Charlie's life
Por Amanda Bastos

Capítulo 1.
Meu nome é Charlie, mas eu prefiro que me chamem de Char. Tenho 16 anos e sou o único filho de e , meus pais divorciados.
Antes de eu saber da história da minha vida, achava realmente estranho meus pais serem divorciados e se darem tão bem. Era uma coisa quase que fraternal, como se ele fosse melhor amigo dela ou algo do tipo.
Moro com a minha mãe, posso dizer com sinceridade que ela é a melhor mãe do mundo: tinha tudo pra me querer morto, mas não quer. Eu nunca fui um filho exemplar, se é que me entendem.
Pra começar, quando eu tinha 13 anos, fugi de casa e voltei dois dias depois com um piercing no lábio inferior. Ela quase me matou, mas acho que foi só dessa vez que ela passou perto de me odiar. Também, ela já tinha botado até a polícia atrás de mim!
Outro motivo: eu fumo. Não posso fazer nada quanto a isso, aprendi com o meu pai. Querem mais um motivo? Eu levo garotas pra passarem a noite lá em casa e não faço a menor questão de esconder, apesar de ter uma namorada chamada Halley.
Agora que eu resumi pra vocês a vida que eu levava antes de tudo acontecer, vou contar a parte em que tudo realmente aconteceu.
Meu pai ia fazer um churrasco na casa dele, pra reunir os velhos membros da banda McFLY. Esse era outro problema na minha vida: meu pai é um cara internacionalmente famoso, e muita gente não para de puxar meu saco por causa disso. É uma merda!
Estávamos todos lá: tio , tio e a esposa, meu pai, tio e minha mãe. Eu tava me divertindo na piscina com tio , quando percebi que a minha mãe tava com uma expressão estranha no rosto.
Outro detalhe: eu conheço cada traço da minha mãe, então não adiantava ela me dizer que tava tudo bem, porque eu sabia que não estava.
- , tá tudo bem? – Ouvi meu pai perguntar pra ela, perto da churrasqueira.
- Se tem o no meio, nunca está bem, . – Respondeu ela.
Franzi a testa. Outra coisa que eu nunca tinha entendido era esse ódio gratuito da minha mãe pelo tio . Ele parecia ser um cara legal, sempre pareceu pra mim.
Ele ficava meio desconfortável na frente da minha mãe, como se tivesse sempre querendo falar alguma coisa.
Não gostava disso, ficava na cara que ele tava afim dela e eu sou um filho BEM ciumento.
Conclusão: tomei um pouco de antipatia do cara, mas ainda achava ele maneiro.
Foi quando ele levantou da cadeira e chegou perto da minha mãe. Ela tinha o rosto lívido, indiferente.
- Posso falar com você, ? – Ele perguntou, olhando para baixo.
- O que você quer? – Perguntou ela rispidamente.
- Conversar contigo lá dentro. – Respondeu ele.
- Não há nada nesse mundo que eu queira ouvir de você, . – Respondeu a minha mãe. Um a zero pra ela!
- Por favor. – Ele pediu encarando-a.
Ela assentiu, revirando os olhos. Os dois caminharam até a casa e entraram, e a essa altura eu já estava fora da piscina e completamente entretido na situação dos dois.
Sei que fuxicar não é legal e pá, mas eu sou filho, porra! Andei até lá devagar e encostei meu ouvido na porta.
Tio parecia meio desesperado.
- Eu só quero contar a ele, ! – Ele disse.
- Como você quer contar a um garoto de 16 anos que não foi homem o suficiente pra assumi-lo e o seu melhor amigo foi quem teve de fazer isso? – Perguntou a minha mãe, alterada.
- Eu me arrependi faz tempo, você não me deixou contar! – Defendeu-se tio .
- Contar ao Charlie que você é o pai dele e não o ? Agora que ele começou a tomar jeito na vida, você quer que ele vire um revoltado? – Minha mãe chorava.
Eu entrei em uma espécie de coma momentâneo: eu era filho do tio ? Que palhaçada era aquela?
- Se você não contar, eu conto. – Disse tio .
Não consegui mais ouvir, não queria mais ouvir: precisava desesperadamente de um cigarro.
Sem pensar nos meus atos e no ponto alto da raiva, chutei a porta e saí de lá correndo.
Meu pai tentou me parar quando eu passei pela churrasqueira, mas eu não parei pra ouvir nenhum babaca que quisesse que dizer qualquer droga naquela hora.
- CHAR! – A voz da minha mãe vinha lá de trás, então apertei o passo, saí pelo portão e entrei no carro do meu pai.
Sorte que ele, por alguma idiotice qualquer, sempre deixa a chave no carro.

Dirigi o mais rápido que aquele carro me permitiu (isso é bastante coisa) por uma estrada deserta qualquer no interior da cidade.
Meus dedos estavam duros, eu estava chorando de raiva.
"Como puderam me esconder isso todo esse tempo?", era tudo que se passava pela minha cabeça.
O celular tocou: Halley.
- Oi Halley. – Atendi secamente.
- Char, onde você tá? – Ela me perguntou com voz de choro. – Você não dá notícia de vida há dias e eu to preocupada!
Senti-me culpado.
- Eu to bem. Passo aí amanhã. – Disse eu. Não queria falar com ninguém naquela hora, precisava de um tempo sozinho.
- Então tá. Cuidado! – Disse ela. – Eu te amo!
- Também amo você, ruivinha. – Eu disse, desligando o celular.
Quando olhei pra frente, vi que havia chegado à praia. Estacionei e saltei.
Não havia sinal de vida ali: exatamente o que eu queria. O sol já começava a se pôr, sentei na areia e fiquei ali pensando. Acendi um cigarro.
Depois de um tempo me senti mal por ter saído de casa sem falar com a minha mãe: peguei o celular e tentei ligar pra ela. Sem sinal.
Deitei na areia e pensei no tio . Que raiva que eu senti daquele babaca!
Era como se eu pudesse ver a minha mãe gritando em um show deles, apoiando-os bem no começo, como ela me disse que sempre apoiou meu pai (ou pelo menos, quem eu pensava que era meu pai). De repente, ela vem com a notícia de que estava grávida, e o não tem peito suficiente pra assumir a merda que fez.
Pensei no desespero dela. Senti ânsia de vômito.
Depois pensei no meu pai: ele sim era homem de verdade. Assumiu o filho do melhor amigo, só pra que a minha mãe não ficasse sozinha metida em uma confusão dessas.
Então a situação virou e eu senti nojo da minha mãe, pela primeira vez na vida: primeiro pela parte da conversa que eu escutei, quando o disse que queria ter me contado antes e ela não deixou. Segundo por ela ter aceitado a proposta do meu pai em me assumir, coisa que ela não devia ter feito. Imagina os meus avós quando o meu pai disse que ia ter um filho?
O verdadeiro herói nessa história era o meu pai, sem dúvida.
Talvez e devessem explodir, assim só eu e meu pai ficávamos no mundo.
Envolvido nesses pensamentos, não percebi que a noite começava a cair.
Decidi então pegar o carro e ir ver a Halley, a única pessoa com quem eu podia realmente contar nessa vida.
Me senti mal com esse pensamento também, visto que eu chifrava ela pelo menos uma vez no mês. Ela era a garota perfeita, o que eu tinha na cabeça?
Entrei no carro com um destino certo em mente: a casa dela.
Tinha certeza que ela me abraçaria quando eu contasse tudo, diria que me amava e então ficaria tudo bem.
Mas não foi bem assim que tudo aconteceu.

- Você o quê? – Perguntei eu, com a voz seca.
Estávamos na sala do apartamento dela, não tinha ninguém em casa.
Ela chorava compulsivamente.
- Se for verdade, como eu vou dizer isso aos meus pais, Char? – Perguntou-me ela, desesperada.
Eu fechei os olhos: que merda. E eu que tinha criticado o a tarde inteira por ter engravidado uma garota!
- Eu não sei o que você vai fazer, Halley. – Disse eu, sincero.
Ela percebeu o meu sutil "você", e encarou-me com aqueles olhos castanhos que eu tanto amo.
- Então você não vai me ajudar? – Perguntou ela.
Eu refleti. Não era tão fácil quanto eu pensei que fosse!
Silêncio.
- Sai daqui, Charlie. – Ela disse, tapando o rosto com as mãos.
O cabelo ruivo dela estava caído sobre o rosto, mas eu ainda podia ver que ela chorava.
- Halley, eu...
- SÁI, CHARLIE!
Achei melhor não falar mais nada. Eu precisava do meu pai.

Capítulo 2.
Cheguei em casa, abri a porta e me deparei com uma cena péssima: minha mãe de pijamas, dormindo na poltrona, com o rosto vermelho e olheiras enormes.
Cheguei perto: sim, ela havia chorado. Muito, por sinal.
Não quis acordá-la porque não estava mais com vontade de discutir nada naquele dia: peguei um cobertor no armário e joguei por cima dela, entrei em um banho demorado e fui dormir.

Acordei no dia seguinte, torcendo para que tudo houvesse sido um pesadelo terrível. Fui ao banheiro, escovei os dentes e troquei de roupa, tentando me convencer de que a minha realidade era outra.
Mas minha esperança durou pouco: entrei na sala e lá estavam os três me esperando: minha mãe, meu pai e .
- Charlie... Nós quatro temos que conversar. – Minha mãe disse.
- To com muita coisa na cabeça pra me preocupar com um bando de mentirosos! – Disse eu. – Pai, posso falar com você?
Inexplicavelmente, tio teve a cara de pau de levantar os olhos pra mim.
- Não estou falando com você. – Disse eu, secamente.
A expressão dele tornou-se triste, e ele baixou os olhos.
Foi então que eu me senti o maior idiota da terra por nunca ter percebido que ele era meu pai biológico: sou realmente parecido com ele, principalmente os olhos.
- O que foi, filho? – Perguntou meu pai.
- Minha namorada tá grávida. – Eu disse, sem encarar ninguém.
Minha mãe começou a soluçar. Silêncio.
- O que você vai fazer? – Perguntou .
Encarei-o.
- Não sei, esperava um conselho. Mas você é a última pessoa da terra a quem eu vou pedir um, principalmente sobre essa situação. – Disse eu.
Minha mãe começou a chorar mais.
Então olhei pra ela e vi como ela sofria com aquilo tudo. Isso me matava por dentro: minha mãe era a mulher mais linda e mais carinhosa que eu já havia conhecido na vida, e acho que no fim das contas ela não merecia tudo isso.
Fui até ela e a abracei. Ela me apertou forte, e eu enterrei meu rosto no pescoço dela e chorei como uma criança.
Chorei por ter estragado a vida dela quando ela era mais nova, chorei por continuar estragando tudo depois que nasci, chorei por estar estragando tudo naquele momento.
O perfume da minha mãe me acalma.
- Posso falar com você? – Perguntou dirigindo-se a mim.
Ele olhava pra minha mãe de uma forma estranha: como se, do modo dele, ele a amasse mais que qualquer coisa nessa vida. Aquilo me deixou nervoso.
Minha mãe e meu pai saíram da sala, me dando um momento com meu pai biológico.
Houve um pequeno silêncio.
- Acho que você tem que assumir o seu filho. – Disse ele, olhando para mim.
- Por que você não segue seus próprios conselhos? – Perguntei eu.
- ME DESCULPA, TÁ LEGAL? EU ERA NOVO, QUERIA APROVEITAR A VIDA! – Ele deixou algumas lágrimas caírem e tapou o rosto com as mãos.
- EU TAMBÉM SOU NOVO E QUERO APROVEITAR A MINHA! – Eu gritei de volta.
- SÓ NÃO QUERO VER VOCÊ PERDER O AMOR DO SEU FILHO E DA MULHER DA SUA VIDA, COMO EU! – Ele gritou de volta.
Eu não tive resposta pra isso.
Preferi sair pela porta da sala e entrar pro meu quarto, ignorando completamente meu pai biológico sentado na sala, sozinho.
Bati a porta. Girava o piercing no lábio inferior com toda a violência. Estava nervoso.
Precisava sair dali. Precisava de um lugar... E eu sabia exatamente onde.

Capítulo 3.
Não sei por quanto tempo minha mãe ficou batendo na porta do meu quarto. Não sei por quanto tempo meu pai ficou lá, ao lado dela. Não sei por quanto tempo ficou na minha casa.
Honestamente? Eu não fazia a mínima questão de saber.
Passei o dia lá trancado, até olhar pela janela e ver que já estava escurecendo.
Eu não queria falar com ninguém, e acho que ninguém pode me culpar por isso. Raiva desse tipo acontece quando se descobre que a sua vida foi uma total mentira até o momento e que sua namorada está grávida.
Peguei um casaco vermelho da GAP, calcei meu all star preto e velho e saí do quarto. Entrei pela sala escura. Meus olhos vasculharam a procura de alguém, mas não havia ninguém ali. Perfeito.
Mirei o sofá e a imagem de sentado com aquele olhar perdido me veio à mente.
Balancei a cabeça de leve para espantar os pensamentos.
Entrei na cozinha, minha mãe estava sentada na mesa. Estava com olheiras profundas e bebericava levemente uma xícara de chá.
Seu olhar era pensativo. Levantou os olhos em minha direção, com o rosto inexpressivo.
- Eu vou sair. – Disse eu, sem encará-la.
- Pra onde? – Perguntou ela, levantando os olhos para mim significativamente.
- Quero passar alguns dias na casa do Mark. – Respondi eu, dessa vez olhando-a, apreensivo.
Rápida apresentação: Mark é o meu melhor amigo (ou o meu único amigo de verdade, como você quiser).
Nos conhecemos desde pequenos, ele é filho do tio com a ex esposa.
Mark tem 18 anos e mora sozinho em um apartamento, no centro de Londres. Gosto de ir pra lá quando estou puto com alguma coisa.
- O Mark sabe disso? – Perguntou minha mãe.
Franzi o cenho.
- Desde quando eu preciso avisar que vou à casa dele? – Rebati eu. Senti cheiro de briga vindo.
- Desde o momento em que você usa a casa dele de refúgio pra fugir das suas responsabilidades! - Disse minha mãe, elevando um pouco a voz.
- Quer saber? Eu vou, estou saindo! – Eu já estava até com o dinheiro no bolso pra pegar um ônibus.
- Charlie , você NÃO VAI sair por essa porta! – Minha mãe exclamou.
- Por falar nisso, ... Temos que trocar meu sobrenome! – Disse eu, sarcástico, saindo e batendo a porta.
Minha mãe me disse depois que chorou a noite toda.
Só mais um pesinho na minha consciência limpa.
Entrei no ônibus e subi direto para o segundo andar: estava mais vazio, calmo, e dava espaço para algum tipo de pensamento.
Algumas gotas de chuva começaram a cair lá fora e a molhar o vidro.
Lá de cima, eu vi um casal brincando na chuva, em uma praça. Pareciam não se importar com o frio ou com a pouca iluminação daquela parte da rua.
Pensei na Halley.
O ônibus acelerou. Encostei a cabeça no banco e tentei cochilar um pouco, sem sucesso.
Como eu queria chegar logo à casa de Mark.

Entrei na portaria, nem precisei dar meu nome. Fui direto para o elevador. Apertei o quarto botão.
Algumas gotas de água caíam das pontas do meu cabelo, os ombros do meu casaco também estavam úmidos por causa da chuva.
Meus cigarros estavam molhados. Ótimo.
Cheguei ao andar e bati na porta.
Não demorou muito e Mark abriu sorridente.
- Char! Entra cara! – Disse ele, abrindo passagem. Por um momento eu havia levado um susto pensando que era o tio . Eles se parecem muito.
- Tá sozinho? – Perguntei eu, passando.
- To sim. Eu ia te chamar pra sairmos um pouco hoje à noite, você chamava a Halley e eu arranjava uma na hora... – Disse ele, rindo.
Abaixei a cabeça. Mark percebeu.
- O que foi Char? – Perguntou ele, franzindo o cenho.
Olhei para Mark.
- Não sei nem por onde começar. – Disse eu, dando de ombros.
- Pessoas normais começam do começo, babaca. – Disse ele me fazendo rir.
- Você diz isso porque não sabe tudo o que aconteceu, viadinho.
Mark sorriu.
- Conta logo, ! – Disse ele.
Sentamos no sofá da sala e eu contei.
A cada frase minha, Mark parecia mais surpreso (principalmente na parte que eu disse que a Halley estava grávida).
Quando eu terminei, ficamos um tempo em silêncio.
- Porra. – Foi tudo o que ele conseguiu dizer.
- Pois é. – Eu respondi, com o olhar perdido.
- Sua mãe deve estar passando um aperto com você... – Comentou Mark, triste.
Lancei a ele meu melhor olhar de ódio.
- EU estou passando por um aperto, concorda? – Perguntei, sarcástico.
- Eu sei, Char... Mas você já pensou em como sua mãe deve estar? Digo, o filho descobre que ela escondia quem é o verdadeiro pai, e algumas horas depois o mesmo filho diz que a namorada tá grávida! – Exclamou ele.
Não tinha jeito mesmo. Mark sempre adorou a minha mãe, isso nunca ia mudar.
Ela também adorava ele, acho que é o filho que ela queria ter tido, de certa forma. Ou isso, ou é apenas a luz vermelha do ciúme me atormentando de novo.
- Eu sei, Mark. Por que você acha que eu tô aqui na sua casa?
- Sei lá, cara. Você nunca precisou de desculpas pra vir pra cá antes. – Disse ele, sorrindo.
Eu comecei a rir.
- Ainda quer sair? – Perguntei.
- Vamos sim. Você precisa espairecer. – Disse ele. – Mas depois vamos conversar sobre tudo, você precisa ouvir um sermão de alguém mais velho, mesmo que não queira.
- Vai dar uma de pai agora? Obrigado, já tenho dois. – Disse eu, amargurado.
- Você não ouviu o que a sua família tinha pra te dizer, mas a mim você vai ouvir. Eu devo isso à sua mãe. – Disse ele, sério. – Agora vamos logo, o pub nos espera.
E fomos.

Capítulo 4.
Chegamos a um pub no centro da cidade, perto do apartamento do Mark. Estava com luzes vermelhas por toda parte, uma coisa meio tropical.
Logo de cara, vi que tinha bastante garota ali. Ótimo.
Eu sei, eu era realmente hipócrita nessa época: minha namorada com uma suspeita de gravidez e eu correndo atrás de qualquer rabo de saia. Mas eu peço que não me julguem, por favor. Eu era um cara desesperado.
E acreditem ou não, eu amava a Halley. Do meu jeito.
- Quero uma vodka. – Disse eu, chegando perto do balcão.
- Nossa, já vai começar com uma das piores? – Perguntou Mark, rindo.
- Tem que ser assim.
Tomei uma garrafa sozinho e dividi uma com Mark.
- Chega Char. Não quero sua mãe brava comigo. – Disse ele, tirando a bebida da minha mão.
- Acho que se você pudesse, casava com ela. – Eu ri debilmente. A bebida surtia efeito, eu podia sentir o álcool correndo pelas minhas veias.
- Com certeza. Sua mãe é perfeita. – Disse Mark, rindo. – Na verdade, eu queria que ela fosse minha mãe também.
Olhei pra ele. Verdade seja dita: a mãe do Mark nunca foi muito presente na vida dele.
Quando eu nasci, ele já tinha dois anos, e era mais grudado com a minha mãe do que com qualquer outra pessoa.
Ficava perto dela o tempo todo, até mesmo quando ela me fazia dormir. Acho que foi por isso que ele não ligou quando os pais dele se separaram, quatro anos depois do meu nascimento.
Ele não considerava a casa uma família de qualquer forma.
Acho que é por isso que somos tão ligados.
- Eu queria poder ser o filho que ela merece. – Disse eu. – Ou talvez eu seja uma espécie de castigo pela mentira dela.
Ele negou com a cabeça e revirou os olhos.
Ficamos mais um tempo no pub, ele beijou uma garota lá e depois fomos embora.
Enquanto eu estava longe, o apareceu lá em casa. Eu sei disso porque a minha mãe me contou depois.
Ela disse que foi mais ou menos assim...
Minha mãe andava pra lá e pra cá na sala, ligando pro Mark. Obviamente ele não atendeu, nem ouvimos o celular tocar com a música alta do pub. Acho que foi melhor assim, se ela ouvisse a música ia começar a fazer perguntas demais.
Foi quando alguém bateu na porta.
Minha mãe estava de roupão. Foi até lá e abriu, pensou que fosse meu pai ou alguém com notícias sobre a Halley.
Bom, era meu pai, de certa forma.
- ? – Ela perguntou, erguendo as sobrancelhas, surpresa.
- Oi . – Respondeu ele, sorrindo fraco. Também estava molhado por causa da chuva, e algo me diz que estava realmente parecendo comigo quando cheguei à casa de Mark.
- Posso entrar?
Minha mãe abriu passagem, olhando para o chão. Eu tenho certeza que ele reparou que ela estava de roupão, mas não falou nada por respeito. Ou porque ele tinha medo que eu partisse a cara dele, sei lá.
- O que te traz aqui? – Perguntou minha mãe.
- Eu preciso conversar direito com você, . – Respondeu .
Olha a hora da noite que o cara quer "conversar".
- O que foi, ? – Minha mãe perguntou, cruzando os braços.
Ele encolheu os ombros e olhou pra ela, triste.
- Acho que não é hora de sermos rudes um com o outro. O nosso filho tá passando por um momento difícil, e temos que ajudá-lo. – Disse ele.
- O que você acha que tem de tão útil para ensinar? Pode deixar que o cuida disso, ele é o pai aqui. – Disse ela.
Ponto pra minha mãe, de novo.
- Eu quero ser parte da vida dele. Me dá uma chance, . – disse.
Minha mãe olhou pra ele. Silêncio.
- Quer um chá? – Perguntou ela.
- Não quero dar trabalho.
- Eu vou fazer pra mim, faço pra você também. Já devo ter tomado uns três chás pra me acalmar só hoje.
Depois que minha mãe fez o chá, eles sentaram e conversaram no sofá.
- Ele parece demais com você. – Disse ela, encarando as próprias mãos que jaziam sobre as pernas.
- Mas o gênio dele é seu. Teimoso e orgulhoso. – Disse , sorrindo.
- Ele tem mais gênio seu do que você pensa. – Disse minha mãe.
- É. O caráter e as burradas que ele faz com certeza são meus. – Disse , pensativo.
Se eu ouvisse isso, cabeças iam rolar (mesmo sabendo que é a verdade).
- Você não é uma pessoa ruim, . E nem ele. – Disse a minha mãe. Ela pôs a mão sobre a dele e sorriu.
Mesmo não tendo visto, eu sei que nessa hora ela estava com pena. Afinal, não foi só culpa dele, ela também quis esconder isso tudo.
Enquanto eles estavam lá dentro no apartamento, meu pai () me disse que apareceu lá fora e estava prestes a bater na porta.
Foi quando ouviu os dois conversando. Sorriu.
"Esses dois..." pensou ele.
Decidiu que voltava depois. Minha mãe já havia ligado pra dizer que eu estava na casa do Mark, ele só apareceu pra fazer companhia a ela. Só que a companhia já estava lá.
Bom, voltemos ao interior da minha casa...
- , faz tempo que eu quero te pedir desculpa. – Disse , apertando a mão dela. – Por tudo.
Minha mãe sorriu.
- Está perdoado, . Precisamos ser amigos agora, pra ajudar o Charlie.
Ele sorriu fraco. Não queria ser só amigo dela, mas era melhor isso do que nada.
- Bom, eu já vou indo... – Disse ele, levantando-se.
- Qualquer coisa eu entro em contato com você. – Disse a minha mãe.
Olharam-se. sorriu fraco, observando os traços dela.
Foi então que a minha mãe fez uma coisa que nunca faria em sã consciência: abraçou-o. Com força.
Deixou algumas lágrimas caírem no casaco dele.
- Que bom que você está comigo dessa vez. – Disse ela.
Ele fechou os olhos, sentindo o perfume do cabelo dela.
- Estou sim. E dessa vez, eu não vou te deixar sozinha.
E não ia mesmo.
Despediram-se na porta, sorrindo tímidos um para o outro.
Algo me diz que minha mãe dormiu sorrindo naquela noite.

Capítulo 5.
Não agüentava mais ouvir. Mark não havia percebido que eu já tinha entendido?
- Eu já sei disso tudo, Mark!
- Mas não parece, Char! Vai atrás da Halley e pede desculpas, ela precisa de você cara! – Mark parecia frustrado.
Acordamos tarde naquela manhã, por causa da noite anterior. Ele fez um café e disse que precisávamos conversar.
E lá estávamos nós, conversando.
- Eu não vou deixá-la sozinha com o meu filho, Mark. Eu nunca disse que deixaria! Eu só... Não estou preparado pra dizer isso agora. – Disse eu.
O que eu tinha na cabeça naquela época?
- Acho melhor você se preparar então. Duvido que uma garota de 16 anos esteja preparada para modificar o corpo, a mente, encarar os pais e dar a luz em nove meses, sozinha. – Disse ele.
Eu baixei os olhos. Será que eu poderia fazer com meu filho o mesmo que fizeram comigo?
- Eu vou atrás dela. Hoje. – Disse eu, decidido.
- Ótimo. Se precisar de qualquer coisa, chama.
- Obrigado, Mark. Mas acho que isso eu tenho que fazer sozinho.

Senti um embrulho no estômago quando cheguei em casa naquele dia.
Inicialmente, quando abri a porta, o silêncio me deu um golpe inesperado. Minha casa NUNCA era silenciosa.
Entrei pela cozinha, passei pela sala e caminhei pelo corredor. Bati de leve na porta do quarto da minha mãe. Nada.
Girei a maçaneta e abri a porta: minha mãe estava dormindo.
Fui até lá e sentei-me na cama, ao lado dela. Passei a mão de leve em seu rosto, e ela sorriu.
Sorri instantaneamente.
Ela foi abrindo os olhos. Fez uma cara de assustada e se afastou com certa rapidez.
Fiquei parado, sem reação. Ela passou a mão na testa.
- Que susto, Charlie! Pensei que fosse... Outra pessoa.
Ela fechou os olhos e respirou fundo. Estava pálida.
No futuro, ela me contaria que pensou que eu fosse o neste momento.
Legal, ainda bem que ela teve senso e não disse isso naquela hora.
- Só queria avisar que to em casa, mãe. – Disse eu.
Ela aproximou-se de mim e segurou meu rosto entre as mãos.
- Eu queria brigar com você, mas eu não vou. Acho que você já está sofrendo demais as conseqüências do que está acontecendo. – Disse ela.
- Sobre o ou sobre a Halley? – Perguntei eu, amargurado.
- Não é hora de se fazer de coitado, Char. Não foi isso que eu te ensinei. – Ela mirou-me com "o olhar".
"O olhar" é uma coisa que eu não gosto muito de receber: indica pura decepção. Eu preferia que ela me batesse, quem sabe.
- Eu vou atrás dela hoje, mãe. Eu não vou deixar as coisas assim. – Disse eu.
Minha mãe sorriu.
- Antes de ir, liga pro . Seu pai estava preocupado ontem, mas eu disse que você estava na casa do Mark.
Eu acenti, e já estava levantando-me quando ela pôs a mão sobre o meu braço. Virei-me.
- Só tem mais uma coisa, Char... – disse ela. – Você tem que conversar com o . Ele veio aqui ontem, também está preocupado com você... Ele é seu pai, você querendo ou não.
- Tá na minha lista de coisas a fazer também, . – Disse eu, rindo.
Minha mãe sorriu.
- Eu te amo, Char. Me desculpa se eu mostrei isso da forma errada. Eu só queria proteger você.
Abracei-a.
- Eu também te amo, mãe. Desculpa se nem sempre eu sou o filho que deveria ser.
Sorrimos.
Então eu me levantei. O dia seria longo e eu tinha muitas coisas a fazer.

Pra começar, liguei pro meu pai.
- Pai? Te acordei? – Perguntei eu, ouvindo a voz rouca dele do outro lado da linha.
- Char? – Na mesma hora, a voz modificou-se de rouca e inconsciente para um tom preocupado. – Tá tudo bem com você, filho?
- Tá sim.
Silêncio.
- Já pensou no que vai fazer? – Perguntou meu pai.
- Tenho uma lista mentalizada.
- Quais são os itens? – Perguntou ele.
- Item um, ligar pra você, o que eu já estou fazendo. Item dois, procurar a minha namorada e dizer que sinto muito. Item três... Conversar com o .
- Que bom, Charlie. Vai te fazer muito bem.
Ficamos mais um tempo conversando, e desligamos. Eu iria para a casa dele mais tarde, depois de conversar com a Halley.
Se eu pudesse ver o futuro naquele momento, saberia que não falaria com a minha namorada naquele dia. Ou no seguinte. Ou no outro.
Ou durante um mês inteiro.
Saberia também que quem me ajudaria nesse momento seria justamente a pessoa que eu menos esperava: .

Capítulo 6.
Meus dedos tremiam. Minha cabeça girava. Eu estava suando frio.
Estendi o braço e toquei a campainha do apartamento da minha namorada.
Não demorou muito, a mãe dela apareceu na porta, com os olhos inchados e a expressão vazia.
- Oi Martha. – Eu cumprimentei, sem conseguir sorrir. – Posso falar com a Halley?
Martha encarou-me.
- Ela... Não está em casa, Char. Não quer entrar pra conversarmos melhor?
Por um momento, eu hesitei. Encontrar o pai dela na sala não era exatamente o que eu tinha em mente.
Em seguida, um pensamento me ocorreu: Se eu morresse, era menos um babaca no mundo. Além do mais, conversar era a única chance que eu tinha de saber o que tinha acontecido com a Halley, que aparentemente não estava em casa.
Fiz que sim com a cabeça e Martha abriu caminho para mim.
Ela me conduziu até o interior da casa bem arrumada, e então nos sentamos no sofá da sala.
- Charlie, a Halley me contou tudo. – Disse ela, olhando para as mãos que tremiam levemente.
Fiquei em choque. O que eu poderia dizer para a mãe da garota que eu engravidei?
- Eu preciso conversar com ela, Martha. Preciso mesmo.
- Receio que isso não vá acontecer nem tão cedo. Como eu já disse, a Halley não está em casa, e não tem previsão para voltar. – Disse ela, mexendo nervosamente nos cabelos, ruivos como os da filha.
- Pra onde ela foi? – Perguntei eu, sentindo minha garganta fechar.
- Ela foi para a França, passar um tempo na casa da tia. Embarcou ontem mesmo. – Respondeu-me Martha.
Fiquei nervoso. Eu realmente amava a Halley, não queria que ela passasse por tudo sozinha.
- Eu quero assumir o meu filho, Martha. Eu não sei se estou pronto, mas eu quero ter a chance de tentar. – Disse eu, mirando-a.
Ela olhou para os lados, aflita.
- Não ouse falar de filho nem de gravidez nesta casa! – Ela sussurrou, com os olhos suplicantes. – O George ainda não sabe, eu ajudei-a a ir embora para poupá-la de uma briga horrorosa com o pai!
Agora tudo fazia sentido: a Halley fugiu do pai.
- Por quanto tempo vocês acham que vão conseguir esconder essa mentira? Essa não é a solução! – Disse eu.
- Não venha me repreender, Charlie! Você é o último que pode vir me dizer como eu devo agir com a minha própria filha. O grande problema aqui foi o que você fez! – Ela parecia com raiva.
- Não fiz nada sozinho. – Eu disse, tentando manter a calma.
- Não estou falando dessa parte... Estou falando sobre depois! Você não quis ajudá-la quando ela pediu, então ela se desesperou! – Disse Martha.
- Mas agora eu quero! Liga e pede pra ela voltar, Martha! – Eu praticamente implorei.
- Não posso. Ela tem que se sentir preparada para encarar o pai. Até isso acontecer, temos que esperar. – Disse ela.
- Você pode ao menos me dar o número da casa onde ela está? – Perguntei eu.
- Ela pediu pra que eu não fizesse isso. A Halley quer um tempo sozinha, Charlie. Dê a ela o tempo que precisa.
Vi que não tinha jeito.
- As aulas começam daqui a uma semana... Acha que ela volta antes disso? – Perguntei eu, preocupado.
- Acho que não. – Ela foi curta e fria.
Eu abaixei a cabeça. Não tínhamos mais nada para conversar, então Martha me levou até a porta.
- Martha... Desculpa. – Eu fui sincero.
- Vai ficar tudo bem, Charlie. Só não espere a mesma compreensão por parte do George. – Ela me lançou um sorriso triste.
- Me deixe saber de qualquer coisa, ok? – Perguntei eu.
- Vou tentar. – Respondeu ela.
Em seguida, acenou com a cabeça e fechou a porta. Eu tenho certeza de que vi uma lágrima escorrendo antes da fresta se fechar completamente.

- Como foi lá, filho? – Meu pai perguntou assim que eu entrei na casa dele.
Fechei a porta e o encarei.
- Foi uma merda, pai.
Meus olhos se embaçaram de novo.
- O que foi, Char? – Ele levantou-se da poltrona.
Então eu soltei tudo, ali mesmo. Disse tudo o que a Martha havia me dito. Houve um silêncio.
- Você vai ter que ter calma agora. – Disse ele. – Anda, não adianta ficar assim.
- Você quer que eu fique como, pai? – Perguntei eu, frustrado. – Eu fiz com ela o que o fez com a minha mãe! A MESMA COISA!
- Calma, Charlie... – Meu pai me abraçou.
- Deve estar no sangue ser um covarde. – Disse eu, com a voz embargada.
- Não tem nada haver com sangue, filho. É normal sentir medo.
- Você não recuou por causa de medo, e nem foi você quem fez nada. – Eu disse baixo.
- Mas você correu atrás das responsabilidades, como eu te ensinei a fazer. Ela precisa de um tempo também!
Concordei em silêncio.
- Agora vai tomar um banho, moleque. Eu vou pedir uma pizza pra gente comer. – Disse meu pai, piscando.
Sorri.
- Só você, .

Capítulo 7.
Passei aquela noite na casa do meu pai, como havia combinado. Liguei pra minha mãe pra avisar, antes que ela morresse ou algo do tipo.
No dia seguinte, voltei pra casa com uma coisa na cabeça: falar com o tio .
Minha mãe me deu o número e sorriu, encorajando-me. Liguei.
- Alô? – A voz dele atendeu.
- Oi . Sou eu, Charlie.
- Oi Char! Então... Como estão correndo as coisas? – Perguntou ele, surpreso por ser eu no telefone e preocupado com a minha situação.
- Não muito bem.
Silêncio.
- Eu quero falar com você. – Disse ele.
- Eu também. – Respondi. – Tô em casa agora, se você puder aparecer aqui...
- Vou tomar um banho e te pego, a gente sai pra almoçar. Tenho muita coisa pra te dizer, Charlie. – Disse ele, visivelmente nervoso.
- Ok. – Respondi eu.
Desligamos.
- E então? – Perguntou minha mãe.
- Tudo certo, . – Disse eu, sorrindo. – Ele vai me pegar pra almoçar daqui a pouco.
- Então vai se arrumar, querido. – Minha mãe beijou a minha testa.

Não demorou muito e a campainha tocou. Minha mãe foi abrir a porta, enquanto eu continuava sentado no sofá, perdido em pensamentos.
- Oi . – Disse ela, sorrindo ao atender.
- Oi . – Ele respondeu, mirando-a e sorrindo.
- Charlie, o chegou! – Ela virou-se e me chamou. Como se eu não soubesse, certo? Relevei, ela parecia nervosa.
- Tô aqui. – Disse eu, aproximando-me.
- Então... Bom almoço pra vocês! – Disse ela, sem tirar os olhos dele nem por meio segundo.
- Se eu puder sair pela porta, tenho certeza de que o almoço vai ser bom. – Disse eu, visto que ela continuava no caminho.
Eu não podia perder essa chance de implicar com ela.
Minha mãe lançou-me um olhar mortal, vermelha.
- Tão educado! – Disse ela, abrindo passagem.
riu. No fundo, gostava de ver que a deixava desconcertada.
- Oi Char. – Disse ele, sorrindo.
- Oi . – Respondi eu, tentando sorrir. Acho que não obtive muito sucesso nessa parte.
- Tchau pra vocês dois... – Disse minha mãe. Nós acenamos com a cabeça e ela fechou a porta.
Entrei no carro do , no banco da frente.
- Belo carro. – Disse eu, sorrindo. Era realmente um carrão.
Ele entrou pelo outro lado.
- Eu tenho bom gosto. – Disse , sorrindo e girando a chave.
Ligamos o rádio e ficamos ouvindo uma música qualquer até chegar ao restaurante.
Nenhum de nós queria quebrar aquele silêncio.
Só quando sentamos e fizemos os pedidos, foi que ele começou a falar.
- Charlie, eu acho que tenho muito que explicar.
- Tem mesmo. – Disse eu, encarando-o.
- Pra começar, quero te pedir desculpas. Se eu pudesse voltar atrás, eu jamais teria hesitado quando a sua mãe me deu a notícia de que estava grávida.
Prestei bastante atenção naquela parte, pois de certa forma, era algo que eu precisava ouvir por causa da Halley.
Fiquei em silêncio, deixando-o continuar.
- Sua mãe era maravilhosa... Digo, ela é maravilhosa. Enfrentou muita coisa. Mas eu não quero que você pense que eu a deixei e continuei a vida feliz e contente. ficou um bom tempo sem falar comigo, e quando ele viu que eu não ia fazer nada, assumiu você. Eu não conseguia parar de pensar na e me culpar por tudo isso. Foi um escândalo na época, a banda estava no auge, e foi o que levou a culpa por tudo. Tínhamos 19 anos na época.
Ele respirou fundo. Continuou.
- Tempos depois, quando a banda terminou, cada um de nós seguiu um rumo na vida. casou e teve o Mark, mas o relacionamento dele não durou muito. virou empresário de bandas, e casou também. seguiu em frente e assumiu os negócios do pai. Foi quando eu parei pra pensar: eu não cresci em nada, continuei sendo o mesmo garoto inconseqüente de anos atrás, só mudei de emprego. Foi por isso que tomei a decisão de contar pra você, e eu pedi isso á sua mãe no seu aniversário de nove anos de idade. Como você pode imaginar, ela não deixou, por mais que eu insistisse. Os dias se tornaram meses, os meses se tornaram anos, e eu tornava a pedir toda vez que aparecia uma oportunidade. Ela já ficava tensa quando me via em algum lugar por causa disso.
Em uma dessas oportunidades você ouviu, e deu no que deu. – terminou de falar e esperou que eu dissesse algo.
- Obrigado por me contar tudo, . – Disse eu, sorrindo. – Eu precisava saber sobre a minha própria vida.
sorriu.
- Foi por isso que eu gritei com você lá na casa da , Char. Porque eu não quero que você seja um garoto inconseqüente pro resto da vida, eu queria que você assumisse o seu filho. – Disse ele.
- Eu tentei, . – Olhei para baixo.
- E no que deu? – Perguntou ele, preocupado.
- Não deu em merda nenhuma, só uma conversa com a mãe dela... – Então eu contei tudo ao meu pai biológico, que ouvia com atenção.
- O te deu o conselho certo. Você vai ter que esperar agora. – Disse ele.
- Eu não vou desistir dela. – Disse eu.
Então ele me olhou, me olhou de verdade: com todo o orgulho que um pai pode olhar para um filho.
- Fico feliz em ouvir isso, Char.

Capítulo 8.
parou o carro na porta da minha casa.
- Então... Valeu pelo almoço, . – Disse eu, sorrindo e tirando o cinto de segurança.
- Sempre que quiser conversar, ligue. – Ele disse sorrindo.
Acenei com a cabeça, abri a porta e desci do carro. Quando já estava chegando à entrada de casa, me chamou.
- Charlie!
Olhei pra trás e vi o vidro aberto.
- Obrigado por me dar uma segunda chance na sua vida. – Ele disse.
Eu sorri.
- Obrigado por ainda querer a chance. – Disse eu.
Entrei em casa com um sorriso de orelha a orelha, e alguma coisa me dizia que ele estava exatamente do mesmo jeito.

Liguei pro Mark e disse tudo o que tinha acontecido. Ele não tinha nenhum grande conselho pra me dar, mas beleza. Eu já esperava.
Pelo menos ele me consolou e se importou, de fato.
Passei o dia vendo filmes com a minha mãe, comendo pipoca, chocolate e porcarias em geral.
De vez em quando eu dizia que ia ao banheiro, mas na verdade eu entrava no quarto, abria a janela e fumava alguns cigarros.
Eu estava precisando.
Depois trocava de blusa, por causa do cheiro. Minha sorte é que ela é distraída e nem notou.
- Charlie, por que você não chama o Mark pra vir pra cá? Faz tanto tempo que ele não vem me ver... – Disse a minha mãe, enquanto estávamos assistindo uma maratona de “Friends”.
- Você que quer, liga você. – Disse eu, dando de ombros, sem tirar os olhos da TV.
- Grosso! – Ela atirou algumas pipocas em mim.
Eu ri e atirei algumas nela também. Preciso dizer como a sala terminou?
- CHEGA CHARLIE, O MEU SOFÁ! – Ela berrava, ofegante e com os cabelos bagunçados, enquanto eu atirava alguns biscoitos por aí.
- Você começa e não quer terminar, né?
Continuei rindo e ela não conseguiu ficar séria por muito tempo. Minha mãe parece uma criança. - Tive uma idéia, então. Eu e você varremos tudo, e depois vemos alguns vídeos da minha adolescência. – Disse ela, com os olhos brilhando.
Encarei-a, estático.
- Vídeos da sua adolescência? De onde você tirou essa?
- Antigamente, nos shows do seu pai e dos meninos, eu sempre levava a câmera pra registrar nossos momentos juntos. Tem muita coisa guardada aqui em casa. – Disse ela, pensativa.
- Por que você nunca me mostrou? – Perguntei eu, franzindo o cenho.
- Ah, Char, sei lá... – Ela estava se enrolando nas próprias palavras.
Entendi tudo.
- Você e o estavam juntos, certo? – Perguntei eu, encorajando-a a falar.
Ela fez que sim com a cabeça.
- Acho que vai ser bom que eu assista. – Disse eu, ao que ela não respondeu.
Varremos o chão, de vez em quando ela gritava ou batia na minha bunda quando eu fazia algo errado ou passava perto de quebrar alguma coisa na preciosa sala dela.
Quando terminamos, nos jogamos no sofá.
- Vamos ver os vídeos agora. Vou pegar uma cadeira pra alcançar a parte de cima do armário. – Disse ela.
- Você passou isso pra DVD? – Perguntei eu.
- Claro que sim, Char! Acha que eu sou idiota?
- Honestamente? – Perguntei eu, sarcástico.
Ela me deu um tapa. Ainda bem que não doeu.
Ela pegou rapidamente os DVDs em cima do armário, no quarto. Depois sentamos e ela colocou o primeiro.
Parecia ser um bar, algo do tipo. Podia ver meu pai, bem mais jovem. também estava muito diferente... Tio e tio estavam com um sorriso enorme.
Então a câmera virou na direção de quem filmava: uma garota extremamente bonita, de traços delicados e cabelos compridos. Ela era estilosa. Na parte de trás de seu cabelo, pendia uma mecha rosa choque.
- É você? – Perguntei eu, sorrindo. Minha mãe sempre foi linda.
- Sim. – Ela respondeu, sorrindo também.
A garota do vídeo filmou mais três que estavam sentadas na mesma mesa que ela. Duas eram loiras, e uma delas eu reconheci como sendo a mãe do Mark.
- Essa é a tia Joanna? – Perguntei eu.
Minha mãe fez que sim com a cabeça.
Tia Joanna era exatamente como na música "Little Joanna". Os olhos azuis dela realmente chamavam atenção, ela parecia ter uma alegria sem igual.
Eu não sabia muito sobre ela, apenas coisas que eu ouvia aqui e ali, além de algumas fotos. Sabia também que tio havia escrito a música pra ela.
- Você ainda tem contato com a tia Joanna? – Perguntei eu.
- Nos falamos de vez em quando. – Disse ela, com uma expressão triste. Parei de fazer perguntas sobre a mãe do Mark, minha mãe não parecia gostar disso.
Acho que o tio realmente sofreu por causa dela.
Tia Joanna e minha mãe se abraçavam e berravam os refrões. Vez ou outra, minha mãe gritava: !
Então ouve um corte de cena, e apareceram oito pessoas em uma praia.
Alguém dedilhava um violão, enquanto minha mãe e tia Joanna dançavam em volta de uma fogueira, com garrafas na mão.
Olhei discretamente para o lado e vi minha mãe ficar vermelha de vergonha. Observei os traços dela: não pareceu ter envelhecido, mas sim amadurecido.
E é claro, ela não tinha mais a mecha rosa.
Voltei minha atenção para o vídeo.
levantou, segurou minha mãe pela cintura e começou a dançar com ela. Os dois sorriam um para o outro, como se isso fosse a única coisa que realmente importasse na vida.
- VOCÊS VÃO CASAAAAR! – Tio gritava, levantando uma garrafa na direção deles.
Minha mãe gargalhou. se aproximou e beijou-a de leve.
- AQUI NÃO, GENTE! – Meu pai, que estava sentado na areia com uma das meninas que estavam na mesa, gritou.
- Onde quisermos, ! – disse rindo. Depois se virou para minha mãe. – É só o que importa...
A câmera virou na direção de quem estava filmando: uma das garotas loiras sorria.
- Esse casal tem futuro! – Ela disse, em seguida continuou a filmar, rindo. Tia Joanna e tio estavam deitados na areia, conversando baixinho e sorrindo. Meu pai estava com a garota loira do outro lado, fazendo Deus sabe lá o quê. Tio estava enchendo a cara e as únicas pessoas que ainda sorriam na frente da fogueira eram e minha mãe.
Olhei outra vez pra ela, na sala: estava com os olhos cheios de lágrimas.
Fiquei imaginando o que a do vídeo diria se visse a de agora, ao meu lado. Será que ela continuaria com o daquela época, sabendo o que aconteceria depois?
Fui até minha mãe e a abracei. Ela deixou algumas lágrimas caírem.
- Acho que não foi uma boa idéia ver essas velharias. – Ela disse, levantando-se e desligando o DVD.
Fui dormir naquela noite com apenas um pensamento na cabeça: o olhar da minha mãe para naquela época.
Eu podia vê-la claramente, com a mecha rosa balançando enquanto dançava com ele ao redor da fogueira.
Ela bagunçava os cabelos dele.
Sorri sozinho, mas o sorriso logo se desfez: e se, no futuro, quem estiver vendo um vídeo como esse com o filho ao lado for a Halley?

Capítulo 9.
- Halley, volta aqui! – Eu gritava, enquanto uma menina de cabelos ruivos caminhava na frente.
Estava de noite, o local estava deserto. Eu podia ouvir o barulho do mar ao longe.
- Me deixa em paz, Charlie! – Halley respondeu, sem virar-se para mim.
- Por que não podemos ser como antes? – Eu perguntei frustrado.
Foi então que a menina ruiva se virou para mim. Arregalei os olhos quando vi seu rosto: era minha mãe.
- Por que você não quer assumir o nosso filho, ? – Ela perguntou, chorando.
- Eu sou o Charlie! – Disse eu, desesperado. – Mãe, sou eu! CHAR!
- Vá embora, . VÁ EMBORA! – Ela virou-se novamente e continuou andando. Agora já não eram mais os cabelos ruivos que balançavam, mas sim aquela solitária mecha rosa.
Corri atrás dela. Caí no chão, em cima de um espelho. Cortei-me.
Olhei para baixo, vendo meu reflexo, e concluí que ela estava certa: eu era o .

- MERDA! – Acordei assustado, pingando suor.
Passei a mão na testa. "O que foi isso?" eu me perguntava sobre o pesadelo.
Saí debaixo das cobertas e caminhei até o banheiro.
Acendi a luz e me olhei no espelho: um adolescente com cara de sono, piercing no lábio e usando apenas sua boxer branca me encarou de volta.
Sorri, constatando que era eu.
Você provavelmente deve estar pensando o quanto isso parece estúpido, mas no meu nível de desespero, saber que eu continuava sendo eu mesmo era uma sensação tranqüilizadora.
Sacudi o cabelo com as mãos e esfreguei os olhos.
"Ainda sou Charlie Judd", pensei.
Caminhei até a cozinha.
Minha mãe estava lá, de camisola, fazendo café.
- Bom dia mãe.
- Bom dia Char! – Ela respondeu, sorrindo.
Fiquei observando-a. Ela estava com um sorriso grande demais... Alguma coisa tinha acontecido.
- Fala logo, . – Disse eu, rindo.
- Falar o quê, menino? Parece maluco! – Disse ela, tentando parecer zangada, sem nenhum sucesso.
- Anda logo, mãe. Você tá toda feliz aí...
Ela parou de fazer o café e olhou pra mim, receosa. Prendeu os cabelos em um coque e engoliu em seco.
- O me ligou hoje de manhã. – Disse ela.
- Já? Ele não tem noção de hora não? – Perguntei eu, indignado.
- Char, já é uma hora da tarde! Você é que dorme demais! – Respondeu ela.
- Você também tá de camisola! – Rebati eu.
- Mas é porque eu estava na cama lendo um livro. Foi quando o ligou. – Explicou ela.
- Ele quer sair comigo pra fazer alguma coisa? – Perguntei eu.
- Ele quer sair COMIGO pra fazer alguma coisa. – Respondeu ela.
Franzi o cenho.
- Nossa. Há alguns dias atrás, vocês dois mal se falavam nas reuniões de amigos. – Disse eu.
- Temos que nos dar bem agora, Charlie. Por você.
- Não me mete nisso não.
- Como não te meter nisso? VOCÊ é tudo isso! – Disse ela.
Suspirei, cansado.
- Desculpa mãe. Faz o que você achar melhor. – Disse eu, sorrindo sincero.
Minha mãe sorriu. Chegou perto, passando a mão em meu cabelo.
- Você não quer fazer alguma coisa diferente nesse cabelo não, Char? Isso tá sempre assim... – Disse ela.
- Invejosa. Só porque o meu cabelo é foda. – Disse eu.
- Olha a boca, Charlie! – Ela me repreendeu. – Não é isso... É que você podia mudar um pouquinho, né filho?
Refleti sobre o assunto.
- Você me deixa fazer uma mecha branca, só na franja? – Perguntei.
- Você já não é punk o suficiente, com esse piercing aí não?
- Deixa mãe!
Ela me olhou, analisando meu cabelo.
- Só se eu fizer. Se você fizer, vai sair tudo errado e você vai ter que cortar essa parte do cabelo.
- A gente tem alguma tinta branca aí? – Perguntei eu.
- Não, mas é só ir à farmácia comprar. – Disse ela.
Então eu fui e comprei a tinta. Quando voltei pra casa, minha mãe me sentou na cadeira da cozinha e fez o que tinha que fazer.
Quando ela terminou, me olhei no espelho.
- Ficou o máximo. – Disse ela, sorrindo.
- Ficou mesmo. Obrigado, mãe.
Ela sorriu mais ainda.
- Sou experiente nessa área. – Disse ela.
- Esqueci que você já foi groupie.
Ela me deu um tapa de leve no braço, rindo.
Mexi no cabelo.
Silêncio.
- Que horas você vai sair com o ? – Perguntei eu.
- Só de noite. – Ela respondeu, corando.
- Ele tem segundas intenções?
- Acho que não, Charlie. É um jantar casual, só isso. Eu não permitiria mais nada. – Ela olhou em meus olhos. Sabia que ela estava falando a verdade.
- Então eu vou pra casa do Mark, tá?
- De novo, Char? Vai pra casa do seu pai! – Disse ela.
- Não. Eu quero sair hoje... – Disse eu, coçando a barriga, presunçoso.
- Olha o que vai fazer!
- Tá tudo bem, mãe. Vamos só sair com alguns amigos. – Disse eu.
Ela não fez mais nenhuma objeção. Parecia realmente feliz.
Será que ela ainda sentia algo pelo ?

Capítulo 10.
Estava no quarto, jogando meu Nintendo DS na cama, quando minha mãe entrou e parou à minha frente.
Parei de prestar atenção no jogo e fiquei olhando pra ela, com cara de bunda: ela estava linda.
Usava um vestido azul escuro simples, sem alças, mais ou menos até os joelhos. Estava com um único fio de cordão prateado no pescoço, dando a ela uma aparência delicada. Os cabelos estavam soltos e jogados para o lado, e ela usava uma maquiagem bem suave.
- Como estou? – Ela perguntou, mordendo os lábios. Estava nervosa, eu tinha certeza.
- Não seria melhor um vestido com alça não, mãe? – Perguntei eu, desligando o jogo e atirando-o em algum lugar sobre a cama.
- Por quê?
- Porque você pode sentir frio. – Inventei a primeira merda que veio à mente. A verdade é que eu não queria que os caras (especialmente o ) ficassem olhando o colo da minha mãe. Não sei, a idéia simplesmente não me agradava.
Ela olhou pra mim, levantando uma sobrancelha.
- Eu sei me dar ao respeito, Char. Parece até que eu sou a filha e você o pai.
Ela sorriu, e eu não consegui ficar sério.
- Vai ser um trauma na minha vida. Por que você não pode ser feia e gorda como toda mãe normal? Eu com certeza não me preocuparia quando você saísse. – Disse eu sorrindo.
Ela me deu língua.
- Você que pensa que as mães hoje em dia são assim. Todas fazem plásticas o tempo todo. – Disse ela.
- Você não precisa.
Ela sorriu mais uma vez. Em seguida, seu olhar ficou mais sério.
- Não vai tarde pra casa do Mark, Charlie. Eu não vou ter nenhum minuto de sossego se você não me ligar assim que chegar lá. – Disse ela. Em seguida, arregalou os olhos como sempre fazia quando tinha uma idéia que considerava "genial". – Já sei! Quando o vier me buscar, a gente te deixa na casa do Mark.
Olhei para ela, incrédulo.
- Era só o que me faltava. Não vai ser a primeira vez que eu pego um ônibus tarde, sabia?
Ela negou com a cabeça.
- São quase dez da noite e você vai com a gente, fim de papo.
Bufei. Ela já havia decidido e não adiantava discutir.
Vesti um casaco branco Puma, meus jeans surrados e meu all star preto de sempre. Sentei no sofá e liguei a TV, esperando a madame terminar de calçar os sapatos.
Foi quando ouvi a campainha tocar.
- Mãe! – Eu gritei para que ela pudesse ouvir. Sem resposta.
- MÃE! – De novo.
- MÃÃÃÃÃÃÃE, PORRA! – É, eu sabia que ia levar uma bronca pela última chamada.
Desisti e fui atender a porta, quando a campainha soou pela segunda vez.
Abri e dei de cara com . Estava de terno e gravata. Parecia que iam a algum restaurante de gala ou algo do tipo.
- Oi Charlie. – Ele disse sorrindo.
- Oi . Entra... – Eu disse, sorrindo também.
Ele entrou, olhando em volta. Parecia procurar pela minha mãe.
- Tá terminando de se arrumar. – Disse eu, jogando-me no sofá. – Senta aí.
Ele fez que sim com a cabeça e sentou na poltrona ao lado.
- Ei, o que fez no cabelo? – Ele perguntou sorrindo.
- Minha mãe mexeu aqui. Mudar é bom. – Disse eu, sacudindo o cabelo e ajeitando a pequena mecha branca na franja.
- Eu gostei. Uma vez um amigo nosso, James Bourne, fez uma dessa também. Só que a dele era preta. – Disse ele.
- Ah, eu lembro desse cara! Ele ainda tem aquela banda dele? – Perguntei eu, esforçando-me para lembrar o nome da banda do sujeito.
- Qual delas? – Perguntou , rindo.
Comecei a rir também.
- Você parece um punk louco com esse piercing e esse cabelo. – Disse ele, rindo.
- Não reclama, . Convivi com rockstars a minha vida inteira, é natural que eu goste dessas coisas.
- É verdade... – Ele riu.
Minha mãe apareceu na sala, e eu pude sentir a respiração dele parar. Isso não é exagero, a respiração dele LITERALMENTE parou.
Quase fui lá sacudir o cara.
- Oi . – Ela disse, pondo o cabelo para trás da orelha. Ela fazia isso quando estava com vergonha, e eu no lugar dela também estaria, por causa do olhar dele.
- Você está linda. – Disse ele.
Sem comentários sobre a minha cara nessa hora.
- Bom... Andem logo com isso. Eu ainda quero ir pro Mark. – Disse eu, levantando-me e pondo-me na frente da minha mãe.
- Você vai com a gente? – Perguntou .
Surpresa, otário!
- Eu liguei pro seu celular pra dizer, ! - Disse minha mãe, rindo da distração dele.
Os olhos dele ficaram focados, recordando alguma coisa. Então ele riu.
- Realmente, eu me esqueci. Você vai conosco então, Char?
Nossa, ele ainda não tinha entendido isso?
- Se estiver tudo ok pra você. – Disse eu.
fez que sim com a cabeça, levantando-se.
Saímos de casa, trancamos a porta e fomos até o carro, eu caminhando logo atrás dos dois.
Estava em uma posição estratégica: qualquer tentativa de aproximação eu entrava em ação.
Fomos em silêncio durante todo o caminho.
concentrado na estrada, minha mãe observando as mãos como se elas fossem a coisa mais interessante do universo, e eu divagando pela paisagem na janela, alternando olhares entre a Londres gélida e os dois bancos da frente.
Paramos na porta do apartamento do Mark, e ele estava na portaria me esperando, não sei por que motivo.
Quando ele viu a minha mãe no banco da frente, sorriu e saiu correndo.
Minha mãe desceu do carro imediatamente para abraçá-lo, deixando eu e lá dentro, ambos com cara de idiotas.
Eu a vi passando as mãos pelo rosto dele.
- Como você cresceu menino! – Ela sorria e esquadrinhava o rosto dele.
- Não posso dizer o mesmo de você, tia. Parece que fica mais nova a cada dia. – Disse ele.
- Bobo! – Ela bateu de leve no braço dele.
Eu desci do carro, deixando mais atordoado ainda.
- Você precisa ir me ver mais vezes. Quando era pequeno, não desgrudava de mim! Agora, nem quer mais saber! – Ela disse, fazendo drama.
- Para de cena, tia. Você sabe que eu te amo.
- Oi Mark. – Disse eu, cínico. Por que parecia que todo mundo tava atrás da minha mãe? , Mark... Era preciso mais de um Charlie pra cortar a onda desses babacas.
- Oi Char. Tava te esperando. – Disse Mark, consultando o relógio.
- Não sei porque você tava aqui embaixo. – Disse eu.
- Porque nós não vamos ficar lá em cima, certo? Vamos sair, porra. – Disse Mark, sorrindo.
- Olha lá o que vocês vão fazer! – Minha mãe advertiu.
- Relaxa . Eu sou um exemplo pro seu filho. – Disse Mark, dando seu melhor sorriso.
- Sei... – Disse ela. – Bom, uma boa noite pra vocês, queridos.
Ela se despediu de nós dois e entrou de novo no carro. Pelo vidro, vimos que ela sorriu pro , que retribuiu e fez a volta com o carro na direção em que viemos.
Eu e Mark seguimos caminho pela rua, procurando algum pub que parecesse bom.
- Char... Tá tudo bem pra você, né? – Perguntou ele, de repente.
- Sobre o quê? – Perguntei eu, ainda olhando para frente.
- O saindo com a sua mãe...
- Eles não estão saindo, Mark. Ela me disse que é só um jantar casual.
Continuamos andando e ele encerrou o assunto, acho que por respeito a mim.
Talvez eu devesse simplesmente desencanar e deixar a minha mãe viver a vida dela em paz.
Afinal, ela acima de qualquer pessoa, merecia ser feliz e encontrar o cara da vida dela.
Se esse cara era o , o que eu podia fazer, certo?
Errado: havia uma coisa que eu podia fazer.
Torcer para que ele não fosse um completo estúpido dessa vez.

Capítulo 11.
Enquanto eu estava com o Mark, vamos à parte da minha mãe e do (segundo ela mesma me contou).
Quando o carro parou, ele saltou primeiro para abrir a porta pra ela (típico).
Depois ele a ofereceu o braço e os dois entraram juntos pela porta de vidro do restaurante mais chique que a minha mãe já pisou na vida.
- , esse restaurante deve ser realmente caro... Se você quiser sair daqui, a gente pode comer um Big Mac... – Disse ela, baixinho para que ninguém ouvisse, enquanto os dois eram conduzidos por um garçom até a mesa reservada.
- Não se preocupe com nada. Se eu te trouxe, é porque eu quero. – Disse ele, sorrindo.
Ela sorriu instantaneamente.
Sentaram-se na mesa e observaram o cardápio, com os preços tão caros quanto minha mãe esperava.
Enquanto ela corria os olhos pelos pratos, mirava-a. Ela fingia que não estava percebendo, para evitar conversas constrangedoras.
Então, parou de olhar o cardápio e encarou-o.
- O que foi? – Perguntou ela, rindo.
- Nada. – Disse ele, olhando para as próprias mãos. Em seguida, levantou os olhos novamente em direção a ela. – Eu sentia falta de te ver assim.
- Assim como?
- Tranqüila na minha presença. – Disse ele, sorrindo. – Sem querer correr ou fugir quando eu chegasse perto.
Minha mãe olhou pra baixo.
- Desculpa por isso, . Eu não sabia como agir, depois de tudo o que aconteceu. – Ela foi sincera com ele.
- Tudo bem. O que importa é que estamos aqui agora. – Disse ele.
Ela sorriu.
Chamaram o garçom e pediram os pratos.
Houve um pequeno silêncio.
- E então... Como estão e ? Não falo com os dois há tanto tempo... – Disse minha mãe de repente.
- Estão bem, eu acho. continua vivendo o casamento, e a falta dele. – Disse , fazendo minha mãe rir.
- Quem diria que as coisas seriam assim... – Disse minha mãe.
olhou para ela, pensativo.
- Lembra quando éramos mais novos? As coisas que fazíamos? – Perguntou ele.
- Lembro sim... Todos aqueles shows de vocês!
- Depois os porres na praia...
Os dois riram.
- Você e a Jo gritando no show, geralmente com outras duas meninas que o e o arranjavam na hora. – Disse .
- Sim, eu e Joanna... – Minha mãe disse pensativa. – Éramos suas maiores fãs, com certeza!
- Vocês eram groupies, isso sim! – Disse , rindo.
- Sabe que já é a segunda vez que eu escuto isso hoje? – Perguntou ela.
- Quem disse isso?
- O Char.
sorriu.
- Queria que ele pudesse ver como nós éramos. – Disse .
- Eu e ele vimos um show de vocês que eu gravei, faz muito tempo.
- Você mostrou o luau na praia também? – Perguntou ele.
- Mostrei sim. Ele pareceu meio surpreso por me ver daquele jeito, com aquela mecha rosa no cabelo. – Disse ela.
- Eu amava aquela mecha, . – Disse , encarando-a e sorrindo.
As bochechas da minha mãe começaram a arder.
- Eu também. – Disse ela. – Eu amava ser a pessoa que eu era.
- Eu também amava a pessoa que você era. – Disse .
"Eu amo quem você é", ele pensou amargurado.
Vou me intrometer um segundo nessa merda toda aí de cima: perceberam o que a falta de diálogo faz? Ele a ama, ela definitivamente ama ele, e ninguém faz nada.
Se você perceber algo parecido com isso acontecendo na sua vida, aqui vai o conselho do Charlie: para de fazer doce e fala logo.
Voltando...
- Eu sei que amava. – Disse ela, sorrindo. – Só não soube demonstrar.
Ficaram ali se encarando.
Os pratos chegaram e os dois comeram em silêncio. Não um silêncio desagradável, mas o silêncio da tranqüilidade e do estar bem com o outro (ou pelo menos tentando estar).
Minha mãe observava dois velhinhos juntos em uma mesa. Sorriu.
- Somos tão idiotas. – Disse ela.
- Por quê? – Perguntou .
- Por desperdiçar a nossa vida nos preocupando com coisas inúteis, como trabalho, dívidas... E não nos preocuparmos com o que realmente vale a pena.
seguiu o olhar dela até a mesa onde os dois velhinhos estavam sentados. Sorriu também.
Foi então que a garota que estava tocando música ao vivo no restaurante começou a tocar "Breathe", da banda Paramore.
- Amo essa música. – Disse minha mãe.
- Quer dançar? – Perguntou .
Ela olhou em volta.
- As pessoas não estão dançando, !
- E quem se importa? – Ele estendeu a mão pra ela.
Os dois se levantaram, foram até o meio do restaurante lotado e começaram a dançar, de olhos fechados.
"Breathe for love tomorrow, cause there’s no hope for today".
Essas palavras ecoavam na cabeça da minha mãe, enquanto o perfume dele tomava conta dela.
"Respire por amor amanhã, porque não há esperança para hoje", ela repetia as palavras da música mentalmente.
Parecia dizer tanto sobre eles.
- ...
- Sim? – Perguntou ela, sem abrir os olhos.
- Acha que há esperança para o nosso amanhã? – Perguntou ele, abrindo os olhos.
Minha mãe continuou de olhos fechados, e ele observava cada movimento dela como se fosse a última vez na vida que pudesse fazer isso.
- Não sei... – Ela finalmente abriu os olhos, dando um sorriso triste para ele.
- eu... Eu te... – começou a dizer, mas por algum motivo não conseguiu terminar. Alguma coisa não deixou que ele dissesse aquelas três palavras, que poderiam resolver todos os problemas (ou não). Talvez ele não tenha dito por medo da reação dela, quem sabe?
Minha mãe preferiu não perguntar o que estava prestes a dizer. Se ele parou de falar, havia um motivo.
Então os dois continuaram dançando aquela dança do silêncio, com o peso das palavras não ditas sobre os ombros.
Qualquer som que suas gargantas tentassem emitir parecia virar poeira em suas bocas e se dissipar.
Talvez porque o momento não pedisse palavra alguma.

- Foi um jantar maravilhoso, . Obrigada. – Disse a minha mãe, quando ele parou com o carro na porta da nossa casa.
- Obrigado pela companhia. – Disse ele, abrindo um sorriso. Olhou para a mão dela no banco, e pôs a sua sobre a dela.
Minha mãe parecia prestes a sair dali, havia medo nos olhos dela. Medo de se decepcionar de novo.
- Eu senti sua falta. – Disse ele.
- Eu também. – Ela respondeu, pondo o cabelo para trás da orelha e olhando para baixo.
Ele percebeu que ela estava com vergonha.
- Não acredito que você tá com vergonha de mim! Achei que já tínhamos passado dessa fase! – Disse ele, rindo e fazendo-a gargalhar, aquela típica gargalhada que todo mundo ama (inclusive eu).
Pararam de rir e se olharam.
- Boa noite, ! – Ela chegou perto e deu-lhe um beijo no rosto.
Desceu do carro e fechou a porta, caminhando na direção de casa.
Ele ficou observando-a de costas, com a mão sobre o local que ela havia beijando. Fechou os olhos, sorrindo.
Aquele foi o primeiro beijo dela que ele conseguia em dezesseis anos.
Nem nas reuniões, quando se encontravam, ela falava direito com ele. Ela literalmente o ignorava, trocando o mínimo de palavras possíveis.
Mesmo sendo no rosto, ele não conseguia pensar em um beijo melhor em toda a sua vida.
Talvez porque esse fosse, sem dúvida, o mais esperado.
Depois que ela finalmente achou as chaves na bolsa para abrir a porta (minha mãe é muito distraída, acho que já comentei isso), ela entrou em casa e deu um breve aceno para ele, que foi embora.
Depois que fechou a porta, minha mãe tirou os dois sapatos de salto, atirou-os em algum canto da sala e jogou-se no sofá, com um sorriso idiota estampado no rosto.
Parecia uma adolescente.
"Talvez", pensou ela, "nunca seja tarde para recomeçar".
Levantou-se, ainda sorrindo, e foi tomar uma ducha para dormir.
Nunca é tarde para recomeçar... É um grande conselho para mim, não acham?

Capítulo 12.
Acordei com um barulho estrondoso naquele dia. Esfreguei os olhos: não me lembrava de onde estava.
Recapitulando a noite anterior: bebida, dança, bebida, garota morena encostada na parede. Bebida, a garota se jogando pra cima de mim, cigarros. Mais um pouco de bebida.
Será que eu estava na casa da tal garota?
Ah não, me lembrei. Eu não tive nada com ela. Minha consciência não deixou (sim, eu estava me tornando um cara com consciência).
Mas ela era gostosa, ponto. Olhar não tira pedaço.
Então restava uma opção: eu estava no quarto de hóspedes do apartamento do Mark.
Que merda de barulho era aquele?
Levantei da cama e baguncei o cabelo. Saí andando até a cozinha, de onde eu supus que o barulho vinha.
- O que você tá fazendo, seu viado? Que barulho é esse? – Fui perguntando enquanto entrava.
Cheguei à cozinha e me deparei com uma cena que era, no mínimo, estranha.
Tio estava sentado no chão, rindo, e Mark estava caído ao lado dele. Havia leite, farinha e ovos espalhados pela cozinha.
- Bom dia Char. – Tio me cumprimentou.
- Bom dia, tio. – Respondi eu.
- Vai botar uma calça, seu gay. Nós vamos sair. – Disse Mark, porque eu estava só de boxers.
- Vamos pra onde? – Perguntei eu.
- Tomar café em algum lugar. Eu e o Mark tentamos fazer um bolo, mas não deu certo, e como eu não estou vendo nada comestível por aqui... – tio disse, levantando-se e batendo as mãos na blusa para tirar a farinha.
- Vamos comer naquela padaria ali na esquina. Vai logo botar uma calça e uma blusa, Charlie! – Mark me apressou de novo.
Fui até o quarto, peguei minhas roupas, calcei meu tênis e apareci na sala.
- Vocês vão sujos de comida assim? – Perguntei eu, erguendo a sobrancelha.
Mark e tio se entreolharam.
- Só vamos trocar de blusa então. – Disse tio .
- Ah pai, to com preguiça porra. – Mark resmungou.
- Anda logo, Mark! Quer sair sujo que nem uma criança? Você tem 18 anos na cara, faça-me o favor... – tio começou as broncas e humilhações. Eu só conseguia rir da cara do Mark.
Depois que os dois foram lá pra dentro trocar as blusas, saímos do apartamento e fomos caminhando até a padaria.
Mark e tio trocaram um olhar, e Mark instantaneamente apressou o passo.
Quando me dei conta, ele já estava lá na frente, e tio caminhava ao meu lado.
- Charlie... O me contou tudo o que aconteceu. Quero que você saiba que pode contar comigo pro que precisar. – Disse ele, sorrindo.
É por isso que eu amo ter crescido com as pessoas que cresci.
- Obrigado, tio. – Disse eu. – Foi uma situação inesperada, mas acho que estou levanto na boa.
Ele sorriu de novo.
- Você e o estão se falando bem, né? Eu liguei pra ele também, pra saber mais notícias suas...
Eu fiz que sim com a cabeça.
- Foi meio difícil, mas acho que tá tudo bem agora. Minha maior preocupação não é o , tio... – Disse eu, coçando a cabeça.
- me contou sobre a Halley também. Espero que você saiba o que está fazendo, Charlie. – Disse ele.
- Pode deixar tio. Não vou ser igual ao .
Tio pareceu meio chocado com essa frase minha, mas digeriu bem depois de alguns segundos.
- Você tem que entender uma coisa, Char... O errou, mas ele é um cara legal. Eu sei disso, convivi com ele durante metade da minha vida e tenho orgulho de dizer que o conheço muito bem. Tudo o que ele fez foi errado, mas ele merece a chance de consertar. Não estou dizendo pra você colocar um sorriso no rosto e sair por aí o chamando de "papai", mas tente entender o lado dele também... – Disse tio .
- Eu entendo sim. – Assenti.
- Que bom. – Tio sorriu e deu um soquinho leve no meu braço.
Mark virou-se para ver se já tínhamos terminado de conversar. Tio fez sinal pra ele se aproximar, e ele sorriu e veio caminhando em nossa direção.
Então pusemos uma pedra naquele assunto e fomos tomar café, os três juntos.
Porém, uma idéia não parava de girar em minha mente: por que o tio apareceu assim, sem avisar, na casa do Mark?
Quer dizer, eu sei que ele não é um pai ausente, muito pelo contrário... Mas ele também não era de aparecer do nada, faltando quatro dias para terminarem as férias.
Alguma coisa me dizia que Mark estava se perguntando a mesma coisa também.
A resposta só chegaria mais tarde.

Capítulo 13.
Assim que terminamos de tomar café na padaria, eu disse ao Mark e ao tio que eu tinha que ir.
Por alguma razão, eu estava ansioso pra chegar em casa.
Ok... Vou parar de me enganar e enganar a vocês também: eu queria chegar em casa pra ver como a minha mãe estava.
Não que eu achasse que ela estava mal, pelo contrário, eu tinha certeza que ela estava bem até demais.
Esse era o problema.

Cheguei em casa, abri a porta e um grande alívio tomou conta de mim quando eu vi minha mãe sentada na mesa da cozinha, de camisola, lendo seu jornal e bebericando vagarosamente o café para não se queimar.
Sorri, reparando na cena.
Ela virou os olhos na minha direção e sorriu também.
- Como foi ontem, Char? Divertiu-se? – Perguntou ela.
- Aham. – Eu murmurei.
Cheguei perto e puxei uma cadeira, virando-a pra perto da minha mãe. Sentei ao contrário, com meus braços no encosto e a cabeça pousada sobre minhas mãos, o olhar pensativo.
- O que foi? – Perguntou ela, com um esboço de sorriso se formando no canto dos seus lábios. Ela estava morrendo de vontade de rir, eu percebi desgostoso.
- Você sabe muito bem o que foi. – Respondi eu, secamente.
- Ah Charlie, pelo amor de Deus, você acha mesmo que aconteceu alguma coisa? Foi um jantar casual, exatamente como eu disse que seria. – Disse ela, vitoriosa.
- Eu sei que não aconteceu nada! Mas isso não muda...
- Não muda o quê, garoto? – Perguntou ela, erguendo a sobrancelha exatamente como eu faço.
- Não muda que você ficou a porra do jantar inteiro olhando com cara de babaca pro . – Disse eu, fazendo uma careta.
Ela arregalou os olhos pra mim, naquela expressão de surpresa que eu conheço tão bem.
- Olha como você fala comigo, mocinho! E pra sua informação, quem ficou com cara de babaca foi ele. – Disse ela, sem conseguir esconder um sorriso.
- Agora eu tenho certeza que você também estava com cara de babaca. – Eu concluí.
- Por que isso?
- Porque se ele fez cara de babaca pra você, você deve ter ficado toda boba por ver a cara dele. – Eu concluí vitorioso.
- Vai caçar alguma coisa pra fazer! – Ela tirou rapidamente o chinelo e eu levantei correndo e rindo.
Ela atirou-o na minha bunda.
Fui tomar um banho, ligeiramente mais tranqüilo: nada havia acontecido.
Quando saí, com a toalha enrolada na cintura e os cabelos molhados e arrepiados, encontrei minha mãe na sala, tagarelando com meu pai no telefone.
- Você tinha que ver a expressão dele, ! Foi lindo! – Ela fazia gestos empolgados, seus olhos brilhavam.
Eu tinha plena certeza de que meu pai estava rindo do outro lado da linha.
- Depois ele me chamou pra dançar... – Ela parou para escutar algo que meu pai estava dizendo. Sua expressão mudou. – Claro que não, ! O que você acha que eu sou?
Mais alguns minutos.
- Você e o Charlie com a mesma paranóia! Não aconteceu nada!
Ela parou para ouvir de novo, depois sorriu.
- Eu sei que você quer que eu seja feliz, bebê.
Ela tinha essa mania estranha de chamar meu pai de "bebê" nas horas em que ele era super protetor com ela. Ridículo, na minha opinião.
Parece que ele ficou tão preocupado com ela quanto eu. A diferença estava no tipo de preocupação: ele se preocupava como um amigo, e eu como fruto do desastre que ela foi fazer quando era mais nova.
Um desastre ao qual eu sou grato, mas mesmo assim, eu não quero que se repita.
Falaram por mais algum tempo, depois ela desligou sorrindo e virou-se pra mim.
- Vai ouvir minhas conversas no telefone agora, chefe? – Perguntou ela.
Eu sorri cinicamente.
- O quer que a gente vá ao shopping com ele hoje. – Disse ela.
- Agora? – Perguntei eu. – Tá cedo!
- Não tá cedo, você é que está com essa impressão porque acordou tarde. Vai se vestir Char, porque daqui a pouco ele tá aqui.
Eu revirei os olhos.
- Um dia em família com minha mãe e meu pai. O que mais eu podia pedir? – Perguntei eu ironicamente, e ela me deu língua como uma criança de três anos faria.

Não demorou muito e meu pai estava com o carro parado na porta da nossa casa, sorrindo.
- Oi bebê! – Minha mãe entrou no banco da frente e deu um beijo estalado na bochecha dele.
- Oi ! – Ele riu.
- Oi pai. – Eu entrei no banco de trás.
- Oi Char! – Disse ele, virando-se para trás pra me olhar. – O que vocês estão com vontade de fazer?
- Achei que você tivesse nos convidado para ir ao shopping. – Disse minha mãe, confusa.
- Existem mil coisas que uma família pode fazer em um shopping, ! – Disse meu pai, rindo.
- Pra mim pode ser qualquer coisa, desde que a gente não almoce agora. Tomei café com tio e Mark na padaria da esquina, e to longe de estar com fome. – Disse eu.
- O plano A era almoçar... – Disse meu pai, pensativo.
- Qual era o plano B? – Perguntou minha mãe.
- A gente pode se divertir lá até sentir fome. – Sugeriu meu pai.
- Ótimo. – Eu e minha mãe dissemos ao mesmo tempo, e nós três rimos.
Sabem de uma coisa? Eu posso ser o filho revoltado e irresponsável que engravidou a namorada aos 16 anos, mas eu gosto de momentos como esse.
Momentos em família.

Rodamos os três pelo shopping, minha mãe parando em cada loja que ela via e meu pai parando em cada restaurante para analisar o cardápio e decidir onde iríamos almoçar.
Eu já disse que odeio momentos em família? É, eu estou me contradizendo agora.
Quando minha mãe FINALMENTE saiu da loja de sapatos (sem nada nas mãos, só pra constar) eu e meu pai estávamos entediados, sentados no banco da praça de alimentação.
- Não comprou nada? – Perguntou meu pai, com uma cara de derrotado que me deu até pena.
- Não, eles não eram muito bonitos. – Disse minha mãe, dando de ombros.
- Se não eram bonitos, por que você passou uma eternidade lá dentro? – Perguntei eu, frustrado.
- Não posso olhar as coisas agora? Acho que eu mereço! Eu nunca posso vir ao shopping durante a semana, por causa do trabalho...
- Tá bom, mãe, vamos comer. – Eu interrompi, antes que ela começasse aquele velho discurso sobre como ela tinha uma vida ocupada e pá.
- Eu achei um restaurante de massas muito bom, logo ali na frente! – Os olhos do meu pai brilharam só pela menção à palavra "comer".
- Vamos lá, então! – Disse minha mãe, dando um braço ao meu pai e o outro a mim.
O restaurante parecia ser realmente bom, então decidimos almoçar por ali mesmo.
- Há tanto tempo nós não fazíamos isso... – Disse minha mãe, quando já estávamos sentados na mesa.
- É verdade. – Eu concordei.
- Seu pai é muito compromissado. – Minha mãe implicou.
- Ei! Não vem com essa, senhora "eu tenho uma vida muito ocupada". – Ele imitou-a exatamente igual e nós rimos.
Depois meu pai ficou sério.
- Eu nunca vou estar compromissado demais ou ocupado demais pra vocês. Nunca mesmo. – Disse ele.
Minha mãe sorriu.
- OOHHN BEBÊ! – Disse ela, pulando no pescoço dele e fazendo metade do restaurante se virar na nossa direção.
Meu pai abaixou a cabeça e eu olhei para outro canto.
Minha mãe parecia indignada.
- Vocês tem vergonha de mim? Não acredito nisso!
Não agüentamos e começamos a rir, os dois.
- A gente te ama, . – Disse ele.
- Verdade. – Eu concordei.
Nossas risadas foram interrompidas pelo celular da minha mãe tocando. Ela franziu a testa.
- Ligação interurbana? Eu não conheço esse número... – Ela levantou-se para atender ao telefone fora do restaurante.
Eu e meu pai mantemos nossos olhos nela o tempo todo.
Ela estava estática, ouvindo quem quer que fosse falando do outro lado da linha. De vez em quando ela murmurava alguma coisa inaudível por causa do vidro. Demorou um certo tempo.
A expressão dela mudou, a preocupação espalhou-se pelos seus olhos.
Falou mais alguma coisa, depois desligou e entrou novamente.
- O que foi, ? – Meu pai perguntou, preocupado.
- Você não acreditaria se eu dissesse. – Disse ela.
- Tenta. – Disse eu.
Ela pareceu refletir por um momento.
- Era a Joanna no telefone, .
O rosto do meu pai encheu-se de surpresa.
- A Jo? Mãe do Mark? – Perguntou ele.
- Sim. Ela está com problemas. – Disse minha mãe.
- Logo vi que era alguma coisa, ela não telefona nem pro filho. Que tipo de problemas? – Perguntou meu pai.
- Parece que o homem com quem ela estava foi embora e deixou-a sem nada. – Disse minha mãe.
Os olhos do meu pai se arregalaram.
Eu estava muito quieto, achando melhor não me meter em nada disso.
- Ela precisa de dinheiro? – Perguntou ele.
- Não foi isso que ela pediu. Ela... Estará chegando daqui a três dias. Ela está vindo de Wembley pra ficar na minha casa. – Disse minha mãe, tentando parecer tranqüila, sem sucesso.
Meu pai encostou-se na cadeira, rígido, com os olhos vidrados.
- Você sabe que isso pode trazer problemas pro ... – Disse ele, tão baixo que eu tive que inclinar-me pra frente para poder ouvir.
- Acho que ele já sabe, só não sei como. Além do mais, eu não tenho escolha. Jo era minha melhor amiga, agora está com dificuldades. Não posso permitir. – Disse minha mãe.
Eu estava perplexo. Então o tio sabia? Acho que foi por isso que ele apareceu hoje mais cedo na casa do Mark. Ele devia estar planejando contar ao filho assim que eu fosse embora.
- Por que ela não fica na casa do Mark? – Eu me meti dessa vez. Isso não fazia o menor sentido, ela devia dizer ao próprio filho que estava voltando!
- Simplesmente porque ele não sabe que ela está vindo. Aparentemente a Joanna não teve coragem de pedir a ele, por não ligar pra saber notícias do Mark há um período considerável de tempo. – Respondeu minha mãe, olhando para baixo.
- Não acredito nisso. – Meu pai dizia, ainda baixo demais.
Eu estava pensativo. Qual seria a reação do Mark quando ele visse a mãe? E a reação do tio ?
Espera aí... Pra começar, como o tio sabia? Estava tudo muito confuso pra mim.
Mal sabia eu que esse era, sem dúvida, o início dos problemas.
Grandes problemas.
Comemos em silêncio e assim ficamos até o final do dia, quando meu pai nos deixou em casa.
Podíamos sentir as mudanças chegando. Só não sabíamos se eram boas ou ruins.

Capítulo 14.
Era isso: as férias haviam acabado.
Eu fechei os olhos e respirei fundo, entrando novamente na escola depois de tanto tempo.
Pensei nas minhas antigas preocupações, quando eu atravessei essa porta pela última vez. Tudo o que eu pensava parecia realmente idiota, se comparado aos meus pensamentos agora.
Minha preocupação máxima era o que fazer sexta à noite com Mark.
Agora, minha namorada está grávida.
E meu pai não era realmente meu pai.
Uma mudança radical, não é? Eu sei.
Conforme eu passava pelos corredores e acenava para os mesmos rostos de sempre, um pensamento desagradável me ocorria: Halley estava fora da escola.
E grande parte dessa culpa era absolutamente minha.
Meus pensamentos foram interrompidos por um grupo de meninas que passavam e acenavam pra mim também.
As líderes de torcida.
Eu sorri falsamente e acenei de volta, sem prestar mais atenção nelas do que eu normalmente prestaria.
Foi quando eu estava quase passando pelo grupo que eu ouvi o que a loira, mais alta, estava falando:
- Meninas, vocês não sabem...
- O que foi? – Uma outra perguntou.
- Sabe aquela menina ruiva, meio estranha, branquinha? Aquela Halley, do segundo ano?
- O que tem ela? – Perguntou uma outra.
Meus punhos cerraram-se instantaneamente.
- Dizem que ela está grávida!
- NÃO? SÉRIO?
A conversa parecia meio ensaiada. Como um grande teatro, esperando por mim.
- Como você sabe disso? – Perguntou uma baixinha.
- A amiga da minha mãe é vizinha dela. Parece que Charlie é um grande corno...
- Como alguém tão perfeito como ele pode estar com alguém tão vadia quanto ela?
A última parte foi dita especialmente em minha direção. Elas estavam me testando. Haviam chamado a Halley de quê?
- O filho é meu. – Disse eu, alto o suficiente para que elas me ouvissem sem que eu tivesse que me aproximar. – E com quem eu estou ou não, é problema meu.
Elas trocaram olhares nervosos e saíram andando em bando, falando bem baixo.
Eu podia sentir a raiva como veneno nas minhas veias.
Ótimo. Questão de algumas horas para a escola inteira saber.
Ao contrário do que vocês devem estar pensando, eu não sou um loser qualquer na escola. Pelo contrário: eu sou até famoso demais, em parte pela coisa do meu pai ser um rockstar e pá (meus dois pais, mas ninguém sabia dessa parte).
No começo dessa história, quando eu contei sobre Mark, eu disse que ele era meu único amigo.
Reparem bem, meu único AMIGO. Colegas eu tinha até demais.
Continuei caminhando, enquanto algumas pessoas sorriam e falavam coisas como "cabelo maneiro" e etc.
Eu não estava realmente interessado no que elas tivessem a dizer.
Peguei meus horários novos e me dirigi à primeira aula: Biologia.
Entrei na sala e mais rostos sorridentes surgiram, me convidando para sentar aqui ou ali.
Ao invés disso, fui para a última mesa. Eu só queria um pouco de paz.
Na metade da aula, já não estava mais prestando atenção.
Eu precisava dela.
Arranquei uma folha de papel do caderno e pensei em escrever uma carta. Eu sei que eu não tinha como enviar, porque eu não sabia nem ao menos o endereço.
Mas era boa essa ilusão de que ela leria. Que ela de alguma forma saberia o que eu estava passando sem ela.
"Halley,
Meus dias aqui andam piores do que você possa imaginar.
Sinto sua falta, todos os dias..."
O começo foi mais ou menos assim.
Pedi licença da aula, coloquei a folha no bolso e fui para o banheiro. A voz da professora estava me incomodando, e eu precisava pensar para escrever.
Perdi a conta de quantos cigarros eu fumei naquele banheiro.
Essa seria a primeira de muitas cartas não lidas.

Cheguei em casa e minha mãe estava sentada no sofá, com o olhar perdido.
Ela estava assim desde o dia em que tia Joanna havia ligado.
Conforme o planejado, ela chegaria amanhã.
- Oi mãe. – Eu apareci na sala, caminhei até ela e beijei-lhe a testa.
- Oi querido. – Ela disse, olhando-me e sorrindo.
Estava (inutilmente) tentando esconder a preocupação que era visível em seus olhos.
- O vai passar aqui daqui a pouco, eu e ele vamos sair pra conversar um pouco. Tudo bem se você esquentar alguma coisa pra comer hoje? – Perguntou ela.
- Tudo bem sim. Tia Julie vai com vocês? – Perguntei eu, referindo-me à esposa de tio .
- Não, ela está meio cansada, segundo o . Uma pena, ela realmente devia ir. Julie sempre me faz sorrir. – Disse minha mãe.
Eu sentei-me ao lado dela.
- Eu também te faço sorrir. – Disse eu, mirando-a.
- Faz sim. – Ela apoiou a cabeça nos meus ombros.
- Fica calma, mãe. Vai ficar tudo bem. O tio sempre tem boas idéias sobre o que fazer, tenho certeza que ele vai pensar em alguma coisa. – Eu encorajei-a, sorrindo.
- É incrível como você entende as minhas atitudes. É exatamente por isso que nós vamos sair hoje.
Mal ela terminou de falar e a campainha tocou.
Sem que eu tivesse tempo para piscar os olhos, ela já estava abrindo a porta.
- Ah, ! – Ela abraçou tio , que fechou os olhos.
A preocupação era visível no rosto dele também.
- ... Quem diria que o passado bateria à nossa porta assim, de repente. – Disse ele, com um sorriso triste.
- Nós vamos dar um jeito de não arranjar problemas. – Disse minha mãe, confiante.
Ele olhou pra ela com uma expressão duvidosa.
- Ok... QUASE não arranjar problemas! – Ela riu, e ele também.
Em seguida tio virou-se pra mim.
- Charlie! – Ele sorriu.
- Oi tio. – Eu fui até lá cumprimentá-lo.
- Como estão as coisas? – Perguntou ele.
- Na medida do possível. – Eu dei de ombros.
- Qualquer coisa, se você precisar... Pode contar comigo.
Eu sorri sincero.
- Falando nisso... Você avisou ao sobre a Jo? – Perguntou tio , cauteloso.
- Eu liguei pra ele. Eu, ele e vamos buscá-la no aeroporto. – Disse minha mãe.
"Que trio", pensei eu.
- Bom, então... Se cuida Char. – Tio bagunçou de leve meus cabelos.
- Tchau, filho. Tem tudo o que você precisar na geladeira, deixa as panelas na pia que depois eu lavo, e também...
- Vamos, . Seu filho tem 16 anos! – Tio interrompeu-a, puxando-a pela mão.
Eu esperei até os dois entrarem no elevador e fechei a porta.
Pensei no Mark.
Eu descobrindo sobre o meu pai e ele redescobrindo a mãe.
Por que nós não podíamos ter famílias normais?

Minha mãe voltou tarde pra casa.
Ela e tio acabaram chamando todo mundo para sair e conversar sobre o assunto, e parece que tio havia perdido o controle na conversa.
Ouvi minha mãe chorar a noite inteira.
Tudo estava tão confuso!
Quando eu fui pra escola no outro dia, me despedi dela sabendo o dia difícil que ela teria pela frente.
Meu pai já estava chegando lá em casa com o para buscá-la.
Tio não ia pra ficar com a tia Julie, que parecia estar doente mesmo, apesar de não ser nada grave.
Enquanto eu estava na escola, muita coisa aconteceu...
Assim que meu pai buzinou na porta de casa, minha mãe saiu.
O vento frio de Londres cortava o rosto dela, fazendo-a apertar o casaco sobre o corpo.
Andou até o carro e entrou no banco de trás.
Meu pai estava no volante, e estava logo ao lado.
- Bom dia, gente. – Disse ela, tentando sorrir.
- Bom dia. – Os dois sorriram nervosamente. Todos estavam tensos por causa da tia Joanna.
Foram o caminho todo até o aeroporto em silêncio absoluto.
- , acho que ela vai desembarcar por ali... – Meu pai apontou para o portão de desembarque B.
- Ali é a saída do vôo de Wembley? – Perguntou minha mãe.
- É sim. – afirmou.
- Então só nos resta esperar. – Minha mãe disse, com as mãos suando.
reparou que ela estava nervosa e segurou cautelosamente a mão dela, fazendo carinho com o polegar.
Meu pai deu um sorriso discreto ao ver as mãos dos dois entrelaçadas.
Os três sentaram-se em um dos bancos espalhados pelo local.
Não demorou muito e tia Joanna apareceu saindo pelo portão: Os cabelos negros e aveludados caíam-lhe pelas costas, os mesmos olhos grandes e azuis vasculhavam o aeroporto à procura de rostos conhecidos.
Havia envelhecido relativamente pouco.
Seus olhos encontraram os da minha mãe, e ela sorriu um sorriso triste.
Porém, quando estava caminhando na direção da minha mãe, do meu pai e do (a essa altura já estavam os três de pé, em sobressalto), uma menininha de cabelos lisos na altura do queixo, tão loira que seus fios eram quase brancos e de grandes olhos azuis correu e segurou a mão dela.
Tia Joanna vacilou.
Meu pai arregalou os olhos.
A respiração de ficou mais pesada.
Minha mãe parecia prestes a ter um enfarto, apesar de ser bem nova pra isso.
Tia Joanna e a menina caminharam na direção dos três.
Quando estavam todos próximos, ficaram encarando-se sem saber o que dizer.
A menininha estava envergonhada, abraçada à perna de tia Jo.
- ... – Ela murmurou, deixando as lágrimas caírem de seus olhos.
Minha mãe ficou rígida, tentando não chorar.
Obviamente, não conseguiu.
Tia Jo lançou-se em um abraço apertado, envolvendo minha mãe, ainda com a menina agarrada em suas pernas.
- Eu senti sua falta... – Minha mãe disse vacilante.
- Eu também. – Respondeu tia Joanna.
Em seguida, abraçou e meu pai também.
- Vocês não envelhecem, só ficam mais bonitos! – Disse ela, em um sorriso com lágrimas.
Após outros sorrisos cheios de saudade, todos se viraram para a menina.
- Essa é a Suzan, minha filha. – Disse tia Joanna, segurando a mão da criança, que não devia ter mais que seis anos de idade.
Minha mãe engoliu em seco e sorriu.
Abaixou-se para falar com a menina.
- Oi Suzan, eu sou . Sua mãe não me disse que tinha uma filha tão linda.
A criança sorriu um sorriso sincero e puro, de quem não entende o que está acontecendo.
- Obrigada. – Ela sussurrou, os olhos azuis brilhando.
- Ela tem os seus olhos, Jo. – Meu pai disse, sorrindo para a pequena.
- Vamos pegar as suas malas... Temos muito que conversar, todos nós. – disse, sorrindo.
Tia Joanna quase recomeçou a chorar.
Ela devia estar se sentindo hipócrita.
Os amigos que ela abandonou estavam ali, ajudando-a quando ela mais precisava.
Meu pai e carregaram as malas dela e as de Suzan para o carro.
Minha mãe parecia preocupada.
Ela não estava esperando uma criança com tia Joanna.
O problema não era espaço em casa, de maneira nenhuma.
Havia dois problemas, potencialmente difíceis de serem resolvidos: problema e problema Mark.
Minha opinião sobre tudo isso?
Pra mim, todos nessa história não passam de uns merdas.
Eu sei que estou nesse meio.
Fazer o quê? Nessa história de mentiras, a única pessoa completamente inocente entre todos nós era uma menininha loirinha com grandes olhos azuis.
Uma menininha que mudaria a minha vida para sempre.

Capítulo 15.
Lá estava eu, encarando aqueles ponteiros pela milésima vez.
Não haviam se passado nem cinco minutos.
Tempo de merda.
Mudei de posição no sofá, de novo. A televisão ligada era apenas decorativa, eu não fazia idéia do que estava passando.
A verdade era que eu estava preocupado com a minha mãe.
Como ela poderia hospedar tia Joanna aqui em casa, por tempo indeterminado, sem magoar tio ?
era uma mulher com problemas.
Eu era o filho, com problemas maiores ainda.
Como Mark reagiria quando soubesse que a mãe dele estava na minha casa? Não gostava nem de pensar no assunto.
E pra melhorar a minha ansiedade absoluta, meu pai, minha mãe e ainda não haviam voltado daquele maldito aeroporto.
Ou talvez a culpa fosse do trânsito. A porra do trânsito de Londres.
Foi então que eu ouvi um carro se aproximando da entrada.
Levantei correndo do sofá para ver quem era.
A campainha tocou.
Abri a porta, e uma abatida entrou em casa, com os ombros caídos.
- Mãe? Cadê os outros? – Eu perguntei.
- Estão tirando as malas do carro. Escuta, Char... – Ela disse, colocando as mãos nos meus ombros. – Não conte ao Mark. Não ainda.
Eu franzi o cenho.
- Não contar o quê?
Ela baixou os olhos.
- Você vai ver. Não posso te explicar agora, eles estão logo ali fora. Preciso fazer um chá, um chá bem forte... – Minha mãe foi direto para a cozinha, nessa espécie de transe.
Não contar ao Mark? Sobre o quê, sobre a mãe dele estar aqui?
Eu pensei que tio já tivesse feito isso.
As palavras da minha mãe não faziam sentido algum.
Foi então que meu pai entrou pela porta, carregando uma das malas.
logo em seguida, caminhando outra.
Meu pai nem olhou na minha direção, e eu senti que alguma coisa errada estava acontecendo. Algo não tinha saído como o planejado.
lançou um olhar furtivo na minha direção.
Eu sustentei o olhar, tentando tirar dele o máximo de informações possíveis, mas aqueles olhos idênticos aos meus não me disseram nada.
Era um olhar de alerta, e só.
Foi então que tia Jo entrou pela porta, de mãos dadas com uma menininha loira.
- CHARLIE! – Tia Joanna atirou-se em um abraço apertado.
- Tia Jo, quanto tempo... – Eu disse, meio sem graça.
- Como você está grande! – Ela disse, afastando-se para me olhar.
Enquanto ela reparava no meu crescimento, eu também reparava nela.
Tia Joanna continuava linda, como sempre fora, exceto por alguns poucos sinais de envelhecimento e olheiras fortes sob os olhos, demonstrando sua falta de sono.
Seus cabelos negros continuavam os mesmos, e seus olhos incrivelmente azuis também.
Olhos como os da menina, que estava agarrada à mão dela, exceto quando ela me abraçou.
Eu mirei a garota do cabelo no queixo, tão loiro que parecia ser branco.
Então a ficha caiu.
Oh não.
- Charlie, essa é minha filha Suzan. – Disse ela.
A menininha me encarou e, muito timidamente, sorriu.
Não consegui corresponder.
O sorriso da criança foi desaparecendo.
Minha cabeça estava em outro lugar. Em uma outra pessoa, pra ser mais exato: Mark.
Isso era, definitivamente, a pior coisa que podia ter acontecido.
Tia Joanna estava visivelmente sem graça.
- Venha tomar um chá, está pronto! – Minha mãe apareceu na porta da cozinha, chamando tia Jo.
Na hora certa. Amo a minha mãe.
Meu pai e juntaram-se a nós na mesa, em silêncio.
Tia Joanna perguntava à minha mãe o que havia acontecido nos últimos tempos, enquanto ela estava fora.
Últimos tempos? Praticamente a minha vida inteira.
- Ah, Jo... Eu continuo sendo a mesma de sempre. – Minha mãe respondeu.
Tia Joanna parecia estar fazendo uma pergunta séria, com os olhos.
Ela discretamente olhou pra mim, em seguida para .
Um gesto que ninguém nunca teria reparado, a não ser que estivesse prestando atenção na conversa.
Claro.
Ela não sabia que eu já sabia.
- Está tudo resolvido. Eu já sei. – Eu me meti, para evitar constrangimento pra minha mãe.
O que tia Joanna estava pensando? Que minha mãe ia agir como se elas ainda fossem melhores amigas, e sair contando tudo?
E o pior... Na presença do assunto? (Lê-se: eu).
Ela arregalou os olhos de surpresa.
- Fico feliz em ouvir isso, Charlie. Pensei que sua mãe e nunca fossem tomar coragem pra pôr um pai na sua vida. – Disse tia Jo.
Meu pai levantou os olhos pra ela.
- O Char sempre me teve na vida dele, Joanna. Ele é meu filho, não se esqueça.
Tia Joanna parecia se desculpar.
- Perdão, . Eu só quis dizer... Bem, vocês sabem...
Ela estava sem graça.
- Nós entendemos, Jo. Achamos que foi melhor ele saber também. – pôs um ponto final no assunto.
Nota mental: agradecer ao por acabar com essa conversa.
Tia Joanna parecia querer perguntar mais alguma coisa.
- Nas poucas vezes que eu conversei com a sua mãe no telefone... – Ela começou, dirigindo-se a mim. – Ela me disse que você e Mark eram muito amigos.
- Nós somos. – Respondi eu.
- Como ele está, Char? – Perguntou ela, a ansiedade transparecendo.
Eu hesitei. Não ia deixar que ela pensasse que fez falta na vida dele.
- Ele está perfeitamente bem, tia. Exatamente como estava ontem, anteontem, mês passado ou ano passado.
Minha mãe lançou-me um olhar de reprovação mortal.
Talvez eu tivesse sido um pouco rude.
Ok... MUITO rude.
- Eu to meio cansado. Vou deitar. – Disse eu. – Boa noite pra vocês.
Eu levantei-me da mesa, os grandes olhos azuis de Suzan me encarando.
Passei pelo corredor e entrei no meu quarto, fechando a porta de leve para não ser mais mal educado que já havia sido.
"Onde está o pai dessa menina?", eu me perguntava no escuro.
"Mark não vai gostar disso. Tio vai surtar".
Meus pensamentos não estavam me ajudando.
Eu precisava falar com alguém.
Instantaneamente, meus pensamentos voaram para aquela pessoa, aquela que me ouviria em uma hora dessas, como sempre havia feito: Halley.
Mas ela não estava aqui. A culpa era minha.
Mais um ótimo pensamento. Yeah.
Tateei no escuro, pela escrivaninha, á procura de um caderno.
Achei.
Acendi o abajur e peguei uma caneta.

"Halley,
Estou com problemas.
Eu sei, eu sei... Provavelmente você está fazendo aquela cara de 'você merece', mas mesmo assim, eu queria que você me escutasse.
Tia Joanna, mãe do Mark, voltou.
Não, você não está lendo errado: ela voltou.
Com todos os problemas que isso podia gerar, tem um maior: ela voltou com uma criança.
Deve ter uns seis anos de idade..."

Continuei aquela carta, escrevendo e escrevendo, porém tendo em mente que ninguém jamais a leria.
O pensamento de uma linda garota ruiva lendo-a, com o rosto cheio de preocupação, encheu meu peito.
Pelo menos em meus pensamentos, ela se importava comigo.
Em meus pensamentos, ela havia deixado um endereço e um telefone, ao menos.
Em meus pensamentos, ela voltaria logo, porque estava com saudades.
Terminei a carta e enfiei-a em uma gaveta, juntamente com a outra.
Tirei minha camisa e minhas calças, ficando apenas de boxers.
Estava cansado demais para fazer qualquer outra coisa.
Joguei-me na cama, dormindo um sonho leve e perturbado.

Um grito me acordou de madrugada.
Um grito agudo.
Levantei correndo, batendo o joelho na quina da cama.
- Merda!
Tinha certeza de que uma marca roxa seria deixada ali.
Corri, ainda assustado pelo grito, e girei a maçaneta.
Um choro baixo.
Vinha da sala.
Avancei pelo corredor, acendendo a luz.
Lá estava ela: Suzan, no sofá, coberta até o nariz, os olhos arregalados de medo.
Pequenas gotas de lágrima escorriam pelos cantos do seu rosto.
Suspirei.
Caminhei até lá e sentei-me ao seu lado.
- Tá tudo bem?
Ela não me respondeu. Seus olhos azuis viraram-se para mim.
- Onde está a sua mãe? – Perguntei eu, com a maior calma do mundo.
A menina hesitou.
- Ela tá com a tia . Elas estavam conversando. – A fina voz da menina saiu falhada por causa do choro.
- Acha que pode voltar a dormir? – Perguntei eu.
Ela me olhou, como se estivesse pensando em alguma coisa, sem ter certeza se devia falar.
Eu esperei.
- Você pode ficar aqui comigo, enquanto eu não durmo? – Perguntou ela.
Suspirei.
Eu não podia simplesmente ir dormir e deixá-la ali, provavelmente confusa e em um lugar que ela não conhecia.
- Chega pra lá. – Disse eu, encaixando meu corpo ligeiramente grande no sofá com ela e cobrindo-a.
Os seus olhos ainda estavam arregalados de medo.
- Quer que eu apague a luz pra você dormir? – Perguntei eu.
- Não. – Ela disse depressa, mal me deixando terminar a frase.
- Ok.
Esperei. Suzan estava quase dormindo agora.
A mão dela estava firmemente presa à minha.
Parecia tão pequena, tão delicada...
- Eu me esqueci o seu nome. – Disse ela, bem baixo.
Estava naquela fase do sono, entre a consciência e os sonhos.
- Charlie. – Disse eu, sorrindo.
Aquilo me deixou impressionado.
Como uma criança é capaz de confiar em alguém que nem ao menos sabe o nome?
- Boa noite, Char. – Ela disse, finalmente fechando os olhos.
Eu fiquei atordoado.
Char? Como ela sabia que era dessa forma que eu preferia ser chamado?
Naquele instante, eu vi que ela era realmente observadora: deve ter ouvido alguém me chamar assim.
Sorri, levantei-me bem devagar e fui para o meu quarto.
Por algum motivo qualquer, não consegui apagar a luz da sala, mesmo sabendo que Suzan já estava dormindo.

Capítulo 16.
Levantei na manhã seguinte e me arrumei para o colégio.
Hoje meu dia seria uma merda, eu sabia disso.
A essa altura, metade da escola devia saber que a Halley estava grávida.
Metade da escola devia saber que eu era o pai.
E o mais estranho: metade de mim não se importava nem um pouco.
A escola parecia ser extremamente insignificante perto de todo o resto agora.
Fui para a cozinha tomar meu café.
Tia Joanna estava lá, dando biscoitos à Suzan.
- Bom dia, Charlie. – Disse tia Joanna.
- Bom dia, tia Jo. – Eu respondi, ainda meio sem graça por ter sido rude noite passada.
- Oi Char. – Suzan abriu um sorriso.
Não pude evitar sorrir de volta.
- Tia, sobre noite passada... Eu realmente sinto muito, eu não pensei no que falava e...
Tia Joanna fez um gesto com as mãos para que eu parasse.
- Esquece isso, querido. Nada que eu não merecesse escutar. – Disse ela, dando um sorriso triste.
Eu esperei.
- Além do mais, eu vou procurar meu filho hoje mesmo. – Disse ela.
Sua voz estava decidida.
Eu gelei.
- Tia, você não acha melhor que eu ligue pro Mark e...
- Não, Char. Você e sua mãe já estão fazendo demais por mim.
Ela não olhava para o meu rosto.
Parecia estar agradecida, mas sua expressão dizia mais 'não se meta' do que 'muito obrigada'.
- Minha mãe já acordou? – Mudei de assunto.
- Ainda não. Fomos dormir tarde ontem, os meninos ficaram aqui por bastante tempo. – Disse ela.
- Ok... Vou indo então. Tchau pra vocês. – Eu disse, referindo-me a ela e a Suzan.
- Tchau Charlie. – Disse tia Joanna.
- Tchau Char! – Ouvi Suzan dizer enquanto eu fechava a porta.
Fui caminhando até a escola, não quis pegar o ônibus essa manhã.
Eu queria demorar mais, e deu certo: o trajeto nunca pareceu tão longo.
Mas na minha vida, nada tão bom dura pra sempre.
Respirei fundo, como ontem, e entrei pela porta.
Sabe aquela metade que eu disse que não se importava se soubessem que a Halley estava grávida de mim?
Pois é.
A metade que se importa começou a gritar, raivosa, em meu peito.

As aulas foram a mesma droga de sempre, eu sentei atrás como no dia anterior, dormi como no dia anterior e fumei no banheiro como no dia anterior.
Podia ser o mesmo dia, se meus pensamentos não estivessem um pouco diferentes.
Agora, não era só com a Halley que eu me preocupava: era com Mark também.
Ele ia surtar, eu tinha certeza disso.
Passei o tempo inteiro me concentrando em mais uma carta frustrada que nunca seria lida, ignorando os olhares sobre mim.
Obviamente, todos já sabiam.

Saí da escola naquele dia, feliz por ninguém ter vindo me perguntar sobre nada.
Isso faria a parte que se importa se rebelar e arrebentar a cara de alguém.
Ela parecia estar sob controle agora.
No caminho para casa, não peguei o ônibus de novo.
Não queria chegar rápido: sabia que haveria mais problemas por lá.
Era só isso, pra onde quer que eu fosse: problemas, problemas, problemas.
Alguns nem eram conseqüência dos meus atos.
Outros eram inteiramente culpa minha.
Respirei fundo.
"Pare com isso, Charlie , seu covarde! Sua mãe precisa de você agora..." a consciência dizia em minha cabeça.
Minha mãe.
Ela estava em uma fria.
E o que mais me agoniava: ela não tinha, pelo menos diretamente, nada haver com isso.
Mas parecia que as coisas insistiam em cair em cima dela.
Como se ela atraísse esses problemas, ou algo assim.
Pela primeira vez, o maior problema na vida dela não era eu. Houve um momentâneo alívio.
O trajeto não demorou tanto quanto eu esperava: lá estava a porta da minha casa.
E sentada na frente, com os cachos loiros caídos pelas costas, estava tia Julie (esposa do tio ).
Ela mantinha o rosto sereno, como sempre, mas algo em sua expressão não estava no lugar.
Como se ela estivesse preocupada.
Até que ela me viu.
- Charlie, meu querido! – Tia Julie sorriu e me puxou para um abraço, assim que eu estava perto o suficiente.
- Oi tia. – Disse eu, sorrindo. Fazia um tempo que eu não a via.
- Ainda fumando? – Perguntou ela, seu rosto ficando sério.
Claro, eu devia ter pensado em tirar o casaco. Ela sentiu o cheiro.
Levantei os ombros, envergonhado.
Tia Julie sempre foi mais atenta que a minha mãe.
Aliás, qualquer um era.
- Só não vou falar sobre isso com a agora porque eu acho que ela já tem coisas demais na cabeça. – Disse ela.
Seus olhos escuros me repreendiam veementemente.
Até que seu rosto se suavizou.
- Que bom que você chegou, Char. Eu preciso conversar com alguém enquanto espero. – Disse ela.
- Espera o quê? – Perguntei eu, com a testa franzida.
- levou Joanna para a casa de Mark agora a pouco. Ele disse que precisava ajudar em alguma coisa, já que todo mundo estava ajudando. Sua mãe foi até a casa do fazer não sei o quê, e não tive notícias nem de nem de hoje, mas acho que estava com tentando acalmá-lo. Na última reunião onde Joanna foi citada, ele não reagiu muito bem. Só estamos eu e Suzan aqui. – Disse ela. – Esperando por notícias.
Eu parei um momento para absorver tudo aquilo.
Suzan apareceu correndo pela porta, sorrindo.
- Charlie, vem ver o desenho que eu fiz pra você! – Sua pequena mãozinha já me puxava para dentro de casa, passando por tia Julie.
Mas eu estava ausente em pensamentos.
estava tentando acalmar tio ?
Provavelmente porque ele já sabia que tia Joanna pretendia falar com Mark.
Minha mãe, possivelmente se afundando em lágrimas na casa do meu pai? Nada bom.
Tia Joanna indo para a casa do Mark com tio ?
Péssima idéia.

Mark, tia Joanna e tio me explicaram isso com detalhes em um tempo futuro, quando eu perguntei como havia sido.
Então eu vou repassar aqui a minha versão dos fatos...
Tio parou na porta do apartamento.
- Obrigada, . Eu sigo sozinha daqui. – Disse tia Joanna, sorrindo nervosamente e tentando tirar o cinto.
Não conseguia: suas mãos tremiam.
Tio inclinou-se e desafivelou o cinto pra ela.
- Tem certeza que não quer que eu vá contigo? – Perguntou ele.
- Tenho sim. Eu preciso conversar com o Mark, sozinha. – Disse tia Joanna, saindo pela porta.
Virou-se mais uma vez.
- Me deseje sorte.
Bateu a porta e foi caminhando, dura, até a recepção do prédio.
"Estou torcendo por você", tio pensou, debruçando-se sobre o volante.
Tia Joanna pediu para que o porteiro avisasse sua chegada.
Devem ter sido momentos de agonia profunda.
Por algum milagre, ela estava autorizada a subir.
E assim o fez.
Ficou parada na frente da porta por longos minutos, sem saber se tocava e encarava o filho ou se saía correndo para abraçar tio , chorar e pedir que ele subisse com ela.
A escolha foi a opção A.
A campainha soou estridente, cortando o silêncio no andar e o silêncio dentro da própria Joanna.
Mark abriu a porta e encarou a mãe, pela primeira vez em bastante tempo.
Tia Joanna quase engasgou quando viu o filho: era o tio mais jovem.
O pelo qual ela se apaixonou e casou.
Apenas um garoto.
Recuperou o fôlego, lembrando-se de que era Mark ali, seu filho.
- Oi Joanna. – Disse ele, sério.
Confesso que fiquei impressionado por ele não ter batido a porta na cara dela.
Mark é bem mais calmo que eu, mas não tão calmo assim.
- Oi filho. – Disse ela, tão baixo que ele teve que fazer força para escutar.
"Filho". Ele não gostou disso nem um pouco.
- Minha mãe se chama , e eu não a vejo em nenhum lugar por aqui. – Disse ele, rude.
Outch.
Não sei se tia Jo estava preparada pra saber o quanto Mark era apegado a minha mãe.
- Posso entrar para conversarmos? – Perguntou ela.
Mark não respondeu, apenas abriu passagem.
Os olhos azuis da mãe o encararam quando ela passou pela porta.
Tia Joanna observava cada detalhe da sala bagunçada, com um sorriso escondido no rosto: estava na casa do seu filho.
- O que te traz aqui? – Perguntou Mark, sentando-se no sofá.
Ele estava tentando parecer indiferente.
Mas suas atitudes não eram refletidas em seus olhos.
- É uma longa história, meu fi... Mark. – Corrigiu-se ela.
- Tenho todo o tempo do mundo. – Disse ele, tentando manter a voz uniforme.
Ela sentou-se em uma cadeira que ele indicou com a cabeça.
Tia Joanna respirou fundo.
- Eu liguei pro seu pai pra avisar que eu estava voltando, por isso que ele sabia e provavelmente falou pra você, porque você não pareceu surpreso em me ver. não atendeu ao telefone, acho que não estava em casa... Então eu deixei uma mensagem na secretária eletrônica e liguei para a porque não tive coragem de ligar pra você. Dos meus amigos daqui, ela era a mais próxima de mim. Eu conversava com ela raramente no telefone, o que já é muito mais do que eu fazia com Julie.
Ela esperou alguma reação da parte dele, talvez por ter mencionado que ligava para a amiga e não para ele.
Ele não reagiu de forma alguma.
- Eu estava vivendo em Wembley com meu marido... – Ela estava cautelosa. – Até que ele foi embora e levou todo o meu dinheiro. Eu estava cheia de dívidas, desempregada, e em breve sem ter onde morar, pois o apartamento seria tomado para quitar as dívidas.
Ela olhou para as próprias mãos.
Ele fez um som baixo com a boca.
- Você ia pedir pro meu pai te hospedar, depois de tudo o que você fez? – Perguntou Mark.
Joanna mordeu os lábios e encarou as próprias mãos, que tremiam nervosamente sobre o seu colo. Isso porque ela ainda não havia chegado à pior parte.
- Não, eu só queria avisar pra ele não ficar surpreso quando soubesse. Além do mais, eu o conheço, e sei que se eu não contasse e deixasse que outra pessoa fizesse isso quando eu já estivesse aqui, seria muito pior. E foi por isso que eu pedi ajuda a . Seria mais fácil pedir dinheiro, mas eu não consegui fazer isso. Além do mais, eu queria deixar aquele lugar, porque tudo ali me lembrava... Dele.
Mark encarou-a, a raiva transbordando dos seus olhos.
- Mais alguma coisa? – Perguntou ele, praticamente sibilando (eu sentiria medo nessa hora).
- Sim, mais uma coisa... Talvez a mais importante.
- Vá em frente.
Ela encarou-o mais profundamente.
- Eu tive outra filha, Mark. Você tem uma irmã.
Essa não.
Que merda.

Capítulo 17.
- Eu estou angustiada, ! – Minha mãe dizia, caminhando pra lá e pra cá na sala da casa do meu pai.
Meu pai estava pacientemente sentado no sofá, observando o ritmo descompassado dela.
- Você está é cavando um buraco no meu chão. – Disse ele, calmamente, com um leve sorriso.
Ela parou de fazer o percurso que estava fazendo pela última meia hora e encarou-o.
Depois, ela começou a rir nervosamente.
- Desculpa, bebê. Eu só estou preocupada com a reação do Mark. – Disse minha mãe, sentando-se ao lado do meu pai no sofá e encostando a cabeça no ombro dele.
Ele beijou a testa dela, passando seus braços ao redor de minha mãe.
- Ele é como um filho pra mim... A idéia de que ele pode se magoar não me faz bem. – Disse ela.
- , eu sei que eu devia estar te apoiando... Mas apoiar alguém não significa mentir pra essa pessoa: ele vai se magoar, você querendo ou não. – Disse meu pai, mantendo a voz calma.
Minha mãe encarou-o.
- Você realmente não ajudou falando isso.
Ele riu, um riso seco de alguém que está passando por uma situação difícil e delicada.
- Eu avisei. – Disse meu pai.
Minha mãe fechou os olhos e tentou relaxar, sem nenhuma esperança.
- Eu não estou preocupada só com o Mark. Eu sei que a Joanna fez todas as coisas erradas que uma pessoa podia ter feito, mas eu ainda sinto que ela é minha melhor amiga. E pra piorar tudo, ainda tem a Suzan... Uma pobre criança no meio dessa confusão. – Disse minha mãe.
Meu pai segurou a mão dela.
- Você não pode carregar todos os problemas do mundo nos ombros, sabia? – Ele disse.
Ele fez soar como uma brincadeira, mas minha mãe sabia que ele estava falando muito sério.
- Eu sei, ... Mas eu me sinto tão... Responsável!
Ele franziu o cenho.
- Você não pode ser responsável por tudo. Você ficou com a responsabilidade de conversar com o Charlie quando ele descobriu que eu não era pai dele, você também ficou com a responsabilidade quando ele engravidou a Halley, você teve que ser madura o suficiente pra passar por cima de todas as suas desavenças com o ... Será que você já não viveu emoções suficientes pra uma vida, ?
Minha mãe pareceu pensar sobre isso por um momento.
- Então o que eu faço? – Perguntou ela.
- Você podia tentar relaxar um pouco, pelo menos por meia hora! Por que você não vai dar uma volta quando sair daqui? Você não tem com o que se preocupar, a Julie tá na sua casa com o Charlie e a Suzan, nossos amigos estão resolvendo seus respectivos problemas ou se metendo nos problemas dos outros... O que tem mais pra você fazer? – Meu pai fez uma cara engraçada e minha mãe riu.
- Não fale assim dos nossos amigos, ! – Ela deu um tapa leve no braço dele, que riu.
- Mas é exatamente isso que eles estão fazendo!
- Eles só estão tentando ajudar, seu grosso. Mas voltando ao assunto de dar uma volta quando eu sair daqui... Por que o senhor não vai comigo?
- Porque eu tenho que adiantar alguns documentos que eu preciso levar amanhã pro trabalho. Faça alguma coisa sem mim, pelo amor de Deus! Você é completamente dependente da minha existência. – Disse ele, convencido.
- Sou mesmo. – Minha mãe beijou a bochecha dele.
Ficaram um tempo em silêncio, pensando em tudo o que estava acontecendo.
Ou não pensando em nada, que é mais provável. Eles não pensam com muita freqüência.
Ok, parei. Voltando...
- Vou pra casa... Tá tarde, e você é um homem ocupado. – Minha mãe se levantou do sofá.
- Sou. – Ele riu. – Pensa no que eu te disse sobre tirar um tempo pra você, ok?
- Vou tentar.
Minha mãe saiu da casa do meu pai, entrou no carro e foi dirigindo pela rua escura, absorta em pensamentos.
"O que custa eu tirar um tempo pra mim um pouco?", pensou ela.
Mas ela não estava com a mínima vontade de rodar sozinha por aí.
Primeiro porque andar sozinha no ápice do crepúsculo londrino não é muito inteligente. Minha cidade tem tanta violência quanto qualquer outro lugar ou até mais, as pessoas precisam parar com essa ilusão de que tudo é perfeito.
Segundo: eu não a deixaria andar sozinha por aí tão tarde (ok, ela não pensou nisso, mas eu sim).
Então minha mãe pensou em chamar alguém pra sair com ela.
Juro que dou meu isqueiro preferido de presente pra quem adivinhar quem ela chamou.
Mentira. É muito óbvio.
E não pensem que a minha mãe é atirada, ou que ela tinha segundas, terceiras e quartas intenções. Ela era apenas uma mulher sozinha querendo companhia, ninguém pode culpá-la.
Olhem-se no espelho antes.
Desculpa, ando meio agressivo.
Minha mãe pegou o celular e discou o número do telefone de .
- Alô? – A voz rouca atendeu do outro lado.
- Te acordei? – Minha mãe perguntou, preocupada.
- ? – A voz dele endireitou-se em um segundo. – Não, eu tava só vendo TV... Tá tudo bem?
- Tá sim... Eu só estava me perguntando se... – Ela respirou fundo. – Se você tem alguma coisa pra fazer neste exato momento?
- Não exatamente. Tô só murchando em casa mesmo. Por quê?
- Quer fazer alguma coisa? Sei lá, nem que seja tomar um sorvete... Preciso me distrair um pouco. – Disse ela.
- Ok, eu encontro você. – Ele disse, rápido demais. – Lugar em você onde tá?
- O que você disse, ? – Minha mãe perguntou, sem entender a confusão de palavras que ele havia feito.
- Em que lugar você tá? – Ele perguntou calmamente.
- Eu tô exatamente a três ruas da casa do , em uma praça. Ah, como foi lá com o ?
- Foi meio complicado, mas acho que ele tá mais tranqüilo – Disse ele, hesitante. - Tô chegando aí! Não sai do carro, você tá sozinha e é perigoso ficar na rua essa hora.
- Perigoso nada! Naquela praça, o máximo que pode acontecer é eu sentar em algum mendigo que esteja deitado no banco. – Disse ela.
Minha mãe é estranha.
Ela deve achar que a vida é colorida e que todas as pessoas são do bem, vão todos dar as mãos e passar pelo arco-íris da felicidade.
Que gay.
- Você brinca com a sorte, . Não sai do carro, estaciona aí perto que eu to chegando.
Não sei por qual milagre da natureza, mas ele conseguiu fazê-la ouvir.
Isso foi legal da parte dele.
Essa noite vai ser extremamente especial pros dois, extremamente estressante pra mim.
Mas voltemos ao Mark e a tia Joanna, acho que é isso que todos querem ouvir.
Ou não.

Capítulo 18.
O silêncio já estava estabelecido há mais ou menos vinte minutos.
Tia Joanna esperou pacientemente o impacto de suas palavras.
Também, o que mais ela podia fazer? A Suzan já existia, estava na minha casa, e nada que o Mark dissesse mudaria isso.
- Mark? – Ela perguntou, quando o silêncio tornou-se insuportável.
- Qual é o seu problema com o silêncio? – Ele perguntou, rispidamente.
Tia Joanna tremeu de leve.
- Honestamente, eu não gosto muito. Nunca gostei.
- Te dá arrepios? – Ele perguntou, casualmente.
- É assustador. – Ela disse, olhando pra baixo.
Ele sorriu cinicamente, e quando falou, ela podia ouvir o veneno nas suas palavras.
- Outra música do meu pai. Provavelmente ele tirou essa de você, também. Você não faz idéia do mal que causou, faz? Eu não acho que faça. Mas não importa...
Ela esperou, sabendo que tudo que ele falava era a verdade.
Mark continuou.
- Voltando ao silêncio... Eu gosto dele. É a perfeita ausência de palavras que não prestam.
Os olhos de t