Prólogo
Eu jamais pensei que aquele momento algum dia chegaria. Ele nem havia passado pela minha cabeça em nenhum minuto sequer e eu também não tinha motivos para pensar nele nos últimos meses que foram os mais perfeitos da minha vida. Mas era a verdade crua e dura; eu estava lá, diante de seus olhos encantadores que me amavam e me pediam para ficar, mas eu precisava fazer o que era certo para nós dois. Eu precisava dizer a ele aquilo que não era verdade e nunca seria; eu ia fingir, mentir, omitir, despedaçar dois corações. Nem tudo dura para sempre mesmo, um dia acabaria... Eu estava apenas adiantando o fim e a dor, para que eu pudesse sofrer logo de uma vez, sem ter que me preocupar com a possibilidade de um fim ainda pior. Fechei meus olhos para poder gravar a imagem doce de sua pele branca que acariciou a minha, da sua mão que me tocou, da sua boca que buscou a minha arduamente, do seu coração que me amou com tanta pureza e sinceridade que eu jamais poderei encontrar algo tão verdadeiro em toda minha vida. Eu abri meus olhos e me preparei para o momento em que eu diria a maior mentira da minha vida. E naquela hora, eu engoli o meu amor e parti meu coração.
Capítulo 1 – Ansiedade enrustida em normalidade
Eu acordei naquela manhã me sentindo estranhamente normal. Era terrível; eu nunca me senti normal. Talvez, apenas dependesse do que a palavra normal realmente significava para mim ou qualquer outra pessoa. Talvez, fosse porque eu sempre acordava com alguma sensação específica, e naquela manhã, eu não tinha sensação específica nenhuma. Eu me sentia apenas... normal.
Eu inspirei fundo, como se quisesse absorver o máximo de ar possível.
- ! Você vai se atrasar. – Ouvi minha mãe gritar do andar de baixo para me acordar. Como se eu não tivesse um celular nada discreto e nada silencioso para fazer isso por mim.
- Já acordei – gritei sentada na cama. Eu tinha preguiça em me levantar para fazer qualquer tipo de coisa.
Mas eu tinha que fazer, afinal, era segunda-feira, e como o dia mais detestado do calendário, era normal ter preguiça.
Levantei-me indo em direção ao banheiro. Não dei mais de cinco passos e tropecei em minhas sapatilhas jogadas, por algum motivo, no meio do caminho. Estava na hora começar a guardá-las logo depois de treinar.
Olhei-me no espelho e vi o quão terrível era me sentir normal. Eu não tinha expressão nenhuma no rosto; nem de tristeza ou alegria. Ansiedade ou calma. Respirei fundo, colocando pasta na minha escova de dente e iniciando parte de minha rotineira higiene pessoal.
Enxagüei a boca sorrindo para o espelho, como eu sempre fazia. Incrível como eu conseguia ser um tanto idiota recém-acordada.
O banho não poderia ter sido melhor. Quente e meio demorado, como sempre. Eu já estava enrugada quando desliguei o chuveiro e voltei ao meu quarto para vestir o meu uniforme beato de escola católica. Camisa branca com o emblema do St. Anne’s Catholic High School, a saia pregueada e xadrez em tons de preto e cinza até um palmo acima do joelho, as meias três quartos brancas, o sapato preto com velcro. Não me esquecendo do suéter preto em gola V, também com o emblema do colégio. O arco também preto em minha cabeça me tirava alguns poucos anos de idade. Eu me sentia como uma garotinha de alguma escola primária. Uma última olhada no espelho, já com minha bolsa cinza pendurada no braço direito, e eu desci as escadas calmamente, sem pressa nenhuma de chegar à escola.
- Bom dia, pai! Bom dia, mãe! – Entrei na cozinha e tudo estava como sempre. Meu pai lia o The Sun sentado em frente à sua xícara de café, enquanto minha mãe colocava algumas torradas na torradeira. Era algo completamente normal, sim, mas o que tornava o dia estranhamente bizarro, era que eu, para estar em meu estado normal, não deveria estar me sentindo normal.
- Bom dia, filha – minha mãe respondeu beijando minha testa, enquanto eu colocava o cereal na tigela, apoiada em um dos gabinetes da cozinha. Eu já estava bem acostumada com o silêncio matutino do meu pai enquanto lia sobre a bolsa de valores londrina.
- Você vai treinar que horas hoje? – ela me perguntou ainda apoiada ao lado da torradeira.
- Hum... eu estava pensando se podia ficar até mais tarde hoje no colégio. Os meninos vão ter treino de futebol e eu queria vê-los – respondi esperando que ela não me negasse isso.
- Mas olha só. A futura aluna de ballet de Juilliard trocando algumas horas de treino por futebol e garotos suados? Não acho que seja uma boa idéia, você não tem muito tempo para fazer o teste para Juilliard, .
- Mãe, eu tenho todo o tempo do mundo. – Sentei na cadeira esperando convencê-la de algum modo. – Eu não sei por que essa paranóia de que eu preciso estar em Juilliard logo depois de terminar a escola. Você vai mesmo mandar sua única filha de dezessete anos pra Nova York?
- É claro que eu vou. Eu tinha a sua idade quando fui pra lá, pra Juilliard também, para me tornar uma bailarina de prestígio – ela respondeu como se fosse óbvio.
- Eu sei, mãe. Mas será que eu não poderia perder pelo menos um único dia de treino para fazer algo diferente? – bufei cansada. – Eu treino todos os dias durante horas, nunca faltei a nenhum treino, e às vezes, treino fora do horário, na barra do meu quarto e você sabe disso. Eu só quero fazer algo diferente.
- Lizzie, acho melhor você começar a pegar leve com ela a não ser que você queira matá-la antes da hora – meu pai disse sem tirar os olhos do jornal. – Afinal, ela já tem dezesseis anos, e em breve fará dezessete e o que ela aproveitou da adolescência? O quarto dela e a barra de ballet. Não acho que isso conte como experiência de vida. – Seus olhos continuavam fixos nas letras que ele lia, mas sua voz era autoritária.
- Obrigada, pai. – Eu sorri, vendo que a expressão no rosto da minha mãe não era das melhores.
- Tudo bem, . Você pode assistir a esse jogo de futebol. – Ela se deu por vencida.
Vi meu pai abaixar o jornal apenas para que nossos olhares se encontrassem e pude perceber que ele sorria; eu sorri de volta em agradecimento.
Minha mãe, totalmente mal humorada pela intervenção do meu pai, virou-se de volta para a torradeira, fingindo estar prestando atenção na prateleira de temperos logo a sua frente.
- Christopher, você pode levar a para a escola hoje? – ela perguntou ainda virada para os temperos. – Eu tenho que ir para a academia de dança logo agora cedo.
- Ah, tudo bem. Faz tempo que eu não tenho esses momentos de pai e filha com ela. – Senti que ele sorria, enquanto eu fazia uma careta de reprovação.
Continuei comendo meu cereal, esperando ansiosamente para que meu pai terminasse logo a meia xícara de café dele. Impressionante como algumas pessoas conseguem levar horas parar tomar cinco goles de cafeína.
Eu o vi se levantar da cadeira e pegar o paletó que estava pendurado nela. Levantei-me também, dando um tchau seco e quase inaudível para minha mãe.
Eu e papai caminhávamos em silêncio até chegarmos ao seu Audi TT.
Entramos no carro e ele ligou o som para ouvir as notícias na BBC radio.
Um silêncio incômodo e constrangedor se apossou do carro. Eu odiava momentos como aquele.
- Pai, você já pensou em se divorciar da mamãe? – perguntei despreocupadamente, olhando para o tráfego a nossa frente.
- Divorciar? – Percebi o tom de deboche em sua voz. Provavelmente deveria estar se perguntando que tipo de filha deseja o divórcio dos pais. Eu pensava nisso quando ficava muito irritada com a minha mãe, mas só às vezes, afinal, ela era minha mãe, só que um pouco chata demais.
- É, pai – respondi impaciente. – Você e a mamãe em casas separadas, vidas separadas, eu morando com você, é claro... – Sorri interesseira. Ele percebeu que era brincadeira...
- , eu sei que a sua mãe é meio impossível às vezes, mas eu a amo muito e isso sempre prevalecerá, mesmo que ela tenha esse gênio difícil – ele respondeu sério.
- Ah, claro... O amor, eu havia me esquecido desse pequeno, porém importante, detalhe. – Coloquei um tom de sarcasmo em minha resposta.
- Filha, quando a gente ama alguém, a gente consegue engolir qualquer defeito ou diferença que exista nela, ou nas pessoas que a cercam. Você logo vai aprender isso. Você só precisa encontrar alguém que seja tão especial como você realmente merece que essa pessoa seja – ele dizia com um tom amplamente paternal. – E você vai amar essa pessoa perdidamente; vai amar até aquilo que te torna tão diferente dela.
- Bonito discurso, pai. – Meu tom estava debochado.
- Eu acho que logo você vai entender o que eu estou falando. – Ele passou a mão em meus cabelos e quando dei por mim, já estávamos na frente da escola. – Boa aula – ele disse quando eu abri a porta.
- Obrigada, pai – respondi fechando a porta e passando pelos portões ornamentais e altos do colégio.
Dei alguns passos por entre a multidão de alunos que se aglomerava em grupinhos no jardim extenso e lindo. Avistei conversando com Samantha e Lauren, sentadas em um dos muitos bancos que aquele lugar tinha.
- Será que seu pai sabe que tem metrô até a escola? – me perguntou ironicamente quando me aproximei delas.
- Quem não sabe é a minha mãe – respondi com cara de poucos amigos. – Eu já falei pra ela que eles não precisam me trazer, mas ela insiste em obrigar o coitado do meu pai a fazer isso quando ela não pode.
- Vou ter uma conversa com a sua mãe. – Ela deu risada. – Você parece cansada.
- Treinei até tarde ontem. – Fechei os olhos bem forte, abrindo-os segundos depois.
- Você precisa de uma vida social, sabia? – Lauren se pronunciou pela primeira vez no dia. Seus cabelos pretos contrastavam com o mel de seus olhos.
- Mais uma vez, a culpa é da minha mãe. Bingo! – Sorri ironicamente. – Por favor, não vamos falar disso... Inventem qualquer coisa ou me contem sobre o final de semana de vocês. Falar da minha mãe é dez vezes pior do que conviver com ela.
Sam olhou de Lauren para mim e sorriu.
- Lauren ficou com James Bourne nesse final de semana. – Eu ouvi gritinhos felizes e retardados delas.
- James Bourne? – perguntei arqueando uma sobrancelha. – O garoto do cabelo estranho que anda com os garotos que têm uma banda com o nome do cara do “De Volta Para o Futuro”!?
- Sim, os garotos do McFLY. E também tem o Charlie e o Matt, que fazem parte da banda do Jimmy. – Lauren sorriu quando disse o apelido dele.
- Pelo jeito você anda bem próxima deles. – Sorri maliciosamente para ela.
- Bom, eu só conversei com o Matt e o Charlie até agora, na festa da Sophie no sábado. Os garotos do McFLY nunca ficam parados. Estão sempre se pegando com alguém, andando de um lado para o outro, você sabe como é.
- É, eu sei perfeitamente como é. Não se fazem mais garotos como antigamente. – Eu sorri debochando de minhas próprias palavras.
- Você tem que parar de ficar lendo Shakespeare e Meyer – disse com num tom repreensivo. – E nada de ouvir Frank Sinatra também. Esqueça “Grease”, “Chicago”, “Love Story”. Acrescente um pouco de inutilidade à sua vida e alugue “American Pie”.
- Você fala isso como se eu fosse uma garota dos anos 20. – Mais uma vez, fiz minha melhor cara de poucos amigos.
- , você escuta música clássica. – Ela arqueou uma sobrancelha.
- E daí? Eu faço isso pelo ballet, ok? – Fingi falsa irritação.
- Ai, não precisa ficar bravinha – ela disse num tom infantil apertando minhas bochechas, arrancando risos de Sam e Lauren.
- Tá, ! – Tirei suas mãos de minhas bochechas, quando ouvi o sinal bater. – Vamos logo.
Andamos pelo jardim, indo em direção ao pátio enorme e cheio de bancos para entrarmos em um dos prédios.
- Que aula vocês têm agora? – Sam perguntou e seus cabelos ruivos haviam ficado num tom mais escuro em função da sombra. Seus olhos verdes claros também ganharam um tom mais escuro.
- Eu tenho latim – respondi desanimada.
- Cálculo – respondeu vinte vezes mais desanimada.
- Inglês. – Lauren parecia feliz, e não era para menos.
- Educação religiosa. – Sam parecia mais desanimada do que eu e juntas.
- É isso aí, cocotas. O dever nos aguarda. – Mandei beijos no ar para elas, enquanto cada uma de nós tomou seu rumo.
Os corredores eram largos e cheios de portas; eu às vezes me perdia.
Avistei a sala da minha primeira aula e alguns rostos conhecidos entrando pela porta. Eu detestava as aulas de latim por não conhecer ninguém realmente, a não ser por nomes.
Quando cheguei perto da porta, , que era da tal banda McFLY, também estava se aproximando, mas pelo outro lado.
- Pode entrar – ele disse me dando passagem, sorrindo educadamente.
Senti meu estômago revirar.
- Obrigada! – Sorri timidamente entrando na sala e seguindo para minha carteira que era a quarta da fileira do meio. Eu o vi entrar e passar por mim, sentando-se na cadeira ao lado. Eu nunca havia reparado que ele se sentava tão perto de mim. Ele sorriu mais uma vez me olhando e senti uma ansiedade estranha. Eu não estava me sentindo normal naquele dia; eu estava terrivelmente ansiosa. Uma ansiedade enrustida em normalidade, o que me incomodou totalmente.
Esse misto de sensações, essa confusão de pensamentos... Tudo isso me incomodava.
Capítulo 2 – Possibilidades
O desconforto na aula de latim era assustador. Parecia que quanto mais eu rezava para que a aula acabasse, mais tempo os ponteiros do relógio levavam para se mover.
Eu sentia alguém me observando, mas tinha medo de olhar em volta e procurar esses olhos que tanto insistiam em me fitar. Eu batia com a caneta em meu caderno sem conseguir entender o que o professor explicava. O barulho era repetitivo e insuportável; exatamente o que eu precisava para poder me distrair dos meus pensamentos que tentavam me induzir a olhar para o lado. Eu estava indo bem com minhas tentativas de distração, mas por um erro imprevisível, eu fracassei. Minha caneta, que meus dedos moviam freneticamente para cima e para baixo, escapou deles, caindo no chão, do meu lado direito. Senti-me tonta por um momento, com o pensamento de que eu teria que olhar para o lado. estava me olhando analiticamente, enquanto eu me obrigava a desviar meus olhos dos seus para poder pegar minha caneta. Quando a ponta de dois dedos meus alcançaram-na, uma outra mão entrou em meu campo de visão, tendo mais sucesso em pegar o objeto do que eu tive. Pela rapidez dos fatos, o susto que me atingiu foi tão grande, que eu soltei a ponta da caneta, deixando-a suspensa apenas pela mão dele. Levantei meu rosto e percebi o dele tão próximo; ele era extremamente lindo. Sua pele branca parecia macia e convidativa para minhas mãos, seu nariz imperfeito equilibrava sua beleza e seus olhos eram de longe os mais lindos que eu já havia visto. Momentaneamente embriagada por sua beleza, eu sorri idiotamente.
- Obrigada – agradeci insegura quando ele me entregou a caneta. Voltamos às nossas posições eretas e ele sorriu aberta e encantadoramente, acabando com qualquer vestígio de sanidade que pudesse existir em mim. E eu me sentia mais patética a cada minuto...
Eu tentei prestar atenção na aula, trabalhei duro para me manter focada no latim, mas aquele sorriso dificultava as coisas. Por que ele tinha que ser tão lindo? Por que, além de lindo, ele tinha que ser um garoto de muitas garotas? Por que eu estava pensando nele daquela forma? Nós, definitivamente, éramos de universos opostos. Por que ele estava me deixando sem ar mesmo? Porque eu sou uma boba. Eu só estava encantada com o sorriso dele, nada mais.
Estava tão centrada em meus pensamentos que quase não ouvi o sinal tocar e dar fim à aula. Era como se eu pudesse respirar de novo. Levantei da cadeira com os livros na mão, indo em direção à porta. Andei calmamente; estava a poucos metros da saída quando um grupo de garotos apareceu de repente, obstruindo minha passagem. Parei subitamente, olhando aturdida para as costas de um deles. Fiquei imóvel, esperando que eles pudessem ter a educação de me deixar passar, mas aconteceu o que eu não esperava. E de novo, foi tudo muito rápido. Senti alguém atrás de mim também parar subitamente. Sua respiração bateu contra meus cabelos e eu me arrepiei. O grupo de garotos começou algum tipo de brincadeira, fazendo com que o garoto que estava de costas para mim viesse um pouco em minha direção. Instintivamente, recuei dando pequenos passos para trás, batendo minhas costas em um peitoral largo e alto. Minha respiração se tornou algo impossível de ser controlado enquanto eu estava entre os dois garotos. Desejei mentalmente que o peitoral largo não fosse de . Mas não funcionou; era ele atrás de mim. Por um instante, quando suas mãos se postaram em meus braços, achei que estivesse ficando louca. O contato delas era quente e arrepiou meu antebraço fazendo com que eu me sentisse totalmente vulnerável. Pedi com todas as forças que o grupo de garotos sumisse da minha frente, para que eu pudesse logo sair de lá. Aparentemente, funcionou, pois segundos depois o aglomerado se moveu para fora da sala e eu pude me soltar de , para seguir para a aula de literatura.
Meus passos eram apressados e minha respiração desuniforme. Era mais uma tentativa de distração; eu não queria pensar no que havia acontecido há alguns minutos.
Eu andava automaticamente, como nunca tivesse me perdido por aqueles corredores. Avistei a sala de literatura esperando que já estivesse lá dentro. Respirei fundo, tentando montar o quebra-cabeça que estava me aturdindo. Dei mais alguns passos até entrar na sala e sentar na cadeira vaga ao lado da .
- O que aconteceu? – ela perguntou preocupada. – Você está pálida... Não que você tenha muita cor, mas seus lábios estão da cor da sua pele.
- – respondi com a respiração descompassada. – Já reparou no quanto o sorriso dele é bonito?
- Hã? – Ela arqueou uma das sobrancelhas e sua expressão era totalmente confusa.
- Eu fiquei até boba, sabe?! – Olhei para o nada, meio que ignorando ela e me lembrando da aula de latim.
- Hã?
- , qual é o seu problema? – Perdi toda a paciência que já quase não tinha naquele momento. – Ele se aproximou de mim hoje e ele sorriu, e eu fiquei tonta, ele me tocou e eu fiquei tonta, ele me olhou e eu fiquei tonta. Eu fiquei tão tonta que não consegui entender simplesmente nada da aula de latim; ele tirou toda a minha concentração.
- Espera! Você está querendo dizer que te deixa meio retardada? – ela perguntou devagar, como se estivesse falando com uma criança.
- Se você prefere usar essa palavra para entender melhor, que seja... É isso mesmo!
- E por quê? – Sua expressão ficava cada vez mais confusa.
- E eu que sei? Estou tentando entender isso até agora... – Apoiei meu cotovelo na carteira, segurando minha cabeça com a mão. – Vai ver que é porque ele sabe muito bem como lidar com as garotas... Ou então, vai ver é porque eu sempre o achei bem gostoso, mesmo sendo um babaca.
- Ou não... – ela disse despreocupada, como se estivesse dizendo qualquer coisa natural. – Você nunca sabe das possibilidades que te aguardam.
- Possibilidades? Possibilidades, ? Que possibilidades são essas? – perguntei meio grossa.
- Você vem perguntar pra mim? Tenho cara de vidente, por acaso? – Ela apontou os dedos indicadores para seu rosto. – O que eu estou dizendo é que você nunca sabe o que pode acontecer. Então antes de tirar qualquer tipo de conclusões, espere pra ver no que vai dar.
Nessa hora, meu queixo caiu. O Sr. Hudson já explicava qualquer coisa sobre John Fante, e eu e discutíamos possibilidades. Possibilidades? É, possibilidades.
- Esperar pra ver no que vai dar? – perguntei horrorizada. – Não vai dar em nada, isso sim. Eu não quero esperar pra ver no que vai dar, .
- Mas não é você que está aí, toda sem ar por causa dele? Será que você sempre foi apaixonada por ele e não sabia disso?! – Ela estava surpresa, como se tivesse feito alguma descoberta e como se o que ela estava falando fizesse algum sentido.
- Como é que é? – Levantei meu tom de voz, recebendo um olhar repreensivo do professor que escrevia alguma coisa na lousa. – Eu estou sem ar por causa ele? Quem te disse isso?
- Você mesma acabou de me dizer. Disse que ele te deixa sem ar, louca, desnorteada e sei lá mais o que...
- Mas eu não disse no sentido de estar apaixonada por ele, porque eu não estou... eu disse no sentido de estar surpresa por ele me deixar assim, porque ninguém nunca me deixou assim.
- Ah, entendo... – Ela olhou para o nada tentando buscar alguma explicação. – Ainda acho que você deveria esperar pra ver no que vai dar.
Respirei fundo sacudindo minha cabeça negativamente, pensando que prestar atenção no professor seria muito mais produtivo do que continuar minha conversa com a . Ela sempre arrumava um jeito de me convencer com seus argumentos fortes. A aula de literatura não havia sido das mais rápidas naquele dia.
Na aula de inglês, Sam e Lauren pareciam bem entretidas conversando sobre James Bourne e companhia; era melhor, eu podia me frustrar em silêncio sem ter que colocar pra fora ou contar o que havia acontecido. De alguma forma que eu não sabia explicar, estava me perturbando naquele dia. O sorriso, o peitoral largo, a pele branca, os olhos , a voz, tudo, exatamente tudo estava me assombrando. Qualquer lembrança sua me desconcentrava naquele dia e eu não podia fazer nada. Era quase tão automático quanto minha rotina diária. Simplesmente chegava e tomava conta de toda a minha atenção. Eu estava começando a ficar preocupada, quando Sam estalou os dedos na frente do meu rosto, me chamando para o intervalo.
- , ta tudo bem? – ela perguntou devagar. – Já está na hora do intervalo, vamos?
Sacudi minha cabeça e me levantei, seguindo-as para fora da sala.
O caminho foi um tanto perturbado; eu sabia que poderia encontrá-lo a qualquer momento e eu realmente não queria parecer uma retardada mental quando ele aparecesse na minha frente. Chegamos ao refeitório e já estava na mesa em algum canto com sua bandeja. Continuei meu caminho para a mesa, sentindo que estava sendo observada, mas com medo de procurar quem estava me olhando. Sentei de frente para me sentindo um pouco assustada com tudo aquilo.
- Você não vai comer? – Ela levantou uma das sobrancelhas usando um tom de voz meio autoritário.
- Tô sem fome – respondi olhando para o nada.
- Ainda por causa do ? – ela perguntou indiferente.
- Não, é claro que não. – Eu estava um pouco alterada. – É só que... não sei, não estou com fome e pronto. – Cruzei meus braços ficando séria.
- Se você diz, eu acredito. – Ela deu de ombros. – Mas o que você faria se eu dissesse que ele está olhando pra você sem nenhuma intenção de disfarçar? – Ela sorriu maliciosamente e eu senti meu estômago embrulhar ainda mais.
- Como? – Eu sabia que estava pálida, eu tinha certeza. Eu sempre sei quando estou pálida.
- está sentado no outro canto do refeitório, de frente para nós, e está te olhando descaradamente – ela disse naturalmente. – E ele sabe que eu estou falando dele para você, porque ele começou a sorrir, assim que eu o olhei e falei com você. Olha pra ele, .
- O que? Você é louca?
- , olha logo pra ele...
E eu o fiz. Eu o olhei e ele sorria abertamente. Mesmo de longe, seus olhos eram estranhamente encantadores e atraiam os meus, como se fossem ímãs.
- Acho que ele está a fim de você. – sorriu e voltou a comer quando Sam e Lauren retornaram à mesa. Achei melhor não comentar nada para não ter que explicar o que eu mesma não entendia. Complexidades têm que ser resolvidas em particular, quando eu estou apenas comigo mesma, e a mesa do refeitório realmente não era um lugar bom para se tentar entender algo que era completamente confuso. E todo o intervalo foi completamente silencioso, pelo menos para mim. A única coisa que eu ouvia era meus pensamentos ou os ecos das vozes das pessoas, que não faziam sentido algum. Passei o resto do dia vegetando, eu me sentia totalmente cansada por ter treinado até tarde na noite anterior. A aula de história foi tão cansativa quanto a minha mãe e a de cálculo tão chata quanto as frescuras dela. Eu ouvi o sinal tocar e agradeci por ser a última aula. Dirigi-me, pelo corredor, até a sala de geografia ambiental com uma sensação um pouco melhor, aquela sensação de alívio por serem os últimos cinqüenta minutos em sala de aula.
Eu entrei na sala e toda a sensação boa havia ido embora. Desde quando tem aula de geografia ambiental no mesmo horário que eu? Eu não sabia responder essa pergunta, eu só sabia que aquela aula seria tão desconfortável quanto a primeira, a aula de latim. Respirei fundo e fui até meu lugar, que dessa vez, não era do lado dele, mas sim, na frente dele, bem na frente dele. Fiquei os cinqüenta minutos desconfortavelmente paralisada, com medo de me mexer. Eu tinha medo de não conseguir controlar minhas ações e acabar olhando para a camisa branca com os dois primeiros botões abertos, o que combinava com a gravata preta afrouxada e os cabelos arrumadamente bagunçados. Viajei a aula inteira em pensamentos e, conseqüentemente, não entendi nada sobre a complexidade do aquecimento global e do que podíamos fazer para retardá-lo.
O sinal enfim tocou e eu já estava pronta para sair da sala. Levantei-me rapidamente e saí pela porta, parando do lado de fora da sala, esperando pelas meninas que me encontrariam lá. Ele saiu da sala e me olhou daquela mesma forma da primeira aula, do refeitório. Virei o rosto e percebi que ele se afastou, indo na direção oposta.
- ? Ta tudo bem? – Sam perguntou e eu percebi que ela, Lauren e estavam lá, como que esperando alguma reação minha.
- Tá sim, eu só estou um pouco cansada. – Chacoalhei minha cabeça a fim de espantar dos meus pensamentos. Aquilo não era bom.
- Então vamos, o treino dos meninos começa em alguns minutos. – me puxou e seguimos para fora da escola, indo pela direção que tinha ido.
Chegamos ao campo que ficava atrás da escola e alguns garotos com o uniforme do time já se aqueciam. Vi dois dos amigos do , mas não sabia quem eram, eu não havia decorado os nomes. Naquele momento me ocorreu que talvez, também fosse jogar, mas o problema realmente não era esse. O problema era por que ele estava fazendo tanta diferença assim para mim. Só porque eu comecei a notar o lindo sorriso que ele tinha? Não fazia sentido nenhum, mas o fato de que dali algumas semanas tudo aquilo passaria me confortava bastante. Respirei fundo e sentei na arquibancada cimentada juntamente com as meninas. O campo ia se enchendo de garotos a cada minuto. A camiseta era branca com o emblema do colégio e o shorts era preto, exatamente como o uniforme. O grande jogo contra o King’s College seria em algumas semanas e todos estavam se preparando.
- Não sabia que o nosso colégio tinha garotos tão lindos – Sam disse sorrindo maliciosamente olhando em direção ao campo.
- Eu sempre soube. – Lauren sorriu da mesma forma. – O James é uma prova disso.
- Acho que você está apaixonada – disse apertando as bochechas dela; sua mania adorável de machucar o rosto das pessoas com seu excesso de carinho.
- Eu também acho... – Minha frase fora interrompida por uma mão que tocou meu ombro. Olhei para trás e lá estavam aqueles olhos que me perseguiram o dia inteiro. Tão quanto da última vez que eu havia visto.
- Você pode segurar para mim? – me sorriu encantadoramente – como sempre – estendendo seu uniforme da escola dobrado desajeitadamente. – Eu pego com você depois do treino, ok? – Ele piscou e sorriu mais uma vez, descendo a arquibancada e indo em direção ao campo.
Não tive tempo de responder ou ter qualquer reação, ele simplesmente se foi. Fiquei algum tempo naquela realidade paralela e sem sentido.
Olhei para o lado e vi aqueles três pares de olhos totalmente curiosos e tão chocados quanto os meus.
- Oi? – Arqueei uma sobrancelha esperando que elas voltassem ao normal.
- Desde quando você e conversam? – Lauren perguntou interessada.
- Isso não foi uma conversa, ele só me pediu para segurar as roupas dele. – Era óbvio, não?
- Ah, claro. , ele estava no vestiário, onde provavelmente ele tem um armário com o nome dele para que ele possa guardar suas roupas. Qual o interesse dele em querer que você segure as roupas dele? É claro que tem coisa aí. – era sempre cheia de argumentos. Argumentos fortes, diga-se de passagem.
- Certo, não vou discutir isso com vocês. – Voltei a olhar para o campo a minha frente. Ele estava lá, se aquecendo, ora me olhando, ora comentando algo com algum de seus amigos. Eu mexia freneticamente na barra da camisa que estava em minhas mãos e um cheiro maravilhosamente bom chegou até meu nariz. Era o cheiro dele, do perfume dele. Era tão viciante e encantador quanto seu sorriso. Eu trouxe a peça para mais perto do meu rosto para poder sentir melhor. Sorri involuntariamente ao ter certeza de que ele realmente cheirava bem. De repente, percebi que ele me olhava e ao mesmo tempo sorria. Senti uma vergonha súbita tomar conta de mim, ao perceber que ele estava me observando cheirar sua camisa e sorrir ao sentir o cheiro dela. Ele sorriu mais abertamente e eu retribuí antes que ele entrasse no jogo. Respirei fundo e percebi que as meninas me observavam naquele momento um tanto constrangedor. Sacudi a cabeça negativamente, dando a entender que conversaria com elas mais tarde e elas assentiram e, sincronizadamente, viraram sua cabeça para frente.
E o jogo começou...
Nunca pensei que futebol pudesse ser divertido, eu sempre odiei. Já estava no final do segundo tempo e o jogo estava empatado em 4 a 4. era incrivelmente bom e dominava boa parte do jogo. Faltavam quarenta e cinco segundos para o fim, e estava do seu lado do campo, driblando quase todos os adversários para poder chegar ao gol. Eu via seus pés praticamente dançarem com a bola enquanto ele se esquivava de tudo, e de vez em quando, passava a bola para – o nome estava escrito na camisa – que o devolvia. Nesse revezamento, mais alguns poucos segundos haviam se passado, e todos estavam com medo de que o gol não fosse feito. Eu estava aflita, torcendo para que ele chegasse, mas três adversários o marcavam e foi quando ele devolveu a bola a , e de uma forma que meus olhos não puderam acompanhar, ele estava perto do gol com a bola novamente em seus pés. E então, ela entrou perfeitamente no gol, fazendo o ponto de vitória do time dele. Nem meio segundo depois, o jogo acabou. Todos começaram a gritar e correram para abraçar ele, que havia feito seu terceiro gol no jogo. Seis garotos se jogaram em cima do , enquanto tiravam suas camisas e as jogavam para o alto, comemorando. Eu sorria involuntariamente assistindo a alegria deles, enquanto o campo ia ficando cada vez mais vazio, assim como as arquibancadas. , Lauren e Sam levantaram-se e eu fiz o mesmo, mas continuei parada, esperando . Ele vinha em minha direção; alguns fios de cabelo grudados na testa suada; o peitoral branco, largo e brilhoso de fora; a expressão séria e os olhos penetrantes. Por alguns segundos, eu havia me esquecido de como se respirava, até que ele parou na minha frente, no degrau de baixo, ainda assim, alcançando minha altura.
Entreguei suas roupas dobradas corretamente por mim, e ele sorriu tão abertamente que até seus olhos sorriram dessa vez. Incrível como ele conseguia ser encantador a cada vez que nos víamos.
- Obrigado – ele disse mantendo o sorriso. – Acho que vou pedir para você fazer isso mais vezes. – Eu não estava entendendo mais nada. Aquele dia estava sendo terrível e agradavelmente confuso para mim. Eu não entendia os garotos, muito menos se algum deles se chamasse .
- Por que? – perguntei idiotamente. Alguma coisa tinha que fazer sentido naquele dia maluco.
- Pretexto para poder te agradecer dessa forma. – Ele aproximou o rosto do meu lentamente, colocando uma mão em minha bochecha, fazendo com que seus dedos se encaixassem em meus cabelos. Vi sua boca se aproximar de mim, em direção a minha outra bochecha, tocando-a suavemente, de uma forma que despertasse calafrios que eu nunca havia sentido antes. Não sei se foi rápido ou demorado. Parecia rápido, pois quando ele se afastou, eu senti falta do toque; mas parecia demorado, porque cada segundo foi intenso, como se demorasse mais do que um beijo normal na bochecha realmente duraria. Ele sorriu para mim e seguiu seu caminho, enquanto eu continuava estática, viajando para um mundo muito além do campo de futebol do colégio. E de repente, e suas possibilidades tomaram conta dos meus pensamentos...
Capítulo 3 – Assombração
Terça-feira não era meu dia preferido da semana. E eu não digo isso por ser o segundo dia de aula da semana e sim, porque a minha primeira aula é cálculo. Não importava se na terça minha aula de cálculo era com a , eu nunca estava disposta a encarar polinômios. Eu os detestava, na verdade. Eram tão chatos e cansativos quanto o Sr. Connors, que parecia mais velho do que a escola. E a St. Anne’s tinha mais de cem anos, diga-se de passagem.
Mas eu estava começando a gostar de ir pra escola, porque de alguma forma, ela me parecia mais atrativa. De alguma forma que eu não sabia explicar, por algum motivo que me era desconhecido – ou eu pelo menos pensava que fosse. E aconteceu mais rápido que eu esperava que fosse acontecer. Menos de vinte e quatro horas; eu devo ter batido algum recorde de ter queda por um garoto no menor intervalo de tempo possível.
Eu apoiei minha cabeça em minha mão, e minha mente foi para longe. Talvez não tão longe assim; vagava pelos corredores do colégio, buscando uma pessoa em especial. Eu nunca tinha controle sobre os meus pensamentos, eles nunca, nunca mesmo me obedeciam. E isso nem sempre me agradava, ainda mais quando eu ficava totalmente perdida em um universo paralelo.
Respirei fundo voltando à minha cruel realidade da aula de cálculo. Olhei para o lado e olhou para mim no mesmo minuto. Mantivemos o contato visual por alguns minutos, até que ela resolveu falar.
- Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu? – perguntei confusa.
- Não sei, quem tem que me responder é você – ela sussurrava. – Você está toda aérea, fica se mexendo o tempo todo, e olha para mim com uma cara de quem quer contar alguma coisa...
- Eu? O que eu teria pra te contar? – Arregalei meus olhos tentando entender a falta de sentido naquela situação.
- Não sei... Quem sabe algo sobre . – E lá estava seu sorriso malicioso quando insinua algo.
- Eu acho que você tem problemas...
- Eu acho que você está a fim dele – ela disse naturalmente, como se estivesse dizendo algo do tipo “Oi, meu nome é e eu tenho sérios problemas mentais”.
Bufei um pouco alto e virei para frente, tentando entender aquelas porcarias de números que não faziam sentido nenhum.
- Ah, por favor, ! – exclamou sarcástica. – Você vai mesmo fingir que Briot-Ruffini é mais interessante que ? – Ela riu da minha cara, como se fosse algum absurdo eu tentar prestar atenção na aula.
Respirei fundo tentando absorver o máximo de ar que meu nariz me permitisse, e olhei para ela de novo, mas com uma expressão não muito amigável no rosto.
- Vale a pena dar uma chance. – Ela sorriu e virou-se para frente, para terminar de copiar toda aquela besteira que estava na lousa.
É claro que eu não poderia nem ao menos pensar em considerar o que ela estava dizendo; eu e não éramos iguais e nem ao menos tínhamos algo em comum. Era como se vivêssemos em mundos diferentes; ele, preso ao mundo da banda dele, ficando com todas as garotas que ele quisesse; eu, no meu mundo cor-de-rosa e cheio de ballet, me lamentando por um ex-namorado francês totalmente idiota. Não fazia o menor sentido o que ela dizia, é claro que não fazia.
- Eu acho que você é louca, sabia? – Olhei para ela de novo, mas dessa vez foi por impulso.
- Talvez eu seja louca, mas você me disse na aula de literatura ontem que te deixava sem ar... Isso faz de mim apenas cinqüenta por cento louca, porque essa parte da história eu não inventei.
- Mas eu não sei por que isso aconteceu. Você me perguntou o que aconteceu, e eu respondi. Ele me deixou toda bagunçada desse jeito, mas sem nenhum motivo aparente. Eu o vejo nessa escola desde sempre e nunca havia ficado assim. É claro que não tínhamos aulas juntos, eu mal chegava perto dele. Mas... Ai, não sei! Você quer, por favor, parar de me deixar confusa!?
- , pára de ser idiota. Você e a escola inteira sabem que é a fim de você desde o primeiro ano. – Tá, isso eu realmente não sabia. Quero dizer, eu até sabia, mas ele era a fim de todo mundo, por isso não dei importância.
- Sim, exatamente como ele sempre foi a fim de qualquer outra garota dessa escola. Nada disso vai dar em alguma coisa, . Ele simplesmente resolveu atirar pros lados que ainda não acertou, e acredite, eu não vou ser um alvo. – Ela deu de ombros fazendo com que eu me sentisse um pouco mal por estar julgando a situação de uma maneira irresponsável. Tentei ignorar aquela sensação chata e voltei a prestar atenção na aula. Talvez, divisão de polinômios fosse realmente interessante. Eu só precisava de um pouco de concentração; será que o gosta de matemática? E lá se vai a minha concentração...
Respirei fundo e olhei pro relógio; dois minutos e Briot-Ruffini se tornaria passado. E então, seria a hora de encarar a bíblia gramatical da Sra. Smitters, o que eu achava bem mais interessante do que ter que encontrar o resto e o quociente de um polinômio idiota.
Eu ouvi o sinal e sorri internamente, eu sempre fazia isso quando a aula estúpida de calculo acabava. Levantei rapidamente da cadeira e saí da sala, esperando no corredor.
- ... – ela disse e se aproximou de mim, me abraçando. – Não fique assim, meu bebezinho. – Ela era meio estranha, mas acho que era exatamente por isso que ela era minha melhor amiga. – Olha, você se preocupa demais com essas coisas. Deixa fluir, acontecer, sabe? Pare de se martirizar tanto por uma coisa que ainda não aconteceu. Eu sempre te digo isso, mas você é teimosa demais pra me escutar. – E ela apertou minhas bochechas, como sempre.
- Tá, eu vou tentar, prometo. – Nos afastamos e começamos a andar em direção à nossa próxima aula. – Você ta certa, eu não tenho que sofrer por antecipação, não é mesmo? Afinal, é só um sorriso bonito, e eu fiquei surpresa com o cavalheirismo dele, só isso. Eu realmente não estou a fim de namorar alguém da escola... de novo.
- Por causa do Garret?
- Por causa do Garret e de todos os garotos que eu já namorei ou fiquei, que só foram da escola.
- Qual o problema com os garotos da escola? – ela perguntou um tanto afetada.
- Não sei, eles parecem ter a cabeça no lugar errado, se é que você me entende... – Meu tom transbordava tédio.
- Hum, eu entendo – ela respondeu indiferente. – Mas o pode ter a cabeça no lugar certo. – Seu sorriso malicioso e seu tom provocativo eram especialmente para me irritar. Ela não se esqueceria desse meu surto momentâneo por tão facilmente. Mostrei a língua pra ela e entrei na aula de história. Tédio total para o meu estado de espírito.
História e inglês haviam, em partes, sido aulas rápidas naquela terça. Minha mente se manteve bem ocupada com Rei Henrique VIII, Ana Bolena e normas gramaticais.
O sinal para o intervalo bateu e eu saí da aula de inglês indo diretamente para o refeitório. Eu estava com um pouco de fome, mas não sei se o suficiente para encarar qualquer coisa que saísse daquela cozinha ou para comprar alguma coisa totalmente junk da cantina. Ainda pensando no que eu colocaria no estomago, caminhei pelo corredor, me encontrando com a , que guardava o material no armário.
- E aí, cocota? Prestou atenção na aula de história, ou o Senhor continuou te assombrando? – ela debochou de mim, daquele jeito que só ela sabe fazer.
- Ai, sua chata, chega desse assunto! – Dei língua enquanto ela me abraçava e caminhávamos para o refeitório. – Já deu o que tinha que dar...
- Ou não... – Sua fala ficou pela metade, quando olhei para a mesma direção que ela estava olhando: a nossa mesa. E tinha muita gente naquela mesa, diga-se de passagem. Muita gente mesmo. Além da Sam e da Lauren, tinham mais sete pessoas, sete garotos na verdade. Incluindo ele, o . Senti que o refeitório se mexia ao meu redor, só de pensar que eu teria que me sentar na mesma que ele. Eu tinha que parar com aquela paranóia idiota. Aquelas sensações estranhas eram coisa da minha cabeça, eu tinha certeza disso. Eu iria seguir à risca os conselhos da : nada de sofrer por antecipação, deixar rolar, deixar acontecer. Eu só precisava botar isso em prática, e aí é que a coisa complicava. Porque, teórica e praticamente, não tinha o que deixar acontecer. Porque tudo já estava acontecendo rápido demais, e eu estava cada vez mais confusa. e eu nunca havíamos sido próximos nem nada do gênero. Só havíamos interagido em uma festa, há muito tempo. Eu me lembro perfeitamente de estar encostada na parede com uma garrafa de cerveja na mão, enquanto ele se aproximava – bêbado, deixando bem claro – sorrindo para mim.
“Belas pernas”, ele disse. E segundos depois, balançou a cabeça negativamente com uma expressão meio desesperada e automaticamente, ficou um pouco sóbrio. Ele saiu de perto de mim meio perturbado e eu nunca pude entender o que aquilo significou. Mas fora isso, nunca tivemos qualquer vinculo ou o que fosse. E eu tentava me convencer de que não era nada, porque uma pessoa não pode se encantar por outra em menos de vinte e quatro horas... ou pode?
- ? Você vai ficar paralisada aqui, bem no meio do refeitório? – me tirou daquele pequeno transe segurando meu braço e me puxando em direção à mesa.
- ... – eu disse com o estômago revirado e quase congelado. – Não, não me leva pra lá.
- Oi? – Ela parou bruscamente e me olhou incrédula. – Você tá brincando comigo, né?
- Não, eu não estou brincando com você. – Eu estava provavelmente muito pálida, com o coração acelerado e as pernas bambas. Era difícil de respirar e principalmente de pensar.
- , pelo amor de Deus... se você desmaiar nesse refeitório, eu juro que te bato quando você acordar. É só o , um garoto como outro qualquer, você não está seguindo o que eu te falei. Você deve estar muito apaixonada por ele mesmo, olha só pra você... – Ela quase gritava, e eu jurei que se ela falasse alto mais uma vez, quem ia apanhar ia ser ela. – Pára com esse drama, sua boba. Você vai sentar lá e vai tratar ele como um garoto qualquer, porque é isso o que ele é pra você, não é? Um garoto como outro qualquer, você mesma fez questão de deixar isso bem claro pra mim. – Ela segurou em meus ombros e se abaixou um pouco para poder olhar nos meus olhos. Me tratando como se eu fosse uma louca. – Agora respira, e vamos pra mesa.
- Tá, eu respiro e a gente vai pra mesa. – Eu respirei e fomos pra mesa. E a cada passo que eu dava, eu tentava me convencer de que eu não tinha que estar daquele jeito por causa dele. Porque em dois anos de colégio ele nunca havia feito diferença nenhuma pra mim e não ia ser no inicio do terceiro ano que isso iria mudar. Não mesmo; ele era só mais um garoto no meio de tantos. Era puro encantamento passageiro... Eu já havia passado por aquilo antes, toda garota passa. Eu sabia que logo, logo eu nem ia mais me lembrar de quem era . E a mesa estava cada vez mais perto...
- Ai, por que vocês duas demoraram tanto, hein? – Lauren levantou da mesa quase histérica e puxou eu e , cada uma por uma mão, até a mesa. – Eu quero apresentar os meninos pra vocês. , , , , Charlie, Matt e o Jimmy. – Ela apontou para todos em ordem e enfatizou o último nome.
- Oi! – eles disseram em couro.
- E essas são e . – Ela apontou para nós duas. Estava sendo menos difícil do que eu imaginava...
- Eu a conheço. – se pronunciou apontando para mim. – Temos aula de latim e de geografia ambiental juntos. – Naquele momento as coisas se complicaram mesmo que minimamente, mas se complicaram.
- Ah, sim... Eu vi vocês dois bem íntimos ontem na arquibancada. – Nesse momento, eu olhei para e não soube ler sua expressão. Era um misto de sorriso malicioso com susto, pois ela tinha os olhos arregalados. Ela apertou meu braço como que em um sinal para que eu ficasse calma e nós nos sentamos de frente para eles. Meu maior desejo era matar Lauren lenta e dolorosamente, pela vergonha que me fez passar.
- Bom, nós não estamos íntimos... ainda – ele sorriu e enfatizou a última palavra e os meninos se manifestaram, daquela forma totalmente masculina e infantil. Eu ouvia as risadinhas das meninas e sentia ainda mais vergonha. olhou pra mim e seus olhos estavam sorrindo juntamente com sua boca. Eu sorri de volta, um sorriso amarelo. Ele percebeu o quão sem graça eu estava e tentou amenizar a situação. – O que vocês acharam do jogo de ontem? – E a cacofonia começou. Todos falavam muito, principalmente os meninos, que contavam sobre os gols e as melhores jogadas. Eu apenas concordava vagamente com algumas coisas que me diziam, ou dava respostas monossilábicas às perguntas que exigiam mais do que um simples aceno com a cabeça. Comecei a reparar mais atentamente em , com cuidado é claro, para que ele não percebesse. Ele se divertia com os amigos, gargalhavam alto e conversavam de um jeito meio engraçado, cheios de piadas. Eu sorri involuntariamente e olhei para baixo e, de repente, me ocorreu que eu não me importava tanto assim que ele assombrasse os meus pensamentos. Era uma assombração um tanto quanto agradável. Gostar de pensar nele não significava que teríamos algo, era apenas abstrato. Ele não era para mim, não mesmo...
Capítulo 4 – O medo que disfarça a expectativa
Intervalos como aquele aconteceram todos os dias, até o final daquela semana. Foi a mesma coisa na quarta, e na quinta, e na sexta...
E eu me lembro muito bem da sexta-feira.
Eu já estava no refeitório com as meninas e James era o único menino na mesa com a gente. Estávamos conversando normalmente; eu já estava um pouco acostumada com a presença deles, eram diferentes do que eu pensava. estava do meu lado e falava qualquer coisa sobre o Joe, a sensação da escola. Uma das sensações, na verdade. O assunto foi interrompido pelos seis garotos que chegavam e nos cumprimentavam. , que estava do outro lado, deu a volta pela mesa para se sentar na cadeira vaga do meu lado.
- ? – o chamou e ele parou bem atrás da minha cadeira, olhando para o amigo. – A chave do seu carro está comigo. – , que estava de frente para nós dois, colocou a mão no bolso e tirou um chaveiro cheio de penduricalhos e bem barulhento, esticando-o para . E então, tudo ao meu redor pareceu sumir. curvou seu peitoral sobre mim e apoiou uma mão na mesa, pegando o chaveiro com a outra. Foi totalmente rápido, mas ainda assim intenso; eu conseguia sentir sua respiração bater contra o meu cabelo me causando arrepios da cabeça aos pés. era intenso, eu não poderia negar isso a ninguém. Mesmo com uma atitude tão rápida que poderia ser quase imperceptível, eu senti aquele frio avassalador na barriga. Como ele fazia aquilo? Eu podia sentir seu cheiro extremamente forte, mas extremamente agradável. Um perfume terrivelmente bom que me fez viajar por poucos segundos, mas fez.
- Poderíamos fazer alguma coisa no final de semana – disse brincando com o canudo de seu suco. As coisas estavam ficando um tanto avançadas já, e a escola inteira havia notado; todos comentavam sobre os sete garotos estranhos que agora andavam com as quatro garotas que não tinham muito a ver com eles. Como se fosse o fim do mundo ou qualquer coisa parecida.
- O quê, por exemplo? – Sam perguntou meio entediada e seus olhos verdes pareceram mais escuros naquele momento.
- Hum, não sei! Algum pub, restaurante, ou a casa de alguém que esteja liberada, contanto que a gente faça algo... – tentou parecer indiferente e eu notava seus olhares constantes para , e algo me dizia que eles estavam tentando se comunicar.
- Bom, por mim tudo bem. – Sam também soou indiferente.
- Ah, eu e o James também podemos. – Lauren parou de beijá-lo por alguns segundos para responder.
- Nós também. – Charlie abraçou Matt e passou a mão pelo peitoral dele arrancando risadas de todo mundo.
- Bom, pra vocês quatro – apontou para , , e – tenho certeza de que está tudo certo e pra mim também. – E dez pares de olhos se voltaram para mim. – É, bailarina, agora é com você... – Ela me sorriu irritantemente.
- Eu... não posso! – disse sentindo um peso estranho dentro de mim. – Tenho que treinar, fiquei a semana inteira longe da barra e das sapatilhas e se nesse final de semana eu não treinar pelo menos seis horas por dia, minha mãe surta e acreditem, minha mãe já não é legal quando está normal, imaginem surtada. – Explicações demais para uma simples pergunta. Eu estava nervosa e patética.
Nesse momento, me lançou seu olhar mortal e eu sabia que eu iria ouvir mais tarde. Ela com certeza iria me dar um belo de um sermão por estar dando um bolo em todos eles.
- Podemos deixar para outro dia então – disse meio desapontado.
- Não, sério... Vocês não precisam fazer isso só porque eu não vou, eu posso ir numa outra vez, mas não desmarquem isso.
- Olha, a gente nem tava tão a fim de fazer alguma coisa, não se preocupa, . – sorriu e eu reparei que seu timbre de voz era engraçado. – Não é, gente?
- Sim, claro! – concordou prontamente. – Eu acabei de lembrar que tenho coisas pra fazer nesse final de semana. – não era muito bom em mentir, é claro que tinha alguma coisa muito estranha naquilo tudo.
- Então, nada marcado para esse final de semana, o que é realmente uma pena. – olhou novamente para e se eu não fosse extremamente controlada, teria deixado minha curiosidade falar mais alto e perguntaria o que estava acontecendo.
- Desculpem! – Eu mordi meu lábio em insegurança e quase pensei em contornar a situação com a minha mãe, dando alguma desculpa muito cretina pra não ter que treinar. Realmente, não era uma má idéia, mas eu, ainda assim, achei melhor dedicar meu final de semana ao meu mundinho cor-de-rosa e cheio de música clássica.
- Relaxa, finais de semana não vão faltar. Contanto que você realmente vá... – Eu olhei para e cada palavra sua era como ouvir Muse por vinte e quatro horas seguidas: absurdamente agradável. Seus olhos estavam , mas num tom escuro; eu conseguia ver perfeitamente cada detalhe de suas íris. – É o que importa – ele disse convicto, mas tão vidrado em meus olhos quanto eu estava nos dele. Percebi a grande tensão que nos envolvia e voltei à minha sobriedade.
- É... eu acho que sim – respondi insegura.
Depois de alguns poucos minutos conversando sobre qualquer outra coisa que não fosse o final de semana que eu havia acabado de estragar, o sinal finalmente bateu e eu não tinha certeza se estava pronta para a aula de geografia ambiental. Eu não sabia o que era pior: ouvir o sermão da ou ficar desconfortavelmente estática por cinqüenta minutos dentro de uma sala de aula.
- Vamos para a aula? – chamou já se levantando da cadeira. Naquela hora eu soube o que o pior com certeza não era ouvir um sermão da minha melhor amiga.
- Na verdade, a quer conversar comigo, então você pode ir na frente – respondi desconfortável e ele só assentiu com a cabeça.
E eu preparei meus ouvidos e meu psicológico enquanto me levantava da cadeira e caminhava até a .
- Treinar seis horas por dia? , você é péssima, sabia? – usava um tom meio bravo misturado com deboche. – Não, você é má, muito má! Deixar o pobre do triste porque você não vai poder ir ao “encontro” que ele e os amigos dele planejaram minuciosamente pra que ele pudesse ficar com você é muita maldade, sério.
- Hei, como você sabe disso? Como sabe que ele quer ficar comigo? – Minha curiosidade estava dez vezes mais aguçada.
- Eu reparo nas coisas, e sei bem como os garotos são. Eu vi os olhares do para o e eles eram bem sugestivos. , é sério... Mentir é muito feio! – Ela levantou um indicador e fez uma cara intelectual, o que me fez pensar no quanto minha melhor amiga é esquisita.
- Mas , não é mentira. – Meu tom era infantil, quase uma súplica. – Eu realmente tenho que treinar, ou minha mãe me enterra viva. E você pode estar interpretando toda essa situação de uma maneira errada. O não quer ficar comigo.
- Veremos! – Ela sorriu e piscou um olho. – Agora vai pra sua aula de geografia ambiental com o e vê se não fica olhando muito pra ele como você fez aqui na mesa, ou você vai acabar perdendo o rumo. – Ela gargalhou e sumiu pelo corredor; só Deus sabe pra que aula ela estava indo.
E eu respirei fundo e entrei na sala. Sr. Matthews parecia mais bonito naquele dia, seus cabelos castanhos brilhavam e seus olhos cor de mel estavam mais esverdeados. Ele era realmente bonito e novo; 24 ou 25 anos, e com certeza era o professor preferido de algumas garotas. Talvez fosse o meu preferido, mas por ser extremamente atencioso e simpático. Mas eu também gostava de olhar para ele e de ouvir a voz dele...
Caminhei para o meu lugar e parou de conversar com para sorrir para mim quando me aproximei para sentar. Eu respirei fundo mais uma vez e mentalizei coisas boas, dentre elas, que os ponteiros girassem mais rapidamente do que o normal.
- Turma! – Sr. Matthews virou-se da lousa para nós e chamou nossa atenção. – Quero que vocês façam um projeto que envolva todas as formas de prejuízo ao meio ambiente. Não precisa ser só sobre aquecimento global, já se tornou um clichê e eu realmente confio na capacidade de vocês pra criarem algo novo. Até na sua, . – Ele apontou para e todos na sala riram dele, inclusive . – Desde que você não faça com o , ou o ou o , eu sei que coisas boas sairão da sua cabeça. E sim, é em dupla e não, eu não vou escolher as duplas. Sou um professor legal. – Ele piscou e sentou-se na mesa fazendo algumas anotações.
Legal, eu não conversava muito com todo mundo na aula de geografia ambiental. O com certeza faria com o , o com o , ou eles trocariam, mas fariam entre eles. E é claro que eu não estava interessada em fazer com nenhum deles, muito menos com o . Eu poderia fazer com Jamie White, eu conversava com ela de vez em quando... Era legal e responsável, me ajudou numa peça teatral uma vez. Ou eu poderia fazer com a Kate Miles, ela me adorava. Sempre dizia que adorava ballet e que eu era uma ótima bailarina. É, eu conversava com algumas pessoas na aula de geografia ambiental...
- ! – Sr. Matthews o chamou num tom autoritário. – Venha aqui na frente, por favor. – se levantou assustado e caminhou até a frente da sala, com uma expressão totalmente confusa. – Me surpreenda... Quem é sua dupla? – o professor perguntou ironicamente.
- A – ele disse simples e naturalmente. Acho que parei de respirar naquele momento.
- E não é que ele realmente me surpreendeu? – Sr. Matthews riu com uma expressão engraçada no rosto. – Mas parece que a sua parceira não sabia disso, não é mesmo?
- Bom, eu decidi isso sozinho, na verdade. Mas não faremos dupla, se ela não quiser. – sorriu para mim, como que pedindo por uma resposta positiva. Talvez, se ele parasse de sorrir, eu conseguiria recuperar a minha consciência e responder algo que tivesse algum nexo.
- E então, ? – Sr. Matthews olhou para mim. – Você aceita como seu parceiro de projeto de geografia ambiental? – E todos na sala se manifestaram. Fiquei morrendo de vergonha, mas tinha que dar uma resposta.
- Eu aceito – disse super sem graça e me sentindo um tanto patética. Eu sabia que estava corando.
- Agora você pode se juntar à sua parceira. – Ele virou-se para dando tapinhas em suas costas.
sentou em seu lugar novamente e tocou meu ombro.
- Eu realmente espero que você não se importe... – Ele olhou em meus olhos e eu havia perdido a linha de raciocínio.
- Eu... realmente não me importo. – Limitei-me a responder isso. Qualquer outra palavra e nada mais faria sentido.
- Eu sei que vocês acham um pouco cedo para passar projetos, só estamos com um mês de aula, mas eu queria me livrar disso logo de uma vez. Os projetos não serão para agora, é claro. Vocês terão tempo suficiente para bolar algo muito bom e bem feito. – Sr. Matthews interrompeu nosso contato visual e me trouxe de volta o raciocínio lógico.
E eu dei o meu melhor para me manter concentrada o resto da aula. Respirei aliviada quando, algum tempo depois, ouvi o sinal tocar.
Eu estava pronta para sair, quando, antes que eu pudesse chegar até a porta, tocou meu ombro mais uma vez, e eu me virei para poder olhar para ele, que estava muito próximo de mim, diga-se de passagem.
- Você pretende começar o projeto quando? – ele perguntou inseguro.
- Eu... não sei. Podemos ver isso mais para frente, se você não se importar, é claro.
- Não, eu não me importo. Mas eu vou fazer tudo o que tiver que ser feito, confie em mim. – Ele olhou nos meus olhos novamente, e eu me senti totalmente exposta, como se ele pudesse ler os meus pensamentos ou enxergar através de mim. – Sei que o meu histórico não é dos melhores, mas eu posso mudar.
- Eu confio em você, . – Nossos olhares permaneciam fixos. E então, eu me dei conta de que havia mesmo uma tensão entre nós, algo que eu não poderia explicar, algo que eu nem sabia o que era, mas que existia, porque eu sentia. E talvez ele também sentisse, afinal, ele que começou com tudo isso.
- ! – o chamou tocando seu braço. – Desculpa cortar o clima de vocês, mas as pessoas precisam sair da sala e nós precisamos ir para a aula de sociologia. – Ele sorriu sem graça e eu e despertamos do nosso olhar intimidador e profundo.
- Bom, conversamos depois. – Ele se aproximou de mim e beijou minha bochecha, segurando em meus cabelos. Seus lábios eram como o toque mais macio de todos, me fazendo sorrir involuntariamente.
E minha sexta-feira foi finalizada com literatura e inglês. E com a minha mente confusa e atribulada, é claro.
- , você já acordou? – Minha mãe entrou no meu quarto quase gritando comigo; era sempre assim aos sábados.
- Mãe, que saco! – Joguei o travesseiro em meu rosto quando ela abriu a janela.
- ? – Ela usou um tom mais materno e amigável. – Vamos, por favor... Não posso chegar atrasada na academia, e eu quero que você treine lá hoje.
- Mas pra quê? – Levantei tirando o travesseiro de cima de mim. – Eu posso muito bem treinar em casa. Tenho barra, espelhos, espaço, um chão de madeira...
- E problemas pra se concentrar – ela acrescentou. – Lá na academia você vai se sair melhor, tenho certeza.
Bufei, mas acabei me rendendo.
- Tá, eu vou me trocar. – Levantei da cama e fui até a sala de ballet. – Mas vou levar a comigo.
- Tudo bem... – E eu ouvi a porta se fechar.
Fui até minha mesa de cabeceira e peguei meu telefone, voltando para a sala.
- Alô? – disse meio sonolenta do outro lado.
- Acorda, ! – respondi apertando o botão do viva-voz para poder me vestir e conversar com ela ao mesmo tempo.
- Bom dia pra você também, ! – Ela parecia meio mal-humorada.
- Bom dia, !
- E então...?
- Quero que você vá para a academia comigo hoje. – Eu disse enquanto pegava um collant preto e uma meia-calça da mesma cor de dentro do armário da sala de ballet.
- Pra quê? – Ela bocejou.
- Ah, não quero ficar lá sozinha e entediada enquanto eu treino... E você não vai fazer nada hoje mesmo. – Tirei meu baby-doll bizarro com vários pingüins desenhados e me virei para o telefone, que estava em cima de um banco, enquanto vestia a meia-calça.
- Ai, ... Só você pra me acordar em pleno sábado às 10 da manhã – ela disse num tom não muito amigável. – Mas eu vou com você, temos que conversar.
- ! – Exclamei como se estivesse sentindo dor ou qualquer coisa parecida. – Sério, eu não sei o que você tem pra me dizer, mas se for bronca, eu já tenho a minha mãe pra fazer isso por você, obrigada.
- Chego aí em 15 minutos. – E ela desligou na minha cara.
Terminei de me vestir colocando uma saia jeans e um all star branco. Coloquei as sapatilhas e a saia branca meio transparente dentro de uma bolsa preta e desci as escadas.
- Bom dia, pai! – Ele desviou sua atenção do BBC News por alguns minutos para poder me dar um beijo. Ele deu um gole em seu café eu caminhei para a cozinha.
- Seu cereal já está pronto – minha mãe disse enquanto caminhava de um lado para o outro guardando coisas e mais coisas.
- Cereal? Até nos finais de semana? – perguntei fazendo uma careta. – Hoje vou comer pão com Nutella. – Levantei-me indo até o armário e pegando tudo o que precisava, ignorando qualquer comentário bravo da minha mãe. – Mãe, você pega demais no meu pé, sabia?
- É porque você é a minha única filha, eu tenho que cuidar de você. – Ela sorriu e me pareceu mais maternal naquele momento; nosso relacionamento era feito de rosas também.
Dei a primeira mordida na primeira fatia e senti a produção de endorfina começar. Nutella era, definitivamente, a melhor coisa que já inventaram.
- Você, além de viciada em endorfina, tem esse hábito estranho de tomar leite puro quando come alguma coisa de chocolate. – entrou na cozinha me surpreendendo e pegando a outra fatia de pão que estava no meu prato.
- Eu não acho estranho e nem pense em comer meu pão.
- É estranho e pronto! E eu como seu pão sim, ninguém mandou não me convidar pro café da manhã. – Ela sentou de frente pra mim. – É Nutella, . Estou magoada com você. – Ela fingiu estar afetada e continuou comendo minha outra fatia.
- Bom dia, ! – Minha mãe sorriu pra ela. – Então hoje a resolveu te arrastar pra academia?
- É... O que ela não me pede chorando que eu não faço sorrindo, não é mesmo? Ela vai acabar ficando mal acostumada. – Ela mostrou a língua pra mim e eu cerrei meus olhos.
- já é mal acostumada – minha mãe complementou.
- Hei, dá pra vocês duas pararem com o complô? – Me manifestei um tanto frustrada.
- Tá bom, já paramos. – ela retrucou. – Agora vamos logo! Rápido! As duas!
Eu e saímos de casa e entramos no Range Rover prateado da minha mãe.
Sentei no banco da frente e , no de trás.
- Hoje você não me escapa – ela disse antes da minha mãe entrar no carro e começar a dirigir. E eu fiquei imaginando se ela queria conversar comigo sobre o . Se ela soubesse do que aconteceu na aula de geografia...
- ! – minha mãe chamou minha atenção. – Quero que você reforce seus pliés nas cinco posições dos pés. E quero também que você treine as cinco posições dos braços. Suavidade, delicadeza e graciosidade sempre.
- Não sou graciosa? – perguntei visivelmente afetada e com motivos. Eu fiz ballet durante 16 anos e só agora ela vem me dizer que não tenho graciosidade o suficiente pra isso?
- Claro que não, filha! Não foi o que eu quis dizer e você sabe disso. – Ela me olhou assim que paramos no sinal vermelho. – Mas nunca é demais aperfeiçoar esses três itens no ballet. Você sabe que é graciosa em cada movimento seu. – Ela sorriu e voltou a dirigir.
- Tá, só não precisa exagerar também. – Sorri balançando a cabeça.
ficou em silêncio o caminho inteiro, mas eu bem notei seus olhares maquiavélicos pelo retrovisor do carro. E eu não fazia idéia do que me esperava. Ou até fazia...
- Hoje vou treinar o ballet Junior em tempo integral. Dentro de algumas semanas faremos uma apresentação em Oxford e as meninas precisam estar preparadas. Você vai ficar no salão 4 com a , mas só vocês duas. E se concentre, por favor. – Ela desligou o carro e olhou pra mim. – Eu espero ter tempo pra poder te ajudar a se preparar pra Juilliard. Só preciso me organizar... – E eu decidi não falar nada, não queria gerar uma discussão. Juilliard era meu sonho, mas eu tinha outras opções que eram mais perto de casa. Mas Juilliard era sempre o plano A, a prioridade, a primeira opção...
- Vamos? – olhou pra mim e eu tive medo. Medo do que ela iria me dizer, medo de não ser boa o suficiente para Juilliard. Simplesmente tive medo, mas eu sabia que não valia a pena me sentir daquele jeito.
- Vamos. – Entramos pelas portas de vidro da academia de ballet da minha mãe e ela estava cheia de garotinhas de no máximo nove anos com sapatilhas e collants. Fui passando pelo corredor cheio de salões, até que cheguei ao quarto salão.
Eu e entramos e fechei a porta. Tirei minha saia jeans e vesti a branca que estava guardada em minha bolsa, amarrando cuidadosamente a fita em minha cintura. Peguei minhas sapatilhas também brancas e sentei-me no chão, colocando-as em meus pés. Por alguns segundos fiquei analisando o contraste das fitas brancas com a meia-calça preta em minhas panturrilhas.
- Você não vai treinar? – perguntou já sentada num canto do salão.
- Vou. – Levantei e fui em direção ao rádio colocando Butterflies & Hurricanes do Muse e logo depois fui até a barra e descansei meu calcanhar direito em cima dela, olhando para pelo espelho. – Pode dizer. – E eu descansei minha cabeça em minha panturrilha.
- Bom... você vai treinar ouvindo essa música? Acho que ela é meio dramática demais. – Voltei à minha posição ereta e olhei para ela, rindo logo em seguida. – Tá, eu vou falar logo de uma vez. – Ela passou as mãos pelos cabelos e olhou de volta para mim, enquanto eu descansava minha outra perna na barra. – Que você não estava mentindo quando disse que não poderia sair com a gente eu já sei, mas... Qual é o medo em ficar com o ?
- Como? – Coloquei minha perna no chão, alinhando meus braços na posição preparatória enquanto dava um tendu com a perna para trás.
- Qual é o seu medo em ficar com o ? – ela perguntou novamente, mas um pouco mais firme dessa vez.
- Por que eu teria medo de ficar com ele? – Continuei treinando meus pliés em todas as posições dos pés, enquanto, ao mesmo tempo, treinava as posições dos braços.
- , pára de me responder com perguntas. – Ela pareceu um pouco brava. – Só me responda isso e pronto! Não vai doer, te garanto...
- Eu não sei por que você tá se doendo tanto assim pelo , não sei mesmo. Vocês nem amigos são. Muito pelo contrário... – Parei de treinar por alguns instantes e me virei para ela. – Você é minha amiga e deveria estar do meu lado.
- Mas eu estou do seu lado – ela disse calmamente. – Nunca vou deixar de estar, mas amigos também dão puxões de orelhas quando vêem algo de errado.
- E o que tem de errado nisso tudo? Eu ainda não entendi...
- Não é errado, . Ninguém disse isso. – Ela bufou e respirou fundo. – Mas o é um cara legal e não vejo motivo nenhum para você não dar uma chance a ele.
- , do que é que você ta falando? – Eu não queria ter que admitir que ele mexia comigo, não queria mesmo. Muito menos queria dizer que ele era meu parceiro no projeto de geografia ambiental.
- , presta atenção. – Ela levantou-se e veio até mim parando bem na minha frente. – Eu me lembro bem que no primeiro ano você me disse “Nossa, é realmente bonito!”, e me lembro também que, algum tempo depois, quando você já estava namorando o Garret, você também disse “Se eu não estivesse com Garret, ficaria com o , mas ele me parece galinha demais, estou bem assim!”. Eu me lembro disso. Eu estava falando no quanto achava o Joe lindo e no quanto eu só pensava em ficar com ele, e você disse “Prefiro o , ele é menos convencido”.
- Eu só disse que preferia ele ao Joe, qual é o problema nisso? – Encostei-me na barra atrás de mim.
- Problema nenhum. Mas será que você já percebeu a tensão que tem entre vocês dois? – Fiquei assustada por ela também ter notado isso. – Já viu como vocês dois se olham e como um conversa com o outro? Parece que o mundo some, e vocês dois ficam lá, completamente perdidos, como se pudessem ficar se olhando por horas e mais horas. Eu não fui a única que notou isso. Os meninos notaram, Lauren e Sam também. ... – ela me chamou amigavelmente. – Qual é o problema em dar uma chance a ele?
Senti que precisava colocar tudo aquilo para fora.
- , eu não tenho problema nenhum em dar uma chance a ele. É medo, mas não sei que medo é esse. – Fechei os olhos apertando-os até ficar com a visão turva, e abri-os logo em seguida. – Ele mexe comigo, mexe demais. E eu me apaixonaria muito fácil por ele, é exatamente por isso que eu não vou dar uma chance a ele. Eu sei bem do histórico dele e não estaria preparada pra me machucar se caso ele quisesse acabar com tudo, porque é o que ele sempre faz. Por isso, acho melhor as coisas não passarem desse estágio de pseudo-amizade. – Ela olhou pra mim entendendo exatamente o que eu quis dizer. – Podemos falar disso uma outra hora? – Ela sorriu e assentiu, voltando a sentar no chão. Eu voltei para a barra sem saber qual música tocava. Tentei me manter concentrada depois dessa conversa, mas foi bem difícil. Respirei fundo. – Dá pra acreditar que ele me escolheu como a dupla dele no projeto de geografia ambiental?! – Ri ironicamente para ela que abriu a boca em sinal de descrença. Logo depois, um sorriso malicioso tomou conta da sua expressão.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas parecia ser bom...
Todo inicio de alguma coisa é bom, e eu tinha certeza de que não avançaria; eu não me apaixonaria pelo .
O histórico dele me afastava totalmente; ao contrário dos olhos, do sorriso, do cheiro... tudo isso me atraía.
Mas eu tinha certeza de que podia controlar isso...
Capítulo 5 – Melhorar até piorar
Com os fones do ipod nos ouvidos, eu caminhei apressadamente em direção à London Underground perto de casa. Sentia o vento gelado batendo contra as minhas bochechas enquanto eu lutava pra esquentar meu corpo com um copo de cappuccino da Starbucks. Quando entrei na estação apressei meus passos para poder pegar o metrô que já estava lá. Sentei no banco do vagão reparando que eu não era a única desanimada por ser segunda-feira. Os executivos, as secretárias dos executivos, os filhos dos executivos... Todos com a mesma expressão de tédio no rosto. Respirei fundo e me concentrei no prelúdio de Don’t Confess da Tegan and Sara, aumentando o volume.
Don't think I'll confess
(Não acho que eu vá confessar)
Why would I confess, that I...
(Por que eu confessaria que eu...)
Don't think I'll deny
(Não acho que eu vá negar)
Why would I deny, that I...
(Por que eu negaria que eu...)
Bufei cansada e me mantive concentrada na letra e no ritmo da música, que estavam me deixando um pouco mais mole.
And don't be so hard on yourself
(E não seja tão dura consigo mesma)
You won't get better till you'll get worse
(Você não vai melhorar até piorar)
Yeah you, send a little smile my way
(Yeah, você sorri para mim)
And don't be so hard on yourself
(E não seja tão dura consigo mesma)
You won't get better till you'll get worse
(Você não vai melhorar até piorar)
Yeah you, send a little love my way
(Yeah, você me dá um pouco de amor)
And every second I spend waiting
(E cada segundo que eu perdi esperando)
Drives me closer to this grave
(Me leva para mais perto dessa cova)
I'm not alone, no I'm just on my own
(Eu não estou sozinha, estou simplesmente na minha)
And I...
(E eu...)
It’s a little cold outside
(Está um pouco frio lá fora)
Comecei a pensar em todas as coisas que estavam acontecendo nos últimos dias, e todas essas coisas eram relacionadas ao . Direta e indiretamente. E eu não sabia se era bom ou ruim, eu simplesmente não sabia. De certa forma, eu gostava de sentir aquelas coisas, era bom. Mas por outro lado, eu tinha medo, e esse meu medo era maior que qualquer sensação boa que tudo aquilo pudesse me proporcionar.
Quando notei que estava na estação perto do colégio, senti um medo ainda maior de sair daquele vagão. Eu não tinha a menor idéia de como seriam as coisas depois daquela semana totalmente estranha.
Levantei e andei vagarosamente pela estação até chegar à saída. Continuei com passos lentos pelas poucas ruas que separavam o metrô da escola.
Don't think I'll escape
(Não acho que eu vá escapar)
Why would I escape you
(Por que eu iria escapar de você?)
And don't think I'll replace
(E eu não acho que eu vá substituir)
How could I replace you
(Como eu poderia substituir você?)
Eu vi os portões pretos ornamentais ficarem cada vez mais próximos e senti aquele frio estranho na barriga. Eu iria conseguir encarar tudo aquilo, eu só precisava ser forte e estar certa do que eu queria. Mas eu não estava nem um pouco certa do que eu queria...
And so don't be so hard on yourself
(E não seja tão dura consigo mesma)
You won't get better till you'll get worse
(Você não vai melhorar até piorar)
Send your love my way
(Me dê o seu amor)
- Oi, bonitinha! – me esperava no portão. – Tá bem?
- Eu acho que sim – respondi guardando o ipod na bolsa e entrando no colégio com ela.
- É bom que você esteja, porque hoje sua primeira aula é latim. – Ela passou o braço por meus ombros como se tentasse me confortar.
- Obrigada por me lembrar – eu disse não tão ironicamente. Eu havia me esquecido que latim era a primeira aula de segunda-feira e lembrar daquilo só me fez piorar.
- , eu já disse pra você não sofrer por antecedência, amiga! – ela dizia enquanto caminhávamos em direção à entrada de um dos prédios do colégio. O sinal tocou segundos depois; eu havia chegado bem em cima da hora naquela segunda-feira. – Eu vou pra minha merda de aula de cálculo e você vai pra sua prazerosa aula de latim com o ! – Ela me abraçou e continuou seguindo em frente quando chegamos perto da minha sala. Entrei e notei que não estava, a carteira do meu lado direito estava vaga. Senti-me desapontada por isso e ao mesmo tempo aliviada. Sr. Andrews entrou na sala e fechou a porta. Talvez não fosse à escola naquele dia. Respirei fundo sem saber ao certo o que estava sentindo; eu continuava confusa. Mas por outro lado, eu poderia me concentrar na aula de latim.
- Atrasado, Sr. ! – o professor pronunciou as palavras com desgosto.
Não, eu não poderia me concentrar na aula de latim.
- Me desculpe, eu perdi a hora. – sorriu amarelo e me olhou logo em seguida, permanecendo parado na frente da sala. Mantivemos o contato visual por poucos segundos até eu desviar meu olhar para o caderno e ele se sentar ao meu lado. Era tudo o que eu precisava para ficar desconfortável durante cinqüenta minutos...
Eu me mexia de cinco em cinco minutos, trocando a posição dos braços, das pernas, e até mesmo do cabelo. Graças à minha visão periférica – que poderia estar com déficit naquele momento – eu conseguia reparar que me olhava o tempo todo. Eu conseguia perceber seu rosto virado na minha direção enquanto ele parecia tão nervoso quanto eu. Sentia-me aliviada quando ele olhava para seu caderno ou para a lousa, mas poucos minutos depois seus olhos voltavam a me encarar.
Inspirei o ar bem profundamente soltando-o em seguida em sinal de tédio e desconforto. Dobrei minha perna direita sobre a cadeira, deixando minha esquerda cair por cima dela ficando a poucos centímetros do chão. Comecei a brincar com a barra da minha saia enquanto me sentia cada vez mais ansiosa pelo fim da aula. Eu poderia estar prestando atenção na aula de latim e aprendendo algo para poder passar de ano, mas não... Eu estava pensando em enquanto mexia na barra da minha saia e balançava minha perna esquerda freneticamente. Afrouxei a gravata e abri os dois primeiros botões da minha camisa, me sentindo um pouco mais aliviada depois disso. Olhei para e ele ainda me olhava, mas de um jeito ainda mais vidrado. Seus olhos desceram para meu pescoço e regiões próximas e eu senti um calor estranho, mesmo estando com a camisa aberta. Ele balançou a cabeça e virou para frente, fechando os olhos com força e respirando muito profundamente. Ele parecia tão perturbado e confuso quanto eu...
- Nossa! Gravata afrouxada, os dois primeiros botões da camisa abertos... – me olhou maliciosamente assim que entrei na aula de literatura. – Tudo isso pra seduzir o na aula de latim?
- Claro! – eu exclamei irônica e um pouco alto demais. – Tirei até a minha saia pra ele, ! Só não deu pra ir mais longe porque o professor de latim, além de católico beato, é totalmente antiquado. – Ela me deu um tapa e eu cerrei os olhos em sinal de desgosto.
Eu e trocamos mais algumas poucas palavras durante a aula, mas nada que me impedisse de saber sobre o assunto da aula. Eu já não pensava tanto em , eu sabia que ia ter um fim. Encantamentos são passageiros, uma semana é tempo suficiente para ficar toda boba por alguém. E eu tinha certeza que dia após dia, isso simplesmente acabaria. Mesmo que eu tivesse que ficar ouvindo Lauren e Sam conversarem sobre os meninos na aula de inglês. Não que fosse uma tortura conversar sobre garotos, mas eu estava conseguindo manter esse tipo de coisa longe da minha cabeça e elas simplesmente voltavam com isso falando do cabelo estiloso do James, da forma como o Matt era totalmente sexy e lindo e como o Charlie era a coisa mais fofa do mundo. Eu realmente não tinha problemas com isso, não mesmo. Mas quando o assunto chegava nos garotos do McFLY, eu já não me sentia tão confortável assim.
- O é lindo, mas está a fim da – Sam disse naturalmente com um tom meio petulante em sua voz.
- O quê? – Joguei a lapiseira na mesa e me virei para trás. – Do que vocês duas estão falando?
- Estamos comentando que o belo par de olhos do só enxerga você nessa escola inteira. – E eu achando que tivesse me livrado daquele assunto.
Bufei cansada e continuei olhando pra elas.
- Ah, qual é? – Lauren se pronunciou um tanto inconformada. – Vai dizer que você nunca notou isso? Que tapada que você é, .
- Hei, eu não sou tapada.
- Será que não? – Sam me olhou desconfiada. – Já considerou a hipótese de ficar com ele?
- Não e nem pretendo! – respondi irritada.
- Tapada! – ela disse sem emoção nenhuma. – Tapada e tapada! Olha só o cara que está a fim de você.
- Por que você não fica com ele então? – Usei um tom provocativo.
- Porque não é por mim que ele está se derretendo. – Ela retrucou da mesma forma.
Eu bufei mais uma vez.
- Primeiro, ele se derrete por todas as garotas dessa escola e fode a vida de todas elas depois que resolve descartá-las. – Eu tentei não parecer tão brava quanto aparentava. – Segundo, como você pode afirmar com tanta certeza assim que ele está a fim de mim? Ele já disse isso com todas as letras? – Lauren fugiu do assunto e voltou a copiar a matéria enquanto Sam me olhava com uma expressão ilegível no rosto.
- Dizer ele não disse. Mas a gente percebe pela forma como ele te olha e conversa com você. – Eu dei de ombros e assenti voltando a copiar a matéria. Eu não queria discutir aquele assunto com mais duas pessoas, por mais que essas duas pessoas fossem minhas grandes amigas.
Briguei com os meus pensamentos por um pouco de concentração e ao que tudo indicava, eu havia ganhado a briga. Pelo menos por alguns poucos minutos eu consegui prestar atenção na aula. Mas só até o sinal para o intervalo tocar, o que me deixou com um pouco de medo. E por mais que eu dissesse pra mim mesma que esse medo era coisa da minha cabeça, eu não conseguia ouvir a mim mesma. Porque toda aquela confusão me impedia de ser coerente com o que quer que fosse. E eu achava que poderia melhorar... Mas e se piorasse?
Quando me dei conta, nós três já estávamos no corredor com , James e Matt.
- Hoje nós vamos ficar no jardim se vocês não se importam... Tá meio quente e os outros garotos já estão esperando lá fora – James disse dando um selinho em Lauren enquanto sorria para todas nós de uma forma que eu chamaria de engraçadinha. Todas nós concordamos e seguimos para o jardim atrás de James e Lauren que roçavam seus narizes abraçados. Dei uma risadinha baixa quando ele roubou um selinho dela de surpresa. Matt às vezes era meio quieto, mas era extremamente simpático a cada vez que conversávamos com ele. Ele e Sam conversavam animadamente sobre algo que eu não soube dizer o que era porque, pra variar, estava confinada nos meus pensamentos. Pensamentos que foram interrompidos pela visão distante de quatro garotos em uma mesa no jardim. e estavam sentados na mesa com os pés apoiados no banco, ouvindo qualquer coisa num ipod. estava sentado no banco de uma maneira folgada, com as pernas abertas e esticadas enquanto conversava com sobre algo que parecia ser sério. Eu achava engraçado a forma como eles desrespeitavam a regra do sapato social na escola. Nenhum dos sete obedecia essa regra; estavam sempre de all star ou tênis de skatista, o que me fazia pensar no que eles fizeram para que não fossem expulsos.
Estávamos cada vez mais próximos deles; os metros foram se tornando centímetros de uma forma um tanto rápida.
- Cadê o Charlie? – perguntou quando nos aproximamos.
- Tô aqui! – Ouvimos uma voz atrás da gente. Era Charlie um tanto ofegante e cansado.
- Aonde você tava? – Matt perguntou confuso.
- A diretora me pediu uma rapidinha na sala dela, sabe como é... Não resiste ao meu charme. – Todos nós rimos com a piada, Charlie era realmente fofo.
- Tá, agora fala sério... – James abraçou Lauren por trás e olhou para ele.
- Ela veio reclamar do meu tênis. – Ele apontou para os pés, inconformado. – Cara, ela disse que são horríveis.
- E são mesmo! – eu disse mais para me socializar do que para tirar uma com a cara dele.
- Concordo com a ! – se pronunciou. – Verde bandeira não é exatamente uma cor linda. E não adianta falar que realça seus olhos, porque não realça! – Todos rimos da forma engraçada como ela disse essa frase.
Depois de conversar um pouco mais sobre qualquer coisa aleatória, e levantaram-se da mesa para sentarem na grama de frente para , que continuava no mesmo lugar. Eu e , preguiçosas até o último fio de cabelo, decidimos nos sentar no lugar onde eles estavam. Sentei-me na mesa apoiando meus pés no banco, bem ao lado de . Joguei todo o meu peso para meus braços apoiados atrás de mim e olhei para a nuca dele. Os fios de cabelo bagunçados caíam perfeitamente por ela e contrastavam com o tom de pele extremamente branco. Aquele pedaço me parecia tão convidativo quanto o próprio rosto dele. Lutei contra minha vontade de tocá-lo e me assustei quando seus olhos analisaram cada centímetro meu, começando por minhas pernas até alcançarem meu rosto. Olhei fundo em seus olhos mesmo sabendo que era perigoso, mesmo sabendo que eu poderia estar traindo a mim mesma e às minhas palavras. Balancei minha cabeça e a deitei no banco, respirando fundo. Quando me levantei, notei que passava as duas mãos pelos cabelos. O ouvi bufar e se levantar logo em seguida.
- A gente pode conversar? – Ele olhou para mim de um jeito impaciente.
- Claro! – respondi confusa. Não entendi a súbita vontade dele de conversar comigo, e peguei em sua mão quando ele a ofereceu para mim. Fiquei em pé na frente dele, soltando sua mão quando percebi que a estava segurando por tempo demais. Começamos a andar em direção aos prédios da escola, que ficavam a poucos metros de onde estávamos.
- Treinou bastante no final de semana? – quebrou o silêncio inseguro enquanto andava do meu lado e mexia freneticamente seus dedos.
- Sim, passei a maior parte do sábado e do domingo trancada num salão cheio de espelhos – respondi tentando não mostrar a mesma insegurança. – Não que isso seja ruim, eu amo ballet. Mas às vezes sinto que perco tempo demais fazendo a mesma coisa. – Eu odiava me sentir nervosa, eu falava demais, sempre demais.
- Talvez você devesse sair um pouco mais, não sei... – Ele deu de ombros e nós paramos de andar quando chegamos perto da lateral de um dos prédios da escola.
Eu olhei para a grama que tinha um tom de verde muito vivo, e decidi que esclareceria aquilo com ele de uma vez por todas.
- Aonde você quer chegar com tudo isso, ? – Olhei no fundo de seus olhos e quase não consegui terminar a minha frase.
- Como assim? – Ele olhou para mim ainda mais profundamente e eu tive que me encostar na parede. Eu estava indo relativamente bem, só precisava manter minha sanidade em equilíbrio.
- Você resolve falar comigo do nada e ser legal. Me joga indiretas, me chama pra fazer dupla com você, me pede pra segurar suas roupas no treino de futebol... Me olha e sorri pra mim... – Eu respirei fundo e continuava olhando em seus olhos. Eles me atraíam de uma forma que eu não sabia como explicar.
- Eu... – Ele também respirou fundo e fechou os olhos por alguns segundos, mas os abriu logo depois. Voltou a me olhar daquela forma que só ele sabe fazer, e eu me senti ligeiramente tonta. – Eu... gosto de você! Gosto mesmo... – Ele deu um passo na minha direção e minha respiração começou a ficar descompassada.
- Você gosta de todo mundo, . – Eu me sentia cada vez mais vulnerável. Eu sabia que não resistiria a ele.
- Não, . – Ele chegou ainda mais perto colocando uma mão em meu rosto, e eu tentei me encostar ainda mais à parede, mas era completamente impossível. A distância entre nossos corpos era nula. – Eu realmente gosto de você, e não é de agora. Por favor... – Vi seu rosto chegar ainda mais perto do meu e eu comecei a sentir sua respiração quente de encontro à minha boca. Seus lábios estavam cada vez mais próximos dos meus e eu sentia meus olhos quase se fecharem. Eu estava totalmente fraca, me segurando em seu antebraço, enquanto sua outra mão estava em minha cintura. Quando ele fechou os olhos percebi que eu ainda poderia mudar aquilo...
- Não – eu disse num sussurro. – Não faz isso, por favor, ! – Eu o empurrei delicadamente e ele se afastou um pouco de mim. – Acho melhor deixarmos as coisas como elas estão. – Me preparei para sair de lá, mas quando me virei em direção ao pátio onde ficavam as entradas dos prédios, segurou minha mão e me puxou de volta.
- Por quê? Por que vamos deixar as coisas assim se podemos torná-las ainda melhores? – Ele pegou a minha mão que ele segurava e colocou em seu pescoço, fazendo a mesma coisa com a outra. Senti minha camisa subir um pouco; o toque quente de suas mãos na minha cintura era tão tentador quanto a combinação dos seus olhos juntamente com a sua boca. Ele me puxou para perto e eu olhei para meu lado direito, em direção ao banco onde todos os nossos amigos estavam. Todos os pares de olhos estavam vidrados em nós dois e eles pareciam tão aflitos quanto eu. Percebi que tirava uma nota de cinco libras do bolso e colocava em cima da mesa juntamente com mais algumas notas que estavam lá.
- ... – Mais uma vez minha voz se tornou um sussurro quando senti seus lábios quentes tocarem meu pescoço e plantarem um beijo suave bem perto do meu maxilar. Instintivamente apertei seu pescoço e ele olhou pra mim sorrindo.
- Por favor – sua voz também era um mero sussurro, e eu estava completamente rendida. – É demais pedir pra você confiar em mim? – Seus olhos estavam mais e mais brilhantes do que de costume. Fiquei sem fala e ele, mais uma vez, aproximou o rosto do meu. Vi sua boca extremamente tentadora chegar cada vez mais perto, e tudo o que consegui foi virar o rosto e sentir o toque macio dos seus lábios no canto da minha boca.
- Eu tenho medo, . – Eu me soltei dele com algum sacrifício e fui correndo em direção ao pátio.
- ... – Ouvi gritar meu nome e tudo o que eu senti foi um grande aperto no coração e uma vontade estranha de chorar.
Corri sem ao menos me dar conta do que estava fazendo, pois quando tudo finalmente pareceu fazer sentido, eu estava entrando no banheiro do colégio.
Olhei-me no espelho e nunca havia visto alguém tão pálida em toda a minha vida. Algumas garotas entravam no banheiro e eu sorria suavemente, tentando não parecer alterada. Abri a torneira e passei um pouco de água na testa, fechando os olhos logo em seguida. Quando os abri, estava do meu lado.
- ...
- Não, , por favor... – Interrompi sua fala e saí do banheiro.
- Eu só quero te ajudar, ! – Ela andava do meu lado no mesmo ritmo de passos que eu, em direção aos armários.
- Eu sei, – disse desanimada. – Mas eu não quero conversar agora. – Olhei para ela sentindo o nó em minha garganta e peguei O Pacto em meu armário.
- O que você vai fazer? – ela perguntou olhando o livro em minhas mãos.
- Vou matar aula... – eu disse com receio. – Mas só as próximas duas. Acho melhor eu fazer a última. – Eu a abracei e saí pelo corredor em direção ao jardim dos fundos enquanto todos os outros alunos se dirigiam para as salas de aula.
A cada passo que eu dava, eu me sentia cada vez mais perto daquele jardim praticamente escondido, onde vários alunos matavam aula. Passei pela grade estourada, provavelmente vandalizada por algum aluno do colégio, e entrei no jardim. Alguns rostos conhecidos me olhavam com espanto, como se fosse algum crime matar aula, mesmo que eles estivessem cometendo o mesmo crime que eu.
Abri o livro me concentrei naquela história que eu simplesmente amava. E foi um tempo vago bem gasto. Eu não sentia o peso na minha consciência por estar perdendo aulas... Eu nem sabia quais eram elas. Foi cem minutos que eu passei vidrada em linhas que descreviam um pacto de suicídio entre dois adolescentes, o romance, o sexo, o amor que ia além de muitas coisas...
Quando dei por mim, o segundo sinal bateu, dando inicio a última aula. Levantei-me da grama e refiz o trajeto de volta à escola, tomando o cuidado para que eu não fosse descoberta. Andei vagarosamente, sem pressa nenhuma... Guardei o livro em meu armário e então me dei conta de que a última aula era geografia ambiental. Gelei da cabeça aos pés enquanto meus passos me guiavam pelo caminho sem o meu consentimento. Parei em frente à porta fechada e percebi que todos já estavam dentro da sala. Eu precisava ser corajosa...
- Olhem! – Sr. Matthews olhou para mim sorridente quando abri a porta. – Vejam só se não é a nossa pequena Miss Gauthier – ele me chamou pelo sobrenome da minha mãe.
- Oi! – Acenei sem graça e sorrindo amarelo enquanto todos me olhavam, inclusive . Dei os primeiros passos em direção ao meu lugar, quando o professor me interrompeu.
- Não se sente, – ele disse calmamente. – Eu sei que você e o adoram ficar perto um do outro, mas como eu estava dizendo antes de você entrar na sala, nós vamos para a biblioteca hoje. – Olhei para ele confusa. – Não estou muito a fim de ficar aqui na sala, e vocês já podem ir coletando materiais para o projeto. Aqueles que se importam com isso, é claro... Os que não se importam, podem dar uns amassos entre as estantes; eu vou fingir que não vi nada. – Ele piscou e todos deram risada. Fui a primeira a sair da sala, sendo seguida pela multidão de alunos e pelo Sr. Matthews. Fiquei o mais longe de possível e desejei mentalmente que ele tivesse ficado puto da vida comigo e resolvesse se amassar com alguém na biblioteca para que eu pudesse trabalhar sozinha no projeto, ou pelo menos fingir. E, mais uma vez, minha mente conspirou contra mim. Sentei-me em uma das mesas de mogno da biblioteca, vendo sentar em minha frente logo em seguida. Ele olhou em meus olhos como se penetrasse em meus pensamentos, o que me fez desviar o olhar.
- Então... – ele disse. Olhei para ele novamente, que afrouxava a gravata um pouco mais enquanto eu engolia em seco.
- Eu... eu vou procurar um livro. – Levantei apressada e entrei no meio das milhares de estantes. Fui procurando tudo relacionado ao meio ambiente até que encontrei um livro que pudesse ser perfeito para o projeto. O problema era que estava numa prateleira um tanto alta demais. Bufei e fiquei na ponta dos dedos para tentar alcançar o livro, fracassando totalmente. Bufei mais uma vez tendo plena certeza de que eu não precisava de ajuda, mesmo sabendo que eu estava enganada. Fiquei na ponta dos pés uma segunda vez, tentando me esticar um pouco mais. Foi quando eu senti um corpo se pressionar contra o meu, prensando minha barriga na estante enquanto uma mão segurava em minha cintura e a outra deslizava para cima do meu braço tendo mais sucesso em pegar o livro do que eu.
Voltei meus pés à posição plana enquanto sentia a mão ainda em minha cintura e cada centímetro do corpo dele estava no meu. Senti a respiração bater em meus cabelos, como uma confirmação de quem era aquela pessoa. Não que eu não soubesse, mas tinha medo de estar certa. Ele me entregou o livro e virei meu corpo de frente para o dele.
- ... – minha voz saiu tão fraca quanto eu esperava.
- Shh! – Ele pressionou o indicador contra meus lábios. – Me deixa falar, por favor. – Eu assenti com a cabeça de uma forma quase imperceptível e sua mão se encostou em minha bochecha enquanto seus dedos se encaixavam em meus cabelos. – Eu não sabia da aposta, juro que não sabia – ele disse preocupado. – Foi uma coisa que os caras planejaram entre eles, você não foi uma aposta, nada daquilo foi... – Ele respirou fundo e aproximou o rosto do meu. – Por favor, não faz isso comigo.
- , o que você quer que eu faça? – perguntei quase tonta e sem conseguir respirar.
- Quero que você me beije – Seu nariz se encostou no meu e eu pedi forças para resistir. Eu não conhecia o , a única coisa que eu sabia era que ele usava aquela tática com todas as garotas e que se eu o beijasse, na próxima semana estaria sendo trocada por outra pessoa. Mas não consegui resistir. O hálito dele já estava dentro da minha boca; eu não sabia qual respiração era dele e qual era a minha. Estavam misturadas, eram praticamente uma só. Senti que seus lábios estavam cada vez mais próximos...
- ! ! – Sr. Matthews apareceu de surpresa e nós apenas movemos nossas cabeças para o lado direito. – A diretora está por aqui – ele disse preocupado. – Mas eu vou fingir que não vi absolutamente nada. – E continuou seu caminho.
Empurrei sutilmente para longe de mim e tentei me recompor. Comecei a andar para voltar à mesa enquanto tentava recuperar tudo o que ele me havia feito perder.
- Eu nunca desisto do que eu quero! – Ouvi sua voz ainda um pouco próxima e fiquei pensando se teria como as coisas melhorarem. Ou na pior das hipóteses, se teria como elas piorarem.
Capítulo 6 - Revolução
Acordei incrivelmente cansada naquela terça-feira. Eu odiava não dormir bem à noite, perdendo tempo com pensamentos aleatórios que não me deixavam descansar à vontade. Por uma ironia da rotina, eu tropecei em minhas sapatilhas mais uma vez. Droga, por que às vezes eu me esqueço de guardá-las?
Caminhei sonolenta até o banheiro para fazer o de sempre. Eu demorava exatamente quatro minutos e meio para escovar os dentes e levava trinta e nove minutos para tomar um banho. Eu sabia disso, era a minha rotina. Tudo planejado, calculado, cronometrado nos mais mínimos detalhes... pela minha mãe, é claro. Não que eu não vivesse. Eu vivia e muito, mas geralmente era minha mãe que planejava certas coisas pra mim. E era ela que fazia cara feia quando eu queria ir à alguma festa, era sempre ela. Meu pai nunca reclamou de nada, sempre foi tranqüilo em relação a mim. Acho que se eu pintasse meu cabelo de rosa e colocasse um piercing no mamilo, ele riria de mim e diria “Se inspirando no passado do seu pai, huh?”; era totalmente típico dele. Ele teve uma banda durante e adolescência e ainda tinha a cicatriz do piercing que ele colocou na sobrancelha e só tirou quando eu nasci.
Eu tinha esse incrível costume de devanear durante o banho, pensando em como meu pai e minha mãe se conheceram, em como eles eram (ainda são) completamente opostos, em como a história deles é um tanto irônica... Trinta e nove minutos; eu tinha certeza.
Vesti-me muito calmamente, estranhando o silêncio que dominava minha casa. Minha mãe não me acordou desnecessariamente, não ouvia a voz grave do meu pai dizer algo engraçado que minha mãe não gostava... Não ouvia absolutamente nada a não ser meus próprios passos. Fiquei pronta em menos de quinze minutos e desci para a cozinha imaginando que teria um banquete me esperando para o café da manhã. Doce ilusão...
A casa estava absolutamente vazia, nem sinal do meu pai ou da minha mãe. Havia um recado escrito no painel magnético da geladeira: Tive que ir mais cedo para a academia e seu pai teve problemas na empresa. Não coma porcarias! Te amamos! E NADA de porcarias! Sem sombra de dúvidas aquele recado havia sido escrito pela minha mãe. Nada de porcarias... Doce ilusão número dois.
Fiquei algum tempo parada na cozinha olhando para o nada e quando me dei conta, estava dez minutos atrasada pra pegar o metrô. Abri o armário embaixo da pia, onde eu escondia minhas porcarias, pegando um pacote de Skittles e uma barra de Sneakers. Abri a bolsa em busca do ipod enquanto dava minha primeira mordida naquela barrinha cheia de calorias. Tranquei a porta de casa e quando olhei para frente, tudo parou de fazer sentido. Havia um Audi A3 prateado estacionado na frente da minha casa e estava encostado nele com um joelho dobrado, apoiando o pé na lateral do carro. Meu olhar passou por seus cabelos bagunçados e arrumados, desceu para os olhos cerrados, indo em direção à camisa branca com a gravata afrouxada e dois botões abertos – como sempre –, a calça larga e baixa, o tênis Nike de skatista. Eu andei em frente com o olhar fixo nos olhos dele, enquanto o via tirar uma das mãos do bolso e coçar a nuca.
- O que você está fazendo aqui? – perguntei ainda incrédula com a presença dele.
- Vim te buscar pra irmos juntos pra escola – ele disse simplesmente e sem aparentar muito nervosismo.
- Eu vou de metrô, obrigada! – Estava colocando os fones do ipod nos ouvidos quando sua mão segurou em meu punho suavemente.
- , por favor... – ele disse de um jeito sedoso e eu sabia que não adiantaria dizer não. – Por favor... – ele disse mais uma vez e seu rosto suplicava.
- Essas são as palavras que eu mais tenho escutado de você nas últimas vinte e quatro horas. – Usei um tom meio ríspido. – Mas tudo bem... – Me dei por vencida e ele sorriu esperançoso. Abriu a porta do passageiro para mim e eu me sentei no banco, inalando o perfume dele que inundava cada canto daquele automóvel.
Paramos num sinal vermelho não muito longe da minha casa e o silêncio ainda reinava dentro do carro.
- Eu não mordo – ele disse olhando para mim e sorrindo sem graça.
- É, eu espero que não. – Por algum motivo desconhecido, me senti como Bella Swan, com a diferença que o não era um Edward Cullen. O sinal abriu logo em seguida e ele andou rápido demais.
- Gosto da forma como você mexe na barra da sua saia. – Ele olhou para meus dedos que, freneticamente, brincavam com a barra do tecido xadrez. Como ele sabia que eu tinha essa mania?
- ... – eu disse sem paciência. – O que você sente quando me vê? Seja honesto, por favor. Sua moral já está baixa comigo, então eu acho bom que você diga a verdade. – Ele parou o carro em outro sinal vermelho e olhou no fundo dos meus olhos.
- Eu sinto uma vontade incontrolavelmente louca de te abraçar bem apertado e beijar sua boca de uma forma que te faça perder o ar. Eu sinto vontade de tocar cada centímetro seu e sussurrar em seu ouvido algo que te faça gargalhar bem alto – ele disse de uma forma tão aveludada que por um momento eu quase havia me esquecido de quem ele era. Ele era , perito em garotas, sabia o que tinha que fazer e dizer pra consegui-las.
- Ah, ... Por favor! – eu ri ironicamente da cara dele. – Eu sempre soube que você era bom com garotas, mas essa sua estratégia foi golpe baixo. Sério, eu quase acreditei.
- Você tem sorte de que eu não desisto fácil. – Ele soltou uma risada meio sarcástica.
- Eu tenho sorte? Eu? – perguntei incrédula.
- Sim, você – ele disse simplesmente. – Você quer ser minha tanto quanto eu quero ser seu. Simples!
- Ah, claro – bufei. Ele soltou uma risadinha e o sinal abriu.
Não me esforcei nem um pouco para quebrar o silêncio apesar de odiar esse tipo de situação. Continuei olhando para frente um pouco irritada enquanto via olhar para mim vez ou outra. Ele parou o carro e então percebi que estávamos dentro da escola.
- Te espero aqui no carro na hora da saída. – Ele pegou sua mochila no banco de trás e olhou no espelho rapidamente, conferindo o cabelo.
- Você... não tá falando sério, tá? – perguntei incrédula e sarcástica.
- Claro que eu tô, você acha que eu ia brincar com uma coisa séria dessas?
- Séria? Coisa séria? – Franzi o cenho. – Que coisa séria é essa?
- Meus sentimentos... e os seus também – ele disse da forma mais simples possível.
- Sentimentos? O que isso tem a ver com uma carona? – perguntei confusa.
- É aqui onde tudo começa. – Ele sorriu de lado e eu o olhei de boca aberta.
- Você é louco!
- Sim, eu sou... E você gosta de toda essa situação. Você gosta que eu chegue perto de você e que eu te olhe, você adorou me ver na porta da sua casa hoje de manhã... Se não quisesse minha carona, teria me dado um não bem seco, mas não o fez. – Minha mão coçou para dar um soco naquele rosto lindo que ele tinha, mas eu não consegui fazer nada.
- Você é um... um convencido! – Eu ri irônica e ele sorriu docemente pra mim. – Mas é difícil dizer “não” para você.
- Bom... só ontem você disse “não” duas vezes. – Ele pareceu, afinal, se dar conta de alguma coisa. Sorri vitoriosa.
- Talvez você esteja enganado sobre eu gostar de toda essa situação. Afinal – eu mordi o lábio maliciosa – eu te disse “não” duas vezes. – Levantei dois dedos ao lado do meu rosto, enfatizando a minha frase. Ele soltou mais uma risadinha e saiu do carro.
De repente, me dei conta de que algumas pessoas olhavam pra mim pelo vidro da frente com expressões maliciosas no rosto. Fiquei meio sem reação diante daquela situação e quando dei por mim, estava do meu lado, segurando a porta do carro e estendendo sua mão para mim. Olhei para ele, que sorriu docemente, olhando para sua mão. Bufei e segurei-a, levantando-me e saindo do carro. Ele sorria mais abertamente, enquanto sentíamos todos os pares de olhos sobre nós.
- Um beijo pra completar a cena? – Ele segurou no meu queixo e aproximou o rosto do meu.
- Claro! – respondi irônica e virei meu rosto, fazendo com que seus lábios tocassem minha bochecha.
- Eu não ia te beijar, – ele disse sem parecer afetado. – Você não é um troféu pra mim, tenha certeza disso. Não me importo se tem pessoas pra assistir ou não... O meu sentimento é o mesmo e eu não preciso de testemunhas pra prová-lo. – Dei risada achando tudo aquilo a maior besteira e fui andando em direção aos prédios. De uma forma que eu não soube como aconteceu, estava do meu lado, me acompanhando com a palma da mão em minhas costas. Pensei que se aquilo fosse uma melhora, eu deveria mudar o meu conceito do que é bom e do que é ruim. Era como a famosa cena em que o Edward chegava na escola com a Bella e todos olhavam.
Eu estava sentada na cadeira, pronta pra mais uma tortura, mais conhecida como aula de cálculo. O professor já estava na sala e passou pela porta, apressada.
- É verdade o que estão comentando? – ela perguntou eufórica.
- O que estão comentando? – devolvi a pergunta, sabendo do que ela falava, mas sem ter tanta certeza.
- Você e o juntos! – ela exclamou surpresa. – É verdade? E você nem me conta? Eu sou sua melhor amiga, isso é falta de...
- Não é falta de consideração – eu disse indiferente. – Nós não estamos juntos, ele simplesmente me trouxe pra escola e nada mais.
- Como assim ‘te trouxe pra escola’? – Ela fez uma cara de quem não estava entendendo nada.
- Ai, Deus! – bufei cansada. – Eu saí de casa e ele tava lá, plantado na porta da minha casa, encostado no carro dele, todo atraente e... – Sacudi a cabeça. – Esquece a parte do atraente, foi um deslize. O que eu estou querendo dizer é que ele é insistente demais, e eu achei melhor aceitar, porque se não, eu ia chegar mais atrasada do que já estava.
- Ele é insistente? – Ela arqueou uma sobrancelha como se duvidasse de mim. – E não é atraente? Aham, e você só disse sim porque ele é insistente, e não porque os olhos dele te deixaram tonta e o sorriso dele te arrancou o ar... É, realmente, faz sentido! – Ela riu irônica.
- Droga, ! – Olhei irritada pra ela e respirei fundo, virando o corpo pra frente.
Terça-feira era um castigo pra mim. Cálculo logo de primeira me desgastava totalmente pra encarar uma aula de história e uma de inglês logo em seguida. Respirei fundo ao ouvir o sinal indicando o término da terceira aula, depois de ter quase dormido durante os cinqüenta minutos. Andei calmamente pelo corredor, indo até meu armário. Guardei os livros empilhados de qualquer jeito e senti alguém se aproximar.
- Oi. – Olhei para e ele tinha um sorriso infantil no rosto; parecia que tinha doze anos. Suas bochechas estavam rosadas e ele tinha as mãos nos bolsos.
- Oi. – Sorri para ele. Minhas oscilações de humor eram incríveis, e o mais incrível era que elas só aconteciam com o . Ao mesmo tempo em que eu tentava resistir a ele, eu tentava chegar mais perto para entendê-lo.
- Vamos? – ele disse apontando para o refeitório com a cabeça.
- Vamos. – eu assenti com a cabeça e caminhamos em silêncio até o final do corredor. Eu não sabia por que às vezes me sentia confortável ao lado dele, mesmo que ele me causasse sensações estranhas. Era tudo tão esquisito e contraditório; complexo demais para que eu pudesse tentar decifrar. Acho que talvez, todo esse mistério que nos envolvia era o que me atraía tanto. Querer entendê-lo, querer entender a mim mesma e, a cada dia, ter uma coisa nova pra tentar desvendar. Era tudo tão... desconhecido e novo. E ridículo também. Eu havia dito a mim mesma que não me deixaria levar e eu iria cumprir. Mas passar uns minutinhos perto dele não me fariam mal, certo?
Chegamos à entrada do refeitório e de repente, era como se eu estivesse numa apresentação de ballet: os olhos voltados para nós dois, assistindo a cada movimento que fizéssemos. Olhei para nossa mesa e todos eles sorriam para nós.
- Own, vocês dois! – Sam exclamou com um tom de voz infantil quando chegamos à mesa.
- Samantha! – eu a repreendi. – Não é nada do que vocês e a escola inteira estão pensando. – Eu e nos dirigimos para as duas únicas cadeiras vagas na mesa, que, por incrível que parecesse, uma era do lado da outra.
- E se for? – perguntou num tom desafiador.
- Mas não é! – Eu virei meu rosto para ele e mais uma vez, ele estava tão perto quanto eu esperava.
- Eu já disse que não desisto. – Vi um sorriso esboçado em seus lábios e eles me pareceram tão convidativos que eu comecei a pensar que não resistiria mais.
- Vai sonhando! – bufei e olhei para , que sorria abertamente, sentada de frente pra mim.
O barulho começou quando todos decidiram resolver o que fariam no final de semana. Por sorte, eles não perguntaram quem ia poder ou não, simplesmente planejaram sem muita certeza. Apoiei meus braços na mesa, deixando apenas um deles esticado. Eu estava reparando em minha cutícula quando senti algo macio roçar do meu antebraço até as costas da minha mão. Olhei para meu lado direito e reparei que o braço de estava logo ao lado; seu antebraço roçava no meu; as costas de sua mão roçavam nas costas da minha. Fiquei olhando para o nosso conjunto de peles, a minha mão tão pequena perto da dele...
- Por que você tá tão quieta? – ele perguntou baixinho para que só eu ouvisse.
- Só tô pensando... – respondi vagamente.
- Em quê?
- Em... toda essa bagunça, basicamente. – Eu ainda olhava para nossas mãos.
- Eu posso ajudar a organizar? – Sua voz cantou para mim, como se quisesse me hipnotizar.
- Seria bom, já que é você que tá bagunçando tudo. – Olhei para ele e eu não soube ler sua expressão. Por que gostávamos tanto de nos olhar? A resposta com certeza só viria na sala de aula, já que o sinal bateu logo em seguida.
- As pessoas estão comentando, ! – eu disse quando já estávamos a um quarteirão da escola. Era sexta-feira e e eu íamos embora juntos desde terça. E eu nem sabia por que havia aceitado isso... Era mais forte do que eu.
- Você se importa? – Ele estava sério e com certeza aguardando a minha resposta.
- Não, mas...
- Não precisamos nos importar, – ele disse calmo. – Não precisamos deles e nunca vamos precisar. – O sinal fechou e ele olhou para mim. – Eu gosto mais de quando estou a sós com você!
- Por quê? – perguntei um pouco confusa.
- Porque você parece mais próxima de mim e é exatamente assim que eu gosto de te ter. – Ele sorriu e o sinal ficou verde. – O mais perto de mim possível.
- Por que você diz essas coisas? – As palavras saíram da minha boca sem o meu consentimento.
- Não consigo mais guardá-las dentro de mim – ele respondeu simples e quando dei por mim, estávamos na frente da minha casa. – Bom, acho que te vejo na segunda-feira então... – ele disse olhando para mim de um jeito que eu preferia não descrever. – Eu vou continuar insistindo nisso... em nós dois. – Sua voz era terna fazendo a junção de palavras “nós dois” soar tão convidativa quanto eu jamais pensei que fosse. – Eu gosto de verdade de você e me machuca saber que você duvida disso. – Ele se aproximou calmamente de mim e me beijou na bochecha, quase no canto da minha boca. Senti meu coração acelerar de uma forma que eu nunca havia sentido e sorri para ele saindo do carro logo em seguida. Eu nunca havia caído na real sobre eu duvidar do que ele me falava. Eu sempre fui contra duvidar dos sentimentos das pessoas e eu estava fazendo exatamente isso com o . Eu estava duvidando de algo que era ele que sentia, e não eu. Então, como eu poderia duvidar de sentimentos que não eram meus?
- , por que a gente vai assistir Brokeback Mountain? – me perguntou já sentada no sofá com o balde de pipoca.
- Simples: Heath Ledger – respondi como se fosse óbvio.
- A gente pode ver outro filme com ele – ela sugeriu. – Eu não quero ver dois homens transando.
- , não reclame, por favor. Todos os outros filmes dele estavam alugados, inclusive Batman, então vai ser esse mesmo. A não ser que você prefira ver algum filme nos canais da TV a cabo – sugeri não querendo muito que ela topasse com essa idéia.
- Não, eu já vi a programação de hoje e está péssima. – Ela fez uma careta engraçada e se deu por vencida. – Eu topo ver dois cowboys gays se beijando.
- Ótimo! – Sorri vitoriosa me sentando a seu lado.
A manteiga alagava a pipoca e sujava nossas mãos, enquanto o filme começava. Uma onda de empolgação me atingiu quando vi Heath Ledger aparecer pela primeira vez. Senti um arrepio correr por minhas costas.
- Tudo isso por alguém que já morreu? – desdenhou meu mais puro afeto pelo ator.
- Ele merece o nosso respeito mais do que o Jude Law – eu respondi sem tirar os olhos da TV.
- Você tem idéia do que você acabou de dizer? – perguntou ela e eu percebi o tom de incredulidade em sua voz.
- Não, eu não tenho idéia do que eu acabei de dizer, eu não consigo pensar enquanto o Heath está em cena. Só fale comigo quando ele sumir – respondi ainda hipnotizada.
O filme já estava nos seus vinte minutos quando ouvi a campainha tocar.
- Cacete! Eu não acredito nisso – resmunguei desejando mentalmente que a pessoa que estivesse me incomodando no meio daquele filme se desmaterializasse instantaneamente.
- Você não vai atender? – arqueou uma sobrancelha quando viu que eu não me movi um centímetro.
- Não! A pessoa vai se desmaterializar em alguns segundos. – Sorri irônica.
Ela me deu um tapa no braço enquanto eu pausava o filme.
Coloquei minhas pantufas de coelho enquanto caminhava até a porta. Eu não estava adequadamente vestida para atender um estranho, mas eu não ia me trocar para simplesmente abrir a porta.
Girei a maçaneta e me assustei quando vi quem estava do lado de fora. Os olhos da pessoa passaram de minha regata branca para meu short listrado em tons pastéis, indo em direção às minhas meias três quartos que também eram listradas em tons pastéis.
- Belos coelhos – a pessoa me disse sorrindo.
- ? O que você tá fazendo aqui? – perguntei surpresa.
- Vim te chamar pra sair. – Ele sorriu... tímido?
- , quem é? – Ouvi perguntar e vir em minha direção.
- Ah, , eu estou meio ocupada com a . Combinamos de passar esse final de semana juntas – respondi rezando para que ela não contestasse a minha resposta.
- Eu posso ir embora se você quiser – É claro que ela iria se ver comigo depois.
Mas eu não tive tempo para responder nada.
- Não precisa – respondeu com um sorriso no rosto. – Eu ligo para um dos caras e podemos sair em casais.
Eu o olhei incrédula. Casais?
- Eu acho a idéia ótima – respondeu com um sorriso. – Entre e espere na sala enquanto a gente troca de roupa. – Ela deu passagem a ele. Eu não conseguia processar nada do que estava acontecendo; eu estava certa de que acordaria a qualquer momento com o barulho irritante do meu celular.
- Obrigado – Ele sorriu educado. – Posso usar seu telefone, ? – ele perguntou ainda com o sorriso no rosto. Não tive sanidade suficiente para falar alguma coisa, então simplesmente balancei a cabeça positivamente.
Puxei pela mão, subindo as escadas e entrando em meu quarto.
- Você é maluca ou descerebrada? – perguntei brava. – Eu posso te deixar escolher, se você quiser.
Ela simplesmente riu da minha cara.
- Você vai sair com o ! – exclamou em tom de deboche. – E melhor, vou estar junto pra impedir que você fuja ou faça qualquer coisa que arruíne suas chances com ele. – O sorriso permanecia em seu rosto.
- Eu não acredito nisso – disse incrédula abrindo a porta do guarda-roupa. – Eu poderia te matar agora apenas com a força do meu pensamento, se ele não estivesse ocupado demais pensando no que vai acontecer nas próximas horas.
- , pára com isso. Ele veio até sua casa só pra te chamar pra sair – ela respondeu calma. – Relaxa! Vai dar tudo certo... Eu e algum dos amigos dele vamos estar lá pra qualquer coisa de ruim que venha a acontecer, embora eu saiba que isso é meio impossível.
Eu inspirei fundo.
- Não sei que roupa eu coloco – disse nervosa na frente das minhas roupas, quase entrando no meio delas. Olhei para significativamente.
- Não pergunte, eu sei que você quer que eu te vista – ela sorriu. – Já sei que roupa você vai usar. – Ela abriu gaveta por gaveta e na velocidade de um piscar de olhos, estava em cima da minha cama a roupa que eu usaria no meu primeiro encontro com o .
Uma baby look cinza com desenhos num estilo meio grunge, uma mini-saia jeans e minha bota cor de café sem salto. Era exatamente isso que ela queria que eu usasse para o que, aliás, eu nem sabia como estava vestido; eu não havia reparado.
- Não faça essa cara e se vista logo. – Ela me empurrou para perto das roupas. – Posso pegar aquela sua blusa marrom com uns desenhos estranhos e um ombro caído?
- Embora você esteja me obrigando a fazer isso, eu te empresto a minha blusa marrom com uns desenhos estranhos e um ombro caído – eu usei um tom desolado e ela deu risada. Em alguns minutos, ela já estava vestida com sua calça xadrez skinny em tons de bege, a minha blusa marrom e uma sapatilha preta.
- Eu adorei sua roupa – eu sorri e ela piscou pra mim. – Só não entendo porque eu tenho que usar uma saia tão curta.
- Porque foi essa a roupa que eu escolhi para você, agora pára de enrolar e coloque essa bota de uma vez! – Ela me fez sentar na cama, enquanto eu segurava uma das botas. – Você está linda, – ela disse depois que eu coloquei a última bota e fiquei em pé na frente dela.
- Obrigada, mas isso não diminui meu nervosismo – eu murmurei e ela me empurrou para fora do quarto enquanto apagava a luz.
Eu nunca havia sido tão forçada a fazer algo em minha vida.
- , será que dá pra você descer as escadas ou eu vou ter que te empurrar? – ela dizia atrás de mim enquanto eu analisava os degraus na minha frente.
- Se você me empurrar, eu vou poder adiar esse encontro – eu sorri olhando para ela.
- Dá licença. – Ela passou na minha frente, me puxando pela mão para descer as escadas com ela.
Ela pigarreou e se levantou do sofá olhando para nós duas.
- Como agora você não tem coelhos nos pés, vou ser obrigado a dizer que você tem belas pernas – ele disse sem constrangimento nenhum.
- Obrigada. – Eu sorri me sentindo constrangida o suficiente por nós dois.
Um silêncio que me deixou mais constrangida se instalou por alguns segundos, até que o quebrou.
- Eu já liguei pro , ele está nos esperando na casa dele.
- ? – perguntou não muito animada e eu senti vontade de rir dela.
- Sim, ele mesmo. Algum problema? – ele perguntou parecendo preocupado.
- Na verdade não. É que ele é um tanto agitado, me parece meio louco. – Ela brincava com os dedos meio nervosa.
- Ah, não se preocupe. O é louco por inteiro mesmo – ele respondeu divertido e eu não pude mais segurar a minha risada.
sorriu amarelo e eu peguei a chave de casa que estava em cima do aparador cor de tabaco repleto de porta retratos.
- Vamos? Não podemos deixar esperando. – Sorri maquiavélica para ela que ainda parecia desanimada.
Eu abri a porta e enquanto eles saíam de casa, eu me lembrei de que precisava avisar meus pais sobre a minha breve saída.
- Vou deixar um recado pros meus pais na cozinha e já volto – eu disse a eles que já estavam no caminho cimentado que ia até o começo da calçada.
Corri para o gabinete que ficava no centro do cômodo, escrevendo que havia saído para dar uma volta com a , destacando o papel do bloco e o colocando embaixo de um imã na geladeira. Pedi mentalmente que eles não voltassem pra casa antes de mim e saí da cozinha. Quando voltei, reparei que e conversavam e riam de alguma coisa, parando assim que eu apareci na porta.
- Agora podemos ir – eu disse depois de trancar a casa.
- Sim, claro – respondeu e se virou para . – Você se importa se a for na frente comigo? – ele apontou para o carro parado perto do meio-fio.
- Claro que não – ela sorriu significativamente para um de nós dois, ou para nós dois, eu não soube definir.
Eu respirei fundo e segui até o carro, reparando, pela primeira vez na noite, nas roupas que ele usava. Sua camisa pólo listrada de cinza e vermelho caia perfeitamente bem em seus ombros largos e os três únicos botões estavam abertos, deixando o começo de seu peitoral liso à mostra. Sua calça jeans era larga e usada no meio da bunda, deixando a boxer xadrez aparecer; o cinto preto com rebites combinava com o tênis Nike estilo skatista. Fui despertada de meus pensamentos quando eu o vi segurando a porta do passageiro para mim.
- Obrigada – eu agradeci sem jeito me sentando no banco.
Eu olhei pelo retrovisor para no banco de trás; ela tentava me passar alguma segurança, mas o contato visual só durou alguns segundos, até que entrou no carro.
Ele ligou o rádio e If I Fell dos Beatles estava tocando.
- Você quer mudar de música ou colocar na sua estação de rádio preferida? – ele perguntou atencioso.
- Não, eu adoro Beatles – eu sorri para ele, que sorriu de volta. Olhei para pelo retrovisor novamente, e ela também sorria.
- É bom saber disso – ele sorriu olhando para frente.
Ficamos alguns minutos em silêncio, até que paramos em frente a uma casa amarela clara e grande, onde esperava sentado nos degraus da porta com os fones do ipod nos ouvidos.
buzinou e ele guardou o aparelho no bolso de sua calça também larga e veio em nossa direção, entrando e se sentando no banco de trás.
- Oi, cara – passou o punho fechado por entre os nossos bancos e o tocou com seu punho também fechado.
- Oi, e ! – ele disse daquele jeito engraçado e extrovertido dele nos fazendo sorrir. – Já sabe o que vamos fazer, ?
- Hum... Na verdade, não. – pareceu inseguro pela primeira vez na noite. – Eu pensei em... – Sua fala foi interrompida pelo celular que tocava. – Alô? – ele atendeu quando paramos num sinal. – Oi, Matt, e aí? Vocês estão aonde? Certo então. – Ele sorriu de lado. – Te vejo daqui a pouco, cara. – Ele desligou o celular e olhou pro retrovisor. – Que tal o Oxygen lá no centro? Tá todo mundo lá.
- Ótimo, eu adoro lá! – falou empolgado. – E vocês, meninas?
- Sem problemas. – parecia mais solta e menos preocupada.
- Por mim tudo bem também. – Eu estava cada vez mais tímida.
abriu um sorriso tão lindo, que eu sentia tudo ao me redor se mexer.
O caminho havia sido um tanto quanto silencioso, enquanto minhas mãos pareciam ter vida própria e batucavam em minhas pernas no ritmo da música que tocava no rádio. Eu estava nervosa, isso era fato. Mas eu não imaginava que era tão evidente que eu estava insegura, até que entrelaçou sua mão na minha. Senti que a velocidade das batidas de meu coração havia triplicado, enquanto eu tentava manter minha respiração uniforme.
Em um ato de coragem, eu olhei para ele, que mantinha os olhos fixos nos tráfego com um sorriso no canto dos lábios. Em outro ato de coragem, eu juntei minha outra mão às nossas já entrelaçadas. Tive medo de olhá-lo de novo, então preferi me concentrar em outra coisa. Fiquei olhando nossas mãos entrelaçadas, ali em cima de minhas pernas, enquanto minha outra mão livre acariciava a pele quente dele. Suas mãos eram grandes e fortes, a pele era macia e tão branca quanto a minha; eu estava tão extasiada pelo toque dele, mesmo que fosse mínimo, que não havia reparado que já estávamos no centro, procurando algum lugar para estacionar. Eu não sabia como estavam as coisas entre e , eu não sabia se tinham conversado entre si, ou comigo, ou com ; eu só sabia que estava me sentindo bem com ele ali do meu lado, segurando minha mão.
- ? – Ouvi me chamar e me despertar do meu pequeno transe. – Nós já chegamos. – Ele sorriu encantadoramente.
- Ah, claro – eu o olhei tímida e envergonhada. Com algum sacrifício, soltei minhas mãos da dele e desci do carro, reparando que mais a frente estava o Big Ben e a London Eye. já estava do meu lado, batendo a mão na minha, me olhando maliciosamente, como se tivesse visto o que aconteceu no carro. apareceu do meu outro lado, passando o braço por minha cintura, me trazendo para muito perto de seu corpo.
- ! – Matt gritou chamando nossa atenção para a mesa deles, que estava do lado de fora do Oxygen, um dos pubs mais conhecidos de Londres.
Andamos até a mesa quase lotada e nos sentamos depois de cumprimentarmos todo mundo. estava do meu lado como sempre, mas seu braço estava em meus ombros e me mantinha bem próxima dele. Eu sentia o seu cheiro forte e agradável enquanto seus dedos faziam um carinho gostoso em meu braço.
- Ai, vocês dois! – Lauren exclamou de um jeito fofo. Todos na mesa nos olharam também de um jeito fofo.
- São lindos – Sam disse boba. Eu dei risada sem graça enquanto sentia beijar minha bochecha. Estava finalmente acontecendo; meu encontro com . Eu não sabia se estava acreditando ou não, mas não queria pensar nisso.
Conversamos, e bebemos muita cerveja; nossa mesa estava forrada de garrafas de Heineken. se levantou para ir ao banheiro e eu continuei observando tudo e todos na mesa.
- – me chamou e todos na mesa me olharam atentos. – Eu gostaria de pedir desculpas pela aposta naquele dia. O não estava envolvido, foi só uma brincadeirinha boba entre a gente. – Ele coçou a cabeça sem graça. – Sabe como é... uma garota como você dar bola pro e coisa e tal. Se você não estivesse aqui, eu não acreditaria quando o me contasse que saiu com você. – Senti minhas bochechas ficarem vermelhas enquanto tentava entender o que ele estava querendo dizer com “uma garota como eu”.
- Tudo bem, . – Sorri suavemente. – Isso não pode ser tão inacreditável assim. – Ou será que podia? Todos riram e eu comecei e pensar em tudo aquilo. – Eu já volto! – Levantei-me da mesa e fui em direção ao Tâmisa, que ficava em frente ao pub. Apoiei-me em uma das grades, assistindo o movimento calmo e quase invisível das águas, em seguida olhando para a minha frente, onde prédios iluminados e altos contrastavam com o céu escuro.
- É lindo, não é? – Senti duas mãos em volta de mim, se apoiando na grade, enquanto a voz aveludada e suave falava em meu ouvido, me causando arrepios.
- É sim – foi a única coisa que o meu cérebro me permitiu responder.
- Mas eu prefiro você. – A voz continuava próxima do meu ouvido, mas as mãos agora estavam em minha cintura, e me puxavam para perto de seu peitoral.
- – eu disse com a voz falha quando senti seu queixo se apoiar suavemente em meus cabelos.
- Shh, não diz nada – ele disse com uma voz rouca e baixa. – Está ótimo desse jeito!
- A e o ... – eu disse ainda com a respiração falha e o corpo rígido. Mas estava realmente preocupada com os dois, totalmente sem motivos.
- A e o estão se divertindo mais do que você pode imaginar. Acho até que serão o próximo casal da turma – ele disse num tom atencioso. – Agora relaxe o corpo, eu não vou fazer nada que você não queira. Na verdade, ficar assim já é suficiente pra mim. – Eu relaxei meu corpo e coloquei minhas mãos em cima das suas, que ainda me envolviam pela cintura. Encostei minha cabeça em um de seus ombros e ficamos daquela forma por algum tempo, que poderia durar mais do que eu deveria querer que durasse. Fiquei pensando no quanto aquele momento era clichê e no quanto era a última pessoa com a qual eu me imaginaria vivendo um momento como aquele. Talvez ele realmente estivesse decidido a me conquistar e por isso estava fazendo coisas tão legais. Ou talvez ele fosse diferente do que eu imaginava. Eu estava pensando demais em todas as possibilidades e probabilidades dos sentimentos dele por mim, e esse era o meu mal: pensar demais em tudo e me preocupar com coisas pequenas ao invés de torná-las ainda menores. Respirei fundo, tentando colocar na minha cabeça que aquele momento era real.
- No que você está pensando? – ele perguntou meio preocupado.
- Na verdade, eu não sei... Acho que estou tentando digerir tudo isso – respondi confusa.
- Tudo isso significa eu te chamar pra sair e estar num momento um tanto quanto meloso com você? – O tom de voz dele era divertido.
- Basicamente isso – respondi no mesmo tom.
- Estou sendo brega demais? – Ele deu risada mantendo ainda o tom de divertimento na voz.
- Não, apenas... diferente demais do que eu esperava que fosse – Minha voz saiu séria.
- O que você esperava que eu fosse? – Agora eu o senti sério e ao mesmo tempo ansioso pela minha resposta.
Tive medo de dar a resposta. Pensei se seria melhor se eu amenizasse as coisas, mudando um pouco minhas palavras, mas eu queria jogar limpo com ele.
- Eu esperava que você fosse um garoto que se diz de todas as garotas, e não de uma só, como você está parecendo agora. – Senti um nó em minha garganta. – Eu sempre vi você com várias garotas, mas não tratando-as da forma como me trata.
- Você é diferente delas. Eu só sou um garoto de apenas uma garota porque eu encontrei você – ele respondeu beijando meus cabelos.
- É cedo demais pra você dizer isso – eu disse preocupada.
- Três anos não é cedo demais – ele contestou.
- Três anos?
- Desde o primeiro dia do primeiro ano, que foi a primeira vez que eu te vi. É claro que isso não me impediu de ser um garoto de várias garotas, mas foi só porque eu achava que não podia ter você.
- O que te fazia pensar isso? – perguntei ainda mais confusa do que antes.
- Você – ele respondeu convicto.
- Eu? – Será que tinha como ele me deixar ainda mais confusa!?
- Sim. A sua beleza e o Garret, é claro.
Dei risada.
- Minha beleza, ?
- Sim, olhe para você. É tão delicada e tão diferente de todas as outras garotas. Você atrai a todos os garotos daquela escola. – Ele estava mais sério.
- Como você sabe disso?
- Porque, veja bem, eu já conversei com vários garotos daquela escola, e sempre comentamos de garotas, e você sempre estava na conversa. Acredite, se você não era a primeira na lista de algum deles, não ficava da terceira para baixo com certeza.
- Isso é verdade? – perguntei surpresa. Recebi um ‘uhum’ abafado como resposta. – Mas a maioria deles nunca tentou nada.
- É porque eu já havia deixado bem claro que você era minha e que se eles quisessem entrar na briga, eu estava nela para vencer – ele disse num tom divertido e determinado.
- Você não existe e nada disso é real. – Balancei a cabeça negativamente. – É tudo obra da minha imaginação fértil e sonhadora.
- Você está errada. Eu existo e sou completamente real, assim como meus sentimentos – ele disse e eu não consegui responder nada. Eu tinha medo de estragar o momento com qualquer coisa idiota e não-pensada que pudesse sair da minha boca. Continuei sentindo sua respiração perto do meu ouvido enquanto fechava os olhos e me perdia em seu toque e seu cheiro. Aquele momento, o que estava acontecendo, o , tudo aquilo era uma revolução na minha vida, uma revolução que eu desejei secretamente, escondendo até de mim mesma.
- Eu espero que você tenha gostado da noite. – ficou de frente pra mim quando paramos da porta da minha casa.
- Eu gostei bastante – disse tímida.
- Foi importante pra mim. – Ele olhou para nossas mãos entrelaçadas. Eu sorri de leve. – Te vejo segunda-feira. – Ele se aproximou de mim e deu um beijo quente em minha bochecha. Me arrepiei com o estalo baixo dos lábios dele na minha pele.
- Você não vai... me beijar? – perguntei sem pensar.
- Não hoje! – Ele sorriu e eu o olhei confusa. – Eu guardo expectativas grandes pro nosso beijo, então não vamos apressá-lo como eu andei fazendo esses dias. – Ele soltou as mãos das minhas. – Quero que você se apaixone por mim antes disso.
- E você? Não vai se apaixonar por mim. – Eu não sabia o que estava falando ou fazendo, simplesmente me deixei levar pelo meu coração.
- Eu? – Soltou uma risadinha. – Eu já sou apaixonado por você desde sempre, garota! – ele disse sem medo nenhum e com um sorriso lindo nos lábios. Entrou no carro e deu uma piscada pra mim antes de ir embora. E ele mal sabia que havia conseguido me conquistar.
Capítulo 7 – Nem tudo é o que realmente parece
Não vou poder te levar pra escola hoje, estou sem carro. Mas estou contando os segundos pra te ver na aula de latim...
xx, !
Um torpedo do foi meu despertador naquela segunda-feira. Sorri me espreguiçando e pensando se as coisas estavam do jeito que deveriam estar. Bem, era uma coisa com a qual eu poderia ocupar minha mente durante os minutos que eu passaria no banheiro, fazendo a minha higiene diária. E não seria ruim pensar que uma nova surpresa poderia acontecer naquele dia, afinal, a especialidade do era me surpreender. E eu meio que gostava disso, já era hora de parar de negar. Se ele havia me provado que era diferente e que gostava mesmo de mim, por que eu iria recuar? Sorri boba com isso e entrei no banho, onde mais pensamentos me fariam companhia.
Em exatos trinta e nove minutos eu já estava me vestindo para tomar café da manhã, com uma empolgação que assustou até meu pai.
- Vai ver o Sr. Matthews hoje, é? – ele perguntou malicioso.
- Pai! – soltei um gritinho agudo. – De onde você tirou essa idéia?
- Ah, você me disse uma vez que achava ele bonito. – Ele tomou um gole de café. – E ele tem pinta de músico, gosto dele.
- Novidade! – eu disse irônica. Ele gostava de todo mundo que parecia meio indie ou sabia tocar guitarra.
- Eu tava pensando... – ele disse despreocupado. – Acho que a Highway to Hell poderia relembrar os velhos tempos. Faz tempo que eu não subo num palco com os caras. – Sorri irritantemente pra minha mãe que revirou os olhos; ela não era muito fã do passado do meu pai. Eu e ele nos entreolhamos com cumplicidade.
Comi meu cereal em silêncio, enquanto ouvia meu pai cantarolar Stairway to Heaven do Led Zeppelin. Ri baixinho e coloquei a tigela na pia.
- Tchau, meus progenitores preferidos. – Mandei beijinhos no ar. Sincronizadamente, os dois me olharam com uma cara meio bizarra. – Tchau meu rockstar preferido! – Dei um beijo forte em meu pai. – Tchau minha fresquinha preferida. – Fiz o mesmo com a minha mãe e ela deu uma meia risada. Coloquei os fones do ipod nos ouvidos e sorri idiotamente para o que quer que fosse aquilo que eu estava sentindo.
Eu andei empolgadamente apressada pra aula de latim, ouvindo Beautiful Day do U2. Realmente, era um dia lindo, pensei sorrindo e entrando na sala logo em seguida. estava em seu lugar olhando para o relógio de pulso e sorriu pra mim quando notou que eu havia chegado. Retribui seu sorriso imaginando que o dia não poderia ficar mais perfeito e sentei em meu lugar, que era ao lado dele, é claro.
- 7205 – sussurrou baixinho pra que só eu ouvisse.
- O quê? – perguntei confusa.
- 7205 segundos. – Ele sorriu e eu arqueei uma sobrancelha. – Foi o tempo que demorou pra eu te ver, desde o momento em que mandei a mensagem no seu celular.
- Você realmente contou?! – Não sei se soou como uma pergunta.
- Eu disse que estava contando. – Suas bochechas ganharam um tom mais rosado. – Pra quem agüentou quase 1095 dias esperando, o que são apenas 7205 segundos? – Naquele momento, as minhas bochechas ganharam o mesmo tom que as dele, mas estavam provavelmente mais avermelhadas. – E eu acho que não me importaria de esperar mais 1095 dias ou 7205 segundos... Doeria, mas eu esperaria se tivesse a certeza de que você seria minha no final.
- E você tem essa certeza? Eu vou ser sua? – Sorri desafiadoramente.
- Vai – ele disse sem ao menos pensar e com uma convicção que me fez acreditar em suas palavras.
- É mesmo? – Usei um tom meio irônico. – Quem te disse isso?
- O destino me disse assim que eu te encontrei. Eu olhei pra você e ele sussurrou no meu ouvido “aquela garota vai ser sua”. – Ele me sorriu de um jeito tão contagiante que foi inevitável não sorrir junto. Senti meu coração acelerar e uma sensação nova e maravilhosa tomou conta de mim naquela hora. Eu só queria sorrir e gritar, e cantar, e pular, e parecer uma retardada sem me importar com as outras pessoas. Eu tive certeza de que seria impossível prestar atenção na aula de latim naquele dia, ainda mais com do meu lado, que ficava me olhando o tempo todo e às vezes me chamava simplesmente pra sorrir pra mim.
Ouvi o sinal tocar e arrumei minhas coisas vagarosamente pra aula de literatura. Levantei e percebi que não estava mais na sala, e estranhei ele ter saído com tanta pressa. Quando passei pelo batente da porta, senti uma mão grande me puxar pela cintura e me encostar na parede suavemente.
- Te vejo daqui a 100 minutos ou 6000 segundos. – Ele encaixou uma mão nos meus cabelos e trouxe seu corpo pra mais perto do meu, dando um beijo suave no meu pescoço. Fechei os olhos sem me importar com quem pudesse ver e me concentrei nos lábios dele que demoraram pra se afastar da minha pele. – Eu preciso beijar você. – Ele aproximou o nariz do meu e senti suas palavras mergulharem direto na minha boca. – Mas não posso fazer isso agora... Ainda não é o momento certo. – Ele se afastou e eu o olhei confusa. Ele sorriu e andou em direção à sua próxima aula. era meio confuso; há uma semana estava tentando me beijar, e agora estava adiando esse momento por expectativas. Eu não estava entendendo o jogo dele, mas estava gostando de estar nele.
e eu estávamos mais do que envolvidos, eu não saberia explicar como ou por quê. Sabíamos o que queríamos e no que pensávamos, e mais do que isso, sabíamos o que iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Eu ainda estava um tanto insegura sobre os sentimentos dele, mas havia prometido a mim mesma que não julgaria o que ele sentia e que se houvesse alguma oportunidade, eu com certeza daria uma chance. Não falamos muito no intervalo; ele estava mais preocupado em passar o braço por meus ombros e me acolher em seu peito, e eu estava mais preocupada em sentir seu cheiro.
Na aula de geografia ambiental nos mantivemos concentrados no Sr. Matthews que falava algumas coisas sobre o projeto, como seria apresentado e qualquer coisa do tipo. É claro que às vezes eu sentia as mãos de repousarem em meus ombros, o que me fazia sorrir boba. De vez em quando, seus dedos se emaranhavam nas pontas do meu cabelo, fazendo um carinho gostoso, que me fazia relaxar completamente. estava começando a descobrir meus pontos fracos sem nem ao menos ter intimidade comigo. Talvez não fosse preciso...
Quando faltavam 6 minutos para a aula acabar, me lembrei do ocorrido na biblioteca, e me lembrei que Sr. Matthews havia visto.
- Sr. Matthews? – eu o chamei, parando de frente para ele que estava debruçado em sua mesa, corrigindo algo.
- Olá, . – Ele sorriu pra mim com seus olhos mel esverdeados me analisando atentamente. – Aconteceu alguma coisa?
- Hum... na verdade... – Cocei a nuca um tanto sem graça. – É que eu queria dizer que o que o senhor viu na biblioteca semana passada não era o que parecia. – Olhei para meus sapatos, voltando ao contato visual com ele logo em seguida. – Desculpe por aquilo, eu e o não estávamos...
- – ele me interrompeu com um sorriso. – Você não tem que me explicar nada, e muito menos pedir desculpas. É claro que a biblioteca da escola não é bem um lugar pra se dar uns amassos, mas eu não me importo com isso; dou minha aula pra quem quiser prestar atenção – ele disse simpático. – E você e o formam um casal bonito. – Eu corei e balancei a cabeça, não me importando com o que ele havia dito. O sinal tocou e quando me virei para voltar ao meu lugar, não estava mais lá. Me senti um pouco desapontada por isso, mas arrumei minhas coisas e me dirigi para fora da escola. E como eu gostaria de não ter feito isso, pelo menos naquele momento...
Avistei do lado de fora do portão, em frente ao seu Audi A3. Ele havia me dito que estava sem carro naquele dia. Andei mais um pouco e vi dois braços passarem por seu pescoço e um rosto afundar perto do seu cabelo. Uma garota sorridente o abraçava indiscretamente bem em frente à escola e eu senti meu coração parar naquele momento. Eu sabia que não devia ter confiado nele, eu sabia. Sentia a raiva invadir cada pedaço do meu corpo e uma vontade muito forte de chorar. Dei mais alguns passos e vi duas garotas saírem do carro dele e pensei que pudesse dar um soco nele ou então, dar um soco em mim mesma, pra aprender a não cair na rede de qualquer imbecil.
- ! – chamou meu nome e olhou pra mim; eu estava bem perto dele.
- A gente... conversa depois, – eu disse de volta e virei as costas indo em direção ao metrô.
- Merda! – Ouvi exclamar um pouco antes de colocar os fones no meu ouvido.
havia me mostrado que era diferente, mas nem tudo era o que realmente parecia.
Eu começava a me alongar com mais força que nunca, como se eu pudesse me esticar a ponto de me enrolar como um novelo de lã. Eu não queria ficar pensando na cena desagradável de ver o dando em cima de outra garota. Ensaiar ia me manter ocupada por um bom tempo. Eu iria me esquecer dele ou de qualquer coisa que me pudesse lembrá-lo. Apocalypse Please tocava no rádio, e eu sentia dor nas minhas juntas devido à força que eu fazia no alongamento. Comecei a dar alguns saltos, batendo meus pés com força no chão de madeira. Eu não sabia bem o que estava fazendo, mas pra quem visse de fora, eu estava ensaiando. Sim, eu estou ensaiando, pensei com raiva e logo em seguida, a campainha tocou. Xinguei mentalmente a pessoa que me atrapalhava e minha mãe por ter resolvido sair de casa justo naquela hora. Olhei-me no espelho e vi que eu parecia qualquer coisa, menos graciosa. O collant preto, a saia branca meio transparente, a meia-calça branca, a sapatilha salmão... nada daquilo me fazia parecer graciosa perto da minha expressão cheia de raiva. Respirei fundo e rezei para que fosse que estivesse tocando a campainha.
Desci as escadas em um pulo, indo em direção à porta.
- ? – perguntei incrédula.
- Oi, ... Eu posso entrar? – ele perguntou sem jeito e eu dei passagem a ele. Por mais brava que eu estivesse, eu não poderia deixar de ser educada.
- O que você está fazendo aqui? – Meu tom de voz era ríspido.
- Eu... quero conversar com você, se você não estiver ocupada é claro. – Seu tom de voz era macio e a expressão assustada.
- Hum... eu estou ensaiando, se você não se importar – eu disse apontando para a escada. Ele deu de ombros e veio atrás de mim, passando pela porta do meu quarto e entrando na sala de ballet.
- Nossa, você tem sua própria sala de ballet – ele disse num tom surpreso.
- Exagero da minha mãe. – Eu estava tentando ao máximo ser fria com ele.
Fui para a barra na frente do espelho, colocando meu pé sobre ela, descendo meu corpo para encostar minha testa na minha panturrilha.
- Então... – ele começou a falar enquanto se sentava no chão de madeira, a alguns poucos metros atrás de mim. – Eu acho que te devo uma explicação sobre o que aconteceu hoje na hora da saída – ele dizia as palavras com constrangimento, passando as mãos pelo cabelo.
- Não acho que você me deva alguma explicação, nós não temos nada. Não é como se você fosse meu namorado ou qualquer coisa parecida. – Eu olhava para ele friamente pelo espelho, ainda com a perna em cima da barra; ele estava visivelmente abalado com o que eu havia dito. Eu provavelmente havia sido rude demais.
- Eu quero explicar. – Ele trouxe os joelhos para perto do corpo e ainda nos olhávamos através do espelho. Mantive minha perna na barra, esperando que ele se explicasse.
- Eu estou te ouvindo. – Fixei ainda mais meus olhos nos seus.
- Eu... acho melhor você me ouvir numa posição mais confortável... Não está doendo? – ele perguntou apontando para minha perna.
- Estou perfeitamente bem assim e posso permanecer nessa mesma posição por quantas horas for preciso. – Eu ainda continuava rude. Vê-lo agarrado com uma garota na saída da escola não era o que eu esperava dele, logo depois de ter me falado que era apaixonado por mim.
- Certo – ele disse desanimado. – Ela é minha irmã – ele disse simplesmente.
- Quem? – perguntei tentando me localizar na história, por mais que fosse óbvio.
- A garota que você viu agarrada em mim... É minha irmã! Ela mora em Cambridge e fazia tempo que não nos víamos, ela faz faculdade e não nos visita muito. – Ele não parecia medir as palavras, dizia todas elas natural e sinceramente. – Por isso ela estava toda empolgada quando foi me buscar na escola e me agarrou daquele jeito. – Ele deu um sorriso e colocou as mãos nos bolsos. Eu não havia reparado, mas ele estava em pé, um pouco mais próximo de mim. – E as garotas que estavam com ela são amigas dela. Por isso eu estava sem carro hoje, ela chegou hoje de manhã do aeroporto enquanto eu estava na escola e eu emprestei meu carro pra ela. Ela foi dar umas voltas pela cidade e buscou algumas amigas pra se divertir. – Ele se aproximou um pouco mais.
Eu havia entendido tudo errado. Ele me havia dito que não poderia me levar para escola hoje, porque estava sem o carro, mas o carro dele estava lá, na hora da saída, mas com a irmã dele. Eu odeio precipitar minhas conclusões. Nem tudo é o que realmente parece, droga! Era só a irmã dele, pensei e ri de mim mesma internamente.
- E por que você está me explicando tudo isso? – Tirei minha perna da barra, virando-me para ele em seguida.
- Porque eu faço questão de que você saiba – ele respondeu com simplicidade se aproximando de mim.
- E por que faz questão de que eu saiba? – Senti minha voz falhar enquanto eu notava que a distância entre nós diminuía.
- Porque eu sou loucamente apaixonado por você e faço questão de te dar explicações até sobre a minha irmã maluca. – Ele chegou ainda mais perto e eu senti minha respiração ficar pesada. – Quando eu te vi brava daquele jeito, eu... eu não sei o que pensei. Me senti horrível. – Ele abaixou a cabeça e eu ouvi o começo de Smother Me tocar.
- ... – eu suspirei. – Não foi culpa sua, eu que tiro conclusões precipitadas e...
- Não, mas eu deveria ter esclarecido tudo naquela hora e não o fiz. – Ele me olhou profundamente e eu senti uma ansiedade dentro de mim. Uma de suas mãos envolveu minha bochecha num toque quente e a outra segurou em minha cintura, me trazendo para ainda mais perto dele. – Só quero saber se estou perdoado. – Senti um beijo estalado na base do meu pescoço e de repente, sua respiração estava com a minha. Ele fechou os olhos e o roçou o nariz no meu, despertando um frio inexplicavelmente forte na minha barriga. Meus olhos também estavam fechados e eu apenas sentia as pontas dos nossos narizes se tocarem. E então, eu estava entendendo as expectativas que ele tinha para o nosso beijo. Era exatamente aquilo: sua respiração caindo em minha boca, sua mão segurando minha cintura com uma paixão impossível de ser contida, meus dedos entrelaçados em seus cabelos, eu delirando com a nossa proximidade. Seus lábios fizeram cócegas nos meus e eu sorri suavemente. Ele os roçou novamente e então, nossas bocas foram pressionadas no toque mais macio de todos. Sua língua passou suavemente pelo contorno dos meus lábios e eu abri minha boca, permitindo que aquele beijo acontecesse. Nossas línguas se moviam juntas, cúmplices da nossa intimidade, da nossa paixão. apertou minha cintura e me trouxe para mais perto, como se fosse possível. Senti que cada centímetro dos nossos corpos estavam colados, como se fossem um só. Nosso beijo era a coisa mais certa e perfeita, era como se tivéssemos nascido unicamente para nos beijarmos, eu e o , o e eu. Senti o arrepio gostoso dos seus dedos mexendo em minha nuca, enquanto nosso beijo, nosso tão esperado beijo se tornava a coisa mais prazerosa de toda a minha vida. Os lábios dele pareciam ter o encaixe perfeito com os meus; a boca dele e seu sabor doce e apaixonante... Os estalos do nosso beijo eram a única coisa que ouvíamos, além de Smother Me, é claro. O êxtase dos lábios dele entre os meus, e depois sobre os meus, e sua língua que brincava com a minha e umedecia ainda mais o nosso beijo. Era tudo tão... certo, tão maravilhoso e perfeito. Tão inexplicável que eu quase havia esquecido que precisávamos respirar. Nos afastamos sem vontade e nos olhamos maravilhados. tinha os lábios vermelhos e brilhosos, ainda molhados pelo beijo. Ele ficou ainda mais lindo quando sorriu pra mim e encostou a testa na minha, ainda com a respiração descompassada.
- Let me be the one who calls you baby, the one who calls you baby... – ele cantou com os olhos fixos nos meus e me deu um selinho demorado, mordendo meu lábio logo em seguida. – Eu estou perdoado, certo? – Ele acariciou minha bochecha de leve e beijou o canto da minha boca.
- Não – eu disse sorrindo e acariciando sua nuca. – Você não fez nada, então não tenho motivos pra te perdoar. – Selei nossos lábios sem nenhuma vergonha, como se nossas bocas se conhecessem desde sempre.
- Você é perfeita. – Ele sorriu bobo. – Quero que você seja minha, , só minha. – Seus olhos se fecharam e ele beijou minha bochecha, fazendo uma trilha de beijos até o meu pescoço, me provocando arrepios no corpo inteiro. – Quer namorar comigo? – Seus olhos clarearam e brilharam pra mim, e eu parei de respirar naquele momento. Observei seu rosto lindo, seus lábios vermelhos e molhados, seu cabelo bagunçado que me tirava do sério, sua pele branca que me deixava em êxtase, o toque forte e suave das suas mãos em mim. Lembrei do beijo dele, do melhor beijo da minha vida e percebi que era tudo o que eu queria, que era ele o que eu sempre havia sonhado. Estava na minha frente o tempo todo, e eu nunca havia pensado naquilo. Sacudi minha cabeça, me lembrando que eu tinha de dar uma resposta a ele, caso contrário, ele pensaria que eu não queria ser dele, o que não era verdade. Era a coisa que eu mais queria...
- Sim! – Eu sorri e a expressão de preocupação dele se tornou em alívio. – É claro que eu quero, . – O beijei mais uma vez, sentindo seus lábios macios e quentes. A boca convidativa que assombrava os meus pensamentos estava me beijando, me dando o melhor beijo, me causando a melhor sensação.
- Eu gostaria que você conhecesse minha família – ele falou naturalmente e eu arregalei os olhos surpresa.
- Mas... tão depressa assim? – perguntei sem conseguir disfarçar o meu espanto. – Você... acabou de me pedir em namoro e... tá tudo acontecendo tão rápido. Você me beijou e logo depois me pediu em namoro e eu aceitei; isso significa que nos tornamos namorados cinco minutos depois de nos beijarmos pela primeira vez e agora você quer que eu conheça seus pais, sua irmã e... – Minhas palavras foram interrompidas por um selinho dele.
- Você fala bastante quando está nervosa. – Ele sorriu bobo. – Mas eu não me importaria de te interromper sempre dessa forma. – Ele me deu vários selinhos rápidos. – Não acho que tudo está acontecendo rápido. Pra quem esperou quase 1095 dias, isso demorou demais pra acontecer.
- Ah, ... você me surpreendeu muito nas últimas semanas. – Sorri para ele. – Eu vou me trocar pra podermos ir pra sua casa. – Ele sorriu abertamente, com uma felicidade que eu pude sentir só de olhar e me abraçou forte, fazendo com que eu me sentisse segura, como se os braços dele tivessem sido moldados em meu corpo. Nos soltamos com algum sacrifício e eu fui para o meu quarto, sendo seguida por ele. – Erm... ? – Me virei para ele que olhava algumas fotos e pôsteres espalhados pela parede do meu quarto. – Eu... preciso me trocar.
- Ah, sim... Claro. – Ele sorriu amarelo. – Eu te espero lá embaixo. – Fechei a porta e fiquei em pânico, pensando no que eu deveria usar para ir na casa do meu namorado. Meu namorado, sorri boba com esse pensamento.
Abri meu guarda-roupa quase que desesperadamente, procurando por alguma roupa perfeita. Peguei uma skinny básica, uma baby look roxa e um sapatinho baixo na cor preta. Vesti-me rapidamente, soltando meu cabelo e dando uma olhada rápida no espelho. Sorri pra mim mesma e saí do meu quarto, descendo os degraus. estava parado no pé da escada e sorriu quando me viu.
- Você está linda. – Ele pegou na minha mão e sorriu. Deu um beijo leve nela e eu pensei que era tudo um sonho. – Eu sempre quis dar uma de Leonardo DiCaprio. – Gargalhamos e andamos em direção à porta.
- – eu o chamei enquanto trancava a casa. – Você acha que seus pais vão gostar de mim? – perguntei me sentindo boba e patética.
- Eles já te adoram, . – Ele passou um braço pela minha cintura e caminhamos em direção ao carro dele. Como os pais dele já me adoravam se nem ao menos me conheciam?
Capítulo 8 – Por um outro ponto de vista
Sabe quando você gosta tanto de uma pessoa que não consegue entender o que se passa dentro da sua cabeça e, principalmente, do seu coração? Pois bem, é exatamente isso o que eu sinto pela . Não consigo pensar direito, ela me faz perder a razão. Sinto uma euforia dentro de mim, uma ansiedade grande de tê-la sempre por perto e um medo terrível de perdê-la. Acho que eu nunca havia sido tão precipitado em toda a minha vida, mas não me arrependo nem por um segundo de tê-la pedido em namoro minutos depois de ter beijado-a pela primeira vez. Acho que essa foi a coisa mais certa que eu já fiz nos meus 18 anos de existência.
Olhei para ela que estava ao meu lado no carro; parecia nervosa. Ela brincava freneticamente com as mãos numa confusão delicada de dedos. Entrelacei uma mão minha entre as dela, tentando acalmá-la. Ela sorriu pra mim e eu respirei fundo me lembrando do quanto eu sempre precisei dela, desde o começo, desde sempre.
Era o primeiro dia de aula numa escola secundária. Eu, particularmente, não via nada de diferente. Pelo menos à primeira vista, eles não pareciam muito diferentes do que eu encontrei na outra escola. Pensei que seria mais um ano como todos os outros, eu ia pegar quem eu quisesse e ia ser assim durante um bom tempo. Sim, eu pensei nisso, mas o futuro, mesmo aquele futuro que significa os próximos cinco minutos, é incerto. E aqueles cinco minutos mudaram minha vida. E mudaram drasticamente, diga-se de passagem. Porque eu estava lá, apoiado no batente da porta do refeitório ouvindo contar uma piada idiota enquanto estava com os fones do ipod no ouvido e tentava não rir das coisas toscas que o dizia. E foi parado lá, com uma perna dobrada e apoiada na parede e as mãos nos bolsos, que eu a vi pela primeira vez. Os passos amplamente graciosos, as pernas que se movimentavam suavemente dentro da saia xadrez, os braços finos e delicados escondidos pela manga da camisa branca, os cabelos levemente ondulados caídos pelo ombro dela. E o cheiro, sim, o cheiro. Um cheiro único, que eu não sabia explicar ou descrever, era dela e somente dela. Seus olhos encontraram os meus por um breve momento; por breves segundos, eu diria, mas que durou o suficiente para eu saber que era ela. Ela era minha, a pessoa que eu achei que não existisse e que nunca fosse encontrar. Me senti completo naquele momento, como se nada mais me faltasse, a não ser fazê-la minha. Minha! Minha! Era só o que eu conseguia repetir para mim mesmo. Minha! Não existia palavra que a melhor descrevia do que essa...
- Minha – eu disse baixo, de coração acelerado e sentindo uma coisa dentro da minha barriga, um frio forte; parecia que tinha alguém vivo dentro dela. , e sequer repararam em alguma coisa, mas não era preciso. Eu já sabia o que tinha que saber. O meu destino estava ali, caminhando em direção à mesa do refeitório, e sorrindo graciosamente para as três amigas. E foi naquele momento, naquele simples e incerto momento que eu soube que estava apaixonado.
- Tudo bem? – perguntei depois que parei o carro na frente da minha casa. Olhei para o seu perfil delicado, a pele macia, o jeito inocente que me seduzia, o toque quente das mãos dela.
- Acho que sim. – Ela levantou o rosto e seus olhos encontraram os meus. Senti o nó no meu estômago se apertar apenas de olhar para seus lábios que se mexiam tentadoramente enquanto as palavras saíam. Aproximei-me lentamente dela, vendo a distância entre nossos rostos diminuir a cada segundo. Entrelacei uma mão minha em seus cabelos enquanto a outra repousava em sua cintura. Nossos olhares permaneciam fixos e eu sentia a respiração dela bater contra a minha boca; um arrepio percorreu meu corpo dos pés à cabeça e eu fechei meus olhos cessando qualquer espaço entre nossos lábios. O sabor dela me entorpecia, a língua que brincava com a minha sem qualquer inocência ou pudor e pedia por mais com desejo. Senti suas mãos pequenas e macias deslizarem pelo meu pescoço e acariciarem minha nuca de um jeito que me fazia enlouquecer. Seus dedos brincavam com as pontas do meu cabelo e eu percebi que poderia ficar daquele jeito para sempre. Eu poderia beijá-la para sempre, poderia tocá-la para sempre e sentir seu pescoço se arrepiar com os meus beijos para sempre. Mas acabei me lembrando que eu também precisava de ar, e infelizmente para sempre.
Separei nossas bocas e olhei para seus lábios vermelhos e molhados. Sorri pensando que a pessoa que eu mais queria era finalmente minha. era minha, era isso. Há poucos minutos, mas era. Beijei a ponta do seu nariz, passando meus lábios por sua bochecha, descendo por sua mandíbula e parando em seu pescoço. Distribuí beijos suaves por sua pele macia enquanto sua respiração quente batia no meu ouvido, me enviando estímulos.
- Acho melhor entrarmos – disse com a respiração descompassada e um sorriso fraco.
- Ah, podemos entrar depois. – Grudei meus lábios nos seus e ela soltou uma risadinha, me afastando delicadamente.
- É sério, . – Ela olhou pra mim bem profundamente e um arrepio percorreu minhas costas.
- Tudo bem, então... – Sorri para ela, lhe dando um selinho bem rápido.
Saí do carro e dirigi-me para o lado dela, abrindo a porta. Estendi minha mão e a dela, tão pequena que cabia perfeitamente dentro da minha, segurou-a e se apoiou em mim para sair do carro também.
- Eu acho que estou pronta. – Ela sorriu pra mim, entrelaçando a mão na minha. Era a melhor sensação de todas, e como era. E eu sentiria aquilo todos os dias, sempre e de todas as formas.
- É claro que está. – Beijei sua mão que estava junto com a minha e caminhamos em direção à porta. – Eu já disse que eles gostam de você, .
- ... – Ela olhou para mim e paramos na frente da porta. – Isso não faz sentido. Eles nem me conhecem... – Sorri e a abracei, afundando meu rosto no seu pescoço, sentindo o cheiro de orquídeas que vinha do seu cabelo.
- Não precisa fazer sentido... – eu disse contra sua pele, enquanto suas mãos repousavam cuidadosamente em meus ombros. – Apenas deixe acontecer, ok? – Beijei seu pescoço suavemente e olhei para ela. Eu gostava de olhá-la, seus olhos eram lindos com seus cílios grandes e o jeito doce de analisar as coisas. Moldei seu rosto entre as minhas mãos e beijei-a mais uma vez, despertando as sensações e os arrepios. Ouvi os estalos baixos do nosso beijo e mordi seu lábio quando separei nossas bocas. – Só queria me certificar mais uma vez de que é tudo real. – Ela corou com isso e eu passei meu braço por sua cintura, abrindo a porta com a outra mão. Pensei que finalmente estava acontecendo, depois de tanto tempo apenas planejando e desejando, ela estava entrando na minha casa pra conhecer as pessoas que eu mais gostaria que ela conhecesse. Eu finalmente havia conseguido me aproximar dela e fazê-la minha.
Festa. Cerveja. Poker. Barulho. E pessoas bêbadas, é claro. Muito bêbadas, pouco bêbadas. Olhei em volta e vi Matt encostado numa parede com uma garota no meio das suas pernas. Charlie estava logo mais à frente, movendo a cabeça lentamente enquanto uma garota passava as mãos em suas costas por baixo da camiseta. James estava abraçado a duas garotas em um dos sofás, enquanto assistia , , e eu jogarmos poker. Eu estava bebendo minha quarta garrafa de Heineken. Não, era a quinta, na verdade. Ou será que era a sexta? Isso importava? Não, importava. Ela e suas pernas descobertas. Dei um gole na minha cerveja, observando cada centímetro dela. Comecei por seus pés dentro de um sapato baixo com estampas de oncinha e fui subindo meus olhos por suas pernas. Admirei suas coxas dentro da mini-saia jeans e mordi meu lábio, vendo-a gargalhar de algo que alguma de suas amigas dizia.
- ? Dá pra parar de tirar a roupa da com a força do seu pensamento e jogar? – me despertou do transe que eu estava tendo.
- Full house. – Joguei as cartas na mesa e me levantei, vendo que estava sozinha perto da parede. Me senti desconfortavelmente quente dentro das minhas roupas só de olhar pra ela mais de perto, minhas mãos suavam e meu coração batia forte. Eu a imaginei entre mim e a parede, a respiração pesada e as mãos apertando meu pescoço enquanto eu a beijava sem pensar em nada, além de nós dois. Imaginei minhas mãos passando por ela sem qualquer restrição e mordi meus lábios com isso. Apaixonado. Eu estava apaixonado. Era assim que ela me deixava: apaixonando e desejando-a cada vez mais. Ela era diferente e eu a queria de todas as formas.
- Belas pernas – eu disse e ela me olhou apreensiva. Deu um gole na cerveja, confusa com o que eu havia dito, ainda olhando para mim. Me senti sóbrio momentaneamente e percebi que havia começado mal, muito mal. Eu tinha tantas coisas não ditas que eu gostaria de dizer e tudo o que saiu foi um elogio barato às pernas dela. Sacudi a cabeça negativamente e saí de perto dela, desejando que uma cratera fosse aberta no chão pra que eu pudesse me enterrar na mesma.
- Mãe? Pai? Kate? – Olhei para a sala vazia e me assustei com o silêncio. – Alguma alma viva em casa? – perguntei e segundos depois, minha mãe apareceu na sala, com um avental branco por cima da calça jeans, da bata verde escura que combinava com os sapatos baixos que ela usava.
- ! – ela exclamou sorrindo para nós dois e me abraçou.
- Essa é a . – Apontei para enquanto minha mãe a abraçava.
- me falou tanto de você – minha mãe disse e nós dois coramos com isso. – É um prazer conhecê-la.
- É um prazer conhecê-la também, Sra. – disse mostrando um lindo sorriso, o mesmo sorriso que fez eu me apaixonar por ela.
- Por favor, me chame de Audrey. – Minha mãe se aproximou de e analisou cautelosamente. – Você se parece com a sua mãe.
- A senhora conhece a minha mãe?
- Claro. Elizabeth Gauthier, a bailarina do The Royal Ballet. Acompanhei alguns anos da carreira dela.
- Ah, sim, claro. – concordou e minha mãe sorriu mais uma vez.
- Ela é adorável, . E muito linda também. – Sorri abraçando e trazendo-a para perto. – Estou terminando de fazer o spaghetti, logo, logo chamo vocês. Seu pai está no escritório e Kate está no quarto dela matando as saudades. Leve até lá. – Assenti e puxei a comigo, contornando a sala, indo para o escritório.
- Pai! – exclamei vendo-o sentando em sua La-Z-Boy reclinável assistindo ao jogo do Manchester contra o Chelsea. – Eu trouxe alguém pra te conhecer.
- Ah, finalmente. – Ele sorriu levantando-se e vindo em nossa direção. – Então foi essa a garota que te botou nos eixos, huh?
- Uhum – concordei mais sem graça que a .
- É linda. – Ele sorriu olhando-a mais analiticamente. – nunca trouxe uma namorada para conhecermos, é a primeira vez. E eu espero que vocês dois dêem certo. – Seu olhar tinha um contentamento que eu nunca havia visto igual. Ele deu tapinhas no meu ombro e voltou a assistir seu jogo. – Quem diria, hein ? Você está realmente apaixonado. – Concordei sorrindo e saímos do escritório, indo em direção à escada.
- Viu? A operação foi um sucesso. – Pisquei para que sorriu pra mim.
- O que você falava de mim pra eles? – ela perguntou um tanto séria.
- Ah, nada de mais... Só que eu gostava de você e coisa e tal. – Olhei para ela, que se conformou com a resposta. Acho que não tinha coragem de dizer o quanto eu falava dela pelos cantos da minha casa.
Paramos em frente à porta do quarto de Kate, que continha uma quantidade assustadora de adesivos coloridos.
- Kate? – Abri a porta e coloquei a cabeça pra dentro, encontrando-a sentada em frente ao computador.
- Hei, chatinho! – ela disse fingindo indiferença. Eu pelo menos esperava que ela estivesse fingindo. – Se entendeu com a garota?
- Kate, às vezes você não parece ter 20 anos. – Revirei os olhos e abri mais a porta, mostrando que estava comigo. – Isso responde a sua pergunta?
- Ai, como você é inconveniente, ! – Fez cara de desgosto e sorriu para . – Espero que você saiba onde está se metendo. não é flor que se cheire. – Senti um pouco de raiva passar pelas minhas veias. – Mas ele está totalmente apaixonado por você, eu tenho certeza disso. E faz bastante tempo. – Sorri aliviado para Kate e me lembrei de que ela estava certa.
- Hoje a gente não tem a primeira aula? – perguntei me apoiando no New Beetle preto da minha irmã. Olhei atentamente para todas as direções na esperança de encontrar a . Eu estava disposto a tentar uma aproximação com ela naquele dia.
- Não, parece que a diretora ta entrevistando o novo professor de geografia ambiental e o mundo tem que parar por causa disso – disse dando e ombros e comendo seu último donut.
- Ah, eu não vou reclamar. Eu não tava mesmo a fim de ter aula de trigonometria. – sentou na grama de frente pra nós dois enquanto tomava sua Coca-Cola em silêncio.
- Cara, olha aquilo. – James apontou para um casal sorridente no meio do jardim, atraindo a todos os olhares. – Sabe aquele francês, Garret sei lá o que? – ele perguntou e todos nós apenas concordamos com um ‘uhum’ sincronizado. – Então, ele ta namorando a ? – Desencostei do carro no mesmo momento e achei que não pudesse mais respirar. Cerrei meus olhos para poder enxergar melhor a fisionomia do casal que estava de mãos dadas e trocava selinhos ocasionais e reconheci a . Senti a raiva dentro de mim, tomar conta do meu corpo de lado a lado. Senti como se meu mundo estivesse desabando naquele momento, o chão se mexeu sob meus pés e meu peito doeu monstruosamente. Respirei pesadamente e quando dei por mim, meu punho direito estava fechado e colidia com o vidro lateral do carro da minha irmã. Não senti dor nenhuma nas juntas dos meus dedos, apenas senti que 10% da minha raiva havia ido embora. Apenas dez por cento...
- Cara, o que foi isso? – perguntou assustado e olhando para minha mão ensangüentada.
- Eu sou apaixonado por aquela garota! – Apontei para enquanto sentia todas as veias do meu corpo pulsarem de ódio. – Eu sou apaixonado por ela desde que eu a vi pela primeira vez. Ela tinha que ser minha e não daquele francês estúpido. Se eu não tivesse sido tão estúpido e devagar... Se eu tivesse ido falar com ela antes e... – Respirei fundo tentando me conter, mas acho que não deu certo. – Porra! – eu gritei com todas as minhas forças e fechei meu punho ensangüentado mais uma vez pra quebrar o vidro de trás (ou pelo menos tentar), mas eu fui segurado por e .
- Calma, ! – pediu.
- Calma? Você tá me pedindo calma? – Olhei para ele com raiva e percebi que todas as pessoas que estavam no jardim me olhavam com espanto. – Eu não posso ficar calmo, eu... eu gosto dela, caralho! – Gemi de dor, só me dando conta do estrago feito na minha mão naquele momento.
- Ah, ... vai passar daqui uma semana, você vai ver! – disse tentando me fazer conformar com a situação.
- Não, não vai passar. – Eu sabia que não iria passar.
- Como você sabe disso?
- Eu não sei explicar, simplesmente sinto...
- Viu? Então você não pode dizer que não vai passar.
- Mas é exatamente por isso que eu sei que não vai passar – eu disse e os quatro me olharam confusos. – Porque, pela primeira vez na vida, eu não sei explicar o que eu sinto por uma garota.
Saímos pelo corredor e demos de cara com a porta do meu quarto. Um solitário adesivo que tinha um símbolo de banheiro feminino desenhado era o que enfeitava a madeira não tão escura. Olhei para sem graça e ela segurou um sorriso no canto dos lábios, me olhando com a sobrancelha arqueada.
- Bom, acho que agora você vai conhecer a minha bagunça particular. – Abri a porta e entramos, dando de cara com os milhares de pôsteres que forravam minha parede.
- Seu quarto é a coisa mais azul que eu já vi na minha vida. – Ela riu e começou a olhar em volta, reparando nas bandeiras do Reino Unido e dos Estados Unidos que eu tinha penduradas em dois mastros. Ela sentou na minha cama e sorriu, divertida e maliciosa, verificando se o colchão era macio. – Até o seu edredom é azul. Não, até a cabeceira da sua cama é azul. E estofada ainda por cima, você deve ser preguiçoso pra caramba.
- É, mais ou menos – eu disse com medo disso ser um defeito grande para ela.
- Que bom! – Ela veio na minha direção e passou os braços por meu pescoço. – Porque eu também sou. – Roçou o nariz no meu e ameaçou me beijar, mas não o fez.
- Ufa, eu estava começando a pensar que você ia achar isso ruim – eu disse com a respiração pesada.
- Acho que é um pouco tarde pra pensar em algo que poderia queimar seu filme comigo. – fechou os olhos e encostou a bochecha na minha, falando perto do meu ouvido.
- Por quê? – perguntei com dificuldade. Será que ela sabia que tinha o poder de me seduzir com os mais simples gestos?
- Porque eu já estou apaixonada por você. – Olhou nos meus olhos e eu pensei se teria como ela me deixar ainda mais louco por ela com cada atributo que era somente dela.
- É muito bom ouvir isso – eu disse de olhos fechados, beijando-a de uma vez. – Finalmente! – Beijei-a de novo, deixando nossas línguas brincarem com vontade num beijo intenso e cheio de paixão. Apertei sua cintura com uma das mãos, enquanto a outra segurava seu rosto com o máximo de delicadeza possível. Senti seus dedos brincarem maliciosos com as pontas do meu cabelo e o meu estômago deu voltas e mais voltas. – Finalmente aconteceu!
- É... Finalmente! – Ela sorriu e nos beijamos mais uma vez, deixando toda aquela sensação boa começar de novo. Meu cabelo já estava mais do que bagunçado e nossas roupas estavam provavelmente amassadas demais devido à nossa proximidade, mas não nos importávamos. Não ligávamos nem de estar ofegantes, era tão bom fazer o que estávamos fazendo. Sentíamos como se nossas bocas tivessem sido moldadas juntas, uma para a outra, somente para nos beijarmos.
- O jantar está pronto. – Ouvimos minha mãe dizer do outro lado da porta e nos separamos sem vontade.
- Que pena que fomos interrompidos. – Sorri maliciosamente e ela me deu um tapa fraco no braço.
Descemos as escadas abraçados, enquanto eu sentia seus dedos brincarem com o botão da minha camisa.
- Espero que você goste de spaghetti, . – Minha mãe sorriu quando nos sentamos à mesa lado a lado.
- Eu amo spaghetti. – sorriu encantadoramente em resposta e eu sorri junto, porque não conseguia não ficar feliz com o que estava acontecendo.
- Então você vai amar o da minha mãe – eu disse olhando nos olhos dela e nos encaramos por um tempo. Eu via a transparência nos olhos dela, via o que eu sempre procurei e nunca havia encontrado, mas ela me ajudou a encontrar. E eu não sabia explicar o que era, mas sabia que existia, tinha certeza de que existia.
- . – Ouvi a voz grave do meu pai chamar da ponta da mesa. – O que pretende fazer da vida? – Ele deu uma garfada no spaghetti.
- Bom, eu pretendo ir para Juilliard, em Nova York. – Ela sorriu um pouco sem jeito. – Minha mãe se formou lá e gostaria muito que eu fizesse o mesmo.
- Mas é o que você quer? – ele perguntou simpático, da forma dele.
- Sim, eu faço ballet desde os quatro anos, cresci nesse meio e sou apaixonada pelo que eu faço. Mas não me importaria de fazer uma escola de artes dramáticas aqui em Londres, mesmo Juilliard sendo meu sonho.
- Você é uma garota segura do que quer, e isso é bom. Quem sabe não coloca um pouco mais de juízo na cabeça desse cara aí sentando do seu lado. – Apontou para mim usando um tom de diversão na voz. deu uma risada discreta e voltou a comer.
- Sabe... – minha mãe começou. – O Frank me pediu em casamento numa apresentação de ballet da sua mãe. – Ela sorriu boba, e fez com que eu, Kate e nos surpreendêssemos.
- Mesmo? – perguntou com as bochechas rosadas e um sorriso alegre no rosto. Senti um frio monstruoso na barriga.
- Sim, foi uma das coisas mais lindas do mundo.
- Eu imagino. – sorriu de um jeito sonhador.
- Agora eu falo, né? – Kate sorriu um tanto irônica. – gosta muito de você. Vivia falando seu nome pelos cantos da casa, por isso você é tão famosa por aqui. – Ela foi tão honesta e direta, que nós quatro a olhamos fixamente. – Eu conheço meu irmão, e a forma como ele te olha é diferente da forma como ele olhou pra qualquer outra garota. Pronto, era o que eu tinha pra dizer. – Deu de ombros como se aquilo fosse natural e voltou a comer. – Eu acredito em vocês dois e fim da história.
Entrelacei minha mão na de , vendo-a sorrir pra mim.
- Ele gosta tanto dela, que acabou ficando brega demais – Kate disse de um jeito debochado, apenas pra descontrair o ambiente. Era algo bem típico dela...
- Criei esse garoto durante 17 anos, tentei fazer ele tomar jeito e a conseguiu isso em o que? Dois dias? – Meu pai sorriu, dando um gole no vinho.
- Acho que estamos deixando-a envergonhada demais. – Minha mãe olhou para , que tinha um sorriso tímido brincando nos lábios. – Mas tudo isso que foi dito aqui é verdade, falava muito de você, e era irresponsável e descuidado antes de tudo isso acontecer. Não que fosse um filho terrível, mas ele mudou algumas coisas que precisavam ser mudadas... Obrigada por isso. – As lágrimas se formaram nos olhos dela e ficou surpreendida com isso. Passou sua mão por cima da mesa, segurando a da minha mãe.
- é um garoto incrível e não tenha dúvidas de que eu também sou apaixonada por ele. – Era a voz dela, a voz que fazia com que todos os pêlos do meu corpo se eriçassem com as mais simples palavras. Senti as batidas do meu coração acelerarem tão fortemente que eu tinha medo de que todos pudessem ouvir.
E foi ali, naquela mesa, com a mão entrelaçada na dela, que eu tive a certeza de que queria estar com ela pro resto da vida.
Capítulo 9 – Microondas
Uma de suas mãos encontrou minha nuca enquanto a outra repousou no meu quadril suavemente. Estávamos, desconfortavelmente, nos beijando dentro do carro dele, que estava parado no começo da minha rua. Nossos narizes roçavam a cada vez que movimentávamos nossas cabeças para lados opostos e minhas mãos estavam confusas, porque gostavam muito do cabelo e da nuca dele, mas também adoravam deslizar por seus ombros largos e definidos.
- Até quando vamos esconder isso dos seus pais? – perguntou ofegante, voltando a me beijar logo em seguida. Arranhei seu pescoço de leve e uma mão minha deslizou por seus bíceps.
- Me dê... só mais alguns... dias – respondi pausadamente, grudando meus lábios nos dele novamente.
- Seu pai é... tão chato assim? – Ele me olhou um pouco assustado, ainda com uma mão em meu rosto.
- Não! – Sorri, mordendo seu lábio inferior logo em seguida. – Minha mãe é. – Dei um selinho demorado nele, e olhei para o rádio do carro. – , estamos muito atrasados.
- Tá, só mais um. – Ele deu uma risadinha maliciosa e aproximou o rosto do meu, fazendo com que um beijo intenso começasse de novo. Nunca nos cansávamos dos nossos beijos, eram a coisa mais certa que fazíamos. E fazíamos aquilo há apenas uma semana. Exatos sete dias. Exatos sete dias chegando atrasada nas aulas, levando bronca de alguma madre por estar beijando o namorado dentro da escola, ouvindo os comentários dos alunos que jamais imaginaram Gauthier Hunter namorando . E eu não me importava de qualquer maneira. Eu estava feliz e isso era evidente. era algo totalmente novo pra mim, era como um mundo que sempre esteve à minha frente pronto para me mostrar coisas que eu não conhecia ou não queria conhecer. Não era como se eu pudesse entender o que tínhamos, e sinceramente, eu apenas queria viver aquilo.
- , hoje é segunda-feira, a primeira aula é latim e o Sr. Andrews não gosta muito de você. – Eu o empurrei tão ofegante quanto antes e mantive minhas mãos em seu peito. – Do jeito que aquele velho é, ele pode acabar deixando nós dois pra fora.
- Hum, eu gostei da idéia! – Uma expressão safada brotou em seu rosto, e ele mordeu meu pescoço de leve. – Imagina o quanto a gente pode se beijar em cinqüenta minutos, . – Deu vários selinhos rápidos na minha boca, enquanto eu quase me deixava ser levada por ele.
- É tentador, . Tentador de verdade, porque eu simplesmente adoraria passar cinqüenta minutos em algum lugar com você, apenas te beijando, mas precisamos ir pra aula. – Fiz biquinho e ele me olhou desapontado. – E hoje você tem o jogo contra o King’s College, lembra?
- Eu lembro, mas estou preparado. – mordeu meu nariz e eu fiz uma careta.
- Tem certeza? – perguntei desconfiada.
- Você vai me assistir? – ele perguntou no mesmo tom e eu respondi um ‘uhum’ abafado quando ele me beijou rapidamente. – Então, eu estou mais do que preparado! – sorriu docemente e ligou o carro logo em seguida. – Tomara que o Sr. Andrews deixe a gente pra fora. – Me olhou com malícia e eu dei um tapa em seu braço, colocando o cinto de segurança. Liguei o rádio e Baby, It’s Fact do Hellogoodbye estava tocando.
- Baby, it’s fact, our love is true the way black is black and blue is just blue – cantarolei sorridente e despreocupada, enquanto via um sorriso surgir no canto dos lábios de . Eu simplesmente adorava quando ele sorria daquele jeito. Foi o sorriso que me ensinou a enxergar as coisas de um jeito diferente e a acreditar no que eu não acreditava. Porque eu nunca realmente acreditei que fosse ter alguém que me fizesse sentir daquele jeito, como se nada mais importasse, como se nada mais faltasse. E eu o tinha comigo, há sete dias, mas eu já sentia que tudo estava diferente, tudo estava como deveria estar desde sempre.
- Gosto de te ver feliz assim – ele disse quando paramos no sinal vermelho. Sorri de um jeito sapeca e trocamos um selinho que só durou até ouvirmos a buzina do carro de trás. batucava no volante com os dedos, e em poucos minutos, estávamos dentro da escola.
- , não tem ninguém aqui fora. – Olhei assustada para um dos prédios enquanto via um grupo pequeno de alunos entrarem, deixando o jardim completamente vazio.
- , relaxa... Você tem que parar de se preocupar demais com essas coisas. – Ele segurou meu rosto entre suas mãos e esfregou o nariz no meu bem de leve, me dando um beijo logo em seguida. – Você é centrada demais, garota! Acho que vou bagunçar um pouco a sua vida. – sorriu e me beijou de verdade.
- Pode bagunçar, eu não ligo. – Eu sorria de olhos fechados, entre os selinhos rápidos que ele me dava. Estávamos começando tudo de novo, quando eu me lembrei da aula. – Melhor irmos mesmo. – soltou um gemido baixo em sinal de desgosto e nós dois saímos do carro, andando em passos largos na direção do prédio. Eu o puxava pela mão, andando mais apressadamente do que ele. Passamos pela porta e quando olhamos para a grande extensão do corredor, notamos que ele estava praticamente vazio. Nos entreolhamos e saímos correndo até uma das portas que estava fechada. me prensou contra a parede e me beijou uma última vez, apertando forte a minha cintura enquanto nossas línguas praticamente enlouqueciam naquele beijo intenso. Por alguns segundos, eu havia me esquecido de que estávamos na escola, porque os beijos dele me tiravam qualquer razão. Não sei como e nem de onde minha sanidade surgiu, mas eu separei nossos lábios e abri a porta.
- Atrasados – Sr. Andrews pronunciou aquela curta palavra com tanto desprezo que eu poderia me sentir mal por apenas um segundo, se não me lembrasse de que o também estava envolvido nisso, o que me fazia sentir bem, não pelo fato de não ser a única culpada, mas pelo fato de eu estar atrasada por que estávamos juntos. – É a terceira vez que chegam atrasados na minha aula, e de acordo com a tabela de atrasos de alguns outros professores, vocês também andam chegando atrasados nas aulas deles. – Abaixei a cabeça e dei risada, não conseguindo me conter. Eu não sabia por que estava rindo, apenas estava com vontade e pronto. E eu não ligava nem um pouco...
- Acordamos tarde – disse sem graça, me abraçando pelo ombro.
- Vocês dormem juntos por acaso? Se sempre se atrasam nas primeiras aulas... – Sr. Andrews usou toda a sua petulância nessa frase e eu não pude conter a réplica presa na minha garganta.
- Acho que se dormimos juntos ou não, isso diz respeito apenas a nós dois, não acha? – soei indiferente e irônica, ouvindo manifestações infantis dos alunos.
- É melhor vocês dois se sentarem, antes que eu decida colocá-los para fora de uma vez. – Olhei para com malícia e sorri, indo em direção ao meu lugar, sendo seguida por ele. Sentei e olhei para meu lado direito, vendo seus olhos me encararem com algo que eu não sabia explicar o que era, mas era bom. Eu sentia a paixão arder em suas íris enquanto suas pupilas penetravam nas minhas, buscando uma comunicação muito além de qualquer palavra ou toque. Eu sabia que se apenas nos olhássemos, poderíamos saber o que estávamos pensando e sentindo, e não precisaríamos nos falar ou tocar, aquela coisa que não podíamos ver mas podíamos sentir falava por nós. Eu respirei fundo me sentindo um pouco tonta, porque mesmo depois de sete dias, os olhos dele ainda eram uma grande novidade para mim, e eu amava isso. Amava a forma como eles me fitavam e provocavam uma tontura gostosa e apaixonante, amava a forma como as mãos dele passavam suavemente por mim, arrepiando cada parte do meu corpo, desde as mais inocentes até as mais restritas. fazia com que eu me sentisse uma garota de verdade, ele despertava os meus instintos mais fortes e eu não tinha medo de me entregar às suas fantasias, por mais que elas ainda nem tivessem começado. E eu sabia que não teria esse medo mais tarde, porque, de alguma forma, ele era meu. E eu era dele, era exatamente isso. Eu não precisava de meses ou anos pra saber disso, porque era verdade. Era como se nossas vidas já estivessem planejadas desde que éramos apenas fetos, porque era exatamente isso que eu sentia quando estava perto dele. sorriu encantadoramente e eu achei que pudesse me perder de vez naquele momento. Sacudi minha cabeça e sorri de volta, virando meu corpo pra frente e começando a copiar a matéria, que pra mim, não fazia nenhum sentido.
Eu olhava para o relógio de minuto em minuto, desejando que aquela aula acabasse logo. Eu me sentia entediada até pra brincar com a barra da minha saia, então, resolvi passar o tempo enrolando meu indicador na ponta do meu cabelo. Meu dedo dava voltas e mais voltas, enquanto minha mente só pensava no momento em que eu e o estaríamos sozinhos. Sorri involuntariamente ao me lembrar dos beijos e dos toques dele, que mesmo inocentes, sempre pareciam ousados.
- Adoro quando você faz isso. – O ouvi dizer sedutoramente perto do meu ouvido, a voz rouca e baixa. Minha respiração acelerou num piscar de olhos e meu coração bateu mais forte.
- Isso o quê? – perguntei inocente, mas de alguma forma, querendo entrar na brincadeira.
- Quando você enrola o seu indicador no seu cabelo... – Senti seu hálito quente bater perto do meu ouvido e seus lábios deram um beijo tão suave, que eu quase achei que estivesse imaginando coisas. – Eu acho tão... enlouquecedor!
Soltei uma risada baixa.
- Enlouquecedor? – Senti seus dedos tocarem minha nuca por baixo dos meus cabelos e a acariciarem lentamente, enquanto mordia o lóbulo da minha orelha. Se não estivéssemos na aula de latim...
- É, enlouquecedor. – Sua voz continuava quente aveludada perto do meu ouvido. – Não vou explicar por que, é isso e pronto! – Ele deu uma risada e eu virei meu corpo de frente para o dele. estava agachado e suas mãos estavam em cima dos meus joelhos. Seu polegar fazia um carinho gostoso na minha pele, enquanto nossos olhos se perdiam em nós mesmos. Percebi o quanto eu queria beijá-lo naquela hora; a boca fechada e perfeitamente contornada, tão convidativa e linda. Foi quando, mais rápido do que eu esperava, o sinal tocou. se levantou e estendeu a mão para mim, me colocando em pé na frente dele. Juntamos nossas coisas e saímos da sala, andando pelo corredor.
- Até a hora do intervalo – ele disse me dando um selinho meio demorado.
- Vinte anos até lá. – Soei mais dramática do que planejei e riu, me deixando na sala de literatura.
- Parece que você e o estão juntos desde sempre – disse assim que eu me sentei ao lado dela.
- Isso é bom ou ruim? – perguntei pensativa.
- Bom, né? Vocês parecem ter sido feitos um para o outro. Uma semana juntos e parece que vocês se conhecem há tempos. – Ela gesticulou de um jeito engraçado e eu dei risada. – Vocês dois são o assunto preferido da escola. – Ela levantou as sobrancelhas de um jeito meio perverso e eu dei um tapa de leve na cabeça dela.
- Ok, mudemos de assunto então. – Olhei para ela sugestivamente. – E você?
- O que tem eu? – arregalou os olhos, confusa.
- Algum pretendente? – Sorri largamente para ela.
- Joe! – ela suspirou tão forte, que algumas pessoas que estavam perto até nos olharam.
- , esquece o Joe, ele é um babaca. – Fiquei séria e meu tom de voz era totalmente inconformado com isso. Joe podia ser lindo e uma das sensações da escola, mas isso era só fachada.
- Ele não é tão babaca assim! E você já tem seu , então deixa eu ser feliz com o Joe – ela disse de um jeito infantil e eu sorri brevemente.
- Só não quebre a cara, por favor – falei indiferente. – Existem garotos mais interessantes do que ele nessa escola. – Ela simplesmente piscou e voltou a copiar a matéria, parecendo pensar no que eu havia falado. Tentei fazer o mesmo, mas eu estava mais ocupada em contar os minutos pro intervalo. Parecia uma tortura, mas eu sabia que valeria a pena depois.
Andei apressada para o refeitório, assistindo ao movimento dos meus sapatos pretos contra o chão de madeira. Afrouxei a minha gravata me sentindo completamente aliviada enquanto meu coração batia fortemente. Quando passei pela porta, , que estava sentado na mesa, olhou para mim e se levantou, conforme eu me aproximava. Quando parei perto dele, fui surpreendida com um beijo apaixonado. Uma mão dele estava na minha bochecha fazendo com que seus dedos encaixassem no meu cabelo, enquanto a outra se encontrava no final das minhas costas, me puxando para perto do corpo dele. Minhas mãos bagunçavam seu cabelo e nossas línguas se exploravam despudoradamente. Ouvimos alguns aplausos e os gritos escandalosos do , era tão típico dele.
- Hei, isso aqui é o refeitório da escola, sabiam? – Charlie disse tentando nos repreender, mas apenas rimos durante o beijo e continuamos. Quem se importava se era o refeitório da escola? Nossos lábios permaneceram unidos e nossas cabeças se movimentavam muito mais do que o necessário para dar intensidade àquele beijo.
- Cara, pára com isso. – Matt bateu na mesa pra nos assustar. Falhou. – Tá bom, não pára então... Pode continuar, a gente nem se importa mesmo.
- Ah, parece que esses dois nunca beijaram na vida. – Ouvimos dizer e finalmente paramos de nos beijar. sorriu pra mim e mordeu meu lábio logo em seguida.
- Até que você continua novinha pra quem esperou vinte anos – ele disse assim que nos sentamos.
- É, você também não ta nada mal. – Sorri exageradamente para ele, e todos na mesa fizeram caretas.
- Antes era só o Bourne e a Lauren, agora tem vocês dois também. – disse dando uma mordida em seu cheese-burguer. – O pior de tudo é que a Lauren mudou o James e você mudou o ... Quem serão os próximos? Ainda sobra eu, o , o , o Matt e o Charlie pra Sam e pra .
- Ew, nem pensar. – comprimiu o rosto numa expressão de nojo. – Eu já tenho a minha missão, e ela se chama Joe Hardin. – Todos olhamos para Sam e ela corou.
- Não, obrigada!
- Ah, droga! – Matt fingiu estar chateado.
- Nem todos têm a nossa sorte, ! – James passou o braço por cima da mesa, abrindo a mão para tocar nela.
- Eu também acho! – Ele passou um braço por meus ombros e beijou minha bochecha.
Eu sorri e me senti inexplicavelmente leve e feliz, como se nada pudesse estragar as coisas. Senti a mão de repousar nas minhas pernas e descer até as minhas panturrilhas, puxando-as para cima das coxas dele. Seus dedos brincaram com a barra da minha saia, levantando-a minimamente e provocando um arrepio gostoso na minha pele. Logo, seu indicador adentrou meu meião branco e acariciou levemente minha panturrilha direita. Ele enterrou seu rosto em meu pescoço e fechei meus olhos, sentindo sua respiração bater contra mim. Ele deu um beijo suave perto do meu maxilar e eu senti um arrepio percorrer todo o meu corpo, esquentando-o por inteiro. Abracei seu pescoço e suas mãos repousaram nas minhas coxas de uma forma sutil.
- Hei, casal! – exclamou, é claro. – Uma semana e já nesse fogo todo?
Eu e sorrimos sem graça e trocamos um selinho rápido, sem mudar nossas posições.
- Eu sou tão apaixonado por você. – colocou uma mão em meu rosto e encostou o nariz no meu.
- E eu sou tão apaixonada por você. – Fechei meus olhos e sorri, sentindo a proximidade dele. Não importava aonde estávamos ou com quem estávamos, éramos apenas nós.
- Se eu pudesse guardar uma única imagem na minha cabeça, essa imagem seria sua. – Ele me deu um selinho rápido. – Uma imagem sua sorrindo com as bochechas rosadas e o olhar doce e intimidador voltado só pra mim – ele disse suavemente e eu dei uma risadinha ainda de olhos fechados.
- Você existe mesmo? – Apalpei desde seu rosto, até sua cabeça e pescoço.
- A pergunta é: você existe? – Ouvi um tom divertido e sério ao mesmo tempo.
- Bom... – Abri os olhos e fingi pensar. – Eu existo sim!
- Então, eu também existo! – Ele olhou pra mim, daquela forma que ele sempre olhava e me fazia ficar tonta e louca ao mesmo tempo. Me beijou suavemente e meu coração bateu ainda mais forte, se isso fosse possível. Quando olhou em meus olhos mais uma vez, eu me dei conta do poder que ele tinha sobre mim. Algo que eu não poderia explicar nem com palavras ou atitudes. Cada parte dele, interna e externa, me deixava sem palavras e sem ar. Ele fazia com que eu sentisse um frio gostoso dentro de mim a cada vez que estávamos perto um do outro, um frio que percorria minha barriga e logo de transformava em arrepio, eletrizando cada pedaço do meu corpo.
- Me desculpem, mas é terminantemente proibido namorar dentro do colégio. – Olhamos para trás e uma madre estava com os braços cruzados e uma expressão seca e robótica inundava seu rosto. – Se não quiserem sofrer as conseqüências, acho melhor que um saia de cima do outro e fiquem sentados como pessoas normais – ela disse num tom nada amigável, uma voz de alguém que nunca havia sentido aquilo que eu e o sentíamos um pelo outro.
Bufei com raiva e tirei minhas pernas do colo dele e voltei à minha posição ereta enquanto a madre se afastava. Olhei para e balancei a cabeça negativamente enquanto via sua expressão séria. Entrelaçamos nossas mãos por baixo da mesa e as repousamos da perna dele. Senti seu polegar acariciar a minha mão enquanto voltávamos a conversar com os outros na mesa.
Minha raiva cessou por um momento, porque ele estava ali, comigo.
Com o fim da aula de cálculo, senti minha felicidade triplicar enquanto eu andava pelo corredor até a sala de geografia ambiental. Passei pela porta e já estava sentado na carteira atrás da minha, sorrindo daquele jeito só dele, o jeito que eu não conseguia descrever. Me aproximei, deixando meus livros em cima da minha mesa e logo em seguida beijei , sentindo suas mãos entrelaçarem nas minhas.
- Senhoras e senhores! – Sr. Matthews entrou na sala e chamou a atenção dos alunos. – Romeu e Julieta. – Apontou para nós dois e fez uma reverência logo em seguida. – Vocês dois nunca me enganaram – ele disse sorrindo e sentou-se em sua mesa.
- Sempre esteve tão na cara assim? – perguntou de um jeito engraçado, me fazendo rir.
- Quando a entrava na sala, você era abduzido só Deus sabe pra onde. – Sr. Matthews tirou algumas coisas de sua pasta e pegou a lista de chamada. – Aposto que você não sabe nada sobre geografia ambiental e desenvolvimento sustentável.
- Ela me ensina depois – disse num tom malicioso enquanto repousava as mãos em meu ombro.
- Sim, eu sei bem... – Ele levantou e parou em frente à lousa, puxando uma tela branca que sempre estava suspensa na parede. – Data show, meus caros alunos. – Apontou para a tela como se a estivesse apresentando a nós. – Geografia ambiental, desmatamento, sustentabilidade, e é claro... escurinho. Cuidado, ! Qualquer barulho suspeito, e eu vou saber o que você e a estão fazendo. – Sr. Matthews sorriu e eu não pude deixar de sorrir também. Olhei para trás e deitou levemente a cabeça para o lado, me observando. Seus dedos traçaram o contorno do meu rosto, começando pela testa e descendo até minha boca. Acariciou meus lábios com seu polegar e eu lhe dei um beijo suave, vendo-o fechar os olhos.
- Atenção! – Sr. Matthews nos trouxe de volta à realidade, já com os materiais prontos. – Eu vou apagar a luz e colocar os slides. Por favor, fiquem atentos às correntes ambientalistas e à geografia urbana, que é muito conectada à ambiental. – Ele passou a mão pelo interruptor e a sala ficou totalmente escura, a não ser pela luz do projetor. Virei meu corpo para frente e prestei atenção no primeiro slide, que continha as definições das quatro correntes ambientalistas mais fortes. Olhei cautelosamente para cada palavra escrita, enquanto Sr. Matthews complementava com suas explicações. Me senti um tanto entediada e comecei a balançar minha perna, na tentativa de achar outra coisa para fazer.
Depois de passar pelo terceiro slide, já não agüentando mais o silêncio e o escuro, observei a caneta em minha mão e a girei num movimento rápido. Eu nunca havia sido muito fã de aulas com data show, sempre sentia sono, ansiedade e tédio. Bufei me sentindo um pouco quente dentro do uniforme, e prendi meu cabelo num coque meio desajeitado com a caneta que eu segurava. Abri alguns botões da minha camisa e afrouxei minha gravata, deixando a gola em volta do meu pescoço um pouco folgada demais.
- Isso! Provoca, acaba com o meu sistema nervoso. Eu não vou precisar dele mesmo. – Ouvi dizer com a voz muito perto do meu ouvido, a respiração quente batendo contra o meu pescoço, arrepiando cada parte do meu corpo.
- O que eu to fazendo? – perguntei um pouco nervosa.
- Você está me provocando, sabe o quanto eu gosto do seu pescoço. – Ele mordeu levemente a pele perto do meu maxilar e eu fechei meus olhos, sentindo o frio dentro da minha barriga.
- Ah, que ótimo! – Minha voz saiu cheia de falhas. – Não posso mais prender meu cabelo porque você não resiste ao meu pescoço.
- Na verdade, não importa o que você faça, eu não vou resistir a você de qualquer maneira. – Sua voz rouca e baixa era como um carinho para os meus ouvidos. Sorri me sentindo seduzida e seus dedos acariciaram meu pescoço, ora entrando na gola da minha camisa, ora subindo para o meu cabelo. O calor subiu por todo meu corpo, se instalando entre as minhas pernas e repousando em minha espinha, enquanto mordia de leve minha orelha, passando suas mãos para a parte da frente do meu pescoço. Ele massageou fortemente cada parte que tocava, seus dedos já estavam dentro da minha camisa, acariciando meu colo de um jeito nada inocente, e eu percebi o quanto era fácil perder a cabeça com ele.
- Tá quente aqui dentro! – ele sussurrou contra o meu cabelo.
- Vocês homens são como microondas, esquentam rápido demais – eu disse tentando parecer coerente, mas acho que não consegui.
- Eu gostei do trocadilho. – Soltou uma risada baixa, beijando minha nuca um pouco demoradamente. Fechei meus olhos, desejando que aquele momento durasse a minha vida inteira.
- ... e eu gostaria que vocês falassem sobre sustentabilidade no projeto de vocês. – De repente, a voz do Sr. Matthews voltou a rondar meus ouvidos e eu abri os olhos assustada. tirou suas mãos de mim, também parecendo assustado, e só então nos demos conta de que a aula estava no fim. Retomei a pose, arrumando minha camisa e tentando respirar com normalidade. Sr. Matthews acendeu as luzes e eu olhei para trás, vendo sorrir de um jeito malicioso pra mim. Mordi meu lábio devolvendo a malícia e virei para frente novamente, para guardar minhas coisas.
- Bom, eu vejo os meninos no vestiário daqui a alguns minutos. – Sr. Matthews, além de professor de geografia ambiental, era também técnico dos times de futebol. Era o principal motivo pelo qual nós garotas ficávamos assistindo aos treinos. – Vamos dar uma surra no King’s College. – Ele deu um soco em sua mesa e todos na sala se manifestaram de uma maneira barulhenta.
- Você já vai pro vestiário agora, certo? – perguntei a enquanto saíamos da sala, nos dirigindo para fora do prédio.
- Sim, o Sr. Matthews tem que nos passar as táticas e as posições antes do jogo. A gente fica quase uma hora e meia dentro do vestiário pra ouvir as instruções e nos prepararmos. – Passei um braço por sua cintura enquanto o dele estava em meu ombro.
- Boa sorte então! – Dei um selinho demorado nele, enquanto parávamos na mesa onde as meninas estavam. – Pensa em mim durante o jogo – eu disse num tom divertido.
- Eu penso em você sempre! – ele gritou já um pouco longe de mim, apontando para a própria cabeça.
- “Eu penso em você sempre!” – imitou , tentando fazer a mesma voz grossa. – Ah, Julieta, seu Romeu só vai ali no vestiário e daqui a pouco você vai vê-lo de novo. – Ela e seu incrível costume de apertar as minhas bochechas.
- Não seja chata, ! – Revirei os olhos enquanto Sam e Lauren riam.
- Tá bom, não vou ser chata. – Ela pegou os materiais em cima da mesa e nós quatro nos dirigimos para a arquibancada.
- Ai, acho um saco ter que esperar uma hora até o jogo começar – Lauren disse impaciente, enquanto caminhávamos. – Acho que vou procurar o Jimmy.
- Ah, cuidado com o que vocês vão fazer. – Sam levantou as sobrancelhas num sinal de pura malícia e todas nós rimos.
- Com cuidado ou não, a gente sempre sabe o que ta fazendo. – Lauren sorriu da forma mais depravada possível, arrancado risos nossos. – E você e o ? – Apontou pra mim com a cabeça quando nos sentamos na arquibancada.
- O que tem nós dois?
- Vocês dois já parecem bem... íntimos, se é que me entende. – Deu uma cotovelada fraca em mim.
- Nós somos íntimos – eu disse naturalmente. – Sempre fomos, de qualquer maneira. Ele é do tipo que descobre seus segredos com o olhar, sabe onde ficam seus pontos fracos, entende suas necessidades.
- Me parece interessante. E vocês só estão juntos há uma semana. – Ela levantou o indicador, pensativa.
- É, apenas uma semana. Não é estranho? – perguntei com o raciocínio em andamento.
- Não, só não é muito normal. – Sam me olhou séria. – E vocês dois não precisam ser normais... Quero dizer, vocês dois não são normais.
- O que você quer dizer com isso? – Meu tom de voz saiu um pouco desconfiado demais.
- Que vocês dois sempre se gostaram. Sempre se conheceram, sempre pertenceram um ao outro, por mais piegas que isso possa soar. Você e o são o que todo casal gostaria de ser: profundo e íntimo. Tudo isso estava nos olhares de vocês dois, mesmo antes de começarem a ficar juntos. Durante aquelas semanas, todos perceberam que existia algo entre vocês, algo forte e inexplicável. – Ela sorriu naturalmente e , Lauren e eu ficamos de boca aberta com a explicação simples, porém detalhada sobre o que eu tinha com o . – O que foi, gente? Eu observo, ok?
- Sim, a gente sabe disso. Mas é que você descreveu os dois tão perfeitamente que eu me assustei – Lauren disse, pensativa. – E olha que explicar e Gauthier é algo impossível. I-M-P-O-S-S-Í-V-E-L.
- Ah, eu gostava de olhar pros dois. Pareciam algum tipo de pintura antiga e cheia de sentimentos. – Samantha deu risada com o que ela mesma havia dito e nós rimos junto.
Ficamos mais alguns minutos apenas conversando sobre sentimentos, namoros e o que quer que fosse, até que Lauren sumiu com James pra algum lugar suspeito. Meus pensamentos tomaram um rumo mais obscuro e perverso, e foram parar no vestiário masculino. Sorri com as coisas que rondavam minha cabeça e me levantei.
- Aonde você vai? – perguntou olhando para mim.
- Vou fazer uma surpresinha para o . – Sorri maliciosamente e ela abriu a boca em sinal de susto. Dei um tchau para ela e Sam e contornei a arquibancada, chegando perto de uma porta. Li as letras que diziam “Vestiário Masculino” e imaginei o que estaria fazendo, se estava vestido ou não... Sem medo nenhum, puxei a porta e entrei, dando de cara com um pequeno corredor. Ouvi vozes masculinas vindo um pouco mais adiante e continuei meu curto caminho até um pequeno batente, que tinha uma parede logo ao lado esquerdo. Coloquei minha cabeça para dentro e olhei para que estava sentado entre os armários, à direita do batente. Continuei o observando até que ele notasse a minha presença, o que não demorou muito. Acenei para ele e recebi um sorriso em troca, misturado com um pouco de surpresa. Sem fazer barulho, entrei e me coloquei atrás da pequena parede, tomando cuidado até para não respirar alto demais.
- Então é isso, cambada. – Ouvi Sr. Matthews dizer animado. – Durante esses quarenta minutos, nós vamos nos aquecer lá no campo e eu vou verificar se o placar está funcionando bem e fazer um social com o técnico pré-histórico do King’s College. Vamos lá! – Ele exclamou alto e todos saíram pela abertura que dava direto no campo. Espiei o que estava acontecendo e vi comentar algo com , que acenou com a cabeça e sorriu abertamente. virou-se em minha direção e cruzou os braços, enquanto eu saía de trás da parede.
- Então... – ele começou o assunto, enquanto me puxava pela mão para perto dele – A que devo a honra da sua visita? – Colocou minha mão que ele segurava em seu pescoço, enquanto eu fazia a mesma coisa com a outra mão. Seus braços envolveram minha cintura e nossos corpos colaram um no outro.
- Eu vim te desejar boa sorte. – Sorri brincando com as pontas do seu cabelo.
- Não preciso de sorte – ele disse baixo e perigosamente perto do meu ouvido. – Eu tenho você. – Ouvi o estalo de um beijo que ele deu no meu pescoço, tão ousado e ao mesmo tempo inocente.
- Então digamos que eu vim te inspirar pro jogo. – Mordi seu lábio inferior e ele soltou um gemido baixo, sorrindo em seguida.
- Resposta certa. – Ele aproximou o rosto do meu e ficamos a centímetros de distância, apenas sentindo nossas respirações pesadas se misturarem. Fechamos nossos olhos ao mesmo tempo e a língua de passou levemente por meus lábios, despertando sensações variadas dentro de mim. Apertei sua nuca e gemi baixinho quando ele beijou o canto da minha boca e segurei forte no seu cabelo, fazendo nossos lábios se encontrarem logo de uma vez. Nossas línguas estavam, mais uma vez, perdidas no meio daquela intensidade e de toda nossa intimidade. Cada parte do corpo de estava no meu, não importava quantos centímetros ele fosse mais alto, eu me sentia nele de uma forma inexplicavelmente quente. Suas mãos grandes e fortes apertaram minha cintura e eu senti minhas costas colidir com os armários, fazendo um barulho quase ensurdecedor. Demos uma risada breve durante o beijo, sem realmente separarmos nossas bocas.
- Wow! – Ele sorriu malicioso e desceu a boca para o meu pescoço, me fazendo arrepiar com o toque de sua língua quente contra a minha pele. Gemi um pouco alto e passei minhas mãos por dentro da camiseta dele, sentindo seus músculos enrijecerem enquanto seu corpo tinha as mais diversas reações.
Eu desenhei na minha mente a cena que eu estava vivendo naquele momento. Eu estava encostada contra um armário com a cabeça deitada pra trás enquanto fazia o que bem entendia com o meu pescoço, me tirando qualquer vestígio de sanidade.
Olhei para ele; os lábios vermelhos, o cabelo bagunçado e o rosto um pouco suado. Me lembrei da festa, há dois anos, a festa que ele falou pela primeira vez comigo. Estava igualmente sexy, com uma expressão de malicia no rosto, como se ele pudesse ser perigoso pra mim.
- Você está me dando aquele mesmo olhar daquela festa. Como se sei lá, pudesse ver através das minhas roupas e como se quisesse me corromper apenas com a força dos seus olhos. – Rocei meu nariz no seu, e senti sua mão descer um pouco mais para meu quadril.
- Se você soubesse no que eu estava pensando em fazer com você naquela festa... – ele sussurrou no meu ouvido enquanto eu apertava suas costas por baixo da camiseta.
- Eu não sei o que você queria fazer comigo. – Soltei um gemido baixo quando ele mordeu meu lábio. – Então acho que você poderia me mostrar. – Sorri maliciosamente e ele me prensou ainda mais contra o armário do vestiário masculino, enquanto me beijava com força e desejo mais uma vez. Não estávamos indo com calma, estávamos no ritmo que queríamos estar. Suas duas mãos estavam espalmadas em meu quadril e eu as senti me apertarem fortemente, fazendo com que eu entrelaçasse minhas pernas na cintura dele. Eu estava entre ele e o armário, com a respiração pesada, as mãos que ora estavam bagunçando os cabelos dele, ora estavam arranhando as costas e o abdômen dele...
- Você deveria estar se aquecendo no campo – eu disse de olhos fechados enquanto sentia a ponta de seus dedos levantarem minha saia e acariciarem minhas coxas suavemente.
- Já estou bastante aquecido, não se preocupe. – Ele apertou minhas pernas e voltou a me beijar, acabando com o pouco ar que me restava. Puxei seu cabelo um pouco forte demais e ele suspirou respirando com dificuldade.
pressionou mais seu corpo contra o meu enquanto ainda nos beijávamos sem qualquer vontade de parar. Apertei seus ombros fortemente quando senti suas unhas curtas e quase inexistentes arranharem minhas pernas suavemente.
- ? – Ouvimos uma voz chamar e constatamos que era Sr. Matthews.
me colocou no chão e ajeitou suas roupas, saindo de trás do armário.
- Desculpa, Ryan! – disse desconcertado. Era assim que chamavam o Sr. Matthews fora da sala de aula: Ryan. – Eu estava procurando minha boxer da sorte.
- Ah, claro! – Senti uma pontada de ironia na voz dele. – E o que a está fazendo aqui? – Ele de repente apareceu atrás do armário e me surpreendeu. – Vocês dois não têm jeito mesmo. Ficaram a minha aula inteira trocando carinhos e agora ficam de amassos pelo vestiário?
- Sr. Matthews, desculpe, a gente... – Comecei a me explicar, mas fui interrompida.
- , você não precisa se explicar. é um dos meus melhores jogadores e se essa sessão de pegação fizer bem pro nosso atleta aqui, por favor, fique à vontade. – Ele colocou a mão no ombro de e riu maliciosamente. – Mas uma garota no vestiário masculino é errado e contra as regras do colégio.
- Não vai acontecer de novo, prometo! – eu disse envergonhada pela situação. – Sr. Matthews, como sabia que eu estava aqui? – perguntei antes de sair pela porta.
- Bom, o não ia conseguir ficar desse jeito sozinho, se é que você me entende. – Ele apontou para o meio das pernas do e eu me senti ainda mais envergonhada do que antes e saí do vestiário mais rápido do que o planejado.
Metade do segundo tempo. St. Anne’s Catholic High School: 3 x 3 King’s College. Empate.
havia feito dois dos três gols e corria pelo campo habilidosamente, driblando adversários e fazendo acrobacias com a bola. Eu mordia meu lábio inferior assistindo-o se movimentar de um lado pro outro com seus ombros que pareciam ainda mais definidos pela camiseta colada de suor por todo seu corpo. Por alguns segundos, me desliguei do jogo de futebol e imaginei vindo na minha direção exatamente como estava, suado e ofegante, tirando a camiseta e me abraçando fortemente. Era o que eu mais queria que ele fizesse naquele momento, mas meus pensamentos foram interrompidos por gritos e urros e quando olhei para o campo, vi perto do gol, com certeza havia feito mais um ponto. Ele correu pelo campo e apontou para mim de onde estava e eu sorri mais do que abertamente para ele, sentindo alguns pares de olhos sobre mim. Não, não me importei nem um pouco.
Três minutos para acabar o jogo, enquanto torcíamos para que o King’s College não fizesse mais um gol para dar mais um empate. correu engraçadamente pelo campo e fez charme para as garotas que riam dele, passou a bola para algum garoto que eu não pude distinguir quem era e esse mesmo jogou a bola para . De uma forma que meus olhos não puderam acompanhar, passou por dois garotos do time rival e faltando poucos segundos para o final do jogo, vi seu habilidoso pé chutar a bola para o gol mais uma vez. Gritei aguda e debilmente e tudo o que consegui fazer foi descer a escada da arquibancada, entrar no campo e correr para os braços de , que me esperavam nus e abertos.
- Eu to suado, – disse perto do meu ouvido, dando um beijo molhado em minha bochecha.
- Não ligo! – Eu o abracei ainda mais forte e ele levantou meu corpo, fazendo com que meus pés perdessem o chão. Nos olhamos nos olhos e trocamos um selinho um pouco demorado, mas nada muito intenso.
- Hei, ! – Ouvimos uma voz masculina chamar e quando nos soltamos, vimos um garoto do King’s College parado ao nosso lado. – Foi um bom jogo. – Ele estendeu a mão e a apertou.
- Sim, foi. Espero poder enfrentar vocês mais uma vez. – sorriu amigavelmente, não havia muita rivalidade naquele momento, pelo menos nada que eu pudesse notar assim superficialmente.
- Você e a Gauthier, huh? – Os olhos azuis do garoto percorreram meu corpo, desde os pés até o meu rosto, um sorriso brincando em seus lábios. – Se eu tivesse uma dessas me esperando, também ia fazer quatro gols num só jogo. – Ele levantou as sobrancelhas de um jeito meio perverso e passou o braço por minha cintura, me trazendo para perto dele. – Você tem uma garota e tanto...
- Sim, é minha garota. E vai ser sempre assim, Anthony, não se esqueça disso. – De repente, já não parecia mais tão amigável.
- Tudo bem, cara... Não vou roubar ela de você. – Anthony levantou as mãos perto dos ombros em sinal de defesa e soltou uma risada meio sarcástica. – Mas se ela enjoar de você algum dia, já vai saber a quem procurar... – Ele virou as costas e voltou para o aglomerado de alunos que estava a alguns passos de nós.
Olhei para que tinha a expressão séria e um pouco raivosa no rosto e as duas mãos na minha cintura, apertando-a forte e possessivamente.
- O que foi? – ele perguntou quando notou que eu o estava olhando com um meio sorriso. – O cara mexeu com você, . E a forma como ele te olhou e... – Eu o calei com um selinho.
- Eu gostei disso. Achei sexy te ver enciumado. – Eu sorri enquanto passava meus braços por seu pescoço.
- Droga! Por que eu tenho que namorar a garota mais linda do mundo? – Ele fingiu estar triste e roçou ao nariz na minha bochecha.
- Droga! Por que eu tenho que namorar o garoto mais cego do mundo? – Repeti o gesto dele e ficou sério de repente.
- Eu enxergo melhor do que você, sabe por quê? – Ele me olhou profundamente e pela milionésima vez, eu fiquei tonta. Acenei negativamente com a cabeça, como uma resposta para a pergunta dele. – Porque eu enxergo você, mas você mesma não se enxerga. E eu te enxergo melhor do que qualquer outra pessoa. – Nossos lábios se tocaram e trocamos um beijo calmo e suave, enquanto eu sentia as mãos dele segurarem minha cintura mais calmamente e minhas mãos apenas acariciavam sua nuca. – Não existe nada que eu goste mais no mundo do que ficar com você!
Capítulo 10 – Ligações perdidas
- Não sabia que INXS era new wave – eu disse olhando para as prateleiras que continham mais CDs do que uma loja. Meu pai era um colecionador assíduo de tudo o que era relacionado à música e às suas bandas favoritas. Ele é do tipo de fã que compra os discos de platina que a banda ganha, que tem os CDs e os vinis organizados em ordem alfabética por banda e em ordem de lançamento por álbum. Eu simplesmente amava passar algumas horas com o meu pai, na sala que ele definia como o território dele. Bastava chegar ao fim da sala de estar da minha casa e uma escada marrom levava à sala do meu pai no subsolo, o lugar que ele mais gostava no mundo, depois do palco, é claro.
- Você achava que fosse o que? – meu pai perguntou sentando na poltrona de couro marrom, enquanto afinava seu baixo vermelho da Fender.
- Hum, não sei... – O olhei pensativa. – Não entendo muito de gêneros, pai, eu apenas ouço, gosto e pronto! Não é como se eu pudesse diferenciar new wave de post-punk, e saber que não é a mesma coisa que synthpop ou o que quer que seja. – Gesticulei exageradamente e ele sorriu, devolvendo o baixo ao arsenal.
- Posso te ensinar quando quiser. – Ele sorriu e pegou um outro baixo Fender, mas de cor preta e de modelo diferente.
- Ah, eu vou adorar, pai – respondi empolgada com a idéia. Eu amava música, e graças ao meu pai, que me criou em meio aos acordes de Beatles, Rolling Stones, Guns N’ Roses e muitas outras bandas que são consideradas grandes clássicos da época dele. – Pai... – eu o chamei meio insegura enquanto olhava para o pôster do AC/DC colado na parede. – O que você acharia se eu namorasse um garoto que tem uma banda e pretende fazer isso pro resto da vida? – Mirei sua expressão calma à minha frente e ele sorriu.
- Você sabe o quanto adoro músicos. – Ele devolveu o baixo preto ao arsenal e guardou a palheta na caixa de madeira que estava em cima da mesa. – Não me importo com o que o seu namorado faz, contanto que você esteja feliz. Mas você bem sabe que se ele chegar aqui e disser que Jimi Hendrix era o cara e que Led Zeppelin era uma grande banda, já estou conquistado. – Ele soltou uma risada suave e me abraçou confortavelmente. – Você está namorando? – Meu pai olhou fundo em meus olhos e eu permaneci em silêncio, não sabendo se aquele era o momento certo, mas se não fosse, já era tarde, ele com certeza já sabia. – Eu acho melhor almoçarmos. – Como que lesse minha mente, ele sorriu e me beijou na testa, entendendo que mais cedo ou mais tarde, eu diria, por mais que ele já soubesse.
- Eu também acho. – Sorri para ele e subimos as escadas, indo em direção à cozinha.
- Posso saber por que você não está ensaiando? – Minha mãe virou seu corpo em nossa direção, e colocou a travessa de lasanha em cima da mesa.
- Oi, posso ter uma vida além da sala de ballet? – Arregalei meus olhos, inconformada com o que ela havia dito.
- Depois que você se formar em Juilliard, você vai poder tudo. – Ela tirou as luvas térmicas das mãos e as jogou na pia.
- Bom, então eu só vou ter uma vida daqui a quatro anos? Foi isso que você quis dizer ou eu estou louca? – perguntei petulante e meu pai olhou significativamente pra mim.
- Vocês duas não comecem, por favor. Domingo já é um dia chato... – Dei uma risadinha baixa com as palavras do meu pai. Ele parecia tão adolescente quanto eu: odiava domingos, odiava responsabilidades, odiava acordar cedo, odiava comer nos horários certos, amava ficar o dia inteiro de pijama e amava ainda mais não fazer nada. – Lizzie, deixa ela em paz um pouco. Pra você só existe ballet e ballet o tempo todo. Deixa ela ouvir as bandas dela e comer as porcarias dela e fazer o que quiser.
- Oh, Christopher, não seja absurdo! – Minha mãe exclamou abismada. – Você nunca vai deixar de ser aquele cara com o jeans rasgado e a camiseta do Jane’s Addiction que eu conheci em Nova York?
- Não, eu nunca vou deixar de ser o cara com o jeans rasgado e a camiseta do Jane’s Addiction que se apaixonou pela grande revelação de Juilliard. – Olhei para meu pai, chocada com o romantismo e sorri vendo a expressão no rosto de minha mãe amolecer. Eu tinha um dentro de casa e nem sabia...
Comemos silenciosamente a lasanha de espinafre, enquanto eu pensava em com mais freqüência do que pode ser considerado normal. Sorri levemente comigo mesma ao me lembrar do quão intenso ele era e de como eu me sentia quando estávamos juntos. Gostaria que aquele domingo acabasse logo, assim eu poderia estar com ele na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta...
Mastiguei o último pedaço calmamente e me levantei, colocando meu prato em cima da pia.
- Pra barra, senhorita! – Minha mãe olhou para mim, mais mandona impossível.
Estava passando pela sala, quando a campainha estridente e irritante tocou. Dei um salto pelo susto que levei, e me dirigi à porta.
- ? – Olhei assustada para ele, que estava parado na minha porta com um sorriso encantador no rosto, e um buquê de tulipas rosa em mãos.
- Fiquei horas pensando nas flores perfeitas pra você e cheguei à conclusão de que essas flores simplesmente não existem. – Ele me entregou o buquê, plantando o selinho suave em meus lábios. – Mas trouxe tulipas, porque as achei encantadoras, e encanto me lembra você – ele disse naturalmente, daquele jeito dele, como se não fosse nada mais, mas com toda a intensidade que poderia existir e eu fiquei alguns poucos segundos recebendo todas as informações.
- Às vezes, você diz coisas estranhas. – Ri dele, que fez uma careta fofa pra mim.
- Posso entrar? – ele perguntou baixo e só então me dei conta de que estávamos na porta da minha casa, que meus pais estavam lá e que não sabiam sobre nós dois.
- , o que você...
- Quem é? – Meu pai apareceu atrás de mim, e olhou para , que ficou um pouco mais pálido que o normal. Mal sabia ele que o motivo pelo qual ele deveria ficar assim, era minha mãe.
- Erm... Esse é o... o... – gaguejei pensando numa resposta, por mais que não adiantasse dizer nada que não fizesse sentido. – ... – eu disse simplesmente, vendo que eu não poderia ter encontrado uma resposta melhor.
- Ah, claro... ! – meu pai exclamou irônico. – Como vai rapaz? Não te vejo desde os meus dezoito anos e você não mudou nada pelo visto. – apertou a mão dele e soltou uma risada boba. – não é muito boa com informações, sabe?
- Pai! – eu o chamei cuidadosamente. – e eu temos algo pra dizer. – Ele me olhou atentamente e abriu passagem para que entrasse.
- O que está acontecendo? – Minha mãe apareceu na sala, com uma expressão assustada no rosto.
- Lembra do , meu amigo de infância? – Meu pai passou o braço pelos ombros dela, que o olhou espantada. – Tá, a piada já perdeu a graça. – Ele bufou desanimado e nós quatro nos dirigimos ao sofá. – A nossa filha e esse rapaz com a camiseta do Led Zeppelin têm algo a nos dizer. – sentou ao meu lado, e ficamos de frente para meus pais.
- Bom, é que... – coçou a nuca em sinal de nervosismo. – Eu gosto muito da sua filha. Na verdade, sou apaixonado por ela e... – Ele entrelaçou a mão na minha e se sentiu mais confiante. – Eu vim, oficialmente, pedir permissão para namorá-la. Nós meio que já estamos namorando, mas eu gostaria de ter a aprovação de vocês. – respirou fundo e sorriu levemente pra mim.
- , certo? – meu pai perguntou e ele acenou com a cabeça. – Me diga quais são as três bases musicais mais influentes. – Olhamos confusos pra ele, mas tomou uma pose mais influente e sorriu mais abertamente.
- Beatles, Rolling Stones e The Who – ele respondeu normalmente e eu fiquei ainda mais confusa. Aonde isso ta escrito? Eu nem sabia que existia essa coisa de bases musicais influentes.
- Minha filha é sua. – Papai gargalhou mas se recompôs logo em seguida. – Não estou falando sério, é claro. Era mais pra saber se, assim como eu, você também concorda que essas três bandas são consideradas as maiores bases musicais da história. – Minha mãe olhou horrorizada para ele, que ficou sério novamente. – Não vejo motivos pra você não namorar minha filha. Aliás, belo Audi, eu tenho um também, mas é TT.
- Christopher, você está impossível hoje. – Mamãe o repreendeu e ele soltou uma risada discreta. – O que você pretende fazer da vida, ? – ela perguntou daquele jeito superior que ela tem, aquele ar francês que ela não possuía tão inteiramente quanto nos primeiros anos de vida.
- Bom, eu tenho uma banda com meus amigos de escola... Sou o – disse, certo de que não a impressionaria. – Pretendemos levar a banda a sério.
- É... interessante! – ela soou indiferente e eu me senti magoada por dentro.
- Qual o nome da sua banda? – Meu pai perguntou interessado e simpático.
- McFLY. A gente curte o filme, então achamos legal colocar esse nome na banda.
- De Volta para o Futuro é um clássico. Adorei esse garoto! – Ele sorriu amigável e pareceu mais calmo e aliviado. – Mas é claro que o essencial é fazer minha filha feliz.
- Eu jamais faria algo pra decepcioná-la, seria como decepcionar a mim mesmo. – Seus olhos fitaram os meus e eu me senti ainda mais apaixonada do que antes. colocou a mão no bolso, e tirou uma caixinha vermelha e aveludada. Parei de respirar naquele momento. – Pra mim, o que importa é o que sentimos, mas isso é apenas um símbolo do que seremos a partir de agora. – Ele abriu a caixinha e duas alianças prateadas brilhavam ostensivamente. pegou a que tinha um cristal cravejado e segurou minha mão, deslizando o anel por meu anelar, e beijando-o em seguida. Com as mãos um pouco trêmulas, repeti o gesto dele, sentindo meu coração bater mais forte a cada minuto.
- É lindo, ! – eu disse sorrindo muito mais do que se é possível sorrir, com a sensação de que as coisas não poderiam estar mais perfeitas. – Erm... vamos dar uma volta? – Franzi a testa me sentindo um pouco desconfortável por estarmos na frente dos meus pais. Olhei para eles e meu pai assentiu com a cabeça enquanto minha mãe parecia um robô, com uma expressão vazia no rosto. e eu nos levantamos e saímos pela porta de mãos dadas.
- Por que vamos dar uma volta? – Ele me olhou um pouco confuso, me fazendo pensar que ele ficava extremamente fofo daquele jeito.
- Eu queria ficar sozinha com você, oras. Isso é coisa de perguntar pra sua namorada? – Dei uma risada fraca enquanto seguíamos para o final da minha rua. O toque quente da mão dele contra a minha era exatamente aquele tipo de coisa que não existia igual, uma sensação totalmente agradável e aconchegante. O cheiro forte do perfume dele vinha diretamente às minhas narinas, me dando a sensação de ter um garoto de verdade do meu lado.
- Verdade, isso não é uma coisa pra se perguntar pra namorada. – Ele sorriu e me deu um selinho demorado quando chegamos ao pequeno parque que tinha no final da rua. Andamos em passos lentos até alcançarmos o gramado verde e macio e nos sentamos sobre ele, lado a lado.
- O que foi? – perguntei tímida enquanto ele me olhava analítica e bobamente.
repousou a mão sobre minha bochecha e seus dedos acariciaram meus cabelos suavemente.
- Gosto de olhar pra você! – Ele sorriu fraco, passando o polegar por meus lábios. – Me sinto bem de saber que posso olhar pra você mais de perto, que posso falar com você e que você pode me ouvir. Me sinto melhor ainda em saber que eu sou o cara que está do seu lado dessa vez, que eu estou com quem eu deveria estar desde sempre. Meu coração não sabe mais bater calmamente, e a culpa é toda sua. – Seu rosto se aproximou do meu e nossos lábios apenas se encaixaram suavemente. Ouvi um estalo baixo e suave quando nos afastamos e ele sorriu pra mim.
- Estamos oficialmente juntos – eu disse olhando para o pequeno cristal em minha aliança.
- Sempre estivemos, . – Ele entrelaçou os dedos nos meus e começamos a brincar com eles. – Isso é apenas uma representação do que está aqui. – Sua mão repousou suavemente sobre a parte esquerda do meu colo, indicando o coração.
- Eu sei... é só que... – Continuei olhando tímida para nossas mãos. – Ainda não acredito, sabe? “Nós dois” é tão... lindo e novo. Eu nunca havia imaginado isso e agora é a melhor coisa que já me aconteceu e me pergunto todos os dias porque não aconteceu antes. – Olhei em seus olhos dessa vez e ele deitou sobre a grama, fazendo com que eu o imitasse.
- Eu fui devagar – ele disse simplesmente. – Deixei que o Garret chegasse antes de mim e tomasse o meu lugar. Foi dolorido ver vocês dois chegarem de mãos dadas na escola e ver que vocês estavam sempre juntos, e a forma como ele dizia seu nome... com aquele sotaque francês nojento e aquela arrogância francesa nojenta e... – Eu o calei com um selinho e dei um riso baixo.
- Não se esqueça de que esse sangue francês nojento corre nas minhas veias, . – Ele franziu a testa se sentindo um pouco sem graça. – Você não sabe o que aconteceu entre mim e Garret. E não foi tão lindo ou intenso quanto nós dois. – Sua mão desceu para minha cintura e ele me puxou para mais perto. – Acho que ele e eu ficamos juntos por obrigação.
- Como assim? – perguntou se mostrando realmente interessado.
- Eu ia para a França todos os finais de semana, porque meus avós maternos moram lá. – Me senti um pouco insegura de contar sobre Garret. – E num desses finais de semana, quando eu tinha uns seis anos, minha mãe e a mãe dele se conheceram e nós praticamente crescemos juntos. Foi isso...
Ele acariciou levemente meu quadril e roçou o nariz no meu.
- O que importa é que estamos juntos agora. – beijou meu pescoço suavemente.
- Isso é tudo o que importa. – Apertei sua nuca e deixei que ele me beijasse de verdade.
- Festa na casa de quem? – perguntou interessado, sentando-se na mesa ao lado de .
- Da Jamie White. – deu uma mordida em seu sanduíche. – Dizem que a casa dela é simplesmente enorme.
- Adoro festas em casas grandes. – Jimmy sorriu divertido, antes de dar um selinho demorado em Lauren.
- Eu adoro o conteúdo dessas festas. – Ouvimos Charlie dizer e levantar as sobrancelhas numa expressão maliciosa, enquanto dávamos risada.
- Você vai? – perguntei virando meu corpo de frente para , enquanto seus braços me apertavam mais contra ele.
- Se você quiser ir, eu vou também. – Ele roçou o nariz no meu e eu sorri tímida.
- Seus bregas. – Matt tacou uma bolinha de papel em , que mostrou o dedo do meio como resposta.
- Ai, eu quero ir embora! – disse um pouco irritada. – Vamos, ?
- Ah, , você vai mesmo atrapalhar o casal? – passou o braço pelos ombros dela e sorriu abertamente. – Eu te levo, vem... – Ele segurou na mão dela e sorriu, retribuindo o gesto. Olhei para significativamente e ele deu de ombros, tentando disfarçar. Sorri e olhei para as costas dos dois, que se afastavam de mãos dadas, enquanto ouvíamos gargalhar altamente de algo que dizia.
- Vamos também? – beijou minha testa e sorriu.
- Vamos. Eu preciso ensaiar. – Franzi o cenho e ele me deu um selinho demorado. Nos despedimos de quem havia ficado e caminhamos até o Audi prateado dele, que não se encontrava muito longe de onde estávamos.
ligou o rádio e bem na hora, Dave Grohl começou a cantar.
Tonight I'm tangled in my blanket of clouds
(Essa noite eu estou enrolado no meu cobertor de nuvens)
Dreaming aloud
(Sonhando em voz alta)
Things just won't do without you, matter of fact
(As coisas simplesmente não acontecem sem você, é a realidade)
I'm on your back, I'm on your back, I'm on your back
(Eu estou atrás de você)
If you'd accept surrender, give up some more
(Se você aceitou a rendição, ceda um pouco mais)
Weren't you adored
(Você não foi amada?)
I cannot be without you, matter of fact
(Eu não posso ficar sem você, é a realidade)
I'm on your back, I'm on your back, I'm on your back
(Eu estou atrás de você)
If you walk out on me, I'm walking after you
(Se você fugir de mim, eu vou correr atrás de você)
If you walk out on me, I'm walking after you
(Se você fugir de mim, eu vou correr atrás de você)
Another heart is cracked in two
(Mais um coração é partido em dois)
I’m on your back
(Eu estou atrás de você)
- I cannot be without you, matter of fact. – olhou para mim profundamente, pronunciando aquelas palavras, como se elas tivessem sido escritas por ele. – I’m on your back. – Sua mão deslizou suavemente pelo meu rosto e eu fechei meus olhos, ouvindo-o sussurrar as palavras docemente, bem perto do meu ouvido: – If you walk out on me, I’m walking after you. – Eu sorri suavemente e o sinal abriu logo em seguida. Meu coração batia mais forte se eu simplesmente olhasse para o antebraço dele. Cada pedaço de me encantava e me conquistava de tal forma, que eu não saberia colocar em palavras o que se passava dentro de mim. Quanto mais tempo eu passava com ele, mais tempo eu queria passar. Ele era meu maior vício.
- Você é o meu maior vício – ele disse olhando para o tráfego, com um sorriso brincando em seus lábios. Fiquei assustada pela conexão entre nossas mentes e me lembrei que, algum dia, em uma aula de psicologia, quando a professora explicava sobre Freud, ela disse que era possível que dois inconscientes estivessem completamente conectados. E que, quando as pessoas pensam a mesma coisa ou falam algo juntas, os neurônios são iguais, são reflexos um do outro, como espelhos. Senti medo, mas só por poucos segundos. segurou minha mão e olhou em meus olhos, quando paramos na frente da minha casa. Os olhos dele sempre sabiam como penetrar nos meus e entender o que se passava dentro de mim. sempre sabia o que eu sentia, o que eu pensava. Ele sempre sabia...
- Você sempre sabe o que eu sinto. – Me senti um pouco tonta pela proximidade do rosto dele. Os olhos que ainda eram capazes de me causar uma tontura gostosa e o perfume que me levava a uma outra dimensão.
- É porque você é minha. – Ele segurou minha mão e a colocou em cima de seu coração, enquanto eu sentia as batidas rápidas e fortes. – Ele é seu. Só responde aos seus chamados e só fica assim por você! Eu... – respirou fundo e fechou os olhos, não terminando sua frase. Encostou os lábios nos meus e então, eu entendi o que ele queria me dizer. Eu entendi quando sua língua encontrou a minha e se movimentou perfeitamente com ela; eu entendi quando uma mão sua encontrou meu pescoço e a outra segurou suavemente na minha cintura. Eu entendi, porque era o que eu também sentia, mas não conseguia dizer. cessou o beijo com selinhos estalados, passando a boca para minha bochecha e em seguida, para o meu pescoço. Permaneci de olhos fechados, e eu sabia que poderia ficar daquele jeito pra sempre.
- Preciso entrar – eu disse fazendo um pouco de manha, sem nenhuma vontade de ensaiar.
- Tudo bem! – Ele sorriu e deu um beijo no meu nariz. – Eu venho te seqüestrar mais tarde. – Soltei um riso baixinho e trocamos um último selinho antes que eu saísse do carro. Dei um tchau fraco para ele, passando pelo caminho de pedras que dava até a porta da minha casa. Olhei para uma última vez e ele piscou para mim, sorrindo em seguida. Entrei em casa e pela janela, vi o Audi prateado ir embora enquanto eu já sentia saudades dele.
- Até quando essa coisa vai durar? – Minha mãe apareceu na sala, com roupas de ballet, um coque na cabeça e o pescoço brilhoso pelo suor.
- Que coisa? – perguntei com indiferença, tendo uma vaga idéia do que ela estava falando.
- Você e o – ela respondeu com indiferença, olhando para as unhas.
- Não é uma coisa, é um relacionamento. E você mal o conhece pra falar assim... – Virei meu corpo de frente para ela e a encarei.
- Não quero discutir isso. – Ela se levantou e se aproximou de mim com uma expressão séria. – Quero que você ensaie comigo. Na minha sala de ballet... – Minha mãe cruzou os braços e eu bufei, já sabendo que não teria paz naquele dia.
- Tá, eu vou me trocar e já desço. – Subi, preguiçosamente, os degraus da escada, entrando em meu quarto logo em seguida. Não tinha a mínima vontade de ensaiar na sala de baixo, me irritava profundamente ter que ficar ouvindo minha mãe me criticar a cada cinco minutos. Abri meu armário e peguei o primeiro collant, a primeira meia-calça e o primeiro par de sapatilhas que encontrei. Fiz um rabo de cavalo alto e respirei fundo antes de descer as escadas.
Olhei para minhas sapatilhas e empurrei a porta branca, entrando na sala.
- Pronto! – bufei incomodada com a quantidade de janelas, com o piano de cauda, com o tamanho da sala e com a decoração que parecia um quadro renascentista.
- Vamos começar. – Mamãe colocou Tchaikovsky e dirigiu-se até a barra, parando do meu lado. Começamos com o alongamento; as posições preparatórias dos braços e dos pés. – Pernas retas na terceira posição dos pés, – ela disse com toda a arrogância e postura de uma bailarina francesa. Mentalmente, eu fingi que jogava tudo para o alto e gritava com ela. Eu estava irritada.
- Minhas pernas estão retas, mãe. – Forcei mais meus joelhos para que as pernas ficassem ainda mais retas e ela parasse de procurar defeitos aonde eles não existiam.
- Falta graciosidade na posição preparatória dos braços. – Ela simplesmente não me olhava; soltava as palavras enquanto mirava o espelho e fazia os mesmos movimentos que eu. Encarei meu reflexo no espelho e me perguntei o que havia de errado com os meus braços. E durante os outros quinze minutos de alongamento, eu ouvi apenas críticas e reclamações da parte dela.
- Vamos reforçar o seu passè. – Ela chegou perto de mim, enquanto eu levantava meu pé direito e o posicionava na altura do joelho da outra perna que me servia de apoio. – Isso não me parece um quatro, . – Ela apontou para as minhas pernas.
- Claro que não! Parece um três, mãe – soltei minhas palavras afiadamente irônicas, contando até dez para não sair daquela sala.
- Pernas viradas para fora, ! – ela exclamou ignorando meu comentário e eu segurei na barra com mais força do que deveria.
Não sei por quantas horas fiquei ali, ouvindo-a me criticar e dizer que eu estava fazendo tudo errado. Só sei que quando acabou, meu corpo estava mais dolorido do que de costume, e meu psicológico estava em estado de nervos.
Saí do banho quente um pouco mais relaxada, me jogando em minha cama e ligando a TV em qualquer canal. Tateei a mesa de cabeceira à procura do meu celular, e quase acabei derrubando-o quando minha mão esbarrou nele.
4 ligações perdidas.
1 mensagem.
Cliquei na mensagem e era do : Não vou poder te seqüestrar hoje. Meu pai precisa de ajuda com a nova televisão dele. Estou com saudades, parece que não te vejo há anos! xx.
Sorri, e respondi que não tinha problema, pois eu estava muito cansada, devido ao desgosto da minha mãe pela minha falta de graciosidade no ballet. E aquilo não era verdade.
As quatro ligações perdidas eram do mesmo número. E pelo código de área, era da França. Se aquele não era o número da minha avó, que outro cidadão francês poderia me ligar quatro vezes no intervalo de três horas? Eu só sabia que estava cansada demais para poder pensar em todos os franceses que eu conhecia, por mais que eles não fossem muitos...
Capítulo 11 – O bastante para a vida toda
- , dá pra ir logo? – Bati na porta do meu banheiro, fazia quarenta minutos que ela estava lá dentro.
- ! – ela exclamou quando abriu a porta. – Eu fiquei lá dentro todo esse tempo e você ainda está enrolada na toalha? Pior: você levou uma hora e dezessete minutos pra tomar seu banho e em quarenta minutos, não colocou nem uma calcinha.
- Mas... – eu disse manhosa e ela me interrompeu.
- Mas nada! Você é muito mimadinha, sabia? – jogou a toalha na cadeira da minha penteadeira e abriu sua mochila, pegando a roupa que trouxera para irmos à festa da Jamie White juntas. – Eu já saí do banheiro de calcinha e sutiã pelo menos... E você, nem ao menos isso! E já são pouco mais de 21 horas.
- Ai, , calma! Até às 22 horas eu já estou pronta. – Sorri tentando acalmá-la.
- Duvido! – ela exclamou vestindo seu jeans délavé skinny, enquanto eu procurava por uma calcinha. – Você leva tempo demais pra se arrumar, chego a ficar irritada com você.
- Blablabla, chega . – Fiz uma careta e ela jogou uma almofada em mim, fazendo com que minha toalha caísse no chão. – Sua idiota! – exclamei gargalhando, enquanto enrolava a toalha no meu corpo de novo.
- Aposto que se fosse o , você nem ia se importar. – Ela me lançou um olhar furtivo, com um sorriso nos lábios.
- O é meu namorado. – Rolei os olhos como se fosse óbvio.
- E eu sou sua melhor amiga, muito antes dele virar seu namorado. – Ela repetiu meu gesto, exatamente da mesma forma.
- Ah, seus argumentos são fortes demais, odeio isso! – Joguei a almofada de volta e ela mostrou a língua para mim, voltando sua atenção às próprias roupas.
Tendo mais ou menos em mente o que eu iria vestir, abri a porta do meu armário e peguei uma saia jeans escura e uma baby look que era inteiramente estampada por rostos da Marilyn Monroe. Era uma das blusas que eu mais gostava. O retrato da Marylin por Andy Warhol.
- Onde a sua mãe ta? – perguntou vestindo sua bata roxa de um ombro caído.
- Ela ta num jantar com algumas amigas bailarinas – respondi pegando meu estojo de maquiagem e indo em direção a um grande espelho, que ficava na parte oposta à sala de ballet.
- Você tem uma sala só de espelhos, então por que não tira esse espelho daí e pendura um quadro?
- Adoro espelhos, você sabe. – Passei o lápis preto por cima da minha pálpebra superior, sentindo um pouco da aflição fazer meu olho lacrimejar. – Mas um Marilyn Diptych não ia ser nada mal nessa parede. – Me exaltei um pouco ao olhar para ela e sorrir abertamente, achando a idéia ótima.
- Um Marilyn o quê? – arregalou os olhos e perguntou confusa.
- Marilyn Diptych. É o quadro que o Andy Warhol fez da Marilyn algumas semanas depois dela morrer, sabe? – Apontei para a minha camiseta. – É claro que não é totalmente igual a esse, porque o Diptych tem 25 rostos coloridos de um lado, e 25 rostos em preto e branco do outro e... – Parei de falar quando vi que ela se irritou um pouco; eu estava enrolando como sempre.
- Já escolheu os sapatos? – perguntou sentada na cama e ignorando meu comentário. Ela estava totalmente pronta, enquanto ainda tínhamos mais vinte minutos.
- Já, é o vermelho baixinho. O de vinil, sabe? – Ouvi-a concordar e abrir meu armário para pegar o sapato pra mim.
voltou a se sentar na cama, enquanto cantarolava Beautiful, Dirty, Rich da Lady Gaga. Ela estava impaciente, eu sabia disso. Mas eu estava quase no fim, não faltava muito, por mais que eu fosse enrolada ao extremo.
- Terminei! – exclamei sorridente, e ela ficou em pé prontamente.
- Até que enfim. – Ela fez uma careta meio fofa pra mim, enquanto eu guardava as maquiagens. – Estamos lindas, maquiadas, bem vestidas e perfumadas. Agora vamos logo, o já deve estar chegando.
me puxou pelo braço e descemos as escadas, ouvindo um som que vinha da TV.
Show me, show me, show me
(Me mostre)
How you do that trick
(Como você faz aquele truque)
"The one that makes me scream," she said
(“Aquele que me faz gritar”, ela disse)
"The one that makes me laugh," she said
(“Aquele que me faz rir”, ela disse)
And threw her arms around my neck
(E jogou seus braços ao redor do meu pescoço)
- Ah, não vou mais sair de casa – disse empolgada sentando do lado do meu pai, que assistia a um show do The Cure. – I’ll run away with you, I’ll run away with you – cantarolei empolgada e sentou-se no outro sofá, rindo.
- Que saia curta. – Meu pai olhou para a peça de roupa e fez uma cara séria.
- Você não liga, que eu sei... – Dei um beijo estalado em sua bochecha e ele riu.
- Desse jeito, a vai pensar que eu não me importo com você.
- Ela sabe que isso não é verdade, pai – fiz uma voz infantil e ele beijou minha testa.
No mesmo momento, a campainha tocou.
- Eu atendo. – Levantei rapidamente e me dirigi para a porta com uma velocidade incrível. – ! – disse um pouco alto demais, me jogando em seus braços.
- Wow – ele falou quando nos soltamos, olhando para minhas pernas.
- Aqui em cima, . – Segurei em seu queixo, levantando seu rosto para encarar o meu.
- Vai ser bem difícil, não sei que parte de você é a mais bonita. – Ele piscou algumas vezes mais do que o necessário, e respirou fundo.
- Eu também vou sofrer com isso. – Peguei na gola de sua camiseta pólo, e como de costume, ela estava com os três botões abertos. – Ou você acha que seu peitoral quase à mostra não tem nenhum efeito sobre mim? – Passei minhas mãos por dentro da camiseta, acariciando desde o peitoral até o pescoço, enquanto beijava seus lábios sem nenhuma vontade de parar.
- Preciso me recuperar antes de entrar pra conversar com os seus pais. – Ele tentou normalizar a respiração e eu dei risada quando ele passou a língua pelos próprios lábios. – Pelo menos, dessa vez o gloss é de morango. – Ele passou o braço por meus ombros e entramos em casa, indo em direção à sala.
- Até que enfim, eu estava quase entrando em crise com essa demora de vocês dois. demora vinte anos pra se arrumar, e você demora mais vinte pra chegar. – levantou-se afobada e olhou assustado para ela.
- Oi, ! – Meu pai sorriu amigável para ele.
- Oi, Sr. Hunter. – Ele coçou a nuca em sinal de nervosismo e meu pai deu uma risadinha baixa.
- Christopher, por favor. Me sinto velho com essas formalidades. – Ele revirou os olhos e se sentiu um pouco mais calmo. – Cuida delas, ta? E quanto ao horário, eu não me importo de chegarem amanhecendo, porque eu confio na minha filha, rapaz. Por isso, muito cuidado com o que vai acontecer nessa festa.
- Tudo bem, eu vou fazer tudo direitinho, prometo! – apertou minha cintura, se sentindo um pouquinho nervoso de novo.
- Então vamos! – chamou apressada, e isso tinha nome e sobrenome: Joe Hardin.
- Tchau, pai. – Dei um beijo em sua bochecha e ele sorriu pra mim, quando me afastei para sair.
parecia empolgada e ansiosa, abria e fechava as mãos freneticamente, e não sossegou quando entramos no carro. Era como se eu pudesse ler os seus pensamentos e ouvir seu coração pulsar de ansiedade dentro do peito dela.
- Oi, – eu disse sorrindo para ele, que estava no banco de trás. Ele levantou os olhos brilhantes da minha direção e eu não poderia mentir sobre a sua beleza que ficava ainda mais realçada com a blusa preta de manga comprida que ele usava.
- Oi, e . – Ele deu seu típico sorriso aberto, aquele que todas as garotas adoravam, e que eu também adorava. – e chegaram. O Peugeot do acabou de parar aqui atrás, e eles estão com duas garotas – ele disse olhando pelo vidro de trás do carro.
- Então, vamos embora. – sorriu malicioso e ligou o carro logo em seguida, arrancando com velocidade. Abri o vidro e senti o vento forte bagunçar meus cabelos, me dando vontade de gritar.
ligou o rádio e sorriu para mim quando a introdução de Supermassive Black Hole começou a tocar.
- Surpresa pra você. – Ele aumentou o volume no máximo, abriu todas as janelas, inclusive o teto solar, e me deu um beijo rápido.
Não sei bem o que senti naquela hora, mas um misto de excitação e ansiedade tomou conta de mim por inteira, e eu senti que queria fazer tudo e nada ao mesmo tempo. Certas músicas podiam causar efeitos um tanto estranhos sobre mim, e essa música fazia exatamente isso.
- Oh, baby, don’t you know I suffer? – cantei alto e cheia de empolgação, quase como uma louca. Um sinal fechado.
- Oh, baby, can you hear me moan? – encostou a boca no meu ouvido e deu uma mordida no meu lóbulo, soltando seu hálito quente, juntamente com um som baixo de um gemido, totalmente clichê pela frase da música. Não consegui me conter quando senti sua língua no meu pescoço e puxei sua boca para um beijo, que não durou nada.
- O sinal – e gritaram juntos, nos fazendo rir com a situação. arrancou com velocidade de novo, e eu fiquei pensando se ele também estava sentindo o que eu estava sentindo. Provavelmente, já que estávamos sempre na mesma freqüência, por mais que eu não fizesse idéia do que isso significava. Mas de qualquer forma, com ele, eu não conhecia nenhum limite, a não ser os meus próprios. E talvez os dele, mas de certa forma, nunca nos limitávamos a nada, queríamos sempre tudo e mais.
- I thought I was a fool for no one, but, oh baby, I’m a fool for you. – Ele olhou nos meus olhos e cantou aquele trecho para mim com tanta sensualidade que eu não soube bem o que aconteceu dentro de mim naquele momento, só o que eu queria era que estivéssemos a sós e mais juntos do que se é possível estar. – Esse trecho não mente o que eu sou por você. – continuou me olhando fixamente, como que num truque de hipnose, e eu também estava daquele jeito. Os olhos dele, tão intensos e cheios de vida me faziam pensar se existia algo mais bonito do que eles.
- O sinal de novo! – Mais uma vez, e disseram juntos e eu rimos ainda mais. Estávamos adorando tudo aquilo.
Ouvimos uma buzina, e no mesmo instante, o carro de apareceu do meu lado.
- Vamos parar no Lewi’s, ok? – ele disse empolgado, com o volume do seu rádio também muito alto.
- Pra quê? – perguntou, trazendo a cabeça mais para o meu lado do carro, para poder ouvir melhor.
- É o esquenta, cara! – gritou abrindo o vidro de trás e dando uma risada treslouca.
Com a seqüência animada de músicas, nós quatro finalmente chegamos ao Lewi’s, rindo de qualquer coisa sem nexo, e por ora assustando algumas pessoas na rua.
- Heineken, certo? – saiu do carro aos tropeços e gargalhadas, e eu pensei em como ele ficaria quando estivesse bêbado.
- Heineken – confirmou apoiado na capota do carro, me lançando um sorriso em seguida. – Vem cá! – Ele deu a volta e pegou na minha mão, me puxando pra dentro do pub escuro. – Vamos aproveitar que eles estão entretidos com a cerveja... – Sua boca falou de encontro ao meu ouvido e sua respiração quente me provocou arrepios por todo o corpo, enquanto sua mão se posicionava em cima da minha barriga, trazendo minhas costas para perto do peitoral dele.
- O que você pretende fazer? – perguntei um pouco baixo, sentindo sua outra mão também me abraçar pela cintura, ao mesmo tempo em que sua boca continuava encostada no meu ouvido, soltando o hálito quente dele.
- Algo que estamos querendo desde aquela hora no carro. – encostou todo o seu corpo no meu, fazendo com que eu sentisse seu tronco colado nas minhas costas. Ele mordeu o lóbulo da minha orelha e eu fechei meus olhos, me esquecendo de tudo. Ele me virou de frente para e ele, e caminhamos em direção aos banheiros. Puxei sua mão tentando recuar, mas ele me olhou e sorriu. – Não tem ninguém, . – empurrou a porta de madeira do banheiro feminino, trancando-a em seguida. Uma luz fraca entrava pela janela e nenhum de nós queria encontrar o interruptor; estava mais interessado em agarrar minha cintura com força e me prensar contra a parede, e eu estava mais preocupada em apertar sua nuca enquanto sentia sua respiração na minha boca. E ele não se preocupou em me beijar tão cedo, eu apenas sentia, muito suavemente, seus lábios roçarem nos meus e construírem uma expectativa excitante para o beijo. Foi quando sua boca deslizou por meu pescoço que eu não agüentei mais e segurei seu cabelo, finalmente fazendo o beijo acontecer. E a cada vez que fazíamos aquilo, só melhorava. Uma mão dele se enterrou no meio dos meus cabelos, intensificando o movimento de nossas cabeças e, conseqüentemente, o beijo. Eu já não sabia mais onde estava e pouco me importava, enquanto ainda segurasse firme em meu quadril e eu apertasse seus ombros, eu não precisava de mais nada, a não ser dele.
- Como você sabia que eu também queria isso? – perguntei num tom malicioso, com a respiração descompassada e acelerada. passou a mão pelo meu rosto muito suavemente e sorriu.
- Estamos sempre na mesma freqüência. – Ele aproximou a boca do meu ouvido e o beijou levemente. – Eu sou seu e você é minha, ponto! – Sua boca se encontrou com a minha novamente, e mais um de nossos famosos beijos começou. Ele deslizou suavemente sua mão que estava em meu quadril até a parte de trás da minha coxa, acariciando-a somente com a ponta dos dedos. – Desde o momento em que você abriu a porta da sua casa, eu fiquei com uma vontade imensa de tocar as suas pernas. – Ele espalmou sua mão suavemente sobre a minha coxa e a subiu um pouco, até encontrar a barra da minha saia.
- ? – Ouvimos a voz de gritar juntamente com batidas na porta. – ? Dá pra vocês vestirem as roupas e saírem daí?
- Merda! – praguejou baixinho, soltando um riso. – Cala a boca, . Nós estamos vestidos, idiota!
- Então vamos logo, queremos ir pra festa – ele disse num tom meio possesso e deu um último soco na porta.
- tem o dom de interromper momentos como esse, é impressionante. – encostou a testa na minha e me deu um selinho demorado. – Vamos logo, antes que ele resolva arrombar a porta. – Dei uma risada baixa e me puxou pela mão para fora do banheiro.
- Espero que vocês não tenham se esquecido das roupas íntimas. – passou o braço pelo ombro de e soltou sua típica gargalhada estridente, fazendo-a rir também.
- Suas piadas não são engraçadas, ! Só você as entende e dá risada. – deu um tapa em sua cabeça e quem riu dessa vez fui eu.
- Desculpa, , mas as piadas do são engraçadas. – disse não conseguindo controlar o riso. – Pode dizer, ele é a pessoa mais engraçada do grupo. Sinto vontade de rir sempre que olho pra ele.
- É porque ele é um palhaço. – retrucou mais uma vez, fazendo uma careta idiotamente fofa dessa vez. – Afinal, por que estamos parados em frente aos banheiros?
- Estávamos discutindo o quão engraçado é, se você não se lembra... – disse dando um gole em sua Heineken, abraçando uma morena que eu conhecia de vista. – A propósito, essa é Claire e essa é Emma. – Ele apontou por último para a loira que estava com . – Essa é a...
- – Claire o interrompeu, dando um sorriso simpático. – Sabemos quem ela é. – Sorri de volta, mais sem graça impossível. olhou pra mim estranhamente, e eu não soube dizer que olhar era aquele.
- Melhor irmos, já são onze da noite. – puxou Emma consigo e nos dirigimos para a saída do pub.
- Ainda são onze da noite, . – passou por ele com Claire ao seu encalço e todos entramos nos carros na mesma divisão de antes.
- Cara, sua cerveja. – entregou uma garrafa de Heineken para , que girou a tampa no próprio braço, fazendo com que a garrafa fosse aberta. – Quer a sua, ?
- Eu vou tomando com o , sem problemas. – Sorri e me entregou a garrafa verde, logo depois de dar um longo gole.
Liguei o rádio em alguma estação que só tocava músicas antigas ou B-sides das maiores bandas. Smashing Pumpkins era a escolha daquela noite, em alguma música que eu não consegui reconhecer.
- Por que você me olhou daquele jeito estranho? – perguntei receosa a , quando paramos no sinal e ele pegou a garrafa para dar mais um gole.
- Não estou acostumado a namorar uma celebridade, . – Ele sorriu debilmente e passou o dedo por meu queixo, fazendo um carinho gostoso. – Sua mãe é do Royal Ballet, já dançou na Rússia com os maiores bailarinos de todos os tempos, sempre sai em alguma revista de decoração de casas e tudo o mais. Eu li essa matéria, sabia? – Ele soltou uma gargalhada como se aquilo fosse algum absurdo. – Eu me lembro bem que a manchete dizia “Conheça um pouco mais do lar da nossa maior estrela do Ballet”. E ainda tinha uma foto de vocês três sentados no sofá, sua mãe no meio e você com um sorriso lindo. – voltou sua atenção ao trânsito quando o sinal abriu.
- Ai, , aquilo foi uma matéria sobre a minha mãe. E ninguém lá em casa é celebridade. – Eu enruguei minha testa, nunca havia me acostumado com nada daquilo.
- É verdade que seu pai tem um estúdio e um arsenal de guitarras e baixos? E uma coleção completa de três baterias? – ele perguntou do nada, com um brilho no olhar.
- Sim, é verdade! E eu estava planejando levar você lá, mas era surpresa. – Dei de ombros tentando fingir indiferença e ele arregalou os olhos.
- Mas você ainda vai me levar, não vai? – segurou minha mão forte.
- Claro que vou, , deixa de ser bobo. – Ri da cara fofa que ele fez, lhe dando um selinho rápido.
- ...claro que não, . Pingüins não dançam, Happy Feet é só um filme. – disse num tom inconformado, e eu olhei para tentando controlar o riso.
- Jura, ? – respondeu irônico. – Eu sei que Happy Feet é só um filme, mas pingüins podem perfeitamente dançar. – Ele olhou para ela como se fosse óbvio e eu comecei a rir bem baixo.
- Ah, , não vou mais discutir com você, que saco! – Ela bufou irritada e cruzou os braços, olhando para o lado oposto ao dele. E foi então que eu vi um brilho diferente nos olhos de , algo que eu não sabia muito bem definir. Mas achei que fosse apenas minha imaginação.
- Desculpa, ... Eu só discordei pra te irritar. – Ele cutucou-a fraco, fazendo com que ela sorrisse.
- Parece que temos dez anos, . – Ela o olhou ainda com o sorriso no rosto e ele deu de ombros de um jeito engraçado. Era incrível como sempre conseguia brincar e arrancar risadas das outras pessoas.
Num curto período de minutos, estacionou o carro em frente à grande casa de Jamie, onde várias pessoas faziam o que bem entendiam, sem nem ligar ou saber o que estavam fazendo. Descemos do carro, e passou o braço pela minha cintura, me guiando para dentro da casa.
- , você veio! – Ouvi uma voz feminina soltar as palavras empolgadamente; era Jamie. Ela me abraçou forte e sorriu de forma aberta e simpática. – Fico muito feliz que esteja aqui. As cervejas e a vodka estão na cozinha, o fundo da casa está vazio, ninguém se jogou na piscina ainda e bom... sintam-se à vontade! – Ela nos deixou no meio de toda aquela bagunça de pessoas, cheiros e músicas... Olhei para e nenhuma idéia melhor passou por nossa cabeça, a não ser ir para a cozinha.
- Wow, Erdinger! – exclamou quando abriu a geladeira. – Isso sim é cerveja de verdade. – Ele pegou uma garrafa e a abriu da mesma forma que havia feito com a garrafa de Heineken minutos atrás.
- Achei que sua paixão fosse a Heineken – eu disse pegando a garrafa e tomando um gole. Definitivamente, era realmente o que podia ser chamada de cerveja.
- Elas empatam pra mim. – Ele sorriu e beijou minha cabeça e eu encostei-me ao balcão central. – Essa é a primeira festa em que eu venho, onde a cozinha está praticamente vazia. – Suas mãos se apoiaram no balcão ao meu redor e o corpo dele se aproximou perigosamente do meu.
- Eu e você podíamos fugir com as cervejas. – Dei vários selinhos em sua boca, entre uma palavra e outra.
- Até que não é má idéia. – aproximou sua boca do meu pescoço e deu um beijo suave, o que já foi suficiente para acelerar minha respiração e acabar com a minha saúde mental. – A gente pode ir pra Califórnia, um lugar aonde eu gostaria de estar apenas com você, pra compartilharmos juntos da vista de cada canto daquele lugar. E todos os dias serão novos dias, pra te fazer sorrir e encontrar uma nova maneira de se apaixonar por mim ainda mais.
- Eu sempre quis conhecer a Califórnia. – Fechei meus olhos quando ele me abraçou e repousou o queixo em meu ombro. – E seria muito mais interessante se você estivesse comigo.
- Eu vou estar com você sempre, de todas as formas. E o resto simplesmente não importa. – Seus olhos me encararam, e eu me perdi. Me perdi daquela forma que eu adorava me perder, perdida dentro dele e com ele. – , eu...
- Oi, ! – Uma garota com os cabelos castanho-avermelhados entrou na cozinha e me olhou simpática. Não me lembrei muito bem do nome dela, mas sorri em resposta ao cumprimento.
- O que você ia dizer? – perguntei a assim que a garota saiu da cozinha. Suas bochechas estavam rosadas, e seu olhar estava um tanto tímido.
- Eu ia dizer que... – ele hesitou por um momento, mas continuou. – ...que eu acho que deveríamos ir para a sala. – Arqueei uma sobrancelha e ele forçou um sorriso. Voltamos para a sala de mãos dadas, e nos sentamos no mesmo sofá onde e estavam conversando animadamente.
- – eu a chamei baixinho para que ninguém ouvisse, por mais que o som estivesse suficientemente alto para eu não escutar nem meus próprios pensamentos. – O Joe acabou de chegar. – Apontei para a porta com a cabeça, e eu vi o rosto dela adquirir um tom mais rosado e um sorriso bobo se formar nos lábios dela. Ele passou por nós e deu um tchau, sorrindo abertamente para ela, sumindo pelo batente da cozinha logo em seguida.
- Ai, e agora? Eu preciso ficar calma, ! – Ela segurou firme em minha mão, arrancando um riso meu.
- Isso, , você tem que relaxar. Deixar acontecer, lembra? Você sempre me disse isso... – eu disse tentando motivá-la a se acalmar e por mais que eu não gostasse muito dele, se ela ficaria feliz com ele, então eu também ficaria feliz.
- Isso, eu vou deixar acontecer e... – Sua fala foi interrompida por uma voz grave e masculina.
- ? – Eu e ela movemos nossa cabeça em sincronia até alcançarmos o rosto dele, de Joe. Ele estava sorrindo e era realmente bonito com seus cabelos ondulados e um pouco compridos. – A gente pode conversar? – se levantou mais rápido do que um piscar de olhos e mais rápido ainda, ela e Joe sumiram no meio das pessoas.
- Não gosto dele! – disse apontando para frente com a mão e ficando emburrado.
Olhei para e ele deu de ombros, querendo dizer que não sabia de nada. Era óbvio o que estava acontecendo, mas eu precisava de uma confirmação.
- Bom, eu vou atrás da... Sophie. – levantou-se um pouco sem ânimo e também sumiu no meio das pessoas.
- E agora? – Olhei para o nada, sem saber do que falava.
- E agora eu busco mais cerveja, enquanto você me espera aqui. – me deu um selinho e foi para a cozinha.
Olhei atentamente para todas as pessoas ali. Dançavam, bebiam e faziam o que bem entendiam. E num canto da sala, deslizava suas mãos para dentro da camiseta de Joe enquanto ele beijava o pescoço dela. Ela finalmente havia conseguido o que tanto queria...
- Viva à boemia. – voltou logo depois, com duas garrafas de Erdinger na mão, sorrindo.
- Viva à boemia. – Eu brindei com ele, bebendo da minha garrafa. Da minha primeira garrafa, deixando bem claro. Primeira de muitas...
Eu havia perdido a conta.
trazia garrafas e mais garrafas, e a cada minuto, nossos sorrisos aumentavam e a nossa consciência diminuía. Mas estávamos nos divertindo demais no jardim dos fundos, juntamente com todas as pessoas da festa, que se jogavam na piscina, se amassavam nas espreguiçadeiras, dançavam descalças e felizes... Que era o meu caso e o de . Meus sapatos estavam jogados ao lado dos tênis dele, perto de algum arbusto.
- , me segura. – Eu saí correndo na direção dele, me jogando em seus braços, fazendo com que ele caísse na grama com meu corpo em cima do dele.
Gargalhamos como se aquilo fosse a coisa mais engraçada do mundo.
- Podíamos ficar pelados. – sorriu, colocando o indicador em cima dos meus lábios e falando baixinho.
- Sim, podíamos. – Eu soltei uma risada alta e estridente. – Mas não vamos, ! Porque você é meu namorado e eu não quero ninguém olhando pra você. – Dei um selinho rápido nele e me levantei rápida e animadamente.
- E você acha que eu quero algum desses marmanjos aqui olhando pra sua cinturinha de bailarina? Claro que não, já me basta o que eu agüento na escola... – Saí correndo e ele veio atrás de mim, me pegando pela cintura e me girando no ar. – Você é minha e de mais ninguém. Eu te roubei pra mim, Gauthier Hunter. – Ele sussurrou no meu ouvido, dando um beijo nele logo em seguida. – ESSA GAROTA AQUI É MINHA, OUVIRAM?
- Shh, ! Fica quieto e me beija. – Segurei seu rosto com minhas duas mãos e nossas bocas se encontraram. Ele me apertou contra seu corpo, me dando uma sensação de conforto e segurança, algo que eu nunca havia sentido com ninguém.
- ? – Ouvi uma voz chorosa me chamar e me separei de a ponto de ver com os olhos avermelhados e os braços cruzados na frente do corpo. Merda!
- Ai, meu Deus! – Me soltei de rapidamente e abracei , já imaginando o que teria acontecido. – Nós vamos nos sentar e você vai me contar porque está chorando... – Apoiei minha mão em suas costas e nos sentamos em uma das espreguiçadeiras almofadadas.
- Joe – ela disse simplesmente, olhando para as mão que repousavam em seu colo, deixando as lágrimas caírem. – Ele me beijou...
- Sim, eu vi. – Passei a mão por seu ombro em sinal de consolo. – Você deveria estar sorrindo por causa disso, .
- Mas não foi só isso, . – Ela limpou as lágrimas e me olhou tão triste como eu nunca a havia visto. – Ele me beijou, estávamos juntos até agora, mas... ele me disse que havia sido apenas isso. Que não era nada, era apenas uma festa onde nós dois estávamos bebendo e que no dia seguinte, nossas vidas voltariam ao normal. Ele disse que o que acontecia ali, naquele canto da sala, morria naquele canto da sala, com essas mesmas palavras.
Quando ela parou de falar, senti o ódio invadir cada parte de mim, e eu não responderia pelos meus atos se o Joe aparecesse ali.
- Eu... eu não acredito que ele disse isso. – Bati a mão com força contra o assento da espreguiçadeira. – , eu quero que você dê uma surra nele, a pior surra do mundo, a surra mais bem dada da sua vida. – Olhei para ele que estava ajoelhado à nossa frente, segurando uma mão minha e uma de . – Eu não sei o que eu sou capaz de fazer se esse garoto aparecer na minha frente e...
- Eu sabia, eu disse pra vocês que esse Joe era um idiota! – apareceu do nada, cuspindo as palavras com mais ódio do que eu e juntas. – Eu vou acabar com esse garoto e vou fazer isso agora. – Ele se virou de costas bruscamente, indo em direção à entrada da casa, quando o impediu.
- Não, , por favor... – Ela não conseguiu mais segurar o choro e simplesmente desabou ali, na frente dele. – Não quero que ele saiba que eu estou assim e... nós não temos nada, ele tem o direito de não querer ficar comigo.
- Mais outro motivo pra eu dar uma surra nele, . – Ele segurou na mão dela e a tirou de seu braço com toda a delicadeza necessária. – Eu vou atrás dele.
- Não precisa, cara. – cutucou o ombro dele e apontou com a cabeça para Joe, que apareceu nos fundos da casa, abraçado com uma garota que eu conhecia de vista.
começou a respirar com dificuldade e seu ódio era tão grande, que eu pude ver as veias de seu pescoço saltarem todas de uma só vez. Em passos largos e brutos, ele andou até Joe, sendo seguido por nós três. Sutilmente, cutucou o ombro do garoto que estava de costas e quando ele se virou para nós, tudo o que eu pude ouvir foi o barulho da mão fechada de colidindo com o rosto dele.
- TÁ MALUCO, ? – Joe gritou com a mão pressionando seu olho direito, que havia acabado de receber o soco.
- QUEM TÁ MALUCO É VOCÊ, SEU IMBECIL. – gritou de volta e eu fiquei um pouco assustada por vê-lo alterado daquele jeito. me abraçou pela cintura, parando atrás de mim e repousando seu queixo em meu ombro.
Joe ameaçou ir pra cima de , mas ele foi mais rápido, dando outro soco, dessa vez, na bochecha esquerda. Os amigos de Joe se aproximaram para acudi-lo ou entrar na briga, caso , , , James, Charlie e Matt resolvessem se intrometer. Eu não havia notado, mas a festa toda estava em volta deles.
- Você vai me explicar o por quê disso tudo? – Joe cambaleou um pouco, mas se recompôs em seguida.
- Porque você é um imbecil, eu já disse. – Quando respondeu, Joe o empurrou pelos ombros, o que só piorou a situação, pois devolveu o empurrão com triplo de força, fazendo com que Joe caísse.
- É por causa dela, não é? – Ele apontou para , ainda sentado no chão, sendo levantado pelos amigos em seguida.
- Meça suas ações e repare bem na pessoa que você acabou de usar. – se aproximou dele quando já estava de pé novamente. – Você é o maior otário do mundo por não enxergar a garota incrível que ela é. É tudo o que eu tenho pra te dizer, Hardin. – Ele virou as costas, se preparando para sair.
- Pode pegar ela pra você! – Joe exclamou petulante, sorrindo ironicamente.
- Tenha a certeza de que se eu fizer isso, vou ser inteligente o suficiente pra não agir como você. – usou cada palavra com sensatez e calmaria. – Quem sai perdendo no final das contas, é você, meu caro. – E dessa vez, realmente deu as costas e saiu por entre as pessoas.
Joe e seus amigos saíram dali batendo o pé e cerrando os punhos de raiva, enquanto eu sorria discretamente para , sem saber se era porque Joe havia apanhado ou se era porque havia brigado por . Acho que era uma mistura dos dois.
- ? – Olhei para ela, que permanecia estática, sem reação.
- Não acredito que eu deixei isso acontecer, eu deveria ter impedido, eu...
- Hei, você não deveria ter feito nada, ok? – Eu a abracei forte, tentando reconfortá-la de alguma forma, mesmo que eu soubesse que aquilo não seria possível, pelo menos não em poucos minutos. – O Joe mereceu aqueles socos, . Não sei como você ainda o defende depois do que aconteceu. – Ela me olhou, aquele mesmo olhar triste de minutos atrás, o olhar que me deixava triste também.
Ela andou vagarosamente em direção às espreguiçadeiras e empurrou uma até que ela se encostasse em outra. se deitou na espreguiçadeira que havia acabado de empurrar, virando-se de frente para o corpo de , que estava deitado na espreguiçadeira ao lado. Eu vi a mão grande dele passar pelos cabelos longos e puxar a cabeça dela de encontro a seu peito, enquanto o abraçava pela cintura. Eu não sabia se queria entender o que estava acontecendo, porque de certa forma, eu já entendia. E a minha interpretação de toda aquela situação me deixava feliz.
- Talvez, devêssemos deixá-los a sós. – Olhei para arqueando uma sobrancelha, porque por mais que eu entendesse o que estava acontecendo entre e , não entendia, porque ele já sabia o que estava acontecendo. Ele tinha as informações, o conhecimento de algo que eu apenas desconfiava. – Linda! – Ele passou os braços pela minha cintura e deu um beijo suave no meu pescoço, arrepiando toda a minha pele. Seus dedos deslizaram por entre os meus e ele me guiou até a beirada da piscina, aonde sentamos lado a lado. dobrou a barra da sua calça até o começo de suas panturrilhas e colocou os pés dentro da piscina. Vi sua pele se tornar ainda mais branca debaixo da água, enquanto seus pés balançavam devagar para frente e para trás. Mergulhei também meus pés, e os rocei nele, sentindo que até debaixo da água, nossas peles ainda se sentiam quentes quando se tocavam.
Ele segurou na minha mão. Seus dedos entrelaçados nos meus, o perfeito encaixe deles, a forma como a mão grande dele combinava cegamente com a minha, que era pequena. Senti meu coração bater mais forte, enquanto seus lábios se aproximavam cada vez mais dos meus. me beijou suave e intensamente, ainda com os dedos entrelaçados nos meus, enquanto sua outra mão segurava meu rosto com carinho. Ele encostou a testa na minha, olhando profundamente nos meus olhos, me causando as típicas tonturas de sempre. Momentos como aquele, deveriam ser eternos, pois eu sabia que o queria muito mais do que para sempre. Os lábios de repousaram suavemente sobre o meu pescoço e deram um beijo espontâneo. Fechei meus olhos e me lembrei. Até quando essa coisa vai durar?, a voz de minha mãe ecoou na minha cabeça. Para sempre, eu respondi de volta com raiva, abrindo meus olhos logo em seguida.
- Às vezes, não suporto minha mãe – eu disse simplesmente do nada, apenas pra colocar aquilo pra fora, pra não ter que engolir todas aquelas coisas mais uma vez. deslocou a boca do meu pescoço e me olhou um pouco confuso, arqueando uma sobrancelha. – Estamos ensaiando juntas agora e ela reclama o tempo todo, dizendo que não estou me esforçando, que não estou fazendo do jeito certo, que eu já fui mais aplicada e isso me irrita tanto que eu sinto... – Fui interrompida por seus lábios, que grudaram nos meus num selinho demorado.
- , você não está me levando a sério, né? Eu to aqui, me queixando da minha mãe e você...
- Eu te amo! – Ele me interrompeu e disse aquelas três palavras com naturalidade. Como se aquelas palavras tivessem sido feitas para serem ditas por ele para mim.
- Você... – Eu o olhei mais do tonta do que o normal, pela soma dos olhos dele que estavam vidrados nos meus com as palavras que eu mais desejei ouvir dele.
- Eu te amo, ! – Seu rosto se aproximou um pouco mais do meu, e ele entrelaçou sua outra mão na minha. – Eu tentei entender o que eu sinto por você várias vezes; passei noites em claro buscando uma resposta grande e intensa o suficiente pra poder dar a mim mesmo, e cheguei a essa conclusão. Eu te amo, é exatamente isso o que eu sinto. Não cabe dentro do meu peito, e parece que dizer eu te amo apenas uma vez não é suficiente. Eu te amo, mais uma vez e sempre. – Eu não sentia mais a água fria da piscina molhar meus pés, não sentia mais o chão embaixo da minha bunda, não sentia mais o vento gelado bater contra os meus braços. Era ele, sempre ele. Tudo o que eu sentia era ele. As únicas coisas que eu sentia naquele momento, eram suas mãos que me tocavam suavemente o rosto, sua respiração que estava bem próxima da minha boca e meu coração que batia aceleradamente. O meu coração, que na verdade, era dele.
- Eu... – gaguejei mais uma vez, buscando algum sentido dentro da minha cabeça. Mas todo o sentido de que eu precisava, estava dentro do meu coração. – Eu também te amo, ! – Aproximei minha boca da sua e nossos lábios se encaixaram. Segurei em seu rosto suavemente enquanto ele repousou sua mão no final das minhas costas, me trazendo para mais perto.
- Se eu morresse agora, morreria feliz. – acariciou meu rosto suavemente e eu fiz uma careta não gostando do que ele havia dito. Ele deu uma risadinha baixa e roçou o nariz no meu, dando um beijo em meu queixo.
- Nem de brincadeira, ! – Eu fiz bico, apertando forte o pescoço dele quando senti sua respiração no meu pescoço.
Num movimento inesperado, pulou para dentro da piscina, mergulhando para longe mim.
- , seu louco! – Ri um pouco alto, quando ele parou de frente para mim, mas encostado na borda oposta da piscina.
- A culpa é sua, – Ele riu também, passando as mãos nos cabelos, colocando-os para trás. – Ninguém mandou você me amar também. – Balancei a cabeça negativamente, ainda com um sorriso brincando em meus lábios. mergulhou novamente, e eu vi seu corpo por debaixo da água ir se aproximando de mim. Senti suas mãos pegarem em meus tornozelos e subirem suavemente por minhas panturrilhas, até ele finalmente emergir e parar com as mãos em meus joelhos. Me abaixei um pouco para beijar novamente seus lábios, e me abraçou, aproximando seu corpo molhado do meu inteiramente seco. Foi quando eu senti seus braços aplicarem um pouco de força em meu corpo, e ele me puxou para dentro da piscina com ele. Soltei alguns gemidos de protesto pela temperatura gelada da água, e deu risada.
- Eu to com frio, . – Cruzei os braços na frente do meu corpo, tremendo um pouco. segurou em meus punhos suavemente e descruzou meus braços, levando-os até seu pescoço. Aproximou todo o seu corpo do meu, colando cada pedaço dele em cada pedaço meu.
- Aposto... – Ele deu um beijo do lado direito do meu pescoço – que agora... – deu mais outro beijo na frente do meu pescoço – não... – foi para o lado esquerdo, dando outro beijo – está... – beijou meu maxilar, bem próximo do meu ouvido – mais. – Ele mordeu meu lóbulo e eu encolhi meu pescoço sentindo o famoso arrepio percorrê-lo. Ele sorriu antes de finalmente beijar minha boca, e eu não sentia mais frio. Ele me amava, e isso era o bastante. O bastante para minha vida toda.
Capítulo 12 – As coisas nunca estiveram tão certas
- Espero que você esteja bem – eu disse olhando para , que copiava a matéria de literatura como um robô, revezando os movimentos automáticos de sua cabeça entre olhar para a lousa e para o caderno.
- Eu estou bem, . – Ela me olhou apenas por alguns segundos, voltando a prestar atenção no professor.
Bufei um pouco impaciente e resolvi copiar a matéria também.
Odeio quando ela não facilita as coisas, pensei enquanto anotava as principais obras de Charles Dickens.
- Desculpa, . – Ouvi a voz de amansada me dizer pouco tempo depois. – Não vamos falar disso, ok? – Eu assenti com a cabeça e ela sorriu fraco. – E você e o ? Vi vocês no maior romance lá na festa...
- Ele disse que me ama. – Eu sorri debilmente, me lembrando da festa e do melhor momento da minha vida.
- Isso não é novidade. – sorriu, mas disse as palavras com certa naturalidade. Não se empolgou nem nada, e eu achei estranho. – não precisava dizer isso, estava claramente escrito nos olhos, na testa e nas atitudes dele que você é a pessoa que ele mais ama. Todos nós sabíamos, desde sempre, que ele te amava.
- Só eu não sabia? – Arqueei uma sobrancelha, franzindo o cenho.
- Você era a pessoa que mais sabia, só tinha medo de acreditar. – Ela guardou a caneta em seu estojo e numa fração de segundos, o sinal tocou. Balancei minha cabeça, e me levantei junto com ela, saindo da sala.
- Não precisa fingir que não aconteceu, . Ignorar o problema é tentar fugir dele. – Eu apertei sua mão e fui em direção à aula de inglês, deixando-a parada no corredor.
Andei calmamente até meu armário, que não estava muito longe, para pegar a bíblia gramatical de inglês. Girei a pequena roda de combinações numéricas até acertar minha senha e dentro do meu armário, havia um bilhete.
Eu te amo!
Sorri boba enquanto pregava o bilhete na porta do armário, embaixo do meu adesivo da Pequena Sereia. Continuei admirando a caligrafia não muito perfeita nem muito redonda, mas que atraía meus olhos como um ímã. Foi quando senti um arrepio percorrer meu corpo inteiro, sem saber direito onde se instalar. Seus lábios repousaram atrás da minha orelha e bem perto da minha nuca, enquanto eu sentia o corredor girar ao meu redor.
- ... – eu disse num sussurro, enquanto ele ainda distribuía beijos suaves pela região da minha nuca. Sua mão passou por minha cintura e ele soltou uma risadinha baixa e rouca perto do meu ouvido.
- Linda! – ele sussurrou no meu ouvido, mas não apenas sussurrou. Ele sussurrou com a voz rouca e sem nenhum esforço aparente, já que a especialidade dele era ser daquele jeito, extremamente sedutor sem fazer um mínino de força.
- Preciso estar concentrada pra aula de inglês. – Minhas palavras saíram com um pouco de dificuldade assim que senti uma mordida leve embaixo do meu maxilar.
- Você vai estar concentrada. – Ele soltou seu hálito quente no meu ouvido, e se fosse possível, acho que até meus cabelos teriam se arrepiado.
- Vai ser meio impossível se você continuar me torturando no meu ponto fraco. – Apoiei minhas duas mãos no armário, porque me equilibrar apenas com meus pés estava se tornando algo extremamente complicado.
- Engraçado que você nunca se importou em pensar que o seu pescoço também é o meu ponto fraco. – Senti seu indicador passar suavemente do lado esquerdo até o lado direito do meu pescoço, num carinho tão suave, que eu achava que estava tendo alucinações. – A maior tortura do mundo é passar do seu lado no corredor e ver seu pescoço à mostra, gritando para que eu o beije. Tão irresistível quanto a sua boca.
- , eu realmente preciso ir pra aula de inglês. – Tentei organizar meus pensamentos e resistir a seus gestos e palavras, o que era quase impossível, considerando que ele era mestre em fazer toda a minha sanidade desaparecer. – Se você continuar dizendo essas coisas e fazendo o que bem entende com o meu pescoço, vou ser obrigada a te puxar pelo colarinho até a sala vazia mais próxima.
- Gostei da parte do colarinho. – Ele soltou uma risada rouca e deu um último beijo estalado na minha nuca. – Eu te amo! – Antes que eu pudesse responder, ele me deu um selinho intenso e demorado, sorrindo logo depois. – A gente se vê...
Sorri inteiramente boba da cabeça aos pés, ainda não muito bem acostumada com os efeitos que ele tinha sobre mim. E se fosse pra continuar daquela forma, eu gostaria de não me acostumar nunca.
Mais entediante do que o último jantar do The Royal Ballet em que estive presente, a aula de inglês pareceu se arrastar mais do que nos outros dias. Não estava nem aí pras variações de concordância entre pronomes e verbos que dependiam de diversos países falantes da língua inglesa. Não estava mesmo me importando com isso, e Sam e Lauren também não estavam.
- James está meio estranho. – Ouvi Lauren dizer com um tom de voz que serviria para lamentar as desilusões amorosas de suas próximas sete gerações.
- O que aconteceu? – Virei meu tronco para trás, percebendo o porquê do tom deprimente. A expressão dela estava ainda pior, amplamente calamitosa.
- James sabe que não sou mais virgem, mas ficou chateado quando tentou transar comigo ontem e eu disse que queria esperar um pouco. – Seus olhos brilharam e se carregaram de lágrimas grossas que ela tentou controlar, mas fracassou na metade do ato. – Ele está me evitando, me deu um beijo sem emoção quando me viu hoje... Não posso acreditar que seja somente isso pra ele. – Segurei sua mão, acariciando as costas com meu polegar enquanto as lágrimas caíam livremente por suas bochechas.
- Não é, eu tenho certeza – eu disse não sabendo direito como confortá-la.
- Eu disse isso a ela, mas é teimosa e insiste em me contrariar. – Sam pareceu chateada e ofendida por não conseguir fazer Lauren mudar de idéia e assentar sua tristeza.
- Não estou contrariando, estou sendo realista. Não sei o que eu faria se ele terminasse comigo.
- Ele não vai terminar com você, Lauren. – Minha voz adquiriu um tom mais firme, tentando passá-la alguma segurança. – Garotos têm essa necessidade com o triplo de força a mais do que nós. Eles ficam nervosos na hora, porque você sabe... é difícil acalmar os hormônios e aquela parte em especial que eles carregam no meio das pernas. Vai ficar tudo bem, você vai ver.
- Você diz isso porque o é seu namorado. – Franzi o cenho diante da resposta, não entendo absolutamente nada daquele comentário. – é a perfeição em forma de garoto. Sua perfeição na forma física e na forma de atitudes se dá a tudo o que já ouvimos das garotas que ficaram com ele. Como seus braços são fortes, como suas mãos são ágeis, como sua voz ao pé do ouvido é capaz de te fazer... de te fazer... ah, você sabe. – Ri um pouco descontroladamente quando ela apontou para o meio de suas pernas, indicando o que queria dizer. – O que eu estou querendo dizer é que apesar dessas perfeições físicas, ainda consegue ser mais perfeito e é só com você. Já viu ele tratar uma garota com quem esteve da forma como ele te trata? Pois é, eu não vi.
- Mas Lauren, eu ainda não entendi porque estamos falando do , se o assunto é o James. – Olhei para Sam, que parecia tão confusa quanto eu, dando de ombros.
- É exatamente disso que eu estou falando. – Acho que nem se ela desenhasse, eu compreenderia. – O homem em questão é o James, e o seu namorado é o . Por isso, você não pode me dizer que tudo vai ficar bem, sendo que o seu namorado é quinhentas vezes diferente do meu.
- Sim, ele é diferente. Mas exatamente como o seu namorado, o meu, graças a Deus, também tem um pênis. – Lauren riu baixinho em meio às lágrimas e as enxugou com as costas da mão.
- nunca tentou? – Ouvi a voz tímida de Sam perguntar, quebrando o rápido silêncio que havia se instalado entre nós.
- Até agora, não – respondi franzindo a testa. – Quer dizer, uns amassos sempre rolam, vocês sabem. Mas ou o sempre interrompe ou estamos em um lugar inapropriado. Por isso, nunca fomos muito longe, mas ele nunca avançou o sinal.
- Mas você sente vontade? – Dessa vez, foi Lauren que perguntou.
- Difícil não sentir vontade com as coisas que ele faz. É tão intenso, nunca senti isso com Garret ou... – parei minha fala na metade, realmente, não interessava a outra pessoa. Ninguém a não ser me interessava. – Enfim, eu sinto muita vontade. Só não me sinto pronta.
O silêncio reinou novamente entre nós e quando me dei conta, percebi que o sinal estava para tocar e eu não havia copiado mais do que um terço da matéria. Não importava, de qualquer forma, inglês era fácil e pensar no era prazeroso.
Mais rápido do que eu esperava, a semana se passou muito calma e tranquilamente.
Eu estava sentada em uma das mesas de madeira do jardim – com os pés apoiados no banco – com , Sam, Lauren e Jimmy – que haviam feito as pazes, e eu acho que sei bem como –, quando avistei , , e vindo em nossa direção, como se estivessem em alguma cena de filme estilo Armageddon. vinha na frente com passos rápidos. Notei que ele fechava e abria os punhos constantemente durante o trajeto, demonstrando um certo nervosismo. estava completamente desligada do mundo enquanto observava Joe conversar com um grupo de garotas do outro lado do jardim.
Então, tudo aconteceu como flashes rápidos. parou na frente dela e, com suas mãos grandes e bonitas, envolveu o rosto dela num toque macio, puxando-o para perto do seu e beijando sua boca avidamente. Ela levantou as mãos em sinal de susto, mas logo retribuiu o beijo e passou seus braços pelo pescoço dele. movimentava sua cabeça, intensificando o beijo, como se fosse sua maior necessidade. Não sei quanto tempo durou o beijo deles, mas sei que quando eles se finalmente se soltaram, já estava do meu lado observando a cena tão atônito quanto eu.
Vi tirar os braços de de seu pescoço e olhar profundamente em seus olhos.
- Quando você deixar de ser tapada e cega, me procure – ele disse seriamente dando as costas e voltando pelo caminho de onde veio.
parecia estar em choque; não se movia ou falava.
- , você não vai falar nada? – perguntei cutucando-a com meu cotovelo. – ? – Ela não se movia. – ? – elevei a voz estalando os dedos na frente de seu rosto. – Olha, eu sei que um beijo inesperado bagunça trinta e sete bilhões de neurônios, mas você precisa fazer alguma coisa a respeito disso, você não acha?
- O ... me... beijou? – Ela colocou os dedos nos lábios, olhando para o nada. – Foi isso mesmo que aconteceu?
- Bom, se o seu conceito de beijo for duas línguas se movendo uma contra a outra enquanto os lábios se tocam, então eu acho que ele te beijou sim – respondi ironicamente.
Ela parecia ainda digerir o que havia acabado de acontecer.
- Eu... não entendo. – Sua expressão era confusa tanto para nós, que a observávamos, quanto para ela mesma, que não sabia se sorria bobamente ou se ficava assustada.
- Não entende o que, ? – perguntou meio impaciente. – Por que o te beijou? Será que eu vou ter que te dizer que ele me dá nos nervos de tanto falar de você? – Ele estava autoritário. – É claro que ele nunca havia sido direto e esse beijo realmente me surpreendeu, mas eu acho que já esperava que ele fizesse isso.
- E o que eu faço? – ela perguntou no meio de toda aquela confusão sensações e pensamentos, parecia estar recebendo informações demais.
- Ficar se lamentando pelo Joe não é uma solução – eu disse num tom de desprezo, observando o garoto a alguns metros, que sorria convencidamente entre as garotinhas do primeiro ano.
- O beija terrivelmente... bem! – Ela finalmente sorriu. – Eu não sabia que ele tinha todo esse potencial.
- Tá! – Eu disse assustada pelo êxtase dela. – Agora eu vou perguntar de novo: o que você pretende fazer em relação a isso?
- Eu... não sei. Ainda tem o Joe – ela disse triste enquanto todos nós esperávamos por uma atitude da parte dela. e pareciam analisá-la minuciosamente, como se tentassem decifrar a expressão dela. Eles não haviam se tocado que nem a própria sabia como se sentir.
- , me desculpa, mas não tem Joe coisa nenhuma. Você ainda pretende ter algo com ele depois do que ele te disse? – perguntei horrorizada, enquanto sentia passar uma de suas mãos por minha cintura. – , o gosta de você. Esquece o Joe, cara. Ele nunca vai ser bom o suficiente pra alguém como você.
- Mas... eu gosto dele, esse é o problema.
- Então você acha mesmo que vale a pena se jogar aos pés de um cara estupidamente convencido que nunca vai dar o valor que você merece, enquanto você tem outro pronto pra você, pronto pra te aceitar como você é, pra gostar de você verdadeiramente?
- Como você sabe de tudo isso? – ela perguntou desconfiada.
- Eu simplesmente sei... Eu sinto isso! Sinto que o realmente gosta de você e eu sei que você também gosta dele, caso contrário não teria ficado tão balançada com o beijo cinematográfico que ele te deu – eu disse cada palavra com a maior certeza que eu pude, e a persuasão mais firme que me foi possível.
- O que eu faço agora? – ela repetiu a pergunta.
- Seja direta, oras. Diga um não se você não estiver interessada nele, mas você vai se arrepender se fizer isso. Você gosta dele e só precisa de tempo pra perceber isso.
- Como você pode ter a certeza de que eu gosto dele?
- , você fala demais no , o elogia, sempre diz que é um ótimo amigo, um garoto legal, uma pessoa maravilhosa... Na primeira vez em que saímos, ficou falando nele a noite inteira e no quanto se divertiu com ele. – Revirei os olhos me lembrando de como ela realmente passou a madrugada inteira elogiando e seus atributos humorísticos. – Você fica vermelha quando ele está por perto e sorri pra ele o tempo todo. Por Deus, você ri das piadas dele.
- Mas as piadas dele são engraçadas – ela disse como se o que eu tivesse acabado de falar fosse o maior absurdo de todos.
- Eu sei, criatura. Mas viu como você acabou de defender ele? – Eu a olhei profundamente e ela pareceu, enfim, captar as informações e compreender o que se passava.
Ela suspirou profundamente.
- Será que eu consigo alcançá-lo? – ela perguntou com um meio sorriso.
- Pára de pensar e vai logo de uma vez! – Eu a empurrei para que se levantasse e ela sorriu aberta e alegremente antes de sair correndo em direção aos portões ornamentais do colégio. – Espero que dê tudo certo. – Eu me aconcheguei em , deitando minha cabeça em seu ombro.
- Vai dar, eu tenho certeza disso. – Ele apertou minha cintura e beijou meus cabelos. – O é a tampa da cumbuca da . – Não pude evitar rir do comentário dele, mas fazia total sentido. Eram tão feitos um para o outro que eu me perguntei por que não havia percebido isso antes.
Fiquei observando James e Lauren sorrirem bobamente com as testas coladas quando senti os lábios de colarem no lóbulo da minha orelha.
- Vamos pra minha casa? – ele perguntou rouco enquanto seus dedos adentravam a barra da minha camisa e acariciavam minha cintura suavemente. – Hoje é sexta e sempre tem filmes interessantes na TV a cabo. Não tem ninguém em casa e sua mãe volta tarde da academia. – Ele passou o nariz desde a minha bochecha até meu pescoço, e mesmo se eu tivesse a intenção de recusar, não conseguiria por motivos mais do que óbvios.
- Respirar perto do meu ouvido é golpe baixo, – tentei dizer num tom de voz uniforme quando ele riu baixinho na região do meu maxilar.
- Morder o lábio inferior é golpe baixo, Gauthier. – Ele sorriu maliciosamente, indicando com o olhar a minha boca, que tinha o lábio preso entre os meus dentes. – Vem! – Ele se levantou e parou em minha frente, me puxando pelas mãos.
- Tava na hora de vocês dois se tocarem que a tensão sexual entre vocês não deve ser exposta em lugares públicos – disse num tom de voz petulante, fazendo rir idiotamente de seu comentário.
- , seu idiota. – deu um soco de leve no seu joelho, o que gerou uma brincadeira de tapas e apertos estranhos em lugares esquisitos.
- Sai do , vai apertar sua namorada, ! – , também na brincadeira, levantou e ficou na frente de , estufando o peito para parecer másculo.
- É, eu ganho bem mais se ir embora pra minha casa com a minha namorada. – passou o braço por meus ombros e acenamos um tchau para todos ali sentados.
Virei meu pescoço a tempo de trocar um contato visual com as meninas e tudo o que eu recebi foi um olhar malicioso de Sam e um gesto obsceno de Lauren, que apontava para o meio das próprias pernas. Que absurdo, pensei rindo.
- Você gosta mesmo de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, ou é apenas pra me agradar? – perguntei assim que voltou para a sala com um balde de pipocas e um pote de nutella nas mãos.
- Não vou conseguir prestar atenção no filme de qualquer maneira. – Ele tirou os tênis e se sentou ao meu lado no sofá, onde eu já me encontrava bem à vontade sem os sapatos e com as pernas cruzadas em borboleta.
- Então você vai ficar fazendo o que durante essas duas horas? – O olhei intimidada, tomando um gole do meu chá gelado.
- Vou ficar olhando pra você. – Ele sorriu meigamente e me deu um selinho demorado, com os lábios também gelados em função do chá.
- Tudo bem, não ligo. – Eu dei de ombros, falando como se fosse uma criança de cinco anos de idade que tenta agir imparcialmente.
- Como falta 10 minutos pra começar o filme, podíamos fazer algo mais interessante do que simplesmente ver os créditos finais de Grey’s Anatomy, não acha? – sussurrou no meu ouvido, encostando seus lábios gelados no meu lóbulo e soltando sua respiração quente, provocando um choque térmico excitante que resultou num arrepio mais do que malicioso em certas partes do meu corpo.
- Eu gosto de ver os créditos finais de Grey’s Anatomy. – Continuei olhando para a TV e tentei parecer indiferente a sua língua que tocou levemente a pele atrás da minha orelha.
- Você não vai resistir por muito tempo, . – Ele riu baixinho no meu ouvido, ainda com a voz rouca e perigosamente sedutora. Lauren estava certa quando disse que a voz de era capaz de provocar certas coisas em uma certa parte do corpo de uma garota.
- Será que não? – Eu o olhei com uma sobrancelha arqueada e um sorriso malicioso brincando em meus lábios. mordeu seu lábio inferior, com a mesma malícia, só que em maior quantidade, e aproximou seu rosto do meu.
- Será que sim? – Ele desafiou, ainda mantendo a mesma voz galante e seus lábios pararam a milímetros dos meus. passou a língua gelada sobre eles bem suave e lentamente, numa tentativa de me seduzir e corromper minha resistência. E estava conseguindo.
- Claro que não. – Minhas mãos se encontraram em seu pescoço e sua língua finalmente invadiu minha boca num beijo ousado e cheio de uma tensão sexual crescente. As pontas de seus dedos deslizaram suavemente pela minha coxa num carinho mal-intencionado. Senti que a excitação estava crescendo dentro de mim e isso era muito claro no corpo dele, quando o senti se inclinar lentamente para cima de mim, me prensando no encosto do sofá, mas sem me fazer deitar completamente.
- ... – eu o chamei ofegante quando parti o beijo. – Lauren disse que sua voz... – Soltei uma risadinha meio descontrolada e ele me olhou confuso, ainda segurando em meu rosto com as duas mãos.
- O que ela disse sobre a minha voz? – ele perguntou desconfiado, mas com um meio sorriso nos lábios.
- Ela disse que todas as garotas da escola com quem você já ficou comentam que a sua voz ao pé do ouvido as faz... – parei no meio da frase, com vergonha do que iria dizer. – As faz ter um... bom, você sabe.
- É sério isso? – Ele estava se segurando muito para não rir daquilo, e eu tenho certeza de que estava da mesma forma.
- Bom, se elas não chegam a ter, chegam bem perto, sabe? Você está entendo o que eu estou querendo dizer, . Não me obrigue a ser explícita. – Senti que minhas bochechas queimavam e ele riu.
- Isso acontece com você? – Ele aproximou a boca do meu ouvido e abaixou seu tom de voz, deixando daquele jeito sedutor de sempre, suave e rouco. – O que acontece quando eu falo baixinho e rio baixinho e respiro ruidosamente no pé seu ouvido? – Apertei sua nuca e fechei meus olhos, sentindo minha respiração se desregular. – E quando eu beijo aqui... – ele beijou perto do meu maxilar, muito próximo do meu ouvido. – mordo aqui... – ele cravou os dentes no meu lóbulo suave e tentadoramente. – e passo a língua por aqui? – Ele passou sua língua nem quente nem fria pela minha orelha, ainda falando bem baixinho. – O que acontece, hein ? – Ele soltou a risadinha rouca e maliciosa contra seu rastro de saliva e eu gemi um pouco mais alto do que deveria. Ele estava conseguindo o que queria, e sem as mãos.
- Você sabe o que acontece, – eu disse ainda de olhos fechados e tão inaudível que achei que não tivesse falado nada.
- Eu sinto o que acontece, Gauthier. – encaixou sua coxa no meio das minhas pernas e a pressionou fortemente contra mim. Senti o frio no meu ventre se transformar em algo mais do que intenso e soltei um grito um pouco alto demais, apertando a coxa dele entre as minhas pernas. Ele passou a língua pelo meu pescoço quando joguei minha cabeça para trás e pressionou-se ainda mais contra mim, naquela posição. Eu o apertei ainda mais forte e minha respiração estava tão alta que eu poderia escutar se estivesse do lado de fora da casa.
Eu o olhei ofegante e com um pouco de vergonha, sem saber o que dizer. Seus olhos estavam intensamente vidrados nos meus e eles sorriam pra mim.
- Eu te amo. – Ele beijou minha testa suavemente e voltou a me olhar logo em seguida. – Não precisa ficar vermelha, namorado é pra essas cosias. – Ele piscou sorrindo.
- Eu sei disso. – Sorri me sentindo confortável, ele tinha esse dom. – E se você não se importa, eu gostaria de ver o filme. – Eu o olhei de um jeito sapeca, dando um sorriso forçado.
- Não acredito que estou sendo trocado por um filme meloso. – Ele se fingiu afetado e saiu de cima de cima de mim, sentando-se na mesma posição de antes.
- São só duas horas, . – Eu também me ajeitei no sofá, arrumando minha saia e tentando desamassar minha camisa. Tentei desamassá-la. – Depois que o filme acabar...
- Você é somente minha. – Ele interrompeu minha fala, colocando um pouco de pipoca na boca. – Não foi uma pergunta, foi uma afirmação mais do que certa.
- Eu sei, . Agora, será que dá pra me deixar assistir o filme, que, por culpa sua, eu perdi 10 minutos? – O olhei irritada, roubando um pouco de pipoca do balde que estava no colo dele.
- Vai dizer que não foram os melhores 10 minutos que você já teve? – Ele sorriu maliciosamente, e sua voz acompanhou essa proeza. – Vai dizer que você não adorou ter um...
- Fica quieto, . – Eu dei um tapa relativamente forte em seu braço, sentindo minhas bochechas arderem intensamente. Ele continuou rindo, enquanto acariciava seu braço, reclamando coisas não compreensíveis.
Mais vinte minutos se passaram, eu já não conseguia mais comer a pipoca e me focava doentiamente na tela de plasma, achando graça do filme. Me recostei no braço do sofá, mas sem realmente me deitar, deixando meus pés ainda apoiados no chão. ria esporadicamente do filme, mas sem muita vontade; ele estava mais interessado em passar a mão pelos cabelos, deixando-os bagunçadamente atraentes enquanto me dava beijos ocasionais na bochecha. Ele me parecia um pouco descontente pela escassa atenção que eu estava lhe dando. Mas ele não desistia nunca, isso estava claro. Ficou ainda mais claro quando suas mãos alcançaram minhas panturrilhas e as trouxeram para repousar em suas coxas. Com esse leve movimento, minha saia subiu de um pouco acima do joelho, para muito acima do joelho. olhou para minhas pernas, seu olhar de sede fixado em um ponto em especial. Seu pomo-de-adão se sobressaltou em seu pescoço e se movimentou lentamente quando ele engoliu em seco. Não pude evitar sorrir discretamente ao notar o efeito que eu tinha sobre ele. Então eu não era a única que tinha certas reações quando era provocada.
- Adoro essa cena – eu disse tentando não ter um espasmo de empolgação na cena em que a família inteira canta no restaurante.
apenas assentiu com a cabeça sorrindo fracamente e deslizou os dedos suavemente por toda a extensão da minha perna, desde as panturrilhas cobertas pelos meiões até o meio das coxas, onde a barra da saia se encontrava. E graças aos carinhos mal intencionados dele, mais centímetro das minhas pernas iam ficando à mostra. Não satisfeito com a bela vista, ele continuou ousando em seus movimentos, ora fazendo cócegas leves nas minhas coxas, ora massageando meus joelhos de uma forma que eu não julgaria como inocente. E a cada minuto, as coisas avançavam, ainda mais no momento em que seus dedos chegaram à minha saia e não recuaram, maliciosamente eles deslizaram por debaixo da barra e escorregaram suavemente pelo interior das minhas coxas. fazia isso tão suavemente, que eu quase não sentia, parecia uma tortura.
Eu já não prestava mais atenção no filme, já não sabia mais em que cena estava, tamanho era o meu êxtase. Desviei meus olhos da tela da TV para e notei a forma como ele me fitava. Era como um leão, pronto para atacar sua vítima. Um olhar mal intencionado, que corrompia qualquer razão e sobriedade que pudesse existir dentro de mim; o sorriso leve e torto que brincava em seus lábios mostrava suas reais intenções.
Ele se ajoelhou no meio das minhas pernas e suas mãos alcançavam, a cada vez que deslizavam por mim, mais centímetros de pele da minha coxa, ora acariciando sua parte externa, ora acariciando sua parte interna. Suas mãos então, cheias de desejo mas não de pressa, se espalmaram em minhas coxas e as apertaram sem qualquer pudor.
- Eu estava pensando... – Ele aproximou seu tronco ereto do meu deitado, a malícia transbordando em sua voz e o desejo queimando em seus olhos. – Se você já experimentou beijo com nutella. – Ainda embaixo da minha saia, subiu suas mãos um pouco mais, até alcançar meu quadril e deslizar suavemente seus polegares pelo elástico da minha calcinha.
- O... o que? – perguntei sem ar, por sua respiração que batia em minha boca e por seu corpo que quase se encostava no meu. Quase.
De repente, seu corpo já não estava mais tão perto do meu e suas mãos já não estavam mais em meu quadril. voltou à sua posição ereta, ainda ajoelhado no meio das minhas pernas e mergulhou uma colher, não tão profundamente, no pote de nutella. Ele a deslizou por sua língua, deixando um rastro suave da pasta de chocolate sobre ela.
- Beijo com nutella, – ele disse com a boca encostada em meu ouvido, me arrepiando de lado a lado. E então, ousado como nunca, deixou que sua língua deslizasse para dentro da minha boca, começando um beijo sensual e ardente. Eu sentia o gosto do chocolate por entre os nossos lábios, tornando tudo ainda mais excitante do que já era. Foi o beijo mais intenso que já havíamos dado, não queríamos qualquer mínima distância entre nossos corpos. Eu puxava os cabelos de , fazendo com que meus dedos se perdessem entre os fios, enquanto com a outra mão, eu pressionava as costas dele, na intenção de cessar qualquer espaço entre a gente. deslizou, forte e possessivamente, sua mão desde a minha cintura até a minha coxa, que foi trazida para cima de seu quadril. Ele movimentou sua pélvis sugestivamente sobre a minha, como se estivéssemos no ato. Não agüentei a provocação e gemi baixinho em seu ouvido, deixando sua boca livre para deslizar por onde quisesse.
Seus lábios encontraram meu pescoço e ele o beijou avidamente, mordendo e passando sua língua logo em seguida. Estava cada vez mais difícil de respirar, mas eu não me importava nem um pouco com isso, não precisava respirar, de qualquer maneira.
encostou sua testa na minha e sorriu meiga e maliciosamente, não sei como ele conseguiu isso. Sua mão deslizou continuamente pela minha coxa que estava em cima do seu quadril, e só então me dei conta de que minha saia estava inteiramente na minha cintura.
Eu sentia uma coisa estranha dentro do meu estomago, mas eu sabia muito bem que era excitação. E isso aumentou ainda mais quando apertou meu glúteo e grudou os lábios nos meus novamente, num beijo cheio de desejo.
Deslizei minhas mãos por sua camisa e fui abrindo botão por botão, com pressa e sem pressa, tudo ao mesmo tempo. Voltei minhas mãos aos seus ombros e elas empurraram a camisa dele por seus braços, fazendo com que a jogasse em algum canto da sala, sem parar de me beijar. Nunca havia sentido seu corpo daquela forma, era delirante, meus dedos estavam se perdendo em meio à tanta pele exposta, não sabiam se passeavam pelas costas musculosas ou pelo abdômen levemente definido. Apertei seus ombros quando ele mordeu meu lábio inferior e o puxou levemente, soltando seu hálito quente sobre a minha boca logo em seguida. Minha mente estava em êxtase, e eu só queria ir mais além. Seus lábios desceram para meu pescoço e ele desabotoou o primeiro botão da minha camisa, dando um beijo em meu colo. À medida que descia suas mãos, seus beijos também desciam, trilhando um caminho quente e úmido por causa de sua língua. Um beijo no meio dos meus seios, um beijo um pouco embaixo deles, um beijo na minha barriga, um beijo perto da barra da minha saia. ficou ali, naquela área, dando leves mordidas e passando apenas a ponta de sua língua. Eu gemi um pouco descontrolada enquanto ele continuava distribuindo seus beijos por ali e apertava meu quadril, encravando suas unhas curtas na minha pele. Puxei seu cabelo um pouco forte demais e trouxe sua cabeça de encontro a minha, precisava beijá-lo. E o fiz, não apenas com desejo, mas com tesão. Ele encaixou uma perna sua no meio das minhas e eu senti, clara e diretamente, sua excitação. E não era pouca coisa...
- ... – ele disse rouco, bem perto do meu ouvido, mordendo o lóbulo. – Eu achei que... – mesmo ofegante, ele insistia em plantar beijos no meu pescoço – não tinha como... – mais beijos, dessa vez, perto da minha orelha – você me enlouquecer... – ele desceu por meu colo, e passou levemente a língua pela curva dos meus seios – ainda mais. – Seu rastro de beijos molhados terminou em meu queixo, com uma mordida e um selinho forte em minha boca.
Não sabia bem o que responder. Na verdade, não queria responder, queria beijá-lo.
Dei mais um selinho forte em seus lábios e desci minha boca por seu pescoço, mordendo sua pele e sentindo seu perfume masculino e viril invadir minhas narinas, enquanto suas mãos massageavam minha cintura fortemente. gemeu e eu o calei com um beijo, que não durou muito. Ele realmente amava meu pescoço. Sentia um pouco de dor em suas mordidas, mas era bom. Muito bom.
Não queríamos parar. Não iríamos parar...
- Merda! – praguejou com raiva quando ouvimos seu celular tocar na mesa ao lado do braço do sofá. Mas ao invés de atendê-lo, voltou a me beijar, ignorando totalmente o toque irritante do aparelho.
- ... – Eu o afastei de mim sutilmente, mas ele desgrudou a boca da minha apenas para deslizá-la por meu pescoço novamente. – Atende! – Eu havia formulado uma frase, mas se eu a dissesse, seria bem capaz de que ele não entendesse absolutamente nada, era difícil demais me concentrar com a boca dele me deixando marcas.
Ele passou seu braço por cima da minha cabeça e alcançou a mesinha sem nem ao menos desgrudar a boca do meu pescoço, a não ser pra atender o celular.
- Alô? – ele disse ofegante e com uma cara não muito boa. – Não te interessa, Kate. Tá bom, eu vou. Que horas? Tá, que saco! Não tô mal humorado! Tchau, Katherine! – desligou o celular e o jogou no chão, rolando os olhos e deitando a testa em meu ombro. – Como eu odeio a minha irmã! – Ele soltou um gemido de dor, como se estivesse simulando um choro, e eu dei uma risadinha baixa.
- Perdi o clima, . – Acariciei levemente sua nuca quando ele levantou para em encarar. Ele se levantou e sentou no sofá, me fazendo notar o grande volume em sua calça. Realmente grande, pensei.
- Nem dá tempo de recuperar, a Kate tá em Heathrow e quer que eu vá buscá-la, basicamente, agora. – Ele calçava os tênis enquanto eu abaixava minha saia e abotoava minha camisa, numa tentativa de me recompor. – Me desculpe por isso, . – me olhou realmente triste, vestindo sua camisa um tanto amassada.
- Tudo bem, . – Dei de ombros me sentindo estranhamente aliviada pela interrupção. – Foi até bom que isso aconteceu.
- Como assim? – ele perguntou franzindo o cenho, parecendo um pouco assustado.
Respirei fundo.
- É que eu... sou... – Olhei para ele e não soube muito bem porque fiquei tímida em terminar aquela frase.
- Virgem! – afirmou me interrompendo, parecendo surpreso. – Você é virgem! – ele repetiu ainda num tom de surpresa.
- Sou – eu respondi sem a mesma emoção que ele tinha. – Por que a surpresa?
- Bom... você namorou o Garret por pouco mais de um ano, sei lá...
- Sim, eu sei. Mas isso não significa que eu tivesse que transar com ele, . – Tentei não parecer muito ofendida, por mais que não houvesse motivos para tal.
- Não, eu sei. – Ele coçou a nuca em sinal de desconforto e constrangimento. – Não quis te ofender, é só que... – Ele travou no meio da fala, parecendo não saber se realmente deveria dizer o que queria.
- É só que...? – Repeti, encorajando-o.
- É que olha só pra você, ! – Ele apontou pra mim, fazendo uma breve analise com os olhos.
- Não vejo nada de errado comigo, . – Arqueei uma sobrancelha, achando que o rumo que a conversa havia tomado era totalmente confuso.
- Claro que não, . – Ele arregalou os olhos e me mediu maliciosamente. – As coisas estão até certas demais com você. – Um sorriso maroto e torto brincou em seus lábios e eu o olhei ainda confusa. – É que bom... você é bem gostosa, entende? Impossível não querer fazer essas coisas com você. – Ele corou um pouco, mas não parecia muito envergonhado em dizer essas coisas.
- Oh! – eu exclamei, sem saber ao certo como me sentia.
- Não adianta fingir que está envergonhada, porque nem corada você está. – Ele se aproximou de mim rindo e deu um beijo na ponta do meu nariz. – Eu sei bem que você está acostumada a ouvir esse tipo de coisa, por mais que não seja diretamente.
- Certo, ! Vanglorie-se por ter uma namorada gostosa no caminho, senão a Kate vai te matar e eu ainda não aproveitei tudo o que queria de você. – Pisquei para ele, mordendo meu lábio inferior, dando uma gargalhada logo em seguida, pela cara de tortura que ele havia feito.
- E depois ainda quer saber por que é impossível não se pensar certas coisas do seu lado. – Ele passou o braço por meus ombros e saímos de casa, indo em direção ao Audi prateado.
Seguimos para a minha casa, e quando estávamos chegando bem perto, avistamos , que vinha caminhando pela direção oposta à nossa, também para a minha casa. Ele estava com as mãos nos bolsos da calça do uniforme, o cabelo arrumado e bagunçado assim como o de , os tênis de skatista chutando pedrinhas pela calçada.
- ? – eu o chamei quando estacionou o carro no meio-fio. – O que aconteceu?
- Nada! – Ele levantou a cabeça e me encarou, um olhar meio triste e desnorteado. – Acho que aquilo não deu muito certo hoje na hora da saída.
- Como assim? – perguntei me sentando ao lado dele no meio-fio e quando notei, estava ao meu lado, provavelmente se esquecendo de Kate no aeroporto.
- Eu a beijei, não estava mais agüentando vê-la babar pelo Joe, ele é um idiota. – Ele batucava com os dedos em cima dos próprios os joelhos e me encarava ocasionalmente. – Eu precisava beijá-la, entende? Porque se ela não me quiser, eu pelo menos sei como é... Eu pelo menos senti o que tanto queria.
Meu coração se apertou nessa hora, queria tanto poder tirar a dor de . Eu o abracei fortemente e ele relaxou o queixo em cima do meu ombro.
- Own, . A tentou ir atrás de você, mas acho que não conseguiu te alcançar. – Passei as mãos por seu cabelo, como se ele fosse uma criancinha. Eu estava achando tudo aquilo a maior gracinha de todas.
- Cara, eu já disse. Você e a combinam demais. – bateu em seu ombro em sinal de consolo, me olhando com uma cara meio estranha, não sabendo exatamente o que dizer.
- Vocês acham que pode dar certo? – olhou de mim para , com um tom infantil na voz, me fazendo sorrir.
- É claro que sim, . – Segurei em sua mão e deu um tapa em suas costas, querendo dizer a mesma coisa.
- Confia no seu taco, . Afinal, a ri das suas piadas, cara – disse de um jeito engraçado, fazendo com que também risse. – Agora, eu realmente preciso buscar a estraga prazeres da minha irmã no aeroporto, posso te dar uma carona se quiser.
- Eu quero. – se levantou e e eu o fizemos também. – Sua amiga é mesmo uma tapada. – Ele me deu um beijo no rosto, rolando os olhos em seguida.
- Por isso vocês combinam tanto. – cutucou-o com o cotovelo, dando uma risadinha infame. – Tchau, ! – Ele passou os braços por minha cintura e colou os lábios no meu.
- Argh, eu estou aqui. – se pronunciou de um jeito engraçado, nos fazendo rir. – Esperem só até a aceitar namorar comigo.
- Ela vai estar nos fazendo um grande favor. Nunca mais você vai nos interromper em certos momentos... – sorriu maliciosamente para mim e os dois entraram no carro, em alguma discussão sobre como um ia interromper o outro nos momentos mais quentes e coisas do tipo.
Dei risada e me dirigi para a porta de casa, pensando que as coisas nunca estiveram tão certas.
E eu esperava que permanecesse daquele jeito por um bom tempo.
Para sempre, se possível.
Capítulo 13 – Ela
Ela poderia ter qualquer um. Qualquer garoto que ela quisesse, bastava estalar os dedos e ela o teria. Ela poderia ter qualquer ser mortal ou até mesmo imortal, ela realmente poderia. Ela era a garota mais linda do colégio, e talvez, a mais popular. Todos sabiam quem ela era, todas as garotas gostariam de sê-la, de herdar o império que a esperava, de ser alvo de algumas fotos esporádicas em sessões de fofocas em revistas inúteis. Todos os garotos queriam tê-la, todos eles pensavam em fazer certas coisas com ela, todos eles queriam beijá-la. Ela era a atriz principal de todas as peças e musicais da escola, entendia das mais variadas artes, totalmente inteligente, de uma forma altamente sedutora e cativante.
Mas eu havia sido o escolhido. Ela poderia ter qualquer um, mas era a mim que ela queria.
Eu era , um garoto normal que estuda na St. Anne’s Catholic High School. Eu era o de uma banda chamada McFLY, formada com mais três amigos meus.
Ela era Gauthier Hunter. Filha da uma bailarina francesa com um empresário inglês. Neta de uma bailarina também francesa, casada com um italiano. Ela era de uma família tradicional, mas ela era a revolução.
- Vocês viram? Ela veio de all star pra escola. Ouvi dizer que a madre superiora está louca com ela. – Ouvi uma voz feminina dizer e um grupo de garotas, parado no meio do corredor, comentava sobre alguém que havia quebrado alguma regra da escola. – A Gauthier veio de all star sem nem ao menos se importar. Parece que a mãe dela também ficou brava, mas o pai adorou.
- Como ela faz isso? – Josh, um garoto que estava sentado com a gente perguntou olhando fissurado para o começo do jardim. – Ela é quieta e reservada, não fala com todo mundo, mas todas as pessoas querem falar com ela. Todas as pessoas querem ser “cool” o suficiente pra poder estar com ela e mesmo silenciosa, ela faz coisas que deixam as pessoas comentando sobre ela durante semanas. Que garota é essa? – Ele apontou discretamente para , que andava pelo jardim, sorrindo encantadoramente de algo que suas amigas diziam. Reparei em seus cabelos presos em um coque bagunçado, com fios soltos e a franja comprida jogada para o lado. Ela parou de andar e colocou as mãos na cintura. Os braços finos dentro das mangas arregaçadas da camisa branca, os botões abertos até o começo do colo e o colarinho sem a gravata. Sua saia pareceu alguns centímetros mais curta, poucos centímetros, mas foi perceptível ao lado da saia das suas amigas. Os meiões brancos que cobriam parte das belas pernas que ela tinha e o all star preto nos pés.
- ? ? – Balancei minha cabeça, acordando do meu pequeno transe. Era difícil parar de observá-la, era como uma grande barra de chocolate, linda e apetitosa, que você não consegue parar de olhar e desejar. – Você precisa parar de ficar olhando pra ela desse jeito.
- Me deixa, . – Dei um empurrão em seu ombro e ele soltou uma gargalhada estridente. – Eu a quero pra mim – disse simplesmente sentindo que tinha que dizer aquilo. Ela sorriu para uma de suas amigas e me olhou rapidamente, seus olhos também sorrindo. Os cílios grandes e em perfeita harmonia com os olhos que, na luz do sol, tinham seu tom alterado para algo levemente mais claro. Eu poderia passar o dia inteiro ali, reparando em cada detalhe dela. Eu poderia falar no quanto a sua pele clara reluzia ao sol, e no quanto eu gostava do seu antebraço fino e pequeno. Mas eu sabia que não poderia, porque Garret surgiu do nada e a abraçou pela cintura, postando-se atrás dela e dando um beijo suave no pescoço nu. Senti meu coração doer, como se mil mãos o estivessem apertando.
- Só nos seus sonhos, cara. – Ele deu tapinhas de consolo no meu ombro e eu tirei sua mão dali bruscamente.
- Isso é muito amigável da sua parte,. – Levantei-me brutamente da mesa e saí de perto do grupo de garotos que falavam da . Fui em direção à entrada dos prédios e não pude controlar meus olhos, eles precisavam dela desesperadamente. A olhei uma última vez, admirando seu perfil delicado e perfeito, seus olhos que nem ao menos me notaram.
Nunca pensei que esperá-la se vestir poderia demorar tanto.
Uma hora e nada.
Eu batia meu pé no chão freneticamente enquanto meus dedos batucavam em cima do meu joelho, também freneticamente.
- ? – Christopher, o pai dela, me chamou, olhando-me de um jeito meio assustado. – Você está em transe?
- Hum... – Tentei formular uma frase que fizesse sentido, mas ele me pegou desprevenido demais. Culpa dela.
- Enfim... – Ele deu uma risada discreta. – Acho que você precisa de um Jack. – Fez menção a mim com o copo de whisky na mão e eu assenti com a cabeça. – Você me parece meio nervoso, mais do que da outra vez.
- Eu estou bem, Sr. Hunter. – Sorri pegando o copo da mão dele, que me olhou um pouco torto. – Christopher, claro.
- Pode sossegar um pouco, eu sei que você cuida bem dela. – Ele se sentou ao meu lado no sofá, tipicamente numa pose masculina, exatamente como eu. – É claro que ela chegou um pouco molhada demais da outra vez, mas eu sei bem o que rolam nessas festas e tudo mais. Já fui adolescente, já tive uma banda e, acredite, já fiz coisas piores.
Eu pensei em responder, mas não sabia bem o que falar. Eu queria saber por que ele havia parado com a Highway to Hell depois de cinco anos de banda e de gravar um CD. Eu tinha tanto a perguntar, mas não saia dos meus pensamentos... Eu queria saber o que ela estaria vestindo e se ela me deixaria tirar, mas pra isso, a roupa precisaria ser prática e...
- Christopher! – A mãe dela apareceu na sala, usando um vestido azul marinho elegante. – Vamos, não quero me atrasar. – Ela deu uma última olhada no espelho que ficava ali na sala, vendo se o coque estava em ordem.
- Engraçado que a festa é minha e quem está com medo de chegar atrasada é você. – Christopher passou um braço pela cintura da esposa e os dois se dirigiram à porta. – , já sabe, né? – Ele piscou para mim de um jeito cúmplice e eu retribui com um sorrisinho que eu poderia classificar como malicioso. Elizabeth – se é que eu tinha permissão para chamá-la dessa forma – me deu apenas um sorriso amarelo, tão indiferente quanto a forma como ela me tratava. Talvez, algum dia, eu entenda porque a mãe da minha namorada não gosta de mim.
Mas pra que perder meu tempo com pensamentos tão banais enquanto eu poderia simplesmente aproveitar o fato de que os pais da minha namorada passariam a noite fora de Londres? E, pra melhorar, ela estaria comigo, por tempo indeterminado, até quando quiséssemos.
- ? – Ouvi a voz doce dela me chamar de algum canto da sala. Deduzi que ela estaria no topo da escada.
- No sofá, linda! – Sorri abobado, adorava ouvir a voz dela. – Tô bem ansioso pra te ver, sabe...
- Eu vou descer nesse exato momento, ! – A voz dela adquiriu tom meio de suspense e eu dei risada, achando tudo aquilo uma graça.
- Eu sei, mas por que todo esse suspense? – perguntei entrando na brincadeira, começando a ter a leve impressão de que eu seria a mais nova pessoa a mimá-la.
- Não sei, na verdade... – ficou quieta durante algum tempo, e eu pude ouvir uma risadinha baixa vinda dela. – Quero uma entrada triunfal, ! Sou uma estrela de cinema, nunca se esqueça disso.
- Nunca vou me esquecer, . – Sorri dando um último gole no whisky, sentindo o liquido descer rasgando a minha garganta. – Você prefere a Audrey ou a Marilyn?
- Posso ser as duas?
- Pode, desde que desça nesse exato momento, porque se você demorar mais um minuto, vai matar seu namorado do coração. – Deitei um pouco a cabeça no encosto do sofá e respirei fundo, eu não sabia por que estava nervoso, mas estava.
- Então tá... – A voz aguda disse uma última vez, antes que eu ouvisse o primeiro passo que ela deu, descendo o primeiro degrau.
Assisti seus pés descerem a escada lentamente, degrau por degrau, dentro da bota de couro marrom. Os passos eram calmos e acho que calculados, revelando-a pouco a pouco. Achei que fosse mesmo morrer do coração quando as pernas dela foram aparecendo cada vez mais, e eu não encontrava um tecido que as cobrisse. Eu estava suando frio e quando ela desceu mais alguns degraus, eu consegui encontrar a barra do vestido roxo, e tive um choque ainda maior ao me deparar com o ombro caído da peça de roupa, que ia ficando justa até os quadris dela e se abria numa saia leve e muito curta. Sério, o que ela pretendia com aquele vestido? Me matar de ciúmes ou de tesão?
- Você não vai falar nada? – ela perguntou, já parada na minha frente, e eu não sabia se a mandava tirar aquele vestido e colocar uma coisa mais comprida, ou se a mandava tirar o vestido e as roupas íntimas juntamente com ele.
- Você está usando sutiã? – falei a primeira coisa que me veio na cabeça, querendo saber por que o ombro dela estava nu e me pedindo pra tocá-lo.
- Não era bem a frase que eu esperava, mas... – Ela me olhou com certo desprezo e eu não a culpei por isso. – Estou usando um top, se te faz feliz saber disso. – Ela abaixou o ombro caído, me mostrando a peça de roupa preta que cobria os seios.
Respira, .
- Será que agora você pode me dizer algo um pouco mais útil? – colocou as mãos na cintura, jogando o quadril um pouco de lado. – Ou você quer saber se eu estou usando calcinha também? – Me olhou de um jeito extremamente desafiador, o que só aumentou o meu desejo.
- É melhor que você esteja. – Me levantei do sofá e a abracei pela cintura fortemente, puxando-a para bem perto de mim. – Se você quer saber... Você está absurdamente linda e, se me permite dizer, sensacionalmente gostosa. – Dei uma mordida leve em seu pescoço e ela o encolheu em sinal de arrepio.
- Vou ter que me acostumar com esse seu novo elogio. – Ela sorriu, sem corar, e me deu um selinho. – Se bem que combinamos, já que você também é muito gostoso. – passou as mãos por debaixo da minha camiseta e acariciou meu abdômen, indo em seguida para as costas, massageando-as sensualmente.
- ... – sussurrei em seu ouvido, já sentindo minha respiração pesar e meu coração bater mais forte.
- Sim, eu sei... Você é homem, ! – Ela fez uma careta fofa e eu mordi seu nariz em função disso. – Eu sei que você é homem, acabei de constatar, pela terceira ou quarta vez.
Saímos da casa dela rindo.
E como eu queria ter o prazer de tirar aquele vestido roxo...
- Ela tem aquele namorado francês dela – eu disse sentado no sofá da garagem do . – Se ele soubesse o quanto eu gosto dela, provavelmente me mataria. Como se eu tivesse medo dele...
- Ele não te mataria, não é como se ele tivesse 23 anos e fosse da marinha. – tacou um Doritos em mim, enfiando alguns outros na boca logo em seguida.
- O que isso tem a ver, idiota? – perguntou deitado no outro sofá, quase em estado vegetativo.
- Ah, eu só falei o que veio à cabeça, seu tosco.
- é rechonchudo, tem gordura demais no cérebro. – , que parecia concentrado na letra de alguma música, disse simplesmente do nada, caindo de pára-quedas na conversa.
- Calem a boca e voltem ao meu problema, suas hermafroditas. – Bati a mão no assento vago ao meu lado, apenas para fazer barulho e assustá-los.
- começou a prestar atenção na aula de biologia. – levantou o pescoço só pra olhar pra minha cara de desdém. – Qual é o seu problema?
- Obviamente, nunca vou ser bom o suficiente para ela, não é mesmo? Ela está fora do meu alcance, tem um namorado idiota e engomado, tem pais famosos... Aquela garota é algo de outro mundo.
- Desencana, . – sentou-se dessa vez, aposto que ele tinha um bom motivo pra fazer isso. – Ela é incrível, você nunca vai ficar com aquela garota. Me desculpa, mas é a verdade, cara... – É claro que ele tinha um bom motivo: me desmotivar.
- Obrigado, . Obrigado a todos vocês, estão sendo muito amigos. – Eu me levantei e andei impaciente pelo local, me sentando novamente em seguida.
- A gente é que te agradece, . Tudo isso daria boas músicas. – sorriu de um jeito meio retardado, tentando fazer uma cara intelectual. Não, não sei como ele conseguiu.
Daria ótimas músicas.
Aquela garota.
Gauthier estava fora do meu alcance.
Obviamente.
Estávamos apenas os garotos na cozinha, enquanto a festa acontecia em todas as partes da casa, a não ser pelo andar de cima que estava com todas as portas trancadas. Charlie e Matt se divertiam com as tampinhas das garrafas de cerveja ao mesmo tempo em que James ia para a sala, e cinco minutos depois retornava, com certeza para dar uns pegas na Lauren.
, e eu tentávamos entender o que pretendia para aquela noite, dando uma festa. E não era muito fácil compreender as intenções de uma pessoa que bebeu muita cerveja e andava de um lado para o outro, como se estivesse desesperado ou algo do tipo.
- , você tem certeza disso? – perguntei, olhando para ele, que andava nervosamente de um lado para o outro.
- Tenho! – ele exclamou um pouco alto demais. – Quero dizer, a única certeza que eu tenho é de que eu quero a pra mim, agora o resto realmente não importa.
- Eu sei, mas não acha que é meio arriscado? – Abri uma garrafa de Heineken, ainda observando-o andar agitadamente pela cozinha.
- Não sei, . – Ele parou de repente e fixou seus olhos na sala, onde e conversavam com um grupo de garotas. – Eu estou muito a fim de cometer essa loucura.
- Sim, mas... já faz uma semana desde que você a beijou e nenhum dos dois teve coragem pra pelo trocar um olhar ou algo do tipo.
- Te apoiamos, . – sorriu de um jeito psicótico ou o que quer que fosse aquele sorriso maluco dele. – Vou buscar os tomates e os ovos pra tacar em você, só pra completar seu papel de palhaço.
- Cala a boca, seu verme – disse nervoso, dando um tapa na cabeça dele. – A gente tem que apoiar o , porque ele comprometido, sobra mais garotas pra gente.
- Será que eu sou tão idiota quanto vocês três? – perguntei revirando os olhos, me arrependendo de fazer aquela pergunta segundos depois. Óbvio que eu era tão idiota quanto eles. – Não precisam responder, já cheguei à mesma conclusão que vocês.
- Então vamos, porque tá na hora. – respirou fundo e estufou o peito, achando que ficaria mais macho se fizesse aquilo. Coitado...
Ele saiu andando na frente, chegando à sala onde muitas, mas muitas pessoas mesmo dançavam, bebiam e faziam o que bem entendiam na casa dele. Com um sinal de positivo que ele fez com as mãos, eu abaixei o volume do rádio e ele subiu na enorme mesa de mogno da sala, chutando alguns copos de plástico vazios.
- Atenção, macacos – ele disse como se estivesse num púlpito, falando seriamente em algum congresso importante. – Parem de reclamar, o som volta daqui a pouco. Agora prestem atenção, pois eu vou dar inicio ao real motivo dessa festa. – Ele estufou o peito mais uma vez e não conseguimos segurar o riso vendo as caretas dele. – Uma certa pessoa me disse uma vez que pingüins não dançam. Não foi o , é claro, porque ele nem sabe o que são pingüins, já que na semana passada ele me perguntou se era de comer. – dava curtos passos de um lado para o outro, no pouco espaço que lhe era possível em cima da mesa. – Essa mesma pessoa também me disse, no mesmo dia, que eu sou a pessoa mais engraçada que ela viu. E acreditem, essa pessoa não foi o , porque ele acha o humor dele negro e maduro demais pras minhas piadas, mesmo que me chame de palhaço na maior parte do tempo. , na verdade, é um convencido e se acha só porque ri de piadas inteligentes.
Mostrei o dedo do meio pra ele, não evitando a risada e nesse momento, me abraçou pela cintura e me olhou com uma cara meio assustada. Dei de ombros e a abracei de volta, olhando para novamente.
- Essa certa pessoa que me falou dos pingüins e que me acha engraçado, por incrível que pareça, roubou meu coração. E por favor, não digam que essa pessoa foi o , porque nosso caso terminou quando descobri que ele estava comendo o Charlie e o Matt ao mesmo tempo, que estavam se sentindo carentes porque James está namorando a Lauren.
Eu e olhamos para , que ria gostosamente de , e ela parecia estar um pouco nervosa; era meio confuso. Ela ria dele, mas quando se acalmava, não conseguia esconder o sorriso que se instalou em seu rosto e não ousou ir embora, e suas mãos pareciam tremer em volta dos seus braços.
- Antes de anunciar quem é essa pessoa extremamente sortuda e felizarda, eu vou cantar uma música. – Ele sorriu abertamente, um de seus típicos sorrisos forçados e muito abertos, mas que faziam rir como uma louca sempre que ele o fazia. – She said “I’ve gotta be honest, you’re wasting your time if you’re fishing around here – cantou gesticulando exageradamente e de um jeito totalmente expressivo, fazendo caras e bocas para , que nessa hora, sorria, mas chorava também.
Abracei e me coloquei atrás dela, balançando num ritmo que na verdade não existia.
- And I said... – Ele gritou e apontou para ele mesmo com os polegares exageradamente. – Yeah, I said “You must be mistaken, I’m not fooling... – Balançou o indicador freneticamente em sinal de negativo e se ajoelhou na mesa. – This feeling is real, yeah!”
adorava acrescentar “yeahs” em músicas, era impressionante.
Segundos depois, ele se levantou e resolveu levar as coisas um pouco mais a sério, e continuou cantando a música, com gestos menos exagerados, mas ainda engraçado.
- She said “You’ve gotta be crazy. What do you take me for? Some kind of easy mark?” – piscou discretamente para , sorrindo em seguida. – You’ve got wits, you’ve got looks, you’ve got passion, but I swear that you got me all wrong. – Ele juntou as mãos como se implorasse, com uma expressão séria. – I’ll be true, I’ll be useful, I’ll be cavalier, I’ll be yours my dear. – Esticou o braço na direção dela, e naquele momento, todas as pessoas olharam para ela. – And I’ll belong to you if you just let me trough. This is easy as lovers go, so don’t complicate it by hesitating. And this is wonderful as loving goes, this is tailor-made, what’s the sense in waiting?
parou subitamente e respirou fundo.
- Chris Carrabba que me perdoe, eu não sei o resto. – Deu uma risada boba e olhou para de novo. – , como você pode ter percebido, todo esse circo aqui foi pra você. Por isso, eu gostaria que você me respondesse uma pergunta. – Andou um pouco mais na mesa até parar de frente para ela, se abaixando. – Você quer namorar comigo? Vai ser legal ter alguém pra rir das minhas piadas em tempo integral.
deu um sorriso aberto e alegre, mas não disse nada. Não precisava, de qualquer forma. Suas mãos correndo pelo pescoço de e seus lábios se encontrando com os dele já eram mais do que suficiente para uma resposta positiva. desgrudou seus lábios dos dela, mas apenas para descer da mesa e poder beijá-la decentemente.
sorriu abertamente ao ver a amiga se perdendo em meio aos braços dele, retribuindo os beijos apaixonados.
- Finalmente – disse baixinho, encostando a cabeça em meu peito. – Eu sempre quis que eles ficassem juntos, parecem tão perfeitos um para o outro.
encostou sua testa na de e sorriu, ainda a abraçando. Eles com certeza teriam muito o que conversar e fazer juntos.
- Ele gosta muito dela. – Repousei meu queixo em seu ombro e dei um beijo leve em seu pescoço.
Acho que não importava quanto tempo passasse, eu ainda ia sentir meu estomago se revirar dentro de mim a cada vez que sentisse o cheiro dela. Eu ainda ia sentir meu coração bater mais forte a cada vez que beijasse os lábios dela. Eu ainda ia sentir um encanto profundo a cada vez que a olhasse.
Ela era linda. E a culpada pelas minhas notas baixas nas aulas de literatura.
Como eu poderia prestar atenção em Shakespeare, se tinha a terrível mania de prender os cabelos com uma caneta?
Como eu poderia saber as principais obras dos principais escritores ingleses, se tinha a incrível mania de dobrar uma perna embaixo da outra, enquanto mexia na barra da saia?
Como eu poderia me manter são, se a cada vez que a via, me pegava imaginando como seria beijar sua boca e deslizar minhas mãos por seu corpo?
Eu, literalmente falando, viajava em todas as aulas de literatura. Logo no primeiro ano da escola secundária eu já estava indo mal. Não que eu me importasse, de qualquer maneira...
Ela importava e sempre.
Tinha um sorriso tão doce que a cada vez que eu me sentia triste ou mal humorado, bastava me lembrar de como ela ficava quando estava sorrindo. Incrivelmente, eu ficava curado.
Seus belos olhos e seus cílios adoravelmente grandes eram surreais em conjunto com o resto do seu rosto franco-inglês. Eu a achava tão linda, que às vezes sentia uma vontade incrível de gritar ou até mesmo de chorar; não conseguia acreditar que alguém poderia ser tão lindo, tão adorável, tão desejável.
E não havia resposta ou definição para tal beleza, porque não existia coisa igual.
Acho que talvez, devesse ser cobaia de estudos científicos, para que tentassem desvendar a sua beleza, ou o porquê de sua pele parecer porcelana e seus olhos mudarem de cor. Seria bom que também descobrissem por que o cheiro dela era doce e sensual, e por que seus cabelos tinham ondas tão tocáveis. E eu adoraria saber como ela consegue ser tão graciosa, com passos leves e movimentos suaves. Acho que é por isso que tantas garotas a odeiam e tantas outras dariam tudo o que têm apenas para sê-la.
Enquanto eu daria tudo o que tenho apenas para fazê-la minha.
A festa ainda acontecia lá embaixo, mas não sabíamos bem que horas eram.
Eu e estávamos deitados na cama de , cansados do barulho e de ter que ficar desviando de estranhos para chegar a qualquer outro cômodo da casa.
- ? – eu a chamei, virando meu corpo para o dela, e ela me imitou segundos depois. – Eu te amo! – falei baixinho, como se fosse segredo, tentando fazer graça.
- Ah, é? – ela perguntou com uma sobrancelha arqueada e de um jeito meio suspeito. – Você me amaria se eu fosse assim? – Ela fez um biquinho bizarro com os lábios e quase fechou os olhos, enrugando toda a testa, numa careta estranha.
- Claro que amaria, você continua linda! – Mordi a pontinha do seu nariz e ela sorriu meigamente.
- , você é tão brega – disse com uma voz infantil, colocando a língua para fora logo em seguida.
- E a culpa é de quem? – Passei meu braço por sua cintura e a trouxe para mais perto de mim, colando nossos corpos ainda deitados na cama.
- É minha. – Ela fechou os olhos e me deu um selinho rápido. – E eu também te amo. – Grudamos nossas bocas apaixonadamente e iniciamos um beijo intenso, enquanto segurava em minha nuca e eu apertava sua cintura.
A cada minuto, eu tentava ainda mais acabar com qualquer distância mínima entre nossos corpos, trazendo-a mais para perto, como se quisesse fundi-la a mim, fazer com que fossemos um só. Passei uma perna por cima do seu quadril e, suavemente, me coloquei em cima dela, tomando o cuidado para não soltar meu peso sobre seu corpo delicado e perfeito. Deslizei meus lábios por seu pescoço, dando leves chupões, enquanto minhas mãos desciam de encontro à barra do vestido dela, levantando-a até quase seu quadril.
- ... – eu disse, continuando a beijar o pescoço dela, enquanto apertava fortemente sua coxa com uma mão, e com a outra deslizava o vestido até seu quadril. – Eu sou louco por você.
- ... – ela sussurrou fracamente com os olhos fechados enquanto apertava minha nuca.
- Deixa eu te guiar, . – Passei meus beijos para o outro lado do seu pescoço, e minhas mãos ainda acariciavam sua coxa e seu quadril. – Por favor, eu quero tanto isso com você. Deixa eu deslizar o seu vestido pra cima enquanto você tira minha camiseta suavemente. Deixa eu te beijar inteirinha ouvindo você chamar meu nome baixinho ao mesmo tempo em que acaricia o meu cabelo de olhos fechados.
- Parece tentador. – Ouvi sua voz meio ofegante e ainda fraca dizer entre suspiros. – Mas... – Eu a interrompi com um beijo, deixando que nossas línguas brincassem mais uma vez. – ... – ela me chamou, mas eu não conseguia ouvir. A beijei de novo, descendo minha boca por seu queixo, e voltando ao seu pescoço novamente. – ... me ouve... por favor. – Suas mãos delicadas seguraram meu rosto entre elas e o trouxeram de encontro a seus olhos. – Estou tão doente de desejo quanto você, mas... não me sinto pronta. – me deu um selinho com ternura, e voltou a me olhar. – Eu te amo e muito, e embora eu adore essa proximidade entre nós e tudo isso, eu ainda tenho medo... – Seus olhos brilharam, como se fossem a constelação mais bela. Golpe baixo, droga.
- Tudo bem. – Respirei fundo e acariciei o rosto dela. – Eu entendo, e vou esperar. Não quero te perder por causa disso. – Selei nossos lábios uma última vez, antes de voltar a me deitar do seu lado. – Mas eu não posso negar que você ficou realmente gostosa com esse vestido. – Ela me deu um tapa no braço e se levantou.
- Você é um safado, sabia? – colocou as mãos na cintura, parada em pé ao lado da cama. – Vou te deixar aqui sozinho... – Ela se virou, indo em direção ao banheiro.
- Faça isso, mas não balance tanto o quadril, por favor. – Passei as mãos por meus cabelos, bagunçando-os, enquanto tentava acalmar a minha excitação que insistia em continuar ali, aos olhos de quem quisesse ver. – Ou vou ser obrigado a entrar nesse banheiro com você. Afinal de contas, o que você está fazendo aí dentro, ? – Me sentei ereto, e olhei para o meio das minhas pernas, realmente me assustando e não imaginando que a coisa era tão visível assim. Incomodado, coloquei um travesseiro por cima e tentei respirar fundo.
- Estou fazendo doce, ! – Eu ouvi a voz dela sair abafada de dentro do banheiro, seguida de uma risadinha.
- Já sofri o bastante, não acha? – Fiz drama, levantando um pouco o travesseiro a fim de saber como andava a situação por ali.
De repente, ouvi a chave virar e a porta se abrir.
- Talvez – ela disse sorrindo maliciosamente, dando uma piscadinha. – Por que você está com um travesseiro no meio das pernas?
Ela com certeza sabia por que, pois estava se segurando muito para não rir. Rolei os olhos.
- Eu estava pensando... – me olhou com uma cara de quem estava refletindo e ficou de perfil. – Não acha que meus seios são pequenos demais? – Ela os segurou suavemente, eles cabiam em suas mãos quase que perfeitamente. Mas claro, não tão perfeitamente quanto caberiam nas minhas.
- Você vai mesmo fazer isso comigo? – perguntei quase que em um gemido, sabendo que a coisa ali embaixo do travesseiro não tinha melhorado.
gargalhou da minha cara e caminhou até mim, engatinhando sobre a cama e me dando um beijo.
- Lindo! – ela disse enrugando o nariz e se colocando de pé novamente, parando na frente do espelho.
Observei suas costas e já me sentindo um pouco mais calmo e são, me levantei e a abracei pela cintura por trás.
- Sabe o que eu sonhei esses dias? – Aproximei meus lábios do seu ouvido, dando um beijo suave, seguindo para sua nuca, dando mais um beijo suave, vendo-a se arrepiar.
- O que? – Ela repousou as mãos sobre as minhas, que estavam em sua cintura, e olhou nosso reflexo no espelho.
Eu a virei de frente para mim e disse:
- Sonhei que você veio ao meu encontro, passou os braços pelo meu pescoço... – Conforme eu falava, meus gestos seguiam minhas palavras. Coloquei os braços dela em volta do meu pescoço delicadamente, aproximando nossos corpos. – E me deu um beijo... bem aqui. – Encostei meus lábios no canto da sua boca e ela fechou os olhos. Dei um beijo suave ali e voltei a olhá-la.
- Gostei do seu sonho. – Ela deu uma risadinha fofa, abrindo os olhos em seguida.
- Mas não foi só isso. – Peguei em suas mãos novamente, e as coloquei perto da barra da minha camiseta. – Então, muito suavemente, você segurou na barra da minha camiseta e a puxou para cima, me deixando com o tronco nu.
- Como eu sou safada nos seus sonhos. – mordeu o lábio inferior, com um sorriso meio sapeca nos lábios.
- É, eu também acho. Porque você deslizou as suas mãos desde o meu peitoral até o meu abdômen, perto da barra da minha calça, e disse que eu era muito gostoso. – Sorri malicioso pra ela, fazendo com que as mãos dela realmente deslizassem por mim. – Segundos depois, você segurou nos meus ombros e foi me empurrando... – mantive as mãos dela presas sob as minhas, apertando meus ombros, enquanto eu andava de costas até a cama – até que me jogou sentado em cima da cama, sorrindo de um jeito mal intencionado pra mim. – Terminei de dizer as palavras quando já estava sentado na cama, de frente para ela que estava pé.
- E o que aconteceu depois? – perguntou, tentando fingir que não estava interessada, mas eu sabia muito bem que ela estava.
- Depois, eu deslizei minhas mãos desde as suas panturrilhas até as suas coxas, aonde a barra do seu vestido começava, e as apertei com vontade enquanto você soltava um gemido baixo e passava os braços pelo meu pescoço de novo. – Meus gestos copiavam minhas palavras, exatamente como no meu sonho. Deslizei minhas mãos por toda a extensão de suas pernas e ela me abraçou pelo pescoço. – E então, quando eu menos esperava... – segurei firmemente em seu quadril – você colocou uma perna de cada lado do meu corpo e se sentou sobre mim, começando a me beijar. – Parei de falar por alguns instantes, apenas para colocá-la sobre a minha pélvis e começar a beijá-la.
- Não ouse me deixar nua, – sussurrou assim que sentiu minhas mãos subirem por suas coxas e levarem seu vestido junto.
- Droga. – Soltei uma risada nasalada, me fingindo de inconformado. – Apenas confie em mim, . Não vou fazer nada que você não queira.
- Eu sei. – Sua voz saiu fraca e baixa, bem perto do meu ouvido, enquanto eu beijava seu pescoço suavemente. – Eu confio em você, não confio é em mim.
- Eu também confio em você, mas não em mim. – Deslizei meu nariz desde sua bochecha até sua orelha e ela se encolheu suavemente. – Fico completamente maluco quando você está comigo, então isso significa que eu fico louco em noventa e nove por cento do tempo.
não respondeu nada, apenas selou nossos lábios e, suavemente, eu a deitei na cama, me colocando sobre ela.
- Essa é a parte do sonho em que as coisas esquentam bastante, sabe? – Apoiei meus cotovelos no colchão em volta dela, para poder olhá-la melhor sem soltar meu peso sobre seu corpo. – Eu tiro seu vestido suavemente e fico insano ao te ver, pela primeira vez, seminua. – Minhas palavras saíram num tom malicioso e ela revirou os olhos com um meio sorriso torto e cheio de charme. – E então, eu começo a te beijar; desde a sua boca até os seus joelhos e eu vou refazendo o caminho, enquanto você geme baixinho meu nome e diz que me ama. Acho que é o momento mais perfeito do sonho.
- Seu sonho é bem interessante. – Ela sorriu ladina, brincando com os dedos indicadores no meu peitoral.
- Sim, e fica ainda mais interessante quando você resolve tirar minha calça junto com as minhas boxers e eu, com maestria, tiro seu sutiã sem problema nenhum, e logo em seguida, estamos completamente nus e você sabe, né? – Dei um beijo suave na base do seu pescoço. – Nossos cheiros se misturaram e você me deixou ofegante como nunca, enquanto eu dizia que te amava e você sorria.
Um silêncio se instalou entre nós enquanto nos encarávamos intensamente, eu acariciando o rosto dela, ela deslizando a mão por meus ombros nus.
- Quero que você me beije, . – Seus dedos subiram para minha nuca e prontamente, grudei minha boca na dela, deixando que nossas línguas deslizassem uma pela outra harmonicamente. Ainda com uma mão acariciando sua bochecha, fui descendo a outra por seu corpo, até alcançar seu quadril e acariciá-lo levemente, passando por sua coxa. se mexeu sob mim e segurou firmemente em minha nuca, e quando percebi, ela havia tido força o suficiente para fazer com que meu corpo fosse parar embaixo do seu.
Com as duas mãos, eu segurei firmemente em seu quadril e a pressionei para baixo, necessitando daquela proximidade. Eu a movimentei sobre mim, suave e sugestivamente, sentindo minha excitação crescer novamente. se movimentou por livre e espontânea vontade, e minhas mãos em seu quadril acompanharam esses movimentos, dando suporte e incentivo.
- Acho melhor pararmos... eu não agüento, – disse ofegante, sentindo o calor no meio das minhas pernas quase me queimar de tão ardente.
Ela se sentou ereta, ainda sobre mim, totalmente descabelada. Eu estava adorando vê-la extremamente sexy com os cabelos desgrenhados, o ombro do vestido ainda mais caído, o colo subindo e descendo freneticamente junto com sua respiração desregulada, os lábios intensamente vermelhos e convidativos, suas pernas abertas e eu ali, bem no meio delas.
ignorou totalmente o que eu havia dito e aproximou seu rosto do meu, e conseqüentemente, sua boca da minha. Me beijou intensamente arranhando meu pescoço enquanto ainda mexia seu quadril sobre o meu.
- ... – sussurrei rouco e ofegante quando ela começou a beijar meu pescoço. – Você me... ouviu?
- Sim, eu ouvi, . – Ela mordeu meu lábio inferior de olhos fechados e fez movimentos mais ousados e intensos. – Mas estou muito a fim de retribuir o prazer que senti na semana passada.
- Ah... – gemi respirando com ainda mais dificuldade. – Sinta-se à vontade.
Sorri malicioso e senti um arrepio percorrer todo meu corpo quando as pontas dos dedos dela desceram por meu peitoral e chegaram à barra da minha calça. Ela desafivelou o cinto e abriu os botões, o suficiente para que sua mão pequena e delicada deslizasse por dentro da peça e adentrasse minha boxer. Apertei seu quadril com força enquanto sua mão me deixava em estado de êxtase com movimentos delicados, mas também ousados.
beijou meus lábios e passou a boca por meu pescoço, indo até minha orelha e depositando uma mordida sedutora em meu lóbulo. Ela começou a respirar ruidosamente perto do meu ouvido e isso contribuiu para que eu finalmente conseguisse atingir o clímax em meio a gemidos e sussurros. Ela não parou de mexer sua mão até que sentisse que todo o meu prazer havia sido posto para fora. Seu nariz encostou-se ao meu e olhei profundamente em seus olhos, vendo-a também em estado de extremo prazer.
- Eu te amo, . – Selou nossos lábios uma última vez e levantou-se, indo até o banheiro.
- Eu também... te amo... – soltei as palavras completamente ofegante e ainda em êxtase. – Deus, como você é perfeita. E em todos os aspectos. Estou no céu, e estou cansado.
- Você também foi maravilhoso na semana passada. – Ela voltou para o quarto e se deitou ao meu lado, passando um braço por meu peitoral.
- Estou cada vez mais louco por você. – Beijei sua testa e ela enterrou o rosto no meu pescoço. – Obrigado, .
- Por isso? – Apontou para o meio das minhas pernas, soltando uma risadinha.
- Também. – Entrelacei meus dedos nos seus e coloquei nossas mãos em cima do meu coração. – Mas obrigado, principalmente, por ser minha. Por sermos íntimos, por me permitir conhecer você cada vez mais, e por se permitir me conhecer cada vez mais.
- Não tenho vergonha de você. – Fechou os olhos e deitou a cabeça em meu peito, fazendo uma carinha de criança. – Sou sua.
- Sou seu. – Eu a trouxe para mais perto de mim e fechei meus olhos.
Eu a amava.
Eu era completamente louco por ela.
Eu vivia para ela.
Ela, Gauthier Hunter.
Minha garota. Meu maior sonho.
Era tudo dela e sobre ela.
Só dava ela.
Capítulo 14 – Pela primeira vez
- É bom que vocês comecem o trabalho de vocês logo, já se passou dois meses desde quando separamos as duplas e o projeto vai precisar ser entregue em breve – Sr. Matthews disse enquanto andava de um lado para o outro na frente da sala de aula.
Senti uma preguiça súbita inundar meu corpo só de ouvir a palavra “projeto”. Eu não gostava de ir pra escola, essa era uma verdade. Eu não gostava de estudar, essa era outra verdade. Eu gostava de me divertir, essa sim era a maior verdade de todas.
De repente, de uns tempos pra cá, muita coisa havia mudado. Minhas prioridades haviam sido restabelecidas, de certa forma.
Julliard ainda era meu sonho, provavelmente meu futuro, mas agora eu não precisava mais sair escondida para ir às festas. E era por causa do que todas essas coisas haviam mudado. Ele era, definitivamente, a minha revolução particular.
- Sexta, na minha casa? – Ouvi a voz aveludada dele sussurrar no meu ouvido, me despertando do meu transe preguiçoso. – Não vai ter ninguém de novo...
Eu o olhei desconfiada e ele sorriu não tão inocentemente assim.
- Tudo bem. – Dei de ombros, recebendo um beijo na bochecha. – Só não tente tirar minhas roupas de novo.
- Depois que eu tirar pela primeira vez, você vai querer que eu tire sempre.
Minha mão alcançou seu ombro e eu dei um tapa leve nele, que sorriu.
- Você é um safado, o que aconteceu com o romântico que eu conheci meses atrás? – Fiz biquinho, me fingindo afetada, e virei meu rosto para poder encará-lo.
- Sou um versátil. – Seus dentes morderam levemente a ponta do meu nariz. – Consigo combinar as duas coisas e transformá-las em apenas uma. – Sua voz sussurrou rouca no meu ouvido, daquele jeito que sempre me arrepiava.
- Convencido! – exclamei indiferente, com uma expressão infantil no rosto.
- Linda! – mordeu seu lábio inferior, piscando logo em seguida, com sua melhor cara de safado.
Acabei rindo dele, havia sido extremamente engraçado. E sexy, devo admitir.
me abraçou desajeitado, em função da mesa que nos separava, e só então percebi que não estava na aula.
- Cadê o ? – perguntei assustada e um pouco alto demais.
- Pergunta pra que ela sabe... – soltou uma risadinha maldosa, olhando para com cumplicidade.
- Oh! – Soltei surpresa, com um risinho se formando em meus lábios.
Hoje, com certeza, e eu teríamos muito assunto para colocar em dia.
- Perdemos mais um pra uma garota, cara... – disse meio triste, arranhando sua carteira em desenhos abstratos.
- Só temos um ao outro agora. – estendeu sua mão para ele que se sentava do seu lado, e a segurou, como numa cena de filme triste.
- Que nojentos. – fez uma careta, colocando a língua para fora e retorcendo todo seu rosto.
Não tive tempo de rir, o sinal tocou segundos depois anunciando o fim da segunda-feira.
Andei pelo corredor normalmente, sendo acompanhada por , e . Eu estava bem ansiosa para saber o que e estavam aprontando e confesso que ainda não estava acostumada a vê-los juntos, pois quase parei a dois metros de distância deles quando apareceram no corredor de mãos dadas.
Estavam descabelados e com as roupas amassadas, só pra deixar isso bem claro.
E sorriam idiotamente.
- , você é tão sem escrúpulos – eu disse sem qualquer simpatia, mas ela sabia muito bem que eu não estava falando a verdade.
- Olha só quem fala. – Ela cruzou os braços com um meio sorriso nos lábios. – A santinha que coloca a mão dentro da cueca do namorado.
- ! – gritei horrorizada enquanto ela gargalhava da minha cara, sendo acompanhada por todos os outros, até por .
- Tudo bem, . A gente já sabia... – sorriu malicioso e olhou para significativamente.
Então, eu também o olhei significativamente, mas de um jeito agressivo.
- Ah, fala sério... – disse inconformado, na defensiva. – Você pode contar pras suas amigas e eu não posso contar pra eles?
- Quieto, ! – exclamei mandona e ainda um pouco envergonhada. – Vamos embora logo.
Segurei em sua mão firmemente e o arrastei pelo corredor da escola, sendo seguida por , , e .
- É você que vai dirigir, por acaso? – perguntou petulante, soltando uma risadinha. – Não sei por que essa pressa toda, as chaves estão comigo.
- Olha que eu vou a pé. – Virei o rosto, numa tentativa de ignorá-lo.
Sua mão que estava livre, envolveu minha cintura muito de repente, virando-me para ele e me deixando sem escapatória. Mais rápido ainda, seus lábios grudaram nos meus e sua língua deslizou pela minha, num beijo extremamente espontâneo e apaixonado.
- Você acha que vai a pé... – Sua boca sussurrou bem baixinho no meu ouvido, e me amaldiçoei mentalmente por nunca conseguir colocar meu cérebro pra funcionar quando ele faz esse tipo de coisa.
- Se você continuar assim, vou acabar ficando retardada – eu disse com a voz um tanto ofegante.
- Você é muito exagerada, . – Ele que me puxou pela mão dessa vez, e saímos pelo jardim da escola, em direção aos carros estacionados.
- – chamou um pouco atrás de nós, com o braço nos ombros de . – Você pode levar a gente também?
- É claro que ele pode, – respondi antes mesmo que pudesse abrir a boca, com um sorriso no rosto e inconvenientemente curiosa. Se ficasse na minha casa, me contaria tudo o que rolou entre ela e .
- Eu ia dizer que não, mas minha namorada, mandona e mimada, fez o favor de responder por mim... – Ele rodou o molho de chaves no dedo indicador, sorrindo de lado.
- A gente sabe que não é verdade, . – sorriu e entrou no banco de trás do Audi prateado, sendo seguida por .
Eu e nos apressamos em entrar no carro também, a curiosidade dele deveria estar no mesmo nível da minha. Não que isso fosse necessário, mas a gente queria muito saber o que e fizeram atrás da escola, aonde sempre se mata aula.
- Então... – disse, ajeitando o retrovisor de forma que pudesse olhar nos olhos. – Onde estavam?
- Bom, nós fomos ao fund...
- CALA A BOCA! – gritei, afobada.
- Como é? – , que havia sido interrompido por meu grito, perguntou um tanto assustado.
- Não quero que vocês contem agora, ué... – Dei de ombros, com uma expressão de indiferença do rosto.
- Mas eu achei que você estivesse curiosa. – me olhou meio de lado, sem poder desviar seu olhar do tráfego. – Estava toda afobada para que eu desse carona para eles.
- Eu estou curiosa... até demais. Mas isso não é o certo.
- , você bebeu já a essa hora da manhã? – se pronunciou, me repreendendo só Deus sabe por quê. – Porque, sinceramente, não estou entendendo absolutamente porra nenhuma do que você está dizendo.
- Vocês são tão burros. – Revirei os olhos, com complexo de superioridade. – Prestem atenção. Não é legal vocês contarem assim, na nossa frente. Tem mais graça quando a você conta só pra mim e o conta só pro , entenderam? É a regra... A amiga conta pra amiga, e o namorado da amiga conta pro amigo dele, que é namorado da amiga da namorada dele.
- Que desgraça! – soltou do seu jeito estridente, com seu timbre de voz absurdamente grosso. Às vezes, por mais que também falasse inglês, parecia que ele tinha um dialeto próprio, pois era meio impossível entender as coisas que ele dizia.
- Não, ... faz sentido. – concordou comigo. – Imagina como seria chato se o e a contassem pra gente o que fazem, na nossa frente. Tipo, “eu e o demos o maior amasso na pia do banheiro do pub, vocês têm que experimentar”. Não é legal, pois como ela mesma disse, é muito mais excitante ela dizer só pras amigas “gente, ele passou a mão aqui e ali, rasgou a minha saia e transamos loucamente”. É com mais detalhes quando se conta só pras amigas...
- Pra nós, homens, isso não faz o menor sentido – disse, parecendo realmente interessado no assunto. – A gente meio que não liga de dizer essas coisas na frente das namoradas dos amigos, sei lá...
- É, eu concordo com o – falou, despreocupado. – É tão normal dizer “nossa, aquele dia na mesa da cozinha foi ótimo” e coisas do tipo.
- Por isso vocês são tão sem graça. – Olhei indiferente para minhas unhas. – E nem ao menos se importam se isso vai nos constranger ou não...
Parei de falar subitamente, ouvindo alguns estalos vindos do banco de trás. e se beijavam loucamente, como se nunca tivessem feito isso na vida. As mãos grandes dele seguravam firmemente no quadril dela, enquanto os dedos dela se perdiam em meio aos fios de cabelo dele.
Olhei para um pouco assustada e antes que pudesse me dar conta de que o carro estava parado num sinal vermelho, seus lábios encontraram os meus rapidamente. Sendo totalmente guiada por meus hormônios desenfreados, apertei a nuca de com uma mão, enquanto com a outra eu o trazia para mais perto de mim, pressionando suas costas. As mãos dele seguraram em minha cintura fortemente, descendo em seguida para minhas coxas. Adorando a sensação da língua de na minha, me senti profundamente contrariada quando escutei as buzinas dos carros que estavam atrás da gente.
Nos soltamos ofegantes e voltou ao volante, com um sorrisinho de canto nos lábios.
- Agora encontramos um passatempo pra curtirmos em casais. – passou o braço pelos ombros de , sorrindo maliciosamente. – Amassos em conjunto, muito interessante.
- Que merda você ta falando, ? – perguntou sério.
- Não me entenda mal, . Não estou querendo dizer que vou dar uns amassos na , e nem quero que você chegue perto da – ele respondeu prontamente, na defensiva. – Eu disse que estaríamos fazendo isso em conjunto, cada um com sua namorada, entendeu?
- Ai, , que idéia idiota. – revirou os olhos, não podendo evitar uma risada. – Tenha certeza de que você seria a última pessoa no mundo que eu daria um amasso perto. Você tem o dom de interromper momentos como esse.
- Mas isso agora mudou. – abraçou , defendendo-o. – Graças a mim, ele não vai mais interromper vocês.
- Assim espero. – Por coincidência, eu e dissemos juntos, sorrindo logo depois.
Minutos mais tarde, o Audi de já estava parado na frente da minha casa. e se despediam como se nunca mais fossem se ver na vida, e decidiu que faria a mesma coisa comigo, quando sua mão agarrou minha nuca e sua boca procurou a minha. A sensação era sempre a mesma, mas ainda algo novo a ser desvendado. me beijava com paixão, do seu modo sedutor e corrupto que eu, particularmente, amava mais do que tudo. Era tão incrível como ele conseguia ser o meu melhor paradoxo, ter dois lados tão extremos e equilibrados, era sempre tudo na medida certa. Ele era sempre selvagem e carinhoso, pervertido, mas ainda assim, extremamente apaixonado. Sua língua deslizava pela minha com possessão e desejo, de um jeito extremamente excitante e sensual, o tipo de beijo que faz com que você se entregue logo no primeiro segundo, que absorve tudo de você, até que você fique fraca, mas em estado de total êxtase. Porque era exatamente assim que eu me sentia a cada vez que a boca dele grudava na minha. Era a coisa da qual eu mais dependia no mundo; eu poderia viver sem comida ou água, mas nunca na vida poderia ficar um dia sequer sem beijá-lo. E isso me fazia desejá-lo a cada vez mais, me fazia ter a certeza de que eu estava mais do que pronta pra ele. Eu queria, mais do que qualquer coisa, poder tirar as roupas dele e deslizar minhas mãos por sua pele quente e sentir seus músculos em formação sob os meus dedos.
Sem muita vontade, nós nos separamos ofegantes e com sorrisos manhosos nos lábios.
- Te vejo amanhã – disse, me dando um selinho rápido e respirando fundo no intuito de se recompor.
- Hei, ! – exclamei olhando para o banco de trás e me deparando com ele e ainda aos beijos. – Solta minha amiga agora!
- Tá roubando meu cargo de estraga prazeres, é? – Ele deu uma risada estridente, se desgrudando de , que desamassava a camisa do colégio.
- É, vou me vingar por todas as vezes que nos interrompeu.
- Tá, chega. Vamos sair logo desse carro antes que o resolva me agarrar e o faça o mesmo com você. – , um tanto afobada, colocou a bolsa no ombro já com a porta do carro aberta.
Repeti seu gesto e saí do carro segundos depois dela.
- Volta aqui, – levantou seu tom de voz, sorrindo pra mim e me chamando com a mão. – Ainda não terminei de te beijar.
- Hei, , o mesmo vale pra você, viu? – abriu o vidro de trás do carro, com sua voz grossa ecoando pela rua.
- Ah, esqueçam, só amanhã agora. – Devolvi as palavras, ouvindo rir da cara de decepção deles enquanto entrávamos em casa.
Lá de dentro, ouvimos o motor roncar e arrancou com o carro, com muita velocidade.
- Então... – comecei, olhando-a sugestivamente, que não se decidia entre me encarar ou prestar atenção nos degraus da escada.
- Ai, ... – ela soltou animada e sonhadora, entrando em meu quarto e jogando-se sobre a cama logo em seguida. – Nós fomos para aquele lugar onde todos matam aula, sabe? Foi tão fofo, ficamos sentados embaixo de uma árvore completamente isolada, dá pra fazer o que quiser lá, ninguém vê.
- Minha nossa, mas já estão nesse nível? – perguntei assustada, me jogando no pufe roxo perto da cama.
- Claro que não, . – revirou os olhos, me repreendendo. – Ficamos conversando sobre nós, sabe? Ele disse que gostava de mim desde sempre, mas que não percebeu no começo, porque achou que fosse só amizade.
- E você, o que disse? – Apoiei meus cotovelos em meus joelhos, repousando meu queixo sobre minhas mãos.
- Eu disse que não sabia como me sentia em relação a ele, até o primeiro beijo que ele me deu. Parecia que tava tudo adormecido, entende? Que bastou ele me beijar daquele jeito, pra que eu finalmente me desse conta de que eu adorava estar perto dele e me decepcionava quando não o via porque gostava dele.
- Aw, , eu fico tão feliz de ver que você está feliz. – Estiquei minha mão e segurei na dela, vendo-a sorrir alegremente. – E o é um cara tão legal, eu gosto muito dele.
- Sim, e eu acho isso o máximo. Você e o , eu e o . – Ela soltou um gritinho histérico, me fazendo rir. – Parece que era pra ser, sabe? Essas coisas que estão predestinadas e coisa e tal... Acho que foi o destino – ela disse de um jeito meio cuidadoso, como se fosse uma criança. Soltei uma gargalhada divertida, achava esse tipo de coisa muito engraçado, destino, estava escrito e o que fosse...
- É, faz sentido. – Dei uma risada suave. – Eu sempre achei que você e o fossem casar, não me pergunte por quê. – Não pude evitar soltar esse comentário debochado, mas não poderia negar a mim mesma que a idéia era bem fofa e totalmente aceitável. Mas eu não estava falando muito sério naquele momento...
- Nossa, que exagerada que você é, . – fez uma careta, colocando a língua pra fora, mas eu sabia muito bem que ela estava sorrindo por dentro, com certeza imaginando ela e se casando, transando, tendo filhos, passeando com os cachorros no Hyde Park, fazendo compras na Oxford Street...
- Você vai ver, , daqui a uns quatro anos, eu e o estaremos entrando numa igreja de braços dados, vendo no altar totalmente nervoso enquanto espera por você. – Dei uma piscadinha cúmplice, com um meio sorriso no rosto. Ela sabia que era tudo uma brincadeira, eu conhecia muito bem a amiga que tinha. Por mais que ela estivesse sonhando com tudo aquilo, ela tinha o pé no chão.
- Meu Deus, você tem uma imaginação muito fértil. – Suas bochechas coraram, me fazendo ter a certeza de que ela realmente estava imaginando todas aquelas coisas e um pouco mais. – E outra... Você e o serão os primeiros a se casar.
- Ah, claro... Até parece. – Bufei, reparando pela primeira vez que a idéia de casamento me parecia convidativa.
- É verdade, e não adianta vir com essa história de que você tem um futuro planejado somente pra você e que na sua vida futura não tem espaço pra outra pessoa e blábláblá – disse de um jeito autoritário e cheio de convicção. – era a peça que faltava na sua vida, sua revolução particular. – Concluiu do seu jeito categórico, daquele jeito que não dá pra levar a sério, porque é engraçado de se ver.
Respirei fundo e admiti que ela poderia estar certa.
Será que eu estava mesmo pensando em me casar?
Se eu estava, era um momento único e raro, pois aquilo nunca havia me passado pela cabeça.
Mas eu tinha plena certeza de que dali a alguns anos eu estaria rindo de todo aquele papo adolescente idiota. Afinal, era disso que a adolescência era feita: de sonhos bobos que serão lembrados por você como motivo para se divertir quando estiver mais velha, com uma vida séria e cheia de preocupações.
Dei uma risada baixa e fui vestir minhas roupas para começar a dançar.
E tagarelei com o resto da tarde...
A semana se passou de um jeito rápido, sem que eu ao menos notasse.
Meus dias eram bem preenchidos, eu revezava minha horas entre estar com o e dançar ballet. E conversar com , claro, era lei.
Mas eu tinha a mais absoluta certeza de que tudo sempre conspirava pra que eu e ficássemos a sós, considerando o fato de que os dias em que estivemos na presença dos nossos amigos, passaram quase que despercebidos, se não fosse por alguma piada do , ou por alguma reclamação do .
Mas a sexta-feira, o dia em que eu e tivemos para nós dois, durou bastante, e foi bem aproveitável, digamos.
Eu estava sentada no carpete acinzentado do quarto dele, com um livro aberto sobre as minhas pernas e mais três fechados, espalhados pelo chão. Foi quando eu senti algo em volta do meu quadril. Por breves segundos, desviei apenas meus olhos para os lados, e vi os tênis de skatista dele aparecerem e suas pernas, dentro da calça preta social do colégio, me rodearam, fazendo com que ele aproximasse seu peitoral das minhas costas. Suas mãos envolveram minha cintura e aplicaram uma leve pressão contra minha barriga, para que eu aproximasse meu tronco do dele. deu um beijo leve na base do meu pescoço enquanto eu me esforçava o máximo que podia para não dar moral para ele, porque se isso acontecesse, não iríamos estudar com certeza. Eu apenas senti seu olhar sobre mim, quando seu rosto se inclinou para me olhar de perfil.
- O que foi? – finalmente perguntei, depois de perceber que seus olhos me encaravam por tempo demais.
- Fico me perguntando... – ele começou, pensativo. – Será que existe um molde tão perfeito quanto o seu?
Franzi o cenho e olhei para ele, sem entender exatamente nada.
- Você é linda. – Sorriu simplesmente, como se achasse normal pensar que alguém pode ser perfeito. – E acho que todos os caras morrem de inveja de mim, porque a minha namorada foi perfeitamente moldada, e o melhor de tudo: foi feita para ser única e exclusivamente minha.
- , eu nunca sei o que responder quando você me diz essas coisas. Isso significa que em noventa e nove por cento do tempo, fico sem palavras.
- Não precisa dizer nada. – Ele esfregou seu nariz de leve pela minha orelha. – Continue sendo você, que eu vou continuar perdendo o fôlego a cada vez que eu te olhar, mas nunca vou ficar sem adjetivos pra te descrever.
Dei um selinho rápido nele, e voltei a olhar para o livro, me obrigando a ter pelo menos um pouco de concentração no meio ambiente. Biopirataria, a questão as patentes, as correntes ambientais... Ecocapitalismo? O quê? O que os dedos do estão fazendo embaixo da minha camisa, deslizando pela minha cintura?
Tentei fingir que não estava sentindo nada, mas seus dedos faziam movimentos circulares sobre a minha pele, às vezes indo até minhas costas, mas se concentrando bem na parte da frente da minha barriga, muito perto do cós da minha saia.
- O que você está fazendo, ? – indaguei, tentando passar uma indiferença que estava muito longe de ser verdadeira.
- Eu estou estudando, oras. – Sua voz saiu bem perto do meu ouvido, quando seu queixo repousou sobre meu ombro e seus lábios, mais uma vez, beijaram meu pescoço.
- Não, eu estou estudando. – Respirei fundo, tentando manter a calma.
- Mas eu também estou estudando. – Senti seus dentes agarrarem o lóbulo da minha orelha, enquanto seus dedos se moviam por minha barriga de um jeito mais ousado, chegando bem perto do meu sutiã. – Estou estudando você. – Ele soltou uma risada baixa e eu tive a certeza de que estava literalmente perdida. Nada de geografia ambiental, estávamos mais para anatomia mesmo.
- Ai, ... precisamos fazer o trabalho de geografia. – Meu tom de voz saiu totalmente desuniforme, devido a temperatura quente das suas mãos na minha barriga. – É bom você ler esse livro, ou não vou te beijar até recebermos a nota desse trabalho.
- Tá bom, tá bom. – Ele ajeitou seu tronco, deixando-o corretamente ereto e me puxou para mais perto dele. – Preservacionismo. Considerado a corrente ambientalista mais radical, defende o controle do crescimento populacional... – ajeitou suas mãos por debaixo da minha camisa, de uma forma propositalmente sedutora – e a diminuição do ritmo da expansão econômica, a fim de solucionar os problemas ambientais.
parou por poucos segundos, tirou as mãos de dentro da minha blusa colocando-as em meu ombro, de forma que eu relaxasse minha cabeça em seu peito. Respirei fundo seu perfume, sorrindo involuntariamente.
- Segundo o preservacionismo, – ainda tentando me seduzir, ele colou seus lábios perto do meu ouvido, e começou a sussurrar as palavras que lia, enquanto seus dedos brincavam com o colarinho da minha camisa – as ações que atingem o meio ambiente devem ser completamente eliminadas.
Respirei fundo, obrigando-me a prestar atenção na matéria e não nos dedos de que brincavam com o primeiro botão da minha camisa.
- Conservacionismo. – Lá se ia o primeiro botão, e o meu colarinho foi aberto. – Busca o uso racional dos elementos naturais dos ambientes terrestres. – soltou uma risadinha baixa e então me dei conta de que ele já estava chegando na metade da minha camisa, que quanto mais sussurrava a matéria no meu ouvido, mais abria os botões. – Eu sei que você não quer estudar geografia, ... É só virar o seu rosto um pouquinho para a esquerda para que possamos começar algo bem mais interessante.
Sem o meu consentimento, ou pelo menos sem estar consciente dos meus atos, meu pescoço obedeceu as palavras dele e em questão de segundos, senti seus lábios sobre os meus da forma mais intensa possível. Guiei meus dedos até seu cabelo e os embrenhei, exatamente da forma como eu estava acostumada a fazer e simplesmente amava aquela sensação dos fios macios sob a minha pele.
- Você me ganha muito fácil, sabia? – disse um pouco irritada, mas conformada por ter certeza de que eu sempre teria minha concentração corrompida por ele.
- Se você não fosse linda... – Ele deu uma mordida suave no meu nariz – ...e talvez não tão sexy, eu provavelmente conseguiria resistir a você e seríamos capazes de estudar. – Suas mãos apertaram minha cintura e, de um jeito meio desajeitado, eu me virei para ele e me sentei sobre seu quadril. – Mas já que você insiste em ser ‘você’, desse jeito lindo e absurdamente sensual, pode ir dando adeus à sanidade do seu namorado.
- Você não vai precisar dela mesmo... – Sorri maliciosamente e o beijei de novo, dessa vez numa posição mais favorecedora.
repousou suas mãos em minhas coxas e as acariciou suavemente, enquanto eu segurava fortemente em seus ombros, sentindo-os definidos sob os meus dedos. Totalmente perdida em nossos beijos, não sei bem como ele passou uma mão por minha cintura e a outra por debaixo da minha bunda, segurando-me fortemente e deitando-me no chão. Nos afastamos apenas por poucos centímetros e senti um vento suave fazer cócegas na minha barriga, e então percebi que minha camisa estava totalmente aberta. Os dedos de desceram a gola da peça branca até meus ombros que logo foram acariciados por seus lábios. Fechei meus olhos enquanto sua boca fazia um caminho de beijos por cada pedaço da minha pele, desde meus seios ainda cobertos pelo sutiã, até minha barriga, onde insistiram em me deixar marcas, não que eu me importasse.
- ... – gemi baixinho quando senti seus dentes morderem a pele perto do meu umbigo, ao mesmo tempo em que suas mãos subiam minha saia até descobrir totalmente as minhas pernas.
- Hum... – ele soltou, descendo seus beijos pela parte interna da minha coxa, alcançando meu joelho, e seus dedos ágeis tiraram meus meiões com uma rapidez que eu nem sei como aconteceu. Suas mãos deslizaram por minhas pernas, desde as minhas panturrilhas até meu quadril, e encontraram o zíper da minha saia. Não pude controlar um gemido ainda mais alto quando senti os lábios de darem um beijo perto da barra da minha calcinha enquanto a saia deslizava por minhas pernas. Estávamos indo longe, mas eu queria, não queria?
Deixei que meu corpo respondesse a minha pergunta quando sentei-me e comecei a desabotoar a camisa de com certa pressa, jogando-a para um lado do quarto, e fazendo a mesma coisa com a minha, que já deveria ter levado aquele fim há tempos. Deslizei minhas mãos por todo seu tronco semi-definido, até que meus dedos pararam bem perto da braguilha de sua calça social, atraindo também meus olhos para o local. Percebi o quanto ele estava excitado com tudo aquilo e, com certa insegurança, comecei a desabotoar sua calça e quando desci o zíper, se deitou por cima de mim novamente e terminou de tirar a calça com os pés.
- ... – disse ao pé do meu ouvido, dando uma mordida em meu lóbulo logo depois. Senti sua coxa torneada se encaixar entre as minhas pernas e sua mão apertou meu quadril fortemente, me fazendo morder o lábio inferior.
Sabe tudo aquilo que eu disse sobre me sentir pronta para ele e tudo mais? Bom, na prática isso é bem diferente.
Senti uma onda de pânico me inundar quando os dedos de seguraram a barra da minha calcinha e ameaçaram tirá-la.
- ... – chamei ofegante e com a voz fraca, mas ele não me olhou, e desceu um pouco a barra da peça. – , pára... – Tentei segurar em sua mão, mas ela era forte demais para meus dedos frágeis. – , eu... eu não quero! Olha pra mim, droga... – Senti minha voz embargar quando sua outra mão também segurou na barra da minha calcinha. Não tive escolha a não ser empurrá-lo, não que tenha sido fácil. A principio, usei apenas a palma das mãos contra seu peitoral, mas era forte, eu estava fracassando. Encravei minhas unhas em sua pele, de forma que não parecesse que eu estava sentindo prazer, e acho que funcionou.
- Que porra você tá fazendo? – cuspiu as palavras pra mim, um tom de voz alterado. – Doeu!
- Desculpa, , eu não quis te machucar, mas você não estava me ouvindo e...
- E...? – Ele passou as mãos pelos cabelos, seu rosto estava vermelho e com certeza era de raiva. – Você não quer, certo?
- Não agora, eu ainda tô com medo, , por favor...
- POR FAVOR? – ele gritou e eu senti que foi meu sangue que ferveu nessa hora. – Por favor, ? Eu venho lutando contra a vontade de ter você há tempos, e olha só como estamos. Fomos longe demais dessa vez, você percebe? E me pede pra parar? Eu sou homem, porra.
- , por que você está sendo grosso comigo? Eu não tenho culpa, eu...
- Você me deixou tirar suas roupas, . Isso é a maior tortura pra mim, você sabe o quanto eu te desejo.
- É só isso, ? É só no que você pensa? É só o que você quer? – Me coloquei de pé, sentindo uma certa dor no peito.
- VOCÊ É LOUCA? QUE MERDA VOCÊ TÁ DIZENDO? EU TE AMO, , TE AMO. – também se levantou e com os punhos fechados, começou a nadar de um lado para o outro. – Você sabe que não é só sexo, você sabe disso, eu fiz de tudo pra te provar, esperei dois anos por você, te amei cada dia dessa espera, te desejei cada dia dessa espera, será que você não poderia simplificar um pouco as coisas?
- COMO É? – Dessa vez, quem gritou fui eu. – SIMPLIFICAR? Então só porque você esperou por mim mais de não sei quantos mil dias, eu sou obrigada a tirar as minhas roupas e... dar pra você só pra retribuir a sua espera?
- Eu não disse que você é obrigada, não coloque palavras na minha boca, Gauthier. – Mais uma vez, ele passou as mãos pelos cabelos, e dessa vez, os puxou pra cima, acho que pra conter a raiva. – É só que eu queria muito isso, e não é fácil você vir aqui na minha casa, me excitar e me deixar na mão, dizendo que não dá, que não quer, logo depois que tirarmos nossas roupas. – andou em direção à parede e deu um soco contra ela. – QUE DROGA, !
- QUE DROGA DIGO EU, VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE GRITAR COMIGO! – Com o orgulho ferido, peguei minhas roupas do chão e comecei a vestir minha saia. – Eu sabia que não deveria ter acreditado em você, . Sexo, é isso, é só o que você quer. E eu acreditei em você! – Vesti meus meiões e empilhei os livros, colocando-os em cima da cama. – COMO EU PUDE ACREDITAR EM VOCÊ? COMO?
- PÁRA DE FAZER DRAMA, PELO AMOR DE DEUS. EU JÁ DISSE QUE TE AMO, E VOCÊ SABE DISSO. EU SÓ GOSTARIA DE TER VOCÊ, É SÓ O QUE EU PEÇO.
- , CHEGA! NÃO SOU OBRIGADA A FICAR OUVINDO VOCÊ GRITAR COMIGO, EU VOU EMBORA.
- NÃO, , NÃO! – Ele segurou fortemente no meu braço, me impedindo de sair do quarto. – A gente pode conversar melhor, estamos de cabeça quente, eu posso tentar te explicar o meu lado, e você vai entender, vamos continuar o que estávamos fazendo e...
- , cala a boca! Olha as merdas que você ta me dizendo, eu não vou continuar o que estávamos fazendo, eu não quero, não me sinto pronta, você não entendeu isso? – Me soltei bruscamente de duas mãos, e me dirigi até a porta do quarto.
- QUE DROGA, GAROTA! FALA SÉRIO, TUDO ISSO POR CAUSA DE SEXO?
- Quem fez esse alarde todo foi você, . – Minha voz saiu cansada e triste, sem esperanças, desiludida. – Não se preocupe, isso não vai mais acontecer.
- O que você quer dizer com isso, ? Pelo amor de Deus, não me diz que...
- Você entendeu o que eu quis dizer. – Tirei a aliança do meu dedo e a joguei no carpete, bem na frente dele.
Era uma atitude drástica para uma primeira briga, mas ele estava errado, e eu estava profundamente magoada.
Uma briga.
Pela primeira vez.
Se dependesse de mim, não aconteceria de novo.
Capítulo 15 – Sempre, de todas as formas
(Já podem ir deixando pra carregar: Lostprophets - Always, All Ways. Não se esqueçam de apertar play quando a música for citada na fic.)
Eu sentia falta dele, pelo menos para mim mesma eu podia admitir, não?
Ele havia se tornado parte de mim, era tão essencial tê-lo por perto, e agora as coisas estavam tomando um rumo muito diferente, um rumo que eu nunca sequer ousei imaginar. Eu não tinha o , mas a culpa não era minha. Ok, um pouco até que era. Mas só um pouco, pois ele havia extrapolado os limites da nossa intimidade e os de sua educação quando me disse todas aquelas coisas. Era óbvio que eu estava magoada, mas eu dava o meu melhor para que isso não se externasse.
Eu andei em direção ao refeitório não sabendo muito bem se deveria me sentar na mesa de sempre, com as pessoas de sempre. Mas é claro que eu não poderia deixar ele perceber que aquela situação me afetava, por isso usei a minha melhor mascara de indiferença e continuei andando em frente, com toda a arrogância dos 50% de sangue francês que corria em minhas veias.
Respirei fundo, seus olhos estavam cada vez mais próximos, e mesmo com toda a raiva que eu estava sentindo, não poderia negar que eles brilhavam intensamente e ainda me causavam vertigens. Eu só tinha medo de que agora, como eu não o tinha mais, não saberia lidar com a falta que eu sentia dele. E com o amor que ainda pulsava dentro de cada órgão em meu corpo.
Quando cheguei perto da mesa, notei que a única cadeira vaga era a que estava ao lado de . Mas eu não me importava nem um pouco de passar 30 minutos em pé.
Contornei aquele grande pedaço de madeira e fiquei parada ao lado de , que estava ao lado de que, por sua vez, estava ao lado de .
- , você pode se sentar aqui. – , com todo o cavalheirismo que lhe pertencia, levantou-se de sua cadeira e sentou-se ao lado de .
- Obrigado, cara... – sussurrou ironicamente, com uma expressão séria e desgostosa no rosto.
Fingi que não sabia do que se tratava ou quem ele era.
Todos nos olhavam estranhamente, como se algo estivesse muito errado ali, como se fossemos uma dupla de aberrações ou as pessoas mais feias do mundo. E quando eu digo que todos estavam olhando, eu não estava me referindo apenas às pessoas em nossa mesa, mas a todas presentes naquele refeitório.
E o pior de tudo: o silêncio. Aquele barulho mais do que assustador, mais do que aterrorizante, mais do que deprimente.
- Tem alguma coisa errada comigo? – indaguei impaciente e frustrada por toda aquela análise que todos estavam fazendo. – Vocês todos ficam me olhando como se eu fosse uma esquisita ou algo do tipo.
Todos na mesa trocaram olhares cúmplices até que voltaram a focar sua atenção em mim.
- É que... – Lauren gaguejou, ponderando se continuava a falar ou não. – É que não é certo. Você e o não podem brigar, é contra a lei da natureza.
- Eu concordo – se pronunciou, com a mesma insegurança, mas um pouco mais certo do que iria falar. – Até eu, que fiquei morrendo de ciúmes do , acho que isso está completamente errado.
Eu franzi o cenho e olhei para eles estranhamente, me perguntando se além de mim mesma e dele, eu teria mais nove pessoas para fazer com que eu me sentisse mal.
- Tá bom, chega! – exclamei com um pouco de raiva, pensando se o resto das pessoas também sabia qual era o problema. – É óbvio que todos vocês sabem o que está acontecendo, mas agora me digam uma coisa... Eu estou errada? Já que na concepção de vocês, eu e o brigarmos é um desastre natural, foi certo o que ele fez e falou?
- Nós... – , tão gaga quanto Lauren, tentou iniciar uma frase. – Nós não queremos nos meter.
- Não achamos certo o que ele fez e falou, mas você tomou uma atitude um pouco drástica demais – falou com toda a sensatez que tinha, olhando-me calmamente. – não deixou de usar a aliança dele, e como você pode ver, ele também está usando a sua.
Olhei para onde seu dedo estava apontando e vi, no pescoço viril e sedutor de , minha aliança pendida num cordão de prata. Senti minha garganta se fechar enquanto uma bigorna de uma tonelada esmagava meus pulmões juntamente com meu coração. Seria tão difícil superar tudo aquilo...
- Ele queria colocar no dedinho, mas não serviu... – Charlie sorriu, usando um tom de voz ameno, provavelmente tentando acalmar a situação.
- Vocês disseram que não queriam se meter, mas não sei se perceberam que estão fazendo isso. – As palavras pularam de minha boca apressadas e cheias de mágoa, enquanto eu sentia que o nó do meu coração de movia lenta e dolorosamente em direção à minha garganta.
- Desculpe – disse, simplesmente, como sempre fazia e me deixava sem absolutamente nada para responder. – Eu não queria falar o que falei, então posso dizer que eu sinto muito?
- Suas desculpas não são boas o suficiente. – Sem olhar em seus olhos, eu pronunciei aquela frase com uma dor crescente em meu peito, e com lágrimas prontas para saírem.
Levantei-me da mesa e sem dizer mais nada, eu andei em direção ao corredor.
Eu não ia fraquejar num momento como aquele, chorar demonstraria que eu estava totalmente sensível a toda aquela situação, e por mais que isso não fosse mentira, não precisava saber.
Eu respirei fundo e diminui a velocidade dos meus passos quando alcancei uma distância considerável do refeitório. Mas não era distante o bastante da voz dele, que eu ouvi dizer:
- Eu sei que minhas desculpas não são boas o suficiente.
Congelei na metade do caminho, sentindo que toda aquela angústia que estava me consumindo só aumentava. Girei meu corpo lentamente até que pudesse olhá-lo e quando o fiz, me arrependi dolorosamente.
- Mas por que terminamos? – suas palavras se aproximaram de mim quando ele deu dois passos à frente, olhando em meus olhos intensamente. – Eu não te tratei mal, então por favor, não...
- Não me tratou mal? – murmurei juntamente com uma risada irônica e dei dois passos para trás. – Você só gritou comigo e isso é tratar bem, na sua concepção.
- , não complique as coisas, por favor. – fechou seus olhos e deu mais alguns passos para a frente. – As coisas que eu disse, a forma como eu falei com você... Tudo isso foi errado, e eu me arrependo amarga e dolorosamente do que aconteceu, mas você terminou comigo sem ao menos nos dar uma tentativa para acalmar as coisas e conversar civilizadamente.
- Eu... – comecei uma frase sem ter a menor idéia do que diria e, desejando que aquele momento fosse simplesmente apagado da minha memória, apertei meus dedos em minhas têmporas, tentando, em vão, acalmar meus nervos. – Eu não quero conversar sobre isso.
- Viu? Até você acha que a sua atitude foi um pouco drástica e infantil demais – disse essas palavras com um tom de voz sereno, por mais que estivesse apontando meus erros. Até para me dizer onde eu estou errada ele é sutil e carinhoso, como eu poderia superá-lo?
- Você vem até mim para pedir desculpas e me chama de criança? – cuspindo as palavras com raiva, eu me aproximei dele, sem pensar nas conseqüências que seu cheiro e seus olhos traziam ao meu sistema nervoso. – Achei que você quisesse que eu o desculpasse.
- Eu quero, mais do que tudo. Mas não posso fingir que ver sua aliança jogada no meu carpete não me magoou, por mais que o erro maior tenha sido o meu.
- Reconhecer um erro significa dignidade – falei com falsa indiferença, tentando mostrar alguma força em mim. – Parabéns, !
Girei meu corpo novamente, dessa vez para me dirigir à aula de geografia, mas mais uma vez fui impedida pela voz dele.
- Você não disse que vai me desculpar, mas também não disse que não vai! – ele exclamou determinado e convicto, sabendo que não desistiria. – Eu conquistei você uma vez, e posso muito bem fazer de novo. Não vou te perder.
Não olhei para trás e continuei o meu caminho em direção à sala de aula.
Geografia ambiental, para mim, estava completamente conectada a e eu sabia que aquela aula seria triste e dolorosa.
E realmente foi, pois eu simplesmente não notei quando começou e muito menos quando acabou.
Foi devagar, mas foi rápido. A lentidão significava muitos minutos intermináveis em que eu teria que fingir que tudo estava bem. A rapidez significava que a cada segundo que se passava, era um tempo a mais sem ele. Por que tinha que ser devagar ou rápido? As coisas não poderiam simplesmente não ser? As coisas não poderiam significar um nada? Não, pois até um nada é alguma coisa.
E ele me deu um último olhar, melancólico e já cheio de saudade, antes de sair da sala.
Pela enésima vez naquele dia, eu absorvi a maior quantidade de ar que pude, mesmo não podendo, já que era meio difícil.
E decidi que tomaria mais uma decisão drástica.
- Sr. Matthews – eu o chamei, olhando para sua cabeça que estava baixa, enquanto corrigia alguns trabalhos.
- Oi, . – Ele sorriu encantadoramente e fixou seus olhos nos meus. – Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu. – Soltei todo o ar e o inspirei de volta, tomando coragem para falar. – Eu gostaria de trocar a minha dupla do projeto, se for possível.
- Você e o brigaram – ele concluiu sem nenhuma emoção, com certeza não estava surpreso. – A coisa foi tão séria a ponto de fazer você querer mudar o seu parceiro de projetos?
- Foi, Sr. Matthews – disse desgostosa, me lembrando do ocorrido na sexta-feira. – Isso vai ser possível? – Soltei um pouco impaciente, desejando que meu pedido fosse atendido.
- Para a sua felicidade, ou talvez não, isso não vai ser possível. – Sr. Matthews sorriu meio torto, de um jeito extremamente charmoso.
- E por que não? – Senti o nó em minha garganta e a raiva inundar todo meu corpo, me dando a sensação de que explodiria a qualquer momento.
- Eu... não posso, é por isso.
- Não, o senhor está mentindo pra mim. – As palavras saíram descontroladamente da minha boca, enquanto eu tentava não dar um escândalo por não ter minha vontade feita. – Essas coisas podem ser feitas, parceiros podem ser mudados.
- Eu sei que podem, mas... – Ele parou sua fala na metade, como se estivesse se segurando muito para não dizer algo que realmente não devia.
Coloquei as mãos na cintura e deixei bem claro que não sairia dali enquanto ele não me desse um bom motivo para continuar com como minha dupla.
- O me pediu para não te separar dele nem que você me implorasse de joelhos – falou tudo de uma vez, como se só assim fosse ter coragem suficiente para dizer o que não era permitido. Sua expressão demonstrou arrependimento, ainda mais quando ele notou que eu fiquei descontroladamente cheia de ódio.
- O senhor preferiu atender à vontade dele, ao invés da minha? – perguntei me sentindo extremamente contrariada e humilhada. Como ele ousava me negar alguma coisa? Como ousava fazer um pedido desses?
- Me desculpe, , mas o pediu primeiro. – Sr. Matthews arregalou os olhos e levantou as mãos na altura dos ombros em sinal de defesa.
- Não é justo! – Bati o pé no chão, levantando um pouco o tom de voz. – Eu não quero mais fazer meu projeto com ele e fim da história. O senhor vai ter que fazer alguma coisa a respeito disso.
- Não vou fazer nada a respeito disso porque o não é meu namorado e sim seu – ele disse sério e indiferente, mas não aparentando estar com raiva ou algo parecido. – Resolva-se com ele, e se não se resolver, vai continuar fazendo os projetos com ele. Não vou desestruturar grupos só porque você e seu namorado não entram em acordo. E você ainda vai me agradecer muito por isso, Gauthier Hunter. – Ele juntou as folhas e as colocou dentro de sua pasta preta de couro, levantando-se em seguida. – E sabe do que mais? Acho que o estava coberto de razão quando me pediu para não separar vocês.
- EU VOU SOCAR O ! – gritei descontrolada, andando em passos brutos para fora da sala.
Caminhei pelo corredor apressadamente, sentindo que o ar saia dos meus pulmões com dificuldade e entrava neles com mais dificuldade ainda. Quando saí pela porta, avistei as costas de , que estava na mesma rodinha que todos os outros garotos.
Respirei fundo, suavizando os passos, mas ainda com a dose certa de raiva dentro de mim. Me aproximei de seus ombros largos e altos e pensei que fosse fraquejar por alguns instantes, quando senti o perfume dele invadir meu nariz, mas havia decidido que ele não tinha mais esse efeito sobre mim.
- Eu vou matar você, . – Soltei as palavras com raiva, mas com a voz controlada, não gostava de escândalos em público.
virou-se para mim, olhando-me com seus olhos divinos e cheios de vida. Segurei em seu braço com força e o puxei para perto de um dos prédios, tentando sair da vista do máximo de pessoas possível.
- Quem você pensa que é pra pedir pro Sr. Matthews não nos separar? Você acha que tem o direito de mandar assim? – cuspi as palavras, sem nem ao menos saber o que eu estava falando.
- Já disse que não vou perder você. – continuou me olhando profundamente, e as palavras saíram de sua boca como veludo e seda.
- Você já perdeu, idiota! – Empurrei-o pelos ombros, mandando apenas uma parcela da minha raiva embora.
- Não, não perdi, e você sabe muito bem disso. – Seus olhos permaneciam nos meus, fazendo com que eu me sentisse tonta, como sempre. – Você não quer se separar de mim, só está fazendo birra.
Ele se desencostou da parede e foi dando pequenos passos em minha direção.
- É uma garotinha mimada, e muito, muito linda. – Sua voz continuou, mantendo aquele tom sedutor e rouco, como se destruísse todos os meus sentidos e acabasse com a minha sanidade. – E sabe de uma coisa? – As pontas de seus dedos deslizaram desde o meu antebraço até meus ombros, tão suave, tão ardente, tão desejoso. – Você fica extremamente sexy com os olhos cerrados e esse biquinho que eu beijei infinitas vezes e nunca me cansei.
Suas mãos seguraram firmemente em meus ombros e quando dei por mim, eu estava entre a parede e ele.
- Sai de perto de mim, . – Segurei em sua cintura, cravando minhas unhas nela por cima da camisa, numa tentativa frustrada de machucá-lo.
Claro que não deu certo.
- Eu te odeio – disse entre os dentes, com a voz abafada de raiva e de outra coisa que eu preferia nem saber o que era.
colou, inteiramente, seu corpo no meu, desde nossos joelhos até nossos ombros. Deslizou uma mão por minha cintura por debaixo da minha camisa, enquanto com a outra acariciava minha nuca sensualmente, tentando converter meu ódio em amor.
- Ah, não odeia não – sua voz baixa e grossa sussurrou no meu ouvido, onde ele respirava ruidosamente, soltando o ar quente que saía de sua boca. – Se me odiasse tanto assim, eu não estaria sentindo seu coração bater fortemente contra o meu peito. – Passou seu nariz desde a minha bochecha até meu nariz, esfregando-os em beijinhos de esquimó. – Se me odiasse, não estaria perdida como está agora. – Roçou suavemente os lábios nos meus, apenas para me provocar, apenas para me atiçar.
- Não ouse me beijar, . – Minha voz já não tinha mais força, estava tão fraca quanto eu. Odiava o efeito que ele tinha sobre mim.
- Não vou fazer nada que você não queira. – Cravou seus dentes no meu lábio superior e o puxou lentamente, arrancando um gemido meu. Passou sua língua por cima dele, colocando-a em minha boca logo em seguida.
Não importava o quanto eu tentasse me debater contra ele, jamais conseguiria me soltar, era forte demais. Segurou minha cintura com possessão e minha nuca com carinho, enquanto deslizava sua língua pela minha, tentando me fazer esquecer da briga.
Não!
Mas era tão bom sentir suas mãos em mim novamente, não sabendo em que parte do meu corpo ficavam, me desejando com amor.
E por mais que sua boca fosse a mais perfeita que eu já havia beijado, não deixaria que ele me ganhasse tão fácil assim.
Não mesmo!
Recuperei minha sanidade, não podia me entregar a ele daquele jeito, ainda mais depois do que havia acontecido. Comecei a estapear seus ombros e arranhar seu pescoço, mais tentativas de machucá-lo, mas dessa vez não tão frustradas.
- Você perdeu, . Perdeu a mim, perdeu a nós dois, perdeu tudo. – Me soltei dele, parando a quase um metro de distância.
- Você sabe que isso não é verdade, . – Senti que sua voz havia ficado um pouco descontrolada. – Pelo amor de Deus, nunca diga isso.
Ele tentou se aproximar de mim novamente. Novamente, eu o empurrei.
- Não, não chega perto. – Me afastei ainda mais desnorteada dele, me sentindo levemente tonta, não em função do beijo, embora ele tivesse colaborado quase que predominantemente para isso.
- ...
- Não quero te ouvir, . Não fala nada, você está começando a me irritar. – Eu recuei, dando alguns passos para trás.
- Não pense que eu vou desistir. – Ouvi sua voz calma me dizer com a mais pura certeza do mundo. Caminhei para longe dele e não olhei para trás, ele precisaria fazer muito mais se quisesse meu perdão. Se é que eu realmente pensava em perdoá-lo.
Às vezes, é difícil lidar com certas coisas quando se ama alguém.
Eu repassei em minha mente cada cena daquele dia, cada fala, cada palavra que eu disse. E sabia que estava errado, mas também estava sofrendo.
Eu estava errado porque não sabia lidar com meus hormônios e meu cérebro masculinos e cheios de euforia. E estava sofrendo porque não achava que meus atos tivessem merecido uma conseqüência tão drástica quanto aquela. Mas minha maior preocupação era fazê-la me desculpar.
- Quantos botões de rosa você comprou? – perguntou entediado, apoiando-se contra meu Audi.
- Cem – respondi dando uma rápida olhada no banco de trás do carro, onde o enorme ramalhete repousava. – Eu queria trezentos, mas não cabia no banco do carro.
- Cara, você é a pessoa mais bicha que eu conheço – disse revirando os olhos e colocando as mãos nos bolsos. – Sei lá, esse seu amor pela é uma coisa tão... surreal, te deixa parecendo uma espécie de Romeu absurdamente shakespeariano.
- É verdade, que garoto hoje em dia ama alguém desse jeito? – Matt me olhou de um jeito analítico e sério, dizendo as palavras com sinceridade.
- Eu. Eu sou o garoto que ama alguém desse jeito, hoje em dia. – Sorri forçado apenas para fazer graça, e James abraçou , imitando um casal de homossexuais.
- A gente gosta de você mesmo assim, . – Charlie fez um coração com os dedos indicadores e jogou um beijinho no ar. – Você tem um sex appeal de matar.
Depois de mais algumas gargalhadas e outras piadas englobando a minha masculinidade, escutamos o sinal tocar e eu respirei fundo, tirando o buquê de rosas do banco de trás do carro.
- Já sabe o que vai fazer? – me olhou seriamente quando segurei os cem botões vermelhos em meus braços.
- Vou pedir para que entreguem a ela na troca de aula – respondi imaginando segurando o buquê, e sorri involuntariamente. – Eu vou estar lá para ver a reação dela.
- Você acha que ela vai encarar isso numa boa? Digo, será que ela não viria atrás de você como uma louca e tentaria te bater como fez ontem?
- É um risco que eu corro, mas ela quer me desculpar, – bufei sentindo pontadas de otimismo e pessimismo ao mesmo tempo. – Eu simplesmente sei que não vai acabar aqui, foi a briga mais... mais idiota e boba, e eu a quero de volta.
Eu olhei para o portão da escola e a vi descendo do Audi TT de seu pai, com a faixa em seu cabelo, a postura ereta demonstrando seu famoso complexo de superioridade e sua tão charmosa arrogância; defeitos que ela transformava em motivos para amá-la.
Tirei o bilhete que estava entre as rosas e reli o que eu havia escrito:
Sinto saudades do seu cheiro bom e da sua voz que sempre me tranqüiliza.
Sinto saudades das suas carinhas e de quando você enruga o nariz.
Sinto saudades dos seus complexos de superioridade e dos seus súbitos desejos de ser uma estrela de Hollywood.
Cada uma dessas cem rosas representa o quanto eu te amo multiplicado pelo infinito, elevado a maior potência do universo.
Só queria poder consertar meu erro, é pedir demais para você confiar em mim de novo?
Respirei fundo mais uma vez, excesso de oxigênio nunca matou ninguém.
Me dirigi à secretaria do colégio, e encontrei a Sra. Kennedy, a cinquentona simpática que trabalhava lá.
- Olá, Sra. Kennedy – disse simpático, recebendo um sorriso como resposta. – Eu poderia lhe pedir um favor?
- Depende, – ela hesitou, mas apenas por um momento. – Eu já fiz muitos favores a você, e nem todos eles foram bons...
- Ah, mas esse, além de ser coisa boa, é uma causa nobre. – Sorri o meu melhor sorriso, e ela me olhou desconfiada. – Eu e a minha namorada estamos brigados, não sei se a senhora sabia...
- Ah, a Gauthier, não é? – ela perguntou naturalmente e isso me assustou um pouco. – Que garota linda e adorável, parece uma princesa, ela é coisa de outro mundo, meu garoto.
- É, eu sei bem... – murmurei, sentindo uma súbita dor no peito. – Eu gostaria que essas flores fossem entregues a ela no intervalo da primeira aula. Ela vai estar na sala de cálculo.
- Mas é claro que eu faria isso por você, querido. – Ela sorriu animadamente, pegando o ramalhete de rosas da minha mão. – Toda mulher gosta de receber flores, ainda mais rosas vermelhas, simbolizam o amor.
- A senhora é demais, sabia? Tenho certeza de que vai para o céu.
Dei um beijo bem forte em sua bochecha e ela soltou uma risada sincera, acenando um breve tchau.
E me dirigi à aula de Sociologia.
Eu já não era um grande de Pierre Bourdieu e esses lances de atos interessados e desinteressados, e naquele dia tudo parecia ainda mais monótono.
Eu não sabia em que matéria estávamos, se era sobre capitais simbólicos, ou se continuávamos nas anteriores. A verdade era que Sociologia não fazia muito sentido pra mim, por mais que meu professor fosse um cara simpático e engraçado, um pouco parecido com um bicho de pelúcia, que falava de um jeito devagar e cheio de letras meio enroladas. Mas me dava sono, e eu preferia pensar em .
Eu batucava freneticamente na mesa, impaciente e ansioso, esperando que mais trinta minutos passassem para que eu finalmente pudesse vê-la. Sentia como se meu coração pudesse destruir meu tórax a qualquer momento, com seus batimentos fortes e acelerados.
Havia um fio de esperança dentro de mim, um fio que me dizia que as coisas dariam certo. Mas e se eu estivesse enganado? E se ela não quisesse me perdoar e estivesse convicta daquele término? Seria ela tão dramática e rancorosa a ponto de não me ouvir, de não me perdoar? Meu coração se contraiu nesse momento, como se estivesse em processo de atrofiamento. Eu não sabia viver sem ela, era exatamente isso. Sentia o nó em minha garganta crescer, me sentia sufocado, queria sair por aí correndo e gritando pra colocar pra fora toda aquela dor. Dois anos de espera e eu consigo estragar tudo tão cedo assim?
Deitei minha cabeça sobre a mesa e fechei meus olhos; a imagem dela era perfeitamente desenhada na escuridão da minha visão turva.
A pele macia e branca, os cílios grandes e a boca contornada. Os lábios dela eram tão bons de se beijar, eram perfeitos e se encaixavam perfeitamente nos meus. Eu gostava da cintura fina e moldada que ela tinha, seu corpo pequeno, mas com curvas nos lugares certos e na medida certa. conseguia despertar todas as sensações possíveis e contraditórias dentro de mim, eu jamais achei que seria possível amar e desejar alguém, tudo na mesma intensidade. Jamais imaginei que enquanto eu deslizava minhas mãos por cada parte dela, sentiria que estava completo. Eu poderia chamá-la de gostosa, tendo plena consciência de que precisava dela para viver. Porque eu a queria fisicamente, mas isso não me bastaria se ela não me amasse. Eu queria poder prestar atenção em cada detalhe de seu corpo, e depois fechar meus olhos e saber onde cada pinta, cada curva, cada ponto fraco se encontra. Eu queria conhecê-la.
O sinal estridente me despertou do meu prazeroso transe e automaticamente, eu me levantei e saí da sala numa velocidade incrível. Andei apressadamente pelos corredores, até que finalmente avistei a sala de cálculo e, parado atrás dos armários, eu espiei o movimento. Vi a Sra. Kennedy se aproximar da porta, desviando-se de alguns alunos, e falar algumas palavras para alguém lá dentro. Fechei as mãos fortemente, estava ainda mais ansioso.
De repente, achei que tudo havia parado a minha volta, quando vi segurar o buquê nas mãos, assustada e deslumbrada ao mesmo tempo. Ela olhava para as rosas com um esboço de sorriso no rosto, deslizando seus dedos delicados por entre os botões para capturar o meu bilhete. Desajeitada, mas sem perder a graciosidade, ela o abriu e seus olhos correram pelas linhas, ajudando a manter sua expressão séria. Estava tão vidrado em seus movimentos que não havia percebido a bagunça de alunos em volta dela e por todo o corredor.
Ela levantou seu rosto e começou a procurar por alguém, por mim, eu tinha certeza. Seu olhar percorreu todo o ambiente, até que finalmente encontrou o meu, e a bagunça dentro de mim aumentou ainda mais. Sustentamos o contato visual por alguns minutos até que finalmente notei seus passos em minha direção.
- Obrigada pelas rosas – ela disse pacífica e um pouco sem jeito.
- Elas representam apenas uma mínima parte do meu arrependimento, e uma parte menor ainda do meu amor. – Sorri muito levemente, e toquei seu braço, não recebendo um recuo como resposta. – Podemos conversar?
Ela concordou com um aceno de cabeça e andamos pelo corredor, em direção à grande porta que levava até o jardim.
Pisamos na grama, caminhando em direção à mesa que sempre ficávamos, e ela colocou o buquê sobre a grande tábua de madeira.
- Eu quero você de volta – minha voz disse, do nada, cheia de dor, quase implorando. – Por favor, volta?
- ... – ela sussurrou, com uma expressão triste no rosto, e eu me aproximei, segurando suas mãos.
- Não faça isso comigo, . Eu sei que eu errei, mas eu preciso de você, é como se... é como se eu estivesse em abstinência, entende? – Grudei nossos corpos e segurei seu rosto entre minhas mãos. – Imagine um alcoólatra que tem que entrar em reabilitação, mas ele começa a se sentir extremamente mal, porque é viciado na substância. É assim que eu me sinto, como se estivesse em reabilitação, mas eu não quero isso, não quero me curar de você. Você é a minha doença preferida, o meu vício mais adequado.
- Não, não diga isso, , por favor. Não torne as coisas mais difíceis do que já estão...
- Você é que está tornando tudo difícil, eu apenas quero você de volta... – Aproximei nossas bochechas e sussurrei as palavras em seu ouvido, abraçando-a fortemente.
- Eu tenho medo. – respirou fundo, com a voz fraca.
- Não precisa ter medo, eu estou aqui para ser a sua força, para completar o que te falta.
- Eu... eu não confio em você, . – Percebendo a insegurança em sua voz, eu pressionei sua cabeça contra meu ombro, tentando roubar toda a dor que ela estava sentindo, mesmo que isso significasse triplicar a que estava dentro de mim.
- Isso não é verdade, ... – Beijei sua cabeça, sentindo o cheiro de seu xampu invadir minhas narinas. – Não diga isso, pelo amor de Deus. Machuca...
- Mas eu tenho medo, . Não sei se conseguiria confiar em você de novo. Minha confiança é muito frágil, as pessoas a perdem com facilidade.
- Isso não pode acontecer entre a gente, eu te amo, você me ama, isso sempre prevalece. – Guiei meus lábios até seu pescoço e plantei um beijo suave, sentindo que ela se encolheu.
- Eu vou ficar com as rosas. – Ela se afastou de mim e olhou em meus olhos. – Preciso pensar melhor sobre tudo isso, mas não te garanto que as coisas voltem a ser como eram antes.
- Se eu ajoelhasse, ajudaria?
- Nem pense em fazer isso. Não existe nada mais que você possa fazer, eu só quero pensar, mas pra isso, preciso que você fique bem longe de mim. – Ela pegou o buquê e se afastou um pouco mais. – Não se esqueça de que eu vou apenas pensar, mas não significa que a resposta vai ser positiva, e isso pode levar um tempo.
- Leve o tempo que quiser, apenas se certifique de que meu coração vai continuar batendo, já que ele está em suas mãos.
Vi algumas lágrimas se formarem em seus olhos quando ela deu as costas para voltar para o prédio.
E eu? Pela primeira vez na vida, estava chorando por uma garota.
Ela sempre seria a pessoa que eu mais amava, disso eu tinha certeza.
- Tem certeza de que não quer ir? – mamãe perguntou passando a mão em meu cabelo e jogando-o para trás. – Seria uma ótima oportunidade para apresentar você publicamente como minha sucessora não só na academia, como na tradição do ballet. Você sabe, estamos nesse ramo desde a sua bisavó.
- Mãe, eu não quero ir hoje. Não me sinto nada glamorosa neste exato momento.
- Ainda por causa do ? – ela me perguntou entediada, recebendo um aceno de cabeça positivo como resposta. – Ele não merece nada disso, você sabe. Eu sempre soube que ele não era bom o suficiente para você e...
- Lizzie, você sabe muito bem que o é um ótimo garoto. E não fique fazendo a cabeça dela, o problema é entre eles dois e mais ninguém – papai, arrumando sua gravata borboleta, disse suavemente, sem autoridade ou grosseria em seu tom de voz.
- Chris, você é sempre tão defensor desses garotos estranhos que tocam em bandas e andam com as calças no meio da bunda.
- Sim, eu sou e você está absurdamente linda, então será que podemos ir? – Com todo o seu charme, ele passou o braço pela cintura dela e lhe deu um beijo suave na bochecha.
- Vamos, afinal eu não paguei horrores nesse Valentino para nada.
É, eu sabia bem de onde a minha arrogância vinha.
- Fique bem, por favor, não dê festas, não beba muito, não transe, não vomite e nem desmaie. Dance ballet a noite toda, pronto! – mamãe me disse um tanto afobada enquanto ela e papai saíam apressados pela porta.
- O importante é você continuar viva, de resto, faça o que quiser, desde que me conte depois – papai sussurrou em meu ouvido, num momento de cumplicidade entre nós dois. – Tá, não exatamente o que quiser, mas você me entendeu.
Dei uma risada leve e acenei com a cabeça positivamente, vendo-os entrar na limusine preta. Sentei-me sobre a escadinha que ficava na entrada da porta e vi o automóvel se afastar, me permitindo parar para pensar nas coisas agora que eu estava finalmente sozinha.
Eu me sentia solitária e vazia, como se faltasse algo.
Me lembrei das coisas que disse ao e isso me preocupou ainda mais. Eu ainda confiava nele, havia me dado conta, naquele momento, de que não tinha mais dúvidas. Só tinha medo de que tudo acontecesse de novo...
Meus pensamentos foram interrompidos pelo Peugeot de que estacionou no meio-fio bem à minha frente.
- Oi gatinha, você vem sempre aqui? – perguntou sorridente quando saiu do carro e andou em minha direção.
- Olha, , eu até responderia a essa sua cantada se você não fosse namorado da minha melhor amiga. – Soltei uma breve risada, recebendo um beijo no rosto.
- A é a única coisa que te impede? – ele me olhou desconfiado arqueando a sobrancelha esquerda.
- Até onde eu sei, sim. – Soltei uma gargalhada, mantendo uma expressão marota no rosto. – Eu não sou mais a garota do seu amigo.
- Ah, , me desculpe, mas não importa o que aconteça, você vai sempre ser a garota do .
- Oi, ! – também saiu do carro e andou até mim, sentando-se do meu outro lado na pequena escada. – Vamos na casa do ? Tá todo mundo lá, estamos vendo filmes, ouvindo músicas. Vamos esquentar as pizzas daqui a pouco.
- , eu... eu acho melhor não – falei com um tom de voz quase sussurrado, eu mal havia conseguido escutá-lo.
- Ah, não me venha com uma dessas, . – passou o braço por meus ombros e me puxou para perto dele. – Só porque você e o estão brigados não significa que você não possa ir nos encontros...
- É, eu concordo com o . – pressionou seu indicador contra minha bochecha e deu um de seus típicos sorrisos lindos. – Vai ser divertido, te garanto. E se o ficar muito em cima de você, eu falo que agora você é minha, pode ser?
Soltei uma risada gostosa, era tão bom, parecia que eu não me sentia feliz há tempos.
- Tudo bem então, eu vou. – Levantei-me e puxei os dois pela mão, entrando em casa logo em seguida. – Vou buscar meu all star e já volto.
Subi as escadas apressadamente e entrei em meu quarto como um furacão. Peguei meu all star branco de meio cano, passei um pouco de perfume e dei uma breve checada no espelho. Soltei uma risada nasalada ao perceber o quão patética eu estava parecendo e coloquei os tênis apressadamente, voltando ao andar de baixo logo em seguida.
- Vamos? – Sorri delicada, já abrindo a porta enquanto sentia meu estomago ganhar vida própria dentro de mim.
- Você vai mesmo com esse short jeans curto e desfiado? Se não está a fim de que o te ataque, é melhor trocar de roupa e vestir uma burca – falou, soltando sua gargalhada estridente, fazendo com que eu e também ríssemos.
- Cala a boca, , e vamos logo!
Tranquei a porta e andei em direção ao Peugeot, entrando no banco do passageiro antes de .
Graças a Deus, morava a umas 15 quadras da minha casa, o que significa que eu fiquei impaciente apenas por pouco tempo.
ligou o rádio e em dez minutos repletos de risadas – já que adora fazer uma gracinha e contar as mais diversas piadas –, finalmente chegamos.
- Minha nossa, eu não sabia que éramos tão barulhentos – disse assustada quando ouvi as risadas altas vindas de dentro da casa.
- Bom, a festa só começou. – passou o braço por meus ombros e eu me senti mais segura para entrar pela porta e encarar .
- Hei, cambada de homossexuais! – gritou assim que abriu a porta, parado bem à minha frente. – Trouxemos mais uma pessoa pra nossa festinha.
De um jeito nada discreto, ele sumiu da minha frente dando um salto para o lado, e eu finalmente pude olhar para . Seus olhos encontraram os meus no mesmo momento e eu pude perceber que ele tinha um meio sorriso nos lábios. Esqueci de tudo ao meu redor ao reparar em sua camiseta preta da Famous Stars and Straps e em sua bermuda verde-musgo camuflada. Ele estava bagunçadamente lindo, adoravelmente relaxado.
- ! – exclamou me abraçando nada delicadamente e finalmente despertei do meu transe hipnótico.
- Você veio. – Sam sorriu abertamente, mas sem se levantar do sofá. – Desculpe, estou com preguiça.
E segundos depois, ouvi gritos estridentes e animados dos outros garotos que brotaram na sala do nada.
- Só tava faltando você, . – Lauren me abraçou quando me aproximei dos sofás, e voltou a se sentar ao lado de James.
- Oi, – disse calmamente, enquanto me analisava de um jeito carinhoso.
- Oi, . – Sorri levemente, não conseguindo evitar o contato visual.
E o silêncio.
- Filme? – Charlie disfarçou puxando assunto, e todos concordaram prontamente, tentando aliviar a tensão e o desconforto.
- American Pie? Sério mesmo que eu vou ter que ver esse filme pela milionésima vez? – perguntei fazendo minha melhor cara de nojo, recebendo olhares repreensivos.
- Não foi na locadora com a gente e ainda quer ser exigente e mandona? Só podia ser Gauthier mesmo. – me olhou com falso desdém e eu joguei uma almofada em sua direção. – Senta logo, .
Tentei não me importar muito com o fato de que os dois sofás estavam ocupados e que só havia espaço no tapete bem ao lado de . Será que tudo aquilo era planejado? Mesmo que fosse, eu não ia fazer o maior drama por causa daquilo, era só um lugar vago e nada mais.
O filme começou e eu senti um famoso desconforto me atingir, aquele mesmo desconforto que eu sentia nas aulas de geografia ambiental, antes de começar a namorar . Respirei fundo e me esforcei o máximo que pude para agir naturalmente, ou pelo menos fingir.
Tentei controlar minha visão periférica, mas era impossível não perceber o perfil dele do meu lado esquerdo. Eu sabia que aquelas seriam as horas mais desconfortáveis da minha vida.
Os minutos se passavam lentamente, o filme estava nos seus quinze minutos iniciais e James e Lauren estavam no maior romance enquanto e ficavam no amasso.
- Dá pra pararem? – exigiu, dando um tapa na cabeça de . – Existem quartos para esse tipo de coisa.
Virei a cabeça para trás para poder ter uma visão do que estava acontecendo, mas no meio do processo, meus olhos se encontraram com os de e eu tive que me esforçar muito para não perder a linha de raciocínio.
- Não me agüento de ciúmes – Matt olhou para James e Lauren com cara de desdém e eu não pude evitar uma gargalhada descontrolada pela expressão em seu rosto.
- Não agüento esse filme. – Charlie revirou os olhos, apontando para a TV. – Vamos fazer outra coisa, por favor? Essa “festa” tá muito broxada.
- Estou com fome, vamos comer? – Sam falou, com um tom de voz manhoso. – Quantas pizzas compramos?
- Qual das perguntas você quer que eu responda primeiro? – perguntou com um sorriso debochado no rosto, recebendo um tapa como resposta. – Eu também estou com fome e nós compramos oito pizzas.
- Oito? – perguntei tão assustada que as palavras quase foram gritadas.
- Por que o espanto? Estamos em onze pessoas e o come pra cacete – soltou uma risada histérica, recebendo outro tapa na cabeça.
- Seu inconveniente, você também come demais.
- Tá, então vamos logo arrumar tudo isso, porque eu também fiquei com fome. – Charlie levantou-se do sofá, puxando Sam e Matt pelas mãos.
- Eu vou mostrar a minha coleção de tampinhas pra . – , sem poder evitar o sorriso malicioso, disse puxando-a pela mão.
- E eu vou mostrar o seu jardim pra Lauren.
E nisso, os dois casais sumiram rapidamente, cada um para seu respectivo destino.
- Vou colocar uma música. – dirigiu-se até o grande aparelho de som e, colocando qualquer CD dentro, ele apertou o play logo em seguida, deixando Oxygen do New Found Glory tocar.
Legal, e estavam no quarto dele, Lauren e James estavam no jardim, o resto estava na cozinha arrumando o que comer, e eu e estávamos lá na sala. Sozinhos.
- , você não quer vir? – Ouvi Sam gritar da cozinha, dando uma gargalhada alta logo em seguida.
- Erm... não, tudo bem. Eu não sou uma grande fã de cozinhas.
- Nem você, ?
De repente e de novo, nossos olhos se encontraram, e por um momento me senti despida na frente dele, como eu sempre me sentia. Suas íris eram sempre tão penetrantes e intensas que eu levei algum tempo para poder me desviar delas.
- Hum... não... não vou, vou ficar... bem aqui! – ele disse um pouco sem jeito.
Incrivelmente, nós dois suspiramos ao mesmo tempo.
A música estava chegando ao final, e eu estava rezando para que todos voltassem logo para a sala.
Foi quando eu senti um pouco de cócegas em minha mão que estava apoiada sobre o tapete. Delicadamente, depositou seus dedos sobre os meus e quando achei que meu coração fosse sair pela boca, ele envolveu sua mão na minha.
Eu o olhei, tentando normalizar minha respiração. Parecia que eu nunca me acostumava com as atitudes inesperadas dele.
Always, All Ways, do Lostprophets começou a tocar no rádio, servindo como background para o momento em que eu me perdia nos olhos dele.
I guess I'm trying to say "I'm sorry"
(Eu acho que estou tentando dizer “me desculpe”)
But it always comes out wrong
(Mas sempre dá errado)
I think a part of you still loves me
(Eu acho que uma parte de você ainda me ama)
Even though we are moving on
(Mesmo que tenhamos seguindo em frente)
Deitei minha cabeça no assento do sofá, assistindo observar cada detalhe meu sem dizer apenas uma palavra. Naquele momento, a música falava por ele, e também por mim.
Senti seus dedos acariciarem suavemente minha bochecha enquanto seu rosto se aproximava do meu, também repousando sobre o almofadado do sofá. Ele estava tão perto que eu podia sentir sua respiração cair diretamente em minha boca.
Always, all ways I wanted us to be
(Sempre, de todas as formas eu queria que fôssemos)
Always, all ways you and me
(Sempre, de todas as formas você e eu)
Eu abri meus olhos. Os dele estavam tão perto, tão carinhosos e arrependidos, tão aveludados.
- Eu te amo – ele sussurrou tão baixo, que eu achei que estivesse delirando.
And I wait 'til I'm on my own
(E eu espero até que eu esteja sozinho)
And I wait for you to see
(E eu espero para que você veja)
All the time I spend alone now, won't comfort me
(Que todo o tempo que eu passei sozinho não vai me confortar)
Always, all ways
(Sempre, de todas as formas)
Seus dedos desceram um caminho de carinhos por meu pescoço e se movimentaram tão suavemente sobre a minha pele que pareciam quase surreais. Sem pressa, sua mão continuou descendo sensualmente por meu corpo, alisando a lateral do meu seio e se demorando um pouco na curva da minha cintura.
Seus olhos permaneciam nos meus, penetrando em minha mente e decifrando meus pensamentos, enxergando minha alma e minha essência.
And I'm sorry for what happened
(Eu sinto muito pelo que houve)
But I want you now to see
(Mas eu quero que você veja)
That I'm changing all my actions
(Que eu estou mudando todas as minhas attitudes)
I don't wanna set you free
(Eu não quero te deixar livre)
Always, all ways I wanna see it through
(Sempre, de todas as formas eu quis enxergar além)
Always, all ways me and you
(Sempre, de todas as formas eu e você)
Mesmo naquela posição não tão favorecedora, me trouxe para mais perto de seu corpo e finalmente senti o calor que exalava dele. Me sentindo protegida, passei um dos meus braços por sua cintura enquanto traçava o contorno de seu rosto com minha outra mão.
Com sua boca perfeitamente desenhada, ele movimentou seus lábios conforme as palavras da música, colocando seu outro braço atrás do meu corpo.
And I wait 'til I'm on my own
(E eu espero até que eu esteja sozinho)
And I wait for you to see
(E eu espero para que você veja)
All the time I spend alone now, won't comfort me
(Que todo o tempo que eu passei sozinho não vai me confortar)
'Cause I'm waiting for you, yeah, I'm waiting for you
(Eu estou esperando por você, sim, estou esperando por você)
Give me answers, get me through
(Me dê respostas, me ajude a passar por isso)
I'll wait...
(Eu vou esperar...)
- Eu acho que finalmente encontrei nossa música – disse com um leve sorriso no rosto, roçando seu nariz no meu.
- Então teremos que estar sempre brigados? – perguntei divertida, vendo sua expressão confusa. – A música fica falando de pedidos de desculpas, chances desperdiçadas e mudanças de atitudes...
- Mas, essencialmente, essa música diz que sempre e de todas as formas seremos eu e você. – Senti seus lábios plantarem um beijo suave no canto da minha boca. – Sempre, de todas as formas, eu e você, você e eu...
- Então eu acho que finalmente encontramos a nossa música.
Sorri de olhos fechados quando seus lábios se pressionaram contra os meus e permaneceram daquela forma durante alguns segundos. Sua língua contornou minha boca delicadamente e dei passagem a ela, iniciando um beijo cheio de saudade, arrependimentos, e principalmente amor.
Eu o trouxe para mais perto e intensifiquei nosso beijo, colocando-nos numa posição ereta enquanto meus dedos ajudavam seus cabelos a ficarem mais bagunçados do que o normal.
- Me desculpe – murmurou com a boca ainda próxima da minha, olhando-me com ternura.
- Me desculpe – devolvi suas palavras com o mesmo sentimento, e lhe dei um último beijo, selando a volta do nosso namoro.
Segundos depois, ele se afastou minimamente de mim, tirando de dentro da camisa o cordão prateado onde pendia minha aliança. Seus dedos aplicaram força contra o objeto e o puxaram para baixo, fazendo com que houvesse um estalo surdo quando o mesmo se rompeu. Sem entender nada, eu o vi tirar a aliança dele do próprio dedo e entregá-la a mim.
- Sempre, de todas as formas.
Ele deslizou a aliança por meu dedo novamente, e deu um beijo em meu anelar.
- Sempre, de todas as formas.
Repeti seu gesto, ouvindo o estalo do meu beijo contra seu dedo forte.
sorriu e me abraçou fortemente, segundos antes de todos voltarem a sala, fazendo o maior escândalo.
- Ah, fala sério, vocês dois são muito moles – falou alto, jogando uma almofada em .
- Não conseguem ficar mais de uma semana brigados, fala sério. – Charlie passou o braço pelo ombro de Matt e deu risada. – Ganhei a aposta, cara.
- Vocês são idiotas, ficam apostando esse tipo de coisa? – Sam disse brava, mas não podendo evitar um sorriso. – Ainda bem que vocês voltaram, aquilo tudo tava muito errado.
- A gente também acha – falou, apontando para todos na sala. – Mas será que agora podemos comer?
Todos nós demos risada e andamos em direção à mesa posta e já com as pizzas prontas.
me deu um beijo na base do pescoço e sussurrou um “eu te amo” bem baixinho, para que só eu ouvisse.
Eu me sentia completa de novo, estava feliz e aliviada.
Não queria mais brigar com ele, queria continuar daquele jeito pra sempre.
Sempre, de todas as formas.
N/a:
Eu disse que não ia ser má com vocês, não disse? Espero que tenham gostado do pedido de desculpas, eu fiquei HORAS escrevendo-o. Espero que tenha ficado realmente bom!
Fiquei muito feliz de ver que ganhei mais leitoras novas, acho tudo isso lindo e emocionante, vocês são as pessoas mais fofas ever! *-* E eu adoro ler os tweets, scraps e conversar com vocês no MSN, é legal demais.
E gente, não precisa ter vergonha de me adicionar em lugar nenhum, se eu deixo aqui as formas pra se entrar em contato comigo, é porque realmente não me importo, viram? Eu não mordo, podem perguntar pra Cah. ‘-‘
Continuem comentando, me deixando scraps, tweets e o que quer que seja, eu já disse que simplesmente amo ler essas coisinhas e to repetindo de novo!
Espero mesmo que tenham gostado desse capítulo, porque por incrível que pareça, eu gostei dele! xD
E bom, alguém uma vez tinha me perguntado qual era a música dos protagonistas e eu disse que era segredo, que só ia ser revelado em breve. Bom, agora não é mais segredo! Always, All Ways é a música de Dance Inside desde a primeira vez que eu imaginei essa fic, em agosto do ano passado. *-* É linda demais!
Bom, agora tem mais uma caixinha pra vocês comentarem então façam o favor de postarem suas opiniões ali, ok? Eu me divirto MUITO lendo os comentários, ainda mais os do capítulo passado. Todo mundo se xingando porque terminou e tals, adorei gente! Hahahaha. Eu sei que a atitude da personagem foi dramática demais, e no roteiro original (que?) não ia ter o término do namoro, mas eu acabei me envolvendo demais enquanto escrevia a cena, sabem como é... Mas enfim, calei meus dedos, falei demais! ;x
Eu quero mesmo saber o que vocês acharam! ;D
Até mais, queridas!
xx, Vii!
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