Eram as palavras de , algumas delas. Haviam me feito parar de rir e voltar a notar o quanto eu ainda podia me sentir desconfortável com eles ali e tendo me abraçando. Não que o seu toque me incomodasse, mas acompanhado da dose de realidade e vendo os garotos ao meu lado, era fácil eu me lembrar dos problemas criados. Fácil de lembrar também do que eu havia prometido antes de sair de casa, e por todos os dias que estávamos, até agora, em Brighton, e eu ainda não havia nem tentado dialogar. Isso trazia a conversa que eu havia tido com Tom, logo no primeiro dia. E não era bem a conversa que vinha ajudar a me incomodar, era o abraço.
De todos os assuntos que podia iniciar uma conversa ou briga, o único que acabaria me acertando em cheio era aquele que estava camuflado, passado. Situações criadas e atitudes tomadas que eu não estava presente para ajudar, rir ou agora relembrar. Qualquer coisa do passado era irritante, mas agora a sensação não era de ficar incomodada por não querer ouvir, também, mas era uma incomodação ocasionada por inveja.
E a vontade de querer ter estado junto não podia ser ignorada e afastada tão depressa.
- E a não gosta desse tipo de coisa... – escutei comentar, quando levantei minha cabeça outra vez.
- Você vai querer ir, ? – apontou logo mais a frente, onde estava uma montanha-russa, sem dúvida, menor e mais capenga, perto da Pepsi Max Big One.
Só assim saquei que eles tinham voltado com o assunto da montanha-russa. Melhor.
- Ah não, não quero – fechei meus olhos, os apertando, fazendo uma ligeira careta, e balançando minha cabeça – Vão vocês – olhei rápida para Tom, retornando a e, por último, parando em .
- Estamos indo! – agarrou , envolvendo o pescoço do garoto com o seu braço e o puxando para perto – Decidam quem fica e quem nos acompanha – falou antes de virar e arrastar o seu apoio.
- Bom, acho que eu vou – Tom juntou as mãos, dando um soquinho, e me olhando, como se quisesse algo.
- Vamos todos então! – , que havia afrouxado o abraço, apertou outra vez seus dedos em meu braço.
- ! – assim removi rapidamente o meu olhar sobre Tom e me desvencilhei do garoto, o olhando de frente – Eu queria... Eu quero falar com você – disse.
Tom me incomodava tanto! Praticamente, eu sabia, estava me obrigando a iniciar aquilo.
- Agora? – perguntou – Vamos indo, daí você me conta – sorriu, nos impulsionando para frente.
- Ah não, é particular – avisei - O Tom podia ir lá com os garotos, ele compra o seu ingresso. Não compra, Tom? – perguntei, o olhando, inclinando de leve a cabeça para ele ir.
- Claro! – sorriu, logo fazendo o que eu queria, se afastando – Esperem coisas! – gritou para os outros, sem antes dar uma última olhada para trás.
Acenei.
Precisava sim de mais confiança, havia feito aquilo sob pressão. Mas não podia interromper.
Um misto de vontade de matar Tom, outra de querer agradecê-lo, percorria os meus pensamentos. E minhas mãos já começavam a transpirar, e eu simplesmente odiava aquilo. Nervosa por quê? Ok, eu tinha todos os motivos. Porém eu não podia ficar confabulando com as vozes em minha cabeça. Precisava de foco.
Foco, !
- O que é então? – enxerguei a minha frente, com os seus olhos arregalados e expressão de curiosidade.
Os seus olhos me hipnotizavam. Mas não, não mesmo, eu não podia o abraçar e falar que o amava. Só. Sim, aquilo era verdade, eu o amava. Contudo não era aquele o assunto principal. Não não.
- , eu preciso meio que... Ok, eu preciso ter uma conversa séria com você – falei, juntando as minhas mãos e entrelaçando os meus dedos. Brincar com eles era uma forma de aliviar tensões.
- Tudo bem, estou ouvindo – ele sorriu.
Ah não, , não sorria. Droga!
- Algo sério. Talvez não. Tudo isso depende... É, provavelmente sou eu quem faço tempestade em copo d’água – gesticulei, já sorrindo nervosa. Assim fazendo com que o garoto diminuísse a intensidade do seu.
- Bom, se for realmente sério, você pode continuar depois, eu prometo te escutar com calma. Sabe, até acho melhor, isso aqui está movimentado e barulhento. Não acho um local propício para conversas sérias – disse.
E ele tinha a mais pura razão. Mas que droga também, .
Por mais que não pudesse muito pensar no caso de rejeitar uma chance de contar-lhe tudo, aquele lugar era mesmo péssimo para ter uma conversa delicada, envolvendo outras pessoas. E eu não sabia como agiria, não saberia como eu agiria. E eu odiava escândalos.
Bom, talvez nem fosse para tanto, pensar em escândalos. Afinal não era um assunto horrível. Era só o fato de eu ter escondido que conhecia e Tom. A parte ruim de explicar era o porquê de eu ter feito aquilo.
Er, eu não sabia nem à proporção que o meu segredo podia tomar. Isso era ruim ou bom.. Não sabia.
Bingo, de novo, eu não sabia nada!
Fiquei quieta, era possível ver a decepção na minha expressão.
- Mas hey, animação – ele chegou mais perto, agarrando o meu queixo – Você me conta depois – e sorriu.
- Tudo bem então – sorri fraco, mas não queria que fosse desse modo.
- Quer pipoca? – perguntou mudando totalmente o curso do assunto, voltando com a sua mão.
Eu não sabia se eu sentia alívio por ter perdido aquela oportunidade, afinal eu não me sentia segura; havia tomado a decisão de contar em micro segundos, impulsionada pelos olhares de Tom, que por mais que não quisessem me levar àquilo, minha mente o fazia dar a entender. Ou se eu continuava decepcionada comigo mesma, por não ter sido forte o bastante e ter dito a que podíamos conversar em um lugar mais calmo.
Como onde eu estava agora.
Ele havia ido até não sei aonde, comprar a pipoca, que tinha surgido ao assunto como uma necessidade de me agradar ou uma bela desculpa. Talvez ele também estivesse querendo fugir de algo. Tudo bem, não, eu era a psicótica, a problemática, a estressada, a chata e a dramática da relação. Não ele.
Corri meus dedos, como se eles estivessem caminhando, pela base de toda aquela imensa cerca, que limitava o pier do resto do mar. Estava sozinha agora, e podia agradecer. Se em todo o tempo, desde que resolvemos sair depois do jantar, secretamente, tudo que eu queria era ficar quieta, agora eu estava isolada.
Às vezes era impossível de me entender, eu julgava e falava a mim mesma que ficar me martirizando pelos assuntos que eu preferia esconder, ao invés de expor aos outros, não era o mais agradável a se fazer. Mas mesmo assim eu fazia e continuava a exercer. Eu gostaria sim de jogar tudo aquilo para o alto, não ter vergonha de compartilhar coisas com a pessoa que estava mais próxima e admitir os resultados de tudo que eu pensava; e não exercitá-los e depois fugir. Mas por outro lado eu gostava de ficar naquela situação, lembrando, remoendo frustrações e/ou partículas de momentos que já haviam acontecido.
E se eu estava escolhendo agora, optar por remoer o passado, a culpa recaia totalmente sobre .
Sim, por mais que não fosse, naquele momento ali no parque, não ter conseguido falar com tinha sido ótimo. Não me sentia preparada para iniciar a conversa, pois eu nem sabia ainda qual seria a ordem dos fatos. Eu preferia mesmo esquecer aquilo e tentar pensar mais tarde. Queria agora, aquele período isolado de companhias, para exercitar a minha imaginação fértil. Quem sabe depois eu conseguiria agir normalmente pelo resto daquela noite e mais tarde contar. Eu só precisava parar e me alto machucar um pouco.
Não podia mais negar que eu gostava daquilo. Eu tinha todas as armas para fazer parar, mas não, eu gostava de ficar com problemas, eu gostava de pensar no que eu não tinha. É, eu gostava.
Bati meus dedos, por não estar mais os observando, na divisória da grade. Então recolhi meus braços, os cruzando, deixando assim o meu quadril encostar-se àquela proteção branca. Parei de andar, admirando de frente, não o lado esquerdo da praia, mas a extensão que separava o pier do mar, observando o calçadão da praia ao longe. Mas na verdade, nem o olhava com interesse, minha vista estava embaçada, eu não tinha foco naquilo. Minha audição seletiva havia procurado, achado e se prendido em uma melodia embaladora e calma. Não saberia dizer, no meio de tanto barulho, como ela teria chegado aos meus ouvidos, mas era tranqüilizadora, e o melhor, me fornecia aquele toque de “momento para refletir”, que eu tanto adorava.
Em certas vezes eu construía os meus próprios “momentos”, encenando como se fizesse parte de algum filme imaginário. Talvez por isso eu colocasse mais drama e seriedade naquilo que nem era daquele jeito.
Ficar ali, parada e observando o mar, enquanto deixava minha cabeça produzir cenas, parecia normal. Mas eu criava todo um clima para aquilo. Quem sabe isso que me impulsionasse a levar a crer que a minha situação era preocupante. E não deveria ser, eu só teria que contar a . Até podia lhe mostrar aquelas fotos guardadas naquela tal caixa, fazê-lo assim enxergar que eu ter escondido conhecer os seus amigos havia sido só um impulso. Um impulso errado e sem motivo.
Ok, tinha motivos sim... E era justo isso que eu não queria pensar, era isso que eu não queria admitir, era isso que me fazia pensar que tudo era sim complicado. Mas eu não gostava de exercitar esse motivo, ou melhor, gostava. Mas eu o camuflava, para não mostrar a mim mesma que era aquilo que tanto me incomodava. Ele estava sempre ali, em todos os momentos silenciosos, me impulsionando a pensar, em cada tempo com , se infiltrando nos meus sentimentos.
Talvez eu precisasse abrir o meu coração, destrancar aquela parte secreta. É, precisava. Eu possuía tanto medo, mas em algumas vezes nem sabia explicar o porquê de tanta agonia e insegurança. Acho que eu tinha medo de mudar o curso da história, eu odiava mudanças. As minhas idéias estavam me matando e eu não sabia; estava sempre fugindo de mim mesma, mas mesmo assim as exercitava e ao mesmo tempo as limitava. Estava me tornando psicótica e chata, ainda mais. Estava aumentando a gravidade das coisas e gostando de ficar mais séria e misteriosa a cada dia. Eu estava ocultando um motivo que me fazia mal, mas que mesmo assim eu não queria o revelar logo, para ver se aquela sensação pesada passava.
Contudo, compartilhar aquilo, fosse tudo que eu precisasse e não sabia. Pois eu não queria piorar a situação dos meus pensamentos, eu não queria piorar o meu humor. Mas talvez, se eu contasse, eu pioraria o clima ao meu redor. Ou seja, era horrível sim, retirava o que eu disse antes.
Funguei, era evidente que as minhas frustrações se transformavam em lágrimas. Porque, pelo menos elas eu poderia deixar acontecer, liberá-las para escorrer livremente. Virei de frente para a sacada e afastei meu corpo, somente depositando os meus cotovelos sobre o corrimão e deixando que minhas mãos abrissem caminho por meio de meus cabelos, abaixando a minha cabeça e deixando que as lágrimas caíssem sem ninguém me observar. Não gostava de chorar em lugares públicos, achava vergonhoso e digno de pena.
Por mais que eu estivesse com vontade de soluçar, ficar vermelha de tanto chorar, eu não conseguia. O único choro que eu produzia era com lágrimas isoladas que escorriam devagar, pela extensão do meu rosto. Algo sem som e parecendo sem emoção. Mas ao contrário, se eu pudesse, eu desmoronaria.
Suspirei, fungando logo em seguida, e levantando a minha cabeça. A música que eu havia me prendido antes, já tinha sido substituída pela melancólica do carrossel próximo.
Depositei minha mão sobre metade do meu rosto, logo em seguida limpando a trilha molhada da última lágrima, que havia se perdido quando chegou ao meu queixo; afastando, por último, minha franja do rosto e ficando apoiada por meus cotovelos, usando minhas mãos para cobrir um pouco da minha face, no máximo, horrorosa. Eu deveria estar com o nariz vermelho e com os olhos também. Sempre era assim, qualquer choradinha ou apenas ameaças, que a ponta de meu nariz tratava de ficar vermelha.
Mais uma das tantas coisas que eu ainda não entendia.
- Chorar faz bem, dizem que libera toxinas – não havia percebido alguém se aproximar, como sempre consigo perceber. E agora havia deixado essa pessoa perceber que estava chorando. É, legal.
- Cadê o ? – perguntei, virando calmamente o meu rosto, e deixando os meus braços se estenderem para fora do corrimão. Já conhecia aquela voz, antes mesmo de olhá-lo.
Tom estava bem ao meu lado, apoiado de costas para a grade branca e tendo em mãos um saquinho azul, de pipocas. Que ele estava descaradamente comendo e que eu julgava serem minhas. Achava, mas também não importava. Eu não estava com fome e comida era o que menos eu queria. Estranhava era observar Tom e deixar que ele me olhasse do modo que eu estava, sem nem ao menos sentir vergonha.
É, eu era estranha.
- Voltamos para buscar vocês e só encontramos o . Então eu vim te trazer isto aqui e ele foi com os outros dois – falou, por fim colocando outra pipoca a boca e empurrando o saquinho em minha direção.
- Não, obrigada, pode comer tudo sozinho – disse, voltando-me para o escuro mar; que por mais que fosse escuro àquela hora, parecia um espelho refletindo luzes, as fazendo se movimentarem por conta das suas pequenas ondinhas, ocasionadas por rajadas de vento.
- Então, porque você estava chorando? – perguntou ele.
- Eu não consegui falar com o – desabafei – Ele me interrompeu dessa vez, dizendo que era melhor eu lhe falar quando chegássemos em casa. Porque aqui não era lugar para tratar de coisas sérias.
- É, ele tem razão – percebi, de soslaio, ele balançar a cabeça, como se pesasse as palavras de , e afundar mais uma vez a sua mão no saco de pipocas. Não parecia mesmo prestar atenção.
- Ele tem razão? – virei para o lado – Tom, você praticamente me forçou a fazer aquilo, ficava me olhando, enquanto conversávamos. Eu odeio isso, agir sob pressão! – e com minhas palavras, vi ele se espantar. Com certeza a parte que eu havia acreditado, que ele havia me empurrado para tomar a atitude de chamar por , era coisa da minha cabeça – Bom, não importa muito agora, porque ele mesmo me interrompeu e para falar a verdade eu até me senti melhor com isso. Mas não, não podia e não pode, entende? Eu não posso me acostumar a deixar as coisas como estão. Se ele não quer me escutar, eu tenho que obrigar; se eu fico enrolando para contar, eu tenho que parar. Isso tem que ser enterrado em Brighton e olha, eu só tenho uma semana agora! – gritei, mesmo que não fosse para gritar.
- E porque você não o obrigou a te ouvir naquele instante? – perguntou.
- Mas que saco, eu não sei! – voltei para frente, colocando minhas mãos, uma em cada lado de minha cabeça, a pressionando. Assim fechei os olhos.
Era irritante porque eu só conseguia falar e pensar em fazer. Mas nada do que planejava, eu colocava em prática. E sempre havia sido daquele modo, em vários episódios da minha vida. Eu nunca tinha aprendido a fazer tudo que falava e não era agora que aquilo iria mudar. E isso era uma bela e grande droga!
Além disso, de não conseguir tomar atitudes, somado da minha vontade de ficar exercitando pensamentos que me faziam mal e esconder de mim mesma a conclusão de alguns deles, só aumentando os meus problemas; aquele maldito clima de guardar segredos e o lugar onde estávamos, só me remetia ao garoto ao meu lado.
Até ali eu não havia tido tempo de lembrar que eu tinha feito a mesma coisa com Tom. E que a maldita música do carrossel era sim nostálgica, mas não porque eu estava com sono, mas porque remetia à mesma que todos os carrosséis pareciam ter. A mesma melodia que aquele, do parque em Londres, tinha e que me fazia lembrar de contrariar Zoe quanto a brinquedos altos, ver pipocas voando por cima da minha cabeça e ouvir as mesmas birras entre e Tom, mas que haviam paralisado naquele passeio de roda gigante.
Aqui em Brighton podia não haver roda gigante, mas as luzes piscando e o meu sentimento de peso era o mesmo. Tirando que eu, ainda, não havia recebido algo que me passasse conforto, um abraço acolhedor, e nem havia repetido palavras de afeto e recebido outras em troca. Só tinha a memória e as partes ruins presentes ali.
- É engraçado, no meio de tudo isso, eu me lembrar de você, Tom, e te ter aqui do meu lado, ao invés do meu namorado – iniciei outra vez, já que o garoto havia preferido ficar em silêncio – Por mais que eu tenha outras coisas para pensar e choramingar para você, eu lembro agora daquele dia em que o nos forçou a pular o muro de uma casa e invadir a piscina – assim retirei as minhas mãos dos meus ouvidos e as depositei no corrimão, ficando agora com a coluna reta – Tinha um parque de diversões também, e você estava comendo pipocas, ou melhor, eu estava, e havia um segredo que eu escondia de você. Não uma angustia parecida com a que eu sinto agora, mas um peso quase igual, no peito – fiz uma pausa, para suspirar – Eu acho que eu regredi um pouco. Além de ter voltado para Londres e ter encontrado a Zoe, o e você; algumas atitudes daquela época estão se recriando, um pouco diferentes, mas estão. Mas você acha que eu vou conseguir contar ao o que eu escondo, assim como eu consegui te contar, sem ao menos alguém sair lesado, como você e eu saímos do nosso segredo? – então eu o olhei.
Ele amassou o saquinho da pipoca, que já estava na metade, e virou-se na mesma posição que eu, ficando ambos de frente ao mar, em silêncio. A sua resposta eu não queria saber, e ele parecia entender isso, era apenas um caminho para um diálogo. Tudo que eu queria era somente a sua atenção.
– Às vezes eu acho que guardo somente um segredo, o de ter mentido para . Mas outras vezes parece que há mais um, e pior. Porém eu tento o esconder, me deixar acreditar que é somente aquele de ter escondido que conheço vocês. Mas sabe, a dor do que eu escondo de mim mesma, parece ser maior; e acompanhada do outro, fica pior ainda de suportar. Contudo eu tento agüentar, guardar tudo isso somente para mim e tentar seguir... Mas vem ficando cada vez mais pesado e dolorido. E mesmo assim eu não quero ainda acreditar nesse segredo e muito menos acho coragem para contar o outro a . E guardar tudo isso é horrível, pensar nas conseqüências de querer me livrar deles pode ser ainda mais – o choro que eu não havia conseguido expelir minutos mais cedo, agora estava querendo dar o ar da graça – Eu não sei mais pelo o que eu sofro e muito menos o que faço ou deixo de fazer – disse, não querendo saber se aparentava ser tola, se parecia ter falado demais, se, agora, eu estava chorando e parecendo desesperada na frente de alguém.
- Não fica assim, – vi então ele se aproximar mais, estendendo a sua mão até a minha.
Mas percebendo o movimento e vendo a sua mão perto, eu não a deixei somente posar ali, eu a agarrei e o puxei para o que eu necessitava naquele momento.
Eu ignorei os sinais que disparavam dentro da minha cabeça, dizendo para me afastar, e fiz apenas o que eu queria de alguém, mesmo que fosse aquele alguém; eu o abracei.
Afundei, ainda mais, o meu rosto no seu ombro, com o desespero que eu não possuía aquele dia na praia. Era diferente agora, eu realmente precisava que ele espalmasse suas mãos em minhas costas, as alisando, e me trazendo cada vez mais para perto, me apertando. Eu precisava me sentir envolvida pelos seus braços, precisava daquilo para ter um lugar seguro aonde chorar e fazer aquela angustia do momento passar. Apesar de todos os pesares.
- Eu não sei o que te falar para você se sentir melhor... – começou.
- Só continua me abraçando! – murmurei.
E eu escutei a sua risada e ao mesmo tempo o senti intensificar o aperto.
- Eu não sei o que te dizer, para você resolver o que te aflige, porque eu não sei qual é, o que é esse segredo maior que está te machucando tanto carregar. Mas a melhor opção é compartilhar a dor, porque só assim você vai se sentir mais leve – continuou, me fazendo levantar um pouco meu rosto, o encaixando normalmente a dobra do seu pescoço, como um abraço saudável deveria ser – E se você não quer falar ele a qualquer pessoa, pode me falar, porque sim, você pode contar comigo para tudo, – disse.
Não sabia se eu chorava mais com aquelas palavras, juntas do seu abraço, ou ainda pelos meus problemas.
Afastei meus braços, quebrando um pouco da força que eu exercia a juntá-los para rodear o pescoço de Tom, e fiquei outra vez, normalmente, de frente para ele; o olhando.
- Eu te amo – estava na ponta da minha língua e saiu tão fácil e sem pedir permissão, que eu fiz o garoto trocar o sorriso pela expressão de surpresa – E muito obrigada por estar me ajudando... Meu amigo. – me dando, aos poucos, conta das três palavras, tratei de consertar qualquer mal entendido.
- Eu também – falou, aparentemente sem graça, pelo o risinho que veio de acompanhante.
- , agora sim eu não consigo acreditar na parada de Blackpool – assim ouvi uma voz, que me fez outra vez perder a concentração em algo, dessa vez na expressão hipnotizadora do garoto a minha frente.
- Brigada mesmo, Tom! – me afastei definitivamente, em um pulo, do garoto, sorrindo. Logo dando alguns passos para trás e virando de costas para limpar o meu rosto e tentar disfarçar.
- Tom, você perdeu O vexame do na montanha-russa! – gritou – ...Ah, e você achou a nossa medrosinha! - já havia nos visto.
Capítulo 10
Era um céu claro, em tons de lavanda, já chamuscado de nuvens ao horizonte, que mais pareciam um rastro fino de fumaça ou fiapos cor de rosa de algodão doce. Algo típico de final de tarde, que acompanhado do sol, que vinha se aproximando ainda mais, deixava o rio logo à frente num tom desbotadíssimo e claro, não mais escuro e cor de barro. Encontrava-se verde acinzentado e pincelado em diversas cores quentes, pelos reflexos que a luz solar, já refletida nos prédios logo à frente, proporcionavam às suas águas. O vento agora existia e era como se o cheiro que ele trazia, também indicasse que estava na hora de todos terminarem um dia de trabalho, ou de pura inutilidade, e ir para casa.
Quando eu havia parado naquele banco, descanso era a única coisa que eu procurava. Eu havia rido demais, com uma pessoa que eu acharia impossível e que, naquelas semanas atrás, nem queria por perto. Mas era diferente agora, o pôr do sol ajudava a vê-lo como uma pessoa agradável. E era, eu sabia por todo o pequeno período de tempo que eu já o conhecia. Eu só forçava a entender que era apenas mais um garoto. Seres cujo eu nem tinha habilidade ou me animaria a conversar sobre coisas diversas e ainda descansar a minha cabeça ao seu ombro. Mas, como eu disse, e agora relembrava, aquela pessoa era e ainda seria muito especial.
A vista daquele lugar a beira do Tamisa, próximo ao Parlamento, não me deixavam pensar em outra coisa sem ser aquela tarde sem aulas de piano, cujo eu experimentei pela primeira vez qual era a sensação de ter Tom tão próximo, digo mais especificamente, seus lábios colados aos meus e suas mãos agarradas as minhas.
Eu nunca havia falado, mas aquele beijo havia sido o primeiro, de uma seqüência de melhores, que eu daria depois de tudo aquilo. Todos os outros, antes dele, pareciam ter sido experiências mal sucedidas de jogos de verdade ou conseqüência ou interrupções de terceiros. Nada muito agradável. Mas aquele não.
Quando pareci voltar para onde realmente estava, adquiri de volta todos os meus sentidos e abri os olhos. Para encontrar-me não em um final de tarde em Londres, mas deitada em uma cama, num quarto praticamente escuro, que indicava estar de noite. E era impossível, logo que parei de devanear, não perceber que estava de frente para uma pessoa, que não era aquela cujo eu havia iniciado pequenos filmes em minha cabeça.
Não estava chovendo, eu sabia, mas era como se eu ouvisse e tivesse a sensação de que havia pingos se reunindo na calçada, já formando poças. Então me devolvendo mais sensações. Como conseguir sorrir com atitudes mais banais, mesmo que se estivesse ensopada e ainda atrasada para a hora do jantar. Sem dúvida uma memória para mostrar como a chuva, às vezes, só podia melhorar um momento, sem ser quando se está deitado confortavelmente em uma cama, quebrando qualquer constrangimento e mudando personalidades.
Eu olhei para frente, percebendo gotas escorrerem pela extensão do meu nariz e serem absorvidas por meus lábios, que sorriam abobadamente para um garoto. Cujo eu podia sentir a respiração rebater e mesmo assim, com o frio e a água, aquecer a minha face. Ele fazia os meus olhos quererem fechar, sem ser pelo motivo das gotas atrapalharem a minha vista. Ele me fazia ficar imóvel e esquecer de situações óbvias, de que a chuva estava se tornando forte e a rua estava praticamente deserta. Mas aparentemente eu gostava daquilo, pois parecia que ele tinha poder sobre tudo ao redor, porque era somente ele se aproximar centímetros mais, para fazer todos os relógios pararem de funcionar e me fazer esquecer que estava sendo ridícula. Ele era feito de algo mais, e não era manteiga. Também era um ótimo telespectador do meu musical, sem música, de dançando na chuva. Algo que me lembraria para sempre. Algo totalmente amável.
E não que o garoto bem a minha frente, dormindo tão sereno, não fosse também. Era. Era quase tão engraçado e adorável como aquele das minhas memórias. Sem comparações, claro, cada um possuía o seu jeito de me encantar e me levar para qualquer outro lugar além do planeta Terra.
Ergui minha mão lentamente, ajeitando um fio de seu cabelo, caído fora de ordem, na questão de como os outros estavam alinhados, fazendo-me passar levemente meus dedos sobre a sua testa, percebendo assim, como tinha receio de fazê-lo acordar ou qualquer outro mal. Voltei com minha mão, logo depois movendo o meu olhar da sua face, para o meu próprio braço; vendo o seu estendido até o meu, recaindo a sua mão a uma parte de minhas costas. E eu sorri, porém calmamente me mexi para removê-la dali e fazer com que ele procura-se uma posição mais confortável para passar o resto da noite.
Assim fiquei de barriga para cima, observando melhor os riscos de luzes ao teto branco do quarto, que agora estava num tom de azul marinho. Era como se seguir aqueles pontinhos, não me levassem a um pote de ouro, mas sim a um próximo rolo de filme caseiro. Que numa reflexão rápida, eu parasse de discutir possíveis medos e soltasse uma de minhas mãos do
guidão, para encontrar e encaixar a minha parte na de outra pessoa, me fazendo sentir segurança e assim deixar somente a bicicleta seguir por aquelas calçadas. Levando-me, a um flash, ao final, e deixando-me cair num chão quente e amortecedor, permitindo que eu respirasse o cheiro de grama recém cortada e ouvisse o som dos passarinhos, sem ser o das risadas, que fazia a minha própria barriga doer. Mas uma dor agradável, de poder rolar para o lado e se apoiar em outra pessoa, correndo os dedos por suas costelas e realizando cócegas que a fariam rir mais do que eu poderia, ali.
Absorver o seu cheiro, fazia relembrar beijos e fotografias bem sucedidas, ou interrompidas por movimentos bruscos, no meio daquele imenso gramado verde. Junto da sensação de correr e sentir a brisa levar os fios de cabelo a se espalhar e atingir o rosto, quando se ganha um brusco empurrão, que te faz girar, observando toda a vista de um parque, com os olhos cerrados pelo riso de receber as cócegas nas próprias costelas. Mas por fim, aliviar qualquer tensão com pedrinhas atiradas ao lago e um belo passeio, pousando a cabeça aos ombros da tal pessoa, rodeando o seu pescoço com os braços e querendo colocar tanto sentimento em simples atos, quando a mesma tem o esforço de andar por dois.
Era exatamente aquilo, que apesar de eu estar até mesmo de olhos abertos, se refletia bem a minha frente. Não era mais preciso fechar os olhos para ver aquele rolo de filme ser passado. Eu estava vendo com clareza cada simples detalhe das cenas que eu mesma tinha protagonizado. E tudo era tão verdadeiro que eu podia ir lembrando de uma seqüência de fatos, somente por um ato, assim fazendo a tal memória se encher de detalhes, me levando a crer que eu podia sentir o cheiro de cada imagem e possuir aquele tato, sobre tudo.
Mas era tão vazio cair de volta aquele colchão e observar o teto adquirir a sua cor original, apagando o verde do gramado e levando para longe aquelas duas pessoas e todo o resto, então desfazendo o meu sorriso. Tudo voltava a ser gelado, como as cores daquele cômodo, e fechar os meus olhos e tentar montar tudo de novo, agora percebendo o garoto ao meu lado se mexer, era difícil. Quisera eu conseguir ignorar ou quisera eu viver sem ter que ser assombrada com aquilo. Mas tinha que admitir, era tão bom reviver aqueles momentos.
então retirou a sua mão esquerda da onde eu havia colocado, em cima da lateral do seu corpo, e num movimento rápido coçou o nariz, virando de barriga para cima, esticando assim o seu braço que até então estava servindo de apoio para a sua cabeça, já que ele estava de lado, e virou-se na cama. Deixando-me, agora, admirar as suas costas. Pena, ou sorte, que com aquele súbito sinal de vida, ele havia se enroscado no lençol e levado a maior parte, que me cobria, consigo.
Eu não conseguia dormir, aparentemente, e então descoberta, era sinal de que eu deveria fazer qualquer outra coisa, sem ser ficar deitada ali, achando que o teto era uma espécie de tela cinematográfica. Não. Então tomei forças e sentei na cama, virando devagar e enfim ficando de pé. E realmente, de pé, eu via que não tinha sono algum. Devia já ter dormido uma hora ou duas, ou quem sabe somente uns 30 minutos, mas me sentia bem.
Olhei para o garoto, já outra vez imóvel, e cobri suas costas com o pedaço de lençol que eu havia deixado, antes de seguir até a porta, na ponta dos pés. Mas achava que nem precisava ser super silenciosa, não havia princesas da ervilha ali. Aquela dos contos de fada, sabe? Que mesmo dormindo sobre 30 colchões, havia percebido algo desconfortável na tal cama. É, mas daí eu me pergunto, como uma ervilha agüentou um colchão por cima? Ta certo, ok, não era hora de filosofar, por mais que aparentasse ser tarde e justamente nessas horas eu costumava me tornar uma filosofa idiota. Retomando, eu realmente não precisava andar com o maior cuidado porque estava numa casa com quatro garotos e eu julgava que eles tinham o sono pesadíssimo.
E também, se eles não haviam acordado com o escândalo amoroso que tinha resolvido ter logo que entrei no quarto, após o banho, eles não acordariam com o simples ranger de madeira, do último degrau da escada. Não mesmo. E por falar em , e escândalo, eu não havia conseguido continuar o meu assunto. Mas eu devia sacar que não aconteceria um depois, quando ele mesmo me interrompeu no parque de diversões. Primeiro, porque eu sabia que ele era esquecido e eu teria que lembrá-lo do assunto. E bem, isso era um grande problema para mim. Segundo, porque ele geralmente não gostava de falar sobre problemas ou discutir a relação, de noite. Quer dizer, alguma pessoa gostava? Ah sim, eu. Mas, então, naquele momento eu preferia ter ficado longe de discussões, na verdade o que eu gostava era discutir a relação mesmo e não ter que lhe contar algo que estragaria uma relação. E eu optei por fazer parte do seu escândalo amoroso. Ou seja, não havíamos continuado assunto algum.
E talvez fosse isso, de ter deixado algo pendente, que eu não conseguia dormir agora. Er, tudo bem, não era isso. E eu não sabia o motivo nem mesmo daquela noite estar sendo o auge das minhas memórias. Tudo aparentava um dia normal, mas eu julgava, a mudança, ter sido ocasionada pela tal música do carrossel. Vai ver por isso a nostalgia a flor da pele. Sim, tudo culpa da inocente música, .
Em todo o caso, eu só estava com uma incrível capacidade de me focar em um objeto inanimado, usando-o como uma chave de portal que me levasse até o lugar onde aquelas memórias estavam guardadas. E eu sabia que agora elas não estavam mais no fundo do meu coração úmido e escuro. Elas estavam retomando antigos lugares dentro dele, se tornando mais fáceis de serem resgatadas. E isso era ruim. Não imaginar, porque isso era até que saudável. Mas nunca eu conseguia ser saudável, eu sempre tornava as situações super saturadas. E esse era o problema. Eu estava imaginando além do limite e, quem sabe, estava deixando que elas me trouxessem sensações e sentimentos demais. Sendo que essas tais sensações e sentimentos estavam permanecendo por mais tempo que as imagens ficavam em foco.
Mas às duas e meia da manhã, como consegui ver ao relógio, logo que cheguei próximo aos sofás, eu não conseguiria remontar cenas e ainda me sentir culpada. Então eu só estava querendo me concentrar no rolo de filme caseiro, ficando orgulhosa da direção de arte da minha cabeça, por ainda lembrar de micros detalhes; como ouvir o barulho das batatas chips quebrarem ao meio do pão, enquanto olhava para a cara de espantado do garoto a minha frente, rindo com a minha espetacular criação culinária, que na verdade era estranha demais. Mas assim me trazia de volta a sensação de pensar escapar dos braços de alguém e ser surpreendida com um abraço pelas costas, daquele tipo que fazem o seu coração acelerar e que te conduzem até o sofá, terminando em trocas de olhares; mas que são quebrados por um pequeno movimento que aperta o botão do controle remoto e devolve uma cena que havia sido pausada. Assim como carinhos dados calmamente, num momento de entretenimento e outro de preguiça.
Silêncio e também murmúrios de alguma frase quebrada na metade, então te lembrar subir até o andar de cima da casa, fazendo, ao deitar naqueles lençóis com o cheiro dele, um sorriso sair, por saber que não é idiota pensar que aquela tal pessoa é diferente de muitas. É. E outros motivos te fazem sorrir ao acordar de manhã e ter que somente descer alguns degraus para poder estalar um beijo ao ouvido de quem se gosta, brigando por comida não por fome, mas somente para irritar. Não irritar porque gosta de incomodar, quem sabe, mas para apenas poder ver como aquela pessoa age quando está incomodada, sendo que você sorri o tempo todo, pedindo que ela se irrite e você enfim acabe tudo aquilo com uma atitude de carinho.
Absolutamente impossível não olhar para qualquer balcão de cozinha e não recordar do dançar dos garfos pelos pratos e da meleca com massa de panquecas. Olhar para a cozinha daquela casa, com aquele recém criado ponto de vista, não era o mesmo que a olhar uma semana atrás. Parecia que, mesmo no escuro, eu podia ver um garoto tentar erguer o máximo que podia o seu prato, tendo uma garota tentando alcançar aquele pedaço de porcelana. Ela ria e ele também, mas ambos não cediam. Fazendo a comida esfriar e correr pelo prato, tornando menos atraente a comer do que finalizar aquela cena engraçada para terceiros.
Mesmo que fosse tão chato, e eu nunca tivesse aproveitado a oportunidade para olhar novamente, os filmes de Star Wars tinham um significado. Até parecia melhor ter fugido deles por todas as vezes que pude vê-los. Era bom recordar e dizer que eles me faziam lembrar daquela noite refugiada na casa do garoto da rua de baixo. Porém não sabia se agora era melhor eu continuar com aquela lembrança ou ter as substituídos pela noite em que o namorado de Maisie decidiu que colocaria um filme da série para vermos. Pelo menos, ao invés de ter acabado de remontar aquela cena, eu olharia para a nossa cozinha em Brighton e recordaria das risadas e tentativas desesperadas de fazer pipocas pararem de soltar da panela; no final tornando o chão da cozinha como uma plantação de milho. Levar aquele lixo para fora e ter ficado observando as estrelas com , até os narizes e as pontas dos dedos gelarem, mesmo com as luvas, nunca tinha sido tão bom, como naquelas férias em Toronto. Essa podia ser a minha recordação com cozinhas e filmes!
Mas não era bem isso que o meu cérebro queria recriar. Ele queria memórias mais antigas, memórias onde aquele garoto, que havia me destapado na cama, não aparecesse. Isso remetia esquecer qualquer proximidade com a América, deixando tudo acontecer no velho continente, tornando aquela antiga vida mais vívida, graças as incríveis maravilhas do cérebro humano.
Nada mais eu podia fazer. Se resolvesse dormir, veria os mesmos vídeos e ficar acordada, também resultaria no mesmo. Eu só teria que deixá-los rodar sem me importar. Contudo isso era o difícil.
Levantei da guarda do sofá, onde tinha parado para admirar melhor o holograma que se criava na cozinha. Agora ela estava escura de novo, as pessoas já haviam ido embora e tudo que se ouvia no lugar dos seus gritinhos e risadas, era o tic tac do relógio e o barulho do congelador da geladeira. Assim, a luminosidade azulada ao chão de madeira clara e a possível nova distração, com a paisagem do lado de fora, pareciam melhor. Não me lembrava de ter memórias com janelas. Quer dizer, até que tinha. Elas me lembravam ter que escalar um suporte de trepadeiras para entrar ao meu quarto ou usar as suas cortinas como um belo esconderijo para continuar a ouvir uma música que estava sendo cantada por alguém logo abaixo, do lado de fora. Mas não era bem aquilo que eu queria imaginar, já que quando parei a frente da janela e afastei a sua cortina, nada mais se materializou a minha frente, sem ser o pedaço de jardim da casa e a rua iluminada.
Porém, ao olhar ao céu negro e voltar até aquela grama, eu senti como se ainda faltassem algumas cenas para o filme caseiro acabar. No seu rolo ainda tinha aquela parte da frustração, de ficar sendo alvo de bolas de neve, que batiam com força em qualquer parte do meu corpo, mas que não me incomodavam mais, quanto receber os seus pequenos floquinhos escorregarem pelo meu pescoço. Sensação de cócegas, quando os pedaços de gelo começavam a escorrer pela pele, e de arrepio, logo em seguida. Mas que havia sido substituída pela gratificante sensação de poder dar o troco, vendo minha amiga me ajudar a ter um motivo para rir. E logo, num grito, ouvir risadas e saber que era um sinal para correr. Trocando as calçadas escorregadias pela rua, tomando o mesmo cuidado e equilíbrio ao passar por meio dos carros estacionados, enquanto tentava se afastar da recém recuperada vítima da vez, que olhando de soslaio, corria com dificuldade, talvez pela neve ainda acumulada nas suas calças. Engraçado. Assim como a quantidade de movimentos, executados ao meio do vento cortante, que me faziam recordar do barulho dos passos pela neve e dos gritos que vinham logo atrás. Qualquer tipo de ameaça, de brincadeira, que era ignorada pela garota logo à frente, debochando do próprio namorado, e que eu não conseguia raciocinar para ouvir, pois ouvia as respostas do garoto ao meu lado, gritando para o amigo logo atrás, enquanto segurava a minha mão. Aquilo me distraia e não era como se eu tivesse tempo de olhá-la com calma, eu ofegava, ao mesmo tempo em que tentava manter o ritmo da corrida, conciliando com a enorme façanha de não cair, junto com aquela sensação de adrenalina, de a qualquer minuto poder ser surpreendida por uma bola de neve ou com alguém pulando em minhas costas. Mas o garoto, ainda assim, apertava a minha mão com segurança. E apesar delas estarem isoladas, pela quantidade de algodão e lã das roupas, eu podia sentir exatamente aquela agradável sensação de ter os nossos dedos entrelaçados. E, mesmo com o riso abafado pelo cachecol e os meus olhos cerrados pelo vento, eu podia ver o seu sorriso, de quem estava gostando daquela brincadeira, e dar o meu olhar de agradecimento por ele estar ali e me fornecendo momentos assim.
Momentos que invadir piscinas particulares e sair correndo pela rua, logo em seguida, não conseguiam ser mais molhados, mas mesmo assim não desconfortáveis, como os daquela saída para aproveitar a neve, antes que ela derretesse e a sensação de arrependimento batesse. Aquele passeio era um dos últimos que eu podia guardar para mais tarde recordar. Era assim que eu pensava, quando, esquecendo dos antigos cuidados e não dando bola, por se estar num terreno derrapante, comecei a rir por ver, em milésimos, o garoto se afastar do meu braço, para cair, de mal jeito, no chão a minha frente. Cena que levou pouquíssimo tempo, mas que rendeu o meu riso debochado, até receber um puxão e cair de joelhos ao seu lado. Fazendo assim qualquer gracinha cessar e vir à tona a lista de momentos embaraçosos que já havíamos passado um ao lado do outro. Pouco tempo, podia se admitir, e claro, a maioria dos momentos constrangedores eram protagonizados por mim. Porém não podia fazer nada, se ao seu lado eu esquecia que era tímida e acabava fazendo coisas que não imaginaria exercer se estivesse sozinha. Era óbvio que ele me motivava e me deixava boba, praticamente cega e mais extrovertida, esquecendo de vergonha e constrangimentos. Como estar sentada ao meio do rinque de patinação, e ignorar que este estava lotado, somente tentando achar palavras para tentar revidar com as que ele me falava. Mas que por mais que eu pensasse, não conseguiriam expressar o misto de sensações ótimas que eu sentia. E então era tão irritante ser interrompida e cair novamente à realidade, ao sentir a roupa ir molhando pela água do gelo, e olhar para a decoração. Todas as luzinhas, o frio e as canções natalinas, denunciavam que o ano estava terminando e então que as horas daquele filme, que podia por eu, ser infinito, estavam se esgotando. Logo mais, aquele brilho nos olhos e os sorrisos, seriam substituídos por olhares sérios e a tristeza de saber que qualquer toque podia demorar a acontecer novamente ou nunca mais vir a ser protagonizado.
Sensações encenadas ali, quase tão parecidas como as que eu sentia, agora, fora daquele mundo de recordações, faziam os meus olhos lacrimejarem um pouco, tornando aquela cena que eu via, embaçada e já sem um meio da cor que antes possuía. Então os sorrisos, já fracos, foram substituídos por olhares ainda mais sérios, envolto de um silêncio que antes não havia ao rinque de patinação. Troca de olhares que não notavam somente um a cor do olho do outro, se era possível fazer aquilo no escuro, mas que pareciam absorver cada micro detalhe um do outro. Como se os mesmos filmes, que eu assistia, passassem na cabeça daquelas duas pessoas ali, deitadas tão próximas, na cama. Agora as suas faces estavam mais próximas, assim como os seus corpos, não mais podendo ser interrompidos por qualquer pessoa e sem o aparente frio que antes o chão molhado os fazia sentir. O clima natalino era o mesmo, dava para ouvir o barulho de músicas ou conversas abafadas, mas toda a neve estava ao lado de fora daquela casa, deixando aquele momento deles parecer a única coisa que acontecia ao redor do mundo, deixando que um pouco da tristeza se afastasse e que estar, um perto do outro, fosse o certo a fazer. Resultando, ao fim, em um laço ainda mais forte, que até pareceria eterno. Porém tão rápido e saudoso de lembrar, quando os olhares vão perdendo um pouco da tranqüilidade e se tornam tristes.
A sensação de bem estar e segurança logo é tomada por um pouco de desespero, saudade e arrependimento. O conforto dos lençóis, o clima antes perfeito para se ficar abraçado, fica mais melancólico e frio. Sensações, antes agradáveis agora se tornam horríveis de sentir, ao perceber o peso dos braços do garoto se afastar e ter em mente que aquilo não ira se repetir uma hora depois ou logo no outro dia. A sensação de estar buscando, de novo, as velhas sensações vazias e a vida preta e branca que antes possuía. E mesmo sabendo que a de agora é melhor, ter que andar em direção à antiga, deixando aquela parte quente e colorida para trás daquele corredor. Vendo enfim o filme acabar e se sentir impossibilitada de dar novamente o play, ao invés do stop.
Balancei a cabeça, fazendo a cena da corrida até o metrô; os empurrões e piruetas mal sucedidas no Somerset House; a escapada, no meio da ceia de natal, para ir até a minha casa buscar um presente e a despedida no aeroporto, se afastarem da minha vista. Porém não, totalmente, da minha cabeça. Os meus olhos lacrimejavam, mas mesmo assim eu ainda consegui notar, ao lado de fora, na varanda, um lugar para ficar quieta e sozinha, ao mesmo tempo podendo fazer o barulho que eu quisesse, sem incomodar alguém. Pois eu me sentia impossibilitada de acender uma luz, além de que aquelas seqüências de cenas estavam me fazendo voltar a sentir as mesmas sensações de quando eu as vivi pessoalmente. E parecia injusto, que até nos devaneios, elas repetissem a ordem de felicidade extrema e acabasse na mesma merda de despedida. Isso me fazia ter a vontade de chorar, que ainda não tinha sido totalmente liberada no Palace Pier, de volta.
Então larguei a cortina que eu segurava com a ponta dos dedos, a deixando voltar a cobrir o vidro, agora me aproximando da maçaneta da porta. A destranquei, mas só com o movimento da trava eu percebi que estava de pijama. Às três horas da manhã o clima era totalmente diferente das dez horas da noite. Então me afastei um pouco da porta, estendendo o meu braço esquerdo até o cabide, que ficava na parede lateral, e puxei qualquer uma, das muitas, roupas que estavam penduradas em seus ganchos. Agarrei um casaco em mãos e voltei a segurar a maçaneta e a girá-la, para eu poder enfim sair.
A puxei de volta, de costas e ao lado de fora, e ao escutá-la trancar, admirei a rua deserta. Ninguém era idiota, que nem eu, de ficar acordada na varanda de casa. Todos ali deviam estar dormindo e os que queriam ficar acordados estavam bem longe, na agitação do centro. Respirei fundo, acalmando aquela vontade de chorar, e sentindo o cheiro de orvalho. Com isso mexi no casaco em minhas mãos, constatando que era um moletom, assim procurei colocar meus braços nos devidos espaços e segui até o sofá próximo, o colocando por inteiro.
Passei minha cabeça por sua gola e ajeitei o seu capuz, passando a mão pela sua extensão, no tronco, o fazendo desenrolar e se ajeitar ao meu corpo. Então percebi mais uma vez, que além de não ser um casaco, não era da pessoa que eu imaginava ser. Tudo bem que ao puxar a roupa eu não estava querendo pegar justo uma que pertencesse ao meu namorado, já que eu não lembrava de ter deixado nada meu pendurado ali. Mas parecia ironia do destino aquele moletom ser justo da pessoa cujo antes eu estava vendo no meu filme caseiro.
Passei os dedos pela escrita, Wicked, em preto, lembrando de quando Tom tinha o tirado e colocado no cabide, logo em seguida indo até a cozinha, ajudar o a abrir os fardos de cerveja. Eu podia ter olhado melhor antes de pegar aleatoriamente um. Mas agora era meio tarde, já que eu estava vestindo a peça e recém havia fechado a porta. Também não sabia se tinha alguma coisa pendurada ali para eu ter pegado.
Deixei meu dedo escorregar da linha do logo, para a malha da roupa, observando o seu cinza como se aquilo me hipnotizasse. Mas não era bem a sua cor que eu estava admirando. Era como o teto do quarto, também como o azulejo da cozinha e até mesmo a grama daquele jardim. Ele se transformava em um ícone para me levar a ver imagens aleatórias, como um retro projetor.
Era a mesma cena do quarto, que eu pensava antes da despedida no aeroporto. Era a sensação de encolher as pernas e mexer os dedos dos pés, assim tirei meus pés do chão, os trazendo para cima do sofá. Era a sensação de fechar os olhos e sentir a presença daquela pessoa, respirando e movendo-se cada vez mais para perto, assim fechei o punho sobre o meu peito, fechando também meus olhos, apenas sentindo o vento e ouvindo o barulho dos grilos e da leve brisa mexer com as folhas das árvores. Sorri como naquela noite, não sentindo o toque e nem a presença da outra pessoa, mas a mesma sensação de se sentir boba. Não era exatamente como naquele dia, nem pelo mesmo motivo. Mas eu sorria por me sentir idiota fazendo aquilo, mas mesmo assim gostando de lembrar dos diálogos daquela noite. Muita insegurança e perguntas repetidas, nervosismo e ainda assim um pouquinho de certeza. Fazia-me lembrar também da idiotice de cantar Sixpence None the Richer e cair por acidente ao chão, depois da infantilidade de um jogo de pega-pega.
Abri meus olhos, olhando para a tinta descascada do corrimão logo em frente, assim observei minha mão apertando um pedaço do moletom. Trouxe a sua gola então para próximo do meu rosto, mais exatamente para perto do meu nariz; afundando-o naquele pedaço de tecido, respirando o perfume que ali estava impregnado. E foi exatamente como acelerar um vídeo, ao mesmo tempo em que eu respirava e expirava aquele perfume, e ver todas as imagens de antes passarem rápido demais. Cenas engraçadas e outras sérias, gestos calmos se tornando acelerados e outros estabanados se tornando ainda mais ligeiros. Tudo para a cena estabilizar num amplo lugar, um saguão cheio de vozes e movimentado, envolto em cores claras demais e outras muito escuras, luzes acessas, assim como o aquecedor. Inverno. Mas mesmo que estivesse quente e claro, ali, eu não via a luminosidade, o meu rosto estava afundado naquele mar de cor preta e eu só conseguia ouvir o barulho do mexer do meu nariz naquele tecido e os pequenos soluços que eu estava tentando trancar, pelo choro. Eu estava molhando o ombro daquela pessoa com as minhas lágrimas e deixando o seu pescoço úmido, talvez resultando em cócegas. Mas mesmo assim não ligava e apertava os meus braços em torno do seu pescoço, como se o trouxesse cada vez mais para perto, com a esperança, de quem sabe, fundir. Não sabia se queria deixar minha mão parada ao meu próprio braço, ou passar meus dedos sobre os cabelos próximos a sua nuca, sentindo melhor os últimos instantes que eu podia lhe ter para apertar até deixar sem ar; puxar, enrolar e soltar os seus fios de cabelo; ter a sua bochecha para beijar e apertar; a sua orelha para soprar e mordiscar. Cada pedacinho que eu sabia que era meu e que somente eu sabia todos os pontos para irritá-lo ou o deixar calmo. Exatamente detalhes que eu sabia e que seria duro demais deixar de ver todos os dias e de ter.
- ? – instantaneamente pisquei os meus olhos com força, perdendo o olhar abobalhado sob lugar algum, percebendo minha mão segurando a roupa e assim a afastando do meu rosto, olhando para o lado.
- Tom? – cerrei meus olhos na direção da porta, ainda tendo a mão ao peito, mas não mais segurando o moletom – Tom! – arregalei os olhos, intensificando o meu tom de voz, não virando para frente como pretendia, mas afastando minha mão do peito e recuperando os meus movimentos. Assim alisando a roupa e sentando direito, percebendo que o garoto estava mesmo ali – Que susto que você me deu! – balancei a cabeça, agora sim olhando para frente. Tentando ignorar qualquer daquelas memórias que eu havia visto e estava vendo, tentando afastar qualquer risinho ou sensação bobinha que estava sentindo ao relembrar. E não dando tanta atenção para a cara de sono e o cabelo bagunçado da pessoa, que somente deixava a sua cabeça parar ao lado de fora daquela porta.
Vergonha era o que eu começava a sentir, além da minha respiração ter se intensificado, um pouco.
- O que você está fazendo aí? – eu então o ouvi perguntar, e de soslaio ainda percebi que estava na mesma posição.
Umedeci meus lábios, mordendo o inferior logo depois. Passei a mão por de trás da cabeça, dando uma leve coçadinha ao couro cabeludo e virei novamente para o lado, tentando parecer despreocupada.
- Estava refletindo – assim tirei minha mão, que alisava os fios de meu cabelo, a mexendo no ar, rodando o meu pulso, como se estivesse com um cigarro entre os dedos – Nada de mais.
Ele então descansou os ombros, como se bufasse. Mas sem fazer isso e sem rolar os olhos. Apenas como se não acreditasse no que eu acabava de lhe dizer ou como se estivesse esperando outra resposta.
- E você, porque está aqui interrompendo a minha reflexão, com essa sua cara de sono? Vá dormir e me deixe – falei.
- Ahaha – pareceu se sentir ofendido, riu, e retomou um ar superior, acordando - Agora que eu não vou deixar! – assim o vi recuperar a sua ereção e dar um impulso, como se puxasse algo para cima, saindo mais com o seu corpo para fora. Até puxar a porta atrás de si e eu reparar que ele estava enrolado em um cobertor.
Sentou ao meu lado, fazendo com que eu me encolhesse ainda mais naquele sofá.
- Então, sobre o que você estava refletindo? – perguntou.
Não passou por minha cabeça lhe contar tudo que eu pensava, mas também não queria ser mais mal educada e acabar gerando toda uma mentira. Mais uma. Madrugada era o auge da minha imaginação, às vezes, mas não estava muito chegada a inventar um assunto melhor para lhe falar. Quem sabe somente se eu diminuísse os fatos...
- Eu não conseguia dormir, estava pensando demais, vendo imagens passar a minha frente, e isso fazia o travesseiro ficar desconfortável. Saí da cama para não acordar o e resolvi ficar aqui fora para não acordar o resto. Então estava, tranqüila e sozinha, aqui, pensando e deixando as imagens se refletirem livremente – virei para ele, sorrindo forçada, intencionalmente, ao final – Até agora, claro.
Não havia mentido, somente pulado alguns detalhes.
- Ah, e também peguei o seu moletom emprestado, por engano, quando resolvi sair – vi que havia algo mais para falar, quando notei o seu olhar se mover dos meus olhos, até o meu busto.
- Cai bem em você – voltou a me olhar aos olhos, com um sorrisinho iniciante, de quem parecia satisfeito. Senti vontade de acertar um soquinho ao seu braço e fazê-lo parar de olhar como idiota. Mas não fiz – Mas que tipo de pensamentos e imagens não te deixava dormir? – perguntou. E o meu sorriso forçado se desmanchou – Porque, aparentemente, todos nós pensamos demais quando deitamos as cabeças ao travesseiro. Mas para não conseguir dormir, eles têm que realmente ser interessantes ou, no caso, problemáticos demais – disse.
Eu odiava a necessidade de se exibir dele. Ou apenas a insegurança, de ter que se explicar por tudo.
Respirei fundo.
- Você, às vezes, não se pega paralisado, tão longe, que tudo a sua volta perde o som e o movimento fica bem afastado? Assim você cai dentro de uma outra situação, uma outra realidade, aquela que você carrega na sua cabeça. Uma realidade diferente da que você vive agora, momentos que você já viveu, retomando força, se refazendo bem na sua frente, deixando você ver o que um dia fez. Se entregando de tal forma, aquela memória, que passa a sentir o que está naquela cena. Você já se desligou por minutos, passando a criar momentos novos ou revivendo novamente antigos? – perguntei, um pouco confusa. Não sabia se estava conseguindo me expressar direito, para que ele entendesse realmente o que eu queria falar ou qual era a sensação que ele deveria sentir. Estava tentando começar a explicar algo, mas nem mesmo sabia como chegaria ao que eu queria lhe falar ou até mesmo como terminaria aquela conversa, lhe respondendo o que ele queria saber. Estava apenas tentando.
- É, às vezes eu fico meio aéreo, pensando no meu futuro ou até mesmo relembrando algumas coisas – olhou-me, aparentemente tentando entender o que eu falava – É isso? – perguntou.
- Exatamente. Mas, no caso, você se deixa levar mais por essas memórias, se desligando demais do mundo a sua volta, vendo não mais idealizações de um futuro. O que você vê é só pequenas cenas do que você fez no passado. Como se fosse um velho rolo de filme caseiro, aquelas cenas passando outra vez a sua frente, tão vívidas e cheia de detalhes. Mas você não está as vivendo novamente, apenas as assistindo. Mas mesmo assim sentindo as mesmas sensações. Assim quando você acorda se sente frustrado, por se sentir bem melhor dentro daquela sua memória e ver que ela é apenas parte de um passado cujo você não faz mais parte. Então, certas vezes, você tenta fazer isso parar; seguir em frente; tornar esse hábito de recordar, algo normal, e não algo que você necessita para se sentir feliz. Contudo, você acaba achando a sua frente mil e uma coisas que unicamente te fazem lembrar daquelas memórias e você não consegue mais ter muito controle dos sentimentos que rolavam no momento que aquela memória era real ou os que você sente agora... – suspirei, eu mesma estava conseguindo dar um nó no meu raciocínio – Não sei como explicar, Tom.
- Você quer dizer, simplificando, que está pensando demais no passado? – perguntou.
- Eu não sei por que eu fico tendo esses devaneios – balancei a cabeça, sacudindo as mãos - Quer dizer, parece meio óbvio que eles estão acontecendo porque eu estou de volta a Londres e pelo fato de eu voltar a conviver com a Zoe, você e o . Isso dá pra entender. Mas eles deviam ser apenas memórias passageiras e não daquelas que deixam um vazio incrível, no peito, depois que eu penso. Ou que me forcem a revivê-las, nem que seja uma vez por dia, em minha cabeça – expliquei. – Eu não sei aonde quero chegar com isso...
- Eu perdi um pouco do sono quando vim pegar um copo de água. E agora que eu estou aqui fora, com você, com preguiça de ter que voltar para a cama, podemos ficar sentados, do jeito que estamos, até minutos antes de o sol nascer e você pode me falar tudo que quiser, mesmo que não faça nenhum sentido. Eu escuto tudo e assim você faz o meu sono voltar, com a sua conversa chata – percebi, de soslaio, ele fazer uma careta. Então virei para o lado, admirando o seu perfil – Pode ser? – perguntou, olhando do jardim para os meus olhos.
Ambos rimos ao mesmo tempo.
- Eu acho que o que me incentivou a viver um momento flashback, essa madrugada, foi aquele pedaço de conversa, com você no píer, sobre o parque de diversões em Londres e da invasão na piscina daquela casa – ri, perdendo o meu olhar em qualquer ponto que estava ao seu lado. Já que eu estava com o meu corpo virado para o seu, naquele sofá, e ele estava me olhando – Talvez eu tenha ficado com um pouco de saudade e isso tenha incentivado, com mais força, que eu ficasse imaginando outras coisas engraçadas que fizemos. Tipo cantar Kiss Me, na porta da minha casa no natal – pausei um pouco, fazendo o garoto rir e balançar a cabeça, assim me fazendo olhá-lo. Como se fazer isso, nos conectássemos, porque ambos tínhamos a mesma memória. E relembrar a dois parecia mais engraçado – Mas eu não faço isso normalmente! – retomei um tom sério, mas não mais tão compenetrado quanto antes, pois Tom ainda ria, fraco, do que eu havia o feito lembrar - Quer dizer, como eu te falei, às vezes eu ainda olho objetos aleatórios e lembro de vocês. Por exemplo, um filme de Star Wars. Eles me fazem lembrar dos surtos da Carrie, quando você falou que podíamos assistir filmes, naquela noite na sua casa. E esses surtos me levam a lembrar do que eu pensei, e me fez rir, quando você pegou a caixa aonde os guardava: Tom Fletcher, o maníaco dos filmes pornôs. Ou algo... – ia retomando normalmente, acompanhada das risadinhas, já quase contidas, do garoto, até a minha última frase lhe fazer rir tão alto quanto antes. Então parei de falar.
- Você o quê? – ele colocou uma mão sobre a boca, logo em seguida levando a outra para cobrir o resto – Você pensou que aquilo eram filmes pornôs? – perguntou, tirando as mãos do rosto somente para me olhar.
- Não. Acho que não. Eu não lembro – disse, nervosa por ele parecer estar ficando vermelho demais e rindo mais do que eu pensava que aquelas palavras o fariam rir – Ta certo, Tom, isso foi só um exemplo, não quer dizer que eu tenha pensado ou penso isso toda a vez que eu vejo um filme desses por perto. Eu só quero dizer que lembro de você, não importa a forma. E qualquer outra coisa que teve algum significado, enquanto namorávamos ou quando namorava a Zoe, que eu vejo, eu lembro de vocês – expliquei.
- Sim, eu entendi – ele respirou fundo, olhando para o teto – Mas é que eu não relembrava disso há muito tempo e então, agora, é muito engraçado voltar a pensar e ver a cena da Carrie dizendo que era melhor você subir com ela para o quarto e me deixar sozinho – então ele começou a rir de novo. E podia dizer que aquele seu tom de voz, que tenta se explicar rápido, antes que o riso lhe atrapalhe, estava me fazendo querer rir – Meu Deus, você pensou que eu tinha filmes pornôs! – disse, incrédulo.
- Claro, todos os meninos tem algo desse tipo, quando adolescentes. E quando maiores também – dei uma tossidinha falsa, fazendo o garoto recuperar um pouco da concentração na conversa.
- Se eu tenho algo desse tipo na minha casa, agora, foi porque uma das tantas pessoas pervertidas, do sexo masculino, que vão até lá, esqueceram – falou.
- Ah, esqueci que você é um bolinho inocente – virei para frente, esperando a sua próxima reação.
- Oh cara – percebi então ele levar novamente a mão até o rosto, mas logo a retirando - Você ainda lembra desse maldito apelido? – riu, mas de um modo sem graça e contido, diante dos anteriores.
- É óbvio que eu lembro! Não que seja doentio e psicótico eu ainda lembrar disso, na verdade, comecei a lembrar de mais fatos, como esse, de tempos para cá. Como eu disse, culpa da mudança – alertei, em meio a risadas e brincadeiras, eu não queria dar a entender, explicitamente, que eu ainda lembrava de fatos como aquele, todo o santo dia e a cada detalhe. Não era bem assim também – Mas dizem que os momentos, e apelidos vergonhosos, você nunca esquece – destaquei, agora o olhando.
- Assim, você nunca vai me deixar esquecer esse apelido bicha – concluiu.
- Não mesmo! – cantarolei as palavras, abrindo um sorriso e ao fim levando minha mão até a sua bochecha (como há tempos eu queria fazer) e apertei – Para sempre muffin – disse.
Acompanhamos um o riso do outro. Com vontade, o que faz ser natural e até chega a resultar um pouco de lágrimas aos olhos. Não chega a escutar outro som sem ser aquele que você divide com a pessoa, de rir intensamente pelo mesmo motivo. Até ir diminuindo a intensidade, percebendo que o auge do momento engraçado já havia passado. Assim, juntos, acabar voltando aquele lugar onde se estava, até rir. Acompanhando o riso um do outro, ir chegando ao fim, até o silêncio voltar a reinar e os grilos voltarem com o mesmo barulho. Então a brisa se torna fria e se volta a perceber o que, antes de toda a conversa e risada, você pensava e te afligia relembrar ao lado daquela pessoa, com quem você estava rindo até agora. Gargalhando, as coisas pareciam mais animadoras, bem mais fácies. No silêncio não, havia aquele velho zumbido ao ouvido.
Abaixei minhas pernas, tocando o chão novamente com meus pés. Então impulsionei o meu corpo para frente, assim admirando os admirando. Havia seguido até ali descalça. Olhei para frente, o silêncio ao lado de Tom me incomodava. Resolvi que seria melhor levantar e fiz.
Dei alguns passos a frente, seguindo em direção à mureta, que separava a varanda do canteiro de flores. Assim coloquei as duas mãos sobre o seu apoio, dando uma olhada em todo o jardim e por fim ao céu. Ainda não parecia estar prestes a amanhecer. Então ouvi um ruído logo atrás, Tom devia ter se levantado. Eu também, ainda, não parecia ter feito o seu sono voltar.
Parou bem ao meu lado, como havia feito àquela hora, no píer. Só que agora na mesma posição que eu.
Afrouxei meus braços estendidos, forçando-os a curva-se e assim fazendo com que eu me apoiasse agora pelos cotovelos, à mureta. Ainda admirando o jardim, enxergando ao longe a rua, a fachadas das casas da frente e um pedaço do céu, ainda escuro ao horizonte. Mas, de soslaio, percebendo que Tom havia trazido o cobertor consigo e que ele ainda estava sobre seus ombros e ele olhando fixamente para frente.
Como eu voltei a fazer.
- Por que nós perdemos uma possível continuação? – resolvi perguntar.
- Continuação? – perguntou, mas eu sabia que ele tinha entendido. Pelo menos esperava – Você fala sobre você ter voltado antes e...
- É – resolvi cortar a sua mania de se explicar no meio. Ele sabia sobre o que era.
- Mas estamos continuando. Nós estamos... – tentou.
- Não Tom, temos o agora – o interrompi.
Tudo bem, eu não devia ter feito aquilo. Até pensei que aquela era a deixa perfeita para interromper todo o assunto e falar que eu já estava começando a ficar com sono. Mas, em todo o caso, eu não pensei em dar as costas. Para qualquer ação há uma reação, e para a minha língua que não se controla, os irrigadores do jardim foram acionados.
E, em simples segundos, o silêncio e a confusão na minha cabeça pararam. Com o ligeiro susto de ver tudo parado e depois ver água jorrar de todos os pontos, fazendo com que o barulho dos jatos, caindo às folhagens e grama, fosse equivalente ao barulho que os grilos antes faziam. Então resolvi ficar exatamente onde eu estava.
Tom admirava os irrigadores e não parecia preocupado em continuar aquele assunto. Mas a vontade que eu ainda tinha de perguntar era irritante. Eu tinha que continuar, por mais que eu me incomodasse depois.
- Por que você resolveu acabar com tudo? – só saiu – Porque, sabe, eu possuía sonhos naquela época e, acima de tudo, eu ainda tinha muita esperança de fazer acontecer. Mas então você me enviou uma carta e tudo pareceu ruir no exato momento que eu li e cheguei de volta ao topo daquele papel, olhando a data. Era mesmo real e eu não podia mais fugir do óbvio - juntei minhas mãos, entrelaçando os dedos - Para onde, então, você acha que todos os meus sonhos foram, quando eu vi que finalmente tínhamos terminado?
- Não faço idéia – foi só o que eu ouvi.
- Eles continuaram no mesmo lugar que sempre estiveram, Tom. Porém eu tive a certeza que eles jamais se realizariam – lhe dei então a resposta. E tudo pareceu tão fácil...
- Desculpe... – disse.
E eu já havia ouvido as suas desculpas. Na verdade nem mesmo era para eu continuar a dar razão para aqueles assuntos idiotas surgirem, se intrometendo em momentos agradáveis. Já havia acontecido, não tinha mais o porquê de remoer cada acontecimento. Eu mesma estava tão feliz relembrando...
Mas quem sabe era justo por relembrar e notar que tudo era tão perfeito, que jamais merecia ser perdido.
Ficamos ambos em silêncio. Só que agora não mais ocasionado pelo fim de uma risada. Um silêncio ainda mais incomodador e longo, do que antes havia sido.
Até que lembrei da noite em que chegamos a Brighton, onde Fletch havia empurrado um papel, junto das chaves da casa, para Tom, o informando de uma série de coisas, que eu nem tinha prestado atenção direito, mas percebido, e ainda lembrando, de quando ele havia o avisado que todas as noites os irrigadores ligariam às 4h da manhã.
Se eles já estavam ligados há um tempo, isso significava que já era tarde demais, para o tempo que eu havia pensando em ficar fora da cama. Precisava dar um fim decente e amigável àquela conversa. E dormir.
- Lembra da conversa na praia? – então perguntei, voltando a minha atenção, lentamente, para onde o garoto estava – Talvez você tenha razão – disse, fazendo então ele me olhar – Eu realmente não admito para mim mesma, o que eu sei. Mas também, como te falei no píer, eu acho que é melhor assim, continuar a carregar, sozinha, o segredo que me incomoda admitir e até mesmo segurar – falei.
- E eu repito que estou aqui para te ajudar como ouvinte, se você quiser – ele disse, assim se afastando do parapeito da mureta e ajeitando o cobertor em seus ombros.
- Talvez eu precise da sua ajuda alguma hora – sorri, ao ver os olhos do garoto cintilarem com vontade, quando ele fez um pequeno sorrisinho surgir aos seus lábios, também – Obrigada!
- A partir de hoje, a sua disposição – bateu continência, me fazendo então rir.
- Vamos entrar então, está ficando frio – puxei as mangas do moletom do garoto e indiquei a porta.
Consentiu. Mas sem antes se aproximar e estender um pedaço da sua manta, a colocando sobre os meus ombros, e assim rodeando o meu pescoço com o seu braço, estacionando a sua mão sobre o meu ombro.
Ele me olhou, assim que eu paralisei. Por segundos perdi a consciência do que eu iria fazer e senti a boca do meu estomago tremer. Contudo, enfrentei novamente todos os sinais de alerta, voltando a retomar a sinceridade do sorriso e assim puxando a manta para me ajeitar, por fim passando minha mão por suas costas, até rodear e posicionar minha mão em sua cintura.
- Te fiz sentir sono com a minha conversa chata? – perguntei, agora indo a direção da porta, ao lado do garoto.
Uma coisa era certa, era incrível como o rumo das coisas podia ser surpreendente quando se tratava de Tom.
Capítulo 11
Podia dizer que estava concentrada no artigo que tinha em mãos, mas era somente uma revista cheia de matérias com alto teor de bobagem. Futilidade que eu, confessando, adorava me expor nas horas vagas. Contudo, era meio complicado se prender a algumas linhas, quando as palavras em si, não se destacavam mais que o som ambiente da sala, que misturava vozes abafadas com ruído de alimento sendo mastigado.
A televisão estava ligada em qualquer canal, onde estava sendo exibido algum seriado ou filme, não sabia do que se tratava, muito menos conhecia as pessoas da cena ou estava assistindo. Fazia muito tempo que eu não olhava qualquer programa da tv à cabo. E não era daquela vez que os veria. Estava mais interessada, ou pelo menos tentando, em ler e me manter a par do material que havia chegado entre o período das duas semanas que permaneci fora de Londres. É, e eu, como os outros três, já havíamos voltado de Brighton e estávamos iniciando novamente os nossos hábitos rotineiros. Contudo, naquele caso, estar sentada ao sofá junto de meu namorado, realmente não era algo do dia-a-dia, apenas fazia duas horas que o táxi havia nos largado à porta de casa e, bem, não tínhamos mais força alguma, a não ser ficarmos jogados no primeiro móvel confortável do andar de baixo. Nem mesmo as malas haviam subido as escadas, estavam posicionadas perto da porta de entrada, e muito menos alguma comida decente havia sobrevivido intacta na geladeira para nos fazer preferir passar o tempo na cozinha. E como toda a situação possuía um nome, essa não era diferente, chamava-se: o efeito pós-viagem. Algo que eu sempre encarei com grande mau-humor.
Chegar em casa, depois de um período de férias, e acolher novamente todo aquele ambiente tedioso, que chamávamos de lar, sem comida e ainda por cima tendo a maioria de minhas roupas dentro de malas, que no final eu mesma teria que desmanchar, era uma sensação de extremo desprazer, estressante e chata, que só de pensar em sentir, tinha vontade de logo voltar à fazer parte de um ambiente despreocupado e divertido, que era o de qualquer viagem. Sim, pois rir o dia inteiro e comer qualquer porcaria na rua, parecia, sem dúvida, melhor. Mas não era como se pudesse voltar. E, também, não era como se eu já estivesse desmotivada em ter meu cotidiano, tendo somente meu namorado em casa, de volta. Afinal, tinha pontos a favor ainda, não teria que trabalhar logo no dia seguinte e muito menos tinha que arrumar alguma coisa na pressa, pois as malas podiam esperar um ou dois dias. Tinha que pensar nos pontos positivos e esquecer da agonia de ficar tão despreocupada por quatorze dias e agora vir buscar os problemas.
Ter convivido com os garotos por duas semanas havia sido divertido, meu lado social que o diga, havia conseguido liberar, um pouco, o peso que eu carregava junto comigo, em meio às risadas, e até mesmo havia conseguido perceber que estava restabelecendo uma relação normal com Tom. E isso era o ótimo, porque dessa vez eu já conseguia pensar em algo para dizer em momentos constrangedores, e não apenas fugir, por medo de parecer deixar algum sentimento ser percebido. Três conversas que eu poderia ter escapado que o diga. Não era tudo um princípio de caos, eu o conhecia, ele mesmo dizia que era meu amigo, apesar de tudo, e eu não podia deixar nada me incomodar. Porque eu tinha certeza que apesar dos pesares, era ele quem me ajudaria com tudo.
Achava até, que todas as vezes que eu tive a oportunidade de falar com Tom, em Brighton, eram as responsáveis, agora, por eu estar mais tranqüila, sem sentir tanto as sensações chatas da pós-viagem, estando ao lado de . Mesmo que eu não houvesse exercido o que eu tanto havia planejado antes de sair de casa, pelo menos eu havia voltado com as energias renovadas para lidar com aqueles probleminhas que eu possuía o dom de transformar em bolas de neve.
Estávamos de volta e a situação, em relação ao que eu escondia dele, continuava a mesma de antes. Porém não era mais tão angustiante, quem sabe, esperar mais um tempinho pelo momento certo de contar. Sabia que o encontraria depois e não naquele espaço de tempo, onde estava assistindo televisão e eu deitada ao seu colo, mais refletindo para a revista, do que lendo. Realmente aquele momento não parecia o certo, primeiro: porque não sentia motivação para lhe contar e se iniciasse, temia ser um desastre como no dia do parque. Segundo: porque parecia muito mais interessado, nos intervalos, em lançar pedaços do seu jantar para o alto, tentando assim fazer com que eles caíssem dentro de sua boca, numa espécie de basquete.
Senti bater em meu ombro e escorregar até o meu peito, o que seria as bolas do seu jogo mal sucedido. Assim tive a total certeza que não era muito atraente iniciar um assunto tão sério, enquanto a outra pessoa realmente não parecia demonstrar nenhum interesse a qualquer coisa ao seu redor. Contar-lhe então podia esperar. Na realidade, havia esperado tanto tempo, o que seria mais uma noite? Aquela estava recém começando, não queria estragá-la. Então abaixei a revista, pegando as duas pipocas fujonas, caídas perto do meu pescoço.
- Sabe o que isso me faz lembrar? – olhei para os floquinhos, como se admirasse as suas formas. Então resolvi virar para trás, ainda deitada, para agora olhar a pessoa com quem eu falava e não mais a comida. Assim colocando as duas pipocas na boca e olhando desencostar a sua cabeça do encosto do sofá.
- O quê? – como se o que fazia fosse chato, voltou-se para baixo com a expressão de quem estava interessado.
- Daquelas férias, em que o Reece acabou animando todos para irem passar o ano novo em Toronto – falei já empolgada, por talvez estar iniciando uma mesma seqüência de assuntos nostálgicos, como os que Tom e eu havíamos feito naquela madrugada à varanda – Nós não sabíamos se seria legal ir, porque até então estávamos pensando em ficar em Nova Iorque e ver os fogos ali mesmo, na Times Square. Mas então, de uma hora para outra, todos pareceram gostar da idéia, mesmo o Canadá sendo tão frio. Pois é, você lembra da casa que ele tinha reservado? Era um daqueles chalés rústicos, cuja decoração incluía animais empalhados – ri - E tinha até um em cima do armário da cozinha! – as imagens começaram a se materializar à minha frente, como naquela noite ao teto do quarto em Brighton. Então não achei melhor tela para deixá-las aparecer, com mais nitidez, do que o teto da minha própria casa. Era mais agradável agora, por saber que estava conseguindo fazer reviver pedaços cujo estava junto – O aquecedor parecia quebrado no início, mas depois esquentou tanto, que ficamos de camiseta dentro da casa. Enquanto ao lado de fora não parava de nevar e nem mesmo se tinha condições de dirigir até a cidade para ver os fogos. Você lembra? – perguntei, mas não era naquele instante que eu queria a sua resposta. Até porque olhava para a televisão agora - Só sei que essas pipocas acabaram me lembrando daquela casa e de todos os momentos engraçados que passamos, também vendo o chão da cozinha virar uma plantação de milho, até irmos embora e o último acontecimento ser o atraso de duas horas no nosso vôo – assim voltei a me concentrar na pergunta de antes, diminuindo um pouco o jeito abobado que eu adquiria sempre que lembrava de algo, e voltei a olhar para o garoto. Que continuava olhando para frente, só que agora com um riso aos lábios – Você lembra, ? – agora sim gostaria de ouvir a sua resposta. Queria que ele captasse a minha empolgação, continuasse com o meu assunto, pois eu estava tentando ao máximo reconstituir momentos de diálogos prazerosos com ele. Queria o ver gargalhar como Tom, queria que ele me fizesse continuar a pensar nos momentos que havíamos passado juntos. Aquilo sim era o certo a fazer. E quem sabe até poderia encontrar um pedaço para encaixar o meu segredo no meio? Momentos de dizer: “sabe o que isso me lembra? Lembra que eu já conheço o Tom e o . Ah droga, esqueci que você não sabe” Ta certo, não tão estúpido assim.
Mas eu não vi o garoto me olhar de volta e muito menos ouvi uma resposta rápida. apenas continuou a rir e fez típicos gestos, de sacudir levemente a cabeça, enquanto olha pensativo para um lugar, indicando que parecia não recordar daqueles fatos que eu havia acabado de lhe contar.
Assim não preciso dizer como me senti trouxa. O meu sorriso diminuiu, mas não totalmente. Eu apenas encarei com surpresa o seu silêncio e virei para frente, sem dizer nada. Percebi a revista pousando sobre meu peito e a fechei finalmente, a atirando para o meio da mesa de centro, no instante que tomei forças para sentar no sofá.
- Você não se lembra disso! – não queria brigar, meu tom não era de quem queria. Só que era no mínimo estranho, ver que eu estava tentando conversar com e ele nem mesmo lembrava de fatos que tinham acontecido há um ano ou um ano e meio atrás. Era então quase ridículo comparar com a conversar de Tom e notar que até mesmo o garoto lembrava de fatos de seis ou quase sete anos atrás.
Ergui os joelhos, estendendo meus braços sobre eles, somente olhando para a janela logo à frente.
- Você ficou bravinha? – perguntou em tom de riso.
E estando de costas para ele, aquilo respondia a pergunta. Mas também eu somente estava colocando o meu toque de drama naquilo. Apesar dos fatos, que se tornavam muito decepcionantes ao comparar com Tom, eu não queria julgar . Eu só queria continuar a conversar.
- Só porque eu não lembro disso, agora, não significa que... – o ouvi – Ah, sei lá, , você sabe que eu não tenho e nunca tive uma memória fotográfica daquelas tipo de elefante – mesmo não o olhando eu podia identificar que ele estava juntando a inquietação e os movimentos exagerados com as mãos, as almofadas do sofá delatavam isso. E eu gostava daquele seu jeito de ficar com o olhar desesperado, procurando palavras – Mas se você está achando que eu não me importo, eu... – ok, eu não queria mais o ouvir gaguejar.
- Não é isso, – respondi ligeiro, quebrando a continuação da sua desculpa. Assim me ajeitei melhor, virando de frente para ele, trazendo minhas pernas para sentar como criança – É que vendo isso que aconteceu agora, eu percebo como a gente... Se deixou levar pela rotina.
- Como assim? Você quer dizer que eu estou esquecendo porque estou ficando velho? – perguntou.
- Claro que não – ri com a comparação – Mas você pelo menos lembra como éramos quando morávamos nos Estados Unidos? – perguntei. Mas não esperei outro raciocínio errado – Eu acho que nos deixamos afastar um do outro, mesmo agora morando juntos – falei.
- Você acha que estávamos melhores morando nos Estados Unidos, em casas separadas? – perguntou.
- Acabei de pensar nisso – o respondi – Você lembra como éramos mais unidos? Nós sentíamos necessidade de estar junto em todos os momentos que podíamos. Parecia que mesmo morando em casas diferentes, sabíamos mais, um sobre o outro, do que agora. Aqui as coisas estão sendo diferentes e o que me assusta é que moramos na mesma casa, dividimos a mesma cama e... – pausei – Eu queria saber o porquê disso.
- Hm, vai ver porque não estamos mais na mesma cidade, nem no mesmo país, muito menos no mesmo continente? É. Vai ver também, porque você não tem mais o mesmo emprego, muito menos eu, e nem moramos mais em casas separadas? Sim. Moramos juntos agora, acho que ganhamos mais e nossos empregos é aquilo cujo sonhávamos, estamos de volta ao nosso país e... Porque as coisas tendem a mudar? – riu, mas não como se estivesse achando graça - Acho que devíamos estar mais felizes por esses últimos fatos que eu listei, não?
- Você sempre colocando ironia e brincando quando eu falo sério, ! – lhe dei um empurrão.
- , eu só acho que você se apega demais em detalhes e em fatos que já passaram. Foi daquele modo em um determinado tempo, mas agora não é mais. Parece ruim em alguns pontos, mas não é péssimo, é? – perguntou, dessa vez sério.
- Eu só acho que a nossa relação devia ser muito mais do que quando morávamos separados e não reduzir, agora que moramos juntos e... – tentei.
- Você não me respondeu, está tão ruim assim? Eu acho que as coisas tendem a mudar, elas têm que mudar – disse – Você não acha a rotina chata? Então pense, continuar do jeito que éramos nos Estados Unidos também seria rotina. Estamos mudando, ! – deu um largo sorriso convencido, abrindo os braços como se tivesse acabado de dizer a coisa mais certa do mundo.
É, talvez.
- Mas ... – continuei. Eu nunca gostei que ele tivesse o ponto final da conversa.
- Mas , mas . Mimimi! – agarrou então meus braços e eu senti os seus dedos me apertarem com força, dando-me um chacoalhão – Relaxe, garota!
E o seu sorriso e a maneira como parecia me imitar e me sacudir, me fez começar a rir.
Esqueci então o fio do assunto, que até não estava conseguindo mais ter bons argumentos para continuar.
- Ta certo – sorri – Mas eu só acho que...
- Não acha nada. Sou eu quem acha ou não acha, nesta casa. Você somente concorda – e ele me viu abrir a boca para contrariá-lo, por isso emendou – E não fale, só sorria. Eu gosto quando você sorri.
- ... – balancei a cabeça, ficando levemente corada pelo comentário e já começando a rir outra vez.
Era engraçado como ele não levava nada a sério. Não.
- Poxa vida, será que você não me obedece? – me encarou - Tudo bem, se você não quer ficar caladinha, apenas sorrindo, eu parto para métodos mais drásticos que te sacudir – eu o contestaria mais uma vez ou debocharia, como estava fazendo somente para irritá-lo e tirar a sua pose de quem achava que fazia tudo certo. Mas ele, além de imobilizar os movimentos dos meus braços, aproximou-se ainda mais, agora selando os seus lábios aos meus.
E eu também teria aproveitado mais da situação inesperada, se ele não tivesse se afastado nos mesmos, poucos, milésimos que levou para se aproximar. Então ainda fazendo o papel de idiota, primeiro por ser surpreendida pelo beijo e ceder totalmente, o acompanhei, com os olhos ainda fechados, como se não acreditasse e esperasse mais ao final de toda aquela conversa. Mas só parecia querer ter me calado.
Abri meus olhos, encarando o seu par, azuis cintilantes, que pareciam esboçar o mesmo sorriso que seus lábios mostravam. É, ele tinha ganhado aquela conversa e eu não tinha achado o meu momento de contar a verdade. Droga! Mas mesmo assim... legal. Estava no papel idiota, como a muito ele não conseguia me deixar, mas estávamos fazendo o que eu queria. Mesmo que ele tivesse se aproximado, e eu correspondido, para o ver se afastar logo em seguida, pelo menos estávamos juntos. Como naquele dia da guerra de travesseiros. Coisas assim, que se tornavam raras e que nem havíamos feito em todos os quatorze dias de viagem.
Aproximei-me de volta, com intenção de continuar com aquele momento, com aquele beijo que podia se intensificar mais, mas, agora, tendo os meus braços livres, acabei posicionando minha mão, distraída, hipnotizada pelo seu olhar e, em segundos, lábios, justo dentro do pote de pipocas próximo do seu colo. Assim, claro, o fazendo rir e cortando qualquer clima que poderia durar por mais tempo.
- Bom... - olhou para a minha mão sendo retirada do pote e pegou uma pipoca de lá, voltando sua atenção para mim - Já que eu não vou ter um jantar decente, ainda essa noite, e já fiz você sorrir por hoje, eu vou me retirar – fez um movimento com as sobrancelhas, passando a mesma cara de convencido, e tacou a pipoca para dentro de sua boca, ao mesmo tempo em que tomou impulso, me fazendo voltar ao meu lugar, levantando.
- Como assim, “jantar decente”? – como o assunto que havia sido esquecido, eu deixei para trás a também necessidade de beijá-lo - Eu fiz pipoca para você, ! – falei, demonstrando estar indignada.
- Pipoca é isopor e isopor não alimenta – disse, já dando alguns passos, de costas, em direção à escada.
- E por acaso você já comeu isopor, ? – perguntei, cruzando os braços.
- Só sei que a sua pipoca não me agradou e eu prefiro subir, tomar um banho e dormir.
- Idiota! – então gritei, logo descruzando os braços e afundando minha mão, novamente, ao pote de pipocas. Fazendo, com as que eu havia conseguido pegar, fossem logo atiradas na direção do garoto – Velho também. Afinal quem dorme às 19h da noite? – perguntei, vendo-o tentar capturar as pipocas antes do chão. Mas logo desistindo e rindo da minha cara.
- Vou dormir porque estou cansado e também para ver se a fome passa – falou, já passando as mãos por debaixo da camiseta, à barriga. Debochado, contudo agora as pipocas não o alcançariam ao pé da escada.
Se fosse revisar toda a conversa que tivemos, eu não entenderia muito bem os meus pensamentos e o ponto que gostaria de ter tocado, durante a conversa. Pois havia feito, de tudo, uma grande piada! Eu não tinha conseguido o meu momento nostálgico, por conta que ele nem mesmo lembrava do penúltimo ano novo que tivemos. Também não havia conseguido iniciar uma conversa séria, sobre o porquê de estarmos vivendo tanto a rotina e consequentemente nos afastando mais, porque ele quis pagar de inteligente. E muito menos tinha conseguido chegar a uma solução, para fazer com que voltássemos a fazer, mais, parte da vida um do outro, porque ele havia preferido ir dormir. Ao contrário, havia conseguido apenas gastar aqueles minutos com uma conversação sem pé e nem cabeça, conseguindo pagar de idiota e o fazer gargalhar.
Contudo, analisando o final, eu havia tentado conversar e me aproximar mais. Eu estava tentando ficar ao seu lado, tentando enxergar que nada do que eu achava, estava mesmo errado, que talvez eu tivesse que parar de reclamar e achar problemas. E se a minha aproximação não dava muito certo ou a minha necessidade de conversar não era escutada, eu pelo menos poderia dizer a mim mesma, tranquilamente, que estava tentando. Se o meu segredo não havia sido exposto, mais uma vez, naquela noite, todavia eu dormiria sabendo que havia rido e trocado algumas palavras e gestos, debochados, de carinho com meu namorado. Pelo menos aquilo.
Mas uma coisa eu teria que destacar, quando pensava que nossa relação poderia estar decaindo, ora por meu segredo, ora por pensar que o passado ou até o trabalho de me incomodava, eu tinha que lembrar que nós nunca havíamos sido um casal amoroso demais. Sempre havíamos sido mais amigos que se beijam, legítimos companheiros idiotas, mas que ao final do dia dormiam juntos, do que verdadeiramente namorados. E também só parecia ter razão, mudanças pareciam, à primeira vista, ruins, mas as coisas tinham que evoluir. Eu tinha que aprender a ver que não havia problema em nossa relação, de todo modo ela nunca havia super amorosa, e aceitar que a tendência da vida é sempre mudar. Não sabia, com certeza, se para melhor ou pior, porém era trouxa da minha parte fazer comparações entre lugares, períodos, relações ou entre e Tom.
Encostei a cabeça ao encosto do sofá e admirei o teto da sala, parecia que algo, que estava preso, gostaria de sair, que algo, que estava bagunçado, queria ser ajeitado. Contudo eu não sabia por onde começar, muito menos o que fazer. Era estranho, que quando eu estava parada, eu gostaria de estar ocupada.
Corri a mão pela almofada do sofá, desviando da onde eu sabia estar o maldito pote das pipocas, em busca do controle remoto. Achei. E ao mesmo tempo em que o peguei com as duas mãos, escutei um barulho que não se tratava do volume da televisão, que eu sem querer podia ter aumentado ou trocado de canal. Justo quando segurei o controle, o telefone da casa imitiu a sua campainha chata, me fazendo desencostar, assustada, do encosto e também desligar a televisão com pressa. Era o susto.
E continuou tocando, até eu atinar que deveria também levantar e o atender, para voltar com o silêncio.
- Não sei se eu deveria ter ligado, na verdade nem sei o que falar, mas... , é você, não? – logo que atendi ao telefone fui surpreendida por uma voz confusa. Deixando-me ainda mais, mas só até perceber de quem era.
- Sim, sou eu, . Por que você não deveria ter ligado? – perguntei.
- É, eu vou falar de uma vez então – pausou e eu lhe incentivei – Eu estava tentando ligar para o Tom, uns dez minutos atrás, e ele nem mesmo responde os recados da secretária eletrônica de casa – falou e eu não entendi – Mas não ache estranho ou gay da minha parte, pouco me importa se ele não me atende...
- , você resolveu me ligar só porque o Tom não atende ao telefone? – eu ri.
- É que... Ta passando um negócio legal na televisão, que eu queria que ele olhasse e... Ele sempre me atende... E também você viu que ele não parecia muito legal por todo o caminho da viagem! – explicou.
- Que lindo, , você está preocupado com o amigo – brinquei.
- To falando sério, , o Tom sempre me atende!
- E não passou pela sua cabeça que ele deve estar ocupado com algo ou alguém... Ou até dormindo? – não.
- É pode ser... Mas será que você não podia ligar e pelo menos ver se ele te atende? Porque eu acho que você não ia querer... E também seria muito mandão da minha parte, pedir que você fosse até lá, agora, de noite... Mas será que você, pelo menos, podia ligar e deixar recado? – estava fazendo pausas demais.
- Tudo bem, , eu ligo e logo em seguida te retorno, ok? – estava rindo com a preocupação do garoto, ao ponto de me ligar para ajudá-lo. Só porque Tom não retornava as suas ligações? Bizarro.
- Você ri, mas talvez não se lembre como esse garoto fica bichinha quando pega uma gripe – avisou – E se você conseguir, pede pra ele me ligar? – perguntou e eu pude perceber que ele estava sorrindo ao outro lado.
Estava totalmente surpresa com aquela ligação. Mas nem pelo fato de ter me ligado, um pouco, e sim pelo motivo e assunto do telefonema ser Tom. Perguntava-me porque me ligaria. Por que justo para mim? Eu era uma nova opção de pessoa com quem Tom poderia contar? É, eu poderia dizer que o garoto podia sim contar comigo, era o que ele sempre me falava também. Mas mesmo assim era estranho, mas no bom sentido, eu ser novamente a primeira opção a recorrer quando ele precisava de algo - bom, agora que a sua mãe não estava mais morando na mesma casa, achava que eu era a primeira opção - E isso fazia com que um sorriso bobo fosse colocado aos meus lábios.
Mas também o que me fazia questionar, era se estava mesmo com a razão e realmente Tom poderia estar precisando de alguma ajuda.
Bem, eu sabia que podia ter algo fora do normal porque naquela manhã, a mesma do festival em Brighton, Tom havia acordado aparentemente cansado, reclamando de dor nas costas. Logo ficando mais sonolento e pálido. Mas todos julgavam que se tratava de nervosismo. Obviamente também, porque na hora do show do McFly o garoto se recuperou rapidamente. Porém, a forte chuva que caiu ao final do festival, e início do horário de almoço na cidade, fez com que todos nós ficássemos perambulando pelo backstage, expostos aos chuviscos, que continuaram por toda à tarde. Tom havia entrado no ônibus, já de noite, com a mesma aparência de logo cedo, estava com sono e já reclamava de dor de garganta. Realmente podia estar doente. E, no fim de tudo, quando chegamos aos estúdios em Londres, para largar alguns materiais que tinham viajado junto, era quem havia ido ao mesmo táxi que o garoto, para casa, enquanto e eu havíamos ido em outro.
Olhei para o telefone, já posto de volta ao gancho, e refleti sobre o que faria nos próximos minutos. Não sabia se discaria o número da casa de Tom, na esperança que ele ouvisse minha voz à secretária e atendesse. Ou tomaria a idéia de , que muito estava insinuando que eu deveria optar por isso, e ir até a casa de Tom. Eu teria que sair de casa de noite – nem estava tão tarde assim – e me deslocar até lá... Se fosse alarme falso, teria apenas desperdiçado tempo! Mas se Tom realmente precisasse... Eu poderia lhe ajudar. Ah preguiça.
Encostei novamente ao telefone e o tirei do gancho, encarando agora os números. Ele podia me atender, podia? Provavelmente ele estava ignorando o , porque era chato demais falar com um cara, como ele, quando se está com dor de garganta ou dor de cabeça, como Tom deveria estar, se realmente estivesse gripado. Mas também eu não podia esquecer do que ele estava sempre me repetindo agora, eu podia contar com ele. Então, ele podia contar comigo?
- Alô? – retirei meu ombro, como apoio do celular, quando peguei o troco do táxi e escutei uma voz ao outro lado da ligação – Zoe, é a , desculpe se você estava dormindo... – enrolei a nota com os dedos, a depositando ao bolso do casaco, enquanto já via o taxista fechar outra vez o vidro do carro.
- Claro que eu não estou dormindo. Quem dorme às 07h30min da noite? – perguntou.
iria dormir, não?
- Que bom então – sorri, vendo o carro dar a partida, e admirei um pedaço do Regent’s Park, ao outro lado da rua. Parecia sombrio – Escuta, eu preciso de um favor seu – então me lembrei, virando de costas e enxergando uma porta, que meses atrás, havia sentido meu estômago girar, só de pensar em cruzá-la.
- Você já voltou de viagem? – pareceu não me escutar. Típico.
- Sim, voltei, Zoe. Mas eu queria te pedir um favor agora – tirei meu olhar sob a porta e olhei ao redor. Um homem, carregando algumas sacolas, parecia se aproximar dali, entretido com um molho de chaves – Se por acaso o telefonar aí, para a sua casa, e pedir para falar comigo, ou algo do tipo, será que você poderia falar que eu estou no banheiro ou em qualquer outro lugar da sua casa? – perguntei, logo percebendo que o tal homem parecia estar procurando a chave da porta daquele prédio.
Agradeci e aproveitei.
- Você está fugindo dele? – perguntou, curiosa. Justo quando me aproximei mais daquela porta, juntamente com o homem das sacolas, provável morador, já que parou também e me olhou.
- Eu vou visitar um amigo – indiquei o lado de dentro, quando o morador pareceu encaixar a chave à fechadura, rápido, com medo que eu fosse fazer qualquer outra coisa, a não ser entrar.
- Onde você está, ? – ouvi Zoe, de novo, perguntar.
- Estou no hall do prédio do Tom – disse, assim que entrei, para avisar também o homem que parecia surpreso.
- Você o quê? – porque diabos todos estavam me olhando, ou falando, surpresos? Pelo menos vi o homem me deixar para trás e subir as escadas – Você quer que eu minta para o , se ele ligar, porque você está aí na casa do Tom? – riu – O que você vai fazer, garota? O que aconteceu nessa viagem?
- Zoe, eu realmente queria poder te explicar e contar cada detalhe – mentira, pelo menos não ali – Mas será que você pode fazer isso que eu te pedi? – perguntei, já me aproximando das escadas – Se sim, muito obrigada, amanhã podemos marcar de nos encontrarmos para contar as novidades. Se não, então vá se catar e não espere que eu te conte o porquê que eu estou subindo as escadas do prédio do Tom. Então espero que você me ajude, que só assim te contarei. Preciso desligar, durma bem e até amanhã – falei rápido demais, ao mesmo tempo em que fui diminuindo minha voz, não sabia o porquê, a cada passo que dava.
Com certeza devia ter a deixado confusa e muito curiosa. Mas não era com isso que teria que me importa agora. E até era melhor eu desligar o telefone, para futuras chamadas especulativas.
Coloquei o celular no modo vibra call, justamente quando pareci chegar ao andar do garoto, o último. Pois a cobertura fazia parte da sua casa também. Bastante modesto.
Atirei o celular para dentro da bolsa e me aproximei da segunda porta daquele andar, ao lado esquerdo. Percebia que havia chegado ali bastante rápido, dando qualquer desculpa a , falando que a ligação que havíamos recebido se tratava de Zoe querendo saber sobre a viagem. Assim usando o pretexto que ele poderia dormir sem se preocupar, porque eu poderia demorar na casa da vizinha, havia sido completada naquela ligação para minha amiga já a calçada do prédio de Tom. Mas também, eu não parecia fazer nada de errado. Parecia? Ah sim, só estava na porta da casa de um ex-namorado, provavelmente doente, e ninguém nem ao menos sabia daquilo. , quem sabe. Mas ele ainda estava esperando eu ligar para falar que Tom estava bem e apenas o ignorando ao telefone. É, era uma situação aparentemente normal. Não.
Encarei a campainha e logo foi possível ver o braço de cruzando minha frente e a apertando. Aparentemente familiar, mas ele não estava ali e não era a primeira vez que entraria naquela casa. Olhei para a porta e então optei por não fazer barulho e sim ouvir se ao outro lado havia algum. Se não, eu apenas daria meia volta e ninguém, esqueçamos Zoe, saberia que havia me deslocado até ali só para ver se Tom realmente estava precisando de ajuda. Não estava cem por cento segura, apenas tentando.
Aproximei-me um pouco mais, tomando cuidado, e encostei o meu ouvido esquerdo à porta do número 31.
- Máximas de 19º e mínimas de 10º são esperadas para essa segunda-feira de primavera – escutei.
Tom não podia estar declamando a previsão do tempo, então se tratava da televisão. Que estava ligada! Então alguém poderia estar a vendo... Ou apenas dormindo com ela acessa. Mas ele estava em casa.
Desencostei-me da porta, deixando meus dedos escorregarem até a maçaneta involuntariamente.
Desistir ou prosseguir? Ele estava vendo televisão, só deveria ser um chato e com certeza tudo estava bem. Com certeza era um chato, mas será que televisão ligada era sinal que tudo estava legal? Ta.
Estranhei então a minha idéia idiota, de girar a maçaneta, funcionar e a porta destrancar. Sorri surpresa. Tom se daria muito mal se eu fosse um psicopata ou um assaltante. Porque o seu vizinho havia me deixado entrar tranquilamente. Ele então seria uma vítima fácil. Quem deixaria a porta destrancada?
A empurrei calmamente, vendo se ainda seria certo nem tocar à campainha para avisar que eu estava entrando. Tinha consciência que eu poderia matá-lo do coração se chegasse sem fazer nenhum ruído. Mas preferi não deixar aquele barulho irritante de campainha se propagar pela sala, interrompendo a previsão do tempo para Leeds, e apenas fechei a porta com cuidado. As luzes da sala estavam apagadas, exceto pelas luminárias que havia perto da televisão e ao balcão da cozinha.
- Tom? – resolvi perguntar baixinho, mas não deu muito certo, se a minha intenção era não assustá-lo. Pois sem querer, no passeio da minha mão pela parede do corredor, que logo iniciaria a cozinha, esbarrei no interfone, deixando que ele caísse do gancho – É, ótimo – tentei segurar, mas resolvi deixar para trás, assim como o escuro, para que o garoto visse logo que não se tratava de um fantasma ou assaltante.
- Que susto! – enfim encontrei Tom à cozinha, próximo ao balcão... Segurando uma faca? Epa.
- Pode abaixar a sua faca, não vou te matar – brinquei, me aproximando da entrada do cômodo.
- O que você está fazendo aqui? – ele a largou, mas não fez uma cara muito agradável, como eu esperava.
Achei melhor para de sorrir. Havia invadido a sua casa, sem avisar, e lhe assustado, quando se estava tão...
- Tom você está branco como papel – avisei, me aproximando um pouco mais da onde o garoto estava parado, longe da faca agora, somente com um sanduíche inacabado a sua frente – Você se sente bem? – perguntei.
- O que você está fazendo aqui? Eu perguntei primeiro – insistiu.
- E o que você está fazendo de pé? – não dei bola para seu aparente mau humor.
- Pareço branco como papel e não me sinto tão bem, mas acho que preciso comer, não – debochou.
- Ah, claro – olhei ao redor - Mas deixa que eu termino isso para você – e mesmo não esperando ser recebida daquele jeito, ainda me senti confiante para tomar a sua faca e continuar o que ele antes fazia, de bom grado.
Tom assim saiu do seu lugar, me deixado tomar o controle sob a sua comida, e ficou me olhando surpreso, do tipo que não entendia como alguém poderia invadir a sua casa e se oferecer para acabar a sua comida ainda por cima.
- Pode ir se sentar, logo eu te levo – avisei, agora atirando minha bolsa e casaco ao banco, do outro lado.
E então lhe vi sorrir pela primeira vez desde que entrei em sua casa. Dando meia volta e logo indo sentar no sofá, como havia mandado. Afinal, parecia mesmo doente e julgava que o mau humor inicial era só pelo susto.
- Mas você vai me responder? – perguntou.
- Porque eu invadi a sua casa, quase te fazendo ter um ataque cardíaco e me matar com a faca do patê? – ri, então colocando a fatia de pão que faltava no sanduíche e limpando as mãos ao pano de prato – Bom, eu estava na minha casa, pensando em dormir, quando recebo uma ligação do , desesperado porque que fazia dez minutos que havia te ligado e o senhor não o retornava. E muito menos respondia as mensagens da secretária eletrônica – disse, agora saindo da cozinha e indo em sua direção – Ele então perguntou se eu não podia te ligar, para ver se estava tudo legal. Porque ele tentava esconder o real motivo da ligação, dizendo que queria apenas que você visse um programa que estava dando na televisão, que eu vejo agora que você não está vendo... – disse, olhando para a televisão, ao chegar a sua frente e lhe estender o prato – Mas eu notava, na sua voz, que ele estava preocupado porque você parecia doentinho, logo cedo – e assim o garoto acenou para que eu sentasse ao seu lado no sofá. Sentei, mas continuei entretida com a história – Ele disse para eu apenas ligar, porque se ligasse, você me atenderia. Mas ele acabou insinuando que eu deveria vir aqui pessoalmente e realmente ver se você estava morrendo ou apenas o ignorando. E eu vim, nem sei exatamente por que... Mas eu vejo que você estava somente ignorando o pobre – o olhei.
- Você veio aqui porque também ficou preocupada comigo? – perguntou.
E aquilo me fez perder um pouco do bom humor que havia adquirido, do nada, ao apenas terminar o seu sanduíche. Era o efeito de se sentir útil? Bom, mas com a pergunta eu havia voltado a ficar sem graça.
- Na verdade o conseguiu me preocupar e eu tive que vir até aqui. Vai que você não me atenderia? – riu
- E na verdade eu só estava ignorando o também – confessou.
- Ahá, mas eu sabia! – elevei o tom de voz, numa comemoração realmente idiota.
Percebendo, me contive, olhando para a televisão. A previsão do tempo não estava mais passando.
- Mas você não parece legal também – virei novamente para Tom.
- Acho que acordei nervoso demais e isso me deixou doente – disse.
E eu realmente sabia o que era ficar nervoso demais, assim criando sintomas de doença. Eu também era problemática aquele ponto, de sempre quando posta sob alta pressão, achar que estava prestes a desmaiar. Tínhamos um ponto em comum (mais um ponto em comum). Mas ok, foco, não era por pontos incomuns que eu estava ali. E também nervosismo não deveria ser o que havia o feito ficar doente.
- Eu acho que foi a chuva... – disse, refletindo rápido, mas bem rápido, ao o olhar e ver se deveria mesmo colocar minha mão sobre sua testa para checar a temperatura – Isso é o seu jantar? – fiz - Você não está sentindo frio, Tom? – e como de costume, comecei a agir rapidamente, para que talvez ele não percebesse que eu sentia um conflito tremendo, dentro de mim, quando julgava rapidamente se deveria fazer coisas em relação a ele, como pousar minha mão a sua testa – Você não quer que eu pegue um cobertor? – perguntei, retirando minha mão de sua testa, quando senti que tinha deslocado a atenção do ato, com as minhas perguntas de mãe.
- É, esse é o meu jantar e eu devo dizer que está bom – sorriu – Sei lá, acho que não estou com frio, mas se você quiser pegar algo, pode ir até o meu quarto e tirar o edredom da cama – respondeu calmamente.
Tinha que aprender que agir com rapidez só fazia demonstrar que eu nunca me sentia totalmente à vontade. Não podia esquecer que ele percebia tudo, afinal ele mesmo havia me falado. Deveria me acalmar então.
Dei um sorriso em troca e indiquei que iria até o seu quarto pegar o edredom. Eu não tinha muita noção sobre cuidados médicos ou até mesmo veterinários. Nunca sabia perceber quando estava ou não com febre, imagine notar a febre no corpo dos outros? Nem mesmo servir como enfermeira de alguém eu servia com mérito, minha mãe e que digam. Mas claro, outra coisa que Tom despertava em mim, o meu lado cuidadoso.
Era a primeira porta ao lado direito do corredor, ainda me lembrava das suas coordenadas para Zoe. Mas no caso daquela noite, que estive pela primeira vez ali, elas eram para o banheiro.
A porta de madeira branca estava aberta, e entrando, como de costume, procurei o interruptor ao lado. E acendendo as luzes e adentrando mais ao quarto, eu me deixavei olhar para todos os simples detalhes. Era fato que muitas das coisas expostas ali eu não conhecia mais. As suas paredes não tinham mais tantas coisas coladas, elas eram de fato mais limpas, o cômodo era mais livre de porcarias. A cor da parede creme e os móveis brancos, deixavam o lugar quase apagado, mas as venezianas em um tom de azul marinho, a roupa da cama e a parede que ficava atrás dela, não deixavam que o lugar fosse minimalista demais. Percebi Christmas dormindo próximo a uma porta aberta, observando as malas posicionadas ali, era o armário, e me aproximei mais, chegando próxima à cama, assim olhando melhor para os outros móveis. Ali, em frente à cama, havia uma estante e nela se encontravam várias divisórias, completadas de caixas. Filmes que, olhando rapidamente, eu conhecia de cor e outros que não estavam mais guardados em uma caixa especial. Vantagem de ter a sua própria casa, a decoração e a liberdade de fazer o que quiser com os seus vícios. Mas o que prendeu mesmo minha atenção, ao tentar voltar para o que tinha que fazer, apenas tirar o edredom da cama, foi justo a parede cujo ela estava encostada. Era mania ou tendência ter paredes forradas de fotos e recortes de revista? É, realmente aquilo não fazia o quarto ficar tão apagado. Tinha falado que não tinha coisas presas às paredes, antes? Bom, pelo menos ali elas estavam bem organizadas e não como no seu antigo quarto.
Era tão engraçado, não sei, eu sempre usava esse termo. Mas realmente parecia engraçado, ou pelo menos eu preferia denominar assim, notar como as coisas estavam agora e também encontrar e reparar pequenos detalhes e atitudes que eu não havia presenciado ou ajudado a criar. Naquela parede havia várias fotos com pessoas que eu nem mesmo conhecia, e não se tratavam de parentes ou de , eram dezenas de rostos que eu nem sequer havia visto em fotografias mais antigas na casa de Tom. Chegava a dar, por assim dizer, um desânimo, por perceber que não havia ficado ali. Fotos com grupos grandes, garotas, recortes de reportagens, bandas e celebridades, até uma camiseta cheia de assinaturas da escola que ele havia entrado, depois que eu havia ido para os Estados Unidos, e vários outros bilhetinhos. Mas pelo menos se fosse servir de consolo, e maior parte para a minha surpresa, eu notei no meio de tantas lembranças, uma foto, ou melhor, duas ou três, que eu conhecia, eu estava nelas. Comecei a rir. Mas só até correr meu olhar, logo próximo, e notar quase perto dos travesseiros da cama, uma foto muito mais recente, nela eu não estava, mas sim .
Voltei a me concentrar no que deveria fazer, somente retirar o edredom e sair logo dali. Notava assim, enquanto retirava todos os travesseiros de cima da cama, como aquela situação era ridícula e familiar. Sempre havia a sentido, nem que fosse por um momento. Era legal se sentir saudosa, relembrar períodos da vida, voltar a conviver com pessoas que você conhecia há muito tempo. Eu poderia dizer que me sentia à vontade. Sim, porque se fosse pensar só nesse ponto, eu me sentia super à vontade. Pois eram apenas memórias e pessoas que me conheciam como ninguém, que eu gostava e me faziam criar um mundo paralelo, protegido da realidade cujo vivia e me cercava. Longe dela eu me sentia feliz e entregue. As memórias e aquele mundinho de devaneios e lembranças eram muito mais encantadores e seguro. Sim. Rir e estar ao lado de Tom, por exemplo, fazia com que me sentisse num campo seguro. O que acabava por me deixar em conflito e notar que não estava mais vivendo tais memórias constantemente e realmente, me fazendo perceber que tudo aquilo não passava de um refúgio e não minha vida, era o que me fazia ficar angustiada e desconfortável. Lembrar então que minha vida não era feita de sonhos e Tom, e sim da realidade de ter perdido tudo aquilo e ganhado , que estava ali, me fazia ter um sentimento de culpa, por mais que eu gostasse de fantasiar. Era como sonhar acordada, fazer planos para o futuro e apenas continuar sentada na cadeira, presa à realidade cruel. Como viver num lugar ideal, com pessoas maravilhosas e fazendo o que se gosta, e então, de uma hora para outra, ter que ir para um lugar aonde não parece tão mágico, quanto o outro era. Aquilo até me deixa de mau humor. Mais uma vez.
- Encontrei Christmas pelo caminho... – dei a desculpa pela demora, que apenas tirar o edredom da cama não levava, e fui me aproximando do sofá com a roupa de cama em mãos – Vai Tom, deita aí – mandei.
- Não, senta você aqui – largou o prato, agora vazio, à mesa que ficava ao lado do sofá, e então puxou o edredom para o seu próprio colo – Vai, senta! – mandou. E eu logo fiz.
O vi diminuir o volume da televisão, estender o edredom sob as suas pernas e tomar impulso para deitar. Imagine meu pânico interno, em milésimos, quando notei que o garoto ia justamente deitar a sua cabeça ao meu colo. Sim! Porém não pude fazer nada a não ser esquivar, mas ceder, involuntariamente.
- Tom, era para você deitar e eu fazer qualquer outra coisa, como... – olhei para a cozinha – Guardar o que você deixou fora da geladeira... Ou procurar um termômetro e remédio para a sua febre – disse. E ele riu.
- Você não é a minha emprega e eu não estou com febre – era mentira, eu podia não ser a expert em temperatura, mas ele estava sim quente. Não era de praxe a pessoa estar pálida e de uma hora para a outra ir ficando com as bochechas coradas. (relevasse que o garoto tinha as bochechas rosa) Mas era febre sim!
- Pare de dar desculpas se não quer que eu fique tão próximo de você – disse – É só pedir, se quer que eu saia.
Pensei. Na realidade não queria, no subconsciente, sair dali.
- Tudo bem – respondi, mas ainda não tinha coragem de deixar minhas mãos pousarem sobre os seus cabelos.
- Então você pode começar a me contar o que mais imaginou naquela noite em Brighton – disse. E notando eu me mexer, engatou – Porque você disse que viu muitas imagens passarem pela sua frente.
Capítulo 12
Havia contado a Tom o que ele me pedira, até de um jeito que parecia se tratar de um conto, do tipo que você lê para crianças dormir. Mas, apesar de algumas partes serem tão melosas, como os de fada, no meu relato sobre aquelas memórias que haviam aparecido à minha frente, em cada lugar daquela casa, na madrugada, em Brighton, eu deixava muitas das sensações, envolta em cada partícula revivida, escondidas, abertas somente para mim. Afinal, eu não precisava detalhar exatamente o que eu havia sentido ao lembrar, Tom apenas tinha me perguntado sobre o que eu havia pensado. E bem, o que eu havia visto, ele deveria já saber de cor e salteado, ele não era apenas um ouvinte, ele era um dos personagens. E já sabendo, eu não precisava completar tudo com os meus sentimentos jogados em tais memórias. Até porque, pelo segundo motivo, não havíamos seguido um roteiro com o assunto. O que antes parecia ser apenas os relatos do que eu havia imaginado, tinha se transformado em uma sessão nostalgia, com mais fatos do que eu havia visto naquela madrugada. E até era melhor, havíamos pulado as partes tristes e sentimentos confusos, deixando somente risadas e complementos, para enriquecer cada memória ainda mais. Uma coisa devia destacar, era sempre melhor relembrar com uma segunda pessoa, pois o que um esquecia, o outro ajudava a restaurar. Principalmente se essa segunda pessoa fosse Tom, pois ele, diferente de , não mudava o rumo ou deixava de demonstrar interesse sobre o assunto. Mesmo quando ficava calado, somente me ouvindo comentar.
Esse era exatamente o assunto que eu gostava de falar sobre. E, por mais que às vezes ele me machucasse com as suas conclusões, relembrar também me fazia sorrir. Era tão divertido que eu chegava a sair do lugar que estava, me tornando mais leve, não importa onde estivesse. Tanto que esse assunto ocasionava em mim, que até havia esquecido o meu desconforto em falar tais coisas com Tom e estar tão próxima, tendo-o deitado em meu colo, que resolvi pousar minhas mãos, sem preocupação aparente, sobre seus cabelos. Mas o fato não era aquele, era que conversa vai, conversa vem, agora eu estava apenas repousando minha cabeça ao encosto do sofá, admirando os desenhos que os reflexos das luzes da rua, rebatendo nos vidros da janela, pareciam exibir ao teto do cômodo. E não mais falava descontroladamente, havia tomado ar. Já estava embalada no silêncio da sala e nos movimentos dos meus dedos passeando calmamente pelos fios de cabelo do garoto, que até havia esquecido do horário. Se eu não havia feito Tom achar o sono, naquele dia, com a minha conversa chata, agora sim eu parecia ter o ajudado. O garoto descansava imóvel ao meu colo.
Ergui novamente minha cabeça, a televisão já havia sido desligada antes, não havia nenhum relógio por perto e eu precisava acordá-lo, levá-lo para o quarto e enfim ir embora. Já tinha feito muito mais do que pretendia.
- Tom? – perguntei docemente, me ajeitando com cuidado ao sofá, ao mesmo tempo em que passava minhas mãos sobre a lateral de sua face, retirando pequenos fios de cabelo que haviam grudado em sua bochecha – Oh meu Deus, Thomas, você está fervendo – e somente fazendo isso, eu percebi que ele estava transpirando e enfim recuperado o aspecto corado que possuía. Mas não por ter melhorado, estava com febre. E eu precisava levantar para ver o que faria, porém para isso precisaria acordá-lo – Tom... Tom, acorda – passei minha mão por sua testa, secando o aparente suor, fazendo assim com que se mexesse devagar, aos poucos despertando.
- O que foi? Não, eu não quero acordar – resmungou.
- Não Tom, você não precisa acordar, só levanta um pouquinho para me deixar sair? – perguntei calmamente, enquanto já tentava ajudá-lo, a pelo menos situar-se de volta, tentando com que sentasse – Você está com febre e eu preciso arrumar algo para baixá-la, então preciso levantar, entende? – e expliquei.
- Não , não vai – disse, logo que eu consegui fazê-lo afastar a cabeça de meu colo, me deixando então levantar - Fica aqui comigo – pareceu suplicar, quando eu também o fiz voltar, devagar, com a cabeça para o lugar de antes. Só que agora à almofada do sofá – Por favor.
- Sim Tom, eu vou ficar com você – o respondi, agachando a sua frente agora, passando minha mão por sua testa, fazendo com que todo o cabelo que havia voltado a grudar, voltasse novamente para trás – Mas eu só vou até o banheiro... – disse, fazendo menção de logo levantar e ir rapidamente.
- Não, o banheiro é muito longe, você pode se perder... – e então ergueu sua mão, segurando a minha, que passeava por seu rosto - Eu posso te perder de novo – os seus olhos lutavam para ficarem abertos, ele estava praticamente dormindo, totalmente sonolento, e eu julgava que delirando também. A febre devia ter aumentado consideravelmente, desde que iniciamos a nossa conversa. Porém quando ele havia dito as duas últimas palavras, um esforço aparente pareceu tomar conta de seu corpo, ou melhor, de suas pálpebras.
Tom tentou manter os olhos abertos por um tempo maior, possibilitando que me encarasse. E eu o olhei, deixando que mais uma vez aquela velha ação, de me deixar levar e perder no castanho dos seus olhos, acontecesse. Era incrível, mas de todas as pessoas que eu pareci conhecer na minha vida, até ali, só Tom parecia ser dono de olhos tão expressivos, que me faziam identificar quando ele parecia falar a verdade ou mentir, quando parecia estar seguro ou com medo, quando estava feliz ou triste.
E naquele instante eles demonstravam estar com medo. Mas não era como se o banheiro fosse os Estados Unidos.
- É logo ali, Tom, eu juro que volto – lhe disse, apertando a sua mão. Estranhava ao mesmo tempo – Você pode contar até dez e até mesmo antes do nove, eu vou estar de volta a sua frente – sorri, parecia trouxa falar com ele tão pausadamente e como se não entendesse, mas eu sabia que ele não estava bem – Pode me soltar agora? – perguntei, olhando para as nossas mãos e ainda percebendo o seu olhar – Juro que volto para você.
Segui até o banheiro em passos largos, enquanto contava, devagar e em voz alta, até o número dez, como havia prometido a Tom, que estava deitado no sofá me esperando. Em meio a raciocinar, enquanto trapaceava na contagem, tentando achar uma toalha que pudesse umedecer, para depositar em sua testa, pensava no que ele havia falado. Não sabia, se quando se estava com febre, o efeito era o mesmo que o da bebida em excesso. Era somente ficar bêbado para a verdade sair, então estar delirando por febre, fazia aquelas palavras do garoto ser realmente verdadeiras? Os seus olhos nunca haviam me mentido até ali, em todas as vezes que pude os ver para ter a real certeza do que ele sentia. E ambos me diziam que parecia ser verdade... Mas ao mesmo tempo em que parecia tão bom estar naquela situação e ouvir o que eu gostaria de ter ouvido há tempos atrás, estar acontecendo agora fazia com que todas as emoções afogadas no meu peito, trancadas naquela parte secreta, entrassem em rebelião e quisessem mais do que tudo se chocar com as outras.
Quando percebi que a contagem estava no número oito, cai em mim e logo fechei a torneira da pia.
- ! ! – e ao torcer a toalhinha que havia encontrado, ouvi Tom gritar à sala. Então tratei de logo sair dali – !
- Pronto Tom, chegamos ao número dez – disse, logo abaixando a sua frente.
- Você disse que voltaria no número nove – respondeu, ainda lutando para deixar os olhos abertos.
- Desculpe se eu me atrasei – sorri, agora posicionando a toalha, molhada, em sua testa. Assim, fazendo com que o garoto acabasse por fechar os olhos. Talvez pelo frescor – Mas eu voltei, não? – respondi.
Era estranho, mas cada palavra ali era trocada, eu percebia o maldito duplo sentido.
- Eu esperei ansiosamente que você voltasse – respirou pesarosamente – Mas você não voltou como combinamos – disse, e eu percebi a sua expressão, mesmo de olhos fechados, enrijecer. Não entendi – E eu te esperei mesmo assim, mesmo sabendo que você podia não voltar nunca mais... E você voltou, sim você voltou. E eu fiquei realmente muito feliz. Mas então eu vi que você não havia voltado sozinha. Não, ele estava com você e pior, ele agora era meu amigo. Você também... – e então eu saí da posição que estava a sua frente, sobre os joelhos, agora sentando ao chão, percebendo que Tom não parecia mais falar sobre a minha ida até o banheiro, como eu pensava se tratar. Havia o duplo sentido, de verdade, e parecia que o garoto optava por esse segundo – Mas eu acho que éramos melhores como um só, você não acha? Não consigo perceber se o meu amigo te faz feliz... Mas eu fazia, não? É – riu. E eu estava prestando muita atenção ao que ele falava, já que não me olhava. E admito, para não dramatizar tudo, estar escutando aquilo de Tom, por mais revelador que fosse, eu sentia vontade rir também.
- Será que esse não é o jeito que você quer que seja? – perguntei.
- Talvez.
- Mas eu senti a sua falta, Tom – pelo menos eu deveria aproveitar aquele momento. Parecia que ele não lembraria de algo no dia seguinte, mas era tão convidativo falar um pouco da verdade – Afinal você foi aquela pessoa que foi a primeira em tudo. E dessas, nós nunca esquecemos, não é? Foi você quem me mostrou quais eram, verdadeiramente, as sensações, quando se está apaixonado. E eu aprendi a senti-las com prazer, mas também a sofrer com elas – disse – Você foi quem me deu um beijo de verdade, me divertiu, fez com que eu fizesse coisas que jamais imaginaria fazer. Você segurou a minha mão quando eu precisei e estava ao meu lado em momentos que eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo, só naquele um ano que ficamos juntos. Você me mostrou como ser feliz e sempre me falou, prometeu que ficaria por perto, mesmo nos separando depois... E eu absorvi e guardei todas as suas pequenas e grandes palavras, as levando comigo para os Estados Unidos. Cada detalhe. Mas então, um dia, você fez com o que eu ainda tentava proteger, o meu amor por você, quisesse ir embora...
- E você deixou ir? – perguntou, me interrompendo.
- Tom, você não acharia legal ir para o quarto e deitar na cama mesmo? – preferi trocar o assunto.
- Não – respondeu.
E eu consenti com a cabeça, mesmo que ele não estivesse olhando, e voltei a pegar a toalha de sua testa, para virá-la de lado. Mas, assim, fazendo com que ele abrisse novamente os seus olhos, ao perceber o tecido não mais cobrir o seu campo de visão, e voltasse a me encarar.
- Eu gosto quando você está por perto e principalmente quando você parece se importar comigo. Não gosto muito quando você parece querer fugir. Isso me faz pensar que você não gosta mais de mim – reclamou.
- Mas eu gosto de você, Tom – desdobrei e dobrei novamente a toalha, retornando com ela ao seu rosto, mas agora não mais a pousando sobre sua testa e sim a passando por toda a sua face - Você é uma pessoa muito legal, meu amigo, não? – sorri, eu tinha que aprender a lhe encarar.
- Não gosto também quando você me chama de amigo – disse.
- Do que você gosta? – resolvi então dar corda para a conversa.
- Como estamos agora – respondeu.
- Mas isso não é amizade, Tom?
- Você parece tremer toda a vez que eu te toco, como se ao fazer, eu pudesse te arrancar um pedaço, você não consegue me olhar por muito tempo quando estamos falando a sós. E também, eu vi você ficar cheirando o meu moletom aquele dia – e então começou a rir, fazendo com que eu ligeiramente me espantasse que ele houvesse visto e preferido omitir – Acho que eu não vou mandar ele para a lavanderia tão cedo – comentou. Até me fazendo rir com o modo infantil e obsessivo, fazendo com que eu perdesse um pouco a vergonha. Ele estava um pouco sonolento, não iria mesmo se lembrar de tudo, tinha a vantagem – Mas , você me promete uma coisa? – então perguntou, agarrando a minha mão outra vez.
- Claro – o olhei aos olhos e por último para a sua mão sobre a minha. Fazendo assim com que eu largasse a toalha novamente em sua testa, mas agora sem ele fechar os olhos – O que você quer que eu prometa?
- Quando o meu amigo não te quiser mais, você vai lembrar de mim? – perguntou. E eu tomei minha mão novamente, a depositando agora sobre o meu colo – Porque eu sempre estarei aqui por você, não importe o quanto eu tenha que ainda esperar... Afinal eu sempre esperei. E eu prometo, que se esse dia chegar, você pode confiar em mim, porque dessa vez eu honraria tudo que você pensa sobre mim, eu não deixarei você se decepcionar e prometo que teremos tudo o que perdemos, e o que um dia fomos privados de fazer, de volta.
- Eu provavelmente irei lembrar de cada detalhe para o resto da vida, como você fazia tudo ficar tão bem e o modo como me abraçava e fazia o mundo estacionar... Mas não sei se podemos voltar e continuar. Os tempos são outros agora, não? – fiquei absolutamente sem graça por ouvir aquilo e nem ao menos sabia como tinha coragem de o olhar e ainda falar tudo. Talvez eu realmente estivesse mais confiante por acreditar no fato que Tom podia nem se lembrar do que estava falando e ouvindo, ao dia seguinte. Mas eu tinha certeza que eu estava em perfeito estado e tudo que eu falasse e, consequentemente, ouvisse, ficaria preso nos meus pensamentos. Então, se pelo menos não podia controlar o que Tom diria, e eu teria que ouvir, podia regular o que eu falaria – Mas eu te manterei trancado em minha mente o máximo que eu puder. E volta e meia podemos conversar e retardar o efeito do tempo, lembrando – sorri, movendo minha mão outra vez em direção ao seu rosto, mas agora não para segurar a toalha e sim, apenas, para acariciar a sua bochecha.
- Pára! – gritou então, fazendo com que eu realmente me assustasse, por um momento o vendo tão calmo e num rompante já o vendo virar o rosto para o meu carinho, puxando o edredom para cobrir o seu rosto – Pára de falar, de fazer isso. Pára! – continuou a elevar o tom de voz, me fazendo voltar a ficar sobre os joelhos, me aproximando mais do sofá, para tentar entender porque agora ele estava gritando e tentando se esconder.
- Tom, o que foi? – tentei puxar o edredom, para descobrir pelo menos a sua cabeça – Você está sentindo algo, dor de cabeça, dor de ouvido? – perguntei, deixando aflorar o extinto materno que eu não tinha (também sabia que aquilo não era nada materno), mas sendo vencida pela sua força, que me impedia de ver o seu rosto.
- Por que você faz isso? Por que você fica mentindo, tentando se iludir, por quê?
- Como assim, do que você está falando?
- Isso! Continue a fingir – gritou.
- Está falando do que eu acabei de te falar? – perguntei. Eu sabia - Tom, você pode fechar os seus olhos e imaginar livremente, até mesmo eu faço isso. Mas não dá para mentir, quando você percebe que todos os seus sonhos colidem – disse, resolvendo ficar de pé – Eu não quero me iludir... Mais.
- Se você não quer se iludir, por que gosta de ficar pensando repetidas vezes em todas essas memórias? Por que você confessa que até hoje lembra de mim em coisas do seu dia-a-dia? Por quê? – gritou, ainda debaixo da sua camada protetora de algodão.
Já eu... Eu não possuía nenhuma camada protetora contra as verdades que o garoto me lançava.
- Eu sei, eu vejo que eu me contradigo, que eu minto, que eu continuo a pensar e que, às vezes, até me humilho. Mas eu não quero mais isso, eu não quero regredir, eu não quero me iludir, eu não quero perder nada – e eu comecei a imitá-lo, quanto ao tom de voz – Na verdade, sabe o que eu quero, Tom? Eu quero é mais te libertar, para você sair de dentro de mim, ir embora enfim! – gritei, desistindo de tentar tirá-lo dali e também de gastar minhas palavras.
Passei a mão pela minha nuca, doía, bagunçando todo o meu cabelo em um movimento circular com o pescoço, para liberar tensões. Então decidi que ele não precisava de ajuda, se tinha tantas forças para se prender debaixo do edredom e não me deixá-lo tocar. Iria pegar minhas coisas e ir para a minha casa, com , a pessoa que eu deveria me importa em tentar cuidar e proteger. E não Tom.
- Aonde você vai? – ele perguntou, quando devia ter percebido que eu não estava mais a sua frente.
- Vou embora, acho que você pode se virar sozinho, não? – respondi, sarcástica.
- Desculpa. Por favor, não vá – então virando para trás, ao colocar de volta o meu casaco, notei ele sair debaixo do seu campo de proteção e, aparentemente, voltar a ficar calmo.
- Não, Tom, eu preciso voltar para casa. Preciso voltar para o seu amigo, para o – respondi, agora voltando novamente para frente, à cadeira do balcão da cozinha, procurando o meu celular em meio ao monte de bugigangas que carregava em minha bolsa, para apenas poder chamar um táxi e sair logo daquele ambiente, fugir da conversa que estava me deixando profundamente angustiada e com dor de cabeça.
- Por que eu fui tão burro? Eu tive o mundo em minhas mãos, mas eu preferi jogar ele no lixo e te deixar ir embora. Por quê? Por que você me deixou fazer isso? Você devia ter lutado, me feito acordar para a besteira que eu estava fazendo. Você devia ter me impedido! – os seus gritos, outra vez, me fizeram perder a concentração no que eu fazia, assim me obrigando a parar de procurar o meu celular. Mas, mesmo assim, não conseguindo fazer com que eu virasse para trás e o encarasse – Não, você não fez nada.. EU NÃO FIZ NADA! Mas será que eu ainda posso, será que ainda está em minhas mãos, fazer alguma coisa? Eu já nem sei se acredito que posso te fazer voltar – ouvi o seu suspiro e senti vontade de fazer o mesmo - ...
- porém preferi olhar para o teto e impedir, em silêncio, que lágrimas escorressem dos meus olhos.
- O quê? – perguntei, ao virar outra vez, para olhá-lo.
- Por que você não me faz acreditar?
E eu somente preferi poupar mais de minhas palavras. Realmente era o melhor a se fazer, porque eu simplesmente poderia me deixar levar e acabar ficando do modo que Tom estava. Só que ele estava delirando por causa da febre, já eu não...
- Vamos para a cama! – agora assim suspirei, deixando meus ombros relaxarem.
Não era como uma pergunta, eu estava afirmando, o mandando parar com aquilo e enfim dormir, descansar a si e a mim. Assim também indicando que eu não queria mais conversar.
E como Tom tinha demonstrado ser até que habilidoso com as palavras e controlador da sua força, notava que a sua febre acabaria cedendo se ele apenas descansasse. Como eu tinha que ter o deixado antes, apenas dormindo. Quem sabe se tivesse apenas o deixado, antes de acordá-lo, dormindo no sofá? Eu teria ido embora sem toda aquela conversa, que só havia me feito perceber como me contradizia, como Tom ainda tinha o poder de me machucar, mas como eu ainda queria continuar a me sentir angustiada, mentindo e presa a lembranças.
- ... – e quando ele finalmente deitou à cama e me viu seguir até a janela para fechá-la, voltou a falar – E você deixou ir embora? – perguntou, já deixando que o peso em suas pálpebras voltasse.
- O que, Tom? – dando-me por vencida, apenas larguei o que fazia e sentei-me a cama.
- O seu amor por mim, você o deixou ir embora?
Liguei a luminária e lá mesmo, ao lado do criado mudo, achei outro interruptor, desligando a luz do quarto.
- Você disse para sempre e sempre, não? – sorri.
Às vezes eu ainda me deixava iludir quanto a Tom, pois, agora nessas circunstâncias, na minha cabeça havia se formado dois deles. Um, aquele que eu havia passado momentos engraçados, e não tão pouco inesquecíveis, ao seu lado e que havia tido que deixar para trás. E outro, o segundo, aquele Tom que agora estava ali deitado, cujo eu não sabia mais cada detalhe, mas que, mesmo assim, gostava de enxergar como aquele que eu um dia conheci. E era, de fato. Contudo, era difícil separar que o Tom, cujo eu conhecia naquela época, eu podia beijar, não à bochecha, mas na boca e que poderia lhe falar coisas melhores, sem parecer que estava dando em cima. Porque, afinal, aquele Tom era, nada mais, que o meu namorado. Porém não, o Tom que estava ali, agora, não era mais aquele garoto, era somente um amigo, como Zoe e eram. E o que eu tinha que aprender era justamente isso, enxergar esse Tom da maneira nova e certa, como uma , já madura, em outra vida e com outro namorado, deveria. Mas então o grande problema girava em torno: Como eu podia? Quando tantas coisas pareciam indicar que só existia um único Tom, naquela história enrolada, aquele cujo eu amava.
Não conseguia raciocinar muito bem, assim, ter pensamentos construtivos sobre o que eu havia feito na noite passada e enfim qual era a minha conclusão sobre tudo. Tinha a mania de fazer aquilo, montar em minha cabeça, sempre, uma introdução, o desenvolvimento e a conclusão para tudo que eu vivia, como ensinavam nas aulas. Eu costumava ser boa em desenvolver redações, gostava. Mas apesar de me sentir bem, pensando e escrevendo, tudo estava um pouco bagunçado. Fazia um pouco de tempo que pensar não era só questão de felicidade e escrever uma maneira de passar o tempo. Na verdade nem escrevia mais, estava deixando tudo preso em minha cabeça e fazendo de toda aquela confusão, os capítulos do meu livro particular. Mas não era como se naquela manhã, pousando um bilhete ao travesseiro do lado direito da cama, que eu havia ocupado pela noite inteira, por fim deixando aquele prédio para trás enquanto buscava somente respirar, para buscar inspiração, eu tivesse terminado um capítulo. Eu não tinha uma conclusão sobre o que eu havia passado, parecia que o efeito confuso que as palavras de Tom haviam deixado em minha cabeça, havia evaporado. E era realmente muito estranho como em um dia eu me martirizava, tanto por aquilo que eu havia ouvido e falado, e em outros dias agia indiferente.
E talvez, por estar indiferente, que eu não tinha emoções suficientes para pensar e enfim concluir o capítulo que pairava, esperando um final, em minha cabeça. Assim era melhor esquecer por um tempo, me ocupar com outro assunto. Ou com nada.
Ajeitei os fios que teimavam em se desprender do meu, mal feito, rabo de cavalo, enquanto tentava achar em minha bolsa, aquilo que eu havia deixado para trás na noite passada. O táxi não havia vindo naquela hora, e agora eu estava optando deixar minhas pernas me levarem de volta a minha casa. O vento da manhã era ótimo, principalmente quando se via tanto movimento e não se tinha a preocupação de trabalhar. Gostava dos meus momentos vagabundos, era como se eu voltasse à adolescência e lembrasse da imensa preguiça que eu sentia, apesar de nunca fazer nada de útil. Mas parecia que algumas pessoas estavam me procurando e assim me fazendo cair novamente no mundo real. Aquele cujo eu não dava as caras em casa desde as 19horas da noite de ontem, que precisava avisar um amigo sobre o estado do outro e que deveria tirar o celular do silencioso para receber ligações especulativas de outra amiga. Isso eu esquecia.
- Desculpe se eu deixei o celular num modo que não podia ouvir as suas chamadas desesperadas, mas três? – ri, ao cair na secretária eletrônica de Zoe, que àquela hora deveria estar dormindo e que era uma, ou melhor, três das seis chamadas não atendidas que havia no visor – Tudo bem, eu acho que desliguei na sua cara, te deixei mais curiosa e além de ter que te contar sobre a viagem, vou ter que falar sobre ontem. Então, você acorda que horas hoje? Eu precisava dar uma olhadinha em alguns livros, então será que você não quer ir comigo até a Waterstone’s da Piccadilly às 13h? Assim aproveitaríamos e almoçaríamos no 5th View... Claro, se eu descobrir que você mentiu para o direitinho! – e lembrando do garoto e percebendo rir entusiasmada, ao meio da rua, com somente a secretária eletrônica, dei um fim rápido a ligação, aproveitando o sinal fechado da sinaleira e atravessando depressa.
Quase na rua que queria alcançar, retornaria somente mais uma ligação e o resto trataria pessoalmente.
- Hei – falei confiante. A realidade era que estava adquirindo um bom humor tremendo, só de caminhar até a minha casa, com aquele ar impuro de uma cidade com muitos carros e passado de Revolução Industrial – Oh, puxa, te acordei? – mas tinha que ver que nem todos podiam sorrir às 9horas da manhã de um sábado.
- Não, essa é a minha voz de sono de sempre. Tudo bem com você? – ironizou – O que você quer,
hein?
- Eu esqueci de te ligar ontem, para dizer que o Tom só estava te ignorando mesmo – ri – Não, mentira, ele estava doente. Mas, mesmo assim, não queria falar com você... – disse, querendo iniciar uma conversa.
- Jura que você me ligou pra falar isso? – mas ele me cortou - Droga , você sabe que eu não tenho vida antes das 11h da manhã, quando não sou obrigado a acordar cedo. Você devia se lembrar! – havia esquecido do pequeno detalhe, porque já que eu estava acordada, o resto do mundo deveria estar. Pensava - Não, agora eu vou demorar a conseguir dormir e provavelmente vou levantar por isso – reclamou.
- Terminou? – perguntei, tendo uma brilhante idéia para gerar um motivo melhor para ligação e para restaurar o seu bom humor – Então, se eu te acordei e você provavelmente vai levantar, não quer ir almoçar comigo à Waterstone’s da Piccadilly?
- E comer livros? – ouvi e logo comecei a rir. Se estivesse lhe vendo, o veria mudar sua expressão sonolenta.
- Sim , enquanto eu como livros, você come CDS – brinquei, já colocando minha mão outra vez à bolsa, só que dessa vez para pegar a chave da casa que eu estava me aproximando. E se o garoto estava dormindo na sua, era sinal de que a pessoa que morava comigo, estava também fazendo o mesmo – Apareça lá às 13h, ok?
- Fazer o quê? Você me tirou do meu sonho, me acordou e já que eu não tenho nada para comer nesta casa, acho que vou ter que ver a sua cara feia também. Que dia desagradável esse! Obrigado.
- De nada, . Vou te esperar – sorri, girando o chaveiro em meus dedos, enquanto admirava a porta e calmamente ia subindo os degraus que separavam a calçada.
A próxima ligação da lista nem precisaria ser efetuada graças ao tempo da minha caminhada, que parecia ter sido cronometrada até ali. E entre pendências quase resolvidas, eu ainda não havia, em todo o caminho, conseguido pensar como terminaria o capítulo do meu pensamento.
Bati a porta atrás de mim sem fazer muito barulho. Uma ótima sensação percorria agora meu corpo, que até gostaria de achar e pular em suas costas, o surpreendendo como forma de bom dia. Não estava entendendo, mas tinha que compartilhar a minha felicidade instantânea. Assim, com as minhas idéias, passei pelo corredor, já notando que à cozinha estava vazia e que aparentemente ninguém havia descido até a sala. Porque o pote de pipocas estava no mesmo lugar do sofá, como eu havia deixado. O que eu procurava, então, devia estar na cama, ainda dormindo. Como imaginei.
Larguei meu casaco e bolsa ao pé da escada, como e eu havíamos adquirido a péssima mania de deixar coisas aos degraus, e tratei de subir até o quarto. Em silêncio.
Talvez estar bloqueada para pensar no que havia acontecido no dia de ontem fosse um alerta para que eu ocupasse a minha cabeça com outros assuntos, pelo menos naquele sábado. E sendo assim, eu já planejava tomar café com , no caminho para Piccadilly ir conversando com minha amiga sobre o que eu havia ido fazer ao apartamento de Tom - mas dando mais ênfase a fatos divertidos da viagem a Brighton - e depois fazendo da minha maravilhosa idéia de me desculpar com , por ter o feito acordar, um princípio de reconciliação e novo convívio com Zoe. Estava sentindo que aquele seria um final de semana diferente.
Chegando ao início do corredor, percebi a porta do banheiro totalmente aberta, com certeza não estava lá, pois ele tinha mania de se trancar lá dentro até para escovar os dentes. Então olhei para onde ficava o nosso quarto e a porta se encontrava parcialmente do mesmo modo, mas aparentemente quem estivesse lá dentro não parecia estar dormindo, pois estava claro demais.
- ? – com calma me aproximei da porta, de princípio só esperando uma resposta para podê-la abrir totalmente e assim entrar. Mas nem esperando e percebendo que alguém estava sentado, não em cima da cama, mas escorado nela, notei que havia algo errado ali. Então, logo vendo que o garoto estava realmente encostado na lateral da cama, que estava desarrumada, na companhia de uma caixa, meu coração deu a largada para começar a bater mais depressa do que de costume. Eu empurrei a porta, de novo, sem ter um pensamento exato do que estava acontecendo ou viria acontecer. Tudo não parecia passar de um engano, mas entrando naquele cômodo, me aproximando da cama e notando o garoto perceber a minha presença, vi que não podia ser uma ilusão de ótica, enfim tinha acontecido e a minha respiração delatava que meu sábado, antes perfeito, havia se alterado, naquele segundo, para duvido ao resto do dia.
Então se antes, ao corredor e no rápido movimento de entrar ao meu quarto, não estava pensando nada, agora era como um turbilhão. O vendo ao lado daquela caixa, que eu julgava ter escondido muito bem, e nem ao menos lembrava de checar o lugar do closet todo o santo dia, por ter esquecido, e alguns de seus pertences, em maioria fotos, espalhados próximo e inclusive na mão do garoto, me fazia pensar em mil maneiras de agir e começar um assunto. Mas não era como se eu tivesse muito tempo para pensar e sentir aquela sensação de água fria caindo bem em cima da minha cabeça e me fazendo enfraquecer. Na realidade eu mal havia entrado ao quarto e sentia como se o relógio estivesse com graves alterações, ora lento, ora rápido demais.
- O que você tem a falar em sua defesa? – o ouvi dizer, soltando um riso debochado, assim como soltou as fotografias de volta a caixa, de um modo cujo mostrava desprezar aquilo.
Assim, o olhando de cima, ainda sentado ao chão, percebendo toda a frieza em seu perfil, aquela vontade súbita de chegar e enchê-lo de beijos, na maneira mais amável e idiota de dizer um bom dia, havia caído como aquelas fotos na caixa. Na real, aquela maldita caixa parecia ter sugado todo o meu bom humor e o trocado por todos aqueles pensamentos e problemas incomodativos, cujo antes eu estava ignorando muito bem, quase como se não existissem. Mas não, existiam e eu havia caído na realidade pela segunda vez, ao acordar.
- O que você espera que eu fale? Você já deve ter tirado as suas próprias conclusões – disse. Era tanta coisa que eu gostaria de falar, mas ao mesmo tempo esconder, que eu não sabia o que selecionar primeiro. Não era a cena que eu gostaria de ter enxergado, não estava me sentindo preparada. Queria que virasse e me falasse que era melhor continuar depois. Porém eu também sabia que agora não estávamos em um lugar barulhento ou com alguém para se intrometer a qualquer momento. E apesar de ter idealizado tantas vezes aquela situação e até pensado em diálogos, tudo parecia se iniciar diferente.
- Pode até ser clichê, mas realmente não é o que você deve estar pensando. E eu queria pelo menos que você me ouvisse, sem ter qualquer rompante e sair me interrompendo com gritos ou deixando o quarto – disse rapidamente, com medo que só as primeiras palavras fizessem com que eu não pudesse chegar ao final. Mas não, o garoto permaneceu imóvel ao chão, olhando fixamente para frente. E pelo menos possuindo, ainda, o silêncio, tinha que tentar pescar, logo, as melhores palavras possíveis para nem fazê-lo querer iniciar a gritaria. – Quanto a essa caixa, eu iria te contar, mais cedo ou mais tarde. Porém, infelizmente, acabei optando pelo tarde. Pelo bem tarde. Desculpe, , se eu sou insegura e gosto de adiar. Se eu não consegui mudar até agora, acho que nunca vou conseguir... – minha voz parecia tremer e isso fazia as palavras quererem fugir.
- Você pode pular todo o seu enredo e me contar logo o que isso significa? – me interrompeu, finalmente olhando em meus olhos. E se antes eu sempre destacava que eles pareciam me hipnotizar, num bom sentido, mentiria, agora, se falasse que eles não estavam me intimidando.
Engoli em seco, e o olhando voltar a observar a janela, me senti mais segura a tomar a iniciativa de sentar ao seu lado. Contudo, em uma distância cuja caixa era a nossa única barreira. Além da enorme parede invisível que parecia estar erguida, e cada vez aumentando mais, entre nós dois.
- Essa caixa que você acabou achando, é uma lembrança do meu último ano na Inglaterra e essas pessoas que você acabou de ver nas fotos, e que agora você conhece pessoalmente, fizeram uma diferença e parte crucial na minha vida. Desculpe se eu menti que não conhecia duas delas. Mas na verdade sempre conheci – fiz uma pausa, pensando se deveria enrolar mais um pouco ou falar direto – Minha mãe um dia colocou na cabeça que eu deveria estudar piano e, bom, ela praticamente correu a lista de músicos das páginas amarelas, mas não acabou achando ninguém com a agenda livre para me ensinar. Porém, depois de algum tempo, Tom acabou chegando aos ouvidos dela. Ele era ex-aluno de um dos tantos professores com quem tinha falado, e parecia já estar apto para dar aulas, se quisesse. Então, como mais uma peça do destino, ele acabou passando do vizinho de Zoe para o meu professor e mais tarde para meu namorado – o olhei de soslaio, totalmente insegura. Não sabia quando podia estar se irritando em ouvir ou querer me interromper com um grito. Mas continuei - E bem, foi meio que um brinde que veio com tudo. Ele e Tom sempre foram amigos, desde quando eu os conheci, o que na verdade completou um ano somente, mas com o resto até agora, quase sete. E por conseqüência ele foi namorado da Zoe também. Mas acho que sobre ela você realmente não se importa em ouvir, porque o que deve estar te incomodando nesse exato momento é o...
- É o fato de você ter me escondido tudo isso! – eu havia optado um modo longo e ao mesmo tempo resumidíssimo, porém não havia me dado mais um segundo se quer para concluir minha ladainha e finalmente feito o que eu não queria que fizesse, gritado.
Fechei os olhos, os apertando ao ouvir sua voz, e ainda esperando por mais. Mas não ouvi.
- Tudo bem, eu sabia que você tinha um ex-namorado aqui em Londres e que você sentia muitas saudades dos seus amigos também. Mas não me importa se você namorava alguém que era amigo de outro e que namorava a sua amiga e assim formavam tudo um círculo amoroso. Que se dane. Talvez nem seja muito pelo fato de agora eu conhecer eles... Quer dizer, talvez seja – o vi correr as mãos pelos cabelos, chegando à nuca e abaixando a sua cabeça – Mas eu não consigo é entender por que você mentiu, por que você preferiu fingir que não conhecia ninguém, esconder e me enganar que tudo não passava de novo para você também? – então rapidamente ergueu a sua cabeça e cravou o seu olhar sob mim – Por quê?
Várias sensações haviam passado pelo meu corpo, e ainda estava passeando, mas se antes eu sentia mais raiva por ter o meu espaço violado e perceber que ele estava mexendo no que eu nunca deixei ninguém encostar, agora eu estava sentindo um arrependimento envolvido com pena. Eu nunca queria plantar em , com aquelas fotos, cartas e restos de lembranças, pensamentos confusos e gerar discórdia, inveja, qualquer sentimento dessa espécie ou até o machucar. Eu não queria lhe fazer mal. E talvez fosse por não querer, que eu havia preferido esconder tudo pelo máximo de tempo que eu podia. Quem sabe sempre. Mas devia entender que o mundo não funcionava do jeito que eu queria e daquele jeito cujo preferia jogar tudo para debaixo do tapete e tentar seguir. As coisas necessitavam serem esclarecidas uma hora, cedo ou tarde. E quem sabe ter o feito ver e saber de tudo aquilo no dia da gravadora podia ter sido mil vezes melhor do que agora. Pois é, eu sempre tentei proteger as pessoas, mas nunca consegui achar a melhor maneira.
- Se eu te falar que não sei, talvez pareça relapso da minha parte, mas ainda não cheguei a um consenso do porque eu fiz isso – suspirei, deixando a minha cabeça deitar ao colchão, assim observando o teto – Você sabia que eu não queria voltar para Londres, eu estava realmente muito insegura, e nem era pela vida que podíamos levar aqui, sem os nossos empregos e casas, mas porque eu encontraria toda a vida que eu deixei para trás e que, mais cedo ou mais tarde, viria querer voltar e me incomodar. Eu não queria aceitar a sua idéia maluca só porque eu tinha medo do que poderia vir acontecer, se o que eu pensava: que todas as minhas memórias voltariam, viesse a se tornar realidade. Eu tinha medo que elas te ofuscassem e ofuscassem toda a vida que eu refiz ao seu lado – disse, soltando um suspiro – Então aquele dia na gravadora eu notei que tudo iria acontecer e tinha começado rápido demais, no encontro que eu tive com Tom no corredor. Você não sabe como eu fiquei assustada, porque eu esperava fugir daquilo e quem sabe nunca encontrar ou fazer com que ela me encontrasse. Mas não. Ter visto ele poderia ser tão rápido, como foi, mas você foi o escolhido para a banda e isso significava que eu não ia poder fugir, eu teria que encarar a volta das pessoas do meu passado.
- Mas por que fingir? Eu reencontrei os meus pais, os meus antigos amigos e toda a minha antiga vida também pareceu vir um pouco à tona. Mas eu fingi que não conhecia todos eles e o meu passado? – perguntou – Não.
Eu sabia que estava falando a verdade. Mas também tinha consciência que estava omitindo muitas outras coisas. E isso fazia com que a minha explicação parecesse tola e totalmente contestável. percebia. Mas não era como se eu quisesse, ou melhor, pudesse e tivesse coragem de lhe contar agora. Eu não queria lhe machucar mais, eu não queria me machucar mais. Na realidade eu queria deixar algo ainda encoberto.
- Eu temia que falando que Tom havia sido meu ex-namorado eu pudesse influenciar na sua relação com ele e com a banda – disse, ouvindo o garoto fazer barulhos estranhos e balançar a cabeça negativamente – E eu sei que isso parece totalmente idiota. Eu sei! Mas eu queria te proteger e me proteger ao mesmo tempo. Eu queria que você realizasse o seu sonho sem nenhum empecilho...
- Mas eu não entendo, ainda, o porquê de você esconder! – ele gritou, soltando também um riso nervoso.
- Eu não sei, ! – falei chorosa, colocando ambas as mãos sobre meu rosto – Vai ver porque eu estava com muito medo, quando notei que você tinha entrado para a banda do Tom e estava querendo me apresentar para ele. Você pode não entender, mas eu não queria que ele me visse, eu não estava preparada. Ele me magoou tanto... Eu só sei que eu saí correndo quando ele ia poder me ver. E naquele dia você já chegou animado, contando detalhes de tudo e eu optei por agir indiferente e mentir, mesmo sabendo que Tom era o Thomas Fletcher e o era o – fui elevando mais a minha voz, encorajada por estar me escondendo debaixo de minhas próprias mãos. Mas quando senti que o garoto havia levantado, as retirei, erguendo a minha cabeça outra vez – Me desculpe se eu acabei fazendo isso e nem te contando depois.
- Talvez eu pudesse ter achado estranho, ter agido diferente com os garotos. Mas eu acho que nunca deixaria isso influenciar na minha decisão e no meu sonho de entrar em uma banda – falou, de costas para mim – Mas o que você acabou fazendo, o fato que você não me contou até depois de ter os visto na reunião na casa do Tom, me faz ficar ainda mais decepcionado e não querer entender os seus motivos.
- Me desculpe! - o interrompi.
- E você continuou a fingir tão bem, os cumprimentando como se nunca tivesse os visto, deixando que eu te contasse coisas a respeito deles, sendo que você já os conhecia, e muito bem, e sabia de tudo.
- Mas eles não têm nada a ver com toda essa farsa – ainda tentei o interromper, mesmo percebendo que ele nem prestava atenção - Tom não queria, não entendeu, mas fez porque eu pedi – comecei então a ficar aflita, com medo que agora eu pudesse estragar realmente as coisas.
- Isso é tão baixo e tão sujo – falou, fazendo cara de desdém - Isso me faz pensar que você não é sincera comigo em outros assuntos também.
- Em todo o resto eu sempre fui e continuo sendo sincera com você. E se eu optei por fingir e continuar foi porque eu queria de alguma forma proteger você...
- Mentira! Mentira! Mentira! – gritou, naquele rompante que eu tinha medo de ouvir – Eu não sou mais criança, não preciso que ninguém me proteja. E você sabe que fez tudo isso para proteger a si própria. Se mantendo segura na mentira, me enganando e fugindo do óbvio.
- Talvez eu tenha feito tudo isso porque não queria achar, de volta, todos aqueles motivos que poderiam me fazer não gostar mais de você! – então não consegui mais ficar sentada ao chão, me humilhando totalmente, tentando fazer o garoto se acalmar e me entender.
- Eu juro que não estou bravo com os seus amigos, porque agora eles são os meus amigos também. E talvez as únicas pessoas em que eu posso confiar agora – o ouvi dizer em alto e bom som, vendo as veias de o seu pescoço tremerem, mas mesmo assim querendo ficar olhando em seus olhos – Ou quem sabe nem mesmo neles eu deva confiar plenamente. Mas a certeza que eu tenho, realmente, é em que você eu não posso mais! – assim ele cortou a minha frente rapidamente, não me deixando ter coragem e resgatando de volta o meu orgulho, que eu parecia ultimamente jogar ao chão e pisar, de segui-lo corredor a fora com as minhas desculpas – Ótimo também saber que eu posso ter sido apenas uma distração para você – observou.
passou pisando forte e bateu a porta do quarto, me deixando sentar novamente ao chão, praticamente cair, ainda podendo ouvir as suas passadas rápidas pelos degraus da escada, enquanto agora eu podia respirar tranqüila, se o caso fosse o segredo. Agora ele estava dito, mas não queria dizer que não pesava mais. Pesava sim, continuava, só que agora com um motivo totalmente diferente. O seu peso era remorso, um arrependimento tamanho, que me fazia pensar porque não havia o contado bem antes. Eu era idiota mesmo.
Percebendo tudo que eu havia escutado, dito e também pensando, eu sentia vergonha de mim mesma. Vergonha, agora, por ter que olhar para o garoto, ou para Tom e até mesmo . Estava me sentindo totalmente envergonhada da pessoa que eu havia me tornado desde que havia pisado de volta em terras inglesas. Eu havia me tornado uma mentirosa, uma pessoa sem compaixão, ou até possuindo demais. Um ser que preferia se iludir com uma verdade inventada, ignorar os problemas e adiar deveres, achando que mesmo assim tudo iria ficar bem. Não sabia se no final ficaria, mas agora tudo não passava de caos. Caos em minha cabeça, que agora latejava. Sentia os meus olhos adquirirem uma viscosidade maior, não era a sua lubrificação normal, era o peso do excesso de água que agora se alojava ali. Mas lágrimas que eu tinha vergonha de chorar.
Olhei para caixa de fotografias ao meu lado e senti novamente a raiva. Mas não a que eu havia sentido por alguém a ter violado, mas pelo o que ela guardava e havia feito tudo aquilo vir à tona. Assim a chutei, deixando as lágrimas enfim caírem e esperando que com o chute, algo se aliviasse. Porém não.
Se antes não havia conseguido pensar no que tinha feito na noite passada e nem numa conclusão para o meu capítulo imaginário, agora o que eu havia feito na casa de Tom era um motivo para sentir vergonha e culpa. E a conclusão do capítulo parecia bem gritante, fazendo as palavras brotarem em minha mente. Tudo estava feito agora, não precisava me preocupar com mais nada, a não ser com o desprezo de e o outro segredo pesado que guardava. Mas eu sabia e sentia, no fundo, que o que eu mais queria era ter brigado com meu namorado. E quanto ao segredo, talvez ele nem mais fosse total segredo, aquela parte secreta estava quase achando a chave para se destrancar, ou quem sabe já estava aberta, somente esperando que alguém girasse a maçaneta.
O tempo parecia não curar tudo, ou melhor, nada. Ele apenas servia para deslocar o incurável do centro das atenções. Porém, agora, o tal assunto incurável estava voltando ao centro e a distração que havia o feito ser esquecido, estava indo embora.
Capítulo 13
Apertei meus olhos, os sentidos voltavam aos poucos, fazendo com que eu começasse, devagar, a cair de volta à realidade. A preguiça tomava conta do meu corpo, mal conseguia me mexer, parecia que eu não havia nem se quer descansado. E mesmo com a cabeça posta sobre o travesseiro, ela doía. Assim eu tinha vontade de me afundar cada vez mais naqueles lençóis, para tentar fazer a dor ir embora depressa. Era tão incomodativa que podia ser equivalente a eu ter dormido pouco ou ingerido bebida alcoólica. Porém nenhum dos dois era um motivo concreto para definir meu estado. Havia, com certeza, dormido demais e bebida era algo que eu não ingeria a certo tempo, muito menos do tipo que me fizesse sentir exausta. Minha cabeça parecia doer tanto, talvez, porque eu havia consumido o tempo derramando lágrimas excedentes. Parecia que tudo que estava trancado, há meses, tinha resolvido cair sobre aqueles lençóis, à noite inteira. Contudo, estar deitada não fazia nenhum efeito, eu não me sentia melhor do que estava - nem me afundando cada vez mais as cobertas - quando antes me encontrava sentada ao chão. E por mais que acordar fosse me fazer sentir pior, era preciso abrir os olhos. Aquele mundo de sonhos não podia me consumir, eu tinha que enxergar a realidade e aprender, de uma vez por todas, que ela é assustadora e que eu devo me acostumar. Quem sabe assim, dá próxima vez que eu fosse quebrar a cara, minha cabeça não doesse tanto. Fiz, abri os olhos.
O quarto já estava claro, quase tão claro como eu havia visto da última vez, quando estava voltando do banheiro. Mas não era uma claridade ocasionada pelo sol. Claro, já era dia outra vez, porém no silêncio que aquela casa agora se encontrava, eu podia ouvir o barulho que só a água faz quando bate em qualquer superfície. O céu devia estar totalmente nublado, mais ainda assim claro demais, e as ruas desertas. Eu não precisava de um clima ainda mais melancólico, mas para completar era domingo. Sensação de vazio, tédio, nostalgia e depressão, de tal modo que só domingos, ainda mais os chuvosos, podiam proporcionar.
Encarei as dobras no lençol branco, que eu mesma havia ocasionado. A sensação de déjà vu, era como se eu já tivesse acordado e dado de cara com o lado esquerdo da cama vazia. Mas realmente não era mais que uma cena familiar, as coisas não estavam do mesmo jeito que semanas atrás. Se naquele dia eu podia dizer que só havia acordado mais cedo, nessa manhã ele nem mesmo havia levantado dali, porque afinal ele não havia nem deitado.
Era torturante agora, ver refletido naquele tecido o que eu havia feito. Não era como se eu pudesse me sentir apenas mais leve, tinha o maldito remorso que ficava pregando nos meus pensamentos o que podia acontecer se eu apenas tivesse virado aquele dia na gravadora e dado um olá para Tom, chegado em casa e esclarecido tudo para . Seria mais fácil, teria acontecido da mesma maneira que agora, alguém sairia lesado? Quem sabe eu não teria que sempre me sentir suja demais, agoniada demais, em dúvida demais. Mas eu esperava que aquele jeito tivesse acontecido porque era o melhor. Pelo menos, se assim eu podia dizer, tinha um lado positivo: Eu não guardava mais aquele segredo. Restava agora apenas me achar no meio de toda a confusão que eu havia criado. Coisas tinham que voltar ao lugar, outras tinham que tomar caminhos diferentes. E apesar de estar me sentindo tão desanimada para mexer um músculo, eu não podia me acomodar outra vez e continuar a fingir. Tinha que aproveitar que uma das verdades havia vindo à tona e me ajeitar de uma vez por todas para expor todo o resto.
Passei a mão pelo colchão, tentando colocar na minha cabeça que havia sido bom enfim estar a par da situação. Não importava o modo e o tempo que havia levado, agora era menos uma peça no quebra cabeça. Então fiz um movimento mais significativo, virando para o outro lado na cama, logo sentando. E como era domingo, eu deveria saber esperar mais detalhes para fazer minha cabeça, já não muito arrumada, se confundir ainda mais. Do meu lado da cama, ao chão e mais adiante - eu me lembrava de ter a chutado - estava a responsável por aquilo que eu não havia conseguido fazer, a caixa que havia contado para o meu namorado o que eu simplesmente não conseguia lhe dizer. Então, olhá-la fixamente, sentada naquela cama, não ouvindo nada mais que o barulho da água caindo, agora em abundância, eu notava que não era mais, exatamente, raiva o que eu sentia. Era como se ela me consolasse, me fazendo perceber que a sensação que eu precisava não era a de culpa e sim idêntica aquela que estava presa ali dentro, em formas de fotos. Quem sabe o tempo de negar estava se esgotando também, não podia mentir totalmente que aquilo também preenchia o meu interior.
Vai ver a dor de cabeça que eu sentia não se tratava por dormir demais ou de menos, o problema era que eu não havia ingerido nada desde a noite retrasada, o que não passavam de pipocas. Como eu podia ter agüentado tanto? Talvez fosse porque eu estava exausta e tão compenetrada em pensar em outras coisas, que esquecia da fome. Mas agora meu corpo realmente estava implorando por algo, nem que fosse apenas água e algumas bolachas que haviam sobrevivido durante o tempo de viagem. Então deixei aquele quarto, seguindo para a escada e percebendo, ao descer os degraus, que o silêncio ainda se propagava nos cômodos do andar de baixo. Realmente não era um déjà vu, porque senão encontraria presenças masculinas sentadas no meu sofá. E não, somente o pote de pipocas descansava, ainda, sobre as almofadas. Mas era melhor que só ele me fizesse companhia. Com dor de cabeça, vestindo apenas uma camisa grande demais para o meu tamanho e com o cabelo mais solto do que preso ao rabo de cavalo da manhã passada, eu não me sentia uma pessoa linda.
Passando próximo ao móvel onde ficava o telefone, como de costume, apertei o botão da secretária eletrônica. Vozes não eram o que eu gostaria de ouvir, mas ali da sala eu não escutava mais o barulho da chuva. E também alguém devia querer, ainda, falar comigo, pois havia duas mensagens, pelo que o visor avisava. Assim deixei rodar e fui até a cozinha, logo seguindo até a geladeira, desanimada, pois sabia que não encontraria nada de bom. Alguém precisava ir ao mercado, mas agora eu sabia que aquela pessoa seria eu mesma. com certeza começaria a passar mais tempo na casa dos pais ou na rua, do que ali dentro. Eu o conhecia.
- Será que eu devo te deixar mais um recado? Ok, acho que agora estou me sentindo mais calma, e conseguirei falar o que eu realmente quero – reconheci a voz de Zoe, ao retirar o jarro de água de dentro da geladeira e seguir para o balcão – Por que você fez aquilo, ? Qual era o seu propósito? Por que você me deixou sozinha lá, com aquele garoto? – e instantaneamente larguei ali mesmo o jarro, momentaneamente esquecendo de pegar um copo para me servir. Fechei novamente meus olhos, em uma careta. Por que às vezes eu ficava tão atordoada e esquecia do mundo a minha volta? Por que eu tinha que ser tão egoísta e pensar somente em mim? Ok, eu teria que responder primeiro as perguntas de minha amiga. Eu havia esquecido do nosso compromisso e a deixado sozinha em uma Waterstone’s na companhia do seu ex-namorado. Devia conhecer como era perturbador para ela agora – Eu não sei por que você fez aquilo e eu acho que nem quero saber o que você tem para me explicar, ou tentar me enrolar. Não sei nem mesmo por que estou te deixando o quarto recado, já deixei outros três no celular, pelos quais eu não quero receber resposta – escutei ela fazer uma segunda pausa, uma mais longa, e resolvi deixar a cozinha para escutar melhor – Não me ligue ok, pelo menos não agora. Eu não quero ficar pensando no que aconteceu... Ah que saco, tchau! – claro, era domingo.
Segui até a escada, onde havia largado minha bolsa, e consequentemente o celular, e sentei no terceiro degrau. Enquanto a outra mensagem se iniciava na secretária eletrônica.
- Será que não bastou me acordar e estragar minha manhã? Não, eu acho que você queria estragar com o resto do meu dia – percebi que a voz, agora masculina, se tratava de – Você não é um cupido, , entenda – e esse foi mais breve. Porém, mesmo com suas poucas palavras, não fazendo com que me sentisse menos culpada. Pelo que parecia eu não era boa namorada, boa amiga e um bom cupido. Maravilha.
Assim destravei as teclas do celular, notando as três mensagens de voz de Zoe, acompanhadas de uma que não estava esperando ter recebido. Em pensar que era culpa de , ter dado meu número, que agora eu lia no visor do aparelho o nome de Tom.
Assim, justo quando resolvi ignorar aquela sua chamada e apagá-la, a campainha da casa tocou, me fazendo assustar. E por segundos pensei em ignorá-la também, as cortinas da sala estavam fechadas, ninguém poderia pensar que havia alguém em casa, mas essa não queria lhe atender. É, parecia tentador, mas me fazia sentir ainda mais perturbada, querendo me manter sozinha, em silêncio, trancada em uma bolha de pensamentos de culpa. Então larguei o celular ali mesmo no degrau, me levantando ao mesmo tempo em que resolvi, ao menos, arrumar o modo que meu cabelo estava preso, indo devagar até a porta, ainda meio que decidindo se a abriria ou não. Porém a campainha não parava de tocar.
Passei a mão pelo rosto, não que estivesse dormindo ou o meu estado melhorasse com o ato, e assim girei a chave na fechadura, agarrando a maçaneta e puxando a porta de um modo que pudesse me esconder atrás. Eu ainda não tinha acostumado com a idéia de que pessoas normais olhariam ou perguntariam quem estava ali, antes de abrirem. Não. Assim foi como um castigo pelo meu desleixo, encontrar ao lado de fora, da lista de quatro pessoas que havia pensando até agora, a que eu menos gostaria de ver.
- Ah não, Tom, eu não estou muito a fim de receber visitas hoje – argumentei rápido, não me importando se parecia mal educado de minha parte fazer careta e quase bater com a porta na sua cara.
- Ah sim! Pelo menos eu você irá receber – colocou a mão sobre a madeira, a forçando, para que eu não fechasse – O está? – então perguntou.
- Não – respondi com tédio, tentando não ficar surpresa com a pergunta. Mas deixando-o tomar controle.
- Ótimo, eu prometo que serei rápido – disse, empurrando a porta, fazendo assim com que eu desse espaço para ele entrar, ignorando qualquer cara feia e desdém que eu estivesse o tratando – Isso se você me deixar falar, claro – riu – Eu vim até aqui para te agradecer e também porque resolvi te entregar algo.
Virei-me para ele, ao corredor, logo que fechei a porta. Sabia que eu deveria lhe procurar e tentar resolver mais algumas coisas que me incomodavam. Mas eu não queria começar tão cedo, no estado em que estava. Olhei para uma de suas mãos e percebi um envelope branco. Então esperando que ele fosse rápido e fizesse o que tinha que fazer, eu segui até a cozinha, mostrando assim que era para falar de uma vez e ir embora.
- Tudo bem com você? Parece triste – falou, quando eu cheguei outra vez à frente do balcão, agora sim derramando a água do jarro no meu copo. Thomas Fletcher era minha mãe? Não! E ele, percebendo a cara que eu fiz, engatou a conversa sem esperar respostas – Então... Ontem de manhã eu percebi o seu bilhete no travesseiro da minha cama e eu até tentei te ligar, para agradecer por você ter passado a noite e cuidado de mim, mas você não atendeu o seu celular e as poucas chamadas que eu fiz para a sua casa caíram na caixa de mensagens. Resolvi vir até aqui hoje, para agradecer, e também porque andei pensando, nesses últimos dias, se eu deveria te entregar algo. Bom, então, na noite passada eu meio que tive a certeza que isto aqui pode te ajudar... Ou quem sabe piorar mais. Mas prefiro pensar que te ajudará – fez uma pausa – ? – perguntou, assim que percebeu que eu depositei outra vez o copo de água, vazio, em cima do balcão. Devia estar se referindo ao papel em suas mãos – Eu ouvi algumas coisas que você me falou naquela noite... E desculpa se eu pareci agir infantil, não estava totalmente no lugar, se é que você me entende. Mas o... O lance do “Para sempre e sempre”, era de verdade ou você só queria que eu dormisse logo? – perguntou.
Eu poderia gritar ali mesmo, implorar por qualquer comida, e não água, que me fizesse ficar em pé e amenizar qualquer dor, fazendo com que eu tivesse forças o suficiente para pensar em uma resposta bem construtiva e a falar. Eu não podia deixar o meu lado fraco aparecer. Então respirei fundo, pelo menos eu estava de costas, isso fazia com que o nervosismo não fosse pior e eu acabasse desmaiando logo ali. Suspirando então e como sempre olhando para o teto, procurava algo. Ao menos Tom estava respeitando o meu tempo, mesmo sentindo que ele ainda estava ali, de pé, atrás de mim, esperando por qualquer resposta. E eu simplesmente não podia lhe dar uma monossilábica. Sendo que fosse a que ele mais quisesse ouvir. Porém eu não tinha idéia do que falar... Droga. Onde estava a que gostava de dialogar?
Morreu de fome.
- Eu acho que nós podemos ficar aqui por horas e conversar sobre tudo que aconteceu, que é o que só parecemos fazer – ele enfim resolveu tomar o rumo da conversa novamente. Agradeci, eu não estava nos meus melhores dias, era chegada à hora de pelo menos uma de nossas conversas serem guiadas pelo garoto – Falar sobre historinhas engraçadas, que passamos um ao lado de outro, rir disso... E podemos até chegar naquela parte triste, onde você começa a me explicar o que sentiu quando eu acabei com você, assim emendando um assunto em outro, fazendo com que memórias felizes se tornem tristes. Sim, porque você tem o dom de fazer tudo ser divertido, ora tudo se tornar pesado demais para lembrar – disse e eu continuei de costas. Tom tinha absoluta razão. Oh por quê? – E assim você vai seguindo, me interrompendo, querendo dominar a conversa, tentando mostrar o quanto você gostava de mim, o quanto isso te fez sofrer, demonstrando o quanto eu estou fazendo tudo isso ressurgir, porém frisando que é passado. Você pode não perceber ou até saber que eu noto cada expressão sua – riu então – Afinal eu sou só o ouvinte de todas as nossas conversas até agora, não? É. Eu noto quanto, por mais que você queira dramatizar tudo, essas memórias são importantes para você. Cada beijo, abraço ou risada, tudo que te trás de volta, parece seguir através do que se perdeu, você ainda lembra e quer sempre lembrar disso. Mas eu não consigo entender o porquê de você preferir esconder uma conclusão, impor para você mesma que isso não é certo e do mesmo jeito ainda sempre querer relembrar tudo. Você sente falta, não? – perguntou – Então me diga agora por que você não admite logo para si mesma? Porque eu acho muito simples apenas falarmos sobre coisas que nunca vamos dizer um para o outro e coisas que nunca vamos fazer, continuar com essa conversação nostálgica e de desculpas. Você sabe que as linhas que dizemos não significam as palavras que queríamos falar. Queria apenas que você olhasse para o que me fala, notasse e assim me falasse, com todas as letras, o que realmente sente e não o que um dia sentiu. Quem sabe, se você fosse sincera, eu não me sentiria um covarde em falar o que eu quero e sinto então – disse.
Pela primeira vez, em todas as conversas que tivemos, eu não tinha uma resposta que poderia se alongar para um discurso, o impedindo assim de tomar novamente a voz ativa da conversa. Eu não tinha absolutamente nada feito em minha cabeça, talvez isso fosse o efeito da fome, e tudo que eu pudesse improvisar não parecia que seguiria muito longe e que acima de tudo significasse algo. Tom tinha tomado o rumo da conversa para si, falando tão rápido, e quase sem pausas, porém certo do que queria expor. E eu estava entendendo tudo, mas nem conseguia dar a minha opinião. Não queria também falar qualquer coisa impensada. Realmente eu não sabia o que falar, porque eu nem conseguia me concentrar em uma resposta certa.
O silêncio não podia demorar nem cinco minutos, mas cada segundo me agoniava. Eu estava nervosa demais, sabia que estava sendo posta sob pressão. Tom estava logo ali atrás, mesmo em silêncio, esperando por algo. E eu nem sabia o que lhe dar. Eu não queria, eu não conseguia ser simples, tinha que ter todo um desenvolvimento em uma resposta, eu queria dialogar. Mas a sua respiração estava me desconcertando tanto quanto as suas palavras. Sabia o que ele queria dizer com todas elas e sabia o que ele esperava que eu falasse. Mas depois de tanto drama, eu já estava achando normal prolongar coisas fáceis, não conseguia resolver tudo rápido e de um modo simples. Eu só queria... Que ele saísse dali.
- ? – perguntou, fazendo a minha respiração sair num suspiro tão medroso, que aquilo foi a deixa para ele tentar se aproximar, mais, para ver o que eu estava sentindo. Mas era óbvio que o melhor era somente se afastar – Tudo bem com você ou está me respeitando e deixando com que eu fale? – perguntou, achando graça.
- Eu... Eu não estou me sentindo tão bem – falei tão nervosa, que com a boca do estômago tremendo e o próprio querendo iniciar voltas, era como se a voz que saia, não me pertencesse mais. Estava ficando tão leve que senti que me agarrar no balcão era a única coisa que eu podia fazer para não desmaiar – São coisas demais, problemas demais. E.. Eu não estou com cabeça para pensar nisso – e não saber o que fazer, era justo o que me despedaçava por dentro – Eu só quero que você... – olhei então para a pedra do balcão, notando as mãos do garoto chegando próximas as minhas. E respirando mais depressa, ao também perceber que não só elas estavam se aproximando, tentei continuar ou me mexer. Estava decidindo o que fazer primeiro. Mas Tom não estava com fome, nem fraco, nem com problemas. Ele sabia o que queria fazer e dizer, e agora estava me prendendo ali, usando o seu corpo como um bloqueio, me cercando de frente para o balcão, como um abraço. Uma aproximação que fazia o meu estômago tremer em excesso, que até parecia sentir a barriga se mexer. Minhas mãos encharcaram e eu senti como se não pudesse continuar. Mas fechei os olhos e tentei, me mexi, tentando impedir que ele me prendesse. Porém não – Tom, por favor... – falei, para não dizer que chorei aquelas palavras. O garoto me abraçou, fazendo com que um arrepio intenso percorresse minha espinha, arrepiando todos os pêlos de meu braço, fazendo com que o coração disparasse, meu estômago se rebelasse, ainda mais, e algo subisse e descesse pela minha garganta ao mesmo tempo. Se ele não estivesse atrás de mim e minhas mãos agarradas ao móvel, os meus joelhos bambos me derrubariam ao chão.
- Não, eu não vou te largar – disse, em resposta aos sussurros que eu emitia – Você percebe isso? Você se sente nervosa, tem vontade de fugir, você treme! Por quê? – e por mais que continuasse a querer afastá-lo eu não conseguia. E em parte nem queria. Estava tão próximo, que eu sentia tontura, mas ao mesmo tempo conforto, estava respirando novamente aquela essência que eu julgava, antes, que nunca poderia viver sem. E ao mesmo tempo em que eu me sentia rígida ali, eu queria me aconchegar em um abraço normal – A primeira vez que estive aqui na sua casa, e que conversamos, você parecia saber exatamente o que me falar. Tinha um texto duro, camuflando quase todo o sentimentalismo, tentando se manter tão forte, apesar de mal me olhar aos olhos. Você possuía uma lista de coisas erradas. Mas sabe, apesar de toda a frieza que você tentou criar na primeira vez, a cada outra conversa ou encontro, eu percebia o quanto você estava perdendo esse escudo. Mostrando que acima de tudo você lembrava de todos os momentos, cada detalhe, e sorria, mesmo que eu não pudesse ver – disse - Mas sempre tinha uma parte aonde você me definia como um traidor, como um problema, como aquele que roubou e acabou com tudo que você tinha e agora quer fazer o mesmo. Como eu disse, sendo somente um ouvinte, eu percebo muito bem cada gesto seu e absorvo as suas palavras – ele estava tão certo, mexendo com tudo aquilo que eu sabia que fazia, mas tratava de esquecer e não perceber o que significava. Tom estava cutucando uma ferida, me deixando tão agoniada em cada palavra, ainda mais pelo seu toque. E tudo fazia com que eu nem pensasse, nada além de tentar respirar – Lembra quando me perguntou, naquela madrugada em Brighton, se eu já tinha me desligado da realidade, caindo num devaneio? Você falou aquilo tão confiante, concentrada, era como se você sentisse e foi uma das poucas vezes que eu notei que você queria me falar algo que há tempos não encontrava jeito. Mas então você somente desviou o assunto, não o concluindo e nem me falando o que queria. Sabe, eu entendi o seu raciocínio e eu teria lhe dado uma resposta... Mas achei melhor não, notei que você queria deixar algo encoberto, então respeitei a sua atitude. Porém isso parece tão errado, você está mentindo para si própria e também para os outros, está sofrendo, mas ao mesmo tempo não está querendo abrir mão dessa dor. Você é complicada, . E sabe o que eu gostaria? Somente que você parasse com isso, tornasse tudo simples. Porque sabe, é tão simples e muito melhor falar a verdade, parar de enganar os outros, ser sincera consigo e fazer escolhas que te deixem feliz e não presa – percebia ali que Tom nunca havia se desligado em mim. Ele sempre havia sido um motivo, em partes incomodo, que não me deixava esquecer, me afundar, por mais que eu pedisse, parecesse implorar. Havia sido assim por todo o tempo que fiquei longe, mesmo não o tendo e ele não ficando por mim, ele não iria embora. E agora era isso, ele era aquela âncora que não deixava um navio seguir em frente, era a bóia que não me deixava afogar – Eu sei que você me acha um problema, queria me afastar, tenta se manter calma na minha presença, pensar em qualquer outra coisa e agir normalmente. Mas eu sei que você não consegue, que treme quando está perto de mim, que eu consigo tirar o seu sono e que provavelmente sou um peso na sua vida. Você pode tentar fechar os olhos e esquecer, respirar fundo e me agredir com todas as palavras que você conseguir pensar. Mas você não quer isso, tudo que você quer é o que você tenta esconder. Essas lembranças estão te preenchendo cada vez mais, ao invés de te machucar, e te fazendo pensar até quando ouve músicas e vê objetos que nunca ouvimos ou vimos juntos. Certo? Só que você não quer notar que tudo isso coincide de algum jeito – riu – Esqueça o que um dia eu te disse, o que eu fiz com você, apague os pontos negativos. Note que estamos mais velhos, que agora você pode tomar uma decisão, que só depende de você, do modo que quiser fazer a jogada. Eu só preciso que você seja sincera... Para eu poder te ajudar – disse. E ouvindo cada palavra sua formar uma frase, eu pensava no quanto eu havia contribuído para aquilo, com as minhas conversas e discussões. Tendo que enfim receber, depois de ter falado tudo que eu quis e ter sido analisada, o troco. Aquilo que eu tentava esconder estava claro na minha cabeça, tão claro, mas mesmo assim ainda trancado, agora na minha garganta. O meu coração não estava mais com um cadeado, porém eu não queria que ele se libertasse por completo.
Apertei meus olhos com força, fazendo com que filetes de lágrimas escorressem pela minha pele, abrindo-os e caindo de volta aquela cozinha, de volta aquele abraço, que agora se tornava tão, mais, incomodador e vergonhoso. Eu estava quieta e ainda não queria falar. Agora parecia que o orgulho tinha evaporado de uma vez, era melhor engolir tudo do que bater de frente. Porque eu sabia que Tom estava certo. Droga!
- Já que você, aparentemente, não quer falar, só me resta te entregar o que eu vim entregar – e então eu senti o seu abraço se desmanchar e uma de suas mãos ser levada para trás. Fazendo com que eu tivesse espaço para levar uma das minhas até a bochecha e limpar o rastro molhado. Mas logo ficando intimidada pela mão do garoto voltando a minha frente, segurando o tal envelope branco – Pegue! – disse. E fungando, encarei o papel. Não sabia se podia ficar ainda mais impressionada, mas tinha emoção o suficiente para meu coração voltar a bater de maneira que podia sentir que meu peito se mexia no compasso. O endereço escrito em tinta preta na parte do destinatário tinha me feito pensar agora em tantas coisas. Cenas rápidas de ruas, casas, hábitos e pessoas. O endereço da faculdade! Mas um lugar vazio, na parte onde deveria normalmente ficar todos os carimbos e selos, existia em branco. Aquela carta nunca parecia ter chegado ao seu destino, era apenas um rascunho – Vamos, pegue, isso pode ser uma resposta – balançou o envelope em mãos e eu sentia a sua fala tão próxima do meu ouvido... Mas eu estava tão extasiada com aquele endereço, sem contar com o que ele tinha antes dito.
- O que é...? – franzi a testa, virando de lado e percebendo logo o garoto se afastar – O que é isso? – resolvi virar de frente para Tom, já que ele tinha recolhido o seu braço, podendo eu me mexer novamente.
Porém naquele movimento, eu mal tive tempo, muito menos uma resposta, para olhar aos seus olhos.
Ao parar bem a sua frente, esquecendo eu o quanto próximo eu estava, o garoto aproximou-se, preenchendo todo o vazio que tinha entre nós, o que não passava de um ou dois palmos, chegando tão rápido e desesperado ao meu rosto, encostando inesperadamente, para eu e meus movimentos tão lentos, os seus lábios aos meus, fazendo aquilo que ele tanto devia querer e que eu estava com tanto medo de vir acontecer. Por quê?
Podia parecer igual, possuindo o mesmo efeito, das tantas partículas de memórias que eu havia revivido outra vez em meus pensamentos. Aquela sensação principal, de sentir tudo perder o som, inclusive aquele das gotas de chuva batendo nas vidraças da cozinha. Respirar se tornava quase tão desnecessário do que deixar os olhos abertos. O meu coração batia acelerado, por ser pega de surpresa, mas meu corpo estava amolecendo, ao perceber os velhos efeitos acontecendo outra vez. E fazia tanto tempo que o chão parecia não existir mais e aquela definição brega de estar nas nuvens ser uma bela definição do momento. Mesmo que eu não quisesse, minhas defesas já estavam tão fracas, totalmente inúteis, que as poucas que tentavam continuar, acabaram cedendo, por mal ter tempo de raciocinar. O garoto havia agido tão depressa e como na conversa, tinha me dominado. Só que agora, deixando minhas mãos, que antes tentavam em vão o empurrar, largarem de seu peito para que chegassem até seus ombros. E sentindo a sua língua procurar a minha, ele conseguia agora um melhor triunfo do que conseguir dominar uma conversa, ele estava me dominando, enfim me beijando. Sensações tão reprimidas pareciam se libertar totalmente, sem nada para impedi-las, rápidas, desesperadas, naqueles simples segundos, como o garoto parecia agir. De maneira que o beijo começando tão calmo, como se pedisse permissão, tomasse uma intensidade tão forte que o calafrio na minha espinha, ultrapassasse a temperatura. Até que no meio de toda aquela mistura, o meu tato fosse voltando e o chão fosse sentido novamente pelos meus pés, assim como os toques do garoto, fazendo com que um impulso me levasse a lembrar que não era como antes costumava ser, apesar de parecer, não tínhamos mais dezesseis e dezoito anos. Assim me afastei.
Era o momento onde, olhando outra vez em seus olhos, depois de tudo, eu via que todo aquele espaço destinado a ele, no meu coração, nunca havia sido substituído ou se tornado uma ocupação inútil. De qualquer forma tudo sempre me levou ao lugar onde aquilo estava guardado. E não adiantava querer empurrar para longe, pois estava comigo e para sempre ficaria. Apesar do medo que me dava ver que Tom era um assunto tão forte sob mim.
A carta que eu havia tentado pegar, antes de virar, agora estava ao chão e eu sem coragem de ficar mais um minuto parada a sua frente e enfim ter o ânimo de falar algo, o empurrei, me livrando dos seus braços e podendo fazer o que desde o início da conversa eu desejava, ir para longe. Porém nem saindo da cozinha.
Dei alguns passos e logo me joguei a primeira cadeira, apoiando minha cabeça às mãos, onde os cotovelos estavam apoiados sobre a tábua da mesa. Mas não chorei, apenas fiquei em silêncio.
- Eu sei que você tenta não sentir e não pensar – o ouvi falar, parado ao mesmo lugar onde eu havia o deixado, só que logo olhando da sua frente, para o chão - Mas sei também que lamenta a coragem que te falta para aceitar – e então abaixou ali. Percebendo eu, por meio do meu braço e dos fios de cabelo que novamente tinham escapado do elástico, Tom pegar o envelope que havia caído. Assim rápido levantou, virou o envelope em mãos, lhe dando uma limpadinha e me olhou, fazendo com que eu parasse de lhe encarar, de cabeça baixa, e voltasse para a madeira. Mas isso não o impediu de dar alguns passos – E então, você quer falar algo?
Mexi a boca, mas não parecia que se eu a abrisse, nada mais que um suspiro ou barulhos chorosos irritantes sairiam. Era vergonhoso mais eu não tinha nada certo para falar ao garoto.
Por isso decidi abaixar meus braços. Eu lhe falaria tudo que eu sentia a respeito dele, mas não podia ser naquele momento. Por que eu não havia comido nada na noite passada? Ah sim, a briga com me deixava tão envergonhada, como eu podia estar ali com Tom? Um nojo. Mas fazer o quê? Essa era eu, uma garota que agora não sabia o que dizer, quando deveria. Mais uma pessoa se decepcionaria comigo, sabia, porém esperava que eu pudesse concertar com melhores palavras depois. Então olhei para ele e apenas balancei a cabeça em sinal negativo, tentando demonstrar toda a angústia que eu sentia. Era chato enxergar esperanças nos seus olhos e ter que as desmanchar com as minhas atitudes covardes. Porém eu não era a única, nós éramos dois.
- Não consigo – mordi o lábio inferior, deixando a sua expressão tomar o jeito que quisesse, me jogando para trás naquele encosto – Desculpa – se fosse um filme, ouviria a música tema começar a tocar de fundo.
O vi olhar para cima e até insinuar um riso, mas não era de graça. Balançou a cabeça em sinal positivo e se aproximou mais, colocando ali em cima, o tal envelope. Logo iniciando passos para trás, agora com as mãos no bolso, como se estivesse esperando ouvir algo. E eu esperava pensar. Mas não.
Tom acabou chegando à porta.
- Espero que você tenha consciência que segredos machucam – batucou ao batente da porta, o percebia ainda me olhar, mas logo saiu, enfim, me deixando livre, de um modo, da pressão e de suas palavras. Por enquanto.
Ele estava absolutamente certo. Mas eu continuei achando que ficar ali sentada era melhor. Então ouvi os seus passos, possuindo a atenção pressa a parede da frente, até escutar a porta da entrada abrir e se fechar.
- Trouxa – falei a mim mesma, era o que eu tinha me tornado. Ou sempre fui.
Olhei para aquela carta que Tom havia deixado ali. O seu endereço ainda me intrigava, mas a coragem para tocá-la e a abrir era tamanha a que eu tinha para ter lhe falado algo, nula. Então continuando na mesma posição, apenas fiquei a encarando. Enquanto atitudes começavam a passar por meus pensamentos. As palavras e mil maneiras como eu podia ter agido apareciam agora. Mas era inútil. E juntando com o remorso quanto a e todos os pequenos probleminhas com e Zoe, o beijo que Tom e eu havíamos trocado era o de menos. Se eu apenas fosse sincera, todos os chamados problemas não estariam ali me fazendo companhia junto com o barulho do relógio. Eu não magoaria as pessoas e nem a mim mesma.
Era tão frustrante, o modo como eu era impotente para impor minhas próprias maneiras. Ditar regras era simples, mas cumpri-las era o difícil. Estava preferindo jogar fora muitas oportunidades e coisas que poderiam ser muito mais. E pensando agora, eu via que eu podia ter, se não tinha feito tudo ser simples, lutado por aquilo que eu queria. Minha consciência estava mexendo com a minha cabeça e me repreendendo, porque Tom tinha razão, os segredos machucavam tanto.
Tive coragem para pegar a carta em mãos e a trazer para perto. Aquele endereço... A virei, para o lado que eu ainda não tinha visto, o do remetente. E ali estava a rua onde a antiga casa de Tom ficava. Mas a carta não estava lacrada e o seu conteúdo parecia insignificante. Contudo, coragem para tirar a folha de caderno, notava por causa da claridade ao fino papel, me faltava. Tinha medo do que podia estar escrito. Mas a olhando, e recuperando todo o meu potencial, eu queria que Tom estivesse sentado bem à soleira da porta, me esperando como na cena de filmes de romance. Ri. Mas estava chovendo, ele com certeza não estaria sentado lá. Eu tinha acabado com a minha chance e quem sabe piorado algo. Será que eu tinha perdido? Era assim tão revoltante. Eu queria tanto, mas tanto, ter momentos impulsivos. Podia ter só o abraçado no lugar de palavras. Mas pensando... Será que Tom não tinha aceitado uma resposta levando em consideração aquele beijo?
As pessoas não podiam ser adivinhas. Zoe não poderia saber que eu tinha deixado de ir naquele encontro não porque estava armando um acerto entre ela e e sim porque eu tinha brigado com . E esse não entenderia porque eu preferi omitir tudo e ainda não contar depressa. Tom também não poderia tirar suas próprias conclusões sem antes eu lhe confirmar algo. Eu que deveria ir e respondê-los, convencê-los, e não deixar que tudo se ajeitasse com o tempo. Porém, confessando, tempo era tudo que eu precisava. Sabia que os problemas não iriam embora se eu os ignorasse. Mas era tão tentador fugir, deveria ser possível os esquecer e os ajeitar sem mexer uma palha.
Mas quanto mais eu tentava fugir - o que era de se machucar também em algumas situações - eu gostava de sofrer - o resultado de todas as ações que eu parecia tomar agora. Então empurrei a aba da carta, olhando o papel, ainda com aquelas barbichas de caderno, e a puxei, bem, mas bem, o máximo que eu podia ser devagar. Mas a retirei dali. A desdobrar como fazia? Não cheguei a descobrir, o telefone pareceu tocar. Como podia ele estar sendo usado e interferindo tanto em poucos dias? Eu odiava telefones.
Respirei fundo, deixando que tocasse. Estava tentando, enquanto não tinha coragem para desdobrar o papel, identificar o que estava escrito. Mas percebia que era um pouco mais do que a última que eu havia recebido. Memórias nunca parecem desbotar e até são reconfortantes de se lembrar, mas dependendo do que, não era nenhum pouco atraente. Ultimamente eu só parecia estar me entregando ao que me fazia mal. E como Tom havia dito, até as partes ruins estavam me preenchendo.
- ? Ok, você não deve estar em casa, desculpe te ligar em um domingo. Aqui é a Bethan – conheci a voz da minha chefa – Eu estava aqui olhando os últimos papéis antes de fechar tudo e organizar a minha mala – ela estava falando sobre a viagem que uma equipe da empresa iria fazer para a França, naquela segunda – E então eu me lembrei de você, não me pergunte por que só agora. Mas eu realmente achei que seria legal ter você, uma das últimas da equipe, no projeto do Bill – estava falando sobre o projeto dos condomínios ecológicos que havia logo ali, a vinte minutos de Londres, em Sutton – Seria uma experiência muito legal... – então automaticamente fui parando de ouvir o recado na secretária e olhando para aquele pedaço de papel entre meus dedos. Distração não me fazia pensar naquilo e eu ainda estava, apesar de tudo, tão ligada ao que acontecia no meu trabalho. Para falar a verdade, lá era o único lugar aonde eu esquecia de tudo, e nem duas semanas em Brighton podiam me fornecer isso.
Era fugir dos meus problemas o que eu gostaria?
Levantei daquela cadeira em que me encontrava, largando o papel, ainda dobrado, em cima da mesa. Voltando ao ouvir Bethan falar à secretária eletrônica. Lyon podia se tornar o meu refúgio que eu julgava não existir.
Ninguém podia, além de mim, me resgatar dos problemas que eu havia criado. Então para recuperar toda a confiança que antes, um dia, eu pareci conseguir, aceitar aquela proposta, mesmo que em cima da hora e impensado, era o que eu deveria fazer. Sair das regras e fazer de coisas complicadas, simples. Já que das simples eu gostava de arranjar tantos empecilhos. Eu estava escondendo todos os meus verdadeiros sentimentos, estava quase perdendo a cabeça, começando a cair, largando as esperanças de algo bom vir a acontecer depressa. Eu não estava me ajudando também, não conseguia achar aquilo que antes eu não conseguia viver sem pensar, os meus sonhos. E eu não podia mais continuar perdida por dentro. Então, do nada, estava considerando que mesmo que fosse domingo, Lyon, França e fugir, era uma boa saída para excluir todas as coisas que eu odiava mais que tudo.
Capítulo 14
Estranho não ver mais placas com palavras escritas em francês e bom, aparentemente, poder entender conversas paralelas perfeitamente. Era a sensação de chegar novamente em casa. As direções estavam do lado certo agora e até o sol se escondera. Minha cabeça estava em perfeito estado e lugar, dentro dela não ecoava quase nada, somente calma. Se é que isso podia ecoar. Suspirando ao encarar outra vez a fachada daquele sobrado, agora era diferente. Um pouco. Depois de dois meses longe daquelas redondezas e país, me sentia totalmente nova para abraçar a minha vida novamente. Não era, não mesmo, como se os problemas tivessem evaporado naquela temporada que fiquei em Lyon. Eu apenas tinha conseguido a proeza de desviar minha atenção para coisas mais produtivas e ganhado tempo o suficiente para refletir. Sem pressão alguma.
Eu não me encontrava no mesmo estado que dias atrás, quando passei por aqueles mesmos degraus, carregando minha mala até o táxi, me sentindo tão ridícula como se fosse uma fugitiva. Não, eu havia deixado aquela imagem de problemática na primeira semana de viagem. Agora ao voltar, eu sabia exatamente o que fazer. E esperava que logo pudesse colocar tudo em prática, sem nenhum empecilho. Porque depois de tomar conhecimento de alguns fatos e ter ficado praticamente isolada, percebia quanto tempo eu já havia perdido. Era absolutamente tolo da minha parte sempre ficar esperando, o mundo estava dando voltas enquanto isso.
Larguei a mala ao chão outra vez, agora bem em frente à porta. Olhei para a carta que havia procurado no táxi, para me fazer lembrar o que faria, e dobrei o seu envelope, devolvendo-a ao interior da bolsa, em troca pegando minhas chaves. Estranho segurar aquele papel estando de volta. Até me fazia lembrar de como havia o conseguido, em meio ao último domingo chuvoso que passara ali. Bem, mas agora realmente não era hora de pensar sobre aquilo. Não detalhadamente. Então girei a chave à fechadura, tomada por uma euforia quase igual a da última vez que havia feito aquilo. Mas diferentemente, agora, parte do que eu omitia já estava exposto e eu até recuperada da suposta depressão que contar havia me causado. Só estava esperando, e por isso também me sentia um pouco apreensiva, que ao reencontrar , ele reagisse bem a minha presença. E que eu não tivesse mais nenhuma surpresa. Porque da última vez, que eu tinha o encontrado, ele estava sentado ao chão do quarto, sério e eu sem saber o que se passava por sua cabeça. E não que tivesse mudado o fato de eu não saber o que se passava por seus pensamentos, continuava assim, afinal, quando resolvi largar tudo por um período, o garoto tinha sumido de casa e eu apenas pude lhe deixar uma carta, tentando, ainda, lhe pedir desculpas e explicar algo. Em todo o caso, eu não havia recebido nenhuma ligação sua e nem mesmo efetuado uma por todo aquele tempo de viagem, para saber o que minhas poucas palavras naquele papel tinham resultado, somado da reação que descobrir tudo tinha ocasionado. Estávamos brigados ainda, eu sabia, mas eu esperava que esse tempo, pelo menos esse, pudesse, se não curar, ajeitar algumas coisinhas. Afinal estávamos falando de dois meses longe dele e daquela vida.
E se quando aceitei a proposta de Bethan eu não tinha conseguido perceber o que aconteceria depois, bem, agora eu estava vivendo a tal cena da minha chegada. E a primeira coisa que encarei de novo foi o teto, tinha virado uma espécie de costume já, e logo após o chão, com cuidado, entrando mais ao hall e largando minha mala para tratar de fechar a porta com ainda mais calma. Antes de anunciar a minha chegada eu queria poder observar de tudo um pouco, em silêncio. O que, ao encostar a porta novamente ao seu lugar, percebi que reinava. Aparentemente não encontraria passando da cozinha para a sala, nem vise e versa, porque apesar dos pares de tênis e roupas que eu não havia deixado espalhadas pelo corredor antes de ir viajar, eu não conseguia ouvir nada que denunciasse presença ali naquela casa. Pelo menos não parada na porta, como eu estava. Por isso, ao olhar o que eu podia - o corredor, parte da sala e alguma coisa da porta da cozinha - larguei minha bolsa e resolvi tirar os sapatos para não fazer barulho.
Aproximei-me da sala de estar, com calma, enquanto desabotoava meu casaco. Por ter ficado fora tanto tempo, eu queria logo saber o que havia acontecido na minha ausência, por isso queria achar algo que eu não conhecesse, alguma coisa que pudesse me indicar novidade. Porém tudo parecia estar no mesmo lugar, inclusive a parede que eu havia enchido de fotografias. Aquilo era um bom sinal, então parei onde estava, me escorando a uma parede próxima, observando o feito de frente, mas afastada, ali mesmo do corredor. Se estivesse se sentindo tão enganado, ele teria tido um ataque de loucura e colocado aquilo a baixo, na minha ausência. Contudo, tudo parecia no lugar, exceto coisas que não eram para estar, como copos e pratos em cima de tudo que era superfície plana. Aquilo me mostrava que aparentemente em dois meses as coisas não haviam progredido muito.
Ri. Quando morava junto com Reece, naquele loft em Nova Iorque, era sempre eu que ia até lá para organizar as coisas, como levar o lixo para fora e recolher suas roupas espalhadas por cima de casa móvel e chão do apartamento.
Assim, recordando de como ele agia sozinho, me lembrei do lugar onde havia deixado a tal carta. Desencostei-me da parede, parando de admirar aquelas fotografias, e olhando para a mesa onde ficava o telefone, resolvi me aproximar. Parecia que ela comportava bem mais papéis do que eu havia deixado antes de sair. E bem, não era impressão, por incrível que pudesse parecer, vindo de - só podia ser dele - ali estavam todas as correspondências com o meu nome, postas em uma pilha, ao lado das suas. Logo sorri, eu não queria me lembrar de como as coisas haviam ficado ruins, tudo tinha acontecido rápido demais. Eu estava apenas isolando aqueles fatos porque estava com saudades, e esse sentimento anulava qualquer acontecimento passado. Então folhei aquela pilha, não muito interessada, logo desistindo - não havia nada de novo para mim - e indo até a pilha do garoto, que parecia bem mais interessante. E já de primeira, um dos envelopes me seduziu, me levando a querer pegá-lo para olhar melhor e ver do que se tratava.
E só as palavras ali desenhadas me fizeram acordar que já estávamos em julho! Até havia esquecido o significado daquele mês. O tempo estava passando absurdamente rápido e como Tom conseguia se infiltrar com sucesso em cada momento que eu pensava se tratar apenas de ... Mas antes que pudesse refletir ou ler mais alguma coisa daquele papel, ouvi um barulho vindo da cozinha, me fazendo olhar para o cômodo. Só que da onde eu estava agora, não dava para ver muita coisa, nada além da parede e uma cadeira. Então larguei ali mesmo o envelope e decidi ver do que se tratava. Já achava que estava sozinha, mas talvez só não tivesse procurado bem.
Aproximei-me da porta da cozinha, procurando enxergar o motivo do barulho, antes de entrar nela. Mas então ouvi novamente o ruído, percebendo que se tratava do som de talheres, e logo pude ver a extensão da mesa, bem no canto, notando uma mão posta sobre. Sorri, eu não estava sozinha. Toda a euforia, que senti ao girar a chave e entrar em casa, voltou. Assim como o medo da reação que o garoto podia ter, ao ver que eu havia retornado. E controlando os impulsos de correr até ele e pousar sobre as suas costas, perguntando o que ele estava comendo, apenas juntei minhas mãos, respirando profundamente, antes de soltar meus braços, os relaxando, e dar os últimos passos para anunciar a minha presença.
O garoto estava sentado de mal jeito na cadeira, como se estivesse entretido com algo. E me aproximando um pouco mais, percebi que estava comendo cereal - nunca comia cereal no café da manhã - e o motivo pelo qual estava virado de costas para a porta, era porque estava lendo algo no jornal - nunca lia o jornal no café da manhã também. Essas eram as novidades. O observei por milésimos, só a tempo de reconhecer o que ele estava fazendo, e então o vi se mexer, perder a concentração, voltando-se para frente, como se já sentisse que alguém havia entrado no ambiente. Decidi assim que era a hora de falar.
- Oi – disse, erguendo minha mão em um aceno, o notando logo reagir, ao olhar para o lado onde eu estava, só que não demonstrando emoção nenhuma. Exceto que deve ter estranhado. Resolvi parar de sorrir, pela sua cara inexpressiva algumas coisas não haviam evaporado.
Cruzei os braços, o observando voltar para o prato a sua frente, parecendo não ter a intenção de me dar um olá também. Ok, eu sabia que isso poderia acontecer. Por isso balancei a cabeça em sinal positivo, esperando um pouco mais, lhe dando tempo para se acostumar comigo outra vez.
- Resolveu voltar? – e então ele perguntou. Claro, sem desviar o olhar da sua comida.
- Quem disse que eu não voltaria? – estranhei, elevando a sobrancelha – Estava escrito naquela carta.
E o garoto apenas sacudiu a cabeça, largando outra vez a colher ao prato e puxando o jornal.
O olhei estender o papel bem a sua frente, pegar a caixa de cereais, derramar alguns flocos na sua tigela e voltar a pegar a colher, assim retornando à leitura. Estava conseguindo me ignorar perfeitamente, mas eu tive que rir. Olhando então para a cadeira a sua frente, resolvi me sentar. Sabia que ele não gostava que ficassem lhe observando. E era justo o que eu estava a fim de fazer agora, jogar o seu jogo.
- Você não leu? – perguntei.
- Sua carta? – não ergueu sua cabeça, apenas me olhou – Claro que li – então voltou para o jornal.
Legal, pensava que pelo menos ele iria querer brigar. Nem isso. Mas se era uma espécie de teste psicológico, veríamos quem tinha a maior paciência. O vendo mais interessado em ler e se alimentar, tive a brilhante idéia de batucar na mesa, fazendo com que a ponta de meus dedos encostasse à madeira em forma de escala.
E nem preciso dizer que em segundos eu o vi erguer sua cabeça, olhando com uma feição irritada para a minha mão, logo pegando o seu jornal rapidamente e o jogando a cadeira ao seu lado. Havia vencido!
- E então, nessas suas férias você conseguiu pensar, com mais clareza, no que vai fazer da vida, se vai me dar um pé na bunda ou até mesmo resolver me contar mais alguma coisa que eu não sei? – perguntou sério, mas ao mesmo tempo desinteressado e debochado, como se quisesse até mesmo rir da situação. Ou de mim.
- Não é assim, , eu fui...
- Assim como? Eu chego em casa, encontro um bilhete seu e fico sabendo que foi passar uma temporada, não na casa de alguma amiga sua, mas na França. Ah claro, não julgo isso escapar, fugir, evaporar, dar no pé. Claro, apenas um tempo. Estamos dando um tempo, ? – então perguntou, alterando o tom de voz, se sentindo tão dono de si – Ah, se estivermos, tudo bem, nem precisa me avisar. Mas se você até quiser, pode me deixar um mail ou quem sabe uma mensagem no celular – riu.
- Como você é idiota – ri, mesmo que não fosse para acompanhar o seu riso, que na verdade nem deveria estar achando aquilo engraçado. Era mesmo como se estivesse tirando com a minha cara – Mas eu não fugi – voltei então a ficar séria. Mas estava mentindo, então cedi ao movimento de sobrancelhas que recebi do garoto - Tudo bem, se nada daquilo tivesse acontecido, com certeza eu não aceitaria uma proposta para viajar tão em cima da hora. Mas como tudo pareceu ficar tão carregado, depois daquela discussão, eu não vi melhor opção para aliviar, do que aceitar ir para Lyon – confessei – Mas você não achou melhor?
- Eu costumo encarar as situações e não fugir delas, ou melhor, costumo não criar situações desse tipo.
- Está bom, se você não quer conversar, tudo bem – e assim me joguei para trás ao encosto da cadeira, ao perceber que só estávamos tentando vencer um ao outro com as palavras. Porém estava em desvantagem, afinal era eu quem havia criado tudo aquilo e ele, por incrível que parecesse, era a vítima. Ta certo, vítima? – Eu nem queria que você me perdoasse mesmo – disse, por um momento me sentindo uma criança birrenta.
- Você acha que o tempo vai ajeitar tudo por você? Que é só o deixar agir, que as pessoas vão tratar de esquecer e te perdoar automaticamente? – perguntou no mesmo tom indiferente. E não é que ele estava mesmo se fazendo de vítima? Eu, ao contrário, estava tentando relaxar as coisas, tentando não levar muito a sério o seu jeito mal humorado em me receber. Até porque ele tinha todo o direito de agir daquele modo. Mas eu não queria chegar já discutindo, afinal tínhamos acabado tudo daquele modo. Porém, eu estava vendo com meus olhos que não adiantava chegar como se nada tivesse acontecido antes, o tempo podia ter passado, mas, como estava dizendo, ele não parecia ter ajeitando muito as coisas. Na verdade, eu acho que ele só havia feito dessa conversa algo mais calmo do que antes poderia ter sido. Porque dois meses depois de tudo ter acontecido, já havia esquecido muito desaforo que gostaria de despejar em minha cara.
- É, você tem razão, o tempo não vai ajeitar nada por mim – disse, lhe olhando - Mas eu preferi me afastar, tirando esse tempo para pensar com mais calma, aquilo que eu não conseguia por aqui. Sabe, lá na França eu consegui refletir melhor, sem pressão alguma e sem me sentir culpada, por todo o dia encontrar você pelo caminho e perceber que eu estava mentindo. Não, em Lyon eu não conhecia quase ninguém e não tendo muita intimidade com as pessoas, eu consegui encarar os meus problemas e resolvê-los sozinha. Não que eu tenha refletido demais, mas eu consegui ver o que eu fiz por todo esse tempo e ter uma idéia do que eu quero fazer. E agora eu voltei, estou bem aqui na sua frente, e pessoalmente perguntando, eu queria que você me desculpasse, por tudo. Porque é isso, primeiramente, que eu quero, o seu perdão – lhe expliquei, desencostando-me do encosto e me aproximando outra vez da mesa, colocando ambas as mãos em cima da sua madeira, querendo aos poucos ter a coragem para fazê-las se arrastarem até onde a do garoto estava – Então, você me desculpa por tudo?
- Meio estranho ouvir isso da sua boca, quando há mais ou menos dois meses atrás eu entendi, pelas suas palavras, que eu não passava de uma distração para você – disse, e aquilo me murchou – Você não queria achar os motivos que iriam te fazer ver que não gostava mais de mim. Mas você voltou para Londres, não? E eu acho que já está os achando. Então por que você quer o meu perdão? – perguntou. Mas não permanecendo para ouvir a minha resposta.
Agarrou o prato que antes usava, me lançando um olhar fulminante, e levantou rápido. sabia mesmo como interpretar o papel de vítima. Percebia ali que o tempo era inútil mesmo, a não ser para envelhecer. Ele lembrava até das minhas últimas palavras.
- Desculpa se eu disse aquilo – falei meio sem graça, resolvendo levantar da mesa também – Mas você estava gritando e tudo que eu acabava dizendo, você não parecia querer ouvir. Então acabei falando qualquer coisa para ver se algo te atingia – disse, encarando agora suas costas – Você sabe que eu não suporto quando gritam comigo.
- Já falei, você é infantil – disse.
- Obrigada por lembrar – sorri forçado, mesmo que ele nem estivesse vendo. A julgar pelo seu tom de voz, ele devia estar rindo - Você sempre fala isso.
- E você sempre fic