Scrawled Upon My Soul
Autor: Paolla C. De Fusco.
Beta-Reader: Lizzie
Capítulo 1.
Qualquer cidadão que tivesse tido a ousadia de sair de debaixo das cobertas naquela manhã de feriado para olhar, mesmo que por míseros instantes, o ambiente externo a sua casa, notaria sem grandes esforços que aquele seria um dia diferente. O termo “diferente” está aqui empregado com o sentido de especial, ou melhor, intrigante de uma maneira positiva, se é que posso assim definir.
Aquelas eram as primeiras horas de verão do ano de 2004, me recordo como se tivesse sido ontem. Uma Sexta Feira em que a magia estava no ar, era praticamente palpável.
se encontrava apoiada sobre a base da janela de sua cozinha, admirando a encantadora paisagem que se formava abaixo de seus olhos com uma expressão alegre. Ou seria animação que irradiava daqueles grandes e expressivos olhos cor de mel? Nunca saberemos ao certo.
Havia despertado há cerca de três horas. Tomara um banho demorado, lavara seus cabelos e vestira um pequeno shorts jeans não muito justo que costumava usar apenas em sua casa devido a deixar à mostra suas finas pernas. A surrada camiseta colorida de sua banda preferida que cobria a porção superior de seu corpo possuía uma proporção gigantesca se comparada a seu tipo físico, certamente era no mínimo dois tamanhos maiores do que o vestuário que seu corpo normalmente pediria. Dava a errônea impressão para quem a visse de que havia mais volume em suas curvas do que ela realmente possuía. Mas era dessa forma que gostava de se vestir, não se importando com o resto.
O céu estava incrivelmente azul e nenhuma nuvem pairava sobre ele. A temperatura ainda permanecia amena, girava em torno dos vinte e cinco graus segundo o noticiário matinal que estava passando na pequena televisão de dezesseis polegadas que estava ligada em sua sala de estar.
A garota beirava os vinte e três anos na época. Seus cabelos incrivelmente claros tinham uma tonalidade de ruivo que se aproximava da coloração de uma cenoura, como os amigos costumavam brincar. Nem muito compridos nem muito curtos, o comprimento dos fios era mediano. Na maioria das vezes estavam soltos e levemente desarrumados. Seus olhos, que tinham o formato de duas grandes bolas de gude eram de uma clara tonalidade de castanho que deslumbrava a qualquer um. Seu rosto dava um ar de infantilidade devido a suas bochechas serem sutilmente avermelhadas. Pequenas sardas brincavam por sua pele macia. Seu maxilar tinha um ângulo perfeito e os músculos de seu pescoço eram finos e delicados. Não era muito alta se seu corpo não possuía a definição muscular que era admirada na época. Seus peitos eram pequenos e delicados enquanto sua comissão traseira não era alvo de holofotes masculinos. Ainda assim, havia algo na garota que atraía a atenção aonde quer que ela fosse. Dona de uma beleza especial, diferente e encantadora a seu modo.
Residia no quarto andar de um dos simplórios prédios na região sulista da grande São Paulo. Forçava ela levemente a ponta de seus dedos contra a desgastada madeira do peitoril da janela e inclinava milimetricamente a parte superior de seu corpo para fora do apartamento no intuito de aspirar algumas moléculas puras de oxigênio. Façanha no mínimo improvável de ser alcançada em uma cidade como aquela se pararmos para pensar. Porém, aquele local que escolhera para morar após deixar o confortável lar de seus pais era um dos últimos bairros que ainda conseguia mesclar a complexa paisagem de arranha-céus com um pouco de natureza sem beirar ao mau gosto ou se submeter a plantas artificiais, mania que estava começando a virar moda no Brasil naquela época.
O prédio em questão ficava a pouquíssimos metros de uma praça arborizada intitulada ironicamente pela vizinhança de Central Perk devido a ser uma imitação barata do exuberante Central Park. Ainda assim, tenho que admitir, era uma bela praça. Continha imensos salgueiros e algumas vistosas palmeiras.
encarava este mesmo parque, fascinada com o jogo de futebol que algumas crianças ali jogavam e se perguntava como aqueles projetos de gente conseguiam ser tão desenvoltos e capacitados. Sempre fora uma negação para esportes. Quando criança costumava matar as aulas de Educação Física no banheiro, lendo algum livro na maioria das vezes. Quando seu pai comunicara que a havia matriculado na escolinha de futebol do bairro em que moravam, atônita ela havia falado:
- Não acredito que tenha feito isso, Papai! Não vejo nexo algum em correr feito uma louca atrás de uma bola sem receber algo em troca. E outra, vou ser astronauta quando eu crescer. Até onde sei ninguém joga futebol na lua. Não quero e não vou fazer isso!
Apesar da braveza fora decidida e sonhadora quando era apenas uma garotinha. Para onde havia ido toda aquela segurança que ela possuía? Costumava encher a boca ao falar em ser astronauta. Pena que o rumo de sua vida a levara para longo do espaço sideral. Estava perdida em seus pensamentos, relembrando sua infância quando escutou alguns passos sem ritmo definido que pareciam vir da porta da frente de sua residência.
arregalou os olhos instintivamente, deixando transparecer certo medo em seu olhar. Sentiu milhares de descargas de adrenalina adentrando em seu cérebro e irem direto aos seus neurônios, uma reação química que não lhe proporcionava uma sensação muito agradável... Franziu o cenho, parecendo intrigada. Quem teria entrado em seu apartamento sem ter sido convidado? Seria um ladrão? E nesse caso, o que ele iria querer? Como ela explicaria a um bandido que não tinha posse de objetos valorosos? Seu corpo gelava a cada indagação que se fazia.
Os passos cessaram e após alguns instantes de silêncio, sem saber como agir, deu um passo tímido para trás. Ainda de frente para a janela, direcionou seus olhos na imagem refletida no vidro que ficara espelhado devido ao sol que pousava alguns de seus raios no local. Percebeu sobressaltada a presença de um vulto que parecia, no momento em questão estar realmente próximo a ela. Conseguiu distinguir na imagem apenas a figura do que parecia ser um homem.
Movida por um obscuro instinto de defesa, girou seu corpo em um movimento brusco e ligeiro, ficando frente a frente com o intruso. Antes de encarar o malfeitor flexionou seus joelhos, ficando levemente agachada. Cerrou seu punho direito e levou o braço para frente, na altura de seus ombros, imitando um movimento de ataque que havia assistido algumas semanas atrás em um programa de luta japonesa com um daqueles nomes esquisitos. Após travar mentalmente os golpes que iria – tentar – aplicar, ergueu os olhos para o que pensava ser um ladrão.
Deu de cara com Daniel Alan Jones, um grande amigo seu cujo rosto agora se encontrava a pouquíssimos centímetros do seu.
O garoto havia completado vinte e cinco anos há apenas alguns dias. As curvas de seu rosto eram perfeitas, chegavam a deixar com inveja qualquer modelo. Seus brilhantes e graciosos olhos azuis se escondiam dentre os grandes cílios. Os cabelos eram levemente cacheados, com a coloração similar a avelã. Alguns fios ficavam mais claros – levemente dourados à medida que o sol irradiava sobre eles. Sua pele possuía uma textura macia, similar a casca de um pêssego e era relativamente opaca. Possuía um queixo determinado e ombros levemente curvados. Seu corpo era atlético e seus músculos haviam se tornado definidos devido a intensidade que praticava remo em um lago próximo sua casa.
percebeu que havia prendido a respiração por aquele que, na sua concepção, poderia ter sido um longo período de horror e logo soltou o ar, que começou a sair de suas narinas descontroladamente, de uma maneira quase ofegante.
- Puta que pariu, quer me matar do coração, infeliz? – A dona da casa indagou após uma breve pausa. Sua voz soava exausta, como se realmente tivesse travado uma luta com o homem. – Como entrou em casa? Deu uma de Homem Aranha outra vez? – Sua expressão havia se transformado e não restara vestígio algum de raiva em sua face. Entreabriu os lábios, deixando com que seus dentes ficassem aparentes, intensificando assim seu sorriso ao relembrar a ocasião em que o garoto escalara os dois primeiros andares daquele mesmo prédio depois de uma briga que os dois haviam tido. Na sua concepção, daquela maneira os dois fariam as pazes, mas só o que ganhou foi a preocupação de , fazendo com que se desentendessem ainda mais.
- O porteiro abriu a porta para mim já que você não podia se dar ao trabalho de me receber, idiota. – Murmurou Daniel, deixando transparecer certa raiva ao receber a zombaria da garota naquela nada calorosa recepção. Levou sua mão direita até o bolso de sua surrada calça jeans, retirou um cigarro e um isqueiro. Em um movimento que esbanjava graciosidade posicionou o cigarro entre seus lábios macios e o acendeu, guardando o isqueiro no mesmo bolso em que ele estivera alguns segundos atrás. Deu uma baforada e exalou a fumaça.
- Ih... Pelo visto alguém acordou de TPM hoje. Ou terá esquecido de tomar seu remedinho da alegria? – pressionou levemente seus dois dentes frontais contra seu lábio inferior, visando dessa forma abafar uma pequena risada. Com isso deixou transparecer um sorriso no canto de sua boca. Sorriso este que foi rapidamente percebido pelo rapaz e o desarmou no mesmo instante.
Daniel sentiu o encanto extraordinariamente penetrante que irradiava por onde quer que passasse. Eram o prazer e a ingenuidade infantis de suas ações e falas bem humoradas que desarmavam e anulavam críticas, evitando muitas vezes brigas desnecessárias. Ela nada precisava fazer além de abrir aqueles grandes olhos e esboçar aquele enorme sorriso como apenas ela sabia fazer e o ressentimento logo desaparecia.
- Se esqueceu da mensagem que eu enviei ao seu celular na noite passada? – A voz de Daniel estava agora completamente sem emoção, sua raiva havia evaporado, mas não fora substituída por nenhum sentimento positivo. O tom que usava deixava claro que a pergunta que fizera era óbvia. Mas pelo visto não era. – Aquela em que eu disse que eu e viríamos aqui almoçar com você antes de ir encontrar a galera, se lembra? – Disse enquanto batia a cinza de cigarro no peitoril da janela. A garota certamente devia ter deixado seu celular em algum canto da casa e esquecido logo em seguida. Aquilo era típico de . Organização não fazia parte de seu vocabulário – e muito menos de sua vida. Ele a conhecia há tempo suficiente para saber que a insistência neste assunto não traria grandes resultados. Após um descomunal e longo silêncio, sem obter resposta da outra parte, continuou: - Como eu estava dizendo... Acordei mais cedo e vim te ver.
Uma brisa que trazia a sensação de aconchego invadia o aposento e bagunçava levemente alguns cachos de cabelo que estavam pousados sobre a testa de Daniel. A garota presenciava aquela cena e mordia com força seu lábio inferior. Então uma pergunta lhe assaltou a mente. “Por que ele tem de ser tão lindo?” Ficou atônita. De onde surgira este pensamento? E o que significava? Estaria ela interessada em seu amigo? Mas não podia. Afinal o garoto em questão tinha uma namorada de verdade... Aplicava uma força mais intensa em seu lábio ao se lembrar da namorada do garoto de olhos azuis penetrantes em sua frente. “O que está acontecendo comigo? Só posso estar ficando maluca.”
Movimentou-se até a janela entre pequenos passos vacilantes. Inspirou e respirou consecutivas vezes, tentando dessa forma se recompor dos pensamentos ousados – e um tanto quando impuros – que estava nutrindo em relação a Daniel.
Seguiu com os olhos um casal sorridente que caminhava pelo parque de mãos dadas. Por alguma razão a qual nunca teremos conhecimento, logo que ela pousou os olhos no casal pensou em no garoto que se encontrava em sua cozinha. Em como era bom e prazeroso ficar em sua companhia. Tão fácil se sentir à vontade com ele. Era como se uma onda de paz a invadisse. não tinha medo de ser ela mesma em momentos junto ao garoto. Qualquer pessoa que permanecesse próximo a ele por algumas horas iria embora com os músculos do abdômen doloridos, sem sobra de dúvidas. Era garantia de ótimas gargalhadas, a dona da casa sabia disso por experiência própria. Não se conheciam há muito tempo, mas entre eles havia forte atração.
se virou para encarar o garoto moreno e ao terminar seu movimento percebeu que os dois haviam ficado muitíssimo próximos. Seus corpos estavam separados por míseros centímetros e ela tinha consciência de que aquela proximidade poderia ser extremamente perigosa. Tinha pleno conhecimento de que seus instintos mais íntimos possuíam sobre ela uma força desumana se comparados a seu bom senso. Quem liga para bom senso? O que ela queria mesmo era se jogar sobre o pescoço do garoto e se divertir com ele horas a fio. Fechou os olhos e sem ao menos olhar para aquele que estava posicionado a sua frente e tentou se concentrar em outro assunto.
Puxou o ar do ambiente para dentro de seus pulmões e sentiu a masculina fragrância do perfume de Daniel invadir suas narinas. Abriu os olhos neste instante e direcionou seu olhar assustado para o homem que a visitava. Sua testa estava franzida e seus lábios pressionados entre si, os músculos de sua face contraídos em uma careta nada agradável.
- Que cara é essa? – Daniel deu um passo para trás, deixando com que uma pequena distância separasse os dois. Arqueou as sobrancelhas e assumiu uma expressão surpresa. Levantou ambos os braços que anteriormente se encontravam pendentes próximo a lateral de seu corpo e levou-os até seu próprio rosto, em um gesto no mínimo engraçado. Indagou logo em seguida: - Por acaso eu sou tão feio assim? Feio a ponto de causar espanto nas pessoas?
- Eu não queria ter de te dizer isto, mas agora que você tocou no assunto tenho a obrigação, como amiga, de te dizer a verdade. – Murmurou pausadamente após se recompor daquela beleza estonteante. – Você é um ogro! Mas fica tranqüilo, eu sou uma pessoa linda e respeito a falta de simetria dos seus músculos. – Mentia enquanto forçava seus músculos faciais em um falso sorriso. Sua voz demonstrava seca ironia.
se inclinou para o lado, desviando seu corpo do de seu amigo e deu alguns passos largos em direção a sala de estar. Parou a caminhada ao se aproximar do grande e aconchegante sofá branco. Arqueou seu corpo para frente, fazendo com que seu peso caísse sobre o móvel estofado. Semicerrou os olhos enquanto buscava uma posição confortável para ficar deitada. Se espreguiçou, esticando ao máximo cada um de seus músculos.
Daniel, que agora se encontrava sozinho na cozinha, movimentou seus pés sobre o assoalho e andou com a firmeza habitual que possuía. Direcionou seu corpo até a geladeira vermelha – e um tanto quanto antiga – que havia comprado em uma loja de móveis usados há aproximadamente um ano. Aquela, na época, era a única geladeira que tinha a possibilidade de comprar devido ao baixo orçamento. Daniel esticou o braço direito e a abriu com certa agilidade.
Ouviu-se um rangido e ele esboçou um sorriso divertido ao olhar o interior do eletrodoméstico.. Havia cerca de meia dúzia de embalagens fechadas do tipo McDonalds para viagem, uma lata aberta de leite condensado e uma grande quantidade de garrafas de cerveja. Somente isso. O garoto imaginava como a dona da casa conseguia sobreviver comendo apenas aquelas besteiras. Sem demorar, pegou o máximo de garrafas de cerveja que conseguia com uma mão só, fazendo uma espécie de malabarismo, e fechou a geladeira.
- O que está passando na televisão? – Indagou Daniel enquanto se encaminhava até a sala de estar onde a garota estava. Fez uma pausa e ao perceber que havia sido completamente ignorado, prosseguiu: - Você está estranha hoje.. Parece até que não gostou da minha visita. – Murmurou enquanto dava uma olhadela com o canto dos olhos para a garota deitada, se esforçando ao máximo para não derrubar as garrafas que no momento já vacilavam entre seus dedos.
- Não é isso. Apenas estou cansada. Não preguei os olhos esta noite por um segundo sequer. – Sua voz estava fina e um pouco cálida como de costume, mas diferentemente dos outros dias demonstrava nítido cansaço. Levantou seu olhar para o rapaz e soltou uma pequena e abafada risada ao notar seu gesto desengonçado. Balançou sua cabeça, fazendo sinal para que ele colocasse as cervejas sobre a mesa de centro que ficava de frente para o sofá que ela ocupava.
- Eu sei o que está tirando o seu sono. O Thomas. Ele não sai da sua cabeça. – Deu um passo a frente e encarou sua amiga deitada, ansioso para saber qual seria sua reação ao que ela acabara de dizer. Descansou as garrafas no canto da mesa, deixando-as relativamente próximas a . Sem aviso prévio, levou ambos os braços na altura das pernas da menina e em um movimento preciso levantou seus pés descalços com as mãos enquanto se instalava no mesmo sofá. Após se acomodar, abaixou as pernas de e sem obter resistência as posicionou sobre seu colo.
- Está enganado, Danny. Eu superei o Thomas um ano atrás, você sabe muito bem disso. Somos agora apenas amigos. Não é porque ele vai viajar com a gente este final de semana que alguma coisa irá mudar. – Seu tom de voz não demonstrava muita certeza quanto as palavras que saíam de sua boca. Ela só teria certeza sobre seus sentimentos em relação a Thomas quando o reencontrasse, dali a algumas horas. Estava apreensiva e nervosa quanto ao fim de semana havia dias, a tese de Daniel á respeito de sua falta de sono estava correta. Estendeu as duas mãos para frente e alcançou as garrafas de cerveja. Abriu duas delas na quina da mesinha, entregando rapidamente uma para Daniel e pegando a outra para si. – E outra.. Eu estou interessado em outro cara. Um moreno musculoso. – Disse enquanto inclinava seu rosto para o lado para poder olhar no rosto do rapaz que o visitava. Deu uma piscadela nada inocente em sua direção, dando uma indireta que não foi percebida por ele.
- Interessada em outra pessoa? Moreno? Quem? Por acaso eu o conheço? – A cada indagação que fazia usava uma entonação diferente, fazendo com que sua animação e curiosidade fossem percebidas pelo tom de voz que usava. O espanto era tamanho pois Daniel não se lembrava da última vez que vira sua amiga se interessar por alguém. Após o ocorrido entre ela e Thomas, havia trancado seu coração não só para o amor como também para a diversão.
- Não posso falar. É confidencial. – Sua voz demonstrava um grande desapontamento. Por que seu amigo tinha que ser tão lerdo? Em sua concepção estava mais do que nítido, após a tentativa de flerte utilizada alguns instantes atrás, que o garoto o qual ela se referira era aquele posicionado a sua frente.
virou seu rosto para o lado, na posição que estava anteriormente e descansou a cabeça em uma almofada que estava próxima a ela. Fitou a televisão e fingiu estar compenetrada no programa de pescaria que começara, esperando desesperadamente que Daniel não insistisse naquele assunto.
- Me fale! Me fale! Eu posso tentar te ajudar. Nós podemos chamá-lo para passar o final de semana com a gente na praia. Assim você poderá esfregar na cara do idiota do Thomas que ele é coisa do passado! – Exclamava as palavras com rapidez, sem ao menos dar uma pausa para respirar. Daniel e Thomas eram o oposto um do outro. Um era extrovertido, o outro aparentava certa timidez. Enquanto um gostava de música erudita o outro preferia o rock pesado. Suas linhas de raciocínio eram completamente diferentes. As diferenças entre os dois eram gigantescas, portanto não perderei tempo e espaço as descrevendo. O único quesito em que se pareciam era que tanto um quanto o outro tinham sede de defender seus ideais. Talvez por este mesmo motivo a relação dos dois não fosse muito agradável. Qualquer pormenor que discutiam acabava em grandes brigas. No momento em questão, Daniel já tentava bolas um plano mirabolante para deixar o outro mal devido ao – suposto – afeto de .
- Eu já disse que não vou falar! – Disse com a voz demonstrando uma real irritação. Fechou seus olhos e tentou controlar a agressividade que havia saltado de seus lábios quando ouviu o garoto se referir daquela forma a Thomas. Achava ridícula aquela desnecessária tensão que existia entre seus dois amigos. – Não me enche, caralho. – Quando as palavras acabaram de sair de sua boca ela sentiu algo se movimentar em sua direção e não pôde deixar de imaginar alegremente que talvez Daniel tivesse percebido sua cantada e compartilhasse do mesmo viril desejo. Prendeu o fôlego bruscamente e abriu seus olhos, sobressaltada.
Era Daniel, que já estava com o tronco totalmente inclinado em sua direção. franziu o cenho, fazendo com que sua testa antes lisa ficasse agora levemente enrugada.
- Não quer me contar, né? Então agüenta essa, nervosinha. – Exclamou com a voz quase gritante, em um tom que a garota não parecia conhecer. Ele levantou ambas as suas mãos e as direcionou com agilidade até a barriga de , cujo rosto aparentava uma mistura de surpresa e medo. Sem conseguir discernir qualquer movimento, a dona da casa pousou os olhos no garoto que assumia uma expressão arteira. Este correu a ponta de seus dedos pela barriga da garota em movimentos circulares e rápidos, fazendo cócegas na mesma e soltando risadas regulares por causa da situação.
Ao sentir aqueles dedos macios percorrerem sua barriga de cima a baixo, ela contraiu a totalidade de seu corpo. Se debatia desesperadamente tentando – inutilmente – dar uma joelhada nas partes do rapaz. Mas o corpo do outro estava tão próximo ao dela que mal tinha forças para mexer um músculo. E quando conseguia apenas empurrava seu próprio corpo para o lado, tentando se desvencilhar do torturador e sair daquele sofá.
Daniel realmente conhecia seu ponto fraco e a atacava com intensidade. A vítima soltava gargalhadas gostosas de serem ouvidas e tentava se esquivar do garoto, o que não era possível pois este se encontrava com o corpo parado por cima do seu, a impedindo de uma provável fuga.
- Pare! Pare! – Exclamou entre as risadas com a voz levemente enfraquecida. Após alguns minutos daquele inferno que a seu ver pareceram horas, ela já estava avermelhada, seu sangue subira para seu rosto e sentia sua respiração falhar. Tendo em vista que Daniel não cansaria tão rapidamente e que ela própria não suportaria mais as cócegas, se entregou. Debilitada, falou com a voz agora quase sussurrante, entre uma gargalhada e outra: - É você. Você é o cara por quem eu estou interessada.
Assim como as palavras que lhe saltaram os lábios, as ações que os mesmo realizaram em seguida também foram, no mínimo impensadas e sem sequer uma pitada de coerência. Arqueou seu corpo para frente, se distanciando dessa forma do sofá e acabando com o milimétrico espaço que os separava. Fechou seus olhos e sem se dar conta entreabriu seus lábios, colando-os aos de Daniel logo em seguida.
Permitiu que a ponta de sua língua fizesse o contorno dos perfeitos lábios do garoto com lentidão, umedecendo-os com sua saliva e sentindo com prazer a agradável textura daquela boca avermelhada. Sem conseguir a aquela literal tentação, abocanhou o lábio inferior do outro, prendendo-o em sua própria boca enquanto o sugava com devida pressão por alguns instantes.
Daniel deu início a uma espécie de transe a partir do momento em que a boca da garota pousou na sua. Certamente não estava esperando que suas inocentes cócegas fossem tomar aquela proporção e causar tal reação na garota. Poderia esperar qualquer coisa, menos o que ela acabara de dizer e fazer. As ações feitas por aqueles lábios macios e finos não faziam sentido algum a seu ver. Seria uma piada de mau gosto? Inclinou seu rosto para trás milimetricamente e levantou seu olhar que se encontrava anteriormente vagando seu rumo definido. Visava dessa forma olhar no rosto de e desvendar sua expressão, esperando encontrar seus músculos faciais flexionados em algo parecido a com um sorriso.
Ao correr os olhos pela face da garota não notou em seus olhos nenhum vestígio que demonstrasse que aquilo fosse algum tipo de brincadeira. Pelo contrário. Seus lábios estavam vacilantes, se movimentavam sem métrica definida, não emitindo som algum. Como se ela estivesse tentando dizer algo, mas não conseguisse comandar sua voz. Seu rosto estava sério e um silêncio agoniante e tenso tomou conta do aposento.
Daniel voltou com seu corpo para trás em uma ação de puro desespero, se retraindo. Se endireitou no sofá e se distanciou ao máximo que pôde de , ignorando-a completamente.
Ela, por sua vez, entrara em pânico... O arrependimento tomou conta de não só de sua mente como também de seu corpo. Virou seu rosto para o lado oposto, afundou a cabeça na almofada numa espécie de fuga e voltou a encarar a televisão, tentando fingir para si mesma que não havia feito aquilo.
Um silêncio assustador tomou conta do apartamento pelo que pareceram horas. Caso a televisão estivesse desligada e se esforçassem conseguiriam escutar o ruído proporcionado pelo atrito entre o fluxo periódico de ar e a lateral de suas narinas enquanto se mantinham vivos.
As pernas da garota estavam ainda posicionados sobre o colo de Daniel, suas panturrilhas imóveis se encontravam sobre os joelhos dele de forma desalinhada devido ao brusco movimento de retração que ele havia feito.
Os ponteiros do relógio se moviam periodicamente e os instantes de tensão entre os dois pareciam apenas se prolongar. Os dois encaravam fixamente a televisão em frente a eles, tentando se fingir compenetrados. Não haviam sequer notado que o que assistiam era nada mais nada menos do que um dos filmes de Star Wars, série na qual ambos sabiam as falas de cor devido a frequência com que haviam assistido juntos.
O filme em questão já estava praticamente na metade quando Daniel começou a relembrar em sua mente as muitas ocasiões em que ouvira sua amiga dissertar sobre sua teoria à respeito da quantidade de filmes são desperdiçados pelo simples fato de serem adicionados romances sem sal em seus scripts.
Possuíam uma paixão em comum, filmografias. Periodicamente se reuniam na casa de um deles para fazer maratonas de filmes, onde passavam muitas vezes as noites em claro.
Sua mente relembrava os inúmeros momentos incríveis que haviam passado juntos. Até que em certo momento seu cérebro buscou algo que ele não esperava, a deliciosa sensação que a língua de proporcionara em seus lábios foi relembrada. A forma intensa com que ela chupou seu lábio enquanto unia suas testas, num adorável gesto que mesclava prazer e ingenuidade.
Aquele momento fora extremamente prazeroso em sua concepção, ela certamente descobrira como o provocar. Como aqueles lábios podiam ser tão macios e quentes? Por que ele não provara aquilo antes? Se ele não tivesse poderia fazer tantas coisas com a garota a seu lado naquele sofá... Dane-se!
Tomado por um instinto natural de caça, girou seu tronco para a direita, se insinuando descaradamente na direção de enquanto um sorriso mal intencionado era formado entre seus grossos e avermelhados lábios. As panturrilhas dos dois se tocavam de forma desajeitada devido a súbita aproximação do rapaz. Parte do peso de Daniel estava pressionado contra os pés da garota que ao invés de se sentir incomodada com aquela desconfortável posição apenas arregalara os olhos e sobrancelhas de forma assustada, sem compreender o que ali ocorria – ou estava prestes a ocorrer. Em sua mente os mais bizarros pensamentos lhe ocorriam e ela imaginava com pavor se aquela ação fazia parte da brincadeira que o rapaz havia feito com ela há alguns minutos.
Ele ergueu ambos os seus braços que anteriormente se encontravam endurecidos de maneira imóvel próximos a seu corpo e os direcionou com grande vivacidade até aquelas finas pernas descobertas. Suas mãos nada hesitantes pousaram de modo intenso sobre a região acima dos joelhos da garota. Esta sentiu a ocorrência de inúmeros arrepios correrem seu corpo quando os grossos dedos de Daniel pressionaram sem nenhuma delicadeza o começo de sua coxa. Percorreu intensamente aquela pele quente e incrivelmente macia em hábeis e curtos movimentos, arrancando regulares suspiros de como conseqüência.
Ela, apesar de ter sentido vontade de fechar os olhos ao sentir tais toques não o fez, no intuito de aproveitar ao máximo o momento em questão, se encontrando consciente para poder ter certeza de que aquilo não era um sonho e muito menos um delírio.
Dos olhos de Daniel chispavam faíscas de impetuoso desejo quando seu olhar corria pelo corpo deitado a sua frente. Seu cérebro parecia ter simplesmente parado de funcionar, não restando vestígio algum do tão invejado racionalismo do garoto que havia sido recentemente aprovado em Medicina pela USP. Os únicos pensamentos que lhe acometiam possuem tal grau de sordidez, que só de cogitar a hipótese de discorrer sobre o assunto, seu escritor já se sente acanhado. Ainda com a expressão tomada por uma espécie de safadeza, arqueou ainda mais o corpo para frente, deixando de modo nada inocente sua cintura colada a de .
Ela, após se recuperar dos primeiros segundos de susto e sobressalto assumiu em suas feições um sorriso satisfeito, transparecendo certa felicitação e ansiedade pelo que imaginava acontecer em seguida. Como quem não tem tempo a perder, ela esticou com certa dificuldade sua perna direita e a direcionou até a região contrária em que Daniel estava, libertando parte de seu corpo da pressão que ele exercia sobre ela. Contraditoriamente, voltou a colar sua perna no corpo do garoto, agora sua panturrilha pressionava sem delicadeza alguma a porção traseira das bem torneadas coxas masculinas, em uma ação que trazia o corpo dele para mais próximo do dela enquanto ela assumia o controle da situação.
Com o peitoral pressionando a barriga magra da garota com devida força, ele levantou seu rosto e após direcioná-lo até o dela, selou os lábios dos dois. Sentindo a perfeição com que as duas bocas se encaixaram os dois - como que programados para isso - entreabriram seus lábios e começaram a se beijar.
Urgentemente, procurou a língua do rapaz e ao encontrá-la iniciou movimentos não muito ternos seguindo o ritmo do garoto. Suas línguas se movimentavam em total sintonia, uma maestria que os dois nem em seus mais avassaladores sonhos achavam que fosse possível de ser alcançada. As mãos largas de Daniel deslizaram sobre a lateral do corpo da dona da casa em movimentos intensos e no mínimo presunçosos, seus dedos se embrenhando sobre a cintura da mesma sem muita suavidade. O oxigênio dentro de seus pulmões estava escasso, era uma tarefa quase impossível respirar naquele ambiente, em uma ocasião como aquela.
A respiração pesada do garoto ia de encontro ao rosto de que ao inalar tal fragrância deslizou suas pequenas e delicadas mãos até a barra da camisa do garoto e em um curto e arrebatador movimento prendeu seus dedos em parte do tecido e o puxou para cima de uma só vez, arrancando a camisa cavada de pano preto e leve que cobria a porção superior do corpo de Daniel. Ele, pela segunda vez no mesmo dia, foi tomado pela surpresa. Não podendo ter previsto e sequer imaginado que uma de suas melhores amigas possuísse tal grau de ousadia escondido dentro de si, soltou uma gargalhada alegre e curta que ecoou pelo apartamento. Era fato que não conhecia este lado de , mas pelo visto lhe agradara muitíssimo a imagem sensual que ela parecia, agora, esbanjar.
Como que solucionando o problema da pequena distância que havia se interferido entre os dois enquanto ela retirava sua camisa, ele voltou ao ponto que haviam parado, enconstando seu peitoral agora nu no corpo da garota mais uma vez. Antes que um gemido pudesse escapar dos lábios da garota ao sentir a textura macia da pele de Daniel em contato com a sua, sentiu aquelas mãos masculinas escorregarem por seu corpo e após afrouxarem a pressão que as costas dela exercia sobre o sofá, adentrou sua blusa com vivacidade. Os dedos quentes pressionaram a região de cima abaixo, fazendo e refazendo o percurso demarcado de sua coluna vertebral em uma série de repetições. Ele aplicava em sua pele ações tão acentuadas e provocantes que sem dúvida alguma deixariam como consequência marcas vermelhas em suas costas, façanha que não era assim tão difícil de ocorrer devido a coloração esbranquiçada e um pouco frágil da pele de . Ela não estava se importando o mínimo com isso. Pelo contrário, o contato dos dedos de Daniel proporcionados em suas costas lhe eram extremamente prazerosos e despertavam nela ainda mais desejo.
Com os pensamentos tomados em uma linha nada ingênua, voltou a colar seus lábios aos dele enquanto envolvia sua cintura entre suas pernas aplicando maior quantidade de força do que anteriormente.
Como que plageando o movimento que sua amiga havia feito há pouco embrenhou seus dedos no pano da blusa de e o puxou para cima de forma um pouco desajeitada, não hesitando sequer por um segundo enquanto retirava de maneira um pouco selvagem a blusa colorida de . Após concluir o movimento, arremeçou o tecido para trás de sua cabeça, em um local que ficava fora de alcance do campo visual de ambos.
Voltando com prazer toda a sua atenção para a garota mais uma vez, mergulhou seu rosto sobre a curva daquele fino pescoço e ali, após entreabrir seus lábios deu algumas mordiscadas com a ponta de seus dentes frontais. sentiu a porção de pele que para Daniel lhe era extremamente convidativa queimar, como se estivesse pegando fogo, de um modo prazeroso que sequer ela conseguia entender.
- Tem certeza que quer fazer isso, ? - Daniel pronunciava as palavras com a voz baixa em meio de certa rapidez, quase que em um sussurro inaudível. Sua respiração alta e nada uniforme demonstrava não só seu grau de exitação pelo que estava querendo fazer naquele sofá mas também a ansiedade e certa expectativa pela resposta da garota. É claro que ele estava falando em sexo. Não era do tipo que perguntava esse tipo de coisa às garotas. Ainda mais quandos elas se encontravam apenas de sutiã embaixo do corpo dele. Mas a ocasião pedia dele certa cautela, afinal não era qualquer garota e, principalmente, ele sabia que ela era... Virgem. – Como que querendo incitar uma resposta positiva da garota, ele voltou a encostar seus lábios entreabertos sobre pele sutil do pescoço. Em movimentos insolentes, sugou aquela porção pouco extensa com tanta avidez que a menina vinda do interior percebeu as finas veias de seu pescoço saltarem de sua pele e serem pressionadas pela boca de Daniel, tendo assim seu sangue prensado por alguns segundos. Não é preciso ser um médico renomado e sequer possuir experiência no quesito chupões para saber que as ações proporcionadas por ele, definitivamente, nela causariam – além de insano e eloquente prazer – um enorme e rocheado hematoma. Entretanto, este fato era por ela completamente ignorado.
- O que você pensa que está fazendo? – Apesar do que possa parecer, não havia indício algum de repreensão em sua voz. Pelo contrário, era possível notar nela certa animação e felicidade por trás de suas breves palavras. Ela não havia encontrado em seu cérebro nenhuma resposta um pouco mais plausível e racional à dizer ao rapaz. Sim, eu quero transar com você. Não, era vulgar demais. Ela estava expondo a ele um lado que nenhuma outra pessoa conhecia mas aquilo era mais do que ela poderia jamais dizer. Se humilhar a este ponto por um homem não era de seu feitio. Ainda assim, ela queria. Era o que mais queria naquele momento. Deixou suas mãos passearem pelas costas nuas do garoto com rapidez, aumentando a intensidade de seus movimentos conforme sentia a língua dele deslizar por seu pescoço, que no momento em questão já se encontrava completamente arqueado para trás, ela se entregando totalmente às ações pretensiosas que ele lhe proporcionava.
- O que eu já devia ter feito há muito tempo. – As palavras que Daniel murmurou dissipavam segurança e sua voz, logo ao sair de suas cordas vocais ecoou pela pele clara de , juntamente com o hálito suave que sua boca, tensionada sobre a curvatura do pescoço da jovem, exalava. Após ter pronunciado a última palavra de sua frase convicta notou um sorriso malicioso ser formado no canto dos lábios de sua amiga e com esse sinal de confirmação, decidiu incoscientemente que não se permitiria desperdiçar mais sequer um segundo. De modo determinado e másculo ele escorregou sias mãos até as costas semi-nuas de , entornando aquela fina cintura entre seus braços enquanto seus dedos procuravam urgentemente o feixe daquele sutiã de bolinhas, que no momento em questão lhe despertava extremo desejo sexual, deixando excitado até seu último e mais fino fio de cabelo.
Antes que ele pudesse concluir sua não tão árdua tarefa de retirar as últimas peças de roupa que trajava, um alto e estridente ruído se arrastou pelo apartamento, imobilizando os dois de imediato. Era o som particular do interfone externo de sua residência. Caralho, quem é o retardado mental que quer me importunar em pleno feriado. Ela sentiu uma corrente de extremo ódio se apossar de seus sentidos e correr por todo seu corpo, criando uma inexplicável e infame repulsa pelo seu novo visitante, não se importando o mínimo com quem quer que ele fosse.
- Mas que porra, não se pode ter uma manhã tranquila sem que um filho da puta qualquer incomode? – O timbre de sua voz e os excessivos palavrões do qual ela fazia uso transpareciam, sem dificuldade, o estado em que ela se encontrava. Raiva. Desapontamento. Raiva, outra vez. Direcionou seu olhar agora sem brilho algum, exceto pelas faíscas de fúria que seus olhos dissipavam até o pulso esquerdo de Daniel. Notou naquela pequena e vital região um relógio digital de coloração esverdeada que poderia até ser considerado uma peça de status social se ele se encontrasse uma década atrasado no tempo e fosse ainda um simples e inocente garotinho. Era zombado constantemente pelos amigos por usar um relógio tão infantil, mas ele não dava ouvidos. Afinal, aquilo lhe fora dado de presente por seu pai, um mês antes de este acabar falecendo tragicamente em um terrível acidente de carro. Era a última lembrança que possuía de seu amoroso pai. O uso contínuo daquele acessório em seu pulso era a única maneira que havia encontrado, ainda quando era apenas um garoto, de não permitir que seu pai morresse dentro dele. Como se ele levasse um pedacinho do homem que lhe dera a vida aonde quer que ele fosse.
encarou o relógio que em relação a ela se encontrava ao contrário e notou sobressaltada que ele marcava exatamente três da tarde. As horas que havia passado na companhia de Daniel lhe deram a sensação de terem sido apenas breves minutos. Que incrível poder de entreter as pessoas aquele garoto possuía, ela pensava consigo. Seu cérebro extremamente hiperativo começou a imaginar o que poderia ter acontecido naquele sofá caso os dois não tivessem sido interrompidos.
Repetidamente, o interfone soou pelo apartamento, dessa vez um ruído contínuo e áspero tomou conta dos ouvidos de e teve o importante papel de despertá-la de sua quase inconsciência. Certamente seu novo visitante não desistiria tão cedo de vê-la.
O corpo de Daniel ainda se encontrava sobre o dela, exercendo uma pressão que agora começara a deixá-la incomodada. De modo brusco retirou suas mãos das costas de Daniel e após pousar rudemente a palma de suas mãos sobre o peitoral do garoto o empurrou para frente sem se importar em tomar a mínima cautela para com ele.
Os grandes olhos azuis e masculinos instantaneamente se arregalaram e ele teve de se agarrar ao encosto lateral do sofá para não cair estatelado sobre o assoalho da sala. Direcionou seu olhar assustado para , tentando compreender ou decifrar sua expressão, mas desta obteve apenas o desvio de olhar.
- Caralho, se acalma! – A voz de Daniel esgueirava-se de sua garganta de modo demasiadamente irritadiço, a inesperada cólera que acabara de crescer em seu peito se manifestando por meio dos avermelhados e sedutores lábios. Quem essa garota pensa que é para me destratar desse jeito? Visando se recompor de seu quase tombo, movimentou-se agilmente sobre o sofá e forçou suas costas contra o ângulo formado entre o encosto lateral e o estofamento horizontal, se equilibrando no móvel macio enquanto tentava adquirir estabilidade emocional. Com o cenho ainda franzido e os lábios tensionados entre si – atos pelos quais pode ser demonstrado o estado ainda assustado no qual ele se encontrava devido aos modos no mínimo grosseiros que a garota havia apresentado há alguns instantes – ele levantou seu olhar para a garota que no momento em questão já se encontrava de pé em frente ao sofá em que ele estava, mas antes que pudesse decifrar sua expressão sentiu algo se movendo de modo absurdamente rápido e vir em sua direção.
Movido por reflexo, ou talvez instinto de auto-preservação, levantou ambos os braços e direcionou habilmente suas mãos até a cabeça, visando se proteger contra o objeto não identificado que dentre poucos instantes colidiria contra ele. Seus olhos só puderam identificar um borrão antes do baque, que perdurou menos de uma fração de segundo. Antes que sua expressão aflita se transformasse e pudesse demonstrar algum vestígio de dor, ele percebeu que aquilo que atingira seus braços era indiscutivelmente leve e possuía uma textura extremente macia, algo que se assemelhava com uma pluma. Abaixou os braços com relutância e ao perceber que não corria mais perigo direcionou seu olhar até aquilo que havia acabado de ser arremeçado contra ele e agora pairava sobre seu colo. Era uma camisa. A sua camisa! Ainda com os olhos fixos no tecido de sua veste, entreabriu seus lábios e de modo áspero murmurou: - Velho, o que está acontecendo com você? É só uma campainha!
- Só uma campainha, Daniel? – O volume com o qual sua voz se arrastou pelos cômodos de seu apartamento foi superior do que ela habitualmente fazia uso, sendo seu nervosismo a única sensação que conseguia sentir enquanto, a cada segundo que decorria, a tensão aumentava e suas linhas de raciocínio tornavam-se mais abstratas. Ela não sabia como agir e a aparente e excessiva tranquilidade do rapaz, certamente, não estava ajudando em coisa alguma. Como ele consegue ser humanamente tão calmo? Após inspirar fundo e – tentar – trazer coerência para dentro de seus pulmões ela arqueou seu tronco na direção de seu amigo e adquirindo uma posição quase que completamente curvada para frente, a pouquíssimos centímetros do garoto, direcionou sua mão direita até o ombro do mesmo. Usando-o não só com a finalidade de apoiar parte do seu peso para não cair como também, e principalmente, para tornar-se mais convincente ela pressionou de forma firme e simultaneamente delicada o músculo que naquela região estava evidenciado. Permitiu que seu olhar se encontrasse com o dele e murmurou, suas palavras se desprendendo de sua boca de forma vagarosa enquanto se expressava com total franqueza. – O que a gente fez, digo... O que a gente ia fazer. É totalmente, completamente errado. Ninguém nunca, em hipótese alguma, pode desconfiar. Agora vista a sua camisa, Daniel. E dê o fora daqui.
Ela não esperava uma resposta, mas mesmo que estivesse esperando não a receberia.
A não ser que vocês tenham tido uma sorte rara, raríssima, na vida, certamente terão passado por experiências que o deixaram sem reação. Ou seja, a não ser que tenham tido essa sorte raríssima, vocês sabem que a sensação de não saber como agir após ser pego de surpresa é descomunal a ponto de nos deixar intimamente abobados, nos desestabelecendo completamente e fazendo com que nosso único anseio seja por parar o tempo para conseguir assimilar os últimos acontecimentos. Melhor dizendo, digerir a notícia sem ser atrapalhado por quaisquer que forem os fatores externos. Daniel precisava apenas de um tempo para - tentar - desvendar o significado por trás das palavras aveludadas de . Dar o fora. Dar o fora de quê? Será que ela me quer fora da vida dela? Ele não só não conseguia compreender como também não queria. Eles sempre foram tão unidos, tendo uma amizade tão forte. Ele precisava dela, mais do que precisava de ar. E ainda mais depois do ocorrido entre eles naquela tarde, agora ele tinha certeza de que ela era mais do que essencial na vida dele. Antes que pudesse ter tempo para sair de seu estado desnorteado e adquirir uma posição, reagir ou qualquer coisa do tipo, observou dar alguns passos firmes pelo assoalho, movimentando com rapidez seus pés até a cozinha. Após concluir o percurso curto que a levara até o balcão que se encontrava próximo a pia ela direcionou seu braço para frente e sua mão direita alcançou agilmente o interfone que estava conectado a parede, não demorando para que ela posicionasse o fone em sua orelha.
- Quem é? – Sentia seu corpo tenso e não conseguiu disfarçar tal nervosismo ao estabelecer o primeiro contato com seu visitante. Não fazia a mínima ideia de quem estava aguardando do outro lado da linha, afinal o único plano que havia feito naquele dia era de deixar sua residência apenas para buscar Thomas no aeroporto, quando este a telefonasse. E como já devem ter reparado, ela não era o tipo de garota que é constantemente rodeada por amigos. Não recebia com frequência visitas surpresas, a não ser em datas festivas. Mas uma véspera de feriado não entrava nesse quesito. De repente sua mente relembrou, com horror, um comentário que Daniel tinha feito há algumas horas. Algo sobre ele vir com a namorada antes do almoço para vê-la. Ó meu Deus, ! Ela poderia ter acordado e não tendo encontrado seu namorado decidira procurá-lo na casa de . nutria uma aversão gigantesca e asquerosa pela amiga do garoto de cabelos castanhos, devido não só pela inabalável amizade que os dois compartilhavam como também por ele, muitas vezes, preferir a companhia daquela garota ao invés da dela. A aversão que sentira quando conheceu a menina vinda do interior tornou-se sem muita demora em um ódio mortal que ela nunca fez questão de esconder. não queria sequer imaginar o que poderia acontecer se ela descobrisse o que havia ocorrido naquela tarde. Outra possibilidade lhe surgiu, Thomas. Ele poderia ter chegado mais cedo e decidido, inocentemente, ir fazer uma surpresa para a garota que o hospedaria. Mas aquilo extrapolava a linha entre o imaginável e o impossível, afinal nenhum vôo chega com mais de três horas de antecedência.
Devaneava imaginando o que seria pior, uma visita da namorada do garoto que ela havia quase transado ou a de seu ex-namorado que ela ainda não havia esquecido por completo quando os instantes de arrebatador e terrível silêncio foram aniquilados e uma voz feminina soou no fone, deixando a apreensão que antes sentia transformar-se em algo parecido com desespero.
Capítulo 2.
- ? Ei, maninha! Sou eu, . - Seu corpo irradiava uma fadiga desumana, mas não querendo demonstrar tal fraqueza tanto corporal quanto espiritual, simulou-se no mínimo animada ao propagar sua voz no bocal do fone.
era a irmã mais nova da garota que residia no simplório prédio a sua frente. Havia completado seus dezoito anos recentemente, apesar de que aparentava, pelo menos, possuir uns dois anos a mais. Não era uma garota comum. Como seus pais costumavam comentar, era até diferente demais. Não era adepta a normalidade e nem fazia questão de apresentar-se dentro dos padrões de uma sociedade que segundo ela era demente. A rebeldia pulsava em cada uma de suas hemácias e a válvula de escape que ela havia encontrado para extravasar tanta agitação interna era o modo como se vestia.
Naquele dia, por exemplo, trajava uma calça skinny, - com rasgos curvilíneos e propositais na dimensão das coxas -, de proporções demasiadamente justas e de coloração preta, uma camisa masculina xadrez que beirava a altura de seus joelhos sobreposta a uma regata preta e um all star de cano alto verde limão. Não se vestia conforme a moda, e não era adepta a nenhum novo grupo alternativo. Não era emo, não era From UK, não era hippie, não era dark... Era simplesmente .
Possuía olhos estupidamente verdes e convidativos, não muito grandes ou pequenos, um tamanho médio suficiente para deixar quem quer que os visse encantado. Seus cabelos loiros estavam cobertos por uma tintura preta desde seus quinze anos, quando pintara sozinha e às escondidas cada um dos fios. Possuía uma boca insinuante e deveras provocativa, seus lábios carnudos preenchidos por uma coloração avermelhada que inconscientemente seduzia as pessoas. Seu corpo, apesar de magricelo possuía algumas poucas curvas, uma quantidade significativa de peitos e um traseiro saliente. Possuía uma estatura baixa, não ultrapassando o um metro e sessenta que possuía desde seus quinze anos. Sua beleza era notada sem grande dificuldade. Quando pequena, à contragosto, fora obrigada a participar de um concurso de beleza estadual e ganhara em primeiro lugar, tamanha a harmonia de seus traços. Sempre fora a mais bonita das irmãs, e ambas tinham conhecimento disso, porém isso nunca afetara a amizade que as duas mantinham.
- ? - A indagação de ecoou com tamanha estranheza e rudez que a caçula ponderou se devia ou não ter ido procurar a irmã. Talvez tivesse chegado em uma hora ruim. Ou talvez, - e a simples hipótese dessa opção chegava a machucá-la -, ela realmente não fosse bem vinda. se martirizava dentro de si enquanto as duas permaneciam por alguns segundos em estado extremo de mudez. Como pudera ser tão estúpida a ponto de achar que uma visita surpresa deixaria a irmã contente, restabelecendo os laços de amizade que no último ano se encontraram tão desmembrados? As duas não se viam há cerca de um ano e meio, desde que se mudara da cidade interiorana em que as duas cresceram. chamou-a certa vez para passar as férias com ela, mas o convite fora grosseiramente recusado com a justificativa de falta de tempo. Desde então o único contato que mantinham era de, raramente, atenderem às ligações que faziam uma a outra.
- Alô, ? Ainda está na linha? O que você está fazendo aqui? - Não havia indícios de felicidade ou de pelo menos uma falsa alegria, parecia apenas... Assustada.
A mais nova não conseguiu responder, por uma fração de segundo permaneceu em total estado de imobilidade, não compreendendo porque estava sendo tratada daquela maneira.
Cogitou a hipótese de ir embora, mas logo se deu conta de que não tinha lugar para ir. Estava sozinha em uma cidade desconhecida. Ela e sua mala. O arrependimento estava tomando conta de todo o seu ser, talvez ela não devesse ter feito o que fizera. Talvez ir para a capital fosse um tremendo equívoco. Sua mente relembrava com aflição os recentes fatos que ocorreram e que a fizeram ir à procura da irmã, mas para seu cérebro nada fazia sentido. Sua vida era uma grande e asquerosa mentira. Com os pensamentos tomados em uma linha de desespero, ela nada conseguiu responder. Suas cordas vocais nada conseguiriam transmitir. Entreabriu seus lábios para murmurar qualquer coisa, que nem ela realmente sabia o que era, mas logo que o fez um grunhido quase inaudível saltou-lhe da boca.
Um grunhido de total desespero. Um grunhido que transmitia seu estado interior. Um simples grunhido que foi captado pelo outro lado da linha e o desarmou de prontidão. conhecia aquele grunhido como ninguém, era o ruído que seus lábios proporcionavam quando ela segurava o choro. De repente se esqueceu de tudo, ou melhor, nada, que as duas haviam passado nos últimos meses e tudo o que ansiava era a proteção de sua irmã. Como quando as duas eram crianças.
- Não mova um músculo, eu estou descendo. Não saia daí. - O calor daquele timbre tão por ela conhecido fez com que um sorriso afável fosse adicionado a careta de , que possuía os olhos embaçados e o cenho franzido. Ela estava propensa a chorar, mas antes que uma lágrima pudesse saltar de seus olhos, captou cada palavra da curta frase que escutara e sentiu um ânimo revigorado ser criado dentro de seu coração. Ela não queria aparentar fraqueza. Não se permitiria encontrar-se vertendo lágrimas ao reencontrar a irmã, seria muito egoísmo de sua parte. Juntou todas as forças que restavam em seu corpo e engoliu o choro.
O portão foi aberto e após ter se restabelecer por completo, ela encaminhou-se para dentro do prédio com sua mala. Permaneceu no saguão, próximo a guarita do porteiro enquanto aguardava . Seu corpo gritava por nicotina pura, mas ela preferiu não acender um cigarro enquanto esperava, pois além de saber que sua irmã possuía uma total aversão por tal hábito ela não queria que essa fosse a primeira impressão transmitida no reencontro.
Tinha vergonha de mostrar a irmã o que havia se tornado no último ano. Apesar de saber que uma hora ou outra, ela descobriria. Forçou seu tronco contra o muro branco, apoiando sua coluna cervical de maneira um pouco torta enquanto cerrava seus olhos, em alguns momentos de quietude. Seu estômago encontrava-se em total rebuliço, ela acabara de notar. Não se alimentara desde o dia anterior, quando partira para São Paulo em um ônibus. Sentia seu sangue pulsar em seu corpo de forma lenta e desejou inutilmente para que não seus olhos ou a coloração esbranquiçada de sua pele não delatassem sua anemia. Enquanto seu subconsciente lhe assaltava com uma série de perguntas e contestações sobre acontecimentos recentes uma voz ecoou em seus ouvidos.
- ! - Entreabriu seus olhos e a imagem de sua irmã mais velha correndo em sua direção foi formada em sua retina. Estava tão bonita! Não se parecia com a que ela conhecia, talvez a caipirinha houvesse realmente se transformado. Havia se tornado uma mulher da cidade grande, e não um bicho do mato como ela. Sentiu uma pontada de inveja em seu peito, afinal, quem havia sempre almejado uma vida em meio à agitação de capital era ela, enquanto sequer cogitara a hipótese de ir até que devidamente se mudou. Antes que seu corpo fosse tomado pelo sentimento negativo, movimentou seus pés em direção a irmã. Gradativamente, seus passos tomavam mais velocidade e em pouquíssimo tempo o espaço que separava as duas foi dizimado a alguns poucos metros.
À medida que impulsionava seus pés contra o assoalho ao vagar pelo ambiente externo do prédio em direção a sua irmã caçula, sua mente era invadida por pensamentos gradativamente mais turbulentos, algumas memórias não muito antigas sendo repassadas diversas vezes em sua retina, sem que ela precisasse cerrar os olhos para alcançar tal devaneio.
Nitidamente, seus olhos conseguiam enxergar a desgostosa ocasião em que ela fora embora da cidade natal, há aproximadamente um ano atrás. Sem que houvesse esforço conseguia rever a imagem de uma garota de estatura mediana correndo desesperadamente em sua direção enquanto ela adentrava o ônibus que a levaria posteriormente até a grande São Paulo. Era . Que corria com a máxima velocidade que seu corpo podia alcançar enquanto de seus olhos deveras inchados saltavam inúmeras lagrimas, criando dois rios logo abaixo a suas bochechas rosadas que na ocasião se apresentavam empalidecidas devido a tristeza.
A menor implorara para ser levada junto, dissera algumas vezes que não conseguiria suportar a dor de ser separada da irmã daquela maneira, afinal as duas eram, além de irmãs, melhores amigas desde que se conheciam por gente. O sentimento que compartilhavam era desumano, e a separação catastrófica gerara não só o desentendimento, mas, principalmente, o mútuo silêncio das duas. Passaram o último ano sem trocar uma única palavra, não se telefonavam e quando fora passar parte de suas férias de verão com os pais a outra saiu de casa e só voltou a colocar os pés na residência quando soube que a irmã já havia partido. A relação das duas havia sido cortada violentamente, a distância se interpôs entre elas e aniquilou todo e qualquer sentimento que um dia nutriram uma pela outra. Pelo menos era esta a perspectiva que ela possuía dos fatos até esta sexta-feira. Mas, felizmente, isto estava prestes a ser modificado.
A distância que há alguns poucos instantes se mostrava tão imponente e descomunal agora se tornara microscópica, restando apenas meros centímetros que possuíam o desnecessário papel de separá-las. Mais um passo e este espaçamento que as rodeava seria aniquilado. Conforme a aproximação, a mente de desanuviou, ela entrou em um estado de total serenidade enquanto fitava os deslumbrantes olhos esverdeados da caçula sorridente e, sem conseguir acionar seus músculos faciais de outra maneira, sorriu.
Possuía em seus lábios um sorriso limpo, que transparecia sem muito esforço o estado de felicidade que se encontrava. Havia esquecido completamente, pelo menos durante aquele momento, que os instantes que precederam o reencontro haviam sido extremamente tensos. O garoto dos olhos azuis havia se retirado de seu apartamento logo que ela atendera ao interfone, mas ela não tinha conhecimento de como ele havia reagido. Talvez ela não devesse tê-lo maltratado daquela forma. Afinal a culpa do que ocorrera em seu sofá devia ser partilhada igualmente entre os dos dois. Mas agora ela sequer se lembrava.
Esbanjando agilidade, levantou ambos os braços que se encontravam pendentes rentes à lateral de seu corpo e guiou suas mãos em direção a outra garota. Apertou sua irmã entre seus braços com tanto vigor que se perguntou inconscientemente se estaria machucando a pequena. As duas se apertaram com força, um abraço de urso que era ao mesmo tempo sufocante e confortante, enquanto sorrisos excepcionalmente intensos eram esculpidos em ambos os lábios.
sentiu-se aliviada, suas narinas inspiraram e respiraram consecutivas vezes, seus pulmões se deliciando momentaneamente com as moléculas de oxigênio que eram a ele proporcionadas, causando uma surreal sensação de paz em seu coração no decorrer do abraço, que perdurou alguns minutos, antes que elas afrouxassem os braços e se separassem.
- Tomou vergonha na cara e veio visitar a irmã esquecida, é? – Apesar do timbre adocicado e sutil da mais velha, as palavras ditas por ela continham completa verdade, transparecendo sem muita dificuldade parte da mágoa por ela alimentada dentro dos árduos últimos meses que ela passara sem sequer uma notícia da outra.
- Não fale assim, . Você sabe, ou pelo menos deveria saber, que eu senti a sua falta. E que não foi fácil continuar naquela cidade sem você. – De repente, os olhos da caçula se encheram de lágrima e ela teve de fazer um esforço desumano para que as lágrimas que já cambaleavam em seu globo ocular não decidissem desabar sobre sua face. As lembranças que a atormentavam há cerca de algumas semanas foram por seu cérebro relembradas, mas dentro de seu íntimo uma força veemente e intensa a impedia de se mostrar auto-piedosa em frente a irmã, e sendo assim, com esta força gritante se manifestando em seu peito, engoliu o choro e decidiu que só revelaria à irmã o ocorrido em outra ocasião.
- Eu também senti sua falta, sua boba. – Um brilho intensificado e cheio de preocupação foi adicionado a seus olhos cor de mel ao notar a face da irmã se modificando aos poucos. reconheceu aquela expressão, apesar do tempo que passaram afastadas, ainda conseguia reconhecer quando a irmã se encontrava triste e por mais clichê que isto possa soar, a conexão que as duas possuíam era tamanha a ponto de a dor da irmã ser sentida por ela. Sem conseguir agir de outra forma, levantou seu braço direito e agilmente guiou-o em direção de , envolvendo aqueles ombros magrelos de maneira protetora em um quase abraço, sem que expressasse demasiada força no ato. Murmurou enquanto suas mãos se soltavam demoradamente da irmã, voltando a posição inicial, postada de fronte a ela: - Agora chega de momento dramático porque não combina com a gente. Topa passar esse feriado comigo? Como nos velhos tempos?
Um sorriso de proporções bastante abrangentes foi criado na face da menor, a alegria pelo convite tomando lugar a tristeza e as más recordações que guardava dentro do peito. Como ela poderia recusar a um convite desses? Como nos velhos tempos. Esta última frase que acabara de ser dita por oscilou em seu cérebro e foi repassada milhares e milhares de vezes por seus neurônios para que ela acreditasse no conteúdo das palavras, aniquilando a idéia de que aquilo fosse apenas uma ilusão auditiva. Era o que ela mais almejava naquele momento, que sua vida voltasse a ser o que era. Começando pela irmã e a amizade que as duas sempre mantiveram. Estava disposta a qualquer coisa, até mesmo um pacto ao diabo para que sua vida entrasse nos eixos, tamanho o desespero da menina.
- Eu topo. Digo... Se não for te atrapalhar, eu gostaria de passar um tempinho aqui. Eu não posso voltar pra casa, . Pra minha vida. Aconteceram umas coisas e, bem, eu preciso de um tempo pra esfriar a minha cabeça e decidir o que vou fazer. – As duas bolas de gude esverdeadas que ela possuía abaixo das sobrancelhas imploravam para que a outra a compreendesse e a deixasse ficar. Como não obteve resposta, continuou: - Por favor. Eu prometo não dar trabalho. - Sua voz era falha e de sua garganta esgueirava-se a mais pura sinceridade, não era de seu feitio se humilhar por nada, muito menos mendigar abrigo, mas ela não tinha para onde ir.
A mais velha não compreendeu. Franziu o cenho e tentou, diversas vezes, compreender o significado contido nas palavras que acabavam de ser absorvidas por seus ouvidos. Arqueou as sobrancelhas e adquiriu uma expressão não muito convidativa, a confusão sendo agora presente por completo dentro de si.
- Mas... Como assim? O que aconteceu, ? – Em seu cérebro hiperativo ela procurava alguma razão plausível que pudesse explicar a tese da irmã de não poder voltar pra cidade natal, mas nada fez o mínimo sentido. Analisou o semblante da pequena e notou que aqueles olhos vagueavam e se escondiam enquanto ela se ocupava em desviar o olhar, direcionando-o para o chão, como uma criança exprimindo vergonha após algo errado que fizera.
Observou os lábios avermelhados da outra se entreabrirem diversas vezes, como se ela fosse iniciar uma frase, mas logo se fechavam, dando a impressão de que ela tentara se pronunciar mas sua voz não obedecia à seus sentidos. estava entrando em desespero com o silêncio da menina, e à medida que os segundos passavam, os mais bizarros e turbulentos pensamentos lhe acometiam. Não era algo bom, isto ela já podia garantir. Mas mal podia imaginar a gravidade da situação que ocorrera.
De repente, olhando por cima dos ombros da irmã, avistou um vulto alto e inesperado sendo formado gradativamente em sua retina. Conforme o sol pousava seus raios sobre a pele esbranquiçada do homem que se aproximava delas, sentiu algo estranho. Algo como borboletas estando a festejar em seu estômago. O sujeito trajava uma camiseta básica branca levemente amarrotada sobre seu corpo, e apesar de não possuir proporções extremamente justas, deixava os músculos de seu peitoral evidenciados. Uma surrada calça jeans de coloração escura e um All Star vermelho. Apertou os olhos e adquirindo uma expressão esquisita, conseguiu enxergar com mais uniformidade aquele que estava a alguns metros delas. Um calafrio perpassou por sua espinha dorsal ao que ela decifrou quem era o tal sujeito. Daniel. Mas por que cargas d’água ele ainda não foi embora? E por que está vindo até aqui? Puta que pariu.
, ao notar a expressão excêntrica que a outra expunha ao encarar algo que até o momento ela desconhecia, não pestanejou, girando seu corpo para poder assistir a aquilo que prendera momentaneamente a atenção da mais velha. As duas permaneceram a admirar o homem que se aproximava, como que enfeitiçadas por cada um dos trejeitos graciosos que ele esbanjava.
O sol de verão pousava sem misericórdia alguma seus raios sobre toda a extensão do encardido piso que Daniel percorria ao dirigir-se até as duas garotas, deixando as pupilas de quem quer que por ali caminhasse dilatadas devido a intensa luminosidade presente. Sem que ele tomasse conhecimento, uma pequena quantidade de gotículas de suor se desprendiam com rebeldia dos poros de sua testa e escorregavam brandamente pela lateral de seu rosto, algumas vezes unindo-se a alguns fios de cabelos desgovernados que encontravam em seu percurso que consistia em contornar a curva de seu maxilar e ir em direção a seu queixo. Uma ação que era assistida por aquelas duas telespectadoras com prazer, fazendo com que as duas se deliciassem subconscientemente com a visão que era adquirida a cada passo que ele proporcionava sobre o solo.
Após concluir o percurso que o levara para próximo das duas garotas, um sorriso sapeca foi esculpido naqueles graciosos e carnudos lábios, uma expressão muitíssimo convidativa tornando-se presente enquanto as sardas que ele possuía próximas às bochechas agora já podiam ser facilmente vistas pelas duas.
- Oi, meninas. – Sua voz rouca ressoou na audição de como uma canção melodiosa, deixando-a deliciada com o timbre daquela voz masculina tão estonteantemente gostosa a seus ouvidos. Devido à proximidade que agora existia entre eles, ela pôde fitar demoradamente aqueles olhos claros, decifrando o olhar provocativo que era a ela direcionado. Suas bochechas infantis se enrubesceram e ela sorriu envergonhada pela maneira como ele a encarava.
Daniel direcionou um olhar exageradamente simpático e atrativo na direção de e logo que o fez, uma pitada de ódio brotou nos olhos da outra garota que assistia ao flerte que ele fazia uso, deixando-a de prontidão em estado de total cólera. Mas que audácia, como ele tem coragem de fingir que nada aconteceu e ainda vir cantar minha própria irmã. Desgraçado. Pensando bem... Fui eu que pedi para que ele esquecesse o que aconteceu. Droga!
- O que você ainda está fazendo aqui? Eu não deixei claro que queria que... Digo, você não estava de saída? – se esforçou para não ser grosseira, mas apesar de usar todas as suas forças para alcançar uma tonalidade branda, demonstrou-se no mínimo irritada ao propagar sua voz.
Os olhos azuis que fitavam intensamente a garota de cabelos escuros agora foram obrigados a desviar o olhar do que no momento era o objeto de seu desejo e dar a mínima atenção à garota que dirigia a palavra a ele.
- Eu estava indo embora, mas percebi que havia esquecido meu casaco no seu apartamento. – A dona do apartamento ouviu aquelas palavras, e percebendo a falta de verdade contida nelas, direcionou um olhar cheio de desdém em sua direção, esperando que aquilo fosse ofender o rapaz, mas ao invés disso, fez com que um sorriso divertido e infantil fosse adicionado a sua face. – Ok, ok... Não esqueci casaco algum. Mas vi que você estava com uma nova amizade e resolvi me juntar. Não vai me apresentar a sua nova amiga, ?
escutou cada sílaba que escapava dos lábios do rapaz com total repugnância e quando ele as concluiu, precisou se imobilizar por um segundo, restabelecer sua paz de espírito para que não dissesse algo que pudesse comprometê-la. Não conseguia compreender dentro de si de onde surgira tanto ciúme, mas aquele reboliço de sentimentos que estava nutrindo pelo garoto de cabelos castanhos não estava lhe fazendo bem algum.
- Ah... Essa é a , minha irmã caçula. , esse é o Daniel, um amigo meu. – Obrigou seus músculos faciais a exprimirem em suas feições um sorriso, que logo que esculpido demonstrou-se no mínimo falso e forçado, mas aquilo era o melhor que ela podia fazer no momento. Sua mente vagueava e ela se perguntava que tipo de ser humano aquele garoto era. Namorava a garota mais bonita da turma e mesmo assim não estava satisfeito, procurando frequentemente formas alternativas de se satisfazer com outras garotas.
- Prazer em conhecê-la . – O garoto voltou com prazer toda a sua atenção à estranha que prendera seu interesse nos últimos minutos e levantou um de seus braços, guiando sua mão gelada até que encontrasse a da menina, apertando-a carinhosamente contra a dele enquanto arqueava seu tronco à frente para que seu rosto se aproximasse ao dela e pudesse depositar sobre aquelas bochechas avermelhadas e macias um beijo. Murmurou próximo ao ouvido da menina em um tom aveludado num volume excessivamente baixo, para que apenas ela compreendesse: - Bem vinda.
cerrou as pálpebras contra os olhos por instante, visando adquirir calma. Inspirou demoradamente, puxando para dentro de seu organismo moléculas de oxigênio puro que teriam o poder de acalmar seus nervos que no momento em questão encontravam-se à flor da pele.
- Ih, pelo visto a já está com ciuminhos. Melhor eu tomar cuidado antes que ela venha dar uma de fortinha pra cima de mim. – Uma risada rouca se esgueirou de sua garganta e se retraindo, ele deu um único passo para trás, simultaneamente ao que afrouxou a pressão que a palma de sua mão exercia sobre os dedos magros e aquecidos da garota que acabara de conhecer, soltando-a enquanto postava-se de fronte as duas.
Continua...