Poynter's Kingdom
Por Táh


Capítulo 1 - Once a King, one never loses the Majesty.

- Dougie Boy! - ouvi a voz de Tom gritar enquanto ele pulava em mim, sendo seguido por Harry e Danny. Ótimo, agora eu virei pula-pula!
- Dudes, quanto tempo! - eu disse, abraçando os caras. Pô, eu tava com saudades deles, afinal, faz quase dois anos que eu não os vejo. Sabe, eu passei esses últimos dois anos nos Estados Unidos, morando com a minha mãe, que é separada do meu pai. Mas tipo, eu nunca gostei de lá realmente. Meu lugar é aqui, em Londres. Eu moro aqui desde pequeno, e tive que deixar meus três melhores amigos, os três idiotas que estão comigo no momento, pra ir pra lá morar com ela. E só agora que eu fiz 17 anos que ela parece perceber que eu já sou grandinho o bastante pra morar com o meu pai. Ela é meio paranóica com isso, sabe, porque meu pai não é o que se pode chamar de careta e controlador. Pelo contrário, ele é super gente fina. Quando eu era pirralho ele deixava eu virar a noite no vídeo game ou assistindo filme quando minha mãe viajava a trabalho ou coisa assim. Ele é um empresário bem famoso aqui em Londres, mas quando sai da sala é uma pessoa completamente diferente. Ele é até engraçado, e, detalhe, super pegador. Pois é, tenho certeza que ele passou o rodo em metade de Londres desde que se separou da minha mãe, e eu dou razão a ele, não tem nada melhor que mulher. E ele ainda é novo, pô, tem mais é que aproveitar. Beleza que a minha mãe fica brava quando eu falo isso, dizendo que todos os homens são canalhas e adoram defender uns aos outros. Mas não é minha culpa se é verdade, ok.

- Demais dude, você abandonou a gente aqui! - o Danny disse, fingindo estar sentido e se sentando na mesa da cozinha da minha casa, onde eu estava no momento, e atacando a comida. Dá pra ver que eles não mudaram nada, uh.
- E você acha que eu queria? Finalmente minha mãe me deixou voltar pra cá, não aguentava mais os Estados Unidos! - eu disse, tomando um gole do meu suco de laranja.
- Por isso mesmo temos que ir logo pra escola, mostrar que o grande Dougie Poynter está de volta! - o Tom disse, só pra me provocar. Idiota. Sabe, acontece que eu estudo no St. Lucas High School desde que me entendo por gente. Dizem que ele é o melhor High School da Inglaterra, e deve ser mesmo. E cara, desde a 7ª série eu e os caras começamos a fazer sucesso na escola. Claro, com alguém tão gostoso como eu na turma, COMO não faríamos sucesso? Tá, parei, mas é verdade. Anyway, eles disseram que a escola não mudou quase nada, e que todas as garotas quase morreram ao saber que o grande Poynter aqui ia voltar pra cá. Eu não tenho culpa de fazer um sucesso inigualável com a mulherada, ok? Mesmo lá em New York eu era muito assediado. Vi garotas chorarem ao saber que eu ia voltar pra Londres. Tá, eu não vi, mas aposto que isso aconteceu com alguém. Ok, tô apelando, eu sei. Mas cara, eu sou gostoso. E as garotas gostam disso. E eu gosto de garotas. Ou seja, juntamos o útil ao agradável e dá tudo certo. E nem eu tô entendendo mais o que eu tô falando, mas tudo bem.
- Ótimo, vamos logo então. - eu disse me levantando da mesa e puxando o Danny, fazendo-o largar um bolinho. Peguei minha mochila, coloquei meu casaco e saímos de casa, em direção ao carro do Harry, que estava parado na frente. Opa, um conversível. Gostei. Entramos no carro e fomos em direção à escola. Como eu já disse, o St. Lucas é o melhor High School de Londres, e assim pressupõe-se que ele não seja barato. Bom, digamos que é próprio de gente abastada. Rica. Que nada na grana, digamos assim. Dá pra ver com o carro do Harry e até nossos uniformes. Pois é, uniformes! É a única parte que realmente me irrita naquele colégio. Calça jeans escura, camisa social, gravata e casaco preto com o brasão da escola. E cara, se usar isso todo dia me irritava antes, imagina agora! Mas tudo bem, só porque esse uniforme me deixa charmoso.

- E aí, me digam, muitas gatas novas no Ganon's Castle? - perguntei, e os três riram. A gente costumava chamar a escola de Ganon's Castle, por causa daquele jogo, The Legend of Zelda - Ocarina of Time. Porque tipo, o St. Lucas me lembra demais o castelo do Ganon, de tão medieval e gigante que é. Escola tradicional, sabe como é.
- Algumas. - disse Danny, com um olhar engraçado. Com certeza ele estava me escondendo alguma coisa, a qual eu iria descobrir, pode crer. - Mas no geral tá tudo igual, os mesmos jogadores de futebol, as mesmas líderes de torcida, os mesmos losers e NÓS!
- Não me diga que aquele idiota do Jake ainda estuda lá. - eu disse, torcendo pra que algum deles negasse, mas isso não aconteceu. Droga. Jake era simplesmente o meu maior inimigo. Ele sempre ficava dando uma de gostoso pra cima de todo mundo, e cara, ele não chega nem aos meus pés, honestamente.
- Infelizmente, dude. Não só o Jake como o Bryan, o Scott e o Dean. - o Tom disse, enquanto nós saíamos do carro, que Harry havia parado no estacionamento do colégio. Revirei os olhos.
- Não acredito que vou ter que aguentar aqueles otários de novo. - eu comentei, enquanto nós andávamos para a entrada da escola, que estava cheia de alunos. E a maioria deles se virava para mim naquele momento, sabe. Pude ouvir gritinhos de um grupo de garotas que sorriam para mim. E cara, ali estava a parte boa do uniforme: o uniforme das garotas! A mesma camisa social, a mesma gravata, o mesmo casaco, mas a calça era substituída por uma saia xadrez muito sexy, se me permitem dizer. Não era muito curta, mas já dava pra ter uma bela visão das mais belas ainda pernas das mais gostosas garotas da escola. E isso era incrível, believe me.
- Veja pela parte boa, se os jogadores de futebol são os mesmos, as líderes de torcida também... - comentou o Harry, sorrindo maroto, e eu captei a mensagem, olhando para o outro lado do pátio de entrada, onde quatro garotas que vestiam saias mais curtas que as normais e camisas ainda mais apertadas ensaiavam algum tipo de coreografia. Claro, as líderes de torcida! Olívia, Jazmin, Hayley e Ashley, as garotas mais gostosas do colégio, sem dúvida. As quatro já passaram pelas minhas mãos, sabem, mas isso não vem ao caso agora. Só sei que, mesmo com a distância, era possível ver que a Olívia, a líder do grupo, estava mais gostosa do que nunca. Dei uma risadinha e os três pareceram entender o meu recado.
- Elas continuam ali, lindas, gostosas e inalcançáveis... para os losers, é claro. Porque a gente passa muito longe disso, se você me entende. - disse o Harry, com um sorriso tarado no rosto. Se não me engano ele estava de rolo com a Ashley quando eu fui embora, não quero nem imaginar o que aconteceu depois.
- Parece que nem com o tempo os losers aprendem que não adianta sonhar com as garotas mais gostosas do colégio. - comentou Tom, apontando com a cabeça para um grupo de nerds estranhos que babavam pelas garotas. Coitados.
- As garotas mais populares do colégio infelizmente não ficam com caras como eles. É meio óbvio o por quê. - eu disse, fazendo os outros rirem, enquanto a gente subia as escadas da frente e entrávamos pelo corredor principal. - Qualé, elas são o maior sonho de qualquer garoto que um dia já cruzou o caminho delas, imagina os que estudam aqui então.

Vi os três se entreolharem e arqueei as sobrancelhas. Eles definitivamente estavam me escondendo alguma coisa. Joguei minha mochila em um dos bancos que ficavam no pequeno pátio interno ao lado do corredor principal e os encarei.
- O que foi? - perguntei, e eles meio que riram. Porra, eu tenho cara de palhaço, por acaso? Odeio quando as pessoas ficam de segredinhos na minha frente.
- Bom, Dougie.... - começou o Tom, se sentando no encosto no banco e me encarando - Claro que as líderes de torcida continuam sendo as garotas mais populares da escola, mas acho que elas não são mais o único fetiche daqui não.
Preciso dizer que não entendi porra nenhuma?
- Dá pra ser mais direto, Fletcher? - perguntei, e ele riu.
- No ano em que você mudou pra New York, uma garota entrou na escola. Mas não uma garota normal, claro, mas sim uma garota incrivelmente linda e inacreditavelmente gostosa.

Opa, agora o assunto começou a me interessar.

- A gente nem precisa dizer que em uma semana ela já era a sensação do St. Lucas, precisa? - perguntou o Harry, sorrindo - E desde então ela é o maior desejo de qualquer um nesse lugar, ganhando até da Olívia.
- Peraí. Quer dizer que essa tal garota é mais gata e mais gostosa que a Olívia? Cara, eu achei que isso era impossível. - eu comentei, francamente. Ela era realmente muito bonita e tals. E muito boa de cama, mas isso não vem ao caso no momento. Eles se entreolharam novamente.
- É, dude, e bem mais. O que faz com que a Olívia e sua turma a odeiem com todas as forças. - o Danny disse, fazendo uma careta. Cara, se ela era tão gata assim, demorou!
- E quem vai fazer o favor de me apresentá-la? - eu perguntei, sorrindo maroto, mas eles só riam. Idiotas.
- Bom Dougie, tem mais um fato que deixa com que os garotos fiquem ainda mais de quatro pela . - ? Uh, nome legal. - Até hoje não se sabe de um único garoto dessa escola que tenha pegado ela.

HAM? Calma, rebobina! Quer dizer que além de gata e gostosa, ela era difícil? Ui, tentador. Até demais, se quer saber.

- Pois é uma pena que eu tenha que acabar com isso, porque, depois de conhecer Dougie Poynter, esse fato vai mudar. - eu disse, sorrindo, e eles apenas me olharam. Cara, eles tão muito estranhos pro meu gosto.
- Se eu fosse você não encheria tanto tua própria bola assim, Poynter. A é realmente intocável, praticamente todos os garotos do St. Lucas já tentaram algo com ela, mas nenhum conseguiu completamente nada. Ano passado ela deu um fora milenar no Jake na frente da escola inteira. Comentaram isso durante semanas, ele quase morreu de ódio.

Bonita, gostosa, difícil e deu um fora no otário do Jake? Cara, me apaixonei. Claro que é só jeito de dizer, uh, Dougie Poynter não se apaixona. Fala sério, paixão é perda de tempo. Mas que ela já ganhou pontos comigo antes de me conhecer, ah ganhou.

- Que é isso, caras? Parece até que vocês não sabem com quem estão falando! - eu disse, e eles deram de ombros.
- Faça como quiser, Poynter, só não venha reclamar depois de levar um fora inesquecível da , ok? - o Tom disse quando o sinal pra primeira aula bateu. Cara, ou eles estavam loucos ou essa garota era realmente impossível de se ter. Porque cara, eu sou Dougie Poynter. E desde quando Dougie Poynter tem dificuldade pra pegar uma garota? Isso mesmo, NUNCA! Anyway, fiquei quieto e fomos pra sala de matemática. Dude, onde já se viu matemática no primeiro horário do primeiro dia de aula? Que saco, viu. A aula foi aquele porre, a não ser por um grupinho de garotas que não pararam de me olhar nem por um segundo. Assim que ela acabou nós saímos da sala, em direção à próxima aula: Geografia. Tá, não tão ruim quanto matemática. Estávamos indo pra lá quando os dudes pararam em frente a um mural onde a primeira edição do jornal da escola estava pregada. E adivinha quais eram as duas manchetes da primeira página? 'Jake Bass ganha troféu de vôlei de praia em férias na Califórnia' e 'Olivia Grant volta de Paris com grande estilo.' . Cara, quem é o idiota que deixa essas coisas serem publicadas? Realmente a mim não interessava nem um pouco se o idiota do Jake tinha ganhado prêmio Nobel de idiotice ou coisa assim, ou das novas roupas que a Olívia comprou em Paris. Bom, isso talvez possa me interessar quando eu for tirá-las, mas a gente deixa pra lá.
- Dude, que coisa patética! - comentou Tom, e eu ia concordar com ele, mas uma voz particularmente sexy vindo de atrás de mim foi mais rápida.
- Como se os idiotas desse jornal tivessem idéia do que é patético, Fletcher. - disse a voz, fazendo com que os três se virassem, e eu fiz o mesmo. E tipo, aquela cena foi no mínimo surpreendente. Porque a dona da voz era simplesmente a menina mais bonita que eu já tinha visto na minha vida. E cara, o que eu já vi de mulher eu nem comento, viu. Ela era definitivamente linda, e o sorriso que carregava nos lábios fazia o rosto quase brilhar. Isso é brega, eu sei, mas é a verdade!
- , quanto tempo! - cumprimentou Tom, e ela sorriu mais ainda pra ele.

? Hum, preciso conhecer essa garota. No sentido bíblico, se vocês me entendem.

- Como foram as férias? - perguntou Danny, sorrindo para a garota. Ih, esses caras tão aprendendo.
- Uns dias no Brasil, nada de mais. E vocês? - ela perguntou, simpática. Tentador.
- Londres. - disse Harry.
- Londres. - disse Danny.
- Erm, Londres. - disse Fletcher, o que a fez gargalhar. E cara, o que foi aquilo. Ela inclinou a cabeça pra trás um pouquinho, dando uma bela visão do seu pescoço e do começo de seu colo, através da camisa branca com uns dois botões abertos. Gosh, eu tava ficando louco.
- Ah, , esse aqui é Dougie Poynter, nosso amigo. Ele acabou de voltar de New York. - disse Tom, me dando uma bela ajuda, fazendo com que a garota olhasse pra mim. Dei o meu olhar mais penetrante e o sorriso mais sedutor que consegui no momento, e ela arqueou as sobrancelhas, rindo de leve. Essa já tava no papo!
- Oh, o famoso Dougie Poynter. Estou encantada. - ela disse, num tom levemente irônico, e ainda mais sexy. Ela estendeu sua mão pra mim - Prazer, sou .

PÁRA TUDO. A gata aí é a tal da ? A inalcançável, intocável ou seja lá o que for? Ui, merece tudo o que os caras falaram dela, hein. Arqueei as sobrancelhas e beijei a mão dela, o que a fez parecer surpresa, mas logo já estava com a mesma expressão de antes.

- O prazer é todo meu, acredite. - eu disse galanteador. Ia continuar, mas o sinal bateu. Merda.
- Bom meninos, tenho que ir. Até mais. - ela disse, saindo em direção ao outro corredor, levando aquele corpo perfeito pra longe. Confesso que fiquei puto. Nenhuma, eu disse nenhuma garota jamais foi indiferente às minhas investidas, até mesmo as mais sutis, como foi o caso da . E ela simplesmente sorri e sai andando? Eu não estava entendo mais nada. Fui com os caras até a sala de Geografia, que me olharam como se dizendo 'A gente não avisou?'. Acontece que eu nunca imaginei que uma garota pudesse me desprezar. Mas pra falar a verdade, ela não me desprezou, só estava com pressa, o sinal tinha tocado. E mesmo que esse terrível engano tenha acontecido, as coisas vão mudar. Têm que mudar.

Capítulo 2 - 'Why do you Build me Up Buttercup, baby?'

Uma aula hiper chata de Física passou, e eu fui até a sala de Química, que seria minha próxima aula. Legal, adoro fazer experiências. Melhor ainda que a , a e também estariam nessa aula, então seria tudo mais divertido. No caminho vi de novo aquele garoto, o tal Dougie Poynter. Ele estava conversando todo garotão com aquela patética da Olívia, enquanto ela quase dava pra ele ali mesmo. Cara, como ela é tosca. Anyway, corri até a sala e encontrei as garotas já sentadas nas primeiras duas bancadas da fileira da direita, e fui até lá.
- Oi meninas! - eu disse, me sentando na segunda bancada junto com .
- Oi ! - elas responderam, e continuaram fofocando. - Então, todo mundo tava falando e é verdade!
- O que é verdade? - eu perguntei, e pareceu hiper animada pra me contar.
- Que Dougie Poynter, o cara mais fit da história desse colégio, voltou de New York. E pra ficar! - ela disse, sorrindo marota. Ri da cara dela.
- É, eu tô sabendo. - eu comentei, e ela pareceu estranhar, me olhando como que pedindo uma explicação. - Eu encontrei com ele.

As três ficaram, tipo assim, de cara.
- Como assim você encontrou com ele? Ninguém encontra com Dougie Poynter. Todo mundo pára quando Dougie Poynter passa, isso sim. - disse , com o queixo caído.
- Meu Deus, gente, falando assim até parece que ele é um deus! - eu disse, brincando com um tubo de ensaio. Elas pareceram indignadas.
- Mas ele é um deus, ! - disse - Não é possível que você possa falar tão indiferente dele!

Eu ri de leve. Ele não era tudo isso! Erm, quer dizer, ele era sim. Muito, se querem saber. O corpo dele era perfeito, e o sorriso... meu Deus, tive que me segurar. Mas, pelo que deu pra perceber, não passa de mais um idiota metido a gostoso. Na verdade ele é gostoso, mas ninguém precisa saber que eu achei isso.

- Você é inacreditável, ! - disse , balançando a cabeça negativamente enquanto ria. Eu ia dizer alguma coisa, mas a sala simplesmente parou quando quatro garotos entraram pela porta. E eu te dou um doce se você acertar. Mentira, não dou nada, porque é muito fácil de adivinhar. Jones, Fletcher, Judd e ele, Poynter. Todas as garotas da sala ficaram lá, com cara de paisagem enquanto ele passava. Ele olhava de vez em quando pra uma delas, que quase desmaiava. Eles foram indo para o fundo da sala, e quando passaram do lado da bancada onde eu estava, ele me olhou profundamente e deu um sorriso lindo. Na boa, que sorriso foi aquele! Eu dei um sorrisinho e me voltei pra , que parecia abismada pelo fato de eu não ter dado atenção pra Dougie Poynter. Eu dei de ombros e nós ficamos em silêncio, até que eles se sentaram nas últimas bancadas na sala, e se virou pra mim, furiosa.
- Que sorrisinho ridículo foi aquele, ? - ela perguntou, se inclinando em cima da minha bancada pra chegar mais perto de mim. Eu não pude deixar de rir.
- Garotas, vocês estão ficando paranóicas! - eu disse, mas elas não pareceram me ouvir. Que gracinhas.
- Por favor, , a gente não ligou quando você deu aquele fora no Jake, fomos compreensivas, mesmo ele sendo o cara mais gato e mais popular da escola. Mas cara, aquele ali é Dougie Poynter! O Mr. Fit, o cara mais gato que eu já vi e provavelmente verei na minha vida! - disse , quase desesperada. Eu respirei fundo.
- Vocês sabem por quê eu dei um fora no Bass, não sabem? - eu perguntei e respondeu.
- Porque você o achava um idiota fútil que só queria aumentar a listinha de conquistas dele.
- Isso mesmo, . E pra mim, o Poynter é igual, com a diferença de, erm, ser um pouco mais bonito. - eu disse, e bufou.
- Como você pode saber? Você o conhece há duas horas e NUNCA conversou com ele! Além do mais, ele é Dougie Poynter, vale até a pena ser chutada por ele só pra poder pegar naquela bunda!
Eu arqueei as sobrancelhas.
- Eu vou fingir que não ouvi isso, ok ? - ela revirou os olhos - Vocês me conhecem, sabem que eu não ficaria com um cara que só quer provar pra todos que é pegador, e a impressão que eu tive foi de que o Poynter é exatamente assim. Dá só uma olhada, todas as meninas da escola babam por ele quando ele passa, tenho certeza que todas as mais ajeitadinhas já passaram pelas mãos dele.

As três consideraram a questão, mas mesmo assim não desistiram.
- Tudo bem então, faça como quiser. Mas já estamos avisando, nenhuma garota do mundo jamais desprezou Dougie Poynter. - disse . Eu sorri marota.
- Pra tudo há uma primeira vez. - eu disse, e elas bufaram. Não me aguentei e ri, quando o professor entrou na sala.
- Bom dia! Espero que tenham tido ótimas férias e estejam prontos pra começar de novo! - poucos alunos responderam, mas o professor nem ligou - Bom, esse ano a escola adotou um novo esquema para as duplas do laboratório de Química. Elas serão sorteadas e mistas.
Todas as pessoas da sala começaram a reclamar, mas o professor voltou a falar.
- Por favor, não me matem, mas são regras da escola. Portanto, eu coloquei os nomes de todos os garotos da sala nessa urna, e as garotas, de uma em uma, virão aqui e pegarão um papelzinho. - ele disse, e a feição das garotas mudou completamente. Tenho certeza que todas elas estavam contando com a possibilidade de sortearem o Poynter como dupla. Patético, dude! Eu olhei discretamente pra trás, e o vi junto com o Fletcher em uma bancada, rindo e passando a mão pelos cabelos, enquanto as garotas que estavam perto babavam por ele. Revirei os olhos. Quanta garota carente nesse lugar, meu Deus. O professor começou a chamar as garotas, e não importava quem elas tiravam, todas ficavam decepcionadas em não ver Dougie Poynter escrito em seus papéis. já tinha sido chamada, e havia tirado o Judd. Ela até que gostou, sabe, o Judd é até gente boa. Além de ser gato e gostoso, mas isso a gente abafa. Eu sempre achei que ela tinha uma quedinha por ele, mas ela sempre negava. Veremos então. Logo o professor me chamou, e eu me levantei indo até a frente da sala.

****

Eu ria das idiotices que os dudes falavam, mas não pude deixar de me sentir incomodado. Fala sério, eu dou o meu melhor sorriso pra garota e ela simplesmente dá um risinho sem graça e se vira? De boa, tô começando a me irritar. Quem ela pensa que é pra me desprezar desse jeito? NINGUÉM despreza Dougie Poynter. Mas se ela tava achando que ia ser fácil assim, coitada. Porque sabem, Dougie Poynter adora um desafio. Principalmente quando esse desafio inclui uma garota linda e gostosa como a . Ela pode ter me irritado, mas eu assumo que ela é muito gostosa. Assisti-a ser chamada pra pegar o papelzinho lá na frente, e cara, o que era aquilo. Todos os caras da sala olhavam pra ela, ansiosos pra serem o nome que ela sortearia. O silêncio na sala era incrível, e eu me recostei na parede atrás de mim, inclinando-me pro corredor, pra poder ver tudo perfeitamente. Ela subiu no baixo palco onde ficava a mesa do professor e tirou um papelzinho, abrindo-o em seguida. Logo depois, num tempo que ela deveria ter lido o nome algumas vezes pra ter certeza, ela deu um pequeno sorriso incrédulo e irônico e colocou o papelzinho com tudo na mesa do professor.

- Dougie Poynter. - ela disse, enquanto voltava para seu lugar, revirando os olhos. O murmurinho na sala foi incontido, todos os caras comentavam indignados da minha sorte e todas as garotas comentavam irritadas com a sorte dela. Eu inclinei a cabeça pra trás, rindo, enquanto os guys me olhavam incrédulos.
- Você é o cara mais sortudo da face da Terra, Poynter! - disse Danny, com os olhos arregalados.
- Não acredito que ela te tirou! - comentou Harry, com a mesma feição.
- Qualé Judd, eu sei que você adorou ter tirado a . - eu comentei, tentando disfarçar o triunfo que sentia. Agora eu seria obrigado a passar duas aulas por semana ao lado dela, e isso seria muito útil pro meu plano de conquista.
- Não nego, mas ela é ! - o Harry disse, assim que a tirava o Danny. Mais algumas garotas e por último a , que tirou o Fletcher. O professor guardou a caixinha com os nomes e disse:
- Agora os senhores façam o favor de irem cada um a seu par.
Eu sorri triunfante e me levantei, sendo observado por todos na sala. As garotas com raiva, os garotos com inveja. Encontrei com a no caminho, que havia feito o favor de ceder seu lugar pra mim na bancada, indo até a bancada onde eu estava, encontrando com Tom. Cheguei à bancada e estava sentada, indiferente, anotando alguma coisa no caderno. Sentei ao seu lado e não pude deixar de observar as pernas dela. Meu São Jorge, o que era aquilo? A saia quase curta deixava boa parte de suas coxas à mostra, dobradas de uma forma que as fazia parecer ainda mais apetitosas. Minha mão coçou, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, eu ouvi a voz dela dizer, sem tirar os olhos do caderno:

- Perdeu alguma coisa nas minhas coxas, Poynter?
Eu fiquei de cara, juro. Ela não havia olhado pra mim até agora e não sei como percebeu que eu estava olhando. Qualé, qualquer garota adoraria que eu olhasse pra suas coxas, do que ela estava reclamando?
- Não, só as estava admirando mesmo. - eu disse, apoiando meus cotovelos sobre o balcão e olhando pra frente. Ela pareceu surpresa com a minha resposta, e eu pude senti-la levantar seus olhos pra mim pela primeira vez.
- Você é bem direto, não? - ela perguntou, se inclinando sobre o balcão e olhando pra frente da mesma forma que eu estava.
- Sempre me disseram que sinceridade é uma virtude. - eu comentei, sem me mexer. Ouvi uma baixa risada dela, e ela logo retrucou.
- Não acho que você seja muito sincero quando diz para as garotas que as ama só pra levá-las pra cama. - me virei pra ela, que continuava de perfil, e arqueei as sobrancelhas.
- Eu nunca disse a uma garota que a amava. - eu respondi, e ela olhou pra mim - Nunca foi necessário apelar. É sempre mais fácil do que isso.
Ela arqueou as finas sobrancelhas e sorriu maldosa.
- Tão cafajeste quanto eu imaginava. - ela disse, como que me provocando. Eu cheguei meu rosto perto do dela, que não se sentiu nem um pouco intimidada. Sorri de lado.
- Tão supostamente intocável quanto eu imaginava.
- Supostamente? - ela perguntou, irredutível.
- Sim. Porque eu aposto que tem muito mais aí dentro do que essa pose de santinha que você mostra.
Ela sorriu irônica, e eu sorri triunfante.
- Você não me conhece, Poynter. - ela disse, chegando ainda mais perto de mim. Acho que nunca fiquei tão perto de uma garota linda sem beijá-la, nossa.
- Eu não preciso te conhecer pra perceber que você se sente superior a tudo e todos. - eu disse, num tom calmo, e ela pareceu surpresa pela minha ousadia.
- Eu posso não ser superior a todos, mas eu não preciso te conhecer pra perceber que sou superior a você. - ela disse, também num tom super calmo. Eu sorri e retruquei.
- Não se iluda, . Você não sabe com quem está brincando.
Ela me encarou em silêncio por alguns segundos, e chegando mais perto, fazendo nossos narizes quase se tocarem, ela sussurrou:
- Pois você não sabe como eu adoro brincar.

Eu não pude evitar em sorrir abertamente. A garota era linda, gostosa, tinha personalidade e ainda falava daquele jeito? Morri dude. Ela também sorriu e voltamos a nossas posições quando o professor voltou a falar. Não trocamos mais nenhuma palavra naquela aula, que era teórica, mas eu não podia evitar olhar de canto pra ela, assim como eu sabia que ela também estava fazendo de vez em quando. Garotinha atrevida, essa. Mas sabe, vai ser divertido conquistá-la, pra mostrar pra ela de uma vez que quem manda nesse lugar é Dougie Poynter. E ela vai aprender, ah se vai.

****

Tenho que assumir que fiquei surpresa com as atitudes do Poynter. Na boa, eu achava que ele ia gaguejar e negar até a morte estar olhando pras minhas coxas, fingindo respeito, como qualquer outro garoto faria. Mas não, ele já começou me enfrentando. Não que isso seja bom, mas pelo menos ele é menos falso do que aquele idiota do Bass, que vinha se gabando das posses dele achando que eu ia ficar com ele por saber que ele é rico. O Poynter pelo menos tinha argumentos, mesmo que esses argumentos fossem os mais presunçosos possíveis. Sério, ele se acha dono do lugar, e isso me irrita profundamente. E o pior é que só de olhar pela sala dá pra perceber que todo mundo ali concordava com ele. Ele era o rei, os outros eram os súditos. Olhei de leve para o lado e nossos olhares se encontraram, e ele deu um belo sorrisinho com o canto da boca, exalando superioridade. Juro que eu podia vê-lo falando 'Não se meta com Dougie Poynter se não quiser se machucar, garota' só com aquele olhar. Eu retribui o sorriso irônico. Se ele pensava que eu ia ser o bobo da corte do reininho dele, ele estava redondamente enganado. O sinal do término da aula tocou, e eu respirei aliviada. Afinal, só teríamos aula no laboratório na sexta feira, e até então eu poderia evitá-lo. Mas o que aconteceu a seguir me fez ter certeza de que ele não deixaria isso acontecer.

- Nos vemos por aí, . - ele disse, com uma voz muito sexy. Eu olhei para ele e sorri muito forçado, pra ele perceber que não estava nem um pouco animada com a idéia. Ele riu e segurou o meu rosto, me dando um beijo rápido na trave. Isso mesmo, bem no cantinho da boca. Eu gelei, e quando vi ele já estava na porta da sala com os amigos. Cara, como esse moleque é abusado! Quem ele pensa que é pra discutir comigo do jeito mais cínico possível e ainda me dar um beijo na trave? Eu revirei os olhos, colocando minhas coisas na mochila e saindo com as garotas, tentando não demonstrar meu ódio. Porque se elas reparassem eu teria que contar, e elas me chamariam de louca por estar brava por um motivo tão 'perfeito' quanto aquele. Ninguém merece!

Capítulo 3 - And the Battle Begins.

A semana passou sem maiores emoções, o que foi muito bom, acredite. O Poynter não ficou de frescura pra cima de mim, a não ser quando nos encontrávamos no corredor, o que infelizmente acontecia com frequência. Ele sempre mandava aqueles sorrisos irônicos de parar o trânsito, pra ser bem honesta, mas eu estou acima disso. Não é um sorrisinho idiota que vai me fazer abaixar a cabeça pra aquele garoto. Cheguei não muito animada na aula naquele dia, e sabe por quê? Porque era sexta feira, e nas sextas feiras eu tenho aula de química. No laboratório. Com o meu querido parceiro, Dougie Poynter. Tentei não sofrer com antecedência, até porque eu estava bastante nervosa quanto a um trabalho que o professor havia pedido na primeira aula, naquela desastrosa segunda feira. Eu havia passado os dois últimos dias inteiros pesquisando pra fazer um trabalho perfeito, e pode crer que consegui. Me orgulhei daquilo, dude, 6 páginas de explicações detalhadas sobre o tema. Com certeza o Mr. Collins ia pirar ao ver aquilo! O trabalho podia ser feito com o companheiro de laboratório ou individual, e não precisa nem perguntar o que eu escolhi, né? Até parece mesmo que eu ia dar duro daquele jeito pra dividir a minha nota com o Poynter. Ele provavelmente nem havia feito o trabalho, e eu não estava nem aí. Ele que se ferrasse. Fui até o corredor dos armários e, chegando lá, toda a minha política de ‘não sofrer com antecedência’ foi por água a baixo. Eu já comentei que o meu armário fica exatamente ao lado do armário daquela vadia oxigenada da Olívia Grant? Pois é, ele fica, olha só a minha sorte. Eu odiava encontrar com ela lá, porque ela sempre vinha com aquelas provocações sem o mínimo conteúdo junto com suas amiguinhas líderes de torcida e eu tinha que tentar responder à altura dela, já que a maioria das respostas que eu dava ela não entendia. Cara, aquela menina é burra, na boa. Eu teria até dó dela se ela não fosse tão patética. Enfim, ela estava lá, na frente do armário dela. E sabe quem estava com ela? Com uma das mãos se apoiando no MEU armário enquanto a prensava de leve, falando alguma coisa provavelmente pervertida pra ela, enquanto ela segurava a camisa dele e ria, mordendo os lábios? Ele mesmo, o idiota do Poynter. Na boa, aquela cena me deu nojo. Já tinha visto os dois juntos, mas só agora estava mesmo reparando. Eles faziam até que um belo casal, me lembravam muito da Barbie e do Ken, com a diferença de que e Barbie não era uma vadia e o Ken não era um cafajeste. A vivia dizendo que ‘eu não podia dizer nada porque nem conhecia o garoto’, mas vocês entenderiam se estivessem no meu lugar. O Poynter é exatamente do tipo mais irritante de garoto, que é tão confiante que não liga pra mais nada além de aumentar sua popularidade. E garotos assim podem agradar às outras garotas, mas definitivamente não a mim. Acabei com os meus devaneios e fui até o meu armário, e consequentemente até o casal-plástico. Tentei abrí-lo, mas a mão do Poynter estava exatamente no meio da porta, o que tornava tudo mais difícil. Eles não pareciam ter me visto. Empinei o máximo que pude o nariz e fiz a maior cara de ódio que consegui.

- Caham. – eu pigarreei, fazendo os dois olharem pra mim. O sorriso de Olívia morreu, mas o do Poynter continuou intacto.
- Não enche, . – ela disse, com a maior cara de desgosto que conseguiu fazer. Poynter ignorou-a totalmente, o que me fez rir por dentro.
- Que cara é essa, ? Isso tudo é inveja? – ele perguntou, todo prepotente. Eu revirei os olhos.
- Nos seus sonhos, Poynter. – eu disse, no mesmo tom, e ele arqueou as sobrancelhas, parecendo não acreditar na minha resposta. Como eu adorava irritá-lo!
- Não liga pra ela, bebê. Ela não passa de uma idiota sem noção de moda. – a nojentinha disse, tentando atrair a atenção de Poynter. Ele ia falar alguma coisa, mas eu fui mais rápida. Aquela ridícula provocava, e eu não podia deixar ela sair por cima.
- Olha aqui, Grant, nós temos concepções muito diferentes do que é senso de moda. Eu prefiro andar vestida, o que não parece que você gosta de fazer né? – eu disse, me referindo à roupa dela. A blusa com uns trinta botões abertos, mostrando o começo do sutiã vermelho. A saia já quase não existia, e ela empinava os peitos pra eles parecerem maiores. Ela fez uma cara de ofendida. – Então aprenda a só falar quando tiver algo de útil a acrescentar, o que eu não sei muito bem se é possível, vindo de você.
Ela ficou paralisada, e eu pude perceber o Poynter segurando o riso. Ela olhou pra ele, como que esperando que ele a defendesse, mas ele olhava para o teto, ainda segurando o riso. Eu dei um sorrisinho pra ela e me virei pro Poynter.
- Olha aqui, querido, será que dá pra tirar a sua mão do meu armário? Quem sabe assim eu possa pegar meus livros e poupar os meus olhos de tal visão. – eu disse, e ele me encarou com aquele mesmo sorriso petulante.

- Você é extremamente irritante, sabia ? – ele disse, e eu o encarei firme.
- Não tanto quanto você, Poynter, acredite. Afinal, não sou eu que estou impedindo alguém de abrir seu próprio armário. – eu disse, olhando para sua mão, que continuava tão firme no meu armário quanto antes – Então, você pode ser pelo menos uma vez um cavalheiro e tirar suas mãos do meu armário?
Ele pensou um pouco e arqueou as sobrancelhas.
- E se eu não quiser? O que você vai fazer? – ele perguntou, desafiador. Nós nos encaramos por longos segundos, mesmo com as fortes tentativas de Olívia para chamar a atenção do Poynter. Eu sorri maldosa.
- Isso.
Ele caiu no chão com tudo. Isso mesmo, porque assim que terminei de falar abri meu armário com toda a força que pude. A porta bateu com tudo na testa dele e ele foi pro chão. Eu peguei meus livros tranquilamente, colocando meu trabalho com todo o cuidado do mundo ali, já que química era apenas a última aula, enquanto ouvia a voz do Poynter me chamando de louca e a voz de Olívia falando coisas idiotas como ‘Bebê, você está bem?’ ou ‘AI MEU DEUS, ESSA LOUCA QUEBROU MINHA UNHA!’. Ri de leve, fechei meu armário e saí andando, passando por cima de Poynter, que continuava caindo no chão, reclamando de dor e me xingando de todos os jeitos possíveis. Todas as garotas ali presentes pareciam querer me matar por ter feito aquilo, mas eu não estava nem aí. Fui tranquilamente até a minha sala de Geografia, deixando o idiota lá, com a namoradinha burra. Já tava na hora dele aprender que em mim ele não manda.

****

Puta que pariu, aquilo doeu pra cacete! De boa, eu achei que a minha testa ia rachar naquele momento. E os gritos da Olívia sobre suas próprias unhas já estavam me irritando. Aquela louca da tava ficando ainda mais louca, só pode. Ela quase me matou, cara! Toda a escola estava lá, olhando meu momento ridículo, e o meu ódio por aquela garota inflou. Ah, ela ia me pagar! Quando minha visão deixou de ficar turva, eu levantei do chão e tentei acalmar a Olívia, enquanto sinal tocava e o corredor ia se esvaziando aos poucos.
- Bebê, você ta bem? Ta doendo sua cabecinha? Ai meu Deus, não acredito que aquela ridícula teve coragem de fazer aquilo! Ela podia ter deformado o seu rostinho perfeito! – ela começou a falar, e eu nem me dei ao trabalho de responder. A Olívia me irritava às vezes. Na verdade ela só servia pra dar uns pegas, porque ela era mais burra que uma porta, honestamente. Mas é claro que ela não sabia que eu achava isso, portanto ficava quase se matando por mim. Abri a porta do armário dela e me olhei em um grande espelho que havia lá. Beleza, o lado esquerdo da minha testa estava extremamente vermelho, saindo um pouco de sangue e inchado. Aquilo era um insulto à minha beleza, que absurdo velho! Bati a porta do armário dela e fui andando em direção à enfermaria. Eu PRECISAVA dar um jeito naquilo, não podia mostrar pra todos na escola que a havia conseguido algo contra mim. E vi a Olívia me seguindo.
- Onde você vai? – eu perguntei, indiferente. Eu tava muito puto, muito MESMO, e não tava com saco pra aguentar aquela garota.
- Vou te levar na enfermaria, oras! – ela disse, quase correndo, tentando me acompanhar em cima do enorme salto. Revirei os olhos.
- Olívia, eu consigo andar, não preciso que você me leve. – ela ia falar alguma coisa, mas eu cortei – Anda, vai pra aula agora.
Ela pensou por um segundo e assentiu.
- É, é melhor eu dar um jeito na minha unha logo, antes que não tenha mais conserto! – ela disse, me dando um selinho e saindo de lá, muito concentrada na própria unha. Revirei os olhos mais uma vez e fui para a enfermaria, em meio a um corredor vazio. Fiquei lá por uns bons 15 minutos, enquanto a enfermeira passava mil pomadas que faziam aquele troço arder mais ainda. Cara, tava doendo muito, de boa! Depois dela muito massagear e ficar me pressionando pra contar o que tinha acontecido, o que eu não fiz, o machucado até que pareceu um pouco menor, e ela colocou um pequeno curativo branco no lugar. Ótimo, agora eu ia sair no colégio e todos iam comentar mais ainda, o que com certeza eles já estavam fazendo. Saí da enfermaria ainda com um pouco de dor na testa e andei pelos corredores vazios do colégio. Ia ter que esperar a próxima aula pra entrar na sala, então fiquei lá, andando que nem uma barata tonta, pensando em como me vingar da , mas nada de muito original me veio à cabeça. Claro, eu deveria ter perdido uns 10 pontos de QI só naquela batida maldita, e ela precisava me pagar por isso. Passei pelo armário dela mais uma vez, e uma idéia súbita me veio na cabeça. Sorri maldoso e corri de volta pelo caminho que havia feito antes. Ela ia se arrepender por ter mexido com Dougie Poynter, ah se ia.

****

Tive duas aulas seguidas de Física, o que foi um porre. Ainda mais porque eu estava sozinha na aula, e cara, todo mundo me olhava como se eu fosse um et. Quer dizer, todas as meninas, pois alguns meninos pareciam até estar felizes pelo que eu havia feito. Anyway, eu fiquei lá, fazendo desenhinhos no caderno enquanto o professor explicava, explicava e explicava. Como eu odeio física, mano! O sinal finalmente tocou e eu saí da sala toda animada, afinal, agora era aula de Química, e eu queria muito ver a cara do professor com o meu trabalho, e quem sabe poder esfregar o mesmo na cara do Poynter. Fui andando tranquilamente quando , e apareceram quase bravas.

- É verdade que você quase desfigurou o Poynter? – perguntou , e as outras duas estranharam.
- Perai, eu ouvi que você tinha deixado o Poynter aleijado! – disse , com uma sobrancelha arqueada.
- E eu ouvi que você tinha quebrado o braço dele com um livro de História. – disse, e eu ri.
- Gosh, como as pessoas aumentam as coisas nesse lugar! – eu disse – Eu só fiz um machucadinho na testa dele, nada que em uma semana não tenha sumido! Quer dizer, o machucado vai sumir, mas eu nunca vou me esquecer de como foi bom.
Fiz uma cara de contentamento extremo, e elas me olharam assustadas.
- Como você machuca o rosto do cara mais lindo do mundo e fica se vangloriando? – perguntou , quando o sinal tocou. Disse que depois explicava e saí correndo atrás do meu armário, pra pegar o meu lindo trabalhinho. Mas adivinha só? Ele não estava lá. Juro, eu tinha deixado ele bonitinho lá dentro, mas ele NÃO ESTAVA LÁ. Quase surtei, cara! Revirei o armário, mas não achei nada. Comecei a ficar desesperada. Dois dias de pesquisa intensa não valeram de nada? Fiquei muito puta, mas tive que ir pra sala de qualquer jeito, afinal o sinal já tinha tocado. Mas cara, ONDE ESTAVA meu trabalho? Ele não podia ter criado perninhas e saído correndo, isso é certeza. Quando cheguei na sala vi o Mr. Collins sentado na mesa, organizando uma pilha de trabalhos, e engoli em seco. O jeito era contar pra ele e esperar que ele acreditasse. Eu sempre fui ótima aluna, ele TINHA que acreditar em mim.
- Erm, Mr. Collins? – ele me olhou com aquela cara de fugitivo do hospício, natural dele – Houve um problema com meu trabalho.
Ele assentiu.
- Mr. Poynter já falou comigo sobre ele. – ele disse simplesmente, e eu demorei um tempinho pra me situar. O Poynter havia falado com Mr. Collins sobre o MEU trabalho? Olhei pra primeira bancada da fileira da esquerda, e lá estava aquele maldito, com um curativo pequeno na testa, mas nem por isso deixando de sorrir triunfante. Olhei mais uma vez para Mr. Collins, e vi que ele segurava o meu trabalho. Isso mesmo, o MEU trabalho estava ali, e qual nome estava na capa? Dougie Poynter, claro. Como eu não havia pensado antes? Aquele assaltante juvenil roubou o meu trabalho e o entregou como sendo DELE! Ridículo, nojento, PATÉTICO.
- Falou? – eu perguntei, sem saber o que fazer, me segurando pra não ir até a bancada e enforcar o Poynter. O Mr. Collins tirou os óculos e me olhou quase que com pena.
- Sim, querida. Ele me explicou que você teve um surto nervoso essa semana e não teve condições de fazer o trabalho. Normalmente isso não valeria como desculpa e você tiraria zero, mas como você é uma boa aluna eu vou aceitar a proposta que ele me fez.
- Proposta? – eu perguntei, cada vez mais confusa. Ele pareceu estranhar, mas não disse nada. Claro, deveria estar com medo dos meus ‘surtos nervosos’. Não acredito que o Poynter inventou tal coisa.
- Sim senhorita. – o professor continuou – Ele gentilmente sugeriu que seu nome fosse inserido no trabalho dele, portanto você terá direito a metade da nota que ele tirará, já que ele o fez sozinho. Mas fique tranquila, o trabalho dele está tão bom que provavelmente tirará dez, então a senhorita ainda poderá se recuperar facilmente.
Eu respirei fundo, meu rosto deveria estar mais vermelho que um pimentão. Aquele maldito havia armado tudo pra me ferrar nesse trabalho! E além de tudo, ele ficou com todo o crédito pelo trabalho incrível e eu fiquei como a-aluna-com-surtos-psicóticos. Eu dei um sorrisinho e fui saindo, não antes de ouvir Mr. Collins dizer:
- Você deveria agradecer, tem um parceiro muito generoso.
Cerrei os pulsos e fui assim até a bancada, onde o falso do Poynter estava sentado, todo felizinho, com aquele sorriso estúpido no rosto.

- Agora deu pra assaltar armários, é Poynter? Sempre achei que você tinha cara de delinquente. – eu falei, me sentando ao lado dele e fazendo uma força sobre-humana pra não acertar um soco na fuça dele.
- 123456, ? Senha criativa. – ele perguntou, me ignorando totalmente.
- Como você sabe a minha senha? – eu perguntei, e ele deu de ombros.
- Tenho minhas fontes.
Eu bufei, olhando o mais cortante que consegui.
- Eu gastei duas tardes inteiras fazendo aquilo, Poynter. Por que você roubou? – eu perguntei, e ele riu incrédulo.
- Você realmente não sabe, ? Vingança. – ele disse, apontando com os olhos para a testa dele, que estava um pouco inchada mesmo com o curativo. Realmente, tinha causado mais impacto do que eu esperava, mas de qualquer jeito ele não podia ter roubado o meu trabalho! – E não reclama, vai, eu ainda fui legal com você, pedi pro professor te dar um pedaço da nota.
Eu respirei fundo, tentando me acalmar. Não podia demonstrar que ele mexia com o meu emocional.
- Metade da nota? Realmente, vai mudar a minha vida. – eu disse, apoiando meus cotovelos na bancada e enterrando meu rosto nas minhas mãos, frustrada. Eu realmente tinha botado muita expectativa nesse trabalho. Respirei o mais fundo que pude, não podia dar sinal disso pro Poynter. Não mesmo. Fiquei assim por um tempo, até que ouvi a voz dele:
- Você é inteligente, vai recuperar rapidinho a nota.

Levantei minha cabeça e olhei pra ele, que rodava uma caneta nos dedos, olhando pra baixo. Pela primeira vez vi o Poynter sem seus sorrisos irônicos, parado lá, pensando. E juro que foi uma coisa bem estranha não vê-lo se gabando de ser bonito e popular. Por um instante cheguei a pensar sentir algum remorso na expressão dele, mas assim que o professor deu sinal de começar a aula, ele endireitou-se na cadeira, voltando com sua expressão normal. Esqueci da pequena divagação sobre ele e comecei a prestar atenção na aula, onde Mr. Collins explicava sobre uma tal experiência que deveríamos fazer.

****

Juro que senti uma pontinha bem pequenininha de remorso quando vi aquele rostinho lindo parecendo tão triste. Tá, que frase mais piegas. Mas eu já disse que ela é linda, e me pareceu tão decepcionada por causa do tal trabalho... Anyway, eu não podia me desculpar, e nem queria, afinal foi ela quem começou. Mr. Collins começou a aula e ela pareceu esquecer do assunto, assim como eu. Após alguns minutos de explicações sobre uma tal experiência, todos nós colocamos aqueles jalecos engraçados de químicos, luvas e pegamos tudo que precisávamos. Não era nada de mais, ele só queria que destilássemos água. Em cada bancada havia um daqueles aparelhos muito loucos pra podermos fazer tudo direito, e fomos começar. Coloquei a água com o sal misturados na plataformazinha em cima do fogareiro, e o acendeu e foi controlar a temperatura. Acontece que ela tava tremendo um pouco, então não tava dando certo.
- , se você continuar girando tão rápido daqui a pouco não tem mais nada aí dentro! – eu disse, e ela tentou girar a rodinha lateral que aumentava o fogo mais devagar, mas não conseguiu. Cocei a cabeça pensando, e fui até ela.
- Olha, faz assim. – eu disse, me debruçando atrás dela, me apoiando com a mão esquerda na bancada e colocando a minha mão direita em cima da dela, fazendo com que ela girasse bem lentamente a rodinha. Juro que estava tão concentrado na experiência que só depois de ter feito isso foi que eu percebi que estava praticamente abraçando-a por trás. Isso mesmo, eu tava encochando a garota, pra ser mais explícito. Nós ficamos lá, girando aquela rodinha idiota, que nunca chegava ao 100º, e me obrigava a sentir o cheiro inebriante do cabelo dela. Senti pelas costas dela, que estavam grudadas no meu peito, que ela respirava fundo, e não falava nada, muito menos eu. Não havia o que falar naquele momento, estava me sentindo estranho. Uma estranheza boa, se quer saber. Só sei que eu esqueci de tudo em minha volta, até que ouvi a voz dela.
- Tem alguma coisa vibrando no seu bolso, Poynter, e eu sinceramente espero que seja seu celular.

Eu demorei um pouco pra perceber tudo, e logo larguei a garota, tirando meu celular do bolso, que realmente vibrava, e me sentei no meu lugar de origem, enquanto ela ria um pouco, finalmente largando a rodinha e assistindo a água evaporar aos poucos para dentro do tubo que levava a um novo recipiente. Era uma mensagem da Olívia.
‘Tá melhor, bebê? Bem que você podia ir à minha casa a hoje à tarde, né? Tô com muita saudade de você. xoxo, Oli.’
Não pude evitar de rir um pouco. A Olívia podia ser a garota mais desejada do colégio, mas desde que a gente transou pela primeira vez ela parecia viciada em mim, cara! Claro, eu sou muito bom de cama, COF COF, mas às vezes ela exagerava, querendo inventar coisas novas e tals. E cara, do jeito que ela falava com certeza tinha algo planejado pra hoje. Não me esqueço da vez que ela colocou um daqueles espartilhos do século XIX e ficou completamente sem ar de tanto apertar a barriga. Ela quase surtou de me ver rindo. Mas cara, que foi engraçado foi.
- Poynter, me ajuda com a temperatura também? - uma garota esquisitinha perguntou pra mim, toda oferecida. Arqueei as sobrancelhas e olhei pra , que segurava o riso. Deixei meu celular em cima da bancada e fui ajudar a garota, né, não é culpa dela se o maior loser da sala caiu como parceiro dela de laboratório. Ela ficou toda animadinha, achando que eu ia fazer como fiz com a . Credo, essas meninas me dão medo de vez em quando.

****

Fiz o maior esforço que pude pra não me arrepiar sentindo o corpo do Poynter encaixado no meu enquanto cuidávamos da temperatura do negócio. Dei graças a Deus quando o celular dele começou a vibrar e ele se separou de mim. Observei-o de canto o tempo todo, e pude vê-lo rir de leve de alguma mensagem que havia chegado, e depois uma garota esquisita de trança chegar e pedir pra ele ajuda-la na experiência. Eu ri da cara que ele fez. Ele se gaba tanto de ser Dougie Poynter, deveria estar acostumado como assédio das garotas esquisitas. Ele foi até a bancada da garota e deixou o celular ali, do meu lado, com a tal mensagem aberta. Juro que não queria, mas a curiosidade foi mais forte que eu. Olhei para ele, que estava tentando fugir dos braços da garota, e peguei o celular, vendo uma mensagem da Olívia. Revirei os olhos, ela era realmente MUITO tosca. Pensei por um instante, e não resisti. Fui até Responder Mensagem e mandei uma básica resposta pra ela. Certifiquei-me de que ela havia sido enviada e coloquei o celular onde ele estava antes, bem a tempo do Poynter voltar.
- Como é chato ser gostoso. – ele disse, e eu não pude evitar de rir. Ele me olhou estranho por eu ter achado graça, guardou o celular no bolso e começou a fazer anotações sobre a experiência. Qualé, eu estava me sentindo MUITO bem por ter me vingado de volta do Poynter, que qualquer coisa que ele falasse eu ia achar graça. Ficamos mais um tempo na aula, até que ela acabou. Entregamos a água destilada para o professor, dei tchau para o Poynter e segui para fora da sala, animada. Apesar de tudo, o dia não tinha sido tão ruim assim.

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Estranhei demais a ter rido do meu comentário. Eu esperava que ela me xingasse de fútil e metido e ficasse sem olhar na minha cara pro resto da aula, mas não, ela RIU. O mundo está estranho, oi. Mais algum tempo e a aula acabou, e ela saiu toda feliz, dando tchau pra mim e tudo! Será que foi tudo pela minha inclinação ao ajudá-la na experiência? Hehe, eu sei que sou irresistível. Peguei minhas coisas e fui pra fora da sala junto com os caras, que pareciam super animados com suas parceiras na aula. Fomos até o estacionamento, onde o carro do Harry tava estacionado, conversando sobre coisas idiotas, quando eu vejo Olívia chorando vindo em minha direção. Os caras me olharam, mas eu, pela primeira vez, realmente não sabia o que estava acontecendo.

- Você é um idiota, Dougie Poynter! – ela falou, tentando me empurrar, junto com suas amigas líderes de torcida que a apoiavam. Arqueei as sobrancelhas.
- Do que você está falando? – perguntei, e ela chorou mais ainda. Sério, a cena estava bizarra! A nossa sorte é que não havia quase mais ninguém no estacionamento.
- Eu mando uma mensagem linda e fofa pra você e você me responde daquele jeito? – ela disse, tentando arrumar a maquiagem que borrava com as lágrimas. Juro que não entendi. Eu nem havia respondido a mensagem dela!
- Mas eu não... – eu comecei, e então me lembrei de tudo. O celular toca, eu o deixo em cima do balcão, quando volto subitamente fica de bom humor. Era ÓBVIO.
- Não tente se explicar, não quero ouvir mais nada! – ela disse, fazendo cara de indignada. Mas no fundo eu sabia que ela só queria é que eu pedisse pra ela não ficar brava comigo. O que eu não fiz.
- Tudo bem então, faça como quiser. – eu disse, dando de ombros. Ela bufou e saiu andando em direção à escola, enquanto todas as outras garotas corriam atrás dela tentando consolá-la. Peguei meu celular e fui até as mensagens enviadas. E adivinha o que eu encontrei?
‘Pra falar a verdade tô muito bem sim. Tão bem que não quero estragar meu dia vendo a sua cara de vadia, ok? Então me deixa em paz, garota. DP.’
Sério, eu não sabia se tinha um ataque de riso ou se morria de raiva da . Aquela garota tinha respondido a mensagem, e não era de se espantar que a Olívia fizesse um escândalo. Revirei os olhos e entrei no carro do Harry, enquanto eles faziam mil perguntas sobre o que havia acontecido ali.
- Você tá dizendo que a respondeu a mensagem de Olívia pra se vingar de você? – concluiu Tom, e eu assenti. Ela era realmente muito esperta. Acontece que eu também sou, então ela não devia se vangloriar.
- Isso mesmo, Tom. – eu disse, simplesmente, enquanto eles continuavam analisando a situação.
- Cara, ela foi muito malvada. A uma hora dessas a Olívia deve estar se descabelando de desespero por ter perdido Dougie Poynter! E você nem pra inventar uma desculpa, né Dougie? – perguntou Danny, rindo, e eu dei de ombros. Eles estranharam.
- Uma das gatas mais gostosas do colégio briga com você e você não faz nada pra reverter a situação? – perguntou Harry, assustado. Eu ri.
- A Olívia é muito gostosa, mas também é chata que dói. Quando eu tiver a fim, eu chego nela de novo e eu tenho certeza que ela não vai negar. – eu comentei, e eles deram de ombros, pois sabiam que não tinham mais do que reclamar. A Olívia era assim, já havia acontecido antes. Acontece que nas outras vezes eu sempre dava um jeito de me desculpar logo, mas dessas vez eu realmente não tava com saco de aguentar ela ficando de frescura pra cima de mim. Cansei. Os caras me deixaram em casa e assim que eu entrei, meu pai, que estranhamente estava em casa àquela hora, veio até mim todo animado.

- Preciso falar com você, Dougie! – ele disse, sorrindo. Eu arqueei as sobrancelhas.
- Ganhou na loteria, pai? – perguntei, enquanto ele me levava pra uma das salas da minha casa. Já falei que a minha casa é enorme? Pois é, ela é e-nor-me, se exagero. E eu adoro isso. Ele riu.
- Quase isso, filho! Amanhã nós vamos sair pra jantar. – ele disse, mais animado ainda. Que estranho.
- Tudo bem, mas com quem?
- Com a minha namorada.
Me assustei naquele momento. Meu pai já havia me contado que estava namorando, mas eu nem liguei muito, era sempre assim. Ele namorava por um tempo e logo já estava solteiro de novo. O que mais me espantou foi o fato de ele me convidar pra jantar com ela, afinal ele nunca me apresentou nenhuma das namoradas. E nunca pareceu tão alegre ao falar de nenhuma delas.
- Por que isso? – eu perguntei, confuso, mas ele era só sorrisos.
- Oras, quero que você a conheça! Por isso eu já mandei passar seu melhor terno para podermos ir ao Rêver.

Oi, fiquei de cara de novo. Meu pai queria me levar pra conhecer sua namorada no melhor e mais caro restaurante francês de Londres. Isso não é uma coisa que aconteça todo dia, sabe. Porque normalmente as namoradas do meu pai são todas aquelas modelos siliconadas e super gatas, já que ele trabalha no ramo da moda e convive muito com elas. E dude, não se leva uma dessas mulheres no melhor restaurante de Londres, afinal normalmente o que elas querem é subir na carreira. Isso significava que ou aquela era uma modelo MUITO gostosa ou que não era uma modelo. E eu não pude nem perguntar, porque quando vi ele já tinha saído de casa, alienado. Nunca tinha visto meu pai daquele jeito, juro. Dei de ombros e fui até o banheiro do meu quarto dar uma olhada no meu machucado. Ele parecia estar menos inchado, o que era bom, pois assim eu não pareceria um completo idiota no jantar de amanhã. Tirei o curativo e lá estava ele, reluzente. Peguei uma pomada, que a enfermeira havia me dado, e tomei coragem pra passá-la. E quando o fiz, me arrependi amargamente. PQP, COMO AQUELA PORRA DOÍA! Era nessas horas que eu tinha um ódio infinito da . Só precisava arranjar uma forma criativa de me vingar pelo que ela havia feito com a Olívia. Não que eu ligasse muito, mas não podia deixar ela sair por cima. Porque Dougie Poynter sempre sai por cima.

Capítulo 4 – ‘Love can mend your life but love can break your heart.’

Geeeeente, babado! Minha mãe ta apaixonaaaaaaaaaada! Cara, fiquei tão feliz ao vê-la toda animadinha falando do tal Matthew, sem noção. Tipo, eu cheguei em casa e ela não estava lá, como sempre. Mas mais ou menos uma hora depois ela apareceu, não sei como, já que essa hora ela deveria estar trabalhando. Sabe, ela é estilista da Valentino Garavani. Isso mesmo, aquela marca hiper chique de vestidos! Ela desenha roupas e até ajuda nos designs de sapatos, o que é muito legal, pode crer, afinal ela entende tudo de moda e sempre me ajuda quando eu tenho uns surtos de não-saber-o-que-vestir. Anyway, ela chegou toda animada e disse:
- , você precisa de um vestido novo!
Eu não entendi nada, afinal meu armário ta lo-ta-do de vestidos.
- Pra que, mãe? – eu perguntei, e ela riu.
- Porque nós vamos sair pra jantar amanhã no Rêver. Com o Matthew.
Há, estava tudo explicado. Eu não conhecia o tal Matthew ainda, só uma vez que havia falado rapidamente com ele por telefone, quando ele ligou lá em casa. Mas ele deveria ser legal, afinal os olhos da minha querida mãezinha não estariam tão brilhantes se ele não o fosse. Eu concordei e ela pareceu ainda mais elétrica.
- Ótimo. Amanhã você passa na Valentino e escolhe um vestido novo. Já deixei alguns separados pra você. – ela disse, saindo mais uma vez de casa e me deixando lá, falando sozinha. Como ela é fofa, não? Só sei que ela estava visivelmente apaixonada e isso era muito legal. Bom, só espero que esse tal Matthew seja realmente legal e que os dois se amem de verdade. Se for assim, quem sou eu pra ser contra? Deixa mamãe ser feliz, oras. Eu fiquei mais o resto da tarde assistindo TV, ouvindo música, comendo e não fazendo nada. Logo já era noite e eu capotei na cama, de tanto sono. Tinha sido um dia bem turbulento, viu.

Acordei com a minha mãe quase destruindo a minha porta de tanto bater e gritar que já estava tarde. Mas detalhe, o relógio marcava 9 e meia da manhã num SÁBADO, e ela me acorda àquela hora? Fiquei por mais uns 5 minutos na cama, quando ela finalmente entrou no quarto, toda elétrica e brava.
- ! Não acordou ainda por que? Você ainda tem que passar lá na Valentino pra pegar um vestido, anda! – ela disse, tirando as minhas cobertas. Cara, como eu ODEIO quando ela faz isso. Mas tudo bem, eu superei, porque tinha acabado de lembrar o motivo dela estar tão desesperada daquele jeito: o jantar com o Matthew. Claro, ela estava nervosa com o jantar! Mas tipo, nervosa em jantar com o cara que já é namorado dela há um bom tempo? Qualé, minha mãe ta ficando louca, só pode. Anyway, me levantei, coloquei um short, uma regata branca com um all star da mesma cor, prendi meus cabelos em um rabo alto, peguei minha bolsa e meus óculos escuros e saí do quarto, indo até a cozinha, mas só deu tempo de pegar uma maçã e comer no caminho, já que a minha mãe estava me esperando no carro toda alienada. Juro que fiquei assustada, mas não comentei nada. Ela me deixou na porta do shopping, dizendo que tinha um monte de coisas pra resolver e chegaria tarde em casa, e que era pra eu estar pronta às 8 e meia em ponto. Eu falei que tudo bem, que pegava um táxi pra ir pra casa e ela saiu voando com o carro. E algo me dizia que ela não ia pro trabalho. Sei lá, vai entender. Entrei no shopping, que àquela hora estava quase vazio, e fui direto até a Valentino.
- , minha musa! – ouvi o gritinho histérico do Patrick, gerente da loja. Sabe, ele é a bicha mais bicha que eu já vi na minha vida, e tipo, ele é MUITO legal. De boa, ele é super engraçado e sabe tudo sobre moda, então é só eu vir aqui que ele me deixa linda. Ele tava lá, com uma camisa rosa choque e uma calça xadrez, e eu não pude deixar de rir.
- Adorei a roupa, Pat! – eu disse, e ele deu uma voltinha – Bom, minha mãe disse que deixou uns vestidos pra eu escolher aqui, então eu vim dar uma olhada neles.

Ele já saiu correndo pra dentro do estoque da enooooooorme loja e trouxe uma arara com 5 vestidos pendurados. Vesti todos, um mais lindo que o outro, mas um em especial me chamou a atenção. Era roxo tomara-que-caia, meio que apertado ao corpo, e ia até um pouco acima do joelho. Em baixo do busto havia uma faixa preta com um lacinho super fashion. Cara, eu tava hiper gata, oi. Depois de ficar, tipo, meia hora só do Pat arrumando o vestido num cabide e colocando-o dentro de uma capa pra não amassar, e mais alguns longos minutos em que ele ficou falando de como eu tinha ficado bonita e blábláblá, eu consegui sair da loja. Mas mesmo com aquela capa enorme nas mãos, fui dar uma volta no shopping, afinal de que adiantava eu voltar pra casa se ia ficar o resto do dia trancada lá esperando a hora do tal jantar chegar? Fiquei lá, andando que nem uma barata tonta, até que vi uma coisa que me surpreendeu. Um pouco há minha frente havia uma loja de instrumentos musicais, e sabe quem estava lá? Ele mesmo, Dougie Poynter. Ele carregava uma capa mais ou menos como a minha, mas mais volumosa, e observava a vitrine da loja super concentrado. Tão concentrado que não percebeu quando eu cheguei perto e fiquei lá, observando uma guitarra que estava exposta bem na frente. Era muito bonita, realmente. Toda preta, e parecia ser um pouco antiga.
- A primeira guitarra do Andy Summers? Uau, que foda! – eu comentei, lendo uma plaquinha que falava sobre a guitarra. Fiquei olhando pra guitarra enquanto podia sentir que Poynter havia se assustado e me olhado, finalmente percebendo a minha presença.
- Desde quando você sabe quem é Andy Summers, ? – ele perguntou, voltando a olhar pra vitrine, com aquele usual tom de voz.
- Desde que ouvi Message in a Bottle pela primeira vez, e pode crer que isso faz tempo. – eu disse, referindo-me à minha música preferida do The Police. É legal, sabe, adoro essas bandas antigas. E o Poynter também deveria gostar, pelos olhos arregalados que ele tinha quando eu cheguei. Ele riu.
- O que foi? – eu perguntei, enquanto ele limitava-se a rir.
- Acho que foi a primeira garota que eu ouvi dizer conhecer uma banda como The Police. – ele disse, olhando pra mim, e eu olhei pra ele. Mas meu olhar caiu diretamente na testa dele, onde jazia um pequeno curativo branco, contornado por um tom levemente vermelho na pele. Ele pareceu perceber – Orgulhosa do que fez, ?
Eu ri de leve.
- Na verdade, tá pequeno demais. – eu disse, e ele me olhou com raiva. Eu parei de rir – Ok, isso deve ter doído. Mas não espere que eu peça desculpas, porque isso eu não vou fazer.
Ele voltou com a sua fisionomia sedutora-e-manipuladora de sempre.
- Como você é orgulhosa, . – ele disse simplesmente. Eu arqueei as sobrancelhas.
- Eu não sou o senhor Dougie-oi-eu-sou-foda-Poynter, obrigada. – eu disse, e ele me encarou firme.
- Pode não ser, mas é a senhora -eu-sou-mal-amada-, e ela sim é bastante orgulhosa. – ele disse, e eu não pude esconder minha raiva. Quem ele era pra me chamar de MAL AMADA? Desculpem o vocabulário, mas que filho da puta! Me segurei pra não esmagar aquela cabecinha oca dele, o que tem acontecido bastante ultimamente, e falei:
- Você é um estúpido, Poynter!
Ele arqueou as sobrancelhas.
- Obrigado, . O mesmo pra você.
Que ódio, que ódio, QUE ÓDIO! Eu olhei com o maior ódio que consegui e me virei, saindo de perto daquele ridículo. Vai que estupidez pega, né?

****

Cara, como eu adorava provocar a ! Na boa, é muito legal! Mesmo quando você acorda dez horas da manhã num sábado com o seu pai gritando seu nome mandando você ir pegar o maldito terno na lavanderia do shopping. Depois dele encher tanto o saco, eu peguei meu carro, conversível prata, obrigado, e fui até o shopping. Peguei o tal terno e não resisti em passar na Woody. Sabe o que é a Woddy? Simplesmente a melhor loja de instrumentos musicais EVER, acredite. E quando eu cheguei lá vi AQUELA guitarra, simplesmente a primeira guitarra de Andy Summers, velho! Muito bom, na boa! Fiquei lá, admirando aquela beleza por vários minutos, até que fui interrompido pela que apareceu do nada pra me zoar, como sempre. Mas eu contornei a situação, claro, e ela saiu toda stressadinha de lá. Ri um pouco enquanto observava-a sumindo pra dentro do shopping. Voltei meu olhar pra guitarra e fiquei ali por mais muitos minutos, só olhando aquela perfeição. Sabe, eu tenho uma certa paixão por música. Paixão não, vício mesmo. Eu toco guitarra desde os 6 anos de idade, um pouco depois aprendi a tocar baixo e desde então nunca mais consegui me livrar dessa mania. Não consigo passar um dia sem tocar baixo pelo menos um pouquinho, isso me ajuda a relaxar quando estou nervoso. Anyway, o shopping estava começando a encher e eu saí de lá, antes que todos me achassem louco por estar lá que nem um idiota olhando pra uma guitarra. Voltei pra casa, fiquei lá até o almoço, quando fui pra casa do Fletcher, onde almocei e eu, ele, o Judd e o Poynter ensaiamos um pouco. A gente meio que tem uma banda. Na verdade não é uma banda, mas sim quatro amigos que adoram música e se juntam pra tocar. Ficamos lá até o fim da tarde, quando eu voltei pra casa e encontrei meu pai quase careca de tão nervoso.
- ONDE VOCÊ ESTAVA? – ele perguntou, tentando manter a calma. Cara, que medo.
- Na casa do Fletcher, oras. Eu avisei. – eu disse, e ele começou a andar de um lado pro outro numa rapidez incrível.
- VOCÊ NÃO DISSE QUE IA DEMORAR TANTO! JÁ ESTÁ TARDE! – ele gritou mais uma vez e eu fiquei mais confuso ainda.
- Pai, são 6 e meia. O jantar é daqui a duas horas. – eu disse, medindo as palavras, antes que ele ficasse ainda mais nervoso. Ele olhou para o relógio que havia na sala e pareceu se acalmar um pouco.
- Ah... de qualquer jeito, vai se arrumar. E esteja pronto as 8 e 15! – ele disse, subindo as escadas do hall correndo. Havia algo de errado acontecendo, com certeza. Meu pai NUNCA ficava nervoso por causa de mulher, nem pela minha mãe ele ficava! Aliás, eu puxei isso dele, mas enfim. Subi as escadas atrás dele e fui até o meu quarto, esperar chegar a hora de me arrumar. Fiquei lá jogando God of War e quando deu 7 horas eu fui tomar banho. Fiquei no banheiro por uns 20 minutos, e voltei ao meu quarto, tirando o tal terno da capa da lavanderia e vestindo-o. Coloquei uma camisa cor de vinho com o terno preto e um sapato da mesma cor. Mais uns bons minutos arrumando meu cabelo e dando nó na gravata e eu estava pronto. Passei perfume e dei os últimos retoques no terno, exatamente quando o relógio marcava 8:10. Saí do quarto e fui pro hall, onde meu pai estava andando de um lado pro outro, tão nervoso quanto antes. Vestia um terno muito bonito risca de giz, e estava com toda aquela pinta de galã típica da família Poynter.
- Finalmente! Vamos! – ele disse, já saindo de casa, e eu tive que correr pra acompanhá-lo.
- Por que todo esse nervosismo, pai? – eu perguntei, enquanto saíamos de casa na Mercedes preta dele. Ele pensou um pouquinho e respirou fundo.
- Eu só quero que o jantar seja perfeito e que você goste da Meg. – ele disse, mas algo me dizia que não era só isso.
- Qualé pai, se você ta assim por causa dela quer dizer que ela é legal, então não tem porquê eu não gostar dela. Fica sussa! – eu disse, tentando animá-lo, mas não estava tendo muito sucesso. Ele considerou a questão.
- Não depende só de você, Dougie. Eu também quero que a filha dela goste de mim.
Calma, volta a fita. Ele disse FILHA dela? Como eu não sabia que ela tinha uma filha?
- Ela tem uma filha, pai? – eu perguntei, confuso. Ele me olhou como se eu fosse o ser mais estúpido do mundo.
- Claro que tem! Eu te disse isso! – ele falou, e eu neguei – Não disse? Tudo bem, ta sabendo agora. Eu não conheço a garota pessoalmente, só sei que a Meg vive dizendo que a filha é tudo na vida dela, e eu realmente preciso que ela goste de mim.
Eu ia dizer alguma coisa reconfortante, mas meu pai parou o carro e apontou para a casa em frente.
- É aí, filho. – e saiu do carro, ansioso. Eu fiz o mesmo e corri atrás dele, que já ia em direção à entrada da casa. Ela não era tão grande como a minha, o que na verdade é difícil, mas tinha um tamanho até que bom.
- Por Deus, pai, fica calmo! Assim que a tal filha da Meg não vai gostar de você. Respira, vai dar tudo certo.
Ele sorriu nervoso pra mim e ficou parado em frente a casa por mais alguns segundos, tentando assimilar a situação. Eu não sabia se ria ou se chorava cara, era tudo tão estranho! Mas fiquei de boa, né, afinal aquilo parecia ser importante pro meu pai. Então tocamos a campainha. Esperamos por alguns instantes e logo uma mulher abriu a porta. Ela era realmente muito bonita e conservada. Tinha os cabelos loiros, um sorriso expressivo e vestia um bonito vestido rosa claro, bege ou seja lá qual for aquela cor. Só sei que ela sorriu radiante, sendo acompanhada por meu pai, que parecia hipnotizado pela mulher.
- Que bom que vocês chegaram! – ela disse, nos mandando entrar. O hall da casa era bem aconchegante, e assim como na minha casa, havia uma bonita escada que levava ao andar de cima. A mulher e meu pai se abraçaram e eu continuei a olhar a casa. Fala sério, eu acho muito bom meu pai ter uma namorada, mas eu não preciso ver tudo acontecer, preciso? Então.
- Você deve ser o famoso Dougie. – ela disse, sorrindo pra mim. Eu assenti.
- E você a famosa Meg. Estou encantado. – eu disse, beijando a mão da mulher, enquanto ela olhava encantada e meu pai olhava orgulhoso. E eu segurava o riso, sabe, aquela cena tava bem engraçada.
- Tão educado e bonito quanto o pai. – a mulher disse, e nós ficamos lá conversando um pouco. Meu pai parecia realmente apaixonado e isso era bizarro, cara! Mas tudo bem, né, se ele quer assim...

****

Eram 5 da tarde e minha mãe já estava pra lá e pra cá em casa pra deixar tudo perfeito para o tal jantar. Tanto que eram 6 horas e ela já estava me enxotando pra dentro do meu quarto pra que eu me arrumasse. Alguma coisa de estranho tava acontecendo, só podia. Tomei um longo banho, sequei meu cabelo, deixando-o bem liso, coloquei o tal Valentino roxo, que honestamente ficou perfeito em mim, um scarpin preto aberto na frente com um pequeno lacinho pregado, uma tiara preta nos cabelos e a franja de lado. Estava terminando minha maquiagem quando ouvi a campainha. O tal Matthew devia ter chegado, e logo ouvi vozes vindo do hall de entrada. Passei um gloss, peguei minha pequena bolsa preta e me olhei no espelho pela última vez. Modéstia à parte, eu tava muito gata dude! Saí do quarto e fui devagar até a beira da escada, aproveitando o momento para observar o namorado da minha mãe e seu filho, enquanto eles conversavam animados na porta. Me apoiei no ‘murinho’ que havia antes do começo da escada e observei o homem. Ele era realmente muito bonito e conservado, e mantinha um sorriso contagiante no rosto. Um sorriso que me lembrava alguém. E eu não precisei pensar muito para lembrar de quem era, pois foi só eu olhar para o garoto que o acompanhava que o sorriso que eu tinha no rosto pela felicidade da minha mãe murchou. Era ele. ELE. O Poynter! Não, não era possível! Sério, eu devo ter jogado pedra na cruz, porque eu não mereço isso! E sabe qual é a pior parte? É que quando a minha mãe falava de ‘Matthew Poynter’ eu nem sequer havia notado a semelhança do sobrenome. Como eu sou burra, dude! Anyway, eu tinha que ser superior, certo? Certo. Dei meu melhor sorriso e me inclinei um pouco, dizendo em voz alta, pra que eles me ouvissem claramente lá de baixo:
- Como foi que eu pude não notar na semelhança de sobrenomes? Poynter não é um sobrenome tão comum assim. – eu disse, e os três se viraram pra mim, dois deles não entendendo nada, já um deles me olhou incrédulo por alguns segundos, mas logo sua feição mudou de o-que-é-que-está-acontecendo-aqui pra eu-tenho-o-controle-da-situação.
- ! – ele disse, colocando as mãos no bolso e sorrindo – Você não imagina como eu estou feliz em te ver aqui.
Eu ri irônica e desci as escadas devagar, sentindo o olhar dele sobre mim o tempo todo.
- Não precisa disso, Poynter, você não me engana mais. Na verdade nunca me enganou. – eu disse, chegando ao hall e me unindo à rodinha, onde minha mãe e o tal Matthew olhavam abismados. E o Poynter tava lá, sorrindo superior. E cara, eu PRECISO admitir que ele tava, tipo assim, MUITO gato. Demais mesmo, sem brincadeira. Apesar de tanta idiotice e prepotência, ele tava muito bom com aquele terno e o cabelo todo alinhado. My Gosh, como ele conseguia ser tão gato? Enfim, minha mãe virou pra mim.
- Vocês se conhecem?
- A é minha adorável companheira de laboratório. – ele disse, provocando, e eu tive que responder.
- Tão adorável quanto você é humilde, Poynter. – eu disse, e minha mãe, que me conhece muito bem, tentou cortar o assunto.
- Mas que interessante, eu não sabia que vocês se conheciam! De qualquer forma, , esse é o Matthew.
Eu fui até o homem que me cumprimentou muito alegre, comentando de que eu era tudo o que a minha mãe falava e tal. Eu respondi da mesma forma e ele nos chamou para irmos até o restaurante. Minha mãe e ele saíram na frente, me deixando pra trás com o Poynter.
- Incrível como uma mulher tão amável possa ter dado a luz a você, . – ele disse, bem perto do meu ouvido, e eu me arrepiei um pouco. JURO QUE EU NÃO QUERIA, mas não deu pra evitar. Afinal a voz dele é bem sexy. Enfim, eu o encarei firme.
- Incrível como um homem tão simpático possa ter participado da sua confecção, Poynter. – ele riu um pouco e saiu de casa, se recostando sobre o batente da porta enquanto eu a trancava e colocava a chave dentro da minha bolsa. Assim que terminei de fazê-lo, olhei pra ele e desci os degraus que levavam ao jardim, com ele ao meu encalço, claro. Chegamos ao carro – leia-se último modelo de Mercedes – do Matthew que estava estacionado em frente à minha casa, onde minha mãe já estava dentro e Matthew entrava naquele momento. Antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, Poynter abriu a porta e cedeu espaço para que eu entrasse. Tá bom, eu não esperava por tanta cortesia, mas não me deixei abalar. Entrei no carro e ele logo foi atrás, sentando-se ao meu lado no banco de trás. Cara, essa seria uma longa noite.

Capítulo 5 – Difficult girls are forever, easy girls are whatever.

Deixa eu assumir que estava abismado com tudo aquilo. Primeiro, eu conheço a namorada do meu pai, que pela primeira vez em um bom tempo não é uma modelo peituda e sem cérebro. Segundo, eu descubro que a tal filha dessa mulher é ninguém menos que , aquela garota. Terceiro, eu não posso deixar de quase surtar ao ver como ela estava gata quando desceu aquelas escadas. Tipo, MUITO linda MESMO, sem noção. E agora estávamos ali, sentados no carro do meu pai, indo para um jantar ‘em família’. E ela estava sentada ao meu lado, com aquele maldito vestido curto deixando à mostra aquelas coxas maravilhosas, fazendo a minha mão coçar mais uma vez. Me diz, EU MEREÇO ISSO? Só porque eu já tive muitas coxas de todos os tipos existentes pra passar a mão, a coxa mais irresistível era exatamente a que eu não podia tocar? Isso é injusto, dude, muito injusto!
Anyway, tratei de sumir com esses pensamentos e lembrar de que estava indo para um jantar no melhor restaurante francês de Londres com meu pai e sua namorada, e precisava pelo menos fingir ter uma relação amigável com a . Nós não trocamos nenhuma palavra durante o caminho, e logo estávamos na frente do tal restaurante. Saí do carro e estendi a mão para que ela saísse também. Ela se apoiou em mim e saiu do carro, com aquele sorriso tipo eu-sou-que-sou-gostosa, sabe? Pois é, até conhecer essa garota eu achava que era o único que sabia sorrir assim, mas vi que estava enganado. Meu pai deixou o carro com o manobrista e entrou no restaurante sorrindo e de braços dados com Meg, que também estava muito feliz. Eu estendi meu braço pra ela, que me encarou por alguns instantes e finalmente cedeu. Nós fomos até a entrada do restaurante, onde um homem olhava descaradamente pra . Revirei os olhos e a puxei para dentro do lugar, percebendo que ela nem havia reparado e não entendia o porquê de eu ter feito aquilo. Mas fala sério, um idiota qualquer fica comendo a menina com os olhos e eu não posso nem poupá-la da situação? Anyway, seguimos meu pai e a mãe dela, que por sua vez seguiam um cara que trabalhava no restaurante, nos levando até uma mesa ao lado da janela, que dava uma bonita vista de Londres àquela hora da noite. Nos sentamos e o homem foi logo servindo vinho, enquanto nós escolhíamos os pratos. Escolhemos e eles chegaram logo, enquanto conversávamos banalidades. E assim que terminamos de comer, meu pai se pronunciou.
- Bom, eu acho que vocês já perceberam que esse não é um jantar qualquer. – ele disse.
- Com certeza. – eu disse, e parece que também. Ao mesmo tempo que eu. Mas enfim...
- Eu e a Meg já estamos namorando há algum tempo, e nós dois percebemos que é tudo muito especial pra ser desperdiçado. – eu não tava entendendo nada, fato.
- Por isso decidimos trazer vocês dois aqui, e como está tudo indo muito bem, estamos prontos pra comunicar uma coisa a vocês. – disse Meg, sorrindo meio nervosa e olhando pro meu pai. Acho que eu tinha uma leve idéia do que ia acontecer, e cara, fiquei muito abismado quando os dois disseram juntos:

- Nós vamos nos casar!

****

Inspira, espira, inspira, espira , antes que seu pulmão pare de funcionar. Eu tinha acabado de ouvir que minha mãe ia se casar com o pai do Poynter? Não, não é possível, eu só posso estar sonhando! Os dois ficaram olhando pra gente, esperando alguma reação, mas eu não conseguia falar nada. Olhei pro Poynter, que retribuiu o olhar tão aturdido quanto eu. Arregalei os olhos ao perceber que tudo ali era realmente verdade, e Poynter, percebendo que eu não ia falar tão cedo, disse exatamente o que eu queria dizer:
- Vocês dois? Se casarem? – ele perguntou, e minha mãe arqueou as sobrancelhas.
- Por que, não gostaram da idéia? – ela perguntou, e eu levantei os olhos, vendo que ela parecia decepcionada com a nossa reação. E naquele momento eu lembrei de todas as vezes em que eu havia visto minha mãe super feliz por causa daquele cara, e que ela realmente parecia muito feliz com essa decisão. Olhei mais uma vez pro Poynter e tentei sorrir.
- Claro que gostamos, mãe. O que for melhor pra vocês vai ser melhor pra nós também. – eu disse, e Poynter me encarou meio surpreso. Tivemos um minuto de transmissão de pensamento, em que eu pedia que ele os apoiasse também. Ele pareceu perceber e sorriu também.
- É, concordo com a . Quer dizer, a . – ele consertou ao ver a cara engraçada que o casal à nossa frente fazia. Os dois sorriram radiantes e levantaram os copos de vinho.
- À nossa nova família! – disse Matthew, todos nós brindamos. Foi só aí que eu percebi um pequeno detalhe: eu seria legalmente IRMÃ de Dougie Poynter! Aquele idiota metido que se achava o cara mais gostoso do mundo. Tem noção do que é isso? Pois é, agora eu tenho.
- Vamos dançar, meu amor? – Matthew perguntou pra minha mãe, que levantou-se animada e foi com ele até o meio do restaurante, onde havia uma banda daquelas que tocam músicas antigas e românticas e uma pequena pista de dança. Os dois se abraçaram e começaram a dançar, como um casal adolescente de apaixonados desenfreados. Eu assisti a tudo aquilo muito confusa, enquanto Poynter entornava quase a garrafa inteira de vinho na boca, tão confuso quanto eu. Eu me levantei e fui até o banheiro feminino, precisava pensar sem aquele garoto do meu lado. Mas não adiantou muito, afinal chegando lá e me olhando no espelho as mesmas dúvidas corriam pela minha cabeça, tipo ‘eu vou ser irmã de Dougie Poynter’, ‘vou ter um novo pai’ ou ‘será que eu vou ter que morar na casa deles?’. Tentei parar de pensar nisso por um instante, era muita coisa de cada vez. Retoquei minha maquiagem e voltei para o restaurante, encontrando a mesa vazia. Onde quer que Poynter tinha ido, eu precisava achá-lo, afinal estava ficando com medo do olhar quase carnal que um cara em uma das mesas dirigia a mim. Minha boca estava seca, mas eu me recusava a beber do vinho que ainda restava na minha taça em cima da mesa. Sabe, não tenho experiências muito boas com vinho, e desde então nunca tomei mais de uma taça. Vi que minha mãe e meu novo ‘pai’ ainda dançavam agarradinhos, e não pareciam querer parar tão cedo. Até que eu vi um vulto da parte de fora do restaurante através do vidro que havia ao lado da nossa mesa. Saí pela porta de vidro ornamentada que havia ali perto e vi que o tal vulto era do Poynter, que estava debruçado na grade que separava a pequena área descoberta da margem do rio Tâmisa, que naquele momento era iluminado pelas luzes em volta da London Eye. Era uma bela vista, realmente. Me aproximei e também me debrucei sobre a grade, sem dizer nada. Na verdade eu nem sabia o que dizer naquela situação. Mais alguns instantes e eu olhei pra ele, que tinha uma garrafa de cerveja na mão. Eu estranhei, afinal não imaginava que um restaurante tão chique quanto aquele servisse algo além de vinho e champagne.

- Onde você arrumou isso? – perguntei, e ele me olhou, enigmático.
- Eu tenho minhas maneiras. – ele disse, me entregando a cerveja. Dei um gole e devolvi-a a ele, e continuamos em silêncio, até que ele, parecendo perturbado, voltou a falar.
- Já caiu a ficha? – ele perguntou, e eu o olhei confusa – De que nossos pais vão se casar?
Eu dei de ombros.
- Tenho que admitir que eu esperava qualquer outro além do seu pai, Poynter. – eu disse, e ele ri um pouco – Mas se a minha mãe o ama, não vejo porque não aceitar.
Ele me encarou no fundo dos olhos.
- Você vai ser minha irmã, .
Eu ri, tentando animá-lo.
- Veja pelo lado bom, Poynter. Eu não vou poder te encher de hematomas, senão minha mãe descobre que eu bati no meu ‘irmãozinho’ e fica brava!
Ele riu, mas não pareceu ficar tão feliz assim. Quer dizer, parecia que tinha alguma coisa o incomodando, afinal não é normal ver Dougie Poynter sem seu sorriso petulante por mais de dois minutos. E cara, eu não deveria, mas me sentia na obrigação de ajudá-lo.
- Nossa Poynter, vendo você assim eu vou achar que você odiou o fato de ganhar uma ‘irmã’ como eu. – eu disse, e ele pareceu acordar de um transe. Sorriu pra mim. Um sorriso muito lindo, se quer saber.
- Fala sério, , você não é bem o protótipo perfeito de irmã. Mas eu acho que posso superar. – ele disse, e eu dei um tapinha no braço dele.
- Idiota, eu sou uma ótima irmã, ok? – eu disse, e ele olhou em volta, como que procurando alguém.
- Deixa eu ir achar algum irmão seu pra perguntar. – ele disse, e eu dei mais um tapinha no braço dele, e acho que dessa vez doeu, porque ele começou a rir, massageando o lugar onde eu havia batido.
- Ai , isso arde! – ele disse, e eu ri. Ficamos mais um pouco em silêncio, até que eu lembrei de perguntar uma coisinha.
- E a Olívia, como vai?
Ele pareceu lembrar de tudo de repente e olhou pra mim, rindo.
- Como você é malvada, , a garota até chorou! – ele disse, e eu sorri vitoriosa.
- Sério? Como eu queria ter visto! – eu disse, e ele ficou me encarando desafiador.
- Foi uma boa vingança, eu admito. Pena que não funcionou comigo. – ele disse, bebendo um gole da cerveja, e eu o encarei confusa.
- Como assim? – eu perguntei, e ele me encarou com aquele sorriso manipulador mais uma vez.
- Você realmente achava que ia ME atingir fazendo aquilo? Atingiu a Olívia, mas não a mim. Eu não to nem mais aí pra ela mesmo.
Juro que fiquei de cara com a confissão do Poynter. Sei lá, eu esperava que ele e a Olívia fossem aquele tipo de casalzinho de teen movies que um sem o outro não vale nada, mas percebi que me enganei. Ele percebeu a minha surpresa e remendou:
- Qualé , a Olívia já foi muito pra mim. Tipo, quando nós éramos menores ela era ‘a sensação’ do colégio e todos os caras queriam ficar com ela. Claro que eu consegui ser o primeiro, assim como o primeiro em outras coisas que não vem ao caso agora. – ele disse com um sorriso pervertido, e a possibilidade de imaginar Poynter e Olívia se comendo por aí não foi a mais legal do mundo – Acontece que depois de um tempo ela começou a encher o saco, sabe? Ela ficava como se fosse dependente de mim, e isso começou a me irritar. Até que eu mudei pra NY e nunca mais a vi. E esse ano, quando voltei, achei que tava louco pra ficar com ela de novo, afinal ela é muito gostosa, mas me cansei rapidinho.
Arqueei as sobrancelhas.
- Dougie Poynter se cansando de sua escrava sexual? Não entendo. – eu disse, irônica, e ele me encarou do mesmo jeito.
- Eu já disse, ela é muito hot e muito bonita, capaz de fazer qualquer coisa se eu pedisse. Acontece que... – ele disse, e pareceu hesitar um pouco. Meu Deus, Dougie Poynter hesitando a falar mal de uma garota? O que está havendo com o mundo? – ela é, digamos, muito burra.

Eu não pude evitar de rir.
- Fala sério, , não dá pra aguentar todo dia uma garota que só presta pra dar uns amassos! Porque quando ela abre a boca acaba todo o encanto, na boa.
Eu ficava mais abismada a cada instante.
- Nunca imaginei que Dougie Poynter quisesse uma garota inteligente. – eu disse, e ele me encarou, firme, e sorriu de canto.
- Garotas burras são perfeitas pra uma noite, mas a Olívia se considerava minha namorada! E dude, eu nunca namoraria ela. Acho que a gente nunca ficou mais de 5 minutos conversando alguma coisa que realmente preste.
Meu queixo caiu. Era realmente inacreditável o que estava acontecendo ali. O Poynter tava me dizendo que gosta de conversar com garotas? Eu tinha certeza que ele nunca nem tinha conversado com uma garota, cara! Eu fiquei lá, com os olhos arregalados, enquanto ele me observava, rindo.
- Sabe , eu não sou um completo idiota. Apenas sou eclético e adoro garotas. Todas as garotas. – ele disse e saiu andando, de volta pra dentro do restaurante. Após alguns instantes eu fui atrás dele, e encontrei Matthew já pagando a conta. Fizemos o caminho de saída e entramos no carro mais uma vez. Já estava tarde, mas eu tinha certeza que seria bem difícil dormir naquela noite.

Capítulo 6 – “Everybody loves to party on a Saturday night.”

- Cara, deixa eu ver se eu entendi. Seu pai vai se casar com a mãe da ? – gritou Danny no meu ouvido naquela segunda feira. Estávamos indo pra primeira aula, matemática, e eu contava pra eles sobre o meu turbulento fim de semana.
- Eu fiquei tão assustado na hora quanto você. – eu disse, e os três arregalaram os olhos.
- Você vai ser irmão da garota mais fit de Londres, dude! – disse Harry, e eu só sabia rir. Não posso dizer que era ruim o fato de eu ter que morar na mesma casa da , mas ninguém podia saber disso. Eles ficaram comentando esse assunto durante toda a manhã, até que a aula mais esperada de todas chegou: Química. Fomos rapidamente pro laboratório, e chegando lá pude ver a , a , a e a nas duas primeiras bancadas da direita, como de costume, fofocando. Fui até outras duas bancadas mais atrás com os caras, já que o professor ainda não havia chegado e eu não ia interromper a fofoca delas. Mas tenho que assumir que tava morrendo de curiosidade pra saber sobre o que elas estavam falando.

****

- Eu já disse que você é a garota mais sortuda do MUNDO? Fala sério, quem não daria TUDO pra ser irmã postiça de Dougie Poynter? – perguntou , e eu ri. Eles ficaram extremamente chocadas ao saber de tudo que havia acontecido no meu fim de semana, e agora ficavam imaginando como seria morar na mesma casa que o Poynter. E eu quase morria de rir, elas eram loucas.
- Só sei que vai ser muito estranho ter que participar de festas e mais festas com ele, além de ter que morar na mesma casa. – eu comentei, lembrando do que minha mãe tinha falado naquela noite, quando chegamos em casa – Neste sábado vai ter tipo que uma ‘festa de noivado’ na casa do Poynter, só pra high society londrina. E eu já tô até vendo a chatice que vai ser.
As três riram da minha cara.
- Realmente, ficar perto de um monte de velhos e sérios empresários a noite inteira deve ser um saco, mas não se esqueça da sua companhia especial, amiga! – comentou , piscando pra mim. Revirei os olhos.
- Como vocês são taradas, meu Deus! – eu disse, e todas rimos, na hora que o professor apareceu e e saíram de lá, procurando seus respectivos pares de laboratório. Não precisei nem esperar dois segundos para o Poynter aparecer, já que ele já estava sentado ao meu lado, sorrindo daquele jeito. Eu retribui o sorriso e o professor começou a falar:
- Eu passei o fim de semana inteiro corrigindo e analisando o trabalho de vocês, e já tenho as notas comigo! – ele disse, e eu olhei para o Poynter, que riu. Por algum motivo eu tinha me esquecido completamente do trabalho e do ato de marginalidade que aquele idiota tinha cometido, mas tudo bem, eu ainda tenho esperança pela metade da nota. O professor foi de bancada em bancada entregando os trabalhos, e quando chegou na nossa sorriu pro Poynter.
- Parabéns, Mr. Poynter, o trabalho está ótimo! – e depois olhou pra mim – Como prometido, Miss , você terá direito a metade da nota.
E saiu para entregar o outro trabalho. Quando virei pro Poynter ele estava sorrindo e observando a capa do trabalho.
- Parabéns, . Afinal, o mérito é seu. – ele disse, me entregando o trabalho, que tinha um grande 10 escrito na capa. Dude, eu fiquei TÃO feliz que até esqueci que só ia tirar 5. De qualquer forma, eu tinha tirado nota máxima, mesmo que indiretamente. E isso era tão legal! Sorri pro Poynter, que ria da minha cara de felicidade.
- Deixa eu ser feliz, Poynter. – eu disse, mostrando a língua pra ele, que só ria. Mais alguns instantes em silêncio e ele virou pra mim, sério.
- Valeu.
Eu não entendi nada.
- Como?
Ele respirou fundo e deu de ombros, meio desajeitado.
- Valeu pela nota, . Se não fosse por você eu provavelmente teria tirado, sei lá, 2.
Arqueei as sobrancelhas.
- Você fez o trabalho? – ele assentiu – Nossa.
- Qualé , eu não sou tão irresponsável assim! Mas sabe, no dia antes da entrega eu estava um pouco ocupado, então ele ficou uma merda.
Eu fazia uma vaga idéia de qual ocupação era essa, mas nem comentei.
- Bom, não foi nada. – eu disse, mas depois corrigi – Na verdade, foi sim. Eu perdi 5 pontos do que poderia ganhar pela sua mania de sempre querer sair por cima.
Ele riu e se aproximou de mim.
- Assuma, ficar por cima é sempre muito bom. – ele disse, e eu arqueei as sobrancelhas com a incrível ambiguidade no que ele disse. Mas só pra vocês não me acharem pervertida, eu vou falar que concordei internamente com ele. Afinal, o que tem de melhor do que se sentir superior a um cara como Poynter? Isso mesmo, nada. Logo o professor já estava na frente mais uma vez, ensinando algo sobre densidades ou coisa assim. A aula terminou e eu fui pra casa, para mais uma tarde tediosa. Assim como foi toda a minha semana. E num piscar de olhos já era sábado. E sábado é dia de festa de noivado.

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Acho que nem consegui almoçar direito naquele dia, de tanta bagunça que estava na minha casa. Eram cadeiras pra cá, mesas pra lá, o jardim estava um verdadeiro caos de tanta arrumação. A cozinha estava lotada de todos os tipos de comida existentes. Na verdade não todos, apenas aqueles petiscos e patês estranhos que sempre têm nessas festas da sociedade, e que eu particularmente odeio. Meu pai tava quase cuspindo o próprio coração, de tanto nervosismo. Com toda essa história de casamento meu pai tá muito nervoso, cara, eu nem o reconheço mais! Mas tudo bem, ele diz que é tudo por causa do amor. Deixa ele, né. Anyway, mais uma vez eram 6 e meia e meu pai já tava me enxotando pra dentro do quarto, falando que os convidados logo chegariam. Entrei no meu quarto e fui diretamente pro banheiro, pra fazer todo aquele ritual necessário pra eu ficar irresistível. Quer dizer, eu já sou irresistível naturalmente, mas nesse caso era preciso um aprimoramento, afinal a única pessoa que eu realmente queria impressionar naquela noite era exatamente a mais difícil de impressionar. Ela mesmo, . Quando terminei de me arrumar ainda era cedo, e eu me joguei na minha cama, observando meu quarto. Já disse que adoro ele? Ele é, tipo, bem grande e aconchegante. Uma cama de casal tamanho king size bem no meio, exatamente em frente a uma enorme tv de plasma, que é minha paixão. Jogar vídeo game nela é muito foda, cara! Mas enfim, a parede é cheia de posteres de bandas, tem um sofá preto em um canto e uma escrivaninha do outro lado, que fica bem embaixo da janela. É um ótimo lugar pra escrever, sabe? Realmente inspirador. É, eu adoro escrever, letras de músicas principalmente, mas isso é segredo de estado, ok? Bom, ele estava meio desarrumado, mas nada gritante, afinal qual homem tem o quarto em perfeita ordem? Ouvi alguém batendo na minha porta e imaginei que fosse meu pai, mas a surpresa foi imensa quando abri a porta e dei de cara com ela. A tava ali, na porta do meu quarto, e incrivelmente bonita. Vestia um vestido tomara que caia preto, um pouco curto, acompanhado de altos sapatos de salto e o cabelo preso em um tipo de coque meio bagunçado. Resumindo, ela estava muito linda. Fiquei ali a observando por alguns instantes, enquanto ela fazia o mesmo comigo, mas finalmente ela se pronunciou:

- Seu pai me mandou aqui te chamar e avisar que os convidados já estão chegando. – ela disse e eu assenti, fechando a porta do quarto e a seguindo pelas escadas. Quando cheguei lá em baixo, uma porrada de gente veio me cumprimentar, me parabenizando pelo casamento do meu pai e blábláblá. Após meia hora indo de rodinha em rodinha fazer média, e ouvindo um monte de papo de velho, eu tava morrendo de fome. E quando cheguei no jardim, onde estava a mesa com a comida, eu vi que não tinha nada, nada de decente pra comer. Não é possível que esse povo só coma essas coisas, cara! Vi meu pai por ali, mas antes que pudesse reclamar desse absurdo ele me puxou para dentro de mais uma rodinha, onde havia um casal e uma garota, talvez um pouco mais nova que eu. Meu pai me apresentou a eles, e a garota não tirou os olhos de mim por um instante durante a conversa, o que já tava me incomodando, afinal ela não era, erm, muito bonita. Na verdade ela era feia, gorda e tinha cara de pirralha, o que não são bons atributos iniciais. Ela virou para seu pai e disse que queria beber alguma coisa, e meu pai, tentando dar uma de ‘o melhor anfitrião’, me mandou ir com a garota. Nunca fiquei com tanta raiva do meu pai na vida, cara! O encarei suplicante, mas ele me olhou como que dizendo ‘faz isso por mim, vai!’ e eu tive que ir. E foi só nós nos afastarmos um pouco em direção ao balcão das bebidas que a pirralha mostrou suas verdadeiras garras.
- E aí, o que vai querer? – eu perguntei, sem real interesse, mas quando vi ela já estava quase em cima de mim, de tão perto.
- Não sei, o que você pode dar? – ela perguntou, numa frustrada tentativa de ser sexy. Coitada.
- Nós temos cerveja, vinho, uísque e champagne. Mas acho que pra você seria mais apropriado um refrigerante, não é? – eu disse, tentando não zoar com ela, mas não consegui. Porém ela não pareceu afetada.
- Não seja tonto, Dougie, você sabe do que eu estou falando. – ela disse, chegando ainda mais perto de mim, se é que isso era possível. Eu tentei fugir, mas não consegui. A gordura dela meio que tava me impedindo, sabe – Você é tão lindo...
Ela passou a mão pelo meu cabelo, chegando mais perto de mim. Cara, eu não sabia o que fazer! Eu não podia empurrar a menina ali, todo mundo ia ver, e como ela é meio pirralha, com certeza iria correndo contar tudo pro papai. Ela foi chegando, chegando, e eu fechei os olhos, tentando me afastar mais. Em vão. Não tinha mais jeito, eu ia ter que pegar a pirralha esquisita.
- Poynter, finalmente te achei! – eu ouvi uma voz conhecida dizer, enquanto me puxava pra longe da gordinha. Deus, como eu te amo! A gordinha olhou pra com uma cara de raiva muito estranha, se quer saber.
- Dá licença, queridinha, você está nos atrapalhando. – ela disse, e eu pude distinguir um misto de graça e pena no rosto da .
- Dá licença você, queridinha, que eu preciso do Poynter. Agora. – ela disse, e eu por um instante tive uma pequena fantasia com aquela frase. Mas enfim... – E por que você não volta pro papai, hein? Acho que tá na hora de trocar a fraldinha.
A menina abriu a boca, surpresa, enquanto a me puxava pelo jardim. Quando já estávamos a uma distância segura, nós dois tivemos uma crise de riso. Literalmente.
- Por favor, Poynter, eu não acredito que você teria beijado aquilo se eu não tivesse chegado! – ela disse, entre risos, e eu concordei.
- Muito obrigado, , você salvou minha vida! – eu respondi, e ficamos rindo por mais alguns minutos. Quando o riso cessou, eu fui até a beirada de uma das mesas que estava no cantinho do jardim e me sentei em cima dela.
- Essa festa ta um porre, né? – ela comentou, se sentando ao meu lado. Eu concordei.
- Demais. E até agora eu nem consegui o que comer!
- Ninguém merece aqueles patês horríveis e sem sal. – ela disse. Até que eu tive uma idéia.
- Uma pizza seria perfeita agora, não? – eu perguntei, e ela assentiu.
- Pizza, Coca-Cola e um filme. Gosh, seria o paraíso!
Olhei pra ela, e ela pareceu perceber o que eu queria dizer.
- Você compra a pizza e a coca e eu alugo um filme, ok? – ela perguntou e eu assenti, enquanto passávamos pelos vários grupos espalhados pela casa, saindo pela frente.
- Nos vemos aqui em 20 minutos! – eu disse, entrando no meu carro, enquanto ela fazia o mesmo no carro da mãe dela. Fui correndo até a pizzaria mais próxima de casa, que também era ótima, e pedi duas pizzas. Uma de calabresa e a outra de frango com catupiry, meus sabores preferidos, já que não sabia do que ela gostava, e comprei várias latinhas de coca. Em 15 minutos eu já estava voltando pra casa, e quando cheguei lá ela estava encostada no carro da mãe dela, estacionado e frente à minha casa, com uma sacolinha na mão.
- Bem na hora, Poynter, eu estou morrendo de fome. – ela disse, assim que viu as pizzas na minha mão – Do que são?
- Calabresa e Frango com Catupiry. – ela deu um sorriso lindo.
- Meus sabores preferidos!
- Meus também. – eu disse, e nos dirigimos pra dentro da casa. Ignoramos todos os olhares estranhos que todos que estavam no hall davam para nós e subimos as escadas, em direção ao meu quarto. Abri a porta e coloquei as pizzas e as cocas em cima da minha mesinha de cabeceira, enquanto encarava minha cama.
- O que foi? – eu perguntei, e ela riu.
- Eu não preciso ter o mínimo de decoro agora, certo? – ela perguntou, e quando eu percebi ela já estava pulando animadamente em cima da minha cama. Eu só ria, e após alguns segundos ela se sentou com tudo e pegou uma das caixas de pizza, pegando um pedaço e dando uma enorme mordida.
- O que você alugou? – eu perguntei, e ela apontou para a sacolinha, que estava jogada em cima da minha cama – PS: Eu te Amo?
Ela terminou de mastigar e sorriu.
- A assistiu e disse que é muito lindo.
Eu ri e coloquei o dvd no meu aparelho, ligando a tv de plasma e me jogando na cama ao lado dela, que já estava perfeitamente acomodada, comendo a pizza e bebendo coca, de um jeito muito engraçado. Não pude deixar de reparar que ela era a primeira garota com que eu sentava numa cama sem ser pra transar. E além do mais, que comia pizza e tomava coca cola sem nenhuma frescura, nem ligando pro vestido nem nada. E assumo que aquilo era tudo muito legal.
- Como isso é bom! – ela disse com a boca cheia, enquanto comia mais um pedaço de pizza. Peguei minha coca e estendi a ela.
- Às fugas de festas chatas! – eu disse, e brindamos com as latinhas de coca. Ficamos ali, comendo feito esfomeados, até que me ajeitei na cama e dei play no filme. Aquela noite estava me saindo melhor do que eu esperava.

Capítulo 7 – "These chills in the evening, they won’t go away."

Eu estava chorando feito um bebê. E, detalhe, o filme tinha começado a menos de 20 minutos.
- , pelo amor de Deus, é só um filme! – disse Poynter, me olhando quase desesperado. Mas acontece que quando eu choro, eu choro mesmo.
- Não é só um filme, ok? – eu disse, fungando – É tudo tão lindo!
Ele não sabia o que fazer olhando pra mim, eu pude perceber. As luzes estavam apagadas, mas mesmo assim qualquer um veria que eu estava realmente abalada. Ele pegou um caixinha de lenços na mesinha de cabeceira e me entregou.
- Obrigada. – eu disse, assoando o nariz – Gosh, como a Holly vai viver sem o Gerry?
Poynter deu uma risadinha e voltamos a assistir, em silêncio. Cara, esse filme é muito lindo, impossível não chorar! Mas tudo bem, eu me acalmei um pouco e até que dei boas risadas, já que além de romance o filme era bem engraçado.

1 hora e 40 minutos depois...

Agora sim eu podia chamar isso de choro. Cara, eu já tava chorando há 15 minutos sem parar e estava quase desidratada de tanta lágrima que caiu. Juro, nunca tinha chorado tanto na minha vida. Assim que o filme acabou e os créditos começaram a subir, eu olhei para o lado com vergonha, achando que o Poynter ia estar morrendo de rir do meu ataque emocional, mas se eu disser o que eu vi você não vai acreditar. Sabe por quê? Porque ali ao meu lado estava Dougie Poynter, o imbatível, o invencível, o delírio da mulherada, CHORANDO. Isso mesmo, ele tava chorando! Não tanto quanto eu, claro, mas tinha algumas lágrimas caindo pela bochecha dele e o olho dele tava meio vermelho, pelo que dava pra enxergar apenas com a luz da tv. Eu tentava rir ou zoá-lo, mas cara, era impossível! Acho que vou ser a primeira garota, ou até mesmo a primeira pessoa no mundo que pode afirmar isso: o Poynter fica MUITO fofo chorando. Fica com uma carinha de bebê que dá vontade de apertar! Mas é claro que isso fica em off, ok, ele não pode nem sonhar que eu pensei isso. Enfim, eu peguei um lenço e me virei pra ele.
- Gosh, Poynter, você tá chorando! – eu disse, dando uma risadinha chorosa, e ele me olhou engraçado. Pegou o lenço e secou todas as lágrimas, mas dava pra perceber que ele ainda estava abalado.
- Qualé , deve ter sido muito foda pra esse cara escrever cartas pra ensinar a mulher a viver sem ele numa boa. Eu não teria conseguido, pode crer! – ele disse, tentando dar uma de machão, mas eu já tinha visto e não adiantava mais.
- Muito! Isso prova o quanto ele a amava. – eu disse, com mais algumas lágrimas caindo enquanto lembrava do filme. Fiquei lá, olhando pra cima e chorando, quando o Poynter pegou um lenço e passou delicadamente em baixo dos meus olhos, fazendo com que eu quase me assustasse. Ele ria com um olhar meio que melancólico no rosto. Muito fofo.
- Calma, , o que importa é que todos ficam felizes no final. - ele disse, voltando a se sentar ao meu lado. E ficamos nós dois lá, no escuro, recostados na cabeceira da cama dele, no meio de mil almofadas e edredons e com as roupas todas amassadas. Se alguém chegasse ali naquele momento, com certeza não ia achar boa coisa. Eu me acalmei um pouco e tive que falar alguma coisa. Não é minha culpa se o silêncio me deixa nervosa. Além de que eu adoro falar. Demais mesmo.

- Estou chocada, Poynter. – eu disse, simplesmente.
- Por quê? Porque a Holly conseguiu viver sem o Gerry? – ele perguntou, e eu ri.
- Não. Porque você tem sentimentos.
Ele virou a cabeça pra mim, e eu fiz o mesmo, só então percebendo quão próximos nós estávamos.
- Eu sou humano, . E os humanos costumam ter sentimentos. – ele disse, me encarando firme.
- Eu sei, mas nunca esperava ver você chorando por causa de um filme de romance. – eu disse, e ele me olhou de uma forma que nunca tinha olhado antes. Sei lá, os olhos azuis dele penetraram nos meus, e eu senti minha pele se arrepiar involuntariamente.
- Dizem que todos, mesmo que seja bem no fundo, sonham com uma história de romance digna de filmes, não é? – ele disse, e eu fiquei muito surpresa. Dougie Poynter estava assumindo que sonha com uma história de romance? Eu sei que ele não disse isso, mas cara, era demais pra minha cabeça. Ficamos nos encarando por mais alguns instantes até que eu senti que a minha cabeça estava involuntariamente se inclinando em direção à dele, e o mesmo com a cabeça dele. Minha respiração estava descompassada, como nunca havia estado antes, era tudo muito estranho. Chegamos mais e mais perto, e eu podia sentir meu corpo inteiro se arrepiar só de sentir o cheiro dele, só de ver aqueles olhos azuis olhando pra mim tão... profundamente. Senti meus lábios roçarem nos dele, mas uma luz forte do corredor entrou no quarto quando a porta foi aberta, fazendo meu coração quase parar.
- Dougie! ! O que fazem aqui? – ouvi a voz da minha mãe perguntar, e cada um pulou para um lado da cama. Ela acendeu a luz e pareceu um pouco surpresa com a cena.
- É que... a festa tava muito chata e nós decidimos vir aqui assistir filme e comer pizza. – eu disse, apontando pra tv, onde ainda passavam créditos, e graças a eles minha mãe acreditou.
- Ah, claro. Bom, eu já estou indo. Vamos ? – ela perguntou, e eu assenti. Levantei rapidamente da cama, peguei meus sapatos que estavam jogados do lado da cama e os coloquei, indo em direção à porta. Estava morrendo de vergonha, não sabia como olhar pra cara do Poynter. Fala sério, eu odeio aquele garoto! Ou pelo menos deveria odiar. E agora eu estava lá, com ele na cama dele quase o beijando? O mundo estava de ponta cabeça, só podia. Minha mãe deu tchau pra ele e eu me virei rapidamente, vendo que ele nem havia saído da posição que estava antes direito. Dei um rápido tchauzinho com um sorriso tímido, e ele retribuiu lindamente, como sempre. Meu Deus, o que ta acontecendo comigo?

****

Assim que ela saiu pela porta eu corri até o banheiro, arranquei aquela camisa social irritante que estava me fazendo suar e lavei meu rosto, tentando acordar. Eu nunca tinha me sentido daquele jeito e, cara, era muito estranho! Eu tinha acabado de chorar em um filme de romance, e depois fiquei cheio de nhénhénhé com uma GAROTA. Desde quando Dougie Poynter dá uma de frágil pra uma garota? Eu não estava me reconhecendo. E dude, eu me sinto muito idiota admitindo, mas eu não posso negar que a sensação de quase-beijo na foi diferente de tudo que eu já tinha sentido com qualquer garota. Aquele clima calmo, o cheiro do cabelo dela, a pele lisinha dela perto da minha... Gosh, do que é que eu tô falando? Já disse, eu não me reconheço mais! Eu me senti ansioso e ao mesmo tempo calmo, indo devagar. E a minha pele se arrepiou todinha quando ela me olhou no fundo dos olhos e... CALA A BOCA, DOUGIE POYNTER. Onde já se viu ficar assim por uma garota? Sei lá, deve ser carência, faz quatro dias que eu não pego ninguém! (N/A: oi, ele nem é galinha .-.) Só pode ser isso, não tem outra explicação! Tirei minha calça e a coloquei em um canto qualquer do quarto, me jogando com tudo na cama. Acontece que eu caí bem em cima do travesseiro onde a estava apoiada e aquele cheiro me inebriou mais uma vez... anyway, me cobri e fiz o mais esforço possível pra dormir, afinal estava quase delirando nas minhas idiotices. Fiquei longos minutos lá, deitado, olhando pro nada, mas com a cabeça cheia de pensamentos. Quando minha porta foi aberta mais uma vez, dessa vez pelo meu pai.

- Dougie? Tá acordado ainda? – ele perguntou e eu assenti, me sentando na cama. Ele parecia cansado, mas tinha um enorme sorriso no rosto.
- A festa foi ótima, né? – ele perguntou, puxando a minha cadeira da escrivaninha até a cama e se sentando em frente a mim. Sem nem me deixar responder, ele continuou. – Hoje mais cedo eu e a Meg entramos num acordo sobre o casamento.
- Que acordo? – eu perguntei, e ele pareceu ainda mais animado.
- Chegamos à conclusão de que se fizéssemos o casamento em Londres, teríamos que convidar quase a cidade inteira, e como nós dois queremos algo mais reservado, decidimos realizar a cerimônia na França!
Eu arregalei os olhos, assustado.
- Na França? – perguntei, e ele riu.
- A Meg já tem em vista o lugar da festa, e vai ser bem melhor, pois assim só convidaremos quem realmente interessa. – ele disse, e eu dei de ombros. Seria diferente. – Ainda não temos certeza da data, mas pretendemos que seja dia 30 de setembro.
Agora sim eu me assustei. Estávamos no dia 2 de setembro, e cara, faltava menos de um mês!
- Pai, faltam 28 dias pra essa data! – eu respondi, e ele assentiu.
- Como eu já disse, nós queremos uma coisa mais íntima, então é só darmos uns telefonemas e tudo estará perfeito pra data.
Eu estava abismado, sabe. Meu pai estava mesmo apaixonado, decidir de repente assim? Acho que ele percebeu meu espanto, e riu.
- Não se preocupe filho, vai ser tudo ótimo! – ele disse, e eu sorri amarelo, pra pelo menos parecer animado. Sei lá porque, mas aquela noite tinha me deixado com estranhas sensações – E ainda falta a melhor parte! Meg e eu fizemos reservas pra nós dois, você e a para uma semana no France Plaza, um hotel 5 estrelas incrível no litoral francês, e vamos pra lá pra fazer um tipo de preparação para o casamento.
É, agora estava comprovado que meu pai tava ficando louco. Cara, preparação pro casamento? Quem faz uma coisa dessas? Pelo menos eu ia ganhar com isso, né, uma semana em um hotel 5 estrelas na praia, ia ser legal. Mas uma coisa me preocupava lá no fundo, mesmo que eu nem percebesse. estaria lá também. Ela estaria em todos os lugares agora, ela ia se tornar minha IRMÃ. My Gosh, eu ainda ficava doido.
- Legal, pai. Bem legal. – foi só o que eu consegui dizer, mas ele nem parecia se abalar de tão feliz. Me deu boa noite e saiu do quarto, me deixando mais uma vez naquela escuridão. Me deitei mais uma vez e tentei dormir, o que não foi fácil. Afinal, um pensamento não saía da minha cabeça. Preciso dizer o que?

Capítulo 8 – “The way you act I just can’t comprehend.”

Matthew Poynter e Margareth
lhe convidam para a cerimônia de seu casamento,
que ocorrerá no dia 30 de Setembro, às 20 horas,
no Hotel Fascinalité, em Paris, França.

Eu estava jogada na cama do meu quarto, lendo pela quadragésima sétima vez o convite do casamento da mamãe. Era tão, sei lá, estranho. Eu passei tanto tempo acostumada a sermos só eu e ela, e agora um homem ia entrar nas nossas vidas de vez. E esse homem trazia outro, que era realmente o meu motivo de preocupação. Já haviam se passado duas semanas desde o ocorrido no quarto do Poynter, e desde então a gente mal tinha se falado. No máximo alguns comentários e instruções na aula de química, mas nada além disso. O que aconteceu, ou quase aconteceu no quarto dele me deixou confusa, muito confusa. Eu não sabia o que sentir, o que pensar. Então decidi deixar tudo de lado e evitá-lo, seria bem mais fácil. Bom, pelo menos eu achava isso, porque ficar longe dele me fez refletir ainda mais sobre os meus sentimentos em relação a ele. Mas eu cheguei a uma conclusão, a de que foi tudo um momento de sensibilidade minha, e ele deveria estar bem carente. Afinal, a gente nem chegou a se beijar! Nem sei porque eu tinha ficado tão nervosa com aquele fato, não foi nada! Anyway, eu teria que aguentá-lo durante toda essa semana num hotel, e depois pro resto da minha vida. Simples, não? Tá, não é simples, nem um pouco, mas eu tô tentando dar um toque de otimismo para a minha vida pós-Poynter. Olhando pelo lado bom, eu poderia aprimorar minhas técnicas de ignorá-lo e isso seria até que divertido. Gosh, a quem eu estou enganando? Eu tô quase tendo um filho (?) de tão nervosa que estou, e isso não é muito legal, sabe. Ouvi minha mãe me chamar dizendo que tinha visita, e em segundos , e entravam pela minha porta, se jogando na minha cama.
- Que desânimo é esse, amiga? – perguntou , e eu dei de ombros.
- O que você acha? – eu perguntei, e ela revirou os olhos.
- Qualé , eu achei que você já tinha se conformado com o casamento.
- E eu me conformei! Só não é muito fácil aceitar que aquele idiota do Poynter vem no pacote. – eu disse, e todas riram.
- Ai , qualquer garota daria uma perna pra estar no seu lugar. Fala sério, ter um irmão tão Hot quanto Dougie Poynter? – comentou , com um olhar pervertido.
- Engraçado como você não fala isso perto do Jones, né ? – eu disse, e ela pensou um pouco, dando de ombros e rindo em seguida. Sabe como é, toda aquela proximidade de colegas de laboratório resultou em namorando Danny Jones. Isso mesmo, namorando! Assim como a tava saindo com o Fletcher e a com o Judd. Incrível a facilidade delas pra arranjar garotos gatos, né? Pois é.
- Eles têm noção de que o Poynter é o cara mais cobiçado da escola, por que nós seríamos diferentes? – perguntou , e eu arqueei as sobrancelhas.
- Não deve ser muito legal saber que a sua namorada paga um pau violento pro seu melhor amigo. – eu disse, e concordou.
- É por isso mesmo que o Tom nunca vai saber que eu acho o Poynter gato. Até porque, mesmo o Poynter sendo gato, eu prefiro o Tom. – ela disse, e eu pulei nela, apertando suas bochechas.
- OHN, TÁ APAIXONADA! TÁ APAIXONADA! – cantaram e , e eu olhei pra elas, revirando os olhos.
- Não falem dela, vocês também estão louquinhas pelos garotos. – eu disse, e as duas coraram. Após alguns segundos nós quatro caímos na risada, e ficamos assim por longos instantes. Quando eu já estava vermelha de tanto rir minha mãe chegou até a porta dizendo que já ia dormir, e as garotas foram embora, todas me desejando boa sorte e que fosse tudo muito legal. Eu queria que elas fossem pelo menos ao casamento, mas elas não quiseram e tals, então vai dar só eu e Dougie Poynter lá, realmente emocionante. De qualquer forma, fui deitar, e até que dormi logo. Mas eram 10 da manhã quando a minha mãe me acordou, tão elétrica quanto no dia da festa de noivado. Ela me fez levantar e terminar de arrumar a minha mala, que já estava mais ou menos arrumada. Quer dizer, arrumadas, afinal eu ia ficar durante uma semana em um resort 5 estrelas, precisava levar tudo de legal que tinha no armário. Então a bagagem acabou se excedendo um pouquinho. Anyway, ela usou a tarde pra cuidar dos últimos detalhes da viagem, e quando eram 5 da tarde o motorista do Matthew veio nos buscar para irmos até o aeroporto. Soquei todas as minhas malas dentro do porta-malas do carro e fomos até o aeroporto, entrando por uma porta especial. E quando nós chegamos no meio da pista de embarque e desembarque, o que eu vejo? Um jatinho. Ah, como é legal ter um padrasto podre de rico, né? Não precisamos nem de check-in, nem de filas imensas pra entrar no avião, nem atrasos. Eles pegaram as minhas malas e as da mamãe e colocaram no compartimento de bagagem do jatinho, e nós subimos nele logo em seguida. Já disse que é super legal entrar em um jatinho? Então, é! Entrando nele, pro lado esquerdo tinha a cabine do piloto, e do lado direito nós entrávamos no jato propriamente dito. O chão era de carpete bege, super bonito, e havia uma mesinha com seis cadeiras dobráveis, além de quatro duplas de cadeiras, duas de cada lado, mas meio afastadas. Eu fui super animada sentar, quando percebi no que tinha me metido. Em um dos bancos estava sentado Matthew, e minha mãe foi logo se sentar ao lado dele. Na outra havia um cara desconhecido falando no celular, e na outra haviam caixas empilhadas, sei lá do que eram. Portanto, sobrava uma dupla de poltronas, das quais uma já estava ocupada. Preciso mesmo dizer por quem? Era muito azar mesmo!

- Com licença. – eu disse apenas, jogando um moleton preto que estava sobre o banco no colo do Poynter e me sentando em seguida. Na verdade, ele nem se mexeu e continuou lendo uma revista. Quer dizer, não era UMA revista, era A revista! Rolling Stone, especial dos Beatles! A já tinha lido e disse que tava super legal, com várias coisas secretas sobre os Beatles e tal, mas eu não tive tempo de comprar, e ele tava lá lendo. Eu tentei ver alguma coisa pelo cantinho da página mas não adiantava, o Poynter parecia concentrado demais na leitura. Eu bufei, peguei meu iPod na bolsa e coloquei algo do Jason Mraz pra tocar, tentando relaxar. Mais uns 10 minutos e ele fechou a revista, me olhando discretamente, mas eu fingi que não via. Ele deu de ombros e foi guardar a revista, mas antes que ele o fizesse eu não resisti:
- Erm, Poynter? Me empresta a revista? – eu perguntei, desligando meu iPod. Ele me olhou, arqueando as sobrancelhas, e levantou a revista.
- Vai parar de me evitar? – ele perguntou, e eu gelei. Então ele tinha percebido que eu o estava evitando? My God, o que eu faço? Ele ficou me olhando com aquela cara de advogado do diabo (?) que ele faz e eu fiquei toda nervosa. E quando a gente tá contra a parede, qual é a melhor saída? Negar tudo, é claro.
- Eu não estava te evitando. – eu disse, e ele riu.
- Claro, e ficar duas semanas sem nem olhar na minha cara direito não é evitar? – ele perguntou, e eu hesitei em responder. Que droga, porque ele tinha esse poder sobre mim?
- Nós não somos os melhores amigos do mundo pra nos falarmos todo dia, Poynter. – eu disse, e ele rebateu imediatamente:
- Você sabe que não é disso que eu tô falando.
Oi, gelei de novo. Mas cara, o que ele queria que eu respondesse? ‘Eu fiquei atordoada com o quase-beijo e decidi não falar mais com você?’. Por favor, né. Eu fiquei tanto tempo pensando no que falar que o Poynter ficou meio impaciente, e voltou a falar.
- Olha , querendo ou não nós seremos da mesma família agora, então não dá mais pra ficar de frescura, entende? – ele perguntou, e eu arqueei as sobrancelhas.
- Frescura? Eu não tô de frescura, Poynter! – eu tentei me defender, mas sabia que não adiantaria. Ele me olhou como se dizendo ‘você não me engana, garota’, e eu dei de ombros – Pode ter certeza que eu sei exatamente como as coisas vão ser daqui pra frente, mas enquanto o casamento não acontece eu não sou obrigada a ser boazinha com você. Então, dá pra me passar a revista, maninho, ou ta difícil?
Ele revirou os olhos e me entregou a revista, se levantando em seguida. Não faço idéia de onde ele foi, e não tava nem aí. Abri a revista e li, tipo assim, ela inteira em 15 minutos. Quando eu tô interessada eu leio em uma velocidade incrível, sem noção! Depois de uma febre de Paul McCartney, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison, entreguei a revista de volta pro Poynter, que já havia voltado e comia bombons de chocolate, os quais tinham uma cara incrível. Meu estômago deu uma volta, eu não comia desde o almoço e sabe, tenho um vício incontrolável por chocolate. Tentei não sentir o cheiro daquilo, mas era impossível, e eu comecei a ficar desesperada de vê-lo comendo. E acho que ele percebeu, pois começou a rir.
- Pode pedir se quiser, , eu não vou te bater por isso. – ele disse, e eu fingi desinteresse.
- Não quero, Poynter. Vou engordar. – Gosh, que argumento foi esse? Se tem uma coisa que eu não deixo de fazer por nada é comer chocolate, mesmo que isso me fizesse ser a garota mais gorda do mundo. Só sei que a risada dele aumentou.
- Por favor, , não tente me enganar. Desde quando você precisa emagrecer? Olha só pra você! – ele disse, e eu corei. Ele pareceu perceber que tinha falado demais, mas até parece que Dougie Poynter demonstra vergonha. Continuou rindo. Eu revirei os olhos e peguei a caixa da mão dele, colocando um bombom na boca. E cara, como aquilo era bom!
- Puta que pariu Poynter, de onde você tirou esses bombons? – eu disse, pegando mais um e quase morrendo com aquilo na boca. Na boa, nunca tinha comido uma coisa tão gostosa! Ele riu e pegou mais um.
- Chocolates Suíços. – ele disse, pegando a tampa da caixa e me mostrando. Havia um pescoço de mulher com um homem mordendo-o de leve, e ao lado o nome do chocolate, que segundo o Poynter significava ‘Desejo Ardente’. - Bem sugestivo. – eu disse, e nós dois rimos. Mas quando olhamos pra caixa, só tinha mais um. Eu olhava pro bombom, o bombom me olhava, eu olhava pro Poynter, o Poynter olhava pro bombom, o bombom olhava pra Poynter e ele me olhava. Anyway, ficamos assim por um tempo, até que eu fui mais rápida e o peguei. Quando ia morder, o Poynter me olhou com uma cara de cachorro sem dono que cara, eu quase surtei. Muito fofo MESMO! Mas enfim, eu revirei os olhos e dei uma mordida bem no meio, dando a outra metade pro Poynter, que sorriu como uma criança. Uma graça!
- Orgasmo mental achocolatado. – nós dois dissemos ao mesmo tempo, e caímos na risada imediatamente. Quase morri de vergonha de ter falado aquilo pra ele, mas como eu disse, Dougie Poynter faz com que tudo pareça perfeitamente natural, então deixei pra lá. Nós ainda ríamos quando Matthew foi até nós.
- Peguem suas coisas, queridos, já chegamos.
Já disse que a Inglaterra é muito perto da França? Pois é, um pulo e já estávamos lá. Peguei minhas coisas e desci do jato, sendo acompanhada pelo Poynter. Minha mãe e o Matthew já estavam lá em baixo, conversando com o piloto. Mais uns 15 minutos e saímos da pista de desembarque em direção ao tal resort, que ficava em uma praia particular bastante famosa. Já era tarde e estava frio, mas o céu estava limpo e até poderia fazer sol no dia seguinte. Não aquele sol do Brasil, né, já deve fazer três anos que eu não vejo um sol daquele, mas pelo menos um sol que dê pra nadar um pouco. Afinal, não tem graça ficar num resort sem poder nadar. É, talvez essa semana poderia ser divertida.

****

A viagem tinha sido legal, after all. Mas eu ainda me sentia meio engraçado perto dela. Certo que foi ela quem me evitou por 2 semanas, mas eu não posso negar que também tinha ficado incomodado com o que acontecera no meu quarto aquele dia. De qualquer jeito era melhor esquecer tudo e começar de novo, e em grande estilo, já que assim que chegamos ao tal resort dava pra perceber que ele realmente merecia as tais 5 estrelas. Era tudo muito grande e luxuoso, bem legal. Fomos até a recepção e a mulher de lá mandou um carinha nos levar até nossos quartos. Como o quarto do meu pai e da Meg ficava num andar diferente do meu e da , ele os levou primeiro, e enquanto isso eu fui buscar algo pra nós bebermos, afinal aquele chocolate me deixou com sede de verdade. Fui até um barzinho que ficava em um grande salão ao lado da recepção e comprei duas garrafinhas de água, mas quando voltei o que eu vejo? A toda se engraçando pra cima do carinha, que já tinha voltado pra nos levar até os nossos quartos. Não me pergunte o por quê, mas ver aquilo me irritou. O cara não chegava nem aos meus pés, e ela ficava toda cheia de risinhos pra cima dele? Revirei os olhos e fui caminhando até eles, tendo uma súbita idéia maligna.
- Aqui está sua água, amor. – eu disse, entregando a água pra e a abraçando por trás, olhando pro cara que parecia ter sido atingido por uma bola de futebol no momento – Quem é o seu novo amiguinho?
Ela me olhou do jeito que podia, com uma feição assassina. Eu sorri irônico e ela se soltou de mim, murmurando:
- Tá louco, é Poynter?
Mas quando ela virou pra falar com o cara de novo, ele já estava carregando algumas de nossas malas e nos pediu para que o seguíssemos, já entrando no elevador. Ela me olhou tão assassina que eu juro que fiquei com medo, cara! Mas tudo bem, aquilo tinha sido divertido. Ela ainda tentou manter uma conversa com o cara, mas ele era monossilábico. Assim que chegamos aos nossos quartos, que eram um ao lado do outro, ele nos deu boa noite e saiu rapidamente dali, nos deixando às sós no corredor.
- O que foi aquilo, Poynter? – ela me perguntou, tentando se controlar, mas quase pulando no meu pescoço. Eu me encostei na beira da porta do meu quarto e dobrei os braços, dando de ombros.
- Não fui com a cara do idiota. – eu disse, e ela bufou. Chegou mais perto de mim e me deu uma bolsada no braço. Já levaram uma bolsada no braço? Se não, tentem nunca levar. Dói.
- VOCÊ É O SER MAIS RIDÍCULO DA FACE DA TERRA, POYNTER! – ela gritou, pegando suas malas e batendo com tudo a porta de seu quarto. Eu ri, afinal a situação era engraçada. A não ser pelo fato de eu não fazer a mínima idéia do por quê de eu ter feito aquilo, mas tudo bem. Peguei minhas coisas e entrei no meu quarto, que era bastante espaçoso. Tinha uma grande cama de casal no meio, com uma mesinha de cabeceira, um frigobar e uma televisão razoavelmente grande. Um grande armário embutido e uma porta que dava no banheiro, que era espaçoso. Além da sacada, que dava uma bela visão da piscina e da praia. Olhei para os lados e todas as luzes já estavam apagadas, a não ser a do meu lado esquerdo. Claro, era o quarto da , e ela ainda deveria estar morrendo de ódio de mim. Fala sério, ela estava me devendo essa pelo que fez com a Olívia. Anyway, amanhã seria outro dia, por isso não hesitei em me jogar na cama e dormir. Seria uma semana cheia.

Capítulo 9 – “Cause she’s bittersweet, she knocks me off of my feet.”

Acordei naquele dia com uma luz não muito forte vindo da sacada. Tinha dormido bem, apesar de todo o ódio que estava do Poynter. Cara, aquele garoto é muito idiota. Até agora eu não entendo porque ele tinha feito aquilo com o gatinho das malas. Tudo bem que ele nem era tão maravilhoso assim, e chegou com umas cantadinhas meio bregas e tals, mas o Poynter não tinha direito! Anyway, eu ainda vou me vingar! Me levantei, lavei o rosto, coloquei um short jeans, uma blusa de ombro caído branca e um chinelo da mesma cor, amarrei os cabelos e saí do quarto, descendo pro restaurante onde havia o café da manhã. Quer dizer, deveria ter tido, já que o lugar estava vazio. Devia ser tarde. Como não tinha café pra mim, eu fui andando mais um pouco pelo hotel, e cheguei a um outro salão, um pouco menor, onde havia um balcão que estava quase vazio no momento. A não ser por duas pessoas que estavam sentadas nos banquinhos em frente a ele. Poynter e uma loira. Hora perfeita pra vingança, certo?
- Dougie, meu querido. – eu disse, indo até lá e interrompendo uma animada conversa entre os dois. A garota me olhou estranho e ele logo tratou de me apresentar.
- Brittany, essa é minha irmã, . – ele disse, sorrindo triunfante, provavelmente imaginando que eu faria o mesmo que ele tinha feito no outro dia. Tolinho... a vingança seria maligna!
- Muito prazer, Brittany. – eu disse, e ela sorriu. Era bem bonita, na verdade, mesmo parecendo um pouco patricinha demais. Mas enfim – Dougie, como o ótimo irmão que você é, será que você poderia pegar alguma coisa pra eu comer? Sabe, o café já foi recolhido e eu estou morrendo de fome! Ele me olhou desdenhoso, e eu sorri.
- Eu estou meio ocupado, maninha. – ele disse, tentando parecer simpático, enquanto a tal Brittany só olhava. Eu ri de leve.
- Eu faço companhia pra sua nova amiguinha, maninho, pode deixar. – eu respondi, e ele ia negar mais uma vez, mas ela se pronunciou.
- Pode ir, Dougie, eu te espero aqui. – ela disse, e ele deu de ombros, saindo atrás de comida me olhando mortalmente, e eu só sorria. Enquanto ele saía do lugar, eu pude perceber Brittany olhando descaradamente pra bunda do Poynter, a qual eu tenho que assumir que era bem decente. Anyway, tava na hora de botar a vingança em prática.

- Ele é gostoso, né? – eu comentei, me sentando no banquinho onde ele estava anteriormente, fingindo estar quase babando na bunda dele. Brittany me olhou assombrada, e eu ri – Calma, querida, eu não sou uma tarada por irmãos! Na verdade, ele nem é meu irmão de verdade.
- Não? – ela perguntou, arqueando as sobrancelhas. Eu neguei.
- Não, minha mãe é que vai se casar com o pai dele, sabe. Na verdade eu o conheço faz muitos anos já. E o conheço muito bem, se é que você entende o que eu quero dizer. – eu disse, com um olhar pervertido.
- Ah é? – ela perguntou, baixinho, e eu continuei:
- É. Mas fique tranquila, eu não tenho mais nada com ele. E ele pareceu bem interessado em você. – eu comentei, e os olhos dela brilharam.
- Você acha? – ela perguntou, e eu assenti, fazendo a maior pose de fofoqueira que consegui.
- Claro! – eu disse animada, mas logo fechei a cara – Só não sei se seria legal desperdiçar toda a sua beleza com o Dougie, né...
Ela me olhou assustada mais uma vez.
- Por que você diz isso?
Eu cheguei mais perto dela e fiz uma cara de é-top-secret-mas-eu-conto.
- Sabe como é, o Dougie é super fofo, lindo, engraçado e fit, mas nem tudo é perfeito nessa vida. Ele tem, erm, um pequeno probleminha.
- Qual probleminha? – ela perguntou, morrendo de curiosidade. Eu olhei pros lados, fingindo estar preocupada de alguém ver, e estendi meu dedão e o dedo indicador, demonstrando uma coisa bem pequena, esperando que ela entendesse o que eu queria dizer. E ela entendeu, pois logo depois abriu a boca, incrédula.
- Jura? – ela perguntou, e eu assenti.
- Mas se fosse só isso, tudo bem, nem todos os homens são obrigados a ter o... erm... documento grande. Acontece que... – eu disse, estendendo o dedo indicador e abaixando-o levemente, e ela quase morreu de susto. Eu ria por dentro, na boa. A garota parecia ser legal, mas eu estava fazendo um favor a ela impedindo que o Poynter ficasse com ela e depois jogasse fora, não estava? Então. Ela ficou sem fala por uns instantes, até que a voz saiu fraca.
- Ele é tão lindo, como pode ser... assim? – ela perguntou, e eu dei de ombros, com cara de pena.
- Pra ser sincera, eu e minhas amigas tínhamos uma dúvida sobre ele ser homem, já que nem filme pornô parece levantar aquilo direito. – eu disse, e ela continuou chocada – Mas se você quiser arriscar, amiga, tudo bem! Afinal, ele é super fofo de verdade. Só estou te dando um conselho, de quem já experimentou.
Ela ficou completamente sem fala, enquanto eu segurava o riso. Mas a cara dela piorou quando o Poynter estava voltando, trazendo um copo de café e um pacotinho de biscoitos pra mim. Ela olhou de relance para as partes íntimas dele e abaixou a cabeça, nervosa.
- Aqui está seu café, maninha. – ele disse, hostil. Eu sorri radiante.
- Obrigada querido. Quer tomar café comigo? A Brittany pode vir, é claro. – eu disse, e a garota pareceu acordar, olhando para nós dois assustada. Ele sorriu para a garota, que sorriu amarelo.
- Na verdade eu preciso ir. Tenho que terminar de arrumar minhas coisas, nós vamos embora hoje à noite. – ela disse, levantando-se nervosa – Foi muito bom conhecer vocês, ok? Até mais.
Ela saiu quase correndo dali, deixando o Poynter completamente desnorteado. Ele observou-a meio que querendo ir atrás, e quando olhou pra mim, eu sorri e tomei um gole do café, e a feição dele passou de confuso pra extremamente irritado.

- O que você fez, ? – ele perguntou, respirando fundo pra não me bater. Mas não adiantava, eu não ia tirar o meu sorriso triunfante do rosto. Que ele morresse de ódio, estava sendo divertido.
- O que é isso, Poynter, eu não fiz nada! – eu disse, pegando meu café e meus biscoitos e me levantando do banquinho, chegando bem perto dele – Acontece que nenhuma mulher gosta de homem broxa.
Sorri escandalosamente e saí andando, podendo sentir o ódio dele me seguir até a porta do salão, quando eu olhei pra trás e o encontrei vermelho de tanto segurar raiva. Mandei um beijinho pra ele e saí correndo antes que ele explodisse e me espancasse ali mesmo. Eu sei que vingança é uma coisa feia, mas é tão prazeroso que eu nem te conto, hein. Estávamos quites.

****

Entrei no meu quarto e bati a porta com tudo, correndo até o banheiro e metendo a cara na água fria. Precisava me acalmar antes que houvesse pedacinhos de Dougie Poynter jogados pra todos os lados. Afinal, QUEM não explodiria de raiva de uma garota nojenta como a ? A garota tava na minha mão e ela simplesmente destrói tudo? E o pior, ela disse pra Brittany que eu BROXO! Pelo amor de Deus, Dougie Poynter BROXANDO? Calúnia, difamação! Mas é claro, ela queria se vingar pelo que eu fiz ontem à noite, mas precisava me difamar assim? Não é possível, cara. Fiquei no quarto por mais algum tempo, até que o relógio bateu onze horas, e eu desci. Meu pai tinha me chamado pra passar um ‘dia de homem’ com ele, já que a Meg e a iam fazer o mesmo, no spa do resort. Chegando na piscina encontrei com ele, todo animado. Incrível como a Meg fazia ele ficar sempre animado. Nós fomos até um lugar meio afastado do hotel, que dizia-se um spa pra homens. Em meia hora estávamos nós dois deitados em duas macas enquanto duas japonesas moíam as nossas costas, e eu assumo que tava sendo MUITO bom, já que os meus ombros pareciam mais duas pedras.
- Nossa filho, que nervo todo é esse? – meu pai me perguntou, observando que a japonesa quase quebrava o dedo tentando relaxar meus ombros.
- Nada pai. – ele me olhou com aquela cara de que não se convenceu, sabe? Então eu disse a verdade – Acontece que ser irmão da é mais complicado do que eu imaginava.
Ele riu.
- É verdade, eu esqueci de te perguntar que negócio é esse de vocês já se conhecerem. – ele disse, e eu dei de ombros.
- Ela entrou na escola no ano que eu fui pra New York, e nos conhecemos esse ano, já que ela se tornou minha parceira de laboratório. Porém a nossa convivência não é das mais amigáveis do mundo. – eu disse, e ele riu mais uma vez.
- Pois eu e a Meg temos uma diferente opinião sobre vocês. – ele comentou, e eu o encarei, confuso. Ele sorriu enigmático e levantou-se da maca, dizendo que ia pra hidromassagem. Preciso dizer que não entendi nada? Então.

****

Eu estava deitada em uma daquelas mesas de massagem, enquanto uma mulher massageava com força minhas costas, e era muito gostoso! Sério, eu poderia ficar o dia inteiro ali sem me cansar, ainda mais porque estava me sentindo muito bem após a minha pequena vingança. Ele deveria estar morrendo de raiva de mim, mas eu só sabia rir. Afinal, ele ficar se engraçando pra cima daquela loira não teve a menor graça, sabe? Mas enfim, tinha sido legal de qualquer jeito, e eu estava sorrindo aos quatro ventos. E acho que a minha mãe percebeu isso, já que ouvi a voz dela vindo da mesa ao lado.
- Que felicidade toda é essa, filha?
Eu me virei pra ela e dei de ombros.
- Nada mãe, só acordei animada.
Tá, preciso dizer que ela não acreditou? Bem que dizem que mãe é mãe, e que conhecem os filhos melhor que qualquer coisa. Ela me olhou toda desconfiada, e eu tive que falar a verdade, né.
- É engraçado fazer o Poynter perder uma das suas inúmeras conquistas. – eu disse, e ela arqueou as sobrancelhas.
- Você fez isso? – ela perguntou, e eu ri de leve.
- Nada que ele não tenha feito antes.
Ela riu.
- Essa implicância de vocês dois... – ela comentou, e eu a olhei, confusa.
- O que você quer insinuar com isso, mãe? – eu perguntei, e ela me olhou, toda misteriosa.
- Nada, querida. Nada. – ela disse, e antes que eu pudesse perguntar mais uma mulher entrou na sala e a chamou para a sala da lama, me deixando sozinha com aquelas divagações. Minha mãe é meio doida de vez em quando, né.

Capítulo 10 – “Give me your heart, make it real, or else forget about it.”

(põe pra carregar esta música!)

Mais um dia se passou e tipo, eu estava entediada. Só chovia, então não dava pra fazer quase nada, como nadar e andar pela praia. Por isso a gente ficava morgando o dia inteiro no quarto ou no salão de jogos. Mas naquele dia, felizmente, haveria uma festa no salão, um tipo de coquetel dançante, sabe? Ia pelo menos matar um pouco do tédio, além do que eu adoro dançar. Demais mesmo, sei dançar qualquer música que você pense, de verdade. O problema sempre é arranjar parceiros, afinal são poucos os homens que sabem dançar de verdade. Minha mãe disse que o Matthew é o maior pé de valsa, mas eles não vão na festa, então dá na mesma. Hoje à tarde eles embarcaram num tour pelas praias do litoral francês, apenas pra casais. Já deu pra imaginar o que vai acontecer, certo? Eu e o Poynter ficaremos sozinhos nesse lugar até quinta feira. Eu devo ter atirado pedra na cruz, só pode. Anyway, já estava na hora da festa e eu coloquei um vestido estampado de cinza e roxo de frente única, com a saia meio rodada e curta, um scarpin redondo roxo e uma tiara da mesma cor na cabeça. Desci para o salão, que estava relativamente cheio, com um bolero tocando, e vários casais mais velhos dançando no meio da pista, enquanto os outros bebiam, comiam e conversavam. E eu me senti completamente deslocada. Fui até o balcão e me sentei em um dos banquinhos, pedindo um Martini. Não que eu fosse de beber, mas não tinha nada melhor pra fazer mesmo. O garçom me olhou com uma tentativa de cara sedutora que eu tive que me segurar pra não rir. Ele era tão feio, meu Deus! Mas coitado, não escolheu ser assim, então eu só sorri levemente e me virei pra observar a pista de dança, enquanto bebia devagar. E não demorou muito tempo pra que eu ouvisse aquela voz tão conhecida no meu ouvido.
- Você não tem cara de quem bebe.
Nem me incomodei em me virar, afinal eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
- Incrível o que o tédio faz com as pessoas, não? – eu comentei, e ele continuou lá, parado atrás de mim, perigosamente perto.
- Sabe dançar, ? – ele perguntou, e eu me virei pra ele. O baque foi inevitável, pois ele estava incrivelmente bonito, mas isso a gente nem comenta. Voltando, eu me virei pra ele, que me olhava implacável.
- Você está realmente perguntando a uma brasileira se ela sabe dançar? – eu disse, e ele riu.
- É, eu tinha esquecido desse detalhe. Mas só porque as brasileiras têm fama de serem boas dançarinas, não quer dizer que isso se aplique a todas. – ele disse, sorrindo daquele jeito, como se me desafiasse. Eu arqueei as sobrancelhas.
- Você está duvidando que eu sei dançar? – eu perguntei, e ele deu de ombros, rindo de leve. Eu abri a boca pra falar, mas nada saía. Até que eu tive uma idéia – Eu me garanto, meu bem, só não sei você, né?
Ele me olhou e riu com o canto da boca, pegando meu Martini e bebendo o resto que havia na taça, deixando-a em cima do balcão e se inclinando, estendendo sua mão pra mim. Eu não hesitei em ceder-lhe a minha, afinal ele estava com aquele sorriso superior mais uma vez. Incrível como quando ele faz isso eu não consigo me controlar e sempre quero provar que ele não é melhor que eu. É inevitável. Nós fomos até a pista de dança, quando uma música mais animada começou a tocar, o que fez com que grande parte dos casais parassem de dançar e, consequentemente, que nós ficássemos quase sozinhos na pista. Mas eu não ligava, afinal não conseguia fazer mais nada do que encarar o Poynter e seu sorriso idiota, que me fazia ter vontade de olhá-lo pra sempre. Deve ser esse o detalhe que faz com que todas as garotas se derretam por ele. Mas, por sorte, eu era muito mais forte que isso. Começamos a nos mover lentamente, só aquele básico dois pra lá e dois pra cá, mas já dava pra perceber que o Poynter era muito bom naquilo, pelo jeito que ele se mexia e pela força e ao mesmo tempo delicadeza que ele segurava a minha cintura.

Man it’s a hot one
Like seven inches from the midday sun
I hear you whisper and the words melt everyone
But you stay so cool
My muñequita, my Spanish harlem monalisa
Your my reason for reason
The step in my groove

And if you say this life ain’t good enough
I would give my world to lift you up
I could change my life to better suit your mood
Cause you’re so smooth

O Poynter começou a dar uns passos mais rápidos e elaborados, e eu dava o melhor de mim pra acompanhá-lo perfeitamente. Tenho que admitir que há tempos não dançava de um modo tão bom quanto aquele.

And just like the ocean under the moon
Well that’s the same as the emotion that I get from you
You got the kind of lovin’ that can be so smooth
Give me your heart, make it real
Or else forget about it

Voltamos aos movimentos mais suaves, mas mesmo assim mais rápidos. Eu tinha a cabeça bem perto do pescoço dele, e aquele perfume cítrico tentava tirar a minha concentração de qualquer forma.

I’ll tell you one thing
If you would leave it would be a crying shame
In every breath and every word I hear your name calling me out
Out from the barrio, you hear my rhythm on your radio
You feel the turning of the world so soft and slow
Turning you round and round

And if you say this life ain’t good enough
I would give my world to lift you up
I could change my life to better suit your mood
Cause you’re so smooth

Ele me olhou profundamente, sorrindo com o canto da boca, e eu retribui da mesma forma, enquanto dávamos passos fortes pra frente e pra trás, e assim ele me girou várias vezes, me segurando com força após os giros, fazendo que nós nos aproximássemos ainda mais, se é que isso era possível.

And just like the ocean under the moon
Well that’s the same emotion that I get from you
You got the kind of lovin’ that can be so smooth
Give me your heart, make it real
Or else forget about it

Alguém jogou uma rosa na nossa direção, pois do nada a flor apareceu e eu a peguei, vendo o Poynter revirar os olhos, divertido, meio que dizendo “Tão clichê.”. Eu ri de leve, afinal, clichê às vezes é bom. Cheirei a rosa de leve, sentindo um perfume incrível, e o fiz abrir a boca, colocando a rosa lá, como naqueles filmes de tango. Sempre quis fazer isso, cara!

And just like the ocean under the moon
Well that’s the same emotion that I get from you
You got the kind of lovin’ that can be so smooth
Give me your heart, make it real
Or else forget about it

Ele me girou mais várias vezes e no fim me jogou pra trás, se inclinando sobre mim. Chegou levemente seu rosto perto do meu e uniu nossos lábios, transferindo a rosa da boca dele para a minha, e me levantando novamente, quando a música acabou e todos no salão começaram a aplaudir. Eu tirei a rosa da boca e ri envergonhada, assim como ele. Tinha sido uma coisa boa, estranha, mas muito boa.

****

Não me pergunte o que tinha dado em mim naquela dança, porque eu não faço a menor ideia. Só sei que quando vi já estava lá, dançando com a . Eu gosto de dançar. Qualquer coisa, principalmente músicas que dá pra dançar de dupla, sabe como é. E ela também dançava muito bem, como fazia tempo que eu não dançava. Assim que a música acabou, nós saímos da pista de dança e todos olhavam para nós. Então fomos até o lado de fora, pra fugir dos olhares irritantes, onde havia umas mesinhas em volta do chafariz iluminado no centro. Fazia um pouco de frio, mas não chovia.
- Tenho que admitir que você se encaixa no perfil das brasileiras dançantes, . – eu comentei, e ela riu, sentando-se na beirada do chafariz.
- Eu disse, não disse? Anyway, você também não dança mal, Poynter. – eu ri e me sentei ao lado dela. Nós ficamos em silêncio por uns instantes, até que o celular dela começou a tocar, com uma música do Plain White T’s.
- Alô? – ela atendeu, e ficou em silêncio por um tempo, só escutando, com uma feição divertida no rosto. – Sim, eu tô bem . Aham, tá tudo certo, eu e o Poynter ainda não nos matamos. Relaxa amiga, eu sei me defender. Tá. Menos, , menos! Erm, ok. Até mais, amiga, te amo! Ah, e manda um beijo pro Judd também. Bye.
Ela desligou o celular e começou a rir, enquanto eu a encarava confuso.
- Beijo pro Judd? – eu perguntei, e ela assentiu.
- Ela tentou fingir que estava sozinha, mas eu pude ouvir a voz dele ao fundo falando algo sobre nós dois termos nos matado. – ela comentou, rindo, e eu arqueei as sobrancelhas.
- e Judd? Interessante. – eu comentei, afinal eles tinham saído um dia, mas eu não sabia se ia dar certo, já que os dois são bastante stressados e talvez não ficassem mais de 5 minutos sem brigar. Mas pelo jeito estava tudo dando certo.
- Pois é, assim como e Jones e e Fletcher. Casais engraçados. – ela comentou, brincando com a tal rosa nas mãos, fazendo uma carinha de criança. Juro, ela estava linda daquele jeito.

- Parece que só sobramos nós dois. – eu comentei, e ela se virou pra mim, ainda com aquela cara de criança, mordendo os lábios. A vontade de agarrá-la ali mesmo era quase incontrolável, mas diferente das outras garotas, eu não tinha vontade de jogá-la na parede e agarrá-la como conseguisse, mas sim de abraçá-la e beijá-la com carinho. Pode parecer gay falando assim, mas era exatamente como eu me sentia, e, depois de conhecer a , a verdade sobre meus sentimentos começou a sair de uma forma inexplicável. De qualquer jeito, eu tentava me concentrar e manter a mente vazia. Mesmo que isso fosse quase impossível.
- Dougie Poynter sobrando? Me poupe, né. – ela comentou, rindo e voltando a brincar com a rosa. Arqueei as sobrancelhas.
- O que você quer dizer com isso? – perguntei, e ela deu de ombros, me olhando.
- Qualé Poynter, você é o garoto mais ‘eu-sou-gostoso-e-ninguém-pode-comigo’ do mundo, quer que eu acredite nessa sua carinha de carente? – ela perguntou, e eu dei de ombros, olhando pro céu. Nós ficamos ali, cada um com seu pensamento, em um silêncio um pouco incômodo por alguns minutos, até que ela se pronunciou.
- Erm, Poynter, acho melhor eu ir dormir. Tá meio frio aqui e... – ela começou, meio sem jeito, mas eu dei um beijo na bochecha dela e murmurei boa noite, e ela saiu de lá, voltando para o salão, ainda com aquela expressão surpresa. Não tão surpresa quanto eu estava, pode crer. Fiquei pensando por mais algum tempo, até que eu me virei e dei de cara com uma garota vindo em minha direção. Ela usava um vestido preto extremamente decotado e trazia duas taças de champagne nas mãos, sorrindo sedutora.
- Olá, eu sou Jessie. – ela disse, me entregando uma taça e se sentando onde a estava antes.
- Dougie Poynter. – eu respondi, e ela me olhou cheia de segundas intenções. Incrível como dois dias em um resort já me torna famoso. Não querendo me gabar, mas eu sou demais.

Capítulo 11 – “Her feelings she hides, her dreams she can’t find.”

Acordei mais cedo naquela manhã, afinal não estava a fim de perder o café mais uma vez. Me levantei, coloquei um short branco, uma blusa de gola pólo preta e meu all star branco e desci para o salão do café, que já estava menos movimentado, mas ainda assim a maioria das mesas estavam ocupadas. Peguei um pedaço de melancia, alguns daqueles pãezinhos de gostos engraçados que eu adoro e um copão com suco de laranja, e fui até uma mesa perto da grande porta de vidro que saía na área das piscinas. Não chovia mais, mas fazia um pouco de frio, então não havia quase ninguém por lá. Me sentei e comecei a comer, e alguns minutos depois alguém puxou a cadeira em frente à minha e também se sentou.
- Bom dia, . – cumprimentou Poynter, colocando seu enorme prato com várias frutas, pães e frios em cima da mesa, além do copão de suco de melancia.
- Bom dia, Poynter. Tá com fome, hein? A noite deve ter sido boa. – eu comentei, e ele riu, sem falar nada. Lembra o que eu disse sobre não acreditar em um Dougie Poynter carente? Pois é, eu realmente não acredito. Não quero nem imaginar como ele passou essa noite. Ou com quem.
- Decidiu acordar a tempo do café hoje? – ele perguntou, hostil, me fazendo lembrar da minha pequena vingança do outro dia. Comecei a rir.
- Fala sério se não foi uma ótima vingança! – eu disse, e ele revirou os olhos, enquanto passava nutella em uma torrada. Tipo, eu sou viciada em nutella. Sério, me dá um pote de nutella que eu acabo com ele em 5 minutos.
- Vai ter volta, ! Ninguém nunca chama Dougie Poynter de broxa. Nunca. – ele disse, com um sorriso maligno no rosto. Eu dei de ombros e peguei a torrada da mão dele – EI! Isso é meu!
- Ninguém mandou comer nutella na minha frente, querido. – eu disse, colocando a torrada inteira na boca, enquanto ele tentava parecer bravo, mas visivelmente segurando o riso. Aquilo estava muito, muito, muito bom. Tanto que quando eu olhei pro pote cheinho de nutella do lado do Poynter eu não pude evitar de pegá-lo, mas ele foi rápido e segurou a minha mão.
- Você vai engordar, . – ele disse, como uma voz debochada, e nós começamos uma pequena lutinha pra ver quem ia ficar com o pote. Por sorte o lugar já estava mais vazio, porque senão passaríamos por completos loucos, pra variar um pouco. Eu só conseguia rir, quando ele conseguiu tirar o pote das minhas mãos e sorriu vitorioso.
- Ah, Poynter, seu idiota. – eu disse, mostrando a língua pra ele, e instintivamente olhei pra frente, mas o que eu vi fez meu sorriso sumir instantaneamente. Não era possível, eu não podia estar vendo ele. Não ele.

****

Após aquela lutinha idiota pelo pote de nutella, eu me estendi na cadeira. Sabe, a é realmente forte pra uma garota. Anyway, ela continuou em pé, indignada, mas de repente a expressão dela mudou de brincalhona pra desagradavelmente surpresa. Ela encarava um ponto mais à frente, na entrada do salão, e eu não hesitei em olhar pra lá, onde a única coisa que eu vi foi um grupo de amigos. Quatro garotas e três garotos entrando no salão, rindo de alguma coisa. Mas a feição do primeiro deles também mudou radicalmente quando ele olhou para , e os outros também pareceram surpresos. Eu não entendi nada, ainda mais quando vi derrubar a cadeira e sair correndo do salão, parecendo arrasada. Os sete se entreolharam confusos, e eu não pude fazer mais nada além de largar meu café e ir atrás dela. Saí para a área das piscinas, e, após uma pequena observação do lugar, eu a vi, encostada sobre a grade de uma casinha que funcionava como uma lojinha em alguns dias da semana. Ela estava dentro da sacada, olhando pra piscina com uma cara nada boa. Fui até ela e me apoiei ali, da mesma forma que ela estava, e a observei com o canto do olho. Ela estava tremendo.
- Vai me contar que saída desesperada foi aquela? – eu perguntei, tirando o meu moleton cinza dos Beatles e entregando a ela, que tentou recusar mas no fim vestiu-o. Demorou mais um pouco pra responder, e quando o fez, a voz saiu falha.
- Você acha que eu e a minha mãe simplesmente levantamos um dia e dissemos ‘Vamos pra Londres’? – ela perguntou, e eu pela primeira vez parei pra pensar no que havia levado as duas a se mudarem do Brasil pra Londres.
- Nunca tinha pensando nisso... como foi? – eu perguntei, e ela pareceu ponderar se devia ou não me contar.
- É uma longa e chata história.
- Eu tenho tempo. – eu disse, e ela pensou mais um pouco, respirando fundo.

- Tudo começou quando eu tinha 13 anos, quase fazendo 14, exatamente a idade em que as meninas começam a se relacionar com os meninos, se você me entende. Eu fui à festa de aniversário da minha amiga, e foi aí que eu o conheci. – ela dizia com um tom de voz bastante melancólico, e eu podia quase ver uma nuvem passando pelos seus olhos – Na verdade eu já o conhecia, mas nós nunca tínhamos nos falado, afinal eu estava na 8ª série e ele no 2º ano do colegial. Nós conversamos, e ele era simplesmente tudo que qualquer garota queria. Lindo, simpático, fofo, rico e além de tudo, estava interessado em mim, dentre todas as garotas mais velhas e mais populares que ele poderia ter num estalar de dedos. Minhas amigas todas morriam de inveja, e eu me sentia, tipo assim, incrível junto com ele. Um mês depois nós começamos a namorar, e eu virei a sensação do colégio, assim como ele era. E nós ficamos assim por 10 meses, até que as coisas mudaram um pouco...
Ela respirou fundo mais uma vez e se sentou em um dos degraus que levavam à varanda da casinha, e eu me sentei ao lado dela, sem conseguir dizer nada.
- Como nós já estávamos namorando há bastante tempo, ele meio que pensou que podia tomar certas liberdades comigo. Mais umas duas semanas e ele começou a reclamar, dizendo que era homem e não podia ficar preso a uma garota sem que ela satisfizesse suas necessidades. Acontece que eu não me sentia preparada, eu não conseguia transar com ele. Ele tentou muitas vezes, mas eu não cedi, e ele começou a mudar um pouco comigo. Todo aquele carinho do começo do namoro sumiu, e ele só era fofo comigo quando estava perto de outras pessoas, e eu podia perceber isso nitidamente. Então...
Ela parou, e não parecia querer falar mais. Mas eu estava tão curioso que não podia deixar ela parar do nada!
- E então... – eu incentivei, e ela deu de ombros.
- E então eu decidi transar com ele. Eu precisava do meu namorado de volta como ele era, e eu era nova e achava que precisava fazer isso pra que ele gostasse de mim. Naquele mesmo dia, no fim da tarde, eu fui até a casa dele, já que eu sabia que os pais dele estavam viajando. Cheguei lá e entrei direto, porque a porta estava aberta, mas quando cheguei no quarto dele o encontrei transando com uma loira ali, na minha frente. Eu fiquei desorientada, e na hora de sair derrubei um vaso da mãe dele no chão, e assim ele percebeu e saiu correndo atrás de mim pela casa, pelado e totalmente descomposto. De algum jeito a escola inteira ficou sabendo, e dois dias depois eu já estava ficando louca de tanto ouvir todo mundo comentando sobre a minha vida. Eu tinha acabado de fazer 15 anos, e minha mãe já tinha recebido várias propostas de trabalho na Valentino, então nós decidimos largar tudo e nos mudamos pra Londres. Desde então, eu nunca mais o vi. Até agora.
Eu pude ver uma lágrima descer pela bochecha dela, e senti um aperto no coração. Que filho da puta aquele idiota, viu.
- Eu... não sabia. – eu disse, só pra quebrar o silêncio, já que não sabia o que dizer num momento daqueles. Ela deu de ombros.
- Ninguém sabe. Acho que contei pra uma vez, de tanto ela reclamar de eu ignorar todos os caras que tentavam ficar comigo na escola. Eu tive que contar pra ela pra que ela entendesse que depois do Lucas, eu peguei algum tipo de fobia de homem. E isso não é legal, pode crer.
Nós ficamos em silêncio por um tempo, até que ela se levantou de súbito.
- É melhor eu sair daqui. – ela disse, e quando eu olhei para a porta do salão, vi que o grupinho de antes estava saindo de lá. Ela me olhou de relance e saiu correndo, enquanto eu ficava lá, como um idiota, imaginando o quanto ela deveria ter sofrido com aquilo tudo. Depois de um tempo, quando o grupinho já tinha sumido, eu subi de volta pro meu quarto pra buscar um moleton. Estava frio, e eu só conseguia pensar em quebrar a cara daquele idiota.

****

Eu não sabia o que pensar. Sério, eu passei quase 3 anos sem pensar naquele garoto, e agora ele me aparecia ali, do nada? Não fazia sentido. Eu não sabia se o ignorava e fingia que nada tinha acontecido, ou se fazia um escândalo pra descontar tudo o que ele me fez sofrer. Andei sem rumo pelo resort, sentindo o frio cortar meu rosto, e me abraçando cada vez mais ao moleton do Poynter. Eu podia sentir o cheiro dele impregnado ao casaco, e isso não facilitava a minha reflexão sobre o Lucas. Eu já tinha superado, é claro, mas mesmo assim era muito difícil vê-lo de novo depois de tudo que ele me fez passar. Na época eu era muito nova, não entendia nada sobre essas coisas. E ele foi meu primeiro namorado, e eu seriamente achava que tinha que fazer de tudo pra ele ser bom comigo, até coisas que eu não queria. Porém eu estava errada, e olhando pelo lado bom, foi melhor eu ter visto o Lucas com aquela loira na cama naquele dia, do que se eu tivesse perdido a virgindade com um idiota que me traía. Depois de muito andar, acabei no mesmo lugar de onde tinha saído, a área das piscinas. Ela estava ainda mais vazia, e o único barulho que eu ouvia era o do mar ali à frente. Mas esse barulho foi interrompido por uma risada de uma garota. Uma risada que me foi bem familiar.
- ? – ouvi a voz dizer atrás de mim, e quando me virei, ali estava ela, Alicia, irmã mais nova do Lucas. Sorri amarelo.
- Alicia, quanto tempo. – eu disse, e ela sorriu daquele mesmo jeito que eu conhecia há tanto tempo: fingindo que estava feliz em nos ver quando na verdade estava é querendo sair correndo ali. Acho que percebi o porquê quando ela foi responder o cumprimento, e o irmão dela apareceu ali, junto com Alex e Jonathan, seus melhores amigos desde o colegial. Ou seja, desde a época em que eu saía com os amigos dele. Momento lembranças do Brasil on.
- ... – ele exclamou, meio incerto, enquanto me encarava firme.
- Lucas. – eu disse, me esforçando pra não parecer melancólica. Ele não podia perceber que eu estava completamente confusa com a aparição dele. Não podia. - , finalmente nos encontramos de novo! – disse Alex, sorrindo, tentando quebrar o gelo. Eu sorri amarelo pra ele, e pude perceber comentários maldosos das amiguinhas da Alicia, que eu não conhecia, mas que me olhavam como se soubessem de tudo o que havia acontecido comigo e com o Lucas. Que saco.
- Pois é. O que fazem aqui? – eu perguntei, com vontade de sair dali e fazer o Lucas parar de tirar um xerox de mim com os olhos, como ele esteve fazendo esse tempo todo. Ele continuava lindo, assim como seus amigos, mas só de lembrar do que ele havia feito comigo meu estômago embrulhava.
- Meu pai está investindo na França, e pra comemorar o sucesso nos pagou uma semana nesse resort. – ele respondeu, sério, olhando pra mim como se quisesse descobrir o que eu estava pensando – E você, o que faz aqui?
Eu dei de ombros e fingi que estava gostando da conversa.
- Minha mãe vai se casar, e nós viemos passar a última semana de solteira dela e do noivo dela aqui. – eu respondi, e ele riu.
- Sério? Nossa, a Meg realmente aproveitou Londres hein! – ele disse, do mesmo jeito que ele costumava falar antigamente, mas fechando a cara logo em seguida, percebendo que eu não estava gostando daquilo. Me lembrava demais a época obscura da minha vida, e isso já era sobrecarregar a minha cabeça.
- Erm, acho que vou dar uma volta na praia. – eu disse, já que foi a primeira coisa que me veio na cabeça, e eu precisava sair dali – Nos vemos por aí.
- É, nós também vamos subir. Está frio aqui embaixo. – Lucas comentou, meio sem jeito, obviamente tentando manter uma conversa. Olhei para ele de relance mais uma vez, que me olhava com olhar distante, e respirei fundo. Realmente, muito animador. Saí de lá o mais rápido possível em direção à praia, e senti lágrimas caindo pelo meu rosto. Eu não sabia se era decepção, medo, raiva ou o que, só sei que eu queria gritar. Gritar e sumir daquele lugar.

Capítulo 12 – “Every time you hold me in your arms I’m comfortable enough to feel your warmth.”

Coloquei um moleton preto por cima da camiseta que usava e fui até a sacada do quarto, dar uma olhada na praia. Estava praticamente deserta, assim como a área da piscina, já que o frio fazia com que a maioria dos hóspedes se ocupasse com atividades internas. Fiquei observando a praia por mais alguns minutos, até que, quando me virei de volta para a área da piscina, pude ver um grupinho de pessoas conversando com uma garota. Nada me faria confundir aquele meu moleton, que parecia mais um vestido pra ela. Foi então que eu reparei, aquele era o tal Lucas. O canalha, o idiota, o maldito. Saí correndo do meu quarto em direção ao térreo, imaginando em como deveria estar sendo ruim pra ter que encarar aquele passado dela assim, do nada. Mas quando cheguei ela não estava mais lá. Apenas os três garotos e as quatro garotas, rindo, com exceção do tal Lucas, que estava sério. Mas é claro, se ele estivesse rindo eu acho que não me responsabilizaria pelos meus atos violentos em direção à cara dele. Procurei com os olhos, e como não achei, resolvi procurar na praia, tendo que passar ao lado do grupinho, que parou de rir quando eu passei. Pude ouvir algum comentário de alguma das garotas que ali estavam, mas realmente não estava no clima pra paquerar no momento. Muito estranho, mas eu estava meio que partilhando a dor da , mesmo que eu nunca fizesse isso. Incrível. Andei um pouco pela praia e já estava quase desistindo quando avistei a sentada na areia, encostada na base de uma daquelas cadeiras altas de salva vidas. Cheguei mais perto e pude vê-la ali, abraçada aos joelhos, totalmente inofensiva e desprotegida e com lágrimas nos olhos. Completamente diferente da intocável, determinada e superior a qual eu estava acostumado. E, diferente das outras garotas, vê-la daquela forma só fazia com que eu sentisse uma enorme vontade de sentar ao seu lado e consolá-la, até ver aquele sorriso inabalável mais uma vez estampado em seu rosto. Me sentei ao lado dela, em silêncio, e pude ouvi-la fungar e tremer, mas dessa vez não era de frio.
- Eu não sei o que dizer. – eu disse, passando a mão pelos seus cabelos, tentando abraçá-la, mas morrendo de medo de fazer algo errado e ela se sentir ainda pior. Mas o que veio a seguir realmente me impressionou.
- Não precisa dizer nada. – ela disse, com a voz tremida e fraca, e me abraçou com força. Eu a abracei de volta e fiz com que ela encostasse seu rosto no meu peito, e assim ela ficou, chorando e abraçando forte a minha cintura, enquanto eu a envolvia com meus braços, tentando fazer com que ela se sentisse segura. Ficamos assim por vários minutos, nos quais eu só conseguia pensar em quão idiota aquele Lucas fora, e o quanto eu queria protegê-la de tudo. Eu nunca tinha me sentido assim por garota nenhuma, e isso meio que me assustava. Isso mesmo, eu estava assustado por causa de uma garota. Eu já disse, não reconheço mais Dougie Poynter.
- É tão estranho. – ela disse, com a voz menos tremida.
- O que? – eu perguntei, beijando o topo da cabeça dela várias vezes, e sentindo o braço dela se arrepiar. E eu, no fundo, torcia para que dessa vez não fosse de frio nem de tristeza.
- Eu passei três anos pensando que já tinha esquecido, que tudo isso não passava de um passado ruim e que não sentiria nada se visse o Lucas de novo. E eu estava errada. – ela disse, se encolhendo mais ainda nos meus braços. Eu dei de ombros.
- É muito difícil esquecer de coisas ruins. Mas você vai superar. A não ser que... – eu comecei sem pensar no que ia dizer, mas tive que parar antes que falasse bobeira. Acontece que ela ouviu, e levantou a cabeça, me olhando confusa. Os olhos dela estavam levemente vermelhos, e havia marcas de lágrimas nas bochechas.
- A não ser que o que, Poynter? – ela perguntou, e eu hesitei.
- A não ser que você ainda goste dele. – eu disse, morrendo de medo da resposta dela. Ela me encarou por mais alguns segundos, até que riu de leve e acenou negativamente.
- Eu não sinto mais nada pelo Lucas, a não ser, talvez, nojo. – ela falou, e eu respirei aliviado. Não sei o que faria se ela afirmasse. E não sei por que estava preocupado com isso. Enquanto tinha devaneios sobre quão estranho eu ficava perto daquela garota, ela murmurou: - Como eu queria poder me vingar dele.
Uma idéia súbita apareceu na minha mente, e eu sorri maldoso, olhando pra ela.
- E se você puder?

****

Era realmente muito estranho. Primeiro eu me sinto miserável perto do Lucas e seus amiguinhos, completamente desconsolada sozinha na praia, e é só o Poynter chegar e me abraçar que eu senti minhas forças se renovarem. O jeito que ele me abraçava, que falava comigo, o cheiro dele e tudo mais me faziam sentir arrepiada, e muito, muito bem. Eu nunca imaginei vê-lo daquela forma, e não conseguia fazer com que isso não me afetasse. Só sei que eu poderia ficar ali pra sempre sem me cansar de sentir a respiração dele tão perto de mim. - Como assim se eu puder, Poynter? – eu perguntei, arqueando as sobrancelhas. Ele abriu mais ainda o sorriso maldoso e extremamente irresistível que tinha nos lábios, e deu de ombros.
- Quem sabe nós poderíamos dar uma lição no idiota. – ele disse, e eu, com muito custo, me soltei dele e voltei a me sentar, olhando pra ele, sorrindo de leve.
- E o que você propõe? – perguntei, e ele se virou pra mim, os olhos azuis brilhando com o reflexo do sol bem fraco que aparecia no céu, nem ao menos suficiente pra acabar com aquele ventinho frio que arrepiava minhas pernas descobertas.
- O que você acha que seria destrutivo pra ele nessa situação? É só pensar como homem, .
Pára tudo. Pela primeira vez desde que o conheci ele me chamou de sem que fosse perto dos meus pais! Sei lá, a gente acostumou tanto a nos chamar pelos sobrenomes que era até estranho ouvir meu nome saindo da boca dele. Anyway, nunca tinha achado o meu nome tão bonito.
- Sorry, mas eu sou mulher, Dougie. – eu disse, e ele riu. Era realmente estranho chamá-lo daquela forma.
- Tudo bem, deixa eu te dar uma ajudinha. Ele namorou com você por um ano, tentou de todas as formas transar com você, mas você não quis. Ele te traiu, você viu e foi embora de lá. Com certeza ele esperava te encontrar do mesmo jeito que a viu pela última vez: triste, desconsolada e, principalmente, tremendamente apaixonada por ele. E qual é o único jeito de fazer ele quebrar a cara quanto a isso? – ele perguntou, sorrindo, mas eu dei de ombros.
- Quebrando a cara dele? – eu perguntei, e ele revirou os olhos.
- Não, . Esfregando na cara dele que você superou, que você refez a sua vida sem deixar espaço pra ele. Você tem que mostrar pro idiota o que ele perdeu fazendo o que fez com você. – ele terminou sorrindo, e eu arregalei os olhos. A idéia era incrível, eu nem ao menos tinha pensado nisso.
- Dougie, você pensa! Ótima idéia! – eu disse, e ele sorriu prepotente.
- Eu digo que sou um gênio, mas você não acredita! – ele disse, e eu ri, dando um tapa de leve no braço dele, que riu.
- Tá na hora de eu deixar de ser idiota e mostrar pra aquele cafajeste quem é que manda aqui. – eu disse, limpando os últimos rastros de lágrimas que havia no meu rosto. Ele sorriu e envolveu a minha mão com a dele na minha bochecha, e eu me arrepiei involuntariamente.
- Não se esqueça de que eu estou disposto a ajudar no que for preciso, ok? – ele disse, com a cara mais fofa do mundo – Vamos acabar com o idiota juntos.
Nós dois rimos e batemos as mãos num high-five.
- Mas pensando bem, Poynter... – eu disse, depois de alguns segundos de silêncio – Você não deve ser muito diferente, né? Aposto que já quebrou um zilhão de corações por aí.
Ele me olhou com falsa indignação.
- Nem vem jogar isso pra cima de mim! – ele disse, e eu ri – Talvez eu realmente tenha quebrado muitos corações, mas eu nunca dei esperanças de amor pra nenhuma das garotas, como esse Lucas fez com você. Até eu acho isso que ele fez ridículo. Se eu estivesse no lugar dele nem pensaria em outra garota. – ele disse, e meu coração disparou. Que droga, eu nunca entendia as indiretas dele! Pela primeira vez na minha vida, eu vi Dougie Poynter corar levemente e olhar pra baixo. Eu não sabia o que fazer, era tudo tão diferente do que nós estávamos acostumados! Então eu juntei todas as minhas forças e disse:

- Eu tenho certeza que não.
Ele me olhou profundamente, daquele jeito que amolece o corpo e nos faz querer desmaiar ali mesmo. Nós ficamos nos encarando por vários instantes, até que uma coisa muito gelada começou a lamber minha perna. E eu dei um pulo de desespero.
- AAAAAAAAAAH. – eu gritei, e o Poynter só riu, pegando o ser que havia me lambido. Um daqueles cachorrinhos peludos e pequenininhos, daqueles que as madames carregam dentro das bolsas, sabe? Muito fofo!
- Calma , é só um cachorro. Ou melhor, uma cadelinha! – ele disse, apontando para o lacinho vermelho que estava amarrado na orelhinha dela.
- OOOHN, QUE GRACINHA! – eu disse, passando a mão nos pêlos dela, que abanava o rabinho. Nós ficamos lá, brincando com a cadelinha, até que um garotinho que deveria ter uns 6 anos apareceu correndo perto de nós.
- Miley! – ele gritou, e correu até nós, meio sem jeito. Eu ri.
- Então o nome dela é Miley? – eu perguntei, e o menino assentiu, envergonhado – E o seu, qual é?
Ele falou baixinho: - Dougie.
Eu ri e olhei pro Poynter, que ainda acariciava a cadelinha.
- O meu é . E o dele também é Dougie, sabia?
O menino pareceu surpreso.
- Sério? – ele perguntou, olhando pro Dougie, que sorriu para o garoto.
- Claro cara! Bate aqui, nós somos xarás! – ele estendeu a mão pro garoto bater, que o fez logo, ainda morrendo de vergonha – Porque toda essa vergonha?
O garoto chutou um pouquinho de areia, olhando pra baixo.
- A sua namorada é muito bonita.
Eu abri a boca pra responder, mas antes que eu o fizesse o Poynter já estava rindo.
- É mesmo, você não acha? – ele perguntou para o garoto, olhando pra mim como se dissesse ‘NÃO DESMINTA!’ – Mas quando você crescer com certeza vai ter uma namorada tão bonita quanto ela, afinal é sina de Dougie, sabe?
O garoto riu, pegou a Miley e deu tchau pra nós, voltando em direção ao hotel. Assim que ele estava longe o bastante, eu olhei pro Poynter, indignada, e ele riu, dando de ombros.
- Deixa o garoto pensar o que quiser, oras! – ele começou, se levantando, batendo na bermuda pra tirar toda a areia e estendendo a mão direita pra mim - Vamos logo, senhorita. Está frio e amanhã temos que estar bem saudáveis para o primeiro episódio da nossa vingança maligna. – eu ri do ar brincalhão dele, segurando na sua mão e me levantando - A vingança maligna de e Dougie. Nós poderíamos escrever um livro com esse título.
Eu ri mais ainda.
- Contanto que eu consiga fazer o Lucas se arrepender, está tudo ótimo. – eu disse, e nós fomos em direção ao hotel, Poynter fazendo piadinhas e eu rindo como uma idiota. Incrível como aquele idiota conseguia melhorar o meu dia.

Capítulo 13 – “Picking up the pieces of a life you’ve broken.”

Acordei muito bem naquela manhã, totalmente diferente de como eu achei que acordaria. Afinal, aquele plano do Poynter pra fazer o Lucas morrer de ódio seria muito legal de executar. E eu estava super animada, ainda mais quando abri a cortina da sacada do meu quarto e avistei o sol brilhando no céu como não fazia há mais de uma semana. Não estava frio, e a imagem da piscina era tentadora. Não podia ter começado melhor. Vesti meu biquíni preferido, que era tomara que caia com listras brancas e roxas na parte de cima e a calcinha roxa, super bonito, e ficava lindo em mim. Coloquei uma sainha e uma regata por cima, meus óculos escuros e fui até a área das piscinas. O café ainda estava sendo servido, mas quando eu vi que uma das mesas ao redor da piscina estava cheia, com três garotos e quatro garotas bem conhecidas, dei adeus ao café e fui até a mesa ao lado deles, fingindo que não os via. Se era pra esnobar, esnobemos direito!
- Ei ! – ouvi a voz do Alex me chamar, e me virei pra eles, que tomavam um farto café, o que fez meu estômago revirar de fome. Droga.
- Ah, oi guys. Tudo bom com vocês? – eu perguntei, sorrindo e tirando meus óculos, animada. Eles me olharam meio surpresos, afinal estavam provavelmente esperando um rosto triste e cheio de olheiras. Se ferraram, losers!
- Tudo, tudo bem. – respondeu Lucas, sorrindo. Lembrei-me de como aquele sorriso costumava me fazer derreter. Argh.
- Finalmente o sol saiu, né? – eu disse, colocando meus óculos em cima de uma cadeira de praia que estava bem perto da mesa deles – Temos que aproveitar, essa piscina deve estar uma delícia!
Tirei minha blusa e depois minha saia, observando com o canto do olho a cara de idiota que o Lucas fazia, junto com o Alex e o Jonathan. Eu ria por dentro, mas fingia não ver nada. Homens... Acho que a Alicia percebeu, pois tratou de tentar tirar a atenção de mim.
- Quer tomar café, ? – ela perguntou, fingindo simpatia. Como ela era tosca, meu Deus! Em pensar que um dia eu puxei o saco dessa garota, fala sério, como eu era decadente! Sorri pra ela.
- Na verdade, vou aceitar um desses bolinhos. Tão com uma cara ótima e eu nem tomei café! – eu disse, indo até a mesa e pegando um bolinho, enquanto ela me encarava com aquela cara de bunda dela. Como era legal aquilo. Os três garotos continuaram a me xerocar ali, quando uma das amigas da Alicia, uma loirinha com a maior panca de gostosa, chamou a atenção das outras para um canto mais adiante.
- Olha só, garotas, o gatinho que passou na beira da piscina ontem. Gosh, ele fica ainda mais lindo à luz do sol. – as outras três riram pervertidas, e eu revirei os olhos, me virando pra ver quem era o tal garoto. E confesso que fiquei surpresa quando vi que ele era o Poynter. Por um instante eu me esqueci que o Poynter não podia sair de casa sem ser assediado. Ele estava falando com uma garçonete, que trazia uma infinidade de coisas pra mesa dele, saindo logo em seguida. Ele levantou e tirou a camisa, deixando aparecer aquele abdômen sarado e metade da cueca, já que a bermuda dele caía e ele nem parecia se importar. Olhei de novo pras garotas, que se abanavam.
- Não sejam tão toscas, olhem só pra ele! Maior branquelo! – reclamou Lucas, com aquela cara que ele fazia quando algum garoto falava comigo perto dele. Cara de ciúmes! E foi aí que uma idéia ainda mais brilhante passou pela minha cabeça. Sorri provocativa.
- Por favor, Lucas, deixe as garotas. O carinha ali realmente é muito gato.
Ele me olhou com uma expressão surpresa e ciumenta ao mesmo tempo, e eu tive que segurar o riso. A Alicia se empolgou.
- Acho que eu vou falar com ele. – disse, já se levantando, mas eu impedi.
- Se eu fosse você não faria isso, Ali. – eu disse, chamando-a do apelidinho tosco, só pra provocar. Ela me olhou desdenhosa.
- E porque não, ? – ela perguntou, e eu dei de ombros, fingindo desinteresse.
- Você mesmo disse que ele é muito gato e hot, provavelmente tem namorada. E eu não acho que a namorada dele vai achar isso tão legal assim, sabe. – eu disse, e ela arqueou as sobrancelhas, demonstrando o quão inconveniente eu estava sendo no momento – Obrigada pelo bolinho, nos vemos por aí.
Eu saí, na maior pose superior que consegui, e fui em direção ao Poynter, que estava em pé de costas pra nós, fazendo alguns alongamentos das costas, o que fazia com que os braços dele ficassem ainda mais incríveis. Enfim, eu fui até ele e o abracei por trás, apertando AQUELA barriga com os meus braços.
- Eu esqueci que tinha o maior alvo de inveja a meu favor. – eu disse, e ele se virou do jeito que podia pra mim, olhando discretamente pra mesa de onde eu acabara de vir, provavelmente reparando que todos lá estavam olhando pra nós, o que eu tinha certeza, e sorriu.
- Você é realmente muito esperta, . – ele disse, se soltando de mim e me abraçando pela frente, me fazendo envolver seu pescoço com meus braços.
- Nunca pensei que fosse tão bom ver a cara de idiota do Lucas e seus amiguinhos. – eu disse, rindo, e ele apertou minhas duas bochechas, fazendo com que um biquinho se formasse na minha boca, e dando um selinho demorado ali.
- Pelo que eu posso perceber, agora em tese nós somos namorados. – ele disse, e nós dois rimos, eu tentando esconder o pouquinho que tinha corado. Ele me soltou e puxou uma das cadeiras da mesa.
- Por favor, mademoseille. – ele disse, num tom debochado, e eu me sentei, olhando aquele tanto de comida na minha frente.
- Estou orgulhosa de você, Poynter, está aprendendo a pensar! – eu disse enquanto ele se sentava de frente pra mim e me mostrava um pote cheinho de nutella. – AAAAH, EU QUEEEERO!
Ele jogou o potinho de uma mão pra outra, abrindo-o em seguida e enchendo uma colher daquele chocolate delicioso.
- POOOOOYNTEEER! – eu disse, quase pulando em cima dele pra pegar aquele potinho, assim como no dia anterior. Ele ia comer, mas eu corri até ele e puxei seu braço, fazendo com que ele colocasse a colher na minha boca.
- Como você é desesperada, garota. – ele disse, rindo da minha cara de êxtase ao sentir o gosto daquilo.
- Você sabe que eu amo chocolate! – eu disse, passando uma tonelada de nutella numa torrada e comendo-a em seguida. Ficamos em silêncio por alguns minutos, só comendo, quando o Poynter voltou a falar.
- Tem certeza que aquela moreninha ali não tem uma paixão lésbica secreta por você? – ele perguntou, apontando para a mesa do Lucas com a cabeça. Eu me virei discretamente e olhei pra lá, onde pude ver a Alicia olhando fixamente pra nossa mesa. Ri de leve.
- Por mim ou por você?
Ele arqueou as sobrancelhas.
- O que você quer dizer com isso?
- Ela tava querendo vir falar com você, sabe, achou você muito gato. – eu disse, zombando, e ele riu, olhando pra Alicia, enquanto eu revirava os olhos. Homens.
- Quantos anos ela tem, dez? – ele perguntou, e eu não pude segurar a crise de riso que veio a seguir. Na minha época de cunhada da Alicia ela odiava parecer mais nova do que é, afinal ela é meio miudinha, sabe.
- Deve ter uns 15, por aí. – eu respondi, e ele deu de ombros, voltando a comer. Nós ficamos ali por mais alguns minutos, até que já estávamos cheios de tanto comer. O Poynter se levantou, dizendo que ia jogar um pouco de vôlei na praia. Anyway, ele foi e eu voltei para a cadeira de praia onde tinha deixado as minhas coisas, ou seja, a cadeira de praia ao lado da mesa do Lucas, onde ainda estavam todos. Deitei nela, coloquei meus óculos escuros e fiquei lá, torrando no sol. Quanto tempo fazia que eu não pegava sol? Desde que saí do Brasil, acho, já que ninguém pega sol em Londres. Enfim, não sei quanto tempo se passou, e eu tirei os óculos, observando o lugar. Alicia tinha se deitado em uma cadeira ao lado da minha, e o resto da turma continuava na mesa. Lucas sorriu pra mim, que sorri amarelo de volta. Fala sério, hein. A Alicia estava lá, deitada com a maior pose de modelo, e aquilo era realmente tosco. Me dava vontade de rir. Voltei a me deitar, mas logo alguém me interrompeu.

- . – ouvi uma voz rouca dizer no meu ouvido, e logo se sentar na beira da cadeira de praia, de frente pra mim. Me assustei tanto que quase saí voando da cadeira. Preciso dizer que me arrepiei inteirinha? Meu apelido NUNCA tinha ficado tão lindo na boca de ninguém. E eu tinha adorado aquilo.
- Dougie! Você está nojento. – eu disse, tirando meus óculos e vendo pelo canto do olho que todos ali nos observavam discretamente. Poynter riu sarcástico, mas era verdade, ele estava todo suado do vôlei no sol. Não que isso o fizesse ficar feio, mas enfim.
- Realmente era isso que eu queria ouvir! – ele disse, e eu ri – Anyway, você já fritou bastante aí, vamos nadar?
Eu me joguei de volta na cadeira, deitando.
- Tô com preguiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiça. – eu reclamei, e ele riu, me puxando de volta.
- Você parece uma criança birrenta, sabia? – eu assenti, fazendo bico – Sabe o que é, eu não namoro crianças. – ele terminou, se levantando, mas eu o puxei de volta pela única forma de fazer isso naquelas circunstâncias: puxando a bermuda dele, que baixou mais ainda e deixou 80% da cueca e seus, erm, enchimentos aparecendo. Eu pus a mão na boca e ri, enquanto ele olhou pra mim surpreso e levantou a bermuda de volta, provavelmente pra impedir que Alicia e suas amigas se afogassem na própria baba, e voltou a se sentar.
- Querida, eu sei que você adora tirar a minha roupa, mas isso aqui é um ambiente familiar, né! – ele disse, sorrindo divertido, e eu abri a boca, surpresa.
- Calado Dougie, vamos logo tomar uma ducha. – eu disse, me levantando e o puxando em direção às várias duchas que ficavam ali do lado. Preciso dizer que os sete garotos ali do lado não tiravam os olhos de nós? Olhei de canto de olho e vi que o Lucas estava com aquela cara ciumenta de novo, enquanto Alex falava alguma coisa, olhando pra nós. Dei de ombros e quase congelei quando o Poynter ligou aquela ducha hiper gelada em cima de mim.
- ISSO TÁ GELAAAAAAAAAADO! – eu gritei, enquanto ele ria da minha cara. Eu odeio água gelada, vocês não têm noção!
- Eu te esquento, gatinha. – ele disse, fazendo a maior cara de ‘meu-que-frase-mais-tosca’ e entrando em baixo da ducha também, me abraçando. Eu só conseguia rir da situação, enquanto mais pessoas por ali nos olhavam. Em segundos eu já estava encharcada, assim como o Poynter. Já disse que ele fica maravilhoso todo molhado? Se não, acabei de dizer. Escreva isso pra não esquecer, ok, porque é um fato. Mais uns segundos em que ele fazia piadinhas e eu ria que nem uma idiota, e nós saímos da ducha, pulando com tudo na piscina. Estava sendo divertido. Muito divertido.

****

Tenho que admitir que aquele negócio de se vingar do tal Lucas estava saindo melhor que encomenda. Afinal, a estava MUITO gostosa com aquele biquíni. Ela tem tudo nos lugares certos cara, acho que nem o corpo da Olívia, que há alguns meses era o corpo mais bonito que eu já tinha visto, chega perto. Nós nos jogamos na piscina e ficamos ali, nadando de um lado pro outro por um bom tempo, era bem refrescante.
- Ei, ! – eu chamei, e ela me olhou, e assim eu joguei um pouco de água na cara dela, que me olhou quase assassina.
- Dougie, seu idiota! – ela disse, pulando em cima de mim, tentando me afogar. Começamos uma briguinha aquática que durou longos minutos, na qual nós dois mais ríamos do que qualquer outra coisa. Até que se soltou de mim, se sentando na beira da piscina, respirando fundo.
- Tá, agora eu cansei. – ela disse, mexendo os pés dentro da piscina. Eu me encostei na beirada ao lado dela e observei os arredores, vendo que os tais Lucas, Alex e Jonathan conversavam no canto do outro lado da piscina, olhando discretamente pra nós. Caramba hein, esses caras não tem mais nada pra fazer? Tudo bem que o tal Lucas tivesse ciúmes – e esse era o nosso objetivo -, mas ele parecia fissurado mesmo! Eu sei que sou lindo, mas cara, ter três homens me olhando o tempo todo era demais, né? Vi ele me encarar com algum tipo de irritação no olhar, e sorri malicioso. Olhei pra e vi que ela estava bem concentrada em tirar o esmalte marrom de suas unhas. Bom, era hora de agir, né? Coloquei minhas duas mãos na beira da piscina, uma de cada lado das pernas de e fiz força pra cima, pra ficar da altura do rosto dela. Ela me olhou meio assustada, e eu sorri.
- Parece que você tem mel, garota, eles não param de olhar mesmo. – eu disse, e ela sorriu, olhando de canto de olho para os três. Eu aproximei meu rosto do dela e dei mais um selinho em seus lábios. Isso já tava virando rotina – e eu não sabia se esse fato era bom ou ruim. Me afastei de novo e ela me olhou por um instante, inexpressiva, e logo revirou os olhos, empurrando meu rosto pra trás, me fazendo cair de novo na água. É, aquilo estava sendo divertido. E eu tinha a impressão de que ia melhorar ainda mais.

Capítulo 14 – “And you thought that I was pure snow, guess you did know”

Entrei no elevador e apertei o botão que me levaria ao meu andar. Nós havíamos ficado a manhã inteira na área da piscina, já que o sol estava uma delícia. Almoçamos e ficamos por ali mais um tempo, até que eu descidi subir, deixando o Poynter flertando com algumas garotas lá em baixo. A turminha de Lucas já tinha sumido, o que dava a nós dois liberdade, afinal tínhamos que fingir sermos um casalzinho apaixonado quando estávamos perto deles. Logo, Poynter tinha livre acesso pra paquerar quem ele quisesse quando Lucas estivesse longe – o que me incomodava um pouquinho, mas enfim. Eu não sabia no que aquilo iria dar, mas por enquanto estava muito animada, já que Lucas não havia tirado os olhos de nós por um segundo enquanto estávamos lá em baixo. E eu queria que ele se arrependesse muito por tudo que havia me feito sofrer. Saí do elevador e ri de leve ao ver a ironia do acontecido. Quem é que eu encontro lá? Lucas. E dessa vez sozinho.
- . – ele disse, sorrindo e indo até mim. Respirei fundo e tentei ficar calma. Se eu ia fazer isso, tinha que fazer direito. E qual a melhor maneira de mostrar que superei? Tratando-o como se nada tivesse acontecido.
- Oi Lucas. – eu disse, sorrindo, e ele pareceu surpreso, mas sorriu logo em seguida.
- Aproveitou bastante a piscina, hein. – ele comentou, olhando descaradamente para meus peitos, já que eu estava só de shorts, sem a regata por cima do biquíni. Eu revirei os olhos discretamente e continuei sorrindo.
- Mas é claro, fazia tempo que não tomava um sol daqueles. Fui pro Brasil nas férias, mas era inverno, então nem peguei muito sol. – eu comentei, indo até a porta do meu quarto, vendo que ele me seguia – Seu quarto é por aqui também?
Ele assentiu, parecendo pensativo. Pensativo demais pro meu gosto.
- No final do corredor. – ele disse, e eu assenti – Você vai à festinha de hoje à noite?
Eu arqueei as sobrancelhas, não tinha ouvido falar de festa nenhuma.
- Que festa?
- A festa que vai ter no salão descoberto ao lado das piscinas. Vão aproveitar que a chuva parou e fazer uma baladinha lá. – ele disse, e eu assenti. Se ia ter festa é CLARO que a gente ia, né? Até parece que eu dispensaria uma festa, ainda mais num momento desses. E Lucas pareceu concordar – Eu sei como você adora dançar.
Eu fechei meu sorriso ao ouví-lo dizer aquilo. É claro que ele sabia que eu adoro dançar. Nós ficávamos dançando a noite inteira em boates quando estávamos namorando. Lembrar daquilo me fez arrepiar – um arrepio um pouco desagradável, se quer saber.
- Enfim, nos vemos lá então. – ele disse, e eu assenti, dando um último sorriso forçado e entrando no meu quarto. Fala sério, eu devo ter jogado pedra na cruz, só pode.

****

Já estava escurecendo quando eu voltei pro meu quarto. Havia passado grande parte da tarde azarando uma menina na piscina – muito gostosa, por sinal -, e já que o lezado do Lucas não tava por perto, eu pude aproveitar. Ela era bem interessante e pareceu bem interessada por mim, é claro, mas eu não estava muito afim. Sei lá porque, eu fiquei entediado logo. Enfim, tomei banho rápido e vesti uma bermuda qualquer, me jogando na cama. Eram 6 horas de terça feira. E o que passa na tv às 6 horas de terça feira? House. Sim, eu sou viciado em House e não tenho vergonha de assumir, afinal é um seriado animal. Peguei um pote grande de pipoca que havia comprado antes de subir e liguei a TV. Estava concentrado assistindo o seriado há uns 5 minutos quando alguém bateu na porta. Corri para abrir e dei de cara com . Ela abriu a boca pra falar algo mas eu a cortei:
- Shhh! House is on!
Voltei correndo pra minha cama, ouvindo ela dizer algo como “Droga, não acredito que esqueci!” e se jogar ao meu lado, pegando meu pote de pipoca e perguntando:
- Que episódio é?
Olhei pra ela, arqueando as sobrancelhas. Estranho, eu e tínhamos um vício em comum. Muito estranho.
- Aquele em que a menina acha que matou o namorado com sexo. – eu disse, e ela riu.
- Adoro esse episódio, o paciente é super bonitinho.
Revirei os olhos e nós ficamos em silêncio por um tempo, até que ela o quebrou.
- Pensei que você ainda estivesse com a loira peituda da piscina. – ela comentou, sem tirar os olhos da tv, e eu respondi fazendo o mesmo.
- Ciúmes, ?
Ela riu debochada.
- Por que teria ciúmes? Você é meu namorado na maior parte do dia. – ela disse, e eu não respondi. Afinal, era verdade.

****

- I hope you got some specifics on what exactly was going on… if a girl thinks sex could kill you, it’s worth knowing about.
- Have you ever taken a life? – gatíssimo Dr. Chase perguntou na tela na minha frente, e eu não podia parar de babar. Não sei porque, mas eu acho aquele cara um charme. Aquele sotaque australiano, que normalmente me irritava em qualquer outra pessoa, ficava um charme nele. E no gatíssimo Hugh Jackman/Wolverine também, é claro. Talvez eu devesse passar uns tempos na Austrália pra ver se minha vida amorosa melhora um pouquinho. Pior do que no Brasil não seria.
- Dra. Cameron é tão hot. – Dougie disse ao meu lado.
- Nops, o Dr. Chase é que é hot. – eu disse, e ele me olhou, estranhando.
- Você acha aquele cara bonito?
Eu arqueei as sobrancelhas.
- Mas é claro. Olha pra ele, ele é uma gracinha! – Dougie balançou negativamente a cabeça, rindo de leve e pegando algums pipocas – Tá rindo do que, palhacinho?
- , eu sou mil vezes mais bonito que esse cara. – ele disse, me fazendo revirar os olhos. Mas esse menino não cansa.
- E mil vezes mais metido também. – eu comentei, e ele riu de leve, voltando sua atenção à TV. Ficamos assim pelos próximos 30 minutos.

****

- Ok, sessão House acabou. – eu disse, assim que o episódio terminou, pegando o controle pra desligar a TV, mas me impediu, roubando o controle de mim.
- E agora começa a sessão The Big Bang Theory. – ela falou, sorrindo e mudando de canal.
- Tá viciada em TV, hein ? – eu comentei, e ela deu de ombros.
- Olha só quem fala! Você é que me mandou calar a boca quando cheguei pra poder assistir TV. – ela disse, e eu ri. Mais uma verdade. Ficamos em silêncio até o final do episódio, quando ela se levantou da cama.
- Esteja pronto em uma hora! – ela disse simplesmente, indo em direção à porta.
- Pronto pra quê? – eu perguntei, confuso. Eu hein, essa menina era bem estranha quando queria.
- Vai ter baladinha lá em baixo hoje, e nós vamos! – ela disse, autoritária, e eu revirei os olhos.
- E por que eu deveria te obedecer? – perguntei, e ela sorriu desdenhosa.
- Como se você fosse perder uma baladinha em uma noite tediosa só pra mostrar que “eu não mando em você”. – ela disse, saindo do quarto e me deixando perplexo. Era verdade. De novo. Ela parecia me conhecer muito bem, o que me assustou um pouco, afinal, Dougie Poynter não é previsível. Ou pelo menos não deveria ser. Especialmente perto dela. O mundo, definitivamente, estava virando de ponta cabeça.

****

Após a sessão-seriado com o Poynter eu voltei pro meu quarto, a fim de me arrumar pra tal baladinha. Tomei uma ducha rápida e vesti um dos meus vestidos preferidos. Ele era estampado com várias cores, curtinho e meio rodado, de ombro caído, um estilo bem relax. Prendi meus cabelos em um meio rabo, deixando algumas mechas sobre meus ombros, coloquei um colar e algumas pulseiras rústicas e uma rasteirinha. Passei uma leve maquiagem, um perfume e estava pronta. Fiquei mais uns minutos checando minha aparência – afinal, precisava estar linda naquela noite. Eu e Poynter tínhamos muita atuação a fazer, e eu tinha que estar apresentável. Não que eu ligasse para o que Poynter achava de mim – e eu não ligo – mas algo dentro de mim me fazia querer estar linda pra ele. Péraí, eu disse pra ele? Que pra ele o que, eu quis dizer perto dele. É... com ele. Ah, enfim, eu não tô nem aí pra o que ele acha, ok? Eu só queria estar bonita. Mas é claro, toda garota sempre quer estar bonita, certo? Certo. ...certo? Tá, é melhor eu parar de pensar besteira, antes que eu fale mais besteira ainda. Peguei meu celular, a chave do meu quarto e um gloss e saí do quarto, encontrando já de cara com toda a turminha de Lucas. Incrível como eles SEMPRE estavam em TODOS os lugares. Que droga, viu.
- Olá galera. – eu cumprimentei, simpática, percebendo que ficava cada vez mais fácil fingir que estava feliz com a presença deles. Acho que estou ficando boa nesse negócio de atuação. Broadway, aí vou eu.
- Boa noite, . – Alex respondeu, e Jonathan assobiu, me fazendo corar de leve. Na verdade, não sei se foi o assobio ou se foi o olhar estou-te-despindo-com-os-olhos que o Lucas lançou pra mim que me fez corar. Aquele garoto ficava mais estranho a cada minuto.
- Prontos pra festa? – eu perguntei, assim que Alicia saiu de seu quarto com suas outras três amiguinhas com cara de nojentas, que me olharam com desprezo. Podem ir baixando a bola, barangas, que cara feia pra mim é fome!
- Mas é claro! Festar até não aguentar mais! – disse Alex, animado. Eu até que ainda tinha simpatia por ele, afinal ele sempre foi muito legal comigo. Mas o fato de ter um amigo como o Lucas me fazia duvidar um pouquinho do caráter dele.
- Vamos descendo? – Alicia perguntou, indo em direção ao elevador, o que me assustou um pouquinho, pois assim eu quase pude ver o umbigo dela através do decote e-nor-me do vestido que usava. Ela não deve saber que descência às vezes é bom.
- Você vem conosco, ? – Lucas perguntou, olhando profundamente nos meus olhos de uma forma bizarra. Cara, o que tá acontecendo com esse menino?
- Hm, não, eu tô esperando meu namorado. – eu disse, só pra tentar escapar de ter que aguentar aquele olhar bizarro sobre mim por mais um tempo, já que eu nem sabia se Poynter já tinha descido ou se ainda estava se arrumando. Mas o que aconteceu depois respondeu minha dúvida.
- Não precisa esperar mais, já tô aqui. – Poynter disse, saindo do seu quarto, todo lindo, diga-se de passagem, e indo de minha direção, me dando um beijo na bochecha e passando um braço em volta de minha cintura. Olhei para Lucas, que tinha fechado a cara, e para o resto da turma que nos encarava em silêncio, e sorri falsa.
- Deixa eu apresentar vocês! Gente, esse aqui é o Dougie, meu namorado. Dougie, esses são alguns velhos amigos meus do Brasil. – eu disse, e Poynter sorriu para eles.
- Prazer em conhecê-los. – ele disse, fingindo que não sabia de nada. Ele também era bom ator, acho que até poderia levá-lo pra Broadway comigo.
- Prazer, cara. – Alex disse, apertando a mão de Dougie e sendo seguido por Jonathan. Ele me olhou de relance, mas foi interrompido por Alicia, que quase pulou em cima do garoto.
- Eu sou Alicia. Muito prazer, Dougie. – ela disse, ignorando a careta que Poynter fez pra ela. Que menina abusada! Como ela simplesmente se joga em cima do MEU namorado? Tá, ele não é meu namorado de verdade, mas ela não sabe disso.
- Hm... prazer. – ele respondeu, voltando a me segurar pela cintura, dessa vez mais forte.
- Vamos pra festa? – Lucas disse meio baixo, ainda com aquela mesma expressão estranha. Todos se dirigiram ao elevador.
- Nos vemos lá em baixo. – Poynter disse, e assim que o elevador se fechou, ele me soltou.
- Você tá fazendo o cara ficar retardado, . – ele comentou, rindo da cara de Lucas. Eu ri de leve, ainda perplexa.
- Aquilo é muito estranho, nunca tinha o visto daquela forma. E olha que nós namoramos por quase um ano. – eu comentei, e Poynter deu de ombros. Eu respirei fundo e afastei esses pensamentos, entregando minha chave, meu gloss e meu celular pra ele.
- Guarda no seu bolso, please. – eu disse, e ele o fez – Ok, tá na hora de festar.
- É isso aí, esse é o espírito, . – ele disse, me puxando pra dentro do elevador que havia acabado de chegar – Tá na hora de por a parte 2 do nosso plano em prática.
Nós batemos as mãos em um high-five, e Poynter sorriu confiante, o que me passou confiança. Incrível como eu me sentia onipotente perto daquele garoto.

Capítulo 15 – “I wanna, I wanna, I wanna touch you, you wanna touch me too.”

Preciso dizer que a tava super gostosa naquele vestido? Não, eu sei, então nem vou me estender mais nesse assunto, até porque ele é muito perigoso. Mas enfim, chegamos ao tal salão, que estava sem a lona que o cobria normalmente, então podíamos ver o céu sem estrelas sobre nós. Havia uma pista de dança improvisada em frente ao grande balcão com vários barmen servindo todos os tipos de drinks para os muitos jovens que apareceram do nada no resort – já que eu não tinha visto tanta gente da minha idade por ali durante o dia. Uma música animada tocava, e as fracas luzes coloridas que iluminavam a pista davam um clima super legal de balada. Demos umas voltas pelo lugar, até que eu senti sede.
- Quer beber alguma coisa? – eu perguntei pra , chegando bem perto do seu ouvido, já que a música estava alta, e não pude deixar de sentir seu perfume doce invadindo meus sentidos. Tentei afastar pensamentos impróprios de minha mente, o que era meio difícil.
- Eu quero um... – ela disse, pensando por um instante – Sex on the Beach!
Eu arqueei as sobrancelhas e sorri de lado.
- Bom, se é isso que você quer é só nós irmos até a praia aqui do lado e... – eu disse, e ela revirou os olhos, me dando um tapinha no braço. Caramba, os tapas dela ardem!
- Eu não quero fazer Sex on the Beach, Poynter, eu quero beber Sex on the Beach.
- Ah, droga! – eu disse, fazendo cara de decepção, e ela gargalhou. Uma bela gargalhada, por sinal. Senti algo se mexer dentro do meu estômago, e eu sinceramente espero que tenha comido comida estragada. Saí dali antes que meu estômago me traísse mais uma vez.
- Um Sex on the Beach e uma dose de tequila, por favor. – eu disse, assim que consegui ser atendido, já que o lugar tava apinhado de gente. Bando de bêbados, viu! Tomei minha dose e pedi mais uma, observando o lugar. E foi aí que vi que a tal de Alicia estava vindo em minha direção.
- Oi, Dougie. – ela disse, com uma tentativa de voz sedutora. Até que a menina não era feia, mas tô fora, hein.
- Olá... é... qual o seu nome mesmo? – eu perguntei, desinteressado, tentando fazê-la perceber que eu não tava nem um pouco afim. Mas ela não pareceu perceber. Pelo contrário, chegou ainda mais perto de mim, mordendo o lábio.
- Alicia. Ali, pra você. – ela disse, e eu assenti, tomando mais uma dose e sentindo a tequila arranhar minha garganta, chupando uma rodela de limão em seguida – E aí, quer dançar?
Eu arqueei as sobrancelhas.
- Muito obrigado pela oferta, mas tenho que levar esse drink pra minha namorada. – eu disse, dando ênfase ao minha namorada. Olhei por trás dos ombros de Alicia e pude ver a , que conversava com o tal Lucas. E ele estava perto demais pro meu gosto. Perto demais. Senti algo queimar dentro de mim. E, dessa vez, não era a tequila.

****

Meeeeeeeeeu, o que era aquilo? Sério, como é que o Poynter conseguia ficar mais bonito a cada dia? Naquela noite ele estava usando uma camisa pólo roxa escura e calça jeans skinny caindo, como sempre, e estava excepcionalmente gato. Assisti-o andar até o bar, divagando sobre a beleza dele, quando fui interrompida por Lucas, que apareceu na minha frente com um copo enorme de algo que cheirava à vodka.
- Oi de novo, . – ele disse, parecendo levemente alterado. Como alguém conseguia estar bêbado depois de meia hora de festa? O Lucas deveria estar com algum problema, só pode. Aliás, ele me chamou de ?
- Oi, Lucas. – eu disse, dobrando os braços, sem muita paciência pra aguentar conversa de bêbado.
- Alguém te disse que você tá linda hoje? – ele disse, sorrindo sedutor, e eu arqueei as sobrancelhas. Eu, hein.
- Sim. O meu namorado. – eu disse, sorrindo amarelo, mas ele não pareceu se abalar.
- Quer dançar?
- Não, muito obrigada. Tô esperando o Dougie. – eu disse, e ele revirou os olhos.
- E seu namoradinho te deixou sozinha no meio dessa pista de dança? Que trouxa, hein. – ele comentou, e eu senti meu sangue ferver.
- Eu sei muito bem o que é ter um namorado trouxa, Lucas, e posso garantir que o Dougie não é um deles. – eu disse, sorrindo cínica, e ele respondeu o sorriso da mesma forma, totalmente ignorando minha indireta. Mané.
- Qualé, vamos dançar. Afinal, seu namoradinho parece estar ocupado o bastante. – ele disse, apontando para o bar. Me virei e vi Alicia quase se jogando pra cima do Poynter, o arrastando até a pista de dança. Senti meu sangue subindo à cabeça, e não gostei nem um pouquinho. Aquela garota era abusada demais, caramba! E além disso, por que é que o idiota do Poynter tinha ido dançar com ela? Talvez ele não a achasse tão escrota quanto ele falava. Afinal, Dougie Poynter não ignoraria uma garota com um decote tão grande se oferecendo pra ele. Ah, mas ele ia ver.
- Vamos logo. – eu disse, puxando Lucas pra dentro da pista de dança comigo. Sim, eu sabia que era loucura dar trela pra aquele mané, mas naquele momento eu não estava nem aí pra nada, estava puta demais pra pensar. Uma música animada tocava, e eu tentei me soltar, mesmo sem conseguí-lo com muito sucesso. Não conseguia tirar os olhos do casalzinho que estava a poucos metros de mim. Alicia abraçava Poynter pelo pescoço, e ele parecia estar um pouco irritado com a atitude dela. É, quem sabe o Poynter tem um pouquinho de juízo naquela cabecinha oca dele – por mais que eu ainda duvide um pouco. Nossos olhos se encontraram, mas a minha visão foi coberta por aquele trouxa que eu quase havia esquecido que estava lá.
- Você fica ainda mais linda dançando. – Lucas disse, me puxando pela cintura. Tentei me desvencilhar, mas ele me segurava forte, me forçando a sentir o perfume dele. Aquele perfume doce que me fazia enlouquecer há alguns anos atrás, e que hoje só me trazia repulsa.
- Me solta, Lucas. – eu disse, mas ele me ignorou, me puxando ainda mais pra perto de seu corpo. Tentei mais uma vez sair de lá, mas ele apertou meus braços – Tá doendo, Lucas, me solta!
- Algum problema por aqui? – Poynter perguntou, me puxando com força pra longe de Lucas. Olhei pra ele e vi que ele trazia um olhar tenso, encarando Lucas com raiva.
- Não, Dougie, tá tudo bem. – eu disse. O que eu menos queria era que os dois acabassem brigando ali na festa. Lucas quis responder, mas eu o impedi – Vamos beber alguma coisa.
Eu o puxei pela pista, parando em frente ao balcão e pedindo uma bebida.
- O que foi aquilo, Poynter? – eu perguntei pra ele, e ele franziu o cenho, irritado.
- O que foi o que? Você queria que eu tivesse te deixado lá com aquele idiota? – ele perguntou, e eu revirei os olhos.
- Não, seu lerdo, o que foi aquela sua dança com a nanica da Alicia? – eu perguntei, dobrando os braços, e ele arqueou as sobrancelhas.
- A menina me empurrou pra pista de dança antes que eu pudesse sair correndo. – ele disse, e eu tomei um longo gole de alguma bebida que o barman havia colocado ali, sentindo o álcool arranhar minha garganta. Poynter me olhou e sorriu de lado, de volta com seu sorriso eu-sou-o-dono-da-situação – Tá com ciúmes da Alicia, é ?
Eu revirei os olhos mais uma vez e sorri da mesma forma.
- E você, tava com ciúmes do Lucas, é?
Ele riu e, sem responder nada, tomou um gole de alguma outra bebida lá. Eu realmente não sabia nada de bebidas.
- Bom, obrigada. – eu disse, passando a mão no vergão que Lucas havia deixado em meu braço – Sabe-se lá o que teria acontecido se você não tivesse aparecido. O Lucas tá me dando mais medo a cada dia.
- E mesmo assim você estava dançando com ele... – Poynter comentou, se virando de frente pro balcão, de lado pra mim. Eu ri e o puxei de volta, pra que ele me olhasse.
- Isso te incomoda, é? Tá me parecendo ciúmes. – eu comentei, e ele riu, cínico, chegando mais perto de mim.
- Sabe por que é que você tá achando que é ciúmes? Porque você quer que seja ciúmes. – ele disse, e eu sorri de lado. Tá, poderia até ser um pouquinho de ciúmes. Mas no way ele ia saber disso.

****

Ela sorriu cínica da mesma forma que eu. E eu que me gabava de ser o único capaz a sorrir daquele jeito...
- Não sei se você lembra, querido, mas foi você que começou com a história de eu estar com ciúmes da Alicia. Talvez seja você quem quer que eu esteja com ciúmes. – ela comentou, e eu só pude rir. Tá, talvez eu estivesse com ciúmes, mas ela não ia saber disso nunca. Ficamos ali por alguns minutos, só bebendo e observando o lugar, quando eu perdi a paciência.
- Vamos dançar logo? – eu disse. Já estava cansado de ficar ali parado enquanto tinha uma garota como a na minha frente. Ela assentiu, acabou de beber seu drink e segurou minha mão, abrindo caminho pela galera que dançava, chegando até o meio da pista. Uma música desconhecida, mas bem legal tocava, e se animou, fechando os olhos e se mexendo de maneira muito sexy no ritmo da música. Eu não fazia ideia do porquê, mas não conseguia tirar os olhos dela. Era simplesmente... encantador. Encantador e intoxicante. Era como se ela fosse um ímã que me chamava sempre pra mais perto. Eu sentia necessidade de chegar mais perto, de tocá-la, de tê-la em meus braços. Ela abriu os olhos e sorriu pra mim, e eu senti algo em meu estômago mais uma vez. Mas, dessa vez, eu não ligava pras consequências. Ela chegou mais perto de mim e eu envolvi sua cintura com meus braços, grudando nossos corpos e nossas testas. Nos encaramos profundamente por um instante. E foi aí que eu a beijei.

****

Eu me deixei levar pela música. Queria esquecer de tudo, esquecer das idiotices do Lucas, esquecer de qualquer coisa que me aborrecesse. Essa é a parte boa da música: quando você mergulha nela, ela pode te trazer sensações incríveis. Abri os olhos e encontrei os olhos azuis de Poynter me encarando, enigmáticos. Eles possuiam um brilho diferente, um brilho que me hipnotizava, me deixava sem saber o que pensar, o que fazer. Alguma força maior me levava até ele – eu não sabia o que era, mas não ousaria ignorá-la. Dei um passo em direção a ele e senti seus braços me envolverem, colando nossos corpos. Aqueles olhos perfuraram minha alma, e eu senti um forte arrepio na espinha. E foi aí que ele me beijou. Fiquei imóvel por um instante, sem ter forças pra fazer nada. Senti meus joelhos tremerem e coloquei meus braços em volta do pescoço do Poynter, que aprofundou o beijo. Nossas línguas se tocaram como num choque elétrico, que passou rapidamente por todo meu corpo, me fazendo sentir muito, muito bem. Puxei os cabelos macios dele levemente, enquanto ele me apertava ainda mais contra seu corpo. A sincronia com que nossas línguas se mexiam e nossos corpos se encaixavam era incrível, sem explicação. Não sei se um segundo – ou um século – se passou, quando um trovão muito alto explodiu no céu, fazendo com que nós nos separássemos.

****

- Ah não, trovão não! – disse, olhando assustada para o céu. Eu ri de leve, ainda um pouco anestesiado pelo beijo. Eu nunca tinha me sentindo daquele jeito ao beijar uma garota. Nunca. E, apesar daquilo ser muito estranho, eu não ligava. Naquele momento, tudo o que eu queria era tê-la em meus braços. De novo.
- Tem medo de trovão, é ? – eu perguntei, bem baixinho, perto do ouvido dela, e senti seu braço, que ainda rodeava meu pescoço, se arrepiar. Ela olhou pra mim e sorriu.
- Agora não. – ela respondeu no mesmo tom, quando senti alguns pingos de água gelada caindo sobre nós. Não passou nenhum minuto até que uma chuva relativamente forte começou a cair. Algumas pessoas saíram correndo, outras continuaram dançando ainda mais animadas, mas nós não nos mexemos. E eu só conseguia olhar pra ela. E foi aí que, mais uma vez, eu a beijei.

Capítulo 16 – “Nervous hands and anxious smiles, I can feel you breathing”

Acordei sentindo uma leve pontada na minha cabeça. Eu sempre soube que sou fraca pra bebida, mas só tinha bebido uns três drinks na noite anterior e estava com uma leve ressaca. Parabéns, , você é esperta! De qualquer jeito, me levantei, fiz o que precisava no banheiro e voltei para o quarto para abrir as cortinas, tossindo de leve. Olhei pela sacada e vi que o céu estava cinza, e um ventinho frio batia em meu rosto. Legal, o sol de ontem já tinha sumido sem nem nos dar tempo pra dar uns mergulhos no mar. Tossi de novo e me lembrei de ter tomado chuva na baladinha de ontem à noite. Teria que rezar pra não ficar doente para o casamento – porém, é claro que eu não ia sair da pista de dança só porque uma chuvinha tava caindo, né? Afinal, não sou feita de açúcar. E a balada tava bem gostosa, muita gente animada, música boa, beijo com o Poynter, Lucas morrendo de ciúmes... Arregalei os olhos e dei um tapinha na minha testa. Tinha quase me esquecido da sessão de beijos que havia ocorrido entre Poynter e eu. Ops. Mais uma razão pra eu nunca mais beber, perda de memória é uma merda. Mas agora eu me lembrava muito bem de tudo: a música envolvente, ele me segurando forte, aproximando nossos corpos, me beijando... Bom, nós estávamos fingindo sermos namorados, então era natural que nos beijássemos. Não daquele jeito. Que jeito? Foi um beijo normal! Não, não foi. E foram dois beijos. Um, dois, tanto faz! E claro que foi um beijo normal! Não foi e você sabe. Até parece mesmo que mísero beijo daquele idiota do Poynter ia fazer alguma diferença na minha vida. Então por que é que você está corada e seus braços estão arrepiados? É o frio. Ah claro, é o frio. E eu sou a consciência do Obama. Yes we can!* Cacete, eu já disse que odeio monólogos interiores? Auto-análise é a pior coisa do mundo, você fica remoendo e remoendo e remoendo tudo e não consegue parar. Perdeu, playboy! Ninguém mandou se apaixonar pelo Dougie. ME APAIXONAR POR ELE? Ah, me poupe, isso é ridículo. Pode tentar me enganar o quanto quiser. Mas não se esqueça, ninguém engana a si mesmo. Senti um arrepio correr pela minha espinha. Segurei o ferro que rodeava a sacada e abaixei a cabeça, fechando os olhos. Eu não podia sentir aquilo, simplesmente não podia.
- Momento reflexão, ? – ouvi a voz que temia ouvir soar. Levantei a cabeça e encontrei Poynter na sacada ao lado da minha, onde ficava o quarto dele. Ele ainda vestia seu pijama e tinha cara de quem acabou de acordar – o que não o deixava nem um pouco menos lindo. Cala a boca, ...
- Não... só estou com um pouco de dor de cabeça. – eu comentei, tentando fugir do olhar penetrante que ele lançava pra mim. Como é que ele conseguia agir tão naturalmente o tempo todo? Respirei fundo e tentei fingir que nada havia acontecido, afinal eu não podia ficar toda abalada enquanto ele sorria como se tudo estivesse perfeitamente normal.
- Ressaca? – ele perguntou, se apoiando sobre o ferro da sacada e encarando o mar.
- Um pouco. Besides, não acredito que você me deixou beber tanto ontem! – eu reclamei, e ele arqueou as sobrancelhas, rindo de leve.
- Beber tanto? , você bebeu três drinks. – ele disse, e eu dei de ombros – Mas você é fraca pra bebida mesmo, hein?
- Que seja. – eu respondi, cruzando meus braços, tentando esquentá-los um pouco, já que estava bem friozinho ali. Senti o olhar de Poynter sobre mim e me virei, observando o resort abaixo de nós. Passei meus olhos rapidamente pelas piscinas, onde vi a turminha de Lucas andando em direção à praia. Revirei os olhos.
- Não aguento mais ver esses sete pra todos os lados. Parece que eles sempre têm que aparecer na minha frente! – eu comentei, bufando. Estava realmente de saco cheio daquela turma. Será que eles não podiam, sei lá, se enfiarem no meio da mata e pararem de aparecer em todos os lugares em que eu estava?
- É, também cansei dos olhares daquela Alicia em cima de mim. Tô com medo de ser molestado. – Poynter falou, e eu não pude deixar de rir. Olhei pra ele e vi que ele me olhava, pensativo.
- O que foi? – eu perguntei, e ele balançou a cabeça, voltando a encarar a praia. É minha impressão ou eu vi Dougie Poynter corar?

****

O que estava acontecendo comigo? Eu estava sendo o maior idiota da face da Terra, parado ali, olhando pra ela como se tivesse feito uma lobotomia. Sim, eu me lembrava perfeitamente de tê-la beijado na noite anterior. E eu também me lembrava do fato de eu ter dado o primeiro passo. Em uma situação normal, eu teria acordado na cama dela e, caso a noite tivesse sido boa, falaria umas palavrinhas bonitinhas pra ela pedir por mais. Mas por que é que essa não era uma situação normal? Por que é que ontem à noite eu a havia deixado na porta de seu quarto com um beijo na testa, entrado no meu quarto, me jogado na cama e me revirado ali por sei lá quanto tempo pensando nela? Que eu nunca havia me sentido assim por nenhuma outra garota é óbvio, nem vou tentar mais negar. O problema é o porquê de eu me sentir assim. E, pela primeira vez, eu estava com medo de descobrir que problema era esse.
- Nada... – eu respondi, tentando esconder o fato de estar corando. Eu estava corando por causa de uma menina, que ridículo – Tá afim de dar o fora daqui?
Ela me olhou, arqueando as sobrancelhas.
- Ouvi falar sobre uma cidadezinha que fica a uma meia hora daqui. Dizem que o shopping de lá é muito bom. Quer ir? – ela fez uma careta de preguiça – Ah , a gente já tá nesse lugar há 5 dias, sair um pouquinho daqui vai ser ótimo. E vai ser um dia sem ter que encarar o grupinho que não larga do nosso pé!
Ela fez bico, mas assentiu.
- Me dê meia hora. – ela disse, fazendo uma carinha que me encantou. Cacete, eu disse isso mesmo?
- Ok, nos vemos lá em baixo em meia hora. – eu disse, entrando no quarto, que estava confortavelmente quente, em contraste com o frio lá fora. Segui para o banho, com algum tipo de ansiedade dentro de mim. Fiz força para não pensar no motivo daquela ansiedade. Me dá um tiro, vai?

****

Senti a água quente descer pelo meu corpo de uma forma reconfortante. Mas, por mais que eu tentasse manter minha mente vazia, eu não conseguia. A voz dele ecoava em minha mente, e eu podia sentir o toque dele em minha pele, em meu rosto, em meus lábios... era potencialmente idiota, mas eu não conseguia esquecer. Desliguei o chuveiro e me sequei rapidamente – tinha demorado no banho mais do que devia. Vesti uma meia calça fosca vermelha berrante, um short preto, uma blusa de manga comprida vermelha coberta por um casaquinho preto, acompanhados de uma sapatilha da mesma cor. Prendi minha franja pra trás, deixando meu cabelo um pouco ondulado cair por meus ombros, passei uma leve maquiagem e estava pronta. Não sei porque, mas estava me importando mais com a minha aparência ultimamente do que o normal. E não queria nem imaginar o porquê, podia dar de cara com algo inesperado. Enfim, taquei tudo que poderia precisar dentro da minha bolsa vermelha e saí do quarto. Desci até a entrada do resort e procurei Poynter com os olhos, não o encontrando. Pensei em perguntar na recepção, mas antes que pudesse voltar ao hall, sete lindas pessoinhas apareceram. Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece, incrível!
- Bom dia. – eu os cumprimentei, tentando não parecer estar querendo sair correndo dali. É claro que eu queria mostrar pro Lucas que tinha dado a volta por cima, mas acho que o recado já tinha sido dado. Até porque na noite passada ele tinha sido estranho demais pro meu gosto, e a cada dia ele ficava mais estranho. E eu definitivamente não gostava daquilo.
- Bom dia nada, , quase boa tarde, né! Olha só que horas já são! – Alex comentou, sempre simpático – Acordou tarde!
Eu assenti, reparando na cara feia que Alicia olhava pra mim. Eu também estaria de cara feia se eu me jogasse em cima de um garoto e ele me deixasse no maior vácuo. Ops, espera, eu nunca me jogaria em cima de um garoto como ela fez. Logo, bem feito pra ela! E não custava nada dar uma cutucadinha, né?
- Sabe como é, a noite foi boa. – eu comentei, tentando deixar clara a óbvia ambiguidade da frase, vendo que ela fez um biquinho bem tosco de raiva. Ha.
- É, deu pra ver mesmo. – Lucas comentou, com os braços cruzados e um olhar sombrio. Tá, o olhar dele meio que me assustava. Abri minha bolsa à procura de meus óculos escuros, também tentando fugir do olhar de Lucas, quando uma das amiguinhas da Alicia apontou pra ela.
- Ai meu Deus, é Prada original! – ela disse, encarando a minha bolsa. Cara de fútil a menina já tinha, mas reconhecer marca de longe é estranho o bastante. Coloquei meus enormes óculos escuros e ela apontou pra eles – E Dolce e Gabbana originais também!
Revirei os olhos. Eu mereço, mesmo. Sorri falso e fingi estar empolgada.
- São lindos, né? – eu disse, tirando os óculos e mostrando pra tal garota. Olhei de canto de olho pra Alicia e sorri – Presente do Dougie.
Vi uma das amiguinhas dela abrir a boca pra elogiar, mas levou um aperto no braço da Alicia, que parecia lívida. Eu só sabia sorrir. Pra aprender a não ser oferecida com os namorados das outras, nojenta! Lucas ia fazer algum comentário quando uma buzina soou atrás de nós.
- Get in, loser, we’re going shopping! - Dougie gritou de dentro do conversível vermelho com aparência de caríssimo que sei lá onde ele arrumou. Tenho que falar que ele estava charmosíssimo com uma jaqueta preta e wayfarers pretos. Super sexy.
- Bom gente, eu vou indo. A gente se vê por aí! – eu disse colocando de volta os óculos e indo em direção ao carro, na maior pose esnobe que consegui. Pô, eu tinha que aproveitar, né? E implicar com a Alicia era um ótimo passatempo.
- Citando Meninas Malvadas, Poynter? – eu perguntei, assim que ele arrancou com o carro.
- Qualé, todo mundo assistiu esse filme. – ele disse, e eu o encarei suspeita – Tá, eu sempre sonhei em falar aquilo.
Dei uns tapinhas no ombro dele, em simpatia.
- Relaxa, Poynter, todo mundo sonha em ser Regina George. - ele riu, e eu passei a mão pelo banco, que era de couro e muito macio – Onde é que você arrumou esse carro?
- Coisinhas que um pouquinho de dinheiro ajuda em qualquer lugar. – ele disse, sorrindo misterioso.
- Um pouquinho de dinheiro, é claro. – eu comentei, nem imaginando quanto o aluguel daquele carro deveria custar. Me recostei no banco e apreciei a paisagem, que era realmente bonita. Várias árvores diferentes, e o céu, apesar de estar nublado, trazia uma certa calma. O vento frio que batia em meu rosto o deixou um pouco vermelho, mas eu não ligava, era bom mesmo assim. Ouvi algo apitar dentro da minha bolsa, e abri-a a procura de meu celular. Havia uma mensagem de voz. Alguém provavelmente me ligou enquanto eu dormia e eu não ouvi. Liguei pra ouvir a mensagem, digitei minha senha e logo a voz da minha mãe emergiu.
- Bom dia, meu amor! Provavelmente você está dormindo, então vou ser rápida. Me desculpe por não ter ligado antes, é que a recepção de celular nas cidades em que passamos é horrível. Enfim, espero que você esteja se divertindo muito aí no resort, e que não tenha matado o Dougie. Ele é um bom garoto, vocês vão se acostumar um com o outro. Eu e o Matthew estamos muito bem, as praias que visitamos são realmente muito lindas! Nós chegamos quinta feira na hora do almoço, então espero que nós quatro possamos almoçar nesse dia. Aproveite bastante, porque o dia do meu casamento está chegando! Matthew está mandando um beijo, e mande um pro Dougie também. Nos vemos em dois dias, ! Te amo! Beijo.”
- Quem era? – Douie perguntou.
- Minha mãe. Ela e seu pai mandaram um beijo. – eu comentei – Parece que eles chegam quinta feira mesmo.
- Só mais dois dias de liberdade. – ele comentou, olhando pra mim, me fazendo rir.
- Então vamos aproveitar fazendo compras! – eu disse, animada, e ele fez uma careta engraçada – HEY! Se você sonha em ser Regina George, tem que se acostumar a fazer compras, Poynter.
Ele revirou os olhos e me olhou feio.
- Primeiro, eu nunca disse que queria ser Regina George, eu só achava aquela fala dela legal. Segundo, por mais badass que ela seja, é melhor você parar de falar que eu sonho em ser ela porque isso é incrivelmente gay.
Eu mostrei a língua pra ele, que riu.
- Ok, eu paro. Até porque, considerando que você é meu namorado por parte do dia, eu não posso deixar as pessoas acharem que você é gay. Já basta a sua faminha de broxa. – eu falei, já sabendo que ele ia ficar puto.
- !

Capítulo 17 – “The boy’s a slag, the best you’ve ever had”

Chegamos ao tal shopping não muito tempo depois da incrível difamação da . Ela precisava me lembrar da historinha de broxa que ela inventou? Completamente desnecessário, até porque foi o maior absurdo que eu já ouvi na minha vida. Dougie Poynter broxando... até parece mesmo!
- Uuuuh, loja de departamentos! – disse, animada, me puxando pelo braço até a grande Saks que ficava no primeiro andar. E eu fui com ela, né? Fui convidar uma garota pra ir no shopping, é claro que isso ia acontecer. Demos de cara com a seção de perfumes, e a mergulhou no meio dos frasquinhos, cheirando um por um. Era muito engraçado assistí-la fuçando em tudo, toda concentrada. Depois de alguns minutos, ela pareceu achar o perfume ideal.
- Esse aqui é uma delícia! – ela disse, passando um pouco em seu pescoço e em seu pulso – Cheira só!
Ela estendeu o pulso pra eu cheirar, mas até parece que eu sou bobo, hein? A puxei pela cabeça e dei uma bela fungada em seu cangote.
- Uma delícia mesmo! – eu disse, e riu de leve, me empurrando e saindo de lá em meio a muitas roupas e acessórios. Eu pensei tê-la visto corar, o que era um ótimo sinal. Afinal, eu a havia achado bem indiferente quanto a tudo que havia ocorrido na noite passada. Qualquer outra garota estaria se jogando aos meus pés, pedindo por mais. Mas não, ela tinha que agir como se nada tivesse acontecido. Isso me deixava confuso, pô, eu não sabia o que fazer! Será que ela... não tinha gostado? Não, claro que não. Todas as garotas amam meus beijos, sempre. Besides, Dougie Poynter nunca duvida de si mesmo. É claro que ela tinha gostado, ela só era orgulhosa e irritante demais pra demonstrar. Acho que tínhamos isso em comum. Ouvi-a me chamar, e fui atrás.
- Não sabia que você comprava roupas de homem, . – eu disse, encontrando-a na seção de roupas masculinas. Ela fez uma careta.
- Não tô vendo roupa pra mim, trouxa, tô vendo roupa pra você. – ela disse, e eu arqueei as sobrancelhas.
- Eu não preciso de roupas, já tenho o bastante. – eu disse, mas ela negou.
- Isso aqui você não tem! – ela disse, me mostrando a tal peça de roupa.
- Um cachecol cinza? – eu perguntei, observando o cachecol que ela tinha nas mãos. Ela revirou os olhos.
- Não é um cachecol cinza, Poynter, é um lenço cor de chumbo! – ela disse, como se eu fosse retardado por não saber. Garotas... Quer dizer, na verdade, garotas não. ...
- E a diferença é... – eu disse, e ela riu, colocando o tal lenço em volta do meu pescoço.
- Um lenço não serve só pra esquentar, Poynter, mas sim pra enfeitar.
- Achei que isso fosse coisa de garotas. – eu disse, segurando o lenço em minhas mãos, que era de um ótimo tecido e até bonito.
- Talvez fosse há 10 anos, mas não é mais, Poynter. – ela disse, tirando ele da minha mão e o colocando em volta do meu pescoço mais uma vez – Todos os garotos usam lenços na Alemanha.
Eu franzi o cenho.
- Na última vez que eu chequei, eu não morava na Alemanha, .
Ela revirou os olhos mais uma vez, me puxando.
- Dá só uma olhada. Ele ficou um charme em você.
Ela me colocou em frente a um espelho, e eu tive que assumir, até que eu ficava charmoso com aquele bendito lenço. E não era tão gay quanto eu imaginava.
- Até que é legal. – eu disse, e deu uns pulinhos, animada.
- Eu disse! – ela falou, sorrindo prepotente, e tirou o lenço do meu pescoço – Eu vou comprar!
Eu pensei em falar algo pra impedí-la, mas em um segundo ela já tinha sumido. Incrível como ela conseguia ser rápida no meio daquelas roupas! Encontrei a garota alguns minutos depois no balcão de jóias.
- Caramba, menina, você some! – eu comentei, mas ela estava muito concentrada em uma pulseira que a funcionária da loja mostrava pra ela.
- É linda... – ela disse, completamente vidrada na pulseira. Eu cheguei mais perto e pude ver que era realmente uma bela pulseira. Uma corrente fina com três coraçõeszinhos vazados com pedrinhas vermelhas brilhantes – Mas é tão cara.
- É que são pedrinhas de rubis verdadeiros. – a vendedora disse, e eu vi mordendo o lábio. Estava linda demais. Não que isso fose uma novidade, mas enfim...
- Posso? – eu perguntei para a vendedora, e ela assentiu, e assim eu peguei a pulseira, colocando-a no braço de – Combina com você.
- Não é mesmo? – disse, sorrindo ao ver a pulseira em seu pulso. Era o bastante pra mim.
- É sua. – eu falei, pegando meu cartão de crédito de minha carteira e o entregando para a vendedora. Ela saiu de lá pra cobrar a compra, enquanto olhava pra mim com os olhos arregalados.
- Você só pode estar brincando, Poynter. – eu neguei, mas ela continuou – Eu não posso aceitar.
- Por que não? Você me comprou um presente também, oras. – eu disse, e ela revirou os olhos.
- Eu te comprei um lenço, Poynter.
- E eu te comprei uma pulseira, , ponto final.
Ela me deu um tapinha, sem poder conter seu sorriso. Me olhou com os olhos brilhando, o que fez valer o preço pago pela pulseira. Ela não conseguia tirar os olhos da pulseira, e eu não conseguia tirar os olhos dela. Oh-oh.

****

É sério, eu não sou obcecada por compras. De verdade, minha felicidade definitivamente não depende do que eu possuo. Porém, aquela pulseira era maravilhosa. Sabe quando você olha pra alguma coisa e não consegue tirar os olhos de lá? Foi isso que aconteceu com aquela pulseira. E eu não podia acreditar que o Poynter tinha comprado ela pra mim. Era inacreditável, afinal, desde quando ele liga pra o que eu quero?
- Muito obrigada de novo, Dougie. – eu disse, sentindo uma enorme simpatia por aquele belo ser de olhos azuis ao meu lado. Ele deu de ombros, observando a vitrine de uma loja por ali.
- Já disse que não precisa agradecer, . – ele disse, se virando pra mim, com um olhar diferente no rosto. Um olhar intoxicante, pra variar. Senti ele segurar minha mão direita e levantá-la, puxando de leve a manga do meu casaco e deixando a pulseira à mostra – Ela foi feita pra ser sua.
Eu ri de leve, encarando-a mais uma vez.
- Ela é tão linda... – eu comentei, baixinho, mais pra mim mesmo. Mas Poynter pareceu ouvir, já que ele completou:
- Tão linda quanto você.
Eu levantei os olhos rapidamente, impressionada com o que ele havia falado. Encontrei com os olhos azuis dele, que me encaravam fixos e profundos, fazendo com que minha nuca se arrepiasse. E, dessa vez, eu não podia tirar os olhos dele.
- É... bem o que eu pensei. – ele disse, sorrindo alegre e continuando a andar. Eu arregalei os olhos, sem entender porcaria nenhuma.
- Hã? – eu perguntei, o seguindo, confusa. Ele parou e se virou pra mim mais uma vez.
- Incrível como todas as garotas se derretem ao ouvirem elogios. – ele disse, simplesmente, voltando a andar. Eu abri a boca, pensando no que dizer, mas nada muito esperto me veio à cabeça. Salafrário! Cafajeste! Cachorro!
- Até parece que eu iria me derreter por algo que VOCÊ disse, Poynter. – eu disse, dobrando os braços, lívida. Moleque abusado do caramba! Ele apenas riu, e eu tive uma ideia. Tirei o lenço que havia comprado pra ele da sacolinha que carregava e o joguei por cima de seu pescoço, o puxando pra perto de mim com um pouco de força demais.
- Tá louca, é ? – ele perguntou, passando a mão pelo pescoço e fazendo uma careta de dor. Mas eu ignorei e puxei mais o lenço, fazendo com que ele chegasse mais perto de mim. Ele me olhou nos olhos, confuso.
- Você fica realmente muito sexy com esse lenço. – eu disse, quase num murmúrio, e o vi encarar minha boca e chegar pra mais perto, segurando minha cintura de leve. Dei um sorrisinho de canto e encostei nossas testas, fazendo com que nossas bocas ficassem a centímetros uma da outra, e murmurei:
- Quem é que está derretido agora?
Poynter arregalou os olhos e os revirou, e assim eu saí andando em direção à praça de alimentação. Até parece mesmo que eu ia sucumbir a esses sentimentos estranhos que percorriam meu corpo quando estava perto dele tão fácil assim. Ah, mas não ia mesmo.

****

Tá bom, eu vou ser sincero: não tinha a menor intenção de zoar com a cara da quando disse que ela era linda. Pelo contrário, aquela porcaria de frase saiu sem que eu pudesse sequer pensar no que estava fazendo. Ela simplesmente saiu, e eu fiquei pensando em como reverter a situação, afinal aquilo já estava ficando meloso demais. E eu realmente não sabia como lidar com aquilo. Aquela menina estava me deixando retardado, só pode.
- Eu tava quase me esquecendo como o Ronald McDonald é o rei dos sanduíches. – comentou, dando uma enorme mordida em seu sanduíche. Nós estávamos sentados na praça de alimentação, já eram quase 3 horas da tarde e nós não comíamos nada desde ontem.
- Sua mãe não te ensinou que comer rápido demais faz mal, ? – eu perguntei e ela deu de ombros.
- Dá licença que eu tô morrendo de fome. – ela disse, dando mais uma super mordida, e eu fiquei quieto, afinal também estava faminto. Ficamos em silêncio até terminarmos nossos lanches.
- E agora, o que a gente faz? – ela perguntou, acabando com seu enorme milk shake. Eu dei de ombros, juntando todo o lixo pra jogar na lixeira ali perto, mas encontrei um folheto de propaganda que haviam me dado junto com o meu lanche.
- Eu tenho uma idea. – eu disse, e arqueou as sobrancelhas, curiosa. Mostrei o folheto pra ela - Topa?
Ela riu de leve.
- Paintball? Aquele negócio com armas e balas de tinta que machucam pra caramba? Tô fora!
- Não, , não é desse Paintball. – eu disse, entregando o folheto pra ela, onde estava tudo explicado – É uma daquelas arenas à moda antiga, com bexigas de tinta em vez de armas.
Assisti-a ler o tal folheto, com a testa franzida, e quase desisti, achando que ela não ia topar. Mas do nada a garota abre o maior sorriso e dá pequenos pulinhos na cadeira.
- É que nem o Paintball da Kat e do Patrick em Dez coisas que eu odeio em você? – ela perguntou, e eu pensei um pouquinho, assentindo depois de me lembrar do que ela estava falando – Demorou! Sempre sonhei em jogar aquilo!
Ela se levantou de um pulo, o que me fez rir. era realmente diferente das outras garotas... mas enfim, not the point. Peguei todo o lixo e joguei na lixeira mais próxima, seguindo-a pra fora do shopping.

****

Aquilo era MUITO divertido! Eu e o Poynter já estávamos há uns 15 minutos correndo feito doidos no meio da tal arena de Paintball, que tinha uma decoração bem legal de fazenda, com vários quadrados enormes de feno que serviam muito bem de fortes, como eu já havia percebido. O lugar era bem grande e havia uma família jogando do outro lado do campo, já que era possível ouvir gritinhos divertidos de algumas crianças. Nós usávamos macacões brancos e óculos transparentes, pra evitar morte por contaminação por tinta ou coisa assim. Enfim, meu macacão já estava imundo, afinal o Poynter tinha uma ótima pontaria. Eu não era tão boa assim, mas já tinha conseguido fazer alguns estragos no macacão dele. Yay! Me escondi atrás de uma árvore de papelão que havia por lá, procurando Dougie com os olhos, mas não achando. Onde é que ele havia se metido? - Caham. – ouvi ele pigarrear atrás de mim, e fechei os olhos, já esperando levar uma bexiga de tinta na minha cabeça. Mas, não sei porque, nada veio. Me virei devagar e encarei Dougie, que me olhava com um sorriso simpático – Não precisa ficar com medo, eu tenho compaixão pelo seu cabelo, .
Eu arqueei as sobrancelhas, desconfiada. Ele sorria de uma forma boazinha demais pra ser verdade.
- E porque eu acreditaria em você? – eu perguntei, e ele riu, me abraçando pelo ombro e encarando o céu.
- É, talvez você não deveria. – ele disse, e antes que eu pudesse pensar no que aquilo significava, senti uma enorme bexiga de tinta vermelha escorrer por meu cabelo. Ah nãaaaaaaao, meu cabelo!
- Eu vou te matar, Poynter! – eu gritei, saindo correndo atrás dele, que já estava longe, rindo da minha cara. Corri o máximo que pude, conseguindo alcançá-lo, já que ele estava muito ocupado rolando de rir. Joguei uma bexiga verde que estourou bem na bochecha dele, fazendo-o me olhar vingativo e correr em minha direção. Nós estávamos razoavelmente perto, o que o fez chegar rápido demais até mim, e nós dois acabamos caindo em um monte de feno que havia lá.
- Sai de cima de mim, moleque! – eu disse, já que ele havia caído direto em cima de mim e estava me deixando ainda mais suja do que eu já estava. Ele riu e passou a mão por sua bochecha, sujando sua mão da tinta verde que eu havia jogado e passando-a por minha bochecha, a deixando toda suja.
- E se eu não sair, vai fazer o que? – ele perguntou, me encarando com um olhar diferente, fazendo um leve carinho em minha bochecha agora imunda. Eu sorri de lado com a proximidade entre nós, e não demorou muito até que eu senti os lábios dele nos meus. Diferente da outra noite, dessa vez ele me beijou com calma, sem pressa, como se nós tivéssemos todo o tempo do mundo pra sentir nossos corpos colados. Ele passou a língua por meu lábio inferior, pedindo permissão, e eu logo abri mais a boca, sentindo aquele mesmo choque da noite passada quando nossas línguas se tocaram, o mesmo choque que passava por toda a minha espinha, me arrepiando da cabeça aos pés. Ele apertou minha cintura, puxando-me pra mais perto dele, e eu levei minhas mãos até seu cabelo, que estava um pouco duro por causa da tinta que havia ali em contraste com a que estava em minhas mãos. Ficamos ali até que nos faltou fôlego e nos separamos, mas ainda mantendo nossas testas coladas. Ele me olhou profundamente, aquele olhar que sempre me intimidava – de uma forma boa – e eu senti minha bochecha corar de leve. Sangue idiota que tem que ficar subindo ao meu rosto o tempo todo! Vi Dougie sorrir e senti meu corpo se arrepiar ainda mais. Pensei em falar algo, mas nada me vinha à cabeça. Então fiz tudo o que parecia possível naquele momento. Taquei uma bexiga de tinta azul com tudo na cabeça azul.
- ! – ele disse, fingindo estar bravo mas rindo da situação.
- Chumbo trocado não dói, queridinho. – eu disse, me levantando e saindo correndo antes de levar mais tinta no meu cabelo.

Capítulo 18 – “My heart is beating faster, holding on to feel the same”

(Se quiser entrar no clima, põe pra carregar esta música aí)

Depois de eu ficar quase uma hora em baixo do chuveiro tentando tirar aquele tanto de tinta do meu lindo cabelinho, ele finalmente estava solto e brilhante mais uma vez. Sequei-o e me joguei na cama, com o intuito de tirar uma soneca antes do jantar. Não demorei muito pra cair no sono, e não sei quanto tempo depois acordei com meu iPhone tocando. Com a maior preguiça do mundo, eu obriguei meu braço a ir até o criadinho ao lado da minha cama e pegá-lo. Havia uma mensagem lá, e eu a abri.
Jantar com karaokê hoje às 8. Te vejo lá embaixo! DP x
Senti um sorriso brotar no meu rosto. Eu podia não conseguir explicar nada, mas aqueles sentimentos que apareciam a cada vez que eu me lembrava do corpo dele perto do meu eram bons demais pra eu tentar destruí-los com pensamentos. Me levantei e fui me arrumar, afinal já eram quase oito horas. Vesti um vestido tomara-que-caia branco com flores pretas e vermelhas estampadas, que possuia dois bolsos escondidos nas pregas da cintura, super engenhoso – especialmente porque a minha mãe é quem o tinha desenhado especialmente pra mim. Calcei um scarpin vermelho e passei uma leve maquiagem, prendendo meu cabelo num rabo de lado e sorrindo pra mim mesma em frente ao espelho. Tinha que falar que estava linda. Tá bom, a convivência com o Poynter estava me deixando metida – eca! Enfim, peguei meu celular e minha chave e os coloquei no bolso, saindo do quarto em direção ao elevador. Entrei nele e em alguns segundos estava no térreo. Andei com calma até o salão de jantar, de onde saía um barulho esquisito e histérico que eu acabei descobrindo com sendo a voz de um garota que cantava uma música dramática desconhecida no pequeno palco que havia no canto do salão. Passei os olhos por todo o lugar, que estava razoavelmente cheio, e encontrei as costas de Poynter no balcão de bebidas, assistindo a tal garota gritar esganiçadamente no palco.
- Adivinha se você não está no bar. – eu comentei, me sentando ao lado dele, que se virou pra mim. Não pude deixar de perceber quão lindo ele estava com uma camisa preta e uma de suas sempre muito sexys calças skinny.
- Hey, pra sua informação eu só não sentei em uma das mesas porque a única em que havia cadeiras sobrando era a dos seus amiguinhos brasileiros, e até parece que eu ia sentar com eles mesmo. – ele disse, apontando para a grande mesa em que os 7 estavam sentados.
- Ok, isso é ótimo. – eu disse, quando ele me estendeu um prato de macarrão.
- Peguei pra você. – eu franzi o cenho, achando a cena engraçada, mas ele deu de ombros – Ia pegar pra mim mesmo, já peguei pra você pra salvar um pouquinho de tempo.
- Muito obrigada então. – eu agradeci, vendo-o servir-se de uma garfada de seu próprio prato. Me virei pro barman – Me vê um Hi-Fi, por favor.
- Dois. – disse Dougie, olhando pra mim – Muito bom, , tomando bebidas fracas! Não quero levar a culpa por te deixar encher a cara de novo.
Dei a língua pra ele, que riu, e comemos em silêncio por um tempo, só ouvindo as péssimas músicas que as pessoas insistiam em cantar ali ao lado. Até que – finalmente – alguém começou a cantar algo decente.
- Ah, eu amo essa música! – eu comentei, e Poynter ia falar alguma coisa, mas eu o impedi – My mama said to stay away from guys like you, she said they were nasty, make me do things I don’t wanna do. Stay away from bad boys, they’ve got one thing on their mind. Their hormones are raging, and they want it all the time!
- Tá cantando isso aí pra mim, é ? – Poynter me perguntou, já que eu havia cantado a música olhando pra ele. Eu dei de ombros, tomando mais um gole da minha bebida, tentando fugir do assunto. Até porque a música era muito pertinente.
- I love you very much, you’re nice to see and nice to touch. I’ll never ever ever treat you wrong, been waiting for you all along…
Ele cantou, virando pra sua própria bebida, mas eu sabia que ele estava me observando com o canto do olho. Tá achando que eu vou me derreter só de ouvir sua voz super linda cantando uma música ainda mais linda? Não mesmo, hein Poynter. Ri de leve e pedi mais um Hi-Fi. Aquilo estava uma delícia. Ficamos em silêncio por mais umas duas músicas, só com nossos pensamentos, quando Dougie me encarou com um sorriso sapeca no rosto.
- O que foi, Poynter? – eu perguntei, mas a voz do carinha que tava cuidando do karaokê ecoou.
- Mais uma apresentação explêndida! – ele disse, enquanto a turma toda batia palmas pra um cara de cabelos compridos que havia cantado um rock angustiante e esquisito – E agora, quem será o próximo a cantar?
- NÓS! – vi o babaca do Poynter levantar a mão e todos ali olharam pra ele. Tudo bem se ele tivesse dito eu, mas não, ele disse nós. E isso não era um bom sinal, não mesmo!
- Poynter, tá ficando louco? – eu perguntei, puxando-o pelo braço no momento em que ele se levantou do banco dele.
- Não estou não. Nós vamos cantar, . – ele disse, sorrindo feito o cretino que ele é.
- Nós VÍRGULA, meu bem, eu não vou cantar nada! – eu disse, mas ele pareceu não dar a mínima. Mas é claro, como se eu não soubesse que ele é uma das pessoas mais teimosas do mundo.
- Qualé, , você tava cantando a minutos atrás. – ele disse, e eu revirei os olhos. Como se fosse a mesma coisa – Vem, eu escolho uma música legal.
Ele foi em direção ao palco, mas eu continuei sentada. Nem pagando eu ia cantar na frente daquele monte de gente! Fiquei repetindo isso na minha cabeça, até que eu fui perceber o quão lindo Dougie estava naquele palco, com todas aquelas luzes em cima dele. Ele falou com o carinha do karaokê e pegou o microfone. Quer apostar quanto que ele vai fazer com que todo mundo me pressione pra ir cantar com ele?
- Boa noite, galera! – ele disse, e eu pude ver todas as garotas o observarem interessadas, comentando com as amiguinhas e tudo. Revirei os olhos – Meu nome é Dougie Poynter e agora vou fazer um dueto com minha linda namorada !
A música começou, e eu pude reconhecê-la. Uma das minhas músicas favoritas. Cretino, como ele sabia? Ele me olhou através do salão com aquele olhar de quem sabia que eu não ia deixá-lo no palco cantando sozinho depois do que ele falou. E o pior é que era verdade. Eu não tinha coragem.

Oh, I can't take another heartache
(oh, eu não posso aguentar outra desilusão)
Though you say you're my friend
(apesar de você dizer que é meu amigo)
I'm at my wits end (estou ficando louca)
You say your love is bonafied
(você diz que seu amor é bondoso)
But that don't coincide
(mas isso não coincide)
With the things that you do
(com as coisas que você faz)

Fiquei impressionada com a voz dele que, amplificada, ficava ainda mais linda. Ele definitivamente cantava muito bem. E, pior, não tirava os olhos de mim por nenhum segundo. Eu sentia como se estivesse tendo algum tipo de ataque cardíaco, de tão rápido que meu coração batia. E, apesar de tudo, eu não conseguia parar de sorrir feito uma idiota. Era simplesmente... lindo. Não havia nada ali além dele, e nenhum barulho além de sua voz. Eu estava tão distraída que nem pensei duas vezes antes de me levantar e ir até o palco.

And when I ask you to be nice
(e quando eu peço pra você ser legal)
You say you gotta be
(você diz que você tem que ser)
Cruel to be kind, in the right measure
(cruel pra ser gentil, na medida certa)
Cruel to be kind, it's a very good sign
(cruel pra ser gentil, é um ótimo sinal)
Cruel to be kind, means that I love you
(cruel pra ser gentil, significa que eu te amo)
Baby, you gotta be cruel to be kind
(baby, você tem que ser cruel pra ser gentil)

O tiozinho do karaokê me ajudou a subir no palco e me entregou um microfone, e eu fui até o meio daquele, vendo o olhar profundo de Poynter sobre mim. Dei a língua pra ele por estar me fazendo passar por aquilo e, tentando esquecer o fato de ter dezenas de pessoas me olhando, eu comecei a cantar.

Well I do my best to understand, dear
(eu faço o meu melhor pr ate entender, querido)
But you still mystify, and I wanna know why
(mas você ainda faz mistério, e eu quero saber porquê)
I pick myself up off the ground
(eu me levanto do chão)
To have you knock me back down
(pra que você me derrube)
Again and again
(de novo e de novo)

Ele só me assistia, com um sorriso enigmático no rosto. E era incrível como a música cabia perfeitamente ao momento.

And when I ask you to explain
(e quando eu te peço pra explicar)
You say you gotta be
(você diz que você tem que ser)
Cruel to be kind, in the right measure
(cruel pra ser gentil, na medida certa)
Cruel to be kind, it's a very good sign
(cruel pra ser gentil, é um ótimo sinal)
Cruel to be kind, means that I love you
(cruel pra ser gentil, significa que eu te amo)
Baby, you gotta be cruel to be kind
(baby, você tem que ser cruel pra ser gentil)

Ri de leve da minha própria voz ecoando no salão, e vi Dougie chegar mais perto de mim, segurar minha mão livre e voltar a cantar comigo. Eu não queria nem imagima a cara de idiota que deveria estar fazendo naquele momento, só queria aproveitar. Pois, naquele momento, eu o tinha só pra mim.

And when I ask you to explain
(e quando eu te peço pra explicar)
You say you gotta be
(você diz que você tem que ser)
Cruel to be kind, in the right measure
(cruel pra ser gentil, na medida certa)
Cruel to be kind, it's a very good sign
(cruel pra ser gentil, é um ótimo sinal)
Cruel to be kind, means that I love you
(cruel pra ser gentil, significa que eu te amo)
Baby, you gotta be cruel to be kind
(baby, você tem que ser cruel pra ser gentil)

A música acabou, e todos do salão bateram palmas, alguns até assobiando de aprovação. Senti minha bochecha corar e a vergonha voltar, mas aquilo foi embora assim que eu senti Dougie me puxar pra mais perto dele pela cintura e depositar um beijo demorado em minha bochecha. Fizemos uma reverência pra platéia e saímos logo do palco, em direção à mesma área onde ficamos há uns dias atrás, onde havia alguma mesinhas e um chafariz.
- Eu não acredito que você me fez fazer aquilo, Poynter! – eu comentei, dando a língua pra ele, que riu da minha cara, me puxando pra um abraço.
- Larga de frescura, , você foi ótima. – ele comentou, bem perto do meu ouvido, me fazendo arrepiar de leve. Colou nossas testas, me obrigando a encarar aqueles olhos azuis que me deixavam atordoada. E, mais uma vez, era como se nada ao meu redor existisse.

****

Eu não conseguia descolar meus olhos dos dela. Mais uma vez eu me sentia completamente idiota perto dela, sem saber o que dizer, o que fazer. Isso já estava virando rotina, e até meu coração parecia estar querendo entrar na dança. Ele batia forte, de uma forma que só batia quando, sei lá, eu jogava futebol com meus amigos no colégio por muito tempo. Péssima comparação, eu sei – mas eu já disse, eu estou ficando maluco. segurou meu rosto com as duas mãos e me deu um selinho demorado, me encarando logo em seguida, mordendo o lábio.
- O que está acontecendo com a gente, Dougie? – ela perguntou, me pegando de surpresa. Eu não sabia o que dizer.
- Eu também queria saber, . – eu disse, e ela pareceu um pouco frustrada. E eu não podia deixar que aquele rostinho lindo ficasse pra baixo – Mas, seja lá o que for, eu tô gostando muito.
Ela sorriu, e eu não consegui não sorrir com ela.
- É, eu também.
Passei a mão pela bochecha dela e a puxei de leve, a beijando com calma. Estranho como eu podia ficar ali pra sempre, só a sentindo tão perto de mim. Alguns minutos se passaram e me empurrou de leve.
- Que foi? – eu perguntei, arqueando as sobrancelhas. Ela fez uma careta.
- Eu preciso faazer xixi. – ela disse, sorrindo sem graça, e eu não pude deixar de gargalhar.
- Tá bom, vai lá. – eu disse, a puxando de volta mais uma vez e dando-lhe um selinho. Ela me deu outro e saiu de volta ao salão. Assisti-a andar até lá, com um sorriso ridículo no rosto.
- É, Dougie... acho que dessa vez você não escapa.
Suspirei e voltei para o salão. Precisava mesmo de uma bebida.

Capítulo 19 – “Pretty soon she’ll figure out what his intentions were about”

Eu não conseguia parar de sorrir. Me sentia idiota por isso, mas não estava nem ligando – eu estava feliz mesmo. Eu me esquecia de tudo e todos quando estava com ele, e essa era uma sensação mágica, que eu queria ter comigo sempre. Passei rapidamente pelo salão, onde uma garota cantava uma música dos Beatles, e entrei no banheiro super luxuoso que havia ali. Ele estava vazio, então deixei minha bolsa em cima da pia e fui até uma das cabines. Fiz ali o que precisava fazer e saí, lavando minha mão e dando uma arrumadinha básica no meu cabelo. Ouvi o barulho de alguém entrando no banheiro, mas nem liguei. Retoquei meu rímel e estava me preparando pra sair quando olhei para o espelho e vi uma pessoa conhecida atrás de mim. Uma pessoa que, definitivamente, não deveria estar ali.
- O que é que você tá fazendo aqui, Lucas? – eu perguntei, revirando os olhos impaciente e pegando minha bolsa, indo em direção à porta, sem nenhuma resposta. Porém, não pude deixar de me assustar um pouco quando tentei abrir a porta e não consegui. Me virei pra ele e vi que ele segurava a chave do banheiro em sua mão esquerda, já que a mão direita estava ocupada com uma garrafa de uísque.
- Eu vim aqui conversar com você, . – ele disse, com uma voz um pouco mole. Com certeza estava muito bêbado. Dei um passinho pra trás e senti minhas costas baterem de leve na porta.
- Nós não temos nada pra conversar. – eu disse, um pouco vacilante. Não gostava nem um pouquinho do jeito que ele estava me olhando. Parecia que todos os olhares estranhos que ele havia me dado desde quando nos encontramos aqui pela primeira vez estavam somados no olhar que ele me dava agora. Ele riu debochado e tomou mais um gole de uísque.
- Muito bonito o showzinho que você e aquele playboyzinho do seu namorado deram no karaokê. – ele falou, com uma expressão indefinida no rosto e uma voz arrastada.
- O que é que você quer? – eu perguntei, percebendo que minha voz estava ficando falha e minha respiração descompassada, enquanto ele dava alguns passos meio cambaleantes em minha direção.
- Eu já disse, eu quero conversar. – ele disse, parando a uns 4 passos de mim. Me encostei ainda mais na parede, segurando forte a maçaneta – Por que é que você tá com aquele idiota, hein?
- Não é da tua conta, garoto. – eu disse, juntando todas as minhas forças pra parecer ameaçadora. E sei que falhei violentamente. Ele riu, mas sua expressão não demonstrava nem a mais ínfima felicidade. Pelo contrário.
- Inglêzinho playboy cheio da grana, arrogantezinho do caramba... Não parece muito o seu tipo. – ele comentou, tomando mais um longo gole do uísque, que já estava na metade da garrafa.
- E qual é o meu tipo? Meninos brasileiros metidos a surfistas que traem as namoradas só porque elas não querem transar com eles? – eu perguntei, encarando-o com ódio. Odiava aquela mania dele de achar que me conhecia muito bem.
- Qualé, eu tenho certeza que você era muito mais feliz comigo do que com esse moleque aí. – ele disse, chegando mais perto de mim e passando sua mão fria pela minha bochecha. Senti um arrepio passar pela minha espinha. E eu sabia que era puro medo – Dá pra ver nos seus olhos.
Eu tentei esquivar meu rosto da mão dele, sem sucesso.
- Você não me conhece, Lucas. – eu disse, e ele sorriu de lado, um sorriso completamente embriagado. Eu podia sentir o cheiro forte de uísque vindo dele.
- É, acho que não conheço mesmo. – ele disse, jogando seu corpo com sobre o meu, me fazendo bater com tudo na porta – Você ficou muito mais gostosa nesses últimos anos.
Senti a mão dele passando grosseiramente por minha cintura, enquanto o cheiro de uísque ficava ainda mais forte, me fazendo sentir um pouco tonta por um segundo. Tentei me desvencilhar, mas ele me prensava tão forte que nem toda a minha força adiantou. Senti meu coração quase explodir dentro do meu peito, e não sabia se era de ódio ou de desespero.
- Me solta, Lucas! ME SOLTA! – eu gritei o máximo que pude, esperando que alguém lá fora me ouvisse, mas o barulho do karaokê estava alto demais. Senti-o apertar minha bunda com força, e eu teria soltado alguma exclamação de dor se ele não tivesse grudado nossos lábios, tentando fazer com que eu abrisse minha boca. Tentei me manter imóvel, mas ele era muito mais forte do que eu. Sentir aquele gosto forte de álcool na minha boca me enojou, e por um segundo eu desejei que pudesse vomitar direto na boca daquele canalha. Quem sabe assim ele me soltaria. Ele pressionava sua língua e até seus dentes contra os meus, e eu pude sentir um leve gosto de sangue que eu sabia que saía dos meus lábios. Senti-o ocupar suas duas mãos, tentando puxar minhas pernas para sua cintura, e aproveitei o momento para empurrá-lo com força pra longe mim.
- SOCORRO! SOCORRO, ALGUÉM ME AJUDA! – eu gritei com todas as minhas forças, batendo na porta do banheiro e tentando forçar a maçaneta, mas era inútil. Não demorou muito para que eu sentisse Lucas me abraçando por trás, com suas forças que pareciam estar renovadas.
- Você não quis me dar o que eu queria há dois anos... – ele disse ao pé do meu ouvido, dando chupões violentos por meu pescoço. Senti meus olhos começarem a ficar embaçados, e algumas lágrimas caírem por minhas bochechas – Então agora eu vou tirar de você o que eu quiser.
Senti o lado direito do meu vestido se rasgar pela metade, e não demorou nada para que a pele fria da mão de Lucas começasse a apertar minha barriga com força, enquanto ele me virava e me prensava contra a grande pia, me beijando a força. Pensei em me inclinar pra longe dele, mas minhas costas já doíam pelo atrito com o mármore frio da pia. Tentei pegar com a mão um vaso de flores que estava por ali, mas ele percebeu e segurou meu pulso com força, fazendo com que eu sentisse aquele local latejar. Me debati, mas quase não tinha mais forças. Eu não sabia o que fazer. Ele segurou minha coxa e a puxou violentamente para cima, apertando-a muito forte e subindo a mão até minha bunda, tentando rasgar minha calcinha. Fiz a maior força que consegui para tirar a mão dele de lá, mas não adiantava mesmo. Não conseguia mais conter as minhas lágrimas, e só me restou rezar pra que algo me salvasse daquilo.
- Pelo amor de Deus, Lucas, me deixa ir. – eu disse, num murmúrio, quando ele finalmente deu um descanso para meus lábios machucados e passou a atacar meu colo, apertando meus peitos e tentando, sem sucesso, tirar meu sutiã. E foi aí que eu vi que ele havia deixado sua garrafa de uísque em cima da pia. Respirei fundo e, com o resto de forças que me restavam, peguei a garrafa e a quebrei em cima da cabeça dele, vendo-o cair no chão em minha frente. Não sei quanto tempo fiquei ali, olhando para o corpo dele caído através das lágrimas que insistiam em sair de meus olhos. Aquilo era tão assustador que eu não sabia o que pensar. Passei minha mão direita por meus cabelos, vendo que a palma desta estava cortada. Provavelmente por um caco de vidro da garrafa quebrada. Lucas não parecia machucado, apenas desmaiado. Procurei a chave da porta pelo chão e assim que a encontrei, destranquei a porta, saí do maldito banheiro e corri. Corri tentando segurar o resto do meu vestido e me equilibrar em meus sapatos, tirando forças sei lá de onde. Corri o mais rápido possível pra longe dali.

****

Tomei mais um gole do meu copo de Bloody Mary. Assistia um casal de velhinhos cantarem aquela música do Titanic, enquanto todo mundo no salão quase chorava de ver a forma com que os dois se olhavam. Deve ser aquilo que eles chamam de amor, né? Enfim, já fazia uns bons 15 minutos que a tinha ido ao banheiro e até agora não havia voltado. E eu estava achando aquilo bem estranho. Me levantei e fui andando pelo salão a procura dela, mas, infelizmente, encontrei outra pessoa.
- Dougie! – a voz da pirralha da Alicia soou perto de mim, e logo ela apareceu com um copo enorme de algo que parecia alcóolico – Que bom que eu te encontrei.
Ela veio até mim e colocou a mão em meu ombro, sorrindo sedutora. Com certeza estava bêbada.
- Você viu a por aí? – eu perguntei. Se eu tinha que falar com ela, que falasse algo de útil, né? Mas ela não pareceu gostar, pois fechou a cara.
- Larga aquela mocréia e fica comigo de uma vez, Dougie! – ela disse, vindo com tudo me beijar, mas eu me esquivei. Eu, hein!
- Alicia, não seja patética. – eu disse, revirando os olhos. Já disse que eu odeio mulheres oferecidas bêbadas? Elas ficam ainda piores. É por isso que eu não gostava de sair pra beber com a Olivia, ela sempre enchia a cara e queria tirar a roupa no meio da rua. Tosco pra cacete! Olhei para a mesa de Alicia, que não ficava muito longe de onde nós estávamos, e vi que todos estavam ali, bebendo e rindo das pessoas que cantavam no karaokê. Entretanto, faltava alguém.
- Cadê seu irmão, Alicia? – eu perguntei, enquanto ela dava um longo gole na tal bebida X dela.
- Sei lá. Deve estar por aí. – ela disse, dando de ombros. Me virei pra sair, mas antes que eu pudesse ela me puxou pelo braço – Se achá-lo, fala pra ele que não é justo ele ter levado a garrafa de uísque inteira!
Revirei os olhos mais uma vez e saí de lá, esperando profundamente que o sumiço de não tivesse nada a ver com o de Lucas. Dei mais uma volta no salão, não achando ninguém, então segui para o banheiro. Primeiramente bati na porta, com medo de levar tapas se entrasse lá e encontrasse alguma menina semi-nua – o que seria difícil, mas enfim. Como ninguém respondeu, eu abri a porta devagarzinho, vendo que o lugar estava vazio. Estava prestes a sair de lá quando vi o que definitivamente não queria ver. Lucas estava caído no chão no meio de cacos de vidro. Senti meu coração acelerar quando avistei um pedaço de tecido branco estampado em branco, preto e vermelho caído no chão. O tecido do vestido de .
- Caralho, que dor. – ouvi a voz daquele maldito soar atrás de mim. Me virei e vi que ele estava de pé, se apoiando na pia e com uma mão na cabeça.
- O que é que você fez com ela? – eu perguntei, com a voz cheia de cólera. Estava me segurando pra não cair na pele dele imediatamente.
- Eu não fiz nada! Aquela sua namoradinha vagabunda é que me acertou com a minha garrafa de uísque! – ele disse, e eu senti meu sangue subir todo à cabeça.
- Você chamou ela de quê? – eu perguntei, segurando-o pela camisa e o prensando contra a parede. Ele pareceu assustado por um segundo, mas logo franziu o cenho com raiva.
- VAGABUNDA! VADIA, BISCATE, PIRANHA, É ISSO QUE ELA É! – ele gritou, e eu não pude mais me segurar. Acertei um soco direto no nariz dele. E outro. E mais outro.
- NÃO OUSE FALAR DELA DESSE JEITO, SEU FILHO DA PUTA! – dei um soco na barriga dele, e ele caiu no chão, gemendo de dor. Dei um chute onde consegui alcançar e saí dali antes que matasse o cara de vez. Eu podia sentir meu sangue latejando na minha cabeça. Não sabia o que aquele cretino tinha feito com ela, mas algo dentro de mim dizia que tinha sido algo horrível. E só de imaginá-lo tocando na eu tinha que me segurar pra não voltar àquele banheiro e acabar com a raça do idiota. Dei uma volta rápida pelo lobby, mesmo sabendo que não ia encontrá-la ali. Fui até o elevador e apertei o botão, impaciente. Como ele estava demorando demais, subi correndo pelas escadas, nem ligando se eram várioas andares. Eu precisava encontrá-la agora, ou ia ficar louco de vez. Cheguei à porta do quarto dela já preparado para bater, mas reparei que ela estava apenas encostada. Aquilo era muito estranho. Entrei no quarto e suspirei aliviado. A luz do banheiro estava acesa. Ela estava ali.

Capítulo 20 – “As the world keeps spinning round, you hold me right here, right now”

- ? – eu perguntei, meio que num murmúrio, andando lentamente até o banheiro. A porta estava aberta, e um barulho fraco de água caindo soava de lá. Entrei nele, estranhando não encontrar ali. E foi só quando eu olhei de verdade que consegui encontrá-la. Ela estava sentada no chão do box, com uma mão abraçando suas pernas e outra enfiada em seus cabelos, que já estavam encharcados pelo fio de água que caía em cima de si. Seu vestido estava quase todo rasgado, e ela olhava fixamente para um ponto indistinto em sua frente. Seus olhos estavam vermelhos, a maquiagem borrada e a expressão completamente arrasada. Senti um aperto em meu coração ao vê-la daquela forma, tão... tão... tão vulnerável. Fiquei alguns minutos ali, parado no meio do banheiro, observando aquela figura tão linda, que parecia tão triste no momento. Ela continuou olhando para aquele tal ponto indistinto, parecendo completamente aérea, sem nem ao menos notar minha presença ali. Hesitei por um segundo, sem saber exatamente o que fazer. Mas não podia ficar ali olhando pra ela daquela forma sem fazer nada. Pra variar, alguma força maior me puxava pra perto dela. Tirei meu sapato e fui até ela devagar, tentando não alarmá-la. Entrei no grande box e me sentei ao lado dela, sentindo o fio de água quase fria cair em cima de mim, além de minha calça se encharcar com a água que estava acumulada no chão. Levantei minha mão em direção à torneira do chuveiro e a virei um pouquinho, sentindo a água esquentar levemente. Observei atentamente, vendo que ela havia estremecido um pouco, mas não havia se mexido de forma alguma. Pude ver uma marca forte roxa em seu pulso esquerdo, que estava levantado, enfiado em seus cabelos. Senti a raiva me subir à cabeça mais um pouquinho, mas tentei me controlar. Naquele momento eu deveria ajudá-la. Eu precisava ajudá-la. E não só por ela, afinal eu não aguentava mais vê-la daquela forma. Meu coração se apertava cada vez mais. Levei minha cabeça até seu pulso e dei um leve beijo na tal marca roxa, vendo-a estremecer mais uma vez. Suspirei. Eu definitivamente não sabia o que fazer. Um movimento em falso e eu podia piorar tudo. Ela finalmente se mexeu, tirando a mão esquerda da cabeça e abraçando seus joelhos com ela, deixando seu rosto livre para que eu pudesse admirá-la. Senti minha espinha se arrepiar ao ver a expressão em seu rosto de tão perto. Ela parecia extremamente amedrontada e defensiva. O pouco que eu pude ver de seu pescoço estava com rastros roxos e vermelhos, e havia um pequeno corte no canto de sua boca. Ela começou a tremer um pouco, e quando percebi ela havia se entregado a um pranto silencioso, doloroso. Não aguentei mais aquela distância e me aproximei dela, passando minha mão direita pelo pequeno espaço que havia entre sua barriga e suas pernas, que ainda estavam sendo abraçadas por seus braços, e as segurei, ouvindo o choro aumentar. Senti meus próprios olhos se umidecerem, mas balancei a cabeça, impedindo que uma única lágrima caísse. Era a vez dela de ser fraca, e minha vez de ser forte. Vagarosamente, ela deitou sua cabeça em meu ombro, e eu envolvi sua cintura com meu braço, a puxando pra mais perto de mim. Queria mostrar pra ela que ela podia contar comigo, que eu estaria ali quando ela precisasse de mim. Ela precisava saber disso. entrelaçou seus braços no meu e ficou ali. Chorando. Chorando todas as suas mágoas, todos os seus medos, todas as lembranças ruins daquela noite. E eu estava ali. Eu sempre estaria ali.

Nós havíamos ficado naquele banheiro por uma boa meia hora. Quando ela começou a tremer mais, eu percebi que já era hora de tirá-la dali. Ajudei-a a se levantar, tomando o maior cuidado do mundo para não machucá-la. O vestido dela estava quase todo ferrado, e ela estava realmente em um estado deplorável. Ajudei-a a tirar o resto daquele pano, e senti mais um aperto quando vi uma fraca marca em formato de mão bem no meio da barriga de , além das muitas outras pequenas marcas que estavam espalhadas por todo seu lindo corpo. Em outra situação, ver seu corpo semi-nu tão perto de mim me traria um outro tipo de sensação. Mas naquele momento, tudo que eu queria era vestí-la e colocá-la em baixo das cobertas, onde eu sei que ela estaria confortável e, principalmente, longe daquele maldito do Lucas. Ela olhou pra mim pela primeira vez naquele momento, causando a pontada mais forte da noite em meu peito. Seu olhar estava triste, e aquilo era angustiante. Sem falar nada, ela me olhou de uma forma que me fez entender que ela queria que eu saísse dali, o que eu fiz, ainda com um pouco de medo de deixá-la sozinha. Fechei a porta do banheiro e corri até meu quarto, tirando aquela roupa molhada, me secando e vestindo meu pijama – calça de moletom xadrez e uma camiseta cinza surrada. Peguei meu celular e tranquei o quarto, voltando para o quarto de . Eu podia dormir até no chão, mas não a deixaria sozinha naquela noite. Já haviam passado quase 10 minutos que eu havia voltado pro quarto dela, e eu já ia bater na porta do banheiro para ver se estava tudo bem, mas ela acabou saindo. Parecia bem melhor – pelo menos fisicamente. Seu cabelo molhado estava penteado, o rosto estava livre de toda a maquiagem borrada e ela vestia uma calça listrada de roxo e branco e um camiseta com estampas de ursinho. Ela andou devagar em direção à cama, abraçando seu corpo com seus braços. Eu me levantei do sofázinho onde estava sentado e a abracei bem de leve com meu braço direito, passando minha mão levemente por seu braço, tentando fazê-la sentir-se um pouco mais confortável. Levei-a até sua cama e levantei os cobertores, assistindo-a deitar-se cautelosa na cama. Cobri-a e dei um beijo de leve em sua testa, voltando ao sofázinho, que seria minha cama provisória. Mas foi quando eu estava me deitando ali que ouvi sua voz, que não era muito mais de um fio tímido, me chamando.
- Dougie.
Me levantei e voltei até o pé da cama imediatamente. Ela parecia tão frágil em baixo dos cobertores...
- O que foi, linda? – eu perguntei, murmurando, e ela me olhou nos olhos, parecendo perdida.
- Fica aqui comigo.
Andei até o lado da cama onde ela estava deitada e passei a mão levemente por sua cabeça.
- Pode ficar tranquila, , eu vou ficar aqui essa noite. – eu disse, e ela me olhou profundamente, segurando forte minha mão.
- Dorme aqui comigo. – ela disse, passando sua outra mão no resto de cama que sobrava ao lado dela. Ela queria mesmo que eu me deitasse ali com ela? Pensei em dizer alguma coisa, mas a senti apertar a minha mão um pouco mais, me olhando com uma carinha de cachorro molhado, e eu não resisti. Dei a volta na enorme cama de casal e me deitei do lado vago, me cobrindo enquanto me assistia atentamente. Sorri de leve pra ela, chegando mais perto e passando a mão carinhosamente por seu rosto. Ela fechou os olhos e respirou fundo, uma imagem que fazia meu coração bater mais forte. Logo ela reabriu seus olhos e chegou mais perto de mim. Eu a segurei pela cintura e a fiz apoiar sua cabeça em meu peito. Ela pareceu relutante por um instante, mas não demorou para relaxar e abraçar minha cintura. Eu a abracei forte e senti-a se aconchegar em meu peito. Pude sentir o cheiro delicioso que saia dela dominar meus sentidos e me entorpecer de uma maneira única, enquanto o sono batia.
- Boa noite, minha linda. – eu murmurei, dando um longo beijo na testa dela. estava bem, estava segura - agora eu podia dormir em paz. E eu sabia que, tendo ela em meus braços, eu poderia ficar ali pra sempre.

Capítulo 21 – “You make it easier when life gets hard”

Acordei me sentindo renovada. Podia sentir cada parte do meu corpo bem descansada, suave, quase flutuando. Me mexi um pouco na cama, com preguiça de abrir os olhos. Estava tão confortável, tão quentinho... e eu podia sentir um cheiro reconfortante, familiar e muito, muito bom. Fiquei ali por mais uns bons minutos, até que a claridade que passava por minhas pálpebras começou a me incomodar. Abri os olhos lentamente, sentindo meu coração acelerar ao ver que aqueles olhos me observavam. Os únicos olhos que eu queria ver.
- Bom dia, dorminhoca. – Dougie sussurou, sorrindo pra mim, deitado ao meu lado. Os olhos azuis deles brilhavam em minha direção, e eu me senti plena por um instante. Era como se nada importasse, como se aquele olhar significasse felicidade completa pra vida inteira. Ri dos meus próprios pensamentos – Dormiu bem?
- Como um anjo. – eu disse, ouvindo minha voz sair meio rouca. Ele sorriu ainda mais e passou sua mão por minha bochecha.
- É, eu pude ver. – ele disse, e eu senti minhas bochechas corarem.
- Você tava aí me assistindo há muito tempo? – eu perguntei, com vergonha. Eu tinha bem noção de que minha figura não era muito glamurosa enquanto eu dormia. Bom, eu nunca tinha me visto dormir, mas enfim, eu imaginava que não.
- Não muito. – ele respondeu, rindo ao me ver corar – Tá com fome?
Eu pensei por um segundo. Estava tão concentrada no garoto à minha frente que nem tinha sentido o enorme buraco que havia na minha barriga. Imediatamente, senti ela roncar.
- Muita! – eu disse, assentindo. Ele sorri sapeca e se levantou, e eu pude ver que ele já estava trocado e seus cabelos estavam molhados. Me sentei na cama, me sentindo um pouco tonta. Deveria ser a fome. Levantei a cabeça pra procurar Dougie e o encontrei vindo em minha direção com uma bandeja na mão.
- Uau! Café na cama? – eu perguntei, e ele riu, colocando a tal bandeja na minha frente em cima da cama – Acho que não mereço tanta mordomia.
- Você merece isso e muito mais. – ele disse, dando um beijo demorado na minha testa. Preciso dizer que estava adorando aquilo? Senti minha barriga se remexer mais uma vez e ataquei a bandeja. Ali havia um copão de suco de laranja, uns pedaços de maçã e melancia e, claro, algumas torradas com nutella. Tudo isso além da rosa vermelha que pendia em um pequeno vasinho colocado no canto da bandeja. Sorri ao ver a flor. Dougie era realmente incrível.
- Aaaah, isso é tão bom! – eu disse, dando uma mordida na torrada com nutella. E foi aí, quando fui pegar o copo de suco pra beber um pouco, que eu a vi. Uma marca roxa em meu pulso. Senti meu coração bater descompassadamente, junto das muitas memórias da noite passada. Estranhamente, todos os mimos de Dougie haviam apagado temporariamente todas aquelas memórias da minha cabeça. Pena que elas tinham que voltar. Respirei fundo, tentando fazer aquilo sumir da minha mente mais uma vez, mas eu ainda podia sentir o toque frio e rude de Lucas na minha pele, os beijos violentos que ele dava no meu pescoço... eu podia sentir mais uma vez o desespero que havia sentido quando ele me prensou contra a parede à força. Passei a língua por meus lábios e senti o pequeno corte que havia ali no canto inferior esquerdo. Pude sentir o gosto de uísque da boca dele na minha e tive um pouco de ânsia. Fechei os olhos com força. Eu precisava ser forte, precisava esquecer daquele pesadelo.
- ? Tá tudo bem? – ouvi a voz de Dougie soar em algum lugar do quarto, mas não consegui responder. Alguns segundos depois, senti seus braços me envolverem em um abraço bem aconchegante.
- O que eu fiz pra merecer aquilo, Dougie? – eu perguntei, segurando as lágrimas. Estava tudo tão fresco na minha cabeça que era difícil não me sentir mal. Afundei meu rosto no pescoço de Dougie e senti seu cheiro que, incrivelmente, me acalmou rapidamente.
- Você não fez nada, linda. Aquele maldito do Lucas que é um covarde. – ele disse, me apertando forte. Ali, sentindo seu corpo contra o meu, eu podia quase me livrar de todas as tristezas. Logo minha respiração já tinha voltado ao normal, e ele afrouxou o abraço, me olhando nos olhos.
- Obrigada, Dougie. Não sei o que eu teria feito sem você. – eu disse, sincera. Só o fato de ele estar ao meu lado naquele momento tão difícil já era muito importante pra mim. Ele sorriu de uma forma que fez meu coração quase pular pela boca.
- Eu tô aqui pra tudo, ok? – ele disse, dando um beijo na palma da minha mão, onde havia um pequeno corte de fora a fora, já começando a cicatrizar – Seja lá o que você precisar, pode contar comigo. Eu vou estar sempre aqui pra você.
Senti meu coração bater ainda mais forte, se é que isso era possível. Uma lágrima solitária desceu sobre minha bochecha, e eu sorri radiante. De verdade, eu nunca tinha me sentido tão bem nada minha vida. Só a presença daquele garoto ali, segurando minha mão e olhando nos meus olhos, me fazia arrepiar como ninguém nunca havia conseguido. Ele limpou a tal lágrima com com seu dedão e me deu um selinho de leve.
- Agora termina de comer, vai. – ele disse, me entregando o resto da minha torrada com nutella. Respirei fundo e voltei a comer. Eu sabia que seria difícil deixar pra trás todas aquelas lembranças horríveis. Mas com Dougie ao meu lado... é, com certeza seria muito mais fácil.

****

Suspirei enquanto a assistia comer. Estava aliviado ao vê-la sorrir novamente. Na noite anterior, ela parecia tão arrasada que eu me perguntei quanto tempo ela levaria pra esquecer – por mais que eu soubesse que era diferente das outras garotas. Não pude segurar e deixei escapar um sorrisinho. Não sei se a minha ajuda estava fazendo muita diferença, mas eu estava muito feliz em poder estar ao lado dela, em poder colocar de volta o brilho naqueles olhos cobertos por nuvens. E esse seria o meu projeto do dia: fazer feliz.
- O que você quer fazer hoje? – eu perguntei, e ela levantou a cabeça das suas torradas, parecendo desanimada.
- Não tô muito afim de fazer nada não, Dougie. – ela disse, encarando seu copo de suco. Eu pensei por um segundo e uma ideia me veio à cabeça. Brilhante!
- Nananinanão, senhorita. Eu não vou deixar você ficar trancada nesse quarto o dia inteiro. Olha só como o céu tá lindo lá fora! – eu disse, abrindo a janela e mostrando à o céu muito azul daquele dia – Além disso, hoje é o nosso último dia sem papai e mamãe aqui. Anda, termina de comer e troca de roupa, nós vamos dar um passeio.
Ela tomou mais um gole do suco e me olhou torto.
- Eu não quero passear nesse hotel, Dougie. Vai que a gente encont... – a voz dela sumiu, e eu corri até ela pra tentar fazê-la não se lembrar do Lucas.
- Quem disse que nós vamos passear no hotel? – eu perguntei, e ela arqueou as sobrancelhas – Anda, se apronta e me encontra lá embaixo em quinze minutos.
Ela deu de ombros e bateu continência pra mim, me fazendo rir. Peguei minhas coisas e saí de lá, em direção ao mesmo lugar em que havia alugado o carro no dia anterior, torcendo para que meus esforços ajudassem mesmo a esquecer seus problemas e voltar a sorrir – afinal, só assim eu poderia voltar a sorrir.

****

Respirei fundo antes de me levantar da cama. Eu sabia que tinha que sair do quarto, mas o medo de encontrar Lucas era maior que qualquer ensejo de esquecer daquele assunto. Porém, me lembrei de Dougie falando que estaria sempre ao meu lado, e isso me acalmou bastante. Tê-lo ao meu lado era tudo que eu precisava agora, então me levantei e fui me arrumar. Vesti um biquíni listrado de azul e branco, e coloquei um vestido de praia também branco, com os escritos “Shut up and kiss me” em rosa choque, por cima. Ri de leve ao olhar o vestido, que eu havia ganhado da minha mãe um pouco antes de nós viajarmos. Victoria’s Secret sempre sabendo o que escrever em suas roupas... Calcei uma rasteirinha e fui até o banheiro passar uma leve maquiagem. Quando acendi a luz do grande espelho do banheiro, todas as marcas vermelhas e roxas que haviam em meu pescoço ficaram em evidência, me fazendo sentir um arrepio forte na espinha. Respirei fundo pela milésima vez, tentando esvaziar minha mente, e peguei meu corretivo de dentro da bolsinha de maquiagem que estava em cima da pia. Pra isso é que serve a maquiagem, certo? Levei um bom tempo pra esconder tudo, mas no fim eu me senti aliviada de ter feito sumir – pelo menos temporariamente - todas aquelas marcas horríveis que me lembravam tanto daquele cafajeste do Lucas. Balancei a cabeça, ficando até feliz de estar tendo facilidade em ignorar o assunto, e peguei minha bolsa de praia, colocando ali só o essencial, e saindo do quarto. Entrei no elevador tremendo de medo de encontrar com alguém indesejado por ali. Coloquei meus enormes óculos escuros e saí no hall, me sentindo tremendamente insegura e desapontada. Achava que poderia ser forte o bastante... mas parecia que não. Andei o mais rapidamente que pude pra fora do hall, e acabei trombando com alguém, o que me causou um medo ainda maior.
- , você tá bem? – ouvi a voz de Dougie perguntar, e suspirei aliviada. Era ele.
- Vamos embora daqui logo, Dougie. – eu pedi, e ele pareceu um pouco preocupado.
- É claro, vem. – ele disse, segurando forte na minha mão e me levando pra entrada do hotel. Senti meu coração ir se acalmando aos poucos. Eu não estava mais sozinha – Tcharam!
Dougie pulou animado, apontando para uma moto que estava estacionada em nossa frente. Eu ri de leve.
- Onde nós vamos dessa vez, Poynter? – perguntei, e ele balançou a cabeça negativamente.
- É surpresa. Anda, monta! – ele disse, já subindo na moto. Eu nunca tinha andado de moto antes, então fiquei meio perdida pra subir, mas logo já estava sentada, tentando prender meu vestido, que já era curto, em volta das minhas coxas, pra que o vento da viagem não deixasse minhas pernas todas de fora. Dougie me entregou um capacete e eu o coloquei.
- Tá pronta pra dar um passeio comigo? – ele perguntou, fazendo barulho com o motor da moto. Eu abracei sua cintura com força, me sentindo estranhamente confortável. Sim, agora eu estava segura.
- E você, tá pronto pra dar um passeio comigo? – eu perguntei, e ouvi sua risada alta ecoar. Ele me olhou de lado e acelerou com a moto, quase voando pra longe daquele resort.

****

Eu podia ver pelo retrovisor o cabelo de voando, e ouvia alguns gritinhos eventuais quando eu fazia uma curva ou algo assim. Uma sensação boa passava por mim, e eu não sabia se era o vento batendo em meu rosto ou o fato de poder sentir os braços de me abraçando forte, como se ela não quisesse me soltar nunca – mas é claro que ela não queria me soltar, afinal se ela me soltasse provavelmente cairia, mas vocês entendem o que eu quero dizer. O cheiro da natureza, o ar puro e as lindas paisagens pelas quais estávamos passando traziam um clima de paz para nós, um clima que eu estava tentando com todas as minhas forças resgatar. Dirigimos por quase uma hora até uma praia que haviam me indicado no resort. Ela era meio afastada então estava vazia. Éramos só nós dois, o céu e o mar.
- Nunca imaginei que fosse tão bom assim andar de moto. – disse, descendo da garupa e tirando suas sandálias, deixando-as ao lado da moto com sua bolsa e afundando os pés na areia.
- Você tava andando comigo, é claro que ia ser bom. – eu disse, também descendo da moto, e levei um empurrão.
- Cala a boca, Poynter. – disse, rindo de leve e indo em direção ao mar. A observei andar até a frente deste, esperando as ondas virem molhar seus pés, e me deixei sorrir. Ela já parecia mais leve, mais despreocupada. Já era quase a antiga de novo. E nós só voltaríamos para aquele resort quando ela mandasse o Lucas de vez pro espaço e voltasse a ser o que era. Fui andando lentamente em direção a ela, vendo-a levantar os braços pro alto e se mexer de leve. Era realmente encantador. Assim que cheguei perto dela a abracei de leve por trás, sentindo-a abaixar seus braços e com eles seguir os meus, entrelaçando nossos dedos. Ficamos ali, observando o céu tocar o horizonte, por longos minutos. Eu me sentia incrivelmente bem daquela forma. Podia sentir sua respiração, seu cheiro, seu corpo estremecer ao meu toque. Ela me olhou de lado e eu retribui o olhar, me dando um selinho demorado e voltando a olhar o mar, só sentindo nossos corpos tão próximos um do outro. Eu não sabia o que estava sentindo, só sabia que era algo muito bom. Algo que eu não queria perder. Algo que eu não sei se suportaria perder.

Capítulo 22 – “Come and let me hold you, touch you, feel you, always.”

- E aí o menino me vira e fala “pô gata, quem é que não gosta de surf?”, como se ele não percebesse que o problema não era o surf, e sim a companhia dele! – eu disse, rindo ao lembrar das muitas vezes em que Jake Bass havia me chamado pra sair com ele no ano passado. Eu e Dougie já estávamos há horas sentados na areia, um ao lado do outro, conversando. Ele havia trazido algumas frutas e doces na moto com ele, e eu comia uma maçã enquanto ele abria uma barrinha de cereal.
- Putz, que cara idiota. – ele disse, revirando os olhos – Ele é o maior mané, se acha o gostoso mas não tá com nada. - eu comecei a rir, sem conseguir me segurar. Dougie arqueou as sobrancelhas – O que é tão engraçado?
- Você fala do Jake se achar o gostoso como se você fosse o cara mais modesto do mundo, né? – eu perguntei, dando mais uma mordida na maçã. Ele abriu a boca em choque, o que me fez rir mais ainda.
- Peraí, você tá me comparando com o playboyzinho metido do Jake? – ele perguntou, mas eu só conseguia rir. Acho que tinha ficado tão deprimida noite passada que agora não podia mais parar de rir. Mas a cara de Dougie era realmente muito engraçada, ele parecia não gostar nada nada de Jake de verdade.
- Se a carapuça serviu, meu querido, não posso fazer nada. – eu disse, e ele arregalou os olhos, não segurando o riso ao me observar rindo feito uma hiena.
- Tá bom, falar que eu me acho você já fala sempre mesmo, mas agora falar que eu não tô com nada... – ele disse, com um sorrisinho sapeca. Arqueei as sobrancelhas.
- Não tá com nada mesmo, queridinho. – eu disse, apertando a ponta do nariz dele, só pra provocar. Até porque é óbvio que ele tá com tudo - mas ele não precisa saber disso. Dougie balançou a cabeça, sorrindo ainda mais sapeca. Quando vi, eu já tava deitada na areia, com ele por cima de mim.
- Vou te mostrar quem é que não tá com nada.
Antes que eu pudesse processar o que ele disse, já senti os lábios dele pressionados contra os meus. Um choque passou por todo meu corpo quando senti a língua dele tocar a minha, e assim me senti viva novamente. Todos os meus problemas sumiram da minha mente, e só o que existia ali era ele. Os olhos dele, os braços dele, os lábios dele – e aquela era a melhor das sensações. Ficamos num beijo calmo e doce por algum tempo, até que nos separamos.
- Quer parar de me assediar, Dougie? – eu perguntei, fazendo bico. Ele riu e me abraçou de lado, voltando a olhar pro céu, onde o sol se punha.
- Não fala que você não gosta que eu sei que é mentira. – ele disse, e eu não pude falar nada, ele estava certo mesmo. Me encostei no peito dele e ficamos em silêncio, assistindo ao sol que começava a se pôr. O cheiro dele e o pôr do sol eram uma combinação única. Um tempo depois, senti Dougie me dar um beijinho na orelha.
- Vamos voltar, ? Daqui a pouco escurece de vez. – ele disse, e eu fiz bico.
- Aqui tá tão boooooom. – eu disse, sabendo muito bem que estava soando como uma menina emburrada de 5 anos, mas não tava nem aí. Ele riu, me abraçando forte e me dando mais um beijo na orelha, dessa vez mais demorado.
- Deixa de ser boba, vai. Vamos. – ele disse, se levantando e estendendo a mão pra mim. Dei de ombros e me levantei, seguindo-o até a moto.

Uma hora depois já estávamos de volta ao resort. Quando estávamos entrando, vimos a maior agitação na praia, então fomos ver o que era. Chegando lá, demos de cara com um palco montado pra um dj, várias tochas acesas, um bar improvisado e várias pessoas dançando na areia.
- Um luau. Que da hora. – eu disse, revirando os olhos. Em qualquer situação eu adoraria um lual, mas naquele momento eu tinha mesmo é medo de encontrar com aquele grupinho em especial por ali. Dougie riu.
- Tem jeito melhor de aproveitar nossa última noite sozinhos na França? – ele perguntou, e eu acabei concordando. Afinal, a música estava mesmo muito animada. Fomos em direção ao bar, e foi aí que o que eu mais temia aconteceu. Respirei fundo, segurando forte a mão de Dougie. Se eu queria mesmo esquecer de tudo, era hora de tomar uma atitude.

****

Estava observando a festa, que estava bem animada, e ri ao ver uma garota – bem gostosinha, por sinal – piscando pra mim. Em outras situações já estaria conversando com ela, mas bem... agora era, sei lá, diferente. Senti a segurar forte a minha mão, e olhei pra frente, estranhando. Mas imediatamente entendi o que estava acontecendo. Ele estava ali. O maldito, o covarde, o filho da puta: Lucas. Ele e seus dois amiguinhos estavam em frente ao bar, conversando, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Senti meu sangue subir à cabeça, mas tentei me segurar, afinal deveria estar se sentindo péssima. Olhei pra ela e vi que ela estava séria.
- Quer sair daqui? – eu perguntei, mas ela balançou a cabeça negativamente.
- Quer saber? Que ele se ferre. Eu não vou perder a minha noite porque ele tá aqui. – ela disse, apertando ainda mais a minha mão. Sorri ao ouví-la falar daquele jeito. É, a verdadeira estava de volta – Agora ele vai ver.
Ela soltou minha mão e começou a andar em direção ao grupinho. Tá, por essa eu não esperava! Corri atrás dela, e a vi cutucar Lucas, que se virou pra ela, parecendo muito surpreso. Abriu a boca pra falar com ela, mas acertou um tapa com tudo na cara dele.
- Tá louca, menina? – ele perguntou, passando a mão pela bochecha. O tapa parecia ter doído muito. riu cínica, com uma cara vingativa. É, agora é que a porca torce o rabo. Caramba, que expressão pré-histórica.
- Não, quem tá louco aqui é você. – ela começou, com uma voz incrivelmente decidida - Porque, se você pensa que pode fazer o que quiser comigo e sair ileso, você tá muito enganado, Lucas. – ele abriu a boca pra falar mais uma vez, mas ela não deixou – Eu não entendo como pude namorar com você por tanto tempo, você é o ser mais covarde da face da Terra. Qualquer pessoa que tenha audácia de fazer o que você fez comigo não merece a atenção e muito menos o respeito de ninguém, e eu torço pra que um dia alguém te faça sofrer do mesmo jeito que você me fez sofrer.
- Calma, ... – o tal Alex tentou apaziguar, mas nem se importou. Chegou mais perto de Lucas, que parecia bem intimidado, e apontou o dedo pro peito dele.
- Pra falar a verdade, eu nem sinto mais ódio de você. Eu sinto é pena. Pena porque só uma pessoa muito miserável pode ter caráter ruim o bastante pra agir como você agiu. É só isso que você merece: pena.
- Olha aqui, garota... – começou Lucas, e eu dei um passo pra frente, me preparando pra bater nele, mas foi mais rápida, dando uma joelhada nas partes íntimas do garoto. Putz, essa deve ter doído!
- Caralho, pra quê isso de novo? – Lucas perguntou em uma voz sufocante, encolhido no chão. deu de ombros.
- Só tô tentando impedir que você consiga procriar mais canalhas como você. Vê se some da minha vida, mané!
E, dizendo isso, ela saiu dali. Eu não sabia se ia atrás dela ou se desabava de tanto rir da cara de idiota que o Lucas fazia enquanto tentava se levantar. Acabei optando pela segunda opção, e ele não pareceu gostar muito, pois assim que se levantou, ainda com as mãos entre as pernas, resolveu dar uma de espertinho mais uma vez.
- Tá rindo do quê, playboyzinho? – ele perguntou, e eu arqueei as sobrancelhas, ainda sorrindo.
- Da sua cara de idiota, é claro. – eu disse, simplesmente, e ele fez uma cara raivosa bem esquisita. Como se ele fosse, ou pudesse, fazer alguma coisa contra mim naquelas condições. Ou em qualquer condições, afinal, eu já o tinha deixado com o olho roxo ontem mesmo, não ligaria de fazê-lo de novo.
- Vai, ri mesmo, playboyzinho. – Tá, essa de “playboyzinho” já tá ficando clichê – Fica dando uma de namorado bonzinho e apaixonado pra você ver. Aquela garota é manipuladora, possessiva e acha que o mundo gira em volta dela, que tudo tem que ser do jeito que ela quer. Fica cheia de frescura e depois nós é que temos que fingir que estamos errados. Você vai ver, daqui a pouco você tá aqui no meu lugar.
Eu revirei os olhos e cheguei um pouco mais perto dele, sorrindo cínico. Afinal, eu definitivamente não deixaria ele falar assim da na minha frente e sair como se estivesse certo. Coitadinho dele, não sabe com quem está mexendo. Não mesmo.
- Muito obrigado pelo conselho. Mas, já que estamos comparando as coisas, vamos ver. – eu disse, enquanto ele me olhava com raiva – Você namorou com ela por um ano, tentou pressioná-la a fazer uma coisa que ela não queria, a traiu descaradamente, a fez se sentir miserável consigo mesma, a humilhou, até a fez se mudar de país. E agora chega aqui e ainda tem a covardia de tentar tirar dela o que você quis por tantos anos, mas simplesmente não conseguiu.
Ele bufou de raiva. É, aquilo estava sendo muito divertido. Sorri mais cínico ainda.
- Já eu sou um namorado “bonzinho”... – continuei, fazendo aspas com os dedos – ...Estou do lado dela quando ela precisa, a defendo quando filhos da puta como você tentam machucá-la, a aguento quando ela fica irritada sem motivo ou quando fica falando sem parar. Isso sem contar que, a partir de semana que vem, ela vai morar num quarto de frente pro meu.
Cheguei ainda mais perto do cara. Sim, era horripilante estar tão perto de um homem daquele jeito, mas eu precisava esfregar aquilo na cara dele o máximo possível.
- Agora me responde: no final do dia, qual dos dois recebe o prêmio de bom comportamento?
Ri por dentro ao ver Lucas quase soltando fogo pelas narinas. Ele quis vir pra cima de mim, mas seus dois amigos idiotas o seguraram. Eu sorri pra ele e fui saindo de lá, até que me lembrei de uma coisinha e me virei de volta.
- Ah, e só pra esclarecer uma coisinha, já que você nunca saberá por si mesmo: o tal prêmio é muito melhor do que você imagina.

****

Eu podia sentir meu coração e minha mente se aliviando aos poucos. Agora estava tudo acabado de verdade. Eu havia dito o que queria dizer, feito o que queria fazer, e agora podia esquecer que aquele garoto sequer passou pela minha vida e voltar a viver. Viver da forma que não vivia desde os meus 15 anos de idade. Esquecer de todos os medos que estavam escondidos no fundo do meu coração desde que eu saira do Brasil. Esquecer do passado e só pensar no futuro - no que eu faria no futuro, no que eu sentiria no futuro... quem faria parte do meu futuro. Eu estava livre, livre pra viver, livre pra voar, livre pra ser feliz! Todos merecem a felicidade, e agora era a minha vez. A minha vez de me fazer de boba, de louca, de, sei lá... me sentir viva.
- Duas doses de tequila, por favor! – eu pedi ao barman, que me atendeu rapidamente.
- Uau, duas de uma vez? Você me surpreende cada vez mais, ! – ouvi a voz de Dougie dizer atrás de mim. Dei a língua pra ele.
- Larga de ser trouxa, uma é pra você, Dougie. – eu disse, entregando a ele um dos copinhos. Nós dois pegamos um pouco de sal e viramos o copo, chupando um pedaço de limão logo em seguida. Meu Deus, como aquele troço era forte! – Que sorrisinho bobo é esse na sua cara?
Ele deu de ombros, pedindo mais duas doses.
- Só fiquei feliz ao ver que a velha voltou pro seu corpo. – ele disse, e eu sorri, mesmo sabendo que aquela não era toda a verdade. Senti mais uma dose arranhar por minha garganta, mas não estava nem aí. Depois de todo o stress absurdo que eu havia passado nos últimos dias, eu queria mais era aproveitar!
- Nada de “velha ”, meu querido. Você está falando com a nova agora! – eu disse, levantando minhas mãos pro alto e fazendo uma careta. Dougie riu.
- Ah é? E como é a nova ? – ele perguntou, e eu sorri misteriosa.
- Você vai conhecê-la agora! – eu disse, o puxando pro meio da “pista de dança”, afinal uma das minhas músicas favoritas tinha começado a tocar, e eu tava muito afim de me acabar de tanto dançar.

****

Já era a segunda vez que aquela garota me surpreendia naquela noite. Eu não sabia mais o que esperar dela – e, assumo, estava adorando aquilo. Nós nos metemos no meio da pista de dança e eu não conseguia tirar os olhos da . Ela dançava com uma liberdade, com uma animação que me hipnotizava. E como ela era sexy – cacete, como ela era sexy! Uma rebolada e ela conseguia deixar meu queixo no chão. Um carinha passou com uma bandeja de tequila, e nós dois bebemos mais um pouco. Já podia sentir o efeito subir à minha cabeça, e imaginava como a estaria se sentindo, já que era meio fraca pra bebida – mas ela parecia totalmente de boa, então voltei a dançar. Ela colocou os braços em volta do meu pescoço e juntou as nossas testas. Puxei sua cintura com força contra a minha, e ficamos assim, curtindo a música e os nossos olhares. Ela chegou mais perto e começou a morder minha orelha, me fazendo arrepiar dos pés à cabeça. Como é que ela conseguia ter todo esse efeito arrasador sobre mim? Senti os lábios dela descerem levemente por meu pescoço e não aguentei mais. A puxei pra mais um daqueles beijos, sabendo que, dessa vez, ia ser diferente.

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- BOYS ALL WANT MY BUTTERSCOTCH, LICKING THEIR LIPS ‘CUZ IT'S TOP NOTCH, NO OTHER BITCH GOT WHAT I GOT, MY BUTTERSCOTCH, BUTTERSCOTCH! – acho que eu nunca tinha gritado assim na minha vida, pãaaaats! Mas meeeeu, você já saiu pela praia correndo com uma garrafa de vodka na mão e cantando seus pulmões pra fora? Faça isso, é triiiiiilegal! E meu, a gente tinha... AI, CACETE! Já era a terceira vez que eu me esborrachava no chão. Gente, será que eu tô bêbada?
- SUA BÊBADA! – ah, o loiro aguado acabou de responder. Mas ele também, fica rindo que nem uma vaca do cio e ME chama de bêbada? Isso é tão injus... peraí, vacas no cio riem?
- Cala boca, tuiuiú! – eu disse, e o Dougie arqueou a sobrancelha de uma forma super bizarra.
- Tuiuiú? – ele perguntou, com um sotaque britânico mó engraçado, e daí eu comecei a rir feito uma mula grávida. NÃO, PÉRA, MULAS NÃO TEM FILHOS, NÉ? Elas são hípicas. Hímpicas. Hípocas. Hib... ah, sei lá, deu pra entender.
- É um animal, pô. Um animal super tchutchuco do Pantanal brasileiro. – eu disse, finalmente conseguindo me levantar. Dougie roubou a garrafa de vodka da minha mão, BANDIDO! E tomou quase o resto da garrafa.
- Como a gente é bêbado. – ele comentou, e eu fiz bico.
- É a primeira vez que eu fico bêbada na minha vida, tá? – eu disse, mas daí lembrei que era mentira – Tá, talvez a segunda. Ou a terceira.
- Ou a quarta, ou a quinta... – o Dougie disse, engraçadinho. Corri até ele e tampei a boca dele.
- Mentirooooooso! Você nem tava lá pra ver! – eu disse, rindo, e só aí acordei pra perceber quão próxima dele eu tava. Ok, talvez eu tivesse agindo um pouquinho mais bêbada do que eu realmente estava. Mas só um tiquiiinho tiquiiiinho tico. Tico-tico. Que nem aquele pássaro da roça do meu avô, uau! Tá, foco, , foco. Acontece que os olhos do Dougie, tão azuis e tão brilhantes à luz da lua, me faziam acordar de uma forma arrasadora. E tudo o que eu queria fazer naquele momento era beijar aquela boca linda e gostosa dele. E foi isso mesmo que eu fiz, tá achando que eu sou boba? Té parece meeeeesmo! Nós nos beijamos com calma, com carinho, aquela melosidade toda, sabe? Mas hoje à noite, meu bem, isso é pouco demais!
- É só isso que você pode fazer, queridinho? – eu perguntei, sorrindo sapeca pra ele assim que nos soltamos, e saí correndo em direção à água. Logo senti meus pés se molharem com a água quase morninha do mar, e logo até os meus joelhos estavam molhados por causa das ondas. Onda, onda, olha a onda... AAAAAH! Ops, não pude segurar um grito quando senti os braços de Dougie me abraçando por trás e me levantando do chão. Uma onda veio e nós dois quase caímos na água, e foi aí que eu me virei pra ele, encontrando o sorriso mais lindo que eu já tinha visto na minha vida. Senti meu corpo entrar em alguma forma de inércia muito louca no momento em que nossos olhos se encontraram, e quando vi já estava com as minhas pernas entrelaçadas na cintura dele, segurando com força seus cabelos enquanto nos beijávamos ferozmente, de uma forma que já havia esgotado meu ar, mas eu simplesmente não conseguia parar. Eu sentia as mãos dele apertarem minhas coxas com força, e não podia evitar de dar leves gemidos. E tava pouco me lixando, poxa, aquilo era bom demais!

Encontramos uma velhinha no meio do corredor dos nossos quartos, e ela nos olhou com uma cara tão abismada que me fez rir pra caramba – claro que sem cortar o beijo com Dougie, que já durava, sei lá, uma eternidade. Talvez nós não devêssemos estar nos pegando daquele jeito no meio do corredor, mas o que é que ela tava fazendo ali no meio da madrugada? Certeza que tava procurando um véio rico pra acabar com a seca de seus 97 anos de idade, véinha safaaaada! Demoramos um tempinho pra conseguir abrir a porta – até porque tudo que eu podia ver eram aqueles olhos incrivelmente azuis me encarando -, mas finalmente estávamos dentro daquele bendito quarto. Pela primeira vez desde que estávamos no mar nós nos soltamos, mas só pra tirarmos aquelas roupas idiotas que já tavam enchendo o saco. Sorte minha que escolhi aquele vestido hoje! Ele tava no chão em dois tempos, e sobrou pra mim ajudar o Dougie com sua bermuda – o que, diga-se de passagem, não era problema nenhum. Logo ele já estava só de boxer, e deixa eu te falar, que bunda é aquela? Nem ligo, oi, APERTO MEEEERMO! O empurrei até minha cama e subi em cima dele, voltando a beijá-lo. Não aguentava mais de tanto calor, e Dougie estava demorando demais pra conseguir abrir o sutiã do meu biquíni.
- Vocês homens, viu... não são competentes nem pra isso. – eu disse, tirando o sutiã eu mesma e o jogando pro canto do quarto, não podendo evitar de corar um pouco ao ver a cara que Dougie fez ao encarar meus seios. Não demorou pra eu deitar de novo, dessa vez por baixo. As mãos quentes e macias de Dougie passavam por todo o meu corpo, fazendo meu coração bater cada vez mais forte. Eu queria aquele garoto, eu precisava daquele garoto.

****

Nunca me senti tão excitado na minha vida, juro! Nem a Olivia, nem nenhuma das outras líderes de torcida gostosas conseguiram me fazer sentir daquele jeito. Puta merda, eu não aguentava mais! Já havia explorado, beijado e acariciado todas as partes do corpo daquela garota, e ainda não estava saciado. Ah, mas não mesmo. Poderia fazer aquilo mais e mais vezes e nunca me cansaria. Ela finalmente decidiu me ajudar a tirar aquela maldita boxer, e nós nos beijamos mais uma vez. Dessa vez com um pouquinho mais de calma, sentindo nossos gostos com carinho, como se fosse um momento único – e eu não duvido que era. Nós paramos um pouco, com as testas coladas e as respirações descompassadas, e nos encaramos por um instante, que foi, sem dúvida, o instante mais intenso de toda a minha vida. Os olhos dela brilhavam de uma forma que eu nunca havia visto antes, e eu senti meu coração bater em uma batida desconhecida. Ela sorriu docemente e eu passei minha mão levemente por suas bochechas rosadas, sorrindo também. E, naquele momento, tudo indicava uma única coisa. Uma coisa completamente desconhecida pra mim. Ali, com nossos corpos encaixados e nossos olhos ligados por uma força maior, nós não éramos mais dois – mas apenas um.

Capítulo 23 – “And I just can’t seem to get enough of you”

“Stop ta-ta-talking that blah, blah, blah. Think you’ll be getting this? Nah, nah, nah…”

Música maldita. Celular maldito. Dor de cabeça maldita.

“Not in the back of my car-ah-ah. If you keep talking that blah, blah, blah, blah!”

Naquele momento, eu poderia muito bem tacar uma bomba naquele celular idiota. Eu podia ouví-lo em algum lugar do quarto, baixinho, mas alto o bastante pra fazer minha cabeça começar a dar sinais de sua existência. Não ousei me mexer, e logo a música parou. Graças a Deus.







“Stop ta-ta-talking that...”

Tá bom, droga, eu atendo! Levei uns bons segundos pra conseguir me levantar daquela cama, minha cabeça tava pesando tanto que eu achava que ela ia despencar do meu pescoço a qualquer momento. Assim que me levantei, saí cambaleando pelo quarto à procura do maldito celular, sentindo a pouca claridade que atravessava as cortinas da janela quase me cegar. Cara, nunca mais bebo na minha vida. Segui o barulho irritante e encontrei minha bolsa jogada no canto do quarto. Abri-a e joguei tudo que tava lá dentro no chão – não tava com saco pra procurar aquele troço no meio da bagunça mesmo!
- Alô. – eu disse, com uma voz quase inexistente, assim que consegui encontrar o botão pra atender aquela budega.
- Te acordei, filha? – ouvi a voz da minha mãe do outro lado.
- Ah, bom dia mãe. – eu disse, indo em direção ao banheiro com os olhos ainda meio fechados, tropeçando em tudo.
- Bom dia? Boa tarde, né querida! Já são duas da tarde!
- Já? – eu perguntei, sem verdadeiro interesse. Minha cabeça tava doendo tanto.
- Sim! Eu bati aí no seu quarto mas você não atendeu, imaginei que ainda estivesse dormindo. Mas eu e o Matt já estamos ficando com fome, e queremos a sua companhia pra almoçar!
- Er, ok. Eu só tenho que tomar um banho e me arrumar e encontro vocês no restaurante. – eu disse, não fazendo ideia de como ia esconder a minha ressaca da minha mãe.
- Não precisa ter pressa, nós estamos aproveitando o sol um pouquinho. Ah, e querida, faz o favor de passar no quarto do Dougie e chamá-lo também? Matt bateu lá e ele não respondeu, nem atende o celular.
- Tá bom, tchau. – eu disse, desligando o telefone e finalmente abrindo os olhos, dando de cara com o espelho do banheiro. E com a minha cara de ressaca. E com minha maquiagem borrada, meu cabelo bagunçado. E com o meu colo nu. Arregalei os olhos e olhei pra baixo. Eu estava pelada. Pelada.
“Faz o favor de passar no quarto do Dougie e chamá-lo também? Matt bateu lá e ele não respondeu, nem atende o celular.”
Caramba. Caramba, caramba, caramba. Não, não era possível. Corri de volta até o quarto, e foi aí que eu o vi. Ali, deitado na minha cama, enrolado no meu lençol, todo jogado. Dougie Poynter. Eu havia passado a noite com Dougie Poynter. Eu havia transado com Dougie Poynter. Fiquei tão abismada com o fato que até esqueci da minha dor de cabeça. O observei por um instante, sentindo minhas bochechas corarem ao me lembrar de repente de tudo o que havia ocorrido na noite anterior: nós dois bebendo, correndo na praia, nos beijando... Meu Deus do céu, aquilo era inesperado demais pra ser verdade. Respirei fundo, sem saber o que fazer. Alguma hora ele ia ter que acordar. Mas não era eu quem ia fazê-lo acordar, não mesmo. Corri de volta pro banheiro e entrei no chuveiro, sentindo minha cabeça parar de latejar um pouco a medida que a água morna escorria por meu corpo. Fechei os olhos e encostei minha testa no box gelado, sentindo uma estranha, mas boa sensação.

Eu havia perdido minha virgindade com Dougie Poynter.

****

Ouvi uma porta ser fechada às pressas e o barulho de água caindo não muito longe dali. Me revirei na cama, sentindo minha cabeça latejar. Não me lembrava muito bem, mas aquela dor indicava que eu havia bebido muito na noite anterior. Masageei minha testa por um tempo, sentindo a dor oscilar. Precisava de um remédio urgentemente. Me sentei na cama, sentindo uma pontada forte na cabeça e apoiando meus braços no travesseiro, esperando a pontada passar. Não demorou muito pra dor voltar ao normal, e eu tentei me levantar, mas, antes que pudesse fazer isso, senti algo com uma consistência meio engraçada embaixo da minha mão esquerda. Fiz a maior força do mundo pra conseguir abrir os olhos, e levantei a tal coisa, dando de cara com a parte de cima de um biquíni azul e branco. Pensei por um instante e logo todas as memórias voltaram à minha cabeça como se fosse um filme. Arregalei os olhos e olhei para o quarto em volta. Era o quarto da . Era o biquíni da . Cacete, nós havíamos transado! Não pude deixar de sorrir ao lembrar da noite passada. Tudo tinha sido mesmo muito bom, acredite. Senti mais uma leve pontada e fui atrás de minha cueca, achando-a caída sobre a tv. Antes de qualquer coisa, eu precisava me livrar daquela ressaca maldita.

****

Saí do banho me sentindo um pouco melhor, por mais que a dor de cabeça insistisse em continuar me enchendo o saco. Me enrolei na toalha, percebendo que havia me esquecido completamente de trazer alguma roupa pro banheiro. Se eu tivesse sorte, Poynter ainda estaria dormindo – o que iria adiar minha vergonha por alguns minutos, pelo menos. Abri a porta com o maior cuidado do mundo, me esforçando pra não fazer barulho nenhum. Fui na ponta do pé até meu armário, mas, assim que abri a porta desse, olhei levemente para o lado, encontrando a cama vazia. Droga.
- Bom dia.
Dei um pulo ao ouvir a voz dele bem baixinho tão perto do meu ouvido. Segurei forte a porta do armário, tentando não cair, já que minhas pernas ficaram bambas de repente. Respirei fundo, com raiva de mim mesma. Não sabia que ele tinha um efeito tão arrasador assim sobre mim.
- Você me assustou, Poynter. – eu disse, unindo todas as minhas forças, ainda sentindo a presença dele logo atrás de mim.
- Perdão, não foi minha intenção. – ele disse, e eu continuei encarando a porta do armário. Acho que ele estranhou, pois se posicionou ao meu lado e colocou sua mão em meu queixo, me fazendo olhar pra ele. Droga. Aqueles olhos... – Tá tudo bem, ?
Por que é que meu apelido tinha que ficar tão perfeito na voz dele?
- Tudo, tudo bem. Eu só tô com um pouco de dor de cabeça. – eu disse, me virando e sorrindo de leve. Tinha que pelo menos fingir estar levando tudo naturalmente, não é? Por mais que por dentro minha mente estivesse gritando, balançando um cartaz e mandando sinais de fumaça com a frase “VOCÊ PERDEU A VIRGINDADE COM O GAROTO MAIS LINDO DO UNIVERSO!”. Cala a boca, consciência, não preciso de você agora.
- Me agradeça então, porque aqui está a sua solução! – ele disse, animado, indo até uma bandeja que estava em cima da mesinha e pegando um copo cheio de um líquido desconhecido. Não que eu estivesse prestando atenção nisso, afinal ele estava só de boxers. E aquela era a visão do paraíso.
- O que é isso? – eu perguntei assim que ele me entregou o copo, e ele sorriu maroto.
- Minha receita secreta contra ressacas. – ele disse, misterioso – Anda, toma. Juro que vai ajudar.
Eu dei de ombros e tomei a tal bebida, que tinha um gosto engraçado de abacate com banana. Vai saber o que aquele moleque inventa, só o que eu queria era me ver livre daquela dor de cabeça. Terminei de tomar aquilo e coloquei o copo de volta na bandeja, ficando completamente sem jeito ao ver a forma que Dougie me olhava. Nós nos encaramos por um longo segundo e eu, involuntariamente, desviei o olhar, sentindo as minhas bochechas corarem. Nossa, eu sou tão idiota. Dobrei os braços, segurando a toalha no meu corpo, e logo ouvi Dougie começar a rir.
- O que é tão engraçado? – eu perguntei, me irritando. Eu toda nervosa aqui e ele começava a rir daquele jeito? Trouxa!
- Isso tudo é vergonha, ? – ele me perguntou, e eu arqueei as sobrancelhas, me fingindo de desentendida.
- Não sei do que você tá falando. – eu disse, mas ele continou rindo.
- Você não acha mesmo que me engana, né? – ele perguntou, chegando mais perto de mim, com aquele sorriso idiota dele – Fica aí com essa cara fechada olhando pro nada, fingindo que nem lembra do que aconteceu ontem à noite... É vergonha, com certeza.
- Por que é que eu teria vergonha de você? – eu perguntei, o encarando nos olhos. Estava tão irritada que consegui ignorar aquele brilho ingrato dos olhos dele. Pelo menos por um segundo.
- Por quê? – ele perguntou, chegando ainda mais perto de mim – Porque, mesmo depois me dar uma portada na testa, me xingar de tudo quanto é nome e me esnobar, você se entregou pra mim.
Eu queria, mas queria tanto responder algo, mas simplesmente não conseguia. Ele estava perto demais pro meu cérebro conseguir funcionar direito.
- Eu... eu tava bêbada. – eu disse, num fio de voz. Ele riu de leve e contornou meu corpo, parando logo atrás de mim e unindo nossos corpos, apoiando seu queixo no meio da minha cabeça.
- Vai falar que você não queria, é? – ele perguntou, dando leves beijos no meu ombro, me fazendo arrepiar mais uma vez, e sussurando ao meu ouvido – Vai falar que não me beijou de volta... que não chamou pelo meu nome pedindo por mais? - Para com isso, pelo amor de Deus. – eu disse, com o restinho de voz que ainda saía da minha garganta. Ele voltou a me encarar de frente e juntou nossas testas.
- Tá bom, eu paro. – eu respirei fundo, sentindo o cheiro dele impregnar meus sentidos mais uma vez – Só não posso deixar de ressaltar que você fica muito engraçada bêbada.
Não pude evitar de rir daquele comentário, me sentindo um pouco mais relaxada.
- Olha quem fala, você não fica muito atrás! – eu disse, dando um leve empurrãozinho no ombro dele, que também riu.
- Tanto faz, afinal ver você bêbada definitivamente não foi a melhor coisa da noite. – ele disse, com um sorriso malicioso, me fazendo corar mais uma vez.
- Cala a boca, Poynter! – eu disse, rindo de leve.
- Vem calar, vem. – ele disse, piscando pra mim e logo juntando nossos lábios. Deixei toda a, bom, vergonha de lado e abracei o pescoço dele, me entregando ao beijo. Não havia explicação pra quão bem eu me sentia quando estava com ele. Ele foi dando alguns passos pra trás e nós caímos na cama, mas antes que ele pudesse começar a imaginar – e fazer – coisas, eu separei nossos lábios.
- Minha mãe e seu pai tão nos esperando pra almoçar, vai se arrumar. – eu disse, vendo-o fazer um bico que quase me fez pular em cima dele de novo.
- Mas ... – ele começou, e eu neguei, me levantando e arrumando a toalha direito no meu corpo.
- Nada de mas, Dougie, vai se arrumar antes que eles suspeitem de alguma coisa! – eu disse, e ele bufou, se levantando e me abraçando pela cintura.
- Ok, tô indo. Passo aqui daqui a pouco pra te buscar.
- Ok. – eu disse, recebendo um selinho dele, que saiu – detalhe, de boxers – no corredor em direção ao seu quarto. Suspirei, me sentindo ainda mais idiota. Mas sabe o que é? Não tava nem ligando. Aquilo era bom demais, e eu queria mesmo era aproveitar.

****

Saí do quarto de e encontrei a mesma velhinha que havia nos visto nos pegando no meio do corredor na madrugada passada. Disse “bom dia” pra ela, vendo que ela me repreendia com o olhar – e só aí lembrei que tinha esquecido minhas roupas no quarto de e estava só de boxers. Oh well, c’est la vie! Entrei no meu quarto e fechei a porta atrás de mim, completamente distraído – não conseguia tirar o sorriso de da minha cabeça, o jeito que o nariz dela se enrugava quando ela estava brava, as mãos dela passando por meu cabelo... fui até o banheiro e lavei o rosto, encarando a mim mesmo no espelho. Eu tinha um pequeno sorriso no canto da boca, e me perguntei desde quando ele estava lá. Provavelmente desde que eu havia acordado com o cheiro daquela garota impregnado na minha pele. Tomei um banho rápido, vesti uma bermuda bege xadrez, uma camisa pólo branca e tênis brancos, passei um pouco de perfume e fui até o espelho dar mais uma olhada no meu cabelo. Ri da minha própria cara de idiota, tentando não pensar em quão bom e estranho ao mesmo tempo era o jeito que eu me sentia no momento. Peguei meu celular e minha chave e fui bater na porta da , sentindo algum tipo de ansiedade dentro de mim. Dougie Poynter, você é oficialmente patético.

Capítulo 24 – “And if you wanna taste of heaven you just gotta say please”

Assim que ele fechou a porta eu me deixei cair sobre a cama mais uma vez. Ri sozinha ao lembrar do que nós havíamos feito ali. Eu sempre imaginei como seria a minha primeira vez, mas não tinha ideia de que seria tão boa quanto havia sido. Eu estava tranquila e relaxada – o que é meio óbvio, já que estava bêbada, mas enfim -, e principalmente, eu queria muito aquilo. Dougie era tão... sei lá, apaixonante. Senti um arrepio na espinha. Tá aí uma palavra que eu não queria ouvir agora, paixão. Balancei a cabeça e me levantei, indo até o armário finalmente escolher uma roupa. Coloquei uma camisetinha roxa escura mais comprida, que cobria metade da minha bunda, um short curtinho branco e havainas brancas. Deixei meu cabelo solto, pra que minha mãe não conseguisse ver, mesmo por baixo da maquiagem, as marcas roxas que Lucas havia deixado em meu pescoço – e também uma ou duas, novas, que eram responsabilidade de Dougie. Passei uma leve maquiagem, coloquei um pouco de perfume, pus meus óculos escuros na minha cabeça e ouvi a porta bater. Peguei minha chave e meu celular e abri a porta, encontrando com um Dougie particularmente lindo na minha porta. Ele sempre fora lindo, mas agora...
- Pronta? – ele perguntou, e eu assenti, fechando a porta atrás de mim. Andei até ele, que tinha ido chamar o elevador, e ele me puxou com força contra seu corpo.
- Hey! Tá achando que pode ficar me agarrando, garoto? – eu perguntei, passando minhas mãos por debaixo do braço dele e as colocando em seus ombros, aproximando mais nossos corpos.
- Tô, algum problema? – ele perguntou, e eu neguei – Tenho que aproveitar os últimos momentos antes de ter que fingir ser seu irmão pra te agarrar.
- Aproveitemos direito então! – eu disse, selando nossos lábios. Logo ouvimos o barulinho do elevador, mas o ignoramos e continuamos nos beijando. Até que ouvimos uma tossidinha. Soltei Dougie rapidamente e olhei para o elevador, encontrando a tal velhinha que havia nos visto na noite anterior. Sorri amarelo pra ela e nós abrimos espaço pra que ela saísse do elevador, de cara feia pra nós.
- Meu Deus, essa velhinha tá em TODO lugar o tempo TODO! – reclamou Poynter, assim que ela saiu de perto. Eu ia responder mas fui puxada pra dentro do elevador. Assim que a porta fechou, Dougie me prensou contra a parede, continuando o beijo que havíamos parado lá fora.

****

Pulei pro outro lado do elevador assim que ele abriu, indicando que havíamos chegado ao térreo. ajeitou os cabelos e nós saímos dali, rindo da situação. Passamos pelo restaurante e fomos até a área das piscina, encontrando meu pai e Meg sentados em uma mesa, de mãos dadas, tomando cerveja.
- Mãaaaae! – ouvi exclamar assim que nos aproximamos da mesa. Meg se levantou e as duas se abraçaram. Pareciam ser muito ligadas mesmo.
- Filha, que saudades! – Meg disse, dando vários beijinhos no rosto de , me fazendo rir. Meu pai se levantou e veio me abraçar, abraçando logo em seguida. Meg também veio me abraçar e depois de toda essa abraçassão, nós nos sentamos nas duas cadeiras que estavam de frente às ocupadas pelos dois.
- E aí, como foi o tour? – eu perguntei, e tanto meu pai quanto Meg pareceram muito animados enquanto nos contavam de todas as praias que haviam visitado. Eu tentava me concentrar, mas não conseguia, então simplesmente sorria e concordava, e achei que estava fazendo o mesmo ao meu lado. Nós fizemos nossos pedidos e eles finalmente acabaram a história.
- E vocês, como ficaram aqui todos esses dias? – meu pai perguntou, e eu olhei pra de canto de olho, a vendo corar levemente.
- Foi tudo ótimo. Fomos a várias festas e aproveitamos bastante a piscina... – eu comentei, olhando pra , que assentiu, sorrindo para a mãe.
- Ah, que bom! Fiquei com medo de vocês ficarem entediados e começarem a brigar. – Meg comentou, e nós dois nos olhamos, segurando o riso.
- Digamos que essa semana aqui sozinhos foi ótima pra nós aprendermos o verdadeiro espírito de irmandade, mãe. – disse, num tom engraçado, e eu assenti.
- É isso aí, maninha. – eu disse, e nós dois batemos a mão num high-five. Meu pai e Meg riram, e pareceram bastante felizes ao ver que nós não nos odiávamos mais. Muito pelo contrário, na verdade. Mas eles não precisavam saber disso.
- Aqui está a comida de vocês. – uma garçonete chegou com um carrinho, colocando os pratos na mesa. Aproveitei o momento de distração de meu pai e Meg e coloquei minha mão direita na coxa de , que sorriu levemente, sem me olhar, colocando sua mão esquerda sobre a minha. Entrelaçamos nossos dedos e ficamos assim pro resto da refeição, só sentindo um ao outro.

****

Ouvi a porta bater e corri pra atender. Já estava arrumando minhas coisas há quase uma hora. Por que é que eu fui bagunçar tudo? Agora era super complicado enfiar tudo na minha mala de novo.
- Oi filha, já tá pronta? – minha mãe perguntou, assim que abri a porta pra ela.
- Quase, mãe! – eu disse, voltando pra minha cama pra dobrar todas as roupas que ainda estavam fora da mala. Vi ela se sentar na beira da cama e me observar por um tempinho.
- Tá tudo bem, ? – ela me perguntou, e eu a olhei, arqueando as sobrancelhas.
- Tá, mãe, por quê? – eu perguntei, e ela riu de leve.
- Você parece mais... feliz. – ela disse, e eu voltei a encarar minha mala. Minha mãe me conhecia bem demais, e eu já sabia que ia ser difícil esconder qualquer coisa dela, mas não sabia que ela era tão observadora assim.
- Só estou descansada, é isso. – eu disse, fechando minha mala, e ela continuou me olhando.
- Tem certeza? – ela perguntou, com uma expressão sapeca, como se já soubesse o motivo da minha felicidade. Mas eu negaria até a morte, é.
- Absoluta. – eu disse, tirando minha mala de cima da cama e pegando minha bolsa – Tô pronta.
- Ok, vamos embora. – eu disse, tentando acabar com o assunto, e ela pareceu perceber. Se levantou e assentiu, saindo do meu quarto pra chamar o elevador. Dei uma última olhada naquele quarto, naquela cama... com certeza aquele lugar era um dos quais eu nunca esqueceria.

****

- Tô pronto! – disse pro meu pai assim que o encontrei no hall de entrada do resort.
- Ótimo, temos que ir logo, o jatinho já está esperando. – disse meu pai, e assenti – Meg foi buscar a .
Eu me sentei num sofázinho que havia ali por perto pra esperar, mexendo no meu celular. Até que percebi que meu pai me observava.
- Que foi? – perguntei, e ele me olhous desconfiado.
- O que aconteceu com você? – franzi o cenho – Você está mais... sorridente do que o normal.
- Não tô não. – eu disse, e meu pai riu.
- Como não? Dougie, olha o seu sorrisinho bobo! – ele apontou pra mim, e só aí eu fui perceber que realmente estava sorrindo. Aquele sorrisinho estava estampado na minha cara desde hoje de manhã, e brotava do nada, sem que eu tivesse o menor controle sobre ele.
- Oras, eu estou feliz com o casamento de vocês, só isso. – eu comentei, e meu pai assentiu, fingindo que havia entendido. Mas eu sabia que não.
- Ok, estamos prontas. – ouvi a voz de Meg dizendo não muito longe, e quando olhei pra trás vi que ela e vinham em nossa direção. O casalzinho apaixonado – quer dizer, Meg e meu pai – foi em direção ao heliponto que havia atrás do resort, e estava os seguindo quando eu a puxei e juntei nossos lábios.
- Dougie! Eles podem ver! – ela disse, assim que a soltei, e eu dei de ombros. - Pô, um beijinho pra valer pelo voo inteiro, oras. – eu disse, seguindo o caminho que eles haviam feito, e riu.
- O voo é de menos de meia hora, garoto, que desespero. – ela comentou, e eu a encarei, fazendo uma careta.
- Nossa, então tá, não faço mais nada. – eu disse, andando mais rápido, mas logo correu atrás de mim.
- Larga de ser trouxa, Poynter. – ela disse, me puxando e me dando um beijo afobado. Tão rápido quanto ela me puxou, ela me empurrou – Vamos logo.
Ela saiu andando, e eu fui atrás, rindo da reação dela. Já disse que adoro quando ela dá uma de dominadora?

****

Subimos no jatinho e nos sentamos no mesmo lugar que havíamos nos sentado há uma semana atrás. Ri de imaginar tudo o que havia acontecido naquela semana, que deveria ter sido a semana mais turbulenta de toda a minha vida. Peguei meu livro “O Retrato de Dorian Gray”, que eu deveria estar lendo pra escola, de dentro da minha bolsa e tentei me concentrar nele. Porém, estava muito desconfortável, então eu levantei minhas pernas e as coloquei em cima das de Dougie, as descansando ali. Ele me olhou e revirou os olhos, mexendo em alguma coisa de seu celular. Dei de ombros e deixei minhas pernas ali. Não demorou muito pra que eu sentisse as mãos de Dougie acariciando minha perna, o que me deu um frio na barriga instantâneo. O toque daquele garoto, meu Deus... assisti minha concentração ir pro espaço, enquanto o sorriso safado de Dougie só aumentava. Tentei me concentrar mais uma vez, mas a mão dele foi subindo, repousando sobre minha coxa. Ele continuou a acariciá-la, e eu revirei os olhos, segurando a mão dele com força.
- Será que dá pra parar com isso? – eu pedi, sussurando, e ele me olhou com aquele olhar irritantemente superior.
- Que foi, tá ficando excitada, é? – ele perguntou, e eu arregalei os olhos, olhando por cima da cabeça dele, vendo que minha mãe e Matt estavam sentados nos últimos dois bancos, lá atrás, e conversavam animadamente, logo não nos ouviriam. Aquele garoto era muito abusado mesmo! Sorri irônica pra ele e passei minha mão pela sua barriga, colocando-a por baixo de sua camiseta e arranhando seu peito de leve. Alguns segundos depois o ouvi respirar fundo, e sorri triunfante.
- Que foi, tá ficando excitado, é? – eu perguntei, tirando minha mão e minhas pernas de onde estavam, o ouvindo bufar ao meu lado.
- Qualé, vai falar que não curtiu a sua primeira vez? – ele perguntou, sussurrando de novo. Arregalei os olhos mais uma vez.
- Quem foi que disse que ontem foi minha primeira vez? – eu perguntei assustada. Tudo bem que era mesmo minha primeira vez, mas como é que ele sabia? Eu havia dito que não tinha transado com Lucas, mas poderia ter transado com alguém desde que me mudei pra Londres, oras! Mas só o que o idiota fez foi rir. Chegou bem perto de mim e sussurrou:
- Dá pra reparar a primeira vez de uma garota.
Eu revirei os olhos e o encarei irritada.
- Você deve ter tirado muitas virgindades, né Poynter? Pra ser assim tão experiente quanto a isso. – eu comentei, sentindo algo parecido com raiva dentro de mim. Tinha me esquecido completamente de que o Poynter era o maior galinha da face da Terra, e que tinha transado com muitas garotas antes de mim. E isso me fez sentir incomodada. Bastante incomodada, e ele pareceu perceber, já que segurou meu queixo e beijou meu pescoço.
- Se te faz sentir melhor, saiba que você foi a melhor virgem de todas. – ele disse, e eu senti minha bochecha arder de vergonha. Não acreditava que havia perdido a virgindade com aquele menino, e principalmente que estava discutindo isso com ele agora.
- Grande coisa. – eu disse, tirando sua mão do meu rosto e empurrando sua cabeça pra longe do meu pescoço, tentando não olhar pra ele, pra que ele não pudesse ver minhas bochechas roxas de tão coradas. Ele só riu.
- Bom, se tiver interessada, a prática leva à perfeição. – ele disse, dando uma piscadela em minha direção. Revirei os olhos pela trigésima vez e olhei pra janelinha ao meu lado, vendo o céu quase sem nuvens e alguma cidade lá em baixo. Além de sentir um sorriso involuntário – que agora aparecia tão frequentemente - brotar no meu rosto.

Capítulo 25 – “Remember this time, it’ll last till the end”

- I SEE YOU LOOKING AT ME LIKE I GOT WHAT YOU NEED, GET UP OUTTA YOUR SEAT! WHY DON’T YOU DO SOMETHING? – sim, eu estava gritando Britney Spears pra quem quisesse ouvir enquanto tomava banho, algum problema? É bom extravasar as emoções de vez em quando, e eu adoro fazer isso cantando esse tipo de música. Enfim, saí do banho com um pouquinho de pressa, já que minha mãe já estava me esperando pra ir pro seu dia de noiva. Pois é, o casamento era hoje à noite, e até lá nós ainda tínhamos MUITO o que fazer. Eu precisava que hoje o dia fosse incrível, afinal era a felicidade da minha mãe que estava em jogo, né? Então vesti meu sutiã e minha calcinha preferidos – ambos de oncinha com babadinhos rosa choque em volta, um luxo – pra dar sorte, amarrando meu cabelo e correndo pra fora do banheiro pra terminar de me arrumar logo, antes que a dona Meg me aparecesse batendo na porta pra me apressar. Mas assim que saí do banheiro, quase morri de susto.
- POYNTER! Como é que você conseguiu entrar aqui? – eu perguntei, com a mão no peito tentando fazer minha respiração voltar ao normal. Não esperava que houvesse um garoto sentado na minha cama enquanto eu tomava banho.
- Tenho meus contatos. – ele disse, balançando uma cópia da minha chave com um sorriso triunfante. Revirei os olhos e senti meu rosto corar quando vi que ele havia se levantado da minha cama e andava em minha direção, com uma expressão tarada ao encarar meu sutiã de oncinha – Cantando uma música daquela durante o banho e usando uma roupa de baixo dessa? Você só pode estar querendo me deixar louco.
- Para de ser tarado, garoto. – eu disse, mas já era tarde demais. Dougie me puxou de leve e começou a beijar meu pescoço.
- Me senti tão solitário ontem à noite naquela cama vazia... – ele comentou, entre beijos, e eu só ri.
- Vai se acostumando então, queridinho. – eu disse, juntando todas as minhas forças pra empurrá-lo pra longe de mim. Precisava me arrumar, por mais que fosse muito mais tentador ficar ali com Dougie. Corri até o armário e o ouvi bufar, se jogando na minha cama.
- O que é que vocês vão fazer nesse dia de noiva? – ele perguntou.
- Massagem, esfoliação, unhas, cabelo, maquiagem... – eu disse, vendo-o fazer uma careta – Coisas de mulher, você não entenderia.
Vesti uma calça de moletom cinza folgada, uma regatinha justa roxa com babadinhos, calcei minhas havaianas roxas e coloquei meus óculos escuros, já que não ia adiantar nada passar maquiagem se ia tirá-la assim que chegasse ao salão de beleza. Não que eu seja feia sem maquiagem, ok, mas eu fico muito pálida sem lápis no olho e isso não me agrada. E é pra isso que servem óculos escuros, né? Peguei minha bolsa e já estava indo em direção à porta quando senti Dougie me agarrar mais uma vez. Aquilo já estava virando rotina.
- Não vai me dar um beijinho de tchau? – ele perguntou, me prensando contra a porta, e eu respirei fundo, tentando manter o controle. O que não foi uma boa ideia, já que assim que o fiz senti meu sistema ser invadido pelo cheiro cítrico que a pele dele exalava. E aquilo era um crime contra a minha sanidade. Quando vi já o estava beijando com paixão, puxando de leve seus cabelos enquanto ele me prensava ainda mais, tentando fundir nossos corpos ou coisa assim. E foi aí que alguém bateu na porta.
- , tá pronta? – ouvi a voz da minha mãe logo atrás de mim e dei um pulo, ainda abraçada a Dougie. Ele começou a rir silenciosamente, e eu tive que me segurar pra não fazer o mesmo.
- Tô, mãe, só um segundo! – eu disse, juntando nossas testas e respirando fundo. Que susto, caramba.
- Anda logo, vamos chegar atrasadas! – ela disse, e eu dei um último selinho em Dougie.
- Vê se se arruma bem lindo hoje à noite, hein? – eu disse, o empurrando pra dentro do banheiro do meu quarto, pra que minha mãe não o visse – A gente se vê no casamento.
- Mal posso esperar. – ele disse, me dando mais um selinho e finalmente me soltando. Arrumei meu cabelo e saí do quarto, tentando não deixar muito óbvio que minha respiração estava mais ofegante do que o normal. Minha sorte foi que minha mãe estava tão distraída que nem me olhou direito. Esse povo apaixonado, viu... erm, é.

****

Me encostei na pia do banheiro dela, dobrei os braços e esperei um pouco, até poder ter certeza de que elas já tinham ido embora. Nesse meio tempo, fiquei pensando em quão dependente daquela garota eu havia me tornado. Quer dizer, não dependente... afinal, eu não dependo de garota nenhuma, apenas... era bom estar com ela. Ela beijava bem, era gostosa e... quer saber? Sei lá, não gostava de pensar sobre isso. Saí do banheiro e fui até sua cama, tentando tirar esses pensamentos inúteis da minha cabeça. Seu pijama estava jogado ali, no meio dos lençóis, e eu involutariamente o peguei, trazendo-o pra mais perto do meu rosto e sentindo seu cheiro sair dali. Um cheiro doce, intoxicante, era quase... recobrei a consciência e soltei-o imediatamente, arregalando os olhos. O que é que eu estava fazendo? Eu só podia estar ficando louco, é isso, metade dos meus neurônios devem ter ficado com preguiça de realizar sinapse e simplesmente pararam de funcionar. Putz, Dougie, cala a boca. Peguei a minha chave do quarto dela e saí rapidamente dali. Aquilo definitivamente não era bom pra minha saúde mental, não mesmo.

****

Eu já havia feito de tudo: uma daquelas massagens destruidoras em que a tiazinha japonesa só falta jogar uma bigorna nas suas costas, esfoliação, banho de lama – seja lá pra quê serve isso -, pintado minhas unhas dos pés e das mãos de branco e agora estava finalmente sentada em frente ao espelho com uma revista cheia de modelos de cabelo na mão, enquanto minha mãe havia ido pra uma sala especial para as noivas - acho que só a veria depois de pronta pra ir pra igreja. Após eu decidir o que queria fazer com meu cabelo, um cabeleireiro veio até mim. E deixa eu te falar, acho que nunca vi um cara tão gay quanto aquele na minha vida.
- Oh meu Deus, você vai ficar magnífica! – ele disse, com gestos exagerados, assim que eu mostrei qual penteado havia escolhido – O que você vai usar?
- Aquele vestido e aqueles sapatos. – eu disse, apontando para o canto da sala, onde estava pendurado meu vestido, desenhado por Meg Almeida, cof cof, e minhas sandálias que estavam no chão.
- Que vestido lindo! – ele disse, parecendo impressionado, enquanto prendia meu cabelo pra todos os lados pra começar o penteado. Mal aê se minha mãe é uma ótima estilista, hein! – E os acessórios?
Apontei para o balcão ao lado de onde meu vestido estava pendurado, já tinha deixado tudo pronto pra quando meu cabelo ficasse pronto.
- Aqueles brincos ali e aquela pulseira.
O carinha foi até lá pra olhá-los, abrindo a boca em choque quando pegou-os na mão. Eloquente ele, hein. Meus brincos eram bem simples, apenas uma grande pedra de strass, mas ele pareceu ficar bem interessado é na pulseira. Claro, quem não ficaria?
- São rubis de verdade? – ele perguntou, olhando a pulseira de perto, sorrindo radiante. Eu assenti – Deve ter custado uma fortuna.
- Foi um presente. – eu disse, me lembrando do dia em que Dougie havia comprado aquela pulseira pra mim. Sorri involuntariamente, e logo percebi que o cabeleireiro me encarava com um olhar desconfiado.
- Não preciso nem perguntar, seu sorriso já entregou: presente de um homem! - eu ri e assenti, e ele colocou a pulseira de volta no balcão, voltando a bagunçar meu cabelo - Se um homem me desse uma pulseira daquelas, eu é que estaria me casando hoje! Seu namorado?
Eu pensei por um instante antes de responder, e acabei percebendo que não tinha resposta pra aquela pergunta.
- Erm... – eu comecei, sem saber o que dizer, mas o cara começou a rir. - Nem precisa terminar, já entendi. – caramba, esse cara lê mentes por acaso? – Ele deve ter algum defeito pra você não estar se derretendo só em lembrar dele. O que é, ele mora fora do país? É casado? Tem três pares de braços? Namora a sua melhor amiga?
- Não! – eu disse, rindo das suposições dele, o que o fez olhar pra mim curioso. Respirei fundo e dei de ombros – Sei lá...
- Claro que você sabe. – ele afirmou, e eu fiz uma careta.
- Ele é galinha, prepotente, irritante, cabeça dura, é o total oposto de homem pra mim... – eu disse, mais pra mim mesmo.
- Mas mesmo assim seu coração bate mais forte quando o vê. – o carinha terminou a frase, com uma expressão sonhadora no rosto. Eu encarei a mim mesma no espelho. Talvez ele estivesse certo. Talvez. Ficamos em silêncio pelo resto do penteado, já que o que o cabeleireiro havia falado parecia tê-lo afetado de alguma forma, pois os olhos dele estavam distantes. Assim como os meus.

Terminei de fechar minhas sandálias e estava pronta. Respirei fundo e fui até o grande espelho que havia naquela sala, ficando feliz com o resultado que aquele dia inteiro de preparações tinha dado. Meus cabelos estavam presos em um coque meio bagunçado, com um ar despojado que era quebrado pelos dois arcos prateados que respousavam no topo da minha cabeça. Meu vestido era tomara que caia vermelho e chegava ao meu joelho – minha mãe vive dizendo que vermelho é a melhor cor e que vestidos longos estão fora de moda, então é claro que meu vestido seria assim -, de seda, com uma faixa bordada presa em baixo do busto, a qual subia entre os seios sobre o ombro esquerdo e dava volta em minhas costas: simplesmente lindo. Que orgulho da minha mãe, viu. Calçava sandálias prateadas bem delicadas, com apenas uma tira na frente encrustada de strass, e, é claro, a pulseira de Dougie no pulso direito. Minha maquiagem era leve, mas conseguia ressaltar meus olhos na proporção certa. E, o melhor de tudo, eu estava feliz. Feliz pela felicidade da minha mãe, e também pela minha própria felicidade. Seja lá o que isso signifique, né.
- Mãe? – eu perguntei, assim que vi uma mulher loira saindo do quarto onde minha mãe tinha entrado mais cedo. A diferença é que ela estava simplesmente maravilhosa.
- Gostou, filha? – ela me perguntou, mordendo os lábios, nervosa, parecendo uma menina de 15 anos quando vai sair com o primeiro namorado. Era isso que eu gostava no Matt: ele fazia da minha mãe uma outra mulher, visivelmente mais leve e feliz consigo mesma. É claro que eu sempre a amei, mas eu gostava muito da pessoa genuinamente feliz que ela havia se tornado desde que conhecera aquele homem.
- Você está perfeita, mamãe. – eu disse, segurando suas mãos, e ela sorriu radiante, me abraçando.
- Muito obrigada por me apoiar em tudo isso, . – ela disse, com um ar diferente, e eu senti algumas lágrimas querendo cair.
- Muito obrigada por ser minha mãe. – eu disse, e nós nos soltamos, ambas segurando o choro.
- Te amo. – ela disse, e eu assenti.
- Eu também. – eu disse, e ri logo em seguida – Vamos parar com isso senão vamos destruir nossas maquiagens!
- É verdade. – ela disse, passando os dedos de leve em baixo dos olhos pra secar qualquer lágrima que poderia estar começando a descer, e aí eu pude ver o quanto ela estava tremendo.
- Mãe, você tá tremendo! – eu disse, segurando suas mãos com força. Ela riu.
- Estou nervosa. – ela disse, e eu ri.
- Você já fez isso antes! – eu comentei, sobre quando ela havia se casado com meu pai. Eles não se casaram na igreja, mas mesmo assim era casamento.
- Mas dessa vez é diferente. – ela disse, respirando fundo, tentando se acalmar – Eu amei muito seu pai, , mas com o Mat...
- Com o Matt é diferente. – eu completei, rindo do nervosismo da minha mãe. Ela assentiu – Mesmo assim, nunca imaginei te ver assim, tão nervosa pra alguma coisa.
- Quando estou perto dele, é como se tudo estivesse no lugar certo. Eu o amo, filha. E o amor muda tudo. – ela disse, e eu fiquei sem resposta. Só sabia que era lindo imaginar que minha mãe estava tão apaixonada. Ela estava tão feliz. – Está na hora!
- Na verdade, já passou da hora! – eu comentei, apontando para o relógio que estava pendurado na parede, que marcava 20:12. Já estávamos doze minutos atrasadas.
- Vamos antes que o Matt desista do casamento! – minha mãe disse, brincando, e eu ri. Nós duas fomos até o hall de entrada do enorme salão, onde o motorista de Matt nos esperava, além de alguns fotógrafos. Nós tiramos algumas fotos e entramos na limusine que nos esperava em frente à porta. É, a hora havia finalmente chegado.

Capítulo 26 – “There’s only one thing to do, three words for you”

Nós já estávamos parados na frente daquele altar há meia hora. A igreja estava lotada de pessoas que eu não conhecia e meu pai estava quase tendo um ataque ao meu lado.
- Será que ela não vem? – ele me perguntou, e eu revirei os olhos.
- Para de ser ridículo, pai, é claro que ela vem! Você sabe como noivas são... – eu disse, já perdendo a paciência. Não aguentava mais aquela gravata borboleta vermelha idiota apertando meu pescoço – por mais que ela parecesse me conceder um certo charme extra, já que havia quatro garotas em um dos primeiros bancos que não paravam de me olhar e comentar algo entre si mesmas - e tudo que eu queria era que aquela cerimônia acabasse e nós pudéssemos ir pra festa de uma vez. Mas Meg parecia ter levado bem a sério a tradição da noiva nunca chegar na hora certa.
- Acho que nunca fiquei tão nervoso na minha vida. – meu pai disse, e eu ri.
- Mas essa mulher realmente te dominou, hein Mr. Poynter? Você nem parece o mesmo garanhão que eu conhecia há alguns anos. – eu comentei, honestamente, e ele só me olhou, com um sorriso sábio no rosto.
- O amor muda tudo, Dougie. Algum dia você vai entender.
Eu pretendia responder alguma coisa, mas a marcha nupcial começou a tocar. Finalmente! Meu pai se aprumou e sorriu radiante, nem parecia que há dois minutos estava tremendo na base. Eu nunca acreditei tanto no amor, mas ele parecia cada vez mais verossímil pra mim. Afinal, nunca imaginei ver meu pai tão entregue a um relacionamento, e muito menos tão feliz quanto ele ficava quando estava ao lado de Meg. Deve ser isso que eles chamam de amor verdadeiro. Fiz uma careta pros meus próprios pensamentos e foquei minhas atenções pro tapete vermelho que estava estendido à nossa frente. Todos se levantaram e se viraram para a porta da igreja, que abriu-se lentamente, revelando Meg e , ambas lindas e radiantes. segurava o braço direito de Meg, fazendo o papel do pai da noiva na entrada. Elas andaram no ritmo da música e logo chegaram até o altar, onde entregou a mãe ao meu pai e veio até mim, parando ligeiramente na minha frente. Mesmo encarando a nuca da garota, eu não conseguia desviar o olhar. Ela estava deslumbrante. A cerimônia começou e eu não me contive.
- Você está linda. – eu murmurei, chegando perto do ouvido de .
- Você também. – ela disse, apertando minha mão por um segundo. Nos soltamos antes que alguém percebesse, e eu sorri, tentando prestar atenção no padre à minha frente.

****

Turn up the music,
Let's get out on the floor.
I like to move it,
Come and give me some more!
Watch me getting physical, out of control…
There's people watching me,
I never miss a beat.


Já disse que adoro música eletrônica? Não necessariamente pra ficar ouvindo no meu iPod, mas quando você está em uma festa não há nada que anime mais do que música eletrônica. E, naquele momento, Cascada estava me fazendo muito feliz. Praticamente toda a população daquela festa estava na enorme pista de dança montada em um dos cantos da cobertura – já que a festa estava acontecendo na cobertura de um hotel 5 estrelas praticamente no centro de Paris. A noite estava estrelada e fresca, o que fazia com que a vista da torre Eiffel iluminada pelas luzes da cidade fosse ainda mais bonita. Eu havia dançado com a minha mãe por um tempo, que tinha deixado todo aquele nervosismo de algumas horas atrás de lado e agora se acabava na pista de dança junto com Matt - e assim sobrou meu vizinho Johny pra dançar comigo. Eu amava aquele garoto, principalmente porque ele só tinha 7 anos, o que o fazia o homem perfeito – afinal, garotos de 7 anos são amáveis, engraçados e não traem nem enganam garotas. Nós dois estávamos de mãos dadas, mexendo nossos corpos para todos os lados – sabe que Johny até que dança bem? -, quando ele, é, ele mesmo, finalmente deu as caras por ali.
- Johny! – ele exclamou, e eu estranhei. Desde quando ele conhecia meu vizinho de 7 anos? – Tá vendo aquela menininha linda ali? – ele apontou para uma menininha loira que estava dançando com outras crianças não muito longe de nós. Johny assentiu – Ela estava te observando dançar e te achou uma gracinha, por que você não vai até lá dançar com ela?
Eu ri da tentativa de Poynter, mas meu riso cessou quando vi Johny correndo até o grupinho onde a menina estava. Como assim até ELE tinha me abandonado? Evacuate the dancefloor, I’m infected by the sound! Stop, this beat is killing me, hey, Doctor DJ, let the music take me underground!
- Pra você ver como todo homem tem o gene da cafajestisse no sangue, até os que ainda são crianças. – eu comentei, assim que Dougie veio chegando perto de mim com um sorriso suspeito.
- Não é nossa culpa se vocês, mulheres, são irresistíveis. – ele disse, me dando uma piscadinha, e eu revirei os olhos.
- Onde é que você estava esse tempo todo? – eu perguntei, fazendo cara de quem não está realmente interessada. Mas até parece que eu ia conseguir enganar o Poynter.
- Tão cedo na noite e já está com ciúmes, ? – ele perguntou, e eu tentei me manter calma.
- Quando é que você vai parar de enxergar ciúmes em tudo? – eu perguntei. Steal the night, kill the lights, feel it under your skin! – Só estou perguntando, afinal a festa já começou há três horas e é praticamente a primeira vez que eu te vejo.
Ele me encarou suspeito, com aquele risinho cretino no canto da boca. Time is right, keep it tight, ‘cause it’s pulling you in!
- Eu só estava fazendo um pouco de sala pra minha família, oras. Já fazia tanto tempo que não via minha vózinha. – ele disse, com um ar debochado, e eu assenti, fazendo uma careta irônica.
- E vózinha agora é apelido pra quê? Ou melhor, pra quem? – eu perguntei, e ele revirou os olhos, olhando ao redor rapidamente e me puxando com força contra seu corpo.
- Se você me olhar com essa ironia extremamente sexy mais uma vez eu juro que não me aguento e te beijo aqui mesmo. – ele falou, no meu ouvido. Wrap it up, can’t stop, ‘cause it feels like an overdose... - Dougie! Minha mãe vai ver! – eu disse, só pra dizer alguma coisa, já que senti meu corpo ceder ao toque dele mais rápido do que eu gostaria.
- Você acha mesmo que aqueles dois estão dando a mínima pra o que acontece em torno deles? – ele disse, apontando com a cabeça pro outro lado da pista, onde minha mãe e Matt dançavam de rostos colados, completamente avulsos ao seu redor. Evacuate the dancefloor, I’m infected by the sound!
- É, faz sentido. – eu comentei, rindo de mim mesma. Nós continuamos dançando, e era nossa vez de ficarmos avulsos, já que, com aquele garoto na minha frente, era difícil prestar atenção em algo mais. Não é minha culpa se aquele cabelo bagunçado, aquele sorriso cretino, aquela camisa com dois botões abertos e a gravata borboleta vermelha aberta jogada sobre seus ombros formavam um ser impossível de não se notar. Ele chegou mais perto de mim e mordeu minha orelha, o que me fez acordar – Dougie, é sério, qualquer um pode ver e achar estranho.
- Ok, ok, eu me rendo. – ele disse, me soltando um pouco, mas ainda mantendo suas mãos na minha cintura. Stop, this beat is killing me, hey, Doctor DJ, come burn this place right down to the ground!
E foi aí que a música acabou, assim como meu sossego. Afinal, senti alguém me cutucar, e quando me virei, encontrei a pessoa de quem estava fugindo desde o começo da festa.
- Hey Carl... – eu disse, sorrindo amarelo. Carl era filho de uma prima da minha mãe, era dois anos mais velho que eu e vivia correndo atrás de mim. Ele morava nos Estados Unidos, mas sempre que nos ia visitar no Brasil, o que ocorria bastante, já que a mãe dele e minha mãe eram bastante amigas, ficava dando em cima de mim descaradamente. E desde aquela época ele não parecia perceber que eu não estava nem um pouco interessada.
- , minha querida, me concede a honra dessa dança? – ele perguntou, cheio de formalidades – só faltava se ajoelhar aos meus pés -, e eu senti Dougie rir discretamente perto da minha orelha. Eu olhei pra ele, que sorriu para Carl.
- Mas é claro, aproveitem a dança. – ele disse, me soltando e saindo logo de lá, não antes de dar um sorriso debochado na minha direção. Senti Carl abraçar minha cintura e começar a dançar desajeitadamente. Eu mereço isso, mesmo! Procurei Dougie com os olhos no meio da multidão e o vi já no grande bar estilo quiosque que havia ao lado da pista. Ele levantou uma taça de champagne em minha direção, deixando óbvio que ele só havia feito aquilo pra me provocar. Idiota. Ouvi Carl me perguntar alguma coisa, mas nem prestei atenção, afinal estava mais interessada na garotinha oferecida que havia puxado conversa com Dougie naquele momento. Senti alguma coisa estranha no meu peito, o que me incomodou bastante. Eu não sabia o que era aquilo, mas estava com muito medo de descobrir.

(põe essa música pra carregar)

- É UM, É DOIS, É TRÊS E... JÁ! – e lá se foi o buquê da minha mãe, pulando por cima de um enorme grupo de mulheres desesperadas. Como se um tanto de flores fosse arranjar um marido pra todas essas solteironas... Enfim, uma mulher que estava vestindo um casaco de pele enorme que trabalhava com minha mãe pegou o tal buquê, e parecia muito feliz com ele. A esperança é a última que morre, né. Peguei uma taça de champagne da bandeja de um dos garçons e saí andando pelo lugar, tentando inventar alguma coisa pra fazer. O DJ que havia tocado nas primeiras 4 horas da festa havia sido trocado por uma banda, que no momento tocava algum tipo de bolero, logo, eu não tinha nada pra fazer a não ser fugir de Carl, que corria atrás de mim feito um cachorrinho desde que o trouxa do Poynter havia me deixado dançando com ele. Falando em Poynter, ouvi a voz dele me chamando.
- ! Vem cá! – ele disse, acenando pra mim de uma mesa no meio de muitas outras mesas cheias de gente de todos os tipos: familiares, colegas de trabalho, conhecidos e blablabla. Fui até ele e no caminho percebi que ele estava sentado ao lado de uma mulher que já deveria ter un 70 anos. Não, não pode ser... – , essa aqui é a minha vózinha, Lucy. Sorri para a velhinha, sentindo o olhar de eu falei, não falei? de Dougie sobre mim. Droga!
- Prazer, dona Lucy. – eu disse, apertando a mão da mulher, que sorria carinhosamente pra mim.
- O prazer é todo meu, , não é? – eu assenti – Você é ainda mais bonita do que o Dougiezinho descreveu.
Senti meu estômago dar uma volta de 360º. Como assim o Dougie tava falando de mim pra vózinha dele? Olhei de lado pra ele, que olhava pro céu, fingindo que não estava ouvindo a conversa.
- Sabe como é, o Dougiezinho não é muito bom em descrições. – eu disse, sorrindo debochada pra Dougie, que fez uma careta. Olhei de novo pra dona Lucy, e ela nos olhavas com uma cara de que sabia demais pro meu gosto. Senti minha bochecha queimar de leve, mas fui salva pelo fotógrafo, que apareceu do nada.
- Vocês são os filhos dos noivos, né? – ele nos perguntou, e nós assentimos – Venham comigo, por favor, preciso de umas fotos de vocês.
Dei tchau pra dona Lucy e nós dois seguimos o fotógrafo até um canto mais vazio da cobertura, onde havia várias flores e coisas do tipo, e de onde a vista da torre Eiffel era mais próxima. Ele nos mandou fazer algumas poses e tirou as fotos, pedindo licença logo depois porque a bateria da câmera tinha acabado. Nós ficamos ali observando a paisagem.
- Posso saber o que é que você contou pra sua vó, Dougie? – eu perguntei, e ele se fez de desentendido.
- Eu não contei nada. – eu o olhei feio, e ele deu de ombros – Qualé, eu sempre contei tudo pra minha vó, por que eu esconderia você?
Arregalei os olhos.
- Sempre contou tudo pra ela? Tudo, assim, tudo? – eu perguntei, morrendo de vergonha ao imaginar que ele havia contado pra dona Lucy que nós havíamos transado. Ele riu.
- Tudo ainda significa tudo no meu dicionário, . – ele disse, e eu dei um tapinha em seu braço, sentindo minha bochecha ficar vermelha de novo. Ele me abraçou pela cintura e eu segurei a lapela de seu paletó.
- Não precisa ficar com vergonha, vovó não vai contar pra ninguém. – ele disse, e eu fiz uma careta.
- Essa não é a minha maior preocupação. – eu disse, e nós nos encaramos por um instante, até caírmos na gargalhada. Só paramos quando sentimos um flash.
- Desculpa, eu tive que tirar essa foto. – o fotógrafo disse, aparecendo do nada, sorrindo e saindo logo de lá antes mesmo que pudéssemos falar qualquer coisa. Rimos juntos de novo, até que Dougie mordeu o lábio inferior, um pouco pensativo.
- Tá afim de ir num lugar comigo? – ele perguntou, e eu o olhei desconfiada.
- Não, se esse lugar for o seu quarto. – eu disse, e Dougie gargalhou, balançando a cabeça negativamente.
- Juro que não vou te abusar sexualmente hoje à noite. – ele disse, e eu ainda o olhei um pouco desconfiada. Olhei ao redor e vi que muitas pessoas já tinham ido embora, mas mesmo assim o lugar ainda estava cheio de gente sentada nas mesas comendo, bebendo e conversando. Já deveria ser muito tarde. A música que tocava era calma demais, o que não me deixava outra alternativa a não ser ir com Dougie onde quer que ele quisesse me levar.
- Ok, pra onde vamos? – eu perguntei, e ele sorriu, me dando um selinho rápido pra que ninguém visse, e murmurando “me siga” no meu ouvido. Ele saiu andando em direção à parte de trás do bar, e eu estranhei, mas o segui. Tudo estava bem escuro lá, e ninguém mais na festa podia nos ver. Achei que ele ia me agarrar ali ou coisa assim, mas ele apontou pra uma escada de ferro que levava ao telhado do bar.
- Sobe. – ele disse, e eu arqueei as sobrancelhas.
- Você pelo menos sabe onde isso vai levar, Poynter? – eu perguntei, e ele assentiu, rindo.
- Tá, eu menti quando disse que tinha ficado as três primeiras horas da festa com minha vó. Além disso, eu também vim aqui. – ele disse, e eu achei ainda mais estranho – Sobe aí, sério.
Tirei minhas sandálias de salto muito alto, que já estavam começando a torturar minha sola do pé, e subi a tal escada, morrendo de medo de cair e me esborrachar no chão. Mas não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, assim que terminei de subir, fiquei maravilhada com a vista dali. Dava pra ver a cidade inteira, e aí sim eu pude perceber que Paris realmente merece o título de “cidade das luzes” – milhares de luzinhas de todas as cores enchiam o horizonte, fazendo daquela vista única. Senti Dougie me abraçar por trás.
- Gostou? – ele perguntou, e eu me virei pra ele.
- Como assim “gostou”? Esse lugar é lindo, Dougie. – eu disse, e ele sorriu.
- Eu disse que ia ser legal. – ele falou, me puxando pra mais perto. Coloquei meus braços em volta de seu pescoço e lhe dei um selinho demorado. Assim que nos soltamos ele me puxou pela mão.
- Pra fazer tudo mais confortável... – ele disse, me mostrando o grande cobertor que ele havia colocado na beirada do telhado, já que ele era reto, com algumas almofadas jogadas por ali.
- Quanto tempo você demorou pra arrumar isso tudo? – eu perguntei, e ele deu de ombros.
- Valeu à pena. – ele disse, me olhando profundamente, e eu senti meu coração quase saltar pela boca. Dei mais um selinho em Dougie, que apertou minha cintura levemente, e nós ficamos nos olhando até que uma voz saiu do microfone lá embaixo.
- Nós gostaríamos de chamar os noivos pra pista de dança, pois temos uma música especial pra eles agora. – eu fui até a beirada do telhado e olhei pra baixo, vendo o vocalista da banda chamar minha mãe e Matt, que logo foram até o centro da pista de dança. O toquezinho da música começou, e eu a reconheci muito bem. Dougie sorriu e fez uma reverência pra mim, estendendo sua mão pra que eu a pegasse. Eu ri e a peguei, e assim nós começamos a dançar calmamente.

Give me more love than I've ever had,
(Me dá mais amor do que eu já tive)
Make it all better when I'm feeling sad,
(Faz tudo melhor quando eu estou triste)
Tell me that I'm special even when I know I'm not.
(Me diz que sou especial mesmo quando eu sei que não sou)
Make it feel good when I hurt so bad,
(Faz tudo ficar melhor quando me dói tanto)
Barely gettin' mad,
(Quase não ficando brava)
I'm so glad I found you.
(Sou tão feliz por ter te achado)
I love being around you.
(Eu amo estar perto de você)

Descansei minha cabeça sobre o ombro de Dougie, que me abraçou ainda mais, me fazendo sentir estranhamente confortável. Confortável como eu nunca havia me sentido nos braços de alguém. Fechei os olhos. Eu sentia a respiração calma dele no meu ouvido, o cheiro de seu perfume me invadindo por dentro... naquele momento, meu mundo girava em torno dele. Era como se tudo ao meu redor fosse Dougie.

You make it easy,
(Você faz tudo mais fácil)
As easy as 1, 2... 1, 2, 3, 4.
(Tão fácil quanto 1, 2… 1, 2, 3, 4)
There's only 1 thing 2 do
(Há apenas uma coisa a fazer)
3 words 4 you:
(Três palavras pra você:)
I love you (I love you)
(Eu te amo)
There's only 1 way 2 say
(Há apenas uma forma de dizer)
Those 3 words and that's what I'll do.
(Essas três palavras, e é isso que eu farei)
I love you (I love you)
(Eu te amo)

De repente, era como se um filme estivesse passando por minha mente. A primeira vez que o vi, a primeira vez em que as meninas me chamaram de louca por estar ignorando o “garoto mais fit de todos os tempos”, quando bati a porta do meu armário em sua testa, quando nós fomos jantar, quando ficamos sabendo que nossos pais iam se casar... Quando, pela primeira vez, eu senti minha pele se arrepiar ao seu toque. Quando não conseguia mais tirar aquele seu sorriso prepotente da minha cabeça, quando meu corpo começou a pedir pelo corpo dele. Quando comecei a me sentir incomodada todas as vezes em que meramente pensava em vê-lo com outra garota. Quando me entreguei aos seus beijos, quando entreguei meu corpo ao dele. Me lembrei, principalmente, daquilo tudo que, a princípio, nem tinha percebido.

Give me more love from the very start,
(Me dá mais amor desde o começo)
Piece me back together when I fall apart,
(Me monta de volta quando eu caio em pedaços)
Tell me things you never even tell your closest friends.
(Me conta coisas que você não conta nem pros seus melhores amigos)
Make it feel good when I hurt so bad,
(Faz tudo ficar melhor quando me dói tanto)
Best that I've had,
(O melhor que eu já tive)
I'm so glad I found you.
(Sou tão feliz por ter te achado)
I love being around you.
(Eu amo estar perto de você)

Me lembrei de quando eu o provocava apenas pra que ele me provocasse de volta, pra que ele me olhasse de verdade. De quando eu o evitei por semanas apenas por medo dos meus próprios sentimentos. De quão secretamente feliz eu ficava todas as vezes que ele havia demonstrado o mínimo ciúmes de mim. De como eu precisara dele depois de tudo o que acontecera com Lucas, de como eu só conseguia olhar pra frente se soubesse que ele estava ao meu lado. De como meu coração batia quando eu estava perto dele, de como as tais borboletas faziam uma revolução na minha barriga a cada olhar, dos sorrisos e arrepios e mais sorrisos e mais arrepios involuntários que tomavam conta de mim sempre que minha mente teimava em trazê-lo à tona. De como ficar perto dele me tornava outra pessoa, uma pessoa mais feliz, uma pessoa boba que não tinha o mínimo controle sobre seus próprios pensamentos e ações. Tudo, realmente, girava em torno dele.

You make it easy,
(Você faz tudo mais fácil)
As easy as 1, 2... 1, 2, 3, 4.
(Tão fácil quanto 1, 2… 1, 2, 3, 4)
There's only 1 thing 2 do
(Há apenas uma coisa a fazer)
3 words 4 you:
(Três palavras pra você:)
I love you (I love you)
(Eu te amo)
There's only 1 way 2 say
(Há apenas uma forma de dizer)
Those 3 words and that's what I'll do.
(Essas três palavras, e é isso que eu farei)
I love you
(Eu te amo)
I love you
(Eu te amo)

E eu estava ali, o sentindo tão perto de mim. Ele costumava ser tudo o que eu repudiava em um homem e, ainda assim, eu estava ali. Naquele momento, eu sentia como se não fosse aguentar perdê-lo, como se ele houvesse se tornado parte de mim. Parte sem a qual eu não poderia funcionar direito. Minha mente parou de viajar e estacionou em uma memória muito recente.
- Quando estou perto dele, é como se tudo estivesse no lugar certo. Eu o amo, filha. E o amor muda tudo.
Eu estava tão concentrada em perceber o quão mudada minha mãe estava após conhecer Matt, que eu havia deixado passar algo ainda mais importante: o quanto eu havia mudado desde que conhecera Dougie.

You make it easy,
(Você faz tudo mais fácil)
As easy as 1, 2... 1, 2, 3, 4.
(Tão fácil quanto 1, 2… 1, 2, 3, 4)
There's only 1 thing 2 do
(Há apenas uma coisa a fazer)
3 words 4 you:
(Três palavras pra você:)
I love you (I love you)
(Eu te amo)

O receio que eu sentia toda vez que algum garoto se aproximava de mim desde que saíra do Brasil não existia mais. Pelo contrário, eu queria que ele se aproximasse de mim. Eu havia parado de pensar apenas em mim e começado a colocá-lo em cada pensamento do meu dia. Eu me sentia despreocupada ao lado dele, como se ele fosse me proteger de tudo. Um simples olhar dele sobre mim já tinha esse efeito, quando ele me abraçava, então, era como se o resto do mundo não importasse. Não existisse. Mais uma vez, o mundo girava em torno dele. Em torno de nós dois. Juntos.

There's only 1 way 2 say
(Há apenas uma forma de dizer)
Those 3 words and that's what I'll do.
(Essas três palavras, e é isso que eu farei)
I love you
(Eu te amo)
I love you
(Eu te amo)

E agora estava claro pra mim: era isso que eu queria. Mesmo sem saber, era isso que eu sempre quis. Que o mundo girasse em torno de nós dois. Só nós dois. Era isto que era tão importante, que tudo estivesse no lugar certo. E ele é que fazia meu tudo estar no lugar certo – afinal, ele era meu tudo. O resto do mundo era simplesmente muito insignificante perto do que eu sentia por ele. Depois de tanto tempo, uma luz finalmente se acendia em minha mente. E, dessa vez, eu não tinha medo de saber a verdade. A verdade que meu orgulho, minha insegurança e talvez até minha própria ignorância no assunto me deixaram sem ver por tanto tempo. Estava tudo tão claro que eu senti como se um grande peso tivesse sumido de dentro do meu peito. Minha respiração finalmente igualou-se à dele, e as tão famosas borboletas decidiram fazer mais uma revolução, provavelmente comemorando a minha tão esperada e temida descoberta. Apertei mais nosso abraço e levantei meus olhos, que encontraram os dele. Aqueles olhos azuis, que brilhavam e me encaravam com tanta atenção, os únicos olhos que conseguiam penetrar minha mente e me fazer uma pessoa diferente. Agora era tudo tão claro, tão simples. Eu amava estar perto dele. Eu amava sentir sua respiração tão perto da minha. Eu amava seus abraços, seus beijos, o jeito que ele me olhava e sorria pra mim. Eu amava cada coisa irritante e idiota que ele já havia me dito. Eu amava cada sorriso prepotente, cada estupidez, eu amava cada pequena coisa que ele fazia. Eu amava cada pedacinho dele.

1, 2, 3, 4
(Um, dois, três, quatro)
I love you
(Eu te amo)
I love you
(Eu te amo)

Eu amava Dougie Poynter.

Capítulo 27 – “Nothing to lose, and now they both are winning. And they fall in love as they fall in love…”

- AMIGA! – gritou assim que abriu a porta pra mim. Logo, e estavam ao seu lado e as três pularam em cima de mim.
- Que saudade, meninas! – eu disse, assim que consegui respirar no meio delas, que me puxaram pra dentro e me jogaram no sofá. Que fofas elas.
- Como foi a viagem? – perguntou, se sentando ao meu lado. se sentou do outro lado e se sentou na mesinha de centro, de frente pra mim.
- Ah, foi demais! O resort era super lindo e o casamento foi tão... – eu comecei, mas elas me interromperam.
- Tá, tá, tá bom, , agora conta como foi com o Dougie! – disse, e eu revirei os olhos. Agora entendi o desespero delas quando eu cheguei.
- Ai meninas, eu acabo de chegar de uma semana fora e tudo que vocês querem saber é como foi com o Poynter? – eu perguntei, fazendo drama. Mas elas não caíram na minha.
- Sem melodrama, ! – disse, e eu ri – Anda, a gente tá curiosa.
Eu pensei por um instante, enquanto elas me olhavam com aquelas caras que me assustavam de tanta ansiedade. Mordi o lábio e não resisti. Afinal, desde a noite do casamento eu estava formigando pra contar aquilo pra alguém. Deitei a cabeça no ombro de .
- Ai amigas... eu tô apaixonada!
As três arregalaram os olhos e me encararam em silêncio. Cinco segundos depois...
- AAAAAAAAAAAAAAAH! – elas gritaram, e eu pulei de susto.
- NÃO ACREDITO! – gritou.
- COMO ASSIM APAIXONADA? – gritou, e eu ri da cara delas.
- Sei lá, só aconteceu. – eu disse, respirando fundo e lembrando da nossa dança na festa. Tinha sido tão perfeito.
- AI MEU DEUS, É VERDADE! – gritou ao meu lado – Olha só o sorrisinho de boba apaixonada da !
As outras encararam minha boca, perplexas, e eu fechei a cara.
- Dá pra parar com isso? Se vocês ficarem me olhando assim eu vou sair correndo daqui. – eu disse, e elas riram.
- Desculpa, amiga, eu só nunca esperei você falando que estava apaixonada... especialmente pelo Dougie! – disse , e eu concordei. Afinal, se me falassem há uma semana atrás que eu ia me apaixonar pelo Poynter, com certeza tal pessoa acabaria cheia de hematomas.
- Acredite, ninguém está mais surpresa do que eu, . Mas não tem volta, eu estou apaixonada pelo Dougie. – eu disse, vendo aquele sorriso voltar ao meu rosto. me abraçou.
- Tô tão feliz por você, amiga. Quando você me contou das suas histórias do Brasil eu achava que nunca ia te ver sorrir boba desse jeito por causa de um garoto. – ela disse, num tom grave, e as outras duas nos olharam estranho. Claro, só a sabia sobre o Lucas - Mas enfim, nos conte TUDO!
- É, não deixe escapar nenhum detalhezinho! – disse , enquanto corria até a cozinha e trazia um pacote de bolachas pra gente. Ri da cara delas e contei tudo – quer dizer, quase tudo. Não falei quase nada sobre o Lucas, principalmente sobre ele ter me atacado no banheiro naquela noite horrível. Elas suspiravam a cada coisa bonitinha que o Dougie havia feito, ou que eu havia sentido, mas é claro que uma coisa tinha que se sobressair.
- Não acredito que você perdeu a virgindade, . – disse , sorrindo sapeca.
- Ainda mais com Dougie Poynter. Ele deve ser ótimo de cama. – disse , me provocando, e todas rimos.
- Não adianta me olhar assim, suas taradas, eu não vou tocar nesse assunto. – eu disse, e elas resmungaram.
- Caramba , nós queremos os detalhes sórdidos também! Fala, a bunda dele é tão gostosa quanto parece? – perguntou, e eu a empurrei, rindo.
- Tá bom, a bunda dele é muito gostosa, ok? – eu me rendi – Mas é só isso que vou dizer.
- AAAAAH, SAFADIIINHA! – fez cócegas em mim, e eu me contorci, como sempre.
- Olha quem fala, você não é muito melhor com o Judd não, certeza! – eu disse, e o sorriso dela diminuiu levemente. Franzi o cenho e ia perguntar o que tava acontecendo, mas ouvi meu celular tocando dentro da minha bolsa. Peguei-o e vi que uma mensagem havia chegado.

Roxo ou rosa choque? xx

Ri de leve e fui responder a mensagem, ouvindo as garotas rirem e fazerem comentários sobre quão apaixonada eu estava. Nem falei nada, afinal, era verdade.

Os dois! Por quê? xx

- O que ele queria? – perguntou, com a boca cheia de bolacha.
- Boa pergunta! – eu disse, e o celular tocou de novo. E, antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, ela roubou-o de mim.
- Uuuui, olha só o Poynter, tá com saudades! – ela disse, fazendo cara de apaixonada.
- Me dá isso aqui, ! – eu disse, pulando em cima dela e pegando o celular de volta.

Por nada. Vai demorar muito pra chegar em casa?

Sorri e respondi.

Nossa, isso tudo é saudades?

Tenho uma surpresa pra você.

Opa, surpresa?

Te vejo em dez minutos.

Me levantei e peguei minha bolsa.
- Foi mal, garotas, mas tenho que ir.
As três me olharam maliciosas.
- Dê muitos beijos no Poynter por mim, ok? – disse , mandando um beijinho pra mim.
- E se quiser apertar a bunda dele em minha homenagem também, eu não reclamo! – disse, e eu joguei uma almofada nela.
- Nos vemos na escola amanhã, amores! – eu disse, mandando um beijo pra elas e saindo da casa de antes que eu tivesse que ouvir mais comentários pervertidos.

****

Te vejo em dez minutos.

É claro que, se eu disesse que havia uma surpresa pra ela, ela ia sair correndo de volta pra casa. Do jeito que aquela garota é curiosa...
- Abre a porta, ô surdo! – ouvi a voz do Jones vindo da entrada da minha casa, e já que estava no meu quarto, corri pra baixo pra abrir a porta.
- Mal caras, tava lá em cima. – eu disse, e eles deram de ombros, entrando na minha casa – Tão fazendo o que aqui mesmo?
- Viemos visitar nosso querido amigo, oras. – disse Fletcher, sorrindo inocente.
- Tá bom, e eu nasci ontem mesmo. – eu disse, indo até a sala de estar com eles atrás de mim.
- Pô cara, você passou uma semana em um resort francês com a garota mais linda do país, pode ir contando tudo. – Judd disse, e eu revirei os olhos.
- Desculpa, Harry, mas nós não somos um grupo de garotas botando os segredos em dia. – eu disse, e os outros dois riram.
- Ok, Dougie, você não precisa contar tudo. Mas pelo menos fala alguma coisa, né! – disse Tom.
- É, você não está com nenhum hematoma visível, então alguma coisa tem. – disse Danny, e eu dei de ombros. - A gente ficou, e é só isso que vocês vão saber.
O queixo deles caiu.
- Você ficou com a ? Sortudo do cacete! – disse Harry, me dando um pedala, e eu devolvi.
- Não é possível, cara! O que você fez, a embebedou? Porque quando vocês saíram de Londres ela não ia com a tua cara. – disse Tom, indignado.
- E eu lá preciso embebedar garotas pra elas caírem nos meus charmes, cara? – eu perguntei, e eles riram – Não sei exatamente como aconteceu mas, quando vi, já tinha acontecido.
Danny ia fazer um comentário pornográfico, a julgar pela cara dele, mas a porta abriu-se e nós nos viramos pro hall, vendo entrando afobada. Quando viu que os caras também estavam ali, franziu o cenho, mas sorriu.
- Olá garotos! Tudo bem? – ela perguntou, indo até a sala e parando em pé ao lado da poltrona onde eu estava sentado.
- Tudo ótimo, , e você? Como foi a França? – Tom perguntou, todo simpático.
- Foi ótimo, aquele país é lindo. – ela disse, me olhando de relance. Eu ri.
- Sim, eles sabem. – eu disse, e eu vi suas bochechas ficarem levemente vermelhas.
- Ah, sabem? – ela perguntou, olhando pros garotos, que sorriram e assentiram pra ela. Sabia que ela ia querer sair correndo dali de vergonha, então a puxei e a sentei em meu colo.
- Vai falar que você já não contou tudo pras suas amigas? – eu perguntei, e ela riu, assentindo – Então, estamos quites.
- Ok, tudo bem. – ela disse, ainda um pouco travada de estar no meu colo na frente dos garotos. Eu ri e dei-lhe um longo beijo na bochecha.
- Então, acho que já tá na hora da gente ir, né caras? – perguntou Harry, se levantando. Eu e rimos.
- Já vão tarde. – eu disse, e ela me deu um tapinha no braço.
- Dougie, seja bonzinho, por favor? Podem ficar, garotos, não tem nada a ver. – ela disse pra eles, mas eles negaram. Que bom, né, porque se eles tiverem aceitado eu ia chutá-los pra fora de casa do mesmo jeito.
- Até amanhã, casal. – eles disseram, saindo de casa. Casal... estranho, muito estranho.
- Cadê a surpresa? – interrompeu meus pensamentos, com aquela cara de criança curiosa. Eu só ri.
- Você parece criança, ! – eu disse, a abraçando forte e lhe dando um selinho.
- Ué, você disse que tinha uma surpresa, eu quero a surpresa! – ela disse, fazendo bico. Tão bonitinha! Mordi seu bico e me levantei, a levando junto.
- Tá lá em cima. – eu disse, a puxando pela escada. Nós fomos até o quarto que ficava ao lado do meu, que seria o futuro quarto da . Sim, ela ia dormir num quarto ao lado do meu. Preciso dizer mais?
- Já que a equipe de mudança só vai trazer o resto da mobília e das suas tralhas amanhã, eu tive uma ideia. – eu disse, apontando pras quatro latas de tinta que havia colocado ali há uma meia hora. Ela sorriu animada.
- Vamos pintar? – ela perguntou, e eu assenti.
- Como você disse que gostava tanto de rosa choque quanto de roxo, eu trouxe as duas cores. – eu disse, e ela pulou de animação.
- Que bom, não aguentava mais essas paredes brancas assustadoras. – ela disse, abraçando meu pescoço e me dando um selinho. Eu ia aprofundar o beijo, mas ela me soltou.
- Vamos ao trabalho! – ela foi até seu closet e trocou de roupa, enquanto eu abria as latas e arrumava os pincéis. O quarto era enorme, e como só tinha uma cama e uma escrivaninha, parecia ainda maior. Mas tudo bem, não podia ser tão difícil assim pintar paredes. saiu do closet com shorts de malha, uma camiseta surrada e os cabelos presos em um coque. Pegamos, cada um, um pincel e subimos em duas cadeiras pra começar a pintar de cima pra baixo. Os pincéis eram grandes, e estava tudo sendo mais rápido do que eu imaginava. Ficamos uma meia hora concentrados no trabalho, até que eu parei pra alongar as costas e observei , que já estava no chão pintando a parte da metade pra baixo de sua parede. Fiquei parado a olhando por algum tempo, até que ela percebeu.
- Que foi? – ela perguntou, estranhando eu a encarar daquele jeito. Cheguei mais perto dela e puxei seu queixo pra mais perto de mim.
- Incrível como você fica linda de qualquer jeito, até toda desleixada e dando uma de pintora. – eu disse, e ela sorriu. Nos beijamos por algum tempo, até que ela tentou se soltar de mim, mas eu não deixei. Tenho cara de trouxa? Mas ela foi mais esperta e deu uma pincelada de tinta rosa choque na minha bochecha.
- ! – eu reclamei, a soltando, e ela riu.
- Tá lindo assim, Dougie. – ela disse, zombando de mim, e eu retribuí com uma pincelada de tinta roxa na testa dela, o que foi o bastante pra uma guerrinha de tinta começar entre nós dois. Por sorte eu havia coberto grande parte do chão com jornais, ou ficaria tudo sujo. Depois de um tempo, resolvemos voltar ao trabalho, e umas duas horas depois estava tudo pronto.
- Aaaaah, tá tão lindo! – ela disse, observando nosso trabalho da porta do quarto.
- Também achei. Somos ótimos pintores. – eu disse, e nós dois batemos as mãos em um high-five.
- O complicado é o cheiro. – ela disse, franzindo o nariz de uma forma muito bonitinha. Eu ri.
- Essa tinta é de secagem rápida. Amanhã já deve estar seca, e aí o cheiro já vai quase todo embora. – eu disse.
- É, amanhã. Mas não vai dar pra dormir aqui hoje. – ela disse, fazendo uma careta. Eu sorri malicioso.
- Sem problemas, eu tenho um lugar perfeito pra você dormir. – eu disse, a abraçando mais uma vez. Ela riu.
- E onde é? – ela perguntou. Eu dei um beijo no seu pescoço.
- Na minha cama, é claro. Ela é sempre muito receptiva pra você, . – eu disse, e ela me deu uma mordidinha no queixo.
- Eu diria que não, afinal agora nós somos irmãos. – eu ia argumentar, mas ela falou antes – Mas já que papai e mamãe ainda estão na lua de mel...
- Ótimo. – eu disse, lhe dando mais um selinho. Joguei meu pincel no balde pra amolecer a tinta e a puxei pra dentro do meu quarto, indo em direção ao banheiro – Hora de tirar toda essa tinta do corpo, senhorita.
Ela riu e me puxou pra mais um beijo.

Capítulo 28 – “Won’t hear a word they say, they don’t know us anyway”

- Que preguiça de ir pra escola... – eu reclamei, assim que terminei de me vestir, me jogando na cama de Dougie enquanto ele abotoava sua camisa.
- Bem vinda ao clube, . – ele disse, fazendo uma careta que me fez rir.
- Como vai ser daqui pra frente, hein Dougie? – eu perguntei, encarando minha unhas por medo de olhar pra ele. Eu estava pensando naquilo desde a noite do casamento, mas não tive coragem de perguntar pra ele. Ele não respondeu e, quando eu percebi, ele estava sentado ao meu lado.
- Como assim? – ele perguntou, calçando seu sapato. Eu abracei o travesseiro dele que estava por ali e dei de ombros.
- Nós dois... como é que nós... ficamos? – eu perguntei, sentindo minha bochecha corar levemente. Era realmente uma droga como eu ficava vulnerável quando estava perto daquele garoto. Ficava parecendo uma garota... apaixonada. O que, infelizmente, não deixava de ser verdade.
- Por que a pergunta? Tá querendo me dar um pé na bunda, é? – ele perguntou, rindo de leve, e eu me levantei.
- É sério, Dougie. Agora nossos pais são casados e nós não estamos mais na França. Voltamos pra vida real. – eu disse, o olhando de lado, e vendo sua cara pensativa. Ficamos em silêncio por algum tempo, no qual eu andei de um lado pro outro umas trinta vezes. Estava com medo dele simplesmente me deixar agora que estávamos volta a Londres. Estava absorta em meus pensamentos quando senti Dougie me puxando e me sentando em seu colo.
- Olha ... – ele disse, olhando nos meus olhos e quase me fazendo derreter – Isso que nós temos, seja lá o que for, é muito legal. E eu não pretendo jogar tudo pro alto só porque nossos pais se casaram.
Eu não pude conter um enorme sorriso, ao qual ele correspondeu com outro. Nós nos beijamos calmamente por um tempo.
- Hm, seria melhor se nós mantêssemos tudo em segredo, né? – eu disse, assim que nos soltamos, e ele franziu o cenho.
- Por quê? Tá com vergonha de mim, é ? – ele perguntou, fazendo bico. Eu ri e encostei nossos narizes, olhando tão profundamente em seus olhos que achei que iria me afogar naquele mar azul.
- Bom, considerando que toda santa garota naquela escola sonha em te beijar, eu poderia sair me gabando pra todos os lados. – eu disse – Mas não sei se vale à pena manchar minha reputação tanto assim, sabe...
Ele arregalou os olhos, e por um instante eu achei que ele tinha se sentido ofendido mesmo. Mas logo ele riu e me jogou na cama, deitando em cima de mim.
- Pois eu quero é esfregar na cara de todos aqueles idiotas que você é minha. – ele sussurrou no meu ouvido, mordendo o lóbulo da minha orelha logo em seguida, o que me arrepiou inteira. Por quê, meu Deus? Por que esse homem tem que existir?
- Nossa, que possessivo. – eu comentei, também ao pé da orelha dele, lhe dando alguns beijinhos leves no pescoço, e senti que ele também se arrepiou. Ótimo, pelo menos eu não sou a única idiota vulnerável da situação. Nós voltamos a nos beijar, e Dougie já estava com a mão dentro da minha saia xadrez do uniforme e eu já tinha desabotoado alguns botões da camisa dele quando alguém bateu na porta.
- MERDA! – Dougie exclamou, saindo de cima de mim e se recompondo. Fiz o mesmo, tentando esconder o quão ofegante minha respiração estava. Ele me olhou e eu assenti, logo ele foi até a porta e a abriu.
- Bom dia, meu querido! – disse uma mulher gordinha com cara de simpática, que usava um uniforme de empregada.
- Angie! Que saudades! – ele disse, abraçando a gordinha, que o abraçou com força de volta.
- Também estava morrendo de saudades, Dougie. Essa casa estava tão deprimente sem você. – ela disse, olhando pra ele com um carinho imenso. E logo desviou seu olhar, direcionando-o pra mim, que estava em pé ao lado da escrivaninha. Não queria correr nenhum risco continuando sentada na cama dele – Essa deve ser a , filha da dona Meg!
Eu sorri e assenti.
- Sou eu mesma, prazer. – eu disse, estendendo minha mão pra ela, mas ela me abraçou.
- O prazer é todo meu, querida. Bem vinda à família. – ela disse, toda fofa, e eu sorri mais ainda. Angie parecia mesmo ser um amor.
- Obrigada, Angie. – eu disse, e ela assentiu, fazendo uma cara mais séria.
- O café está pronto, vão tomar logo porque já tá quase na hora da escola. – ela disse, sorrindo mais uma vez e saindo do quarto.
- Prepare-se pra comer as melhores panquecas já feitas. – Dougie disse. Nós pegamos nosso material e saímo do quarto. De mãos dadas, pelo menos enquanto estávamos sozinhos.

****

Estacionei meu carro na minha vaga de sempre. Esse era o bom de ser popular, todo mundo sabia que aquela era a vaga que eu gostava e nunca estacionavam ali. Desliguei o rádio, que tocava alguma música pop desconhecida, e puxei para um beijo.
- Dougie! Alguém pode ver! – ela disse, tentando se soltar de mim. Eu ri e lhe dei mais um selinho.
- Pô, já vou ter que aguentar a aula inteira sem te beijar, deixa eu aproveitar um pouquinho. – eu disse, e ela riu, toda linda. Como sempre, dã.
- Vamos logo, o sinal já vai tocar. – ela disse e eu assenti, saindo do carro. Assim que o fiz, vi cada olhar da redondeza se virar pro meu lado, e todo mundo começou a comentar. Claro que o fato dos nossos pais se casarem e eu e , que há uma semana brigávamos na frente de todo mundo, estarmos pacificamente um ao lado do outro ia causar muita fofoca. Isso porque eles não sabiam de nada...
- Por que é que esse povo tem que ser tão fofoqueiro, hein? – eu perguntei, revirando os olhos, enquanto nós andávamos em direção à entrada da escola.
- Viu só? Imagina o que aconteceria se nós não mantêssemos tudo em segredo. – ela disse, e eu tive que concordar. Assim que chegamos no corredor principal, ela se virou pra mim.
- Nos vemos depois da aula, preciso de carona, Poynter. – ela disse, assim como ela teria falado há uma semana atrás. Não pude evitar de rir, e ela deu de ombros.
- Até mais, . – eu disse, dando uma leve piscadinha pra ela, que retribuiu com um sorriso sapeca no canto do rosto. Respirei fundo e fiz o caminho oposto do dela, em direção ao meu armário. Chegando lá, o abri e tirei tudo o que precisava pra primeira aula: Matemática. Ainda bem que já era quarta feira, menos dois dias de encheção de saco pra minha semana.
- Finalmente você voltou, estava com saudades. – eu ouvi uma voz sussurrar no meu ouvido, e duas mãos me abraçarem por trás, acariciando minha barriga. Respirei fundo e me virei, vendo Olivia me encarar com um sorriso bizarramente tarado. Eu já estava acostumado com aquele sorriso, já que ela o fazia todas as vezes que queria uma rapidinha em alguma sala vazia da escola, só nunca tinha percebido o quão biscate aquele sorriso a fazia parecer.
- Olá Olivia. – eu disse, me soltando dela e fechando meu armário.
- Só um “olá”? Não vai me dar mais nada, lindinho? – ela disse, se grudando em mim e jogando seus peitos na frente da minha cara, praticamente. Ela tava usando aquele sutiã vermelho muito sexy que eu adorava, dava pra ver, e... hm, quer dizer...
- Não. – eu disse, acordando pra vida e me soltando dela mais uma vez. A menina parecia chiclete, caramba! Saí andando e ela correu atrás de mim.
- Dougie! O que está acontecendo com você? – ela perguntou, indignada, me alcançando e parando em frente a mim – Primeiro você me manda aquela mensagem horrorosa, depois nem me convida pro casamento do seu pai e agora isso?
Me fala, por que é que eu a convidaria pro casamento do meu pai? A menina não tem disconfiômetro.
- Não está acontecendo nada, Olivia. – eu disse, simplesmente. Não tava afim de discutir com ela. Mas ela ignorou completamente a minha expressão de não-tô-afim-de-você e voltou a me agarrar.
- Ótimo. Então... meus pais não vão estar em casa hoje à tarde, por que você não dá uma passadinha lá pra matar a saudade e me fazer companhia? – ela perguntou, mordendo os lábios e passando a mão por meu peito. Tirei a mão dela dali e dei um passo pra trás.
- Muito obrigado, mas eu tenho mais o que fazer, Olivia. – eu disse, e ela me encarou com uma expressão assassina. Abriu a boca pra fazer um escândalo, pra variar, mas o sinal tocou. Salvo pelo gongo! – Tenho que ir pra aula.
- Dougie! – ela me gritou toda histérica enquanto eu ia em direção à sala de Matemática. E depois me perguntam por que eu não corri atrás da Olivia quando a mandou aquela mensagem pra ela. Eita menina hiperbólica, viu!

****

- Bom dia, meus amores! – eu disse, me sentando na minha mesa de costume na sala de História. , e , que já estavam lá, me olharam estranho.
- Jesus, de bom humor de manhã? Não sabia que isso era possível. – disse , e eu dei a língua.
- Acho que esse bom humor tem nome, hein... – comentou , sorrindo maliciosa, mas eu arregalei os olhos.
- Fiquem quietas! Eu e o Dougie combinamos de manter tudo em segredo, vocês não podem contar pra ninguém! – eu disse quase num sussurro, e elas assentiram.
- Ok, a gente fica quieta. – disse, chegando sua cadeira mais perto da minha – Mas conta, vai, qual era a surpresa que ele tinha pra você?
Eu ri e olhei em volta, vendo que ninguém nos escutava.
- Ele comprou umas tintas e nós pintamos meu quarto, ficou tão lindo! – eu disse, sorrindo – Aquela casa é incrível, sério. Meu quarto lá é pelo menos duas vezes maior que o meu quarto antigo, e olha que ele já era grande!
- Só isso que vocês fizeram? Pintaram o quarto? – perguntou, com uma sobrancelha levantada. Eu ri de leve e fiquei quieta, o que fez todas entenderem o que eu não quis dizer.
- Aaaaaaah, seus safaaaados! – disse, e eu ri, jogando meu estojo nela. E percebi que ela estava com um anel diferente no dedo.
- Isso aí é uma aliança, ? – eu perguntei, segurando sua mão e observando aquele anel prateado. Ela riu e ficou vermelha.
- O Tom me deu nesse fim de semana pra simbolizar nosso namoro. Sabe como é, ele é um cara super romântico. – ela disse, toda apaixonadinha.
- Que lindo, amiga! Vocês dois são um casal tão fofo! – eu disse, e as outras duas assentiram. Me virei pra elas – E o Danny e o Harry, já tomaram vergonha na cara pra pedir vocês em namoro? - elas se entreolharam sérias, e eu estranhei – O que foi?
As duas deram de ombros, e me olhou com um sorriso triste.
- Eles não tão mais juntos.
- Sério? – eu perguntei, assustada. Danny e e e Harry pareciam tão felizes juntos, por mais que estivessem só ficando. Tinha certeza que eles iam acabar namorando – O que aconteceu?
- Os dois saíram na semana passada, encheram a cara e pegaram o time das líderes de torcida inteiro, praticamente. – disse, revirando os olhos.
- E o melhor foi que o colégio inteiro ficou sabendo antes da gente. Foi muito emocionante ver todo mundo olhando pra nós procurando um chifre nas nossas cabeças. – disse, meio irônica, mas dava pra ver o tom decepcionado em suas palavras. Peguei as mãos das duas.
- Eles são idiotas que não merecem vocês, lindas. – eu disse, e as duas riram.
- E você falava isso do Poynter há uma semana, né ... – disse, e todas rimos. O professor entrou na sala e eu me virei pra frente, tentando me concentrar, por mais difícil que fosse. Afinal, minha mente estava um pouco ocupada, sabe.

****

As primeiras aulas passaram até rápido, e assim chegou a hora do almoço.
- E aí, cara? – Tom me cumprimentou assim que eu cheguei na nossa mesa de sempre – Cadê a namorada?
Eu ri bem falso.
- Não tem ninguém namorando aqui, Fletcher. Além de você, é claro. – eu disse, me sentando ao lado de Harry e de frente a Danny.
- Ué, ontem você e a pareciam tão apaixonados que... – ele comentou, mas eu o repreendi.
- Fala baixo, cara, a gente tá tentando manter tudo em segredo. – eu disse, e Harry me olhou estranho.
- Por quê? Tá querendo esconder que você tá super apaixonadinho na ? – ele perguntou, e eu revirei os olhos.
- Cala a boca, ok? – eu disse, fechando a cara, e eles riram. Dougie Poynter apaixonado? Ah tá, também não exagera, né. Aí já é demais.
- Quero ver se você continua com essa cara feia quando ela passar por aqui. – o Danny disse, olhando pra alguma coisa atrás de mim e, antes que eu virasse pra olhar, e suas amigas passaram por nós.
- Oi, meninos! – ela e disseram, enquanto e nem olharam pra nós e passaram reto. Ué, elas não tavam com o Jones e o Judd?
- Oi, meninas! – eu e Tom respondemos, enquanto Danny e Harry se entreolharam e abaixaram a cabeça. Algo estranho estava acontecendo. Olhei pra , que olhou pra mim, e todos os outros já começaram a nos zoar. Nós temos amigos tão legais, viu.
- Por que não se sentam aqui? – Danny perguntou e assentiu, mas não, já que olhava com o cenho franzido pra uma mesa mais pro meio do refeitório.
- Tô com medo de sentar aqui e o olhar mortal da Olivia derreter meu cérebro ou coisa assim. – ela disse, e eu olhei na direção em que ela olhava. E lá estava Olivia, na sua mesa junto com suas amigas líderes de torcida, olhando com raiva pra nós. Ri de leve e puxei pra sentar ao meu lado.
- Ela ainda deve estar com raiva pelo fora que eu dei nela hoje de manhã. – eu disse, e me olhou com a sobrancelha arqueada.
- Ela veio dar em cima de você, é? – ela perguntou, com aquela cara de ciúmes. Ri.
- Adoro quando você fica com ciúmes. – eu disse, dando uma piscadinha pra ela, e ela bufou.
- Como se eu tivesse ciúmes daquela oferecida. – ela disse, revirando os olhos, e eu só consegui rir mais.
- Ô casal, se vocês tão mesmo querendo manter tudo em segredo, é melhor vocês pararem de discutir a relação no meio do refeitório, né? – disse, abraçada com o Tom. Nós rimos e eu vi olhar pro Danny e pro Harry de uma forma meio estranha. Ela deveria saber o que estava acontecendo.
- Bom, é melhor eu ir atrás das meninas. Nos vemos depois, guys. – ela disse, se levantando da mesa e indo na direção que as outras haviam ido, enquanto fazia uma careta e também se levantava, dando um selinho no Tom e indo atrás de .
- Deixa eu adivinhar, vocês traíram a e a . – eu disse, e os dois assentiram, quietos. Bom, já era de se esperar.

Olivia’s POV

Ok, não tô gostando nada dessa história. O Dougie tá muito estranho comigo, e isso me deixa irritada – e eu não posso ficar irritada, irritação dá rugas precoces! Quando foi que ele recusou um convite meu pra ir lá em casa... conversar? Ou melhor, quando foi que qualquer garoto recusou um convite desses vindo de mim? Alguma coisa muito estranha deve estar acontecendo.
- Agora que os pais deles se casaram, o Dougie e a tão o maior grude, né? – a Ashley disse, só pra me provocar, é claro. Ridícula. Olhei pra mesa em que o Dougie se sentava com seus amigos e lá estava ela: a metida à espertinha da . Oferecida, fica se jogando pra cima do meu homem! Ela olhou pra mim e eu fiz questão de mandar meu olhar mais assassino, pra ver se ela se tocava e vazava de uma vez, talvez voltasse pra aquela terrinha de terceiro mundo dela. Logo ela se sentou ao lado dele, e Ashley fez mais um comentário idiota, mas eu nem prestei muita atenção. Cerrei os punhos e senti minhas unhas recém feitas machucarem a palma da minha mão. Tinha a impressão de que o problema de Dougie era a . E, seja lá o que estiver acontecendo, eu vou descobrir, ah se vou. E aí o Dougie vai voltar rastejando pra mim, e aquela ridícula da vai me pagar por se meter no meu caminho.

Capítulo 29 – “I can see the edge, but I can’t take the fall”

Já disse que adoro sextas-feiras?
- Parece que a tá te chamando ali, Poynter. – disse Danny, numa voz meio desanimada. Ele parecia bem abalado com o término do “rolo” entre ele e a . Olhei pra trás e a vi na frente de um armário, que deveria ser dela, acenando pra mim. Me levantei do banco do pátio onde estava sentado com os caras e fui até ela.
- Pois não? – eu falei pra ela, que tirava uma pilha de livros do armário.
- A pediu pra eu te falar que ela está na biblioteca. – ela disse, concentrada em equilibrar os tais livros nas mãos. Assenti.
- Precisa de ajuda? – perguntei, e ela negou com a cabeça, saindo de lá toda desajeitada. Dei de ombros e segui na direção da biblioteca, que estava deserta naquele momento, a não ser pelos nerds esquisitos que passavam o intervalo todo lá, estudando. Não me pergunte como é que existem pessoas assim no mundo que eu não sei responder.
- Psiu! – ouvi me chamar de uma das últimas estantes do lugar. Olhei pros lados pra ver se alguém estava nos vendo, mas é claro que não, até parece que algum daqueles nerds ia levantar a cabeça de seus exercícios de química orgânica.
- Tá fazendo o que aqui? – perguntei assim que cheguei perto dela, que folheava um livro qualquer.
- Vim buscar um livro sobre Revolução Francesa pra um trabalho que o professor de história pediu. – ela disse, fechando o livro e se virando pra mim – E pensei “qual lugar é melhor do que a biblioteca pra dar uns pegas escondido?”.
Eu ri e a prensei contra a estante.
- Essa foi uma ótima ideia. – eu disse, juntando nossos lábios, mas ela não me deixou aprofundar o beijo.
- Eu tava brincando, espertinho. Vai que alguém chega e nos vê? – ela perguntou, olhando pro fim da estante, tensa.
- Como se você não soubesse que a maioria das pessoas nesse colégio nem sabe que nós temos uma biblioteca. – eu disse, dando um beijo em seu pescoço, e ela riu.
- É, faz sentido. – ela disse, me dando um selinho – Enfim, o carinha da imobiliária me ligou e pediu que minha mãe vá dar uma última olhada na minha casa pra ele já poder colocá-la à venda.
Ela fez bico, e eu passei minha mão pela sua bochecha.
- Nem faça essa carinha porque agora você mora num lugar muito melhor. – eu disse, e ela assentiu, me dando um beijo na ponta do nariz.
- Mas então, já que a minha mãe ainda tá em lua de mel, eu vou ter que ir lá por ela depois da escola. – ela disse, revirando os olhos e colocando seus braços em volta do meu pescoço.
- Eu vou com você. – eu disse, e ela assentiu.
- Bom, eu vou ter que passar na casa da Débora antes pra pegar umas coisas e lá é pertinho da minha casa, eu posso ir a pé. Mas você pode me encontrar lá. – ela disse, me dando vários selinhos, os quais me irritaram depois de um tempo.
- Para de me provocar, menina. – eu disse, beijando-a profundamente. Ela me puxou mais pra perto do seu corpo, e foi aí que ouvimos o barulho de um livro caindo no chão.
- O que foi isso? – ela perguntou, me soltando no mesmo instante, nervosa. Olhei pros lados e não vi ninguém. Respirei fundo.
- Putz, que susto. – eu disse, e ela assentiu, suspirando.
- É melhor a gente sair daqui logo. – ela disse, e eu dei de ombros.
- Só mais um beijinho. – a puxei pra mais perto, lhe dando um beijo, mas ela logo se soltou de mim.
- Nos vemos mais tarde. – ela disse, pegando seu livro e saindo de lá. Me encostei na estante e respirei fundo, esperando um pouco pra poder sair. Aquela garota ainda me deixa louco.

****

Olhei em meu relógio e vi que o sinal pra próxima aula já ia tocar, então corri até meu armário pra pegar meu material. E assim que cheguei lá, dei de cara com a magrela da Olivia. Que ótimo.
- Olá . – ouvi ela dizer, abrindo seu armário, que infelizmente era ao lado do meu. Pois é, dos zilhões de alunos que poderiam ter seus armários ao lado do meu, ela é que foi a escolhida. Incrível. Franzi o cenho. Desde quando ela falava comigo sem ser pra me chamar de nomes totalmente não originais? Fiquei quieta, torcendo pra que ela não se dirigisse mais à mim, mas por que eu teria essa sorte, né? – Que você é mal educada eu já sabia, mas mesmo assim eu ainda esperava que você fosse normal por um segundo e me respondesse.
Peguei os livros que precisaria nas próximas aulas e bati a porta do armário, olhando pra ela, que retocava seu batom quase vermelho no espelho pendurado na porta do armário dela.
- O que você quer, Olivia? – eu perguntei, e ela abriu aquela boca anormalmente grande em um sorriso estilo 78687166372-dentes.
- Nada, oras. Só estou mantendo uma relação razoável com a nova irmãzinha do meu Dougie.
Ela disse meu Dougie?
- Que eu saiba vocês dois nem estão mais juntos. – aquela frase saiu da minha boca antes que eu pudesse pensar direito, e ela arqueou as sobrancelhas.
- Que eu saiba você odeia o Dougie. Ou odiava, né, vai saber se você acabou se apaixonando por ele agora que dividem a mesma casa. – ela disse, batendo a porta de seu armário e chegando mais perto de mim. Cerrei os punhos mas tentei parecer tranquila, não podia entregar nada pra aquela garota.
- Me poupe, garota. – eu disse, querendo sair dali, mas ela não deixou.
- Vou te falar uma coisinha só uma vez, ok? – ela disse, chegando bem perto de mim e abaixando a voz, ficando tremendamente assustadora. Juro que nunca dei o menor crédito pra essa garota, mas estranhamente ela me dava arrepios agora. Bem estilo Garota Infernal. Eca – Caso você tenha alguma esperança de ficar com o Dougie, pode ir tirando seu porquinho da chuva, porque...
- Cavalinho, Olivia. – eu disse, revirando os olhos. Estava tão surpresa com a atitude de gente dela que tinha esquecido que aquela garota é mais burra que uma porta.
- Hã? – ela perguntou, perdendo toda a sua concentração diabólica e me olhando confusa. Não contive meu riso.
- A expressão é “tirar o cavalinho da chuva”, não “o porquinho”. – eu disse, sorrindo irônica pra ela assim que o sinal tocou. Ia saindo mais uma vez, mas ela me impediu, de volta com seu olhar diabólico. Ok, tô começando a achar que ela tá mesmo possuída pelo demônio.
- Como eu estava dizendo, pode esquecer, porque o Dougie é e sempre será meu. – ela disse, possessiva, e eu arqueei as sobrancelhas.
- Ah é? Então por que ele não está aqui com você agora? – eu perguntei, fingindo não ligar, mas ela abriu seu sorriso bizarro de novo.
- Não seja estúpida, . O Dougie já ficou com metade das garotas desse colégio e passou anos fora, mas ele sempre acaba voltando pra mim. Não importa com quem ele fique ou deixe de ficar, eu sou a única que consegue satifazê-lo do jeito certo. – eu queria dizer algo, mas não consegui. Isso porque ela nem sabia do que estava acontecendo entre eu e o Dougie! - Todo mundo sabe disso, pode perguntar pra quem quiser. Você só presenciou um pequeno pedaço da nossa história.
- Olha, Olivia... – eu disse, tentando sair dali logo, afinal o corredor já estava vazio e o segundo sinal estava prestes a tocar. Mas é claro que ela tem que me encher o saco mais um pouco.
- Só estou te avisando, querida. – ela disse, e eu revirei os olhos – Eu conheço aquele garoto como a palma da minha mão, e não tenho dúvidas de que logo logo ele virá correndo me pedindo pra voltar. Ele nunca conseguiu evitar, e nunca conseguirá. Nós fomos feitos um pro outro.
Ela me deu uma piscadinha e saiu de lá, me deixando sem fala. Respirei fundo e a observei rebolar até o fim do corredor, os saltos muito altos, os cabelos brilhantes, a postura perfeita. Talvez ela não estivesse tão errada assim.

****

- Cara, te falei que comprei God Of War III? É muito bom! Os gráficos são perfeitos, é como assistir um filme. Melhor jogo do PS3, certeza. – Harry disse todo animado enquanto nós saímos da aula de Biologia, última aula do dia, graças a Deus – Tá afim de ir lá em casa jogar?
- Foi mal dude, mas nem posso. Combinei de ir com a dar uma última olhada na casa dela. – eu disse, parando em frente ao meu armário pra colocar meus livros lá dentro.
- Mas vocês tão num grude louco, né? – ele disse, rindo.
- Deixa eu adivinhar: o Poynter não vai passar a tarde jogando video game com a gente porque vai sair com a . – Tom disse, chegando perto de nós junto com Danny. Revirei os olhos.
- Eu combinei com ela antes, ok? – eu disse, fechando meu armário. Eles iam dar ataque de ciúmes agora, é?
- Não, sem problemas, Dougie! Afinal, quem deixar de sair com aquela garota pra jogar video game só pode ser viado. – Danny disse, rindo pervertido, e eu lhe dei um pedala – Olha, o apaixonadinho tá ciumento!
- Apaixonadinho tá você pela , Jones. Fica olhando pra ela com cara de cachorro molhado sempre que ela passa. – eu disse, irritado, e ele fechou a cara.
- Sorry dude, mas ninguém mandou você traí-la. – Tom disse, sinceramente, e Danny deu de ombros, olhando pro nada. E depois eu é que estava apaixonado, né? Que trouxa. Procurei meu celular no bolso e não o encontrei.
- Putz cara, esqueci meu celular na sala. – eu disse, bufando. Que lerdeza. No que é que eu estava pensando?
- Quer que a gente vá lá com você? – Tom perguntou, e eu arqueei as sobrancelhas.
- Pra quê, pra você me proteger se eu for atacado pelo maníaco do parque, Fletcher? – eu perguntei, e eles riram – Vou lá buscar, nos vemos depois.
- Falou, Poynter! – eles disseram, indo até o estacionamento, enquanto eu fazia o caminho contrário. Era tudo culpa da , eu havia tirado meu celular do bolso pra mandar uma mensagem pra ela e acabei deixando-o em cima da mesa. Além do que, desde quando EU mando mensagens pras garotas? Sempre foi o contrário, eu só respondia. Puta merda, não entendo mais nada. Assim que consegui passar pela multidão que saía de suas salas, consegui recuperar meu celular, e quando finalmente cheguei ao estacionamento ele estava quase vazio, a não ser pelo meu carro. E alguém que estava sentado em cima dele.
- O que foi dessa vez, Olivia? – eu perguntei, chegando mais perto do meu carro. Ela levantou seus olhos de suas unhas.
- Isso lá é jeito de falar comigo, Dougie? – ela perguntou, com um falso tom indignado, mas logo sorriu daquele jeito que derruba qualquer homem pra mim. Puta que pariu, hein – Você sabe que eu só gosto que você seja grosso comigo quando estamos na cama.
Ela passou sua mão por meu braço, e eu respirei fundo, me afastando um pouco. Coloquei minha mochila dentro do meu carro e voltei a me virar pra ela, que agora estava em pé escorada no capô.
- Dá pra ir logo ao ponto? – eu perguntei, e ela assentiu, sem tirar seu sorriso do rosto. E pensar em todas as muitas vezes em que eu tive aquele sorriso por baixo de mim chamando pelo meu nome... foco, Dougie, FOCO.
- Eu só queria te avisar que eu sei do seu pequeno segredinho, e que você está fazendo a maior burrada da sua vida. – ela disse, simplesmente. A encarei com tédio. Aquela garota tá ficando psicótica, dude.
- Que segredinho, Olivia? – eu perguntei, com certeza de que ela estava só jogando verde pra tentar descobrir o porquê de eu não estar querendo mais sair com ela. Sendo que a explicação é que eu simplesmente cansei daquela garota. Por mais gostosa e boa de cama que ela seja e... hm.
- Que você e a estão se pegando, é claro. – ela disse, e eu arregalei os olhos. COMO É QUE ELA SABIA?
- Eu... não sei do que você tá falando. – eu disse, com uma voz totalmente não convincente. Que trouxa você é, Poynter.
- Não pense que me engana, Dougie, eu vi vocês dois juntos na biblioteca hoje. – Merda, merda, merda! De todas as pessoas do mundo, por que é que a Olivia tinha que ser a primeira a nos descobrir? – É por isso que estou aqui fazendo a boa ação de abrir seus olhos.
- Olha Olivia, esquece o que você viu e não se mete. – eu disse, recuperando a sanidade. Tinha que fazê-la ficar quieta quanto àquilo.
- Perdão, meu lindinho, mas eu não posso ficar quieta quando vejo que algo tão estúpido está prestes a acontecer. – ela mordeu os lábios, e eu estava curioso demais pra não perguntar.
- Do que é que você está falando?
Ela deu um passo pra mais perto de mim e me olhou com pena.
- Oras, Dougie. Você acha mesmo que está fazendo a coisa certa ficando com a ? – ela perguntou, e eu arqueei as sobrancelhas. Alguém tá entendendo o que ela quer dizer? – Por favor, você não é do tipo de cara que se compromete com uma só garota. Você sempre gostou de aventuras, de coisas novas... lembra daquela vez que nós fomos até a sala do diretor e...
- As coisas mudam, Olivia. – eu disse, a cortando, antes que ela começasse a viajar pelas nossas, hm, peripécias sexuais passadas. Ela riu.
- Sim, as coisas mudam. Mas você tem certeza que quer essa mudança pra você? Vai ficar preso à enquanto pode ter todas as garotas que quiser?
Eu sinceramente não sabia o que dizer. Desde quando a Olivia conseguia construir raciocínio lógico? Desde que eu a conheci, há muitos anos, ela só conseguia falar sobre roupas e maquiagem, e agora ela parecia outra pessoa. A qual eu não sabia de onde tinha vindo, mas que estava estranhamente me fazendo pensar.
- Eu gosto da . E nós estamos nos curtindo, não é nada assim tão sério. – eu disse, tentando bloquear alguns pensamentos que teimavam em aparecer.
- Tem certeza? – ela perguntou – Porque a me pareceu bem apaixonadinha por você hoje.
- Sério? – eu perguntei, sentindo um arrepio estranho passar pelo meu corpo. A apaixonada por mim?
- Aham. – Olivia disse, revirando os olhos – Com certeza ela está esperando sua atenção ilimitada, que você fique com ela pra sempre. E você pode até gostar dela também, mas você está disposto a largar tudo o que você construiu até hoje, toda a sua liberdade por uma garota?
Minha mente virou de cabeça pra baixo. Normalmente eu não me deixaria levar pelas coisas que a Olivia diz, mas tudo parecia fazer sentido naquele momento. Se estivesse mesmo gostando de mim...
- Só pensa, ok Dougie? Eu quero o seu bem, e sei que essa pessoa que você está tentando ser pra ficar com a não é o verdadeiro Dougie. – ela disse – Você tem tanta vida pela frente, tantos prazeres pra experimentar... – ela passou a mão pela minha barriga, e eu só consegui encarar o nada, sem ação – Pra quê se comprometer em algo sério se você sabe que vai sentir falta da liberdade sem limites que tem agora? Você pode machucar pessoas inocentes, além do que é uma total perda de tempo.
Ela me deu um beijo na bochecha e foi embora, me deixando ali parado feito um idiota. Senti meu celular vibrar, e lá estava uma mensagem que fez meu coração doer por dentro.

Vai chegar logo? Tô te esperando! xx

Capítulo 30 – "Believing a lie when I thought that you cared."

- ? – ouvi a voz de Dougie chamar do hall da minha antiga casa, então deixei a caixa na qual estava mexendo em cima do balcão da cozinha e fui encontrá-lo.
- Já tava achando que você ia me dar o bolo. – eu disse, chegando na sala de estar e o vendo parado, olhando pro teto.
- Sua casa é mesmo muito bonita. – ele disse, olhando pros lados, e eu fiz o mesmo.
- Pois é. Vou sentir saudades desse lugar. – eu disse, fazendo uma careta, e ele riu, me abraçando pela cintura.
- Olhe pelo lado bom, agora você vai morar em um lugar muito melhor. – ele disse, me dando uma piscadinha, e eu ri.
- É, eu não gostava muito dos meus vizinhos daqui mesmo... – eu comentei.
- Viu só, agora você tem o melhor dos vizinhos de quarto. – ele disse, me dando um selinho, e eu o abracei pela cintura.
- E o mais modesto também, né gracinha. – eu disse, lhe dando a língua, e ele deu de ombros.
- Achou alguma coisa esquecida por aí? – ele perguntou, e eu assenti, o puxando de volta pra cozinha.
- Essa caixa aqui. – eu disse, pegando alguns dos papéis que estavam ali e os mostrando pra Dougie – Tem vários desenhos antigos da minha mãe, de quando ela começou a trabalhar.
- Uau, bem legal. – ele disse, e eu concordei. Havia todos os tipos de vestidos, blusas, calças e casacos, tudo desenhado à mão pela minha mãe quando nós ainda morávamos no Brasil. Já fazia tanto tempo... – Hey, o que é isso? – ele perguntou, pegando uma foto que estava no fundo da caixa. Olhei-a confusa, afinal não a tinha visto ali.
- Nossa, que foto pré-histórica! – eu exclamei, a pegando da mão dele pra olhar mais de perto. Ali estávamos eu, minha mãe e meu avós – Eu deveria ter uns 5 anos aqui.
- Olha só, você era gordinha! – Dougie disse, e eu revirei os olhos.
- Eu era super bonitinha, ok! – eu disse, e ele riu, assentindo.
- Prefiro você agora. – ele disse, me dando um beijo na bochecha, e eu franzi o cenho.
- Que bom, né. Se você me preferisse na foto eu teria que te denunciar por pedofilia! – eu disse, e nós dois rimos. Coloquei tudo de volta na caixa – É, acho que é só isso.
Dougie se virou de costas pra mim e foi até a porta de vidro que levava ao jardim de trás. Eu o observei por um instante, sentindo algo estranho no meu peito. Ele estava lindo, como sempre, mas lá no fundo eu podia perceber que alguma coisa o incomodava. E, de alguma forma, eu me sentia incomodada também. Eu sempre me orgulhei de ser uma pessoa independente, de não me deixar levar pelo que os outros pensam ou falam. Todavia, algo no que a Olivia havia me dito mais cedo martelava dentro da minha cabeça. Nunca antes eu tinha me perguntado se Dougie havia realmente mudado desde que nós começamos a ficar. Até porque, antes de nós irmos pra França, eu o repudiava, achava que Dougie era o maior cafajeste, galinha e canalha da Inglaterra. E se isso não tivesse mudado tanto quanto eu imaginei? Antes de mim, ele levava uma garota diferente pra cama a cada dia. E agora? Como seriam as coisas? E se ele estiver comigo só pra passar o tempo, e daqui a pouco acabar me deixando por outra garota? Ou pior, voltar pra Olivia? Não soava muito diferente da figura de Dougie Poynter, o pegador, o garoto mais fit do colégio, o garoto com quem todas as garotas sonham em estar. Tudo bem que, quando estamos juntos, ele é uma pessoa completamente diferente do que eu jamais imaginei que aquele Dougie Poynter poderia ser. Mas quem garante que essa mudança toda foi por dentro, e não somente por fora? Fui até a porta, vendo que ele estava deitado na grama, ao lado da piscina, observando o céu. Andei lentamente até ele e me deitei ao seu lado, sem dizer nada. Não tinha o que dizer naquele momento.

****

Eu estava observando as nuvens passeando pelo céu muito azul quando ouvi passos perto de mim. Não precisei olhar pra ela pra saber que estava se deitando ao meu lado, e o silêncio absoluto voltou. Eu queria dizer alguma coisa, queria mesmo. Mas não consegui. A voz de Olivia estava ecoando na minha cabeça até agora. Eu quero o seu bem, e sei que essa pessoa que você está tentando ser pra ficar com a não é o verdadeiro Dougie. Não deixava de ser verdade, eu nunca havia ficado por tanto mesmo com a mesma garota. Mesmo quando eu estava com a Olivia, eu sempre arranjava um tempinho pra poder “expandir o meu mercado”. E agora eu mal podia me reconhecer quando estava com ela, era como se eu não quisesse estar com mais ninguém. Era como se ela fosse tudo o que eu precisava. E isso era assustador, muito assustador. Desde que apareceu, minha vida mudou drástica e rapidamente, e eu não sei se gostava mesmo disso. Eu estava tão acostumado com minha vida livre, podendo ter a garota que eu quisesse, que eu nunca nem imaginei como seria quando isso acabasse. E eu tinha medo de sentir falta disso um dia, e acabar machucando . E eu não poderia suportar machucá-la, não seria justo. Pra quê se comprometer em algo sério se você sabe que vai sentir falta da liberdade sem limites que tem agora? Será que Olivia estava mesmo certa? Será que eu estou tentando enganar a mim mesmo – e a ? Minha cabeça girava, e eu não sabia mais no que pensar. Estava atordoado, e isso só me fazer sentir como uma péssima pessoa. Se era verdade que estava apaixonada por mim... Nunca me preocupei de verdade com o sentimento das outras pessoas, sempre dei mais importância à minha diversão do que aos sentimentos que as garotas que passaram pelas minhas mãos poderiam nutrir por mim. Então por que é que agora a simples ideia de machucar , de fazê-la sofrer, fazia com que meu estômago desse voltas?
- Dougie? – ela chamou, e eu respirei fundo.
- Eu.
- Aquela nuvem tem o formato de um ursinho. – ela disse, apontando pra uma nuvem que estava bem em cima de nós. Eu ri e franzi o cenho.
- Não tem não. Ela tem o formato de um jogador de futebol. – eu disse, olhando a nuvem de vários ângulos, e só conseguindo ver um jogador de futebol.
- Claro que não, é um ursinho! – ela disse, fazendo bico, e eu ri ainda mais. Nós ficamos em silêncio por um minuto, e eu senti minha mão esquerda involuntariamente ir até a mão direita dela, apertando-a e puxando-a pra mais perto.
- Hey, ? – eu a chamei, e ela virou sua cabeça pra mim, o que fez com que nossos rostos ficassem bem perto um do outro. Eu passei minha mão direita levemente pela bochecha dela, que fechou os olhos e sorriu com o toque. Senti meu coração pular do seu lugar.
- Sim? – ela disse, voltando a abrir seus olhos e me olhando docemente. Eu não acreditava que aquelas palavras estavam saindo da minha boca, mas elas saíram tão naturalmente, assim como se eu estivesse perguntando que horas eram.
- Eu quero que você saiba que eu gosto muito de você. De verdade.
Ela sorriu ainda mais, o que me fez sorrir.
- Eu também, Dougie. De verdade. – ela disse, me dando um selinho.

****

- Então, o Dougie acabou de me avisar que os meninos vão sair hoje, então eu pensei que você podia vir aqui em casa assistir a um filme comigo ou coisa assim.
- É, pode ser, o Tom também vai. Parece que o Harry e o Danny têm reclamado que os dois passam muito tempo com a gente e esquecem deles.
- Se eles não tivessem traído a Báh e a Débs eles também teriam com quem passar o tempo.
- Pois é. Bom, eu vou ajudar a minha mãe com o jantar e já vou pra sua casa.
- Ok. Beijo, amiga!
Desliguei o telefone e, antes que pudesse me virar, senti um beijo na minha orelha.
- Quem era no telefone? – Dougie perguntou, se sentando ao meu lado na minha cama. Ele estava todo lindo e cheiroso, pronto pra sair.
- A . Chamei ela pra vir aqui passar a noite comigo, já que você vai me abandonar hoje. – eu fiz bico, e ele riu, me abraçando forte.
- Tá querendo dar uma de possessiva, é? – ele perguntou, franzindo o cenho, e eu ri.
- Tô brincando, Dougie. Pode sair com seus amigos à vontade, eu não sou do tipo possessiva. – eu disse, francamente. E não sou mesmo. Acho que a base de um relacionamento é a confiança, e não vejo sentido em ficar prendendo o garoto o tempo todo.
- Mais um motivo pra eu gostar de você. – ele me deu um selinho, e eu lhe dei um tapa no braço.
- Mas ó, juízo lá hein? Não ouse deixar nenhuma vadia nojentinha chegar perto de você, ou vocês dois vão se ver comigo! – eu disse, e ele assentiu, fazendo cara de santo – Ok, não precisa fazer essa cara, porque santo você claramente não é!
- Sou sim, pô! – ele reclamou, e eu fiz uma careta. Como se ele me enganasse! – Ok, tô indo. Até mais tarde.
- Tchauzinho, boa noitada. – eu disse, lhe dando mais um selinho.

****

- Tom, eu tô confuso. – eu finalmente tive coragem de dizer. Nós já estávamos naquele pub há umas boas horas, eu tinha enfiado a cara na cerveja e senti que precisava me abrir com alguém.
- O que foi, cara? – ele perguntou. Tom era o único que estava disponível, já que Danny e Harry estavam se pegando com algumas garotas pelos cantos.
- Eu não sei mais quem eu sou. – eu disse, afundando meu rosto nas minhas mãos.
- Caramba, dude, você tá tão bêbado que nem sabe mais quem é? – ele perguntou, dando uma risada super tosca depois. Ele também já tava meio tonto.
- Não, ô retardado! – eu disse, dando um tapa na cabeça dele, que o fez quase cair da cadeira – Tô falando que eu não estou me reconhecendo mais.
- Ok, se você quiser minha ajuda vai ter que ser um pouquinho mais claro do que isso. – disse Tom, tomando um longo gole de sua cerveja. Suspirei e cheguei mais perto dele, aproveitando o momento pra finalmente clarear as minhas ideias.
- Desde que eu comecei a ficar com a , parece que eu... parece que eu me tornei uma outra pessoa. – eu disse, e Tom parou de viajar pra prestar atenção em mim – Eu penso nela o tempo todo, e não consigo nem me imaginar beijando outra garota.
- É assim que eu me sinto pela . – Tom disse, pegando duas doses de tequila e me oferecendo uma. Viramos.
- É como se eu não estivesse completo quando estou longe dela, como se uma parte de mim ficasse perdida e só voltasse quando eu a tenho nos meus braços de novo. – eu disse, virando mais uma dose de tequila e sentindo meu corpo se aquecer – Meu coração bate mais forte quando eu a vejo, e eu não consigo deixar de sorrir quando a vejo sorrindo. Foi até difícil pra mim conseguir sair de casa hoje à noite sabendo que eu vou ficar a noite inteira sem um beijo dela.
- Bem vindo ao mundo dos apaixonados, Dougie. – Tom disse, me entregando mais uma dose. Arregalei os olhos.
- Não, n... não, não. Não. Não pode ser. – eu disse, fazendo careta ao sentir o álcool descer rasgando pela minha garganta – Eu gosto dela e tal, mas não estou apaixonado.
Tom riu e me deu um tapinha nas costas.
- Você ouviu tudo o que você acabou de me falar? – ele perguntou, e eu assenti, confuso – Você não consegue parar de pensar nela, quase morre do coração quando a vê... pode esquecer, meu amigo, a paixão te fisgou.
E essa foi a minha vez de rir.
- Não viaja, Tom. – eu disse, virando mais uma dose e me sentindo um pouco incomodado. É claro que o Tom estava viajando, certo?
- Não viaja você, Dougie. Tá tudo estampado na sua cara, só você não percebe. Você está caidérrimo pela . – Tom disse, rindo feito o completo idiota que ele é. Claro que pra ele é muito fácil falar.
- Isso é ridículo. – eu disse, num tom que não convenceu nem a mim mesmo. Tom revirou os olhos.
- Mas é claro que é ridículo. O amor é ridículo. - AMOR? – Você se sente completamente estúpido, qualquer coisinha que ela faz te deixa bizarramente feliz... – ele falava diretamente com a sua dose de tequila, com uma cara de cachorro abandonado. Eu mereço – E, não interessa o que os outros digam, o seu coração não para de quase pular pela boca toda vez que você a vê, fala ou lembra dela. Relaxa, cara, acontece com todo mundo.
- Comigo não. – eu disse, tentando me agarrar a essa ideia – Eu nunca senti mais do que tesão por uma garota, eu não posso estar... apaixonado.
Olhei pro meu reflexo no copo de tequila e senti meu corpo inteiro se arrepiar. Não tinha como aquilo acontecer comigo. Não com Dougie Poynter.
- Bom, eu já fiz a minha parte, agora só falta você ver o que tá bem na sua frente. – Tom disse, se levantando de seu banco – Eu vou no banheiro.
- Ok. – eu disse, virando mais uma dose, e ele me puxou pelo ombro.
- Só preste atenção no que vai fazer com relação à , ok? Assim como Danny e Harry, você pode se arrepender depois. – ele disse, saindo de lá e me deixando mais confuso ainda, se é que isso era possível. Virei mais duas doses, sentindo minha visão se embaralhar de vez, e tudo o que eu podia enxergar era o sorriso de , que fazia meu coração disparar - o que se tornara estranhamente comum nos últimos tempos. Respirei fundo e desisti. Acho que estava mesmo...
- Boa noite, Dougie.
Me virei e pude ver, mesmo através da distroção do álcool na minha visão, o rosto de Olivia me encarando, com seu sorriso sexy virado para mim.

****

- Ah não, o Ross e a Rachel são o casal perfeito, eles não podem terminar! – quase gritou ao meu lado, e eu só ri.
- Respira, amiga, você sabe que eles terminam a série juntos. – eu disse, raspando a tigela de brigadeiro que eu havia feito pra acompanhar nossa pipoca durante a maratona de Friends que havíamos escolhido pra passar a noite.
- Eu sei, mas mesmo assim... o amor deles é tão lindo. – ela disse, piscando os olhinhos, toda encantada.
- Nossa, mas desde que você começou a namorar o Tom o seu nível de romantismo triplicou, hein ? – eu disse, e ela assentiu, sonhadora. sempre fora a romântica do grupo, e agora estava pior.
- Ele é o melhor namorado do mundo. – ela disse, suspirando e me olhando sapeca – Mas você também não fica muito atrás, amiga.
- Ok, eu assumo que aquele garoto me deixa boba. – eu disse, levantando as minhas mãos, me rendendo. riu e roubou a tigela de brigadeiro de mim.
- Dá pra perceber. Mas ele também parece ter mudado bastante desde que começou a ficar contigo. Tá todo bobo, todo carinhoso com você. – ela comentou, me dando uma piscadinha. Eu tentei me conter, mas não consegui.
- Ele é tão tudo de bom, ! – eu disse, enfiando minha cara numa almofada, sentindo minha bochecha ficar vermelha.
- AAAAH, QUE LINDO AMIGA! – gritou, praticamente pulando em cima de mim. Tirei minha cara do travesseiro e percebi que estava com um sorriso enorme no rosto.
- Eu me sinto tão bem perto dele, é como se ele me completasse, sei lá. – eu disse, e apertou minhas bochechas, levando um tapa nas mãos. Odeio quando alguém aperta minhas bochechas – E o melhor é que eu acho que ele também está gostando de mim.
revirou os olhos.
- Mas é CLARO, ! – ela disse, e eu franzi o cenho – Tá estampado na cara de vocês dois que vocês se amam, só vocês são idiotas o bastante pra não perceberem isso.
Eu abracei a almofada e sorri. Será que era mesmo verdade? Ouvi meu celular, que estava na mesinha de centro, tocar, e quase teve um ataque epilético.
- Quer apostar quanto que é uma mensagem do Dougie falando que tá com saudades? – ela disse, e eu dei um pulinho, pegando meu celular, morrendo de vontade de que a estivesse certa – Abre logo esse celular, menina!
Eu ri e assenti, abrindo o celular e dando de cara com uma mensagem - mas não era de Dougie, era de um número desconhecido. Abri-a e senti meu coração se despedaçar por dentro. Era uma foto de Dougie. Beijando Olivia.

Capítulo 31 – “It’s too late to apologize, it’s too late.”

Luz desgraçada. Luz desgraçada. Vai se ferrar, luz desgraçada.
Demorei incontáveis minutos pra conseguir abrir os olhos, já que estava com a pior dor de cabeça que já tinha tido na minha vida. Quando os abri, só consegui ver as paredes muito embaçadas e embaralhadas de um quarto. Um quarto que, com certeza, não era meu.
- Sério que você mandou uma foto pra ela? Amiga, você é uma gênia. – ouvi uma voz estridente vir de algum lugar perto de onde eu estava, mas mal conseguia distinguir uma palavra. E eu achava que sabia o que era ressaca antes... – Agora com certeza ela não vai querer olhar mais pra cara dele, meu plano saiu melhor do que o planejado.
Massageei minhas têmporas por longos minutos, enquanto a tal voz estridente causava pontadas na minha cabeça.
- Eu não aguento mais o Dougie desse jeito, todo idiota e apaixonadinho. Só ontem, desde a boate até cairmos no sono aqui em casa, ele me chamou de umas trinta mil vezes. Além de que tive que descobrir qual é o perfume que aquela nojentinha usa pra poder atraí-lo. Fiquei super irritada. – a voz falou, e eu finalmente consegui reconhecê-la. Era a Olivia.
Sentei na cama repentinamente, assustado. Por que é que a Olivia estava ali comigo? Senti a maior das pontadas atravessar minha cabeça. Puta que pariu, que dor desgraçada! Fechei meus olhos e apertei minha cabeça, até ela parar de latejar. Quando abri os olhos de novo, reconheci aquele quarto. Era mesmo o quarto da Olivia. Meu Deus do céu, o que é que eu fiz ontem à noite?
- Meu amor! Finalmente você acordou. – vi Olivia sair do banheiro só de lingerie e vir em minha direção – Achei que você ia ficar aí o resto do dia.
Ela se sentou ao meu lado e me abraçou. Eu estava estático, só conseguia olhar pro nada.
- O que... o que é que eu tô fazendo aqui? – eu perguntei, completamente confuso. Eu não me lembrava de nada. Nada mesmo.
- Oras, não é óbvio? Você não conseguiu ficar longe de mim por muito tempo, Dougiezinho, assim como eu já tinha te avisado. – ela disse, beijando e mordendo minha orelha. Arregalei os olhos, pulando da cama e procurando minhas roupas. Não acredito que fiz isso. Não é possível! – Dougie, aonde você vai?
- Pra longe de você. – eu disse, enfiando minha camiseta de qualquer jeito e pulando pra dentro das minhas calças. Olivia se levantou e me puxou pelo braço.
- Como assim, lindinho? Você acha mesmo que eu vou te deixar ir depois da noite incrível que nós tivemos ontem? – ela disse, me olhando com luxúria. Estranhamente, tudo que aquele olhar me causava era náuseas. E, adicionadas à minha ressaca, eu decidi sair dali antes que vomitasse em cima dela.
- Olivia, me deixa! – eu disse, pegando meus tênis e abrindo a porta do quarto dela com força, correndo pelo corredor e descendo as escadas, a ouvindo gritar meu nome.
- Dougie, será que você não percebe que nós somos perfeitos um pro outro? – ela perguntou, conseguindo me alcançar e não me deixando passar – O que aconteceu ontem à noite só prova que nós temos que ficar juntos!
- Olivia, presta atenção no que eu vou dizer. – eu disse, calçando meus tênis e indo até a porta – Eu não sei o que aconteceu ontem à noite, mas saiba que eu me arrependo amargamente por ter chegado a dormir com você mais uma vez. Mas tenha certeza que essa foi a última.
Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, eu saí correndo e bati a porta na cara dela. Andei por uns dois quarteirões até que avistei um táxi. Assim que ele parou em frente à minha casa, eu procurei em todos os meus bolsos por algum dinheiro, e acabei achando uma nota de dez libras quase destruída. Entreguei para o taxista, que me olhava feio. Eu devia estar mesmo muito acabado. Minha casa estava completamente silenciosa, e eu respirei fundo, aliviado. Estava com muito medo de encontrar . Como eu ia explicar o meu estado? E pior, e se ela descobrisse que eu havia transado com a Olivia? Senti mais uma pontada na minha cabeça, e comecei a subir as escadas. Mais uma pontada apareceu quando eu ouvi uma voz atrás de mim.
- Bom dia, Dougie.
Me virei lentamente e lá estava . Linda, como sempre. Ela carregava um copo de suco de laranja em uma mão e uma aspirina na outra.
- Bom dia, . – eu disse, sem saber como agir. Havia uma luz vermelha na minha cabeça que berrava “você a traiu, você a traiu”. Não que nós estivéssemos na relação mais séria do mundo, mas mesmo assim, eu me sentia incrivelmente culpado. Isso porque ela nem sabia de nada.
- Parece que a noite foi boa, hein. Você deve estar com uma ressaca absurda. – ela disse, me entregando o suco e a aspirina. Sorri e a observei. Havia alguma coisa diferente nela. Ela tinha pequenas olheiras embaixo dos olhos e sorria de uma forma... estranha. Muito estranha.
- É, a gente bebeu bastante. – eu disse, dando uma risadinha, só pra tentar aliviar a incrível tensão que havia se instalado entre nós. Ela manteve seu sorriso estranho enquanto eu tomava a aspirina.
- É, dá pra ver. – ela disse – E a Olivia, como está?
Engasguei e entendi aquele sorriso. Ela sabia.

//Flashback on

- Olivia, você por aqui. – eu disse, dando uma risadinha tosca. Quando eu tô bêbado eu não consigo controlar meus atos. Por isso sempre pareço um idiota.
- É o destino. – ela disse, me dando uma piscadinha. Damn, you’re a sexy bitch! Ok, sem cantar Akon internamente, Dougie – Duas doses de tequila, por favor.
O bartender encheu nossos copos e nós dois bebemos. Ela fez careta, já eu estava acostumado depois das zilhões de doses que havia tomado nas últimas horas.
- Cadê a sua namoradinha irritante? – ela perguntou, revirando os olhos. Eu estava tão alto que nem consegui argumentar.
- Em casa. Hoje à noite é nossa “boysnight”! – eu disse, levantando uma garrafa de cerveja que estava por ali, celebrando, e a virando quase toda na boca. O dono dela me olhou feio, e acho que ele falou alguma coisa. Como é que eu ia saber?
- Ah é? E cadê os outros meninos? – ela perguntou, olhando em volta. Eu fiz o mesmo e quase caí da cadeira, então desisti de procurá-los.
- O Harry e o Danny tão se esfregando com umas garotas por aí, e o Tom foi ao banheiro, mas deve ter se afogado na privada, porque tá demorando muito. – eu disse, acabando aquela garrafinha de cerveja e pedindo mais uma. Já nem distinguia mais os gostos, qualquer coisa que tivesse álcool tava bom.
- Ótimo, podemos ficar mais à vontade então. – ela disse, chegando mais perto de mim, colocando suas mãos em volta do meu pescoço e tomando a cerveja da minha mão. Eu olhei pra pista de dança, tentando ignorar o fato da Olivia estar se jogando pra cima de mim. Não que aquilo não fosse bom, mas... era errado. Eu me sentia muito estranho tendo, sei lá, outra garota assim, tão próxima de mim. Tentei afastar esses pensamentos da minha cabeça, já aquilo estava soando muito apaixon...
- E aí, Dougie, vamos pra um lugar mais calmo? – ela disse, e, apesar de todo o álcool que passeava pelas minhas veias no momento, eu ia dizer não. Mas, quando eu respirei fundo pra falar, eu senti algo que fez minha visão dar voltas e mais voltas: era o perfume de .
- Dougie! Acorda! – ela disse, e eu voltei a enxergar. Mas não era mais Olivia que estava ali, era . Ela sorriu pra mim, toda linda, e eu não pude deixar de sorrir – Vamos pra um lugar mais calmo, lindinho?
Passei a mão pelo rosto dela, e ela sorriu mais ainda. Não aguentei por nem mais um segundo e a beijei.

//Flashback off


****
- Do que é que você está falando? – ele perguntou, depois de engasgar, tentando se fazer de inocente. Pode esquecer, Dougie Poynter, você não me engana mais.
- Não se faça de idiota, Poynter, eu sei muito bem que você passou a noite com a Olivia. – eu disse, fazendo uma força incrível pra não demonstrar qualquer tipo de sentimento, o que parecia quase impossível. Ele gaguejou umas trinta vezes antes de conseguir olhar nos meus olhos.
- Eu sei que você deve estar morrendo de raiva de mim e... – ele começou, mas eu não o deixei falar mais nada. Eu havia passado a noite inteira chorando por ele, sofrendo por ele. Mas agora isso ia acabar. Eu tinha que ficar por cima.
- Não, eu não estou com raiva de você. – eu disse, sentindo meu coração quase sair pela boca. Minha vontade era de gritar, dar um tapa na cara de Dougie e deixar claro como ele havia me feito sofrer. Mas não há melhor vingança do que a indiferença.
- Não? – ele perguntou, arregalando os olhos. Eu dei um sorrisinho.
- Não. Eu estou com raiva de mim mesma por ter acreditado por um mísero segundo que você poderia deixar de ser um completo canalha. – eu disse, num tom quase assassino, e ele respirou fundo, olhando pra mim com uma carinha de cachorro molhado maldito. Por um segundo pensei ver um traço de arrependimento nos olhos dele, mas logo tirei isso da cabeça. Dougie Poynter não tinha capacidade de nenhum sentimento bom, muito menos arrependimento. Ele era o maior cafajeste da face da Terra. E eu me odiava por gostar tanto dele.
- , por favor, me escuta. – ele disse, chegando mais perto de mim, mas eu dei um passo pra trás.
- Não ouse chegar perto de mim, e muito menos se desculpar. Eu não vou acreditar mesmo. – eu disse, e ele deu um soco no corrimão da escada, todo nervosinho – Tá irritadinho por quê? Você deveria estar feliz, agora o caminho está livre pra você ser feliz pra sempre com a sua namoradinha Olivia.
- , eu não gosto dela. – ele disse, com os olhos marejados. Senti um aperto no meu coração e uma vontade imensa de abraçá-lo e esquecer de tudo. Mordi meu próprio lábio tentando ignorar esses sentimentos idiotas que teimavam em aparecer. Até porque, quais eram as chances daquelas lágrimas serem verdadeiras? Eu tinha que odiar aquele garoto de qualquer jeito. Eu era orgulhosa demais pra deixar passar. Além do que ele não merecia, de jeito nenhum.
- Ah é? Não é o que parece, já que você não demorou nem um mês pra voltar pra cama com ela. – eu disse, reestabelecendo minha postura indiferente – Espero que vocês sejam felizes juntos.
Eu peguei a bolsa que havia deixado na mesinha do hall e abri a porta, mas, antes que pudesse sair, senti a mão de Dougie me puxar pelo braço. E, por mais que eu me esforçasse, não pude evitar de me arrepiar com o contato.
- Por favor, , me perdoa. – ele disse, com aqueles olhos azuis lindos brilhando pelas lágrimas que quase caíam. Senti meu estômago se revirar e respirei fundo.
- Nunca, mas nunca mais me toque, Poynter. – eu disse, e ele soltou meu braço, olhando para o chão. Antes que eu pudesse obedecer meu coração e abraçá-lo, eu saí correndo para a garagem, entrei no carro da minha mãe e não olhei para trás.

//Flashback on

Eu já estava chorando há uma meia hora sem parar. Meus olhos estavam inchados, meu rosto muito vermelho e minha barriga doendo de tanto soluçar. Mas o pior era o meu coração, que estava destroçado.
- , toma pelo menos um gole desse chocolate quente, vai. – disse, me estendendo uma caneca que ela havia acabado de preparar.
- Eu não tô com apetite pra nada, . – eu disse, entre soluços. Ela colocou a caneca de lado e voltou a me abraçar.
- Tudo bem, . Se o que você quer fazer é chorar, chora. É bom pra aliviar. – ela disse, e eu voltei a chorar ainda mais, se é que isso era possível.
- Por que ele fez isso comigo, ? – eu perguntei, e ela deu de ombros.
- Eu realmente não sei, amiga. Mas pode ter certeza que, se ele está te fazendo chorar, é porque ele não te merece. – ela disse, alisando meu cabelo.
- Eu sou tão idiota por ter acreditado que ele podia ter mudado! – eu disse, dando tapas na minha cabeça. Naquele momento eu só queria tentar criar uma dor que ultrapassasse a que eu sentia por dentro. Mas logo percebi que isso era impossível, nada era pior do que eu estava sentindo.
- Para com isso, ! – ela disse, segurando minhas mãos e se agachando na minha frente – Você não é idiota, ele é o idiota. Muito idiota por ter te usado dessa forma.
- Você só tá falando isso pra tentar me animar. – eu disse, assoando meu nariz, que já estava todo ralado de tanto assoar, e jogando mais um lenço de papel no lixo do meu quarto, que já estava cheio.
- Claro que não, . Você não fez nada de errado. Amar não é errado. – ela disse, secando minhas lágrimas – Você entregou seu coração pra um cara que não o merece. Isso acontece todos os dias.
Eu assenti, respirando fundo, parando de chorar por um instante. Mas logo meus olhos se encheram de lágrimas de novo.
- Mas por que é que tinha que acontecer comigo? – eu perguntei, abraçando meu travesseiro – Eu achei que era impossível sofrer mais do que eu sofri pelo Lucas, mas dessa vez é muito pior.
- Homens são uns idiotas, todas nós sabemos disso. Mas mesmo assim nós os amamos. É o ciclo da vida, lindinha. – ela disse, voltando a se sentar ao meu lado e segurando minha mão – Você vai superar. Assim como você superou tudo que o Lucas te fez, você vai superar e tudo isso vai virar só mais um passado desagradável.
Eu respirei fundo pela milésima vez, conseguindo parar de chorar. Sequei meu rosto e me levantei rapidamente.
- Você tá certa. Eu não vou deixar um garoto estúpido bagunçar assim a minha vida. Tá na hora de parar de frescura e mostrar pra ele o que é bom pra tosse. – eu disse, indo até meu banheiro e lavando meu rosto, segurando o choro que insistia em querer sair. Mas dessa vez eu não ia deixar.
- O que você vai fazer? – perguntou, correndo atrás de mim pra dentro do banheiro. Eu sequei meu rosto e me olhei no espelho. Eu estava deplorável.
- Eu não vou deixar ele saber o quanto ele me fez sofrer. Não vou brigar com ele, não vou fazer nada. Vou ser simplesmente indiferente a ele. – eu disse, decidida. Eu havia fugido do Brasil, abandonado minha terra natal por causa de um garoto uma vez, e não ia cometer o mesmo erro mais uma vez.
- Vai precisar de um sangue muito frio pra isso. – disse, arrumando meu cabelo, que estava todo bagunçado.
- Eu sei que vai ser difícil. Mas eu vou fazer aquele garoto perceber quem é que manda aqui.

//Flashback off


Dirigi por uns três quarteirões, até que estacionei e repousei minha cabeça sobre o volante. Respirei fundo e fechei os olhos, tentando não me lembrar do olhos marejados de Dougie. Eu tinha prometido pra mim mesma que não choraria mais por ele, e iria cumprir minha promessa. Por mais difícil que fosse.

Capítulo 32 - “You really should have kept it in your pants.”

Corri do banheiro em direção à porta do meu quarto.
- . – Dougie falou assim que eu abri a porta. Revirei os olhos e tentei fechá-la, mas ele a segurou – , por favor, dá pra parar de criancice?
Voltei a abrir a porta e o encarei, irritada.
- Dougie, dá pra parar de encher a cara e sair por aí transando com vadias? – eu perguntei, dando uma piscadinha pra ele, que suspirou e revirou os olhos. Tinha sido assim o fim de semana inteiro. Nós nos evitávamos ao máximo, e quando nos encontrávamos pela casa só nos falávamos pra xingar um ao outro. Dougie até tentou pedir desculpas algumas vezes, mas após eu tê-lo cortado em todas, ele simplesmente desistiu.
- Eu só vim aqui pra avisar que meu pai e sua mãe chegaram e estão lá embaixo tomando café, não precisa sair dando coices por aí. – ele disse, se encostando na parede.
- Ah, meu querido, você é o único cavalo aqui. – eu disse, sorrindo e fechando a porta na cara dele. Voltei pro banheiro e terminei de passar meu gloss, calcei minhas sapatilhas, peguei minha bolsa e corri pra fora do banheiro. Estava morrendo de saudades da minha mãe, e estava precisando de um pouco do colo dela. Não que ela soubesse qualquer coisa sobre mim e Dougie, mas seria bom ter um pouco de conforto depois de um fim de semana tão difícil como o meu.
- Mamãe! – eu gritei assim que a vi sentada com Matthew e Dougie na mesa da sala de jantar. Corri até ela e a abracei com força.
- Que saudades, minha filha. – ela disse, passando a mão pelos meu cabelos, sorrindo pra mim. Eu não resisti e a abracei de novo.
- Eu também estava morrendo de saudades, mamãe. – eu disse, e ela me deu um super beijo e voltou a se sentar. Fui até Matthew e também lhe dei um beijo, e voltei pra me sentar ao lado da minha mãe.
- Dougie estava nos contando que você se adaptou muito bem aqui em casa, . – Matthew falou, super simpático. Ainda não entendo como um homem tão legal quanto ele pôde ter um filho tão insuportável feito o Dougie.
- Ah sim, com certeza, Matt. Não tem como não amar essa casa. – eu disse, sorrindo forçado, já que não era muito legal ter que me sentar de frente pra aquele canalha, ainda mais com ele me encarando daquele jeito. É, tava difícil aguentar.
- Eu fico tão feliz que você está gostando, . – minha mãe disse, me abraçando forte e quase derrubando o copo de leite com café que eu tinha na mão – E melhor ainda é que você e o Dougie se entenderam, e agora nós podemos ser uma família feliz.
Eu sorri pra minha mãe e Matt, assim como Dougie. Eles pareciam tão felizes, tão animados com a nova vida que eu não tinha coragem de demonstrar os meus atuais verdadeiros sentimentos pelo Poynter na frente deles. Afinal, não é culpa da minha mãe ter se apaixonado por Matt, e nem de Matt ter tido um filho completamente ridículo. Então nós só sorrimos e concordamos.
- Mas e aí, pai, nos conte sobre o Egito. – Dougie disse, tentando acabar com aquele clima familiar que havia se instaurado entre nós. Minha mãe e Matt começaram a falar maravilhas sobre o Egito, mas só o que eu conseguia fazer era olhar pro meu café e, infelizmente, pensar no meu novo irmãozinho.

****

Depois do café da manhã mais desconfortável de todos os tempos – pelo menos pra mim e -, eu me levantei da mesa do café.
- É melhor a gente ir, , senão a gente vai se atrasar. – eu disse, pegando minha mochila do chão e tirando a chave do meu carro do bolso. Ela me olhou com um pouco de irritação, mas logo se levantou. Eu tentava ao máximo não me afetar com o jeito que me tratava, mas era muito difícil. Afinal, apesar de eu saber que tinha feito merda, me doía vê-la tão... tão... sei lá, desapontada comigo.
- Boa aula, queridos. – Meg disse, e nós dois seguimos para a garagem em silêncio. Liguei o carro e o rádio, pra tentar cortar aquele clima tenso, mas não adiantou muito. olhava pra fora da janela sem nem se mexer, deixando claro que não queria nem o mínimo contato comigo. Mas eu não aguentei.
- Será que dá pra parar de me ignorar, ? – eu pedi, desligando o rádio e me virando pra ela. Ela me olhou com o cenho franzido.
- Eu não estou te ignorando. – ela disse, simplesmente, e voltou a encarar a janela. Senti meu sangue ferver. Não aguentava mais aquela indiferença.
- Ah não, imagina. – eu disse, sarcasticamente, encarando o semáforo, que estava fechado.
- Sua existência não é relevante o bastante pra eu chegar ao ponto de te ignorar. – ela disse, ainda olhando pra fora, e eu revirei os olhos.
- Estranho, já que há uma semana você se arrepiava só com um toque meu. – eu disse, lhe dirigindo um sorriso irônico, e ela me olhou de um jeito que fez meu coração apertar. Pela primeira vez desde aquela maldita noite, o olhar dela parecia conter algum sentimento – já que ela fazia força pra ser o mais seca possível comigo. Uma nuvem parecia flutuar em seus olhos, era como se ela guardasse uma mágoa muito grande pra si mesma. O que só confirmava o que eu já sabia.
- Há uma semana, muitas coisas eram diferentes. – ela disse, ficando sem jeito ao perceber que eu a analisava e olhando pra fora de novo.
- Eu já pedi desculpas, , não sei mais o que fazer pra você me perdoar. – eu disse, sincero, estacionando meu carro no estacionamento do colégio. Ela me olhou profundamente, e eu senti meu coração bater mais forte.
- Não perca seu tempo tentando, Poynter. Não vai adiantar nada mesmo. – ela disse, abrindo a porta e sumindo do carro. Eu fiquei lá dentro, olhando pro nada e abraçado ao volante por longos minutos, só pensando em quão burro eu fora por ter transado com a Olivia naquela noite. E eu continuo sem entender porque é que eu fiz aquilo, afinal, apesar de Olivia ser muito gostosa, só pensar na acabava com toda a vontade que eu poderia ter de transar com outra garota. Definitivamente, álcool misturado ao perfume da , mesmo que em outra garota, era a combinação mais venenosa já existente.
- ACORDA, POYNTER!
Levei um puta susto e vi que Danny, Harry e Tom estavam parados na janela do meu carro. Peguei minha mochila e saí de lá.
- Obrigado por quase me fazer infartar. – eu disse, ainda com a respiração alterada. Sabe como é, eu estava muito concentrado pensando nela.
- Foi mal, cara, mas a gente te chamou umas trinta vezes e você não atendeu, tivemos que apelar. – disse Tom enquanto nós andávamos em direção à entrada da escola.
- E aí, como foi seu fim de semana? – perguntou cuidadosamente Harry, sabendo que aquele era um assunto perigoso. Respirei fundo e dei de ombros.
- Daquele jeito, né. Ela me ignorou e só falou comigo pra me ofender de alguma forma. – eu disse, e Tom me deu uns tapinhas nas costas.
- Desculpa, Dougie, mas você tem que entender o lado dela. Você transou com a menina que a mais odeia enquanto estava de rolo com ela. É totalmente compreensível essa reação. – ele disse, e eu assenti.
- Eu sei, cara, não tô tentando fugir da culpa. Eu estava errado em transar com a Olivia, nem sei por quê o fiz, na verdade. – eu disse, assim que nós chegamos à nossa primeira aula: Literatura. Nos sentamos no centro da sala, como sempre – Eu só não esperava que ela fosse ter essa reação.
- Você achava que ela ia te agradecer e te receber com beijinhos? – perguntou Danny, e eu lhe dei um tapa na cabeça.
- Claro que não, Jones. – ele reclamou, mas todos voltaram a prestar atenção. Eu hesitei um pouco. Era complicado abrir meu sentimentos assim, mesmo pros meus melhores amigos – Eu estava esperando um escândalo, que ela me xingasse, me batesse, chorasse e me fizesse implorar por desculpas. Mas foi tudo tão...
- Indiferente? – perguntou Harry, e eu assenti – Sei como é, dude. Foi o mesmo com a , e isso é pior do que todos os escândalos juntos.
- Isso mesmo, Judd. – eu respondi, brincando com uma caneta de Tom. Me sentia tão... pequeno.
- É, isso eu não desejaria a ninguém. – disse Harry, e ele e Danny pareceram refletir sobre suas próprias traições também.
- Ah, parem com essa frescura, vocês três. – reclamou Tom, revirando os olhos – De quê adianta ficar aqui reclamando? Vocês têm é que dar um jeito de conquistá-las de novo!
Nós três rimos desanimados.
- E como você sugere que nós façamos isso, Fletcher? – Danny perguntou, e Tom deu de ombros.
- Sei lá, cara. Mas tem que ter um jeito. A vive falando de como a e a continuam bravas com vocês mesmo depois de algum tempo que vocês terminaram, isso só pode significar que elas ainda gostam de vocês, pelo menos um pouco. – disse Tom, e nós refletimos por um minuto.
- Sabe que pode até ser verdade? – comentou Harry, um pouco mais animado. Mas eu continuei abalado.
- Comigo não tem jeito, dudes. Hoje, no caminho pra escola, ela foi bem clara dizendo que eu não preciso perder meu tempo tentando me desculpar. – eu disse, e os três riram da minha cara. Virei palhaço agora, é? – Que foi?
- Fala sério, Poynter! Você é um trouxa mesmo. – Danny disse, e eu franzi o cenho, ainda não entendendo.
- Qualquer pessoa que viu você e juntos sabe que não era simplesmente um “rolo”. – Harry disse.
- Com certeza, dude. Se alguma relação tem chance de voltar, é a de vocês. – disse Tom, e eu estranhei aquilo. Por mais que eu soubesse que me fazia uma pessoa diferente, não tinha ideia de que era tão óbvio assim pra todo mundo. Olhei pra frente da sala e vi que entrava, junto com suas amigas. Elas se sentaram um pouco à nossa direita, e quando nossos olhos se encontraram eu senti como se um choque elétrico passasse por dentro de mim. Ela se virou logo, mas eu continuei a observá-la.
- Tem que haver alguma coisa que eu possa fazer sobre isso. – eu disse, percebendo como aquela distância doía dentro de mim.

****

- Ui, a tensão entre vocês dois está explosiva, hein? – perguntou, assim que nós nos sentamos nos nossos lugares na sala de Literatura. Eu dei de ombros e tirei meus olhos de Dougie, me virando pra frente, onde o professor começava a aula.
- Nem me fale, amiga. Não aguento mais ter que fazer o papel de “a menina que não tá nem aí pra ele”. – eu disse, apoiando minha cabeça nas minhas mãos.
- Então não faça, oras. Vá lá e fale pra ele tudo o que você está sentindo, linda. – disse, passando a mão pelos meus cabelos.
- Eu não posso, . Eu prometi pra mim mesma que ia ser indiferente, e se eu disser pra ele o que eu realmente penso sei que vou me descontrolar e chorar. E ele não pode me ver chorar por ele. – eu disse, tentando prestar atenção no professor.
- Como vocês sabem, eu gosto de trazer literaturas diferentes pra vocês de vez em quando. – ele disse, ligando o data show e mostrando o desenho de uma freira – E hoje vou mostrar uma das cartas da Sóror Mariana Alcoforado.
Eu observei o rosto da freira. Apesar daquilo ser um desenho, ela tinha um olhar triste, decepcionado. Adivinha por quê eu me identifiquei com ela?
- Mariana foi uma freira portuguesa que se apaixonou por um oficial francês durante a guerra de restauração de Portugal. Os dois tiveram um caso e o oficial voltou à França, prometendo a Mariana que voltaria e que os dois se casariam. – o professor contava – Como já era de se esperar, ele nunca voltou, e Mariana escreveu cinco cartas de amor para ele, que mais tarde foram publicadas como grande exemplo do barroco português. Vou mostrar pedaços das cartas pra vocês, e quero que vocês anotem exemplos do confronto religião versus amor, que caracteriza a literatura de Mariana como barroca.
Comecei a ler o pedaço da carta que ele colocara ali e me senti ainda mais identificada com aquela freira abandonada.

"Creio que faço ao meu coração a maior das afrontas ao procurar dar-te conta, por escrito, dos meus sentimentos. Seria tão feliz se os pudesse avaliar pela violência dos teus! Mas não posso confiar em ti, nem posso deixar de te dizer, embora sem a força com que o sinto, que não devias maltratar-me assim, com um esquecimento que me desvaira e chega a ser uma vergonha para ti. É justo que suportes, ao menos, as queixas de desgraças que previ ao ver-te decidido a deixar-me. Reconheço que me enganei, ao pensar que procederias com mais lealdade do que é costume: o excesso do meu amor parece que devia pôr-me acima de quaisquer suspeitas e merecer uma fidelidade que não é vulgar encontrar-se. Mas a tua disposição para me atraiçoar triunfou, afinal, sobre a justiça que devias a tudo quanto fiz por ti.
Como é possível que a lembrança de momentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!"


Respirei fundo, tentando segurar as lágrimas que começaram a nascer em meus olhos. Involuntariamente, me virei para a esquerda, encontrando os olhos de Dougie mais uma vez. Os dele estavam fixos em mim há algum tempo, e eu sentia como se eles estivessem invadindo minha alma e vendo tudo o que eu tentava esconder. Voltei a olhar pra frente e abri meu caderno, pegando uma caneta e copiando um trecho daquela carta.

"Sei bem qual é o remédio para o meu mal, e depressa me livraria dele se deixasse de te amar. Ai, mas que remédio... Não; prefiro sofrer ainda mais do que esquecer-te."


Apertei meus olhos e uma lágrima caiu sobre as palavras daquela freira que, mesmo morta há quase trezentos anos, sabia exatamente como eu me sentia. E como aquilo doía por dentro.


CONTINUA...

N/A: Olá, meus chuchuzinhos! Bão? Ó, dessa vez fiz uma forcinha pra atualizar mais rápido, até que não demorei taaaanto assim :) Agora as coisas ficaram mais puxadas ainda, já que tô fazendo academia e um curso de pré-enem na minha escola que vai das 7 até as 10 da noite, ou seja, tô sem tempo até pra respirar! Mas tô fazendo o que posso :) Enfim, pra dar um incentivozinho pra vocês, minhas lindas e maravilhosas leitoras, decidi fazer uma "promoção" pra vocês! É isso aí...

Promoção PK
Você também ficou puta com a traição do Dougie? Oh well, junte-se ao clube, gata! Mas agora você terá uma oportunidade de participar da fic!
Mande pro meu e-mail (tah.ffadd@gmail.com) ou como reply meu twitter (@talitaacosta) a resposta pras seguintes perguntas:
O que você acha que a deve fazer pra se vingar do Dougie pela traição? E o que você acha que ele deve fazer pra conquistá-la de novo?
A resposta mais criativa vai ganhar o direito de escolher a fantasia da personagem principal e do Dougie em uma festa a fantasia que acontecerá nos próximos capítulos. Mande quantas respostas quiser, seja bem criativa e nos vemos na próxima att!

Ok, eu sei que é bobeira, mas foi uma ideia que eu tive pra, sei lá, incluir vocês um pouco mais na fic. Tô esperando a participação de todos, hein? Bom, é isso. Comentem, deem suas opiniões e, se tiverem um tempinho aí, visitem meu blog (withirishcoffee.wordpress.com), onde eu escrevo coisas aleatórias sobre assuntos aleatórios :D Até a próxima att, amores! Beijo, Táh :*

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