Por: Luany S.
Beta-Reader: Brille
Prólogo
Be strong. Believe

Senti uma dor na cabeça quando a luz bateu em meus olhos. Um cara forte abriu o porta-malas do carro e puxou meu braço pra cima, parecendo não se importar por ter me puxado forte demais e feito minha cabeça bater no interior do carro. Ele praticamente me arrastava até uma casa no meio do nada, caminhando por um quintal com a grama alta, pinicando minha perna. A terra molhada fazia minhas pernas fraquejarem mais ainda e eu tentava andar calmamente pra não cair, mas o homem grandalhão me puxava com mais força e praticamente corria pra dentro da casa.
Ele abriu a porta de madeira e me jogou no cômodo apertado, fechou as janelas, mas eu pude ver que ao redor não havia casa alguma, ou um mercado, ou um posto de gasolina de estrada. Depois, pegou um celular preto e ligou pra alguém, dizendo algumas coordenadas e que “a namoradinha idiota já estava bem escondida”, pegou algumas cordas e me amarrou na cadeira ao lado de uma mesa de jantar empoeirada, colocando um pano imundo na minha boca antes de sair.
Queria pelo menos saber por que estavam fazendo isso comigo. Logo depois chegou mais um homem, me olhou de lado e começou a falar com o outro aos sussurros. Não consegui escutar o que falavam e comecei discretamente tentar desfazer o nó que tinha ficado atrás de mim, perto das minhas mãos. Agradeci pelo otário ser tão burro, que nem um nó conseguiu fazer direito, desamarrei e afrouxei discretamente as cordas continuando parada. O primeiro saiu da sala, o outro sentou em uma cadeira e quando percebi sua cabeça tinha tombado e ele babava dormindo.
Se a situação não tivesse tão critica e perigosa eu poderia rir de dois bobões como esses. Saí da casinha e o cheiro do mofo e do pó continuavam no meu nariz. Tirei o pano da boca e comecei a correr. Não via ninguém me seguindo, nem nada. Só via terra, pedras e mais terra. Já tinha corrido bastante e meus pulmões já falhavam em protesto. Não sabia se ainda estava em São Francisco, nos Estados Unidos ou na América do Norte.
Estava desesperada e suava. Minha cabeça doía, sentia frio e minhas pernas pediam descanso. Mas eu não podia parar, não tinha esse direito. Tinha que fugir. A única coisa que eu lembrava antes de terem me batido na minha cabeça com força e terem me feito desmaiar, era de uma mulher ruiva com um sorriso desvairado acenando pra mim. A qualquer momento aqueles brutamontes chegariam e me levariam de volta e esse seria o meu fim. Continuava não vendo nada a quilômetros de distancia. Meus olhos já se enchiam de lágrimas e começava a achar que correr estava sendo perda de tempo e energia.
Parei e me sentei atrás de uma pedra grande e abracei meus joelhos tentando gravar na memória todos os momentos bons que vivi. Então escutei um barulho de motor e vi um carro prata e luxuoso na metade da estrada. Levantei-me e corri pra beira da estrada. Meu coração bateu aliviado por breves segundos, então eu vi a mesma mulher ruiva saindo do carro. Tentei correr, mas ela foi mais rápida e me puxou pelo cabelo, machucando-me e me jogando dentro do carro.
Olhei-a apavorada com as mãos trêmulas, ela falava no telefone.
— Suas ameaças me divertem — ela disse rindo. — E adivinha quem está aqui comigo?... Não, é claro que eu não vou fazer nada com ela, amorzinho. Deu sorte que eu estou de bom humor e vou deixar você falar com seu precioso e blá blá blá zinho — ela disse pra mim e estendeu a mão com o telefone.
. Senti meu coração dar um pulo e voltar um pouco à vida. Tentava parar de chorar, não queria demonstrar fraqueza. Mas estava no telefone, e isso era o mais próximo que eu estava dele. Peguei o celular, tentando não tocá-la, enquanto meu coração queria sair pela boca.
? — escutei perguntando ansioso e preocupado. E essa poderia ser a última vez que ouviria sua voz.
— disse chorando. — O que está acontecendo? Me tira daqui, por favor.
— Ahhhhhhhh, você está bem — ele gritou e suspirou aliviado, eu sorri de lado. Eu estava viva, ele quis dizer. — Fica calma, não se desespera. Vai ficar tudo bem, vou te tirar daí nem que seja a última coisa que eu faça, eu prometo.
Depois que ele disse isso, minha visão ficou turva e a última coisa que eu vi antes de desmaiar, de novo, foi um borrão vermelho vivo vindo na minha direção.

Capítulo I
“Who do you, who do you, who do you, who do you think you are?
You really think you're in control.”


Escutei a porta sendo destrancada e logo uma maçaneta sendo girada. Provavelmente era meu irmão e isso me deixava feliz. Não estaria mais sozinha, não que eu me importasse com isso. Mas escutar ruídos que levam você a imaginar coisas ruins durante um fim de semana inteiro não é legal. Nate me faria companhia, ele é meu irmão e, estranhamente, eu o adoro.
— Oi, maninho — eu disse me levantando do sofá e indo na direção dele, o mais docemente possível.
Ele andava de forma relaxada e com um sorriso arrogante na face. Eu adorava aquele sorriso, era tão... Nate. E quando passou perto de mim não disse nada. Tinha ficado o fim de semana fora e quando chega não me fala nada? Uma criança de 10 anos consegue sentir saudade, sabia? Passava o dia inteiro perto dele, mesmo ele não querendo. Queria ser amiga dele, tentava conversar e ele correspondia de uma forma tão um tanto diferente. Ah, mas era o Nate, ele era assim.
— Sai do caminho, nanica — Nate disse sem paciência e me empurrou para o lado. Aquela era uma forma diferente de demonstrar carinho, claro. Eu adorava aquele apelido, deixei — ou fui obrigada a deixar — ele passar e continuei indo atrás dele, não conseguia detectar nada de ruim na sua atitude. Era normal.
— Onde você estava, maninho? — perguntei saltitante.
— Já disse pra parar de me chamar de “maninho” — ele repetiu “maninho” com a voz esganiçada, como se me imitando, não entendi o porquê. Abriu a geladeira e bebeu o suco na garrafa, e era por isso que ninguém bebia aquele suco. Era do Nate, não queira contrariar. E não ia fazer nenhuma diferença beber daquele se tinha outros lá. Ri.
— Maninho, você sabe onde o papai e a mamãe estão? Mariah não quer me contar.
Nate parou e olhou pra mim me analisando.
— E quem se importa com eles? Você não percebe o que eles fazem com você?
— Nate, não estou te entendendo.
— Sua idiota, eles te deixam sozinha, nunca ligam e muito menos deixam você saber onde eles estão. Por que se preocupa com isso?
Ignorei a parte do idiota. Irmãos se xingam, não xingam?
— Eles... Eles não ligam porque não tem tempo. E Mariah não me conta por que... Porque não é necessário. Eles estão trabalhando — gaguejei.
— Ah, qual é, ! Para de mentir pra si mesma, ou você vai me falar que gosta de ficar sozinha imaginando coisas?
— Eu... Eu não gosto, mas eu não estava sozinha, Mariah ficou comigo enquanto não estava ocupada. E como você sabe sobre imaginar coisas?
Ele riu irônico e suspirou.
— Quando eu tinha a sua idade acontecia comigo e eu odiava — ele disse com o tom seco. Eu estava realmente feliz por Nate estar conversando comigo, e ah, a voz dele era daquele jeito mesmo, eu tava acostumada. — E não vou te falar como eu fiz os barulhos pararem — ele disse com um sorriso que eu via os meninos fazendo quando falavam coisas para as meninas, que eu não entendia, em filmes.
— Que bom que você agora fala comigo, maninho, você quase nunca me responde quando eu pergunto. Aconteceu alguma coisa?
Na mesma hora a expressão dele mudou para de raiva, decepção e muito mais raiva. E eu podia jurar que ele tinha ficado vermelho e estava quase roxo. O que aconteceu a seguir eu não entendi muito bem, ele fechou a porta da geladeira com força e saiu resmungando coisas como: “Isso nunca mais vai acontecer comigo. Nunca mais vou levar um fora. Sou um , e s não sentem nada por ninguém. Nem ligam para os sentimentos dos outros.” Eu sorri. Eu sabia que Nate me amava, ele era meu irmão e aquilo que ele falou não era pra mim, sem dúvidas.

Não sei por que me lembrei disso. Talvez pra ver como era mais simples fingir que minha vida era boa, como eu era inocente, que eu tinha um irmão que me amava e como era ruim ficar sem entender algumas coisas. E hoje, sete anos depois, estou no último ano do colegial, minha família é tão desestruturada que chega a ser sufocante, minha vida pode ser boa na parte financeira, mas na sentimental é uma grande merda e eu odeio meu irmão.
Eu poderia enforcá-lo se ele não fizesse parte da minha árvore genealógica. Eu até ficaria feliz de ter um irmão mais velho, se ele ao menos me compreendesse, me ajudasse e me protegesse, mas se existe algo certo na minha vida, é que meu irmão nunca fará alguma dessas três coisas.
Eu tenho uma desconfiança sem fim de que ele ficou com um problema sério de auto-estima depois que a sua linda e ex-namorada aspirante a modelo popular o abandonou. Quem o conhecesse hoje, diria que ele nunca seria dispensado, talvez porque é ele quem dispensa as namoradas. Creio que esse foi o primeiro e único fora que ele já recebeu. E desde então, ficou arrogante, idiota, revoltado e muito imbecil.
Ele é o típico garoto que eu não gostaria de namorar. Nunca. Eu desprezo, repugno. É uma ação natural minha repelir caras como meu irmão. A única e principal diferença é que apesar de tudo eu realmente amo o Nate.
Hoje eu podia ver o quanto o sorriso dele era arrogante, como aquele apelido dos infernos não era nada carinhoso e como a maneira dele me tratar era grosseira. Cara, como era bom ser inocente. Mas devia ter agradecido. O Nate de antes não era nada comparado ao que ele veio a se tornar na época em que os hormônios começaram a se pronunciar, ele era o único homem que ficava em casa em tempo integral e eu já sentia que tinha muita testosterona no ar. E acredite ou não, eu era inocente.
Estava a caminho da escola, e por motivos que eu desconheço tive aquela lembrança do meu irmão. Acho que é por falta de o que pensar, talvez. Claro, pra quem acorda às cinco horas da manhã, sendo que as aulas só começam às sete, é difícil ter com o que ocupar a mente. Faltava mais ou menos uma quadra pra chegar à escola e voltando à realidade percebo que não está andando ao meu lado e cumprindo seu papel de melhor amigo, que é: encher minha cabeça de baboseira e não me fazer pensar nos meus problemas familiares – o que ele exerce muito bem e executa todo dia sem dificuldade nenhuma. Pelo menos os dias que ele não vai dormir 3h da manhã, como hoje, e não se atrasa.
podia se considerar um cara de sorte por estudar no Westmoor High School, que é uma escola tradicional bem diferente, podemos dizer. Porque a escola não se importa se os alunos vestem o uniforme completo (saia xadrez ou calça cor caqui, camisa sem mangas branca social, gravata, meia até o joelho para as meninas, sapatilhas ou sapatos sociais pretos e blazer — todas as peças com o brasão do Westmoor) ou se só usem a camisa social. Eu particularmente só uso a camisa, e felizmente a saia xadrez e o blazer são em cores que eu gosto: vermelho e azul, respectivamente. Bem patriota a escola. Mas, como eu odeio saias e roupas sociais, passo essa e só fico com a camisa mesmo.
O que é uma boa opção para os dias de calor — que são constantes — sabe... abrir alguns botões para deixar um ventinho entrar é agradável, como Lola diz, já que eu não faço isso. Botões fechados, calça jeans e qualquer tênis confortável está de bom tamanho para mim. Como dizia, a escola não se importa com o uniforme e atrasos. Para eles os alunos entrariam quando sentissem que estão no seu estado máximo de inteligência — o que eu acho impossível para os gorilas do time do futebol — para aproveitarem melhor a aula. Mas quem sou eu pra reclamar? A Westmoor também tolera aparelhos eletrônicos e os portões ficam abertos o dia inteiro, para qualquer um entrar quando bem pretender. Mas acho que as cercas elétricas e os seguranças são dicas sutis pra manter os ladrões e não-alunos bem afastados. Também é bem comum se escutar o primeiro sinal e continuar a ver pessoas conversando em baixo de uma árvore, sentadas na grama aproveitando o Sol e encostados em carros namorando. São sempre as mesmas pessoas que são vistas entrando para a primeira aula, pessoas como eu; com poucos amigos, rotulada como revoltada com a vida e com um sonho a ser alcançado.
Rótulos, coisa totalmente desnecessária. Os que são rotulados como populares e filiados, geralmente entram quando é a hora do almoço — e como não podem mais sair — ficam o resto do dia dormindo, escutando música, navegando na internet pelo celular e coisas do gênero. No fim do bimestre ameaçam algum nerd com óculos fundo de garrafa a passar as respostas para eles não levarem bomba nas provas e não reprovarem. Passam de ano sem nenhum esforço. Coisas da vida.
E uma coisa que continuava a mesma desde a criação da escola é o ensino. Não se tolera conversas paralelas em hora de explicação — “Se não quer aprender não aprende, mas não atrapalha quem quer”. É uma das poucas “regras” que existe, mas de qualquer jeito, a escola vai tirar dinheiro dos nossos pais, se eu aprender ou não — não se aceitava trabalhos e lições de casa com entrega atrasada e o método de aprovação continua o mesmo, ou seja: passa de ano quem tiver nota. É uma escola estranha, eles querem ao mesmo tempo nos ver a vontade e ver nossas cabeças sendo decapitadas.
Estava de frente ao portão. E conseguia ver o jardim e o estacionamento de um bom ângulo. Eu adorava o jardim, é realmente muito difícil abandoná-lo e ter que ir pra sala de aula para ir me sentar em uma cadeira desconfortável. Não dei nem cinco passos no jardim e percebi que tinha uma certa agitação perto de um carro preto que eu não reconhecia. Poucos passos depois pude distinguir alguns dos populares em volta de um novato. que provavelmente era parente de algum deles.
Ele exibia um sorriso ridiculamente arrogante, que me lembrava muito o do Nate. Ele olhava para as pernas das líderes de torcida como se estivesse comendo-as com os olhos, sem vergonha nenhuma. E quem disse que elas se importavam? Cada vez sorriam mais de forma maliciosa pra ele. Se pelo menos fossem só as lideres de torcida que tivessem se jogando pra cima dele, como se tivesse escrito na testa: “Me encontra no armário de vassouras, às 10h”, eu entenderia; mas pra cada lugar que eu olhava via meninas suspirando e corando quando percebiam o olhar do novato nelas. Revirei os olhos e continuei andando. Alunos novos são comuns e deslocados, mas alunos novos com parentes populares são arrogantes, metidos, imbecis, idiotas e repugnantes. O tipo de garoto que eu desprezo.
Quando passei perto de onde ele estava eu só o olhei nos olhos — exatamente na hora que ele olhou para mim — e fiz pouco caso. Não me importava se ele era novidade... No Westmoor High School, nenhum aluno novo me parecia interessante o suficiente pra concluir um assunto comigo, muito menos pra virar meu amigo ou coisa parecida.
Quando estava quase no pátio vi Lola perto de uma árvore escrevendo no diário — ela usava o uniforme completo, mas em vez da saia ser vermelha era rosa bebê e em vez do blazer ser azul marinho, era azul bebê —, provavelmente escrevendo sobre o novato. O que era uma perda de tempo sem fim.
— Não acredito que até você, Lola — disse. Louise pulou de susto.
— Até eu o quê? — ela disse escondendo o diário nas costas. Eu ri.
— Até você tá com obsessão pelo novato a ponto de escrever no seu diário! — eu disse revirando os olhos.
— Não é obsessão e sim lógica. Você já reparou em como ele é bonito?
— Ele pode ser o que for, aquele sorriso pode enganar qualquer uma, mas a mim não. Acredite, Louise, eu tenho um irmão que é uma cópia bronzeada e morena do novato.
— Não vejo problema nisso... — ela disse distraída escrevendo rapidamente no diário. Nem consigo imaginar quantos adjetivos deve ter ali.
— Você não vê problemas porque não é você que tem que ficar aturando ex-namorada inconformada ligando na sua casa chorando e falando que vai fazer Nate se arrepender do que fez. Se isso pelo menos tivesse acontecido uma vez, tudo bem, mas é no mínimo três vezes por semana.
— Seu irmão se importa muito com os sentimentos das pessoas, né?
— Igual o Novato. Tenho certeza. Uma ex do Nate já chegou a falar que ia jogar macumba nele. É critica a situação.
Lola olhou assustada e logo fechou o diário, parando de escrever seja lá o que for.
— E como você sabe que o novato é assim? Tenho que descobrir o nome dele, ficar falando novato é cansativo.
— Sabendo — disse caminhando distraidamente para dentro da escola com Louise ao meu lado.
— Acho que eu preciso fazer manutenção na minha “intuição feminina”.
Olhei pra ela como se ela fosse louca e tive que rir.
— Louise, de onde você tira essas coisas? — disse ainda rindo. — Se fosse só você que tivesse esse problema de não enxergar quando um cara não presta, eu não teria que fingir ter pena das ex do meu irmão três vezes por semana. Às vezes eu me pergunto se elas gostam de caras assim, não é possível tantas acreditarem no que ele fala — disse isso mais pra mim mesma do que pra Lola.
— Como vemos todos os dias aqui, existem sim mulheres que gostam de ser tratadas como lixo.
— O que é uma vergonha para o nosso sexo. E acabei de descobrir como eu sou feminista — disse assustada.
— E como você me influencia.
Despedimo-nos quando o sinal bateu, dei uma última olhada para o jardim e entrei para a aula de matemática. Tive uma surpresa bem desagradável quando descobri que o novato era da minha classe. Tudo bem, ele ficaria no lugar dele e eu no meu, normal, nada que eu deveria me preocupar. Nunca liguei para alunos novos, eles nunca entravam no meu caminho, não me incomodavam e não sentavam na minha carteira.
Mas sempre tem que existir uma exceção. Não vou dizer que eu fiquei só um pouco irritada quando o vi no meu lugar, pois não fiquei. Estava a ponto de dar um tiro nele e eu era uma pessoa calma. Era difícil alguém — além do meu irmão — conseguir me tirar do sério e o novato já conseguia fazer isso sem ao menos falar comigo. Existiam mais, no mínimo, 20 lugares vazios e ele tinha que escolher sentar justo no meu. Não sei como ele chegou à sala antes de mim e o que ele está fazendo aqui.
Pessoas como ele não vem pra escola estudar, vêem para passar o tempo e não ter uma vida social vazia de festas e diversão. Não tem lógica ele ter entrado na primeira aula, isso não é normal. Olhei pra ele com o máximo de raiva possível e me sentei do outro lado da sala.
Sentia alguém me olhando, mas ignorei, continuei tentando entender o professor de matemática — seja quem for que o estivesse fazendo não valeria à pena perder meu tempo, porque as únicas pessoas que eu me importo nessa escola não fazem parte dessa classe. O professor continuava falando sem parar, e já fazia tempo que eu já não conseguia entender e prestar atenção em alguma coisa.
Ainda sentia ser olhada, parecia uma coceira que eu não podia fazer parar. Poder eu podia, mas não perderia meu tempo com isso. Virei meu corpo para o lado da parede e comecei a rabiscar a carteira. Pouco tempo depois senti meus olhos ardendo e minhas pálpebras ficarem pesadas. Adormeci. O sonho começou assim...
— MENTIRA! — escutei alguém gritando e pulei de susto. Procurei de onde tinha vindo o som e vi uma menina, aproximadamente da minha idade, com a expressão apavorada e com um celular na orelha. Não sabia quem era, provavelmente eu já tinha visto, mas não tinha guardado seu rosto na memória, só fazia um mês que eu estudava no Westmoor, não ligava de ficar só e não tinha a mínima vontade de conhecer alguém. Estava sendo obrigada a estudar aqui, faria o possível pra ser expulsa e não pretendia criar laços com ninguém. Simples assim.
Olhava, curiosa, a menina andar de um lado para o outro, como se o mundo fosse acabar. Quando ela percebeu que eu a olhava parou de andar abruptamente, voltei a me esconder atrás da arvore e a escutar música. Escutei a menina se despedir de quem fosse no celular e depois o silêncio. Um tempo depois escuto passos e as folhas secas do chão sendo quebradas. Antes de eu ter tempo de pensar o que poderia ser, uma menina loira pula na minha frente e diz:
— Buu! — revirei os olhos e a olhei com cautela. — Te assustei, né?
— Não — disse evasiva.
A menina sentou-se ao meu lado e pegou na bolsa uma barrinha de cereal.
— Quer? — ela mordeu. — Sabe, eu queria mesmo comer alguma bala de goma cítrica, mas minha mãe descobriu e ela odeia que eu coma doce. Tenho que arranjar outro jeito de contrabandear doce pra dentro de casa, bolso falso não engana mais — me impressionei vendo-a falar de boca cheia, não esperava isso de uma menina como ela.
— Não — disse observando uma abelha em cima da cabeça da menina.
— Ainda não consigo acreditar que aquela sapatilha Jimmy Choo de camurça branca com detalhes de couro de cobra tingido de rosa tem no shopping e eu tô presa na ESCOLA!
Preciso dizer que depois que ela disse “sapatilha” eu não entendi mais nada? Não? Foi o que eu pensei. Esse foi um dos motivos de eu decidir não fazer amigos. Pessoas muito superficiais me irritam. E a abelha voava perto do cabelo da menina agora.
— Finge que eu entendo o que você fala, ok? E sem querer, hm, te apavorar tem uma abelha voando em cima da sua cabeça.
Ela parou de mastigar e ficou em silêncio um tempo, como se estivesse se adaptando a idéia que tinha uma abelha quase em cima dela. Então gritou e saiu correndo. Por um motivo que desconheço passou pela minha cabeça que aquela menina poderia ser alérgica a abelhas e se alguma coisa acontecesse com ela, ela ficaria incapacitada e a culpada seria eu — sem dúvidas, colocariam a culpa em mim.
Fui para a direção que a menina tinha saído correndo e pouco tempo depois a encontro suspirando e se abanando.
— Você tá bem? — perguntei. — Sabe, se por alguma razão você for alérgica a abelhas eu vou entender porque você saiu correndo, mas se ao contrário, você está prestes a ver uma furiosa.
— Ufa, despistei ela — ela disse limpando o suor da testa. — E não, eu realmente sou alérgica a abelhas, você não sabe como uma bolha pode se tornar grande. É realmente muito trágico quando desastres da natureza (lê-se: eu ser picada por uma abelha) desse grau acontecem. Ah, meu nome é Louise Heartniggle, prazer.
.

Então o sonho mudou.
Louise e eu estávamos perto da lanchonete comprando nossos doces. Quando ela descobriu que vendia na lanchonete tive que agüentar uma Louise hiperativa durante um longo tempo — agora entendia porque a Sra. Heartniggle não a deixava comer. Tinha se passado algumas semanas desde o dia que nos conhecemos. Louise falava sem parar, tá certo que ela é minha amiga devia lhe dar atenção, mas não entendo metade do que ela fala, então só assentia de vez em quando e cuidava de não esbarrar em alguém, o que estava sendo impossível hoje.
Geralmente eu não sou uma pessoa distraída, e eu sempre tenho que cuidar para que Louise não esbarre nos outros, então hoje tinha virado uma tarefa dupla. Enquanto andava e comia uma bala de goma cítrica laranja escutei alguém gritando e me virei. Trombei com um menino loiro com tanta força que em segundos estávamos caídos no chão.
— Ah, maravilha. Sempre bom ter que conviver com pessoas que não conseguem enxergar um palmo a frente e ter que me preocupar onde eu piso agora. — disse menino com ignorância, se levantando e limpando a roupa.
— Olha, me desculpa por não ter a coordenação motora perfeita e não ter olhos atrás da cabeça, tá bom? — disse irritada e levantando.
Olhei pra Louise e fiquei confusa. Ela estava tão vermelha e com as bochechas tão cheias de ar que tive que perguntar.
— Esqueceu como se respira, Lola?
Então ela começou a rir. É, isso mesmo a menina vira um balão de aniversário vermelho e depois começa a rir. Olhei pro menino e ele estava tão confuso quanto eu.
— Lola. Você nunca me chamou de Lola, . Nunca pensei que meu nome poderia ter outro apelido além de Lou, Louise é um nome meio chato. Nem apelido tem direito.
— Poderia ser Lise também — o menino disse se intrometendo na conversa. Ele falava com um ar meio arrogante, mas pude perceber que estava sendo sincero. Ele parecia muito com aqueles surfistinhas filhinhos de papai que tem tudo do bem o do melhor e tentam se fazer indiferentes à tais coisas, mas não vivem sem.
— Ou poderia ser Lolalise — Louise disse rindo sem parar. Definitivamente, eu nunca mais a deixo comer doces.
Olhando ela rindo daquele jeito, com lágrimas nos cantos dos olhos e apertando a barriga; deu uma imensa vontade de rir, não do “Lolalise”, mas da Louise. Percebi que o menino achou a mesma coisa e logo estávamos os três rindo.
— Acho que já descobri o nome dela, né, Lolalise? E qual é o seu? — ele disse parando de rir e se direcionando pra mim.
— Louise Heartniggle é o certo, não quero ficar conhecida como Lolalise. Você escutou o nome dela! Eu falei , mas o certo é — Lola disse séria respondendo por mim.
— Sou — ele disse e passou a mão nos cabelos, e sorriu.
Um gesto que me irritou bastante. Mas sentia que teria que me acostumar com ele e com todos seus defeitos.


— Senhorita , você poderia me responder essa pergunta? — o professor praticamente gritou no meu ouvido. Saltei da cadeira atordoada. Uma coisa que eu odeio, que eu odeio mais do que ketchup e café — eu não estou sendo irônica — é ser acordada aos berros, ou simplesmente ser acordada.
— Sou obrigada a isso? — ele não respondeu. — Bem, foi o que eu pensei. E se você não sabe responder essa pergunta, VOCÊ que fez anos a fio de faculdade, VOCÊ que trabalha com isso a vida inteira, VOCÊ que já deve ter tentado — porque não está conseguindo — ensinar essa matéria para dezenas de turmas, não sabe a resposta. Imagina eu, uma mera aluna do ensino médio? — perguntei irônica.
Dessa vez não era só uma pessoa me olhando e sim mais ou menos 26. Mas só tinha um olhar que me irritava. E a pessoa que me olhava me deixando desconfortável estava rindo da MINHA situação. Sorrindo, eu podia ver que ele estava, mas não sabia por quê.
Todos me olhavam assustados, e ele achava graça disso. Olhei pro novato, bufei e voltei a me sentar.
O professor me encarava bufando, sustentei o olhar sem dificuldade nenhuma e ele logo o desviou. Se ele pudesse, me colocaria pra fora da sala, agora. Mas como a regra era não atrapalhar os outros estudarem, ele não tinha direito nenhum de fazer isso. E tecnicamente quem interrompeu a aula foi ele e não eu, então eu tinha todo o direito de dar um belo chute na bunda gorda dele pra fora da sala. Eu nunca durmo na aula, quando isso acontece é porque eu estou muito cansada. Ou quando a aula está muito chata mesmo, dá muita ênfase nesse mesmo.
Eu, que sou logo uma aluna aplicada, não incomodo ninguém, NUNCA durmo na aula dele, e ele vem de graça tentando me deixar constrangida na frente da classe inteira? Uma coisa que é certa na minha vida escolar é que nenhum professor terá sucesso tentando me deixar com vergonha. E agora me pergunto por que sonhei com o dia que conheci Lola e . Fazia muito tempo e agora posso ver como eles me fazem bem.
Cerca de um mês depois do dia que viramos amigos eu já não queria mais ser expulsa e estava até vendo a escola com outros olhos. Mas não tinha mudado muita coisa, as pessoas ainda eram as mesmas, mas estava sendo mais ele, conseguia perceber que quando ele estava longe de nós — eu e Lola — ele voltava a agir como o menino metido que eu conheci quando nos esbarramos e eu via a mudança drástica quando ele estava perto de mim. Ele agia mais descontraidamente, se preocupava comigo e era muito carinhoso com Louise e comigo também, mas eu percebia que tinha um tipo de carinho diferente por ela desde aquela época.
Quando a droga do sinal finalmente tocou esperei todos saírem e quando eu pensei que só tinha eu e o professor na sala, agi o mais gentilmente possível. Se quer irritar um professor que te odeia e não dar motivos pra ele te dar uma bela suspensão, faça isso.
— Sr. Brown, quer que eu apague a lousa? — eu disse com os olhos brilhando de forma maligna e com a voz meiga.
— Não — ele me olhou desconfiado.
— Imaginei isso — disse suspirando com falsa decepção.
Olhei para onde eu geralmente sentava, de costume, pra ver se eu tinha esquecido alguma coisa e vejo o novato assistindo tudo com a expressão intrigada.
— Perdeu alguma coisa? — perguntei no mesmo tom que perguntei pro professor e saí da sala.
Eu devia não ter falado aquilo se quisesse paz.
Já estávamos no fim da terceira aula e eu desde a segunda tinha ganhado uma nova sombra e não estava nem um pouco feliz com isso. Por onde nós andávamos as pessoas olhavam curiosas. Estava odiando aquilo, odiava atenção. Ele andava do meu lado me analisando calado e não o vi nenhum segundo sem aquele sorriso irritante no rosto. Quando eu perguntava o que ele queria agindo daquele jeito ele sorria sarcástico e falava com o máximo de ironia:
— Ainda não sabe?
Depois ficava em silêncio se divertindo com a situação. Aquilo estava me cansando, estava a ponto de explodir. Tinha tentado afastá-lo de todas as maneiras verbais civilizadas, apesar de tudo eu era educada com as pessoas, e conseguia fazê-las ficar com medo e afastá-las sem ao menos elevar a voz.
— Olha aqui, não sei por que você decidiu me fazer de Cristo hoje, não sei por que decidiu escolher se sentar no meu lugar, me seguir sem falar nada e sem minha permissão, eu não sei. Não sei por que você fica analisando CADA coisa que eu faço — já tinha repetido aquele discurso dezenas de vezes. — Só sei que quero você longe de mim e se isso não acontecer tenho certeza, sem duvida nenhuma, de que vou fazê-lo se arrepender do que está fazendo — ele continuou perto de mim e fez cara de tédio. — Ok, depois não diga que não avisei.
Faltavam alguns minutos para o sinal tocar e irmos para o “intervalo”. Sabe, até hoje eu não entendo porque só pelo fato de mudarmos de série e envelhecemos um pouco as pessoas te acham idiota por falar recreio. Se falar intervalo vai mudar o que acontece? Vai ficar melhor? Não. Não vai e não vejo motivo nenhum para não falar recreio. As pessoas que estavam na sala agora conversavam fora do lugar animadas. Assim como existe a luz, existem as trevas, e no Westmoor não era diferente, não existiam só pessoas esnobes e cruéis, tinham as boas também, e tinha algumas meninas que se divertiam de tal forma que eu quis saber sobre o que falavam.
O Novato tinha passado a aula inteira do meu lado, e por uma sorte que eu não sei de onde vem, quando entramos na sala de Geografia vi que muitas pessoas resolveram estudar hoje e que só tinha mais dois lugares vagos, e eram lado a lado. O Novato nem precisou falar que tinha gostado da situação porque o sorriso presunçoso que ele tinha falava mais do que palavras.
Já enxergava vermelho há muito tempo e quando eu o fuzilava com os olhos eu percebi que ele sorria de forma canalha, o que me fez sair do sério. Já estava de saco cheio — ou como minha professora de Biologia diz: de ovário cheio — e não sei como pude agüentar tanto tempo. Já sabia o que ele tentava fazer, e como todos que já tentaram isso, fracassaram. Não me lembrava a última vez que eu corara ou ficara com vergonha, ao contrário das vezes que eu me irritara. Suspirei fundo e massageei as têmporas.
— O que você pensa que está tentando fazer? — disse controlando minha voz.
— Ainda não sabe?
Ok, depois disso eu realmente saí do controle.
— “Ainda não sabe?” sua mãe não te ensinou outras palavras não, garoto? E para a sua informação você está falhando totalmente nessa tentativa ridícula de tentar me deixar embaraçada e de me fazer agir debilmente como todas as meninas dessa escola agem quando você está por perto, ou ao menos olha pra elas. E você realmente pensa que é quem? Pra chegar do nada pensar que é o todo poderoso do lugar e virar a sombra de uma pessoa? Só porque você conhece algum, alguns, não interessa, daqueles populares nojentos isso não lhe dá o direito de fazer isso comigo sem ao menos me dar uma explicação — gritei a ultima palavra e ri sem humor.
E o que me fez ficar com mais raiva ainda foi perceber que ele estava novamente com aquela expressão de tédio. Em momento algum tinha percebido que quase a sala inteira olhava para mim e em momento algum eu parei de falar olhando para ele. Então, pra minha felicidade, o sinal tocou.
— E se eu escutar o seu sotaque britânico ridículo a menos de 5 metros de mim se considere um homem morto — disse com a maior seriedade do mundo e ao sair da sala bati a porta, recebendo olhares confusos e chocados.
Andava rápido procurando Louise e as pessoas ainda olhavam pra mim e eu retribuía com raiva. Aquela ameba do novato nem estava mais perto e continuavam olhando pra mim. Era culpa dele eu estar com tanta raiva a chegar ao ponto das pessoas prestarem atenção. Pouco a pouco, os estudantes iam se acomodando no pátio ou saindo para o jardim, algumas pareciam ainda estar dormindo e já eram 10h30min, no mínimo. Andei mais um pouco e avistei coçando os olhos e com a mesma expressão sonolenta que eu vi nos outros. Sorri de lado me acalmando um pouco.
Fazia algum tempo que eu não via . Nem tanto tempo assim, ok admito, não fazia nem 24h. Mas eu fiquei tão dependente dele que por poucos períodos de tempo que ficávamos afastados eu já sentia sua falta. se tornou há muito tempo o irmão mais velho que eu nunca tive, quer dizer, o irmão mais velho que eu sempre quis ter.
A maior parte do tempo, ou todo o tempo que era possível, via-se eu e juntos, às vezes pensavam até que namorávamos, o que deixava Louise muito brava, um belo motivo pra começar a provocá-la e deixá-la com vergonha.
Ri por dentro, estava bem mais calma e me lembrava vagamente do novato. Quando cheguei perto de fiquei em silêncio e olhei pra direção que ele olhava distraído. Sorri marota ao ver que ele olhava pra Louise.
— E aí, admirando a paisagem? — perguntei divertida.
— Ah, claro... muito — disse baixo e quando viu que era eu e que eu estava com as sobrancelhas arqueadas e quase explodindo de risos, se apressou em dizer: — Ah, não... Quer dizer. Porra, Kate, já disse pra não fazer mais isso — ele disse um pouco irritado e eu ri.
— Quem te viu quem te vê né, — disse e ele ficou vermelho por poucos segundos e logo voltou com a pose de indiferença.
— Quem viu o de antigamente não tem nada pra ver de novo no atual. É claro, sem falar dos músculos, de como meu sorriso ficou mais perfeito, meu corte do cabelo novo... — ele disse contando nos dedos e continuaria assim o dia todo. Uma coisa que eu tinha me acostumado todos esses anos era lidar com o ego estupidamente grande dele.
— Já entendi, — disse revirando os olhos e fiquei séria. — Mas você sabe que tudo isso não importa pra ela — olhei pra Lola.
— Isso tudo o quê? — ele disse fingindo que não tinha entendido depois suspirou e disse sério. — Eu sei.
— E sabe que ela não liga pra músculos, cabelos, dentes, não é? Quer dizer, ela gosta muito deles, mas o que a fez se apaixonar por você foi cada defeito e mania sua, coisas que ela não consegue ver.
— Sei também — ele disse sorrindo de lado.
Ficamos em silêncio algum tempo e eu tinha certeza de que ele ainda olhava pra Lola, que estava sentada na grama com a cabeça virada pra cima, com os olhos fechados aproveitando o Sol.
— Ela está sofrendo, , e não sabe mais até quando vai ficar esperando por você e o quanto mais consegue suportar te vendo exibir seus “troféus” a cada encontro ou festa que vai.
Os lábios dele estavam tremendo, ele não gostava desse assunto e sempre que eu tentava clarear seus pensamentos ele ficava assim.
— Também sei que sou um idiota — ele disse cabisbaixo e eu ri.
— Talvez. Mas você deveria logo falar com ela.
— Falar o que exatamente?
— Sei que você é meio lentinho e já até me acostumei com sua deficiência, sabe, mas não entendo porque você não deixa essa vida — ele ia protestar. — E não, não tem sentido o que você fala.
Ele ainda olhava pra ela e quando viu que tinha um garoto indo na direção dela, começou a estralar os dedos nervoso e a bufar. Isso era totalmente normal. era ciumento demais e Louise chamava muito atenção; ele gostava dela há anos e não tomava nenhuma atitude, tinha cerca de dois encontros por semana e Lola o amava, mas não estava morta, “Assim como ele pode sair com quem quiser eu também posso” ela falava, “Não temos nada, ele preferiu assim”.
Não tirava a razão dela, mas por um lado eu entendia como se sentia, analisa a situação: tem medo de um relacionamento sério e com as “acompanhantes” dele não precisava disso, já tinha se acostumado com essa rotina e engolir seu orgulho e dizer as palavrinhas mágicas primeiro não estava na sua lista de coisas a fazer antes do natal.
Antes de conseguir incinerar com o olhar¬— que conversava animadamente com Louise, que se importava mais com o Sol do que com ele —, o arrastei pela mão até a parte do gramado que Louise e estavam, ele não ficou muito contente com isso, mas não reclamou.
— Melhor mandá-lo embora mesmo — disse quando estávamos na metade do caminho.
Quando chegamos até eles, enquanto e se encaravam, Louise me pedia socorro com os olhos. Outra situação comum. Poucos garotos dessa escola a interessavam e às vezes eles eram persistentes, quando ela não sabia mais o que fazer para afastá-los, ou pelo menos tirar toda a atenção deles dela, eu aparecia.
— Oi, — eu disse educadamente e me sentei ao lado de Louise arrastando junto comigo.
— Hey, — ele disse animado me cumprimentando.
— O que faz aqui na periferia do gramado? — perguntei casualmente. Já conhecia , ele era animado, uma companhia agradável. Louise às vezes não aproveitava a oportunidade de esquecer .
— A melhor parte do gramado na minha humilde opinião. Estou tentando convencer uma bela loira a me dar uma chance — disse galanteador e beijou a mão de Lola, que revirou os olhos.
— Já disse que não estou com saco, . Não perca seu tempo.
Por algum motivo Louise não gostava dele e deixava isso bem claro, o que não o desmotivava de tentar conquistá-la.
— Por que não, minha loira? bufou e disse irônico:
Sua loira?
— Sim, , mais minha do que sua, pode não ser minha agora, mas um dia, sem dúvidas, será, e vou dizer aos quatro ventos que Louise Heartniggle é a minha loira.
— Quem você pensa... — disse se levantando e indo na direção de , Louise fechou os olhos e fez cara de choro, se levantou também.
— PAREM — gritei o mais alto que pude e os dois me olharam chocados como se eu tivesse falado: SE BEIJEM. — AGORA — eles se afastaram e olharam pra mim. — , você não vê o que está fazendo com ela? E você, ? Acha que ela gosta de ver as pessoas que mais a amam tentando se matar? E VOCÊS ACHAM QUE EU GOSTO DE FICAR BRIGANDO COM VOCÊS? As únicas pessoas que eu suporto dessa escola? — me olhou indignado. — Não me olhe desse jeito! Você sabe que errou e que não é má pessoa — respirei fundo e voltei a ficar calma. — Podemos voltar a conversar civilizadamente agora, sim?
se sentou do meu lado direito e do lado direito de Lola. Depois disso começamos a conversar como se nada tivesse acontecido, Louise continuava um pouco evasiva e tinha seus motivos pra isso. deu um pulo e sentou na minha frente e fez o mesmo.
— Posso saber o que isso significa? — Louise perguntou.
— Minha loira — disse e o fuzilou com os olhos, — digo, Lou. Queria te pedir desculpas e dizer que não importa o que aconteça, eu sempre vou esperar por você.
Vi um pequeno sorriso de canto aparecer na boca de Lola.
— Sei como é essa coisa de esperar — ela disse olhando pros pés. — Mas então, , foi pra frente porque queria falar comigo, e você o que quer? — ela perguntou esperançosa.
ficou inquieto porque Louise chamou o de... .
— Ah, nada, sabe como é, reflexo, pulou e eu também.
Louise instantaneamente se desanimou, enquanto e conversavam sobre alguma coisa banal como se fossem melhores amigos, chamei a atenção de Louise e levantei a deixando confusa.
— Vamos à cantina. Você precisa se animar
Assim, ajudei-a a se levantar e quando estávamos na cantina vi os olhos de Louise brilharem. Doces sempre eram um remédio eficaz contra e , balas de goma cítricas rosa especificamente. Comprei diversos tipos e saí carregando uma sacola que estava consideravelmente pesada.
— Ai, Lola, me ajuda aqui. — disse a ela e ela pegou um lado da sacola, com uma mão comia e com a outra segurava uma alça.
— Nada melhor do que doces pra levantar o humor.
— Ainda prefiro os chocolates, por isso comprei esses daqui — disse abrindo um pouco a sacola. — Louise, você precisa se animar, seu humor que é sempre mais alto que a média das pessoas comuns está lá em baixo. Está mais baixo que o meu e isso é um recorde difícil de ultrapassar.
Ela suspirou e jogou mais doces na boca.
— Você não entende — Lola disse com a boca cheia fazendo uma careta. — É complicado.
— Ainda bem que eu não entendo.
— Você nunca vai conseguir entender se continuar assim — ela disse irritada.
— Assim como? Tentando ajudar uma amiga? Ah, claro, vou parar de tentar isso então.
— Não foi isso que eu quis dizer...
Interrompi-a.
— Você disse bem claramente, não tente me enganar.
— Você nunca vai entender porque nunca amou alguém na vida, ou já amou e eu não sei?
— Não, nunca. E não vejo problemas nisso. Essa briguinha ridícula já está me cansando.
— Ridícula? — Lola perguntou se exaltando. — Quer dizer que meus sentimentos são ridículos?
— Não, eu quis dizer que essa briga é ridícula, você sabe muito bem disso — disse revirando os olhos e ela bufou.
Quando chegamos ao jardim, e estavam conversando com algumas pessoas em uma rodinha. Sentei-me de costas para a rodinha e Louise na minha frente, não nos falamos e o único barulho que se ouvia era o da sacola quando pegávamos alguma coisa lá de dentro. Olhei pra onde os meninos estavam por cima do ombro e viu que tínhamos chegado, vi ele e se despedirem e logo eles estavam sentados na minha frente comendo meus doces.
— Ou minha memória anda fraca demais ou realmente não dei permissão pra vocês comerem meus doces.
— Não, eu realmente não pedi sua permissão e sei que não preciso dela — disse enchendo a boca de chicletes.
— Idem — disse.
— Às vezes me pergunto se vocês são realmente meus amigos. — vi pegando um chocolate e gritei: — Não! Você come o que quiser, mas os meus chocolates NÃO.
Louise, e Bryan, que estavam sentados na minha frente, começaram a rir e segundos depois saiu correndo comendo o meu chocolate. Está certo, era só um chocolate, por isso mesmo eu fiquei brava.
— Hoje vocês definitivamente estão a fim de me tirar do sério.
— Ah, relaxa e pega o outro chocolate, bombinha — disse e Louise riu mais.
— Bombinha? E por que esse apelido ridículo agora? Por acaso eu sou redonda... — ia responder — NÃO RESPONDA ESSA PERGUNTA.
— Como eu disse: bombinha — ele disse descontraído e olhou sobre a minha cabeça. Quando eu ia mandar Louise parar de rir me surpreendi ao ver que ela não ria mais e olhava por cima da minha cabeça e vi que fazia o mesmo. A expressão de Louise era engraçada, estava ao mesmo tempo sonhadora e ao mesmo tempo chocada.
— O que aconteceu, gente? — perguntei baixo, me virei cautelosa e pra minha grande decepção vejo ninguém mais do que o novato. — Ah, é você — disse decepcionada e falei com os meninos — Alguém poderia me dizer o que esse protótipo de britânico faz aqui?
— Como você sabe que ele é britânico, ? — Louise disse sem tirar olhos do novato.
— Eu esqueci de contar os meus problemas quando tentava resolver os seus e você ainda me diz que eu não ligo pros seus sentimentos.
— Três... dois — fazia contagem regressiva por algum motivo.
— Posso saber por que está contando? — perguntei a ele.
— Contagem regressiva pra você explodir — ele disse, senti meu rosto ficar vermelho de raiva — Um.
se escondeu atrás de Louise e todos riram, menos eu.
— E vocês ainda perguntam por que eu me irrito — disse revirando os olhos e me lembrando que o novato estava ali e me surpreendi ao ver que ele estava sentado do meu lado me olhando com a mesma curiosidade nos olhos que olhava de manhã — O que ele faz aqui? — disse seca.
— Vejo que já se conheceram — Bryan disse. — O que me poupa um pouco das apresentações. Louise Heartniggle — ele apontou pra ela. — . — apontou pra ele — Louise Heartniggle. Bem, você e a já se conhecem.
, Prazer — disse cumprimentando Louise com um sorriso canalha, o que irritou muito a mim, a e a .
— Olha, vejo você aprendeu outra palavra, meus parabéns! — disse sarcástica.
Todos me olharam com expressões confusas e o sorriu, estava começando a achar que ele só sabia fazer isso. Se eles soubessem o que tinha acontecido não me olhariam assim e de qualquer jeito, não é a realeza pra eu ter que tratá-lo como se fosse.
— Ficaria muito feliz se você me ensinasse palavras novas, já que é tão inteligente e superior que eu, — ele retrucou no mesmo tom.
— Vejo também que andou se informando, já que sabe até meu sobrenome — disse calma. Estranhamente eu estava calma. — Engraçado isso.
— Sei de muitas coisas sobre você já, sabe como é, preciso saber como o inimigo costuma atacar.
— Por que eu iria querer “atacar” você? Perdeu seu tempo e foi a única coisa que você fez o dia todo, porém enquanto você procurava saber minuciosamente sobre minha vida e pude ter uma única sombra de novo.
, Louise e escutavam atentamente, confusos. Não tive a oportunidade de contar e não queria também. Não valia a pena gastar saliva com um assunto tão insignificante.
— Pelo mesmo motivo que todas as outras querem, . E virar sua sombra foi uma das melhores coisas que eu já fiz na vida — ele disse se aproximando mais de mim.
— Ainda bem que mau gosto não é contagioso, pois a única coisa que eu quero de você é distância — eu disse olhando nos olhos dele e com a voz baixa. Depois me arrastei para trás. — E se virar minha sombra foi uma das melhores coisas que você já fez, sua vida social e seus passatempos devem ser animadores — disse sarcástica.
Ele sorriu, de novo, canalha, e se aproximou de mim me olhando nos olhos e eu de novo me afastei. Não estava com medo, mas também não estava contente com aquela aproximação, sentia que minha privacidade estava sendo invadida. Sempre que eu podia mantinha Nate e qualquer outra pessoa bem longe do meu quarto, entretanto nunca consegui falar de um modo gentil para Mariah que não queria ela no meu quarto, não podia chegar e dizer: “Hey, não mexe nas minhas coisas, porque eu odeio qualquer jeito de organização que não seja o meu, é idiota e desnecessário”, não queria magoar a única pessoa que cuida de mim sem reclamar e me considera uma filha.
Mas ficava terrivelmente difícil encontrar alguma coisa depois, com aquela arrumação toda. E se eu não gostava que minha mãe substituta invadisse minha privacidade, não tolerava que um garoto com o dobro do meu tamanho e força, de cabelos sedosos, com os olhos extremamente e hipnotizantes o fizesse. Pisquei voltando a realidade, e me xingando por dentro por ter pensado aquilo.
Isso não está certo. Não queria perto de mim, e não podia ficar pensando aquelas coisas, muito menos depois de ter falado o que falei sobre todas as meninas da escola. Sem dúvidas isso não significou nada e só ocorreu porque ingeri muito doce hoje. Desfiz o contato visual com ele e me arrastei mais uma vez para trás.
— Ao contrário, minhas atividades de lazer são muito prazerosas — disse como quem fala sobre o tempo; aumentando o sorriso e olhando pro vazio, se lembrando, suponho, de alguma das suas distrações e mais uma vez veio pra perto de mim.
Não se mova mais um milímetro, , estou muito bem aqui — sibilei e quase me sentei em que em cima de . — Desculpa — sussurrei pra , que me olhava confuso. Louise e tinham o mesmo misto de confusão e incredulidade no olhar que eu ignorei.
Deve ter entrado alguma mosca no ouvido do ou ele teve um problema repentino de surdez porque veio pra perto de mim como se eu não tivesse falado nada.
— Hm, , eu sou uma pessoa calma e...
— Calma? Desde quando você é calma, ? — perguntou.
Virei-me lentamente na direção dele e o fitei com desdém.
— Desde sempre. Sou uma pessoa tremendamente calma quando estou longe de vocês — retruquei e revirei os olhos.
— E Nate, ? Ele consegue te tirar do sério mais rápido do que — Lola disse prendendo um riso. Mas uma vez ela estava enganada, claro. conseguia me irritar apenas com o olhar e Nate, quanto tentava isso, eu conseguia com facilidade ignorar.
— Pelo que eu me lembro, Louise, ou melhor, pelo que eu não me lembro. Quando foi que essa conversa chegou a Nate?
Ela não respondeu. me olhava indagador, acho que se perguntando quem seria Nate. e estavam sérios agora, eles nunca gostavam quando eu e Louise brigávamos e sabiam muito bem que a única pessoa que saía magoada era Lola, então como se fosse uma lei da natureza, a culpa caía sempre para cima de mim, tentando fazer eu me sentir a vilã da história. Eu pouco me importava, tratava tudo com indiferença, eu estava certa, obviamente eram eles que deveriam me pedir desculpas e terem esperança que meu humor estivesse bom no dia para eu aceitá-las.
— Alguém tem mais alguma coisa pra falar? — perguntei. Todos continuaram em silêncio, me levantei, peguei minhas coisas — inclusive meus doces — e comecei a andar querendo o máximo de distância deles.
Tudo ficaria bem, para eles. Louise se tornaria a Maria Flor e teria três maridos, seria feliz e logo eles esqueceriam a válvula de escape que tinham quando queriam culpar alguém. Não me incomodava com o silêncio, até gostava pra ser sincera. E no silêncio eu pude descobrir respostas para questões não respondidas e conseguia me confundir ainda mais quando percebia que não tinham sentido.
Olhava no relógio impacientemente. Faltavam ainda 45 minutos para o sinal de saída tocar e desde o intervalo eu esperava ir para casa, na parte de trás da escola. Nas vezes que eu vinha aqui sempre tinham poucas pessoas e sempre as encontrava ou dormindo ou estudando. Isso era um pouco reconfortante, e sempre que vinha aqui era porque eu precisava de paz e de não ser encontrada. Era o lugar ideal, porque o Sol não te incomodava — por causa da enorme sombra que as árvores juntas faziam —, o silêncio se prolongava e o melhor: não tinha Lola’s, ’s, ’s nem ’s.
Estava deitava em um dos bancos de madeira com a cabeça em cima da mochila e escutando música com os olhos fechados. Nas duas aulas inteiras que se passaram depois do intervalo, não pude distinguir nenhum barulho diferente do das folhas voando e do ronco de alguém a alguns metros de mim.
Quando deu o sinal para a última aula eu me levantei e fui para outro banco que ficava de costas para uma das entradas, a mais usada, do lado oposto. Um bom lugar para se esconder, pois eu só seria vista se investigassem de perto e ninguém perderia tanto tempo atrás de mim.
Continuei escutando música e mais uma vez olhei no relógio, a situação não tinha mudado muito, parecia que o tempo estava demorando passar pra tirar uma com a minha cara. Faltavam 38 minutos. Mas o real problema não era o tempo, e sim se eu dormisse aqui, na parte menos movimentada da escola, e ninguém me encontrasse depois. A posição que eu estava era confortável, no momento pelo menos, e as músicas cada vez iam ficando mais lentas. Escutei um som abafado de algo sendo pisado, mas foi muito baixo para eu poder começar a me preocupar, então ignorei.
A música que tocava era tão calma e lenta que eu tive que mudar de posição pra tentar ficar mais acordada, coloquei os pés sobre o encosto do banco e de imediato me xinguei por isso. Porque novamente escutei passos e agora sentia que estava perto. Desliguei a música e tirei a blusa de cima do meu rosto.
Quando abri os olhos e vi quem me observava. Uma raiva, que estava bem escondida em um lugar sombrio dentro de mim, se manifestou.
— O que você faz aqui? — me sentei e olhei de novo no relógio.
— Já está ficando chato ter de fingir que eu não escuto essa pergunta toda hora — respondeu se sentando ao meu lado.
— Então por que você me da motivos para proferi-la? — perguntei inconformada.
— Porque eu preciso entender o motivo de tanta negatividade — ele disse com sarcasmo.
— Motivos que você nunca vai entender se continuar a agir desse modo. E você só sabe falar com sarcasmo? — perguntei olhando no relógio de novo, 5 minutos.
— Falo assim por opção, querida.
— Não, você fala assim querendo esconder a verdade, por que tem medo que descubram alguma coisa que você não está preparado para revelar — disse me levantando e deixando-o com seus pensamentos.

Capítulo II
“Everybody knows your name, but they don't know who you are But to them it's just the same, yeah you're just another name”.


Muitas vezes cheguei a desejar que Nate nunca tivesse dito aquilo sobre enganar a mim mesma, a respeito da atitude dos nossos pais. Mas se eu não tivesse aberto meus olhos, como eu estaria agora? Será que eu teria me cansado de ter uma vida perfeita? Com certeza sim, mas pelo menos eu teria tido mais alguns anos tranqüilos e sem discussões como essa durante o café da manhã.
— Nate, eu tenho que falar quantas vezes pra você não fazer isso? Era o último suco, droga.
— Ah, já vai começar? Sei lá, bebe café.
— Você sabe muito bem que eu não bebo café. E você tem colocar na sua cabeça que não mora só nessa casa.
— Cala a boca, .
— “Cala boca, ”, Nathaniel, você não deveria ter dito isso se quisesse que eu continuasse com a sua mentirinha, que está viajando pra Austrália e que não tem data de volta, para as suas namoradinhas.
Ele quase se engasgou quando eu terminei de falar. Sempre que ele estava em casa e atendia ao telefone e era alguma ex-namorada possessiva dele, eu o via ficando com cara de tédio e depois de alguns segundos de total tortura ele desligava o telefone, que tornava a tocar segundos depois. Então ele inventou uma desculpa e me colocou nela.
Durante um tempo a desculpa estava indo bem, era difícil escutar o telefone tocando, mas depois que as ex-namoradinhas compraram cérebros e perceberam que era uma baita mentira eu tive que inventar outra para ter paz. E se não fosse eu que tivesse inventado a desculpa da Austrália, ele estaria até hoje sendo torturado.
Mas se a tortura caísse apenas para cima dele, eu não ligaria, mas sempre uma grande parcela dela caía pra cima de mim.
— Você não contaria — ele disse limpando a boca do suco com um guardanapo.
— Ainda não sei por que duvida.
— Se você contasse também seria prejudicada.
— Não, não seria. Poderia muito bem dar a elas o seu número de celular novo ou dar para cada uma o número da outra, assim elas formariam um clã e exterminariam você de uma vez, me fazendo um grande favor — disse calmamente colocando leite no cereal.
, você não conseguiria viver sem vim — ele disse como se fosse uma coisa óbvia.
— Conseguiria tanto que seria capaz de usar o espaço do seu quarto pra fazer um lindo lar para gatos abandonados que você não é nada alérgico, né? — disse irônica. — Ou faria uma biblioteca.
— Livros ou gatos? — quando Nate disse gatos ele espirrou. — Gatos, com certeza.
— Claro, sua alergia por livros é tamanha que prefere ficar se coçando e ficar da cor de um porco rosa, a ter que aturar alguns livrozinhos inofensivos. Como você conseguiu terminar a escola e o que faz na faculdade?
Ele ia responder quando eu dei a última colherada no cereal, depois disso a campainha tocou. Esperei Mariah atender, mas não escutei o barulho da porta sendo aberta e novamente a campainha tocou.
— Entra — eu e Nate gritamos para o vento, já sabendo que não escutariam do cômodo que estávamos.
Quando abri a porta me deparei com Louise andando de um lado para o outro, igual da primeira vez que eu a vi. Antes de eu perguntar o que aconteceu ou de falar pra ela entrar, Lola entrou correndo para dentro de casa e saiu em disparada para a cozinha. Não entendi nada, pensei primeiro que ela estava indo pro banheiro, mas então ela entrou na cozinha e começou a conversar com Nate.
— Lola? — perguntei receosa, entrando na cozinha.
— Você não sabe o que eu descobri.
Respirei fundo e me sentei na cadeira de frente a ela. Sempre que eu escutava aquela frase, desde 2 semanas atrás, eu sabia que era sobre . Ela vinha me enchendo com esse assunto sem pausas, já tinha se tornado cansativo há muito tempo. Mas Louise era persistente e o jeito que ela contava não era como se fosse algo que interessasse a ela, era como se isso devesse interessar a mim. Depois que ela me pediu desculpas, era tão comum eu aceitá-las que Louise não esperava eu responder mais, ela quis me contar tudo que tinha descoberto sobre e vez ou outra me olhava, para ver qual era a minha reação, porém todas as coisas que ela me contara eu já sabia. Não sei como, mas nada que ela me disse me fez ficar surpresa. Era o óbvio, e o óbvio é fácil de enxergar.
Como na semana passada, eu via a escola inteira falando sobre o mais novo casal do Westmoor, e Madison Cooper. Como se isso não fosse acontecer um dia. A líder de torcida mais cobiçada e o novato que mais causou curiosidade. Do mesmo jeito que era óbvio saber como ele era britânico e suspeitar que ele tinha amigos populares na escola, antes de estudar aqui.
A única coisa que me deixou surpresa foi saber que esse amigo era o . Naquele dia não tinha se atrasado, ele estava com cara de sono porque acordou cedo demais e na hora que eu o encontrei ele já tinha falando com o e o apresentado a todos. Do mesmo jeito que era óbvio saber, apenas olhando, que ele era o maior cafajeste da escola, que depois que ele levasse Cooper para cama ele terminaria com ela e que o número de celular que ele passou era inválido. Mesmo com todos os olhares estando voltados a ele e com toda a atenção extra por estar namorando a pura Madison, ele arranjava tempo para vir me encher com as mesmas perguntas e tentar ser amigável. Pensei em todos os motivos para ele estar fazendo aquilo, mas não encontrei nenhum plausível.
O que me mais intrigava era que parecia que ele estava gostando de me irritar, e ninguém gostava de me ver irritada, e que ele agia tão descontraidamente que parecia que ele estava entre “amigos”, mas ele não estava. Quando ele falava comigo eu deixava bem claro que ele estava sendo inconveniente e estranhamente isso despertava nele curiosidade. Que pessoa nesse mundo não entende o conceito de ser inconveniente?
Mas teve uma vez, a primeira vez que ele falou comigo depois que eu o deixei sozinho na parte de trás da escola, que fez esquecer tudo que eu pensava sobre dele, me fez esquecer até onde estava e me perguntar quem realmente seria ...
— Hello, Terra chamando ! — Louise estalava os dedos sem parar na frente do meu rosto.
— Que foi? — perguntei confusa.
— Não liga não, Louise, depois de ela ficar maligna ela sempre fica lenta — Nate disse rindo.
— Mas, quem foi que falou com você? — ok, eu sei que fui infantil, mas era verdade.
— Ninguém, ninguém — Lola disse rapidamente. — Não vai me perguntar o que eu descobri? — perguntou pra mim.
Revirei os olhos, Louise sempre tentava deixar a situação mais dramática.
— Acho que não.
— Mas vou falar do mesmo jeito. terminou com Madison Cooper.
— Madison Cooper? Já peguei uma Cooper, acho que é irmã dessa Madison...
Não escutava mais o que Nate e Louise falavam. Aquilo foi como um balde de água fria em mim. Não porque ele terminou com ela, isso era inevitável, mas porque me fez entender o que ele falou no mesmo dia que eu estava indo embora com a .

Eu estava atravessando o portão quando alguém segurou meu pulso, já ia começar a xingar, mas quando dei conta minha mão tinha ido parar em cima da mão do desconhecido, não queria que ela saísse dali nunca mais. Fiquei um tempo observando e me perguntando mentalmente o que eu estava fazendo e o porquê dos meus batimentos cardíacos terem subido tão rápido. Quando levantei meu rosto e vi quem tinha segurado meu punho, a única coisa que eu consegui fazer foi abrir minha boca de tão incrédula que eu tinha ficado. E quando vi que a expressão de era serena e calma, todos os meus músculos relaxaram, ele continuou em silêncio me olhando e eu fiz o mesmo.
Tinha me esquecido que a estava do meu lado me esperando pra ir embora, tinha me esquecido que ele era o insuportável do , e tinha me esquecido como falar. Mas acho que não era preciso o uso de palavras, o jeito que nos olhávamos era tão... Compreensível. Pelo menos naquela hora, parecia que eu estava olhando para outra pessoa, não via sinal de ironia, sarcasmo, e se alguém tivesse me falado que ele era o maior galinha da escola, eu não teria acreditado.
— O qu-que você quer? — disse com a voz falhando.
— Dizer que por mais que eu tente esconder, por mais que eu finja ser outra pessoa, você sempre vai saber quem eu realmente sou. Não por escolha. De um jeito que nem eu e nem você entendemos. E dizer que tudo que é perfeito demais aos olhos dos outros acaba quando menos perceber, não se preocupe.
— O que você quis dizer com isso? — perguntei confusa.
Ele sorriu de canto e soltou meu punho, fazendo uma careta engraçada, e foi para dentro da escola na direção do carro com o rosto lívido, aquele foi o primeiro sorriso sincero que eu o vi dar.

Estava silencioso demais enquanto eu lembrava do que ele tinha falado. Um zumbido permanecia na minha cabeça, que eu tinha certeza que era Louise e Nate conversando. Mas agora o zumbido tinha desaparecido e as palavras de ecoavam na minha cabeça “tudo que é perfeito demais aos olhos dos outros acaba quando menos perceber”. Ele deixou bem claro que deu ênfase em ‘outros’, obviamente ele quis dizer algo relacionado à opinião alheia não importava, ou não.
Interrompi meus pensamentos e voltei à cozinha, vi Louise e Nate tentando esconder inutilmente alguma coisa grande e azul nas costas. Eu já tinha visto aquilo em algum lugar, aquele tom de azul não me era estranho. Claro que não me era estranho, porque eu me lembrava agora perfeitamente o que ele era. Tive muito problemas na minha infância com aquela pistola de água gigante, que tinha espaço para no mínimo 4 litros de água. Levantei-me e comecei a andar de costas.
— Vocês não ousariam fazer isso... — disse andando e quando cheguei à porta da cozinha saí correndo para o jardim.
— Você precisa acordar, , atacar! — escutei Louise gritando e correndo.
Quando cheguei ao jardim, percebi que tinha sido uma das minhas piores idéias, porque não tinha onde eu me esconder, mesmo que eu enfileirasse todos os anões e colocasse a Branca de Neve do lado eu não conseguiria me esconder. “Pensa, pensa, !”, repetia mentalmente sem parar. E acho que funcionou. O mais silenciosamente possível eu virei à esquerda, abri com cuidado o portão de madeira da garagem e me escondi dentro de um armário, que servia para guardar vassouras, rodos e panos velhos. Corei furiosamente quando finalmente e ficha caiu do lugar que eu estava. Mesmo o armário sendo da minha casa, e mesmo eu não tendo marcado com ninguém de me encontrar aqui, me senti uma Madison da vida. Mas não poderia mudar de lugar, porque já ouvia Louise e Nate sussurrando comandos, um para o outro.
Então, ficou tudo no mais divino silêncio, esperei um tempo com tédio e ainda corada, por barulhos, mas nada mudava. Finalmente escutei Nate, com sua incrível coordenação motora, derrubando algo e fiquei estática, quase não respirava. Louise começou a reclamar por ele ser tão estabanado e aos poucos sua voz foi sumindo e a de Nate, resmungando, também. Pensei que seria seguro sair do armário de vassouras, corei de novo ao pensar nisso e me senti uma idiota, qual é! Era só um armário de vassouras da minha casa, muito comum por sinal. Não tinha encontrado camisinhas, nem nada suspeito, como provavelmente teria encontrado no da escola, e ficar corando igual uma idiota só por estar em um armário de vassouras é completamente ridículo. Não escutava mais nada, provavelmente Lola e Nate tinham desistido e estavam tomando chá vendo algum filme antigo que sempre passava aos sábados de manhã.
Quando abri a porta e caminhava para fora da garagem, escutei algum barulho vindo lá de trás e voltei para ver o que era temendo que fosse um rato ou coisa pior. E, quando estava passando perto do carro, dois vultos, que vieram do lado oposto do carro, pularam na minha frente.
, o que você estava fazendo em um armário de vassouras? — Louise perguntou com a sobrancelha arqueada e com um sorriso malicioso na boca. Nate riu ao seu lado.
O impulso de corar foi tão grande, mas tão grande, que não tive como não fazê-lo. O que, por sorte, tirou a atenção da Louise da Operação-Molhe-A-)-E-Traga-Todos-Os-Seus-Traumas-De-Infância-A-Tona, aproveitei o breve momento de sorte e saí correndo para o meu quarto. Louise nunca me vira corar, quando nos conhecemos eu já não era a garotinha que achava que o Papai Noel existia, de qualquer jeito eu sempre fui uma criança madura e nunca acreditei nessa baboseira de Fada do Dente, Coelhinho da Páscoa, pote de ouro no final do arco-íris e etc. Noventa e nove por cento dos fatos indica que eu nunca cheguei a acreditar nisso porque meus pais nunca tiveram tempo e paciência pra me sentar no seu colo e contar histórias pra mim, ou pelo menos pra falar que quando algum dente meu caísse a Fada do Dente viria pegá-lo e deixaria uma moeda de ouro no lugar. Ou que no Natal, o Papai Noel descia pela chaminé, deixava presentes e comia biscoitos de chocolate caseiro com leite. Ou que na Páscoa um coelho sujaria toda a minha casa com pegadas e deixaria ovos de chocolate espalhados nela.
Acho que meus pais até hoje pensam que os meus dentes são de leite e que eu ainda não menstruei. Eles nunca nem ao menos me pararam e falaram: “Olha, dia 25 de dezembro é o Natal, dia 31 de dezembro se comemora o Ano Novo que está vindo...” Se eu sei de alguma data, é porque eu procurei saber... E Mariah sempre me presenteava também, mas eu ficava muito atordoada quando ganhava coisas e não sabia o motivo.
E sempre que eu ganhava era muita coisa, só depois eu descobri fui que a secretária da minha mãe tinha mandado a “pedido” dela. O que, eu tenho certeza, que não foi.
Senti-me mais idiota ainda por ter ficado vermelha por uma coisa idiota daquela, quantas vezes os professores, Nate e tentavam me deixar assim e não conseguiram? Ri por dentro, imaginando o que eles pensariam se soubessem que eu fiquei vermelha por causa de um armário. Entrei no quarto e tranquei a porta e fui para o meu banheiro.
Eu estava parecendo uma fugitiva, meu cabelo estava todo grudado no suor nas minhas bochechas, que tinha escorrido da minha testa, e minha franja estava totalmente bagunçada, estaria pior se eu tivesse com maquiagem, mas aquilo não importava no momento.
Voltei para o quarto e colei a orelha na porta tentando escutar o que Louise e Nate estavam fazendo, mas só escutava alguém cantarolando uma musica baixinho.
— Dá pra você para de cantar? Tem mais coisa em jogo aqui do que você imagina — Louise disse irritada com a voz abafada.
— Essas coisas que você diz estarem em jogo são apenas o desejo de molhar a e irritá-la — ele retrucou e continuou cantarolando.
— Não, não foi isso que eu quis dizer. Se você não percebeu, ficou vermelha quando eu falei com ela na garagem. E tenho certeza de que não foi o que eu disse, porque não seria o normal dela.
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Você precisa abrir a porta, não tem nenhuma chave reserva, nem nada?
— Ter tem, mas as chaves ficam com Mariah e ela não vai querer dá-las pra gente irritar a .
— Então pega um grampo, uma faca, e se mexa! — Louise disse autoritária.
— E por que eu obedeceria você? E, por favor, quem é que abre uma porta com uma faca?
— Pega a faca e tenta antes de falar alguma coisa.
— Não vou pegar nada, se você quiser pegue e tente abrir, não sei como a te aguenta, não sei...
Ouvi Louise resmungando e Nate se afastando. Estava salva, não me preocuparia com mais nada hoje. Fui tomar banho, e vi como era irônico fazer isso. Passei boa parte da minha manhã sábado fugindo para não me molharem e agora vou tomar banho. Deixei a porta ainda trancada, talvez abriria depois para conversar com Louise. Peguei meu roupão e ri por dentro, era da cor da pistola de água e aquele roupão era tão antigo que eu usava ele antes de ter sido expulsa e o tinha até hoje. Na época ficava muito grande porque eu cismei que queria aquele, quando fui comprar com Mariah, porque era azul da mesma cor que a pistola de água de Nate, que eu admirava tanto na época.
Despi-me, joguei minhas roupas em um canto do banheiro e liguei o chuveiro. Tomei um banho lento, aproveitando cada gota que caía em mim, e subitamente olhos reconfortantes e travessos vieram na minha cabeça, sorri internamente me lembrando de quem era aqueles olhos e me xinguei por ter ficado tanto tempo sem lembrá-los. , meu melhor amigo até a 4ª série. Lembro-me perfeitamente das suas bochechas rosadas, daquele sorriso meigo, do seu jeito destrambelhado e ao mesmo tempo cuidadoso de ser. A única pessoa que me entendia, me ajudava, me acolhia, quando eu pensei estar vivendo a pior fase da minha vida. soube ter paciência quando eu tinha meus ataques de revolta, soube me fazer ver a razão quando tudo parecia estar perdido, soube me fazer rir quando eu queria desesperadamente chorar... E então a vida fez o favor de nos separar.
Se fosse pelo menos por um motivo que fosse minha culpa ou dele, eu até poderia ter me conformado... Um pouco. Mas foi tão injusto, culparam-nos por coisas que não fizemos, só queríamos ajudar, bom, queria ajudar e eu sempre estava junto. Mas quando tudo dava errado colocavam a culpa em nós, por termos tido compaixão de ter tentado ajudar um calouro — como aconteceu muitas vezes.
Ninguém entenderia como eu me senti incapaz, fria, vazia, desprezada quando eu soube o que aconteceria conosco.
Tateei as paredes com os olhos fechados procurando o sabonete que tinha caído...? Se o sabonete tinha caído, por que eu estava o procurando nas... Paredes? Como é que um sabonete ficaria grudado na parede... Sem cola? (n/a: DORGAS!1) Dei um tapa na testa e tentei encontrar o fio do pensamento. Era isso que acontecia quando eu pensava no , ficava confusa e idiota igual quando eu estava com ele. Tateei o chão com o pé direito, quando meus dedos tocaram algo liso e escorregadio, não tive tempo de gritar nem de me segurar em algo, escorreguei e caí de costas batendo a cabeça na parede que ficava o chuveiro.
Achei o sabonete — que estava do lado do meu braço direito agora. Parecia que alguém tinha aberto a torneira, pois a força que a água caia na minha barriga estava deixando o lugar dolorido. “Obrigada por isso, ”. Sim, agora eu estava falando mentalmente com alguém que eu não vejo há sete anos e meio, ou mais. Sentei-me ficando em baixo do chuveiro, deixei a água tirar o resto do shampoo que tinha nos meus cabelos e procurei o condicionador, encontrando-o no canto da parede. Passei no cabelo e deixei novamente a água tirá-los.
Queria chorar, queria aqui, queria que nunca tivessem nos separado dessa maneira idiota. Queria poder rir das conversas dele e de Nate — estranhamente eles tinham o que conversar e se davam bem, mesmo sendo totalmente diferentes — queria poder vê-lo sorrindo pelo menos mais uma vez.
Minhas lágrimas já se misturavam com a água, que caía em mim sem descanso. Era pra ele estar aqui, não comigo no banho e nem no banheiro comigo, enfim. Era pra ele estar aqui, me fazendo rir e me abraçando. Mas se nada tivesse acontecido não haveria motivos para eu estar chorando mágoas guardadas por sete anos. Eu sentia falta de .
Não podia ficar ali para sempre, me segurei no corrimão do box e me levantei. Sequei-me e fiz todo o resto, coloquei uma calcinha azul e uma blusinha de pijama apertadinha, branca com azul. Saí do banheiro, como os olhos vermelhos e secando o cabelo, a primeira coisa que eu vi no quarto era que a porta estava aberta com a chave pendurada nela e tinha um tablete de chocolate aberto em cima da minha cama. Abri o closet e procurei no maleiro o hipopótamo de pelúcia roxo, que se chama Tony, e o abracei com força.
— Oi, Lola — disse quando Louise, tentava sair discretamente de trás dos casacos, ia pular em cima de mim e dizer o típico “Buu”.
— Caramba, você não facilita nada — ela resmungou e me analisou. Desviei o olhar rápido e fui pra cama.
— Você sabe que não — disse quebrando um pedaço do chocolate e colocando na boca.
— Pensei que você tinha morrido no banheiro ou algo parecido, e por que seus olhos estão vermelhos?
— Essa pergunta deveria entrar para a nova versão de Chapeuzinho Vermelho, o Lobo poderia ter se drogado ou qualquer coisa. Shampoo. Caiu shampoo nos meus olhos — menti simplesmente. — Então escorreguei no sabonete e caí. Meu corpo se encontra em perfeito estado agora — disse com sarcasmo.
— Depois você ri do Nate ainda — tinha me acostumado com a indiferença de Louise.
— Ah, obrigada pela compaixão. Veio só para falar que os Insignificantes terminaram?
— Sim... E não. , você realmente não se importa com isso, bem, você?! Você que desde o momento que ele entrou na escola conseguiu chamar a atenção dele, querendo ou não. Tem certeza de que não sabe por que ele faz isso e não se importa em ter a total atenção dele agora?
— Então, você veio aqui pra tentar descobrir se está interessado em mim, e por isso terminou com Cooper, pra contar pra escola inteira que você soube antes deles? Resumindo, saber se eu teremos algum futuro fora do ringue?
— Ringue?
— É, só discutimos e brigamos, ringue, entendeu? — disse impaciente.
— Claro — a olhei boquiaberta. — se o garoto mais incrível e popular da escola estivesse “assim” comigo, rapidinho ele teria o que queria. O trataria totalmente diferente do jeito que você o trata.
— E é isso que nos torna diferentes. Vai embora.
— O quê? Fugindo da verdade, ?
— Você ouviu muito bem, vá, sai da minha casa agora. E não, tô tentando evitar uma briga. O quê, com esse seu comportamento sem explicação, é impossível.
Ela olhou com desprezo para cada coisa que eu gostava do meu quarto e depois sorriu pra mim, falsamente.
— Não vou conseguir nada de alguém como você, , e nem você vai conseguir chegar a algum lugar com essa atitude. Não tenho mais nada pra fazer aqui.
Louise continuou parada olhando para a porta e sorrindo com deboche.
— Vai! O que faz aqui ainda? — disse fingindo estar calma, segurando a porta aberta esperando ela passar.
Ela andava com a cabeça erguida e sorrindo presunçosamente e quando estava fora do meu quarto, fiz questão de bater a porta com a esperança dela bater em Lola e deixar alguma parte visível roxa. Abri a porta mais uma vez e a fechei com força, tentando descontar minha raiva.
Odeio não saber de quem foi a culpa da briga. Por que Louise não estava fazendo nada demais em querer saber alguma coisa. Ela era minha amiga, normalmente amigas contam tudo uma para a outra, mas eu nunca consegui falar abertamente com ela, algo me bloqueava me alertando para não confiar tudo a ela e eu escutava essa voz interior sem questionamentos. Nunca contava cem por cento do que eu guardava para mim a Lola, a maioria das vezes eu contava mais ou menos trinta e cinco a quarenta por cento, e raramente contava cinqüenta.
Esse bloqueio surgiu depois que virou nosso amigo, e Louise começou a perceber que gostava dele. De qualquer maneira, Louise não agiu certo tendo me falado aquilo e ter feito pouco caso das minhas coisas, parecia que ela só me queria por perto pra saber quantas vezes respirava por dia ou pra saber se iria se declarar para ela e qual seria a roupa mais apropriada para a ocasião.
Louise não precisava de mim. Ela conhece outras pessoas, muitas pra falar a verdade, poderia até pedir pra descobrir as coisas para ela, seria até mais simples do que ficar me pressionando e não conseguir nada. Mas por que sempre que o assunto era relacionado à nós acabávamos brigando? Eu sempre me irritava e ficava perturbada. Isso não era certo, Louise era minha amiga, certo? Ela poderia ser fútil às vezes, e poderia agir de modo que eu não a reconhecesse, mas continuava sendo minha amiga.
era o oposto de Louise. Conheci-a através do , mais ou menos um ano atrás. A primeira impressão que tive era que ela era anormal, então ser amiga do era como ser amiga dela mesma. Tirando o fato de que a entendia rapidamente o duplo sentido das indiretas e não. Ela era aluna nova e a única pessoa que conhecia era . parecia captar as emoções no ar, e foi se tornando mais especial. Mais presente. Desde o começo desse ano, andava um pouco afastada por causa do , que jurava estar apaixonado pela Louise. E geralmente eu a via desabafando com o zelador.
No ano anterior era mais comum ver e rindo de alguma pomba que ficava se fingindo de morta ou vendo-a provocá-lo, ou fazendo fazer umas caretas ótimas de desentendimento. Liguei para a e os irritantes “tu’s” pareciam infinitos. Quando ia desistir e desligar, alguém atendeu.
Alô? — uma voz conhecida atendeu.
, você andou tomando hormônio masculino? Não sei se foi só impressão minha, mas sua voz tá mais grossa — brinquei arrancando gargalhadas da pessoa do outro lado da linha. — Falando sério agora, , porque você atendeu o celular da ?
Ela está na cozinha fazendo pipoca pra gente comer vendo filme — ele disse e depois gargalhou, provavelmente de algum comercial da TV.
— Ver filme? ver filme com você, sozinhos em uma casa e com as luzes apagadas? Aham, — disse com ironia.
É, assim que funciona ver filmes no começo da tarde de um sábado. Quer ver com a gente? — perguntou inocente. lentinho.
— Não, sou muito pura pra ver uma pornografia dessas. Prefiro manter a inocência nos meus olhos. Obrigada.
Quê, ? — ele perguntou todo confuso.
— Sem mais perguntas, passa o telefone pra agora — disse autoritária e com vontade de rir dele.
E se eu não quiser? Quem está no poder sou eu aqui, baby.
Escutei um grito abafado que não era do e em seguida o barulho de panelas caindo.
— Hum, , me diz: Quantas panelas são necessárias para fazer pipoca?
Ele riu e disse:
Três, óbvio — ele respondeu convicto.
— Claro! Em uma você coloca o óleo, noutra o milho de pipoca e a outra você coloca no fogo — disse sarcástica e revirei os olhos. — Você já foi na cozinha ver o que aconteceu?
Nah, toda vez ela faz isso...
Então quer dizer que já teve outras vezes, pensei.
— Levanta e vai ajudá-la, !
...e toda vez quem limpa a bagunça sou eu — completou. Agora foi a minha vez de rir.
— Bem feito. Agora passa o telefone pra ela e vai limpar.
Não, , desista.
Depois que ele disse aquilo, só conseguir escutar alguém com as cordas vocais super dotadas gritando e perguntando por que ele não passou o telefone antes. Escutei algumas vezes também coisas do tipo: “Mas o bacon estava muito duro” ou “A pomba não finge mais, ela já morreu” ou “ Continua rindo que eu arranco suas...”. Tirei o telefone da orelha e esperei um minuto para encostá-lo de novo. Não escutava barulho nenhum, nada. Parecia que o telefone estava mudo. Suspirei e o desliguei. Coloquei o celular no bolso, em seguida ele começou a vibrar e tocar Hear You Me, cover do Paramore. Essa música era tão calma e lenta e me fazia lembrar tanto da , mesmo ela sendo tão agitada.
— Tá, se for você eu vou desligar agora — disse com indiferença.
disse que também te ama, disse rindo. — Tá no viva-voz.
— Então trate de tirar se não quiser ficar com vergonha. Estou falando sério.
Ok, tá no telefone agora.
— Bom mesmo, tava pensando em ir aí mais tarde...
NÃO! Quer dizer... Opa, sacanagem de três.
— Então ia ter sacanagem mesmo? — perguntei rindo.
Besta, claro que não, você sabe como o é. E eu sei que você não ligou só pra ficar de conversa fiada. Vai, fala.
— Tá, da próxima vez eu não ligo então, não é nada. Não vou acabar com sua felicidade e o filme já vai começar, beijos.
Se você desligar, Silva, eu acabo com você.
— Mas é verdade. Não é nada, olha, acho que a campainha tá tocando, vou atender, tchau. Aproveita bastante o . E me responde uma pergunta: Com quantas panelas se faz pipoca?
Três. E eu sei que o telefone é sem fio...
Desliguei rindo. Já estava um pouco melhor, mesmo ela não sabendo o que aconteceu eu consegui passar o resto do dia sem me irritar com o que tinha acontecido pela manhã entre mim e Louise.

Era por volta das 19h. Assistia deitada no sofá The Big Bang Theory e esboçava um sorriso ocasionalmente por causa das idiotices inteligente deles. Como uma pessoa tem a criatividade de inventar uma série assim? Como se ele tivesse que estudar pra poder escrever e ganhar dinheiro ou se ele estudou demais na vida e não conseguiu nada e fez uma caricatura dele mesmo, em quatro pessoas. Quando o episódio acabou, desliguei a TV e fiquei a olhando.
Não tinha mais nada pra fazer e não tinha mais ninguém em casa acordado. Dia de Folga do John, e James estava cochilando. John era o jardineiro e James o motorista de enfeite, porque Nate tinha seu carro e meus pais também. Eu não queria um carro então ele só dirige pra mim, raramente, porque eu gosto de andar. Nate saiu de casa depois de ter se irritado com a Louise e até agora não tinha aparecido. É nessas horas que eu me arrependo de não ter um animal de estimação.
Fui pra cozinha e estava decidindo o que comer, quando a campainha tocou. Não estava com pressa nem ansiosa, fui me arrastando atender e não fiz questão de olhar no olho mágico. Coloquei a mão na maçaneta e a campainha tocou mais duas vezes e quando fui girar, a pessoa do outro lado abriu a porta, me derrubando.
— Argh, porra, quem foi o desgraçado, mal educado...
— Anda, , levanta daí — olhei pra estendendo a mão com impaciência.
— Por que você fez isso? Eu já tava abrindo, merda.
— Tentei ser educado e esperar você abrir a porta pra mim sorrindo, mas demorou demais, eu cronometrei. Você demorou mais de um minuto pra abrir então eu peguei a chave em baixo do tapete e entrei.
— Tenho que me lembrar de tirar a chave de lá. E como você passou o portão?
— Pulando, dã. Enfim, topa ir a uma festa comigo?
— Não, tenho mais o que fazer — disse me sentando no sofá e encarando a TV.
— Tipo, ficar encarando a TV até dormir? — ele riu e bateu a mão na testa. — Passo aqui em uma hora, e espero que você esteja pronta — ele começou a andar pra porta.
— NÃO, eu não vou...
— Vai sim, até daqui a pouco — disse por fim e saiu pela porta.
Argh, não gosto de ser forçada a nada, nem de estar em um lugar que eu não me sinta bem. Continuei olhando pra TV, edepois de um tempo escutei, provavelmente, Nate destrancando a porta e entrando. Ele fazia um barulho desnecessário e derrubava tudo que tinha, na frente, do lado e atrás dele toda vez que entrava em casa.
Quando ele entrou na sala, me fitou e parou de andar.
— Estranha — ele cantarolou assobiando, quando passou por trás do sofá que eu estava.
Aquilo me acendeu uma luz e fez o sangue subir a cabeça tão rápido que fiquei tonta. Subi correndo pro quarto e abri a porta do closet bruscamente atrás de um vestido decente e não muito chamativo. Iria pra festa e tinha menos de uma hora pra me arrumar. Além do mais, eu tinha que localizar James até as oito horas. Entrei no banheiro com o roupão azul e joguei uma água no corpo, que durou no máximo seis minutos. Saí apressada me secando e pulando. Coloquei uma calcinha e o vestido preto de uma alça só que ia até o meio das coxas, um cinto de lacinho verde fino e um scarpin prata, da cor da tiara que tinha colocado no cabelo.
Sacudi o cabelo para ‘arrumá-los’ do meu jeito, odiava meu cabelo muito lambido e arrumadinho, ajeitei a tiara de novo. Procurei minha nécessaire dentro da penteadeira e não a encontrei. Podia jurar que da última vez que a usei a deixei lá. 19h40. Meu tempo estava acabando e eu precisava me maquiar. Suspeitava que Nate estivesse usando minha maquiagem há algum tempo mesmo. Fui pro quarto da Tinna, minha mãe pra todos os efeitos, e encontrei a maquiagem dela em uma nécessaire dourada e enorme, podia imaginar a diversidade de maquiagem que tinha ali.
Agradeci mentalmente por eu ser da cor dela, e me maquiei, nada muito exagerado, e voltei pro meu quarto correndo pra passar o perfume. Nate colocou a cabeça para fora do quarto quando eu passei correndo, ele estava se arrumando também, pois tinha uma toalha na cintura e seu cabelo estava todo bagunçado e molhado. Mandei beijos no ar pra ele rindo e entrei no meu quarto pra passar o perfume, nada muito exagerado também.
Quando estava pegando uma bolsa e um casaco, me olhei no espelho e meu cabelo estava aceitável, não sei também por que toda essa produção. É só uma festa que só vai ter adolescentes problemáticos bêbados, se pegando e futuramente se arrependendo por terem feito algo que não fariam sóbrios. Nada fora do comum. Coloquei um gloss na bolsa e meu celular e fui procurar James, no corredor comecei a gritar desesperada por “Jay-jay, cadê meu Jay-jay lindo!?”, bati na porta do seu quarto e entrei. Ele tava deitado na cama com um fone de ouvido enorme escutando música no último volume, pois eu escutava a versos de Stop Crying Your Heart Out da porta.
— Jaaaaaaaaay, me escuta! — gritei pulando na frente dele, que começou a rir e tirou os fones do ouvido para me escutar.
— Que euforia é essa, ? — ele perguntou rindo.
James tinha 24 anos e era muito tranqüilo. Tinha os cabelos castanhos claros e os olhos castanhos esverdeados e tinha um ótimo gosto musical. Não sei por que ele ainda não largou esse emprego e foi procurar alguma agência de modelos. Não que eu ficasse olhando, mas quando ele estava ajudando John a cuidar do jardim ele ficava sem camisa por causa do calor, e deus, que homem. Alem de ser simpático e compreensivo.
— Preciso de você essa noite, sei que é folga, mas você poderia levar e buscar eu e em uma festa de uma menina da escola? Não confio em dirigindo bêbado e tô afim de viver mais um pouco. Por favor? — disse mordendo o lábio inferior e suplicando com os olhos.
— É pra isso que eu trabalho aqui, fica tranqüila, eu fico de folga praticamente todo dia — ele disse piscando, quando eu escutei e campainha tocar. Dei um beijo estalado na bochecha dele e fui atender a porta.
Parei de correr no meio do corredor e tentei me recompor. Algo me dizia que essa não seria uma noite comum. Só pra começar: eu estava saindo. Ajeitei o vestido, abri a porta, estava esperando encostado sorrindo e quando me viu seus olhos se arregalaram categoricamente.
— Exagerado — disse revirando os olhos e fiz sinal com a cabeça para ele entrar e ele o fez. — Você veio de carro?
— Obviamente, por quê?
— Porque obviamente você não vai usá-lo essa noite, de qualquer jeito — respondi dando os ombros.
— Ah, é? — ele perguntou irônico e vendo que eu continuava impassível perguntou de novo: — E por que não?
— Desculpa acabar com seus planos, mas James vai nos levar e buscar.
— Acabar com meus planos? ‘Tá brincando, né? Desse jeito eu não tenho que me preocupar em nos manter vivos na volta — ele disse rindo, dando pulinhos e depois me abraçou e deu um beijo estalado na minha bochecha, me fazendo rir.
, me solta — continuei rindo e quando ele me soltou vi Nate com os braços cruzados e com uma expressão séria.
— Finalmente arrumou um namorado, mas o , ?
— Me erra, Nathaniel — disse parando de rir.
— E aí, Nate — disse e eles bateram as mãos.
Nate também era amigo do ... E do , da , e se irritava fácil com a Louise, mas ainda era ‘amigo’ dela. O problema era comigo, sempre. Quando eu o via assim, me lembrava do Nate que era amigo do , na minha infância, antes de se revoltar com nossos pais e descontar em mim. James apareceu já vestido, mais formalmente, e rodando a chave do carro na mão.
— Prontos? — ele perguntou e eu e assentimos.
Nate, pra me irritar, começou a perguntar mil e uma coisas e até perguntou se eu estava levando camisinha, mostrei-lhe o dedo do meio e arrastei pro carro, com muita dificuldade, já que ele ria e falava com a voz fraca sem parar, me dando um motivo de lhe dar um belo tapa. disse o endereço para James e partimos.
Eu não estava no meu normal e sentia que muita coisa aconteceria hoje. Ficamos o caminho inteiro em um quase silêncio, já que insistia em falar que ter me chamado em vez de Lola foi a melhor coisa que ele tinha feito, já que eu não me atrasava, não enchia ele de conversas fúteis, não ficava me preocupando com a maquiagem a cada cinco minutos, além de eu ter lhe dado carona. Quando chegamos, me disse que quem tinha o chamado para a festa foi a Madre Madison de Calcutá, o que fez meu humor diminuir significativamente. Por que ele não me disse isso antes? Quando saímos de casa? Bufei e sai do carro, sem respondê-lo. Jay disse que ia voltar pra casa e que quando quiséssemos voltar era só ligar.
Já do jardim eu escutava a música alta, quando entramos a primeira coisa que vi foi um porta-retrato com a foto de uma menina sorridente correndo dos pais. Quando entramos na sala parecia que a festa tinha começado há muito tempo, pois já tinha garrafas quebradas, pessoas correndo com a mão na boca para o banheiro ou simplesmente levantando o tapete e escondendo o vômito em baixo. Já via casais se beijando aos risos e tentando abrir a porta mais próxima desesperadamente.
Mas o que mais me surpreendeu foi ver uma garota gritando a todo pulmão para todos irem embora ou ela chamaria a polícia. Ela se virou para a entrada da sala e viu que mais pessoas chegavam e percebi que ela era a menina da foto, agora uma mulher. Algo estava muito errado.
— EU VOU MATAR A MADISON, aquela vagabunda quer dar festa e fala que vai ser na minha casa, que é uma festa surpresa e ainda diz que é minha amiga... — vi ela apurando o nariz e fiz o mesmo, algo suspeito queimava na cozinha. Ela correu pra lá e depois eu só escutei gritos. — QUEM FOI QUE AUTORIZOU VOCES A FUMAREM NA MINHA COZINHA? Bando de maconheiro dos infernos...
Senti uma vontade imensa de ir embora, aquela festa não era pra estar acontecendo e não era pra eu estar aqui. Andei de costas devagar, não queria que ela me visse me aproveitando da sua má sorte, e esbarrei em alguém. Por que eu sempre tinha que esbarrar em alguém quando eu tentava imitar uma agente do FBI ou da CIA? A pessoa segurou meu braço e senti todo meu corpo estremecer a aquele toque, cheguei a fechar os olhos. Obviamente era um homem, porque se eu reagisse assim por uma mulher, poderia agora declarar a mudança da minha sexualidade. Ele me virou e eu sentia a respiração acelerada dele vindo no meu rosto, quando abri os olhos vi me olhando com a expressão calma e pensativa. Senti meu coração parar bruscamente de bater e só voltar quando ele sorriu. Parecia que ele tinha escutado, me soltei dele com receio e voltei para a sala. Não tinha dado muito certo tentar ir para o jardim.
— NÃO, não vomita aí, esse vaso era importado, caralho. Minha mãe vai me matar, tô sentindo. — A garota-de-nome-desconhecido disse e se virou abruptamente e percebi que ela olhava um menino, que estava de costas, de cabelos lisos e com uma camiseta verde. — Quer saber? Foda-se, não ligo mais pra merda de festa nenhuma, CONTINUEM O QUE ESTÃO FAZENDO, SEUS DESOCUPADOS, obrigada — e foi na direção do menino.
Olhei pra trás e vi olhando pra mim sério, sustentei o olhar e percebi que ele estava diferente. Não vi o sorriso debochado nenhuma vez essa noite e os olhos dele estavam menos frios e calculistas do que de costume. Aquilo estava saindo do controle, ele ainda é o debochado, irritante e machista de sempre. Bufei e voltei a olhar pra festa. A música que tocava estava me chamando pra dançar... e eu não recusei o convite. Se estivesse em um dia normal, eu jamais ficaria entre pessoas suadas, bêbadas, dançando sem o controle dos seus braços
Mas hoje era diferente, dançava no ritmo da música, sem me preocupar com os outros ou se alguém estava me olhando. Mesmo se eu estivesse rebolando até o chão – e eu não estava – não me importaria. Estava com os olhos fechados e balançava os braços perto da cabeça e já sentia o suor escorrendo no meu pescoço. Minha maquiagem devia estar totalmente borrada, mas quem liga? Já tinha perdido a conta de quantas músicas tinham tocado e minha boca estava seca. Fui procurar alguma coisa pra beber e vi e brindando com uma garrafinha de Ice cada um, e rindo bêbados.
Acompanhei a cena de longe prendendo o riso. se aproximou dele e lhe deu um beijo no nariz, com um sorriso provocativo. Ela tentava falar a ele algo, mas não entendia e eu tinha um pressentimento que era algo que ela não falaria se estivesse sóbria. Assisti tudo esperando a hora que a bomba estourasse pra ver a cara que faria. cochichou no ouvido dele e o jeito que o rosto dele mudava de expressão não tinha preço.
O que aconteceu a seguir foi tão rápido que se eu não tivesse prestando atenção, não saberia que segundos antes eles estavam conversando em vez de estarem se beijando. Acho que o que disse foi bem direto e sugestivo, pra ter entendido tão rápido. Não os atrapalharia agora que eles se beijavam de maneira até imprópria por estarem em público.
Virei-me e esbarrei em alguém, não perdi tempo olhando pra cima pra ver quem era e fui pra cozinha procurar algo pra beber. Já estava ciente de que não encontraria suco de laranja na geladeira, então peguei uma garrafa de Ice e fui para o jardim de trás, lá a música parecia estar mais baixa, fazendo-me conseguir pensar de novo. Bebia olhando para uma árvore pequena que tinha a copa em formato de coração. Senti o vento soprando na minha direção me refrescando. Não via desde a hora que chegamos. Terminei de beber e fui à geladeira pegar outra e tropecei na volta em um casal que estavam se beijando no corredor, quando eles se separaram com raiva eu vi o que garoto era o . Tá certo que eu não deveria me importar com isso, mas senti uma vontade enorme de socar alguém ou quebrar algo. Esbarrei de propósito no ombro dele e voltei pra parte de trás da casa. Muitos estavam se beijando e fazendo até você-sabe-o-quê. era só mais um. E um dos que eu menos devia me preocupar.
Bebi um gole generoso e ouvi alguém andando na minha direção. A pessoa sentou-se ao meu lado e ficou me observando em silêncio. O vento soprou mais uma vez e o perfume de entrou pelas minhas narinas. Não me surpreendi por saber que era ele, passava tanto tempo me seguindo que já conhecia seu cheiro. O que me surpreendeu foi perceber que eu gostava. Tirei o casaco e coloquei do meu lado.
, você estava com ciúmes? — perguntou confuso.
— Claro que não, e você está doente — respondi tentando mais me convencer do que a ele.
— Então por que você fez aquilo? E por que eu estaria doente? — ele perguntou alarmado.
— Porque acho que tem lugares melhores pra se agarrar com os outros do que em um corredor. Porque você está muito calmo, civilizado e não pensa que é o dono do mundo, hoje — menti a primeira frase. Não sabia o que responder.
— Não parecia que você achava isso quando viu o beijando a , — retrucou. – E você está muito enganada a respeito disso. Voce não sabe quem eu sou.
— Então você ficou olhando o que eu fiz a noite toda? Isso já tá virando uma obsessão, — olhei pra ele e o vi rolando os olhos.
— Você dança bem, — ele disse me chamando pelo apelido de novo. Não tinha lhe dado toda essa intimidade. — Não vai perguntar por que estou aqui? — perguntou baixo.
— Não, você não ia responder mesmo — respondi dando os ombros, olhando fixamente uma estrela no céu e ele riu baixo.
— Você gosta de estrelas.
— E você gosta de degustar bocas — respondi com raiva. — Já fez a listinhas das dez melhores também, ? — bebi o resto da garrafinha e me levantei. Mas segurou meu pulso e me fez sentar de novo. — O que foi agora?
— Um ponto, pra você. Mas a listinha não é pra bocas e sim para...
Levantei de novo e ele de novo me fez sentar. Bufei.
— Então tem mesmo uma listinha? — perguntei incrédula.
— Não. Não perderia meu tempo com isso, e se tivesse uma, não seria uma listinha e sim uma lista telefônica — ele disse e riu da própria piada. Idiota.
Não o respondi e continuei olhando a estrela, essa estava sendo uma das conversas mais civilizadas que eu já tive com ele, mesmo com as minhas alfinetadas constantes.
— Mas acho que o real motivo pra eu fazer isso — prestei mais atenção daí pra frente e olhei pra ele, — é pra saber se o beijo daquela pessoa será o melhor, como sempre é narrado nas historias clichês — disse me olhando nos olhos.
— Acho que eu tô bêbada — disse desviando o olhar e estalando os dedos.
— Bêbados não admitem que estão bêbados, .
— Mas você já beijou a Cooper, !
, você poderia fazer o favor de não me chamar mais pelo sobrenome? E quem disse que eu estava falando da Madison?
— Porque eu ainda não vou com a sua cara — disse rindo. — Quem seria então? Nem imagino quem seja a deusa pra despertar desejo em você, se não é a Cooper.
— De qualquer jeito, com a Cooper era só físico, além de ela ser completamente estúpida. Mas com ela, não. Ela faz eu me sentir outra pessoa, uma versão melhor de mim, me fazendo desejá-la mais, por conseguir fazer algo que ninguém conseguiu — ele terminou de falar, olhando pra mim.
— Você devia falar isso pra sua deusa e não pra mim — disse me levantando, dessa vez ele não me segurou e eu me irritei. — Mas ainda acho que você inalou fumada demais por uma noite — disse divertida, sendo fitada por aqueles olhos e sentindo minhas pernas fraquejarem. — Vou buscar bebida, — disse de propósito, só para irritá-lo e não perder o costume.
Precisava sair de perto dele... Por pouco tempo pelo menos. Minha cabeça processava tantas coisas ao mesmo tempo que tive que me segurar na parede para não cair. Na cozinha, peguei uma sacola, coloquei dentro uma garrafa de Red Label, algumas de Ice, latinhas de cerveja e uma garrafa pela metade de tequila. Não pensem que eu sou uma alcoólatra ou coisa do tipo. Peguei tudo isso porque não estava a fim de vir na cozinha de novo. Quando eu estava indo pra parte de trás da casa vi a menina da foto e o menino de blusa verde se beijando em um dos sofás, que haviam sido empurrados para o canto da sala. Não vi a nem o , muito menos .
Cheguei na parte de trás da casa e vi jogando tampinhas de garrafa na piscina, de longe.
— Ninguém te ensinou que sujar as coisas dos outros é feio? — perguntei me sentando ao lado dele.
— Pra falar a verdade, não. — ele disse e continuou jogando.
— Nem a mim, mas eu sei que é errado.
— Relaxa, , o tratador é pago pra isso. E você, tá afim mesmo de ficar bêbada — ele disse olhando de lado a sacola.
— Não, só não estou afim de voltar lá dentro — disse e percebi que tinha esquecido alguma coisa.
— Você esqueceu o abridor, inteligente — odiava quando ele respondia meu pensamento.
— Já que é tão esperto, por que não vai com sua inteligência pegar o abridor da forma mais inteligente possível?
— Vou mesmo, assim não corro o risco de me infectar com a sua burrice — ele disse antes de sair correndo, perdendo a parte que eu o xingava.
Escutei risadas e procurei de onde viam. Vi duas pessoas saindo dos arbustos e indo para a casinha da piscina. Quando eles ficaram em baixo da luz da lua, pude ver que era e . Isso, definitivamente, não vai dar muito certo e imagino o quanto eles estão bêbados. Tentava beber cerveja quando voltou, só pra passar o tempo, mas eu não gostava de cerveja e estava impossível engolir aquilo.
— Finalmente, me passa isso — disse pedindo o abridor e ele me olhou cético. — O que foi?
— Educação, cadê?
— E onde estava a sua enquanto você jogava tampinhas da piscina? — disse desviando a atenção dele pegando o abridor.
Abri as garrafinhas de Ice e as enfileirei da minha frente. fez o mesmo, mas com as cervejas e com as garrafas maiores. Olhei pra ele sorrindo sapeca e ele fazia o mesmo.
— Está pensando no que eu estou pensando? — ele perguntou e eu assenti. — Três, dois, um. Agora! — peguei uma de Ice e ele também, e terminei de beber antes.
— Ganheeeeeeeeei — disse animada.
— Sua alcoólatra, melhor de três.
Três horas depois...

contava a piada mais sem graça que eu já tinha escutado, e parava toda hora pra rir dela. Todas as latinhas de cerveja e garrafinhas de Ice tinham acabado e metade da garrafa de Red Label também. Tínhamos ainda meia de Red Label e tequila. O melhor pro final, claro. Não sabia mais o que eu tinha bebido e tinha certeza de que as cervejas não escaparam de mim. Não sentia mais ardência quando o líquido passava pela minha garganta.
, por que sangue de barata é branco? — perguntei enquanto andava em volta da piscina olhando o meu reflexo na água, com a garrafa de tequila na mão e em seguida dando um gole.
— Porque não é preto, dã — respondeu tentando olhar o cabelo dele.
— QUERO UMA RESPOSTA CIENTÍFICA! — gritei com raiva correndo e pulei nele, que me olhou assustado, comecei a rir e me joguei na grama olhando o céu.
— Nunca mais te deixo beber — ele disse colocando a cabeça dentro da piscina e depois a levantando, fazendo pingar água em mim.
— Como se eu precisasse da sua permissão — gargalhei e vi no céu um burro de estrelas. — Olha, , tem um burro ali, olha — disse apontando pro céu.
— Não, não é um burro. É um tigrão.
— Você é cego, vai embora — falei quando ele deitava na grama do meu lado e eu me sentava. — Você tem celular?
— Sim, por quê? — perguntou com a voz engraçada.
— Então você é um Smartphone — disse rindo. — Entendeu?
— Ser inteligente é diferente de ser um CELULAR inteligente, . — comentou gargalhando e se sentou também, depois colocou a mão na minha testa.
— Eu não estou doente — falei olhando a ruguinha que tinha entre as sobrancelhas dele.
— Mas tá bêbada demais — ele disse descendo a mão pra minha bochecha.
— E desde quando um toque seu deixa alguém menos bêbado? Nem vomitei ainda...
— Hum, boa pergunta... — disse alternando olhar da minha boca, que estava entreaberta, para os meus olhos, enquanto acariciava minha bochecha.
Mesmo estando bêbada eu tive certeza de que aquele toque foi diferente. Minha pele começou a formigar onde ele tinha tocado e a sensação foi se expandindo aos poucos pelo meu corpo. Quando ele segurou meu pulso durante a noite, para me impedir de ir embora, acontecera a mesma coisa, mas eu ignorei. Faria o mesmo agora se a intensidade fosse a mesma, mas não foi, minha pele agora formigava e minha barriga dava voltas e voltas.
... Por que meu coração está batendo tão alto? Acho que você tá escutando até — disse debilmente sentindo a respiração dele batendo na minha bochecha, fechei os olhos involuntariamente.
— Eu sempre escuto tudo vindo de você — respondeu roçando seu nariz de leve no meu e colocando a outra mão na minha cintura. Continuamos assim por tempo indeterminado, parecia que tinham parado os relógios e que o momento não ia acabar nunca. Só percebi que minha mão brincava no cabelo dele quando senti seu hálito de whisky próximo a minha boca.
Não sabia mais o que era o certo e o errado, nem sabia se deveria ou não controlar minhas ações — ou se queria. Pelos meus instintos faltava pouco para sentir os lábios finos e vermelhos nos meus. Não me preocupava com o tempo, afinal os relógios estavam parados e era eletrizante o modo como ele roçava seu nariz no meu. Eu poderia ficar assim pelo resto da noite.
? CADÊ VOCÊ? Não acredito... É você, ? — disse da porta e eu pulei me afastando de .
Fiquei em pé e segurei minha cabeça com as mãos. Ok, eu quase fui beijada por a menos de um minuto atrás. Olhei pra baixo e o vi jogando com raiva mais tampas na piscina. me olhava boquiaberto e eu olhava com dúvida para o . Indo contra todos os meus instintos, me abaixei e lhe dei um beijo na bochecha e depois fui cambaleando para a porta que eu tinha entrado, ainda me olhava boquiaberto se preparando pra falar algo.
— Não... não fala nada e nem fala nada pra ninguém. Prometa — supliquei e fui pra fora da casa, ele assentiu e ligou para James.
Eu estava confusa, mas a pergunta de um milhão de dólares era: Quem é ?

Capítulo III
“The way you look at me it's just not right”

O Sol parecia estar sufocante lá fora. Batia impiedoso nos vidros do carro e eu me sentia agradecida por James ter ligado o ar-condicionado. Estava a caminho da escola e não, você não leu errado, eu estava mesmo indo pra escola de carro. Primeiro motivo: eu havia dormido demais por causa da belíssima dor de cabeça que eu tinha ficado o resto do meu fim de semana, e me atrasei hoje. Segundo motivo: eu necessitava de mais tempo pra tentar pensar em como agir hoje. Terceiro motivo: tinha que me decidir se o que eu me lembrava, só quase aconteceu por causa do álcool no meu sangue, porque tinha que acontecer ou simplesmente se algo que eu lembrava não foi um sonho que aconteceu no Dia do Oposto.
Já tinha se passado mais de 48 horas desde, como eu tinha batizado recentemente, Incidente I. Numerei, porque eu sentia que aquele não seria o primeiro nem o último e minha barriga ficava gelada quando eu pensava sobre. Eu tinha medo do que poderia acontecer nos outros incidentes, já que no primeiro nós quase tínhamos nos beijado, estava assustada com tudo e queria parar de pensar pelo menos por um minuto na minha noite de sábado, mas não conseguia, porque eu precisava saber e/ou lembrar de algum vestígio que fazia os atos deles serem verdadeiros, e quanto eu mais me esforçava pra lembrar, mais suspeitava que minha cabeça começaria a doer.
As últimas coisas que eu lembrava e que tinha certeza de que não foram fruto da minha imaginação, foi que eu e ele estávamos sentados conversando na grama — e uma grande parte dessa conversa foi apagada da minha memória, nota-se, e essa era a parte que me preocupava — e depois ele estava quase me beijando. Minha cabeça tinha acordado melhor essa manhã, não queria que ela voltasse a doer com a mesma intensidade que doía ontem e eu nunca tinha imaginado ser possível vomitar tão grotescamente como eu vomitei.
Não tinha ninguém pra segurar meu cabelo, nem pra me dar um copo d’água acompanhado de um comprimido depois e falar que eu ficaria bem. Sempre estava sozinha e não me imaginava de outra forma. tinha me olhado o caminho inteiro da volta da festa, ansioso. Acho que eu deveria ter lhe falado que não estava nos meus planos me jogar para fora do carro ou a qualquer momento confundir o banco com um vaso sanitário e fazer xixi ali. Lembrava também de ter ficado muito confusa, e quando eu me esforçava pra entender pelo menos uma vírgula proferida durante a noite, minha cabeça começava a doer insuportavelmente.
Passei a mão pelos cabelos, impaciente e frustrada. Não tinha quem culpar dessa vez, não sabia se a culpa era minha, e se fosse, eu poderia me martirizar e conseguiria parar de pensar no núcleo dos meus problemas, que obviamente era , por um mísero minuto.
Tinha ainda o problema com a Louise. Ainda não tinha falado com ela — e isso não ia acontecer nem tão cedo — e tinha também que lembrar de manter a boca fechada. Vi uma das torres da escola pela janela e fechei os olhos. Comecei a estralar o pescoço e todas as partes do corpo que eu conseguia estralar. Parei com isso quando escutei James buzinando constrangido, para me avisar que tínhamos chegado. Sorri amarelo, tentando não me irritar com ele por ter me tirado da minha meditação. Saí do carro e lhe disse que não precisava vir me buscar. Só fui me mover de novo quando vi o carro desaparecer na esquina e percebi a presença de alguém ao meu lado. Apurei o nariz e fiquei aliviada quando não senti aquele cheiro gostoso invadir minhas narinas, como geralmente acontecia quando inventava de aparecer de surpresa.
— Hobbie novo?
— Oi ... O quê? — perguntei balançando a cabeça e entrando.

Dei uma olhada rápida na escola e não vi em lugar nenhum. Suspirei aliviada, de novo, enquanto dava alguma explicação sem sentido sobre o meu Hobbie, que era desconhecido pra mim. Ele podia estar falando qualquer coisa ou inventando, isso não importava agora. Tinha coisas mais importantes para resolver e para esclarecer. não tinha notado ainda que eu não o escutava, ele podia estar me xingando e eu não saberia.
— fiz uma pausa enquanto dava outra olhada rápida pela escola, distraída. — Você viu a em algum lugar?
— Não, tinha acabado de chegar quando encontrei você. Você acha que Louise vai estar brava?
— Por que ela estaria?
— Por que ela não foi na festa e você sim — ele começou a me olhar estranho de novo.
, para de me olhar assim, não sou nenhum animal em experiência — me encostei no carro de alguém e passei a mão pelo cabelo, de novo.
— Você perdeu alguma aposta ou coisa do tipo?
— Não — respondi estranhando a pergunta. Abri a bolsa, peguei meus óculos de sol e coloquei, seria mais difícil ser pega olhando alguém desse jeito.
— Então você ia mesmo beijar o ? — ele perguntou com uma voz engraçada.
— Não quero falar sobre isso, e eu estava bêbada de qualquer jeito — disse dando os ombros.
Ele assentiu e ficou em silêncio por um tempo. Vi Louise entrando na escola conversando animada com outra menina loira, mas em vez de ter o cabelo encaracolado igual ao dela, era liso. Não senti raiva quando ela falou algo para a outra menina e riu antes de apontar pra mim, senti pena. Ela estava perdendo todos que a amavam e tentava se encaixar em outro lugar desesperadamente. Vi a loira dos cabelos lisos afastar-se dela e ir falar com uma menina que tinha os cabelos acajus. Louise foi junto, mas nenhuma delas prestava atenção nela. Como eu disse: eu sentia pena.
Olhei pra e o vi batucando no carro com as mãos enquanto batia um pé, no mesmo ritmo. Subitamente ele olhou pra mim e sorriu desconfiado.
— E se você não estivesse bêbada, você teria beijado ele do mesmo jeito, não teria? — ele perguntou com malícia.
— Não, , esqueceu de quem estamos falando? É o idiota, egocêntrico e metido de sempre. Nunca faria isso.
— Duvido — ele disse e começo a assoviar.
— Você está duvidando da minha saúde mental, Sr. ? — fiquei na frente dele e comecei a cutucar seu peito, fazendo-o quase se deitar no carro.
— Não, sua saúde mental não tem nada a ver com isso, Srt. — ele disse e começou a cutucar minha barriga, comecei a rir e andar de costas, quase caindo em cima de alguém. Então escutei uma risada escandalosa que só duas pessoas conseguiam dar. Virei-me e abracei e de uma vez só.
, ! — olhei pra significativamente e ele balançou a cabeça lentamente para cima, como se olhasse uma nuvem, e depois para baixo, como se estivesse verificando se seus cadarços estavam amarrados — entendendo que não era mais pra falar sobre o Incidente I. e eu éramos bons nesse tipo de conversa silenciosa.
De primeira vista o clima entre eles estava bem descontraído e feliz. Mas eles estavam afastados o suficiente para caber uma pessoa bem magra entre eles.
— Não estou vendo mãos dadas nem um sorriso besta fixo no rosto, quero explicações — me olhou confuso. Era estranho ele não ter visto e juntos na festa. — Esses dois aqui, ó — apontei pra e , que riram. — Estavam, como posso dizer, muito próximos na festa, me entende, ? — falei começando a sorrir maliciosamente, então entendeu e gargalhou.
— Como alguém que eu conheço... — eu poderia ter ficado escarlate. Indiretas como essa poderiam se tornar piores (ao longo do tempo) que a própria verdade sendo dita na frente deles. — E como fica aquele papinho: “Um dia Louise Heartniggle será minha loira e blá, blá”?
olhou pra mim e moveu a boca falando sem som: “Qualquer coisa eu tô no corredor que fica a sala do zelador” e eu revirei os olhos e fiz um gesto com as mãos, parecendo que estava estrangulando alguém, e desistiu de sair.
— Fica no passado — disse sorrindo de canto e ele e bateram a mão. — Toda sua.
— Não vai ser nada fácil com ela, e não sei mais se eu quero um dia tê-la ao meu lado.
Pensar nisso era triste. Eu não sabia mais quem era Louise. Nada que ela fazia era típico dela fazer. Tudo que ela falava agora ou era criticando ou zombando, até o modo de andar mudou. Eu pensava que era impossível, uma pessoa como ela, toda meiga e infantil, começar a ficar vulgar. Era a ingenuidade e a curiosidade no olhar que a deixava diferente, atraente. E tudo se perdeu, por motivos que se eu soubesse quais eram eu tentaria mudar. E sempre tinha que ter um se. O sinal tocou me alertando do tempo que eu tinha perdido pensando nisso.
— Então, com esse comentário, feliz vamos estudar — disse arrumando a mochila nas costas e a afrouxando a gravata.
Eu ainda estava cansada do sábado e não estava me sentindo inteligente, pra comprovar isso era só puxar da memória qualquer momento que fiquei perto de . Essa não era a minha hora de entrar. Meu coração até doía de pensar em deixar ir pra lá, sozinho. Fazia tempo que eu não matava a primeira aula, antes eu fazia isso por que eu odiava o mundo, basicamente. Na época que eu tinha descoberto como era se sentir com raiva e decepcionada pela primeira vez. Depois que a fase “eu odeio o mundo” passou, eu entrava todos os dias na primeira aula, porque não me imaginava trabalhando em algum restaurante, supermercado ou qualquer outra coisa que meus pais eram donos. Queria estar bem longes deles assim que completasse 18 anos. Arrumaria um emprego e com o meu dinheiro pagaria a faculdade e iria morar no apartamento — eu tinha ganhado um de aniversário quando tinha 10 anos — que eu nunca tinha posto os pés.
Eu odiava o “presente”, não ganhei porque mereci ou qualquer coisa. Ganhei por forma de incentivo — ou suborno, como preferir — para parar de falar com e aceitar ir para o Westmoor High antes que eu recebesse o “convite” pra me retirar da minha antiga escola. Meu pai não tinha vendido o apartamento e eu tinha uma chave guardada em algum lugar no meu quarto, então ainda era meu. Mesmo que o lugar me trouxesse lembranças tristes, seria ótimo para morar, qualquer lugar longe de toda aquela frieza da minha casa estaria de bom tamanho.
Ou eu poderia ir morar com . Já recebi vários convites e não só dele, da mãe e da irmã também. Mas eu me sentiria uma intrusa na casa deles com tanto amor a carinho no ar, então o apartamento continua sendo a melhor opção.
— Eu não vou — disse e tirei a mochila das costas e a joguei perto dos meus pés.
— E por que não? — perguntou desconfiada.
— Preciso pensar — dei os ombros.
— Mas você pode fazer isso na aula — disse desconfiado também.
— Não, gente, eu não quero entrar agora, sério. Preciso pensar em um lugar aberto.
— Vou com você — disse.
Eles assentiram, fui sentar encostada na árvore que eu tinha conhecido Louise e veio junto.
Não ia pressioná-la a falar nada. Ela falaria quando estivesse pronta e isso não demoraria. não ficava muito tempo com a boca fechada. Deitei na grama, sob a sombra de uma árvore, e fechei os olhos. O estranho era que isso me fazia lembrar do e fazia um tempo que eu não deitava na grama ou em qualquer outro lugar que não faça parte da minha casa, eu acho. E por que ainda lembrar bem dele? começou a estalar os dedos e cantar uma musica com a letra engraçada. Sorri sem os dentes e me concentrei em escutar o som da natureza. Sem sucesso, porque estava cantando e tinha muita gente conversando e rindo alto.
Sentia falta dos sons da natureza, e fazia tempo que eu não escutava como eu gostaria, devido a agitação de São Francisco. Cidade grande tinha suas conseqüências, mas não me imaginava acordando sem escutar os carros passando continuamente na avenida ou sem escutar barulho irritante das buzinas todo dia. Do mesmo jeito que seria estranho viver sem ouvir a risada escandalosa de , os comentários maliciosos de , as afirmações sem sentido da , ficar muito tempo sem ouvir os ataques de Louise por roupas, as provocações vindas do — dono daquela voz sexy.
? Desde quando é estranho viver sem ele? E voz sexy? Que merda é essa pra se pensar?
? Quer falar alguma coisa? — disse ansiosa, mas não pelo que eu ouviria. Levantei-me e comecei a andar de um lado para o outro.
— Isso tudo é ansiedade ou o quê? — ela disse arqueando uma sobrancelha.
— Você nem imagina o quanto — rolei os olhos.
— Você vai me bater se eu falar que não me lembro de quase nada? — parei de andar bruscamente e olhei pra ela. Eu não estava muito surpresa, pra falar a verdade, sou a prova viva de que álcool causa amnésia precoce.
— Nadinha mesmo? — perguntei e ela assentiu. Sentei-me ao lado dela e suspirei. — Não estou sozinha nessa então.
Pensei que ficaria mais aliviada e que sentiria um peso a menos nos ombros, mas me senti exatamente do mesmo jeito, se não pior. Se você tivesse a sensação de ter feito e falado quase tudo que não faria ou falaria no seu normal perto do garoto que atormenta sua vida e tenta te seduzir desde que pôs os pés na SUA escola, você me entenderia. Mas isso era só uma sensação, então se tivesse mesmo acontecido alguma coisa que minha mente alcoolizada não conseguiu gravar na merda do cérebro que eu tinha dentro da minha cabeça e que tinha resolvido parar de funcionar no sábado, basicamente, tudo estaria dezenove vezes pior. Agora você se pergunta: Dezenove? Por que 19? PORQUE EU GOSTO DESSE NÚMERO! E se você tiver um bom psicólogo ou psiquiatra pra recomendar, ficaria grata.
— E tem alguma coisa que você se arrependeria de ter feito? , onde você ficou a noite inteira? — perguntou com curiosidade e estreitou os olhos.
— É, bem por aí mesmo. Mas você andou se perguntando isso recentemente? O que eu fiz não foi TÃO grave, foi mais inocente mesmo — disse convicta, até eu acreditaria se não fosse as teimosas lembranças me mostrando que era mentira. — De qualquer jeito, agora você poderia me contar o que se lembra.
— Ok, eu e chegamos lá e ainda tava um tédio. Logo depois, uns carinhas chegaram com as bebidinhas e como o tédio falou mais alto, eu e ele começamos a beber. , eu juro que não estava nos meus planos beber tanto, mas saiu do controle. As coisas começaram a ficar mais divertidas, assim dizendo. Lembro de ter começado com as indiretas aí, mas elas eram DIRETAS demais, então pra piorar a situação eu falei no ouvido dele e depois veio o beijo...
Esperei que ela voltasse a falar, mas ela não voltou.
? Oi?
Ela riu.
— Voltando, depois do beijo — a interrompi.
— Você quis dizer: d’O Beijo, né? Pela cara que fez... Agora continua.
— Você me irrita imitando o Google, “Você quis dizer blá, blá, blá” — ela disse revirando os olhos.
— Você adora o Google, pode admitir — ri fraco.
— Depois do beijo, só lembro-me de alguma coisa pinicando minha perna, acho que eram os arbustos, sei lá, e de acordar ao lado do praticamente nua, em cima de um colchão de ar, que por pouco não caiu na piscina!
Não sabia se ria ou se chorava.
— Como vocês conseguiram encher o colchão? — gargalhei segurando a barriga. — Olha, vê pelo lado positivo: vocês transaram sob as estrelas! Romântico, hein? — continuei rindo e me deu um tapa na cabeça e bufou, mas depois riu comigo. — Pelo menos foi o . Você desejava isso, não foi tão mal assim.
— Por esse lado, você tem razão, era o de qualquer jeito — ela disse e sorriu igual uma idiota. — Mas poderia ter sido pelo menos em outro lugar. Um colchão de ar? E se alguém tiver visto? Imaginei tantas vezes como seria a maldita primeira vez e acaba nisso, por que eu tinha que nascer mulher e ter um hímen?!
, o estranho seria você nascer com dois, sem ou ser um homem com hímen, então relaxa e para de gritar, tá atraindo olhares. Usaram camisinha? — ela me olhou assustada pela pergunta direta. — Se você aparecer grávida eu mato o antes do seu pai fazer isso.
— Iiiiiiih, acho que não deu tempo, hein — ela disse e riu escandalosamente. — Mas eu tomo anticoncepcional desde que eu tinha 15 anos, de qualquer jeito.
— Sua mãe? — disse rindo pelo nariz.
— Aham, ela me obrigou. Disse que é muito nova pra ser avó. Tá vendo a imagem que ela tem de mim? — disse fingindo estar irritada.
— Ela tem seus motivos — eu disse antes de me esquivar de outro tapa. — Nossa, como você tá agressiva hoje. Falando sério agora, como vai ficar as coisas entre vocês?
Ela deu os ombros, me surpreendendo.
— Decidimos deixar acontecer. Então, , mudando de assunto, o que você fez e que se arrependeu?
Ela tinha que lembrar? E o que eu fiz pra me arrepender? Nada, só acreditei no que o disse e quase o beijei por livre e espontânea vontade, e quando não fiz isso, beijei a bochecha dele com tanto carinho que o local poderia ter ficado marcado como prova de que tem muita cosia dentro de mim que eu nem sabia que existia. Só isso.
— Nada, , já me conformei — Na verdade, eu não tinha me conformado, mas dei os ombros e comecei a procurar na bolsa algum Tridente perdido. Ela me olhou cética, mas viu que eu não abriria mais a boca.
Eu não contaria nada para ninguém.
Mesmo com sabendo e eu me sentindo um pouco mais leve, só de cogitar a possibilidade de contar a , ao e/ou a Louise, já ficava vontade de me jogar em um poço bem fundo e bater a cabeça com muita força, pra ficar em coma e acordar 3 meses depois e sem a memória, só para não receber olhares estranhos, iguais ao que me mandava, e não me sentir mais anormal. Mas, por outro lado, se eu contasse, todo o peso dos meus ombros desapareceria, e isso seria uma coisa boa.
Mas eles são meus amigos! E eu já sentia culpa em omitir, ou mentir pra eles — como eu havia feito minutos trás com — e a opinião deles importa, mesmo eu fingindo que não.
É muita pressão pra uma pessoa só. Eu, decididamente, não iria contar. Tenho que aprender a ser fria para algumas coisas, aprender a ignorá-las e seguir minha vida. E eu posso agüentar uma pressãozinha dessa, não é nada, mas deixaria isso pra outra hora, já tem coisa demais na minha cabeça para eu me preocupar.
voltou a cantar a musica engraçada, provavelmente ela tinha inventado, e eu até riria se não tivesse tão ansiosa a ponto de ficar com vontade de roer as unhas. Ela viu que eu estava quase me levantando e dando cambalhotas no ar, e me lançou um olhar estranho. Já disse que eu estou ficando complexadas com esses olhares? Fechei os olhos e me concentrei. Não sabia no que me concentrar, e nem o porquê disso, apenas o fiz. Imaginei um lago bem extenso e calmo. E quando abri os olhos novamente, fingi me sentir normal e não-ansiosa tão naturalmente que até me surpreendi com o meu desempenho. Talvez não seria tão difícil ignorar tudo que acontecia como eu pensei que seria minutos atrás. Quando o sinal tocou eu olhei mais uma vez pela escola, para ver se o tinha chegado. Mas não o via em lugar nenhum. Isso era no mínimo estranho.
, tem alguma coisa errada.
— O que tá errado? — ela disse preguiçosamente.
— A escola, tem algo diferente.
— Isso é paranóia sua, esquece.
Mas eu não esqueci.
Cheguei à sala de aula e fiquei aliviada ao ver que não tinha ninguém inconveniente sentado no meu lugar. Senti-me nostálgica ao lembrar que fazia muito tempo que eu não tinha paz na escola. Mas não foi uma nostalgia boa, foi estranha. Eu adorava ficar em silêncio, mas tudo que eu normalmente faço, hoje parecia estranho. Resolvi deixar isso de lado e tentei esquecer, como tinha sugerido.
Sentei-me no meu antigo lugar e direcionei minha atenção ao professor. Meus olhos ameaçavam se fechar, mas eu não queria dormir. Não queria fazer disso uma rotina. E eu perdi o tempo de uma aula inteira e não consegui organizar meus pensamentos.
Pedi ao professor para ir beber água, ele recusou no começo, mas foi só colocar a mão na barriga e me posicionar em um lugar com pouca luz — deixando minha pele meio verde —, pra ele ficar todo atrapalhado e me entregar o passe dos corredores com presa.
— Professores... — murmurei ao sair da sala.
Andava despreocupadamente pelos corredores da escola, estava tudo muito silencioso. Passei reto pelos banheiros, até chegar aos bebedouros. Lavei as mãos e em seguida me abaixei pra beber água. Quando terminei, continuei olhando a água descer livremente pela torneira e a fechei quando meu lado ecológico me repreendeu. Não estava com vontade nenhuma de voltar à sala, então fiquei andando pelos corredores, estranhamente silenciosos. Andei por cerca de quarenta minutos, com as mãos no bolso, e demorei mais uns seis pra chegar à sala, de tão longe que eu tinha ido. Quando coloquei os pés na sala, o professor disse:
— Srta. , já que está em pé, leve esta pasta para a Profª. Demetre, na sala 72.
Era só o que me faltava, virar assistente de professor folgado.
— Pede pra representante de classe, oras — disse exasperada e tirei as mãos dos bolsos.
— Em algum momento eu pedi a ela?
— Mas ela foi escolhida pra ser a sua ajudante, e não eu. E se eu for agora, eu vou perder o sinal.
— E se você for logo, não — ele disse e continuou com a pasta na mão, apontando-a na minha direção.
Mandei meu pior olhar a ele, peguei a pasta e saí da sala batendo o pé. Quem me visse de longe acharia que eu era mimada e birrenta por causa dessa atitude. Mas eu tinha motivos pra isso, acordei com o pé esquerdo e ainda estou tendo um dia completamente estranho e ao mesmo tempo normal demais. E isso fazia as coisas ficarem mais confusas ainda, porque era estranho ter um dia estranhamente normal.
Corri pelo corredor e quase caí quando fazia a curva para subir a escada. Tropecei umas seis vezes na escada e cheguei ao quarto andar. Respirei fundo e tirei o cabelo do rosto antes de procurar pela porta de número 72. Estava sendo muito cautelosa e meu sexto sentido tinha se ativado, e sempre que isso acontecia coisas ruins viam em seguida.
Andei silenciosamente pelo extenso corredor e já começava a me irritar por não achar a porta. Sessenta... Sessenta e sete... Setenta e um... E finalmente 72. Franzi o cenho ao ver a porta. Ela não seguia o padrão das outras que continham o nome do professor e a matéria, escritos dentro de uma plaquinha. Nessa só tinha o número 72 no centro, um pouco acima da minha cabeça. Mais uma coisa estranha para o meu dia estranhamente normal.
Bati na porta com receio e escutei algo caindo e levando mais coisas junto para o chão. Comecei a ficar nervosa, porque escutar algo caindo em uma sala que parecia estar desativada era o que eu precisava pra completar o dia. Pensei em ir embora e falar ao Sr. Daves que não tinha ninguém na sala. Porém eu odeio começar alguma coisa e deixá-la pela metade, incompleta. Do mesmo jeito que eu odeio coisas provisórias.
Bati novamente na porta, agora com um pouco mais de força, e escutei um grito agudo totalmente enjoativo, de susto, e depois uma risada baixa. Mas ninguém abriu a porta, então eu a abri.
E me senti enojada.
A sala era igual a qualquer outra, mas tinha uma camada grossa de poeira sobre tudo e algumas carteiras caídas no chão. Mas não tinha sido isso que me fez ficar com nojo. Era só uma sala que provavelmente estaria desativada se não estivesse sendo usada por duas pessoas, que estavam de roupas íntimas e me olhando com raiva.
— Ah, olha se o casalzinho pop não fez as pazes! — exclamei olhando pra e pra Cooper. — Como é que é aquele papinho sobre “ser perfeito aos olhos dos outros e blá-blá-blá”, mesmo, ? — disse com a voz cortante diretamente pra ele, que abaixou o olhar por questão de segundos, envergonhado, mas o levantou e pude perceber que seus olhos estavam frios e inexpressivos e que o sorriso insuportável se instalara novamente no seu rosto. Fazia tempo que eu não o via, mas continuava irritante.
— Do que ela ta falando, amor? — Madison perguntou com tédio, e eu vi rolar os olhos, provavelmente para o “amor”.
— Não sei. Você está escutando alguma coisa que ela tá falando mesmo? — ele perguntou com sarcasmo e depois riu pelo nariz.
— Mas é claro que não sabe — pus o máximo de ênfase no ‘claro’.
— Oh, , diz pra ela sair daqui — Cooper disse, olhando para suas unhas.
— Ah, tô atrapalhando a rapidinha de vocês, né? — continuei a olhar para ele, mas só para o rosto. Não queria olhar para seu corpo e começar a falar coisas sem sentindo. — Vocês não têm vergonha de fazer isso com a escola? Essas humildes carteiras não são obrigadas a presenciar isso, vão para um motel!
quebrou o contato visual.
— Se você ainda não percebeu, , estávamos ocupados — ok, ele nunca tinha me chamado de , além daquela vez no primeiro dia de aula dele. Então ele passou um braço em volta da cintura dela.
Ri indignada.
— E você ainda queria que eu acreditasse que você era diferente — disse balançando a cabeça, incrédula. — Patéticos.
Saí da sala e fechei a porta.
Lembra quando eu disse que meu dia estava muito normal? Esqueça aquilo. Porque não é normal ver a líder de torcida e o garoto mais popular da escola seminus. Eu sou uma idiota mesmo, por ter ficado tão chocada ao ver aquilo e por pensar que poderia existir uma parte dele, bem pequena, que fosse boa. Ou por pensar seriamente nas coisas que ele tinha me falado. Essa parte boa nunca existiu!
Tudo que eu achava que ele era — quando o vi na escola pela primeira vez — se comprovava agora. Quer dizer, nunca faltaram provas comprovando isso, mas era diferente ver ele se achar o rei da escola e interromper as preliminares da sua transa. Isso só fez eu me sentir mais estúpida ainda, por por um momento ter desejado beijá-lo. Mesmo eu estando bêbada, isso nunca justificou nada, porque eu queria aquilo e eu poderia ter parado, ele me deu essa opção, mas sendo fraca e ridícula — me igualando a população feminina dessa escola — não consegui colocar na cabeça que aquilo era errado e que eu me arrependeria depois.
Desde quando isso está acontecendo? Desde quando eu não tenho mais controle das minhas ações?

Capítulo IV
“Hello hello is anyone home?”

Não tinha parado pra pensar sobre isso. Eu tinha mudado. Estava bem mais sensível e amável do que eu normalmente sou. E eu demorei muito tempo pra conseguir não ser sensível. Não queria voltar a ser a mesma garotinha que chorava quando sentia saudade dos seus pais robôs, ou quando se sentia decepcionada. Eu era boa demais pra eles, eles não mereciam minhas lágrimas. Quando disse ‘boa’, quis dizer no sentido do oposto de ruim, não no sentido que eu sou convencida e você deve beijar os meus pés.
Ser sensível não me trouxe bem nenhum, e eu não voltaria a ser só por causa de um garoto com vícios estranho. Parei alguns segundo em frente à porta e pensei no que falar. Abri a porta da sala e quando entrei andei direto para a mesa do professor e joguei a pasta em cima dela. Ele ia começar a falar algo, mas eu o interrompi.
— Você deveria se aposentar! Não consegue nem ao menos se lembrar do número estúpido de uma sala? Só me fez perder meu tempo e a minha paciência indo até lá. Nunca mais me peça nada.
Joguei as palavras neles, fui até a minha mesa e comecei a guardar meu material e quando terminei o sinal tocou. Assim que saí da sala, me concentrei de novo em algo que me acalmasse e usei o celular como espelho, para ver como eu estava. Por fora eu estava normal, e isso era bom. Andava pelos corredores abarrotados de gente e alguém quase caiu em cima de mim, vi que era .
— Anda caindo pelos cantos agora? — disse empurrando ele de leve e ele riu.
— Decidiu entrar?
Eu quase respondi: Não, isso que você está vendo é apenas fruto da sua imaginação fértil, se você olhar no jardim de novo, verá que a verdadeira , continua lá (n/a: piada muito interna, dik). Mas apenas disse:
— Sim.
— Que foi? Você tá estranha.
— Eu não, você é louco.
— “Eu não” o quê? — disse se aproximando.
— Eu não estou estranha.
— Não mais que o normal — disse e deu os ombros. me olhou com mais atenção. — Tá bom, me respondam: qual é o nome da casa da ovelha?
— Não sabia que era a hora da piada — comentou.
— Sempre é hora pra uma boa piada — disse e piscou com um olho.
— Mas então, qual é o nome? — perguntei curiosa e me olhou de novo.
— Lã House — respondeu, enquanto se aproximava de nós, e eu e começamos a rir. Eu ri porque a piada era tosca demais e ele provavelmente riu porque achou engraçada mesmo.
— Essa foi péssima — disse e fingiu estar indignado.
— Velha demais — concordou.
— Ah, qual é! É engraçada, até a riu — se defendeu.
— Isso fez eu me sentir uma eterna mal humorada, e eu só ri porque era tosca demais, ok? — disse e fingi estar irritada.
— E isso comprova que você está estranha, porque você nunca ri das piadas do .
Ignorei o que disse e observei Tyler se aproximar sorridente. Ele também era popular, amigo do e do , e é um gato, não que e não sejam... mas Tyler não é meu amigo. Normalmente ele e nem nenhum do outros falavam com e quando eles estavam comigo e com a . Mas Tyler era quem entregava os recados, então ele era o único que falava, e isso muito raramente.
— Garotas — Tyler disse balançando a cabeça e sorrindo (nota-se: quase me cegando) pra mim e pra , em forma de cumprimento. — Hey, — ele disse e eles dois bateram as mãos. — . O Alex disse que o Ronald disse que o estava procurando você.
— E por que ele não veio até aqui? — disse confuso. — Ele sempre vem, mesmo quando não quer falar comigo.
— Não sei — Tyler disse coçando o queixo de um modo muito fofo, tão confuso quando , que me olhou com uma sobrancelha erguida.
— Covarde — disse e, obviamente, só entendeu... Por partes. Então fui para a minha próxima aula, ele que se vire respondendo e sem quebrar a promessa.

Já tinham se passado as duas aulas de história, uma de inglês e a de biologia estava no fim. tinha entrado no meio da aula de inglês e teve que escutar a minha linda e amada professora falando como ele era irresponsável, que ele não tinha futuro nenhum, que ela não o deixaria receber o diploma e que ele ficaria preso no terceiro ano pro resto da vida. Posso afirmar que ganhei meu dia com isso. Eu evitava olhar pra ele, temia que essa máscara que eu faço pra tudo caísse — ou se congelasse — se eu visse seus olhos me encararem com a mesma frieza de um cubo de gelo, de novo.
Eu não olhava pra ele, mas ele tinha voltado com o antigo habito de ficar me olhando compulsivamente. Já tinha me decidido a ignorar tudo vindo dele desde o momento que o vi de boxer na sala 72, então eu não me incomodava mais com o olhar. Porém, outra pessoa se incomodava... E muito. Madison estava a ponto de começar a gritar com ele, se de longe eu via suas narinas inflarem igual a de um cachorro com raiva, de perto ela deveria estar parecendo um lobisomem descontrolado. Isso também fez meu dia um pouco melhor. Quando o sinal tocou me esperava encostado em uma pilastra para irmos embora, e me disse que a e o tinham ido na frente e eu não pude deixar de rir disso.
Fomos andando o caminho inteiro conversando, também disse QUE da próxima vez que eu deixasse ele naquela situação com a e com o , ele apareceria na minha casa com uma faca bem afiada e pontuda, mas em seguida disse que ainda me amava. Estava feliz por ele não ter falado nem perguntado uma só vez sobre eu estar estranha, nem sobre o .
— Então, acho que você já pode me contar o que aconteceu hoje. Entre você e o , digo.
Droga, .
, você poderia esquecer sobre a existência dele, por favor?
— Aaaaah, então aconteceu MAIS alguma coisa entre vocês dois, sim — ele disse balançando a cabeça, parecendo aqueles bonequinhos de caminhão.
— Não aconteceu nada — respondi rindo. — Por que aconteceria?
— Pra dar continuação ao que aconteceu sábado — disse e começou a estalar os dedos na frente do meu rosto e depois empinou o nariz.
, você tá muito gay hoje, além de estar parecendo uma menininha querendo fofocar.
— Sério mesmo? — ele perguntou horrorizado. — Ah, não muda de assunto! , até quando você vai continuar tentando esconder as coisas de mim? Você sabe que mesmo que tente, você não consegue. Senão eu não saberia nada sobre sábado.
— Querido, se você acha que eu ter visto ele e a Cooper seminus em uma sala desativada significa que “aconteceu” — fiz aspas no ar. — algo entre mim e ele, então aconteceu — disse com calma e coloquei os óculos de sol novamente.
Pensei que ele ia começar a gritar e me encher de perguntas que eu não teria tempo de responder e nem saco. Mas tem uma mania ótima de me surpreender. Ele colocou a mão no queixo com uma expressão pensativa e aí sim começou a gritar.
— Oh meu Deus! Oh meu Deus! Oh meu Deus! Oh meu Deus! Oh meu Deus! Oh meu Deus! Como ele pôde fazer isso se ele gosta de você?
Eu juro que nunca esperaria uma reação tão gay assim do .
— Quando você decidir anunciar que não é mais hétero, eu não vou desacreditar. Que merda é essa de “Oh meu Deus”? E quem disse que ele gosta de mim? É cada uma, viu...
Eu disse e percebi que estava na frente da minha casa, não me dei o trabalho de dar tchau pra de tão tensa nervosa que eu estava. Entrei em casa e fechei a porta com força. Subi para o meu quarto grunhindo para as paredes e derrubando todos os porta-retratos, que continham fotos da família com roupas formais e com sorrisos mais forçados do que os rostos sérios das modelos enquanto desfilavam.
Veja bem. Quando você está em cima de uma passarela, com centenas de pessoas te olhando e avaliando, você só pode ter duas reações. Primeira: rir de nervoso, ou de deboche. Segunda: vomitar de nervosismo, ou só porque comeu alguma coisa que não caiu bem no almoço. Ficar com cara de tédio não estava nas opções. Então aquilo era muito forçado. E os sorrisos nas fotos eram tão forçados quando as modelos, talvez até mais.
Tinha uma foto que eu apareci pulando, literalmente, no pescoço do Nate. Tinha coisa pior do que o seu irmão adorado e amado falar que o laço, exageradamente grande que minha Mariah linda tinha posto na minha cabeça, era feio? Isso aconteceu depois que ele começou a falar que nossos pais eram uns idiotas e blá-blá-blá e foi um pouco antes de eu ser expulsa. Essa foto só não estava no lixo ainda porque ela me fazia lembrar de como foi bom descontar toda minha recente raiva e me sentir bem comigo mesma, pelo menos uma vez na vida.
E a foto só ficava exposta quando minha mãe estava longe. Mariah era esperta o suficiente pra saber que se a Sra. Silva visse aquilo ela iria cortar em mil pedacinhos e dizer que a foto horrenda não estava de acordo com as outras... Mas por que mesmo eu estou falando dos porta-retratos deprimentes da minha casa?!
Andei pelo quarto batendo o pé e liguei o radio, aumentei no máximo. Não lembrava mais qual CD eu tinha escutado por último, e nem ligava. Sendo uma musica barulhenta, me deixando livre dos pensamentos, estava ótimo. Logo comecei a cantar, com a voz abafada por causa do travesseiro que eu apertava cada vez mais no meu rosto. Estilo Lilo, do desenho, sabe?
Substitui o “uniforme” por um shorts de lycra preto, obviamente apertado, e uma regata laranja simples. Pouco tempo depois escutei Mariah gritando — outra com um pulmão super sônico — avisando que o almoço estava pronto. Desci correndo as escadas, levando ao chão mais fotos. Ficaria feliz se Nate, com sua coordenação motora perfeita, passasse por ali e caísse. Cheguei à cozinha e dei um beijo na testa da Mariah, e ela me deu um abraço.
A comida estava ótima.
A companhia estava mais ótima ainda
E como já estava de barriga cheia fui me deitar no sofá e, talvez, dormisse por uma horinha....

Escutei um barulho extremamente irritante, e quanto mais eu pensava sobre o “ding-dong” idiota, mais acordada eu ficava e mais alto o barulho se tornava. E, infelizmente, mais persistente a pessoa que fez o favor de me acordar, também. Porra, não posso nem mais dormir em paz agora? E tenho certeza de que eu não sou a única pessoa desta casa. Não culpava Mariah, ela demoraria tempo demais indo até a porta. Talvez, ela até esteja no caminho... Mas Nate sim, estava em casa fazendo merda nenhuma, porque ele era outra merda.
Levantei com raiva, e provavelmente com o cabelo mais armado do que uma juba de leão. Mas eu não ligava, só abriria a porta, mandaria a pessoa que esperava ir se foder e voltaria a dormir feliz no sofá. Não olhei no olho mágico, não queria mudar de idéia quando visse a pessoa.
Abri a porta tão rápido que a pessoa que esperava deu um passo pra trás, e quando eu vi quem era não tive reação nenhuma. Sabe quando sua cabeça pensa que é dia de armar uma pegadinha com você e fica tudo branco, e quando alguém te pergunta alguma coisa você responde com algo parecido: Ugh... Duh... Rep? Então, era isso que estava acontecendo.
Encarei com a boca aberta e nem me dei o trabalho de ajeitar o cabelo. Queria mesmo era que ele se assustasse com o bicho que se formou na minha cabeça e saísse correndo. Não tinha como eu não olhar pra ele, e merda, por que ele tinha que ser tão idiota? Eu já estava até aceitando que eu não me livraria dele tão fácil, e que eu gostava de tê-lo por perto. Mas não, ele sempre tinha que estragar tudo.
— O que você faz aqui? — perguntamos ao mesmo tempo, quando meus sentidos resolveram voltar. — Eu perguntei primeiro! — perguntamos juntos de novo.
— Ok, antes de esquecer que eu tenho modos quero saber como você descobriu o endereço da minha casa? Foi a Louise, não foi? Eu sabia, não podia confiar nela... E O QUE VOCÊ FAZ AQUI?
— O que você faz na casa do Nate? E com o cabelo... desse, desse jeito? Dormiu com ele, foi? — ele disse tentando fazer um sorriso de indiferença. Mas não conseguiu. Deus, eu não estava escutando aquilo.
— Ah, você é amigo do Nate? Já era de se esperar. Como se não fosse impossível, duas personalidades iguais se conhecerem. E eu não te devo explicações, passar bem.
Tentei fechar a porta, mas ele apenas estendeu o braço e me impediu de fazer isso.
Hora que começar a fazer academia, , pensei.
, mas que merd...
— Vai se fod...
Escutei Nate, espirrando, e soube que ele estava a menos de um metro de mim. Seu espirro era único, insuportável e tão exagerado que você ficava com vontade de abrir um buraco no chão e se esconder pra sempre.
— Poynterzinho! — ele disse antes de perceber toda a tensão entre mim e . — Ok, o que está acontecendo aqui?
Saí de lá e quase caiu quando eu tirei meu peso da porta, fiz questão de respirar novamente, ou talvez essa seja a primeira vez que eu respirava desde que abri a porta. disse:
— O QUE ELA ESTÁ FAZENDO AQUI? — não, ele gritou. Se eu falasse que ele só perguntou normalmente, eu estaria sendo boa demais. nem ao menos se deu o trabalho de ser discreto, como eu tinha feito, e fingir não se importar. Otário demais.
— Entra e... Ela quem? — Nate perguntou visivelmente confuso.
Ela. A Srt. Irritadinha-que-pensa-que-pode-falar-qualquer-coisa-pra-qualquer-pessoa.
.
— Desde quando ela mora aqui? — perguntou mais calmo. Eu me divertia com a situação.
— Desde que eu tinha quatro anos.
— Ela é adotada? — disse e me lançou um olhar estranho, por cima do ombro de Nate.
— Não, cara. Ela nasceu — Nate com a voz alarmada.
— E por que você nunca me disse que tinha uma irmã?
— Porque você morava na Inglaterra, e se fosse mais esperto saberia disso desde o momento que descobriu o sobrenome dela! E por que o interrogatório?! — Nate, me orgulho de ser sua irmã em ocasiões como essa. Nate era igual a mim para algumas coisas, como se irritar facilmente com pessoas desnecessárias. Sorri debochadamente quando olhou novamente pra mim. Ah, que sensação ótima de controle.

Capítulo V
“Every time I'm ready to leave, always seem to be, pullin in the wrong direction”


Pelo resto do dia eu pude ouvir uns barulhos muito estranhos vindos do quarto de Nate. Ele e estavam lá, o que me deixava muito assustada. Seria uma grande perca pra sociedade — feminina. Dois idiotas — e odeio admitir: lindos — indo pro lado rosa da força... Mas até que eu gostaria de ter um irmão gay, ele até poderia deixar de ser chato comigo e começar a me compreender. Quem eu estava tentando enganar? Nate e , gays? Nate me compreendendo? Nunca.
Não fazia questão de fazer silêncio pra tentar ouvir o que falavam, se eu escutasse mais alguma coisa estranha vinda do quarto eu ligaria pra polícia. Liguei a TV e deixei em qualquer canal que tivesse poucos comerciais, e percebi que esse canal não existia, porque a cada segundo eles interrompiam o programa e começavam com as propagandas.
Desisti de ver TV e liguei o DVD. Coloquei o CD e deixei no menu do filme, ABC do Amor, enquanto ia na cozinha pegar algo para comer vendo o filme. Olhei para o relógio do corredor de relance, sem prestar realmente atenção no horário. Quanto tempo tinha se passado desde que eu me deitei pra tirar um cochilo? Abri o celular e vi que já eram três horas da tarde. Uau, parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos.
Seguindo minha dieta super-saudável, peguei dois pacotes de Ruffles e coloquei Coca Cola em um taça enorme de milk-shake. Eu não sou nem tão fã assim de Coca Cola. Quando ia sair da cozinha, voltei e peguei um pacote de Doritos, por prevenção, ok? Vai que acontece alguma coisa com algum pacote. Prevenção...
A cozinha era do lado da sala, então não levei mais que alguns segundos para estar sentada no sofá novamente. Apertei play e comecei a cantar a música de introdução na mesma hora que começou a tocar no filme. Admito: sou viciada nesse filme desde a primeira vez que vi. Até ficava ridículo quando eu começava a repetir as falas no exato momento em que os personagens as diziam. E eu juro que não vou fazer isso hoje.
— A quantidade de “awn” que eu falo enquanto vejo esse filme é enorme... awn — afirmei para o nada, com a boca cheia de Doritos, e babei um pouco de Coca.
Eu não disse nada sobre não falar sozinha. De qualquer jeito, eu não consigo mais me impedir de fazer isso. No começo eu tentei, sempre tento. Mas sempre perco pra mim mesma, isso é frustrante, porque eu não tenho nem capacidade de impedir minha própria boca de tentar conversar com a TV ou com... Meu consciente. Deus, eu sou mais problemática do que eu me lembrava. Coloquei a mão em algum pacote de salgadinho, quer dizer, tentei colocar a mão em um pacote. Porque o único lugar que eu consegui colocar a mão foi na taça com Coca.
você precisa seriamente aprender a usar os olhos”, pensei. Balancei a mão pingando gotas de gota pra todo lado e pausei o filme. Eu gostava do cheiro de Coca Cola, mas não estava a fim de ver minha mão sendo devorada por formigas. Fui a cozinha para lavar, e quando já estava lavando, escutei um barulho de click vindo da sala e em seguida um barulho abafado que eu não soube identificar. Provavelmente era o indo embora. Sequei a mão e voltei para a sala.
Já era para o meu coração - e todo o meu sistema nervoso - ter se acostumado com minhas oscilações de humor. Antes estava tão calma e feliz, e agora ao ver deitado preguiçosamente, comendo as minhas porcarias e acabando com a minha Coca no sofá fez cada poro do meu corpo começar a gritar desesperadamente: “mate-o, mate-o, mate-o”. Mas a única coisa que eu fiz foi ir até a porta, ignorando seu olhar debochado, e abri-la em sinal de “vai-embora-ou-eu-boto-fogo-no-lixo-da-sua-casa”.
— Vai ficar aí e perder o filme? — ele perguntou me olhando por cima do sofá e eu me segurei para não ir lá e dar um chute no estômago dele.
Voltei para o sofá e peguei meus salgadinhos da mão dele e me sentei no outro sofá. Ele deu os ombros e teve a cara de pau de ir à cozinha, eu pude ouvi-lo abrindo o armário e pegando mais salgadinhos. Só não gritei um palavrão bem feio porque não queria Mariah perguntando se ele era meu namoradinho ou coisa parecida. Respirei fundo, contei até dez e fechei os olhos. Era isso, não estava aqui e eu não tenho motivos pra achar que Nate é mais irresponsável ainda, por sair de casa e deixar seu amigo com mente poluída, folgado e cínico praticamente sozinho com sua irmã caçula em uma casa em que um grito pode ecoar por horas.
Abri os olhos de novo e o vi me olhando com uma expressão indignada.
— Bela anfitriã — ele resmungou e apertou play.
Massageei as têmporas.
, o que você pretende com isso? Não acha que essa brincadeirinha já passou dos limites, não? Eu realmente não entendo — disse com a voz cansada e o escutei rindo do filme. Olhei e vi que estava na parte que o menino descobria que era daltônico. — Esse aí consegue ser mais problemático que eu — disse e falou para eu calar a boca, porque ele queria escutar o filme.
Levantei irritada e liguei pra Nate. Acho que em toda a minha vida eu nunca tinha discado esse número. Tocou algumas vezes e ele atendeu. Escutei risos de longe.
— Nate, que merda você tinha na cabeça quando teve a idéia de SAIR de casa e deixar seu amiguinho aqui? — disse irritada.
Olha, a primeira vez que você me liga, que lindo! Ele me deu uma resposta bem convincente quando eu perguntei por que ele queria ficar aí, então eu deixei e saí.
— E você acreditou no que ele disse? Não se lembrou que ele é tão mentiroso quanto você e que ele poderia ter inventado qualquer desculpa?
Acredito nele do mesmo jeito que acredito em você — estava perto da escada e comecei a bater minha cabeça no corrimão, incrédula. Quem tem um irmão como o Nate, não precisa de inimigos, ou pior... primos.
— Nate, liga pra ele e manda ele ir embora. Pelo amor de Deus! Eu... eu faço o que você quiser — esperei a resposta com os olhos fechados e mordendo a boca. Eu poderia me enterrar viva se ele aceitasse o acordo, e se ele não aceitasse, poderia fazer o mesmo, não teria diferença.
Afe, , você teve a vida inteira pra me falar isso e fala bem agora? Não, os motivos deles são melhores, tenho que desligar. Tchau.
Escutei a linha caindo e continuei batendo minha cabeça no corrimão. Eu não merecia isso. Sempre fui tão boa filha! Por quê? Por quê?
Voltei para a sala e o vi rindo. Sentei-me no sofá e olhei pra ele com cara de poucos amigos. Ele olhou pra mim e sua boca tinha farelos de salgadinhos. Era uma criança mesmo.
— Você não vai mesmo embora?
— Não, deixa eu ver o filme, faz tempo que eu não o vejo. Falando nisso, tenho que comprar o DVD.
— Não acredito no que estou ouvindo. gosta de filmes como Pequena Miss Sunshine? Eu devo estar mesmo sonhando — me belisquei e fiz uma careta. Eu estava bem acordada e meu braço agora doía.
— É o meu filme preferido e...
— Você vai embora? — meu cérebro não processou as palavras “é o meu filme preferido” porque vieram dele. Se outra pessoa tivesse falado, ele processaria. Perguntei esperançosa e murchei ao vê-lo negando com a cabeça. — Ok, se você não vai, eu vou. Bom proveito na estadia.
Olhei para a TV e depois para a porta. Já tinha perdido uma parte do filme mesmo, não faria diferença.
— Não! Não seja tão radical, eu vou embora quando o filme acabar. Você não vai pra lugar nenhum.
— Como se você tivesse o direito de dar ordens a mim na minha casa — disse. Já sabia que ele não ia embora, mas a última palavra era sempre minha, e eu não queria sair de casa agora.
Ele não se importou e continuou devorando um pacote de Ruffles de churrasco. O preferido de Nate, e provavelmente o último. Ele vai ficar muito feliz quando for procurar pra comer e souber que seu amigo-que-deu-um-motivo-melhor-que-o-meu-pra-ficar-em-casa comeu.
Levantei-me, deitei no outro sofá e comecei a prestar mais atenção no filme e na comida. Ainda estava um pouco surpresa por descobrir que o filme preferido dele era Pequena Miss Sunshine. Pensei que seria algum filme com sangue, morte, armas e bandidos querendo acabar com o mundo. Mas era Pequena Miss Sunshine! Um filme com uma menina gordinha querendo ser, entre um monte de meninas bronzeadas, com apliques e com muita maquiagem — mais parecidas com bonecas Barbie — escolhida a miss. Um sonho infantil, que ultrapassou muitas barreiras, só pra... Só pra ver a Olive feliz? Esse não deveria ser o filme que alguém como ele escolheria como o preferido. Ele comentava sobre o filme às vezes, mas nada que fosse importante ou com sentido suficiente para eu escrever aqui.
— Essa dançinha é a melhor — e eu dissemos juntos. Olhei pra ele com cara de poucos amigos, mas não aguentei, começamos a rir feito dois idiotas.
Mas essa risada não significava nada. Ainda tinha raiva dele por ele ter sido tão mentiroso, sábado; tão grosso, hoje; e tão idiota, todos os dias. O filme estava acabando e tinha comido tanta porcaria que o cheiro de sal estava me irritando, e não conseguiria engolir mais uma única gota de Coca.
Quando eu os créditos apareceram eu não sabia se ficava contente - por ir embora - ou se ficava triste - por saber que eu estaria sozinha nessa casa enorme. Não acho que eu voltaria a escutar os ruídos em algum canto da casa. Mas ainda era estranho. O que eu provavelmente poderia fazer? Mofar no meu quarto escutando música? Dormir? Ler? Tentar aprender a tocar meu violão? Que graça tem nisso? Sei que eu sou péssima mesmo, e que nunca vou conseguir. Pra que ficar insistindo nisso?
— Promessa é promessa — disse levantando-se e andando até mim. Perguntei-me mentalmente o que ele pretendia fazer com isso.
No fundo, bem lá no fundo, queria saber o que se passava na cabeça dele, hum, antes do quase-beijo e depois. Porque alguma coisa acontecera, mudando radicalmente algum pensamento ou opinião minha, se não eu não deixaria aquilo ter ido tão longe. Mas o problema é que eu não me lembro. Estranhamente, quando eu pensava sobre isso, o seguinte pensamento começava a ecoar na minha cabeça: “Nada é impossível”. E eu me irritava com isso; tomava toneladas de analgésicos e ia dormir, pra esquecer.
Estava tão distraída que não tinha percebido que estava na minha frente. Olhei pra ele e parei de roer a unha — tenho essa mania besta, quando estou pensando — e ele me olhava achando graça. Sabia disso porque as sobrancelhas dele estavam levemente arqueadas, e elas sempre ficavam assim quando ele via algo que considerasse digno de risadas. Não que isso signifique que eu fico observando ele. O que acontece é o contrário, ele que me observa.
foi se abaixando na minha direção e eu fiquei nervosa por isso.
— O que você pensa que está...
Mas não completei a frase. Senti seus lábios tocarem minha bochecha e fiquei sem reação. Não esperaria por aquilo em um milhão de anos, então, em um milhão de anos, eu não teria uma reação descente para aquilo! Senti os mesmo sentimentos que eu passei para o beijo, no sábado, mas agora vindos dele. não podia uma hora falar que eu estava atrapalhando a rapidinha dele, e na outra beijar minha bochecha com carinho e mais um monte de outras coisas que eu não soube identificar.
Quando pude vê-lo novamente, ele tinha um sorriso cúmplice no rosto.
— Agora estamos quites — fiquei confusa. — Sabe, retribui o beijo — ele olhou em outra direção antes que eu pudesse entender o que seus olhos transmitiam.
— Eu não te dei permissão pra fazer isso — disse seca e me sentia nervosa.
— Até amanhã, — ele disse rindo enigmático e saiu pela porta.
— Você também não tem intimidade suficiente pra me chamar de ! — gritei, com esperança que ele ouvisse e se colocasse no seu lugar de pessoa-sem-intimidade, digo isso sem nenhuma malícia.
Subi correndo para o meu quarto e ignorei minha bochecha. Era fácil ignorar uma parte do seu corpo que pertencia ao seu rosto e era bem visível, sabia? Peguei meu violão, que estava na parede. Sim, ele ficava como se estivesse em exposição, não o usava para nada mesmo. Liguei o notebook e entrei em um site qualquer com letras e procurei a cifra de uma música lenta que eu gostava. Baixei a vídeo-aula e rezei para que eu progredisse alguma coisa.
— O quê? — falei, depois que terminei de ver, totalmente confusa. Ok, hora de por as mãos na massa.
Passei o dia inteiro assim, e não vi quando o céu mudou de cor. Depois de ver o vídeo mais umas cinco ou quinze vezes - perdi a conta - eu consegui finalmente fazer um som decente. Mesmo não sendo igual ao som que o professor fazia no vídeo, já era um começo. Fiquei tão feliz com isso que parei de tentar aprender alguma coisa só para poder comemorar sem interrupções. Eu virei uma rock star da tarde pra noite! Agora só falta aprender tocar uma música inteira, compor e ver a multidão ir ao delírio... Esse foi meu último pensamento coerente antes de me jogar na cama, sem ao menos colocar uma roupa confortável, e adormecer.
xx
— Crianças, escolham um amiguinho para pintar com vocês, depois que vocês tiverem escolhido eu vou distribuir os pincéis, as telas e a tintas, ok? — a professora disse com uma empolgação contagiante para qualquer pessoa. Menos pra mim. — Simon, não pode comer giz de cera... Nem colocá-lo no nariz!
Olhei para os lados e não vi ninguém vindo na minha direção, e eu nunca tive coragem o suficiente para perguntar pra alguém se queria fazer dupla comigo. Eu sempre tinha esse problema quando a atividade não era individual, e eu odiava quando não era. Eu nunca tive um amigo-de-tinta.
Daqui a pouco a professora passaria na minha mesa e me veria sem um parceiro, e mais três meninas vestidas completamente de rosa rindo de mim. Então ela escolheria alguém que também não tinha um parceiro, e nós dois faríamos a atividade com vergonha de perguntar com que cor o outro achava que a árvore ficaria mais bonita.
Eu não gostava disso, não gostava de ver Madison e suas amigas rindo de mim e falando que eu sou uma aberração, mas minha timidez me impedia de fazê-las parar. Quando a Sra. Sherman estava na mesa da minha frente, distribuindo os materiais, senti alguém cutucar meu ombro. Virei-me devagar e vi um menino com um suéter xadrez bege com cinza, com os cabelos lisos penteados para o lado e com tênis com luzinhas azuis e vermelhas, que piscavam quando ele batia o pé no chão, quebrando o ar arrumadinho - ou deixando-o mais esquisito.
— Eu gosto de brócolis, e você? — ele perguntou sorrindo, com as mãos nas costas.
— Ah, eu prefiro cenoura, mas brócolis também é bom — disse com a voz tão baixa que eu quase não escutei, olhando para as minhas mãos. Mas o menino não demonstrou dificuldade em entender.
— Conversando sem olhar nos olhos das pessoas de novo, ? — não precisei olhar para ver quem falava, ninguém conseguia ter a voz tão enjoativa quanto Madison. Suas amigas riam. A cada palavra que ela falava, eu me encolhia mais.
— Ei, não façam isso com ela! — o menino-do-suéter disse com raiva e Madison e suas amigas saíram correndo. — Você tá bem? — ele me perguntou e eu assenti com as bochechas vermelhas. — Por que deixa elas fazerem isso com você? — dei os ombros e olhei pra ele.
— Elas já fizeram coisas pior.
— Isso não vai mais acontecer, aliás, me chamo...
, o que ainda faz fora do seu lugar? — Sra. Sherman perguntou a ele, olhando para mim em seguida, e sorriu compreendendo. — Vejo que formaram uma dupla — ela disse e deixou os materiais em cima da mesa. Éramos uma dupla?
— Então, , quer fazer dupla comigo? — perguntou e eu assenti com um sorriso por saber que ele sabia meu nome. Sim, éramos uma dupla.
— Me chama de — eu disse tímida.
— E você me chama de .
— Ok, . Agora, menino-brócolis, precisamos pintar um quadro — ele riu.
foi até a sua mesa, pegou sua mochila de rodinhas das tartarugas ninjas e fez um barulho com ela quando bateu no chão. As outras crianças que estavam na mesa se encolheram de medo, e ele voltou para a minha mesa. não me deixava com medo, não entendia porque as outras crianças tinham medo dele.
— Ah, crianças, não esqueçam que a pintura tem que ter escrito — ela apontou para o quadro negro, que na verdade era verde, o lugar onde estava escrito “Jardim 3A”, e eu já sabia ler no último ano do jardim. Outro motivo para me acharem estranha. — Usem a criatividade!
— O que você quer desenhar, ? — perguntou, enquanto ele arrumava as tintas por tom, das mais claras as mais escuras. Dei os ombros e olhei mais uma vez para os tênis dele e a bolsa. — Acho que ficaria legal colocar uma grama bem alta e desenhar umas tartarugas embaixo dela! Com uns brilhos coloridos irados no céu!
— O céu azul claro, por favor — disse rindo da empolgação dele.
— Yeah! Mas pensei que você escolheria rosa, porque você é menina.
— E você é menino e gosta de brilhos e luzinhas — ele fez uma expressão indignada e eu ri mais.
— Brilhos não são coisas só de menina.
— Nem azul é cor só de menino.
— Ok. Tartarugas, azul, brilhos e não podemos esquecer o Jardim 3A — disse por fim e eu assenti.
Começamos a pintar o quadro mediano. No fim das contas, nem usamos os pincéis e acabamos com mãos multicoloridas de tintas guache. Nosso desenho foi escolhido pela professora como o mais criativo. começou a rir quando viu Madison gritando frustrada com uma de suas amigas porque seu desenho de uma flor rosa em um fundo rosa era mais bonito do que o da tartaruga detetive, e nessa hora eu comecei a rir também.
A Sra. Sherman me devolveu a quadro e eu corei quando ela me elogiou.
— Fico feliz que tenha feito um amigo, — ela disse quando se distraiu com as luzinhas do tênis e eu sorri envergonhada, mas feliz.
Na hora que a aula acabou e eu fomos para o portão juntos esperar nossos pais. Eu não conseguia parar de rir nem por um segundo. Não sentia medo ou vergonha quando estava com ele. Só me sentia eu mesma. Quando chegamos ao portão, eu congelei ao ver minha mãe me esperando. Não sei se foi por que eu gostei de vê-la, ou o oposto. foi comigo até ela, sua mãe não tinha chegado ainda. Abracei minha mãe desajeitadamente e não senti os braços delas me envolverem.
— Mamãe, esse é o , — meu único amigo, pensei, mas não disse — meu amigo.
— Oi — disse e estendeu a mão, esperando minha mãe apertá-la. Minha mãe olhou para a mão dele e fez uma careta ao ver vestígios de tinta. abaixou a mão envergonhado.
— Vamos embora, — minha mãe disse séria e eu me despedi de com um aceno.
Fomos para o carro e, quando me sentei no banco de trás, minha mãe começou a estalar a língua, em sinal de reprovação. Ela fazia isso toda hora; ficou desse jeito quase o caminho inteiro e, quando estávamos chegando em casa, ela disse:
, eu não quero mais você andando com esse menino. Ele nem deve saber pronunciar o nome dele!
— Não — ela parou o carro em frente à nossa casa e olhou pra mim não acreditando no tinha ouvido. Eu nunca disse um “não” para minha mãe — Mãe, a senhora não o conhece, ele é legal e foi até educado com a senhora.
— Eu disse “não” e ponto final, e trate de jogar esse quadro no lixo.
Não respondi, mas não faria o que ela estava falando. Não perderia meu único amigo só porque ela achava que ele não sabia pronunciar o próprio sobrenome, nem perderia o motivo que me fez ganhar um amigo e ser elogiada. Quando entramos, corri para o meu quarto, para não dar chance de ela jogar meu desenho no lixo. Peguei uma canetinha no meu estojo e escrevi a data no quadro. Não queria esquecer desse dia nunca.


Capítulo VI
“Every time I'm ready to leave, always seem to be, pullin in the wrong direction”


Escutei o barulho de uma buzina um pouco antes do meu celular-despertador despertar. Essa era a realidade, não aquela babaquice de “escutei pássaros cantando e acordei sorrindo”, você escutou algum carro freando bruscamente e sorriu quando não viu ninguém morto, isso sim. Sentei-me na cama lentamente e olhei para a porta que dava acesso à varanda.
Alguns raios de Sol já passavam timidamente por baixo da porta, iluminando fracamente o ambiente. Virei-me procurei pelo meu despertador, que estava sobre o criado-mudo da esquerda. Mesmo meu celular tendo acabado de despertar, eu sou meio lenta de manhã, e não consigo forçar minha cabeça a entender que só passaram alguns minutos desde que meu celular despertou e que as horas não tinham mudado muito.
Cocei os olhos preguiçosamente e peguei o despertador vermelho - eu não o usava para sua função, já que eu gostava de acordar com música e eu não tinha um rádio-relógio -, e vi que eram 5h14min. Levantei da cama num pulo, abri a porta em um movimento rápido e sentei-me na cadeira de balanço de madeira, branca. Fiquei me balançando, me afundando mais na almofada fofa que estava no assento, prestando atenção no horizonte.

No Sol.
A hora mais bonita do dia, empatando, é claro, com o crepúsculo. Mesmo com o pôr-do-sol tendo mais admiradores, eu prefiro o nascer. Pois com o nascer você pode realmente ver as trevas se transformarem em luz. Noite em dia. Isso te dá um ânimo, renova todos os pensamentos, um motivo ou uma prova de que as coisas não têm que especialmente piorarem se escurecerem, que sempre tem uma saída.
Como aquele ditado: Você só vê o que realmente quer ver. E olha, eu consigo ver o céu mudar! Mas o problema começava sempre aí. Eu também gostava da noite, das “trevas”, e eu não queria ver nada. Como uma pessoa pessimista e negativa como eu vai querer enxergar algo de bom para que isso aconteça? E eu não vejo as pessoas que vivem sonhando acordadas realizando seus sonhos. Não vejo os ambientalistas conseguindo fazer as pessoas se conscientizarem e eles acreditam nisso, eles querem ver um mundo melhor. E isso acontece? Não acontece, então por que eu deveria mudar? Só para ter mais coisa para me iludir e me decepcionar? Não, obrigada. Considero o sentimento da decepção um dos piores existentes, não o quero acompanhando cada passo meu, esperando para transformar um mínimo sentimento ruim em uma avalanche de decepção.
Eu já tinha tido uma cota suficiente de experiências ruins ao longo da vida para ter ousadia de arriscar e quebrar a cara mais uma vez. E de novo, eu estou em um impasse comigo mesma. Certo ou errado? Confortável ou o desejado? Dia ou noite? Se eu não tivesse percebido que a posição do Sol tinha mudado e que se eu continuasse ali eu me atrasaria pra escola, eu ficaria o dia inteiro com essas comparações bestas.
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Tinha tomado banho e estava saindo do quarto com a bolsa no ombro, sapato sujo, cabelo arrumado de qualquer jeito, gravata frouxa e lentes de contato no lugar. Estava pronta. Mas, em vez de usar a sagrada calça jeans, eu vestia um shorts, também jeans, que ia até um pouco acima do meio das coxas. Estava insuportável o calor, e quando se trata de tempo, me considero uma especialista. Suspirei e olhei mais uma vez pelo quarto antes de fechar a porta, e parei no calendário, observando o grande número 25, que parecia estar me puxando em sua direção. Aproximei-me e li a folhinha com mais atenção. Ultimamente eu estava tão distraída que nem lembrava mais que mês era. Meu estômago deu uma volta desconfortável quando eu li a palavra: abril.
Agora eu conseguia entender porque eu sonhei com o . Senti vontade de vomitar ao ver a simplicidade de um sonho se transformando em ironia, e a inocência se transformando em um humor negro depressivo e desnecessário.
Vinte e cinco de Abril. Hoje fazia exatamente 11 anos que eu conheci e 7 anos desde o dia que fomos expulsos, ou do dia que a família dele mudou de país, cortando todos os laços com a “menina-que-corrompeu-o-pequeno-Tomzinho”.
Sentia as paredes se fechando contra mim e o ar faltando. Onze anos? Já tinha se passado tanto tempo assim? Puxei a folha com raiva do calendário, a amassei e joguei em baixo da cama. Virei-me a fim de ficar de costas para o calendário e meu coração quase saiu pela boca quando notei o que tinha feito. A parede que eu olhava tinha muitos pôsteres de bandas colados com fita adesiva e, no meio da parede, quebrando o contraste, jazia um quadro.
O quadro que eu tinha feito com .
xx

... o ... muitos anos... ... — disse gesticulando com as mãos e meus olhos ardiam. Minha voz saiu baixa, rouca e chorosa.
O estranho era que eu não tentava deixar minha voz normal, simplesmente não dava mais pra fingir. me olhou e não disse nada, e não se atreveram a perguntar também, mas eu sabia que não precisava de explicações. Ele só estendeu os braços me chamando para um abraço e eu o abracei, enterrando meu rosto no seu peito enquanto ele passava uma mão pelos meus cabelos e segurava firme na minha cintura (se a mão dele não estivesse ali, as chances de eu cair eram enormes) e beijava o topo da minha cabeça, num ato terno.
não sabia exatamente os motivos para eu estar a ponto de chorar. Mas ele com certeza sabia que os motivos eram sérios o suficiente, e ter o nome “” e a palavra “anos” na mesma frase era algo preocupante. sabia que eu evitava falar sobre , sabia que era um assunto muito delicado então eu evitava ao máximo, mas hoje fui eu quem tocou no assunto, e não ele tentando me ajudar a conviver melhor com o meu passado.
Só fui lembrar de onde eu estava e da minha situação quando ouvi o sinal tocando, e eu tinha chegado cedo na escola. Vim praticamente correndo da minha casa até aqui.
Eu já imaginava que estaria respondendo as perguntas silenciosas de e com os olhos. Quando me separei dele, não precisei limpar meu rosto como pensei que precisaria. Eu quase chorei, quase. não gostaria que eu chorasse.
Assustei-me quando notei a presença de Louise e me irritei quando vi o olhar dela. Por Deus, eu teria mesmo que aturar ciúmes sem fundamento bem hoje?
— Louise — disse com a voz controlada e senti alguém me olhando de longe. Dei uma olhada rápida pela escola e, quando meu olhar parou sobre , o vi rindo com Tyler. Podia jurar que o olhar era dele...
Então Louise me abraçou. Senti-me confusa e sufocada com o cheiro de chiclete que vinha dos cabelos dela. Ok, até alguns dias atrás ela não me achava desprezível ou eu estou com algum problema de memória?
— Sinto muito, eu sei que errei de novo, mas eu não quero ficar mais sem vocês – disse ela quando me largou. Frase correta: ninguém me aguenta além de vocês e eu odeio ficar sozinha.
— Ahn... Ér, que... — olhei para meus amigos atrás de respostas e deu os ombros, confuso. fez o mesmo, mas aparentava estar um pouco nervosa, e tinha um sorriso bobo na boca. Decidi perguntar pelo óbvio, já que ninguém me deu outra opção. — É, o que você quer que eu fale?
— Que me perdoa e que nossa amizade vai voltar a ser como era antes — Louise disse com um sorriso pidão que não me afetou em nada.
Olhei para o rosto de cada um dos meus amigos. e continuavam confusos, ah, puxa, eu tinha me esquecido de contar sobre o fatídico episódio Louise-prepotente-no-meu-quarto. Acho que eles estavam pensando que eu e ela não estávamos nos falando por causa da festa, e também estaria confuso se não estivesse tão feliz por ter Louise por perto. É, o que um sentimento não faz com uma pessoa.
— Que seja, Lola — disse “Lola” de propósito, só pra ela pensar que eu a tinha perdoado totalmente. Ledo engano. Acho que ninguém precisava saber que essa seria a última chance dela, certo?
Louise se pendurou mais uma vez no meu pescoço e eu me controlei pra não rolar os olhos e deixar alguma dúvida no ar. Ignorei a parte dos gritos histéricos e me preparei para os olhares indagadores. Por que eles nunca perguntam a ela? Enquanto Louise falava, tendo a atenção dos outros por hora, eu olhei para o portão, tentando me desviar da conversa e de qualquer coisa que me lembrasse .
Ok, posso admitir que foi uma péssima hora pra fazer isso. Ok, de novo, por que está olhando apreensivo pra mim, enquanto conversava no telefone? Essa seria uma ótima hora pra desviar o olhar, sabia, imã-biológico-dos-olhos? Até porque meu relógio-biológico já era pifado por ser tão adiantado, não queria meu mais recente inventado imã-biológico-dos-olhos estragado também.
, nós vamos entrar agora e eu não vou te deixar sozinha hoje, então vamos — disse apreensivo. Por que será que eu não escutei piadinhas sobre , ou nenhuma insinuação sobre o paradeiro do meu olhar? Ah sim, porque tinha medo de eu começar a chorar e ele não saber o que fazer.
Ignorei o olhar de , saindo no lucro por ter conseguido girar os olhos categoricamente, num sinal claro de impaciência. Fui adentrando a escola com me abraçando de lado e pedindo respostas com os olhos. Sorri de canto, desanimada. Acho que ele merecia algumas, mas não agora.
xx

— Crianças — a Sra. Blake disse e eu ouvi um muxoxo de todas as partes da sala. Ela continuou, ignorando-os — antes de abrirem as mochilas ou fazer qualquer outra coisa, eu tenho que fazer uma pergunta para cada um individualmente, só posso falar isso, então fila única em ordem de chamada do lado de fora da sala — ninguém se mexeu e todos a olhavam indignados. — Andem logo, seus preguiçosos, eu vou ter que fazer muito mais do que responder uma simples pergunta e não estou reclamando — se isso não é reclamar, é o que então? — E a propósito, se vocês não perceberam, esse é o corredor dos banheiros, se estiverem no tédio ou se seus hormônios começarem a controlar vocês, aproveitem para colocar a matéria sobre reprodução humana em prática, no banheiro. E vocês nunca ouviram isso, ok? Deus me livre alguém da secretaria saber que eu disse isso...
A sala inteira se levantou em um pulo e eu continuei sentada olhando para o nada. Suspirei derrotada e me levantei.
— Oh meu Deus, só espero que eles não se esqueçam que tem uma pergunta pra responder — Sra. Blake disse afobada enquanto procurava algo sobre a mesa e percebeu minha presença. — Ainda aí, Srt. ? Vamos, vamos, quanto mais rápido terminarmos, melhor.
Fiz o favor de sair da sala, por mim e por ela. Essa professora de Biologia me assusta desde os meus primeiros dias aqui, e eu nem tinha aulas com ela. Encostei-me na parede e peguei meu celular no bolso e os fones na mochila. Sempre achei muito sem noção aquelas pessoas que escutam música alta em ambiente público e não percebem que estão incomodando os outros.
Cada vez eu escorregava mais na parede, então me sentei no chão de uma vez, no meu lugar na fila, e comecei a observar o que acontecia ao meu redor, entediada. Olhei para o lado oposto do corredor e vi Madison segurando o colarinho de , enquanto falava alguma cosia. Olhava eles conversando e só pude imaginar o que falavam, obviamente por causa da música.
— It doesn't matter if you love him, or capital H-I-M — Madison “disse” e fechou a cara e tirou a mão dela do pescoço.
— Just put your paws up — disse com um sorriso forçado e segurou na cintura dela. Eu ia parar de olhar, então Madison disse:
— 'Cause you were born this way, baby — Cooper respondeu e eu gargalhei. Eles enfim notaram meu olhar e eu fiquei com mais vontade de rir ainda. Ela estava chamando-o gay, bem possível que a rapidinha de ontem tenha a decepcionado. Então algum desocupado começou a brincar com aqueles laiserzinhos vermelhos, na parede ou apontando na testa ou outra pare do corpo das meninas e imagens de um tênis piscante vieram na minha cabeça. Perdi a vontade de afirmar que era bom ter uma música popular no celular e a vontade de rir foi pro espaço.
Como vai bipolaridade?
Ignorando totalmente a expressão irritada do casal, eu peguei um casaco na bolsa, o vesti e arrumei a touca. Quem se importava em morrer de calor? Eu não me importo, e você? Mudei de playlist e fechei os olhos. Acho que devo agradecer os índios por terem começado com os instrumentos musicais e hoje existirem baterias, baixos e guitarras barulhentas, me deixando livre de pensamentos do passado.
Escutava de longe os outros serem chamando pela professora, só me levantaria quando ela chamasse meu nome. Estava balançando minha cabeça fora do ritmo da música, distraída, até que senti estar ficando quadrada e arrumei minha postura, dobrando meus joelhos na altura dos meus peitos.
— Oi, coxas — escutei essa frase estranha e ignorei. Provavelmente eu estava imaginando, estranho...
— Hey, coxas — meu pensamento tinha uma voz conhecida e eu sabia que o ser que falava estava sorrindo ao dizer aquilo. Abri os olhos lentamente, tirei os fones e o encarei.
— O que você está fazendo dessa vez, ? — perguntei com a voz arrastada.
— Não falei com você, falei com suas coxas, dá licença — o energúmeno do respondeu com um sorriso canalha.
Tio Deus, por favor, dai-me paciência para não cometer um suicídio e nunca mais me deixe usar shorts na escola, sim? Tirei meu casaco, cruzei minhas pernas e joguei a peça sobre elas, deixando-as invisíveis.
— Puxa, acho que as coxas não vão poder responder — disse fingindo estar decepcionada, olhando com pena para ele, que ainda continuava com o sorriso nos lábios.
— Por que tampar, ? Devia deixar as coxas se tamparem por vontade própria.
Ele estava mesmo esperando minhas coxas responderem? E ele achava mesmo que elas podiam se cobrir sozinhas? Perdi alguma coisa?
— Quê? — disse a coisa mais inteligente que consegui.
— Devia ter ficado sóbrio aquele sábado, na festa, assim eu poderia ter aproveitado melhor a visão de suas pernas de Megan Fox com o vestido curto — ele terminou de falar, deu um tapa na própria testa e bufou inconformado.
Levantei o casaco e olhei minhas pernas. Ainda não entendia mesmo porque eu tinha que escutar aquilo, aquele... Elogio? ELOGIO? Meu Deus, minha pernas são normais, estão no padrão, elas não são musculosas nem bronzeadas como a da Megan “Sou Gostosa” Fox, eu não sou tão branquela também... Minha perna não é mole igual uma gelatina, mas não chegava ao nível Megan Fox. Tamanho totalmente padrão e meu vestido não era curto, era do tamanho padrão também.
— Já pensou em, sei lá, fazer uma visitinha a um oftalmologista? Se quiser, eu indico o da minha avó, porque tá difícil você acertar o tamanho de alguma coisa... Mas puxa, com quem eu estou falando mesmo? Ah é, com você, . O cara mais errado da escola.
— Como se você fosse perfeita, se fosse, tivesse idéia de como esse shorts está chamativo teria a decência de não vir com ele pra escola – ele grunhiu. Como assim ele grunhiu pra mim?
— Nunca disse que era perfeita, e você já percebeu o que está fazendo? Opinando nas minhas roupas! Por que não vai se preocupar com o jeito que sua namorada se veste? E você quer mesmo falar sobre decência depois do que eu vi ontem? Quem é que estava seminu na escola? Eu ou você? E meu short não é tão curto como você está insinuando.
Argh, por que mesmo que eu ainda estava o respondendo? Indiferença resolve tudo, , tudo.
— Você pode considerar o tamanho “padrão”, mas sendo padrão ou não, ele realça até demais sua bunda.
— E POR QUE — eu ia gritar, mas me controlei, — você fica olhando pra minha bunda? — pingava irritação das minhas palavras.
— Admiro o que é pra ser admirado — ele disse na maior cara de pau — e se você não estivesse com esse pedaço de pano — Pedaço de pano? Que diabos está acontecendo aqui? Eu perdi a parte da história que tem ciúmes de mim? Ainda estou no planeta Terra, século XXI, Estados Unidos, Westmoor High e me chamo ? — Eu não tentaria conversar com suas coxas
— Ciúmes, ? — perguntei com ar de riso e vi a pele de ganhar cor quase imperceptivelmente nas bochechas e quase engasguei com saliva.
Chamem o Pentágono, cidadão americano foi abduzido e E.T vai pra escola em seu lugar.
— Quer tirar a prova? — ele perguntou depois de passar a mão direita no cabelo, desarrumando-o ainda mais se recuperando do choque — Simples, tira esse casaco, vai andando devagar até o bebedouro, todos os caras e as confusas vão olhar. Andar devagar não vai fazer diferença, você andou normalmente a manhã inteira e sua bunda parecia ter um imã gigante...
— CALA A BOCA, POYNTER, argh — gritei e algumas pessoas que estavam perto pularam assustada
— ...Mexe um pouco no cabelo também quando chegar lá, da uma olhadinha pra trás pra ver o resultado e pra ver se eu estou mentindo. Vamos ver se você consegue ser sexy, .
— Como se eu fosse fazer isso... e não tenho que te provar nada, by the way, eu vou no banheiro, lá não existe você.
— Esqueceu que se você se levantar terá que se levantar e vai acontecer o que eu estou falando? E a Madison está lá dentro, vai mesmo ir ao banheiro, ? — como se eu fosse ficar sentada o dia inteiro também, ah tá, sonha.
— É , , ! E por que você não deixa eu e meus membros inferiores em paz e vai atrás da sua namoradinha?
— Há há — gargalhou. — Como se EU um dia fosse correr atrás de uma garota, há há mesmo, e se não quer provar pra mim, prove pra você mesma e se conforme que tem uma bunda grande. Você é única mulher do mundo que não gosta de ter uma bunda grande, inacreditável — balançava a cabeça negativamente enquanto falava.
— De qualquer jeito, você não é a pessoa que tem que me falar isso, . E falar do jeito que você falou só fez eu me sentir um objeto, e esse não é o objetivo dessa sua enrolação toda, tenho certeza — disse devagar, talvez assim ele entendesse. Quando olhei pra baixo de novo, ele rolava os olhos. Ok, hora de ser radical. — , se eu fizer isso, se eu levantar e “seduzir” — disse debochando — todo mundo, você jura nunca mais falar comigo ou com qualquer parte do meu corpo? — Estava fazendo cada pergunta comprometedora esses dias...
Olhei nos olhos dele e observei sua pupila aumentar e diminuir, lembrei-me do que tinha acontecido ontem. “Estamos quites”, quites nada! Se estivéssemos, ele manteria distância igual eu faço, aí sim estaríamos quites.
— Eu poderia responder: “Fica sentada então, já vi sua bunda demais hoje” — dei um tapa no ombro dele — Outch, menina, tá fazendo aula de Box? — reclamou e começou a massagear o braço. — E desse jeito eu poderia continuar te irritando, mas algo me diz que eu vou poder quebrar promessa de um jeito limpo, porque eu não quebro promessas, ou tento não quebrar — muito esquisito um homem ter intuição, se é que ele pode ser considerado um homem, ou sexto sentido. — Então sim, eu juro que nunca mais falo com você se você provar a si mesma que sua bunda é grande. E você tem que concordar que essa promessa é, no mínimo, estranha.
Sorri sem os dentes, quase não acreditando no que ouvia.
— Vai, , hora da ação — ele disse em um tom de deboche e sarcástico, e eu sorri com os dentes, assustando-o. não sabe do que eu sou capaz. Não foi ele mesmo que disse que eu não precisava fazer muito por que eu tinha um imã gigante na bunda? É o que veremos, zinho.
E será que eu estava tão distraída pra não perceber que estavam olhando pra mim quando cheguei na escola?
Tirei os fones do pescoço, prendi meu cabelo em um coque alto com um elástico que estava no pulso, surpreendendo a , e ainda com o casaco perto do corpo. Da forma mais natural possível eu me levantei e me abaixei um pouco pra jogar o casaco em cima da minha mochila, enquanto encarava com um sorriso presunçoso, observando seus olhos brilharem e ficarem mais calorosos.
Fiquei totalmente ereta e andei normalmente até o fim do corredor, chegando no bebedouro. Olhei pra trás discretamente, diretamente para , que assistia tudo com a boca aberta. Eu sabia que ele tentaria ao máximo demonstrar indiferença. Senti vontade de sair correndo e colocar uma calça sarouel, mas onde eu arranjaria uma pra começar?
Arrisquei e olhei para outro menino que estava no corredor e o vi com os olhos um pouco vidrados, e meu short não era curto, quero que isso fiquei bem claro. Céus, será que isso já aconteceu em alguma aula de Educação Física e eu não percebi?
Me abaixei normalmente pra beber água e coloquei meu cabelo do lado do pescoço. Bebi e, quando terminei, olhei para qualquer um da sala, que olhava pra mim, e comecei a soltar meu cabelo devagar. Quando soltos, balancei-os um pouco e os distribui pelo ombro. Desviei o olhar, encontrando com o de , que tinha uma expressão cômica de “eu não tô vendo isso” misturada com “por que diabos ela está olhando pra ele?” afrouxei a gravata e abri trâs botões de cima da camisa, me certifiquei de que não estava mostrando nada antes de dizer:
— Como está quente, por Deus — continuando com o teatrinho me abanei e vi alguns garotos assentirem concordando.
, pode entrar — escutei a voz da Sra. Blake me chamando e fui até onde estava minha bolsa.
Ajoelhei-me ao lado de , peguei meu casaco e o amarrei na cintura.
— Ah, como será que eu fui? Você não pode imaginar o quão nervosa eu estava! — disse com ironia e ri depois. — Uma coisa que você devia ter aprendido sobre mim, , quando disse que estava conhecendo como o inimigo ataca, é que eu nunca falho em nada que eu faço. Até nunca mais, mané — disse feliz e dei um tapinha na ombro dele. Olhei uma última vez para ele antes de entrar na sala e encontrei seu olhar perdido. Diz aí se eu não sou foda! Deixei quase que anestesiado.
, amorzinho, que cara é essa? — escutei Cooper perguntando enquanto eu fechava a porta. Olhei para a professora e esperei que ela dissesse algo.
— Sente-se logo, , não temos todo o tempo do mundo — ela disse folheando um caderno e parou de fazer isso quando encontrou uma página rabiscada. — Esses jovens de hoje não têm atitude nem pra sentar em uma cadeira. Geração perdida...
Sentei-me com vontade de rir, ai se ela soubesse...
— Okay, responda: Como o seu passado interfere no seu presente? — ela perguntou com uma caneta na mão.
Engoli em seco, e senti todas as sensações e sentimentos ruins voltarem de uma vez, fazendo minha barriga dar uma volta de 360°.
— Isso faz mesmo parte da matéria, Sra. Blake? — perguntei com cuidado, tinha medo da resposta e da reação dela.
— Não, criatura, o que isso teria a ver com Biologia? Mas aí você se pergunta: “Então por que ela perguntou?”. É porque é parte do procedimento da formação de duplas para um projeto cultural que envolverá a escola inteira. Falei demais, viu? Só responda e suma da minha frente, isso é tão difícil?
Projeto que envolverá a escola inteira? Já não gostei disso.
— Eu queria dizer que não interfere em nada, mas eu estaria mentindo. Você sabe como é difícil saber que já se passaram 11 anos? Não, é claro que você não sabe, nem deve estar entendendo o que estou falando. Interfere tanto que eu teria percebido a escola inteira me olhando, se hoje não fosse dia 25 de Abril, e eu não tivesse ficado tão debilitada a ponto de não perceber que a atenção estava em mim e eu odeio atenção! Então, posso dizer convicta que meu passado — é doloroso demais pensar em como alguém do meu passado. — interfere drástica e diariamente no meu presente de uma forma péssima.
Sra. Blake deixou a caneta cair da mão quando eu terminei de falar.
— Pode se retirar — disse ela e eu saí aliviada da sala. Acho que eu tinha acabado de desabafar com minha professora de Biologia.
Mas eu tenho coisas mais importantes pra me preocupar, como esse projeto cultural, que tenho certeza de que não facilitará minha vida escolar. Mas pode ficar pra depois... Ou será que estou cometendo um erro não me preparando pra isso?

Capítulo VII
“Help!”


“Prevenir para não remediar” Mariah sempre diz, então acho que é uma boa hora pra pensar sobre o do “projeto cultural que envolverá a escola inteira”, de qualquer maneira eu teria que interagir com quem eu não conheço e, provavelmente, não simpatizo. Se, por um milagre eu tivesse que fazer algo com alguém que pelo menos ficasse na sua ou que tivesse medo de mim, e que não me viesse com futilidades e que não me fizesse ter nenhuma lembrança estranha, seria quase suportável. Sentei-me no mesmo banquinho que tinha me deitado na última vez que tinha vindo aqui, no jardim de trás do Westmoor. Eu voltaria pra sala quando estivesse perto do sinal da segunda aula de Biologia bater, acho que seria nessa hora que a professora anunciaria de vez o que tanto esconde e o que é esse projeto, e enfim eu iria para casa.
Olhei para o espaço vazio ao meu lado no banco e me lembrei quando veio me encher atrás de respostas naquele memorável dia e ao mesmo tempo me veio na cabeça e eu sentados no banco do parquinho enquanto descansávamos um pouco, na segunda série, e uma sensação dejavú me invadiu.
Como eu só fui perceber agora? No dia em que eu sonhei que conheci e Louise, eu, querendo ou não, conheci o . No dia que eu sonhei que fazia um trabalho em dupla com , hoje ou ontem, a professora anuncia um projeto escolar que será feito em dupla. Agora, eu realmente espero que não entre no meu caminho.
Dejavú, você está oficialmente dentro da minha lista de palavras que merecem ser desprezadas.
Olhei no relógio sem vontade nenhuma e fui para a sala. Não estava com nenhum pressentimento bom e minha intuição não costuma falhar. Uma prova: da uma vez que pressenti que algo estranho aconteceria, eu quase beijei . Mas espero mesmo que para tudo tenha uma primeira vez, e que esse pressentimento esteja errado.

Bati na porta três vezes e escutei um “entra” impaciente. Como eu tenho educação, eu pedi licença e me sentei na minha habitual carteira, enquanto me olhava emburrado. Lancei-lhe um sorrisinho maldoso e movi a boca falando sem som “Já está com saudades?” e fiz um biquinho em seguida, ele começou a bater a cabeça na carteira e vi sua boca se movendo, mas não escutei e não consegui entender o que dizia, por leitura labial.
A arte da provocação, essa eu domino.
O bom era saber que o que ele estava fazendo ia contra todos os seus conceitos. nunca, jamais, em hipótese alguma deixaria alguém vê-lo em público de qualquer outro jeito que não seja indiferente, feliz ou algo assim. E ele já abaixou a guarda hoje, duas vezes. Era complicado entender, porque ele conseguia ser misterioso e conseguia ser um livro aberto ao mesmo tempo. Mas eu não me importo. É isso aí, indiferença, a alma do negócio.
— Silêncio, oi, prestem atenção em mim agora, depois vocês voltam com seus flertes, momentos de solidão com o iPod, ou qualquer outra coisa. A direção do Westmoor, já esta há algum tempo planejando alguma atividade cultural, social e etc. Porque nós, professores, víamos todos os dias que são sempre os mesmo grupos de amigos e que ninguém nunca se interessava em expandir seus horizontes, um exemplo — ela colocou a mão no queixo e apontou para a Simpson. — Você, Melanie. Me diz qual o nome dela — ela apontou pra uma menina ruiva com sardas, que eu não sabia o nome — e quando foi que ela entrou nessa escola.
Simpson se limitou a girar os olhos e dar os ombros.
— Perceberam o que eu estou falando agora? Vocês já estão quase se formando e não sabem nem o nome da pessoa que senta a sua frente! Então, para acabar com isso e para a escola virar novamente um corpo estudantil unido — quando é que foi um mesmo? — a direção decidiu fazer um projeto cultural sobre países, porque além de ter muitas pessoas de outros países ou descendentes na escola, isso levará para todos cultura e blá-blá-blá, funcionará da seguinte maneira:
“Cada classe ira fazer uma pesquisa bem extensa e funda do país determinado, mas não vai ser como os trabalhos chatos de folha de almaço e canetas de gel coloridas que vocês faziam na sexta série. A classe será dividida em grupos, e cada grupo em duplas. Cada grupo ficará com um tópico, e cada dupla trabalhará em um assunto do tópico, pesquisando em bibliotecas e nas mais diversas fonte, e lembrando: Google, não é sinônimo de pesquisa.”
“As duplas dessa sala foram divididas por mim, e o critério foi: as respostas mais opostas. Porque desse jeito, com diferentes modos de pensar, vocês podem analisar de dois pontos de vista e ter um trabalho mais completo.”
“A exposição será na última semana antes das férias. Então, quando eu disse que seria extenso, eu não estava usando nada do meu lindo senso de humor. Podem ficar com medo! E vocês terão uma aula a menos até as férias, para ter mais tempo de trabalhar com seu parceiro. E façam esse trabalho como se a suas vidas dependessem dele, ele terá grande parcela da sua nota final, além de ser um jeito descontraído de fazer amizades e de deixar suas cabeças ocas pelo menos um pouquinho mais cheias. Alguma pergunta?”
Trabalho cultural. Em dupla. Duração de dois meses.
Socorro.
Respira e inspira, , uma coisa de cada vez. Não, eu não poderia ter tanto azar.
— Sobre qual país será a nossa classe? E as pessoas que não entraram ou faltaram, como ficam? — George Stewart perguntou, arrumando o óculos de tartaruga que teimava em cair.
— Alguém quer chutar sobre o país? — disse a professora e o silêncio encheu a sala.
— Vale meio ponto.
— Austrália? — uma menina da frente da sala disse.
— Japão? — um japoneszinho, ou chinesinho, perguntou esperançoso.
— Rússia? — a professora negava.
— México?
— França? — ela continuava negando.
Olhei para trás começando a ficar entediada e vi batendo os dedos sincronizadamente na mesa.
Ah não, poderia ser qualquer país menos...
— Inglaterra? — perguntei com deboche, já não duvidando mais de nada.
— Finalmente! Mais meio ponto na média, . E as pessoas que não entraram, se quiserem passar de ano, terão que procurar um professor e se informar.
Dei um sorriso amarelo sem os dentes e escutei uma gargalhada atrás de mim, mas não olhei para presenciar o momento de felicidade dele. Esse projeto só vai servir pra aumentar o ego do e fazê-lo pensar que sabe mais que todos da sala. Ele conseguiria ficar mais insuportável ainda, tudo que realmente preciso.
Valeu, forças que conspiram contra mim.
— Continuando — a professora disse batendo palminhas pra chamar a atenção. — As duplas são: Cooper com Stewart. Simpson e Chase. Grace e Blad...
Desliguei-me do que ela falava e tentei prestar atenção em nada ao mesmo tempo que esperava ela dizer o meu sobrenome. Cooper e Stewart, muito engraçado, o nerd e a líder de torcida. Westmoor consegue ser bem injusto quando quer. Porque eu tive a má sorte de ter caído em uma sala que não tem nenhum amigo meu. Nem , , , nem Louise. Nenhum, eu aqui para sempre solitária e eles lá, unidos e rindo a aula inteira. Injustiça.
— Simon e Gardner. e . Campbell e Gomez...
e . No way. No way. No way. No way. NO WAY! Valeu mais uma vez, forças que conspiram contra mim. Fiquei sem ar, parecia literalmente que eu estava me afogando no dejavú. Meu cérebro não aceitando a informação, ficou com pouco oxigênio me deixando tonta, minhas mãos começaram a suar e senti um leve formigamento na minha espinha dorsal. Coloquei as mãos sobre a barriga, desconfortável e fechei os olhos para tentar fazer meu corpo voltar ao normal. Destino, você poderia, por favor, parar de fazer esses joguinhos com a minha vida para mostrar que você realmente existe? E eu faço o meu destino, então você é meu. Obedeça-me, criado.
— Professora — a chamei e ela parou com a listagem.
— Sim?

— É completamente impossível eu fazer dupla com o . Ela levantou uma sobrancelha.
— E por que isso?
— Porque... Porque ele é um idiota...? Porque o jeito dele se achar superior me deixa louca...? Porque... porque eu odeio quando ele fala com sarcasmo...? Porque é muito cansativo ficar perto dele...?
Por que, ? Aqueles argumentos eram fracos, e todo mundo é idiota, então isso não conta. Por que mesmo eu não gostava dele? Qual foi o principal motivo pra eu desprezá-lo desde a primeira vez que o vi? A arrogância, por ser idiota, ser muito imbecil e canalha?
Isso contava?
— Professora, só não vai dar certo, te garanto.
— E por que você acha isso?
— É tão difícil ver que eu não suporto ficar perto dele? — perguntei desesperada e ela estreitou os olhos, pensativa. — E por que sempre tem que ter um “por que”?
— Isso vai dar mais certo do que eu imaginei — ela disse enigmática com um sorriso sombrio. — Não sinto nada, e as duplas vão continuar assim — ela disse não-se-desculpando, olhando por cima da minha cabeça, e depois piscou com um olho.
Ela estava piscando para .
E sim, eu tenho muito azar.
Quando a professora terminou de falar as duplas, o sinal tocou. Um timing muito perfeito pro meu gosto. Saí da sala como um furação, acho que eu nunca fiquei tão revoltada como estou agora durante a minha vida inteira. Como e eu faríamos um trabalho se ele gostava de conversar com minhas coxas? Como eu vou conseguir não enlouquecer sendo obrigada a ultrapassar meu limite diário de convivência com ele? Por que ninguém mais percebia que se eu não o matasse ele me enlouqueceria e minha vida estaria acabada aos 17 anos? Como eu vou conseguir ter uma média perfeita pra conseguir entrar pra faculdade tendo ele como dupla? Bem ele?
Quando eu estava com , tudo saía do controle. Tudo escapava pelos meus dedos, fazendo-me sentir perdida, incapaz, vulnerável. Tudo acontecia por impulso, e eu sempre controlara cada segundo da minha vida, então essa mudança repentina da minha rotina foi terrível. Esse mês tem sido tão perturbador e impulsivo que eu tenho dificuldade de me reconhecer. Eu não sou assim. Eu não me estresso com meus amigos, não discuto com professores, não vejo gente seminua, não vejo filme com o garoto que eu considero ser o mais idiota da escola, eu não choro. Eu chorei feito um bebê simplesmente por ter lembrado dos olhos do !
Que diabos está acontecendo comigo?
— Hey, !
Não, não. Por que ele não me ignora e volta a ser ignorante novamente comigo? Apressei o passo e comecei a procurar por , então senti o celular vibrando no bolso de trás do shorts jeans, peguei e vi na tela: 1(a) nova mensagem: zinho top na balada.
“Ei, não me mate, não deu pra te esperar hoje. Me desculpa mesmo, sei que hoje é um dia difícil e fiz de tudo pra não ter que ir embora, mas a Juddzinha esta realmente precisando de mim e minha mãe chegou a ME ligar, falando que se eu não fosse ver o que aconteceu com a minha irmã na secretaria, ela não deixaria eu jantar. Você sabe como eu reajo a chantagens alimentícias. E não pense que eu vou esquecer de perguntar se aconteceu algo hoje com você e :D
Xoxo... Gossip Lindo

zinha, gossip ... Que tipo de amigo eu fui arrumar? Comecei a rir quando terminei de ler e passei a mão pelo cabelo me preparando para ir embora, fiz um nó frouxo no cabelo com o próprio cabelo e tirei o casaco da cintura, o enfiando de qualquer jeito dentro da mochila com estampa de zebra. Sentia-me uma criança da primeira série com o casaco na cintura, só faltava a lancheira.
— Espera, hey, apressadinha, por que foge? — ele disse quando estava do meu lado. Olhei de relance pra ele e vi pequenas gotas de suor na testa, grudando um pouco de cabelo no local. Pulmões de fumante, o que eles não fazem com uma pessoa?
Continuei andando ignorando-o, já teria que aguentar ele demais pelos próximos meses, então evitaria momentos como esses. Eu tinha que admitir, ele é persistente. O que mais me irritava era saber que aquela micro-aposta, não adiantou de nada. Não fez diferença eu ter ganhado ou não, e só fez eu me sentir uma vagabunda por ter me insinuado daquele jeito
Sarouel ou Boyfriend? Eis a questão.
, dá pra parar de me ignorar pra nós tentarmos ter uma conversa civilizada, decidir como fazer esse trabalho e você se livrar de mim de uma vez? — ele perguntou e eu juro que ouvi um pouco de tristeza nas palavras.
, não precisamos discutir nada sobre o trabalho, porque a professora não passou nem o tópico, muito menos o tema ainda! — falei o óbvio e fui na direção do portão.
Acostumei-me novamente com o silêncio e coloquei os fones, quando estava na rua escutei duas buzinadas rápidas e vi dirigindo ao meu lado bem devagar. O que ele queria com isso? E quando ele saiu da escola com carro?
— Ah, vamos lá, , pare de ser difícil, é só uma conversa e eu não quero só falar sobre o projeto, temos que conversar sobre... tudo. Você sabe que vai facilitar a convivência se você não quiser me matar a cada aula — ele disse com a voz fraca e eu parei no meio da rua.
— Você sofre de transtorno de personalidade múltipla? E esqueceu-se que não pode falar comigo?
Batia o pé na calçada me decidindo se iria ou não com ele. Eu estava me corroendo de curiosidade por dentro, sobre o que aconteceu aquela noite, porém eu não entraria no carro dele. Ou entraria?
Olhei pra ele enquanto mordia o lábio inferior na dúvida e minha mão descansava na cintura. O jeito que ele estava olhando pra mim estava me dando medo, e isso fez a balança do lado para não entrar pesar mais. Era intenso o olhar, eu não o via olhando assim pra ninguém, e por que eu entraria no carro de alguém que eu estava intimidada? Vi sorrir quando eu caminhei na direção do carro. Eu estava me arriscando muito, eu nunca entraria no carro dele, ainda mais com medo. Eu sempre fora corajosa demais pra algumas coisas e medrosa demais pra outras. Incluía na parte medrosa entrar no carro de um desconhecido. Bom, não era um total desconhecido, mas se eu parar pra pensar um pouco, eu não sabia nada sobre ele. Só o superficial e algumas coisas que eu não sei até hoje como sei. Confuso.
Entrei.
Fechei a porta e coloquei o cinto de segurança, quase não percebendo o que fazia. Era automático eu colocar. Entretanto, eu me daria um soco se eu falasse qualquer coisa que fosse antes dele. Coloquei uma mão em cima da outra, sobre as minhas pernas, com o intuito de não começar a estalar os dedos e mostrar-me nervosa. Ele não precisava de mais isso pra contar vantagem. Não desviei nem por um minuto meu olhar do vidro e não escutei ele começando a dirigir de novo. Seu silêncio já estava me incomodando, ele não disse que queria conversar? Que comece!
Olhei receosa para o lado e vi que descansava a cabeça no banco, e sua mandíbula estava travada. Aquilo me deixou preocupada e eu perguntei incontáveis vezes, mentalmente, se o problema era eu. E, bom, era bem possível ser, porque eu era a diferença no carro. Normalmente ele não estaria assim, suponho, ele não é tão idiota pra quando ficar sozinho no carro ficar todo rígido como estava agora.
— Is-isso tudo foi um erro, é melhor eu ir embora — gesticulei com as mãos enquanto falava e abri a porta.
, por que você faz isso comigo? — ele perguntou com a voz carregada e segurou minha outra mão, enquanto uma estava na maçaneta. Tentei me desvencilhar, mas não consegui, e não entendi a pergunta.
— Eu não faço nada com você, oras. Você que faz comigo — após falar, eu pude sentir que aquilo tinha um duplo sentido assustador. levantou uma sobrancelha, descrente. — Qu-quer dizer, você que fica me irritando e querendo minha atenção o tempo todo, eu nem chego perto de você pra te fazer alguma coisa.
Ele assentiu, eu pude perceber a mudança dos seus olhos, voltaram a ser calculistas. Então começou a dirigir. Eu odiava quando seus olhas ficavam assim, era tão ruim. Sentia todo o meu íntimo se enrijecer e só me sentia bem de novo quando escutava ele rindo ou quando sentia meu corpo se aquecer com um olhar dele.
— Não vai falar nada? — tentei perguntar normalmente, mas era difícil conversar com ele sem minha voz oscilar pelo menos uma vez.
— Quer que eu fale o quê? — disse, quase rude, e eu bufei. Imbecil.
— Você me chama pra conversar e não fala nada, e dá pra acelerar mais um pouco? Desse jeito vou chegar em casa amanhã!
— Quem disse que estou te levando pra sua casa? — olhei pra ele e vi aquele sorriso arrogante, típico do Nate. Ele acelerou e entrou na rua oposta.
— Por que você faz isso comigo? — repeti a frase dele e ele gargalhou. — Você não pode me sequestrar. Se quiser dinheiro, sequestra o Nate, vão sentir falta dele mais rápido do que de mim e pagarão mais por ele — disse séria e ele riu de novo. O olhei com uma expressão assassina.
— Como se eu precisasse de dinheiro... E não quero conversar sobre aquilo dentro de um carro.
— Quer saber? Não quero mais conversar sobre nada, que eu morra de curiosidade, para o carro.
Ele fingiu não escutar.
— Coloca um CD, eles estão no porta-luvas, odeio dirigir sem música. E não adianta, eu não vou parar o carro.
— Pra onde você está me levando? — perguntei frustrada e não me mexi.
— Não sei — ele disse e diminuiu a velocidade de novo, quase parando, e seu rosto ficou pensativo.
— VOCÊ FICOU ANDANDO EM CÍRCULOS ESSE TEMPO TODO? — grunhi e olhei pra ele mais uma vez.
— Deus, se você continuar nesse ritmo de estresse, quando tiver 30 anos já vai ter tido uns 5 infartos — ele disse irritado, mas suas palavras não combinavam com seu sorriso infantil. — Espero que goste do lugar que vou estou te levando.
Não respondi, ainda estava digerindo a história dos 5 infartos. Que meus nervos estavam a flor da pele esses dias era fato, mas era difícil normalizá-los com tanta coisa acontecendo. Primeiro , depois Louise, agora esse trabalho, que só veio pra bagunçar mais minha ex-calma e entediante vida. Nunca pensei que sentiria falta de ficar no tédio. No entanto, eu realmente acho que a escola não quer unir os alunos, seu único intuito é ganhar novamente o título de melhor escola do estado e, pra isso, mostrar trabalho. Como se a opinião dos moradores do bairro, idosos de 80 anos e crianças encapetadas de 6, fosse importar muito.
Passava a mão no cabelo a todo minuto, algo me incomodava muito. Parecia que eu estava derretendo em suor, como naqueles dias que o diabo resolvia vir a terra. Porém, o ar condicionado estava ligado, e não era o calor que me incomodava, e sim o silêncio. Abri o porta-luvas e olhei CD por CD, sorrindo involuntariamente. The Beatles, Blink 182, The Who, Oasis, Weezer, The Killers, The Fray, The Calling, Link Park, The Clash, Nickelback, Red Hot Chili Peppers, Snow Patrol, Yellowcard... Britney Spears?
— Britney Spears? — perguntei confusa e apertei play, para ver qual CD estava no rádio. — Foo Fighters! — exclamei surpresa. Com os olhos, provavelmente, brilhando.
— É, esse aí da Brit é da Madison — Madison já esteve nesse carro? Oh, merda. Olhei para ele, perguntando com os olhos, se eles já fizeram coisinhas aqui. — Não, não. Só no carro dela... É, eu não devia ter falado isso — disse e bateu a cabeça no volante, fazendo o carro oscilar um pouco.
— Como você quer conversar comigo sobre a merda que quase aconteceu naquela festa e diz isso?
— Escapou, ok? Eu não queria falar isso, mas minha boca não mede as palavras quando está perto de você, argh, como é frustrante.
— Só cala a boca — sussurrei e passei as mãos pelos meus braços, tentando desarrepiá-los, concentrando-me na musica, só fui perceber agora que tocava All You Need is Love. Quem foi que colocou Beatles? Peguei qualquer CD e troquei. Não estava a fim de escutar músicas animadinhas. Fechei os olhos e descansei minha cabeça no banco, esperando chegar ao bendito lugar. Depois de um tempo, senti minhas mãos começarem a suar de expectativa. Não era simples, nada era simples. Ou talvez fosse eu que complicasse tudo. Mas aquilo realmente não era simples. Entrar no carro dele e ir pra algum lugar desconhecido, não sabendo se ele pretendia ou não me estuprar e roubar meus órgãos, e ainda tinha o medo da descoberta. Não sabia se queria ver o ponto de vista dele sobre a festa. Não sabia se estava preparada pra descobrir, o pouco que seja, o pouco que ele provavelmente se lembra, daquela festa.
Essa vai ser uma longa conversa...

Capítulo VIII
“My world is spinning, and it just won't stop
I'm so deep in it, and I've had enough I just can't do it again”


O carro parou, mas não escutei mexendo nas chaves ou desligando o rádio. Fiquei parada, me preparando para abrir os olhos e saber o que acontecia. Então, escutei pegando as chaves rapidamente e saindo do carro. Quando eu pensei que ele me trancaria ali dentro, escutei a porta do meu lado sendo aberta e uma brisa floral e fresca entrou pelas minhas narinas. Viva a primavera! Não... mesmo. Mas aquele cheiro era muito familiar. Abri os olhos e encontrei me olhando encostado na porta, mas ele não aparentava estar impaciente. Arqueei uma sobrancelha e tentei ver onde estávamos, mas seu corpo tampava a visão, e olhando pelo vidro da frente, a única coisa que eu via eram grandes e idosas árvores. Muito familiares também.
— Onde estamos? — perguntei ainda dentro do carro e apurei o nariz, franzindo a testa em seguida. — Margaridas?
— Como sabe? — perguntou dando passagem.
Saí do carro, e no exato momento em que pisei na grama, fiquei com raiva.
Dei alguns passos, ficando de costas pra ele, distanciando-me, e olhei em volta. Há quanto tempo eu não vinha aqui...
— “Como sabe?”, eu que pergunto, esse aqui é... — se controla, , se controla, vamos ver o que ele vai dizer antes de saber a verdade. — Como descobriu pra começar? — Disse mudando de assunto.
— Quando eu me mudei pra cá, descobri bem rápido que eu conseguia organizar melhor meus pensamentos com árvores me observando, então quando estava conhecendo o lugar andando de skate acabei perdido aqui.
Inacreditável.
— Sabe o nome disso aqui? É reconhecido pela cidade? — perguntei com falsa curiosidade. And the Oscar goes to... Me.
— Eu vi uma bandeira com o nome engraçado e com umas letras atrás, foi a única identificação. Mas não acho que seja oficial — ele disse rindo, a poucos passos de mim. Comecei a andar em direção ao centro das árvores.
— Não acho o nome engraçado, ok?
— Você nem sabe o nome, como sabe se ele é engraçado ou não? — perguntou andando ao meu lado.
— Porque fui eu que nomeei! Como isso pode acontecer? Esse é o meu lugar, não era pra você saber da existência das minhas árvores pré-históricas!
Era muita coincidência, já estava ficando irritante. Era o meu lugar, nem a eu contara e ele é meu melhor amigo. E como prova de que era meu, a primeira vez que eu vim pra cá eu procurei por todo o terreno pra ver se tinha alguém ou algum nome, e não tinha. Então, como os astronautas, eu coloquei uma bandeira. Mas não com o nome do país e aquilo tudo, mas com as minhas iniciais na parte de trás, e na da frente escrevi o nome do meu bosque/parque/clareira/fotossíntese: Tony, o hipopótamo.
Eu tinha 10 anos, dá um desconto!
Como consegue invadir minha privacidade mesmo estando longe de mim?
— Tony, o hipopótamo? HIPOPÓTAMO? HAHAHAHAHA — gargalhou se curvando, com as mãos na barriga. Um hipopótamo, realmente engraçado isso. — Por que o nome? HAHAHAHAHA.
— Haha, estou morrendo de rir — disse irônica e rolei os olhos. — Eu ia colocar o nome do meu passarinho, Jimmy, mas ele fugiu. O Tony, era e é a único ser, mesmo não sendo vivo, que nunca me abandonou, de algum jeito. Então coloquei em homenagem a ele, satisfeito? — Por que mesmo eu compartilhei isso com ele?
— O que o Tony é então? — ele disse e senti seu olhar, sério, perfurando meus olhos. Aquilo incomodava. Apressei o passo e mudei de direção, indo para o lago. Água sempre é a solução, depois da indiferença.
— E por que isso importa? Ele é super engraçado mesmo, não é? — para meus ouvidos, minha voz saiu fraca.
E então, o silêncio.
É, aquele silêncio constrangedor que parece nunca ter fim. Andei pelo longo píer com muito cuidado a fim de não tomar um banho. Ainda acho engraçada a idéia de um lago ter um píer, normalmente são nas represas e são pequenos. Agora esse, em um lago, e comprido. Sentei-me na ponta e abracei meus joelhos. Olhei no relógio de pulso e vi que já eram quase duas horas, e eu não tinha comido nada hoje. Não tive tempo pra pensar que era pra eu provavelmente estar com fome. Isso é novidade, nunca me esqueço do meu estômago.
sentou-se ao meu lado e continuou em silêncio. Olhei pra ele e comecei a observar o brilho da sua pele, devido ao suor, e seu olhar distante, no horizonte. Era tão difícil ver aqueles olhos e conseguir olhar para outro lugar, ainda mais porque vendo-os assim me fazia querer descobrir porque ele fazia tudo aquilo. Porque ele sempre pensa que pode fazer algo errado e depois fazer outra coisa, não ligando para as consequências do seu erro. A vida não era assim, toda ação tem uma reação, e ele não pode mudar isso. Não podia fazer o que quisesse e sair impune.
Quando ele me pegou olhando pra ele fingi estar olhando algo no seu cabelo, e com a mão empurrei o “nada” do seu cabelo, como se tivesse algo em cima dele. Fugindo das perguntas constrangedoras, deitei-me no píer e coloquei as mãos sobre os olhos. Duas palavras: Calor infernal.
— Cinco perguntas — disse subitamente e eu afastei os dedos de uma mão, vendo entre eles o rosto de praticamente em cima do meu. Tampando o Sol. — Cinco perguntas cada um, sem mentiras. Apenas cinco perguntas e vamos embora. Sobre qualquer coisa que julgar importante.
Agora eu me pergunto: por que não? Será mais prático assim, ou não.
— Você começa — respondi e juntei os dedos de novo.
— Do que você se lembra daquele sábado? — ele perguntou, indo direto ao ponto. Suspirei e comecei.
— Quase nada, lembro um pouco da primeira hora, depois que começamos a beber. Depois só, s-só daquilo lá — traguei saliva — e tenho uma leve impressão de que falei muita coisa que não devia também. E lembro de algumas coisas que você disse, eram estranhas demais, provavelmente meu cérebro distorceu alguma coisa e...
— Não, eu realmente falei. Se for o que eu estou pensando — me sentei devagar e fiquei em posição fetal de novo, me recusando a olhar pra ele.
— O que se passava na sua cabeça durante aqueles minutos, antes e depois do quase, ahn, daquilo lá?
— Eu estava confuso, sabe? Não. É claro que você não sabe! É que ao mesmo tempo que eu tinha vontade de falar tudo, eu não queria falar nada. E eu não sei o que é esse tudo. Só sei que eu estava bem comigo mesmo, e não sei os motivos. Mas sabe quando você sente que tem algo que não se encaixa? Que falta um pedaço da história? Então, tem algo que eu não lembro passando, e sinto que deve ser muito importante.
Estranhamente, eu entendia o que ele falava. Mesmo a resposta dele não tendo respondido a minha pergunta do jeito que desejava. Sentia que algo faltava. Mas ainda assim aquilo me desapontou.
— Por que você disse aquelas coisas?
— Já é a segunda pergunta?
— Não, , é a terceira — disse com sarcasmo. Perguntas bestas merecem respostas rudes, na minha opinião.
— Ahá! Você me chamou de pela primeira vez.
— Ai, como você é besta, vai responder ou não?
— É quase a mesma resposta. Eu só tive vontade de falar.
— De mentir, você quis dizer — aquilo não podia ser verdade. Impossível.
— Bêbados não mentem.
— Mas inventam — retruquei e olhei pra ele, o desafiando.
— Mas eu não inventei nada! Não entendo, quando eu falo algo verdadeiro ninguém acredita, e quando eu minto acreditam!
— Ninguém sabe quando você fala a verdade, já parou pra pensar o porquê disso?
— Agora é a terceira pergunta?
— Não, não é. Só estou tentando conversar e entender porque você age desse jeito.
— Desse jeito como?
— Pare de se fingir de idiota. Você no sábado fala aquelas coisas, então na segunda me trata com grosseria na escola, aparece do nada na minha casa e começa a falar comigo como se nada tivesse acontecido, você teve a cara de pau de ir na cozinha sem a minha permissão! Hoje você me olhou o dia inteiro com raiva e depois vem cheio de gracinhas de querer conversar comigo ou com minhas coxas, sei lá, e falar da minha bunda! Qual é o seu problema, ?
— Eu sou assim, eu não tenho problemas, quem tem problemas aqui é você — ele disse aumentando a voz.
Me levantei e comecei a andar para a floresta.
— Não, você não é assim. Você finge ser frio, calculista, indiferente, só pra ser aceito. Só pra pensarem que você não tem medos, não tem sentimentos e que não se importa. É tudo uma máscara, . Ninguém sabe quem você realmente é, você já se perdeu de si mesmo! Ninguém acredita em você quando diz a verdade, porque é impossível acreditar que alguma verdade possa sair da sua boca, sendo você uma mentira. Sou eu mesma que tenho problemas aqui? — disse com a voz alguns quartos mais alta enquanto escutava os galhos secos se quebrarem sob meus pés, e andava nos meus calcanhares, tentando acompanhar meus passos rápidos.
— Eu não sou uma mentira — ele grunhiu e segurou meu pulso. — Você não pode falar isso...
Interrompi-o.
— Oh, me desculpe, santíssima e divinissíma majestade — disse sorrindo ironicamente pra ele e tentando tirar sua mão do meu pulso. — Errado de novo, . Por que eu não posso falar isso? Livre arbítrio ainda existe, e se você não aguenta escutar verdades, a culpa não é minha. Você fez isso acontecer, agora me solta — ele não me soltou e levantou uma sobrancelha. — Me solta ou...
— Ou o quê? — ele disse descrente me interrompendo. — Vai me bater?
— Olha, por que não? — respondi com outra pergunta e antes dele responder levantei meu joelho até a barriga dele. Atingi-o com muita força, e no mesmo momento ele me soltou e caiu no chão, se contorcendo. — Não sei por que ainda duvida, não sei mesmo e espero que não tente mais falar comigo, porque você viu que não conseguimos nem isso fazer, e cumpra sua promessa. — disse sorrindo e dando tchau com a mão antes de me afastar e sair da floresta, indo novamente para a clareira com margaridas.
Já era de se imaginar que eu não teria minhas respostas e que isso seria perda de tempo. Eu tenho parar de acreditar que vai agir normalmente e ser legal pelo menos uma vez na vida. A bipolaridade dele não conseguia mudar de emoções ruins para emoções boas. Só de ruins para mais ruins ainda. E o idiota sempre conseguia me fazer acreditar, pelo menos uma vez por dia, que ele realmente podia ser legal. Que era possível ser divertido ficar perto dele. Mas, no fim, sempre acabava sendo estressante. Com sempre era assim, eu sempre tinha duas impressões ao mesmo tempo. E isso era confuso. Quando cheguei à clareira pude finalmente admirar a paisagem. Fazia muito tempo mesmo que eu não vinha aqui. Continuava igual, e, ao mesmo tempo, diferente. As árvores que rodeavam a clareira tinham a mesma aparência, mas estavam repletas de flores, e a sombra que elas juntas faziam estava maior. A grama estava mais verde do que nunca, e eu não me lembrava de ter visto tantas flores em um lugar só, como via agora. Consegui distinguir alguns lírios, petúnias e margaridas.
Eu posso dizer convicta que amo esse lugar.
Pensei em pegar o carro do (ligação direta é o que há) para ir embora, mas fazia muito tempo que eu não dirigia. Sem querer ser convencida, eu tenho alguém pra fazer isso pra mim. Mesmo eu gostando de dirigir, da sensação de liberdade, eu, além de ser feminista, eu me importo com o planeta e faço minha parte pra conservá-lo e sei que dirigir até minha casa não ia mudar muito o quadro da camada de ozônio e que esse argumento não é muito valido.
Olhei no relógio e minha barriga começou a conversar comigo. Um pensamento totalmente desnecessário se alojou na minha cabeça. “Será que estava bem? Por que ele não veio até agora pra cá?” Não por causa de mim, mas porque o carro dele estava aqui, e ele não iria embora sem seu carro, eu acho. Enquanto cantava meu novo mantra mentalmente, que era: “ idiota, imbecil”, no ritmo de Smeely Cat, da Phoebe Buffey de Friends, adentrei a floresta de novo procurando por .
Se Nate me xingasse agora, eu não revidaria, Porque ele provavelmente estaria certo. Quando cheguei perto do lugar que deixei caído no chão, vi ele ainda deitado e corri na direção dele. Ah, nem era pra tanto assim e a probabilidade de ter ferido um órgão vital era nula.
— Você está bem? — perguntei me ajoelhando ao lado dele, observando seu rosto com os olhos fechados. Parecia normal. Ele abriu os olhos e senti minhas pernas ficando moles enquanto encarava aquelas íris tão intensas que, finalmente, aparentavam não estar com alguma máscara. Controlei-me pra não sorrir. — O que ainda faz no chão? Deixa de ser mole, preciso de alguém pra me levar em casa, ou esqueceu que a refém aqui sou eu? — disse irritada e ele sorriu. Bipolar, eu disse.
Ainda acho estranho uma pessoa gostar de ver outra irritada.
— O pior de tudo é que, além de virar seu chofer, eu sei que você estava certa.
Olhei de canto de olho pra ele, realmente assustada, e me levantei. fez o mesmo.
— O quê? Acho que não ouvi direito — disse confusa. Eu não estava tentando fazer piadinha da situação, eu só não acreditava mesmo que eu tinha ouvido aquilo. Comecei a andar para o carro.
— Você está certa. Eu não sou assim. Na escola eu viro outra pessoa, com você eu viro outra pessoa, e com a minha mãe eu viro outra. Com a minha irmã outra. Tenho muitas faces, é difícil manter só uma. Eu só me adapto com situação...
apertou o alarme e o carro fez um barulho de click em seguida. Abriu minha porta, um ato que eu não esperava, esperou eu entrar e em seguida entrou no carro.
— Você não tem que se adaptar, você tem que ser você mesmo com todos, . Você acaba sendo falso com quem você não quer, agindo desse jeito — disse o óbvio e ele deu play no CD, preenchendo o carro com The Calling. — Não vai demorar muito pra você esquecer mesmo quem você é — repeti com a voz neutra, tentando manter a conversa. Ele acelerou mais um pouco. — Se você está tão incomodada comigo, por que ainda insiste? — disse, com um pingo de inconformismo na voz. Ah, ele fica inconformado porque eu “insisto” nele, é isso mesmo? E insistir no quê? — Olha, , foi você que voltou pra ver como eu estava, e eu só queria desde o começo saber por que você fez aquilo na festa, só isso!
— Eu insisto? Eu só precisava ir embora, inteligente. Porque, com a fome que eu estou e com o Sol que está, se eu fosse a pé, era bem provável eu desmaiar pelo caminho e ser devorada por esquilos. E você queria entender o que eu fiz na festa? Quem foi que começou a falar coisinhas fofinhas com duplo sentidos, eu ou você? , você é tão, argh, impossível — eu fazia gestos com as mãos enquanto falava.
— Por que você me beijou na bochecha então? — ele gritou. Sim, ele gritou e isso tirou o resto de sanidade que eu tinha. Ele não precisava gritar nem se revoltar, nem ser idiota. Só precisava escutar a razão e tentar virar gente!
— Porque eu quis! Deu vontade. E achei que seria justo, depois do que quase aconteceu. E eu nunca vou te beijar na vida, então para de ser convencido! Deus, preciso agradecer ao por ter aparecido. Você pode fazer as coisas que quer e eu não? E porque eu tinha um pensamento positivo sobre você. Depois do que tinha acontecido aquela noite, eu realmente pensei que você pelo menos era legal. Suportável. Divertido. E eu percebi faz tempo que estava errada — me controlei muito pra não gritar tudo isso. Muito mesmo. Porque se eu gritasse, ele perceberia o quanto o que ele dizia me afetava, e eu não queria aquilo. E me forcei muito para o meu rosto não ficar vermelho de raiva. Ele grunhiu/bufou/suspirou.
— Eu tento. Porque eu quero ser alguém melhor quando estou com você, mas você sempre tem que falar coisas...
— Verdades.
— ...que me deixam furioso. Porque você sempre tem...
— Verdades.
— ...que ter a última palavra, e a última palavra sempre foi minha. E dá pra parar com isso? — ele disse com vontade dividido entre rir e grunhir.
— As coisas mudam, ninguém nunca te disse isso? — disse da forma mais melancólica possível e percebi que já estávamos na rua da Starbucks e da sorveteria que eu nunca lembro o nome, que, a propósito, é bem perto da minha casa. — E eu tentei manter uma conversa hoje, e você mais uma vez estragou tudo.
— É só isso que eu faço, não é? — ele comentou no mesmo tom e deu uma risadinha sarcástica.
virou mais uma rua e parou em frente a uma casa com um jardim bem cuidado. A casa tinha um portãozinho de madeira branco baixo, e uma garagem ao lado com o portão de madeira fechado. Era branca e toda a decoração exterior seguia esse padrão, neutro. Passava uma sensação de conforto, só por fora. Tinha uma árvore bem grande e um balanço estava preso em um galho grosso. Era bonita a casa, mas a atmosfera solitária fazia você querer se manter afastado. Ah, mas relaxa. A parte interior era pior.
— Agora, eu consigo acreditar que você não está mentindo.

Capítulo VIII
“She won't kiss and tell, but this isn't how
She got that name, it all seem like a game”


Olhei pro teto e suspirei. Não tinha mais o que fazer ali.
— Tchau — disse abrindo a porta, mas, quando coloquei o pé fora do carro, beliscou minha cintura e eu me virei irritada. — Mas o que fo-...
Fui impedida de terminar o que pretendia dizer, em um segundo eu estava olhando irritada pra ele e seus olhos se mostravam brincalhões e com uma coragem que eu nunca tinha visto ali. E no milésimo seguinte só pude ver, confusa, seu rosto vindo na minha direção rapidamente e seu lábios tomando minha boca, fazendo meu corpo relaxar por completo. Não consegui mover nem a pálpebra pra piscar de tanto constrangimento. Não conseguia mover um músculo, só conseguia olhar pra ele e pensar... não, eu não conseguia nem mesmo pensar. Sentia-me anestesiada e isso não tinha uma explicação, era uma sensação boa e aquilo, hey, nem era um beijo de verdade. O que me fez imaginar como eu ficaria com um beijo de verdade... e fez eu me perguntar qual era realmente o meu problema. Era o idiota do . Eu queria me afastar, quer dizer, eu tinha que me afastar, mas não conseguia fazer isso. E não sabia se esse era realmente o meu desejo. Estava, literalmente petrificada, olhando confusa e alarmada aquelas íris que mostravam quase “missão cumprida”. Senti meu corpo se normalizando quando meus lábios estavam quase entreabertos e meus olhos quase se fechavam sem a minha permissão.
“Eu sou mais forte que isso, eu sou mais forte que isso”, repetia mentalmente com rapidez. Agarrando-me ao pensamento mais coerente que tive, tentei empurrar pra trás e fingir alguma coisa que o fizesse pensar que esse meu momento insano era de repugnância e não de... ah, não faço a mínima o que aconteceu comigo quase agora. Mas parecia que ele já esperava uma reação como essa, ou suas mãos eram ágeis demais. Ele segurou meus pulsos com suavidade e firmeza, impedindo-me de me afastar, e aproveitou o meu momento de choque (fazendo minha boca ficar um pouco aberta) e beijou-me levemente, seu semblante era calmo quando eu fechei os olhos, anunciando a minha desistência e minhas dezenas de batalhas perdidas com a razão, e aproveitei a evolução do selinho.
Oh Deus, acho que tem algo se mexendo na minha barriga.
Abrimos os olhos ao mesmo tempo, mas eu ainda podia ver algo incompleto no olhar de . Mas pouco me importei com aquilo. Meus pensamento gritavam loucos dentro de minha cabeça: “fraca, fraca, fraca”, parecendo que tinha um robô com defeito dentro dela. Um quarto deles gritavam confusos, outro quarto alarmado e a outra metade inteira gritava: “iuuuuuuuupi”, fazendo eu me sentir uma completa retardada.
, você é a pessoa mais contraditória do mundo. E, ah meu Deus, eu tinha beijado mesmo .
— Por que você... — balancei a cabeça sorrindo sem os dentes. — Ah, esquece, você não responderia com sinceridade mesmo — disse antes de conseguir me desvencilhar dele e sair correndo do carro para pular o portãozinho de entrada.
Até interfonaria pra rir do Nate falando “Residência dos , Nate falando” ou se ele estivesse irritado “O que quer?”, mas não tinha cabeça pra isso depois do longo dia que estava longe do fim que eu estava tendo. Destranquei a porta e entrei em silêncio no hall, fechando-a em seguida atrás de mim, andando na ponta do pé. Não sei por que estava fazendo isso pra ser sincera. Tirei a mochila das costas e coloquei perto do porta-guarda-chuva. Tirei meu vans vermelho e os segurei com a mão direita. Senti um cheiro bom vindo da cozinha.
Lar, doce, lar.
Ou não tão doce assim. E, se fosse em um dia normal, eu provavelmente iria pro meu quarto analisar o que aconteceu. Mas quem disse que esse era um dia normal? Eu estou me segurando muito pra não colocar a mão sobre a boca e reviver o beijo na cabeça ou ir passar anti-séptico bucal. Acho que nunca disse que eu não sou muito fã de surpresas, e esse é o momento perfeito pra falar isso. Odeio surpresas. Só serve pra te deixar ansiosa e neurótica, na minha opinião. E ver Tinna e Paul, sentados na sala de estar, bebendo café enquanto meu pai fingia ver televisão e minha mãe dava ordens até para as paredes foi muito desagradável.
— Lembraram que têm casa? — perguntei, nem esperando por resposta e nem olhando pra eles e fui pra cozinha.
Eu realmente os amo. E eu sou irônica todo o tempo quando meus pais estão em casa. Fui forçada a aceitar a ausência deles e isso era indiferente pra mim agora. Não importava se eles estavam em casa ou não. Não importava se eles me davam dinheiro ou não. Totalmente indiferente, só isso. Minha mãe se incomoda com isso agora, mas eu não preciso mais dela. Quando precisava, tive que me acostumar com Mariah dizendo que o que ela fazia era pro meu futuro. Mariah foi minha mãe e praticamente eu a pagava pra ser isso. Tinna está atrasada 17 anos da minha vida e não vai adiantar correr atrás agora, quando estou no ano de completar 18 e desaparecer da vida deles.
— Mariah, você sabia que eles iam voltar hoje? E, wow — apurei o nariz e não identifiquei o cheiro gostoso —, o que você está cozinhando? — coloquei meus sapatos perto do batente da porta e me aproximei pra ver o que Mariah fazia.
— Espere e verá, querida. Como foi o seu dia? — perguntou casualmente minha verdadeira mãe. Mais um motivo pra eu achar que nasci na família errada, eu e Mariah não tínhamos laços de sangue e eu tenho certeza de que a amo, e não tenho essa certeza quando se trata dos meus pais de sangue. Esquisito? Eu sei.
— Ah, nada fora do comum, e o seu? — atropelei as palavras de tão rápido que disse. Sempre é muito difícil mentir pra Mariah e tenho quase certeza de que ela sabe que eu estou mentindo.
Ela deu uma risadinha me confundindo.
— Agora, a verdade — ela disse enquanto colocava azeite no que preparava. Não disse?
— Ok, admito, não foi comum, mas não é nada importante, fica tranquila — menti de novo e olhei pra mesa, estralando os dedos nervosa, e vi duas garrafas de vinho. E sobre a pia de mármore tinha muitos frutos do mar e presunto. Que diabos ela estava fazendo?
O forno apitou e Mariah abaixou o fogo, colocou luvas térmicas e abriu o forno, tirando de lá uma espécie de pizza com camarões e limões.
— Quando quiser falar a verdade eu ouvirei, e já sabe o que é isso? — ela perguntou e eu neguei com a cabeça. — Que tipo de são franciscana é você que não sabe das suas origens?
Olhei pra ela com os olhos arregalados e me encolhi, depois escutei-a rindo. Não gostei da brincadeirinha. Só isso, e já era de se imaginar que ela estava brincando, já que ela nunca gritou comigo. burra.
— Você estudou na escola sobre a época que os espanhóis dominaram São Francisco? Que em 1776 eles estabeleceram uma fortaleza na Golden Gate? Lembrou? Então, comida espanhola, muito vinho, azeite, arroz. Amo a Espanha — ela disse entusiasmada. Pelo menos teria vinho, mas eu ficaria mais feliz se tivesse espanhola. Poderia começar a amar a Espanha só por causa disso, mas meu coração sempre será mais mexicano que espanhol, desculpe-me.
— Você está falando sério?
— Claro que não, é mais um capricho da sua mãe — claro, minha mãe, por que não pensei nisso? Totalmente a cara dela. — Ela chegou toda entusiasmada de viagem falando que precisava aprender algo da culinária espanhola porque ela teria uma reunião com um espanhol, mas dessa vez os meios não justificaram os fins. Oras, por que ela precisa de comida da Espanha só por que vai falar com um de lá?
Eu ri, Mariah estava muito certa, mas era comida. Comida sempre é bem-vinda pra mim. Arrumei a mesa de maneira simples, só pra irritar minha mãe. Ela odeia isso. Mariah colocou um suco de uva na mesa e eu comecei a rir. Meus pais acham que eu não bebo e vai ser engraçado quando eu escolher o vinho em vez do suco, ou não. Provavelmente meu pai ignoraria, mas minha mãe... E você deve estar achando minha revolta sem sentido, mas ela não é nada disso.
Saí da cozinha, sendo obrigada a passar pela sala para chamar Nate. Estou muito boazinha, só isso. E essa felicidade não tem nome não. Minha mãe tentava falar comigo, mas não consegui processar nem sua primeira palavra. No instante em que eu saí da cozinha, me lembrei de . Incrível a capacidade de Mariah me distrair. Subi as escadas, dois degraus de cada vez, e bati na porta com os dizeres “keep out” e com desenhos que deviam amedrontar e fazer pensar que ele era um vida louca, enganado é aquele que acredita que isso não é coisa de poser. Bati mais duas vezes seguidas e ele saiu do quarto, de novo com a toalha presa no peito e os cabelos pingando... Toalha presa no peito? Só falta cachorro começar a fazer xixi sentado agora. — Seria legal você começar a trabalhar ou pedir dinheiro pros seus pais que estão SENTADOS NA SALA DE ESTAR — dei ênfase e ele abriu a boca incrédulo. — pra comprar roupas, e você parar de fingir tomar banho toda hora só pra não admitir a real razão de ficar de toalha o dia inteiro. Enfim, Mariah fez comida espanhola, tem vinho. Ah, e se você quiser ver seus pais, desce também.
— Você não quer sentar só com eles na mesa, não é?
— É, por favor, desce logo — supliquei e tentei fazer carinha do gatinho do Shrek.
— Ok, comida é comigo mesmo.
Então fechou a porta no meu nariz, não se comovendo com minha carinha de gatinho do Shrek, e sim com a comida.
Desci a escada trotando e fui pra cozinha, ignorando meus pais mais uma vez. Passei pelo batente da porta da cozinha e Mariah pediu licença pra passar e chamar meus pais. Quando é que o Nate vai decidir dar o ar de sua graça? Suspirei e sentei-me na mesa, Mariah passou por trás de mim e disse que aquela pizza estranha se chamava Paella, eu pouco liguei pro nome, só sei que a aparência e o cheiro eram bons demais, e espero que não tenha nada que eu sou alérgica. E se tiver, acho que eu ficaria feliz de ir pro médico só de comer aquilo.
Nate apareceu vestido só com um shorts jeans e de chinelos, acho que ele fez aquilo de propósito também. Comer sem camisa, minha mãe ama isso. Meus pais vieram quase em seguida.
A família feliz ia almoçar junta.
A campainha tocou.
Meu estômago revoltado não aguentava esperar.
Olhei pra Nate e pedi com os olhos pra ele ir atender antes que minha mãe começasse a falar, porque eu estava morrendo de fome e não queria escutar ela reclamando de novo. Mas Nate negou, ele não ligava pro falatório dela nem pro meu estômago furioso. Espero que se eu desmaiar no caminho ele fique com no mínimo peso na consciência. Saí da cozinha escutando minha mãe perguntando irritada onde estavam os empregados dessa casa. O estranho era que se eu perguntasse onde eles estavam esses meses todos, ela se recusaria a responder.
Certifiquei-me de olhar no olho mágico dessa vez.
Quando vi quem estava do outro lado, me belisquei pra ver se eu estava realmente vendo aquilo, e a imagem não mudou. Vi passando as mãos nas pernas, como se estivesse secando-as, respirando fundo e falando algo que deveria ser encorajador pra ele mesmo. Sei disso por leitura labial. Mas a pergunta mais importante é: que merda ele faz aqui?
Voltei pra cozinha com as mãos tremendo, e muito lentamente. Minhas pernas pareciam gelatinas.
— Nate, é pra você — disse tentando sentar na cadeira.
— Quem é? — perguntou ele se levantando, eu não respondi e balancei a cabeça um pouco alienada. — Você não cansa de ser estranha, nossa.
Nate saiu da sala de jantar e ficou aquele clima tenso, e eu só percebi isso quando minha mãe começou a estalar a língua, desviando meus pensamentos de .
— É, você não cansa de ser estranha. Quando é que vai parar de usar essas roupas, ? — minha mãe perguntou, deixando-me incrédula. Hoje é o dia de implicar com as minhas roupas e eu não sei? — E esse cabelo? Vou ter que falar quantas vezes pra você ir ao cabeleireiro? — eu sei que meu cabelo não é super lindo, mas se eu o mantenho assim é porque deve ter um motivo.
— Quando é que você vai deixar de ser fútil? É só um cabelo, eu nem ligo pra ele! E qual o problema das minhas roupas?
— Você se veste quase como um menino, esse é o problema — Outch, que grande mentira. Quando um menino usou um shorts como o que eu estou usando? — Louise não conseguiu fazer você mudar mesmo, o que é uma pena. Aquela menina é tão parecida comigo na adolescência...
— Eu não me visto como um menino, e não sei que merda você tem na cabeça pra falar isso. Eu me visto do jeito que eu gosto, e não vai ser você nem a Louise que vai mudar isso — decretei com calma e passei a mão pelo rosto grudento de suor. — Olha, não sei mesmo porque vocês voltaram, e pai, você está vegetando ou algo assim? — Levantei-me da mesa na hora que Nate entrou na cozinha.
— Não tinha ninguém lá, — ele disse e sentou-se à mesa, começando a se servir. Nate não parecia estar irritado com isso.
— Claro que tinha! — não, não. Eu não estou ficando louca.
— Vai lá ver então — ele disse sem realmente se importar.
— Quero provas que você está errado. Vem vocês dois — puxei Tinna e Paul pelas mãos e quando estávamos na sala fiz eles sentarem no sofá. Nate acabou indo também, com o prato na mão e com um sorriso desafiador. Abri a porta olhando pra ele — Vocês vão ver...
E, mais uma vez, fui interrompida. Mas não foi uma interrupção normal, como quando alguém começa a falar junto com você. Foi . Foi segurando-me pela cintura e virando meu rosto para o seu, me obrigando a fitá-lo. Foi que fez meu corpo ficar quente e frio ao mesmo tempo e fez um arrepio subir por toda a minha espinha dorsal, que no fim arrepiou os pelos da minha nunca. Foi ele que me deixou sem palavras, e me pegou totalmente desprevenida para aquele beijo, que, no momento, julguei ser a melhor coisa que já tinha sentido durante meus 17 anos inteiros.
Não tinha como parar. E se tivesse como, eu faria de tudo pra descobrir como fazer o oposto. Não tinha como não me entregar, não tinha como pensar em outra coisa a não ser ele. Não tinha como levar a sério o fato de que meus pais estavam presenciando aquilo – o que provavelmente comprovava que Nate armou a situação. Uma mão de segurava minha cintura, do mesmo jeito que segurava meu punho dentro do carro. Com firmeza e suavidade. E a outra se encontrava perdida entre meus cabelos, que minutos atrás foram criticados pela minha mãe. A explosão de sentimentos transmitidos pelo beijo era completamente, completamente... indescritível. Só consegui identificar o desejo, e aquilo bastou. Pelo menos tínhamos algo em comum.
Sentia fogos de artifícios dentro de mim e a única coisa que eu sabia era que queria mais e que eu poderia entrar em uma profunda depressão se me tirassem naquele momento.
deu um passo para trás, sem desgrudar a boca da minha, e eu o acompanhei. Fossem qual fossem os seus planos, eu provavelmente estava incluída neles. Acompanhei seus outros passos e ele me ajudou a descer o degrau da porta, senti ele tirando uma mão de minha cintura e escutei a porta sendo em seguida fechada por ele. Aquele frio na barriga e os calafrios constantes deixavam tudo muito melhor, mas a razão aos poucos foi voltando pra mim e comecei a perceber a merda que eu tinha feito e continuava fazendo, já que eu ainda continuava beijando ele com a mesma vontade, mesmo estando sem ar. Separamos nossas bocas e continuamos parados ofegantes, juntos. Eu não tinha coragem de abrir meus olhos e tinha medo do que cada movimento que eu fizesse poderia significar, então fiquei para igual uma estátua com os olhos fechados sentindo a respiração rápida do bater contra meu rosto.
Que... merda... acabou... de... acontecer... agora? Que merda está acontecendo comigo? Não era pra eu ter gostado, era pra eu ter sentido nojo. Nem pra eu não querer me desgrudar dele, eu normalmente quero distância dele.
Hora de voltar desesperadamente ao normal.
Ri pelo nariz e abri os olhos, sentindo-os queimarem enquanto olhava os do . Coloquei o do indicador sobre a minha boca, em sinal pra ele não falar nada e comecei a andar me distanciando da casa. Quando estávamos numa distância segura e à prova de sons, parei de andar.
— Por que — dei um tapa no ombro dele — você — dei outro tapa — fez — dei um soco leve no estômago — isso — empurrei-o —, — agora eu dava tapas consecutivos em seu peito — POYNTER?
— Ai, outch, ouuuuuutch. Sai, , isso machuca. PÁRA, MENINA — e eu continuava o esmurrando descontrolada, tentando descontar todos os meus medos, minha insegurança, minha raiva, minhas frustrações e meus conflitos internos. Quando ele cansou de apanhar, teve o bom senso de segurar meus pulsos, parando-me.
— Por que você faz isso comigo? Eu não sou como as meninas daquela escola, , que morrem de amores por você e que se jogariam na frente de um time de futebol de elefantes só pra você olhar pra elas! Eu não quero isso pra mim, não quero ficar pensand... ai, esquece.
— “E eu nunca vou te beijar na vida, então para de ser convencido!” — repetiu perto do meu ouvido o que eu disse mais cedo e eu senti meu estômago afundar. Então, tudo isso foi apenas uma forma discreta dele me contradizer?
Cara, eu sou mais idiota do que eu imaginava.
? — perguntou tenso e eu continuei parada.
, você só fez isso pra jogar minhas palavras contra mim ou eu só estou enganada?
— Caramba, ...
— É , , !
— ...acredita em mim pelo menos agora. Você acha que foi simples eu ter decidido fazer isso e aceitado? Você não é a única que tem conflitos internos aqui, se você soubesse pelo menos 1/3 do que se passa na minha cabeça não me julgaria tanto como faz desde que colocou os olhos em mim. Naquele carro você me fez pensar tanto sobre “fazer o que quiser” que eu me arrisquei e fiz aquilo. Você realmente não faz ideia de como eu não estou me reconhecendo, já que eu nunca fiquei na expectativa pra beijar uma garota. Beijos pra mim não significavam nada, mas então você aparece e faz eu mudar minha opinião sobre isso também. Então, por favor, não invente essas coisas na sua cabeça, porque se eu te beijei no carro e na sua casa foi porque eu queria isso, e não pra jogar palavras soltas de uma discussão contra você.
— O real problema de tudo o que aconteceu hoje não é totalmente o fato de você ter me beijado, mas sim o que você provavelmente vai estar com outra menina amanhã. Eu nunca sei o que esperar de você, . E você tem uma namorada ainda, não que eu me importe com os chifres da Cooper, mas que você traísse ela com outra pessoa.
— Eu já traí ela antes de hoje e onde você está querendo chegar? — ele perguntou tentando me fazer olhar pra ele.
— Eu não sei, . Não sei mais de nada, não sei mais o que significa raiva ou qualquer coisa que eu tô sentindo, e solta meu queixo, droga, e... — Adivinha? Ele não soltou, e quando conseguiu me fazer olhar pra ele, se esquivando dos tapas que eu dava com a mão livre, ele me deu um selinho e eu automaticamente relaxei e obrigatoriamente eu parei de falar. Encontrei forças do além e o empurrei. — VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO!
— Nós já fizemos isso — ele disse com muita calma. — E eu sei que você gostou.
— O que te prova isso, ? — disse incrédula.
— Seus olhos — ele disse com o sorriso de canto. — Eles não conseguem mentir pra mim. Hm, o que mais? O jeito que você retribuiu ao beijo e-...
— Cala a boca, você é muito idiota.
— Vou tomar isso como um elogio. , olha, só por hoje vamos tentar não nos matar, por hoje pelo menos.
Eu já conseguia ver um grupo de vagalumes piscando na frente dos meus olhos as palavras “Você vai se arrepender! Você vai se arrepender! Não aceite isso, sua idiota!”, e por mais que o pedido fosse estranho, eu não conseguia ver um jeito de recusar. Porque, como disse: se alguém me tirasse naquele momento, eu entraria em crise. E as borboletas no meu estômago declararam guerra aberta contra os vagalumes, e é claro que as borboletas ganharam essa guerra.
— Quais são seus planos, ? — disse tentando arrumar os cabelos naturalmente desorganizados dele, ele fez uma careta e tentou olhar para seus próprios cabeloa, ficando um pouco vesgo.
— Pensei que você que ditasse as regras aqui — respondeu ele com aquele sorriso que eu odeio e eu fechei a cara por causa disso. — Tô brincando, Jesus. Mas eu não tenho nenhum plano mesmo.
— Mentira — disse convicta. Tinha cem por cento de certeza de que ele tinha algum plano.
— Eu não estou mentindo.
— E eu me chamo Paris e sou filha do Michael Jackson. Além do mais, você nunca fala tão certinho assim.
— Argh. Tá bom, o plano é: vamos pra minha casa.
Eu só consegui rir ao ouvir aquilo. Ok, quando é que ele vai falar que é pegadinha do malandro e contar o plano verdadeiro?
— Qual é a graça? — perguntou , muito sério.
— Oh não, não era pegadinha? — perguntei e estremeci novamente com o olhar. Velho, isso não é normal.
— Deveria ser? — perguntou confuso.
— Sim! Sem chances de eu ir pra sua casa, !
— Por quê?
— Porque, oras, é íntimo demais. Não, não, pode esquecer.
— Do mesmo jeito que você disse que nunca entraria no meu carro? — ele disse convencido.
— Não me lembro de ter falado isso em voz alta... Opa.
— Você é lenta demais, puts.
— E você é teimoso demais.
— Ah, olha só quem fala...
Suspirei e levantei a mão, mandando-o parar de falar. Não é possível ficar nem uma hora sem brigar com ele, imagina um dia. Não me chamo Kim Possible para fazer algo impossível como isso.
— Não vou mudar minha resposta, precisaria de um argumento muito bom para aceitar.
— Depois eu que sou o teimoso, e eu também não vou desistir com um simples não.
, não adianta, sua mãe pode estar lá, sei lá, algum empregado, não importa. Eu. Não. Vou.
— O problema é esse então? Minha mãe? — perguntou tentando não rir.
— Não, é que...
— Você só sabe falar “não”? — me interrompeu.
— Ai, cala boca . De qualquer jeito, desista disso, tipo, agora.
— Você fica muito engraçadinha quando está irritada — disse e eu olhei com cara de poucos amigos. — Smile, , smile — ele colocou um dedo na minha bochecha, levantando-a, formando um meio sorriso forçado. Inesperadamente, minha outra bochecha se levantou, formando um pequeno sorriso sem os dentes, sem minha permissão, é claro. Ele gargalhou quando viu isso.
— Bem melhor — ele disse e continuou me encarando. Desviei o olhar, incomodada.
É coisa demais pra evitar pensar por um dia, como eu tinha “prometido”, mas ficar me encarando daquele jeito dificultava as coisas.
— Já que você não se decide, eu vou pra casa do . Até mais — disse a primeira coisa que veio na minha cabeça, dei os ombros e virei de costas.
— Por que você iria pra casa dele tendo eu aqui? — Perguntou realmente não acreditando no que eu tinha falado, e nem eu mesma acreditava naquilo.
— Você vai pra sua casa, eu não posso ir pra minha nem quero ir pra sua, vou pra casa do então. E que tom de voz foi esse, Sr. ?
— Não, você não entendeu. Eu vou pra minha casa, você vai pra minha casa comigo. nunca entrou nessa historia. nunca entrará nessa historia. é apenas um figurante.
— Eu não vou pra sua casa, — disse decidida. Mesmo morrendo de curiosidade, eu já tinha dito que não iria e ninguém mudaria isso. Porque tenho que parecer decidida, pelos menos me sentir no controle sobre alguns dos meus atos, já que está quase impossível ter controle de algo ultimamente. Quando houverem pequenas oportunidades como esta, eu, sem dúvidas, vou aproveitá-las. — Tenho uma idéia melhor.
bufou.
— E quando você vai me contar essa idéia? — disse contrariado e bufou de novo.
— Só que antes eu vou precisar de uma chave que está em algum lugar no meu quarto e se eu não comer a Paella que a Mariah fez eu vou desmaiar daqui a pouco, porque eu não comi nada hoje.
— Só isso? — disse ele, fazendo pouco caso.
— Ah, só isso? Esqueceu que eu não posso, tipo, entrar pela porta da frente em casa e que vai ser muito complicado falar com a Mariah sem que ninguém perceba?
— Explique-se.
— Não está meio óbvio que se eu me encontrar com meus pais eu vou acabar brigando com eles e me irritando profundamente? E estresse dá espinha, e eu odeio espinhas. Na verdade, só com minha mãe, mas ela fala dela e do meu pai no plural, então, sei lá, meu pai é um vegetal...
— Ok. Entendi, só mais uma pergunta: seu quarto é de qual lado?
— É em cima da sala. Por quê?
— Só escuta meu plano...
E esse foi um dos maiores erros que eu já cometi. Ou apenas mais um entre muitos que estavam por vir.

C O N T I N U A…




N/A: OK, GALERA, QUERO OPNIÕES SOBRE TUDO, PQ SABE, EU NUNCA ESCREVI UM BEIJO NA VIDA, CONFESSO. ENTÃO ME FALEM SUAS VADIAS LINDAS E ESPERO QUE GOSTEM. BJBJ

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