Por: Nina M.
Beta-Reader Brille
Capítulo 1.
- O Jones tá no seu quarto agora? - Perguntei incrédula para Meg, excentricidades a parte, ela queria um escândalo? Pus meu chapéu no colo e encarei-a. Ela olhava pra mim com um sorriso falso, crente que me enganava da mesma forma que fazia com o resto das nossas tias enquanto tomava chá com o mindinho esticado.
- Priminha, - Ela fez sua voz soar um pouco arranhada, eu fiz uma cara feia depois que me virei pra olhar o lado oposto da sacada, não gostava de lembrar meus laços sanguíneos com essa parte da família, nós deveríamos ter um grau de parentesco bem distante, não parecíamos em absolutamente nada mesmo que ela estivesse sem todos os quilos de pó habituais. Mesmo assim eu não podia sequer me dar ao luxo de ignorá-la afinal eu morava na casa dela.
- Eu sei que você não gosta muito dele, desde o dia em que ele te atirou do deck, na frente de todo mundo. Mas isso não é minha culpa, é? .
- Ah...
- Não, não é! Além do mais ele é formidavelmente gos ... - Megan deu um salto quando a sua mãe parou bem ao nosso lado e levantou-se radiante, balançando seu vestido vermelho florido assim como seus cabelos ruivos, que caiam até a altura do queixo.
- Mamãe, não estou me sentindo muito bem. Posso subir e descansar até a hora do jantar? .
- Pode querida, mas não demore. Afinal é seu aniversário. - Ela sorriu e virou-se para mim enquanto a Meg corria para o quarto, doce ignorância. - Por favor , acorde ela em quinze minutos, sim? .
- Claro. Concordei rapidamente, enquanto a Sra.Stump se afastava. Não culpo a Meg por preferir passar sua festa no quarto, exceto por ela estar se agarrando com um alguém cujo maior passatempo seria me humilhar, talvez não o maior, já que eu não sou lá muito importante, mas não que ela ligue.
Não que eu ligue.
Atravessei a porta que levava ao salão principal, contornei todos os parentes distantes, que fumavam e bebiam na em volta do espaço de dança e sentei em uma extremidade mais vazia.
Corri meus olhos atrás de alguém em especial e o encontrei com um pequeno grupo de pessoas, relativamente perto. Não muito forte, ou exageradamente alto, um ar divertido combinando perfeitamente com o corte irregular do cabelo. Tom Fletcher. Pousei o queixo sobre as mãos e relaxei para observá-lo momentos depois quando ele entrou na dança com a Emma Habery, na terceira música eu percebi que seria algo que poderia faria o resto da noite caso eu não tivesse que “acordar” a anfitriã do dia.
Levantei num pulo, segurei o vestido e corri pelos degraus até o quarto da Meg. Hesitei algum segundo me perguntando se seria realmente sensato interromper seja lá o que estivesse acontecendo lá dentro, mas no fim acabei batendo na porta.
- Meg, abre a porta. A Sra.Stump quer você lá em baixo, agora. - Bati novamente, sem resposta eu girei a maçaneta e entrei no quarto um pouco apreensiva. Ele era grande e todas as cortinas estavam fechadas de forma que a única fonte de luz era uma vela ao lado da cama onde ela estava, para o meu alivio e surpresa, sozinha. Aproximei-me em passos largos e então eu vi.
Ela estava deitada sobre um vermelho vinho que tingia quase toda a cama.
Capítulo 2.
Mesmo que sem algum motivo, a festa continuou para manter a boa impressão dos convidados sobre a Casa, que acreditaram na indisposição repentina da Meg. Passei o resto da noite com o Sr.Habery, pai da Emma e médico da família, cuidando dela, já que depois do susto a Sra.Stump precisou de repouso. A Meg babulciou coisas e abriu os olhos, sempre desfocados, algumas vezes enquanto tratávamos de uma febre. O que eu particularmente não entendi já que ela não parecia ter nada além de um pequeno ferimento próximo a clavícula. Sr.Habery nunca dizia nada, mas não tirava a expressão preocupada da cara.
O que eu não podia parar de me perguntar era se o Danny tinha algo a ver com isso, ele podia ser extremamente desagradável, mas eu não a acho que ele faria algum mal para ela. Tudo seria mais fácil se eu não fosse a única que sabe sobre isso, mas talvez seja melhor continuar calada por agora, até que Meg possa explicar tudo. Quando finalmente amanheceu, ambos deixamos o quarto e eu fui descansar coisa que eu não fazia a aproximadamente vinte e quatro horas. Enterrei-me entre os travesseiros com as pálpebras pesadas. Só voltei a abrir os olhos a noite, tomei um banho, me troquei e desci atrás de notícias.
A casa estava estranhamente vazia, ninguém nos corredores ou nos quartos, corri para o salão um pouco assustada e encontrei dois policiais e alguns criados conversando calmamente.
Todos olharam para mim, sem expressão.
- Você deve ser a Srta. . – Falou o policial mais velho. –Vamos conversar um pouco.
- Conversar? O que está acontecendo? - Perguntei rapidamente, estranhando a formalidade. –Para onde foi todo mundo?
- Calma , esclareceremos tudo. – Foi a vez do mais jovem, que se levantou e aproximou-se de uma poltrona fazendo sinal para que eu me sentasse. Relutante, andei até ele e sentei. – Antes de tudo, não se preocupe com a Meggan, ela está bem. Hoje a tarde já estava recuperada, foi interrogada e liberada.
- E porque não estão todos aqui, se tudo foi resolvido? – Quanto mais eu escutava, menos entendia.
- Ataques semelhantes ao de Meggan vem acontecendo com pessoas da região. Como eles costumam se repetir aconselhamos a família mudar-se temporariamente por questões de segurança, pelo menos até que possamos capturar o culpado. Você não poderia ir com eles porque a casa que eles vão só aceitou os Stump e não poderia ficar porque a mansão vai ficar fechada nesse meio tempo. Felizmente amigos da família se ofereceram para ajudar, você vai morar com eles até que os eles possam voltar. Então vamos levá-la agora, antes que fique mais tarde.
Escutei tudo calada, e voltei ao meu quarto muda, me sentindo só. Arrumei as malas e encontrei com os policiais na carruagem, como já era muito tarde, os dois foram dormindo. Eu não preguei o olho e passei a viagem tentando esquecer o nervosismo. Aproximadamente uma hora depois entramos nos terrenos da família, e em mais dez minutos estávamos na porta da mansão, de onde eles me deixaram com uma criada. Como ela estava iluminando o caminho com uma vela não pude ver praticamente nada por onde passei, subimos alguns degraus e andamos um pouco até o meu novo quarto, onde eu me forcei a dormir novamente.
Acordei tonta e esgotada. Levantei e cambaleei até a janela, era de manhã novamente. Não me sentia cansada quando fui dormir e tive dificuldades para conseguir, então me senti estranha por ter dormido uma noite e um dia inteiro, principalmente por ainda estar cansada depois de tudo isso. Ignorando a minha cabeça que latejava, vesti um vestido mais apresentável, bordado na altura dos ombros, prendi o cabelo em um coque e desci para agradecer a hospitalidade.
Fiz o caminho inverso da noite passada e chequei a maioria dos cômodos atrás de alguém, a casa era grande, e exageradamente decorada. Antes que eu pudesse achar qualquer coisa topei com uma senhora nos corredores.
- Ah, você deve ser a mocinha que veio morar por uns tempos. – Era uma senhora grande e um tanto gorda, o que tentava esconder com o vestido apertado, o que só a fazia parecer ridícula.
Ela apertou as minhas bochechas, me levou apressadamente até uma sala e me empurrou para dentro. – Entre querida, todos já estão comendo.
Entrei tropeçando e levantei o queixo, pronta para contornar entrada ‘não tão triunfal’ com um sorriso. Mas antes que meus músculos respondessem, eu vi Danny Jones em uma das cadeiras.
E ele estava olhando diretamente para mim.
Capítulo 3.
- ? Não quer se sentar? – Um senhor perguntou depois de me ver estática por alguns segundos encarando o Danny. Eu devo ter parecido um tanto idiota, mas eu realmente não estava olhando, eu estava encarando, mesmo que ele fosse extremamente atraente. Ele tinha algo adulto, certo, que chegava a ser atrativo. Mesmo que irritante, como o próprio. Eu apenas acenei e corri até uma cadeira em volta da mesa. - Sou o Sr.Jones, estamos todos muito felizes por tê-la conosco.
Eu pude ver uma expressão aborrecida varrer o rosto de Danny, e por um segundo ele levantou os olhos aos meus. Eu me virei e comecei a encher o prato, sentindo as bochechas queimarem.
- Obrigada, não tenho como agradecer.
- Não se preocupe, era o mínimo que podíamos fazer. Esses quartos andam precisando de ocupantes. Você é a segunda este ano, e por falar nisso Daniel, onde está o seu primo? – O Danny ignorou a pergunta e continuou mastigando a comida, ele abriu a boca para falar algo, mas parou quando escutamos barulhos de passos. Não, alguém estava correndo. Esperamos, olhando para a porta, até que um garoto apareceu nela, ele arfava um pouco.
- Bom dia! – Ele falou, e parou para respirar. – Me desculpem, vim correndo, eu estava no lago. O clima está perfeito, deveríamos sair um pouco, caçar ou algo assim.
- Cale a boca e sente-se, Poynter. – O Sr.Jones falou rindo. – Não está vendo? Temos uma dama na casa agora.
-Ora, ora. - O garoto olhou para mim. Andou até a mesa, puxou uma cadeira ao lado da minha e estendeu a mão. – Dougie Poynter.
- Prazer, . – Mesmo com os cabelos despenteados e a camisa amassada, ele conseguia ficar totalmente apresentável sem nem tentar.
- Largue a mão da menina e coma Dougie. – Ele disse rapidamente. - Eu vou indo, tenho muito que fazer hoje. E vocês dois certifiquem que ela se sinta em casa.
- Claro Tio. – Dougie mostrou os dentes enquanto mastigava.
Com isso ele revirou os olhos e foi embora.
Um pouco depois Danny também saiu sem dizer uma palavra. Sem pensar eu me levantei, e disse ao Dougie que tinha que ir ao banheiro. Na verdade, eu precisava tirar a história da Meg a limpo, ou eu continuaria me sentindo cúmplice de algo. Eu tinha que ter certeza que ele não tinha nada a ver com tudo o que tinha acontecido. Era só perguntar, certo?
Passei a tarde seguindo ele pelos terrenos, tentando criar coragem. ‘oi, prazer. Você atacou a minha prima semana passada?’. Não importa que tipo de abordagem eu faça, não tem como ser muito menos estranho do que isso, além da possibilidade dele me atirar de algum deck, mesmo sem nenhum por perto. Depois de andar bastante, ele não parecia ter nenhum interesse em voltar pra casa ainda. Eu já estava ficando com dores nos músculos que eu não sabia que existiam, e a idéia de refazer passo por passo na volta me dava náuseas. Então virei e tomei o caminho de volta. Xinguei a minha falta de coragem, mas eu podia perguntar mais tarde, não é como se eu não estivesse morando na mesma casa que ele. Pensar nisso é estranho.
Parei para descalçar os sapatos por um segundo e senti uma mão pousar sobre o meu ombro. Antes que eu pudesse gritar ela me virou e eu dei de cara com Danny. Ele pôs a que sobrava no meu outro ombro e me empurrou contra uma árvore. Depois abaixou a cabeça na altura da minha pra me olhar nos olhos de um jeito que eu pude sentir a sua respiração, então eu prendi a minha.
- Ok. O que você quer? – Ele perguntou com os dentes cerrados. – É melhor você ter uma boa razão para me seguir até aqui.
Ele estava muito perto, muito aborrecido, se eu fosse perguntar algo agora uma convivência suportável estaria fora de questão. Então eu fiz um barulho estranho e fiquei calada.
- Garota estranha. – Ele olhou para mim de cima a baixo e me largou. Perfeito.
Capítulo 4.
Meus pés doíam, e a expressão de Danny na tarde passada, ainda me assombrava. Ele poderia ter sido um pouco mais gentil, apesar de me achar uma ‘garota estranha’ que seguia pessoas sem nenhum motivo aparente.
Avisei que não estava muito bem, para escapar de qualquer desagradável encontro matinal e passei a manhã no quarto. Mais tarde, fui até a cozinha, comi um pouco, enquanto as cozinheiras olhavam para mim estranhamente, e saí para tomar um pouco de ar puro.
A casa podia ter seus, um tanto quanto petulantes, moradores. Certo, um morador petulante, mas ela era linda. Era linda, tanto por dentro, quanto por fora. O jardim ficava na parte sul, e podia ser bem visualizado do terraço, o meu lugar favorito, até então. Em volta dela tinha um extenso gramado, que dava nos bosques abertos até o lago.
Certifiquei-me que não havia ninguém por perto e tirei os sapatos para dar uma volta. Andei pelas beiradas do bosque, contornando as árvores para não me perder. Mas por medo de encontrar ele, acabei voltando para os jardins e me sentei em um banquinho próximo à entrada.
- Você não me parece tão indisposta. – Uma voz soou um pouco irônica.
Levei um leve susto e me virei. Arregalei meus olhos ao ver Dougie parado ao meu lado, sorrindo.
Ele estava vestindo uma camisa abotoada branca e tinha os cabelos molhados. Afastei-me um pouco, assustada pela aparição e pela forma que ele estava vestido. Então respondi:
- Eu estou melhor agora. – Balbuciei com o rosto virado para o outro lado.
- Fico feliz. – Ele pareceu perceber meu desconforto e continuou. - Eu estava no lago, a água não está tão fria como esteve ao longo do ano.
- Não gosto de mergulhar em lagos. Não me traz boas lembranças. – Falei apenas, era verdade.
- Mergulho todas as tardes, não há muito que fazer nesses dias. Mas grande parte das famílias voltará em poucos dias, e então teremos um baile no fim da semana. - Ele parecia tentar estabelecer uma conversa. Então eu relaxei os músculos e tentei parecer um pouco mais simpática.
- Festas me agradam, são sempre muito proveitosas. – Acho que exagerei no sorriso, ou na tentativa de parecer agradável, pois Dougie acabou se sentando ao meu lado, no banco, e ele ainda pingava.
- Ah, eu também adoro bailes, várias pessoas aparecem por aqui. Eu, realmente, não sei por que Sr. Jones faz essas festas, mas parece que tem algo a ver com os negócios da família. Bom, não importa realmente. – Ele parecia extremamente empolgado, alguns pingos caíram em minha bochecha.
- A festa será aqui? – Perguntei rapidamente, tirando a água do rosto.
- Vai sim. Quase sempre são. – Ele respondeu simplesmente, acostumado com a idéia. – Não se preocupe com o que vestir, tenho certeza de que irão te ajudar a encontrar algo para vestir, em pouco tempo.
Meu rosto se iluminou, eu adorava ir a cidade comprar tecidos, sapatos, chapéus, fitas e essas coisas, mesmo que não fosse algo que eu fizesse com freqüência com os Stump. Era de fato, meu ponto fraco.
- Eu tenho meus vestidos. – Falei mascarando a felicidade.
- É claro que tem. – Ele concordou. – Uma senhora virá te ajudar com algumas coisas. Vai te ensinar piano, danças, entre outras coisas. Acho que se chama Elisabeth, algo assim.
- Eu não tinha isso na residência dos Stump, é realmente desnecessário. Tenho certeza que só vou ficar por alguns dias. Não quero incomodar.
- Não está incomodando. – Ele falou apenas, fez uma leve reverencia e entrou em casa, provavelmente pela porta da frente, para a infelicidade das criadas que teriam que limpar todo o percurso até o quarto.
Capítulo 5.
Pouco tempo depois da nossa conversa próxima ao jardim, o Dougie apareceu na parte sul da casa. Eu estava janela da biblioteca, de onde eu já estava criando um hábito de ler, todos os dias. Então eu percebi um vulto pelo canto do olho, ele estava correndo de volta aos bosques, e, se meu senso de direção estivesse correto, em direção ao lago. Eu poderia jurar que ele só queria mergulhar novamente se ele não estivesse vestido pra sair. Ele realmente era rápido, ele se arrumou completamente em um intervalo de tempo menor do que eu levaria para pentear o meu cabelo.
No fim das contas, o que ele fazia, ou deixava de fazer não era da minha conta. Voltei meus olhos para as páginas do livro e me acomodei no parapeito da janela. Depois de ler a página de onde tinha parado incontáveis vezes, fechei o livro. Claro que não era da minha conta, mas isso não me impedia de ficar extremamente inquieta quanto à situação. O Dougie era sem dúvidas alguma, um tanto excêntrico.
Já que não ia ler mais uma linha do livro, andei em direção a estante para guardá-lo. Achei o lugar exato de onde o tinha tirado e o empurrei entre os outros com o indicador.
- Realmente, seria esperar muito que você lesse algo além de romances. – Eu já estava ficando seriamente aborrecida com todas as aparições inesperadas, mas parecia ser a especialidade dos moradores da mansão Jones. Então olhei para o lado e dei de cara com um Danny, inexpressivo, o usual.
- O que há de errado com os romances? Eles denotam os sentimentos mais nobres do ser humano. – Retruquei séria. Ele pareceu achar engraçado.
- Os sentimentos mais nobres... – Danny repetiu, com a mão no queixo.
Eu abri a boca, mas a voz falhou quando eu senti os seus olhos azuis cravados nos meus. Ele percebeu então se encostou à parede e falou lentamente, em tom de deboche:
- Amor.
- Muitos outros, não sei se você já leu algum, mas todos falam muito além de -
- Certo, não vou discutir romances com você, não é como se eu tivesse tanto tempo disponível assim.
- Se não tem tanto tempo como fala, por que gasta o que resta comigo?
Ele pareceu chocado com a minha conduta. E então, respondeu:
- Esta é uma boa pergunta, mas eu estou realmente ocupado. – Falou e deu-me as costas.
- Espere!
- Sim?
Ele virou e sorriu vitorioso. Então quando eu vi aquele rosto sínico, foi como um impulso, as palavras simplesmente pularam da minha boca.
- Eu sei que você esteve com minha prima no dia de seu aniversário, no dia que ela foi atacada. – Assim que eu falei, senti um sentimento diferente se apoderar de mim, em parte eu estava feliz por colocar tudo pra fora. Mas de resto eu não sabia o que esperar dele. Ele apenas me olhou, e então perguntou sem alterar a voz.
- E de onde tirou esta informação?
- Da boca de Meggan.
Ele me olhou como se o que eu falasse fosse a maior besteira.
- Sempre soube que sua prima sentia alguma coisa por mim, mas nunca imaginei que inventaria histórias sobre nós. – Ele olhou para o lado, pensativo, parecia sincero. Retirou o relógio do bolso e o analisou. – Agora, se não se importa, vou me retirar.
Não o impedi, simplesmente fiquei parada, pensando sobre o que ele acabara de falar.
Realmente, eu não tinha nenhuma prova, nem mesmo uma evidência. Só o fato de minha prima, não tão confiável assim, ter me informado da presença de Danny na festa aquela noite. Segundo ela, mais precisamente no quarto dela o que também não trazia mais credibilidade a afirmação.
Por um momento eu me peguei perguntando a mim mesma se eu preferia que ele realmente fosse o culpado, ou que eu parecesse uma idiota aos seus olhos acusando-lhe de algo completamente inadequado. Era um sentimento egoísta, sim, tratei de afastá-lo. Mas mesmo que fosse estranho duvidar sobre isso, agora eu simplesmente não sabia o que achar.
Capítulo 6.
Vasculhei na memória, tentando lembrar quando eu havia fechado as cortinas. Cheguei à conclusão de que não havia o feito. Mas lá estavam elas, cobrindo toda a parede de um vértice ao outro, deixando o quarto completamente escuro. Talvez alguma das criadas tivesse fechado, ainda sim, achei estranho. Arrastei o tecido permitindo que a luz invadisse o quarto e depois de alguns minutos desci para comer.
Uma cena não tão habitual me aguardava em volta da mesa. O senhor Jones, assim como o Dougie e o Danny estavam um tanto quanto rígidos. Certo que da parte do Danny isso não era nenhuma novidade, espontaneidade não era o seu forte, mas ninguém havia tocado na comida ainda. Eu já estava me iludindo, pensando que eu era a razão pra tal comoção, quando eu vi o real motivo sentado duas cadeiras de distância do Dougie, e o motivo usava um distintivo.
Usava um distintivo, um uniforme e olhos azuis e cansados. O Sr.Jones foi o primeiro a quebrar o gelo:
- Srta. , não é de bom tom deixar um visitante esperando assim. – Ele sorria enquanto falava, mas não parecia muito alegre. Mas como eu poderia adivinhar? Eu costumo acordar com a luz, e a questão da cortina havia me atrasado um pouco.
- Não me importo então não se incomodem. Eu poderia esperar o dia inteiro, é o meu trabalho. – Ele falou rapidamente.
– Sente-se e vamos comer logo, o oficial Judd tem algumas coisas que quer discutir com você depois. – O Sr.Jones continuou, impaciente.
Concordei e sentei entre o oficial e o Dougie que me suplicou com os olhos por isso, eles estavam fazendo uma tempestade por nada, qual era o problema? Ele é um oficial da policia, certo? Proteger-nos, é o que eles fazem. Pelo menos tecnicamente.
Eu só não consegui entender o porquê de um segundo interrogatório, eu já havia dito o que sabia várias e várias vezes.
A refeição foi mais estranha e silenciosa do que a diária, pois não havia nem os comentários desnecessários do Dougie para descontrair o ambiente. Tudo que se ouvia eram os talheres tilintando contra os dentes, então contra os pratos, e assim sucessivamente até que todos estivessem vazios.
Antes de ir o Sr.Jones mandou a Isabel Smith, uma senhora gorda que coordenava os criados, ficar próxima enquanto eu estivesse na companhia do Judd e o convidou para o baile no fim da semana. E então todos foram se tratar de suas ocupações, ou desocupações no caso do Dougie, e nos deixaram o mais rápido que puderam.
Permanecemos na mesma sala, em volta da mesa. Mas ele mudou de lugar, se pôs a minha frente e estendeu a mão.
- Harry Judd. – Ele parecia um pouco mais a vontade sem a presença dos outros.
Eu me levantei e inclinei a cabeça, o que foi o bastante para fazer a Sra.Smith pigarrear. Nós dois voltamos a nos sentar, e o Harry deu um meio sorriso, voltando logo a sua expressão mais seria.
- Estou ciente, que você já passou por isso antes. – Ele falou pondo uma mão contra a outra sobre a mesa.
Eu acenei.
- Não sei se já chegou aos seu ouvidos, mas esse caso já está tomando grandes proporções.
- Não, não ando muito informada do que anda acontecendo pelas redondezas desde que me mudei pra cá.
- Então estamos procurando pelo máximo de informação que possamos conseguir. Olhamos as fichas e interrogamos os familiares ou relacionados novamente. Pelo que eu observei você foi a última a ver a Meggan antes do ataque, e a primeira vê-la depois dele. – Eu concordei, um pouco nervosa. Tentei não demonstrar para não passar nenhuma impressão errada, mas esse tipo de situação me deixava inquieta.
- Você saberia me dizer a última coisa sobre o que vocês falaram, ela disse o que ia fazer quando ia subiu para o quarto? Ia encontrar com alguém? – Eu arregalei os olhos com a última pergunta, e ele se desculpou. Quando fui responder hesitei um momento me sentindo antecipadamente culpada pela intenção de mentir para um policial. Mas se eu contasse a verdade eu poderia comprometer o Danny seriamente, talvez ele não estivesse no quarto realmente. Mesmo que ele não fosse a pessoa mais agradável, a sua versão da história era mais provável.
- Ela estava cansada, ia descansar um pouco e desceria em alguns minutos.
- Mas ela não desceu. –Ele completou.
- Não, então a Sra.Stump me mandou chamá-la. E já tinha acontecido.
- Isso é tudo.
- Tudo.
- Nada que você queira me falar? Você está sendo bem tratada? – Ele perguntou. Eu tirei os olhos da mão e olhei para o Harry. Ele se mostrava mais confuso do que eu, medindo as palavras.
- Ah, sim. Estou. – Em parte era verdade, sim, o bastante.
- Nada de estranho por aqui? – Ele media as palavras, mas mantinha o olhar firme. Eu abri a boca sem saber o que responder, ele não estava fazendo sentido.
Mas antes que qualquer som pudesse sair dela, a Sra.Smith se aproximou rápido.
- Não quer comer algo oficial? –Ela ofereceu sorrindo forçadamente. Tínhamos acabado de almoçar, Isabel estava agindo estranhamente. Harry agradeceu e recusou.
- Já estou de saída, acho que acabamos por aqui. – Se levantou e virou-se para mim. – Caso se lembre de algo, estarei aqui no fim da semana. – Ele inclinou a cabeça e afastou-se com passos largos, acompanhado por Isabel.
Eu não havia notado nada na casa, mas talvez eu não estivesse olhando direito. Ele parecia saber de coisas, parecia querer me contar sobre elas também.
Capítulo 7.
Passei o resto do dia relembrando as palavras do oficial, talvez tivesse sido apenas impressão minha, talvez fosse apenas a abordagem que ele normalmente usa, mas que foi tudo muito estranho foi. Estranho o bastante para me deixar inquieta com a sua atitude antes de fechar os olhos e afundar nos travesseiros.
No meio da noite, uma melodia tenebrosa me acordou para a realidade do quarto. Apanhei uma vela e segui para os corredores, ainda descalça, onde ecoavam as notas graves. A cada passo eu podia sentir a fonte se aproximar, algum tempo depois parei em frente a uma porta e empurrei com o maior cuidado possível. Entrei um pouco hesitante e arregalei os olhos em direção a um grande objeto no centro da sala, um piano de cauda preto, sentado nele, estava o Danny.
Ele movia suas mãos rapidamente sobre as teclas com precisão e sem se mover. No segundo seguinte a música já não me parecia mais tão assustadora, era só melancólica, ignorei tudo, fechei os olhos e continuei a escutar em silêncio. Eu estava começando a me sentir sonolenta quando de repente a música parou.
Permaneci estática quando percebi ele me olhava, o que era mais fácil pra ele fazer, pois eu estava segurando a única iluminação do cômodo. O que me fez imaginar como ele estava tocando antes que eu houvesse entrado sem ver nada. Ele continuou me encarando sem um olhar muito alegre, parecia querer que eu fosse embora o mais rápido possível, minhas bochechas queimaram e eu olhei para o teto. Ele abriu a boca, mas voltou a fechá-la quando escutamos alguns passos.
Eu já estava morando de favor na mansão, se nos encontrassem sozinhos no meio da noite seria um tanto quanto problemático. O pensamento me deu um calafrio e eu fiz uma cara desesperada. Ele semi-serrou os olhos e levou o dedo aos lábios, me mandando ficar calada. Escondeu-me atrás de uma poltrona no fim do cômodo, soprou a vela, tudo escureceu e a porta se abriu.
De trás dela surgiu uma mulher pouquíssimo mais velha que eu, ela não trazia vela alguma, o que dificultou a visualização do seu rosto, mas a luz quebrada da lua me permitiu ver um pouco de sua figura. Ela era esguia, vestia um vestido cinza e volumoso, tinha os cabelos dourados parte caindo até pouco mais que os ombros e parte presa em um chapéu no topo de sua cabeça.
- Elisabeth Lefroy. – Danny lançou-lhe um olhar significativo que ela sustentou com igual intensidade.
- Estava me perguntando por que a melodia havia parado. – Ela fechou os olhos demoradamente, inclinando o queixo, como uma reverência.
- Não sabia que havia chegado. – Ele afirmou ignorando o comentário.
- Agora a pouco. – Ela respondeu piscando algumas vezes. - Não nos víamos há algum tempo.
- Ignorou todos os convites que meu pai enviou ano passado, nem sequer respondeu. Espantei-me quando soube aceitou vir. – Ele não parecia espantado, manteve sua expressão usual, indiferente.
- Eu não estava esperando convites de seu pai. – Ela falou séria. - Por fim me dei por vencida.
Um momento realmente constrangedor se seguiu, nenhum dos dois falou nada. Repentinamente, com uma das mãos, Elisabeth puxou a fita do seu chapéu, desfazendo o laço deste que escorregou levemente e caminhou firmemente até o Danny para um abraço, então ela encostou sua bochecha contra o pescoço dele e fechou os olhos enquanto ele erguia a sobrancelha um pouco surpreso.
Alguns segundos depois, como se voltasse a si, Elisabeth se afastou de súbito. Apanhou seu chapéu caído ao lado do piano com os olhos marejados, e correu para fora do quarto sem uma palavra.
Assim que ela saiu, suspirei de alivio. Ela deveria ser a tal Elisabeth da qual o Dougie havia comentado, não seria muito conveniente ela ter me visto com o Danny, eles pareciam ser íntimos, um abraço assim não é algo que saia se distribuindo com essa intensidade.
Eu ainda estava mergulhada nos meus devaneios quando o Danny me puxou pelo pulso e me pôs de pé.
- Volte para o quarto. – Ele murmurou com os dentes trincados quando encontrou meus olhos, impaciente.
Eu pisquei um pouco com a proximidade e deixei o quarto com a mesma rapidez que Elisabeth.
Capítulo 8.
Como de praxe, a socialização de todo dia se dava de manhã, na mesa. Era o único momento em que o Sr.Jones se encontrava em casa, e, conseqüentemente o único momento em que o Danny e o Dougie se sentiam na obrigação de estar também.
Como no dia anterior, além deles, havia mais alguém na mesa. Porém desta vez não me foi nenhuma surpresa. Ela estava conversando ao lado do Sr.Jones e vestia um vestido preto azeviche, que contrastavam com seus cabelos que clareavam a cada ondulação chegando a ficarem brancos nas pontas. A luz da manhã me permitiu ver seu semblante, que era no mínimo harmonioso. Suas maçãs eram levemente rosadas, e salpicadas com algumas sardas, os olhos eram pequenos e com grandes cílios. Interrompendo a própria conversa, Elisabeth levantou-se, me cumprimentou e falou:
- Estávamos comentando sobre você, Srta. . – Ela voltou a se sentar.
- Mal, suponho. – Brinquei um pouco apreensiva e olhei de relance para o restante dos presentes.
Danny estava sentado, completamente indiferente ao que se passava ao seu redor, o Sr.Jones assistia Elisabeth com o olhar sereno e o Dougie ria pra mim com o canto da boca, o que me fez voltar os meus olhos para Elisabeth um pouco desconcertada, esperando a resposta enquanto minhas bochechas queimavam levemente.
- Me falavam que já se tornou um hábito seu chegar por último na mesa. – Ela mantinha seus olhos fixos em mim, me estudando.
Era verdade que era a segunda vez que eu fazia todos esperarem por mim, mas assim como na primeira eu tinha um motivo. Um motivo patético demais para ser dito, ou outro absolutamente comprometedor para que possam tomar conhecimento. No fim, eu acabava como alguém que morava de favor e que além de tudo não tinha consideração pelos donos da casa.
Dos males o menor, eu ainda tinha um teto sobre a minha cabeça.
- Minhas sinceras desculpas. – Andei até a cadeira mais próxima, ao lado do Dougie, e sentei. –Não tem sido a minha intenção.
- Acho muito provável que já tenha tomado conhecimento do propósito da minha vinda.
Eu fiz que sim com a cabeça.
- Espero que saiba que como sua tutora a partir de agora não vou permitir esse tipo de comportamento. – Suas palavras eram duras, mas soavam casuais quando saiam de sua boca.
Eu abri mais os olhos e me desculpei novamente.
- Então, sermão aplicado, vamos comer. – Dougie falou, provavelmente, para adoçar os ares enquanto fazia estalos com a boca, para indicar a fome.
- Elisabeth, você deve estar faminta depois de uma viagem tão longa e cansativa. – O Sr.Jones comentou sem desmanchar sua cara de desaprovação em direção ao Dougie, que continuava com os estalos. – Este sim, realmente precisaria de algumas aulas de etiqueta, não acha?
- Não, não acho que ele teria ainda alguma chance de redimir-se de sua peculiaridade. – Ela falou divertida enquanto olhava para o Dougie que respondeu com um sorriso largo.
Eles pareciam se conhecer muito bem, tinham a intimidade de uma família. Eu estenderia essa classificação para o Danny se eu pudesse esquecer o acontecimento da noite passada. O que não foi lá tão familiar.
Depois daquilo ele tinha se tornado, se possível, ainda mais apático. Sua cara estampava um desinteresse geral a tudo a sua volta, só deveria ligar para as coisas que voavam pela sua mente nessas vinte e quatro horas do dia. Ele permaneceu assim pelo menos até o fim da semana, enquanto eu tinha as minhas aulas de dança, etiqueta, além de outras matérias e piano. Sendo a última realmente estranha, ter aulas com ela naquela sala, com aquele piano. Me fazia querer rir de vez em quando, ou perder algumas notas. Além das aulas, fomos na costureira e encomendamos alguns vestidos pra mim. Eu tinha alguns vestidos, porém nenhum que fosse ostensivo o bastante.
Mesmo com todo o seu temperamento e às vezes, talvez fosse apenas impressão minha, sua vontade de me fazer miserável Elisabeth me ensinava impacientemente bem. No fim, a semana passou como cães em uma caça à raposa, e no momento seguinte eu me vi no vestido que havia comprado para a ocasião do fim da semana. Tecnicamente pronta para descer.
Tecnicamente.
Capítulo 9
Andei em passos curtos e lentos, esperando que eles me atrasassem até o fim da festa. O que, logicamente, não funcionou muito bem mesmo que os corredores fossem longos e numerosos. Não que eu não gostasse de uma socialização, eu estava apenas nervosa. Era como ser atirada em uma multidão desconhecida.
Eu já estava morando com os Jones há alguns dias, mas eles não pareciam querer criar nenhum tipo de laço comigo, comecei a me perguntar o por quê de me acolherem assim, tão prontamente. O Dougie era no mínimo simpático, mas mesmo assim eu não conseguia deixar de me sentir só. Desci as escadas, que eu agradeci darem para outro corredor antes do salão e atravessei a porta silenciosamente.
Assim que pus os pés após o grande arco da porta algumas pessoas olharam para mim e outras poucas simplesmente me ignoraram. Os primeiros observavam-me com curiosidade, o que era estranho mesmo que eu me destacasse entre as pessoas presentes. O “destacar” nem sempre é algo positivo, pois todos na sala pareciam ter um biótipo diferente do meu. Eram altos, fisicamente saudáveis e indiscutivelmente atraentes. Já eu, tinha sorte de estar vestida em panos descentes.
A atmosfera era leve e complicada de alguma forma. Um piano tocava algo lento e ninguém se propunha a dançar, todos permaneciam estáticos conversando abaixo da majestosa abóbada. Acabei me pondo na ponta dos pés para procurar alguém conhecido. Avistei apenas o Danny que estava, inesperadamente, conversando com outros garotos a algumas pessoas de distância. Retornei ao chão rapidamente, esperando não ter sido vista por ele e olhei para os lados perdida. Senti uma presença atrás de mim e rodei nos calcanhares para encontrar um Dougie que, tão inesperadamente quanto, se vestia a corretamente para a ocasião. Ele se aproximou e murmurou.
- Entediada, huh?
Eu me afastei pelo fato de estarmos no meio de todos os convidados e neguei um tanto alarmada por alguns cochichos que se formavam.
- Ah, não. Muito agradável.
Ele me encarou por um momento obviamente percebendo que eu estava mentindo, só era um tanto orgulhosa para admitir.
- Vamos para a parte mais interessante da festa. – Ele falou com o seu melhor meio sorriso, ignorando a minha resposta e a minha cara confusa. Senti um formigamento quando ele pôs sua mão levemente no meu ombro me empurrando para que ele pudesse me guiar. Eu me rendi e assenti com os passos.
Pude sentir uma gradativa mudança de ares assim que atravessávamos mais um corredor, o piano se afastava dando lugar a uma melodia alegre e mais festiva.
Alguns passos depois eu já pude me ver em um lugar completamente diferente, com pessoas mais familiares. Todos dançavam, comiam e conversavam. Eram como uma versão espontânea das pessoas do cômodo anterior.
Esse não era tão detalhadamente decorado quanto o primeiro que era coberto pelos meus frescos preferidos na abóbada. Porém ganhava expressivamente caso se tratasse de dimensões.
A música silenciou e ele voltou a me empurrar, desta vez para o meio do salão.
- Agora, vamos ver o quanto a Elisabeth lhe ensinou. – Me virou, ainda com sua mão direita.
Então ele se prosou a minha frente à medida que vários outros casais faziam o mesmo.
Assim que a canção recomeçou pus em prática o que havia aprendido e aproveitei para perguntar algo que estava me incomodando.
- Por que a festa está separada dessa forma?
- Nenhum motivo em especial, eu acho. – Ele respondeu sem o seu brilho usual. Parecia incomodado, talvez não fosse da minha conta, mas não é como se eu tivesse perguntado algo tão indiscreto.
Olhei de relance para o seu rosto e constatei que continuava com a mesma expressão. Achei melhor não falar nada até que ele escolhesse algum tópico aleatório como ele sempre fazia, mas não foi o que aconteceu. Continuamos a dançar calados e eu voltei à atenção ao meu redor. O que conseqüentemente o irritou mais, pois eu comecei a pisar seu pé sucessivas vezes ao perceber que Emma Habery estava ao nosso lado. Estava esperando encontrá-la e perguntar sobre o seu pai, ou o se ela sabia sobre a Meggan já que todas as informações que eu havia recebido eram extremamente vagas.
No fim ele pareceu realmente aborrecido, inclinou o queixo rapidamente e andou para longe. Senti-me abandonada, mas não tive tempo para remoer nada, aproveitei a oportunidade e segui até a Emma a uma mesa, onde ela foi apanhar um brioche.
- Emma Habery, estou certa?
- É o meu nome. – Ela confirmou sem nem sequer me olhar. – E o seu?
- . Eu acho que não nos conhecíamos ainda. – Me adiantei, tentando voltar sua atenção para mim. E acabou funcionando, ela deveria saber o nome da garota que estava morando na mansão. Olhou-me e, sem uma cara muito convidativa, esperou que eu continuasse. - Estava esperando encontrar o seu pai hoje à noite e perguntar sobre a Meggan, mas acho que ele não veio.
- Correto.
- Você por acaso não saberia nada sobre a minha prima? Eu ajudei seu pai a cuidar dela na madrugada no incidente. Ele deve ter ficado próximo até os Stump terem deixado a casa.
- E por que você acha que o ele me contaria algo? – Emma falou, e esperou a minha reação enquanto eu procurava uma resposta.
Tenho certeza que continuaríamos olhando uma para a cara da outra por alguns momentos a mais, caso outra garota que nos observava do outro lado da mesa não houvesse interferido.
- Emma, não atire suas frustrações em pessoas que você mal conhece. – A garota franziu as sobrancelhas para a Habery e voltou-se para mim com um sorriso que eu devolvi, agradecida, enquanto nos distanciávamos do mau-humor que emanava de Emma. – Não dê muita importância, ela está em um péssimo dia. Brigou com o meu irmão e está culpando o mundo por isso.
- , muito prazer.
- Ah, eu escutei agora a pouco. – Ela riu. – Carrie Fletcher, o prazer é meu.
Capítulo 10.
Ela era amigável, extremamente perceptiva e tinha um rosto de uma criança emoldurado por longos cachos loiros. Embora seu semblante fosse infantil, ela aparentava ser extremamente amadurecida para a idade, que era praticamente a minha. Demos inúmeras voltas no salão, conversamos sobre coisas diversas e Carrie liderou os tópicos suavemente, sendo um pouco indiscreta em algumas perguntas. Sorrindo no segundo seguinte, e então pedindo perdão.
- Desculpe- me. Eu realmente não sei o que falo. – Ela ergueu as sobrancelhas, preocupada com a minha reação.
- Não se preocupe. – Eu sorria sempre, pondo um pé a frente do outro. Feliz com o fato de ter conhecido um membro da família Fletcher, algo que eu ansiava desde um passeio com a Meggan. Dia que eu vi o Tom pela primeira vez. Ele era um grande amigo da minha prima, e ao contrário do restante deles, ele não era arrogante e tão cheio de si.
- Mesmo assim, creio que não deve ter uma boa impressão de mim. – Carrie levou o polegar ao queixo e segurou um pingente que antes descansava sobre a sua clavícula com a outra mão.
– Muito pelo contrário. – Não menti, é bom falar com alguém do mesmo sexo e idade que você de vez em quando.
- Ah, você também não é tão mal assim. – Ela mostrou os dentes alegremente e virou-se para eu largando o colar, em que se pendurava um pentágono dourado. Era algo estranho, mas não seria educado perguntar sobre. – Deveríamos marcar um passeio, para comprar talvez.
- Sim, claro. Eu estava... - Ela me interrompeu quando parou abruptamente na frente de um rapaz que eu percebi estar fardado.
Imitei-a e me pus ao seu lado. Então levantei a cabeça, olhei acima do distintivo, e encontrei os olhos de Harry Judd. Eu poderia começar a acreditar que todo aquele jeito estranho dele não havia sido nada mais do que a minha imaginação se manifestando, o que ocorre com certa frequência, se os seus olhos não estivessem o quão hesitante estavam na sua visita. Ele franziu as sobrancelhas e se voltou para Carrie que já implorava por atenção.
- Srta. Fletcher, Srta. .
- Harry. – Ela inclinou a cabeça, assim como ele.
- Boa noite Harry. – Cumprimentei ainda evitando os seus olhos.
- Estou procurando o seu irmão, Carrie. – Uma gota de suor passeava pela sua bochecha, o que não fazia muito sentido já que o tempo estava relativamente frio. – Alguma idéia de onde ele poderia estar?
- Ah, não. Provavelmente escondendo-se de Emma. – Ela soou zombeteira e Harry sorriu com o canto dos lábios. Ele ficava ainda mais bonito com aquele tipo de expressão, que não durou muito, voltou logo para a sua cara impaciente.
De fato, por motivos que eu desconhecia, ele estava claramente se esforçando para parecer calmo, educado e não sair correndo pra longe da mansão. Porém, ele apenas mordeu o lábio inferior e vasculhou superficialmente o salão com os olhos.
- Como andam as investigações? Alguma novidade? – Carrie perguntou afastando uma mecha cacheada que caíra sobre seus olhos.
Eu sofri um leve espasmo quando ela tocou no assunto, com certeza ela soube do meu interesse quando me escutou falando com a Emma. Eu arregalei os olhos e me foquei no Harry, esperando a resposta, que não chegou. Ao invés disso ele pareceu repreendê-la, que olhou pra mim com o canto do olho. Ela bufou para o Harry e então falou.
- Hm, . Vou ajudar o oficial a achar o meu irmão. - Ela semi-cerrou os olhos e sorriu com os lábio apenas. – Iremos definitivamente marcar algo, receberá noticias da minha parte.
Eu concordei e despedi-me um tanto quanto apática, tentando entender a situação. Ou todos estavam escondendo algo de mim e se comportando peculiarmente uns com os outros ou eu estava me tornando alguém mentalmente incapaz de entender as relações humanas. Voltei a andar, dessa vez duplamente incomodada com tudo, parei próxima a um jarro de flores e me encostei à parede, de onde eu via todo o salão.
Devido à vista privilegiada pude me prevenir de outra inesperada chegada do Jones mais jovem, que caminhava rapidamente em minha direção. Eu pisquei continuamente durante o meio tempo, um pouco alarmada com a aproximação. Meu coração batia descompassado, era realmente assustador. Ele bateu a ponta dos seus sapatos nos meus e não me surpreendeu com a falta de sutileza.
- O que você estava fazendo agora? – Danny tinha seus dentes trincados, o que já era um certo vício quando se referia a mim.
- Erm, nada? – Respondi um pouco confusa.
- Antes disso. – Ele revirou os olhos, sem muito humor.
- Eu estava conversando com uma amiga.
- Carrie Fletcher? – Ele perguntou firmemente, mas manteve o tom baixo. Dessa forma as pessoas não estavam realmente se importando com o que nós falávamos.
- Isso.
Para a minha felicidade, antes que o Danny pudesse continuar com o seu interrogatório, um silêncio invadiu o cômodo. Não se escutava nada além de alguns sussurros vindos de alguns pontos perdidos no salão. Eu não conseguia entender o motivo, pois eu não via nada, mas à medida que as pessoas foram se afastando foi ficando claro.
O que havia criado tal comoção havia sido o impacto que os convidados mais próximos da família criavam em todos os presentes. Eles haviam entrado no salão e infiltravam-se entre as pessoas casualmente, que se afastavam inebriadas. Sr.Jones tomou a palavra e falou por um breve momento. Agradeceu a algumas pessoas em especial e a todos pela presença. No fim desculpou-se pela interrupção, mandou voltarem a se divertir e a banda voltar a tocar.
Então ele apanhou uma taça de vinho e andou na direção de onde eu e Danny estávamos.
- Se divertindo? - Sr. Jones nos perguntou. Foi ignorado pelo filho, que olhou para o outro lado. Sentindo o constrangimento da situação me apressei a respondê-lo.
- Sim, muitíssimo. – Dei o meu melhor sorriso, ele retribuiu-o e fez menção de que seguiria para outro grupo de pessoas como um bom anfitrião. Mas antes que ele o fizesse, Danny pegou sua taça, bebeu do conteúdo até o fim e falou.
- Temos que conversar. – Sr.Jones não ficou irritado, simplesmente não pareceu muito feliz ou até um pouco preocupado. Os dois se afastaram a passos longos e sem nenhuma cortesia. Lá estava eu novamente só e sem nenhuma razão pra continuar na festa.
As minhas expectativas para a noite eram esbarrar com o Tom em algum corredor e esclarecer algumas coisas com o Sr.Habery ou com o Harry. Porém pelo fato de nenhuma dessas pessoas se encontrarem aqui, ou terem tempo disponível para mim a minha disposição para perambular em círculos por algumas horas se resumia a zero.
Já que ninguém notaria a minha ausência, subi silenciosamente as escadas para o meu quarto. Como todos os corredores estavam inóspitos, pois todos os empregados estavam ocupados com a festa, eu andei todo o percurso descansada, arrancando algumas presilhas do cabelo até ocupar a mão com o trinco da porta. O que eu vi através dela foi algo difícil de assimilar, eu deixei alguns prendedores escorregarem da minha mão e parei sem saber como reagir.
Tom Fletcher estava sentado na minha cama e não tinha uma cara muito feliz.
Capítulo 11.
Tudo aconteceu muito rápido, antes mesmo que eu pudesse acostumar com a idéia de tê-lo em meu quarto ele atirou algo próximo a mim com um cheiro ridiculamente forte. Fez minhas pupilas rodopiarem, minhas pálpebras pesarem e minha cabeça parar de pensar em um instante.
O Efeito, além de me imobilizar por completo, deveria ser entorpecente. Me fez adormecer e acordar continuamente. Algumas vezes eu recobrava a consciência e escutava algumas palavras soltas, perdidas, outras vezes as frases vinhas completas, claras e mesmo assim sem sentido algum.
- Eu continuo perplexa, Tom! Deveria ter sido mais cauteloso e seguido como havíamos planejado. -Gritou alguém a minha esquerda quase inaudível por ter que competir com o barulho das ferraduras dos cavalos atingindo o chão continuamente. Uma mistura de cheiros me invadiu.
Deveríamos estar cavalgando em um bosque.
- Cauteloso? - Retrucou Tom inesperadamente próximo a mim. Ele estava me levando em seu cavalo. - Que diferença iria fazer de qualquer forma?
- Toda a diferença, teríamos uma vantagem muito maior até notarem a falta dela ou a nossa. O que irão dizer? -A pessoa da esquerda soou extremamente frustrada e enfurecida ao mesmo tempo. - Sumimos da festa, somos os principais suspeitos.
Tom deu uma risada sarcástica e seca.
- Eu continuo a desconhecer a diferença. Nós seriamos os principais suspeitos ainda que despedíssemo-nos de todos ao amanhecer!
- Vocês dois fiquem quietos! Fletcher, segure ela direito, você quer que ela caia a essa velocidade? - Uma terceira voz se pronunciou silenciando as outras duas. Então eu senti seu braço pressionar mais a minha cintura, o que teria me deixado ruborizada se eu tivesse auto controle para isso, então eu apenas suspirei involuntariamente procurando ar.
- Eu acho que ela está acordando. - Ele pareceu desacreditar nas próprias palavras. - O que eu faço?
- Você deveria saber, não é? –Algum deles ironizou.
Ninguém mais falou nada, e eu escutei apenas os cavalos e o farfalhar de suas roupas antes que uma forte pancada me apagasse por completo.
***
Acordei em uma sala ambientada para um sonho. Era completamente coberta por espelhos o que, para a minha surpresa, também incluía o teto. Continuaria observando os diversos ângulos da sala, se o cheiro como o de mais cedo não tivesse se intensificado me fazendo emergir para a realidade. Sentei-me num movimento arrebatado em uma poltrona escura onde eu me encontrava desfalecida segundos antes. Meu peito movia-se longa e freneticamente e eu me sentia estranhamente enérgica. Levei a palma da mão aos meus olhos desfocados e então as suas costas a testa. Voltei a abrir os olhos e percebi um pano encharcado a poucos centímetros da minha face.
- Afaste isso do rosto dela, ela já acordou. E não precisava ter batido com tanta força. - Uma voz intrigantemente familiar invadiu o quarto.
O odor diminuiu até desaparecer por completo. Mas a inquietação ao meu redor indicava a presença de pelo menos uma dezena de pessoas. Confirmei a quantidade ao sentir meus olhos focarem-se novamente. Vários candelabros iluminavam os inúmeros espelhos que refletiam a luz intensificando o seu efeito, então eu pude perceber três peculiares presenças. Carrie e Tom Fletcher estavam ao meu lado, e ele ainda segurava o pano. Por último e não menos importante, Harry Judd observava tudo não tão perto quanto os outros dois.
- O que vocês querem? –Perguntei, afinal.
- Não responder as suas perguntas, definitivamente. - Um dos presentes deu um passo à frente. - Nós temos as nossas próprias perguntas e você vai ser a única respondendo qualquer coisa por aqui.
Capítulo 12.
Eu abri a boca e voltei a fechá-la quando finalmente percebi que não estava em território amigo.
- Calma, Cavanough. - Uma mão apertou o ombro do rapaz a minha frente. - Eu achei que nós havíamos discutido a abordagem. Não queremos assustar a Srta. , correto?
Cavanough recuou e lançou-me um olhar de advertência, ou talvez apenas um pouco irritado.
- Não se preocupe, nós não faremos nada contra você. - Ele se aproximou e a luz das velas alcançou seu rosto. Deveria ter cinqüenta, talvez cinqüenta e cinco anos. - Apenas precisamos de uma pequena colaboração mútua por aqui.
Eu acenei com a cabeça, agradecida por alguma intervenção. Minhas lágrimas estavam por muito pouco.
- Me chamo Edgar. - Ele continuou. - Queremos apenas conversar com a senhorita. Seria possível?
Eu provavelmente não conseguiria escapar de nada do que eles estivessem planejando para mim e também não estava em posição de negar qualquer coisa. Eu havia sido raptada no fim das contas. Meu estômago embrulhou com a palavra e eu inalei longamente.
Então acenei com a cabeça novamente, concordando.
- Fico feliz que possamos fazer isso civilizadamente. – Ele sorriu, revelando várias rugas de expressão. Em um segundo momento pigarreou e virou-se para mim. - Sabemos que você esteve com os Stump na temporada passada e agora você foi acolhida pelos Jones sem nenhum motivo aparente, Estou certo?
Edgar parecia estar insinuando algo sobre eles, me apressei e respondi com palavras atenuadoras:
– Não! Os Jones me acolheram por serem amigos dos meus tios. Eles são pessoas maravilhosas. – Talvez eu estivesse exagerando um pouco, mas o Sr.Jones foi realmente muito bondoso nesse ponto e as pessoas não têm culpa se às vezes os filhos seguem por estradas tortuosas e se transformam em pessoas como o Danny.
Ele examinou-me longamente e continuou.
- E antes disso?
- Eu estava com os Stump, como você disse. – Eu afirmei.
- Antes disso. – Ele mantinha sua expressão inalterada, como um quebra-nozes. – Onde você estava?
A conversa por completo já não fazia sentido. Eu poderia entender todo o interesse que ele tinha na parte que tocava as famílias com que eu estive nos últimos meses, mas eu não conseguia ver qualquer detalhe na minha vida que não se relacionasse com a parte rica da minha família tomando qualquer relevância na nossa “conversa”.
- Antes disso eu estava morando com a minha mãe.
- Apenas com a sua mãe? – Edgar pareceu aborrecido, talvez houvesse finalmente visto o quanto desinteressante minha vida era. – Você não tem irmãos, um pai?
- Sou filha única, meu pai abandonou a casa há dois anos. Minha mãe não suportou e eu tive que vir morar com a minha tia. – Falei brevemente, não era um tópico necessariamente nostálgico.
Ele arregalou os olhos satisfeito com alguma coisa.
- Quero que você nos deixe a par de qualquer coisa incomum que possa perceber na mansão dos Jones.
- Você acha que eu os espionaria mesmo quando eles estão sendo tão bons comigo?
- Não foi o que eu quis dizer, porém coisas eventualmente vêm à tona. – Ele respondeu lentamente. - Esperávamos apenas que quando isso acontecesse, você pudesse nós informar antes de qualquer coisa.
- Se você põe dessa forma... É claro que se eu perceber algo de errado acontecendo a primeira coisa que eu irei fazer é informar as autoridades. Eu contaria tudo ao Harry. – Arrisquei olhar para ele de relance, por um momento. E não o encontrei mais na parede à minha direita.
- Fico feliz que tenhamos chegado à solução em tempo. – Ele levantou-se e gesticulou rapidamente. – Harry, leve-a de volta a mansão a tempo, talvez não notem sua ausência. E Tom, dessa vez não interfira.
Carrie riu baixinho e olhou-me como se pedisse perdão. Então piscou algumas vezes e desviou o olhar ao seu irmão.
Harry tomou o entorpecente da mão de Tom e estendeu-o para mim. - Não é nada pessoal, mas você não pode ver o caminho.
Hesitei por um momento, desejando indagá-lo sobre as razões da minha “vital” participação no interrogatório ou ao menos ter minha vez planejando algumas perguntas. Porém, desistindo antes mesmo de procurar qualquer traço de cooperação nas feições nada bem-humoradas do Harry, levei obedientemente o tecido a face e me permiti perder os sentidos.
Capítulo 13.
O vento gelado que entrava pela fresta da janela entreaberta me despertou e todos os fatos da noite passada pareceram parte de um sonho ruim. Eu poderia regar aquele pensamento e até acabar acreditando nele se um pequeno bilhete não estivesse amarrado a minha mão.
"Estarei hospedado na residência Fletcher."
O recado deveria ser de Harry. Baseando-se no estado atual do meu corpo, ele havia, muito provavelmente, me arrastado de volta a cavalo como na ida.
Olhei novamente a janela e me assustei ao perceber que o sol já estava a pino. Eu havia dormido dobrado o que era, possivelmente, obra do remédio. Preparei meu banho as pressas e vesti um dos meus melhores vestidos antigos, azul e adornado nas mangas. Não chegava aos pés de nenhum dos vestidos que a Srta.Lefroy havia escolhido especialmente para mim, entretanto, era extremamente mais fácil de se vestir.
Disparei pela escada e diminui bruscamente a velocidade a porta da sala das refeições. Srta. Lefroy e o Danny estavam com seus respectivos pratos praticamente limpos e trocavam algumas palavras inaudivelmente. Entrei calmamente na sala e pedi desculpas pelo atraso. Ambos levantaram suas cabeças desinteressadamente e continuaram mastigando. Elisabeth voltou para seu prato, mas ele fez uma cara enojada. Eu já estava prestes a refazer o pedido de desculpas quando percebi que ele olhava para alguém atrás de mim.
Dougie estava de shorts longos e uma camisa marrom oliva e, ao que tudo indicava, a caminho do rio. Surpreendi a mim mesma com uma vontade de abraçá-lo. Ele era a coisa mais próxima de um amigo que eu tinha e eu precisava de qualquer coisa parecida com alguém que pudesse me dizer que tudo iria ficar bem.
- Bom dia. Vamos nadar, ! - Ele sorriu, apertando as minhas bochechas.
- Você não está falando sério, Poynter. - Elisabeth falou apos engolir devidamente toda a comida e levantou-se. - Nós sabemos muito bem das roupas que você usa para nadar.
- Ou da falta delas. - Danny completou, destruindo os resquícios da vontade de enlaçar meus braços em Dougie.
- Estarei na biblioteca. Suba quando acabar de comer, vamos estudar. - Srta. Lefroy disse antes de deixar o cômodo suavemente e eu sentei na sua cadeira recém desocupada.
A governanta trouxe-me um prato cheio e eu comecei a esvaziá-lo.
- Não tem outro lugar para ir, Dougie? - Danny quebrou o silêncio. - Me agradaria que fosse agora.
- Na verdade, eu tenho. - Ele olhou para mim com o canto do olho por um momento e caminhou para a porta.
O Danny estava definitivamente estranho. Não que ele não fosse uma pessoa desconsiderativa e apática sempre. Mas, na maior parte do tempo, ele era assim apenas comigo.
Subitamente, ele atirou algo no meu prato, me fazendo morder o meu garfo com o susto. Eu arregalei os olhos, assustada.
- Você... - Ele tinha seus dentes trincados, como sempre.
Eu afastei a carne, procurando o objeto, e minhas presilhas, que eu havia deixado cair no quarto noite passada, reluziam no molho.
- ...não me engana.
Capítulo 14
Estremeci levemente enquanto encarava o prato. Não ousei levantar o rosto, eu podia sentir o peso dos olhos dele em mim. Eu deveria parecer claramente culpada seja lá qual fosse a desconfiança depositada em mim, mas, ainda sim, eu não conseguiria sustentar meu emocional se eu olhasse para ele. Então eu esperei.
- Você não tem nada a dizer?
- Eu não sei do que você está falando. – Murmurei. – Não sei o que deveria falar em resposta.
- Comece por onde você esteve a noite inteira.
Elevei meu queixo abruptamente.
– Como voc...? Você entrou no meu quarto?
- Isso não vem ao caso. – Ele revirou os olhos. – Eu estava no meio de uma conversa com você e no segundo seguinte você não estava mais lá. Fui até o seu quarto um bom tempo depois e, como você não atendeu a porta, eu entrei.
Até onde eu conseguia me lembrar não era uma conversa das mais civilizadas e ele havia sido o único a sumir no momento seguinte. Mas isso não vinha ao caso, eu estava mais inquieta por não saber até onde ele sabia. E caso ele de fato não soubesse de nada, não era como se ele e Elisabeth fossem grandes puritanos.
As palavras me fugiram e eu me senti entre a cruz e a espada. Eu definitivamente não iria espionar os Jones, mas eu também gostaria de ter em quem confiar caso eles realmente não fossem quem parecessem ser. Caso eu delatasse o Harry e os irmãos Fletcher, eu provavelmente não encontraria esse apoio em ninguém mais. Sem falar que isso prejudicaria Harry, que estava apenas querendo me ajudar, e se não isso estava apenas fazendo o seu trabalho. Além do mais, ele é um oficial da polícia, ele não insinuaria nada sem fortes fundamentos. Se eu mantivesse-me neutra até o tempo de, ao menos, poder confiar plenamente neles, seria tecnicamente mais seguro e lucrativo para todos. Ou pelo menos assim eu penso.
- Você tem certeza de que não me viu? – Perguntei.
Ele manteve-se calado, muito serio.
O ambiente ficava mais tenso a cada segundo que passávamos olhando um para o outro. Alguns músculos do meu pescoço contraíam-se involuntariamente e a minha respiração começou a descompassar longamente. Eram os primeiros sinais da minha falta de controle emocional, mais alguns minutos e eu estaria chorando copiosamente sem saber o porquê. Eu tinha que arranjar alguma desculpa ou qualquer meio para me tirar daquela situação. Olhei para os lados falhando em conseguir escondeu meu nervosismo, em vão.
Danny permanecia com a mesma expressão, esperando, despreocupadamente, que eu desistisse de resistir e confessasse tudo.
E então eu percebi que era inútil disfarçar, eu nunca demonstrei talento para a arte da interpretação e muito menos para a da mentira. Reuni a pouca coragem que tinha e o encarei no olhos, não havia escapatória.
- Eu não estava no meu quarto ontem à noite. - Confessei enquanto murmurava mentalmente um pedido de desculpas para todos os possíveis prejudicados.
Ele olhou para mim satisfeito, como se houvesse ganhado um grande troféu ou capturado uma bela raposa.
- Prossiga. - Danny sorriu sarcasticamente.
Fechei os olhos, pronta para dizer tudo o que sabia, quando alguém entrou na sala.
- Alguém viu os meus sapatos? - Dougie entrou aborrecido e parou constrangido ao perceber o ambiente hostil no recinto.
- Em algum lugar dentro do lago talvez? - Danny murmurou com os dentes trincados.
-O quê? - Ele perguntou e provavelmente pensou que seria melhor não ter escutado, e parou olhando de um lado para o outro do cômodo.
Mais um segundo constrangedor e ele voltou-se para mim.
- Poderia vir comigo, ? Eu preciso falar com você.
Observei meu prato intocado melancolicamente por um momento e levantei-me mecanicamente.
- Claro.
Olhei de relance para o Danny, ele tinha uma expressão assustadora quando sussurrou 'fique', meu coração descompassou. Fiz uma cara levemente desesperada, falhando em mascarar meus sentimentos, e apressei o passo para acompanhar Dougie, que já havia passado pela porta.
Demorou um pouco até que meu corpo votasse a normalidade e eu pudesse alcançar um Dougie que mancava à minha frente.
- O que aconteceu? Você se machucou? - Perguntei ao seu lado.
- Pisei em uma pedra no lago, mas não foi nada.
- Posso ver? - Eu me inclinei e ele me empurrou com o antebraço.
- Eu disse que não foi nada. - Ele repetiu mais aborrecido.
- Peço desculpas. - Ele normalmente não agia assim, algo deveria ter acontecido. - Mas o que você queria falar comigo?
- Nada. - Ele relaxou as sobrancelhas.
- Nada? Então porque...?
- Você não parecia estar se divertindo muito com o Danny e eu sou sempre uma melhor companhia. - Ele comentou não tão radiante quanto o usual.
- Aconteceu alguma coisa? - Indaguei novamente.
- Eu já disse que não está doendo, . - Ele não pareceu tão irritado desta vez.
- Não é isso. Você está estranho hoje. - Olhei preocupada para o seu rosto impaciente e ele empurrou-me através de uma porta como resposta.
Tropecei em meus calcanhares assustada e arregalei os olhos quando ele me sentou em um banco. Inclinei-me para trás pela proximidade e esperei, tentando entender o que estava acontecendo. Ele riu da minha reação e andou até uma outra mesa. Percebi que estava na cozinha um pouco depois, quando ele sentou-se a minha frente com um grande prato de comida e empurrou-o na minha direção.
- Você não comeu, correto? - Ele sorriu quase que imperceptivelmente com o canto esquerdo a boca e eu reconheci o Dougie de sempre.
Agradeci com os olhos e apaguei as recentes preocupações da mente, feliz por poder aproveitar a refeição enquanto ambos sorriamos calados.
Capítulo 15
Hesitei a frente da porta de onde todos deveriam estar comendo, ou me esperando para fazê-lo, e desisti de atravessá-la. Dei meia volta e andei até a cozinha. Eu provavelmente levaria algumas repreensões pela minha ausência, mas eu não conseguiria fazer com que nada passasse pela minha garganta se eu estivesse sendo encarada. Eu teria que agüentar as queixas do Sr. Jones mais tarde, as quais eu julgo muito menos aterrorizantes do que as do seu filho.
Assim que eu acabei minha refeição matinal, um pequeno cartão endereçado a mim foi-me entregue. Como não havia remetente no envelope eu o deslizei para que ficasse entra a faixa que eu tinha amarrada em minha cintura e o vestido e fui procurar um lugar para lê-la com alguma privacidade. Acabei nos jardins, sentada em um dos bancos de pedra.
- Eu não entendo! - Assustei-me quando alguém exclamou à minha esquerda. Pulei para a extrema direita do banco, atenta. O barulho havia cessado.
Levantei, andei na direção do silêncio e pude escutar murmúrios. Mais alguns passos e vi Danny e Elisabeth entre os grandes e esculturais arbustos centrais. Escondi-me atrás de um deles e apurei os ouvidos.
- Não há o que entender, Elisabeth.
- Mas, eu...
- O que aconteceu ficou no passado, eu já esqueci. - Ele parou, e por um momento pareceu estar se divertindo. - Você deveria fazer o mesmo.
Ela estava incrivelmente próxima dele e tinha os olhos marejados.
- Eu achei que...
- Talvez nós não devêssemos ter ido tão longe da última vez que esteve aqui. - Ele segurou sua cintura para impedir a aproximação. - Eu sei que você espera que eu tenha uma atitude tão madura quanto os nossos atos.
Ela manteve-se calada, imóvel, esperando que ele continuasse.
- Saiba que eu não vou ter. - Ele disse olhando em seus olhos.
- Não importa. - Elisabeth aproveitou-se da sua distração e uniu seus lábios com urgência.
De inicio ele não pareceu responder sua investida, mas alguns segundos depois pareceu desistir de tentar afastá-la.
- Lizzie... não diga que não lhe avisei. - Ele olhou para ela impaciente, franziu a sobrancelha e respondeu com mais intensidade que a própria Elisabeth. Danny uniu seus quadris, pressionando-se contra ela, e então intensificou o beijo.
Levei as mãos à boca, assustada com o desfecho da situação. Envergonhada por ter espreitado o que não me dizia respeito dei um longo passo para trás e então perdi o equilíbrio. Antes que eu pudesse perceber, já estava no chão com meu vestido preso em um dos galhos.
- Quem está aí? - Danny perguntou e então eu pude escutar o som das folhas secas sendo destruídas abaixo de seus sapatos cada vez mais próximos.
Desesperada, puxei meu vestido com força e corri para o bosque. Parei três árvores depois e sentei em uma das raízes. Olhei para os lados, não havia ninguém por perto. Esperei alguns instantes em silêncio e então tentei levantar ainda ofegante.
Antes que eu ficasse de pé por completo duas mãos seguraram meus ombros e empurraram-me de volta. Olhei para cima e encontrei o rosto do Danny a alguns centímetros do meu, trincando os dentes.
- Sua estúpida. O que você estava fazendo? - Ele segurou minhas vestes como se eu fosse um homem qualquer em quem quisesse bater.
- Desculpe, eu não queria. Eu estava passando e...
- Não importa. - Danny gritou.
Virei meu rosto rapidamente para o lado e fechei meus olhos. Ele calou-se por um segundo, então largou minhas roupas e moveu meu queixo em sua direção.
- Mantenha-se quieta quanto a esse assunto.
Balancei a cabeça concordando e ele levantou-se.
- Simplesmente não interfira nem conte a ninguém. - Ele deu dois passos e então parou. - Não pense que eu esqueci, ainda temos assuntos a tratar.
- Desculpe. - Murmurei olhando para o chão enquanto ele se afastava.
Ele poderia ter sido um pouco menos bruto ou talvez me pedido delicadamente para manter a boca calada, mas não seria ele mesmo. Eu até entendo o seu nervosismo, romances proibidos geram um enredo relativamente freqüente nos livros que leio e geralmente não acabam muito bem.
Elisabeth pareceu aborrecida, mas não comigo em particular. Para o meu alivio, Danny deveria ter escondido o fato de eu ter espiado os dois mais cedo. Passei o resto da tarde lendo e discutindo literatura com ela, sem grande entusiasmo da parte de nenhuma de nós, meu humor também não estava nas melhores condições. Para a minha surpresa, eu estava mais incomodada com os acontecimentos da tarde do que eu gostaria de admitir.
Capítulo 16
Creio que devo-lhe ao mínimo uma visita,
porém, as circunstâncias me deixam levemente incômoda em sua casa.
Assim como eu, meu irmão acredita ser uma idéia maravilhosa que você nos
acompanhe em uma caminhada no parque amanhã pela tarde.
Sua companhia seria simplesmente formidável.
Se estiver de acordo, enviar-lhe-ei uma carruagem .
Aguardo uma resposta.
Atenciosamente,
Carrie Fletcher.
Encarei por um momento a carta que eu havia esquecido de ler no dia anterior. Era algo no mínimo difícil de digerir quando pessoas que tecnicamente lhe raptaram convidam-lhe para um passeio no parque. Mas eu devia este tanto a mim mesma e a toda a família Jones, eu teria que obter o máximo de informações ou uma explicação plausível para aquela noite.
Apanhei uma folha e anotei uma resposta rapidamente:
Creio que deve-me uma explicação,
se as circunstâncias não lhes são confortáveis
eu ficaria mais que satisfeita de acompanhar-vos esta tarde.
Aguardo a carruagem.
Agradecida,
.
Dobrei o pequeno bilhete e pedi para o cocheiro enviar-lhe.
Evitei todos no desjejum e no resto da manhã para evitar ter que passar as informações sobre meu passeio com os Fletcher e o Oficial Judd, a quem eles não pareceram afeiçoar-se muito profundamente, até que a carruagem apareceu em frente à mansão. Disse a governanta, Sra. Price, que voltaria como o vento, e pedi que não comentasse com ninguém sobre a minha ausência. Entrei na carruagem vazia, que logo tomou seu rumo pela pequena estradinha que nos levava para fora da propriedade dos meus anfitriões.
Um pouco depois me vi no parque, Carrie alcançou-me rapidamente e tomou meu braço.
- Estávamos esperando por você. - Ela era toda sorrisos. - O que lhe fez demorar tanto?
- Entrei na carruagem assim que ela chegou. - Respondi sem sorrir.
Carrie percebeu meu estado de espírito e ficou um pouco séria. Caminhamos na grama lentamente e caladas. O que era, provavelmente, a sua forma de dizer que se importava, que não precisava sorrir o tempo todo fingindo que nada havia acontecido. O silêncio era menos rude.
- Ali estão eles. - Ela cruzou nossos braços novamente, voltou a sorrir e nos levou às três pessoas que nos esperavam de pé a alguns metros.
Harry estava diferente, usando uma roupa casual, ao contrário de sua farda. Era uma camisa branca de mangas compridas e um jaleco, seus cabelos estavam menos perfeitamente penteados. Fora suas vestes, tudo nele era como o de costume, incluindo suas feições cansadas. Ao seu lado estavam Emma Habery e Tom Fletcher. Ela olhava para mim com o mesmo desânimo de nosso primeiro encontro, combinando perfeitamente com seu vestido escuro e cheio de babados.
- Srta. ... - Tom levantou sua boina com o indicador, cumprimentando-me, assim como os outros. - Estávamos falando da senhorita neste instante.
- Bem, eu espero. - Mascarei o nervosismo com o humor que eu não tinha
.
Emma riu um pouco, sarcasticamente.
- Certamente.
Harry começou a andar com Carrie à frente e fomos caminhando logo atrás.
- Ainda dói? - Tom se aproximou.
- O quê? - Perguntei me afastando um pouco.
- A cabeça... - Ele fez uma rápida gesticulação, lembrando-me que ele havia batido na minha cabeça para me apagar por completo. - Você sabe.
Na verdade ela doía, mas eu mal pude preocupar-me com uma única pancada se meu corpo doía por completo.
- Não, não muito.
- Bem, - ele tirou a boina e passou a mão no cabelo antes de recolocá-la na cabeça. - Não foi a intenção.
Eu apenas abanei a cabeça enquanto ele apertou seu passo e afastou-se à minha frente.
- Certo. - Tom parou depois de termos nos afastado bastante. - Acho que é por aqui
Ele virou à direita e todos o seguimos até uma velha casa entre as árvores.
- Já faz algum tempo desde a última vez que estive aqui. - Carrie comentou ainda sem relaxar seus músculos faciais.
Parei, receosa.
- Não iríamos caminhar apenas? - Tentei mostrar-me confiante, porém a forma que contraio a boca quando o faço me entrega.
- Não se preocupe, não vamos tentar nada parecido. - Harry falou comigo pela primeira vez. - Você quer conversar e nós queremos um lugar privado para atender ao seu pedido.
- Nada mais justo. - Emma riu e adiantou-se logo atrás de Tom, que já havia aberto a porta.
Carrie me esperou na escada frontal que tinha apenas alguns degraus, era uma casa discreta, nada muito luxuoso. Para contrastar com a casa antiga, sua pouca mobília era elegante. Sentamos em dois sofás e Tom descansou em uma poltrona.
- O que você gostaria de saber? - Carrie pôs sua mão em meu ombro.
- Pensei que não teria que perguntar.
- Acho que nós deveríamos falar por nossa própria conta. Tudo o que podemos, pelo menos. Assim a pouparemos de ter alguma pergunta ignorada. - Harry opinou, ninguém pareceu discordar.
- Eu acho que tudo, ao menos do seu ponto de vista, começou comigo, no seu quarto. - Tom lembrou, eu me movi, empurrando uma almofada. - Era a única forma de levá-la. Tudo estava perfeito. A festa, todos ocupados, você cansou-se mais cedo, subiu para o quarto e nos deu mais tempo. Te dei algo pra dormir e encontrei com os dois. - Ele olhou para a irmã e Harry. - Foi mais fácil do que eu imaginei, não havia ninguém desocupado o bastante para ter notado algo.
- Então cavalgamos até onde você acordou. - Harry disse. - O resto você deve recordar.
- Conversamos com algumas pessoas e...
- Que pessoas? - Perguntei antes que pudesse continuar.
Tom pareceu hesitar.
- Autoridades. Estão em uma linha de comando bem acima de Harry. - Presumi que fossem policiais.
- Você recobrou consciência e lhe fizeram perguntas.
- Sim, excluindo-se o fato de que nenhuma palavra fez sentido! - Elevei meu tom e Carrie sobressaltou-se ao meu lado, assim como Emma, que fez uma careta.
- Tudo o que fizemos foi levá-la para pessoas que podem lidar com um problema que está fora do nosso alcance! - Ela suplicou que eu me acalmasse. - Por favor! Estamos fazendo o que podemos, não queremos que se afaste de nós, mas é o máximo que podemos fazer!
Ela pareceu autêntica, não estava mais sorrindo. Segurava meu antebraço com força.
- Temos motivos para acreditar que a aceitaram naquela casa por motivos diferentes dos quais você acredita. Não podemos ter certeza, claro, por isso somos cautelosos. E, acredite, na festa, aquilo fomos nós sendo cautelosos. - Carrie continuou, ignorando os olhares surpresos dos presentes. Aquilo não deveria ser parte das informações a serem divididas comigo. - Não temos uma boa relação com os Jones, não é nada pessoal, na verdade. Mas...
- Carrie, basta. - Emma, falou descruzando as pernas.
- O quê? - Ela soltou meu braço. - Como vocês acham que vamos ter a confiança de dessa forma? Ela precisa de respostas.
- E eu preciso que você feche a boca e seja mais obediente. - Tom levantou-se.
- Não discordo, Carrie. Mas já falou o bastante, por agora. - Harry disse. - Devemos voltar, presumo que ninguém saiba de seu passeio. - Harry se dirigiu a mim, e eu concordei com a cabeça.
- É melhor que não seja vista com nenhum de nós a sós mais que o necessário. Há muitas pessoas no parque hoje. - Tom veio até mim e levantou-me pelos ombros. - Ande para a carruagem, não fale com ninguém, vá para casa.
Ele me levou até a porta e eu olhei para todos na sala mais uma vez antes de atravessá-la, ainda digerindo as poucas migalhas de informação. Deveriam ser o bastante por agora, mas não me impediam de me perguntar se realmente valeria a pena confiar neles. Porém, não pude deixar de notar, um momento antes de virar, que todos aparentavam estar genuinamente preocupados.
Capítulo 17
Mesmo que não fosse algo muito difícil em uma mansão com tantos cômodos, era depressivo evitar todas as pessoas da casa. Me fazia me sentir mais sozinha do que nunca. Porém era pior ter que olhar em seus olhos sem saber se estava fazendo a coisa certa em esconder toda a história, a qual, diga-se de passagem, nem eu entendia completamente. Eu precisava tirar tudo a limpo, descobrir a verdade.
Desci para o desjejum, uma das únicas horas do dia em que eu conseguia conversar. Eu me concentrava apenas na mastigação e em acenos de concordância.
- Você está se sentindo bem, Srta. ? - O Sr. Jones perguntou aproximando as sobrancelhas.
- É verdade, , não te vejo mais fora do quarto. -Dougie olhou para mim. - Parece um pouco mais pálida do que o normal. - E então ele se permitiu rir um pouco.
- Estou bem. Muito bem na verdade! - Achei melhor enfatizar para soar mais autêntica. - Acho que ando apenas um pouco indisposta.
Danny mastigava lentamente enquanto me analisava do outro lado da mesa até que pôs o talher de lado e limpou sua boca.
- Estou certo de que nada é mais culpado que o tédio. Ela não sai de casa há dias, não é verdade? - Danny não tirou seus olhos de mim e algo na sua voz me disse que ele sabia que eu não estava em casa na tarde do dia anterior.
- Muito bem observado, filho, mas não se preocupe, . Recebi um convite para um grande jantar na casa do Sr. Astor, um velho amigo, grande homem.
- Aquele banqueiro metido? Ah tio! - Dougie protestou ao meu lado. - Visitá-lo não vai curar o tédio, só vai deixar tudo mais enfadonho.
- Não somos apenas nós, como eu disse, é um grande jantar. - Sr. Jones tranquilizou Dougie, que afundou na cadeira ao meu lado. - Viajaremos eu e Daniel, amanhã ao amanhecer, mas voltaremos a tempo e então iremos todos.
Mostrei meus dentes no maior sorriso que pude, tentando parecer convincente a todos. Os dois garotos apenas acenaram em concordância, sem sequer tentarem fingir satisfação.
- Lizzie insistiu firmemente tarde passada em ir à cidade comprar algumas coisas para a viagem, eu disse que qualquer criado poderia ir em seu lugar, mas ela estava muito determinada. - Ambos os Jones pareciam ser próximos da Srta. Lefroy, mesmo que estivesse na casa como minha tutora ela não estava trabalhando para a família, é como se eu fosse um pretexto para a visita de um parente querido. - Quero que os dois, - ele olhou para mim e então para o Danny. - sigam para o meu alfaiate depois do café e façam companhia a ela no caminho de volta. Vamos, Poynter, você tem trabalho a fazer.
Dougie pôs a mão na minha cabeça e levantou-se com o seu tio, deixando a sala antes que eu pudesse pedir que ficasse. Observei ele ir atônita e então me virei com os olhos baixos, evitando encarar o único que ainda estava na mesa. Já me preparava para fingir a perda de apetite quando ele falou:
- Vou preparar os cavalos, quando estiver pronta, me encontre no estábulo. - Ele disse antes de deixar a mesa em largos passos.
Abandonei o prato alguns segundos depois e subi ao meu quarto para apanhar um par de luvas rendadas e meu chapéu. Lembrei de meu casaco bem a porta do estábulo quando uma rajada de vento atingiu minha face, mas não voltei receosa de atrasar o percurso e aborrecer minha companhia.
- Vamos? - Acenei com um sorriso quando me aproximei dele, que já me esperava encostado a carruagem, ignorando seu cabelo que se rebelava ao vento. Ele concordou, abriu a porta e me ajudou a subir.
Já havíamos deixado os terrenos da família sem trocar uma palavra, eu já estava conformada e achava tudo muito normal quando ele abriu a boca.
-Espero que não chova até o fim da tarde. -Danny surpreendeu-me com o comentário casual.
- A lama seria um problema, sem dúvida. - Respondi.
- Ao chegarmos à cidade, Lizzie provavelmente já terá voltado para a mansão. - Disse pondo a mão no queixo e olhando pela diminuta janela.
Ele parecia querer manter um diálogo.
- Muito provavelmente, ela não arriscaria com esse tempo. - Falei, animando-me com o diálogo.
Por alguns segundos eu esperei outro comentário despreocupado ou uma resposta qualquer, em vão. Ele ainda olhava através da janela quando mudou sua expressão de alheio para entediado. E eu honestamente preferia o Danny indiferente de sempre.
Levantei minha sobrancelha fortemente tentada a perguntar o motivo da repentina queda de humor, mas desisti assim que o pensamento tomou forma em minha cabeça. Ele deve me odiar. Não. De fato, ele me odeia. Sem dúvida alguma. A garota enxerida, curiosa, que acusa qualquer um sem provas palpáveis com quem ele é forçado a conviver diariamente.
- Sabe... - Ele me olhava com seus olhos pesados. - Você não me conhece.
- Eu sei que...
- Então não olhe para mim como se fosse a dona da verdade.
Virei meu corpo para a direção oposta decidida a parar de tentar decifrar o seu comportamento incoerente, e me surpreendi ao escutar a portinha bater alguns segundos depois. Olhei novamente em sua direção apenas para constatar que ele havia descido da carruagem. Pulei de meu assento e fui atrás dele pisando na lama com meus sapatos amarelos.
- Jones, por favor, pare com isso. – Pedi. - Não há necessidade.
O cocheiro gritava para que voltássemos e ambos ignorávamos seguindo em frente para onde quer que fosse. Ele continuou andando, calado, e eu continuei a segui-lo.
n/a: *limpando as teias de aranha por aqui...* Bom, faz um bom tempo sem atualização, mas agora com as férias eu espero poder mudar a situação eheheh.
bejobejo