ATENÇÃO: Esta fic não tem fins lucrativos.

Por Aline W.
PRÓLOGO:
As curtas batidas soaram por todo o cômodo, fazendo com que ela acordasse de seu relaxo momentâneo e voltasse suas atenções para a porta. Desejar que a visita fosse embora não resolveria seus problemas, então, decidiu levantar e averiguar quem lhe perturbava àquela hora. Bem, gente não poderia ser.
Antes mesmo de girar a maçaneta, antes até de chegar ao hall, sabia exatamente quem se escondia atrás do grande bloco de madeira.
Conforme a porta se afastava do trinco, a figura de quem esperava ia se formando do lado de fora.
– – disse, encarando a visita (bem inconveniente, por sinal) com merecida hostilidade.
Conhecia aquela expressão que ele carregava. A respiração pesada e o olhar mortificado.
– – cumprimentou de volta. escorou sua mão na quina da porta, ameaçando dar um passo à frente.
– Não quero lhe dar as boas vindas. Minha hospitalidade não está disponível. – falou em uma tentativa inútil de conter o ser à sua frente. Sabia que não lhe daria ouvidos e entraria mesmo assim; desta forma o fez. Impulsionou-se para dentro apoiado em sua mão, e com a mesma, fechou a porta (que bateu com força atrás de si).
se aproximava de lentamente, ameaçadoramente; e ela se afastava a cada passo de seu (não) convidado.
– Que faz aqui? – perguntou.
– Já deveria saber que não pode se esconder – respondeu ele, seco, mas não havia sido completamente enganada. trazia consigo uma atmosfera abafada e sufocante.
– Não estou exatamente surpresa em vê-lo – examinou-o cuidadosamente, ainda afastando-se à medida que ele se aproximava. – A propósito, você está péssimo.
– Sim, estou.
– Uma de suas cobaias escapou? – perguntou ironicamente, esperando uma reação tão desgastada quanto a aparência do outro. E foi o que recebeu.
Era um tanto quanto estranho ver tão previsível. Algo muito ruim deveria estar se passando.
– Não estou querendo o seu ódio agora, . – foi quando parou de caminhar. Exatamente à entrada da sala de estar, aonde repousava antes de recebê-lo.
– Sério? Então o que quer?
– Eu não sei. – levou ambas as mãos aos cabelos e os penteou para trás com os dedos, parecendo agoniado. – Procuro por algo que nem mesmo sei o que é.
– Redenção, talvez. Após todas as vidas que você ceifou, não poderia sentir menos remorso. – cuspiu ela, olhando-o com repulsa. suspirou pesadamente, esfregando o rosto com as mãos.
– Você pode estar certa. Posso estar procurando por redenção, posso estar querendo algo mais do que vagar pelo mundo sem objetivo.
– Oh, não, você não tem um objetivo? Resolva isso, apenas escolha alguém aleatório para desgraçar a vida. Sempre foi ótimo nisso, não foi, ?
– Não quero alguém aleatório. – o olhar que caiu sobre fora pesaroso. – Não consigo pensar em mais ninguém que possa me livrar desse... – calou-se com um suspiro desgostoso, pois não conseguira encontrar uma palavra que descrevesse seu estado.
cruzou os braços e encarou suavemente, esboçando um belo e calmo sorriso. A expressão do outro pareceu ir na mesma direção que ela.
– Está sozinho, deprimido e cansado da própria essência. – disse sarcástica. Ele franziu a testa, visivelmente decepcionado. Enganara-se com o sorriso no rosto de . – E a única pessoa em quem pensa para salvá-lo de seu martírio... Sou eu. Provavelmente sua vítima mais assídua. A quem você dedicou todo o seu tempo e esforço.
Ele abaixou o olhar.
– Diga-me, , por que eu lhe ajudaria após tudo o que me fez?
– Eu lhe transformei – protestou ele, como se quisesse lembrá-la de um único feito justo que cometera.
– Você me amaldiçoou.
– Não pretendi lhe machucar.
– Pois você se contradiz. – ela afastou-se rapidamente, fazendo com que o outro se virasse para acompanhá-la pelo cômodo. – Lembro claramente de suas palavras, enquanto você murmurava na minha cara...
aproximou-se furtivamente, esticando-se ao pé do ouvido do outro e suspirando:
– Eu... Irei matá-la... Esta noite.
fechou os olhos com força, contraindo os lábios e fechando os punhos.
– Quero vê-la sofrer... Por toda a eternidade.
– Talvez não quisesse vê-la sofrer de fato. – protestou novamente.
– Seus olhos brilhavam de prazer ao dizer isso, . Seus olhos estavam brilhando... A cada vez que machucava alguém que eu amava. E após tanto tempo, após ter enterrado todos os sentimentos vingativos que tive contra você... Não consigo lhe perdoar totalmente.
Há muito não revivia estes sentimentos. Estavam enterrados a sete palmos de sua memória, mas exalava tudo isso. Todas as tristezas que enfrentara; tudo de ruim que caíra sobre ela.
– Preciso de você, . – ao invés de gritarem luxúria, seus olhos agora suplicavam piedade.
– Mas eu não lhe quero. – rebateu cruelmente.
– Estive lá quando precisou de mim.
– Você era tudo o que havia me sobrado.
– E você é tudo o que eu tenho agora.
já havia visto aqueles olhos, na noite em que partira. Não era capaz de sentir piedade por , pois todo o mal que ele lhe causara abafava qualquer sentimento bom (ou clemente).
– Incinerou tudo ao seu redor. – ela estreitou os olhos e passou por ele, fazendo seu caminho lentamente até a porta. – Elisha... Ela...
prendeu a respiração ao ouvir aquilo. Nem mesmo conseguira continuar.
– Já pensou que se tivesse segurado seus impulsos e evitado ser tão caprichoso... Nada disso teria acontecido?
Não respondeu.
– Foi tudo culpa sua, . – pousou sua mão sobre a maçaneta e a girou. – Todos se foram. E tudo por sua causa. Por seus atos impensados. E agora está tendo a chance de pagar por isso.
– ...
– Não vou livrá-lo de seu castigo.
– Preciso de você. – aproximou-se dela e fechou a porta suavemente, mantendo sua mão sobre a de .
Ela abaixou o olhar por um segundo, e esticou-se ao pé do ouvido dele novamente.
– Quero vê-lo sofrer... Por toda a eternidade.
Um soluço seco escapou da garganta do outro, enquanto abria a porta de uma vez, puxando sua mão com força.
Não havia mais motivo para protestar, ela não voltaria atrás. acenou afirmativamente com a cabeça, acatando a decisão que a velha conhecida tomara.
– Há coisas que você não sabe; sobre Kaileen e os outros... E até mesmo sobre seu querido Patrick.
Mencionar Patrick não era uma boa idéia.
– Não quero ouvir o nome dele saindo dessa sua boca suja – rosnou, agarrando o casaco de e o empurrando porta afora. – Vá embora.
– Não sou o cara mau, .
– Adeus, .
Bateu a porta, fazendo o estampido ecoar por toda a casa.
E de repente, o ambiente não parecia tão calmo quanto antes. Era como se todos os seus fantasmas tivessem despertado.
CAPÍTULO I
I slide through the wasteland that's my world
Sua visão era torta e desfocada, via pares por todos os lados e tinha certeza de que seu cabelo estava parecido com um lindo topete de calopsita; mas para ser sincera, não se importava. Na verdade, nada importava naquele momento, apenas a maravilhosa sensação que lhe ocorria ao respirar. Desejava sentir-se daquela forma para toda a eternidade.
– Ei, – seus ouvidos captaram o chamado, mas não sua mente. Continuou observando as luzes que agora eram ímpares. – !
– Ouch! – fora impossível não reagir, lhe sacudiram cruelmente. – Calma, Elrond. Ainda não estou atrasada, as barcas para as Terras Imortais irão me esperar!
Fred franziu as sobrancelhas e deu uma última golada em sua cerveja antes de jogar o copo para longe, ali mesmo no gramado de Stuart Johnson. Stuart sabia dar ótimas festas nos fins de semana, mas aquela havia sido apenas um porre sem fim. Nada de garotas.
– Se quiser uma carona, estou de partida – o rapaz saiu cambaleante, fuçando os bolsos atrás das chaves de seu carro.
– Ei, me espere, Elrond! Estou indo! – levantou-se e correu atrás do amigo, esbarrando nele, fazendo com que Fred fosse jogado para o carro. Então o alarme disparou.
– Que merda, ! – retrucou, desorientado, enquanto tentava acertar o botão que silenciaria o carro barulhento. – Droga.
– Foi mal.
Aquilo só poderia acontecer com . E Fred. Bêbados na madrugada.
O carro havia quebrado e agora estavam no meio da rodovia, sem estepe (porque a porcaria do carro de Fred era muito velho e ele preferia gastar dinheiro com prostitutas e bebida do que com pneus) e no escuro.
– Sério, eu deveria... Te esganar! – ela praticamente gritava, andando de um lado para o outro, enquanto o amigo tentava conseguir sinal no telefone. Por que aquele local tinha que ser tão isolado?
– Você já disse isso umas mil vezes. – o rapaz informou sem dar muita importância.
revirou os olhos e parou de costas para Fred.
Não soube exatamente como aquela criatura chegara até ali, não soube como não o ouviram se aproximar... Só sabia que lá estava. Um homem parado à sua frente, o rosto tão iluminado quanto as fracas luzes vindas dos faróis do carro. Parte de seu rosto estava mergulhado na escuridão, mas ainda podia perceber a beleza em cada traço de seu rosto.
– Precisam de ajuda? – perguntou suavemente.
Não conseguira emitir som. Parecia uma bênção, olhar para ele.
– Desculpe, consegue me ouvir? – aproximou-se alguns passos, abaixando-se um pouco e olhando melhor. – Parece ver um fantasma.
– Ei! – Fred exclamou e de repente, estava desperta de seu transe. Era como se a voz dele saísse de amplificadores, comparada à perfeita sonoridade da voz do estranho. – Quem é você?
– Estava de passagem... Vejo que estão com problemas no carro. – apontou o automóvel com a cabeça. – Precisam de ajuda?
– Tem um estepe aí?
Enquanto Fred negociava, tudo o que a garota fazia era contemplar o recém chegado. Tudo nele parecia simétrico. Afastar o olhar era um sofrimento.
– Devo ter...
Seus olhos, cabelos, lábios...
Mais uma vez, fora driblada. Não sabia como havia perdido os sentidos, mas tudo o que ouvira antes de apagar, fora o grito ensurdecedor que saíra da garganta de seu amigo.
acordou em um lugar desconhecido. Muito bem arrumado, elegante e pomposo. Cheirava naftalina e incenso.
Seus olhos estavam doloridos e curiosamente, seus braços também. Tentou puxá-los para averiguar melhor, mas estava amarrada. Seu corpo todo estava amarrado à uma cadeira, próxima a uma cama vazia. O cômodo inteiro parecia estar vazio, o lugar tinha pouca iluminação.
– Fred? – murmurou, olhando ao redor. Lembrava-se de estar com Fred em uma festa... Tomara algumas cervejas e uns comprimidos de algo que não sabia o que era... E... Sua memória falhava aí. Será que algum estuprador a havia tomado para si? – Fred?
– Seu amigo não virá – ouviu alguém dizer perto da cama, de onde havia afastado o olhar ainda naquele instante! E não havia ninguém, como o homem (de aparência absurdamente bonita) havia chegado ali tão depressa e tão silenciosamente?
– Quem é você? – perguntou amedrontada. Aquele deveria ser o estuprador.
– Oh, perdão. Não me apresentei. – tinha um sotaque que lhe lembrava Lion, o estudante transferido de Londres. – Chamo-me . E você, minha jovem?
– Que lugar é este? Por que estou amarrada? E... Onde está Fred?
deu uma risada gostosa e aproximou-se de com tanta rapidez que a assustou verdadeiramente.
– Quantas perguntas. Já disse, seu amigo não virá. Você se encontra em meus aposentos provisórios e está amarrada... Bem, porque não quero que fuja.
O que ele queria dizer com “Seu amigo não virá?”. O que aquele homem havia feito com Fred? sentiu um desejo incontrolável de chorar e gritar. Estava sendo seqüestrada.
– Fred? O que você fez com ele?!
– Ei, fale baixo! – o tal respondeu. – Eu o matei.
Aquelas três palavras, ditas com tanta serenidade e conhecimento a assustavam mais do que a idéia de estar amarrada, em um quarto desconhecido, com um assassino confirmado.
– Você o quê? – perguntou, aterrorizada demais para deixar um grito escapar.
– O matei – o homem levantou e andou até uma das mesinhas ao lado de , acendendo uma vela. A falta de eletricidade do recinto não a preocupava tanto quanto todo aquele fogo a cercando. Além disso, não havia digerido a informação de que Fred poderia estar morto. – Mas o fiz por necessidade.
De volta à cama, aproximou-se ainda mais de .
– Você... Matarei por diversão. – e sorriu.
Aquele sorriso... Tão cru. E cruel. Ele realmente queria dizer “diversão”.
– Oh, a propósito... – ele chegou ainda mais perto. Perto o suficiente para que ela avistasse seus dentes. Dois caninos avantajados. – Vou matá-la esta noite...
Não.
Duas presas.
–... E você ainda não me disse o seu nome.
Naquele instante, sentiu sua garganta dar livre passagem para o grito de horror.
CAPÍTULO II
My hunger takes your life preyed on to keep me alive
Após afastar-se, caminhou até uma das prateleiras, acendendo um incenso; que – surpresa – reconheceu como canela. Não por desconhecer o cheiro da canela, mas por ser capaz de distingui-lo em um momento de desespero.
– Você... O quê? – gaguejou.
– Não ouviu bem ou é realmente tapada? Veja, vou lhe matar! – exclamou, e, sem saber quando acontecera, estava encarando os olhos vívidos do homem. Estava a apenas centímetros de seu rosto. – E nem invente de gritar.
– Não vou – respondeu. Era bom não irritá-lo. Se ela conseguisse, em um momento de distração do sequestrador, achar uma saída, ou algum objeto cortante...
– Sabe o que eu acho estúpido? – ouviu a voz de soar pelo cômodo, vinda de um aposento que não sabia qual era. – Você tentar escapar. Não tente. Pode ser bem pior.
Mais uma vez, estava a seu lado. O mais impressionante era que não conseguia vê-lo se mover, ele era... Imperceptível. Estava começando a formular teorias sobre o sujeito. Teorias nada agradáveis.
– Ei, garota. Ainda não me disse como se chama.
Como lembrar de dizer seu nome ao homem que não parava de informar: Vou lhe matar!?
– .
– – repetiu ele. – Excelente. Tem uma sonoridade incrível. Conheci algumas s por minha existência... Devo dizer... Que elas não têm uma boa lembrança de mim.
Com uma risada marota, levantou-se e antes que pudesse completar seu movimento, o cômodo estava lotado.
– Mas que droga... – murmurou, virando-se para a porta. queria muito virar-se também e contemplar o que o impressionara, mas não estava dando certo.
– O que você pensa que está fazendo aqui, ? – a voz de uma mulher irrompeu na solidão da voz de . pôde vê-la assim que ela se aproximou do outro. Era inacreditavelmente linda. Tinha longos cabelos castanho-claros e usava uma jaqueta bege, calças jeans escuras e botas de combate.
– Elisha. – disse ele. – O que você está fazendo aqui?!
– Kian seguiu você.
– Ele deveria ficar fora dos meus assuntos!
– Eu pedi para lhe seguir. Sabia que faria algo estúpido... – a tal mulher, que chamou de Elisha, virou-se para e lhe deu uma olhada rápida. – E não estava enganada. Quantas vezes terei que repetir, ? Nós já estamos suficientemente ferrados para que você nos jogue em um poço!
– Não fiz nada!
– Matou o companheiro dela – uma voz masculina informou. lamentou sua cadeira estar virada de costas para a porta.
– E daí? Me alimentei, todos fazem isso!
– Fazemos isso juntos, e não desta maneira. Não tente se desculpar – Elisha disse.
– Você estava lá, viu como foi difícil, – outra voz feminina falou.
Aparentemente, estava sendo vencido. Ele esfregou o rosto com as mãos e lançou à , um olhar derrotado.
– Não posso controlar.
– Claro que pode. O problema é que você não quer controlar. Todos controlamos, , porque você não?
– É verdade, não quero controlar! Por que tenho? – bradou ele, parecendo ter recuperado as forças. – Para que existimos? Não é para acabar com a raça deles? Não somos inimigos mortais? Por que temos que nos importar com eles?
– Por que eles são a maioria! E se souberem sobre nós, não teremos chances! – a segunda voz feminina se aproximou, e também era muito elegante. Esta usava saltos firmes e uma calça de couro justa. Tinha cabelos encaracolados e bem escuros.
– Cara, essa conversa já me encheu. Se o príncipe não se importar de perder um espectador, vou embora. – a voz masculina atrás de falou, e o que sucedeu, ela não pôde afirmar com clareza. Os barulhos de portas sendo partidas ao meio e vidros indo de encontro ao chão eram bem altos.
– Ei! – as duas saíram correndo para apartar o que poderia ser uma briga. Só podia ser uma briga, pois havia desaparecido do campo de visão da garota, e aqueles barulhos todos não foram causados por um terremoto.
Mas que rapazes fortes, pensou ela. Ou... Não.
– Não temos tempo para discutir isso agora – as vozes se aproximavam e permanecia imóvel.
Deveria ter se acostumado com as aproximações súbitas, já que aquele grupo parecia adorar fazer isso, mas não se acostumara. Quando Elisha se aproximou, suspirou assustada.
– Olá – disse gentilmente. A forma como se comunicava era tão pacífica que o medo parecia desnecessário. – Desculpe por meu irmão, ele é um pouco impulsivo. E sinto muito por seu amigo, mas coisas assim acontecem o tempo inteiro. Sou Elisha.
– . – respondeu em voz baixa.
– Bem, , gostaria de dizer que a levaria para casa em segurança, mas isso não é mais possível. Você virá conosco.
Aquela velocidade supersônica estava começando a incomodar. já estava desamarrada e sendo amparada por um homem de expressões fortes.
– Esperem... Espere, onde estão me levando? Ei! – tentou argumentar.
– Não deveríamos estar fazendo isso. – a mulher de cabelos negros disse. – Isso é tudo culpa do seu irmão idiota. Por que não o largamos em Nevada?
– Ainda posso lhe ouvir – falou.
– Que bom; assim fica sabendo como é um peso morto!
– Excelente trocadilho – o homem que amparada deu uma risada.
– Sahara está certa. Você nos disse que não faria isso novamente, nos deu sua palavra, . – Elisha disse.
– Não acho justo que tenhamos que permanecer assim.
– Não há nada de errado na maneira como existimos, ! Você é quem está ferrando tudo com suas crises e impulsos! Se quiser chamar atenção, saia durante o dia e se exploda! – gritou a outra; que agora conhecia como Sahara.
– Vá se ferrar – resmungou ele.
– Tão infantil...
– Vocês dois estão me tirando a paciência. Sahara, deixe que eu lido com ele. , fique de boca fechada.
– Certo, lide com ele, deixe que ele destrua tudo o que construímos com tanto esforço.
Em um movimento tão rápido quanto aquele em que desamarrara , Elisha prensou Sahara contra uma árvore. não havia nem percebido que estavam caminhando em um bosque.
– Preste atenção na maneira como fala comigo. Ainda sou sua criadora, e ainda estou no comando deste bando.
– Sim, mestre. – Sahara não hesitou em dizer, com a voz falha.
– Bom. – Elisha a largou e, gentilmente, alisou seu rosto. Não parecia ser a mesma que momentos antes havia ameaçado a outra. Aquela mulher era simplesmente aterrorizante. – Deve confiar em mim.
– Confio em você. – Sahara franziu a testa e olhou . – Não confio nele.
– Não se preocupe. Agora vamos, apressem o passo que os outros nos esperam.
CAPÍTULO III
Mercy is all that you need, mercy is empty in me
A casa em que se encontravam não era muito diferente do recinto anterior em termos de decoração, mas não se podia culpar o grupo que ocupava o imóvel. Praticamente toda Texarkana cheirava rústico. O homem que carregava (este era Kian. O único homem acompanhando Sahara e Elisha) a largou em um sofá de couro preto, nada macio (a garota sentiu uma pancada forte ao ser jogada) e sumiu de sua vista. Mesmo que estivesse formulando as tais teorias misteriosas, não se sentia segura para interagir com o grupo nem sentia liberdade para olhar aonde quisesse. Se estava sendo seqüestrada, aquele era seu cativeiro.
– Voltaram rápido – voz feminina vindo para o hall, aproximando-se de onde sentava e entrando em seu campo de visão. Era loira, tinha longos cabelos lisos, e vestia-se completamente de branco. Parecia Emma Bunton.
– Achamos que demoraria alguns dias para alcançá-lo – mais uma vez, pega de surpresa, se viu sentada ao lado de um homem que jamais vira antes. Como diabos ele fora parar ali tão rápido? Seu olhar apavorado deve ter chamado a atenção do sujeito, pois ele lhe estudara rapidamente. – Oi docinho. Quem é você?
– Onde o pegaram? – Baby Spice perguntou. estava vendo semelhanças onde não existiam ou aquela mulher era Emma Bunton? Não havia como errar, ela fora grande fã das Spice Girls.
– No Eternal Rest – Kian, que retornava de onde havia ido, voltara, reunindo-se com os presentes ao redor de . Agora todas as atenções se voltavam para ela e, de alguma forma, sabia que aquilo não era boa coisa.
– Nunca achei esse um bom nome para uma pousada – o homem sentado ao seu lado disse e Kian riu.
– Onde estão Harmony, Ferris e Drake? – Elisha perguntou, falando pela primeira vez desde que entrara. Seu olhar sobre não estava agradável para . Era como se estivesse o vigiando de perto.
– Harmony e Drake, não faço idéia. Devem estar se enroscando por algum lugar... Estão fora desde que vocês saíram – o mesmo homem que ainda lhe olhava de jeito esquisito, ao seu lado, respondeu.
– Ferris foi ao mercado. Uma das lâmpadas do andar de cima queimou. – a mulher loira disse.
– Não se pode mesmo viver sem essas coisas, pode? – Sahara deu uma risada abafada e fez um sinal para que o homem levantasse do sofá; ele o fez instantaneamente e em uma fração de segundo, estava sendo segurada pela outra. – Que devemos fazer com ela?
– Se me deixarem, tenho uma ou duas opções do que...
– Cale-se! – a líder do bando ( chamaria de grupo, mas bando fora como a própria Elisha se referira) bradou em um tom de autoridade. – Não quero ouvi-lo hoje novamente! Antes estava pensando em lhe dar um castigo do tipo dez anos sem comida, mas agora estou considerando cem! Total confinamento em gaiola de prata sagrada!
– Credo... – murmurou.
– Por isso pense bem antes de abrir a boca! – Elisha virou-se para os outros ( estava encostado a um móvel próximo à porta, mais distante do grupo). – Isso só me dará motivos para acrescentar uns anos a mais. – ela deu um pigarro. – Então, qual é o tópico?
– Que faremos com ela? – Kian repetiu e Sahara sacudiu levemente, fazendo-a grunhir de incômodo. De fato, estava surpresa por ter estado quieta o tempo inteiro.
não era o tipo de pessoa que aceitava xingamentos e sopapos de bom grado. Não fazia coleção de medalhas de honra, mas de inimigos, deveria ter uma prateleira completa. Era conhecida na escola por sempre defender os desfavorecidos. Não importava quem fosse, membro do clube do computador ou tocador de saxofone; marcava brigas com todos os garotos do time de futebol sem medo de sair com olho roxo ou dentes quebrados (o que ocasionalmente acontecia).
Queria saber o que estava acontecendo. Por que simplesmente não levantava daquele sofá e os enfrentava. Tinha direito de saber quem eram aquelas pessoas sinistras meticulosamente planejando seu destino. Era seu destino, uma discussão que a envolvia, deveria exigir conhecimento a respeito daquilo.
Mas algo no fundo de sua alma a impedia de mover um músculo enquanto aquele homem agradavelmente sentava tão próximo a ela.
Temia por sua vida, e não era difícil temer. Após ouvir da boca do assassino de Fred que iria ser morta, cada fibra de seu corpo temia os segundos que transcorressem enquanto estivesse ao lado daquelas pessoas.
Fred.
Ainda não conseguia processar a informação.
Estava morto?
Mas como? Apenas alguns momentos antes ambos voltavam de uma festa e...
Um homem misterioso apareceu.
.
Não era como se não tivesse feito todas as conexões possíveis, estava ciente dos fatos. Apenas não conseguia acreditar que seu amigo estava morto.
De qualquer forma, como matara Fred? E como não vira nada?
Disseram algo sobre alimentar-se, mas o que seria ele? Um canibal? Ou... Um ser mitológico... Talvez?
– Então, que faremos com ela? – Sahara a sacudiu novamente, trazendo-a de volta para o presente, onde era refém de um grupo suspeito.
– Há duas opções sensatas – Elisha tirou a jaqueta bege e a jogou no móvel próximo a porta, mas errou (ou não) e a roupa caiu exatamente em cima de , que lhe lançou um olhar intrigado. – Ou a transformamos, ou a matamos.
– Posso opinar? – o homem sentado no sofá (Não era lá muito bonito, tinha uma aparência rude e barba mal feita) disse, não esperando resposta. – Acho que devemos matá-la. Apesar do desperdício, não será fácil lidar com um novo vampiro nas circunstâncias em que nos encontramos. Quero dizer, deixou a cidade toda alerta.
– Ele tem razão – a loira manifestou-se, dando uma rápida olhada no “pacote” que Sahara segurava. – Ela nos daria um baita prejuízo. Sabe como atiçados os novatos são.
– Concordo. Então, todos a favor de matá-la? – Elisha perguntou. – Devemos esperar por Harmony, Ferris e Drake.
– Sem mais espera, estamos aqui – um homem de cabeça raspada (e tatuada, por sinal) emergiu de lugar nenhum, segundo , ao lado de Sahara. – Trouxeram jantar?
– Não, isso é obra do .
– Ah, claro. O idiota número um.
– Cara, cala a boca! – sobressaltou-se, mas em um piscar de olhos, Elisha estava a seu lado, pressionando levemente seu corpo contra o móvel, voltada para os recém chegados.
– Onde estiveram? – perguntou ela.
– Ah... – o homem de cabeça raspada e tatuada começou. – Eu e Harmony fomos dar umas... Voltas.
Um pigarro alto soou em algum lugar fora do campo de visão de .
– Então encontramos Ferris e fomos com ele ao mercado. – uma voz doce e infantil irrompeu, então pôde vê-la. Tinha de ser Harmony. Seus cachos dourados apenas ajudavam na aparência infantil que tinha. Ela aproximou-se do homem tatuado e ele a abraçou pelos ombros. Aquele deveria ser Drake.
– Por falar no Ferris, onde está?
– Fui trocar a lâmpada – outra voz masculina apareceu, e Ferris também. – Não se pode viver sem essas coisas, não é?
– É o que sempre digo! – Sahara falou animada. O outro lhe lançou um sorriso e passou os olhos pela sala lotada.
– Que houve aqui? Parece que aconteceu uma chacina brutal e ninguém me chamou.
Ferris tinha longos cabelos ondulados, presos em um meio rabo de cavalo. Parecia um elfo.
– nos deu alguns motivos para... – Kian ia começar, mas fora interrompido.
– Ah, não precisa esclarecer – Ferris olhou , ainda sendo pressionado por Elisha, e lhe sorriu. – O bom e velho .
– Então, Marie e Hunter acham que deveríamos matá-la. – Elisha interrompeu a conversa, falando em alto tom.
– Mas qual é a situação? O que ele fez? – Drake perguntou.
– Matou o parceiro dela, depois a carregou ao Eternal Rest para... Sei lá, torturá-la e depois a matar com golpes lentos e dolorosos – Kian disse lentamente, olhando para de uma forma zombeteira. percebeu a adição de força no aperto que Elisha lhe dava. O oprimido estava tentando escapar. – Não é a cara dele?
– Que otário... – Hunter (o homem sentado no sofá) disse, balançando a cabeça negativamente.
– Ei! – Elisha chamou sua atenção. – Querem parar com essa atitude babaca? – virou-se para o irmão, que já estava quase rasgando os lábios de fúria. – E você fique quieto. Pense nos 100 anos dentro da gaiola prateada. Sagrada.
Aparentemente o conselho da outra dera certo. Elisha largara e se aproximara do grupo.
– Todos a favor de matar a garota?
CAPÍTULO IV
Can't you feel the poison rising
– Não – Kian disse. – Não acho que mais um inocente deva pagar pela estupidez do seu irmão.
, que já estava praticamente sem esperanças, viu uma chama acender-se ao fim do caminho. De certa forma, sentia-se morta, jazida ao lado de Fred onde quer que ele estivesse. Tudo aquilo parecia surreal, a conversa entre aquele grupo, o papo sobre vampiros e alimentação, era tudo muito meio século. Sentia-se dentro do The Twilight Zone.
– Verdade – Sahara disse, dando uma boa olhada em . – A garota parece estar em estado de choque, olhe só pra ela. Tão indefesa. Acha mesmo que ela merece morrer porque o louco do seu irmão decidiu matá-la sem motivo aparente?
– Vocês são um bando de hipócritas – a voz de soou baixa e suspirante.
Todas as cabeças na sala viraram-se para ele.
– O que você disse?
– Disse que são todos hipócritas! Estão me criticando por ter saído da linha algumas vezes e fazem o mesmo quando vão se alimentar! Diga! – ele aproximou-se ameaçadoramente de Sahara, afastando de forma violenta a mão que Elisha esticara para empurrá-lo. – Não me empurre! – gritou para a irmã e voltou-se para Sahara. – Diga que nunca fez o que faço! Diga que nunca matou alguém apenas pelo prazer de ver sua vida esvaindo? Diga, Sahara!
– Pare de estupidez – a mulher falou, desconversando, de cabeça baixa.
– Não me chame de estúpido, você sabe que eu tenho razão! É a nossa natureza! Vivemos para isso! Quantas outras pessoas estão morrendo a cada segundo? Você tem como contar? Não tem! É o destino; fatalidades; outros vampiros; doenças; sei lá o quê! Mas pessoas morrem o tempo inteiro e não é nosso trabalho salvá-las!
– Sim, é nosso trabalho impedir que você se torne um assassino em série e coloque alguns policiais na nossa cola. – Ferris disse. – Caso isso aconteça, lhe entregarei para que algum laboratório faça testes em você! É o mínimo.
– Vocês estão me cansando – Baby Spice, cujo name era Marie, pronunciou-se.
– Eu acho que ao invés de matá-la ou transformá-la, deveríamos fazer da garota nossa escrava de sangue. Que acham? – Hunter mudou totalmente o assunto. – Seria bem melhor. Não precisaríamos hipnotizá-la... Apenas ameaçar e todas essas coisas que sabemos fazer. Seria melhor... Quero dizer, foi um baita de um achado do Psicótico, essa garota. Como se chama, docinho?
ia retrucar por ter sido zombado, mas foi interrompido pelo som da voz de Sahara.
– .
– Bem comum. – ele voltou-se para , que ainda estava paralisada. – Consegue falar?
Elisha revirou os olhos e disse:
– Deixe-a em paz.
– Mas eu só quero conversar! Vamos ver se ela é capaz de discernir algumas coisas...
– Pelo que vejo, a garota está em estado de choque. – Harmony abaixou-se à altura dos olhos de . – ? Consegue me ouvir?
– , você a violentou?
– Não seja idiota!
– Foi só uma pergunta!
desconfiava de que se gritassem, ela conseguiria falar. Era estranho não ter total controle de suas funções. Queria falar, mas...
– ? – Elisha se aproximou e segurou o rosto da garota delicadamente. – Sabe onde está?
– Eu... – Mas o que foi isso? Meu sistema está respondendo à sua dona? – Eu...
– Parece que ela está lutando contra um titã aí dentro – Drake brincou, fazendo alguns abafarem risadinhas.
– Sabe onde está? – Elisha repetiu a pergunta.
– Não sei... – finalmente conseguira. Não era exatamente o que queria responder, mas começara bem.
– Qual é a última coisa da qual se recorda?
– Lembro... – sabia exatamente qual era sua última lembrança, mas porque era tão difícil passar isso? – Nosso carro quebrou, meu e do Fred... E esse cara veio até nós oferecendo ajuda e... É tudo o que eu lembro. Depois acordei em um quarto, amarrada à uma cadeira.
Um leve burburinho irrompeu o cômodo.
– Fred... Onde ele está? – perguntou . Agora que havia recuperado suas habilidades vocais, iria aproveitar.
– Morto – Drake disse de forma drástica, levando um soco repreensivo de Harmony. – Que foi? Não está morto mesmo?
– Não precisa ser assim!
– Mas ele está morto!
– Ei, vocês! – Sahara aumentou o tom de voz. – Quietos!
Após o término da tensão, continuou.
– Sei que está morto. Escutei tudo o que disseram, e além disso... Ele me disse quando estávamos no outro quarto. – lançou um olhar à , que suspirou e soltou o ar de forma cansada.
– Sabe que... Fred? Sabe que Fred está morto? – Hunter perguntou e assentiu. – Vocês eram namorados ou o quê? Porque pra quem sabe que o namorado morreu você me parece bem tranqüila.
– Ainda não acho justo que sacrifiquemos a garota. – este era Kian. estava começando a gostar do cara.
– Vota pela escravidão de sangue?
– Voto por a deixarmos ir. Não é como se qualquer um fosse acreditar nas histórias que ela contará.
– Acredite, não irei dizer uma palavra sequer – prometeu, sentindo a realidade cair sobre si. Era como se estivesse anestesiada o tempo inteiro, de repente o efeito passara. Estava em uma sala com ‘pessoas’ sinistras que discutiam seu destino. E Fred estava morto.
Ah, não... Fred!!!
Pela forma como passou os dedos pelos cabelos e rolou os olhos, Elisha estava bem cansada quando abanou o ar e disse.
– O sol já está para nascer. Devemos descansar e lidar com isso depois. – com o aviso, ela caminhou até . – Você irá cuidar da garota.
As palavras “Você cuidará da garota” ditas ao seu provável assassino não agradavam a .
– Mas, Elisha...! – Sahara iria começar a protestar, quando foi silenciada pela líder.
– Sei o que faço. Vão. – ordenou ela; e com isso, o restante do bando se dispersou, com exceção de .
Sahara largou nas mãos de Elisha e sumiu de vista. Desta forma. Sumiu de vista.
A outra olhou para o irmão, que coçava os belos cabelos negros displicentemente, encarando qualquer móvel ou espaço que não fosse o rosto de Elisha.
– Você cuidará dela e não tocará em um fio de cabelo da garota. Estamos entendidos?
– Não. – ele virou o rosto para a irmã. – Não estamos, Ell. Quer me ensinar alguma lição, quer me punir, o que é isso?
– Quero que você passe uma noite sem surtar e dar uma de o maníaco da machadinha. Você não foi sempre esse cara instável que mata sem motivos, por isso, sei que consegue dar conta de uma simples garota.
– Não é uma simples garota, quase desamarrou meu nó de marinheiro!
– ! – exclamou a outra, eliminando qualquer chance que tivesse de escapatória. Sabia que contra Elisha não havia vez. – Eu sei que as coisas andam um pouco confusas pra você... Mas também sei que esse é o jeito certo de lidar com elas. Tenho certeza de que a garota estará impecável quando retornar para minhas mãos na noite seguinte.
– O que te dá garantia de que eu não irei estrangular e esfaquear até o anoitecer? – perguntou ele.
Elisha fingiu estar pensando por alguns segundos e respondeu.
– Você é meu irmão humano e minha criação vampira. Te conheço melhor do que conheço qualquer um aqui, e meu sangue corre nas veias de todos eles. Você age como eu agiria. É a nossa natureza, .
pensou ter visto um sorriso esboçar-se no rosto rígido de .
– Certo que às vezes você faz coisas que eu jamais seria capaz de fazer, mas... Ainda somos irmãos. E eu confio em você. – cuidadosamente, Elisha passou para as mãos de . Sentindo-se um item de coleção, sentiu a mão de envolver seu braço firmemente. – Não faça eu me arrepender.
– Se você confia em mim... Quem sou eu para desconfiar? – sorriu.
– É isso mesmo. E pense na gaiola de prata sagrada. – ela fez uma careta engraçada, provocando risadas abafadas de . queria saber porque todos eles abafavam risadas.
– Cem anos de prata sagrada... Nenhuma vítima vale isso tudo. – ele deu uma boa olhada em , que surpreendentemente (para ela mesma) sustentou seu olhar. – Não importa o quão atraente ela seja.
CAPÍTULO V
Out of the morning and clear through the night
já havia revirado o local duas vezes, procurando saídas e brechas de onde pudesse gritar por socorro, mas não havia nada. Após a saída de Elisha e o restante do bando, a carregara para o porão, alegando que a luz do sol não bateria ali quando amanhecesse, trancara e saíra. Ao checar seu relógio pela última vez, ele marcava quatro e meia da manhã; foi quando adentrou o recinto.
– Está procurando rotas de fuga? – perguntou em tom sarcástico. encostou-se à parede, o mais distante possível do outro. Desde que havia sido trancada ali (seu primeiro momento de solidão desde que fora raptada), andava repensando tudo com clareza.
Fred estava morto.
Fora seqüestrada por um vampiro psicopata.
Vampiros realmente existiam.
Socorro!!!!!!!!!!!!!
É a hora de entrar em pânico, dizia o sistema de .
Sua respiração acelerou com a aproximação de e suas batidas cardíacas estavam frenéticas.
– Desista – arfou, jogando-se no chão e sentando-se de modo displicente, abraçando os joelhos. – Não há como escapar daqui. Sempre que fazemos uma nova mudança, nos preocupamos em adaptar um quarto e chamá-lo de Câmara da Verdade. Muitas pessoas morrem aqui, sabia?
Uma risada escapou de seus lábios e virou-se para , que ainda estava grudada à parede.
– Aproxime-se. Converse comigo, afinal, são seus últimos momentos de vida.
Não existia ser vivo que fizesse se aproximar de . Não ele, o assassino de Fred, uma criatura tão bizarra que nem sua avó, grande conhecedora de culturas alheias, conhecia.
– Venha cá – desta vez, o tom de voz usado por ele não fora agradável. Estranhamente, sentiu o impulso de obedecê-lo. Mais uma vez, seu traiçoeiro sistema lhe alertava: “Obedeça”. Então o fez.
– Isso. Sente-se a meu lado. – falou ele. hesitara, e percebera. – Olhe, não vou lhe matar agora. Ouviu Elisha, não ouviu? Não quero passar cem anos rodeado por prata sagrada; pode ser muito desagradável. Sente.
E sentou. Estava-o obedecendo por medo. Aquele ser a aterrorizava por completo, sua presença era como um presságio de morte.
Sentou-se ao seu lado, mas a respiração estava tensa e a atmosfera pior ainda.
– Então, , que faz da vida? Quantos anos tem? – perguntou ele, como se estivesse em uma conversa casual. Não era como se ela se sentisse confortável para conversar daquela forma com um assassino. – Cara, não quero ter que lhe forçar uma resposta ou uma ação sempre. Sério, temos um dia inteiro pela frente, vamos conversar.
– Eu... – gaguejou. – Tenho 17...
– Ótimo. E sua família? Quem vai sentir sua falta quando morrer?
Como aquilo poderia se referir à morte de forma tão insignificante? Talvez por ele representá-la muito bem.
– Meus pais... E minha irmã mais velha.
– Vivem em Texarkana ou está de férias?
– Vivo aqui.
– Nascida e criada?
– É...
– Bom pra você – suspirou, saudoso. – Nasci em Londres. Whitechapel...
não o encarava. Achava que sucumbiria se o olhasse. Não sabia do que ele era capaz, se tinha poderes sobrenaturais, se podia voar ou se transformar em morcego, ou se poderia matá-la com o olhar...
– A pessoa que matei era seu namorado?
Não se acostumaria com o modo simplório como falava da morte.
– Não. Era um grande amigo, provavelmente o melhor de todos. – falar de Fred com a pessoa que lhe tirara a vida não fora tão estranho quanto parecera na teoria.
– Desculpe, não posso pedir perdão se não for sincero. Não me arrependo por tê-lo matado.
– Não espero que o faça.
E um silêncio incômodo reinou por alguns minutos.
– Não tem namorado? Nenhum namorado?
– Não.
– Cara, com o que as crianças de hoje andam se preocupando? Vídeo games? – perguntou em tom revoltado. – No meu tempo, além das lutas clandestinas e sociedades secretas, tudo o que importava era sair com a garota mais bonita do bairro.
Com a cabeça baixa, assentiu brevemente. Não sentia mais vontade de respondê-lo. Na verdade, o que sentia, era uma repulsa que crescia a cada segundo, a sensação de que avançaria em a qualquer instante. Era como se devesse aquilo a Fred, como se precisasse parar aquela coisa antes que matasse mais alguém, antes que lhe matasse, como andava prometendo fazer.
Ela não tinha nem certeza do que ele era! Até pouco tempo atrás, vampiros eram personagens de histórias que sua irmã mais velha contava para lhe assustar antes de dormir. Então eram reais? Mas quem os fizera?
E como a sociedade não tinha conhecimento a respeito disso? Precisavam se proteger! E quantas pessoas já haviam morrido em conseqüência destes seres, quantos desaparecidos não haviam desaparecido de fato?
Era como se um buraco negro estivesse sugando a realidade ao redor de e ela estivesse novamente no The Twilight Zone.
O que eram aquelas criaturas?
O relógio marcava cinco e quarenta da tarde e ela não havia conseguido pregar o olho. cochilara algumas vezes e até roncara (bem alto, por sinal). Estava ansiosa para o encontro com a líder do bando, queria saber sobre seu futuro. Passara muito tempo revendo alguns bons momentos que passara ao lado de sua família, talvez o dia anterior a festa tivesse sido o último contato que fizera com os parentes. Seus pais, sua irmã... Viver ao lado deles parecia um paraíso naquele momento.
CAPÍTULO VI
You can feel my strength destroy you
– Olá – Elisha cumprimentou, descendo as escadas rapidamente (tão rápido que mal a percebeu descendo, de fato). Aproximando-se de e , perguntou: – Como está nossa convidada?
– Eu não me chamaria de convidada, desde que estão me mantendo em cárcere. – protestou a outra, recebendo um aperto reforçado de seu guarda. Na verdade, estava se sentindo um pouco menos em amedrontada. Após todo o choque da noite anterior, tivera um dia inteiro para pôr seus pensamentos em ordem e decidira fugir daquele local não importasse quais circunstâncias enfrentasse. Entre morrer quieta; ser transformada em uma daquelas coisas e morrer fugindo, a opção da fuga parecia a mais sensata.
Em meio a seus pensamentos diurnos (finalmente tivera a oportunidade de assimilar o que acontecera quando adormecera a calara sua incessante e irritante boca) pensou em seus pais o tempo inteiro. Deveriam estar tão preocupados com ela, será que a polícia estaria investigando seu desaparecimento?
– Ah! – exclamou a líder, aproximando-se o suficiente de para tocar seus cabelos gentilmente. A garota afastou-se de forma rude, fazendo com que intensificasse o aperto em seu braço. – Fico contente que tenha superado seu problema de fala.
– E aí – Drake cumprimentou enquanto se aproximava do grupo, vindo de algum lugar na saleta que não conhecia. Atrás dele vinham Hunter e Ferris.
– Boa noite – disse Elisha.
– Como é que é, vai rolar sacrifício? – perguntou Hunter, postando-se ao lado da outra e de frente à , encarando-a de forma sugestiva.
– Hunter... – a voz de Sahara veio do mesmo canto que os três haviam acabado de sair.
– Que foi? – ele descruzou os braços em um movimento brusco. – Cara, não posso mais opinar? Tudo é ‘Hunter isso!’ ‘Hunter aquilo!’ ‘Cala a boca Hunter!’.
– Se você não fosse tão imbecil!
– Ei! Parem com isso – Elisha restaurou a paz. – Temos que decidir o destino da garota agora. Sem mais delongas, o que acham?
– Eu, Marie e Harmony conversamos o dia inteiro sobre isso – Sahara começou.
– É, eu pude ouvi-las o dia inteiro! – Hunter retrucou.
– Quer ficar calado? – perguntou ela e o outro tornou a cruzar os braços.
– Então – revirando os olhos, a vampira continuou dando uma olhadela para Marie e Harmony, postadas ao lado de Ferris e Drake ( não havia nem reparado a presença delas). Então, procurou rapidamente pela sala e encontrou Kian sentado ao último degrau da escada. Não seria capaz de se acostumar àquilo. – Conversamos a noite inteira e chegamos a uma conclusão.
– Fale.
– Devemos torná-la nossa escrava de sangue, por enquanto. Desta forma, quando ela tiver idade suficiente e conseguir compreender o que isso significa, poderá optar por ser transformada ou não. – explicou Sahara.
– Ou poderíamos simplesmente matar a garota – Hunter resmungou.
– Cara, você está insuportável hoje!
– Pois é, tive um dia péssimo! Insônia, sabe?
– Calem-se! – mais uma vez, Elisha bradou, fazendo com que ambos se calassem.
– Ainda não acredito que matá-la seja a opção correta – Kian informou.
– Sim, nós pensamos que assassinando a garota, poderíamos correr um grave risco de colocar aquele detetive insuportável na nossa cola. Sabem que ele é amigo próximo dos Huddersfield. – continuou Sahara. – Dei uma procurada rápida na internet e ainda não estão procurando por ela. Amanhã é segunda-feira, se ela não aparecer em casa hoje pode acarretar alguns problemas, acredito. Sem falar no desaparecimento do amigo, que é um problema com o qual já teremos de lidar.
Segunda, pensou . Seus pais não eram tão liberais a ponto de não notarem a ausência da filha por um dia inteiro. Se tivesse seu celular, estaria lotado de chamadas perdidas. Talvez eles a deixassem ir embora e ela não precisasse fugir.
– Então, liberamos a garota? – Drake perguntou.
– Não... – este era Ferris. – Ela iria direto à polícia.
– A levamos em casa para acalmar os pais e a trazemos para cá.
Aquilo era ridículo. Desde quando um monte de coisas estranhas tinha direito sobre sua vida e decidia o que fazer com ela?
– Ei, com licença... –disse, fazendo todos os olhares virem para si. – Desculpem, mas estou aqui e posso ouvir tudo. Não seria melhor perguntar o que eu acho? Afinal, é da minha vida que estão falando aí.
Uma risada estridente soou, chamando todas as atenções para Drake.
– Foi mal, é só que... Ela é engraçada.
– Não estou de brincadeira – reforçou.
Foi então que ele, sem que ela sequer visse um movimento (como era comum ocorrer por ali), se aproximou ameaçadoramente.
– E acha que nós estamos?
– Drake, afaste-se! Afaste-se agora!
Ele o fez, mas para , era como se aqueles olhos ainda estivessem lhe encarando. Jamais havia sido olhada daquela forma. De repente sentiu uma imensa vontade de não ficar no mesmo cômodo que Drake.
– Você promete não ir à polícia? – Elisha perguntou, revirando os olhos. – ?
Aquela era uma pergunta um tanto quanto estúpida.
– Se eu sair daqui viva, a primeira coisa que farei é ir até a polícia – respondeu firme.
– Se tivessem me deixado matá-la... – disse.
– Tenho que concordar com o Estripador – Hunter falou. – Se ela já estivesse morta seria muito mais simples.
– Talvez seja o melhor mesmo – Marie falou pela primeira vez.
Aparentemente desgastada com aquela discussão, Elisha disse à :
– Tranque-a no porão.
– De repente virei babá? – protestou ele.
– , você lembra de como prata sagrada pode ser desagradável?
– Argh! Já estou indo.
Então todos se dispersaram. Alguns saíram da casa, outros voltaram por onde vieram, até que sobrara e na sala.
– Estou seriamente pensando em me aposentar. – falou ele, ainda irritado com as ordens da irmã.
– Deveria ter pensado nisso antes de matar Fred.
– Tsc, cale a boca. – ele a jogou no sofá e sentou-se ao seu lado, pensativo. – Era para você já estar morta e enterrada, ninguém precisaria saber disso... Por que Elisha não me deixa cuidar dos meus assuntos?
não respondeu, apenas deu uma olhadela em seu raptor.
Se fosse humano, seria a criatura mais bela que ela jamais vira e tinha certeza de que o termo “vampiro” não tinha muita influência em sua beleza (Drake e Hunter eram bem horríveis em sua opinião).
Cabelos relativamente longos e lisos, escuros. Olhos azuis e uma boca vermelha de dar inveja.
– Ei! Eeeeei! – fora acordada pelos gritos do outro. – Fique aqui, volto em dois segundos.
Dizendo isso, levantou-se e rumou escada acima.
Não era possível que estivesse, de fato, sozinha. Exceto pelas vindas da televisão, não ouvia vozes pela casa. Levantou-se vagarosamente e tirou os sapatos, largando-os ao lado do sofá. Andou na ponta dos pés, cuidadosamente, até a porta, verificando se estava aberta.
Estava. Não pensou duas vezes antes e abri-la com cuidado para não ranger e imprensou-se na breve fresta que havia aberto, saindo da casa. Estava escuro e se encontrava em meio a uma estrada desértica, bem comum por Texarkana. Correu para o meio da rua e contemplou a área. Aquela casa era a única coisa existente em milhas, não havia onde se esconder, então a única coisa que lhe restava era correr.
E o fez.
Antes mesmo de descer as escadas completamente, notou um vão preocupante na sala de estar. O sofá estava vazio e a porta aberta. Sem sinal da garota.
‘PUTA QUE...!’. Não conseguira nem lembrar da famigerada prata sagrada.
– ELISHA! A GAROTA ESCAPOU! MALDITA SEJA! ELA ESCAPOU!
CAPÍTULO VII
Straight to the heart from the venomous bite
Não sabia como conseguiria esconder-se de vampiros por tempo suficiente até chegar a alguma ajuda. Eles eram significativamente mais ágeis do que ela, por melhor corredora que fosse (e era, uma excelente).
adentrou a floresta ao lado da estrada e mergulhou na areia úmida, embolando-se em lama, gravetos e folhas secas, na tentativa esperançosa de enganar seus perseguidores. Ela ansiava por uma busca através de seu cheiro, bem, isso ela poderia evitar. O fato de ser lenta não era de grande ajuda. Bem, ela era lenta para o resto deles, pois sempre conseguira fugir do quarterback do time da escola, que tinha como desejo lhe jogar na piscina com todo o seu material escolar. Felizmente, nunca desacelerou o suficiente para permitir ser jogada.
Escondendo-se cuidadosamente por entre as árvores, de repente um lampejo de excelente idéia apareceu em sua mente: Subiria em uma daquelas árvores e permaneceria ali trepada até que os bandidos desistissem de procurá-la. não considerara a probabilidade de eles voarem até lá ou coisa parecida, não sabia se eles podiam voar de fato, mas faria exatamente isso. Subiria na árvore.
– Pare – ouviu alguém dizer atrás de si. Tamanho fora o susto que largou o galho no qual se pendurava e deixou-se cair na lama. – Vire-se.
“Estou ferrada. Vou morrer. Não vou nem saber o que acontece no final de Supernatural! Vou perder o último filme de Harry Potter!”.
Virou-se, lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto enlameado; mas para a sua surpresa, não era ou qualquer um dos outros vampiros que estava ali parado, erguendo uma metralhadora.
– Quem é você? – perguntou o homem, firmemente apontando a arma automática para . Ok, ele era um humano. Visivelmente (se segurava uma arma de fogo!), mas ei! Ele estava apontando para algo que poderia disparar sabem-se lá quantos projéteis mortais por segundo. Aquele sujeito deveria ser temido, mas ela não sentia como se devesse fugir dele. Na verdade, ele estava segurando uma arma de fogo. Aquilo poderia ser de grande ajuda contra vampiros raivosos.
– Você precisa me ajudar – disse em tom desesperado, levantando-se depressa.
– Ei, ei, ei! – ele ergueu ainda mais a arma, fazendo com que ela parasse. – Devagar.
terminou de levantar-se vagarosamente, as lágrimas ainda escorrendo.
– Me ajude, por favor.
– Quem é você? O que faz aqui? – tornou a perguntar. enxugou (e limpou) o rosto com as costas das mãos.
– . Eu... Eu... Tinha um bando de... – engasgou-se na tentativa de dizer vampiros. Mas será que o homem acreditaria nela? Provavelmente não. – Estavam me seguindo, eles disseram que me matariam.
Para a sua surpresa, o homem estreitou os olhos e abaixou a arma. Ainda mais surpreendentemente, ele avançou em e a prendeu contra o tronco da árvore, apoiando sua metralhadora na altura do pescoço dela.
– Olhe para mim – ordenou, com a voz firme, e o fez. Claro que o fez, estava morrendo de medo de ser assassinada. – Eu a liberto de qualquer hipnose e feitiço lançado sobre você. EGO solvo vos ex ullus alica vos sino!
Ele disse de forma imponente, mas não entendeu uma palavra sequer de sua última frase.
– O quê? – perguntou ela, confusa. O homem suspirou profundamente e afastou-se, levando consigo sua arma de fogo, deixando livre.
– Não foi hipnotizada. – ele respondeu e abaixou a metralhadora, deixando seu cano apontado para baixo. – Você fugiu antes de qualquer coisa ein?
Ele agora estava rindo.
– Um grande feito. Você tem muita sorte, . Sou Patrick.
– Você... Sabe sobre eles?
Era um tanto quanto estranho que o tal Patrick
soubesse exatamente do que estivera fugindo.
– Claro – ele olhou de um lado para outro e puxou pelo braço. – Venha.
– Ei, ei, espere! – ela afastou-se, receosa. – Quem é você? Como sei que não está com eles?
Patrick revirou os olhos, mas antes que pudesse responder qualquer coisa, algumas folhas ao redor deles ergueram-se no ar como se uma rajada de vento tivesse irrompido pela floresta. O outro ficou instantaneamente alerta, levantou sua metralhadora na altura dos olhos e circulou a área ao redor de (que por sinal estava muda diante daquilo).
– Apareça! – bradou ele. – Estou esperando por você, maldito!
– Bem, se é assim... – uma voz feminina bem familiar soou melodicamente do lado esquerdo de . Ambos ela e Patrick viraram-se para encarar quem os saudava. Era Sahara.
Mas que infelicidade, pensou . Agora ela estava morta. E Patrick também.
– Há quanto tempo, Patrick – disse Sahara. – Deixe-me adivinhar... Prata sagrada?
Ela se referia à arma. Patrick deu um sorriso esperto.
– Você não se atreverá a vir contra prata sagrada. Não sozinha.
– Mas não estou sozinha.
Então, as folhas fizeram o mesmo movimento de antes, revelando a presença de mais oito vampiros.
– Ora, ora... Veja quem saiu da toca. – esta voz era de Elisha. – Patrick Huddersfield. Como está sua corja de abestalhados?
– Ansiosa para lhe trancar em um caixão – respondeu ele. Elisha deu um sorriso discreto.
– Sabe que não tem chance contra nove de nós. Mesmo com essas ridículas balas.
olhou para Patrick, esperando alguma reação de sua parte. E veio. Ele fechou os olhos e abaixou a arma. “Ei! Não seja tão descuidado!”.
– Illic est a parietis inter mihi quod malum – começou. A expressão no olhar de Elisha aterrorizou-se e ela mostrou suas presas, rugindo de forma ofensiva.
– APRESSEM-SE! – gritou para seus comandados, que tentaram aproximar-se de e Patrick, mas foram invisivelmente jogados para trás.
– Vos vadum operor nos haud vulnero.
Os vampiros continuaram jogando-se contra e Patrick, por todos os lados, mas nenhum de seus avanços surtiu efeito.
– PAREM ELE!
Patrick ergueu sua cabeça e olhou para Elisha, furiosa à sua frente. Virou-se para observar os outros tentando quebrar a parede invisível que ele havia erguido a seu redor.
– Você não vai passar. Não vai machucá-la. – disse.
– Não. Eu vou matar você, Patrick. É só questão de tempo. – a vampira disse, suas presas instintivamente à mostra. – VOU MATÁ-LO!
– VOS VADUM NON OBDUCO!
Urros de dor foram ouvidos dos lábios dos vampiros que tentavam avançar contra os dois. Foi quando Patrick segurou pelo braço e a arrastou, correndo.
– Vamos!
– Peguem-nos pela rodovia! – Elisha ordenou e o bando de vampiros desapareceu instaneamente.
– Deus! O que foi que você fez ali? – perguntou enquanto corria.
– Os repeli com um pouco do que meu pai me ensinou.
– Não podemos correr mais rápido que eles.
– Não se preocupe. Você estará salva enquanto estiver comigo.
CAPÍTULO VIII
That's right, I shed my skin tonight
Patrick continuava segurando-a pelo braço, carregando pela floresta. Uns segundos atrás ele havia usado umas palavras estranhas para impedir que o bando de Elisha avançasse sobre eles. O que fora aquilo? Seria ele algum tipo de mago ou feiticeiro? Seria ele outra criatura sobrenatural?
– Illic est haud via pro lemma impetro nobis – continuou ele, enquanto passavam pela rodovia. – Nos es copiose tutis.
avistou um jipe estacionado em uma das faixas da estrada.
– Venha! – Patrick a chamou. Foi quando Ferris e Drake apareceram à sua esquerda.
– PEGUEM-NOS! – Elisha bradou de alguma distância, a qual não ousou saber. Tinha certeza de que os vampiros a rodeavam agora, preferiu não olhar. Apenas entrou no jipe.
– Nos es tutis exaro nos adepto domus. – ele deu partida no jipe, enquanto o bando de Elisha ainda era lançado para longe ao tentar avançar. – Vos vadum operor nos haud vulnero.
Patrick acelerou o máximo que pôde e o bando os seguiu, na mesma velocidade que o carro. estava impactada pela maneira como o escudo invisível os jogava para trás sempre que tentavam fazer um movimento contra o carro. Patrick não estivera brincando quando dissera que ela ficaria segura enquanto estivesse com ele.
– Qual é? – ele murmurou. – Eles não vão desistir?
– Vos vadum non obduco! Vos vadum non obduco! Vado tergum ex hic!
Então eles desistiram. O carro acelerou estrada à frente e o bando os assistiu sumir pela rodovia.
– UUUUUUUHHHHHHHHHHUUUUUUUUUUUULLLLL! – comemorou Patrick, dando pancadas no volante. – VOLTEM PARA O INFERNO, DEMÔNIOS!
Patrick parou o carro em frente a uma suntuosa construção. Seria aquela sua casa? Era um lugar gigantesco.
– Espere um instante. – ele desceu do carro. – Desça.
obedeceu.
– Venha até aqui, mas não se aproxime muito.
Ele olhava diretamente até o chão, aonde um grande círculo metálico estava preso ao chão. Dentro deste círculo estavam pintados caracteres e símbolos no concreto. Símbolos que não fazia idéia do que significavam.
– Is domus est mei. EGO tutis is quod iam EGO vadum obduco. Tamen secundum mihi nemo.
o observava maravilhada. De alguma forma, Patrick ter sido capaz de repelir o bando de vampiros assassinos, e algo com aquelas palavras misteriosas que ele dizia a deixavam entorpecida.
– Venha. – disse.
– O que você fez? – perguntou ela. Patrick a conduziu pelas escadarias que levavam a porta e tirou do bolso da jaqueta militar que usava um chaveiro que notou ser uma miniatura do Gene Simmons. Enfiou a chave na fechadura e abriu a porta.
– Permiti nossa entrada. É como se fosse o código de segurança. – ele sorriu. – Depois da senhorita.
Após ele lhe ceder passagem, entrou na casa. Não havia coisa mais impressionante do que estar ali dentro. Aquela mobília envelhecida e os tons amarelados eram fascinantes. Parecia estar em Da Magia à Sedução.
– Venha, vou lhe levar até o banheiro. Você precisa se lavar. – ele subiu as escadas e o seguiu. – Quando sair do banho, me contará exatamente o que aconteceu e porque estava sendo seguida.
– Não posso ir para casa?
– Não até termos certeza de que a sua presença não colocará ninguém em risco, bonitinha. – ele deu uma risada divertida e abriu uma porta no andar de cima, revelando um suntuoso banheiro. Após o hall de entrada, deveria ter certeza de que nada ali seria simples.
– Uau – deixou escapar. Patrick riu novamente.
– Você irá encontrar roupões e toalhas no armário abaixo da pia. Vou deixar algumas roupas limpas para você aqui no quarto ao lado.
– Obrigada – disse. – E... Muito obrigada por ter me resgatado. Eu poderia estar morta se não fosse por você.
Ele a estudou por um tempo e sorriu, assentindo com a cabeça.
Após sair do banho, encontrou uma camiseta preta do Kiss e uma calça moletom em cima da cama, como Patrick havia dito. Não havia dúvidas de que eram roupas dele. Ela pôs sua roupa de baixo e vestiu as roupas emprestadas. Havia também um par de meias, os quais ela vestiu, já que estava descalça desde que fugira da casa dos vampiros.
Desceu as escadas cuidadosamente, estudando o espaço, imaginando onde Patrick estaria.
– Olá? – perguntou.
– Aqui! Na cozinha. – respondeu. Ela seguiu o som de sua voz e chegou até o local indicado. – Como se sente?
– Um pouco melhor.
– Bom. – sorriu. – Sente-se aqui – ele apontou um banco ao balcão, de frente a ele (e ao fogão). – Me diga... Por que Elisha estava lhe seguindo?
– Eu... Fui seqüestrada por um dos vampiros dela... Acho que era seu irmão. O nome dele é .
– Argh – Patrick cuspiu. – Claro que foi seqüestrada por ele. A existência desse ser se resume a insanidade. Não que os outros sejam sãos, mas este é o pior de todos.
– Ele... – engoliu em seco. Falar no assunto lhe causava náuseas. – Matou meu amigo... E me levou para uma cabana. Então Elisha e os outros chegaram e me carregaram para sua casa. Mantiveram-me presa o dia inteiro, e agora ao anoitecer pretendiam me matar.
– Você era apenas queima de arquivo? – perguntou ele visivelmente enojado.
– Aparentemente sim.
– Argh. – Patrick largou a faca com a qual picava os legumes e apoiou-se no balcão. – Não sei por quanto tempo mais irei conseguir segurá-los. Precisamos de reforços, precisamos que o mundo saiba do que se proteger! Se já estou tendo problemas com o bando de Elisha, imagine com o resto deles!
– Há mais?
– Claro que há! Os vampiros estão tomando o mundo! É por isso que estou aqui, preciso destruí-los! Mas os malditos são mais rígidos do que titânio.
– Você está sozinho? – engasgou. – Não terá chance contra eles!
– Meu grupo não é o único grupo de caçadores, mas somos os únicos aqui na área de Texarkana. Cuidar do bando de Elisha é minha responsabilidade. Não consegui invadir o ninho desses demônios ainda, mas é apenas... Questão de tempo.
Já que ele estava pacientemente respondendo a todas as suas perguntas, resolveu aproveitar.
– O que foram aquelas palavras que você proferiu?
– Você gostou daquilo, não foi? – ele a olhou e sorriu. sentiu suas bochechas esquentarem. – São feitiços...
Patrick afastou-se do fogão e saiu da cozinha, mas sua voz ainda podia ser escutada.
– Foi passado por gerações entre os Huddersfield. Esta missão de lutar contra os vampiros foi-me ensinada por meu avô e meu pai, e antes ensinados por meu bisavô e assim por diante. – ele voltou segurando um grande livro. Pousou-o em frente a , no balcão. – Este é O Livro. Está na minha família desde... Hm... Muito tempo.
Ela passou a mão pela capa. Aquilo era realmente antigo. Folheou um pouco e o conteúdo daquilo era bem duvidoso. Não conseguira entender uma palavra.
– Que livro é este?
– É O Livro, te falei. Foi encontrado por um dos meus ancestrais, Rudolph Huddersfield, sem nome algum; ele descobriu que os feitiços aí contidos poderiam ser utilizados contra os vampiros. Nenhum deles têm efeito contra seres humanos.
– Incrível... – ela parou em uma página que era ocupada por um desenho. Um grande círculo protegia vários símbolos. Reconheceu como sendo o desenho na entrada da casa. – Sua família descende de bruxos e feiticeiros, sei lá?
– Não – ele riu. – Não é necessário ter... Poderes... Para aprender os feitiços. É tudo sobre aprendizado. E muito tempo de prática. Fui ensinado com essa metodologia desde que nasci.
– Posso aprender isso se quiser também?
– Sim. Todos do nosso grupo utilizam estes feitiços. Alguns melhor que os outros, devido a pratica que mencionei. Alguns feitiços requerem um avançado grau de conhecimento... Mas estes que você me viu proferir são os mais simples. Você poderia usá-los facilmente.
– Demais. – ela fechou o livro e encarou Patrick. – Tudo isso é fascinante.
– É – ele sorriu. – Nunca achei tão fascinante assim, pois cresci com isso. Mas os meus companheiros executam prazerosamente.
– Eles descendem de famílias de caçadores também?
– Não. Somos cinco no total. Kaileen foi a primeira. Ela sabia da existência dos vampiros, veio de New Jersey perseguindo um bando. Tudo o que ela tinha no porta malas era uma pistola, fragmentos de prata sagrada e estacas de madeira. Ela seria massacrada, então eu a ajudei e ela ficou aqui, para aprender o que meus antepassados me ensinaram.
– Há mais três então?
– Sim. Bruce e Jack. Eles vieram juntos. Bruce seria atacado pelo bando de Elisha e Jack, seu primo que acampava com ele no dia do ataque, assistiu a tudo. Viu quando eu e Kaileen os afastamos com os mesmos feitiços que usei hoje. Decidiram se juntar a nós.
– Entendo...
Patrick suspirou e pegou a faca novamente, terminando os legumes e os jogando dentro da panela.
– Vamos comer e eu lhe levo para casa.
CAPÍTULO IX
But my fangs are hard to hide
Após um jantar muito bem preparado de macarrão pene ao molho manjericão, Patrick estava pronto para levar embora quando dois rapazes irromperam pela porta, ofegantes.
– Mas que...? – Patrick se surpreendeu, levando a mão à cintura, onde sua pistola-metralhadora se encontrava ( achou esta arma bem mais legal que a outra).
– Cara, aqueles filhos da puta estão cercando o perímetro! Mal conseguimos chegar até aqui! Pensava que eles haviam declarado paz por um tempo! – um rapaz de cabelos encaracolados e ruivos disse.
– Tivemos que colocar fogo em um deles! – o outro, moreno, de cabelo baixo e barba.
– ... – Patrick disse. – Estes são Bruce – ele apontou para o ruivo. – E Jack. – o moreno. – Rapazes... Esta é .
– Oi – Bruce disse e voltou-se para Patrick. – Mas que faremos? Não há saída livre! Eles são quase o dobro do nosso número.
– Vou sair e falar com ela – ele empunhou a pistola.
– Não! – disse, segurando seu braço. – Você é louco?
– É até idiota que você tema por mim, tendo já visto o que eu posso fazer. – ele sorriu. – Vou liberar a passagem. – ele olhou para Jack. – Chame Kaileen.
– Espere!!! – exclamou, e o seguiu. Passou pela porta junto com Patrick, de forma atenta, grudada à sua jaqueta.
– O que você está fazendo aqui??? – ele indagou. – Volte para dentro! Volte agora!
Mas não havia como se mover. Estava entorpecida pela visão à sua frente. Os nove vampiros montavam guarda atrás do círculo protetor.
– Entregue a garota, Patrick. – Elisha disse.
– Não.
– Você está quebrando o nosso acordo. De forma rude, por sinal. – ela respondeu. – Ela era nossa em primeiro lugar.
– Não havia acordo, não fazemos acordo com monstros.
ouviu a porta ranger e por ela passaram Bruce e Jack, fortemente armados.
– Vão embora. Não há mais nada para você aqui. Ela está comigo agora. – Patrick disse.
– Não temos causado problemas para você e nem para o seu grupinho de amigos.
– Então por que o detetive Lasseour está vindo diariamente até a minha casa? Está na hora de você mudar de rota, Elisha. Não vou mais ficar assistindo a sua matança desenfreada.
– Esta é a nossa casa.
– É a minha casa. E irei proteger Texarkana até o fim de meus dias, que espero com anseio, será o seu dia também.
Elisha sorriu.
– Sabe que vou acabar com você da mesma forma que fiz com seu avô. E seu pai... E aquela família miserável que você tinha. – disse ameaçadoramente.
ouviu suspirar e trincar os dentes, apertando a pistola em seus dedos.
– Vá embora, Elisha. Você não quer me enfrentar.
– Realmente acha que é melhor que seu avô? Eu o derrotei. Posso derrotá-lo em um piscar de olhos.
– Por que não o fez ainda? Ahn?! – bradou. – Vá ou vou incendiar você e seus sugadores.
Após um longo tempo em silêncio encarando aos quatro postados escada acima, Elisha ordenou:
– Recuem.
E os oito vampiros sumiram rapidamente. achou muito esquisito que seus cabelos tivessem balançado com a partida deles.
Apenas Elisha restava ali.
– Sabe que isso não está acabado. – disse ela.
– Mal posso esperar para que termine – Patrick respondeu e então, Elisha havia ido também.
Já dentro da casa, Bruce e Jack pousaram suas armas na mesinha ao lado do sofá de recepção e Patrick fez o mesmo.
– Por que eu faço tanta diferença para ela? – perguntou.
– Não é você, docinho – Jack respondeu. – Elisha está aproveitando uma oportunidade de nos provocar.
– Quer dizer que não posso ir pra casa?
– Não enquanto eles ainda estiverem fervendo por um massacre.
A porta abriu lentamente e uma garota entrou.
– O que eu perdi?
Ela era bem comum. Tinha cabelos ondulados, mas sem muito volume. Usava uma calça jeans suja com algo que suspeitava ser graxa, e uma camisa masculina xadrez. Além das botas de combate amarradas sobre a calça.
– Provocações dos sanguessugas. – Bruce respondeu.
– Eles fizeram algo?
– Vieram atrás dela – ele apontou e a garota, que ela suspeitava ser Kaileen, se aproximou.
– Olá – estendeu a mão. – Sou Kaileen.
– . – apertou a mão oferecida.
– Estava sendo perseguida?
– Sim.
– Espero que fique bem.
– Obrigada.
Patrick interrompeu:
– Mataram o companheiro dela, e agora, Elisha está vendo na garota, que era sua queima de arquivo, uma oportunidade para criar uma tempestade conosco.
– É justo. Vamos pegá-la então, estamos esperando uma oportunidade há muito tempo. – Kaileen sugeriu.
– Não pode ser assim. Vamos ver nossas opções, planejamentos e tudo o mais. Por enquanto, quero levar essa moça para casa.
sobressaiu-se. Opa, pensou ela.
– Não vou voltar para casa! – disse. – Não quero que meus pais acordem e dêem de casa com um vampiro na cabeceira da cama!
Jack deu uma gargalhada e Bruce disse:
– Eles não podem entrar sem serem convidados.
– Isso é o de menos!
– Não, é de grande ajuda na verdade.
– De qualquer forma – voltou a falar. – Não voltarei. Quero ficar aqui e me juntar a vocês.
– Epa... – Bruce murmurou.
Kaileen lançou um olhar a Patrick, que massageou a região dos olhos.
– Por que você quer ficar? – perguntou ele.
– Tenho direito de ficar! Aqueles malditos mataram o Fred! – exclamou, afastando-se dos outros. – Tenho direito de me vingar por ele. E quero ser capaz de proteger eu mesma a minha família. Quero ser capaz de oferecer segurança para os irmãozinhos do Fred, para que eles não sofram o mesmo!
Ela observou o grupo se entreolhar e posteriormente, os três encararem Patrick, seu líder.
– Certo. Você pode ficar. – ele consentiu. – E vá bolando uma história para contar a polícia sobre o desaparecimento do seu amigo. Logo logo o detetive Insuportável Lasseour estará a nossa porta novamente.
CAPÍTULO X
And you know that you’re going to die
– E foi assim que aconteceu – finalizou, suspirando com vontade e abaixando os olhos da forma mais natural que conseguia. Algo lhe dizia que aquele detetive não era amador, saberia se ela estivesse mentindo.
– Tem certeza que sua família sabe onde você se encontra? Quero dizer, deram entrada na sua ficha na sessão de desaparecidos junto com a do Fred Oliver – o homem disse, contornando o bigode com os dedos. ergueu a cabeça e pôs-se de pé, mas Patrick avançou alguns passos.
– Nós a conduzimos recentemente. Seus familiares estão cientes da presença de aqui. – respondeu ele.
O detetive Lasseour passeou com os olhos por todos os rostos presentes naquela sala, desconfiado. Suspirou algumas vezes e resmungou algo incompreensível, abaixando a cabeça para rabiscar em seu bloco.
– Você não sabe onde o seu amigo se encontra então? – perguntou o homem.
– Não. Já lhe disse, o ladrão me golpeou. – sentia sua voz vacilar a qualquer instante. Mentia o tempo inteiro na escola, roubava provas e sabotava o almoço... Mas aquela situação não poderia ser comparada a simples traquinagens de colegial. Seu coração apertava só de pensar em mentir sobre a morte de Fred, em como sua família não estaria desesperada por notícias; mas de qualquer forma entendia que era melhor dessa forma. Não havia nada que a polícia pudesse fazer para vingar Fred. Patrick e seu grupo sim, eles podiam fazer algo.
estava especialmente ansiosa para as explicações que Patrick prometera sobre O Livro. Esperaram até que o detetive Lasseour fosse embora – muito desconfiado – prometendo consultar a família de sobre seu desaparecimento. Ela e Patrick sabiam que Lasseour voltaria em breve – e provavelmente com um pelotão inteiro, para levar embora.
– Então... Vamos começar isso antes que ele volte? – ela perguntou, sentada em uma das poltronas postadas na biblioteca, que por sinal era um cômodo tão suntuoso quanto qualquer cômodo daquela casa.
– Sim – Patrick sentou-se no sofá à frente da poltrona. – O que você deve saber sobre vampiros... Hm... Vejamos... Melhor. O que você quer saber sobre vampiros?
– Como os matamos.
Patrick esboçou um sorriso e bufou.
– Se você quer eliminar algo, tenha certeza de saber tudo sobre isso. Não vá de cara limpa, não ataque de frente, conheça todos os pontos fracos do seu oponente. Meu avô sempre dizia, um vampiro tem o dobro da nossa força, mas metade da nossa inteligência. Se você não os subestima, é bom que eles não o subestimem também. – ele levantou e escolheu um livro em uma das muitas prateleiras. – O ato da criação de um vampiro é simples. O progenitor deve alimentar seu progênito com o próprio sangue momentos antes de sua morte, a do vampiro neófito, óbvio.
Patrick folheou o livro e o abriu em certa página, entregando desta forma para , que o recebeu e o acolheu em seu colo, estudando atentamente a página. Não conseguia entender muito do que dizia; pelo que conhecia da língua, o livro estava escrito em espanhol.
– Consegue entender? – perguntou ele.
– Mais ou menos. O que diz exatamente?
– Esse livro foi escrito em meados de 1700 por Fernando Barjas. Barjas foi um caçador, o primeiro a ousar escrever um livro sobre criação de vampiros. Ele cria, como meu avô, que quanto mais você conhecer a espécie inimiga, mais fácil eliminá-la.
– O que ele escreveu? – perguntou , folheando mais adiante e verificando os desenhos e anotações.
– Como era possível criar um vampiro; situações presenciadas por ele; como um neófito age após a transformação; como um ser humano suporta a transformação, esse tipo de coisa. É bem útil, eu sugiro que você leia.
– Então... – fechou o livro e o devolveu a Patrick. – Não sei Espanhol. Reprovei na matéria ano passado, tive que ficar para a Escola de Verão.
– Excelente. Então... Sente-se. Vou lhe passar o que aprendi.
– Você quer dizer que não basta apenas enfiar uma estaca neles?
– Uma estaca é... Inútil. Eles vão retirá-la e se recuperarão rapidamente. Você precisa causar danos irreparáveis. Sim, a perda de sangue pode deixá-los fracos para que você os destrua por completo, mas não confie apenas nisso. – Patrick respondeu. O relógio marcava oito da noite e eles haviam estado ali durante toda a tarde e boa parte da noite. Fora proveitoso, pois conseguira compreender tudo o que o outro lhe passara.
– Entendo. E qual é o método mais eficaz?
– Fogueira. Queime-os. – ele esticou o pescoço e bisbilhotou o relógio, levantando-se rapidamente – Não acredito que perdemos tanto tempo aqui.
levantou-se em seguida.
– Não foi bem uma perda de tempo, eu aprendi várias coisas.
– É, mas hoje eu devo patrulhar lá fora. – Patrick correu para fora da biblioteca e o seguiu. Ele foi até a sala de estar e abriu o armário, retirando a metralhadora que já conhecia. – Kaileen vai aparecer em poucos minutos, eu pedi para que ela lhe vigiasse enquanto eu estivesse fora.
– Você vai matar... Alguma coisa? – a outra perguntou amedrontada. Patrick riu.
– Apenas se alguma coisa entrar no meu caminho – ele acenou com a cabeça e voou porta afora.
CAPÍTULO XI
Mercy is all that you need, mercy is empty in me
Uma semana havia passado desde que estava com Patrick. O detetive Lasseour havia retornado, como eles previram, e carregou de volta para sua família. Ela passara uma noite em casa e saíra na manhã seguinte, deixando um bilhete estúpido que provavelmente assustaria sua mãe ainda mais. “Estou bem, conheci um cara, estou com ele. Não se preocupe comigo, mandarei notícias”. Sabia que a Sra. iria arrastá-la dos confins do inferno de volta para casa, mas enquanto isso, aprenderia como aniquilar alguns vampiros por aí.
– E aí – ouviu uma voz soar da porta até ela. Era Bruce. – Está empolgada com os aprendizados?
sorriu e fechou o livro, marcando a página em que se encontrava com a mão. Estava ali na biblioteca fervorosamente lendo um exemplar que Patrick lhe entregara sobre os como novos vampiros se adaptam à vida noturna. Chamava-se Nocturne Obiceiuri. Segundo Patrick, fora escrito por algum casal de caçadores romenos. Ele havia deixado um próximo exemplar na fila da leitura de , sobre estudos comportamentais de neófitos e progenitores (Preludes Behavior, de algum alemão que ela não entendera a pronúncia do nome). Estava bem ansiosa para ler este, queria saber qual era a real relação entre um criador e sua cria.
– Sim! Este exemplar romeno é bem interessante. – ela tornou a abrir o livro e folheou suas páginas. – Minha sorte é que alguém da família de Patrick traduziu as informações mais valiosas.
Bruce aproximou-se e espiou as anotações já levemente embaçadas por todos os cantos da página.
– Sim, eu me lembro quando li Nocturne Obscure pela primeira vez, não sabia uma palavra em romeno, se não fossem essas anotações estaria perdido. – disse ele.
franziu a testa e olhou a capa do livro, lendo em voz alta o título.
– Não seria Nocturne Obiceiuri? – perguntou confusa. Bruce soltou uma risada.
– Nos acostumamos a chamar Obscure. Mas de qualquer forma, sempre achei fantástico o conhecimento existente a respeito de vampiros. Achava que não houvesse muitos registros e nenhum testemunho, sabe? Achava que o Congresso não deixava nada passar. É impressionante como mesmo em épocas tão escassas de recursos como 1700, alguém tenha conseguido juntar tanta informação, e como essas informações passaram de geração em geração sem serem perdidas.
Parando para pensar em tudo aquilo, ele estava correto. Mesmo em tempos tão modernos como os atuais, estudiosos levam anos, décadas para concluir pesquisas e encontrar curas. Com toda certeza os antigos eram mais inteligentes, pensou .
– O que é o Congresso? – perguntou ela, ao ouvir Bruce comentar sobre o tal Congresso.
– O Congresso é... Um conselho de vampiros anciões e novos vampiros influentes. Eles redigem as regras da sociedade vampírica e toda essa merda. São imaculados, não há como tocar nesses filhos da puta. A segurança ao redor deles é tanta que nem feiticeiros poderosos podem invadir a barreira.
– Vampiros anciões você quer dizer muito, muito velhos... Tipo... Mil anos, certo? – perguntou , recebendo um aceno de confirmação. – E novos vampiros influentes?
– Você conhece... Karl Timbbleman? – perguntou ele.
– Sim, não é dono daquelas empresas de cosméticos?
– É, Karl é dono da Planetarium Company, grupo de empresas biomédicas. Ele faz parte do conselho.
estreitou os olhos.
– Quer dizer que... Ele...
– Sim. Karl é um vampiro.
– Mas como? Ele é uma figura pública, como...? – era quase absurdo pensar em vampiro envelhecendo. Aquele homem, Karl Timbbleman, havia envelhecido! lembrava das reportagens falando sobre botox e tudo isso nos programas de fofoca!
Bruce riu. Como achava engraçado o fato de um vampiro envelhecer?
– A Planetarium Company, para os humanos, é uma empresa de cosméticos. Mas, na verdade, faz pesquisas em prol dos vampiros. Karl conseguiu desenvolver uma tinta de cabelo que tinge os fios vampíricos. Conseguiu também fazer uma substância reagir na pele dos vampiros que foram tatuados ainda humanos. Essa substância retira a tatuagem, mas não é permanente, assim como a tintura capilar. A tinta dura menos do que uma tintura comum. Se a tintura para humanos dura seis meses, a para vampiros dura dois. E a substância para remover tatuagens reage apenas por menos de dois anos. Após um ano e meio de aplicada, a tatuagem volta a aparecer. O processo inverso serve para criar tatuagens. Não é permanente, mas ela dura no máximo um ano e meio. – Bruce explicou, brincando com as folhas dos livros empilhados ao lado de . – Karl é um visionário. É um vampiro bastardo que tira vidas de crianças inocentes, mas... É um visionário. Comenta-se até que ele está trabalhando em uma poção para inibir os efeitos do sol.
ouvia a tudo atentamente, e boquiaberta. Aquilo ia contra tudo o que ela já havia estudado até agora.
– Mas... Como... Os vampiros deveriam ser incapazes de mudar, de acordo com a maldição...
– , ! – Bruce a interrompeu. – Há dois pesos e duas medidas para tudo nessa vida... E na pós-vida também. Você sabe como os cristãos acreditam na teoria do Criacionismo para explicar a origem do universo, certo? E os cientistas acreditam na teoria da Evolução e no Big Bang.
“Ah... Sim” pensou ela. Dessa forma fazia mais sentido.
– Você quer dizer que a real origem dos vampiros é desconhecida?
– Exatamente. Sabemos de onde eles vêm, mas não sabemos. – suspirou ele. – Mas agora, não é estritamente necessário para você se preocupar em escolher um lado. Vá lendo e forme sua opinião.
Esclarecida essa dúvida, voltou a intrigar-se com a “humanidade” do Sr. Timbbleman.
– Não acredito que Karl Timbbleman é vampiro. Ele parece envelhecer...
– , Karl é dono da Planetarium. Eles desenvolvem qualquer tipo de cobertura facial. Quem você acha que encontrou fórmulas para maquiagens que durassem o suficiente em vampiros?
– Puxa... – disse impressionada. – Existem outros vampiros públicos como ele?
Bruce esboçou um sorrisinho esperto, cruzando os braços.
– Não acreditaria se eu dissesse quantos. – respondeu e soltou uma risadinha rouca.
– Ahhh, me diga! – implorou ela, esticando-se sobre o braço da poltrona onde sentava.
– Vou lhe dar uma dica – começou Bruce, aguçando a curiosidade da outra. – Vampiros não podem sair ao dia.
Pronta para retrucar e pedir para que Bruce lhe entregasse os segredos dos vampiros famosos, foi interrompida por Kaileen, que apressou-se ao entrar na biblioteca.
– , o detetive Lasseour está aí. E ele trouxe sua mãe. Acho melhor você inventar uma história muito boa, pois ele está dizendo que vai nos prender se não falar com você.
CAPÍTULO XII
I can't regret, can't escape decisions made for me, no control
Não houve muito tempo para pensar antes que o detetive e uma mulher esbaforida irrompessem de lugar nenhum ( só os enxergou vindo em sua direção, muito furiosos).
– ! O que você pensa que está fazendo? Que merda é aquele bilhete? Você acha que pode sair por aí sem me dar satisfações? Ou ao seu pai?! Tem noção de que ele não sabe que você fugiu? Se ele souber, é capaz de vir até aqui com um cinto afivelado para lhe marcar as pernas, menina idiota! E o Fred? Onde está ele? Peggy está desesperada por notícias, está achando que ele morreu! Fale! Fale, ! – a sra. agarrou pelos braços e a sacudiu de forma brusca, tentando obter respostas, mas foi afastada pelo detetive.
– Mãe...
– Acalme-se – ele disse à sra. . – – voltou-se para .
“Deus, que confusão...” pensou. Fechou os olhos por cinco segundos, e os gritos de sua mãe, dizendo que tinha direito de berrar e saber o que estava havendo ainda ecoavam por toda a sala. Agora ela ouvia a voz de Kaileen pedindo para que todos se acalmassem e por fim, a última voz restante foi a do detetive Lasseour.
– ! Me ouça! – ele dizia. – Abra os olhos!
E assim a garota fez. Abriu os olhos e a cena que viu foi pior que a anterior. Kaileen estava acolhendo sua mãe, e Bruce retornava para a biblioteca com um copo de água.
– Olhe para mim! – o detetive pediu mais uma vez.
– Ele está morto. – respondeu, de forma robótica.
Foi como se o slow motion fosse ativado. Todos pararam e viraram-se para ela. O silêncio reinava no cômodo.
– O que disse?
– Fred... Ele está morto. – repetiu. Ergueu os olhos e observou Kaileen cobrir o rosto com as mãos. – Desculpe... –disse a ela. – Não posso mais esconder.
Caminhou até a mãe, sentindo os olhos arderem e lágrimas se acumulando em seus dutos.
– Ele morreu – falou, passando os dedos pelas bochechas, enxugando as gotas que escorriam. – Diga à Peggy que sinto muito...
– O que você está dizendo, filha? – perguntou sua mãe, chorosa. – O que aconteceu? O que está havendo? Me diga!
– – o detetive Lasseour disse de forma direta. – Conte-me tudo o que sabe. Ou irei prender todos vocês por ocultação e cumplicidade em homicídio.
A garota deixou os ombros cederem e estava pronta para caminhar na direção do detetive quando alguém segurou seu braço suavemente.
– Não – ouviu Patrick dizer. – Não é ela quem lhe deve explicações.
Patrick estivera fora por algumas horas, foi a algumas lojas comprar artefatos necessários, segundo o próprio.
– Então quem é, Huddersfield? Você? Porque se eu não sair desta casa com mínimos detalhes no meu relatório, sairei com suspeitos. O que você prefere?
virou-se, vendo Patrick suspirar lenta e pesarosamente. Nada daquilo estava em seus planos, ela havia arruinado tudo. Agora ou ele contaria a verdade, ou mentiria ainda mais, mas que mentiras inventaria para encobrir toda a história?
– Vou lhe contar, Lasseour. Mas você deve acreditar em cada palavra do que eu disser. Acredite, pois tudo o que lhe contarei me foi contado por meu pai, seu grande amigo. Sei que têm ajudado minha família por todos os favores que meu pai lhe prestou, e sei que vocês tinham certos acordos, mas não sou meu pai. E se vamos trabalhar em conjunto, isso deve ser feito de forma sincera. E igual.
As palavras de Patrick haviam atingido o detetive de forma confusa. Sua expressão não negava.
– Que quer dizer, garoto? Vai me dizer que todos aqueles assassinatos, todos eles, que misteriosamente se ligavam à sua família...
– Não – Patrick o interrompeu. – Não somos assassinos. Nós perseguimos assassinos.
– Como ass...
– Sente-se, detetive. Acho que o senhor vai precisar de algo para se apoiar.
Enquanto Patrick se encarregava de lutar contra as descrenças do detetive Lasseour, se preocupava em despreocupar sua mãe. Lhe dissera tudo sobre o seqüestro; sobre a morte de Fred; sobre não saber onde seu corpo estava, e sobre ficar com Patrick para aprender o que ele sabia. A Sra. não concordara com o plano.
– Mãe... Por favor, entenda. Eu estarei segura com eles! Eles caçam essas coisas, esses monstros têm medo de Patrick, nada me acontecerá!
– Não, você deve ficar onde eu possa lhe ver e lhe proteger, não posso lhe vigiar contigo tão longe, ! – disse sua mãe. a olhou de forma carinhosa.
– Não pode me proteger disso, mãe... Não há proteção lá fora para mim, não contra isso. A única forma de me proteger é essa, ficando com Patrick, aprendendo o que lhe foi ensinado! Me deixe ficar, por favor!
– Deus do céu... O que eu vou dizer ao Reuben... O que você está pensando, menina, como pode tratar disso com tanta simplicidade...
– Não é simplicidade! – exclamou . – Preciso vingar o Fred! Preciso ser capaz de proteger vocês da forma que Patrick e os outros protegem as pessoas! Mãe, nós podemos isolar a sua casa, pelo que eles me disseram, podemos impedir que se aproximem de vocês, podemos lhes proteger! Por favor... Deixe-me ficar e aprender o que ele sabe, por favor.
– Mas e a escola...
– A escola parece tão insignificante diante de tudo isso, não acha?
Após um momento de silêncio, a Sra. suspirou tristemente.
– Não posso crer que Fred está... Ele era um rapaz direito. Meio desmiolado, mas um bom garoto. Não sei como direi a Peggy...
segurou a mão de sua mãe, acariciando-a gentilmente, quando ouviu alguém chamá-la em voz baixa.
– Venha aqui – disse ele. Ela o seguiu até onde Kaileen, Jack (aparentemente recém chegado) e Bruce se reuniam. – Você não pode contar a mãe do seu amigo que ele faleceu. Ela deve pensar que ele ainda está desaparecido.
– Mas...
– , pense bem. – Patrick disse. – Duas pessoas saberem da verdade agora, não é nada. Mas imagine o alvoroço que isso causará sem a preparação necessária? Não é o momento. Convença sua mãe a esconder a verdadeira história por enquanto.
– Mas e o detetive? Ele não nos causará problemas? – Jack perguntou. – Que merda cara... Se essa garota não tivesse vindo parar aqui, nada dessa porcaria teria acontecido.
encolheu os ombros e abraçou o corpo. Percebendo seu recuo, Patrick passou o braço pelos ombros de de forma reconfortante.
– Essa garota precisou da nossa ajuda. Essa garota passou por maus bocados e tem tanto direito de estar aqui quanto vocês. Sabíamos que isso aconteceria uma hora ou outra. Meu pai era muito melhor em enrolar o Lasseour do que nós somos. Ele pareceu acreditar em tudo o que eu disse, está dando uma olhada nos livros... Pediu uma prova, então, eu lhe darei uma prova de que estou falando sério.
Ele passou o olhar por cada um dos rostos que lhe observavam atentamente.
– Vamos provocar um encontro com o bando de Elisha. – falou. – Vamos dar uma voltinha pelo território deles e ver se atiçamos nossas presas.
Por mais que o aperto de Patrick a acalmasse, não gostava do soar da palavra “atiçar”.
CAPÍTULO XIII
Fire that buns and never dies, wrapped around I'll bury my fangs inside
Não queria ficar sozinha naquela casa enquanto Patrick e os outros se arriscavam indo de encontro aos inimigos. Queria ir junto e pôr em prática tudo o que aprendera nos últimos dias, queria enfrentá-los da mesma forma que os outros faziam! Mas não importava o que dissesse, Patrick iria sempre rebater dizendo que não a permitiria. Teria mesmo que enfurnar-se naquela biblioteca, entupir-se de livros e poeira, e zumbizar de preocupação.
Após ouvir um último berro de “NÃO!”, trancou-se em seu quarto (o quarto que lhe foi oferecido a princípio), mas nenhuma tranca impedia Patrick de entrar nos cômodos de sua casa. Então ele adentrou os aposentos de para encontrá-la de cara feia na cama.
Ele sentou-se ao seu lado e esperou alguns momentos antes de dizer alguma coisa.
Após muito implorar e jurar que ficaria bem, a sra. decidira deixar aos cuidados e aprendizados de Patrick. Fora para casa com o coração apertado, e sabia que sua mãe estava, naquele momento, deitada na cama da filha, com a mente pesarosa.
Mais tarde, Patrick e sua trupe fizeram uma viagem à casa da família de , para proteger o perímetro, impedindo que qualquer ser noturno ultrapassasse a barreira da rua inteira. E para deixar os ainda mais seguros, criariam uma segunda barreira, especialmente envolvendo a casa.
fez um pedido especial a Patrick; para que protegessem a casa da família de Fred também. E assim o fizeram.
O detetive Lasseour estava ali, preparando-se para a “luta” junto com os outros. Estava mais preocupado que Patrick fosse lhe dar um fim. Levá-lo para o meio do mato e o fuzilar. podia perceber sua face desconfiada.
– ... Não fique brava comigo – pediu Patrick, tentando tocar nas mãos da garota, que as afastava sempre que ele tentava. – Não acho que seja incapaz de se defender, só acho que não esteja preparada.
– Como sabe que não estou preparada se nem tentei?
– A única coisa que você fez foi ler livros. Precisamos praticar ainda, e não é em um combate real que você irá praticar.
Ela ergueu os olhos e quando encontrou os de Patrick, ele sorriu.
– Não fique chateada. Sério, não vai perder muita coisa. Vamos chutar umas bundas e voltar para casa antes que você perceba. Daí esse detetive idiota vai nos deixar em paz.
deu uma risada e ele a acompanhou.
– Tudo bem? Posso ir sabendo que você não fará nenhuma estupidez como ir atrás de nós e tentar nos salvar com uma faca de cozinha?
Mais uma risada. Ela balançou a cabeça negativamente, desaprovando a piada de Patrick. O rapaz sorriu novamente, parando por um instante e observando a outra.
– Gosto do seu sorriso. Não deveria emburrar o rosto.
– Estamos prontos – Jack gritou do hall de entrada, chamando a atenção de Patrick.
– Voltaremos antes que você possa ouvir a porta fechando. – e dizendo isso, partiu.
Estivera sozinha, lendo e fazendo anotações entre os grandes e velhos livros empoeirados da biblioteca de Patrick por horas. Nunca ficara tão empolgada por estudar algo. Estava comprovando a teoria de que quando se tem interesse, tudo fica muito mais fácil. Filosofia certeira.
Copiava em papéis limpos alguns dos símbolos que aprendera n’O Livro. Era realmente impressionante como toda aquela coisa parecia ter efeito, se não tivesse visto funcionar com seus próprios olhos, poderia jurar que era um livro de fantasia.
Pusera em sua cabeça que usaria aqueles símbolos em breve, quando Patrick fosse lhe ensinar a usar os feitiços na prática. Queria surpreendê-lo, desta forma, ele veria o quão preparada ela estava.
Fervorosamente copiava os símbolos quando uma pancada assustadora soou no hall de entrada, e de repente, vozes encheram a casa. E gritos.
– Coloquem-no no balcão da cozinha! Rápido! – este era Patrick. largou tudo o que apoiava em seu corpo na poltrona onde sentava anteriormente e correu até lá, com os pés descalços (não se preocupara em calçar as sandálias). A cena que avistara fora alarmante. Patrick, Jack e o detetive Lasseour carregavam um Bruce ensangüentado e aterrorizado, gritando sem parar. Kaileen não estava com eles.
– O que houve? – tentou perguntar, mas fora ignorada.
Seguira a comitiva até a cozinha e vira que o balcão já estava vazio. Lá Bruce foi deitado, e rapidamente Kaileen apareceu segurando gaze e um velho livro. Entregou-o a Patrick.
– Agüente firme, cara – Jack disse ao amigo, afastando-se alguns metros para abaixar-se ao chão, abrindo os armários e tirando alguns frascos de lá.
– Ele está perdendo muito sangue, Jack, rápido!
– O que houve? – tornou a perguntar , e mais uma vez, sendo ignorada.
– Merda... Merda... PORRA! – o detetive Lasseour dava voltas ao redor do próprio corpo, com as mãos na cabeça. – Que merda... Essa merda... – de repente pareceu recuperar os sentidos. – Eu preciso de uísque. – encontrou no meio da agonia e dirigiu-se à ela, agarrando-lhe os ombros com força. – ME ARRANJE UÍSQUE!
– Tudo bem, eu vou lhe arranjar uísque! – disse rapidamente, desvencilhando-se das mãos do homem e correndo até a sala de estar, onde ficavam as bebidas já abertas. O detetive lhe seguiu.
correu até o carrinho antigo que deveria carregar bules de chá e café, mas estava repleto de garrafas e alguns copos. Encheu um copo com uísque e o entregou ao detetive que virou tudo em um gole. “Puxa, a coisa deve ter ficado feia” pensou ela.
– Merda... Essa merda toda... Vampiros... – ele lhe devolveu o copo e apontou para a garrafa. serviu mais e o homem bebeu de um gole novamente. – Essa merda existe. Que... Porra é essa? Minha família... Não está segura. Ninguém está seguro. A policia veio sendo treinada para proteger o país e o mundo de marginaizinhos de esquina... Como vamos combater isso?
– Eles não podem entrar em sua residência sem serem convidados, detetive – tentou amenizar.
– GRANDE MERDA! Enquanto estivermos na rua somos alvos fáceis! A população precisa ser avisada. Precisamos desenvolver métodos de combatê-los, precisamos lutar!
– Detetive! – o segurou. – Fique calmo! Acalme-se. Depois pense direito. Pode se servir à vontade.
Estava nervosa para saber o que ocorria com Bruce na cozinha, voltou para lá correndo. Encontrou o rapaz (ainda choroso, mas menos gritante). Havia um incenso queimando próximo à ferida no pescoço de Bruce (uma ferida, pelo que enxergava, muito feia), além de uma gosma verde, que Kaileen aplicava sobre a mordida – e que fez Bruce gritar ainda mais alto.
– Segurem-no – Patrick ordenou, portando O Livro, e observando suas páginas fervorosamente. – Desenhe o quarto ali na barriga dele.
Jack rasgou a blusa de Bruce e com um líquido púrpura, melou os dedos e desenhou um dos símbolos que havia aprendido momentos antes. Segundo O Livro, aquele símbolo significava a expulsão do mal de um local, se ele já estivesse instalado. Era um dos símbolos que vira desenhados na entrada da casa.
– Ut putus cruor illae parvulus sceptrum vos – começou Patrick. Os gritos de Bruce não poderiam ficar ainda mais ensurdecedores. Se ali houvesse vizinhança, eles chamariam a polícia sem dúvida. – Segure-o!
– Estou tentando!
– Ut memor deus adeo veho vos.
– Patrick, ele está desmaiando! – Kaileen gritou, ao perceber Bruce desfalecendo.
– Não podemos fazer uma infusão antes de fecharmos a ferida! Dêem-me suas mãos!
Kaileen e Jack posicionaram-se ao redor da parte superior do corpo de Bruce e deram as mãos. Patrick passou seu braço por cima do balcão para segurar a mão de Kaileen.
– Vocês conhecem essa, me ajudem.
– Não morra, Bruce – Kaileen já estava chorando.
aproximou-se do grupo e abaixou sua cabeça para alcançar Bruce. Seus olhos pesarosos; ele estava lutando contra suas pálpebras, mas elas pareciam ter o controle.
– Fique consciente, eles estão quase conseguindo. Fique consciente e você já estará de volta. – disse a ele em voz baixa. percebeu que Bruce tentara fazer alguma espécie de esforço para falar, mas estava muito enfraquecido. – Não, não fale!
– ANNA! – ouviu Patrick chamar e ergueu o corpo em um pulo. – Conhece o feitiço da expulsão em corpo?
– Expulsão? Mas eu pensei que isso fosse para expulsar um vampiro de certo local! Bruce está se transformando? – surpreendeu-se.
– Não! Mas este mesmo feitiço, dito de outra forma, pode fechar uma ferida provocada por vampiros, não tenho tempo para explicar, você conhece?!
– C-conheço! Estudei sobre ele hoje, não sei se posso recordar... – disse amedrontada. Sentia-se pressionada.
– Dê-me sua mão! Entoe em voz baixa o que você consegue lembrar, tenha em mente pensamentos positivos, pense no Bruce. Acredite que o que você está dizendo pode salvá-lo!
– PATRICK! – Jack gritou.
– Vamos lá!
Ele estava certo. não estava pronta para aquilo. Não tinha certeza de como fazer, e se arruinasse tudo? Deu sua mão a Patrick e a outra a Jack, sentindo algo gosmento melecar seus dedos. Não quis olhar o que era, apenas fechou os olhos e tentou concentrar-se nas palavras que deveria dizer.
– Haud vulnus vos partum, haud vix, haud vulnero mos vindico is parvulus! – Patrick dissera.
– Illic est a parietis inter mihi quod malum... – murmurou. Tentava forçar-se a pensar em Bruce, constantemente rindo e fazendo piadas, e pregando sustos nas pessoas. – Vos vadum operor nos haud vulnero.
– EGO iam expulsum vos, EGO iam vigoratus vix vos no – Patrick, Kaileen e Jack disseram juntos. – EGO vigoratus vulnus vos partum, EGO expulsum vos!
– Vos vadum operor nos haud vulnero. – continuava sua pregação. – Nos es copiose tutis.
– NOS TRIBUO VITA! NOS TRIBUO VITA!
– Vado tergum ex hic!
Foi quando a fumaça vinda do incenso parou de emergir e pôde ver a deformidade no pescoço de Bruce lentamente ser cicatrizada. Eles soltaram as mãos e esperaram o amigo voltar a si, mas não aconteceu. Jack inclinou-se sobre o corpo do rapaz e constatou:
– Está respirando.
–Vou buscar O Negativo! – Kaileen informou, e saiu às pressas. Patrick pousou o livro ao lado da cabeça ensangüentada de Bruce e inclinou-se sobre o balcão, apoiando-se nas mãos, visivelmente cansado. afastou-se.
“Nossa” foi seu único pensamento.
CAPÍTULO XIV
Making my way through the night you're still in my sight
O detetive Lasseour fora embora relutantemente bêbado, dirigido por um Jack às gargalhadas. Kaileen estava protetora ao lado de Bruce, tomando todos os cuidados para que o amigo ficasse a salvo. Todos acreditavam que ficaria, e não poderia discordar de tanta crença.
Patrick permanecera trancado na biblioteca por uma hora, ninguém tentou incomodá-lo, mas o faria. Era a menos indicada a fazê-lo, mas achava que aquele ponto, Patrick poderia querer conversar.
Abriu a porta cuidadosamente, colocando a cabeça para dentro, avistando-o, sentado na mesma poltrona que ela sempre ocupava, com a cabeça apoiada nas mãos. Aproximou-se e sentou no braço da poltrona.
– Isso é tudo minha culpa – disse ele.
– Nada disso é sua culpa.
– Como aquele sugador filho da mãe achou uma brecha na nossa barreira? – ele ergueu o rosto e olhou para algum ponto no vácuo ao lado de . – Bruce pode ter estado desconcentrado... Só pode ter sido isso. Quero acreditar que foi dessa forma, ele não pode ter encontrado uma brecha... Não pode ter feito um buraco em nossa defesa.
– Não há brecha para ser encontrada, Patrick. Erros acontecem às vezes.
– Mas eu não me permito errar. – ele finalmente a encarou. Parecia que carregava o mundo nas costas. – Meu pai não falhou, meu avô, nenhum de meus ancestrais falhou em proteger Texarkana. Por que estou falhando? Tem gente morrendo como formigas lá fora, e o que eu posso fazer? Nada! É tudo minha culpa, eu deixei que seu amigo morresse, eu deixei que Bruce fosse atacado...
– Se seu nome é e você tem presas então sim, Fred está morto por sua causa. Pat... – nunca havia o chamado de Pat, mas via todos fazerem isso o tempo inteiro, talvez aquela fosse a hora de usar a intimidade que conseguira nos últimos dias. – Elisha e seu bando estão aí por mais tempo que você. Talvez você seja muito jovem, seu pai, seu avô... Eles eram mais experientes.
– Não conheço outra coisa. – ele encostou-se na poltrona e ergueu a cabeça, olhando para o teto. – Não fui à escola, meu pai me ensinou a vida inteira. Além de ter me dado lições de assassinato, né? Não tive infância, não sei nem o que isso significa. Não sei o que é ser um adolescente e não faço idéia se estou sendo um bom adulto. Nada disso me foi ensinado. Sabe no que eu penso todos os dias quando acordo? – perguntou, voltando a encará-la.
negou com a cabeça e ele continuou:
– Penso se tem balas suficientes no revólver. Faz tempo que não vou ao mercado! Sabe o que saio para comprar? Prata sagrada. Nunca tive uma namorada, nunca tive amigos além do meu grupo... Tudo o que vivo agora é apenas mais do mesmo.
– Você não pode carregar essa responsabilidade sozinho. Seus amigos estão aqui para dividi-la com você, não se sinta culpado por coisas que não pode evitar. – ela encostou a mão no ombro do outro, que respondeu instantaneamente:
– Mas aí é que está! Eu deveria ser capaz de evitar! Esse é o meu trabalho, eu não sou assim tão jovem, ! Tenho uns 7 anos a mais que você, aposto, e há 4 anos sou o único que restou da minha família. A linhagem dos Huddersfield vai definhar comigo.
– Isso só vai acontecer se você ficar parado, resmungando de tudo como está fazendo agora. – virou-se um pouco mais para o lado de Patrick. – Bruce está bem! Você o salvou. E eu também estou bem. Você me salvou, talvez eu estivesse morta agora naquela floresta se você não me salvasse.
Após o término de seu falatório, permaneceu olhando para o outro – isso apenas porque Patrick não tirava os olhos dela. Ele a encarava com uma espécie de curiosidade.
– Você é tão forte. Tão... Corajosa.
– Não – ela gargalhou. – Sou forte e corajosa aqui, em segurança.
– Nada disso, você me enfrentou, bateu o pé e disse que iria ficar para aprender o que eu sabia, disse que queria defender sua família. Para mim, , isso é bravura.
sorriu, abaixando o olhar por alguns segundos por, surpreendentemente, ficara envergonhada ao ouvir aquilo.
– Na escola diziam que eu era mal encarada. Enfrentei os bastardos do time de futebol, eles são uns brutamontes, sempre espancando as pessoas que não têm ligação com a vidinha insignificante deles.
– Viu! Força. – ele riu, fazendo com que abanasse o ar.
– Você é quem está dizendo.
Após um momento de silêncio, Patrick comentou:
– Assumo que você não tenha um namorado, já que se instalou aqui sem dar satisfações a ninguém além de sua família.
– Tive... Uma vez – respondeu, brincando com a barra da camisa, vendo os dedos de suas mãos melecados (uma solução vermelha, que deveria ser o sangue de Bruce, na mão esquerda e uma púrpura na mão esquerda, que deveria ser o que Jack usara para escrever na barriga de Bruce). – Mas acabou mal.
– Me conte.
preferiu não comentar sobre o quão desconfortável se sentia com Patrick lhe encarando daquela forma.
– Ele... Não deu certo. Era um perseguidor.
– Sério?
– É. Ele era sênior na minha escola e eu era caloura, nos conhecemos e começamos a sair. Do início do ano para o fim, ele se tornou intensamente controlador, sentia ciúmes do Fred e de qualquer pessoa que se aproximasse de mim. Então eu terminei, mas ele não se deu por satisfeito. Começou a me perseguir, me dar telefonemas ameaçadores, me espiar pela janela, me aterrorizar. Então ele me viu abraçando o Fred na frente da minha casa... Deu uma surra no Fred. – ela suspirou e deu uma risada amargurada. – Pensando bem... Ele sempre se metia em confusões por minha causa.
– Continue – Patrick tocou em suas mãos e não deixou que perdesse o foco da narrativa.
– Então... Ele me bateu também. – esticou o rosto aproximando-o um pouco mais do outro, apontando a bochecha. – Vê essa pequena cicatriz aqui?
– Sim... – Patrick resvalou o dedo pela cicatriz, observando-a bem.
– Foi onde o anel dele enganchou na minha pele.
– Puxa... E você o denunciou?
– Sim. Consegui uma ordem de restrição para mim e para o Fred. Ele não chega a mais de 300 metros da minha casa ou a 100 metros de mim. O mesmo valia pro Fred.
permaneceu de cabeça baixa, pois o olhar de Patrick esquentava seu rosto, e ela preferia evitar que ele percebesse sua pele enrubescer.
– Mas quer saber? – ele segurou seu queixo e ergueu o rosto de , fazendo-o encará-lo tão próximo que a desnorteou. – Ela não faz diferença.
O que Patrick fez a seguir ela não esperava. Ele aproximou-se ainda mais (se é que era possível), e beijou sua bochecha, exatamente onde a cicatriz se encontrava.
– Diz isso porque seu rosto é lindo e perfeito. – rebateu a garota. Ele bufou e pôde a respiração dele bater em seu rosto. Era uma ótima sensação.
Mas para sua decepção, Patrick afastou-se, mais uma vez agindo contra as expectativas da outra: Tirou a camiseta.
Se o rosto de pudesse ficar mais vermelho, atingira o ápice ali. Não – completamente – esperava por aquilo. O líder do grupo anti-vampiros estava sem blusa diante dela. Não que fosse reclamar, porque o corpo de Patrick era... Sensacional. Mas seu físico não era o que mais chamava atenção. Marcas e cicatrizes por todo canto. Das mais simples às mais profundas. achava que corpos como o dele só existiam em filmes, de qualquer forma, suas últimas semanas foram repletas de informações e cenas cinematográficas.
– Você só pode ser um personagem de algum filme, sei lá... – disse impressionada, olhando fixamente as cicatrizes. Patrick segurou sua mão e a encostou na maior de suas cicatrizes, no peito. No coração.
– Pode ver... – começou. A respiração de já estava presa desde o momento em que ele pegara sua mão. – Que sou tão real quanto você – então ele tocou sua bochecha, alisando sua pequena cicatriz. – E todas as suas cicatrizes.
Ele cessou a distância entre os dois, beijando-a por fim.
CAPÍTULO XV
You’re running away ‘cause you know you can’t hide
A zoada reinava no cômodo e se prolongava por toda a mansão.
– É a sua vez!
– Mas eu não fiz nada de errado para beber o sangue de vampiro! – Kaileen retrucava. Ela voltara duas casas no tabuleiro e tinha que beber, como punição, um gole do suco de tomate que Jack preparara. Eles estavam fingindo que era sangue de vampiro, para dar um ar dramático ao jogo.
– Você voltou duas casas!
– Mas eu não matei ninguém, veja! Eu salvei duas crianças e – ela pegou seu pequeno pino cor de laranja e o passeou pelas casas onde estivera. – ainda ajudei uma velhinha a atravessar a rua!
– Você se sacrificou pelas crianças, por isso voltou duas casas. – Bruce disse. O tabuleiro estava em cima das pernas do rapaz, que ainda repousava na cama e não podia levantar. Os amigos decidiram jogar um antigo jogo da família de Patrick que consistia em sobreviver entre os vampiros. Eles disseram que as antigas linhagens de Huddersfields apresentavam o jogo às crianças para que elas se familiarizassem com a aversão aos vampiros. Patrick o sabia de cor, segundo o próprio.
achou um pouco aterrorizante para um jogo infantil, mas ainda assim divertido quando aproveitado com pessoas agradáveis. Apenas ela, Kaileen e Jack jogavam com Bruce; Patrick alegara estar demasiado ocupado para perder tempo com jogos.
– BÔNUS! – comemorou Bruce, após andar cinco casas e ganhar um estoque de prata sagrada, mas após a comemoração, ele reclinou-se e murmurou de dor.
– O que foi? – precipitou-se Kaileen.
– Tem algo doendo?
– Vamos pegar o soro!
– Ei, gente! Calma aí – ele disse, dando uma risadinha. – Foi só uma dorzinha de nada, relaxem.
– Sei lá cara, depois do susto que você nos deu... – Jack confessou, voltando a sentar-se em seu lugar na beira da cama.
– É verdade. Imagine a minha aflição, eu que não vi o que aconteceu e apenas colidi com você sendo carregado encharcado de sangue – essa era .
Bruce coçou a cabeça, ainda sorrindo envergonhado.
– Desculpem, eu não quis preocupá-los. Na verdade, foi um descuido meu. Aquela vagabunda daquela vampira loira estava me olhando, eu me desconcentrei. – falou.
Após sua explicação, o silêncio reinou culposo.
– Você tava paquerando a sanguessuga?
– Não! – apressou-se ele. – Ela tava me olhando, eu... E-não Eu nã-o...
– Bruce, cara, aquilo não é uma pessoa. Aquela beleza não foi dada por Deus – Kaileen disse. havia reparado nos últimos dias que as coisas ali estavam bem divididas em relação às crenças. Kaileen realmente acreditava na teoria de maldição; Bruce e Jack acreditavam em uma evolução de espécie surgida um pouco após a espécie humana ter sido concretizada, pois já havia vestígios de vampiros logo seguindo o período quaternário da era Cenozóica, mas não era comprovado. Apenas teorias e mais teorias.
Patrick acreditava na teoria da deformidade, uma teoria desenvolvida por ele mesmo onde “Vampiros são criaturas repugnantes e deformadas que não têm espaço na sociedade benigna, por isso, merecem perecer no vão eterno”.
estava no meio termo. Não sabia bem como explicar todos os eventos ocorridos que fugiam da ciência, como os feitiços que apenas atingiam os, assim chamando, amaldiçoados. Mas também havia muitas respostas cientificamente comprovadas que não poderiam passar despercebidas.
– Gente, é sério – ele enfatizou. – Não estava admirando aquilo nem nada. Ela só... Olhou pra mim.
– E você perdeu tanto a cabeça a ponto de abrir uma brecha na defesa – Jack reforçou.
– Sei que faz pouco mais de um mês que estou com vocês, mas concordo com eles. – falou. – Você não pode sequer pensar nelas como humanas, pois não são. Você se uniu a esse grupo no intuito de combatê-las.
– Já estou até duvidando se ele vai mesmo ter coragem de enfiar uma estaca de prata sagrada em uma delas. Ou dar um tiro.
– Vocês estão me ofendendo. – Bruce disse em tom sério. – Nunca faltei com meus deveres. Errei dessa vez, sim, um ser humano de verdade pode errar.
– Pode sim. Mas deve assumir o erro e corrigi-lo para que não ocorra uma próxima vez. – Kaileen apresentou o ultimato, encerrando de vez o assunto.
O silêncio culposo retornou e de repente, o jogo que havia sido deixado de lado pareceu interessante novamente.
– Então, vamos começar de novo?
O jogo acontecia no quarto por horas a fio, mas nem sinal de Patrick. não o via desde a manhã, e o relógio já marcava por volta das 8PM. Era seu dia de patrulha, por isso ele devia ter ido até o centro, voltado, circulado a floresta e a área rural, mas já era hora de estar de volta. Preocupava-se com ele, pois desde o ataque a Bruce, Patrick se tornara ainda mais compenetrado e decidido a exterminar o bando de Elisha de Texarkana. Antes, seu objetivo era apenas expulsá-los de sua área, mas após o ataque, extermínio era literalmente a palavra usada.
conversou com Bruce, Jack e Kaileen sobre o comportamento do líder, e todos se mostraram preocupados.
– Ele costumava ser um pouco mais descontraído. Assistia a filmes com a gente, bebia às vezes... Até contar piadas ele contava.
– Mas de uns tempos pra cá a coisa tem ficado cada vez mais obscura. Tenho medo do que o Patrick possa fazer. – Kaileen preocupava-se.
– Ele não faria nada contra nós – tentou pôr um pouco de confiança nos outros.
– Contra nós não, jamais. Mas... Já deixei vivos alguns vampiros que se alimentam de animais e roubam bancos de sangue. Não deveria ter feito isso, mas após observá-los por quase dois meses constatei que não eram ofensivos. – a outra confessou.
– Imagine se o Pat souber que ainda existe clemência para com vampiros em nós? – Bruce perguntou, assustado.
– Ele está revoltado com o que houve lá no perímetro da Elisha, está obtendo mais munição, mais conhecimento e quer entrar em ação o mais rápido possível. – Jack perdia o olhar pelo chão enquanto proferia suas palavras. – Também está nervoso com o detetive Lasseour, que não pára de nos atormentar, querendo fazer um anúncio oficial.
CAPÍTULO XVI
My instincts are cold blooded hate
O detetive andava circulando a casa de Patrick, pressionando o grupo para fazer o tal anúncio sobre a existência de vampiros. Alegava que se não cooperassem com ele, iria procurar outras pessoas que pudessem ajudá-lo.
– Aquele filho da mãe – Jack praguejou.
– Ele só quer ser capaz de proteger a própria família – Kaileen condescendeu.
– Mas a humanidade leiga não está pronta para saber sobre os vampiros. Ao invés de prevenção, vai haver caos e desespero. Ou você acha que o governo americano vai abrir todas as portas das seções e departamentos secretos ao conhecimento popular?
Era um bom ponto de discussão.
Certeza que o governo já sabia sobre os vampiros. Haviam seções especializadas e pessoal treinado para lidar com eles, mas a população não sabia de nada disso. Pelo menos essa era a teoria de Patrick. Era impossível uma potência como os Estados Unidos da América não ter conhecimento de um fato tão evidente, mesmo que desacreditado.
Sua teoria envolvia até uma “Área 53”, onde vampiros eram mantidos cativos para estudos.
Após uma longa conversa, que se estendeu até a meia-noite (entre paradinhas rápidas para refeições), Patrick irrompeu no quarto; a mesma expressão de quando deixara a casa. Fria e ostensiva.
– Você está bem? – perguntou diretamente a Bruce.
– Sim – o outro respondeu apenas. A atmosfera estava tensa.
Patrick balançou a cabeça em concordância e deixou o cômodo rapidamente. Todos se entreolharam.
– ... Você deveria ir falar com ele – Kaileen disse.
– Eu? Não sou a pessoa mais indicada. Vocês estão com ele há muito mais tempo...
– É, mas apenas quando ele está com você é que essa tensão toda some do rosto dele – Jack disse. – Vá.
o encontrou exatamente onde achava que encontraria. No depósito de armas.
Ações firmes e bem movimentadas; sabia exatamente o que fazia e sem intenção de parar.
– Ei. – chamou. Ele parou o que estava fazendo e pousou a caixa que segurava em cima de uma pilha de caixas iguais. Virou-se parcialmente e enxergou .
– Algum problema? – perguntou.
– Nenhum... – ela encostou a porta e caminhou até ele, sorrindo suavemente ao tocar seu braço. sentiu a tensão emanar do corpo de Patrick. – Não te vi o dia inteiro.
– Estive ocupado com algumas coisas. – disse ele, voltando-se para as caixas. – Se me der licença, eu...
– Não. – insistiu a outra, segurando seu braço com mais força e virando-o para ela. – Deixe essas caixas sozinhas por um minuto, venha para cima comigo.
Mesmo com a pouca luminosidade do depósito, pôde ver o semblante impaciente que evitava olhá-la.
– ...
– Shhh – ela aproximou-se dele, passando seus dedos pelo rosto do outro, vendo-o fechar os olhos levemente. – Você parece cansado. Vamos subir.
– Não posso, tenho o que fazer. – Patrick abriu os olhos e afastou as mãos de de seu rosto.
– Já fez o bastante por hoje. Venha, vou lhe vigiar a noite inteira, para que durma direito. – ela o arrastou escada acima, contra a vontade dele (que retrucava incessantemente).
– Sério, , tenho um monte de coisas para desencaixotar... – o empurrava para dentro do quarto, despindo-o de sua jaqueta e do boné surrado que estava praticamente grudado em sua cabeça.
– Pat! – ela disse em tom firme, empurrando-o na direção da cama e fazendo-o sentar. , de pé e de frente para Patrick, reclamou: – Você está agindo como um louco! Não pára mais em casa, não conversa mais com ninguém, não diz o que está sentindo! O que você está sentido?
Ele abaixou a cabeça e passou os dedos pelos cabelos, descansando a cabeça nas mãos.
– Fale comigo – aproximou-se ainda mais, erguendo a cabeça de Patrick para que ele pudesse encará-la. Acariciou seu rosto, entrelaçando as mãos nos cabelos do rapaz (que estavam até um pouco gordurosos com a falta de lavagem).
Falar parecia uma tarefa pesarosa para ele no momento, desviou seu olhar diversas vezes antes de decidir dizer algo:
– Acho que... O que Bruce sofreu me fez aguçar os sentidos – começou. – Antes eu sabia que tinha um dever, mas estava começando a esquecer o que me motivava. Agora sei por que estou aqui e porque devo fazer o que faço. Porque as pessoas estão lá fora e estão morrendo aos montes para que uma espécie instintiva e burra como os vampiros possa sobreviver. Eu sei que tenho que protegê-los, sinto como se eu fosse o único capaz.
– Mas não é – cortou ela. – Vim aqui pra isso, Patrick. Quero ajudá-lo. Bruce, Jack, Kaileen... Todos estamos aqui para ajudar. Você não pode tomar essa responsabilidade como sua e exclusivamente sua.
– Você não entende o que eu sinto.
– Entendo perfeitamente. Senti o mesmo quando Fred morreu. Enquanto eu estava lá, presa no porão deles com aquele vampiro maníaco... Só conseguia pensar em como queria que eles pagassem por todo o mal que inferem ao mundo. – soltou o rosto de Patrick e ele desviou o olhar rapidamente. – Mas não posso agir com meus sentimentos. Você deveria saber disso, é um líder. Tem que agir com frieza para passar segurança aos seus companheiros. Todos estão aflitos com seu comportamento.
Um momento se sucedeu em silêncio, onde Patrick se perdeu em pensamentos e quando retornou seu olhar à , foi para desabar. Bufou algumas vezes e a puxou para si, fazendo com que ela sentasse em sua perna. Dessa forma, ele pôde abraçá-la.
– Acho que estou perdido. – confessou. – Meu pai não me ensinou a controlar as emoções.
– Tudo bem – acariciou a cabeça do outro, apoiando-a em seu ombro. O aperto de Patrick lhe inspirava confiança. Ele confiava nela. – Acontece.
– Antes minha cabeça fervilhava de idéias, mas agora... É vago. Começo a pensar nas coisas mais estúpidas e desnecessárias. Fui até o mercado, gastei tudo o que eu tinha em munição... Meu pai vai vir me assombrar, alegando que estou torrando todas as pedras preciosas que ele guardou com tanto esforço. – deu um sorriso.
– Ei! Isso foi um sorriso!
– Não, imagina...
– Você sorriu! Que coisa boa, não lhe vejo sorrir há dias!
– Mentira, eu rio sempre que estou com você – e sorriu novamente. Desta vez, mostrou até os dentes. achou graça.
– Gosto mais de você assim.
– Eu gosto de você de todos os jeitos.
envolveu os braços no pescoço dele, distribuindo beijos por todo o seu rosto. Deveria conversar com os outros para todos pensarem juntos em uma forma eficaz de agir contra o bando de Elisha e neutralizar o detetive Lasseour, mas com cautela, pois temia pelo futuro são de Patrick.
CAPÍTULO XVII
To you I'm the bearer of fate
– Essa discussão não tem fundamento, Lasseour. – Patrick dizia, manuseando um canivete com a mão esquerda enquanto observava a atmosfera pacífica do lado de fora da casa pela janela. O detetive insistente estava apreensivo, gesticulando sem parar atrás do outro.
– Não acredito que seu pai tenha lhe ensinado a se conformar com pessoas inocentes morrerem! – exclamou ele.
– Meu pai me ensinou a agir com discrição. Se, durante a minha geração, a hora certa chegar saberei exatamente o que fazer. – virou-se para o detetive, recebendo os olhares de seus outros companheiros presentes na sala. – Mas a questão, senhor Lasseour, é que essa hora ainda...
Fora bruscamente interrompido.
– Dane-se você e sua paciência destrutiva! Você não sabe como é duro passar 24h se afobando dentro de um cubículo pra tentar proteger as pessoas; não sabe como é frustrante perceber que durante 27 anos seu trabalho foi em vão!
– O senhor está querendo dizer que esta é uma conquista pessoal?
– Não distorça minhas palavras, moleque!
– Detetive, com todo o respeito... – Patrick caminhou com calmaria até o outro homem e suspirou ao encará-lo. – O senhor é um excelente profissional, mas esta é a minha área. Vamos supor que eu tenha passado 24 anos na universidade estudando como fazer o que faço agora. E mesmo que você estude tanto quanto eu, não vai ser capaz de fazer igual, pois tenho uma experiência que você não pode adquirir em uma semana.
Finalizou seu discurso com um sorriso de canto de boca.
O detetive Lasseour puxou o ar com força e pôs os braços para trás.
– Certo, rapaz. E o que você acha que é mais sensato? Formar uma brigada de 6 pessoas para combater criaturas sobre-humanas ou deixar que o governo tome conta disso? – perguntou ele, ainda engajado na missão de convencer o outro.
Patrick, visivelmente cansado da discussão, fechou o canivete com um movimento apenas e massageou a região dos olhos.
– Doutor... – a voz de Bruce soou. Ele estava bem melhor, já conseguia andar com a ajuda de muletas (muletas: Kaileen. A garota não o deixava passear sozinho, era praticamente uma enfermeira, por isso, Jack e Patrick estiveram patrulhando sozinhos; mesmo tendo oferecido sua ajuda). – O que estamos querendo que você entenda é que a revelação sobre os vampiros irá criar um... Colapso... Caótico – disse após muito matutar.
franziu a testa. A busca daquela expressão fora profunda, ela pôde perceber.
– O ser humano não irá ser frio a respeito disso. Irá entrar em desespero, e os vampiros são movidos à base de caos. – continuou. – Estivemos em algumas comunidades, em alguns vilarejos e é tudo um caos total!
– Vilarejos??????? – exclamou assustado.
– Sim, detetive – Kaileen adentrou a discussão. – Lidar com vampiros não é tão simples quanto a visão romântica da coisa diz. Caso um anúncio oficial seja feito, eles estarão prontos para uma guerra.
– Sim, porque não há meios de uma convivência pacífica com vampiros. – Bruce falou.
– E eles vêm se preparando para isso por, pelo menos, um milênio e meio. Sabem que um dia serão descobertos, mas nós ainda esperamos conseguir exterminá-los sem precisar que o mundo saiba.
– O que é praticamente impossível. Se a humanidade surgir com um ataque despreparado e súbito, eles estarão mais do que prontos e muito bons conhecedores dos nossos pontos fracos.
Kaileen e Bruce se entreolharam e voltaram-se para o detetive.
– Os vampiros andam entre os humanos, detetive. Figuras públicas que o senhor jamais adivinharia e pior! Alguém que você conhece e confia... – Kaileen continuou. – Não podemos dar um passo em falso. Olhe o que aconteceu com Bruce.
– Vacilei por dois segundos e quase fui morto.
– Entende porque não podemos nos envolver com isso agora?
– O governo precisa ser avisado, pelo menos!
– Lasseour, o governo tem perfeito conhecimento sobre isso – Patrick disse em um tom firme. – Entendo que você esteja chocado e amedrontado, mas é assim que será. Se o todo poderoso governo americano sabe sobre os vampiros e não fez “anúncios oficiais” – ironizou, fazendo aspas no ar. – É porque não acredita que a população esteja pronta, ou bem protegida! Se o senhor quiser cooperar conosco, poderemos trabalhar em conjunto de bom grado, mas se sua intenção ao aparecer em minha casa é apenas nos pressionar a respeito de um plano suicida, não irei mais recebê-lo.
Após a partida do detetive, Kaileen fez torradas e todos comeram na cozinha. Patrick parecia estar bem mais tranquilo. Após o jantar, Jack fora embora e Kaileen permaneceram tomando conta de Bruce. e Patrick reuniram-se na sala de TV.
“Não faça assim, benzinho...”.
A cada frase do filme, Patrick fazia uma careta diferente. estava se divertindo ao assistir aquilo.
“Não vivo sem você, volte por favor!”.
– Cara... – começou ele. – Por que compram esses filmes idiotas? Será que eles sequer assistem aos filmes antes de comprar?
– Não seja rabugento! – ela gargalhou. – É legal.
Patrick lhe lançou um olhar horrorizado e riu novamente. Ele apertou o abraço e alisou o braço da garota.
– Tem sorte que eu não me importe de fato com o cinema. – disse ele.
– E com o que você se importa, rapaz? – ela ergueu a cabeça e esperou pela resposta.
– Hm... Me importo... Com as plantações de alface da minha mãe, aqui atrás no quintal. – respondeu. – Já viu como estão feias? Preciso adubá-las...
– Sério! – lhe estapeou de leve, fazendo com que Patrick risse.
Passado o momento, ele lhe encarou fixamente, passando os dedos pelos fios do cabelo de que fugiam do coque malfeito.
– Talvez você me ache desleixado – abaixou o olhar pesarosamente. – Desculpe, não sei exatamente como agir neste tipo de relacionamento. Meu pai não me ensinou como namorar, se você me entende.
Eles riram.
– Não te acho desleixado. Na verdade, você me trata muito melhor do que muitos outros me trataram. – fez o mesmo movimento em direção aos cabelos de Patrick, entrelaçando seus dedos entre eles e acariciando. Estavam bem mais sedosos e brilhantes, após ela e Kaileen terem dado uma escapulida até a cidade para comprar produtos capilares. Ambas concordaram que os cabelos de Patrick estavam tão ensebados que não poderiam ser comparados a papa de mandioca.
e Patrick estavam juntos havia praticamente um mês. Tão pouco, quando parecia uma eternidade. Era estranho, pois acreditava que quando gostasse de alguém pra valer não iria querer se separar dele e agiria como uma namorada chiclete. Com Patrick era completamente o contrário. Sentia-se realizada enquanto estava com ele, mas não abandonada quando ele saía. Não sabia direito qual era a relação que a fazia não perguntar aonde ele ia sempre que desaparecia por um dia inteiro, mas acreditava ser respeito.
Cada um tinha sua privacidade. Como não saía muito de casa (apenas para visitar sua mãe ou acompanhar Kaileen à cidade), não havia muito o que se perguntar a ela. Mesmo que Patrick passasse o dia fora quase sempre, ela aprendera a não agir como se ele lhe devesse algo. Além disso, ela cultivara uma admiração especial por ele.
– Tenho planejado lhe dizer isso há um tempo... – começou o rapaz, trazendo todas as atenções de para ele e interrompendo sua meditação. – Mas não sei como. Nunca precisei dizer isso a ninguém.
– O quê? – perguntou ela, apreensiva.
– Mas eu queria que você soubesse... Por que... – o olhar dele estava fixo na barra da blusa de . Patrick brincava com as linhas soltas e o encontrou envergonhado. Quase sorrira. – Lembra das minhas cicatrizes?
acenou a cabeça afirmativamente.
– Então... Depois que eu te conheci... – ela estava achando muito bonitinho vê-lo se esforçar tanto para dizer aquelas palavras. – Algumas delas se fecharam.
Ele ergueu os olhos dos fios soltos para ela.
– Você me faz feliz, . – continuou ele. – Estar com você me faz esquecer toda a merda que há lá fora. Você me acalma.
não sabia bem como responder àquilo. Pousou sua palma na bochecha de Patrick, passeando seu dedo polegar pelos lábios do rapaz, que ainda a encarava esperançoso.
– Não sei o que te dizer.
– Nem precisa. Só queria que você soubesse. – ele beijou sua testa e a abraçou novamente.
– Não sei o que mais posso lhe dizer... Eu lhe devo a minha vida. Não tenho formas de agradecer por tudo o que você tem me feito. – a garota disse. “Coisa estúpida de se dizer” pensou. Mas não sabia o que mais falar.
– – Patrick disse e a olhou. – Não diga mais nada, você está arruinando o momento.
Ela tapou os olhos com as mãos e bufou.
– Desculpe! Só queria dizer que você também é importante pra mim.
– Certo, já sei disso. – o outro riu e a largou, levantando-se do sofá. – Preciso ir fechar a clarabóia!
– Tudo bem, tudo bem! Volte logo!
Ele abanou a mão e saiu apressado. aconchegou-se no sofá, observando a TV e tentando prestar atenção ao programa enquanto ele não voltava. De repente, recordou que precisava checar a caixa de correio. Jack lhe pedira para apanhar as cartas antes de ir sair.
– Tsc – murmurou. – Era para eu ter lembrado logo cedo. Agora lá vou eu, tarde da noite, abrir a porta e encarar o frio lá fora!
Resmungando, abriu a porta e desceu os degraus até a caixa de correio, que ficava bem ao final do último. Abriu a caixa e viu dois envelopes lá no final. Esticou o braço e os apanhou, sentindo uma onda de frio vir em sua direção. Apertou o casaco contra o corpo, mas ao fazê-lo, os envelopes caíram de sua mão e voaram.
– Ah, não! – lamentou, indo atrás dos papéis. – Que droga, voltem aqui! – exclamava, vendo-os elevarem e depois, com a partida do vento, repousarem no chão. – Envelopes idiotas.
Abaixou-se para catar os envelopes e, ao tornar ao ficar de pé, assustou-se ao perceber três figuras não muito familiares paradas à sua frente.
Não... Espere... Familiares sim. estreitou os olhos e olhou para o chão, vendo que estava alguns passos para fora do círculo de proteção. “Ah... Droga”.
– E aí, bonitinha. Sentiu a nossa falta? – reconhecia aquela voz desagradável. Hunter.
– Finalmente – esta segunda voz era, espantosamente, mais comum aos ouvidos de . Sahara.
A garota não era capaz de emitir um som. Era como se sua garganta estivesse bloqueada. “Feitiços, feitiços... Use a porra do feitiço que você aprendeu!”.
– Achou que iria se esconder pra sempre? – o terceiro e último ser disse. Este era Drake. estava incrivelmente triste em lembrar de todos eles. – Não fique triste. Estamos aqui para te levar pra casa. – ele deu uma risada irônica e estremeceu.
Antes mesmo que ela pudesse reagir, fora bruscamente agarrada. Drake a pendurou em suas costas.
– Vamos logo – Sahara ordenou e um movimento absurdamente rápido assustou a garota, quando Drake desatou a correr. não pôde reconhecer o último borrão que sua mente registrou.
CAPÍTULO XVIII
Wrong place and now the wrong time
Se houvesse maneira de memorizar o caminho pelo qual passaram até chegarem na famigerada residência vampírica (que, com pesar, reconhecera), ela o teria feito. Estivera estática até o momento em que Drake a jogara no sofá. Sahara e Hunter entraram atrás deles e o último bateu a porta com tanta força que fez a garota saltar um pouco do assento.
– Genteeeeeee, olhe quem está em casa! – Sahara gritou, sem desviar o olhar de . Imediatamente, a sala preencheu-se de seres (detestáveis).
– Mentira! – Marie, a Baby Spice dissera surpresa, com um sorriso vitorioso. – O filho pródigo.
– Sahr, como vocês a capturaram? – Ferris, o vampiro élfico perguntou. Além deles também estavam ali a vampira que reconhecia como Harmony.
– A mocinha vacilou. Saiu do círculo patético de proteção que os Huddersfield têm ao redor da casa.
– O Huddersfield, você quer dizer, porque só restou um – gargalhou Hunter e Drake o acompanhou. Os outros deram risadinhas zombeteiras e quis explodir-lhes as cabeças.
Ah, espere... Ela até que podia fazer isso.
“Ande...” sua mente inquieta lhe dizia.
– Chame Elisha!
– Onde estão os outros?
“O que dizia o livro...?”.
– Sei lá, acho que sumiu novamente.
– Eu ouvi Elisha chamar Kian para ir procurá-lo.
– Esse cara não tem jeito.
“Esvazie sua mente...” ela fechou os olhos e respirou fundo. Tinha que lembrar. “Lembre-se da primeira palavra, apenas a primeira palavra”.
– Vamos levá-la ao porão – Sahara sugeriu e os outros concordaram.
“É simples, você conhece essa língua...”.
– Seja cuidadoso, seu animal, ela não pode fugir novamente!
“Tactus vul... Tactus”. E de repente abriu os olhos como se uma luz irrompesse deles. Percebeu o vampiro que ameaçava inclinar-se para ela hesitar, assustado com a ação abrupta.
– Tactus mihi, adepto vulnero – disse segura.
– Mas o qu... – Marie perguntou.
– Cale-se! – Hunter ordenou, esmurrando o rosto de , mas ao fazê-lo, sentiu um ardor incomparável. O grito de horror que saiu de sua garganta expressava bem a dor.
A garota sacudiu a cabeça, recuperando-se do murro.
– Tactus mihi, adepto vulnero. Tactus mihi, adepto vulnero; tactus mihi... – continuava ela, mantendo vívidas em sua mente imagens dos corpos flamejantes daquelas criaturas.
– Ela está entoando magia!
Hunter ainda sacolejava de dor pelo chão, enquanto Sahara avançava em , tocando seus ombros e falhando igual ao outro. Esta também gritou, mas seu grito cessou mais rapidamente.
– FAÇA-A SE CALAR! – Sahara gritou.
– Não posso tocá-la, está ardendo em fogo! – Drake disse, e de repente, Marie, que nem havia tocado começou a se contorcer no chão. Os outros voltaram seus olhos para ela e segundos depois, Harmony também cedeu.
– Ai... – Hunter, que já havia parado de gritar, levou as mãos à cabeça. – Ai... AI! Ai porra, minha cabeça!
– Exuro, sentio angelus tutela. Exuro , sentio meus contego subsisto vos.
– Faça-a parar, por favor!!!! – Harmony gritava. Seu namorado Drake, que já estava apresentando caretas da dor atribuída por , tentou dar mais alguns passos na direção da garota, mas recuou, pois a dor havia ameaçado aumentar.
– Não posso me aproximar!
– MATE-A! – agora era Sahara quem já estava no chão. Drake parecia ser o único ainda de pé.
– Aaaaaaaahhhhhhhhhhhhhh – ele levou as mãos à cabeça e fechou os olhos. – Sua infeliz!
– Exuro – fixou seu olhar em Drake, que gritava cada vez mais alto. – Exuro.
– O QUE ESTÁ HAVENDO? – uma voz soou em algum lugar. não se permitia desviar do caos que criava nas cabeças daqueles monstros. Eles mereciam sofrer até não agüentarem mais.
– ELA ESTÁ FAZENDO ISSO, PARE-A!
– Não a toque! Depressa, antes que você entre em colapso! – Sahara exclamou. – Mate-a!
– EXURO!
Antes que pudesse ver de onde o ataque viera, sentiu algo pesado colidir contra sua cabeça.
– Está acordando.
– Devo ficar?
– Não, vá. Preciso falar com ela em particular.
– Ela pode tentar aquele feitiço novamente.
– Não há necessidade de preocupação, sua boca está atada.
Ao criar coragem para abrir os olhos, foi enxergando o que havia à sua frente. Tinha alguém sentado na mesma cama que ela, que por sinal, percebeu ser bem confortável. Estava mesmo em cativeiro? Recordava-se de ter sido raptada; recordava-se de ter enfeitiçado os vampiros e mais nada.
– Tem certeza?
– Já lhe disse, vá.
Piscou os olhos algumas vezes para ajustar o foco e viu Kian, cujo olhar perigoso lançara a ela antes de dar as costas e sair.
– Olá – o ser à sua frente disse. o olhou e encontrou a líder do bando, Elisha. Quis xingá-la, mas encontrou sua boca lacrada com fita adesiva. Sim, era fita adesiva, sentia o gosto plástico amargo em sua língua. Tentou mover os braços, mas também estavam atados. – Como está a cabeça? Desculpe pela martelada. Tentei ser gentil.
“Martelada? Essa vadia jogou um martelo em mim?”. Perguntou-se como alguém poderia ser gentil martelando a cabeça alheia.
– Os outros queriam lhe enviar à Câmara da Verdade, mas eu decidi lhe hospedar em um quarto desta vez. – Elisha sorriu um sorriso simpático e coerente. – A situação mudou, não foi?
“Sim, mudou, e deixe só eu me desamarrar para você ver o que farei com você e com o seu bandinho!”.
– Nunca pensei que você seria capaz de proferir aquelas palavras. – ela levantou-se e ajeitou a saia social bege. – Patrick abriu a caixinha de segredos, então?
estreitou os olhos e fuzilou Elisha com o olhar. A outra, esperando por uma resposta, lembrou-se que era incapaz de responder enquanto estivesse calada à força.
– Oh, certo. Acho que vou tirar isto da sua boca – ela segurou a ponta da fita adesiva. – Mas tem que prometer que não irá tentar me explodir, certo?
“Claro, vamos ser melhores amigas se você tirar essa fita” pensou ironicamente.
– , quero saber por que você decidiu permanecer com aquela milícia. Quero saber o que o Huddersfield anda falando sobre nós para você. Irei retirar a bandagem, devemos conversar.
Então ela puxou a fita cuidadosamente. fez uma careta e contorceu o rosto, esticando-o.
– Responda minha pergunta – pediu Elisha educadamente, voltando a sentar-se na cama, um pouco mais próxima a .
– Você acha... – a garota falou sem pensar duas vezes. – Que após ter matado meu amigo; me mantido prisioneira e tentado me matar, me perseguindo pela floresta... Não tenho motivos suficientes para querer vingança?
– Ah... – Elisha surpreendeu-se. – Então está atrás de vingança?
Seu rosto bonito iluminou-se com um sorriso.
– Entendo. E Patrick lhe disse a verdade sobre nós? Ou contou apenas a versão dele? Ein? – ela suspirou, sorrindo de forma contagiante. estreitou os olhos.
– Não há duplicidade, apenas a versão que li nos livros! A versão constatada! – exclamou a garota.
– Versão escrita por humanos anti-vampiros. – a outra disse calmamente. – , não somos selvagens.
– Não! Selvagens seriam mais humanos! – cuspiu . Seu corpo sacudiu em cima da cama, tamanha ferocidade dissera aquelas palavras.
– É uma maneira de ver as coisas – Elisha deu mais uma risada, tomando uma boa quantidade de ar e voltando a encará-la. – Temos nossas leis, nossos estatutos e autoridades. Recebemos repreensões ao errar e falhar e devemos respeito assim como a sociedade humana. Seguimos regras.
– Fred que confirme quantas regras vocês seguem!
– Ah – Elisha abanou o ar. – Matar um ser humano não nos incrimina se não comprometermos a integridade do próximo. Nosso próximo, se é que você me entende.
Como ela podia abanar o ar daquela forma, desleixando-se do assassinato de Fred? Aquele irmão bastardo que Elisha tinha assassinara o amigo de e era considerado uma refeição qualquer.
Fred fora uma refeição.
– PATIFES! CANALHAS! VOU MATÁ-LOS! A CADA UM DE VOCÊS! – remexia-se na cama. Fechou os olhos, intencionando começar a praguejar e amaldiçoar, mas Elisha percebeu e recolocou a fita na boca da outra.
– Não irei pedir para que você reprima seus sentimentos. Já puni meu irmão por seu ato, não há mais o que possa fazer.
“Óbvio que há! Deixe-me matá-lo!”.
CAPÍTULO XIX
Now terror is all that you'll find
– Mas... , gostaria de lhe contar um pouco sobre como as coisas funcionam para nós – Elisha continuava. – Não é tão diferente da ordem mundial.
não estava interessada em saber como os vampiros viviam.
Mentira. Estava sim. Patrick ou qualquer um dos outros não haviam dito nada sobre aquilo.
– Para vocês, humanos, isto tem vários nomes. Ficaria a dúvida entre a monarquia, o parlamentarismo ou simplesmente o regime semipresidencialista. – ela começou em um tom elevado. – Mas nós chamamos de Federação.
Elisha levantou-se e começou a passear pelo quarto, dando voltas e mais voltas enquanto falava.
– A Federação é o nome que damos ao nosso regime, mas também pode-se usar para se referir aos principais vampiros regentes. A Federação é constituída por cinco distritos, regidos por um congresso cada; um nas Américas; um na Europa; um na Ásia; outro na Oceania e um na Rússia porque eles adoram ser independentes. – ela revirou os olhos. – Há um representante dos congressos distritais nas principais capitais de cada distrito.
quis pensar que Elisha estava inventando tudo aquilo para fazê-la desistir de explodir os miolos de todo o bando. Bruce lhe dissera que o congresso era quem redigia as regras da sociedade vampírica. Então existiam figurões maiores que eles?
– A Federação fica na Inglaterra. É lá onde estão o Rei e toda a sua corte. Nosso Rei atual é muito recente, está no poder há apenas 70 anos, ainda tenta se acostumar com toda a responsabilidade. Ele preferiu transferir a Federação para a Inglaterra. O Rei anterior, que governou por quase mil anos, morava no Egito.
Elisha deu uma olhadela até a janela e viu que a claridade lá fora estava quase invadindo o quarto. Afastou-se da abertura.
– Algumas autoridades japonesas decidiram criar uma espécie de classificação para definir padrões de vampiros, assim como a sociedade humana tem faixas etárias e tudo o mais. Tanto os congressos quanto a Federação têm muitos problemas com vampiros vândalos e essa classificação ajudou bastante a controlar os ataques.
“Controlar ataques? Mas eles provocam”.
– Eles classificaram em... Reberu A, Reberu B, Reberu C, Reberu D e Reberu E. Por aqui, chamamos apenas de RANK A, B, C, D e E. Vampiros listados no rank A são aqueles que podem servir até de adorno em festa infantil de tão inocentes que são. Eles vivem entre os humanos e eu já vi vampiros rank A criando galinhas em casa para beber o sangue.
“Um excelente disfarce” pensou . Apenas achou que se fosse um vampiro, jamais apelaria para beber sangue de galinha. Ainda existiam bois e cabras.
– Os vampiros classe A são os considerados ideais pela Federação – Elisha bufou de forma engraçada e deu uma risada sarcástica. – Os classe B são menos humanizados. Bebem sangue humano, mas geralmente não matam. Estes se encontram mais em vilarejos e comunidades, eles têm escravos humanos que doam seu sangue. Esses escravos têm filhos para que seus filhos, ao crescerem, possam doar sangue e assim por diante. – Elisha mexeu em seus cabelos. – Vampiros rank B possuem a necessidade de seu corpo modificado aflorada, mas não perdem a humanidade.
quis perguntar se era possível um vampiro ser humano.
Desdenhando, claro.
– Rank C é mais despojado. Eles têm a opção de não matar, e não o fazem muitas vezes. Mas vampiros rank C matam por prazer, por serem um pouco mais vampiros do que humanos em sua mente. Alguns rank C vivem em vilarejos junto a vampiros rank B, mas não é comum. Geralmente os vilarejos que abrigam vampiros listados em diferentes classes encontram-se em anarquia total. Não há respeito entre os habitantes e os escravos não são usados apenas para alimentação e serviço doméstico. Algumas mulheres são forçadas a se deitar com vampiros, alguns escravos são assassinados e drogas sintéticas reinam por lá. Aparentemente há um meliante científico criando drogas para vampiros e o Congresso ainda não conseguiu pôr as mãos nele.
– O rank D é o que eu chamo de um bando de freaks bem real horroshow. São os mais apreendidos pela Federação, as prisões de Prata Sagrada no Tibet estão recheadas de rank D. Eles são fanáticos, criam verdadeiros rastros de sangue por onde passam e estou me referindo a não apenas rastros de sangue humano. Vampiros classe D matam o que estiver em seu caminho, mas eles ainda sabem o que fazem. Ainda lembram de quem costumavam ser quando eram humanos, matam apenas por prazer.
estava muito curiosa para saber que tipos de crimes levavam um vampiro à prisão e que prisão de Prata Sagrada era essa no Tibet? Como ninguém tinha conhecimento disso?
– A maioria dos vampiros rank D é presa se alimentando em área preservada. – ao observar a expressão confusa de , Elisha deu uma risada. – De tempos em tempos, os Congressos, ao perceberem que tais áreas têm sido muito afetadas por vampiros, as põem em reserva. Como uma área de bichos em extinção. – riu com a comparação, mas não achou a mínima graça.
– As áreas do norte africano e do sul americano têm estado em reserva por mais de 100 anos. O congressista residente em Nova York está querendo pôr a parte superior dos EUA mais parte do Canadá em preservação, pois uma sucessão de assassinatos violentos tem ocorrido por lá. Acredito que grande parte do problema seja o Vilarejo na divisa dos dois países. É um daqueles que lhe disse onde o caos reina.
“Então manda explodir”.
– Então, os vampiros do rank E são verdadeiramente selvagens. Existe uma pequena quantidade deles, pois a maioria já foi executada pela Federação. Eles são um risco aparente para nós. Vampiros classe E não têm vestígio de humanidade. É como se assumissem uma personalidade toda nova após a transformação, eles se movem de acordo com o instinto. Suas mentes vivem apenas para se alimentar. Eles não bebem apenas o sangue de alguém... Se um vampiro rank E lhe capturar na rua, ele a comerá inteira, até os cabelos.
Elisha voltou a sentar-se perto de e bem distante da janela.
– Deve estar se perguntando como ocorre a listagem de vampiros.
Não estava, na verdade.
– Bem, olheiros da Federação se misturam entre os vilarejos e comunidades, classificando os bandos. Quando um vampiro é detido e sentenciado, se não estiver listado, recebe uma classificação de acordo com sua pena e os motivos que o levaram a cometê-la. Se um vampiro é bonzinho demais e quer ser regularizado, estou falando dos trouxas classe A, apenas precisa enviar um formulário para a federação via e-mail e em poucos dias receberá uma carta em sua residência, isso se o vampiro possuir uma, informando em que classe fora listado.
perguntou-se se o bando de Elisha já havia sido classificado.
– Antes que se pergunte, sim, fomos classificados. ... – ela pronunciou o nome do irmão com certo desgosto. –... Foi detido por se alimentar em área preservada certa vez.
Mas ela não procedeu.
– Na verdade somos bem organizados, nossa sociedade. Seu amigo Patrick deve ter lhe ensinado apenas como nos matar, correto? – ela deu uma risada. – A história da família Huddersfield contra os vampiros, mais precisamente a minha pessoa vai além de um centenário. Se ele não lhe informou sobre isso ainda, não serei quem fará.
Ela levantou-se e ajeitou a saia colada mais uma vez, correndo os dedos até os cabelos.
– Acho que você deve tomar suas conclusões ao invés de seguir fielmente os ideais de alguém. Saiba com quem está lidando antes de se engajar totalmente na política dele. – Elisha disse. achava que a vampira estava de partida, mas ela continuou falando. – A meu ver, Patrick está apenas te usando para aumentar o exército que ele pretende montar para nos aniquilar.
Como se os ideais de Patrick fosse o único motivo que prendia àquele grupo.
– Não subestimamos os seres humanos de forma alguma. Temos nossa própria linha de desenvolvimento tecnológico para podermos conviver com os humanos pacificamente. Em um futuro não será mais necessário que nos alimentemos de seres humanos nascidos nos ventres das mães! Um estudo para que isso aconteça já está em progresso. – ela aproximou-se um pouco mais. – Não nos escondemos para poder nos alimentarmos sem problema. Nos escondemos pois temos medo de morrer, assim como ficariam apavorados se descobrissem sobre nós.
– Vampiros não são criaturas tão repugnantes quanto lhe pintaram, – Elisha continuou. – Você acha que não é tão mortal quanto eu? Veja o que fez com meu bando algumas horas atrás! Deixou Hunter desacordado por duas horas! Estou tendo que ter esta conversa com você enquanto uma fita em sua boca me protege de seus ataques.
“É tão ridículo que essa vagabunda comece a falar de temores. Milhões de pessoas morrem antes da hora apenas para que a espécie estúpida dela sobreviva!” revoltava-se.
– Pense nisso, . Não somos os vilões da história.
CAPÍTULO XX
I’m gonna kill Miss America
queria lembrar de como os feitiços contra vampiros realmente funcionavam. Todos os feitiços d’O Livro apenas funcionavam contra vampiros, então, se um vampiro atou suas mãos, ela poderia entoar um feitiço para que as cordas se desamarrassem?
Muito improvável.
Estivera cativa naquela casa por dois dias, estava faminta e não fazia idéia se alguém apareceria ali para lhe salvar. Patrick? Seu namorado? Onde ele estava?
Constantemente apareciam vampiros do bando tentando forçá-la a dizer como quebrar a barreira de proteção, como impedir o efeito dos feitiços e até mesmo onde estava o jarro chinês do avô de Patrick. fora esmurrada, chutada e espancada por muitos deles, mas não respondera às suas perguntas.
Em uma noite (em que a janela estava aberta) entrara no quarto. imaginou que para fazer o mesmo serviço que todos os outros tentaram.
– Há quanto tempo – disse ele, em sua voz comedida e sensual, circulando a cama de e batucando os dedos uns nos outros de forma elegante. – Não me parece muito bem.
– Vá pastar! – tentou gritar, mas a fita em sua boca a impedia.
abaixou o olhar e deu uma risada, encostando-se à janela.
– Sabe que você é ainda mais adorável com essa fita na boca? Me faz querer arrancá-la só para ver seus lábios vermelhos e inchados. – falou provocante.
sentiu seu rosto queimar e mais uma vez, provocou risada no vampiro. Não suportava ser chacota de seu maior inimigo. Era ele quem ela queria matar, queria vê-lo perecer de joelhos; tinha até gravado na mente o discurso final que antecederia na guilhotina (onde ela desceria a lâmina). Odiava aquele ser com todas as forças que possuía.
– Você é uma criaturinha bem exposta, ein? Qualquer coisa que eu lhe diga vai atingi-la como um rojão. – ele sentou à beira da cama onde estava presa bem ao centro e esticou o braço, passeando seu dedo indicador pelo rosto da garota. Ela tentou afastar-se, mas ainda sim era tocada por ele. O polegar de apertou seu pescoço levemente e depois, voltou-se para a boca. – Vou tirar essa bandagem. Não se incomode em proferir aqueles versos estúpidos de feitiços. Nunca funcionou comigo. O pai de Patrick... Aquele velho louco... Nunca conseguiu fazer com que esses feitiços idiotas me atingissem. Não será uma garotinha como você a conseguir isso.
mal sabia, mas tudo o que ele dissera era mentira. Pelo menos poderia servir para que ela falasse sem tentar matá-lo.
Debochando, arrancou a fita adesiva da boca de , revelando lábios secos.
– Hm – desapontou-se. – Podemos mudar isso em dois segundos.
levantou-se e momentos depois retornou com um copo de água. surpreendeu-se, acreditando que ele tivesse ido buscar a água para ela.
De certa forma era para ela.
Ele molhara os dedos dentro do copo e os levara aos lábios dela, repetindo isso várias vezes. acariciou o lábio inferior de diversas vezes com o polegar.
Ela sentiu-se humilhada.
– Talvez agora sua boca receba a minha com um pouco mais de alegria... – ele disse, risonho, antes de aproximar-se e segurar na garganta de com certa força, impedindo-a de mover a cabeça. Encarou seus olhos de tão perto que quase se assustou. O vampiro estava prestes a encostar seus lábios quando , subitamente, cuspiu em seu rosto.
recuou, o sorriso triunfante ainda presente em seu rosto. Ele limpou-se e a observou por mais alguns minutos. Aquela garota não fazia idéia de como seu comportamento o agradava. Péssima maneira de se manter viva. Desde que recebera a notícia de que quase matara meio bando com algumas palavrinhas, estivera salivando para encontrá-la e provocar seus instintos só mais um pouco. Talvez pudesse dizer o quanto se divertira matando o amigo dela, Fred.
Agradeceu mentalmente por sua irmã Elisha não tê-lo permitido dar fim à vida de quando tivera a oportunidade. Ela era um brinquedinho e tanto.
– Sabe que isso lhe custará caro, não sabe? – perguntou ele.
– Sabe que irei te matar... – sussurrou. – E que no fim... Restará apenas eu e você... E eu irei derrotá-lo... Você cairá de joelhos!
– Seu tom de voz me excita.
– Vá se foder!
– Tenho uma idéia... Vamos fazer isso juntos? – ele gargalhou e se afastou definitivamente, rumando à porta. – Volto pra te ver em breve, querida. Sonhe comigo.
Ele soltou um beijo no ar e fechou a porta.
Não agüentava mais aquela situação. Seus punhos doíam, sem falar na necessidade absurda de alimento e água. Sentia-se fraca. Estava começando a desacreditar a lealdade de Patrick e dos outros. não encontrava mais pensamentos com os quais se entreter. Não conseguia nem dormir, imaginando o que aqueles sádicos fariam com ela.
Foi quando, nesta mesma noite em que se encontrou devastada, acordou assustada com o barulho incessante que lhe martelava os tímpanos. Metralhadoras disparavam projéteis perto dali. “Patrick” pensou .
Tentou, de todas as formas, puxar os braços para fora das amarras, mas apenas conseguiu se machucar mais. Tentou retirar a fita adesiva (recolocada após a saída de ) e gritar, mas suas tentativas de nada adiantavam e ela ficava cada vez mais nervosa.
– NÃO O DEIXE SUBIR! – ela ouvia.
– Vou te explodir se não sair da minha frente.
– Não se eu te drenar primeiro!
– SAIA DA MINHA FRENTE, SUA VADIA! – mais metralhadoras soando e então, a porta fora arremessada para dentro junto com um corpo. Ambos caíram ao lado dela, na cama. observou Marie se contorcer de dor no chão, suas presas ensangüentadas à mostra.
– ANNA! – virou a cabeça e encontrou Jack portando uma metralhadora barra pesada. Ele estava em vestes pretas nunca vistas por ela e uma toca também preta escondia sua semi-careca.
– EI, PAT, ESTÁ AQUI! ESTÁ VIVA! – ele foi de encontro a ela e lhe tirou a fita da boca. pareceu descarregar o mundo ao respirar.
– Jack! – exclamou.
– ! – ouvira a voz tão familiar (e tão doce aos seus ouvidos) chamar por ela. – Está viva, Deus do céu... Jack, vá ajudar lá embaixo, Veenie está com problemas!
Queria perguntar quem era Veenie, mas a agonia súbita estava lhe apavorando e tudo o que queria era sair dali.
– Deus... – Patrick terminou de lhe desamarrar e a puxou para um abraço tão forte que da forma que estava fraca, poderia ter desintegrado. – Pensei que estivesse morta. – ele acariciou seu rosto e ela segurou-se nele.
– Pensei que fosse me deixar para morrer.
– Nunca. Vamos sair daqui. – Patrick a segurou nos braços e deixou sua metralhadora pender nas costas, enquanto saía da casa (parcialmente detonada) e ainda encontrava algumas batalhas acontecendo. Ele correu com até a floresta, mas não estavam sozinhos. Ferris corria atrás da dupla fervorosamente, apesar de sua lentidão. quis saber porque não apressava o passo, se podia.
– Illic est haud via pro lemma impetro nobis – Patrick dizia. – Vamos, me ajude!
Então, ambos continuaram juntos:
– Nos es copiose tutis. Nos es tutis exaro nos adepto domus. Vos vadum operor nos haud vulnero.
A carreira de Ferris foi ficando cada vez menor, até que ele finalmente parou de correr. E Patrick pôde prosseguir até a rodovia, onde pôs no carro e entrou.
– E os outros? – perguntou ela.
– Vou lhe deixar lá e voltarei para ajudá-los!
– De maneira alguma, sei me cuidar! Vamos voltar! – ela impôs.
– Cale-se, você não sabe de nada!
– Não, Patrick, você não sabe de nada! – argumentou ela, incapaz de ouvi-lo lhe dar ordens. Aquele sentimento era novo em folha. – Por que viemos até aqui? Vamos voltar e ajudar!
– Têm gente o suficiente lá, chamei uns amigos para completar o time! – Patrick dirigia loucamente pela rodovia, já em direção à sua casa. – Essa foi uma missão de resgate. A missão está sendo cumprida, estou te levando para casa.
– E você acha que eu quero ser resgatada em troca das vidas dos meus amigos?! – bradou ela, furiosa. – Não preciso que você tome decisões por mim, eu tinha plena capacidade de ficar e lutar!
Não tinha tanta, mas uns tiros ela conseguiria disparar.
– , não vou discutir com você agora – disse nervoso, e assim, a discussão fora encerrada.
CAPÍTULO XXI
Murder, murder, yes indeed! K.I.L.L.I.N.G.
Patrick não precisara sair novamente, pois o restante do grupo voltara minutos após ele colocar na cozinha e lhe dar água, prometendo que voltava em breve.
Ao ouvir a movimentação na casa, desceu do balcão e correu até a sala, vendo que Jack e um rapaz albino estavam sendo carregados. Foram colocados no hall de entrada. Quem era aquele rapaz? procurou as feridas que os derrubaram e encontrou. O rapaz albino tinha quatro mordidas no estômago. Estava bem feio. Jack estava mais consciente; assim que fora posto no chão, sentou-se e puxou a perna, observando a ferida que lhe incapacitara de andar. Não era uma mordida, parecia um tiro.
A sala estava estranhamente cheia e estava desnorteada, não sabia se entrava no meio e tentava ajudar ou se mantinha-se longe e ajudava não atrapalhando.
– ! – Kaileen chamou. – Venha aqui, deixe-me vê-la!
A garota mancou até a outra (vestígios das surras que recebera) e Kaileen segurou seu rosto, examinando seu rosto arroxeado.
– Venha, vou cuidar de você.
– Mas e...
– Tem gente o suficiente aí para cuidar dele. Venha comigo.
Kaileen banhava no suntuoso banheiro dourado e esta última tinha os pensamentos perdidos. Gostaria que Patrick acreditasse um pouco mais em suas habilidades. Diabos, ela iria matar uns vampiros se não tivesse sido interrompida por um martelo voador!
– Kai... – perguntou, lembrando-se de algo que queria saber.
– Fale – Kaileen disse, indo buscar o roupão no armário para entregá-la.
– Quem é essa gente toda?
– Uns amigos nossos de Dallas – estendeu o roupão e o pegou, levantando-se da banheira e o vestindo. – Patrick os chamou. Estava tão furioso com a idéia de você ter sido capturada que decidiu acabar com o clã de Elisha de uma vez e para isso, precisaria de ajuda.
– Estava furioso?
– Sim. Após constatarmos que você não havia ido até sua mãe ou nenhum parente ou amigo, tivemos certeza de que tivera sido raptada. Jack achou algumas cartas caídas perto da caixa de correio e lembrou que lhe pedira para apanhá-las. Deduzimos que você foi levada enquanto estava fora pegando as cartas.
– Foi exatamente como aconteceu. As cartas voaram e eu tentei alcançá-las. Estupidamente saí do círculo e não pude reagir. Mas após ter sido postada dentro da casa deles, entoei o feitiço de Exuro e eles quase queimaram vivos. Malditos, se não tivessem me lançado um martelo na cabeça.
– Martelo? – Kaileen horrorizou-se. – Meu Deus! – examinou sua cabeça. – Eles lhe bateram?
riu desdenhosa.
– Fui espancada diversas vezes, mas isso não é importante.
– Claro que é importante! Pat vai ficar tão furioso... Ainda mais quando souber que não conseguimos explodir a casa como planejado.
– Vocês planejaram explodir a casa? – perguntou. Puxa, ele estivera furioso mesmo.
– É, Bruce foi para o hospital e sem ele e nem você, éramos apenas três. Precisávamos de ajuda. Então, o grupo do Gabe concordou em ajudar. Patrick lhe telefonou dizendo que tinham raptado você e que planejavam lhe matar. Não podíamos deixar isso acontecer e Gabe nos deve muitos favores. Para nossa sorte, o bando dele é maior. São oito, mas apenas cinco vieram. Os outros três permaneceram em Dallas para cuidar da área.
– E eles são fortes?
– São, são fortes. Gabe desenvolveu uma técnica com seu grupo... Muito interessante. Nos ensinou enquanto esteve aqui. Combate corpo a corpo. Ele consegue reduzir a velocidade de um vampiro. Restando apenas a força, temos que desviar dos ataques. Não me atrevi a utilizar essa técnica, mas reduzir a velocidade é de grande ajuda.
– E como ele faz isso?
– Gabe tem uma segunda cópia d’O Livro. Aparentemente é mais atualizada que a nossa. – Kaileen conduziu até o quarto, onde mudas de roupa lhe esperavam. – Pra falar a verdade, ele não tem uma cópia completa. São fragmentos. Trechos e capítulos apenas.
– Aquele rapaz... Ele é albino, certo? – perguntou, referindo-se ao rapaz acidentado. Kaileen abaixou a cabeça. Provavelmente pensava, assim como , que ele não resistiria aos ferimentos.
– Veenie. Sim. É irmão da esposa de Gabe. Não sei o que ela fará se ele morrer.
sentia-se imensamente culpada por Veenie. Não queria que ele morresse, mesmo sem conhecê-lo. Não conseguia aceitar nem a hipótese de alguém morrer por sua causa.
Vestiu-se e rapidamente desceu as escadas, com Kaileen ao seu encalço, alegando que ela não deveria ir até lá. Ao chegar no hall, encontrou todos na mesma posição que armaram quando Bruce fora ferido. O rapaz albino ao centro estava coberto de meleca verde e caracteres foram escritos por todo o seu corpo na cor púrpura. As palavras que foram ditas para curar Bruce agora eram ditas para curar Veenie, e torcia para que elas dessem certo.
Aos poucos, vira a fumaça agir com a meleca verde e as feridas cicatrizarem. Rapidamente Patrick ligou Veenie no sangue que já o esperava ali.
– Ele vai ficar bem – ouviu uma moça negra de cabelos black dizer e uma outra moça loura a abraçou, desatando em lágrimas. Aquela deveria ser a irmã do acidentado. caminhou lentamente até as duas e, mesmo sabendo que seria uma tremenda falta de educação interromper o momento, ela o fez.
– Com licença – pediu ao cutucar a moça loura, que a olhou com olhos pesados. – Você... Ele é seu irmão, certo?
Ela confirmou com a cabeça.
– Me desculpe. Isso é tudo minha culpa, eu gostaria de estar lá no lugar dele, me desculpe. – pediu . – Queria ter sido capaz de escapar e não ter precisado machucar outras pessoas, eu preferia continuar lá se isso fizesse seu irmão ficar bem.
A moça loura sorriu gentilmente e abraçou .
– Não nos conhecemos ainda. , certo? Sou Margaret. – ela ainda sorria. não tinha mais o que fazer a não ser retribuir. – Patrick contatou meu marido tão aflito que seria impossível não nos movimentarmos. Veenie é forte, ele vai sobreviver.
– Oi – a moça negra disse e a olhou. – Sou Beth.
Apertaram as mãos e Kaileen alcançou-as.
– Meninas, queiram me interromper, mas ela ainda precisa repousar – arrastando para a cozinha antes mesmo que ela pudesse retrucar.
– Mas...
– Fique calada.
– Por que vocês nunca...
– Fique quieta, eu esquentei comida para você. Sente-se e coma.
encarou o prato de macarrão à sua frente e se o verme habitante de seu estômago tivesse um pouquinho mais de força, teria rasgado sua barriga e saltado em cima daquele prato tamanha era a fome da garota.
Após todas as apresentações ( conhecera Gabe, Kid e Flash. Os dois últimos eram apelidos, ela achara bem engraçado e adorava falar “Kid”), todos foram descansar e finalmente deitou-se também. Sua consciência não estava tranqüila, mas achou mais sábio descansar ao invés de matutar. Não fora dar boa noite a Patrick pois desde sua discussão com ele no carro, não haviam se falado direito. Ele estava sempre tomando conta das necessidades de alguém, preparando-se para ir buscar Bruce no hospital, ou vendo se Veenie precisava de mais soro.
Bruce havia ido ao hospital apenas por estar se sentido demasiado enjoado, e como ele não poderia participar da investida, decidiram interná-lo durante os dois dias nos quais fora mantida refém.
Patrick fora buscá-lo e ele parecia novo, como se nunca tivesse sido ferido. Bruce passou um tempo com a paparicando e depois foi dormir, pois ainda estava sobre os efeitos dos medicamentos.
Já debaixo das cobertas, com os olhos fechados e quase adormecida, ainda pôde sentir um invasor adentrar as cobertas e abraçar-se a ela. Virou-se de frente para ele e assistiu o olhar terrivelmente cansado de Patrick sorrir um pouco ao encontrar o dela. pousou sua mão na bochecha dele, passando os dedos por sua orelha e nuca. Patrick apertou o abraço e a trouxe mais para perto, fazendo com que passasse os braços por sua cintura e afundasse o rosto em seu ombro. O cheiro bom de sabonete indicava que ele havia acabado de sair do banho.
– Me salvou novamente – murmurou, beijando o ombro do rapaz e acariciando-o com o nariz.
– Você quase morreu e Veenie está entre a vida e a morte. Sem falar no Jack que foi levado ao hospital de última hora. Conseguimos que o detetive Lasseour encobrisse a história sobre o tiro. Não foi bem um sucesso.
Era bom saber que o homem decidira ajudar. Lembrava de Patrick tê-lo repreendido durante a última conversa que tiveram.
Não diria mais nada, não queria aborrecer Patrick ainda mais ou fazê-lo se sentir ainda pior.
– Não queria lhe dizer isso, porque não quero lhe passar uma imagem fraca e derrotada, mas... – ele afastou-a um pouco para poder olhar seu rosto. – Entrei em desespero quando confirmei que você fora seqüestrada.
Ele suspirou firmemente e continuou.
– Só conseguia pensar no pouco tempo que tivemos juntos. Achei injusto que o único pedaço de felicidade que eu fui permitido a sentir estivesse morrendo tão depressa. Me enfureci pensando naqueles sanguessugas idiotas violando seu corpo, cravando aquelas presas amaldiçoadas em seu pescoço – ele cerrou os dentes e o sentiu estremecer.
– Ei – ela afastou os cabelos dele do rosto e sorriu. – Estou aqui, não estou?
– Mas poderia não estar. E Kaileen me contou que você foi surrada. Não vou deixar isso barato, vou levar... – ela o interrompeu.
– Você não fará nada. Não por um bom tempo, certo? Esfrie a cabeça, vamos esperar que Jack melhore; que Veenie melhore... Vamos esperar tudo se acertar.
– Não posso, ! – exclamou ele, levantando-se e sentando na cama. – Não posso simplesmente ignorar que eles ainda estão por aí! A prata sagrada os derruba por um tempo, mas eles podem se regenerar! E como não conseguimos explodir a casa... Estão soltos!
Ele tinha razão. E de acordo com a teoria explicada por Elisha, Texarkana não era uma área preservada.
– Texarkana é área livre para caça. Eles podem caçar quem quiserem. – disse.
Patrick estreitou os olhos e perguntou:
– Como sabe disso?
– A... Elisha – disse seu nome quase com uma cuspida. – Falou sobre a regência da sociedade vampírica, e as classificações e preservações das áreas e tudo o mais. Nunca imaginei que eles pudessem ser tão organizados.
– E frios! – Patrick lembrou. – Não esqueça disso, ! Não se deixe admirar por tão pouco, olhe o que fizeram com Veenie! E Jack, Bruce! Você! São criminosos. O nosso tipo de criminosos e eu preciso detê-los.
– Certo, certo – ela acariciou seus cabelos mais uma vez e o beijou nos lábios. – Vamos dormir agora, você precisa descansar.
Enquanto aconchegava o namorado em seus braços, meditou um pouco. Se antes havia uma ínfima chance de conter os instintos de Patrick, agora essas chances foram reduzidas a pó. Não haveria como pará-lo.
CAPÍTULO XXII
You have my heart in a box, where is cold and dark. And I’m dying searching for the light.
Após o resgate de , o grupo de Gabe permaneceu em Texarkana por mais alguns dias, apenas até Veenie se estabilizar e permitir seu transporte até Dallas.
Ela não se sentia muito à vontade com a casa sempre lotada; antes eram apenas cinco deles, e de qualquer forma, não estavam sempre lá.
Bruce estava completamente curado e passara a ajudar nas rondas noturnas (Nesse quesito aprovara a ajuda de Gabe e seu bando, pois tirava algumas gramas dos ombros de Patrick, que andava bastante estressado).
Preocupava-se com o desenvolvimento dos ressentimentos pelo bando de Elisha. Não que desejasse poupá-los. Estava mais preocupada com o bem estar do namorado, que nos últimos dias, estava mais para refugiado.
Patrick se trancava na biblioteca por horas a fio e quando saía, ia direto para o quarto. Seu quarto. Então trancava a porta novamente.
Àquela manhã, ouvia histórias engraçadas sobre Flash, contadas por Kid, enquanto preparava o café da manhã (sendo ajudada por Kaileen).
– Então ele perseguiu o coelho, e a lenda diz que foi mais rápido – disse Kid. Ele tinha spikes no cabelo e usava uma camiseta rasgada do Rancid. Kid tinha os braços tatuados e os olhos marcados por maquiagem preta. Seu rosto parecia um mostruário de metal de tantos piercings. desconfiava que ele fosse gay, não por trejeitos ou características visuais, pois se seguisse essa linha de raciocínio, Kid seria o mais homem possível. Mas... Não tirava essa idéia da mente.
Após a narrativa do rapaz, Kaileen riu e disse:
– Por isso o chamam de Flash?
– Pois é, uma façanha correr mais que um coelho. – Kid recostou-se na cadeira, passando o braço pelo encosto da outra cadeira, enquanto bebericava o café.
– Não é façanha, é habilidade. – protestou Flash.
Esse era um tipo mais comum. Tinha cabelos ondulados na altura do queixo. Parecia ter descendência latina.
– Desde quando correr mais que um coelho é grande coisa? – perguntou .
– Já correu mais que um coelho? – perguntou Kid.
– Não. Aliás, coelhos pulam. – respondeu ela.
– Certo, ele pulou mais que um coelho então.
balançou a cabeça negativamente e sorriu de soslaio, despejando ovos nos pratos dos dois rapazes ali presentes. Voltou-se para Kaileen, quando os dois já haviam engatado uma outra conversa.
– Patrick já desceu?
– Não – respondeu a outra. – Mas já acordou, pois a luz da água quente do chuveiro dele acendeu por um momento no registro.
suspirou e deixou a frigideira no fogão, retirando o avental e ajeitando sua roupa. Subiu as escadas rapidamente e rumou até o quarto de Patrick. Não entraria de qualquer jeito, bateria na porta e esperaria ser recebida.
Então bateu duas vezes. Não houve resposta.
Bateu novamente, desta vez, com um pouco mais de força.
Viu a luz se movimentar pela fresta da porta e logo em seguida, ele abriu a porta. Parecia pronto para sair.
– Oi – disse ela.
Patrick não respondeu, apenas afastou-se, dando-lhe as costas e voltando para onde quer que estivesse. Ele deixara a porta aberta para que entrasse e ela fechou ao passar.
– Não vai descer? – tornou a perguntar, tentando obter alguma resposta.
– Já estou de saída – respondeu ele sem olhá-la. Patrick estava de costas para , voltado à estante, procurando algum livro.
– Onde está indo?
– Não acho que essa informação lhe interesse – disse seco. estreitou os olhos, pegando-o pelo braço e o fazendo girar, encarando-a. – O que está fazendo?
– O que você está fazendo, Pat? Está se isolando? Não quer mais conviver conosco, por quê? O que ta havendo? – pressionou.
– Não lhe devo explicações – ele puxou o braço com força, fazendo cambalear para frente. Voltou-se para a estante e tirou um livro de lá.
– Pensei que confiasse em mim.
– Não é nada sobre confiança.
– Então o que é?
– Nada, . – ele a encarou finalmente, mas seus olhos pareciam diferentes. – Nada. Nada que você já não saiba.
– Está... Perseguindo Elisha?
– Não estou perseguindo, estou estudando seus hábitos.
Então era isso... Ele estava observando o bando, para que um futuro ataque não parasse na rotina dos vampiros.
– Pat... – ela tocou em sua mão de leve. – Você precisa relaxar. Está deixando de se alimentar por causa deles, está modificando toda a...
– Relaxar? – perguntou ele. – Como posso relaxar? Quase te mataram! Veenie está crítico ainda! Bruce quase morreu, ! Não posso relaxar quando tantas pessoas estão sujeitas ao mesmo estado!
Patrick já estava exaltado. Agora que (uma burra) despertara seu estado nervoso, teria de ser paciente e esperar que ele se acalmasse.
– Não posso com a culpa de vidas sugadas, não posso carregar mais essa culpa.
– Não é culpa sua – ela aproximou-se e alisou o rosto dele, mas Patrick afastou sua mão.
– Sou o encarregado dessa área. Fui treinado para executar a tarefa que meus antecessores não executaram e estou falhando! – deu alguns passos para trás e virou-se novamente para a estante. – ESTOU FALHANDO!
Patrick socou os livros postados na estante e vários deles caíram pelo chão. assustou-se, levando as mãos à boca.
– Pat...
– NÃO ADMITO! NÃO ADMITO ESSA INCOMPETÊNCIA! – socou mais artefatos da estante e vários deles se espatifaram no chão. não fazia idéia qual o valor daqueles bibelôs, mas de qualquer forma, ele estava devastando tudo.
– Fique calmo! – ela tentava, em vão.
– Patrick? ? Está tudo bem? – ouviu a voz de Kaileen atrás da porta e apressou-se em dizer:
– Está tudo certo!
– NÃO! NÃO ESTÁ NADA CERTO! – Patrick jogou mais alguns enfeites na parede e escondeu-se nos braços para evitar os estilhaços. – Não está... – ofegou ele, apoiando o braço na estante.
arriscou aproximar-se novamente, tomando a mão dele para si.
– Não... Consigo acreditar que quase perdi Bruce. Quase perdi você – ele passou rapidamente os dedos por uma mecha do cabelo de . – Veenie está definhando... Por minha incompetência. Não sei mais o que fazer para proteger todos, não estou dando conta. Odeio perceber que não sou suficiente.
– Tento dizer a mim mesmo, todos os dias... Que levará um tempo. Que não conseguirei liquidá-los assim tão depressa... Tento manter minha mente calma, mas não dou dois passos dentro de casa e vejo Veenie em cima de uma cama. Vejo seu rosto cheio de cicatrizes, e tudo isso se acumula nas minhas costas. E sem falar em seu amigo Fred, que não conseguiu escapar. E todas as outras pessoas que perderam a vida e todas as famílias que estão incompletas por... – Patrick fechou os olhos e encostou o punho neles, rangendo os dentes. – Preciso acabar com esses vampiros o mais rápido possível, . Preciso.
– Sei que precisa. – ela disse. – Sei que precisa e sei que sente tudo isso, mas não é assim que você vai conseguir o que quer. Não pode se isolar, não pode deixar de se alimentar e agir como um louco, Patrick.
– Estou agindo como um louco?
– Sim! Todos hesitam perto de você. Até mesmo Gabe. Eles têm medo de dizer qualquer coisa errada e você de repente explodir, pois é assim que você tem estado.
Ele abaixou a cabeça e massageou a região dos olhos, suspirando.
– Me perdoe – sussurrou.
sentiu um tsunami de compaixão invadi-la sem precedentes. Levou a cabeça de Patrick ao seu ombro e o abraçou o mais forte que pôde.
Não sabia exatamente como lidar com aquela situação. Patrick tinha uma responsabilidade, mas estava falhando. Não era qualquer responsabilidade, ele deveria proteger os cidadãos de toda uma cidade, tinha as armas para executar tal tarefa, mas estava falhando.
Seus oponentes não deveriam ser subestimados, mas ainda assim, conseguia compreendê-lo. Se estivesse em seu lugar (e de certa forma, estava), iria se sentir igualmente incapaz. Era assim que se sentia em relação a Fred. Não pudera fazer muito para salvá-lo, mas agora poderia evitar que o mesmo acontecesse a outros. Se nela, que estava naquele negócio havia apenas alguns meses, ficava uma sensação de incompetência, quem diria em Patrick, que estivera trabalhando toda sua vida.
Mesmo que ele tivesse razão em se sentir insuficiente, ela deveria acalmá-lo. Fazê-lo perceber que não era tenso que ele conseguiria eliminar a ameaça da cidade.
Patrick envolveu os braços no corpo de , trazendo-a para mais perto. Ela acariciou sua cabeça, devolvendo o abraço.
– Eu te amo – ele disse.
Foi como se aquele tsunami finalmente tivesse afogado , após muito tempo de luta. As palavras de Patrick a atingiram em cheio. Afastou-se lentamente do abraço, até conseguir olhá-lo a uma distância razoável.
Seu semblante estava cheio de expectativa.
– Eu... Não consigo mais evitar essa frase. Não há outra forma de explicar o que sinto, tudo o que você me passa. – ele segurou em suas mãos. – Você é o melhor que eu tenho. Não vivi para mais nada durante os meus vinte e quatro anos. E de repente...
O sorriso que ele abrira naquele momento jamais havia visto. Era como se o Patrick neurótico e perturbado nunca tivesse se apoderado daquele ser.
Ela sorriu de volta.
– Você apareceu. – deu uma risada. – É engraçado... Pois só a sua presença já me passa uma segurança que é bem difícil de encontrar nessas horas.
– Pat – , após despertar de sua estática, aproximou-se e pressionou seus lábios contra os dele uma vez. Depois novamente, e mais uma vez. – Eu amo você. Amo, amo...
Ele segurou seu rosto e aprofundou o beijo. Patrick pousou uma das mãos entre a nuca e o maxilar de , a outra, em sua cabeça. Ela segurava em seus braços, sentindo seus lábios esquentarem pela pressão que os dele faziam. Todo o seu corpo estremeceu quando Patrick escorregou a mão da nuca dela até sua cintura. Aproximou-a ainda mais e beijou seu pescoço, subindo até a orelha e mordiscando o lóbulo da outra.
passou as mãos por dentro da jaqueta de Patrick, fazendo-o despi-la. Ele o fez sem partir o beijo. Reaproximou a garota puxando-a pela calça, mas tinha outra intenção. Como estava de costas para a cama de Patrick, puxou-o consigo enquanto andava para trás, sem saber exatamente aonde pararia. De repente sentiu suas pernas colidirem contra algo e percebeu que havia chegado. Sentou-se rapidamente, dando espaço para que Patrick fizesse seu caminho por cima dela, apoiando o corpo com os cotovelos.
Ele parou por um momento, estudando o rosto dela atentamente. Contornou suas feições delicadamente, vendo fechar os olhos ao sentir seu toque. Só conseguia pensar no quão linda ela era. Como conseguira, ele, um sujeito descuidado e desajeitado, uma garota tão fantástica?
– Como vim parar com você? – perguntou ele. riu e abriu os olhos, falando simplesmente:
– Sujeitos calmos e fáceis de decifrar me entediam.
Patrick gargalhou, dando uma última olhada em , antes de cerrar seus lábios nos dela novamente.
A garota passou as mãos por dentro da camiseta dele, deslizando-a pelo corpo do rapaz, retirando a peça de roupa. Patrick ergueu os braços para que ela completasse o feito, e assim que o fez, puxou-a para si, fazendo com que sentasse em seu colo. Ele a segurou firmemente, beijando toda a parte frontal de seu pescoço, descendo até o busto, e voltando por onde viera, parando no queixo.
A ouvira suspirar umas três vezes, o que indicava que estava no caminho certo. Era até vergonhoso para um cara de sua idade admitir que não houvesse feito aquilo muitas vezes, quanto mais com uma garota que realmente importasse para ele.
jogou a cabeça para trás ao receber inúmeros beijos na região do maxilar, e então, agarrou os cabelos de Patrick com força, fazendo com que ele a olhasse. Encarou-o por alguns segundos, antes de beijá-lo devagar.
Patrick gemeu, sem partir o beijo, ao sentir a língua de explorar seus lábios com uma lentidão que o deixava louco.
Segurou na barra da blusa da garota e a levantou sem fazer perguntas, encarando seu abdômen. Ele a deitou mais uma vez e postou-se sobre ela, beijando toda a região de seu busto, descendo até a barriga. sentiu um formigamento na parte interior de sua coxa e levantou, retirando o sutiã ela mesma. Patrick apressou-se em puxar a barra da calça de (por sorte um moletom) e jogou a peça longe.
Observá-la daquela forma, sabendo que aquela noite não seria de mais ninguém, fornecia a Patrick a paz necessária para lidar com tudo da forma certa.
Mas não naquele momento, pois naquele instante, sentia tudo, menos paz.
Nunca sentira seu corpo ferver tanto como fervia naquela hora.
– Como prefere? – sussurrou ela ao pé de seu ouvido.
– Me surpreenda.
CAPÍTULO XXIII
Time, take me away. ‘Cause I can’t fight anymore.
A discussão já ecoava no cômodo por vários minutos, e estava começando a cansá-la. Aquela seria a última vez que discutiria com Patrick sobre tal assunto.
– Por quê? Por que não vê que...? – estava nervosa. Kaileen, Bruce e Jack observavam a certa distância.
– Quando parar de falar coisas sem sentido, conversaremos novamente – Patrick disse sereno, posicionando livros na estante, como se meramente fosse um mosquito incômodo. Aquilo a deixava transtornada. Por quanto tempo ele preservaria aquela opinião ignorante? Ela tinha plena capacidade de patrulhar com o grupo, aprendera todos os feitiços d’O Livro, sabia manusear uma arma e estava fazendo progressos consideráveis nas aulas de combate corpo-a-corpo com Kaileen e Jack.
– Sem sentido é o que está fazendo! – bradou para ele. – Patrick, sem mim vocês são quatro! Precisam da minha ajuda!
– Grande diferença um componente a mais.
– Faz diferença para mim!
– Não vou deixar que vá lá fora para ser apanhada novamente.
– E vai me manter trancafiada aqui? Sou sua prisioneira agora, Huddersfield?
– Se eu desejar, sim, você será.
Kaileen percebeu o rosto de tornar-se vermelho lívido, e decidiu aproximar-se.
– Patrick, seja racional. Precisamos dela.
– Fique na sua – ralhou o líder, mas a outra não se intimidou.
– Não use esse tom comigo, Pat – disse ameaçadoramente. – Sabe que minha corda laça seu pescoço em três segundos se eu desejar. – parafraseou, zombeteira. escondeu um sorriso e Patrick girou os olhos, desviando a atenção de seus livros e encarando as duas.
– Não vou permitir. Essa é minha palavra final. – disse ele, como se nenhum dos argumentos apresentados fizesse ínfima diferença.
– Tanto faz – deu de ombros. – Vou de qualquer forma no próximo turno.
Estava decidida. Afinal, para quê tinha estado naquela casa por todos aqueles meses se não poderia exercer o que andara aprendendo?
Deu as costas ao namorado teimoso e aos outros que ouviam a conversa; rumando à porta, mas fora impedida.
– Nem tente – Patrick segurara seu braço e a voltara para ele. – Se fizer isso, aí sim, a prenderei em uma masmorra! E não poderá sair nem para visitar sua mãe!
Cerrou os dentes, enfurecida.
Odiava Patrick naquele momento. Queria que todos os seus cílios fossem lentamente arrancados e suas pálpebras mutiladas, então, seus olhos perfurados...
– Já disse. É minha palavra final.
– Por que acha que sua decisão é a minha decisão? Tenho uma opinião! E quero pô-la em prática! – esbravejava. – Diabos, Patrick, estou cansada de vê-los voltar ensangüentados e esbaforidos pelo esforço, sabendo que eu poderia estar lá para ajudá-los! Não quero ir caçá-los por enquanto, só quero patrulhar! Só isso, me deixe fazer isso!
– Não.
A garota cruzou os braços, derrotada. Sabia que não conseguiria uma palavra ou incentivo do outro; se quisesse mesmo ir patrulhar teria de sair sozinha e provar que conseguira sobreviver. Mesmo que essa atitude trouxesse o Patrick assassino e enfurecido de volta.
Ele andara um pouco mais calmo durante as últimas semanas. Conseguiram que Patrick se preocupasse menos em eliminar o bando de Elisha; ele andara caçando outros vampiros das redondezas e ajudando grupos a capturarem os fugitivos do Vilarejo em anarquia. Aparentemente, houve uma rebelião. Os grupos próximos à fronteira não estavam dando conta de segurar os rebeldes; Patrick, Gabe e mais alguns líderes levaram seus grupos como reforço.
Apenas não fazia parte desse exército. Tinha de ficar em casa quieta e comportada, esperando pelo retorno dos outros.
– Está me transformando em uma dona de casa! – bradou. – Não irei deixá-lo me controlar!
– Se você decidir se rebelar, irei prendê-la em uma masmorra, como falei.
– Se tentar, irei embora e nunca mais me verá! – ela estava falando sério. Tão sério que seu tom de voz o preocupou. Kaileen, Jack e Bruce já haviam deixado o recinto, restando apenas Patrick e .
O rapaz caminhou até ela e tentou tocar-lhe o braço, mas a outra o evitou, murmurando um “Não me toque!” aborrecido.
– Perdoe meu egoísmo – começou. – Mas não irei lhe dar esse luxo. Não posso me arriscar a perdê-la.
Nem mesmo aquelas palavras a fariam aliviar.
Talvez um pouco.
Ainda o odiava, mas não queria seus belos olhos perfurados. Patrick desviou do corpo de e estava caminhando em direção à saída, mas ela não o deixaria sair tão fácil.
– Não estou mais pedindo por sua permissão – comunicou. – Estou avisando. Irei patrulhar com Kaileen no próximo turno. Se desobedecê-lo, vossa majestade, significa ter de sair de baixo de suas asas, o farei. Voltarei para a minha casa e farei tudo sozinha.
Patrick permanecia de costas, seu rosto (invisível para ) virado para a porta.
– Quero vingar Fred, é por isso que estou aqui. Nem você, nem ninguém irá me desviar dessa meta.
O silenciou reinou na biblioteca por uns instantes e nem o fogo crepitante da lareira emitia sons.
– Então saia. Enquanto estiver sobre minha vigilância não irá patrulhar terra nenhuma. – disse ele, em seguida, completando o caminho que iniciara; deixando a sala.
estava, de certa forma, entristecida por Patrick ter desistido tão fácil.
Ele a mandara ir embora.
Mesmo que desconfiasse do namorado ter dito aquelas palavras apenas por saber que não o desobedeceria, não gostara de ouvir e estava decidida a contrariar as expectativas de Patrick.
Iria sair.
Enquanto fazia as malas, resmungava situações inusitadas onde Patrick acabaria solitário e definhado.
Após um tempo de revolta e expressão de raiva por intermédio de suas roupas, suspirou lentamente, observando o bolo de roupas jogadas em cima da mala. Tinha de ser sincera consigo mesma, não estivera fazendo bagagem alguma, sabia que não sairia de lá e que no fim, obedeceria às ordens do Senhor Líder, mesmo que isso a deixasse furiosa.
Patrick iria sempre conseguir que seguisse seu plano, talvez a habilidade de persuasão tivesse sido um tópico no aprendizado da família Huddersfield contra os seres malignos.
– Não acredito que está fazendo as malas! – ouviu a voz de Bruce dizer da porta. a deixara aberta para o caso de Patrick passar pelo corredor. Queria que ele a visse fazendo as malas.
estalou a língua, cruzando os braços e desabando na cama, em cima de suas roupas.
– Sabe que ele não estava falando sério, não é?
– Não quero saber dele, espero que pire de vez e vá a um hospício.
Ouviu Bruce bufar e soltar algumas risadinhas.
– Não é para rir! Estou com muita raiva!
– Certo, certo... Por que eu não te ajudo a colocar essas roupas de volta no armário? – perguntou ele, prestativo e compreensivo. franziu o cenho. Até Bruce já tinha certeza de que ela não iria embora.
– Não acredita que eu vá mesmo, não é? – perguntou.
– Claro que não acredito. Sozinha, o que você pode fazer?
– O mesmo que estou fazendo aqui! NADA! E não quero continuar fazendo nada! – levantou-se e encarou o outro. – Bruce, precisa me ajudar!
De repente, a expressão de Bruce, que era cômica e apreciativa, tornou-se fechada e negativa.
– De forma alguma, não irei...!
– Por favor! Tem que convencê-lo a me deixar sair!
– Acha que quero aborrecê-lo?
– Não quer me ajudar? Se você não me ajudar, vou ter que ir sozinha!
– Sabe que não vai coisa nenhuma.
– Se continuar me provocando, saio agora mesmo!
– Acha que vou deixar?
– Bruce!
E lá estava ele, rindo novamente. não gostava da diversão que proporcionava a Bruce, sentia-se incapaz. Como se sua incapacidade fosse muito óbvia a todos, e ela querer sair para patrulhar fosse uma piada hilariante. Estava farta daquilo.
Sairia de uma vez por todas.
Deu as costas à Bruce e às suas roupas, deixando o quarto sem pronunciar mais nada. Ouviu o amigo dizer “Ei, onde vai?”, mas não respondeu. Sabia que nenhum deles a achava incapaz. O que eles não queriam era aborrecer Patrick.
Patrick era todo o problema.
foi até o quarto do namorado – vazio. Patrick voltara à biblioteca para terminar sua arrumação – e rabiscou um bilhete desdenhoso e provocativo.
“Já fui. Não me espere, não pretendo voltar”.
Não sabia se sua mãe iria concordar com a vida que pretendia levar. Talvez a Sra. a obrigasse a voltar para a escola, coisa que ela não poderia suportar.
Manter-se afastada da vida que levava antes do acidente fora de grande ajuda para não sentir todos os efeitos da morte de seu melhor amigo. Não imaginava como seria voltar para a escola e vivenciar tudo o que costumava dividir com Fred. Antes de tudo, não seria capaz de sequer “vivenciar” sabendo que Fred morrera por uma causa absurda.
Isso a estimulava ainda mais.
Queria que morresse, queria que ele pagasse por ceifar a vida de Fred e era por isso que se sentia disposta a enfrentá-lo.
Entretanto...
Ao chegar na porta da mansão Huddersfield, apenas a um passo da liberdade... Não fora capaz de pôr seu plano falho em prática. Não tinha idéia do que fazer após se desvincular de Patrick, não sabia como começar uma vingança singular e despreparada. A verdade era que... Ainda não estava preparada para enfrentar .
Ainda assim, abriu a porta e saiu para o vento frio do entardecer. Uma chuva se aproximava, mas ela não se importava muito. Sua cabeça estava um turbilhão, parecia não se acalmar.
Sentia-se triste por Patrick ter concordado com sua partida, sentia-se uma tremenda burra por não ter noção de como continuar em sua nova vida sem algo onde se apoiar.
Sentia-se pior ainda por se dar conta de que estava verdadeiramente sozinha. Não havia mais ninguém que a conhecesse como Fred a conhecera, que lhe apoiasse como Fred apoiara ou que lhe divertisse como ele.
Kaileen e os outros eram boas pessoas, a proporcionaram bons momentos, mas nenhum deles poderia ser comparado a Fred.
decidira seguir aquele caminho por seu amigo, para vingá-lo. Essa decisão a fizera deixar para trás boa parte do que vivera e do que conhecia.
Não podia mais contar com Patrick, como poderia contar com ele? Queria trancafiá-la em uma masmorra ao invés de compreender seus sentimentos e ajudá-la em sua vingança! Patrick estava muito ocupado tomando conta de seus próprios interesses, ocupado demais para se preocupar com os outros.
sabia bem que pensar dessa forma podia ser apenas um efeito momentâneo, causado pela tristeza e saudade de seu melhor amigo, que pela primeira vez, parecia pairar sobre sua cabeça. Sabia o quanto Patrick e seus amigos haviam feito por ela durante o tempo em que estivera com eles, mas... Por um momento, desejou que todos eles sumissem se isso fizesse Fred voltar.
[Flashback]
– Ei, o que é que você está fazendo? – perguntou, observando Fred voltar do porão com uma caixa empoeirada. – O que é isso?
“Shhhh” murmurou o outro, olhando apressado para um ponto atrás de , travesso. Ele estava aprontando alguma coisa. Ela não conseguia evitar esboçar um sorrisinho ao ver aquela expressão no rosto de Fred.
– São os discos da minha avó. Mamãe fica muito brava quando tocamos neles, são como o tesouro que vovó deixou.
– E o que você pretende fazer com isso?
– Vender, é óbvio! – respondeu, como se tivesse problemas mentais. A garota arregalou os olhos, olhando para trás e verificando que estavam sozinhos.
– Vai vender os discos da sua avó? Mas por quê?! – perguntou impressionada, passando os discos postados na caixa com os dedos. Eram bem velhos, discos de Eagles, Jerry Lee Lewis, Elvis Presley, Billy Ocean e Lionel Richie. A avó de Fred tinha um gosto diversificado. desconfiava que alguém fosse querer comprá-los.
– O pára-choque! – Fred exclamou, caminhando em direção às escadas, subindo-as rapidamente. o seguiu. – O pára-choque do carro da sua mãe, você o quebrou, não foi?
– Sim, mas...
Eles chegaram ao quarto e Fred empurrou a porta com o pé. O local cheirava a meia velha e Doritos, mas já estava tão acostumada que não sentira o odor.
– Pois é, vou vender os discos da velha, juntar com a grana que eu tirei ontem por cortar a grama dos Simpson e consertar o carro antes que ela volte de viagem! – o rapaz finalizou, pousando a caixa na cama e parando de frente à com as mãos na cintura e uma expressão entusiasmada. Estava boquiaberta. Comentara sobre não ter dinheiro para pagar o conserto no dia anterior, mas não sabia que seu amigo viria com a solução.
– Mas Freddie, eu bati o carro sozinha. – contestou. – É insano que você pague por um prejuízo o qual nem esteve envolvido!
– Ei, Jekyll! – ele repreendeu. – Não se importe com isso, depois você me devolve o dinheiro.
Piscou para ela e abriu um sorriso. Não restou muito a , apenas sorrir de volta. Fred sabia que ela não pagaria. Eles nunca pagavam as dívidas que faziam um com o outro.
De qualquer forma, ele entraria em uma grande fria por vender os discos da avó. Precisaria de abrigo por pelo menos uma semana, e cederia o chão de seu quarto com todo prazer. Na verdade, adorava quando Fred fugia de casa e se refugiava em seu quarto. Passavam a noite inteira jogando videogame e acabavam dormindo na aula de História Americana.
– Valeu, Hyde. – agradeceu. Fred abanou o ar e esticou o punho para ela.
– Tsc, somos eu e você contra o mundo, não é?
Gargalhou, fazendo com que ele a acompanhasse.
– Eu e você contra o mundo – respondeu, batendo seu punho no dele.
[Flashback]
Enxugou as lágrimas que desciam sem parar, mas sua atitude não teve efeito contra os soluços, que movimentavam seu corpo quase que violentamente. Não era justo que alguém como Fred tivesse encontrado um destino tão brutal; era tão empolgado, fazia tantos planos para o futuro. sofria com a realidade de que ele nunca viria a atingir seus objetivos. Comprar a Activision e produzir games eróticos em 3D inspirados em personagens reais.
Soluçou uma gargalhada ao lembrar da ambição de seu amigo.
Viera evitando esses pensamentos por saber onde eles a levariam, mas não podia mais evitar. Tinha que lembrar de Fred.
Encostou-se na porta, observando a escadaria que a levaria à rua, mas não a desceu. Apenas fez seu corpo deslizar pela porta, sentando-se no chão.
Queria sentir aquela frieza bater em seu rosto e lembrar um pouco mais de como costumava ser uma adolescente comum e inconseqüente. De como a vida com Fred era tão divertida. Comparado ao que andara vivendo, era um sonho.
Deixou que suas lágrimas continuassem escorrendo. Enxugá-las não iria fazer a sensação sumir.
– ! – ouviu uma exclamação atrás de si, mas não se virou para encarar quem gritava furioso. Sabia quem e o que causara sua fúria. sentia suas costas livres, constatando que a porta fora aberta. – O QUE PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?
Não respondeu, apenas fechou os olhos e tentou imaginá-lo o mais longe possível. Não queria que ele estivesse em sua mente agora.
– Que espécie de bilhete é... O quê? Está chorando?
Então se agachou até ela, estudando seu rosto por um tempo.
– Desculpe, não pretendia lhe prender em uma masmorra, mas você tem que entender que...
Não era nada disso. Nada do que ele estava pensando. Por que não compreendia de uma vez por todas? Virou o rosto e o encarou. Patrick sustentava uma expressão preocupada, ansiando uma resposta de .
– Você não dá a mínima para o meu amigo morto, não é? Está muito preocupado com seus próprios assuntos para se dar conta! – bradou, afastando-se mesmo que um centímetro, para bater na lateral da porta.
– , nã... – começou o outro, mas ela o interrompeu.
– Não dá a mínima para como eu me sinto em relação a ele, não se importa que eu esteja sofrendo! – quanto mais falava, mas sentia seu choro intensificar. Isso deixava Patrick angustiado.
– Sabe que não é verdade, eu...
– Não liga para nada do que eu sinto! – tapou a boca com as mãos, tentando controlar seus soluços, sem muito sucesso. – Eu sinto a falta dele... Muita...
Então Patrick desistiu de se explicar, apenas a envolveu em um abraço. Apertou o mais forte que pôde. Ela não tentou se desvencilhar, aceitou o abraço de bom grado. Estivera furiosa com Patrick momentos atrás, mas não poderia negar seu conforto. Ele era um excelente porto seguro naquele momento.
De repente, sentiu remorso por tudo o que pensara sobre ele nos últimos minutos. Fred e Patrick não poderiam ser comparados em hipótese alguma. tinha sentimentos por ambos, mas bem distintos e distantes. Pelo menos Patrick poderia abraçá-la. Fred só lhe deixara memórias.
– Venha, vamos entrar.
Ele a ergueu e a pôs para dentro de casa, onde estaria aquecida do vento gelado do entardecer.
CAPÍTULO XXIV
It seems what's left of my human side is slowly changing in me
"Certo, Patrick, você venceu" foram as palavras proferidas por ao fim de mais uma discussão. Ninguém na casa suportava mais o assunto, Jack havia passado dois dias longe para fugir do clima guerrilheiro que cercava a mansão Huddersfield; e Patrick travavam uma batalha aberta a respeito da liberdade da outra.
Estavam sem trocar uma palavra sequer havia mais de três dias e sem previsão para tratado de paz.
- Está me dando nos nervos - Kaileen ralhou ao observar a amiga rodear o balcão da cozinha.
- Preciso me organizar melhor. Penso que não será suficiente decretar minha própria liberdade, ainda irá parecer que sou prisioneira de Patrick. Preciso provar a ele que necessito sair. - pensava em voz alta.
- Da última vez que saiu sozinha... - Kaileen ia dizendo, mas foi interrompida.
- Já sei, já sei. Argh! - arfou , imaginando como faria para encerrar aquele tópico. Sair às escondidas só iria irritar Patrick ainda mais. - Kai, vamos comigo! Vamos até a casa de minha mãe. Se você for comigo, Pat não ficará tão furioso.
A outra arregalou os olhos para ela e escancarou a boca, pronta para estrondar uma bronca.
- ! Pare de me introduzir nos seus planos de fuga!
- Mas preciso ver minha mãe! Há tempos que não falo com ela, Kaileen! Você é a única que pode me ajudar. Por favor...
- Já disse, não me coloque em seus planos. Sabe que a primeira pessoa contra quem Patrick irá se voltar será eu, pois sabe que você sempre consegue me convencer a te levar aos lugares. , não olhe pra mim dessa forma. Desculpe, mas não irei dessa vez.
Parecia uma causa perdida. suspirou pesado e deu as costas à Kaileen, rumando às escadas e as subindo rapidamente. Chegou em seu quarto e abriu a janela. Pelo menos a uma fresta de mundo exterior ela tinha direito. Se tivesse idéia do transtorno que abrir aquela janela causaria, jamais o teria feito.
De repente, sentiu-se disposta a tomar um banho quente. Estava fazendo frio em Texarkana e agasalhar-se após um banho relaxante parecia uma excelente opção.
Despiu-se ainda fora do banheiro, jogando suas roupas pelo chão (mantendo em mente apanhá-las ao sair). Foi tão rápido que nem soubera como ele entrara ali. Em um segundo, entrava em seu quarto vazio para tomar banho, no outro, encontrava-se parado à porta do banheiro, tranquilamente encostado.
A informação parecia não ter atingido o cérebro de com a rapidez necessária, pois teve tempo suficiente para analisá-la sem roupas e coçar o queixo, dando uma risadinha prazerosa. O vampiro andou até a garota pacientemente. deu um passo para trás, alarmada. Como ele...?
- Oi - disse em uma voz comum.
- O... O que... Como você...? O círculo...? - assustou-se a outra. Será que era prudente gritar? Será que feitiços realmente não funcionavam com ? Valia a pena tentar?
- Ah, aquilo? - zombou o vampiro. - A proteção de seu namorado falhou, não é óbvio? Estou aqui.
- O que quer? - não tinha certeza se queria saber a resposta.
pousou o olhar sobre , estudando-a atentamente. Havia algo diferente em seu olhar.
- Estou te sequestrando.
- Ahn...?
- Vou te levar comigo.
A próxima coisa que viu se tornou bastante confusa em sua mente. Parecia acordar após uma eternidade. Não, parecia acordar de uma ressaca; a pior ressaca de sua vida. Não recordava nem te der adormecido. Abriu os olhos com dificuldade, pensou até ter de abri-los com os dedos. Enxergou alguns borrões de início, mas aos poucos, a imagem foi se estabilizando. Não fazia idéia de onde se encontrava, mas era um lugar bonito.
Com uma dor na boca do estômago, lembrou-se de ter visto em seu banheiro. Será que havia sonhado? Andava tão aterrorizada pelo pânico de Patrick que estava vendo o inimigo em todos os cantos? Ou será que... O inimigo de fato estava em todos cantos?
Posicionou-se sentada na cama e esfregou o rosto.
Havia algo errado.
Havia algo muito errado.
franziu as sobrancelhas, levando as mãos à vista, analisando seus dedos. Aparentemente estava tudo certo, mas porque sentia que não estava? Suas unhas sempre foram da forma que enxergava; suas mãos e braços. Seus pés...
Tocou o próprio rosto, desceu o toque pelo pescoço, alisou seus cabelos.
Não sentia nada de diferente.
Ergueu o rosto e observou o local. Conhecia aquele estilo decorativo. Tirou as cobertas de cima de si e desceu da cama.
Não esperou pelo que viera a seguir. não conseguiu aprumar-se em suas pernas.
- Droga! - praguejou, segurando-se fortemente nas cobertas ao cambalear. Não fora um apoio muito bom, desabara com tudo no chão, puxando as cobertas consigo. - Droga... O que é isso...? Que merda tá acontecendo comigo?
Perguntou-se aos sussurros. Não conseguia levantar sozinha, estava tendo que apoiar-se em todos os cantos, na cama, na cômoda e na parede. Quando finalmente postou-se de pé, pestanejou olhando ao redor mais uma vez.
- Que merda é essa? - não entendia o que via. Sua visão era diferente, era como estivesse em um jogo de primeira pessoa. Antes mesmo de pensar em virar, já estava de fato enxergando o que desejava. Era como se seu cérebro estivesse agindo mais rápido, como se seus olhos enxergassem completamente. Havia uma janela naquele quarto, fechada por grossas cortinas de cor cinza. Pensou em ir até lá, e com esforço, arrastou-se até a janela. Esticou um tanto a cortina; antes não o tivesse feito. Algo a atingira com um impacto que jamais sentira. Gritou horrorizada, tamanha a dor. Desabara no chão novamente, observando o local atingido; o braço com o qual abrira a cortina fora queimado. tapou a boca com a mão boa, imaginando o quê a havia ferido, se apenas abrira a cortina. Não desviou os olhos do braço levemente queimado.
- ? - ouviu o chamado. Automaticamente virou-se para enxergar quem a chamara.
.
Então não fora um sonho, ele estivera de fato em seu banheiro. E aquele local provavelmente era sua casa (sabia que conhecia aquele estilo decorativo). fora sequestrada novamente? Mas por qual razão desta vez? Ainda para provocar Patrick, por ser a mais fraca do grupo? E o que infernos haviam feito a ela?
- O que você fez? - arfou a pergunta que a atordoava desde que acordara. Baixou os olhos até seu braço, pois notara que a dor havia sumido.
Bem, deveria, já que a vermelhidão da queimadura também havia sumido.
- Como...? Acabei de me queimar na janela... - sussurrou mais para si que para o outro. deixou escapar uma risada compreensiva.
- Claro que se queimou. Está fazendo um sol insano lá fora. Me admira, com tanta chuva. - respondeu ele. - Venha, vou levantar você.
não lutou contra a ajuda do vampiro. Sua mente estava muito confusa para fazer separações. a sentou na cama e em seguida sentou-se de frente a ela.
- Como se sente?
- Não sei - respondeu a garota, ainda observando ao redor na tentativa de compreender sozinha. - É estranho... Que fez comigo?
Ergueu a cabeça para encarar , e o que sentiu ao vê-lo não fora o mesmo que sentira da última vez. Um sentimento familiar tomou conta de , como se a presença de não fosse alarmante. Como se estivesse segura perto dele. Não sentiu necessidade de levantar e sair correndo, pois sentia que ele não faria nada para machucá-la; mas por que sentia isso?
- Fiz... - o outro a olhava de uma forma tão estranha quanto ela o estudava. arrumou os cabelos de com paciência antes de finalizar a resposta. - O que acha que fiz?
"Claro que se queimou, está fazendo um sol insano lá fora" revisou as palavras dele em sua mente algumas vezes. Por que infernos se queimaria ao sol? E por que a ferida sumiria se tinha certeza que havia se queimado? Por que sentia como se aquele corpo não fosse o mesmo que conhecia?
Ah, mas ela sabia a resposta. tinha a única resposta para todas essas perguntas, mas não se permitia sequer pensar nela. Tinha de ser, mas não cogitava essa possibilidade, porque não era possível. Não podia ser.
- Não... - sibilou, cogitando pela primeira vez a idéia que temia. - Não.
- Por que não? - perguntou .
- Você não fez isso, fez? - repentinamente, sentia-se perdendo o controle de suas emoções. O que estava sentindo? Sabia que lágrimas pesadas escorriam por seu rosto, sabia que iria começar a soluçar em pouco tempo, mas o que era aquilo que sentia? Estava com raiva de ? Estava aliviada, estava contente?
- , fique calma. Se começar a surtar agora vai ser pior pra todos nós. Não quero que você surte, então, fique calma. - aconselhou o outro. Um instinto totalmente novo que desconhecia a dizia para obedecer, mas ela o ignorou. Ou pelo menos achou que havia ignorado.
Quando o choro se intensificou, afastou-se da cama e andou de um lado para o outro, com a maior calma do mundo, como se esperasse terminar sua lamúria.
- Por que fez isso...? Por quê? Me odeia tanto assim? Por que, por que... Ai meu Deus... E Patrick? O que fez com ele, onde estão os outros? - levantou-se de um pulo, mas como da outra vez, desabou no chão sem sustentação alguma. - AAAAAAAAAAH! MERDA! AINDA ISSO! ME DEIXOU INVÁLIDA, SEU MISERÁVEL?
correu ao seu socorro, a postando de volta na cama. Sorriu ao ouvir o xingamento.
- É como um inseto que sai do casulo. Deve reaprender e se acostumar com seu novo corpo. Não vai ser fácil, mas vou ajudá-la.
- Não... - precipitou-se, balançando a cabeça frenética. - Não está entendendo, não quero nada disso! Não quero reaprender, só quero ser quem era há alguns momentos atrás! Não quero, preste... Preste atenção, não tenho... - pôs as mãos na cabeça, forçando seu cérebro a puxar o restante da frase, mas era como se estivesse em branco. Tinha a frase na ponta da língua momentos atrás, mas de repente esqueceu o estava dizendo. - MERDA! PARE COM ISSO!
- Pare com o que? Não estou fazendo nada. - defendeu-se ele.
- Pare o que quer que esteja fazendo, não quero fazer parte disso! Me deixe ir embora, por favor... - agora estava desesperada. Chorava como se fosse sentir pena dela.
- ...
- SOCOOOORRROOOOOOOOOOOOO! SOCORRO, ALGUÉM ME AJUDE! NÃO, NÃO QUERO ISSO, NÃO QUERO...!
- ! - bradou em tom autoritário. Foi como se uma rajada de calmaria tomasse conta de . Cessou a gritaria e o choro foi parcialmente interrompido.
- Por que fez isso comigo? - perguntou.
fechou os olhos por um momento e ao abri-los, tirou do bolso de trás da calça um lenço, aproximando-se mais de e enxugando seu rosto. Ela não movera um músculo.
- Fiz porque tive que fazer.
- Deus do céu... Patrick. Onde ele está? Que fez com ele?
- Não fiz nada. Foi exatamente como recorda. Entrei, apanhei você e voltei. Não topei em ninguém, ninguém me viu. - ele entregou a garota o lenço com o qual enxugara seu rosto e o segurou.
Ainda não entendia aquela relação. Como era possível estar tão apavorada com a idéia de, pela primeira vez pensando claramente a respeito, ser uma vampira, e aceitar de bom grado as ações e palavras de ? Como era possível se sentir segura perto dele?
- Devem achar que estou morta... Preciso... - tentou levantar-se rapidamente mais uma vez, mas ao tocar o chão com os pés, sentiu que vacilaria novamente, não se ergueu. Apoiou-se na cama e vagarosamente, colocou-se de pé, apoiada na parede.
- Não precisa coisa nenhuma. Você é minha agora, não tem mais nada com aquele Huddersfield. - disse seguro.
- Que quer dizer com "você é minha", seu patife?
- Você é minha, . Eu a fiz minha, não sairá de perto de mim até eu dizer que pode. - deu uma última olhada nas pernas da garota. - Ou até que você possa sair.
CAPÍTULO XXV
Obey your master! Master!
As primeiras horas foram caos total. Na mente de , é óbvio.
Sentia-se injustiçada, sentia asco de si mesma e depois, tentava pensar em um plano de fuga.
Pelo menos já conseguia andar normalmente.
Vez ou outra aparecia no quarto para ver como estava. se acostumara com a presença dele de uma forma anormal. Deveria estar chorando de ódio ao ver seu assassino. O assassino de seu melhor amigo e o de tantos outros. Sua instabilidade emocional a assustava; às vezes queria que permanecesse no quarto. Era como se ele fosse uma espécie de apoio. se apanhava pensando em suas palavras "Vou ajudá-la". Como era possível que tivesse esse tipo de pensamento errôneo? não era apoio para ninguém, apenas para si. Era capaz de dilacerá-la em dois segundos, sabia o monstro que era. Era um vampiro.
"A partir de agora, você também é".
Sua consciência poderia lhe dar férias por uns tempos, mas fizera pior.
E ainda havia a questão do círculo.
Como conseguira passar pela proteção dos Huddersfield?
teve seus pensamentos interrompidos quando a figura de Sahara apareceu, abrindo a porta delicadamente e adentrando o recinto sem receio algum.
- Olá - cumprimentou, aproximando-se da cama passo por passo. achou que por cuidado, talvez para não assustá-la. - Como está? Todos estão ansiosos pela resposta.
virou o rosto para longe, apenas por pirraça; não estava brava com Sahara. Na verdade, era a primeira vez que a vampira aparecia em frente a ela em suas novas condições. Elisha havia vindo para discursar como um político e dizer o quão importante era que colaborasse com .
- Não posso continuar desconfiando do meu próprio irmão. Devo a ele o benefício da dúvida, e nada melhor do que fazê-lo um mestre. - dizia poeticamente. - vai aprender que tudo o que você, , fizer, irá afetá-lo. Dessa forma irá ver o quão errado estava sempre que me desobedecia.
- Deixou que me transformasse apenas para lhe ensinar uma lição? - perguntou indignada. Aquele era o universo dos vampiros. Um universo onde a vida humana significava migalhas.
- Sim. Esse foi meu motivo. Os motivos de - Elisha abanou o ar e revirou os olhos, como se os motivos que fizeram o irmão transformar em um ser igual a eles fossem irrelevantes. - de qualquer forma, não há como voltar atrás. Agora você está ligada a ele por elo sanguíneo. é seu criador e seu mestre, deve segui-lo. Deve jurar obediência e gratidão.
- Gratidão? - sobressaiu-se, andando para longe de onde Elisha mantinha-se parada. - Desculpe, mas gratidão pelo quê, exatamente? Pelas malditas presas que ele fincou na minha jugular? Ou por estar morta?
Elisha deu de ombros.
- Agradeça por não estar a sete palmos.
- Agradeceria se estivesse.
Agora lá estava Sahara, pronta para despejar em besteiras sobre como ser um vampiro era glorioso e sobre como ela deveria ajoelhar-se aos pés de e agradecer por ser uma aberração.
- Estão? - perguntou , sem se importar muito com o fato de que a horda assassina estava em algum lugar próximo a ela.
- Sim. Ferris e Drake fizeram uma aposta. - Sahara continuava se aproximando lentamente, e diferente de quando Elisha aproximou-se, não se moveu. - Apostaram que você tentará voltar para Patrick.
- E o que os faz pensar assim? - ainda não encarava a vampira, mantinha seu olhar calmo e entediado na direção da janela. Havia um monte de folhas encostadas à janela, sinal de que uma árvore sitiava aquele lado. havia verificado os arredores pela janela após a noite cair. Estava em um primeiro andar de uma casa na floresta. Provavelmente a mesma de sempre, não conhecia aquele quarto e muito menos a vista que proporcionava.
- Você ainda acha que é humana. Ainda tem seus instintos humanos e ainda está presa a sua vida humana. - respondeu. ignorou. - Também há uma outra aposta.
- Em quantos segundos vou matar cada um de vocês?
- Não. Em quantos segundos Patrick vai matar você.
Aquela resposta fez com que virasse o rosto para Sahara, que a encarava com naturalidade. Não havia escárnio nem desdém em seu olhar, estava apenas observando . Talvez um pouco de cuidado.
- Isso é ridículo.
- Não, é a verdade.
Naquele momento, mais alguém entrou no quarto. apertou os olhos para o vampiro de longos cabelos e aparência élfica.
- Sahr, precisamos de você aqui embaixo. - disse Ferris. Em seguida, ergueu a cabeça e olhou . - Está se sentindo bem?
Não respondeu à pergunta, apenas devolveu o olhar do outro.
- Vou em um minuto. - Sahara respondeu e Ferris assentiu, saindo e fechando a porta. - O que eu quis dizer, ... - continuou, voltando-se para ela.
- O que quis dizer é que você não pode confiar no Patrick. Não mais.
riu ao ouvir. Engraçado como vampiros a diziam para não confiar em um ser humano.
- Devo confiar em vocês, então?
- Não acredita que ele tentará matá-la? - Sahara cruzou os braços. - Então vá até ele, . Vá até ele, veja o que fará com você. Vim até aqui porque Elisha me pediu pra ajudá-la a se alimentar. Mas isso terá que ficar pra depois.
E com isso desapareceu. Não simplesmente desapareceu, observou-a a sair pela porta, mas em uma velocidade surpreendente. Assustou-se em poder ver todos os movimentos da vampira. "Ah é, tenho poderes agora. E com grandes poderes vêm grandes responsabilidades". Como tirar a vida de alguém.
Aparentemente era o próximo passo.
estava começando a sentir tédio dentro daquele quarto. E preocupação.
Patrick a havia abandonado? Por que não viera? Ou talvez viera e não ficara sabendo. Ou... Talvez... Talvez e seu bando insano tivessem acabado com ele. E não ficara sabendo.
Aquele breve pensamento, mesmo que não acreditasse nele, a aterrorizava.
Além do tédio, sentia fome.
Sim, estava faminta e não sabia mais como enganar seu corpo. Estivera correndo pelo quarto, observando-se no espelho, ou abrindo a janela durante o dia para ver o quanto podia agüentar. Estivera testando a si mesma e durante esse tempo conseguira evitar pensar em sua nova dieta, mas aos poucos sua resistência fora esvaindo. Não restava muito agora e podia sentir seus novos instintos lutando para sair.
- Está pronta?
não fora surpreendida dessa vez, virou-se bem a tempo de ver parar atrás dela. Estava aprendendo a notar a presença deles. Momentos atrás, quando Drake entrara no quarto e tentara assustá-la, sentiu sua presença.
- Está mais rápida. Bom. - o vampiro da cabeça tatuada deu de ombros. - Não faz diferença, não temos mais intenção de devorá-la. Ei, você precisa descer, precisa se relacionar com o bando.
Drake falava como se fizesse parte do grupo, como se agora fosse uma deles. Sim, mesmo que fosse uma vampira não significava que queria ser uma integrante daquele bando. O bando que acabara com Fred, que quase matara Bruce e Veenie e que se alimentou de tantos outros. o olhou azeda, rugindo para alguém pela primeira vez.
- SAIA DAQUI! Ou vou entoar um feitiço e explodir sua cabeça! - sabia que não podia mais lançar feitiços contra vampiros ( a explicara. Vampiros não podiam amaldiçoar outros vampiros), mas era suficiente ver a expressão divertida de Drake mudar, mesmo que por dois segundos.
- Pronta para quê? - perguntou a .
- Vamos sair. - disse, indo até ela e capturando-a pelo braço antes mesmo que pudesse se mover.
- O quê? - hesitou, mas já estava sendo arrastada até a porta.
- Vamos nos alimentar! - disse ele animado. Então, uma sensação que beirava ânsia e pânico tomou conta de .
- Espere, espere um minuto! - tentou prender-se ao chão inutilmente; já a estava levando escada abaixo. quase tropeçou em seus próprios pés ao descer os degraus. - Não quero ir, não me arraste!
- Você vai gostar, vai ser divertido - dizia calmamente enquanto continuava puxando-a pelo braço.
Mas não estava convencida de que seria divertido. Sentia fome, mas tudo em que conseguia pensar era que teria de matar alguém para se alimentar. Não queria assassinar alguém, não queria se transformar em um ser como .
- Não, não! - não percebeu no momento do desespero, mas a sala de estar estava cheia. Todos os vampiros do bando de Elisha estavam reunidos ali assistindo se debater e tentar se soltar do aperto de . - Não quero ir, me deixe!
- , venha depressa! - o vampiro apenas ignorava suas súplicas.
- Espere, não faça isso, não! Não quero ir, não pode me forçar!
sentia que todos os olhares estavam pousados nela; não se importava.
- ME SOLTE! - gritou, mas nada faria com que o vampiro parasse. - ME DEIXE, NÃO QUERO IR, NÃO QUERO!
- ... - alguém disse em algum lugar daquela sala.
- Eu sei - respondeu o vampiro.
- NÃO V...!
- ! - um trovejo interrompeu suas tentativas de escapatória. Para , pareceu um trovejo. Era como se a voz de fosse a única coisa com a qual deveria se preocupar. Se houvesse mais alguém gritando no recinto além dela, ouviria apenas a voz de .
Encolheu os ombros instintivamente e abaixou a cabeça. Um calafrio lhe percorreu o corpo e ergueu o olhar, encarando o outro.
- Não vou mais lhe tocar, quero que me acompanhe em silêncio, está ouvindo? Vamos caçar, e caso comece a gritar novamente, vou arrancar sua cabeça e dar de comer às raposas, entendeu? - perguntou em um tom de voz aveludado e simplório. assentiu e lhe deu as costas, saindo rapidamente da casa.
A garota não conseguia se mover, permaneceu atônita, de pé ao fim da escada, até que alguém se aproximou.
- Te falei, não falei? - era Elisha. não a encarou, mas reconheceu sua voz. - Deve jurar obediência, ou sempre que desobedecê-lo, ele vai ordenar e você vai obedecer de qualquer forma.
virou-se timidamente para encará-la. Elisha lhe sorriu amigavelmente.
- Veja bem, , é seu criador. É seu mestre. Fará o que ele quiser que faça, pois você deve a ele. Assim como ele e todos nessa sala devem a mim. Criei todos em meu bando, menos você. O ar que você desnecessariamente respira, deve ao seu mestre. Tudo o que tem agora e tudo o que terá, você deve ao seu mestre. - Elisha apontou para a porta por onde havia passado momentos atrás.
- Então Psicótico agora é pai - Hunter desdenhou. - Que bonitinho. Devemos fazer uma festa?
- Cale-se - Elisha disse rapidamente. - Então ...
A vampira olhou para novamente, esperando alguma reação por parte desta.
- Você é de agora. Pertence a esse bando. - continuou. - Se quiser ir embora não irei me opor. Mas não é comigo que deve se preocupar...
Mais um trovejo soou do lado de fora da casa, e soube que deveria sair. Deu uma última espiada em Elisha, que apontou com a cabeça na direção da porta. A garota apressou-se e saiu, encontrando , vestido em uma jaqueta de couro escuro, e usando um boné de caça bege.
- Da próxima vez, não demore tanto - disse. - Vamos correr, acha que consegue me acompanhar?
concordou e no segundo seguinte, já havia partido. Não havia mais nada a fazer além de seguí-lo.
Estava enganada, não conseguira lhe acompanhar. Correu o máximo que pôde, mas não conseguiu correr tão rápido quanto . Ele estava quilômetros à frente e , ao invés de sentir-se atordoada e parar de correr, decidiu seguir pelo cheiro. Até que o avistou, diminuindo a velocidade, e conseguiu alcançá-lo.
- Nada mal. Como conseguiu me achar? Pensei que teria que voltar e te buscar. - disse o outro.
- Você fez de propósito?
- Claro que fiz de propósito, queria saber o quão rápido pode correr! É a primeira vez que está correndo, não é?
poderia falar a verdade e dizer que estivera correndo em círculos pelo quarto, mas por algum motivo queria impressionar .
- Sim.
a encarou por um momento e sorriu.
Aquilo era novo para . sorriu verdadeiramente, sorriu porque estava contente com algo. Não sorrira miseravelmente, nem desdenhara um esboço malfeito para . De fato, sorriu. sorriu de volta porque sentia que era isso o que deveria fazer.
- Agora vamos. Vamos achar uma presa pra você. - e partiu novamente.
~*~
A garota não parava de chorar. Implorava para que a deixasse ir, tentava escapar inutilmente, e estava começando a entrar em desespero.
- Faça! - instigou o vampiro. - Ande logo, !
- Não posso!
- Claro que pode, deve! É isso o que deve fazer, ande! Ataque! Ou prefere perseguí-la?
Não deveria ter mais que 19 anos.
e correram até o México. Por causa de , tiveram que parar em Lufkin e em San Antonio. ficou irritado, pois estavam perdendo tempo e estava com fome, mas não recusou as paradas. Chegaram até Monterrey no dia seguinte e estava prestes a amanhecer, por isso, encontraram uma hospedagem de rodovia e instalaram-se lá até que o anoitecer caísse.
- ANDE LOGO!
estava à beira de um colapso. não estava ordenando que ela atacasse, sabia disso por não sentir calafrios enquanto ele falava.
- Não posso, ela... Ela...!
- Droga, , não posso ordenar que ataque! Tem que sentir o que precisa fazer. Pare por um momento, respire fundo... - ele a olhava com seriedade. percebeu que estava, de fato, falando sério. Era importante que sentisse aquilo e de alguma forma sabia que era. O grande problema... É que tinha certeza do que aconteceria se sentisse precisar se alimentar daquela garota.
Uma vez cravasse suas presas nela, não haveria mais volta. Seria uma vampira completa, do tipo que se alimenta de humanos e tudo o mais.
- SENTE LOGO, PORRA! - gritou o mestre. Ainda não fora uma ordem.
- QUE DIABOS EU DEVO SENTIR?
suspirou e voltou-se para a garota em pânico, murmurando súplicas em espanhol. temeu pela outra.
- Eu sei meu bem, eu sei - disse ele enquanto acariciava o rosto da vítima, a olhando carinhosamente. - Mas preciso que fique calma, certo? Está deixando nervosa.
Surpreendentemente a garota se acalmou (ou não, já que a havia hipnotizado). Então a atmosfera mudou. O mestre olhou para a aprendiz, que ainda fitava a vítima.
- - chamou. - Não quero que a persiga pois isso não irá adiantar de muita coisa. Você deve entender do que precisa, deve entender o que isso significa. Está me ouvindo? Isso significa o resto de sua permanência nesse mundo. Significa sua eternidade. Nas veias dessa garota corre seu néctar. Sem isso, você é apenas um monte de cinzas. Entendeu? Está me escutando?
A hipótese de matar alguém para sobreviver era simplesmente inescrupulosa. Aquela garota tinha família, sonhos, pessoas que a amavam e uma vida toda pela frente. Por que uma criatura renegada como deveria se alimentar dela? Sim, admitia que era repugnante, porque admitia ser uma vampira. Com pesar, mas admitia.
- ? - como um sopro, a voz de seu mestre lhe trouxe de volta aos acontecimentos presentes. - Então?
Então? Então o quê? Que deveria fazer? Aceitar os conselhos de ; alguém que sabia tanto sobre respeito à vida quanto um prego? Ou não aceitar conselho algum? Pois contra havia apenas sua consciência, ou pelo menos deveria haver, pois de repente, a idéia de alimentar-se da garota mexicana não era tão má.
Se ela estava ali, sendo conduzida por e era porque seu tempo havia acabado. Todos estavam à mercê do destino, e por infelicidade, aquela jovem tivera um destino cruel.
Havia algo fazendo barulho.
Era um barulho familiar, o conhecia de décadas. Sabia sua função, sempre soubera e não era difícil lhe distinguir. Ouvia as batidas de seu coração descompassado, como se estivesse afoito.
Mas espere. Seu coração batia?
Tocou o próprio peito e sentiu; mas não havia muito que sentir de fato. Estava batendo, mas com dificuldade. Como se aquelas batidas não fossem responsáveis pelo sustento de . Se não era seu coração, então que batidas eram aquelas?
"Vamos, , o tempo está passando..." ouvia muito longe a voz de lhe alertando, mas não estava tão interessada assim no que quer que seu mestre estivesse dizendo; havia coisa mais interessante.
Como o pescoço da jovem mexicana.
E, veja só, encontrara a origem dos batimentos. Claro como um raio solar, viu a veia no pescoço da garota pulsar. Estava tão nítido que pensou ser um risco no corpo da moça, mas era sua veia.
A vida inteira da jovem corria ali. E para lá os pés de a levaram.
Caminhou até lá, tocando o local com os dedos cuidadosamente, e respirando fundo, esperando alcançar algum tipo de cheiro que aquilo pudesse fornecer.
Ah.
Não havia nada igual. O que era aquela vontade súbita? De repente, encontrou-se parada a um vazio imenso, onde existia apenas a vítima. E soube o que deveria fazer.
Agarrou seu pescoço com as duas mãos, analisando bem onde encostaria. A garota era alguns centímetros mais alta, o que não fez diferença para .
Percebeu aproximando-se e sussurrando algo para a moça; logo, ela encarou parecendo nervosa.
- Ela vai o quê? Não! Não deixe que faça isso, não...! - tentou rebelar-se, mas estava no controle de si, estava extremamente ciente.
- Shhh - sibilou para a moça, olhando fundo em seus olhos e transmitindo para ela o que queria que sentisse. Calma. - Sabe onde estamos?
A garota negou com a cabeça.
- Bom. Sabe quem eu sou?
Mais uma negação.
Então riu.
- Excelente. Assim não deve saber o que farei com você.
- Como?
Não houve mais tempo para resposta; cravou suas presas no pescoço da garota. Nem reparou com que força as trouxe para fora, mas trouxe. E elas rasgaram a pele da vítima com ferocidade, e a outra nem reclamou. Apenas suspirou pesarosamente, deixando que a guiasse.
Continua...
N/A: Eram dois capítulos, mas juntei pra dar em um capítulo maior. Ainda não está bom, não gosto do que ando escrevendo, mas é só uma fase. A babaca da personagem principal só precisa saber que é uma god damn vampira. Tsc. Se bem que achei esse um pouquinho melhor que o anterior. É... Tá melhorando. Me digam o que estão achando.
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LISTA DAS MÚSICAS DOS CAPÍTULOS.
Do Prólogo ao Capítulo 19: Sidewinder - Avenged Sevenfold
Capítulo 20: Kill Miss America - Murderdolls
Capítulo 21: Slit My Wrist - Murderdolls
Capítulo 22: Black Hearts - More Than a Thousand
Capítulo 23: Roadsick - More Than a Thousand
Capítulo 24: Down With the Sickness - Disturbed
Capítulo 25: Master of Puppets - Metallica
I've come here to kill you. Won't leave until you've died.