Do You Love Me Still?
Por
Gabriela Rigatti
Capítulo 01
Deixava minha cabeça descansar sobre o travesseiro posto de pé, apoiado à guarda da cama, enquanto tinha em minhas mãos e encarava fixamente uma palavra perdida, ao meio de tantas outras expressas, naquele simples pedaço de papel.
Que para falar a verdade nem era tão simples.
Olhava intrigada, sem uma espécie de pensamento definido. Apenas estava perdida, quem sabe refletindo o que aquelas dez letras pareciam trazer à tona.
A enorme janela, que se localizava a frente da cama, agora já deixava a luz do sol penetrar sobre seus vitrais, iluminando assim ambos os documentos e deixando transparecer, por meio do oficio, seus raios.
- Inglaterra... - repeti em voz alta, mas mesmo assim em um tom baixo, o nome que estava cansada de ouvir ecoar em meus ouvidos desde que havia acordado naquela manhã de dezembro.
Segurava entre meus dedos não apenas simples papéis. Eram passagens aéreas. Bilhetes nomeados para duas pessoas, com destino e dia devidamente marcados, e próximos, para Londres.
Passei meus olhos detalhadamente mais uma vez pela data e destino, em seguida pelos nomes. Meu cérebro parecia demorar a raciocinar. Era difícil acreditar que depois de longos anos nos Estados Unidos, a chance de voltar para minha terra natal estava ali.
- Vejo que gostou da surpresa - uma voz lenta e abafada pelo sono invadiu meus pensamentos, ligeiramente me assustando e assim fazendo com que eu enfim soltasse as passagens ao bidê próximo.
Sem omitir fatos, eu já residia naquele país há bons seis anos. Bem, chegando ao começo do sétimo, já que logo a época do ano novo estava batendo à porta.
Havia acabado enfim minha faculdade de quatro anos à Universidade da Florida e já estava devidamente formada e com um diploma debaixo dos braços. Diploma o qual era o meu único motivo para estar ali, e agora já concluído, tudo não passava de uma enrolação de minha parte. Não possuía maiores motivos para ainda continuar morando na terra do tio Sam. Mas também nada de muito concreto já me levava ao velho continente.
- Eu só não estou acreditando - falei, descendo lentamente pela guarda da cama e depositando minhas costas de volta ao colchão. - Ainda. - conclui, voltando-me para o garoto que estava deitado ao meu lado.
- Então acredite! - ele sorriu, dando uma risadinha - Pois eu tenho certeza que o efeito da bebida há essa hora já passou. - completou.
- Mas você me pegou de surpresa mesmo - tentei esquecer o sorriso que já estava acostumada, e que mesmo assim me fazia perder a concentração, e voltei ao assunto.
- E eu achei realmente que iria te pegar de surpresa. Deve ter sido até esse o motivo que me levou a comprar as passagens sem te consultar. Queria ver essa sua cara de boba - disse.
- Você não presta! - empurrei o garoto à cama, me ajeitando de barriga para cima em meio aos lençóis. - Com isso eu realmente não tenho como rejeitar.
- Motivo número dois! - disse ao me ouvir, agora se apoiando ao cotovelo e ficando de frente para a lateral do meu corpo - E se você rejeitasse, eu te levaria do mesmo jeito. A força! - completou, aproximando e me fazendo virar para olhá-lo.
Não havia tido muito tempo para pensar, na verdade somente algumas horas, mas eu incrivelmente não conseguia dizer não naquelas circunstâncias. Mesmo que o assunto fosse importante como esse.
Contudo, nada do que eu falasse àquela cama seria com total certeza.
- Eu ainda estou tentando digerir toda aquela história de ontem à noite, porque sim, eu ainda lembro dela, mesmo você tentando me embebedar antes de chegar ao final. - agora olhei séria aos seus olhos, como se pudesse absorver a cor azul, e tomei ar para concluir - Eu não vou dizer um não. Eu aceito ir. - disse, abrindo um sorriso tímido ao final.
A reação do garoto então pareceu ser imediata. A sua face, de quem tentava prestar atenção, tornou-se radiante no segundo em que captou as palavras. Um sorriso em sinal de felicidade surgiu em seus lábios. E em um movimento rápido ele aproximou-se ainda mais, ficando quase sobre mim, beijando-me.
- Mas... - murmurei, partindo o beijo inicial, e tentei me afastar aos poucos - Mas se é assim... - tentei continuar, agora conseguindo pelo menos falar normalmente, quando o garoto pareceu optar por distribuir beijos ao meu pescoço. - Mas se realmente é assim, eu já tenho que comunicar minha mãe! - gritei, tentando me manter ainda concentrada ao assunto.
- Por que a pressa, ? - ele então ergueu sua cabeça devagar.
- Você sabe como eu sou, bonitinho - dei um tapinha ao seu rosto, e aproveitando a chance, me desvencilhei rápida de seus braços.
- Mas você com certeza pode fazer isso depois - falou sentando a cama, para me acompanhar, assim que me afastei para recolher minhas roupas jogadas em pontos diferentes do quarto – Agora volta para a cama, . - resmungou.
- Nem pensar, já ficamos tempo demais aí - enfiei minha blusa pelo buraco da cabeça, o olhando com sua ligeira cara de preguiça - E você também devia já se preocupar e começar a ajeitar tudo por aqui! - recolhi meus sapatos, sem antes atirar a boxer, que estava por cima deles, para o garoto ainda sentado à cama.
- Ah não, você é estressada demais. Temos semanas ainda. - ele agarrou sua roupa em mãos ao mesmo tempo em que se atirou para trás, de volta aos travesseiros.
- E você é um preguiçoso! Além do mais o tempo passa - adicionei, me aproximando da cama, ainda terminando de calçar meus sapatos.
- Fica aqui comigo... - suplicou, fazendo a típica chantagem emocional.
- Não vou ficar. Agora tchau para você - apoiei-me sobre as mãos ao colchão e depositei um beijo à testa do garoto.
- , estressada e malvada - falou.
- Também te amo, - falei em meio a risadas, enquanto descia os degraus que separavam o quarto, da sala do mediano loft.
A faculdade já estava concluída. Mas os sonhos que haviam sido construídos e vinham crescendo junto com ela, acabaram por ruir aos poucos.
Eu não passava de uma garota infantil, cujos sonhos haviam sido uma escapatória para acreditar que tudo um dia ficaria bem. Pensava realmente que era madura o suficiente e, que apesar de tudo, tinha meus pés bem fincados ao chão. Bom, talvez eu fosse madura para muitas coisas, mas para algumas eu havia ficado realmente cega, o que tinha me levado a ser extremamente idiota sem ao menos perceber.
O problema de estar longe de quase tudo que eu amava havia me feito construir um par de idealizações e imaginar chances; tudo para tentar preencher um vazio e dizer a mim mesma que eu tinha um grande motivo para prosseguir. Mas todos esses planos, a cada dia, se decepavam sem eu ao menos notar. E como eu era tola, estava sempre tentando acreditar e prender, como quem segura flocos de poeira ao ar, algo impossível.
Lembro-me que Maisie e minha mãe sempre me alertavam constantemente sobre a situação que eu estava cega demais para enxergar por meus próprios olhos, minha relação com Tom. Mas quando tudo em minha cabeça procurava ver o lado perfeito de tudo, eu apenas desconversava e seguia com meus bem moldados planos que seriam colocados em prática dali alguns mínimos anos. Pensava assim.
Contudo um dia as idealizações perderam a sua força, aos poucos desnutridas por falta de notícias e quem sabe até de sentimento. O reencontro em Orlando havia virado um fato passado, distante, e todo o amor que fervilhava até os primeiros anos, foi perdido nas várias viagens de cartas pelo correio.
Havíamos aos poucos sido vencidos pelo cansaço e as poucas notícias de meu namorado já me faziam ter pensamentos pessimistas. Assim, não foi muito difícil depois de três anos as minhas esperanças irem morrendo e eu percebendo que tentava apenas desesperadamente juntar pedacinhos quebrados que nem mesmo se encaixavam mais.
Resumindo, logo que pareci tomar uma boa dose de realidade e abrir meus olhos, dias depois recebi uma carta vinda da Inglaterra. Ela não se tratava de notícias de Zoe, que pelo o que sabia em últimas cartas, deixara Holloway para morar em Paris, e muito menos de , que infelizmente não recebia cartas há tempos. Era daquela pessoa que eu costumava chamar de namorado, Thomas Michael Fletcher. Aquele Tom, que já havia perdido o apelido de bolinho, mas deixara em meu dedo uma lembrança em prata da sua imaginária presença.
Posso lembrar até hoje da caligrafia corrida em apenas meras e insignificantes linhas, cujas me fizeram matar minha repentina euforia e machucar as poucas esperanças que tentavam se sustentar já debilitadas.
'Hei ,
Queria te pedir desculpas por não ter escrito uma misera carta ou ter mandando um mail qualquer para você durante esses quatro meses. Eu não sei como você se sente aí. Mails e cartas não me deixam absorver algum traço ou sentimento seu... E isso realmente é difícil.
Queria que você estivesse por perto em vários momentos que já passei por aqui. E também acho que você me queria por perto.
Sempre achei que distância não seria algo tão ardo. Até achei que nos sairíamos bem. Eu já tive muitos amigos com quem convivi anos incríveis, mas então, assim como você e eu, acabamos por nos separar. Devia ter lembrando que mesmo com eles eu acabei por não conseguir manter um laço tão forte. Porém realmente pensei que seria diferente com você. Mas vejo que me enganei. Não se assuste. Eu realmente não quero que você se sinta mal.
, eu estou relutando com meus pensamentos há semanas e pensei muito tempo antes de tomar coragem para te mandar esta carta. Então vou ser rápido de linhas para cá. Sei que estarei te magoando, mas não estou agindo só para o meu próprio ego. Estou pensando unicamente em você. Eu não acho justo deixar você perder seus melhores anos construindo sonhos já vazios. Quero te deixar enfim seguir o seu caminho, mesmo que me doa profundamente, sem mim.
Sinto-me sujo por ter que pisar nas suas últimas esperanças, e ainda por uma carta, mas também sinto que não posso mais carregar tamanho peso e nem você. Um dia você será amada de verdade, até melhor do que eu te amei, e com o tempo eu vou me tornar uma lembrança engraçada, um borrão na sua memória. Tudo que passamos vai ser lembrado como um sonho, apenas memórias, como vem acontecendo todo esse tempo.
Você pode se sentir mal, mas lembre que agora você está livre. Livre para seguir a sua vida do jeito que quiser.
E mais uma vez, desculpe. Mesmo com tudo, eu ainda sinto afeição por você. Sempre vou te amar e, por favor, não chore - por mais que eu saiba que não posso te pedir isso.'
Na época faltava, mais ou menos, um ano para meu curso ser concluído e eu enfim poder voltar, cumprido assim tudo que eu havia prometido em diversas noites para o garoto e para mim mesma todo aquele tempo. Mas infelizmente tudo, aqueles velhos sonhos, já não faziam mais parte de mim, não eram mais fervorosamente desejados e havia realmente se tornado velho demais.
Tudo que pareceu tão certo, tão meticulosamente idealizado, estava em ruínas, em forma de pó. O tempo de quatro anos havia decepado com tudo, não poupando nada, tornando tudo tão cansativo e desanimador. O amor não existia mais, era afeição e um compromisso de correntes que haviam sido feitas ainda na Inglaterra. Tolice agora.
Por toda a manhã daquele dia eu tentei enfiar em minha cabeça que aquilo era real. E lembro que foi realmente duro ter que me desfazer de metade da decoração de meu dormitório em questão de minutos. Todas as fotos colocadas em porta-retratos ou penduradas em cada milímetro do cômodo, cada carta perdida em meio aos meus pertences, presentes exposto e até mesmo a fictícia presença do garoto em meu dedo recaíram em uma caixa de papelão. Deixando um enorme vazio em cada parede, transformando o choro que caiu por todas as primeiras noites em um eco que incomodava minha amiga.
Acordava naquele momento para notar que eu havia perdido três anos da minha vida para uma pessoa que julgava ser a mais importante em todas as ocasiões. Tão importante que havia terminado comigo por um simples pedaço de folha de caderno. Ironia. Sem um vídeo, sem um telefone. Apenas palavras frias.
Frias como as lágrimas que caíram sobre meu rosto por volta de meses, frias como parte de mim havia ficado desde então, frias como meu quarto, meu mundo, minha bolha. Um lugar gelado, isolado de qualquer fervor.
Até que de uma hora para outra eu cansei de ser gelada. Era individualista demais.
Então eu conheci o fervor, o calor, uma pessoa que foi capaz de derreter, com o seu jeito ousado, o meu iglu construído com blocos pesados de gelo.
Em alguns meses apareceu em meio aquele campus lotado. Não havia notado como, mas ele tinha depositado em mim uma coragem e força para enfim notar que uma só pessoa não poderia viver em um mundo de gelo. Parecia gelado demais para sobreviver sozinho, sem alguém por perto para abraçar.
E foi com a idéia de que Tom podia estar se divertindo com em um pub e eu ali, amargurada e me privando ainda mais das coisas que havia perdido, que passei a deixar mais o meu dormitório, ligado sempre ao máximo do ar condicionado, para me infiltrar no badalado mundo de festas, que eu até então sempre desconheci em todos aqueles anos acadêmicos.
O substituto de Tom foi achado na faculdade de música, era divertido, tinha uma boa conversa, um sorriso encantador e de brinde vinha no pacote britânico, bem educado, com um espírito sem limites e desbravador de corações de pedra. Com tudo isso eu não consegui ficar intacta por muito tempo.
Resumidamente se eu havia aprendido algo com Thomas Fletcher seria que se importar demais com as pessoas e demorar a tomar atitudes, podia trazer péssimas conseqüências.
Estava formada, empregada, feliz e há dois anos com a nova pessoa que chamava de "amor".
- Aí está você! - observei uma garota conturbada, em meio a sacolas, desencostar-se da porta do prédio onde residia. - Onde você estava? Eu estou parada aqui em frente a mais ou menos uma hora, tocando feito louca no interfone. E detalhe: CONGELANDO! - gritou a última palavra, quando me aproximei dela com as chaves em mãos, empurrando com violência seu cachecol, que teimava em molhar suas franjas à bebida que ela segurava, para trás.
- Desculpe Maisie - ri com a situação, ao vê-la passar pela porta rapidamente aberta. - Eu acabei dormindo na casa do e pensei que você ficaria o dia inteiro com o Adam - me desculpei.
- Mas acabei não ficando e esqueci completamente que você estava com a minha chave! - falou, começando a subir, as escadas do prédio, afobada - Lembre-se, você tem que fazer uma chave nova e meter uma vez por todas na sua cabeça que isso aqui não é a Florida. Estava quase congelando ali fora.
Claro, pequeno detalhe que não havia mencionado ainda. Eu não residia mais em Miami, na Florida.
Nova Iorque havia sido uma escolha de mudança pessoal, uma questão de maiores oportunidades. Porque quando finalmente se sai de uma faculdade, já está devidamente entregue ao mundo. E no meu caso, Miami não era muito bem aonde gostaria de ficar por mais anos.
Por isso havia escolhido me mudar para a grande maçã, depois de já completar um ano de namoro, segura que não entraria em mais uma roubada, e perceber que trabalhar com minha mãe nunca daria mesmo certo. Em todo o caso, eu não havia me privado, mais uma vez, das únicas companhias que tinha arrumado ligação forte. Maisie e haviam ido junto comigo.
Morava agora em um, não muito espaçoso e a altura dos meus sonhos, porém confortável, apartamento que meu padrasto havia me concedido, junto com minha melhor amiga desde os tempos de Daytona. Enquanto havia optado por dividir um loft com um colega da faculdade de música. Um cara chamado Reece, canadense e maluco por festas, que quase nunca parava em casa e assim deixava o apartamento quase particular para meu namorado, com exceção das contas.
- Mai, tenho grandes novidades para te contar! - falei ao finalmente abrir a porta do apartamento e terminar de ouvir as reclamações de minha amiga sem respirar até o terceiro andar do prédio - E quando eu digo “grande”, eu não estou brincando - joguei minha bolsa e casaco ao sofá, deixando a porta para a garota fechar, enquanto segui direto para a cozinha.
- Está grávida - falou como se fosse óbvio, passando reto por mim em direção ao nosso quarto.
- Claro que não! - disse logo, nem podendo cogitar em tal hipótese - É algo melhor. Mas pensando assim, tão conturbado como ter um bebê. - encarei a porta da geladeira nem mesmo sabendo por que estava à cozinha. Era apenas uma mania de sempre chegar e abrir o eletrodoméstico.
Então segui para o quarto.
- O que foi então? - ela perguntou sem interesse a me ver, através do espelho, adentrar pela porta do cômodo. - Não achou essa blusa linda? – desconversou, olhando concentrada para a peça posta sobre seu corpo.
- Ah sim, linda - olhei para a roupa e sentei a cama - Mas voltando ao assunto, tenho uma grande novidade para te contar – repeti.
- Pois então diga logo - ela se aproximou da cama então, porém apenas por causa das sacolas cujo eu estava sentada logo atrás.
Respirei fundo.
- me convidou, quer dizer, está me obrigando a ir para Londres! - parecia soltar a frase em uníssono, tamanha era a euforia. Ou talvez a incerteza de querer repetir aquilo calmamente.
- O QUÊ? - senti suas mãos pararem de vascular as sacolas de papel - Eu não sei se eu ouvi direito, mas você me falou "para Londres" ou "a Londres"? Não sei, mas concordância verbal nessas horas muda todo o significado.
Eu ri. Se fosse Zoe Taylor eu nunca esperaria ouvir aquilo em tal momento. Mas como era Maisie, relevei e me virei para a garota.
- Eu falei querendo expressar algo definitivo - abri um sorriso para encorajá-la.
A vi se afastar das sacolas.
- Não acredito nisso. Não acredito mesmo - falou, começando a balançar suas mãos ao ar. Sinal de que estava nervosa - Como foi isso? - perguntou, sentando agora à cama que ficava ao lado da que eu estava.
E mesmo não tendo certeza se podia repetir tal assunto com detalhes, esboçando autocontrole, repeti.
- Ontem à noite, quando me ligou para passar à sua casa, não era somente para ir e ficar se amassando no sofá, ou assistindo filmes repetidos. Ele preparou um jantar! E acredite, ele próprio cozinhou - ri outra vez.
- Sorte. O Adam só sabe discar o número da pizzaria - comentou.
- Mas continuando. Conversa vai, risada vem, depois de algumas taças de vinho já ao sofá, ele pareceu ficar sério. Então retirou, do nada, aquelas duas passagens do bolso da calça, me deixando extasiada ao reparar no destino impresso. E assim sem nem esperar eu absorver o susto, começou a falar sobre todo o seu plano, me deixando mais abobada possível a cada palavra - disse.
- E sobre o que ele falou? - perguntou interessada nos detalhes, agora esquecendo suas roupas novas.
- Ele explicou-me que comprou as passagens visando me fazer uma surpresa. E até confessou que há tempos já pensava em retornar para casa. Na verdade a idéia nos últimos dias só cresceu. Resumidamente parece que alguém da sua família lhe mandou uma carta comentando que uma gravadora britânica estava abrindo testes para a formação de uma banda. Algo que já começava com grande promoção, com contrato. Um futuro garantido, entende? Então agora ele está realmente empolgado para colocar os planos em prática e fazer os testes. Só que como ele não quer me deixar, teríamos que ambos nos mudarmos, voltar para Londres - concluí.
- Mas, no caso, não seria mais simples e seguro ele ir fazer os testes, sem você, e depois esperar o resultado? Vai que ele acaba não conseguindo? Então vocês terão largado tudo de concreto aqui em Nova Iorque, pelo duvidoso lá.
- E foi exatamente isso que eu falei a ele. Mas você conhece o , sabe como ele é cabeça dura! Para você ter noção disso, ele já tem tudo esquematizado até. De acordo com os planos, os pais deles, que são donos de alguns imóveis em Londres, já têm uma casa para nós morarmos.
- Mas e o seu trabalho? - perguntou, querendo se informar ou tomar minhas dores.
- Talvez minha mãe pudesse me ajudar, afinal ela já trabalhou por tanto tempo lá. Ela conhece muitas pessoas, empresas e meios naquela cidade...
- Eu não sei por você, , mas eu achei arriscadíssima essa idéia maluca do seu namorado.
- Também achei. Mas vendo ela por outro lado, o que você acha de eu me mudar definitivamente para Londres com ele? Voltar para a minha terra, construir uma vida nova, quem sabe até casar - sonhei por um segundo alto.
- Confessando agora, eu sempre achei que você esteve ligada, de alguma forma, àquele lugar. Os seus sonhos de voltar nunca morreram, apenas foram desviados. Mas eu acho que agora, tendo essa chance de voltar já firmada, com um namorado e decidida ao que fazer, será ótimo. Vai poder recomeçar outra vida e não mais uma continuação, como você queria.
Então algo pareceu ressurgir à conversa. O meu medo, o meu receio de iniciar aquele assunto, que provavelmente tinha inúmeras chances de recair sobre algo em especial que eu não queria lembrar.
E agora estava ali a chance de fazer tudo vir à tona, o assunto aparecer a minha frente sem máscaras para se esconder.
- Você também pensou no... - minhas mãos pareceram ficar inquietas, mas talvez fosse um sinal para tirar minha atenção da conversa e ver se era sobre aquilo mesmo que eu gostaria de falar no exato momento. - Pensou no Thomas, também? - concluí.
- Sempre que eu ouvi você falar dessa cidade, o nome dele vinha logo em seguida. Então, para mim, não tem como não associar Londres ao Thomas - explicou-se.
Perdi o interesse em meus dedos que já conhecia tão bem desde a barriga de minha mãe e levantei da cama, recebendo o olhar de minha amiga como acompanhante até a janela.
- Pois eu também pensei - disse, ao olhar o céu nublado de Nova Iorque. - Não sei o que está acontecendo comigo, Maisie, mas desde ontem à noite, eu não pensei somente na vida que eu poderia levar com o . Eu pensei nele. Droga, Mai, eu pensei nele! - elevei meu tom de voz, trazendo todos os pensamentos daquela manhã de volta.
- Mas é normal isso acontecer, . Afinal você sempre pensou, que quando voltasse para Londres, seria com o único propósito de reencontrá-lo.
- Você não entende, Maisie. – a interrompi - Eu não posso mais pensar nele. Não mais! Porque eu estou me sentindo tão bem e segura com o . Eu realmente o amo, de verdade, e muito - o nervosismo já me atrapalhava ao tentar explicar.
- E eu não estou contestando o seu amor, .
- Eu não posso voltar a ter esses pensamentos sobre ele porque eu o esqueci. Ele não faz mais parte da minha vida, ele não é mais nada meu, eu não sei mais nada sobre ele e ele não é mais meu amigo - coloquei minhas mãos sobre meus ouvidos e pressionei. - Todas as memórias que eu tinha sobre nós viraram meros borrões, eu não sinto mais nada por ele e não vou voltar a sentir! - retirei minhas mãos com violência de meus ouvidos e me voltei nervosa até onde minha amiga estava, agora parada de pé atrás de mim. - Associá-lo com essa viagem não pode acontecer, Mai - envolvi com força meus braços ao seu pescoço, escondendo meu rosto em meio aos seus cabelos caídos ao ombro.
- Calma , você só associou, como qualquer outra pessoa faria. Não precisa ficar nervosa...
- Mai, eu não posso ainda sentir algo por ele - afundei meu rosto ainda mais que podia ao seu ombro.
- , eu não estou conseguindo te entender, sabe? Você estava minutos atrás toda feliz, me contando sobre as novidades, sua futura vida e agora está... chorando! - percebendo meus pequenos soluços iniciais, ela me afastou - O que está acontecendo, garota? - perguntou.
Deveria estar com meu rosto em um rosado escarlate. Sentia por minhas bochechas, e meus olhos cheios de água terminavam por me entregavam. Estava me sentindo, de minutos atrás para agora, tremendamente angustiada.
- Eu só não posso pensar nele, Mai - choraminguei para a garota, sentando agora outra vez a cama, e depositando minhas mãos sobre o rosto.
- Mas não é proibido pensar, . Você não vai trair o por somente pensar em um ex-namorado - percebi a garota se agachar a minha frente, assim retirando minhas mãos sobre o rosto - Mas por que você me falou "ainda sentir"? - perguntou.
- O quê? - a olhei demonstrando surpresa, ao limpar as lágrimas que caiam, as impedindo de se perderem sobre meus lábios.
- Por acaso você ainda sente amor pelo Tom? - perguntou docemente, pena que eu não absorvia a doçura de sua voz, muito menos do assunto.
- Sentir? - tranquei meu choro, encarando a garota por um segundo - Eu não sei. Eu não sei o que eu sinto, eu não sei como me sinto, eu não sei de mais nada!
- Está certo, vamos começar outra vez - me olhou com compreensão e sentou-se ao meu lado na cama. - Eu só vi o Tom uma vez e não sei nada além do que você me contou um dia. Mas eu posso te ajudar se todos esses sentimentos por ele estão parecendo voltar e se encontrar com os novos, de agora. Só que eu preciso que você queira me contar sem chorar.
- Eu só tive um surto - sorri, tentando afastar minha cara de idiota - Milhares de pequenas coisas pareceram invadir minha cabeça essa manhã, partículas de tudo que eu vivi na Inglaterra e não somente do meu último ano lá. E eu reconheci que seria inevitável não pensar nisso, acho normal, afinal é a minha vida, foi o meu passado. Mas então o que me deixou confusa foi só conseguir pensar nesse passado, hoje de manhã. Eu não consegui me prender por muito tempo na vida que eu vou poder levar, no meu futuro, entende? Só conseguir raciocinar que agora eu vou poder realizar aquilo que eu planejava, voltar. E o mais estranho, porque ao pensar isso, só pensei no Thomas. Porque eu sempre pensei que seria por ele que eu voltaria. E agora eu estou idealizando voltar com o . - suspirei ao conseguir explicar a minoria do que eu parecia sentir. - Eu não sei explicar quando tudo parece se embolar aqui dentro.
- Tudo bem, eu entendo. Você deve ter imaginado um final alternativo, onde você estaria prestes a acabar a sua faculdade e enfim próxima de selar a sua promessa, não com e sim com Tom.
- Mais ou menos isso também, porque na verdade foi tanta coisa - ri para não tornar tudo tão desagradável. Mesmo que fosse e estivesse sendo. - Mas também percebi que Tom me esqueceu, eu não me comunico há tempos com , e Zoe e eu nem parecemos melhores amigas desde sempre. Eu não tenho mais nada na Inglaterra. Tudo está aqui.
- Realmente te entendo. Mas acho que você não me falou se sentiu algo ressurgir pelo Tom novamente - disse.
A minha cabeça estava um turbilhão desde a noite passada, porém eu estava tentando controlar e não deixar as dúvidas quanto a garoto transparecer e ocupar o lugar das minhas expectativas com e nossa mudança.
- Continuar a disser que não sei é um clichê, mas eu não consigo esclarecer se o que senti, e sinto, é aquele amor reprimido. Eu só pensei na imagem dele, só. – falei.
- Mas você sentiu um desconforto, uma espécie de calorzinho? Você está pensando só nele agora? - perguntou.
Sim, eu estava sentindo um desconforto enorme, mas era com tais pensamentos.
- É claro que eu me sinto desconfortável por pensar nele - falei instantaneamente - Por que, o que você acha? - perguntei a minha amiga. Que pareceu pensar no meu caso, admirando a parede à frente e contorcendo sua boca.
- Eu? Não acho nada. Só sei que você precisa de um banho e descanso. Vai saber, mas tenho certeza que você não conseguiu dormir muito essa noite - acertou um tapinha em minha perna e levantou da cama, sem me dar a resposta que precisava.
No dia seguinte, já com a minha cabeça fria e aliviada, havia recebido uma ligação de , onde o garoto explicava que gostaria de conversar melhor, de preferência de roupa e totalmente sóbrio, sobre aquele assunto que até então estava sendo levado na brincadeira, como eu havia levado meus três anos de idealizações na faculdade, nossa viajem somente de ida para a Inglaterra.
Viagem que exigia muito mais que preparação material naquelas circunstâncias, e sim uma boa preparação psicológica.
- Oi bonitinho - falei ao passar ao lado do garoto, dando-lhe um beijo ao topo da cabeça, e indo me sentar à cadeira logo a sua frente naquele restaurante local.
- Oi para você também - ele afastou o paliteiro cujo parecia brincar - Como dormiu? - perguntou então.
- Ah, dormi bem - ri divertida com a pergunta, depositando meu casaco a cadeira - Você nunca pergunta isso.
- Posso começar a perguntar a partir de agora - deu o seu típico sorriso, pelo qual eu era apaixonada.
- Mas você não me pediu para vir até aqui só para perguntar como eu dormir.
- Não mesmo. Eu te chamei aqui para comermos - debochou - Mentira, te chamei aqui para conversarmos sem eu te agarrar.
- Que isso, ? - perguntei surpresa ao ouvir aquilo, ao mesmo tempo em que ri ao perceber a atendente que passava por perto arregalar os olhos.
- Está bem, te trouxe aqui porque achei mais simples. Almoçamos juntos e já começamos a falar do nosso futuro - explicou-se.
- O futuro que me assusta - brinquei. - , eu falei com a Maisie sobre o que você me disse e, assim como eu, ela achou melhor você ir sozinho e prestar o teste primeiro, antes de resolvermos nos mudar e tudo mais.
- Ela está com ciúmes! , nós vamos viver juntos em Londres, em um sobrado perto do Kensington Gardens. Eu vou passar no teste da banda e você vai conseguir algo por lá, tenho certeza. Seremos felizes.
- Você fala como se tudo fosse tão simples que até me convenço. Mas não é bem assim, . Você pode não ser aprovado e o "eu consigo algo por lá" pode não acontecer. Mas aqui as coisas...
- Aqui as coisas estão monótonas. Querida, eu te amo, mas você sempre pensa baixo demais. E isso é particularmente chato. Você tem que deixar de lado esse pessimismo, parar de pensar demais porque você sempre acaba desistindo de tudo com medo das conseqüências. Você tem que perceber que temos chances lá. É a nossa terra natal, onde crescemos! Pense na vida nova que podemos levar - seu sorriso ia abrindo mais a cada palavra, e eu tentava não lhe interromper e contar o que aconteceu quando eu deixei os sonhos me levarem demais para fora da realidade. Mas acima de outras coisas eu admirava o jeito sonhador do garoto - Ok, Londres não é melhor, nem pior que Nova Iorque, mas é o nosso lar.
- Como dizem: lar é onde o coração está, . E o meu está por inteiro deste lado do oceano - disse, logo ficando séria.
Aquilo me fez lembrar, por frações de segundos, de Tom. E era tudo o que eu estava tentando deixar afastado.
- Será que eu vou ter que deixar a pessoa que eu mais amo e me faz feliz no momento para os americanos? – bateu, brincalhão, à mesa.
- Não... - reparei então nas pessoas que olhavam - Eu vou ir com você – disse baixinho.
- Tem certeza? - perguntou em um tom alto. - Eu não quero estar te pressionando - bateu outra vez na mesa, agora fazendo o saleiro pular.
- Não está, juro - me afundei um pouco na cadeira ao perceber os olhares insistentes das pessoas da mesa ao lado - Eu vou com você – ri de estar sendo vencida pela vergonha. E mais uma vez deixávamos o assunto tornar-se uma brincadeira.
- Ela aceitou! - piscou para o senhor da mesa vizinha - Ok, mas não quero que você se arrependa depois - ele virou-se para mim, agora falando em seu tom normal.
- Não vou me arrepender, vou estar ao seu lado - sorri.
não sabia detalhadamente sobre Tom, nem do tormento que eu estava sentindo de pensar em voltar lá. Mas ao notar o quanto eu amava seu jeito, não conseguia pensar em nada a não ser aceitar.
- Acho muito bom, bom mesmo. Porque eu não estava a fim de entregar aquela passagem para o Reece ir comigo - comentou.
Não havíamos conseguido ter uma conversa séria, porque era praticamente impossível fazer aquilo com o garoto. era do tipo cabeça dura, que quando enfiava algo na cabeça, persistia até o final. E admitia, eu gostava do seu jeito. Mas às vezes quando eu gostaria de falar um pouco mais sério e expor meu ponto de vista, as suas atitudes sonhadoras me irritavam profundamente. Para ele tudo poderia ser feito, bastasse continuar acreditando. Pensar baixo não era o seu destino. pensava alto e subia cada dia mais, vivia quase em meio às nuvens. Um total contraste do que eu havia ficado. Mas quando dizem que os opostos se atraem é porque realmente é verdade. Apesar do seu jeito imaturo para ver situações sérias, ele preenchia o meu lado sonhador que havia feito questão de esquecer a dois anos e meio.
Em todo o caso tudo que havíamos comentado era sobre os seus planos, para nós, quando chegássemos a Londres. Nada de desistir e nem de pensar por mais tempo, era certo que iríamos. E eu ainda não conseguia acreditar que havia aceitado essa loucura.
Rumei para casa logo depois do almoço. Teria que tratar de começar a encaixotar cada pertence e arrumar as malas.
Ambos não levaríamos grandes móveis, pois de acordo com , a propriedade de seus pais já era mobiliada com o básico para se viver. Assim só carregaríamos conosco nossos pertences mais íntimos e roupas.
Não teríamos, a principio, grandes trabalhos com absolutamente nada por lá. Teríamos uma casa devidamente mobiliada e total apoio da família do garoto. Mas algo me incomodava além, tirando o problema com o meu passado persistente, eu não teria emprego e eu odiava ficar para desde então.
- Maisie, falei melhor com o e para o seu pesadelo nós vamos nos mudar sim - gritei em alto e bom som, enquanto trancava a porta de casa.
Estava tentando deixar somente a alegria transparecer.
- Se mudar? - ouvi uma voz familiar, mas não a de Maisie; então virei para trás num girar rápido de calcanhares.
- Mãe? - encontrei logo os olhos, cujo falavam que eu havia herdado, da mulher - O que a senhora está fazendo em Nova Iorque, ou melhor, na minha sala? - perguntei espantada, mas ao fim abrindo um sorriso de quem estava satisfeita com a surpresa.
- Isso é cara de quem gostou? - perguntou, abrindo seus braços.
- Nossa, isso sim que é surpresa! - larguei minha bolsa e chaves ao chão e fui de encontro com a mulher, que estava à frente do sofá, já de pé - Mas como você entrou, surpresa? - perguntei sorridente ao abraçá-la.
- Eu realmente esperava que você falasse "mãe, senti sua falta" e não receber um abraço depois de meses sem te ver, com um "como você entrou?" - ela riu, me afastando agora para poder olhar meu rosto.
- Desculpa, eu senti muito a sua falta - reformulei minha frase. - Mas agora, como você entrou?' perguntei novamente.
- Credo , como você está magra! - desconversou totalmente ao segurar em sua mão meu queixo, o virando de um lado para o outro, analisando meu rosto, assim como o corpo inteiro em um mesmo olhar, típico de mãe - Garanto que você só se alimenta de porcaria e ainda dorme tarde da noite - soltou-me - Veja os seus braços, parecem varetinhas! - balançou a cabeça em sinal negativo.
- Mãe! - gritei em meio a risadas.
Não podia estar acreditando que minha mãe estava ali, ainda mais que havia chegado já me analisando e reclamando.
- Ah sim, sua amiguinha Maisie me encontrou lá embaixo e me abriu a porta para que eu te esperasse - explicou-me então como teria entrado. - Ela foi até a casa de um Adam e me deixou aqui olhando suas fotos - ela então apontou para porta-retratos espalhados em cima de uma estante.
Eu tinha um pequeno tombo por fotografias.
- Ah sim, fotos - sorri, me afastando da mulher para recolher as coisas que havia largado ao chão e trancar a porta. - Mas então, o que te trás a Nova Iorque? - perguntei.
- Vim acompanhar o George. Ele veio fazer uma visitinha ao Anthony - disse.
- Ah sim, o filho problema - falei, indo agora até a cozinha.
Anthony era o filho do meu padrasto, George. E por falar nisso, ele e minha mãe haviam se casado há um ano e meio, ou dois, não me lembrava. Mas o namoro tinha sido até que longo para os antigos padrões de minha mãe. Com certeza os americanos haviam descoberto aquilo que os britânicos nunca haviam conseguido, achar a melhor maneira para conquistar . E bem, Anthony agora era o enteado, meu irmão postiço, a encrenca, o legitimo encosto.
Tony, como o chamavam, também morava sozinho em Nova Iorque, mas diferente de mim, sempre trazia seu pai para a cidade, pois ele e minha mãe ainda moravam em Miami, devido aos seus problemas em beber demais, sempre farreando com as más companhias e indo parar vez sim, outra não, na delegacia.
Eu lhe via sempre em feriados ocasionais, tipo ações de graças, páscoa e principalmente natal, quando ele e eu éramos obrigados a deixar NI para visitar nossos pais em Miami. E ele era do tipo estupidamente bonito, mas se realmente soubesse se comportar decentemente seria mais. Anthony era asqueroso como homem. Além de ser um problemático, ele tinha a auto-estima elevada demais, o que o possibilitava dar em cima de qualquer ser humano do sexo feminino que parecesse agradável aos seus olhos.
Ou seja, eu o odiava.
- Não fale assim dele. É um bom menino, apesar de tudo - disse.
- Então mãe, quer beber ou comer algo? - perguntei ignorando sua resposta, para não procurar continuar o assunto.
- Não, almocei com o George - disse, saindo do caminho das poltronas e indo até o balcão americano que separava a sala da pequena cozinha, onde eu estava fuçando nos armários - Mas voltando mais cedo, o que você falou quando entrou em casa? - perguntou curiosa.
- O que você ouviu? – respondi com uma pergunta, depositando um copo a sua frente, que agora estava sentada a uma banqueta.
- Algo sobre mudança - respondeu, a me ver seguir até a geladeira - Você não está pensando em ir morar com o seu namorado, está?
- E se eu estiver? - perguntei, retirando um jarro de água do trambolho que minha amiga havia pintado de roxo.
- Você sabe o que vão falar sobre você se isso acontecer? - a mulher se remexeu na cadeira quando me aproximei novamente.
- Mãe, eu vou morar com o , mas não aqui em Nova Iorque, até porque aqui eu moro com a Maisie e ele com o Reece. Mas sim em um sobrado próximo ao Kensington Gardens - sorri ao ver a água cristalina rebater ao fundo do copo de vidro e ir subindo até a metade dele.
Já conseguia ouvir os gritos, por isso só estava prevendo um raciocínio para começar a me explicar.
- Mas Kensington fica em... ! - ela não concluiu sua frase e já começou a me chamar pelo nome.
- Fica em Londres - sorri em dizer - Explicando melhor, vai voltar para fazer uma audição em uma gravadora local e me convidou para ir junto.
- Espera, deixe-me compreender a situação - ela fechou os olhos, sacudindo sua mão à frente do rosto - Você vai deixar tudo aqui, porque seu namoradinho vai tentar entrar para uma banda? - abriu os olhos então.
- Sim - continuei sorrindo a cada conclusão sua. - Mas antes que você ache pura loucura, deixe-me esclarecer que vamos ter uma casa só nossa, dada pelos pais de , e bem, quanto a um pequenino detalhe, o meu emprego, você vai poder me ajudar, não? - perguntei.
- , desde quando vocês estão pensando sobre isso? - perguntou.
- Bem, hoje é o terceiro dia - continuei sorrindo, esperando ouvir mais uma vez meu nome. - Mas eu amo o e...
- Por Deus, minha filha. Será que você ainda não aprendeu? - interrompeu-me - Você está se iludindo do mesmo jeito que foi com o menino dos Fletcher. Você lembra como tudo acabou? - perguntou.
- Eu não vou cometei os mesmos erros, - segurei outra vez a jarra de água e segui para a geladeira. Thomas de novo!
- O é um rapaz maravilhoso, doce, encantador, mas ele leva a vida na flauta. Garanto que ele não está pensando como vocês poderão viver por lá se ele não passar no tal teste.
Minha mãe tinha total razão em cada palavra que dizia. Mas depois de tempos só convivendo com o positivismo excessivo de , eu havia ficado afetada, achando que tudo sempre poderia dar certo. Como pensávamos.
- Mãe, eu sei que parece impensado. Bom, na verdade realmente é. Mas eu lembro uma vez, quando você me disse antes de sairmos de Londres, que o dia em que eu estivesse formada e certa das minhas atitudes eu poderia voltar. Então veja agora, eu me formei, acho mesmo que estou em perfeito juízo e mesmo assim fiquei mais anos aqui, com a senhora, mesmo que não tenha sido ao seu lado. Mas agora eu tenho uma chance de voltar. Voltar com uma vida diferente, com outras perspectivas - falei.
Vi minha mãe suspirar alto quando me aproximei do balcão.
- Eu posso tentar falar com o Theodore... - iniciou, levantando seu olhar - E ver se tem algum trabalho na filial da Inglaterra - concluiu. Minha mãe ainda continuava como presidente de uma empresa de arquitetura em Miami, e estava sempre em ligação com a filial da nossa antiga cidade.
Acho que era por isso que eu havia optado por arquitetura também. Pelo fato de ser a profissão de duas gerações seguidas e ter a minha disposição um leque cheio de chances para o futuro.
- Mas não se anime. As coisas parecem vir facilmente, mas nem sempre é assim. Você sabe! - avisou, antes de eu me apoiar por cima do balcão e lhe puxar para um abraço.
- Eu tenho sorte, dona . Sorte! - lhe dei um beijo estalado à bochecha.
- Sim, sorte. Mas, agora, quanto a esse seu namorado, o que ele espera da vida, além de levar como músico, ele vai noivar com você? - perguntou, me fazendo perder a concentração e rir.
era meio cabeça dura, assim como meu namorado, logo de início, mas era de se entender logo depois. Para desarmá-la era só ter um bom diálogo. O que ela prezava.
- Tenho certeza que vou me lembrar de você em cada lugar que eu passar, mas mesmo assim vou sentir sua falta - disse, abrindo meus olhos - Nós moramos tanto tempo em Londres...
- Anos maravilhosos - ela completou.
- E voltar vai fazer acender várias memórias que eu julguei estarem esquecidas. Sabe, mãe, - saí de seu colo e então sentei ao sofá. - eu pensei por um momento em rejeitar essa oportunidade.
- Por quê? – perguntou compreensiva, mesmo não contestando se eu resolvesse mudar de idéia mais uma vez.
- Justamente pelas memórias - respondi. - Eu não sei se conseguirei viver outra vida lá, entende? Londres só me remete a vida que deixamos para trás. Levar o que eu construí aqui nos Estados Unidos para lá me parece estranho.
Ambas tínhamos mudado muito. Nada do que fomos ao velho continente, éramos agora ali, nos Estados Unidos. Aquele tempo havia me feito de uma adolescente estúpida e enclausurada em sua própria bolha, em uma mulher decidida e com a cabeça (quase) no lugar.
- Mas por que essas lembranças te impediriam de viver? Lembranças são apenas fragmentos do que aconteceu um dia; e geralmente elas voltam para nos lembrar de algo, mesmo que seja ruim ou bom, e nos fazer sorrir ao ver que passamos por tudo e ainda estamos aqui – disse, me fazendo sorrir.
- Eu gosto de lembranças, mas me preocupo em especial com as do Thomas - respondi - Não sei como agiria passando por lugares que passei ao lado dele, agora com ao meu lado.
- Ora , não seja tola - me impulsionou para deitar outra vez ao seu colo - Claro que temos medo do que não conhecemos, mas eu sei que você não vai sentir nada disso quando chegar lá. Você agora está com o , é outra vida. Aquilo que aconteceu foi no passado - falou.
É mãe, mas nada até agora impediu o que um dia foi passado, de se infiltrar no presente. Livros de história eram a prova viva disso.
Fechei mais uma vez meus olhos, sentindo novamente seu toque aos meus cabelos, e voltei a refletir. Enquanto ainda estava me sentindo segura em seu colo.
Capítulo 02
"Gostaríamos de ter ficado mais uma semana para podermos nos despedir no aeroporto, ou quem sabe viajar com vocês até Londres. Mas você sabe dos motivos e também sabe que independente disso, já estamos torcendo para tudo dar certo há semanas.
Façam uma boa viagem e não esqueça de telefonar quando chegar!" li o bilhete de minha mãe, em meio às outras correspondências, em sua maioria contas, que em breve não me encontrariam mais àquela endereço.
O natal chegara e passara na velocidade luz. Sempre costumava ser daquele jeito e conforme mais expectativas se criavam, mas rapidamente era o efeito assustador do tempo. Minha mãe e meu padrasto haviam vindo até NI para a véspera da comemoração, mas, como estava escrito no bilhete, já haviam voltado à Miami. E isso já passava de uma semana.
Conforme o meu calendário, e as últimas malas postas à porta do apartamento, não deixavam mentir, dezembro tinha se consumido em horas desde a notícia que me dera. E agora realmente era em questão de horas que eu deixaria aquele lugar, aquela rua, aquela região, a cidade e finalmente o país. Restavam apenas horas para ter certeza que eu seguiria mesmo em frente, horas restantes para eu enfim, depois de tudo, cumprir uma promessa, mesmo que quebrada, esquecida e completamente mudada. Estava prestes a voltar.
- Nunca pensei que você tivesse tanta inutilidade posta aqui dentro - Maisie disse em meio a seus consecutivos movimentos de levantar e abaixar braços. Estava aproveitando o espaço que minhas roupas e bugigangas haviam deixado para trás, ressaltando que era um belo de um espaço, para arrumar o quarto ao seu gosto.
Tudo que eu possuía, em sua maioria estava dentro de caixas, e a julgar pela rapidez que se tornara e com ajuda da transportadora, quem sabe já estariam em minha sala na Inglaterra. Poucas coisas, como duas ou três malas, estavam ainda postas sobre minha cama recebendo sem parar pilhas de roupas e pequenos objetos pessoais. E logo não estariam mais, dando um maior espaço e eco em meio ao quarto que deixaria de ter duas camas para ficar somente com uma. Levaria meus pertences no fim da tarde até a casa de , que despacharia tudo em um vôo de transportadora, nos deixando livre de preocupações de danos em ou demora em achar bagagem em aeroporto.
- Minhas inutilidades vão ocupar outro closet, em outro país e esse será todinho seu. Fique feliz - respondi, conferindo se não havia mais espaço aonde eu pudesse enfiar mais duas blusas, dobradas como se fossem meias, à mala.
- Só não fico totalmente feliz porque você também vai ir embora junto com as suas inutilidades – disse, me fazendo sorrir.
O apartamento que morava passaria inteiramente para a garota. Um presente de despedida trocado, já que em todos aqueles anos havia sido ela quem tinha me feito companhia em momentos agradáveis e também não tão agradáveis assim. Afinal de contas, agora George havia me conseguido algo muito melhor que um apartamento bem localizado em NI, ele havia conseguido o meu mais novo emprego em Londres, em uma empresa de familiares.
Estava tudo prontamente organizado, por incrível que pudesse parecer quando todos foram comunicados da notícia, e parecia surreal, pois em pouco tempo tudo havia se tornado concreto e seguro e eu já não estava mais acostumada a ver tudo ser idealizado e dar certo sem um boa espera para acabar com qualquer plano. Assim me sentia confiante, ou quase inteiramente. Porque por falar em "tudo", eu estava tentando me concentrar por dias na árdua tarefa de só manter minhas atenções em assuntos que envolvessem uma nova vida e não uma velha, porque afinal, com tantos conselhos que eu havia tomado de pessoas íntimas, como minha mãe e Maisie, não se pode viver de passado. Porém era uma realidade persistente e impossível, como se falar a um gordinho que ele não poderia mais comer doces.
Sentia-me nervosa ao mesmo tempo em que tentava me controlar e pensar em outras maravilhas que me aguardavam. O novo me chamava evidentemente à atenção. Contudo, todas as noites que se passou desde que pus minhas mãos as passagens da British Airways, era me envolver com o velho filme preto e branco onde um dos protagonistas principais não se chamava .
- Hei , eu acho que você não retirou todas as suas bugigangas do meu closet! - a voz da garota vinda de dentro do armário era de surpresa - E dê uma olhadinha no que logo resolveu ficar para trás... – riu.
Havia conseguido fechar a última mala, e diferente das outras, em questão de simples segundos. Então agora me sentia livre a ajudar minha amiga com a nova arrumação de seu exclusivo quarto. Contudo quando virei para o lugar onde supostamente ela estaria, dei de cara com algo que eu não imaginava, e muito menos necessitava ver, em suas mãos.
No papel em meio aos dedos finos de Maisie estava a pessoa que eu costumava ser, idiotamente deslumbrada com a companhia do garoto loiro ao meu lado, de aspecto doce, e pelo que rapidamente passou por minha cabeça, no auge dos seus recém completados dezoito anos. E notar aquilo em tal situação e altura do campeonato realmente não era o que eu precisava. Porém era o que mais me seduzia a querer pensar.
- Você ainda lembrava dessa caixa? - a garota aproximou-se da cama, onde eu estaticamente havia me deixado ficar, já não destacando mais a tal fotografia em sua mão, e sim a jogando dentro de uma mediana caixa de papelão azul anil depositada em seus braços e que parecia jogar faíscas de memórias para cima de mim conforme ia se aproximando em câmera lenta. Como tudo havia ficado no momento em que meus olhos encontraram com os que o garoto da fotografia possuía - Nem sabia que você ainda a guardava - e depositou o poço de memória indesejada sobre minhas malas, me empurrando a tal foto que retirara outra vez da caixa - Eu sempre gostei das suas fotos - sorriu, voltando para o conteúdo que eu nem mais me lembrava detalhadamente.
Senti meu coração estacionar suas batidas controladas e deixar uma sensação horrível percorrer meu corpo, como se o sangue por um segundo parasse de circular e seguisse em direção a cabeça, quando pude olhar para o papel e, assim como na questão de tato, absorver melhor a imagem que havia sido congelada naquele papel com brilho da Kodak. Assim ao encontrar outra vez o olhar frio, mas mesmo assim exalando vida, e os sorrisos idiotas de felicidade à minha face e a de Tom, meu coração voltou com força, agora parecendo não se contentar em bater unicamente ao peito, mas sim à garganta. Causando-me desconforto e calor.
- Você lembrava disso tudo? - minha amiga repetiu, quando virei em sua direção com a cabeça ligeiramente atordoada e com meus movimentos lentos por ter que digerir a súbita mudança de sensações em pouco tempo - É muita coisa... que eu nem sabia que existia! - disse, se afastando da caixa e me deixando enxergar o que lá eu havia há muito tempo depositado.
Percebia que os sons ao meu redor, assim como o movimento, estavam se tornando inexistentes a cada lugar da caixa que eu olhava e encontrava rostos e pertences antigamente tão bem conhecidos. Era como achar um baú de brinquedos que há muito tempo não se via. Cada item parecia me seduzir e me levar a querer mexê-lo, até me fazendo acreditar que olhá-los não me acarretaria em qualquer problema.
E foi o que fiz quando peguei uma foto que se destacava sobre as demais e que até mesmo com o tempo de dois anos eu me lembrava aonde havia a guardado desde última vez em que a segurei em mãos. A foto da minha última tarde ao Hyde Park, a que tinha a presença de meus dois melhores amigos, em questão na época, e a de um pequeno e típico animalzinho, que havia até sido tirada por Tom, costumava ficar exposta ao mural em meu quarto na faculdade e a última vez que ela havia ficado por lá tinha sido até meu último ano, quando tudo voltou novamente para a caixa. E tudo tinha ficado ali, inclusive na mudança de Miami para NI. Não me lembrava daquilo, não a abria há um bom tempo. Ela só fazia questão de me acompanhar para onde quer que eu fosse, como algo inútil, mas que estava lá. E então agora depois de tempos ela estava aberta, libertando suas fotos e memórias vivas sobre minha cama.
Ao passar cada foto por meus dedos e escaneá-las com meus olhos, as sensações, que na época eram fortes, pareciam ser revividas. E algo dentro do meu peito se comprimia mais ao novamente senti-las.
Podia ouvir a risada gostosa de ao pé do meu ouvido, assim como os gritinhos de Zoe. Então a brisa do parque e o movimento das pessoas pareciam bem próximos, assim como a sensação de me sentir segura ao rir e abrir os braços para encontrar o garoto loiro a minha frente.
Só que era triste então cair em mim e deixar os sorrisos naquele papel, me levando a ver o lugar onde eu estava, que nem de longe parecia o Hyde, muito menos Londres. Assim o carpete claro do quarto me fazia cair de volta, e as malas ao meu lado me faziam observar a estante onde Maisie estava posta em frente, e de costas, onde se encontrava várias molduras já vazias, porém uma única completa, onde estava a garota, seu namorado, e eu.
A sensação de cair de volta à realidade, que em segundos as fotografias haviam me feito esquecer, era árdua e depressiva. Fazendo a dor comprimida em meu peito ser demonstrada em forma de água.
"We ran past strawberry fields and smelt the summer time,
When it gets dark I'll hold your body close to mine"
Em minha cabeça resquícios de várias cenas e vozes passeavam por meus pensamentos, sons e cenas tão reais mesmo há muito tempo acontecidas e ouvidas pessoalmente. Contudo um daqueles resquícios de vozes que circulavam por meio das cenas, que agora estavam mais refrescadas, se tornou tão real como em anos não havia acontecido. A voz de Tom agora parecia vir, acompanhada de um violão, do aparelho de som do cômodo. E, em meio aquilo tudo, ouvi-la tão nitidamente me trouxe um desespero aparente, fazendo meu coração, entorpecido pelas memórias, voltar a bater descontrolamente em meu peito.
Olhei para minha amiga, que estava sorridente com o controle do aparelho em mãos, e voltei-me para a caixa de fotos. Tão bagunçada, pelas inúmeras vezes que Maisie talvez pudesse ter-la derrubado ao chão sem perceber, quanto o que passava em minha cabeça.
Diversas imagens apareciam e se refletiam em minha frente, me deixando hipnotizada pelo piso do quarto. E, apesar de tudo, eu não conseguia olhar perfeitamente para o que eu imaginava. Tudo era sobrepostos, corrido e bagunçado. O passado se misturava com o presente, vozes se misturavam com pessoas, e imagens solitárias se entrelaçavam com cenas mudas. Não conseguia pensar em um só assunto, minha cabeça estava em um turbilhão e em momentos a voz de Tom parecia se destacar mais que tudo, cantando a tal música do lual, que só me fazia pensar em choro e abraços. No Worries não era um nome aconselhável.
Olhei para a caixa e levantei da cama que antes havia sentado, buscando repouso.
- ME DEIXA EM PAZ! – gritei ao mesmo tempo em que dei um violento tapa à caixa. E a vi se espatifar ao chão, jogando cada pertence, que guardava, para vários cantos do quarto. Inclusive fazendo minha amiga desligar o aparelho de som com o susto de me ver gritar e passar rápida, por meio aos papéis e fotos espalhados pelo chão, para fora do quarto.
Não sabia definir qual era o estado em que me encontrava, talvez fosse o de transe, onde o calmo já se misturava com o nervoso e anestesiava qualquer desconforto. Se alguém perguntasse como estava me sentindo, diria que indiferente. Não havia conseguido dormir, mas ter ou não horas decentes de sono não estava fazendo qualquer diferença ou alteração em meu comportamento. Estava quieta e sem vontade alguma de conversar. E agradecia que ao meu lado se encontrava um totalmente entorpecido por remédios e pelo som que saia alterado do seu iPod.
Ao outro lado, a pequena janela do avião mostrava resquícios de uma cidade encoberta por nuvens claras. Mas claras só na altitude que o avião se encontrava, pois os dias que antecediam o vôo o ar da cidade estava no seu mais escuro cinza, acompanhado da fumaça e pólvora de fogos de artifício do ano novo, que agora já estavam totalmente decepados pela garoa fina que resolvera cair.
Estava no meu caminho, aquele cujo eu conhecia cada detalhe como as costas de minha mão, onde paisagens familiares não me faltariam. E qualquer um poderia dizer que não existia melhor sensação do que voltar para onde tudo começou. Mas apesar de repetir para mim mesma que tudo não passaria do que eu já estava acostumada, eu estava com medo. Um sentimento que até se misturava com o desconhecido, como se eu estivesse prestes a ir para o meu primeiro dia de aula em um colégio onde fosse me sentir desajeitada. Era para casa onde eu estava indo, mas tudo que eu chamava agora de lar eu estava deixando para trás junto com um punhado de nuvens. Um único pedaço da vida, que me acompanhou por anos, estava na poltrona ao meu lado. E eu nem podia dividir com ela tudo que me angustiava e bagunçava meus pensamentos, me impedindo de defini-los com precisão.
Tinha medo do que poderia me esperar, como qualquer pessoa tem sobre o seu futuro. Eu já não tinha controle sobre nada, tudo não passava de incerteza e insegurança era o que eu mais sentia. Assim, necessitava me sentir segura de alguma forma, mas a única pessoa onde eu podia buscar segurança era unicamente comigo, e eu não era nem de longe um ser seguro. Meus pensamentos precisavam se ajeitar ou eu precisava parar de sentir medo de fechar os olhos e me deparar com o, que em tal momento, eu não conseguia impedir por muito tempo de pensar.
Sete horas me separavam de pisar outra vez ao lugar que nunca queria ter deixado para trás, mas que em anos eu não consegui pensar em voltar por vontade própria. Com isso era impossível eu me privar de pensar em tudo que eu havia passado por lá. Estava deixando o meu presente para trás e voltando para o meu passado, para desse modo construir o meu futuro. E essa combinação errada me deixava confusa e ao mesmo tempo nostálgica. Desejava algo novo, mas sentia falta do que há muito não me pertencia mais. E isso ocasionava em um sentimento vazio, pois presente e passado não podiam andar juntos sem causar algum efeito.
Eu chegava então à conclusão, que tudo que eu acabava por construir era feito para desmoronar. Mas com isso eu até já havia me acostumado, só estava nervosa pelo modo como a nova construção se ergueria.
- Como você se sente? – me perguntou com um sorriso ao rosto, quando ultrapassamos a porta do Gatwick e eu pude ver um pouco melhor a cidade onde me encontrava.
- Me sinto... - sorri, me aproximando do garoto e agarrando sua mão - Como se fosse minha primeira vez em Londres – tentei definir o que sentia, enquanto nos aproximávamos de um táxi. Mas eu nunca tinha sentido uma sensação parecida ao chegar a Londres, porque afinal eu não era e nunca fui turista, sempre morei naquele lugar. Tudo não passava do mesmo, do velho, do decorado. Não era grande emoção voltar para casa sempre que viajava.
- Então trate de se acostumar com as direções – ele aproximou-se do automóvel primeiro, puxando a porta do carro para mim – É sempre ao contrário, – e riu do meu momento distração, por procurar o puxador ao lado direito da porta.
Londres não estava com neve atolada em meio às calçadas, deixando tudo imundo e com o aspecto ainda mais frio, como estava em Nova Iorque. Somente estava frio, mas algo aturável, e com o céu em seu nublado favorito, deixando como sempre o clima melancólico de início de ano. Não muito diferente do meu humor, não que ele estivesse péssimo, eu até estava surpresa por não ter sentido meu coração disparar quando me acordou ao avião já aterrizado ao pátio do aeroporto. Estava neutra e até empolgada. Não podia esconder que meus olhos poderiam estar brilhando e minha cara de abobada aparecendo. Estava feliz.
- Estou ansiosa para conhecer a nossa casa – disse ao me acomodar ao banco do táxi.
- Então vamos lá – sorriu – Sussex Gardens, por favor – e falou ao motorista.
Eu havia ficado um bom tempo sem sair dos Estados Unidos que até esquecera do funcionamento da Inglaterra. Estava já tão acostumada aos padrões americanos, dos tamanhos maiores e exagerados ao aspecto mais prático e acomodado, que ao ver no lugar das extensas avenidas movimentadas de carros família e frotas de táxis amarelos, as vielas apertadas e engarrafadas da cosmopolita Londres, com seus táxis tradicionais e construções rústicas, se chocando com pessoas de vários etnias e estilos, ao lado de construções modernas, me maravilhava. Percebia que Londres nunca havia de modo se afastado, eu pertencia àquela cidade, que até mesmo construções e estabelecimentos que eu não conhecia tornavam-se de perto familiares aos meus olhos de quem, agora, parecia ver tudo como um turista.
- Fica próximo ao Hyde! – comentei ao enxergar o Marble Arch à janela de – Sempre quis morar em South Kensington – sorri, surpresa ao ainda me lembrar da geografia do lugar, quando já nos aproximávamos da rua que o garoto indicara ao motorista.
O veículo dobrou à Edgware Road e seguiu até virar na quarta rua que a cruzava ao lado esquerdo. Sussex era uma avenida arborizada e nem tão movimentada. Ficava próxima a extensão de mais famosos parques londrinos e possuía uma larga extensão de sobrados idênticos.
- Pode parar em frente ao número 12 – disse ao motorista que já estava em marcha lenta.
Então quando o automóvel parou em frente ao sobrado que indicara, eu não aguardei meu namorado acertar o preço nada barato, do Gatwick até South Kensington, e desci para observar melhor o lugar onde eu moraria. Talvez para sempre.
Desde criança eu me encantava por ambientes, e foi um dos motivos fortes para cursar arquitetura, mas eu nunca me mudei enquanto morava em Londres. Sempre havia residido ao mesmo lugar, desde a barriga de minha mãe, e sempre tive o mesmo quarto, a mesma sala, o mesmo quintal, os mesmos vizinhos e cozinha. Até, claro, me mudar para os EUA e conseguir três casas diferentes.
- É lindo! – disse, ao perceber que já havia pagado o taxista e estava se aproximando.
- Quer conhecer por dentro então? – passou por mim, rodando a chave da casa em seu dedo indicador.
A construção possuía tijolos em um tom avermelhado, puxando para o marrom, e nas duas colunas, que sustentavam um pequeno telhadinho sobre a soleira, havia trepadeiras unha-de-gato agarradas aos tijolos, formando uma parede verde até certo ponto da construção onde havia duas janelas retangulares e amplas, pintadas de branco.
- Preparada? – o garoto perguntou, arregalando os olhos em uma careta divertida, quando girou a chave ao miolo da porta e segurou a maçaneta.
- Pára com isso, – ajeitei a mochila que carregava ao ombro e empurrei eu mesma a porta preta da casa, deixando-me ver de primeira o chão de tábuas cor caramelo e as paredes em tom de branco. Absurdamente comuns, mas satisfatórias ao meu primeiro olhar deslumbrado.
Tudo parecia ter ficado algum tempo parado, mas apesar da aparência sem uso a casa não cheirava a mofo ou continha pó. Cheirava a plástico, papelão e tinta fresca, como qualquer casa em estado de mudança aparentava. Havia móveis, muitos até para o que eu imaginei, mas assim como as paredes, estantes e mesas se encontravam vazios. E era estranho para o meu gosto, que adorava fotografia e mil e um cacarecos de decoração, como almofadas e luminárias, espalhados por todos os cômodos.
Adentrei ainda mais à casa, percebendo fechar a porta principal, e olhei para a primeira e única porta à direita da casa, onde ficava a cozinha. Notei um balcão localizado ao meio do cômodo, rodeado de banquetas com o foro xadrez, e lotado de pequenas caixas fechadas de papelão, onde estava escrito “eletrodomésticos” então julguei que a mãe de havia cuidado de tudo sozinha. As paredes não fugiam de cores claras, amarelas, cobertas até a metade com pequenos azulejos quadrados em tom de branco. Os armários, como os móveis da sala, estavam com as portas abertas e vazios. A comida não fazia parte da decoração.
- O que você está lendo? – olhei para , atento a um papel, quando passei para a sala de estar, já notando a enorme, pilha, fila, carreira, seja o que denominar o plural de muitas caixas de papelão, e sem dúvidas o lindo sofá na cor vermelha posicionado ao meio da sala, de frente para um extenso e baixo balcão na cor branca, com mais algumas caixas e objetos de decoração, que eu conheci como os que eu havia comprado e tinha em NI, postos de qualquer modo por cima.
Escutei meu namorado pigarrear e movi minha atenção da escada ao canto da sala, virando-me para ele.
- “, eu espero que você e a sua namorada tenham chegado bem de viagem. Desculpe-me por não estar aí esperando por vocês e também por não ter posto tudo em seu devido lugar, mas alguns compromissos mudaram meus planos e eu também não acho que vocês gostariam que eu mexesse nos pertences de vocês. Só recebi as bagagens e caixas hoje pela manhã, muita coisa por sinal, e pedi para os rapazes da mudança colocarem a maioria na sala. As malas e o seu tesouro estão no andar de cima. Então acho que vocês terão que desencaixotar e arrumar muita coisa. Instale os eletrodomésticos, ! E não se preocupe com a limpeza, luz, gás, telefone ou água, porque eu e o seu pai já tratamos de tudo isso – o garoto parou de debochar da suposta voz que sua mãe faria ao lhe falar aquilo pessoalmente e respirou, olhando para o papel e rindo, talvez pensando se continuaria a ler o resto do bilhete – “Lembre-se que o andar de cima ainda está cheirando à tinta fresca, então não durma lá, querido. Aproveite a casa nova e venha me visitar, seu ingrato. Amor, mamãe” – dobrou o papel e me olhou.
- “Amor, mamãe” – debochei, me aproximando do garoto, que estava vindo em minha direção, e apertei suas bochechas, ao mesmo tempo em que ele me segurou pela cintura, me trazendo para perto.
- E você quer conhecer o andar de cima? – ele mudou rápido de assunto.
- Só se você me disser o que é “tesouro” – perguntei, conforme já ia me conduzindo até a escada.
- Você namora comigo há dois anos e não sabe o que é o tesouro? – então me soltou, se afastando quando chegamos próximos ao corrimão – Quem te abduziu? – perguntou, fingindo espanto.
- Ah claro! – parecia me concentrar e lembrar sob pressão que já estava acostumada a ouvir sobre o tal tesouro em questão - Seu instrumento, tesouro, ... – revirei os olhos, empurrando o garoto para que subisse e não continuasse a me impedir de fazer tal ato.
- Chloe! – adicionou.
- Que seja, . Suba! – falei.
Ele tinha mania de denominar qualquer coisa que possuísse, e com o seu instrumento não era diferente. Se chamava Chloe e havia ganho nome de mulher porque, de acordo com o seu complexo, ele se recusava a tocar em um homem e “” era um nome comum demais.
- , você pediu para pintar a parede de lilás? – perguntei ao empurrar uma, das três portas que havia ao andar de cima. E tinha me deparado com o maior cômodo, meu quarto e o do garoto, com uma parede no tom mais escuro da casa, lilás.
- Sabe, quando se tem uma namorada que no seu apartamento possuía uma geladeira, um sofá e a decoração do banheiro em tons de roxo, a gente desconfia que ela adoraria que algo em sua casa nova fosse em um tom de roxo. Então pensei, na sala seria estranho demais para a minha mãe concordar. Por que não no quarto? – disse, observando todo o lugar. – Ficou bom, não?
O quarto estaria vazio, se não fosse por mais caixas, malas e pela cama sem lençol algum posicionada ao meio de duas janelas retangulares que tratavam da iluminação interna, junto de outra próxima ao closet, que
possuía um sofá embutido abaixo do parapeito.
- Eu adorei – falei, dando uma volta ao garoto e voltando para a porta que antes havia entrado - Mas ainda está cheirando como pintura fresca – parei ao corredor para escolher se olharia por trás da porta que se localizava as minhas costas ou se olharia a que estava bem em frente. – O que tem ali? – mesmo assim segui sem esperar por respostas até a porta de madeira branca logo a frente.
- Acho que foi por isso que a minha mãe nos mandou dormir na sala – disse, me seguindo até, o que eu havia descoberto, o banheiro.
- Então já deve saber que vai ser você o escolhido para despencar o colchão até o andar de baixo – disse, ao sentar a borda da banheira.
- Eu suspeitei que eu viraria o seu escravo antes mesmo de deixarmos NI – falou-me, indo até a janela do banheiro que estava fechada.
- Gostei da banheira também – comentei, passando a mão pela borda branca.
- Que casa em Londres não tem uma banheira? – disse meio óbvio.
- A minha em Nova Iorque não tinha – falei.
- E eu disse em Londres, – e empurrou a janela para trás, a deixando aberta – Mas também, quem se importa com banheiras? Eu odeio particularmente. Você leva tempo as enchendo com água quente e quando pretende entrar a água já esfriou – filosofou.
- Mas quem disse que eu gosto por esse sentindo, ? – olhei para o garoto e sorri.
- Ah, compreendi – falou em tom de riso, assim largando a janela para trás.
- Então, será que você não estaria interessado em passar no meu banheiro essa noite e, sei lá, tomar um banho? – ergui minha sobrancelha ao final da frase, me ajeitando a borda da banheira, dando espaço para o garoto, que estava se aproximando devagar.
- Se você quiser... – depositou suas mãos, uma em cada lado de meu corpo, cercando-me – Eu posso até vir mais cedo – sorriu, quando eu o segurei pela gola da camisa.
- Que tal agora, ? – o puxei com tamanho impulso que desajeitadamente o fez
resvalar as mãos pela porcelana da banheira e cair sobre mim.
e eu não tínhamos feito nada de útil naquela tarde e noite. Bom, de útil para casa, porque para nós o dia havia sido bem útil. Tinha esquecido como era bom ter um pouco de privacidade. Não que eu nunca tivesse, até tinha. Mas ter uma casa onde você sabe que não vai entrar um amigo seu a qualquer momento e te pegar numa cena imprópria para menores de treze anos, não é o mesmo que ter a tranqüilidade de saber que é só você e aquela outra pessoa. Sem terceiros.
Agora eu estava deitada somente de roupão, o que tinha conseguido achar e tirar da mala, ao lado de , que dormia em sono profundo, pela segunda vez ao dia, ao colchão. Como minha sogra tinha mandado na carta, estávamos ao meio da sala de estar. A noite ao lado de fora estava estrelada, apesar do frio que fazia, indicando que no dia seguinte pelo menos
teríamos a presença do azul, e quem sabe do sol para esquentar, ao céu. Mas ao lado de dentro com a ajuda da calefação
novíssima, dos edredons que a mãe de havia feito questão de comprar, e junto da televisão, ligada sem volume algum, estava me sentindo confortável. estava completamente apagado ao meu colo, talvez efeito dos remédios que havia tomado ainda no avião ou somente pela agitação de logo cedo. Já eu não estava cansada, muito menos necessitando dormir. Apesar de ter tido insônia na noite passada, não era sono o que eu sentia. Só queria ficar parada, em silêncio, tentando manter-me
entretida com os cabelos do garoto, que nem ao menos notava, curtindo o efeito de nostalgia que caia sobre mim. Era um sentimento gostoso junto com uma vontade vibrante de começar a viver logo uma nova etapa. Mas mesmo sentindo tal coisa, também estava presente a incerteza de logo cedo ao avião.
Parte de mim estava presa aos pensamentos da nova vida, com e o que morar junto resultaria. Já outra pensava somente no meu passado e se ele poderia mesmo interferir em algo. Então, por hora, a fumaça ficou clara, como a
transmissão da televisão, e as coisas começaram a se alinhar em minha cabeça. Assim interrompi o movimento repetitivo, que fazia com os cabelos de meu namorado, e encarei a parede a minha frente, hipnotizada. Antes, as imagens e pensamentos, que estavam se amontoando em minha cabeça cada noite que deitava ao travesseiro, ficaram em perfeita ordem e acabaram por me mostrar uma conclusão gritante.
Os sentimentos que pensava terem ressurgido há mais ou menos um mês atrás, quando me falou sobre a viagem, não eram de forma alguma novos. Tudo aquilo nunca havia me deixado ou até mesmo estado todo o tempo escondido.
Levantei dali, visando somente me afastar de , e segui até a cozinha. Só resolvendo parar quando cheguei a frente da janela, que dava para a lateral da casa vizinha.
Havia juntado todos os fatos e agora sim eu estava com um medo real, medo do que a minha mente era capaz de produzir e me fazer acreditar.
As semanas que se passaram, após ter me feito a surpresa, eu seguia até a cama e quase nunca conseguia dormir instantaneamente. Algo sempre vinha em minha mente e afastava o sono. Coisas que me plantavam incerteza, sentimentos que eu pensava terem ressurgido, coisas que eu pensei que nunca mais sentiria ou pensaria. Mas agora eu entendia que eu não havia voltado a pensar neles. Eu nunca era havia deixado eles! Todas as noites passadas voltaram a minha cabeça e no meu subconsciente eu percebi que mesmo com todo o tempo que transcorreu, tudo que eu vivi e assisti não tinham me feito evoluir como pensava.
Eu estava ali, acordada em meio à madrugada, à cozinha da minha nova casa, com meu namorado dormindo à sala e somente com pensamentos que me levavam diretamente a uma pessoa. Eu estava indecisa,
parecendo deixar todas as luzes acessas ao meu caminho, visando impedir de começar a sentir novamente, com medo de perceber, que todo aquele tempo, sempre foi a mesma coisa. Eu nunca havia deixado de pensar, ou até mesmo o que eu temia e negava, amar ele, Tom.
Capítulo 03
- Prontinho - depositei uma caixa quadrada, e menor, dentro de outra maior, que batia a altura de minha cintura – As últimas da espécie - e sorri para o papelão, como se ele pudesse me corresponder.
Ali restavam os últimos vestígios, visíveis, de uma mudança, cujo eu estava em constante convivência, e briga, por cerca de duas semanas.
Exatos quatorze dias, desde a minha chegada, que tentava me acostumar, sem muito avanço, a nova realidade.
Para o meu gosto a casa em que estava morando era estranha, assim como viver ali estava me tornando estranha. Claro, não que eu não fosse, um pouco, de nascença ou que a casa fosse mal decorada, localizada ou velha. Pelo contrário, era um lugar limpo, aconchegante e até adorável. Mas o problema era que eu não sentia mais um quinto daquela suposta empolgação que tomara conta do meu corpo assim que deixei o aeroporto. Na verdade, eu podia jurar que havia perdido tal confiança pelo caminho, pois não conseguia idealizar e acreditar que agora aquele lugar era o meu mais novo lar.
Mudar de Daytona para Miami ou da Flórida para Nova Iorque não havia sido, nem de perto, passos tão radicais. Mas, agora, depois de anos destrocar de país, ou melhor, de continente, novamente, era um enorme. E eu já podia dizer que odiava mudanças radicais! Contudo essa situação cujo me encontrava não podia ser denominada péssima, pois afinal eu havia retornado para o caminho qual eu sempre desejei. O fato era, que ter vivido por anos longe de coisas aparentemente familiares, fizeram os hábitos e pessoas do novo lugar, que me acolhera tão bem, se tornar de estranhos, normais. Então me afastar daquelas pessoas, que por tempos tive como únicos conhecidos, de toda aquela atmosfera americana, que já podia denominar caseira, e agora ter que retornar à Inglaterra, às regras, as quais eu já não estava mais acostumada a seguir, era no mínimo complicado. Sentia-me deslocada na própria cidade que tanto dizia amar e que era o meu lar desde a simples "vida" de um espermatozóide frágil, porém vencedor. E para piorar a situação, que o meu lado dramático fazia automaticamente não se tornar uma das melhores, eu não possuía ninguém para usar como ouvinte fiel das minhas novas lamúrias. E só assim eu podia notar o quanto Maisie fazia falta e o quanto realmente a ausência de Zoe sempre havia sido insuportável. Já não conseguia acreditar na idéia que meu namorado sempre poderia ser o meu maior e mais próximo confidente.
Com coisas a serem ditadas entaladas a minha garganta e uma vontade reprimida de querer fazer acontecer, mesmo não sabendo o quê, eu foquei todas as minhas energias em organizar minha mais nova casa. E agora, depois de semanas acordando cedo, mandando comprar latas de tinta (a cor das paredes da sala haviam rebatido com o meu perfeccionismo irritante) e testar vários objetos e móveis em posições diferentes, eu havia acabado. Agora sim eu teria que procurar outra atividade, menos anti-social e tediosa, como sair de casa, ou de fato mais importante, como ir trabalhar. E essa última atividade, por sinal, eu já estava querendo pôr em prática há alguns dias.
George, que havia me tranqüilizado sobre ter um emprego em Londres, não havia me telefonado para explicar sobre os detalhes - eu adorava ouvi-los inúmeras vezes, fazia-me sentir segura -, e muito menos Bethan, sua prima, que era a responsável por tudo. Com isso eu já estava começando a ficar, aos poucos, preocupada. Tanto com a hipótese de realmente ser um emprego seguro, como assuntos a ver com orçamento da casa. Porém eu estava tentando deixar os classificados para mais tarde e ainda me manter confiante, pelo menos, quanto a ligação de Bethan. Porque já com a minha preocupação tomava um rumo, ou não, diferente. Ela direcionava-se para a tão famosa e incomodativa audição da banda, que se realizaria no dia seguinte, e se ele iria ou não ter um bom resultado nela. Era somente isso que realmente importava, a chance do meu namorado e o meu emprego. Oportunidades que necessitávamos para talvez fazer tudo voltar para os eixos que sempre haviam corrido, e assim mostrar, que a vida ali em Londres poderia sim ser muito melhor da que levávamos nos Estados Unidos.
Admirei por simples segundos o trabalho que havia me encarregado de fazer para passar o tempo naquela manhã, sem surpresa, com nada para fazer a não ser achar bagunça aonde não havia. Estava ficando mais detalhista impossível, era certeza. Todavia ser perfeccionista tinha suas vantagens, pois tudo que eu inventava de fazer, sempre colocava o meu melhor. E com aquele passatempo logo ali construído em um pedaço da parede da sala, inutilizado exceto por uma luminária posta ao canto e usada como encosto do móvel onde ficava a televisão, não havia ficado diferente. Talvez fosse pelo misto das cores que ali estavam esboçadas ou a incrível prática das pessoas que teriam batido aquelas dezenas de fotos, agora fixadas na parede de cor vermelha, mas estava uniforme. Havia me divertido em ocupar-me com algo que ao mesmo tempo fosse útil - a vida que eu havia construído desde que havia saído da Inglaterra - e tinha recebido, em troca de horas olhando fotos que remetiam a momentos engraçados e saudosos, - a maioria de todos os sorrisos, risos e carinhos trocados com - um lindo toque final na sala de estar, que serviria dali em diante para mostrar no que eu realmente teria que me focalizar.
Pois agora sim as paredes estavam da cor que eu havia escolhido e os móveis nas posições que me agradavam, e isso fazia parte do desânimo aparente, que eu sentia todos os dias de manhã ao levantar da cama, ir embora.
- Agora vamos tentar fazer disso um lar doce lar - retirei minha atenção do mediano mural e escorreguei meu dedo até o botão de ligar, do aparelho de som.
Ao ouvir os primeiros barulhos saírem de suas caixas, dei pequenos passos, ainda de costas, para trás. Até cair sobre uma das poltronas posicionadas de lado para o balcão, sabendo que agora eu poderia terminar de escutar a trilha sonora de Across the Universe, que havia comprado antes do natal, ao ver o filme na casa do namorado de Maisie. Podia dizer que havia gostado do filme pelo ator, afinal Jim Sturgess é lindo, mas o modo como as canções dos Beatles haviam sido interpretadas me agradaram e ter comprado era também um alívio para , que detestava, que até mesmo eu, mexesse em seus preciosos CDs.
"Words are flowing out like endless rain into a paper cup,
(Palavras flutuam como uma chuva sem fim dentro de um copo de papel).
They slither while they pass they slip away across the universe"
(Elas se mexem selvagemente enquanto deslizam pelo universo).
Ajeitei-me a poltrona, posicionada de uma maneira ainda sim desajeitada, deixando minhas pernas dobrarem sobre o apoio das mãos e meu corpo cair sobre o encosto, assim apoiando minha cabeça e observando de modo hipnotizada e orgulhosa para as fotos à minha frente. Minha cabeça poderia estar vazia e eu somente olhando concentrada a parede, mas minha imaginação estava como sempre a todo o vapor.
"Pools of sorrow, waves of joy are drifting through my opened mind,
(Um monte de mágoas, um punhado de alegrias estão passando por minha mente).
Possessing and caressing me"
(Me possuindo e acariciando).
Pisquei então, erguendo minha cabeça do estofado e agora deixando que a música penetrasse em meus ouvidos, não somente passasse sem eu absorver sua letra. Adorava letras de música e por mais que eu conhece aquela, sempre, de algum modo, músicas ganham ou perdem significados ao longo do tempo.
"Nothing's gonna change my word,
Nothing's gonna change my word"
(Nada vai mudar meu mundo).
Na verdade o problema não era somente um desconforto aparente com aquela casa e nem podia culpar unicamente a falta que estava sentindo da minha rotina e tudo que havia sido acostumada a gostar e a deixar para trás por lá. Eu nem sabia, não havia conseguido definir exatamente o porquê de eu estar sentindo tamanha inquietação. Talvez fosse pela incerteza sobre o que o dia seguinte me reservava ou apenas uma preocupação em deixar aquela casa habitável. Mas apenas tinha certeza que não era unicamente aquilo que parecia me sufocar de angústia.
"Images of broken light which dance before me like a million eyes,
(Imagens de luzes quebradas que dançam na minha frente como milhões de olhos)
They call me on and on across the universe.
(Eles me chamam para ir pelo universo).
Thoughts meander like a restless wind inside a letter box,
(Pensamentos se movem como um vento incansável dentro de uma caixa de correio).
They tumble blindly as they make their way across the universe"
(Elas tropeçam cegamente enquanto fazem seu caminho pelo universo).
Muitas vezes na adolescência eu buscava na música uma escapatória, uma maneira de sair do lugar onde eu estava sem ao menos deixar o meu quarto. Lembro até que simples letras, de cantores que nunca tinha visto ou trocado uma idéia, conseguiam me detalhar e mostrar assim como eu me sentia.
Então, empurrada pela melodia calmante daquela música, me curvei para frente, disposta, naquele momento, a refletir e a querer chegar a um motivo para a minha agitação interior.
Meus pensamentos estavam ultimamente voando incansáveis dentro de minha cabeça, que até podia ser denominada como uma caixa de correio, como na música. Há semanas não estava deixando tais "cartas" pousarem com clareza e me mostrarem, por mais de simples segundos, o que eu ficava pensando quando estava no banho ou no período, que vai do deitar até ao adormecer, na cama.
Minha mente trabalhava sem parar, reproduzindo memórias e tentando refleti-las, através dos meus olhos, quando permanecia parada. Mas eu às tratava como problemas e não deixava que muitos daqueles pensamentos terminassem, assim não podendo me levar a concluir quem ou o que estava por meio de tudo que eu pensava.
Contudo, agora, eu estava deixando as coisas se ajeitarem e enfim terem a chance de mostrar o que se passava pela minha imaginação fértil de vinte e dois anos.
"Sounds of laughter, shades of love are ringing through my opened ears,
(Sons de risos, sombras de amor estão tocando meus ouvidos abertos).
Inciting and inviting me"
(Me excitando e convidando).
Mas era óbvio que eu não tinha força o suficiente para admitir a mim mesma sobre o que eu pensava. Por mais que eu tivesse idéia sobre o que elas tratavam, afinal era eu mesma que dava vida a tudo. Era muito melhor eu tentar evitar ao máximo e não exercitá-la para correr livre. Na realidade eu tinha medo de concluir para eu mesma (mais uma vez).
Assim impulsionei-me com força para frente, tocando meus pés ao chão.
"Limitless undying love, which shines around me like a million suns,
(Um amor incondicional sem limites que brilha em minha volta como milhões de sóis).
And calls me on and on across the universe"
(E me chamam para ir pelo universo).
- Nada vai mudar o meu mundo - falei, o provável verso que seguiria a seguir, ao apertar com pressa o botão do aparelho, impedindo a música de chegar até seus minutos finais. Era incrível como certas canções passavam do limite, nos impulsionando a fazer coisas que não faríamos sem a melodia embalante. Às vezes eu não conseguia entender como do nada a letra mostrava o que eu estava pensando, passando ou querendo entender.
Olhei de perto a imagem que antes focava com minha visão turva, de quem se concentra em um ponto e até esquece de piscar, e vi , sorrindo do modo que eu dizia amar, e ainda amo, comigo segurando forte ao seu braço, que me rodeava. Nossos rostos estavam próximos e parecia ser inverno, bochechas e narizes rosados, pois o cachecol do garoto na fotografia entregava.
Eu realmente esperava que nada pudesse mudar o meu mundo. Ele podia ser denominado perfeito, do jeito que eu havia demorado em erguê-lo de volta, e nada e nem ninguém podia fazê-lo bagunçar ou atrever-se a destruí-lo. Algumas coisas na minha trajetória podiam ser feitas para caírem, mas com aquilo eu estava relutante. Mesmo que nem tudo estivesse, infelizmente, às mil maravilhas como deveria estar para dizer: perfeito.
Não querendo refletir sobre como tudo estava, ficaria ou o que eu pensava e estava pensando, agarrei com força as caixas de papelão, que havia largado antes por ali, e as arrastei pela pequena extensão que me afastava da porta principal, decidida que assim como as jogaria no lixo, depositaria junto aquele momento forçado, para ver a causa do meu desânimo, embalado por Across the Universe.
O CD não teria mais a faixa número nove por um bom tempo.
Deixei a porta se fechar atrás de mim, quando desci calmamente, batendo a base das caixas na pedra, os três degraus que separavam a calçada. A rua tinha um aspecto limpo e calmo, um tipo delator de rua familiar. Poucos carros estavam parados em toda a sua extensão e somente um lixo se destacava tanto quanto aquele de altura considerável e cor laranja berrante posto ao lado do poste de luz, quase a frente da porta do sobrado onde morava.
- Mais duas caixas para você, trambolho - falei ao me aproximar de sua tampa. Eu havia adquiro o estranho hábito, que agora estava constante, de falar com objetos inanimados. Um sintoma da aparente solidão no período da manhã. – Hm, mas vejo que você tem lixo demais - disse ao perceber que eu deveria ter-lhe entupido de restos da mudança a semana inteira ou algum vizinho, que ainda não conhecia, estava me ajudando a utilizá-lo.
Deixei as caixas ao lado do trambolho laranja, crente que logo à noite não estariam mais ali, e segui para as escadinhas.
Mas desisti de subi-las, antes mesmo de alcançá-las, e sentei-me sobre a pedra fria do segundo degrau, observando melhor a extensão da Sussex Gardens. Não havia saído muito durante aqueles dias e por isso ainda não tinha me acostumado novamente a conviver com outras pessoas que não fossem e o carteiro. E por falar nisso, não haviam cartas na caixa, mas havia um mediano caminhão estacionado frente a três sobrados do meu. Tamanha coisa branca que eu não havia percebido antes estacionada por ali, mas o que tudo indicava pelas palavras, escritas em vermelho, era de uma empresa de mudanças.
Tudo indicava que eu ganharia companheiros para bagunçar o bairro com caixas de papelão postas sobre a calçada, atrapalhando pedestres e tirando o sossego de quem gostava de ver tudo em perfeita ordem.
E por falar em companhia para algo, voltava-me a lembrar que estava praticamente sozinha naquela cidade. E não importava o fato de estar ali comigo, eu me sentia sozinha mesmo assim. Ele podia ser uma pessoa maravilhosa, mas nem por isso eu conseguia me enxergar a sua frente, lhe contando sobre o meu antigo namorado e como ele parecia estar pintando os meus sonhos e desenhando os meus pensamentos diários. com certeza, como qualquer outro, não iria receber a notícia de uma forma agradável, mesmo eu lhe avisando, antes de tudo, que pensamentos ou memórias não interfeririam em nosso relacionamento. Afinal eu estava só relembrando e isso não tinha nada demais, porque eu, ainda, não estava no ponto de pensar consecutivamente e assim querer que tudo virasse novamente realidade. Queria mais era que tudo explodisse, pois eu não gostava de sustentar dúvidas. Mesmo que sustentá-las pareça ser uma espécie de
carma.
Por isso eu estava tentando controlar tudo ao máximo, não porque queria, mas por estar com medo. Medo de focar tanto em memórias passadas, que não remetiam meus tempos de Estados Unidos, e acabar assim ofuscando em minha vida. E em hipótese nenhuma eu queria me prender a uma pessoa do passado, que nem se quer sentia algo ou lembrava de mim, e esquecer a única ali, que agora se importava realmente comigo.
Acho que mais do que tudo eu me via precisando de um ombro amigo, uma pessoa a qual eu pudesse contar e falar sobre as minhas angústias. Mas Maisie parecia intocável agora, assim como minha mãe, e Zoe não me dava notícias sobre como ela andava, desde que havia lhe enviado uma carta com meu endereço de Nova Iorque. Ela não sabia dos meus novos segredos e vida e eu não sabia de seus novos feitos e loucuras. Só sentia saudade de ouvir seus gritos histéricos, enquanto ela parecia ter esquecido dos meus traços, como sempre brincou.
E já por outro lado, eu precisava ser paparicada e me sentir o centro das atenções para o meu namorado. Mas, assim como meus ombros amigos, ele parecia distante. Havia se tornado, de uma semana pra cá, obcecado pela Chloe, a porcaria de , e passava as horas que estava em casa - era difícil agora lhe ver trocar a rua - trancado no quarto, particular do seu tesouro, treinando para o teste.
A grande conclusão era que eu estava me sentindo angustiada, precisava de uma amiga, com quem pudesse desabafar e receber conselhos tolos, precisava de e do seu carinho e talvez precisasse também de um colo de mãe. Mas todos os meus pedidos, naquele momento, pareciam um pouco distantes. Minha mãe estava longe, não via a possibilidade de achar uma amiga com quem realmente pudesse contar por ali, estava estressado com a audição e minha angustia não iria desaparecer se a cada coisa que eu olhava, só fazia me encher de memórias.
Era óbvio que eu precisava de algo que me relaxasse e me fizesse dar boas risadas. E se fosse anos atrás, iria à lanchonete aonde trabalhava. Mas veja agora, não havia mais à lanchonete, não havia mais uma mãe me esperando em casa, não havia mais uma melhor amiga vizinha do meu namorado. Tudo que eu mais gostei um dia, não existia mais ou se existia, não se lembrava de mim.
Arranquei um raminho da planta, que crescia grudada a parede de tijolos da casa, e continuei observando a rua. Tive de repente saudades do velho Chewie, o meu gato, que havia ficado em Daytona Beach junto com minha avó há alguns anos.
- Droga, . Chewie lembra Chewbacca e por conseqüência lembra... - paralisei e então revirei os olhos, balançando de leve a cabeça - Ok, pense em outra coisa - ordenei ao meu cérebro.
Então me concentrei a observar o outro lado da rua, onde agora à calçada do sobrado o caminhão estava parado com suas portas abertas. Alguns homens, vestindo uniformes da cor cinza, depositavam caixas de ferramenta em seu compartimento, enquanto outro estava parado à porta com uma moça.
- A senhorita pode ligar se surgir mais algum móvel para ser montado - ouvi o homem de bigode grisalho falar num tom nem tão discreto, referindo-se a mulher, de cabelos castanhos levemente ondulados nas pontas, enquanto eles se afastavam da porta e desciam até a calçada.
A vi, hipnotizada, pegar uma prancheta, logo perto do caminhão, e rabiscar qualquer coisa rápida ao papel, entregando de volta junto com um sorriso. Parecia que a mudança estava completa.
O senhor se afastou prontamente, assim como o seu caminhão vermelho e branco, da soleira de minha mais nova vizinha, que agora estava admirando a fachada de sua casa. Igualmente como eu havia protagonizado dias atrás.
Senti então meu coração acelerar aos poucos os seus batimentos, conforme a garota movimentava-se a calçada. Eu poderia estar muito bem enganada, afinal sete anos mudam incrivelmente uma pessoa, mas eu não podia me confundir com aquele jeito de prender o cabelo e o soltar em segundos.
Logo os batimentos do meu coração já estavam no máximo e aquele palpitar me impossibilitava de assistir mais uma seqüência de movimentos sentada ainda à pedra da minha escada.
Ergui-me animada. Eu tinha certeza!
- Zoe? - gritei, por dentro ainda incerta, mas tentando demonstrar confiança. Porém não atravessei logo a rua como meu cérebro tentava mandar estímulos para se fazer - Zoe! - repeti ao ver a garota interromper o que fazia e virar para procurar quem lhe chamava. Ou se não fosse a tal, estava virando para ver quem gritava, quebrando o silêncio da rua.
Ela pôs os olhos em cima de mim e os cerrou bem, como se estivesse fazendo força para ver ou me reconhecer. E eu me manti ao outro lado da rua duvidosa. Até ver a sua expressão mudar para um ar de riso.
A garota moveu sua mão, até então parada ao lado de seu corpo, e a posicionou sobre seu peito, o pressionando, indicando que perguntava se eu realmente chamava por ela. Assim, aquele foi o último sinal que precisava. Olhei para os lados, errados, da rua e atravessei eufórica. Não sabia o que falaria, mas sabia exatamente o que iria fazer.
Observei as costas de minha amiga, logo mais adiante, e apertei com mais força as alças de ambas as canecas, que segurava em mãos. Agora já podia dizer que conhecia, com mais clareza, a sensação idiota de se sentir extremamente feliz com somente um abraço amigo ou o prazer de apenas respirar um cheiro familiar. O seu nome era reencontro, e podia dizer que era a melhor e mais verdadeira das sensações. E eu apenas não poderia explicá-la em palavras naquele exato momento, porque talvez fossem muito além de simples frases.
Estava extasiada em poder sentir tamanha euforia e conforto correndo livremente por meu corpo. Só Deus sabia como eu havia desejado aquele momento. Mas de forma alguma o idealizado com tamanho sentimento, como havia ocorrido ao sentir minha amiga tão próxima outra vez. Por incrível que pudesse parecer, sentir somente a força do seu abraço já havia feito surgir muito mais que algumas lágrimas aos meus olhos, em simples milésimos eu pude descrever inúmeras cenas e sensações presenciadas em todos os anos que convivemos, por cartas ou não.
Indiferente do que tinha passado eu a tinha ali agora. E por isso estava assim.
- Meu Deus, eu acho que já sei cozinhar - brinquei ao me aproximar do sofá e tirar a atenção da garota, que observava a parede logo à frente desde que eu a havia deixado para ir até a cozinha.
- Parabéns, eu acho que ainda nem sei ferver água direito - disse, ao pegar a caneca que eu lhe empurrava.
Próxima do meu olhar crítico, Zoe não havia mudado quase nada. Os seus traços continuavam ali, delimitados do mesmo modo, exceto que sua altura não era mais a mesma, ela havia crescido, e seus cabelos acompanhavam a idade que agora possuía, não mais loiros e curtos, estavam mais escuros e compridos.
- Primeiro eu acho que devo me desculpar pelas cartas que deixei de escrever nos últimos dois anos - falou assim que sentamos - Eu juro que cheguei a receber a sua última, com o seu novo endereço, mas eu mal tive tempo de escrever logo em seguida. E quando eu resolvi fazer, simplesmente havia perdido o papel de vista. Sim, você pode me chamar de desorganizada, mas a culpa em questão foi da empregada. Minha casa na França estava e ficou por meses uma bagunça, nunca consegui encontrar nenhum contado. Pode me chamar de alienada também, esqueci até seus e-mails - ela riu, me olhando ao final, e levou sua caneca até a boca.
Não via motivo para ficar zangada e muito menos para contar sobre incidentes que agora já não importavam mais.
- Eu senti tanto a sua falta, uma enorme falta de tudo que eu deixei – falei ao encarar cada movimento de minha amiga. Por mais que estivesse acontecendo, em partes parecia surreal demais - Cheguei até a pensar que não conseguiria, lembro até que ficava enciumada com simples cartas. Mas a vontade de retornar só permaneceu até eu me acostumar inteiramente com a nova vida. Então as cartas diminuíram e eu perdi o sentimento possessivo quanto a você e Tom - sorri, ao vê-la rir - E depois do que ele acabou fazendo, todas as minhas, já remotas, chances de voltar trataram de se afastar de vez. Forçadas, claro, acompanhadas da certeza que agora eu não teria mais nada por aqui.
- De alguma forma as coisas nunca mais foram as mesmas sem você – a garota se pronunciou, quando eu de repente parei de refletir - Nunca mais Tom, e eu conseguimos sair com tanta freqüência, como era antes. Tudo parecia ter perdido a graça, não era como se nos divertíssemos quando estávamos juntos. Era triste, entende? - e encarou o fundo da caneca, como se fosse algo interessante, antes de depositá-la à mesa de centro - Como eu devo ter te contado por cartas, depois de alguns meses eu me tornei obsessiva pelos estudos e deixei aos poucos de falar com o Tom, mesmo morando ao seu lado. Com o eu ainda mantinha algum contato porque até aquela época ainda éramos namorados. Mas claro, nada como antes. Tanto que depois, na mesma época que eu consegui entrar para Holloway, Tom resolveu ir para a escola de teatro e enfiou na cabeça que a única saída era viajar - falou resumidamente.
Como eu ainda me lembrava, das cartas escritas por Zoe, sua relação com havia enfraquecido de uma maneira assustadora nos poucos meses que se arrastaram do final de dezembro até o verão. Ela havia realizado que teria que amadurecer a força, já havia decidido acabar com a única responsabilidade que carregava, e havia pedido demissão. Assim incompatibilidades de estudos e sonhos foram batendo cada vez mais de frente, ocasionando brigas entre as pessoas que antes eu julgava serem opostamente perfeitos um para o outro. E quando Zoe entrou para a faculdade tudo ficou realmente sério e insuportável. Não existiam mais briguinhas fofas, que tanto me faziam rir. Os assuntos começaram a se tornarem diferentes e os caminhos também. Tanto que certo dia apenas aceitou o fato do desgaste, por telefone, e Zoe o deixou seguir livre para viajar.
- Fiquei sabendo, logo depois, que ele foi morar por uns tempos em Manchester, com os tios. Mas depois que eu resolvi largar a faculdade, para fazer fotografia na França, já não sabia mais onde ele estava. Já o Thomas eu tinha certeza que continuava em Londres, mas não me pergunte, porque eu nunca soube o que ele fez desde então - espreguiçou-se, e assim se ajeitou melhor, ao sofá, ficando de frente para mim - É , você conseguiu mudar a vida de todos - e riu.
- Falando desse jeito eu até me sinto culpada, por ter sido uma espécie de caos na vida de vocês - falei em tom de brincadeira. Mas era a mais pura verdade.
- Pois não se sinta! Você fez um grande favor, fez todos por aqui caírem em si e evoluírem – sorriu, e eu a acompanhei em um risinho sem graça.
Havia ficado entorpecida com tamanha surpresa, mas agora que havíamos retomado um pouco do assunto, notei que ainda precisava, de qualquer forma, expurgar todas as palavras trancadas em minha garganta. Seu ombro estava logo ali e era chegada a hora de usá-la para aquilo, que minutos antes, eu estava reclamando que precisava.
Decidi ser rápida então.
- Zoe, eu preciso te contar, e assim espero que você entenda e me diga alguma coisa construtiva, que com todas essas mudanças, que acabaram acontecendo na minha vida de meses pra cá, eu fiquei novamente confusa e assim eu acho que acabei notando... Oh meu Deus, ok, eu acho que nunca esqueci o Tom! – praticamente gritei, sem querer continuar o longo raciocínio que estava programando para enfim poder chegar àquelas últimas palavras – Pronto falei! - e era até um alívio ouvi-las em alto e bom som, mesmo eu achando que seria uma tortura.
Era, mas eu realmente precisa liberá-las.
- Você o quê? – ela acompanhou meu tom de voz.
- Não vou repetir porque tenho certeza que você ouviu claramente. E também não sei se meu ouvido agüenta escutar outra vez – disse, notando a expressão de minha amiga.
E era a mesma que costumava fazer quando parecia encaixar as palavras em sua cabeça.
- E o seu namorado sabe? – perguntou.
- Nossa, você sabe como me deixar menos preocupada – ironizei.
- Desculpa, mas chegar aqui e encontrar você como vizinha e depois do choque ainda ouvir isso da sua boca... – a vi sacudir as mãos, como se limpasse a paisagem logo a frente – Estou me acostumando, tudo bem? – disse.
- Tudo bem, só estou esperando um conselho – avisei, tentando não me sentir culpada ao encarar minha amiga.
- É meio impossível de acreditar, é difícil de te entender. Ta não é, mas nossa você tem um namorado e já se passaram anos! Geralmente no seu caso, a pessoa acaba ficando meses em depressão e prestes a morrer. Eu sei, não deve ser fácil assimilar que você foi jogada para trás e avisada disso por uma simples carta. Mas com o tempo você acredita e entende que é melhor partir para outra, como você vez, e assim por conseqüência acaba esquecendo daquele que um dia você achou que não viveria sem – Zoe desconversou totalmente, mas eu sabia que aquela era somente a sua introdução sobre o assunto – Quando você chegou a essa frustrante conclusão? – perguntou então.
Respirei fundo, era complicado ouvir aquilo de outra pessoa, pois até então só tinha que agüentar as vozes em minha cabeça.
- Acabei percebendo na primeira noite aqui em Londres, que todo o tempo que transcorreu, eu nunca deixei de pensar em você, ou nele. Eu só achava que havia superado e colocado uma pedra em cima do passado, mas me enganei – inclinei minha cabeça para o lado, a apoiando sob minha mão, cujo braço estava posto sobre o encosto do sofá. – Eu acabei intensificando isso semanas antes da minha viagem, até cheguei a ter um surto com uma amiga em Nova Iorque, e acabei ficando insegura de voltar e ver o negócio acabar ultrapassando o limite da recordação, entende?
- E está? – perguntou-me.
- Juro que tento me desligar de dia, me ocupando com qualquer coisa, mas de noite é praticamente impossível não deitar e ver Tom em meus pensamentos. Nesses últimos dias eu até cheguei ao ponto de pensar em não ir para a cama, mas com certeza entranharia. E apesar de todo esse caos, que se encontra aqui dentro, eu não falei nada a ele. Eu tenho um verdadeiro medo de deixar esse tipo de coisa, que sinto, dominarem e aos poucos acabarem com a vida feita que eu tenho – a respondi.
- Eu sempre odiei a confusão que você mesma cria dentro de si – disse.
Todas aquelas voltas estavam me deixando mais nervosa. Se era ardo para minha própria amiga entender, imagine para mim? Com as suas palavras eu estava me sentindo cada vez mais impotente.
Levantei-me do sofá, inquieta, Zoe não estava ajudando.
- Quer mesmo saber? – perguntei logo que observei o movimento da rua pela janela – Eu tenho medo de falar em voz alta e admitir para mim mesma que é verdade, que eu nunca deixei de pensar no Tom. E aqui, na mesma cidade que ele, eu me sinto desprotegida, insegura mesmo. Sou medrosa, eu sei, e não tenho controle sobre os meus próprios pensamentos – cruzei os braços, de modo que me abraçasse – Do jeito que as coisas andam, eu só consigo ter mais certeza que eu ainda não o esqueci – disse ao passar as mãos por meus braços. Havia falado o que eu tentava esconder em minha cabeça.
- Eu não sei o que posso te falar – escutei a voz de Zoe se aproximar de onde agora eu estava de pé – Se eu te disser: “Vá em frente, , deixe o e procure pelo Tom. Afinal você sempre o amou” você com certeza vai me olhar e dizer que estou errada. Assim se eu te disser: “Trate de esquecer o Fletcher, você está melhor sem ele” você não vai se sentir melhor, vai? – perguntou-me, assim senti seus braços me rodearem em um abraço pelas costas – Nada que eu fale vai te ajudar, . Sinto muito – e depositou seu queixo sobre meu ombro.
- Mas o que você acha que eu devo fazer? – levei minha mão até a sua e a apertei. Precisava da sua opinião.
- Nada! – disse animadamente, fazendo com que eu a olhasse pelo canto do olho.
Ela então se afastou, fazendo agora com que eu pudesse me virar para olhá-la melhor.
- O melhor a fazer é apenas deixar acontecer – falou-me, antes de sorrir e voltar-se para as fotos na parede.
- Talvez estivesse mais segura, das minhas concepções de futuro, nos Estados Unidos – disse, ao seguir Zoe.
- Pense positivo, – a garota depositou o seu braço em torno do meu pescoço e me puxou para perto – Você me tem novamente e mais do que tudo você tem a ele – e apontou para uma foto de – Eu realmente gostei do seu namorado! – riu, me fazendo enfim acompanhá-la – Que horas ele chega? – perguntou-me.
Ignorei o repentino interesse.
Então lembrei, de ter esquecido a chave ao miolo da porta, ao ouvir o barulho de algo bater ao chão.
- Que tal agora? – olhei assim para Zoe, como se lhe dissesse que ela havia dado uma de vidente.
- Hei – ouvi a voz de invadir o lugar, assim que a porta pareceu abrir totalmente.
- Você está nervoso? – distraia-me em folhar uma revista, que havia comprado a caminho de Convent (já prevendo que a espera seria longa), enquanto estava em silêncio, hipnotizado pela parede branca logo à frente.
- Claro que não – respondeu-me – Só acho que meu estômago está dando voltas por diversão – e sorriu ironicamente.
- Não está, consegue até ser engraçadinho – debochei concluindo, agora o olhando.
O garoto aparentava estar ficando ainda mais pálido, conforme eu o olhava e via ao relógio de seu pulso que os minutos passavam lentamente. Eu já não tinha mais o papel de
distrai-lo, motivo pelo qual eu estava ali, afinal nem mesmo eu estava conseguindo me distrair. E apesar de lhe dizer centenas de vezes que tudo ficaria bem, eu nunca tinha participado de um concurso, nem mesmo de culinária ou de talentos, então não sabia como agir.
Contudo o meu nervosismo podia ser equivalente ao de , sentado inquieto ao meu lado, por cerca de uma hora, se entretendo em estalar os dedos.
- Pára com isso, – olhei da revista para as suas mãos, que de relance não paravam de mexer, me incomodando – Vai acabar com as suas articulações! – assim fechei sem interesse a revista, já havia lido tudo que achava interessante, e depositei minha mão sobre as suas, as apertando.
- Eu só não consigo mais esperar – disse ele, agora começando a balançar as pernas, parecendo uma criança.
- Pára com isso também – avisei ao chutar uma de suas canelas. Alguém tinha que fazer o papel da mãe.
- Eu estou nervoso! - disse-me indignado, soltando minha mão e agora se aproximando da borda da cadeira.
Suspirei. me deixava nervosa.
- . – um homem careca, que passeava de pé por meio da sala cheia, chamou pelo o nome de , fazendo o garoto levantar rapidamente e o meu coração disparar momentaneamente.
- Me deseje sorte! – foi a última coisa que o escutei falar apressado, antes de seguir até o homem.
Tudo rápido demais.
Ri.
Passei alguns minutos ali, olhando apreensiva para os lados, e em outros minutos, fazendo aquilo que tinha pedido que parasse, estalando os dedos e sacudindo meus pés. Minha perna estava fazendo movimentos fora de controle e estar ali sem notícias só fazia com que eu observasse minhas unhas, pensando em voltar ao antigo vício de exterminá-las.
Então, ao perceber que a quantidade de pessoas da sala ia diminuindo conforme o tempo, resolvi levantar e deixar tal lugar. Iria procurar qualquer outro que me acalmasse e assim fizesse a idéia, de retornar a antigos hábitos, se afastar.
- Hum, será que você está tocando agora? – perguntei sem esperar respostas, ao observar a vista ampla da região. Mesmo o prédio nem possuindo tamanha altura para ser tão ampla.
Não havia ido muito além da sala em que antes esperava. Estava em um corredor próximo dos seus arredores e era o único lugar que tinha conseguido achar, que reunia água, comida - máquinas cujo se recusavam a aceitar minhas cédulas - e saídas de emergência.
De acordo com o relógio completariam exatos trinta e cinco minutos que havia deixado a cadeira ao meu lado. E claro, não era uma grande espera, mas eu não pensava que demonstrar algumas músicas a meia dúzia de jurados fosse demorar tanto.
Ok, eu não entendia nada sobre o assunto.
Debrucei-me ao parapeito da enorme janela e permaneci. Ele havia entrado em algumas das tantas portas que se encontravam logo atrás de mim, ao branco e vazio corredor, e se resolvesse sair de alguma delas, iria me encontrar impaciente logo ali, já próxima dos elevadores.
- Deixa ele cuidar do resto. Eu vou dar uma volta, não consigo mais decidir – ouvi uma voz invadir, antes, o silêncio do corredor. E pensando que fosse meu namorado, virei-me rápida para observar.
Reparei em um garoto, quer dizer, devia ser um garoto, já que estava com somente metade do seu corpo aparecendo por uma porta e eu julgava que nenhuma mulher por ali usaria aquele tipo de calça. Bem, não importava, não parecia ser , e sim uma pessoa, que como eu, não agüentava mais.
Voltei à vista de antes, enquanto o rapaz tentava se afastar do tédio e da pessoa que deveria estar dentro da sua sala.
Pelo menos algum movimento aparente. Aquele prédio apesar da data – audições para bandas é igual a desesperados pela fama – não parecia estar nem um quinto tão agitado como eu pensava que estaria.
- Alívio para a minha cabeça – o escutei dizer logo que a porta pareceu fechar.
Com isso o olhei mais uma vez, agora podendo reparar em sua face, pensando que talvez ele pudesse estar tentando iniciar uma conversa.
Mas me enganei, já que esse olhava para frente.
Minha cabeça fez até menção de voltar a observar o céu azul, ao concluir que ele somente possuía o mesmo hábito que eu, o de falar sozinho, mas eu fiz questão de contestar e permaneci na mesma posição. Algum detalhe seu havia chamado minha atenção, fazendo assim meus olhos se estreitarem para admirá-lo melhor.
Só não podia acreditar cem por cento no que eles delatavam.
Os fechei, esperando que abri-los novamente me fizessem ver que somente estava errada. Talvez agora não fizesse mais sentido fugir dos óculos guardados ao fundo da gaveta no bidê do quarto, eu estava tendo graves problemas de vista ou quem sabe mental. Só não podia ser verdade que bem ali, a alguns metros afastado, mas mesmo assim ao meu lado, estava debruçado a janela, nada mais, nada menos que ele.
- Tom, agora você pode voltar? – a mesma voz, que antes discutia com o garoto, tornou a chamá-lo.
Ele então se virou para a única porta aberta ao corredor, fazendo com que eu também virasse apressada para a posição que antes me encontrava (sem antes puxar uma bela quantidade de cabelo para cobrir a lateral de meu rosto).
Não sabia o que estava sentindo, não estava assimilando quase nada. Esqueci de tudo que havia pensado até ali e até mesmo esqueci o que pensava no momento. Pavor era a única coisa que conseguir assimilar com clareza. Até respirar havia se tornado dificultoso.
- Ainda não – avisou.
E mais uma vez ouvi a porta se fechar.
Ele enfim havia aprendido a mandar, ou a pessoa ali era muito paciente e sem atitude.
Notei, pelo canto do olho, que Tom não havia entrado, continuava ali e agora nem mesmo estava mais parado frente ao parapeito da janela.
Continuei a observá-lo sem muita atenção, o meu nervosismo não deixava, escondida por meus cabelos, enquanto pensava em uma escapatória. Meu coração estava prestes a sair pela garganta, podia sentir suas batidas violentas ao meu peito, e eu não parecia raciocinar muito bem, as pontas de meus dedos já estavam suando, daqui a pouco meu estômago embrulharia.
Mas não iria esperar para começar a me sentir enjoada, apenas sai da posição vulnerável que me encontrava, usando a primeira coisa que meu cérebro, debilitado pela pressão da situação, me proporcionou enxergar: o tanque de água mineral próximo. Ele parecia ser uma escapatória – não muito brilhante - e também era a melhor maneira de ficar inteiramente de costas para o garoto.
Peguei, trêmula, um copo do suporte, logo acima do tanque, e posicionei abaixo da válvula azul, para disfarçar.
- Só não para atrás de mim – pensei alto, mas em um murmúrio, em um som quase inaudível, ao sentir a presença de alguém se aproximando.
Era lindo como eu sempre procurava pelos lugares que eram descobertos primeiro! Havia sido uma criança frustrada no jogo de esconde-esconde.
– Não fala comigo, não fala comigo – fechei meus olhos ao tocar a válvula da água.
Tom havia feito o que eu não queria e agora eu estava encurralada ao ver que ele podia estar logo atrás.
- Desculpe, é comigo? – ouvi o garoto perguntar.
Droga.
Então puxei o copo e enfiei o seu pouco conteúdo, que havia conseguido juntar, em minha boca.
Era apenas água, mas jurei que consistia poupa.
- Hm, não – disse, tentando imitar outra voz e sai da frente do tanque, de lado, sem virar.
- Eu acho que estou ouvindo coisas – ele falou, mas eu não fiquei para puxar assunto.
Tratei de andar, em passos apressados, para fora daquele corredor, indo de encontro à sala que antes havia deixado.
- Aí está você! – um garoto veio em minha direção, com um largo sorriso.
- Amém – suspirei alto, como se um pouco da minha apreensão fosse embora, e caminhei até ele.
Nunca havia ficado tão aliviada ao ver a minha frente.
O abracei com vontade.
- Uou, tudo isso é ansiedade para saber como eu me saí? – perguntou rindo, ao também me abraçar.
- , nós podemos ir para casa agora? – perguntei tentando aparentar calma, mas podia jurar que tremia.
- Ah sim, – o garoto diminuiu a intensidade do seu sorriso, franzindo a testa – Podemos – mas concordou.
Eu sabia que ao vê-lo deveria ter demonstrado interesse pelo o seu teste. Era o que eu estava pensando em fazer e faria. Mas agora já não passava nenhum por minha cabeça, só de pensar que Tom podia se aproximar da onde estávamos agora conversando desprotegidos.
- Mas espera só um pouquinho – sorriu mais uma vez e rapidamente retirou sua atenção de mim, olhando para trás.
Algo dentro do meu estômago se mexeu com violência. Era o último sintoma.
– Amor, aquele ali é... – o ouvi.
- ! – gritei, o impedindo de concluir.
- O quê? – ele me olhou assustado.
Não estava mais conseguindo manter a calma e o nervosismo já estava se transformando em impaciência.
agora não me causava alívio, me irritava.
- Eu preciso ir ao banheiro! – falei a única coisa que havia passado por minha cabeça sem ser a verdade.
- Ok, nós podemos ir. Mas antes eu queria que você... – ele retornou a olhar para um ponto atrás de mim.
- Agora, ! - completei, tentando indicar que era realmente sério.
– Tudo bem, vamos! – cedeu, um pouco irritado, pegando em minha mão e deixando que eu o conduzisse.
Não sabia se Tom estava logo atrás, e se era a pessoa que tanto olhava e queria me apresentar, mas tinha necessidade de sair o mais depressa possível daquele lugar. Estava amedrontada, cada músculo do meu corpo estava enrijecido e minha cabeça estava a um turbilhão. A idéia de ver o rosto do garoto novamente ou, pior, dele ver o meu, era assustadora.
Tom em minha concepção havia se tornado como um palhaço para uma pessoa com fobia.
E aí estava o efeito que eu tinha tanto medo. Acabar tendo atitudes impensadas com , ao ponto de ser tão injusta e não lhe dar a devida atenção, por culpa de Tom.
Capítulo 04
Dentre mais de sete milhões de habitantes que residem em Londres, como era possível eu ter encontrado aquele, justamente o que eu não gostaria, ao meu lado? Bem, essa era uma pergunta que eu vinha repetindo mais de uma vez por dia em minha cabeça. E algumas vezes em voz alta, mas sempre para a mesma pessoa.
Zoe não sabia como teria acontecido, ela acreditava em destino e eu apenas em uma coincidência infeliz. Ela também me falava que eu pensava demais, por isso estaria atraindo, mas eu revidava com a hipótese de minhas chances de encontrá-lo somente terem aumentado pelo fato de ter algo relacionado à música. E isso era até reconfortante, pensar que eu só o teria achado porque tinha eliminado milhões de pessoas que não se interessariam por aquele teste.
Contudo não era tão reconfortante ter a noção que vê-lo tal dia, tão próximo e diferente, tinha sido também como eliminar de vez todos os canais de televisão e ter direito a assistir apenas um.
Desde que eu havia saído apavorada, com o meu coração prestes a subir pela garganta, junto de do local da audição, que eu não conseguia mais me concentrar por tanto tempo em outra coisa, como antes milagrosamente eu conseguia exercer. Era um fato, eu o tinha visto pessoalmente de novo, mal eu admito, e agora eu não possuía somente a sua imagem com dezoito anos em minha imaginação; a cena viva e as sensações
incomodadoras da sua presença naquele corredor estavam se repetindo como um filme emperrado na minha cabeça. Seria lindo, cada detalhe, se não fosse tão desesperador. Havia se tornado muito mais óbvio, parecendo doentio. Talvez eu estivesse esquecendo dos meus próprios avisos de cuidado, fazendo assim memórias dos meus dezesseis anos parecerem atrativas novamente. Então de repente a idéia de dar alguns passos para trás não parecia mais tão contraditória. Ele estava se infiltrando perigosamente em minha vida, e nem tinha consciência disso.
Quem sabe Zoe tinha absoluta razão, eu pensava demais.
Porém quase sempre alguns momentos de bom senso perambulavam por minha cabeça, de uns tempos pra lá, sonhadora. Meu período de idealizar já havia passado há tempos e Tom já parecia ter conseguido seguir em frente com sucesso.
- Nervoso? – senti certa sensação de déjà vu ao enxergar aquele carpete azul e as poltronas de couro preto. Era também praticamente a mesma pergunta de quase dois meses atrás.
- Não tanto como aconteceu no teste – o garoto falou, largando o copo descartável ao lixo.
Lembro-me de estar na cozinha, admirando o barulho do mecanismo da torradeira, quando de repente, junto com as duas fatias de pão de forma, pulou em minha frente. Não era comum eu lhe ver logo cedo em casa, assim como já não era rotineiro eu me encontrar na cozinha àquela hora. Estava passando quase todos os dias com Zoe, que já se encontrava com a casa milagrosamente ajeitada, e não me preocupava mais com assuntos tolos como manter a minha sempre organizada; e continuava a sair com a mesma freqüência e sem ainda, ao menos, me explicar onde costumava ir. Com isso construíamos um cotidiano sem compromisso, conforme as semanas davam sinais de que passavam depressa, sem a aparente necessidade de empregos e de estarmos juntos vinte e quatro e horas por dia.
Todavia aquela entrada agitada na cozinha naquela noite, e muito menos o seu sorriso de ofuscar a minha fome, havia sido por mera saudade. Ele havia ganhado uma ótima notícia enquanto estava fora de casa, enfim havia recebido a ligação que esperava e que eu julgava, tão sem emoção, que não aconteceria mais.
Os meus momentos de vida real eram quase sempre tão curtos como os assuntos que minha amiga e eu possuíamos que não acabassem levando ao passado. Eu me encontrava assim, mais uma vez, junto de meu namorado naquele prédio em Convent Garden.
- Bom, você agora tem a certeza de estar dentro – sorri, depositando também meu copo ao lixo.
Eu estava tentando controlar a cena irritante que aqueles corredores me faziam lembrar porque queria estar ali inteiramente por . Ele se encontrava feliz e eu também assim estava. Teria que estar! Aquele seu feito me fazia voltar às minhas suposições e eu esperava mesmo que elas estivessem certas e que agora tudo fosse voltar aos trilhos, como antes. Não era nada legal ficar exercitando os tipos de pensamentos cujo eu estava. Eu apenas tinha que me concentrar em e o quanto eu havia crescido ao seu lado com mais dedicação.
Coisa que eu só lembrava com fervor ao encontrar o azul de seus olhos. Regredir, assim, não parecia mais tão atrativo.
- E você, imaginou que eu conseguiria? – se gabou. Era tão invejosa a sua alta confiança.
- Você sabe que eu nunca acreditei – lhe disse a verdade e ele desde sempre sabia que eu não era otimista.
havia sido intimado a aparecer logo cedo naquele lugar para uma reunião - pelo o que um homem chamado Matthew, veja a ironia do destino, Fletcher tinha explicado logo que chegamos, seria para conhecer os seus colegas de banda - e como não era de se duvidar, havia me carregado junto para espantar o seu nervosismo. Mas era óbvio que eu não fazia diferença para o seu sistema nervoso.
- Fico feliz por ser sincera – disse em tom de riso, me desconsertando um pouco.
Pelo menos eu ainda parecia sincera? Isso era um alívio para o meu lado que se sentia culpado.
- Só queria saber por que eles demoram tanto – retomou novamente a minha atenção, que por poucos milésimos tinha se perdido no carpete. Certas vezes a vontade de esclarecer para ele um pouco do que se passava em minha cabeça parecia tentadora. Porém quase nunca parecia ser um momento propício para tal ato.
Ele esticou um pouco a sua cabeça, olhando por cima de meu ombro, e com isso uma repentina vontade de abraçá-lo percorreu cada centímetro de meu corpo. O chamado impulso emotivo, coisas que eu sentia a necessidade de exercer em exatas horas. E bem, naquele momento eu sentia que precisava de próximo.
O abracei.
Como eu disse, eu possuía um lado culpado e muitas vezes ele sentia a n