POV
Por Sah
Beta: Táh


Capítulo 1

Risadas, sim, muitas risadas. Era tudo o que se podia ouvir da sala e de todos os outros cômodos da residência dos . Todo aquele escândalo vinha de um dos quartos no final do grande corredor branco.
- Eu não acredito que você fez isso, ! Coitado do garoto! Tudo bem que ele apronta de vez em quando... Mas você está passando dos limites! – , uma garota de 18 anos, cabelos cacheados e escuros dizia em meio a risadas. Era difícil manter-se séria após ouvir aquilo.
- Coitado? Como assim coitado? Eu não acredito que você está defendendo aquele babaca, ! – disse séria, parecia um pouco irritada com a atitude da amiga - E eu não estou passando dos limites! Foi só uma brincadeirinha boba... – A garota disse um pouco mais calma, antes de arremessar uma almofada em , que se esquivou. A almofada passou pela garota e esbarrou em um abajur, que se quebrou em vários pedaços ao cair no chão. levou a mão até a boca ao ver a expressão de pavor no rosto de .
-Olha o que você fez! Quebrou meu abajur de pônei rosa! Eu gostava tanto dele! – disse um pouco chorosa, tentando inutilmente juntar as peças quebradas.
- Eu que fiz?! Foi você que tentou me matar com uma almofada, !
nem pôde responder, já que a porta do quarto se abriu, revelando um furioso do outro lado. levantou-se sem jeito devido ao susto e subitamente ficou séria.
- Isso é jeito de entrar no quarto da sua querida irmãzinha, ? – perguntou em um tom de superioridade, deixando o irmão ainda mais irritado.
- Querida irmãzinha... – disse irônico, passando as mãos apressadamente nos cabelos loiros, deixando-os ainda mais bagunçados – Será que vocês podem parar com todo esse escândalo? Eu e os caras estamos tentando compor algumas músicas, mas com vocês berrando feito hienas loucas fica complicado! – Ele disse o final da frase rindo, havia voltado ao normal.
não era bravo, pelo contrário. costumava dizer que ele era um fofo. Mas, quando o assunto era sua banda, o McFLY, ele tinha uns ataques de raiva que em questão de minutos passavam. A relação dele com a irmã era bem... normal. Se davam bem, estavam sempre se ajudando, dando conselhos e fazendo piadas que só os dois entendiam. Claro que sempre rolavam algumas discussões, mas nada fora do normal. Nunca conseguiam passar mais de um dia sem se falar.
- Desculpa, ... A culpa não foi da . Era eu quem estava rindo. – disse quebrando o silêncio e ficando levemente corada.
- Tudo bem, . Desculpa por ter dito que você é uma hiena louca, não foi bem a minha intenção. – disse sorrindo de um jeito fofo e riu abertamente.
- Tá bom, . Agora cai fora que isso é conversa de meninas ok? Não incluem gays como você! – dizia rindo, enquanto empurrava o irmão para fora do quarto.
- Aiiiii, amiga! Eu queria taanto ficar fofocando com vocês! Adoooro um babado! – disse de um jeito bastante afetado, arrancando ainda mais risadas das garotas –Ah, mais uma coisinha... – Ele disse, agora de forma normal.
- Fala, seu mala! – disse com as mãos na barriga, já estava sentindo dores de tanto rir.
- Obrigada por acabar com esse abajur horroroso da ! – disse e saiu correndo, deixando a irmã com a maior cara de braba.
- É um filho da mãe! – disse, balançando a cabeça negativamente.
- Concordo, de fato, você também é! – disse e voltou a cair na gargalhada.
- ! – gritou do meio do corredor - Esqueci de avisar que a campainha estava tocando, acho que a amiga de vocês chegou. – Deu de ombros e voltou para seu quarto, onde estavam os outros garotos.
nem pensou duas vezes, correu pra fora do quarto, desceu as escadas rapidamente e abriu a porta.
- Amiiiiiga! – disse ofegante abraçando .
- Achei que tinha me abandonado aqui do lado de fora! – disse divertida, saindo do abraço da amiga e entrando na casa.
- ! – Dessa vez foi quem pulou no pescoço da garota de forma desajeitada, fazendo com que as duas quase caíssem no chão.
- Pelo menos fui bem recebida. – dizia enquanto subiam para o quarto de .
Antes de chegarem no quarto, uma porta um pouco aberta chamou a atenção das garotas. Era o quarto de , onde os garotos estavam compondo.
- Dude, o que você acha de ‘I waanna put my haaands on her skiiin’ (eu quero colocar as minhas mãos em sua pele). – cantarolou com uma cara realmente depravada, fazendo os garotos rirem. sentiu todos os pelos do seu corpo se arrepiarem com a expressão nada inocente do garoto. Elas os observavam pelo lado de fora. Estavam um pouco amontoadas, tentando se esconder. Os garotos certamente as expulsariam se vissem que estavam espionando.
- Fica calma, ! Não morre! – disse em um sussurro, tentando controlar o riso, e apenas lançou um olhar mortal para amiga, que logo parou com a brincadeira.
- “Underneath the cloothes that you’re iiiin” (por baixo das roupas que você está usando). – Desta vez foi quem cantou, fazendo uma cara muito parecida com a de e passando os dedos pelos mamilos. Todos riram novamente.
- Fica calma, ! Não morre! – Foi quem sussurrou, rindo, e deu de ombros.
- Eu tenho namorado, sabia? – A garota disse também sussurrando.
- Nem vem, ! Você não me engana... – disse com um sorriso debochado.
- Dá pra vocês ficarem quietas? Eu tô tentando ouvir! – disse irritada, de um jeito nada discreto, fazendo com que as garotas se desequilibrassem com o susto e caíssem no meio do corredor.
- Parabéns, . – disse irônica, batendo palmas para amiga.
Antes que pudesse responder, os garotos já estavam parados em frente a elas rindo e observando a cena. choramingava de dor, havia caído sobre o braço da amiga e o local doía um pouco. levantava-se calmamente, como se nada tivesse acontecido, ao contrário de que se apressou em ficar de pé e arrumou sua roupa que estava um pouco amassada.
- Deu pra ficar escutando conversa atrás da porta, ? – perguntou sério, olhando nos olhos da garota – Ninguém nunca lhe avisou que isso não é nada educado? – Ele continuou no mesmo tom.
- Para a sua informação, garoto, eu não estava escutando nenhuma conversa. Aliás, eu nunca perderia meu tempo ouvindo o que você tem a dizer. Nada que venha de você pode me interessar. – Ela disse com autoridade, sustentando o olhar do garoto. Antes que pudesse se defender, puxou as amigas para seu quarto, batendo a porta e deixando um garoto furioso parado no corredor.

Capítulo 2

Tudo aquilo era realmente muito confuso, e sempre fora assim. conhecia desde que eram pequenas. Seus pais eram muito amigos, então elas cresceram praticamente juntas. considerava um irmão, e ele pensava o mesmo a respeito dela.
Normal, não? Tudo ia muito bem, até que resolveu montar uma banda com , seu melhor amigo. Na verdade, o nome do garoto era , . Alto, cabelos um pouco ondulados e muito bonito. e eram bem parecidos, os dois eram muito engraçados, gostavam de tocar guitarra e cantavam incrivelmente bem. , , e andaram juntos por um ano, mais ou menos. Faziam absolutamente tudo juntos. Dormiam, os quatro, na mesma cama, tomavam sorvete no mesmo pote, ok, de 5 litros, mas ainda era o mesmo pote! Enfim, eram inseparáveis, amigos de verdade. As coisas só começaram a mudar quando convidou para a banda. , alto, cabelos escuros, e era um ótimo . Perfeito para a banda. achava um cara legal, seria bom ter mais um amigo, pena que não pensava assim. Ninguém sabe direito o motivo, mas e tiveram o exato oposto do tal ‘amor a primeira vista’. O que aconteceu pode até ser chamado de ‘ódio a primeira vista’. Os dois não conseguiam se ver sem que ofensas, críticas e deboches fossem ditos de maneira ofensiva. Era um sentimento recíproco de pura implicância.

*Start Flashback*

- Hey! ! – vinha correndo, chamando a garota.
- Hu?
- Ih! Que cara de desgosto! – Ele fez careta. – Vim te chamar pra conhecer o carinha que o encontrou pra banda! Vem. – Antes que ela pudesse pensar, ele já estava a arrastando para o tal lugar, sendo seguida por .
- Tcharam! – mostrou o rapaz como se mostrasse um carro novo ou uma mágica – , . , . , . , . – apontava o dedo de um para o outro e fazia uma cara estranha.
- Hey... bem vindo! – olhou para o garoto e estendeu-lhe a mão.
- Obrigado. E você, sua mal educada, não vai me dar oi? – Olhou para a outra que estava parada o olhando de cima a baixo.
- Não. – A garota apenas respondeu e virou-se de costas, mirando o caminho que faria naquele momento. E pôs-se a andar, mas não percebeu que estava sendo seguida.
- Digo eu então! – Ele parou na sua frente, interrompendo sua passagem. – OI! – Ele disse com um sorriso gigante, de orelha a orelha - Eu sou o .
- Ok. Prazer. Agora sai da frente.
- Saio se você me der um sorriso.
- Você é chato assim sempre ou me enganei? – Ela disse ironicamente, empurrando o garoto para o lado e seguindo seu caminho.

*End Flashback*

No início, todos acharam que aquilo logo passaria, mas estavam errados. e nunca se entenderam, o que acabou por distanciar um pouco o grupo. , e passaram a andar sem as garotas. E continuavam a procura de um para banda. e continuavam a andar juntas, agora acompanhadas por . Conheceram-na na escola, pele branca, cabelos escuros e bem lisos. Um pouco distraída, mas bem divertida. As três agora eram inseparáveis. Depois de uns três meses procurando, os garotos finalmente encontraram o . , cabelos claros, um pouco mais baixo que os outros, e um pouco mais novo também. Na opinião de , ele tinha os olhos mais lindos e mais brilhantes do mundo. Desajeitado e um pouco tímido, era o que faltava no McFLY. Todos se encontravam com alguma frequência na casa de e , os garotos para compor e ensaiar ou ficar sem fazer nada mesmo; e as garotas para fofocar, é claro. Os atritos entre e , vulgo ‘casal ódio mortal’, eram bem frequentes. Os dois sempre davam um ‘showzinho’ que terminava com meninas de um lado e meninos de outro. Complicado, realmente complicado.

Capítulo 3

No quarto de , a própria narrava para tudo que havia contado para momentos antes. As outras duas ouviam com atenção e controlava a risada. Não queria ser chamada de hiena de novo.
- Eu não acredito que você fez isso, ! – disse de um jeito bem maternal – Cortar o cabelo dele enquanto ele dormia, quebrar algumas baquetas, mandar bilhetes anônimos dizendo o quanto ele era lindo e maravilhoso só para ver ele se achando e depois poder dizer que os bilhetes haviam sido entregues para pessoa errada e que na verdade ele era um perdedor, tudo isso podia ser até um pouco engraçado, mas dessa vez você passou dos limites. – concluiu séria. revirou os olhos. “Fala sério, foi engraçado, claro que foi! Ver ele totalmente humilhado na frente daquela loira aguada, ah foi sim! Tudo bem que ver ele realmente triste me partiu o coração... O que é isso ?! Sentindo pena daquele babaca? Não,não!” A garota foi tirada de seus pensamentos por , que agora parecia estar preocupada com a situação, não estava rindo como antes.
- Ai ... Quem sabe se ele começasse a namorar aquela garota do bar, como é mesmo o nome dela? – fez uma cara confusa, como se tentasse lembrar da noite anterior.
- . – Foi quem respondeu, e rolou os olhos ao ouvir aquele nome.
- Então... – continuou – Talvez, se o começasse a namorar a , ele desistiria de ficar implicando com você e tudo ficaria bem. – Concluiu a garota, sonhadora. Queria mesmo que seus amigos se acertassem.
- É , mas depois do que a fez, é capaz dele querer vê-la morta. Nem sei como ele não te atacou lá no corredor. Se fosse eu teria te dado uma voadora na nuca. – disse calmamente, levantando-se da cama e observando a mobilia do quarto.
pareceu confusa com tudo o que ouvira das amigas. Pela primeira vez, ela estava pensando realmente em sua atitude na noite anterior. Por que ficou tão indignada ao ver com outra garota? Por que ficou com tanta raiva ao vê-lo abraçado àquela loira aguada?! E a forma como ele ria pra ela...

*Start Flashback*

Era uma noite linda. Estava um pouco frio e uma brisa leve bagunçava os cabelos das três garotas que estavam indo em direção ao Trix Pub. Era lá que encontrariam os garotos. O lugar era simples, uma decoração estranha em tons de preto, roxo e cinza. Tinha também um palco em uma das extremidades do local, onde sempre aconteciam apresentações de bandas locais e até de algumas mais famosas. Mas o real atrativo do Trix, sem dúvida, eram os coquetéis . Os melhores do mundo, na opinião dos garotos. Talvez fosse por isso que eles insistiram tanto em ir pra lá, e as meninas acabaram concordando.
- Não sei porque fazer tanto escândalo pelos coquetéis se no fim eles sempre acabam bebendo cerveja. – comentou confusa, observando os garotos mais a frente. deu um tapa fraco na cabeça da amiga, que reclamou de dor. sempre fora dramática, era fato.
- Amores da minha vida, amo vocês, mas vou trocá-las pelo meu namorado. – disse de um jeito formal e cômico, se afastando das amigas e indo abraçar Jason. Eles se conheceram na escola e namoravam há mais ou menos três meses. achava que aquilo não ia durar muito tempo, era uma daquelas garotas divertidas que sempre é notada quando chega nos lugares, fala com todo mundo e é bem simpática. Ok, nem sempre ela é simpática, apenas na maioria das vezes. Já Jason é um típico garoto popular, riquinho, não se mistura com qualquer um, apenas com quem ele acha que ‘merece’ sua companhia, e isso não incluía , e muito menos o McFLY. Por isso que não acreditava no futuro do namoro. Achava que sua amiga logo perceberia que Jason é só mais um daqueles otários com rostinhos bonitos e muito dinheiro na conta bancária. Sem contar que e tinham certeza de que tinha uma quedinha pela amiga, e por mais que negasse, elas sabiam que o sentimento era recíproco.
As duas viram a amiga se afastar e foi quem quebrou o silêncio.
- ! - A garota de cabelos cacheados gritou antes de dar um abraço apertado no amigo.
- Finalmente vocês chegaram! Qual foi? Não vai me dizer que tiveram problemas com o secador de cabelos de novo! – falou meio gritando, pelo visto já estava bem alegre, digamos assim.
- Para, dude! Isso foi gay! – disse divertido, e corou.
- Pequena! – disse empolgado, abraçando . ‘Ok, respira dona ! É só um abraço normal do , afinal, ele te vê apenas como amiga, AMIGA! Porque é isso que vocês são, AMIGOS! Mas que mania irritante! Por que diabos ele tem que ficar me chamando de pequena?! Tudo bem que eu sou baixinha e tenho essa cara de pirralha apesar de já ter 18 anos, mas isso não significa...’ foi interrompida pela mesma voz que falara anteriormente.
- , tá tudo bem? – perguntou, visivelmente preocupado. A garota parecia pálida, com um olhar perdido...
- Aham...- Foi tudo que ela conseguiu responder antes de receber um abraço de .
cumprimentava os meninos também, demorando mais em , que dizia estar com saudades dela. Eles eram grandes amigos, e um estava sempre preocupado com o outro. Era bonita a relação deles.
- O que a tem? – perguntou, ainda preocupado.
- Ué, vai saber... É a , . Ninguém nunca vai entender o que ela tem. – disse, dando de ombros. Fingia não saber, mas no fundo tinha certeza que a amiga sentia alguma coisa por . Estranho era ela nunca ter dito nada, afinal, eram melhores amigas! Ela já tinha que ter falado.
se destraiu por alguns segundos, alguma coisa estava errada. Alguma coisa estava faltando. Lançou um olhar significativo para , que não entendeu nada.
- Amiga, tem alguma coisa errada. – sussurrou para que só ouvisse.
- Bebeu? Não tem não. Tá tudo normal! – Respondeu a garota, olhando ao redor. – O mesmo Trix com sua decoração esquisita de sempre, a se pegando com Jason, dançando engraçado, mais preocupado com as moscas do ambiente do que com os amigos, segurando duas cervejas sabe-se lá por que... – Ela dizia enquanto apontava para as cenas que eram sempre comuns. – Espera um pouco! – Ela disse de subto, como se de repente tudo fizesse sentido. – ! – Não houve resposta. – ! – Dessa vez ela berrou para que ele ouvisse.
- Heeeey! – Ele disse empolgado.
- Cadê o ? – perguntou antes de piscar para .
Com um movimento rápido, puxou para longe de e dos outros meninos.
- O que foi, sua doida? Eu descobri do que você estava sentindo falta! – disse com um sorriso orgulhoso no rosto.
- Eu não estou sentindo falta do ! – disse realmente irritada –Eu não posso estar sentindo falta dele... - A última frase ela disse num sussurro, mais pra ela ouvir do que para a amiga.
- Ah... então não sei. – disse, decepcionada –Agora deixa isso pra lá e vamos dançar! – Disse, puxando para a pista de dança que ficava no meio do local.
- Não, não. Vai indo que eu já te encontro. – respondeu se soltando da amiga. Ainda estava confusa, precisava pensar.
- Ok. – disse animada antes de sumir entre as pessoas.
estava atordoada. Por que diabos estava sentindo falta de ? Ah, era óbvio! Não estava sentindo falta dele. Apenas estranhou que ele não estava com os garotos, afinal, eles estavam sempre juntos. Era isso. Sorriu satisfeita com seus pensamentos e foi até o bar. Pediu um coquetel e finalmente entendeu por que todo mundo gostava tanto daquilo, era bom! Bebeu rápido e pediu outro antes de voltar para onde os meninos estavam.
- Irmãziiiiiiinha! – gritou e riu.
- Fala, seu bêbado! – Respondeu a garota, se aproximando do irmão.
- Vocês sumiram antes que eu pudesse responder! – disse, um pouco triste – está lá, olha! – apontou para um canto. não acreditou no que viu, não podia ser. Sua visão ficou um pouco embaralhada e não tinha como ser pelos coquetéis, só havia tomado dois! Ela respirou fundo algumas vezes antes de se afastar do irmão e ir rapidamente em direção ao bar onde estava antes. Pediu mais um coquetel e continuou observando aquela cena, estava com nojo daquilo.
No outro lado do Trix, abraçava carinhosamente uma garota loira de cabelos lisos. Ela era muito bonita, mas na opinião de era uma loira azeda com cara de roupa amassada, terrível. A garota envolvia o pescoço de com seus braços e os dois pareciam conversar sobre algo muito interessante, pois ambos estavam rindo. estava achando tudo aquilo ridículo! ‘Por que ele tá rindo?! Devia estar chorando desesperadamente com aquele filhote de monstro perneta abraçado nele. Que palhaçada.’ Ela pensava enquanto bebia o que parecia ser o quarto coquetel. precisava fazer alguma coisa, não podia deixar se divertir com aquela loira oxigenada, não mesmo. Por mais que parecesse um pensamento realmente egoísta, ela achava que não podia deixar as coisas assim.
- É isso! – exclamou, orgulhosa, antes de terminar o quinto coquetel e partir em direção ao canto escuro do Trix. Estava um pouco tonta e acabou esbarrando em algumas pessoas pelo caminho. – Droga! Agora eu sei por que os meninos optam pela cerveja, essa porcaria de coquetel derruba qualquer um! – Disse irritada para si mesmo. Quando estava perto o suficiente do casalzinho ridículo, ela sorriu maliciosa. Seria perfeito.
- ! Eu não acredito nisso! – o olhava com uma cara assustadoramente triste, estava quase chorando.
- ? – se assustou e sua voz saiu um pouco abafada. O que diabos ela estava fazendo ali? , a garota loira, observava a cena, também assustada.
- Como você pôde ? – Ela sentiu as lágrimas em seus olhos – Eu te amava tanto! A gente passou momentos incríveis juntos! Ontem à noite você disse que me amava! Por que você mentiu pra mim? Se não me queria mais era só dizer... Não precisava ficar se agarrando com uma loira por aí! – praticamente vomitou as palavras, sua voz estava meio embolada devido ao nível de álcool que tinha ingerido, mas a cena foi perfeita, como o planejado.
havia se afastado de e o olhava com um olhar de desprezo de dar medo. , por outro lado, estava mais confuso do que nunca. Só podia ser um pesadelo. ‘ chorando dizendo que me amava? E que diabos de noite passada ela está falando? Certamente lembraria de uma noite com , digo...’ saiu de seus pensamentos ao ouvir a voz de , que até agora estava quieta.
- Eu não acredito que você foi capaz de fazer uma coisa tão baixa com essa garota, ! – parecia decepcionada – Achei que você fosse um cara legal, mas estava errada. Você é exatamente como todos os outros idiotas que eu conheço. Tenho nojo de você, . – Foi com essas palavras que a garota loira deixou um extremamente abalado e confuso. deixou o Trix pisando firme, sem olhar pra trás. passou as mãos pelo rosto e pelo cabelo, como se tentasse acordar de um pesadelo, estava meio atordoado com tudo aquilo. Virou-se para encarar . Queria uma explicação para tudo aquilo, precisava de uma explicação.
Seus olhos encontraram os da garota, que subitamente havia parado de chorar e agora tinha uma expressão calma, como se nada tivesse acontecido. achou que estava bêbado, era a única explicação. viu encará-la como se implorasse por uma resposta. E riu, na verdade gargalhou, antes de dizer:
- Eu deveria mesmo trabalhar na novela das oito, você não acha? Aqui está a sua vingança, . Da próxima vez pense duas vezes antes de jogar minhas roupas recém lavadas no lixo orgânico, seu idiota. – disse tudo calmamente com um ar de deboche, e deixou inconformado, parado, com um olhar perdido... Chegava a dar pena.
Só agora havia percebido que muitas pessoas ao redor estavam paradas, observando a cena. Sentiu o sangue ferver, estava com raiva, muita raiva. Aquilo tinha ido longe demais. Tudo bem que eles estavam sempre implicando um com o outro, mas não podia interferir na felicidade do garoto dessa maneira. Ele nunca tinha feito nada para humilhá-la. Estava se sentindo mal, um pouco tonto. iria odiar ele. Justo agora que ele tinha encontrado uma garota tão legal... não tinha esse direito. Foi com um sentimento de quem queria vingança que deixou o Trix naquela noite. Não falou com ninguém, apenas foi embora.
parecia feliz e aproveitou o restante da noite com , , e . Algumas vezes, aparecia ofegante e desaparecia novamente. Ninguém soube do acontecido, achavam que e tinham ido para um lugar mais reservado, se é que você me entende.

*End Flashback*

Capítulo 4

- Amiga, AMIGA! – sacudia os braços na frente de , que apenas balançou a cabeça como se acordasse de um sonho.
- Credo, não assusta a gente assim! Você ficou aí parada do nada... O que foi? – perguntou, mas antes que a outra respondesse a porta do quarto se abriu com violência, fazendo com que todas dessem um pulo com o susto.
- Tão achando que meu quarto é feira?! Já tá virando rotina entrarem sem bater na... – ia dizendo irritada, mas foi interrompida pelo irmão.
- Eu não acredito que você fez isso, ! – praticamente gritou, estava bravo, e dessa vez parecia que ia demorar para ele voltar ao normal – Você foi longe demais com o ! Eu não acredito que ele só nos contou agora... – caminhava pelo quarto sem desviar o olhar da irmã.
- Foi só uma brincadeirinha, ... – falou em um fio de voz, sentia-se um pouco envergonhada.
- Não, , não foi! Eu não pensei que você fosse capaz de fazer algo assim. – saiu do quarto realmente bravo com a irmã. Tudo que se ouviu foi a porta da casa ser batida com força. desabou na cama. As palavras de haviam atingido a garota, ela parecia triste.
- Onde ele foi? – perguntou para e , que também tinham entrado no quarto, mas estavam em silêncio.
- Provavelmente foi atrás do ... Ele nos contou tudo quando voltamos para o quarto e foi embora, logo depois veio pra cá e o resto vocês sabem. – media as palavras ao mesmo tempo que tentava explicar a situação – Acho que eu vou atrás deles, está nervoso...
- É, vai, quando meu irmão fica nervoso ele é um perigo. – disse com um meio sorriso, interrompendo .
- , você vem comigo? – disse antes de sair do quarto – Eu não quero ir sozinho.
A última fala de fez todos no quarto rirem e ele corou um pouco.
- Vai lá, ! Seja homem! – disse, encorajando o amigo – Vou ficar aqui com a . – estava preocupado com a amiga, sabia que ela iria querer conversar, ele a conhecia muito bem. sorriu, queria muito o apoio do seu melhor amigo, precisava falar com . fez uma cara de choro, como se tivesse sido trocado, e todos riram novamente.
- Vamos, bebezão. – disse, levantando-se da cama onde estava e indo em direção ao garoto –Eu vou com você pra você não se perder, não tem problema, né amiga? – sorriu para como se pedisse autorização para sair. sorriu e piscou discretamente para , que revirou os olhos e empurrou para fora do quarto e depois para fora da casa, deixando no quarto apenas , e uma visivelmente abalada.
- Agora me explica. Por que diabos você fez isso? – deitou a cabeça da amiga em seu colo.
- Não sei. Não pensei em nada na hora. Quando vi a cena, sei lá... foi como se aqueles cinco coquetéis tivessem se tornado uns vinte e eu tivesse perdido meu chão e o céu estivesse caindo e... - e olhavam, com muita curiosidade e estranhamento, para a amiga que relatava o fato com cara de paisagem – Não sei como foi acontecer, só sei que lembrei das minhas roupas no lixo e daí vi a loira beijando ele e não sei mais. - Desabafou, por fim.
Nem nem conseguiram pronunciar uma palavra em resposta à confissão da garota, que agora deixara uma única e solitária lágrima escorrer pelo rosto. Ela sabia que podia confiar nos dois, mas sabia, também, que em algum momento aquela frase chegaria aos ouvidos de . Acima de tudo, porém, pensava em como podia ter magoado o garoto. Tudo bem que eles não eram exatamente ‘amigos’, mas tinha um sentimento no mínimo ‘estranho’ por ele.

*Start Flashback*

- Hey, my big boy! – tirou os olhos do livro, vendo o irmão entrar no quarto – Já vai? – Referiu-se à viagem de férias que ele ia fazer com os meninos da banda.
- Vou, mas tenho uma notícia para você. – pensou antes de dizer, imaginou a reação da irmã – Como suas amigas foram viajaram também, e você tem aquela prova na segunda e você vai ficar sozinha em casa... ham... o vai vir ficar com você aqui. – Disse, por fim, em um supetão e de olhos fechados para não ver sua expressão.
- Como assim? , eu sei me cuidar sozinha! Eu não preciso de babá! E além do mais, eu não vou conseguir estudar pra prova com esse ogro aqui!
- Bom, manina, esse é um problema que você tem que resolver com ele! Porque eu estou de saída. – Ia dizendo, levantando-se da cama e dirigindo-se para a porta – Ah! E nem adianta você tentar expulsar ele daqui! Porque o apartamento dele ta sendo reformado e ele não tem para onde ir, então é por isso que ele não vai viajar com a gente e vai ficar aqui cuidando da minha querida irmãzinha. – Terminou, fechando a porta e saindo rapidamente para que a ela não o alcançasse.
ficou com muita raiva, mas como o irmão tinha dito, não tinha para onde ir, era inevitável. Não ia deixar o garoto do lado de fora da casa, certo? Resolveu não pensar mais e voltou sua atenção para o livro. Algum tempo depois, ouviu a porta abrir.
- Com licença, cara leitora. – entrou debochando da menina e já sentando na cama.
- Que tu qué, ô folgado?
- Ih! Só vim avisar que o jantar está pronto. – Respondeu, arqueando a sobrancelha.
- Não creio que você fez comida pra mim? – fez cara de espanto, largou o livro e levantou-se – Vamos então?
Os dois jantaram enquanto conversavam coisas banais e sem sentido. Falavam coisas sobre as quais não queriam falar. terminou largou seu prato na pia e foi para a sala, onde deitou no fofo carpete verde oliva, rodeada de almofadas. Começou a pensar em toda aquela situação, ela e sozinhos em casa, pela primeira vez, e de bem, ‘pelo menos por enquanto’, pensou.
- Um beijo pelos seus pensamentos. – Viu o garoto dizer, já deitando ao seu lado.
- Eu não quero um beijo seu, . – Ela não queria dizer isso, mas a força do costume falou mais alto.
Ficaram olhando para o teto por alguns minutos sem trocar uma palavra. Apenas ouviam a respiração do outro. Num impulso, rolou e parou em cima de .
– Quer sim que eu sei. - Assustada, ela só conseguia olhar nos belos olhos daquele garoto, e dizia para si ‘ quero, quero sim!’. Quando viu, estava aproximando sua boca a dele ‘ Não! Eu não posso querer’, e desistiu.
- , o que você está fazendo? – sussurrou como se houvesse mais alguém na casa.
- Não sei.

*Pause Flashback*

Lá fora, atravessou a rua e sentou no banco da pracinha onde eles costumavam brincar quando eram crianças.
- , você quer conversar? – apenas sentou ao lado do amigo e viu um sinal negativo com a cabeça – Tudo bem. Mas vou ficar aqui com você, caso você resolva se jogar em baixo de um carro, e para eu não entrar e não jogar minha irmã em baixo de um carro. – Falou meio engraçado.
chegou junto com , mas viram a expressão de e o sinal de que não era pra falar nada, por isso sentaram-se no meio fio da calçada e apenas trocavam olhares.
- Sabe o que eu não entendo? – Começou , depois de alguns dolorosos minutos em silêncio – Não havia motivo para ela fazer isso. Ela sempre me renegou, sempre me humilhou.
- Mas você sempre fez isso com ela também, dude. – precisou interromper o amigo.
- Sim, sempre fiz. Mas nunca atingi os sentimentos dela.
- Você que pensa. – pensou alto.
- Se atingi, ela nunca me disse nada! Pô, a gente se conhece há muito tempo, já tivemos o suficiente pra ela me dizer o que pensa! Mas não chegar a esse ponto! Sabe ela se eu não estava realmente gostando da ?
- Você, em algum momento, já disse pra ela o que você pensa? Ou como você se sente? – perguntou, tentado defender a amiga.
- Já, , e muitas vezes. Vocês nunca souberam, mas nós já tivemos alguns bons momentos durante esses anos. Alguns que eu não preciso comentar, uma vez que o irmão dela está aqui. – soltou no ar e se intrigou – Enfim, alguns momentos que talvez nenhum de vocês reconhecessem a gente. E eles foram simplesmente maravilhosos. Duraram poucos, porque sempre que um de nós tentava uma reconciliação, o outro falava ou fazia alguma coisa pra estragar tudo. – Falava enquanto se perdia em pensamentos.
- ? Alou? Momentos, que momentos? – chamou atenção do garoto.
- Ham... Nada... Nada não. Quer saber, vou pra casa. Não quero mais falar dessa mala que é a sua irmã, . – sorriu falsamente e saiu, deixando seus amigos intrigados.
- Alguém entendeu? Porque eu não!
- Acho que foi por isso que ele foi pra casa, . – respondeu, rindo do amigo.
Depois de um silêncio maléfico se instalar entre os amigos, levantou-se e foi conversar com a irmã. Estava curioso para descobrir que momentos eram aqueles. Entrou no quarto e deparou-se com no colo de .
- Hey, , vamos ali um instante? – o chamou, piscando um olho para ele.
- Qual foi seu motivo? Por que? Qual a necessidade? Você não sabe o que fez com o , ele disse coisas estranhas lá em baixo, muito estranhas e.... – falava mas não estava ouvindo, ela ainda estava tentando entender sua atitude, como podia explicar para alguém? Só conseguia lembrar dos coquetéis, da loira e da expressão de . – e disse que vocês tiveram bons momentos, mas que ele não ia falar porque eu estava ali, do que ele estava falando, hein? , você está me ouvindo?
- Ouvindo eu tô, mas não tô prestando atenção. Mas me faz um favor? Muda de assunto que eu não quero mais falar nesse babaca. – disse com o olhar fixo no irmão, que parecia não entender nada e, como assunto nenhum parecia caber naquele momento, ele deu um beijo no topo da cabeça da irmã e saiu do quarto.
não sabia o que estava sentindo, não sabia explicar o por quê daquele sentimento. Ficava cogitando possibilidades para todas as reações e, de tanto pensar, adormeceu.

Atirado no sofá de seu apartamento com uma garrafa de cerveja na mão, não sabia porque estava tão magoado com a situação, afinal ‘ era só mais uma’, pensou. Lembrou dos momentos que passaram juntos, um, em particular.

*Restart Flashback*

- Então sai de cima! – disse, colocando a mão no peito do garoto.
- Não. Eu não quero, você não quer. – respondeu sussurrando em seu ouvido, enquanto passava a mão delicadamente pelo corpo dela.
Sabiam que aquilo era errado. Na cabeça deles, pelo menos, era. Ou melhor, em um lado da cabeça deles, porque o outro queria aquilo, e muito, eles só não admitiam. Enquanto encostavam o rosto no do outro, as mãos passeavam pelos corpos livremente. Os olhos fechados comprovavam a tese de que ambos queriam. Entre uma carícia e outra, ouvia-se apenas a respiração deles. aproximou seu rosto ainda mais do dela.
- . – Sussurrou em tom de clemência.
- Shiiii. Não fala nada. – Respondeu no mesmo tom e encostou seus lábios nos dela, com sua língua pedindo licença para entrar. Foi um beijo longo, pausado, com necessidade um do outro. Aquele era o primeiro sinal de que algo estava errado entre eles. Seus lábios se separaram e os olhos se abriram para encarar o rosto do outro. Ficaram ali, em uma árdua troca de olhares. Em silêncio absoluto. Qualquer um que entrasse entrar naquela sala teria medo de dizer uma palavra. Ela sentia borboletas em seu estômago, sentiu seu ar ir embora e teimar em voltar. Ele sentiu como se tivesse descoberto ouro no porão de casa.

*End Flashback*
pensava em todos os momentos. Dos mais inúteis aos melhores. Dos mais sem noção aos que eles mais brigaram. Dos mais legais até os piores. Ele não sabia como poderia transformar aquela vida. Querendo ou não, não a imaginava sem . Sem seus amigos. Mas queria que ela fosse tranquila em relação à garota. Não essa montanha russa que tinha se tornado. Uma implicanciazinha de vez em quando, tudo bem, mas sempre? Estava ficando desgastante.

Capítulo 5.

Um mês se passou e ninguém soube direito o que tinha acontecido. e simplesmente não se falavam mais. Tudo bem que isso era comum, muito comum, talvez. E além do mais, não estavam tendo a oportunidade, uma vez que as malditas provas finais dela estavam chegando. Isso significava fim do ensino médio, fim de uma longa tortura. Bem, por isso não tinham mais noitadas na casa de , nem nos bares. Os meninos se reuníam no apartamento de para compor e beber.
- Ah! Eu desisto disso! – jogou o caderno longe – Eu não entendo nada de química!
- Sabe, eu só fico feliz com uma coisa nessa situação toda. – tirou os olhos do seu livro. – Depois das provas vem o baile! – Seus olhos brilhavam tanto quanto diamante ao falar do baile. Ia dar o que falar.
- Ok! Deixe o baile para depois da prova! – interrompeu a felicidade da amiga - Vem cá que eu te ensino química orgânica, .
Elas estavam estudando bastante, e tinham ‘se mudado’ pra casa de pra poderem estudar com mais calma. Afinal, nenhuma delas queria pegar provão e ter que estudar nas férias! Elas queriam era se livrar mesmo daquilo logo! Porque, no fim das contas, depois do baile, ainda ficariam nas expectativas das faculdades!
Apesar de bem concentrada nos estudos, sempre pensava em coisas que não queria, digo, em alguém que não queria.
- Hey! – falou, chegando ao colégio no dia da última prova – Larguem esses cadernos! Se vocês não aprenderam ainda, não vai ser agora que vão assimilar alguma coisa! – falou rindo ao avistar as duas amigas sentadas no chão do pátio, de baixo de uma árvore, estudando.
- , você deveria estar estudando também! – repreendeu a amiga.
- É, deveria. Mas não vou. – Sorriu descaradamente e sentou-se, escorando a cabeça na árvore - Tá acabando, né? – Depois de alguns minutos em silêncio, ela falou com a voz triste.
- Sim! Graças a Deus! – largou o caderno no colo e voltou seu olhar para a amiga – Mas por que essa melancolia?
- Ah! Agora a gente não tem mais um ‘motivo’ para se ver todos os dias. – Respondeu, triste.
- E por acaso a gente precisa de motivo pra se ver? – se meteu na história.
- Não... é que... mesmo que a gente não queira... a gente tem que vir pro colégio. E depois?
- Ooooin! – e abraçaram a amiga.
- Bem, façamos o seguinte, então. – começou ela – Hoje, depois desta prova, passando ou não de ano, nós três vamos até a loja do Carter e faremos uma tatoo que represente a nossa amizade! – propôs a garota com a cara mais feliz do mundo – Que tal? – Apressou as amigas para responderem.
- Eu topo! – se pronunciou.
- Eu é que não vou ficar fora, certo? – olhou para as amigas e sorriu. Pronto, a tristeza passou. Ouviram o sinal tocar e se entreolharam assustadas.
- É agora! – disse, e elas levantaram e foram em direção a sala.
- A-C-A-B-O-U! – saiu gritando do colégio e jogando suas folhas pro ar.
- Sua louca! Você nem sabe se passou ainda!
- XÔXÔXÔXÔ com essa frase pra lá! Eu passei sim, tá dona !
- Preciso de um banho de piscina! Preciso ver gente! Preciso sair! Preciso do BAAAAAAAILEEEE! – cantarolou a última palavra – Mas antes, vamos juntar as folhas que a tansa jogou no chão antes que o coordenador resolva nos deixar na detenção por “sujar as dependências da escola”. – concluiu debochando.

Depois de limparem a “sujeira” de Ana, elas voltaram a sentar no pátio aguardando o portão abrir pra elas, finalmente, irem embora da escola. Iriam fazer a tal tatuagem. Estavam muito felizes, falavam alto, riam, gesticulavam, nada impediria aquela felicidade. No dia seguinte era o tão esperado evento, e elas esperavam mais por ele do que pelo príncipe encantado de suas vidas. Ok, nem tanto assim.
- Hey, ham, meninas... – passava a mão pelos cabelos, visivelmente nervoso.
- ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiinho. – pulou nos braços do amigo, já imaginando seu nervosismo.
deu um beijo e sussurrou em seu ouvido.
– Eu quero convidar a pro baile, será que ela aceita? – A amiga deu um sorrisinho e não respondeu nada.
- , eu quero te mostrar meu vestido, preciso de uma opinião sobre a sandália. – disse, piscando para e já puxando a outra, que não estava entendendo nada. fez cara de ofendida mas, logo viu o rapaz sentar ao seu lado e imaginou a armação.
- Ham...er... eu estava pensando, sabe...
- Você pensa, ? - o interrompeu em uma vã tentativa de espantar o nervosismo.
- Penso sim, ta! E pra provar, eu pensei uma coisa muito genial. – Abriu um sorrisão. – Eu não... er.... não tenho par para o baile amanhã... e... hum... não vi você falar nada sobre nenhum outro garoto, e ....
- , direto ao ponto, por favor. – Era estraga prazeres demais para o romantismo do cara.
- Você quer ir ao baile comigo amanhã? – Ele respondeu disparado e de olhos fechados. Ao não obter resposta, fez beiço, e ao abrir os olhos recebeu um beijinho na bochecha e viu a garota levantar e ir embora – Vou considerar isso um sim! – Gritou, vendo-a se afastar. Ficou mais um tempo sentado ali, sem acreditar, até que seu celular vibrou no bolso.

‘Às oito amanhã,
Não se atrase!
xx


- Vocês são duas vacas, mesmo! – já foi jogando as palavras para as amigas que a esperavam do lado de fora da escola.
- Aham, briga comigo! Mas bem que você queria ficar mais tempo lá, sozinha com ele. – debochou enquanto começou a andar em direção à loja.
- Ah. Cala a boca.
- Eu calo. Mas pelo menos tu aceitou ir com ele no baile, né? – Olhou de canto de olho para a amiga.
- Sim, . Eu aceitei. Agora vamos pensar qual será nossa tatuagem...
Elas demoraram horas em frente a Carter escolhendo desenhos e mais desenhos. Ele era amigo de ; mas era bem mais velho e por isso não andava com elas. Tinha muitas tatuagens nos braços e piercings por todos os lados. Não que fosse bonito, porque aquilo realmente não era; mas ele era muito legal. Tinha muita paciência e a estava provando naquele momento.
Por fim, escolheram algo simples e que representasse muito bem aquela amizade.
- Nós queremos essa estrela aqui. – disse sonhadora para o rapaz que estava sentando na frente delas.
- Aonde?
- No pulso? – Ela olhou para as amigas, que concordaram.
- Ok. Porque vocês não colocam um “F” com letra bonita dentro dela? – Perguntou, já separando os materiais.
- Acho legal. – disse.
- Então vem você primeiro! – Carter riu e ela sentou na cadeira com o braço esticado – Vai doer! – Avisou.
Vez ou outra ela fazia umas caretas, mas não fez escândalo. Deixou esse papel para , que chorou e gritou. Muito.

Capitulo 6.

- Alô? – atendeu ao telefone de casa. – Mãe! Que saudade! Como está tudo aí no Brasil? Ahm... sim.... claro, eu aviso! Nossa, que bom! Eles se amam tanto né? Pra quando? Ok. Vocês vêm uma semana antes? Certo! Vou arrumar a casa então. – disse, engraçado - Ok, mãe, tenho que ir, vou ao baile de formatura da . Beijo. Te Amo. – desligou e saiu para buscar Poulet, sua, er... acompanhante.
- Vaaaaamos, dude! Que lerdeza toda é essa? – já estava impaciente, andando de um lado para o outro. Faltava só os dois. já tinha ido buscar Kathlin, sua nova peguete. E , Poulet. – Eu ainda tenho que pegar a na casa da e a mora do outro lado da cidade, dude!
- Calma cara, são sete e quinze! – desceu as escadas e, ao chegar perto do amigo, disse - Assim você vai estragar tudo! – Deu tapinhas no ombro do amigo e continuou a se arrumar.

As três estavam se arrumando na casa de e quando o celular de começou a tocar : “Cause you're hot then you're cold , You're yes then you're no, You're in and you're out, You're up and you're down” . Ela dançava até que resolveu atender.
- AAALÔÔÔ? – cantaroulou . – Hu? Quanto tempo? Ok? Sabe onde é, né? Ok. Estarei pronta. – desligou e olhou para as amigas com uma cara estranha – O Jason. Ele disse que vai se atrasar. Todo esse vestido vermelho curtérrimo, essa sandália altíssima, pra ele se atrasar? Fala sério! - Sentou na cama emburrada, observando as outras terminarem.
- Então, , você vai mesmo com o carinha da outra turma? – perguntou, depois de alguns minutos, sentando na cama para calçar a sandália.
- O ‘carinha’ – deu ênfase na palavra - Chama-se Steve. – Falou, olhando sua imagem no espelho – E sim. Eu vou. - Encostou-se no batente da porta e disse com cara triste – Ele foi o único que me convidou. E além do mais... – continuou indo em direção ao banheiro novamente – Eu não ia ficar de vela a noite inteira, não é mesmo? - Deu uma pausa para respirar e concluir a maquiagem – Sem falar que ele é muito lindo! – disse, tentando se animar - Estou pronta. Vamos descer e esperar lá em baixo no jardim?
Assim que fecharam a porta da frente encontraram Jason esperando , que entrou no carro dele e se foi. Steve estacionou em frente à casa logo em seguida, mas não ia deixar esperando sozinha, então ficou ali com ela enquanto o rapaz esperava dentro do carro.

- , aquela ali... é ... a ? - apontou ao ver a garota na frente da casa com , conversando encostadas em um carro.
- Hum... é ... acho que é sim... U A U! - O amigo respondeu e levou um tapa na cabeça – Doeu, dude! – mudou sua expressão e saiu do carro para encontrar as meninas.
- Vocês estão demais! – disse olhando e . Deu um beijo na amiga e a viu entrar no outro carro – Vamos? – Olhou para , estendendo seu braço para que ela o pegasse. Estava boquiaberto. A menina usava um vestidinho tomara- que –caia lilás um pouco acima do joelho com uma sandália prata, e estava incrivelmente linda! ‘tomara que caia’ pensou, e riu do próprio pensamento.
- Fala, . – cumprimentou o outro que estava no carro.
- Onde ela foi? – Ignorou a fala da amiga e disparou contra ela, com cara de espanto.
- Pro mesmo lugar que nós, ué. – Ela respondeu, ríspida.
- Quem era naquele carro?
- Não te interessa, , agora vamos de uma vez!
Ficaram em silêncio absoluto até que ela o cortou ao meio.
, onde estamos indo? O baile é para o outro lado.
- Vamos buscar . – falou receoso.
- COMO ASSIM? , eu não acredito.... – Ela o repreendeu, e ele baixou a cabeça sem responder nada.

Assim que chegaram, avistaram , e suas respectivas acompanhantes em uma mesa no meio do salão e juntaram-se a eles. As meninas pareciam ter um assunto muito interessante, por sinal, enquanto os dois olhavam a mulherada do local - discretamente, é claro. O salão estava iluminado apenas por luzes suspensas em tons de lilás, roxo e azul. No teto haviam malhas esticadas em forma de desenhos bonitinhos, dando um ar pueril e agradável ao ambiente, sem falar da fumaça esbranquiçada que cobria o lugar como uma névoa. Do lado de fora havia um jardim imenso com uma grama tão verde (?) onde almofadas e pufes estavam acomodados. As músicas que tocavam estavam agitando o baile, poucas eram as pessoas sentadas.
- , cadê a sua irmã? – perguntou, olhando para a porta.
- Ué, e eu que vou saber? Ela é grandinha, sabe? – respondeu, já sem saco de ouvir essa pergunta – Desencana , , cuida da sua garota aí.
- Ela te falou com quem ela... – ignorou a resposta do outro, mas nem terminou a frase porque viu a garota entrando de mãos dadas com um cara. Estava com um vestido curto, preto de alcinhas, simples, mas linda.
- Olá! – Disse, sentando-se ao lado do rapaz na mesma mesa que os amigos – Esse é o Steve. – apontou para o rapaz, que sorriu largamente. – Esse é o meu irmão, , e seus amigos e . – Apresentou os outros, ignorando totalmente a presença de ali.
- E eu sou o . – ele levantou-se, estendendo a mão para Steve, enquanto olhava feio para a garota que já se sentava ao lado de . - Sou amigo do ! E dela também. – Não ia deixar barato.
- Não força, ok ? De amigos nós não temos nada! – respondeu e virou o rosto para conversar com as amigas, e vez ou outra prestava atenção em alguma coisa da qual Steve ria animadamente. Ele estava bem enturmado com os rapazes. Exceto o , claro.
ainda não havia notado a presença de na mesa, até que lançou um olhar em direção à garota. Sentiu suas pernas tremerem. Não sabia porquê, mas sabia que não ficaria ali muito tempo – Ste, vamos dançar?
O baile continuava animado, pelo menos pra maioria das pessoas. Tinha gente se pegando, tinha gente dançando, tinha gente bebendo, mas também tinha gente sentado com cara de bunda. Nesse caso, era uma mesa em especial, onde só estavam , , , , e .
- Vou procurar Jason. – se levantou e foi saindo, seguida por . - E eu Poulet. – Sorriu ao lado da garota.
Depois de andarem por todo o lado de dentro da festa e perguntarem para todos os conhecidos, resolveram ir para o jardim, onde os enxergaram conversando. Mas quando aproximaram-se puderam ouvir Jason falar.
– Eu não gosto dos amigos dela, sabe? Eles são muito idiotas. Aquele então,... Ops... esqueci que ele é seu namorado. – deu uma risada abafada e a garota respondeu.
- Namorado? Hahahaha! é o tipo escadaria, sabe? Ascensão? Ele é o tipo de cara que as garotas só ficam pra elevar seu status. Ele é bonitinho, os amigos dele também são e eles tem uma banda, né? – Riu vitoriosa.
e se entreolharam, incrédulos do que ouviam. Ela ia partir pra cima de Jason quando a puxou em direção à festa novamente, e parou somente quando encontrou a pista de dança, a abraçando e começando a dançar sem nem ao menos perguntar se ela queria. A garota estava sem entender nada, mas, no fim, nem queria entender mesmo. Quando deram por si estavam com seus lábios mais que colados.
- , olha lá! – , que até então estava agarrado a , apontou para a pista.
- ÓUM! Eu sempre soube! Eu sempre soube disso! Quando a souber ela vai pular e gritar dizendo que sabia! – ia dizendo, mas ninguém a escutava, a não ser , que ria da situação e beijava o pescoço da garota.
- Bom, já venho, . – disse, se desfazendo dos braços dela, que fazia bico.
levantou e foi em direção ao banheiro, mas não pôde evitar a cena que acontecia bem a sua frente.
dançava agarrada ao pescoço de Steve, rebolando, subindo e descendo. Nunca tinha visto aquilo na vida. Digo, vindo dela. Uma vontade imensa de interferir tomou conta de seu corpo. E ao perceber as expressões de Steve, que parecia estar gostando muito, deu dois passos pra frente. Ia acabar com aquela palhaçada, mas foi interrompido por uma garota muito bonita que o chamava para dançar enquanto alisava seu peito. Ela era realmente bonita, mas não era ela quem ele queria. Dispensou a menina o voltou seus olhos para a pista, não encontrando nada. Abaixou a cabeça, decepcionado por não ter conseguido impedir aquilo, e também porque ficaria com aquela imagem na sua cabeça para sempre.
entrou no banheiro e lavou o rosto, precisava esquecer aquilo. Precisava beber!

Capitulo 7

já tinha bebido demais. Steve estava ao seu lado tentado, inutilmente, a fazer parar. Mas ela não o deixava tirar o copo de suas mãos. Ele viu se aproximar do bar e o chamou. Ele certamente poderia ajudar.
- Hey Steve, porque você está com essa cara? – chegou, dando dois tapinhas no ombro do cara.
- Ham... A gente estava dançando e eu resolvi vir beber alguma coisa, e ela veio junto e voltou a beber. – coçou a cabeça - Acho que ela já tinha bebido bastante antes de começarmos a dançar. Ela está íntima do garçom e, segundo ele, já perdeu as contas de quantos desses ela tomou. – Disse, apontando para um copo com um líquido transparente que, pelo estado dela, não era água.
passou a mão pelo rosto e, depois de pensar, disse:
- Steve, pode deixar comigo agora então, eu a conheço desde criança, sei o que vai fazer isso passar. - Na verdade ele nunca a tinha visto daquele jeito. A única vez que chegou perto disso foi o dia do pub, mas ela estava ‘alegre’ e não assim, quase em transe. Não tinha idéia do que fazer. E Steve menos ainda.
- Bom, então você a leva pra casa? Ok. Diz que eu ligo pra ela amanhã pra saber como ela está. – Steve deu beijo na bochecha da menina e saiu.
- Aham, pode deixar que eu não vou avisar. – O outro disse, ainda sorrindo, quando o rapaz já estava longe.
tentou conversar com , mas ela não dizia coisa com coisa e pedia insistentemente outro copo daquele ‘líquido bom’. Se a visse naquele estado a mataria assim que ela estivesse sóbria, e mataria Steve por tê-la deixado beber. E mataria a si mesmo por não ter feito nada para impedir. Então a levou para fora discretamente e ligou para o celular de , pedindo para este encontrá-lo.
- , ham... eu não posso deixar o vê-la assim. Me empresta seu carro pra eu levá-la pra minha casa. – dizia confuso, passava a mãos nos cabelos enquanto olhava a garota sentada num banco balançando as pernas como criança e murmurando algumas coisas. mais que imediatamente jogou as chaves pro amigo e ajudou-o a colocá-la no carro.
– Só não deixa ela vomitar, dude!
- Cala a boca, ! – deu um pedala no amigo e disse, antes de partir: – Avisa a e não deixa o saber.

entrou com no colo, colocou-a no sofá e sentou-se a sua frente, pensando no que faria com aquela menina.
- Porque você levou ela? – levantou a cabeça na mesma hora ao ouvir a garota se pronunciar de forma enrolada por causa da bebida.
- Vem, vou te dar um banho pra ver se passa. - Ele a pegou novamente no colo e a colocou em baixo do chuveiro, ligando a água gelada enquanto ela gritava – Sai, seu idiota! Tá gelada!
- Ninguém mandou beber! Agora vai tomar banho gelado! – dizia, enquanto a segurava com força e observava seu corpo todo molhado com aquele vestido preto colado. Abanou o ar, tentando afastar aqueles pensamentos, e desligou o chuveiro.
Levou para seu quarto, tirou o vestido que ela usava e ia a secando delicadamente. - Teria sido mais inteligente ter tirado o vestido antes de me botar em baixo do chuveiro, seu idiota. – Ela disse, rindo. E ele pensou que ela tinha razão. Mas agora era tarde.
Aquele corpo... Pegou uma camiseta e uma boxer no armário e a vestiu. Colocou a garota na sua cama e cobriu-a com carinho. Ficou sentado na cama, olhando-a fechar os olhos de vagar. Deu um beijo na sua testa e sussurrou:
– Doidinha!
Quando estava levantando para sair do quarto, ela o chamou.
- ?
- Oi, princesa? – Respondeu, sentando-se novamente na cama.
- Eu te amo. – Ela disse de olhos fechados, e ele sentiu uma pontada no peito.
- Eu também! – ele acariciou o rosto dela – Agora dorme. – terminou, falando mais baixinho.
Saiu do quarto e se atirou no sofá. Mas que diabos estava acontecendo? estava na sua cama, bêbada, e dizendo que o amava. E pior! Ele a chamou de princesa e disse que também a amava! Por que aquela sensação estranha surgiu? E por que ela tinha que ser tão bonita? Até ontem eles se implicavam, brigavam, por que isso agora?
Os pensamentos de foram interrompidos pelo toque de seu celular.

‘Ela está bem?
O tá tendo um faniquito querendo saber onde ela está!
Dê noticias.
xx

respondeu a mensagem, tirou a roupa que estava, vestiu apenas uma boxer e jogou-se no sofá, assistindo um filme qualquer. Estava incrédulo com o que estava acontecendo. Acabou por adormecer.

Era madrugada alta quando um barulho vindo da cozinha o acordou. Foi até lá e viu sentada na bancada do armário com um copo na mão.
- Desculpe, te acordei, né?! – Disse ela, falando baixinho, e viu ele fazer uma cara estranha.
- Você está se sentindo bem? – se encostou na porta enquanto observava a garota de cabeça baixa.
- Minha cabeça dói. Que horas são?
- Cinco e meia, eu acho.
- O que eu estava fazendo na sua cama? Er... Vestida assim?
- Você não lembra? – perguntou, chegando mais perto dela, e a viu balançar a cabeça em sinal negativo – De nada? – Ela negou novamente.
Estavam perigosamente perto agora. Ela ainda estava sentada na bancada e ele estava em pé, no meio de suas pernas. O nariz de passeava pela bochecha dela e a fazia sorrir. Ela passava as mãos pelos cabelos do garoto. Seus lábios se encostaram e a língua de pediu passagem. Era um beijo doce, calmo. Ele fazia carinho em suas costas, até que ela desceu a mão até a barra da boxer que ele estava e ficou brincando com o elástico, deixando o garoto ainda mais excitado.
- ... – cortou o beijo, já ofegante, e a olhou com cara de espanto.
- Eu quero, . Eu preciso de você. – Disse ela, ao pé do ouvido do garoto, e voltou a beijá-lo. então a pegou pela cintura e a levou para o quarto, deitando-a delicadamente na cama e ficando em cima dela. Continuaram a se beijar, desta vez com mais vontade, mais voracidade. Eles estavam tão fundidos um no outro que não havia espaço nenhum entre eles. Nada os separaria naquele momento. Ele levantou a camiseta que ela vestia e a jogou no chão, passou a beijar seu colo com carinho e vontade. Foi descendo a mão até a boxer e a deixou completamente nua. Ela não pensou duas vezes e fez o mesmo com a dele.
– Estamos quites. – Disse ofegante no ouvido do garoto, fazendo-o pirar. Cada toque dele a fazia arrepiar. Chegaram ao ápice juntos, e a felicidade explodia dentro de ambos.

Capítulo 8

acordou sozinho na cama. Procurou por todo o apartamento, mas não a achou. Viu que na porta havia um bilhete.

“Fui pra casa para o não pirar.
Preferi não acordar você.
Obs: Foi a melhor noite da minha vida.”


Para , tinha sumido com Steve. Somente e souberam do ocorrido, mas sem os detalhes e o fato principal, é claro. e não haviam se falado, um clima estranho tinha se instalado entre eles. Estavam confusos e felizes, era a chance que tinham de se acertar por vez. Mas não foi o que aconteceu.
tinha contado para a irmã da ligação da mãe. Ava, a tia deles, iria se casar e a festa seria em sua casa.
Os dias voavam e logo um mês tinha passado sem ninguém notar. Naquela segunda feira, recebeu uma ligação de uma faculdade dizendo que ela tinha sido aceita e que eles a esperavam após o verão. Mais que imediatamente ela ligou para as amigas e contou a novidade. O que ficariam sabendo só no dia seguinte era que tinham sido aceitas na mesma faculdade.
Aquele era um ótimo motivo para eles comemorarem. Todos foram ao Trix Pub para celebrar a nova fase.
- Hoje não vou beber! – disse, fazendo os amigos rirem.
- Eu não vou deixar! – O irmão respondeu, dando um gole na quinta cerveja!
- Um brinde! – convocou os amigos – Um brinde à nossa amizade!
Todos brindaram, gritaram e foram dançar.
- Hey, a gente pode conversar? – Sentiu uma voz sussurrar em seu ouvido.
- Hum...a... er.... acho que sim.
e sentaram-se numa mesa no canto escuro do Pub e ele começou.
- Por que você fugiu de mim?
- Eu? Quando?
- Aquela noite? Da minha casa? Eu acordei depois de uma noite linda e não te encontrei.
- Eu não fugi. Eu só fui embora pro meu irmão não ter um troço.
- Hum... E durante esse mês todo? Por que não falou comigo? – Ele perguntou, olhando nos olhos dela.
- Eu... Eu não sei. – respondeu sem olhá-lo – Eu estou confusa.
- Então é isso? - Ele disse, levantando um pouco a voz. – A gente passa uma noite maravilhosa juntos, você some no dia seguinte, passa um mês sem falar comigo e agora me diz que está confusa? Se você estava confusa, por que não veio conversar comigo?
- Desculpa. – Ela baixou a cabeça e ficou sem reação nenhuma.
- Então é só isso que você tem pra me dizer? – Ele perguntou, e quando viu a garota afirmar com a cabeça, levantou e saiu.
‘Ele é de lua’ pensou triste. Após algumas latinhas de refrigerante ela precisava ir ao banheiro. Deu uma ajeitada no cabelo, se olhou no espelho e saiu. Ao passar pelo bar, ouviu uma voz conhecida e olhou. Deparou-se com jogando charme para uma garota. Ficou paralisada, olhando fixamente, até que ele a notou.
- ! –Ela apenas o olhava com tristeza e, sem saber o que fazer, saiu do bar e foi pra casa.
entrou no quarto procurando por . Ouviu o barulho do chuveiro e resolveu esperar. Sentou na cama e ficou observando o quarto da garota, quando viu uma foto estranha e antiga, da qual ele não lembrava, no mural da garota. Foi até lá para ter certeza, para ver melhor. Na foto estava ele segurando no colo, estavam muito felizes, pelo menos pareciam. Ela estava agarrada ao pescoço dele e ele estava usando uma bermuda vermelha que ela tinha lhe dado. Sim, agora sim ele lembrava bem daquele dia. Tinha sido um dos únicos dias da vida deles que viveram as vinte e quatro horas em paz e ‘de bem’.
- ! Sai do meu quarto agora! Sua mãe não te deu educação nenhuma? – Estava apenas enrolada na toalha e com os cabelos molhados soltos pelo corpo.
ficou sem reação nenhuma, ficou apenas observando as pernas desnudas da garota. Ouvia-a gritar e esbravejar, mas não conseguia desviar os olhos do corpo dela , ‘aquela toalha parecia tão grande, poderia cair e..’
- , eu estou falando com você! Tá me ouvindo? – Tirou-o de seu transe.
- Ham... er – Passou as mãos pelos cabelos em sinal de nervosismo, não sabia o que dizer, nem porque estava ali, e muito menos lembrava-se da sua fúria.
- Se não tem nada pra me dizer, dá licença que eu quero me vestir. – Disse, apontando a porta e indo em direção ao roupeiro.
- Não! É que... eu vim falar com você. Sobre... – Não sabia o que dizer, mas não queria ir embora dali. Sentou na cama da garota com a foto deles na mão – Lembra desse dia? – Perguntou nostálgico olhando para a foto – A gente estava tão feliz.
- , eu não tô te reconhecendo! Há meia hora você estava com outra garota, e agora tá aí, falando do passado, todo estranho. – estava meio confusa.
- Você lembra? – perguntou novamente.
- Lembro, . – respondeu sem perceber que um sorriso surgia em seus lábios – Fui eu quem te deu essa bermuda. – Sentou-se ao lado do garoto – Depois que o tirou a foto você me atirou na piscina. – Riu ao lembrar – Mas porque você está aqui? – Perguntou, mudando o assunto.
largou a foto em cima do criado mudo ao lado da cama e respondeu-lhe sério.
- Eu vim pra perguntar uma coisa. Na verdade pra ouvir de você, pra ouvir você me dizer o porquê de tudo isso. Cada vez que eu me decido, você atrapalha? Você disse que estava confusa e eu decidi te deixar de vez, então.
- E o que eu fiz dessa vez? Heim? Eu não fiz absolutamente nada!
- Dessa vez bastou seu olhar. – baixou os olhos e falou baixinho.
- , não estou te entendendo. A gente passou uma noite linda. Foi a melhor noite da minha vida. Foi a primeira. – Fitou o chão – É normal que eu fique confusa. Eu sou confusa!
- Pri... pri... primeira? – perguntou, boquiaberto.
- Ué, por que o espanto?
-É que você sempre andou com muito meninos e... sempre tinha namorado.... – Disse, tentando explicar mais para si mesmo do que para a garota.
- E? Sim, eu sempre estava ‘andando’ com alguém! Mas eu nunca estava ‘dando’. Pra você ver, né , como funcionam as coisas. Você sempre tirando conclusões precipitadas, nunca dando valor.
- Eu posso mudar! Eu juro que eu dou meu melhor para mudar! – Falou, segurando com força os braços da garota, fazendo com que ela ficasse bem próxima dele. – Eu te juro!
- Não importa, , nada vai ser normal entre a gente! Nunca! Agora sai do meu quarto!
Antes de sair, a olhou nos olhos e desabafou, decepcionado.
– Eu tentei! Você consegue transformar as coisas! Esse era pra ser um momento legal e de reconciliação.
Ao ouvir a porta bater, se atirou na cama e começou a chorar. Não deu dez minutos e o irmão entrou no quarto.
- Mana?
- , sai daqui! Quero ficar sozinha. – Respondeu sem tirar a cara do travesseiro.
- Ok, mas.. você não recebeu o de toalha, né, ?
- , eu não recebi ele assim! Eu saí do banho e ele já estava aqui bisbilhotando minhas coisas. Agora sai.
apenas concordou, deu um beijo na testa da irmã e saiu do quarto. Ela nunca falava com ele daquela maneira. Mais tarde conversaria com ela, quando os ânimos se acalmassem. Pelo modo como saiu da casa, a conversa não devia ter sido muito animadora.
adormeceu chorando. Estava triste. Aquele era pra ser um momento feliz e ela estragou tudo! Teve um pesadelo ruim e acordou no meio da noite. Assustada, ela levantou para ir até a cozinha e pegar um copo de água, mas ao levantar viu um papel no chão, deviam ter posto por baixo da porta.

‘Eu nunca quis que tudo terminasse desse jeito,
Mas você tem um gênio!
Eu jurei pra você que eu faria meu melhor para mudar, e você disse que não importava.
Agora eu te vejo por um outro ponto de vista.
Pra falar a verdade, eu não sei por que diabos me apaixonei por você.
E eu nunca desejaria para alguém se sentir do jeito que eu me sinto.

Quando te procurei no bar, queria te contar que fui convidado para trabalhar como produtor de uma banda em New York. Eu estava disposto a esquecer isso e ficar aqui com você.

Incrível como você consegue transformar o céu mais azul em cinza. Será um sinal do Céu, me mostrando o caminho? Isso era mesmo pra acontecer?
Pode ter certeza, Eu estou melhor sem você. Agora eu sei.
E não ouse tentar fazer tudo dar certo,
Porque eu estarei pronto para brigar, é.’

Capítulo 9

reconheceu a caligrafia de naquele bilhete e entrou em pânico. O que ela tinha feito? E porque diabos ele foi pra NY? Voltou para a cama, pegou o celular e ligou para , iria pedir desculpas. ‘E não ouse tentar fazer tudo dar certo’, lembrou. Deixou chamar mesmo assim. Mas ele não a atendeu. Encostou-se na parede e escorregou por ela até chegar no chão. Sim, mais uma vez ela tinha estragado tudo!
estava sentada na cama, segurando um pedaço de papel e uma foto em suas mãos. Olhava fixamente para a foto e para o papel, lia e deixava as lágrimas escorrerem por seu rosto livremente, olhava para a foto novamente e balançava a cabeça, ‘como pude deixar chegar a esse ponto?’ perguntava a si mesmo enquanto ali, na sua frente, lia o bilhete escrito por antes de partir. Ligou o rádio em uma estação qualquer. Pegou aquela caixa que guardava em baixo da cama, caixa esta que ninguém sabia da existência, nem de seu conteúdo. Sentou-se no tapete com a caixa entre as pernas. Hesitou em tirar a tampa, fechou os olhos e uma lágrima caiu, novamente. Por fim, acabou por tirá-la. Um cheiro estranho tomou conta do ar. Sim, aquele era o cheiro do perfume de . Tirou um pedaço de pano branco com esse cheiro. ‘esse pedaço foi uma camiseta, um dia.’ Sorriu ao lembrar como aquilo foi parar ali. Olhou um bolinho de fotos, pegou e foi analisando uma por uma. Como, por tanto tempo, pôde esconder de si mesmo a verdade que estava bem a sua frente? Como conseguiu esconder dele? A maioria das fotos era dos dois, algumas eram da galera, mas em todas estavam os dois, e sempre felizes. Isso não significa dizer que estavam bem um com o outro, mas estavam felizes, um ao lado do outro, se é que entende o que quero dizer. Entre duas fotos encontrou uma flor seca e chorou compulsivamente ao lembrar daquele último dia de aula da sexta série.

*Start Flashback*

- Ei! ! Espera! – Gritava , correndo atrás da garota – Me desculpa. – Disse ao alcançá-la.
- Você acabou de me humilhar na frente de todos os meus amigos, ! Como posso te desculpar?
- Assim. – baixou a cabeça e estendeu a mão com uma pequena florzinha branca que encontrara pelo caminho. – Assim você me perdoa?
Sem responder nada, a menina só pegou a flor, deu um beijinho rápido no rosto dele e foi embora. Ele sorriu satisfeito e voltou para junto dos amigos.

*End Flashback*

Fechou a caixa e a colocou no lugar, embaixo da cama. Ficou ali, de olhos fechados, sentada no tapete lilás, agarrada nas pernas, com a cabeça na parede e chorando. Era muito difícil descobrir aquele sentimento que ficou mascarado por tantos anos. Mas era muito mais difícil que admitir aquele sentimento.
Ouviu baterem na porta, mas preferiu não abrir os olhos, continuou ali, na mesma posição.
- Vai ficar aí pra sempre? – entrou no quarto da irmã e sentou na sua frente, mas não respondeu nem abriu os olhos – Você precisa continuar a vida! Não é porque ele foi embora que você precisa morrer, ou se trancar num quarto, ou virar freira e fazer voto de castidade.
- , - começou, sem mover um músculo – você não tem condições de dizer o que eu devo ou não fazer, nem eu tenho condições de sair daqui. – pausa dramática – Então me deixa aqui quietinha que quando der fome eu desço pra comer, quando eu começar a feder, eu vou tomar um banho, e quando, por fim, eu tiver vontade de recomeçar, eu volto pra vida, ok? – Falou a última frase em tom de deboche. O irmão apenas levantou e, antes de sair do quarto, disse – Lembre-se que a mamãe e o papai chegam depois de amanhã. Não seria legal eles chegarem e ver você assim. Ah, a mandou avisar que as aulas na faculdade começam amanhã.
O irmão tinha razão, seus pais não poderiam ver ela daquele jeito. Iria sair do quarto. Mas não ia ser hoje. Depois de muito tempo cansou daquela posição, levantou-se, tomou um banho e foi deitar. Há alguns dias ela não sabia o que era comida de verdade, vivia da comida que, eventualmente, alguém misteriosamente deixava na porta de seu quarto. Mas não estava nem aí para comida ou para qualquer outra coisa. Ela só se arrependia de tudo que tinha feito durante tanto tempo. “Você faz o céu mais azul se transformar em cinza”, lembrava da frase e pensava o quão ruim ela poderia ter sido. “Eu jurei para você que eu faria o meu melhor pra mudar”, ele realmente iria mudar? E porque ele mudaria? Fazia muitas perguntas para si e não respondia nenhuma delas. Deitada, olhando para o teto, começou a cantar baixinho a música que tocava no rádio.

‘my spirit's sleeping somewhere cold’
(Meu espirito dorme em algum lugar frio,)
‘until you find it there and lead it back home.’
(até que você o encontre e o leve de volta pra casa.)
Now that I know what I'm without
(Agora que eu sei o que eu não tenho)
you can't just leave me.
(Você não pode simplesmente me deixar.)


Não conseguia acostumar-se com aquilo. Descobriu que gostava de alguém no momento em que ficou sem ele.

All of this time
(Todo esse tempo)
I can't believe I couldn't see
(Eu não consigo acreditar que eu não pude ver)
Kept in the dark
(Me mantive no escuro)
but you were there in front of me
(mas você estava lá na minha frente)
I've been sleeping a one thousand years it seems.
(Eu tenho dormido há 1000 anos, parece.)


Era incrível como a música podia entrar em sua mente e traduzir o que estava lá dentro.

Don't let me die here
(Não me deixe morrer aqui)
There must be something more
(Deve haver algo a mais.)
Bring me to life.
(Traga-me para a vida)
I've been living a lie
(Eu tenho vivido uma mentira)
There's nothing inside
(Não há nada lá dentro)
Bring me to life.
(traga-me para a vida)


Era como se a Amy Lee cantasse os sentimentos de . Adormeceu antes da música acabar.

Capítulo 10

‘Hora de ir para a guerra’ - foi a primeira coisa que pensou quando abriu os olhos na manhã seguinte. Levantou-se e tomou um banho bem demorado. Decidiu descer e tomar café com o irmão.
- Bom dia. – Ela disse ao vê-lo sentado na cozinha.
- Hey! Que bom que você desceu. Voce não está com uma cara muito boa! – Ele disse, e a irmã fez uma careta.
- É... não estou me sentindo muito bem... Estou meio enjoada.
– E nem deveria estar se sentindo bem. Depois de quase um mês trancada no quarto...
- ! - Ela o repreendeu.
- Sorry. – Disse ele, dando um beijo na testa dela.
- Ai! Acho que nem vou na aula. – Disse, abaixando a cabeça.
- Claro que vai sim! Vou ligar pra vir te buscar.
Nem deu tempo da irmã responder e ele já tinha saído da cozinha. Então ela tomou um copo de leite e subiu para pegar a bolsa. Estava ansiosa, mas ao mesmo tempo queria ficar em casa. Já tinha sido muito difícil sair do quarto.
- A chegou - disse , sentando na cama da irmã. – O que é isso? – pegou o bilhete de e começou a ler. – Então foi por isso que você se trancou aqui?
Ao observar o olhar incrédulo do irmão, ela apenas baixou a cabeça e saiu.
- Você resolveu sair do quarto! – disse, abraçando a amiga.
- Hey! – respondeu, cabisbaixa.
- Ih! Que cara, você está bem?
- Só estou um pouco enjoada. Mas vamos antes que eu desista.
O caminho que percorreram até a faculdade foi feito em completo silêncio. As amigas tinham ido visitá-la várias vezes, mas ela não as deixou entrar. Não queria ver nem falar com ninguém.
Ao chegar no campus da faculdade, cada uma foi pra o seu prédio.
queria falar com . Ligou para o celular dele antes de entrar na sala, mas mais uma vez ele não atendeu.
- DROGA! – gritou antes de entrar na sala. Nada de útil. Aliás, que primeiro dia de aula em qualquer lugar do mundo tem alguma utilidade?
No intervalo das aulas, , e se encontraram para conversar. Contar da sua nova turma e blá blá blá. Antes de voltar, tentou mais uma vez falar com . Precisava ouvir a voz dele. Só que ele não atendeu. Sentiu aquele enjôo novamente. Foi até o banheiro para molhar o rosto, passou água na nuca, mas nada que aliviasse aquela sensação ruim. Estava mais branca que papel. Viu que não faria sentido ficar ali, já que não ia prestar atenção em nada que fosse dito na aula, então resolveu ir para casa.

- Alô? – atendeu a ligação daquele número desconhecido com péssima vontade.
- Sr. ? – Dizia uma voz feminina também desconhecida.
- Sim, quem fala?
- Meu nome é Mariah e eu sou paramédica. – Dizia a mulher calmamente, deixando o garoto assustado – Você conhece uma garota , de pele e cabelos ... – Ela começou a descrever, e caiu sentado, imaginando o que estava por vir.
- . – Murmurou.
- Oi? – Mariah perguntou – O que o Sr. disse?
- Essa garota... ela tem uma tatuagem de estrela com um F, dentro? – Ele perguntou, torcendo para que ela dissesse não, mas pra sua infelicidade ela disse que sim – . É o nome dela.
- Bom, Sr., alguém a encontrou desmaiada na rua e ligou para emergência. Como ela está sem documentos, ligamos para a última pessoa pra quem ela ligou, o senhor. Estamos a caminho do hospital, poderia avisar algum familiar?
- O QUE? – gritou, entrando em pânico – Desmaiada? Pra que hospital estão levando ela?
- Saint Francisco. – respondeu a moça.
- Sim. Obrigada. – desligou apavorado, como assim desmaiada no meio da rua?

- ! ! Cadê a ? – gritava no telefone, ainda tinha alguma esperança de que fosse um engano.
- ? – perguntou, estranhando a ligação do amigo - Ela foi pra faculdade. – respondeu, afastando o aparelho do ouvido tamanho o grito do amigo. – Por...
- VAI PRO SAINT FRANCISO AGORA! AGORA, !– desligou o telefone, deixando o amigo preocupado.
entrou no carro e foi para o hospital. No caminho, ligou para para ele ir pra lá também.
- Eu procuro por . – Disse , chegando à recepção do hospital.
- Deixe-me ver, senhor. – uma senhora já de bastante idade respondeu - Hum... Sim... Sim... É, uma garota deu entrada hoje, trazida pelos paramédicos, Mariah disse que o nome dela é .
- Paramédicos? Mariah? – perguntava, confuso.
- Sim, ela está lá dentro, aguarde um minuto, por favor. Assim que ela vier lhe explica, senhor. Enquanto isso, será necessário preencher essa ficha de entrada no hospital.
O relógio parecia andar para trás, a tal da médica demorava demais. Viu chegar e sentar ao seu lado com cara de ponto de interrogação.
- Só sei que ela chegou aqui trazida por paramédicos. – ia dizendo para quando seu celular tocou – Oi? ? Hum... Sim.. sei... , é que ela... tá aqui no hospital... eu não sei o que houve... o me ligou e me mandou vir pra cá. Sim... te espero. – desligou.
- O ?
- É , o ! – viu uma moça de jaleco passando e foi atrás dela.
– Ei! Ei! Enfermeira. – chamou.
- Sim?
- Eu quero ver minha irmã! – Ele disse desesperado – Eu estou aqui há mais de duas horas esperando!
- Vou ver o que posso fazer. – A moça entrou em uma sala e voltou logo em seguida – Sr..?
- . .
- Ok. Sr. , ela está sob medicação agora. Ainda não descobrimos o motivo do desmaio. Não poderá vê-la agora. Amanhã pela manhã creio que ela estará bem para recebê-lo. – A enfermeira informou e deixou desnorteado – Por que não vai para casa descansar?
Por que diabos enfermeiras e médicos sempre falam isso? Como se ir pra casa diminuiria a angustia pra ver a irmã. Vã esperança! Era óbvio que ele não arredaria o pé dali!
- ! – e vieram correndo em direção a ele – O que houve?
- Encontraram-na desmaiada na rua, ligaram pro , ele me ligou e eu estou aqui, esperando pra entrar. Mas a enfermeira disse que só vou poder amanhã. – sentou e apoiou a mão na cabeça. A noite seria longa.
- Pro ? – As duas amigas perguntaram em coro.
- É. – fez uma cara esquisita – Eu também não entendi.
- , você vai fazer um buraco no chão!
- A tem razão, dude, para de andar pra lá e pra cá que tá até fazendo vento na gente!

Assim que amanheceu, uma enfermeira veio chamar para ver a irmã.
- ! – ele entrou no quarto, sorrindo ao vê-la acordada – Como você está? O que aconteceu?
- Estou bem... eu acho. – Não conseguiu segurar o choro ao ver o irmão entrar no quarto. A enfermeira que estava ali saiu, deixando-os a sós.
- Você está chorando por que? – sentou ao lado da irmã e segurou sua mão.
- Hoje de manhã o médico trouxe meus exames e... – tentava ao máximo se controlar - ... desculpa! – Ela disse, já em soluços, e o irmão ficou sem entendeu nada – É que... eu... eu tô grávida. – Pensou se continuava e preferiu não esconder – Do . - Disse por fim, e deixou que o choro tomasse conta de si.
ficou sem reação nenhuma, não sabia o que dizer. A enfermeira voltou a entrar no quarto e disse, ao ver o estado da garota:
- Ela não pode se alterar, por favor. – Indicou a porta pedindo para sair. A única ação que teve foi apertar bem forte a mão da irmã. Deu um beijo em sua testa e foi em direção à porta.
- ! – chamou, antes que o irmão saísse, e ele voltou a olhá-la - Eu não quero que ninguém saiba, pelo menos por enquanto!
– Ok. Tudo vai ficar bem. Eu prometo. – A abraçou forte e saiu do quarto.
Foi andando pelo corredor do hospital sem saber como reagir. Ao encontrar os amigos, coçou a cabeça enquanto e o enchiam de perguntas. sentou e enfiou a cabeça entre as mãos, e disse sem ter certeza. – Ela... hum... ela está bem. Foi só um susto.
- Susto. Sei. – duvidou. – Quando ela sai daqui?
- Amanhã, eu acho.
Aquele dia estava passando muito devagar. não sabia o que diria aos pais quando eles chegassem. Sabia que ouviria que ele tinha sido um irresponsável, não tinha cuidado como deveria da irmã e blá blá blá. O médico de o chamou para explicar a situação.
- Boa tarde, Sr. , sente-se, por favor. – o médico apontou a cadeira de seu consultório – Sou o Dr. Gwinuve, sou o ginecologista de plantão. – apenas o olhava com um ar de medo – Sua irmã tem uma anemia muito forte para os primeiros meses de gestação. Como ela ainda é uma adolescente, peço-lhe que tome alguns cuidados na alimentação dela. Essa gravidez é de risco.
- Sim, senhor. Devo ter algum cuidado a mais?
- Bem, pra falar a verdade, não vi o namorado dela por aqui. – O Dr. Disse, pensativo. – Esse é o momento que o psicológico dela não pode atrapalhar, pode ser muito ruim pra ela e principalmente para o bebê.
ria por dentro, mas era um riso de nervoso. Despediu-se do médico e foi ao encontro dos amigos.
- Vamos pra casa. Passamos o dia todo aqui. Daqui a pouco eu volto, só vou para tomar um banho e trocar de roupa.
, que acabara de chegar, levou e para casa enquanto levava .
Ao entrar em casa, deparou-se com e sentados no sofá. Esqueceu que o amigo tinha uma cópia da chave.
-Hey, dude, como ela está? – disse, entrando na cozinha enquanto largava o copo na pia.
- Está bem. O disse que não foi nada, só um desmaio. E você? Como está?
-É... vou levando. Tenho uma coisa pra contar, mas não é o momento. – Disse, apontando a cabeça na direção da garota que estava no sofá.
- E o que ela ta fazendo aqui mesmo?
- Isso faz parte do que tenho pra contar.
- Hu. Ok, então. – deu de ombros. – Vou ver o , ele tava nervoso.
voltou para o sofá enquanto o amigo subia as escadas da casa. sequer tinha falado com ele.
- Dude, fecha a porta. – disse, sentando na cama. entrou no quarto e fez o que o outro pediu.
- Você tá bem? – Perguntou, fazendo uma careta ao ver a expressão triste do amigo.
- Senta aí. Eu preciso te contar. – não tinha certeza se contaria, mas precisava dividir com alguém – Eu sei que ela não vai se importar, você é o melhor amigo dela, e...
- Fala logo, ! – disse depois de um tempo que deu antes de falar.
- Ela ta grávida do ! – Estava realmente abalado – E ela não quer que ninguém saiba.
- E ele está aqui com a . – disse, como se completasse a frase do amigo – Ele disse que tem alguma coisa pra nos contar, mas que não é o momento e talz. – dizia, fazendo pouco caso.
- Vamos descer. Vou comer algo e voltar para o hospital. – disse, abrindo a porta do quarto e indo em direção à escada junto de . Ainda puderam ver pegando a bolsa de cima do sofá e saindo, avisando que não demoraria a voltar.

Capítulo 11

acordou ao ouvir a porta se abrir e alguém entrar no quarto. Estava tudo escuro, mas ainda assim pôde reconhecer parada ao pé da cama. Seria aquilo um pesadelo, ou quem sabe ainda estava sob efeito dos remédios?
- Então, querida, lembra de mim? – A voz da garota soava calma, era como se ela fosse uma amiga ou algo assim. Definitivamente, tinha que ser um pesadelo.
- O que você está fazendo aqui? Cadê o ?- apoiou-se nos cotovelos na cama para enxergar melhor a garota em sua frente. Mentalmente, rezava para que aquilo fosse apenas uma ilusão.
- Ih, calminha aí, meu bem. Você não pode se alterar, ou vai prejudicar esse bebê. – pousou a mão na barriga de , que sentiu vontade de voar na cabeça da loira à sua frente e arrancar todo aquele cabelo oxigenado. O que diabos ela estava fazendo ali? Como sabia da gravidez? É, aquilo não era um pesadelo.
- Tira a mão de mim! Vai embora! – Sua voz saiu de forma estridente, quase desesperada. Não podia ser verdade. De onde aquela garota havia saído? E o , ele não era louco o suficiente para ter contado isso a ela.
sentiu sua cabeça doer e levou uma das mãos até a testa em uma tentativa frustrada de que tudo voltasse ao normal, sem dor, sem .
- Hey, hey, hey. Parece que a garota inocente injustiçada que eu conheci no Trix não foi tão injustiçada assim... E certamente inocente você não é. – olhou diretamente para a barriga de e sorriu irônica.
A garota na cama já não aguentava mais tudo aquilo, com uma das mãos ainda sobre a testa e em uma voz fraca, ela disse – Vai embora, por favor...
- É claro que vou embora, não é como se eu gostasse da sua companhia... Mas antes eu preciso te dizer o porquê de eu estar aqui. – desta vez pareceu contida, até um pouco receosa.
- Ok. Fala logo e sai daqui. – se deu por vencida, só desejava que tudo aquilo acabasse logo.
levantou a mão direita e mostrou para a garota.
– Você sabe o que é isto? – ao ver a cara de ‘não faço questão’ da que estava deitada, ela continuou – É um anel de noivado, querida. Que o me deu. – Ela deu ênfase na última frase, falando de forma simples, como quem conta algo rotineiro.
- O QUE? – gritou. Aquela informação foi como um tapa na cara, um soco no estômago ou algo assim. Aquilo só podia ser palhaçada. só deveria estar almejando uma vaga no circo.
- Calma. É natural um homem assumir um relacionamento quando vai ser papai. – Dessa vez colocou a mão sobre sua própria barriga e continuou radiante – Eu estou grávida do . Vamos nos casar. Ele até comprou um apartamento em NY para morarmos juntos, sabia? – a loira falava de forma alegre e cínica, enquanto a olhava incrédula – Ele está muito bem no trabalho dele, está ganhando muito dinheiro. Está feliz ao meu lado. Não ouse tentar atrapalhar isso. – Disse, cerrando os dentes e dando lugar a uma expressão um tanto ameaçadora – Porque eu acabo contigo! – Apontou o dedo na cara da garota e terminou – Ele te largou pra ir morar comigo. Pra ser feliz comigo. Porque ele me ama! E nós vamos ter um filho lindo! Não vai ser porque você ficou grávida que ele vai voltar! Ele te odeia! Eu demorei muito tempo para fazê-lo esquecer o ódio que sentia por você, e não é agora que isso vai mudar, fedelha! – perdeu o controle inicial e já estava gritando, quando uma enfermeira entrou no quarto dizendo que ela não deveria estar ali e pedindo para que ela se retirasse -Você está avisada! – A garota disse, se recompondo, antes de passar pela porta.
precisou piscar várias vezes para ter certeza de que aquilo tinha realmente acontecido. Enquanto a enfermeira media a pressão dela e fazia alguns testes, ela pensava no que aquela coisa oxigenada estava fazendo ali. E porque a odiaria tanto a ponta de casar com outra. A garota sentiu as lágrimas descerem por seu rosto de forma lenta, até que não conseguiu conter aquela confusão de sentimentos e chorou de verdade. Ela havia tirado forças sabe-se lá de onde para se conter na frente da loira, mas ela não podia se segurar mais. A enfermeira notou o desespero da garota, e tentou consolá-la, mas o que a mulher não sabia era que, naquele momento, nada poderia consolar .
- Calma querida. Com o tempo tudo se ajeita. – viu a garota fungar e continuou – Sua pressão subiu demais. Vou ter que te dar um remédio para se acalmar, isso é perigoso no seu caso. – A mulher saiu e voltou logo em seguida com uma bandeja cheia de seringas – Vai doer um pouquinho. – Avisou, pegando uma delas – Você vai dormir agora e esquecer isso, está bem? Amanhã alguém virá ver você e, se tudo estiver bem, você será liberada.
sentiu suas pálpebras pesadas, queria dormir, mas queria esquecer o que havia ocorrido e o que havia lhe dito. Como assim ele ia se casar? E com outra! Não era nesse momento em que ele descobria que a amava de verdade e eles viveriam felizes para sempre? Que ela teria seu final feliz de princesa? De desenho animado?
Algumas cenas lhe passavam na mente como um filme. Via a tristeza no rosto de ao sair de seu quarto pela última vez. Lembrou do que ele havia escrito. ’E não ouse tentar fazer tudo dar certo’, nem se houvesse algo a mais? ‘Pode ter certeza, Eu estou melhor sem você’. É, talvez. Doía tanto aquilo. Estava nervosa, era como se nada do que fizesse fosse capaz de melhorar a situação, muito menos resolvê-la. Acabou por ser vencida pelo peso das pálpebras e adormeceu. Na manhã seguinte, acordou com a luz do sol em seu rosto. Olhou para o lado e viu uma figura conhecida.
- Mãe. – Chamou baixinho.
- Querida. – Aproximou-se da filha. – Como você está se sentindo?
- Ah. Agora eu estou bem. Nem sei pra quê duas noites aqui.
- Que bom. Você tem algo pra me dizer? – Martha, a mãe da garota, sorriu para ela, encorajando-a a contar.
- Como se você já não soubesse, né mãe?
- Claro, oras! Como é que eu não ia saber? Seu irmão não quis me contar, então tive que interrogar o médico. – Disse sorrindo.
- Mãe, você não vale nada! – riram. – E o papai? – perguntou com receio.
- Está em casa. Achei que ele fosse morrer do coração. Mas sabe que não? – disse surpresa.
- Não? Digo, ele não surtou nem nada?
- Ah, no início ele disse que era irresponsabilidade e que você ficaria de castigo os nove meses, que iria obrigar o rapaz a casar e coisas desse tipo, mas então o conversou com ele, e ... Aparentemente ele está de casamento marcado, e... você não quer que ele saiba. – olhou a expressão da filha e preferiu não continuar a falar em – Então, depois que o rapaz conversou com ele, ele começou a dizer que vai ser menino pra ele poder ensinar a jogar futebol e pegar mulheres. E que, se ele não for passar as férias com a gente no Brasil, ele te deserda! Mas que ainda assim você precisa ouvir poucas e boas.
contou para a mãe toda a história com , desde a cena no bar até o fim do baile e o desfecho em seu quarto. Falou da ‘visita’ que recebera na noite anterior e de como se sentia em relação a tudo, recebendo, claro, o colo da mãe. Assim que Dr. Gwinuve, o médico, entrou no quarto, fez os exames de rotina para liberá-la, a encheu de recomendações, deu um sermão sobre como ela deveria se comportar e se alimentar agora, e então a liberou para ir pra casa.
- . – começou enquanto Martha dirigia o carro – Acho que eu preciso te dizer uma coisa. – Passou a mão pelos cabelos em sinal de nervosismo.
- Ah meu deus. É muito importante? Não pode ser, tipo... amanhã? – Estava com medo do que iria ouvir.
- Não. Acho que não. – a olhou sério e, vendo que ela assentia com a cabeça, ele concluiu rápido – O está lá em casa. Com a .
apenas o olhava incrédula. O que ele estava fazendo ali? E por que não foi até o hospital? Lembrou-se do porquê estava no hospital, deduziu então que, seja lá qual for o motivo por ele não ter ido, era ótimo. Não queria chegar em casa e ter que olhar os dois juntos. Tipo, ‘COMO ASSIM? VOCÊ DEVERIA ESTAR COMIGO E NÃO COM ESSA BARANGA?’ Mas era como se ela não tivesse nem forças para brigar. Sabia que ele estava feliz, e estragar isso era tudo que ela menos queria. Se o fazia bem, o que ela poderia fazer?

Capítulo 12

Quando chegou em casa, foi recebida pelos amigos e pelo pai, que estava visivelmente nervoso, mas apenas a abraçou. e estavam esperando para receberem a amiga quando ela apontou para as escadas. Seu olhar havia se cruzado com o de , uma sensação estranha tomou conta de si, como se ele soubesse de alguma coisa, mas não era possível.
Já em seu quarto, tirou aquela roupa fedendo a hospital para entrar no banho quando ouviu as duas amigas entrarem no quarto logo atrás.
- Hum, deixa eu ver se eu entendi. – Estavam sentada no chão do banheiro enquanto tomava banho – Você...er...transou com o . Daí descobriu que é apaixonada por ele. – ia dizendo e ela apenas respondia com ‘uhum’ e ‘aham’ – Então ele vai embora e te deixa este bilhetinho aqui. ‘Você faz o céu mais azul se transformar em cinza’ UAU! Dramático ele.
- , não debocha do cara!- soltou um risinho abafado.
- Aí, porque ele foi, você se tranca nesse quarto de merda por um mês e quando sai descobre que está grávida. E agora?
- Agora vem a parte que vocês não sabem. – Respondeu dessa vez, fazendo as duas a olharem surpresa. Enrolou-se na toalha e foi para o quarto, sendo seguida pelas amigas. Enquanto procurava uma roupa disse: - A também está grávida dele, eles estão noivos e vão se casar, morar juntos e ser felizes. - Deu ênfase a palavra também.
- CASAR? – gritou.
- Shiii! Sua louca! Fala baixo. – repreendeu – É, casar. – Vestiu um short jeans e uma T-shirt branca.
- E como você sabe de tudo isso?
- Ah, , ela esteve lá no hospital ontem, me falou um monte de coisas. Me ameaçou.
- Ameaçou? Como assim? – olhava a amiga sem acreditar no que ouvia.
- Hum, bem. – Sentou na cama – Disse que ela custou muito a fazer ele me esquecer, e que isso não ia mudar, mas que se eu tentasse alguma coisa ela acabaria comigo.
- , o que ela pode fazer contra você? Tipo, Nada! - dizia como se fosse algo óbvio.
- Eu sei. Mas eu não quero estragar a felicidade dele. Se ele está tão feliz assim, já está com a vida feita. Quem sou eu pra fazer alguma coisa?
- Como você é burra, amiga! Você é nada mais nada menos que a ...- foi interrompida pela porta que se abria – Ah, , você.
- Ih, acho que não sou bem vindo aqui. – soltou um risinho – Vocês podem nos dar licença um minutinho? – Pediu e viu as garotas saírem do quarto – Como você está? – Voltou-se para a que estava sentada na cama e o fez também.
- Muito bem, obrigada. - Era só o que estava faltando naquele momento. Como não iria contar pra ele? – E você?
- Também. Er... O que aconteceu? Digo, pra você ir pro hospital?
- Anemia. – Falou incerta, mas secamente. Um silêncio tomou conta do quarto. Ficou assustador. Entreolhavam-se. O que ele estava fazendo ali mesmo? Hora de tirar a dúvida – O que você está fazendo aqui?
- Não te contaram? – a olhou surpreso quando ela negou com a cabeça – Quando te acharam na rua, ligaram pra mim.
- E por que diabos pra você, e não pro meu irmão, ou pra ? – perguntou irônica.
- Porque ninguém é vidente nesse mundo, garota, você não tinha documentos, e eu fui a última pessoa pra quem você ligou. – Disse irritado.
- Tentei ligar, você quis dizer, né?
- Ué. O que você queria comigo? Me incomodar? Não sou obrigado a atender. – sentiu aquela frase como uma facada no peito.
- Como você sabia que era eu? Quando te ligaram?
- Sua tatuagem. – Apontou para o pulso da garota.
- Ainda não respondeu por que está aqui, . – sua voz saiu ríspida, após algum tempo de silêncio.
- Você ainda pergunta? – agora tinha um semblante triste – Eu fiquei preocupado.
- Preocupado por quê, ué? Alguns minutos antes eu só queria incomodar, não é mesmo?
- Foi por isso. Você podia querer ajuda, ou sei lá, qualquer coisa do tipo. – Agora ele estava confuso.
- , sai daqui, vai.
- Não. Eu não quero ir. Quero ficar aqui.
- Você não pode ficar aqui. Tem que voltar com a sua noivinha pra NY. – Levantou-se da cama e foi e direção à janela. Era demais – Tem que voltar pro seu emprego, seu apartamento. – Nem ela acreditava nas palavras que dizia.
a olhou com estranhamento.
– Como você sabe?
- Notícias correm, . E rápido.
- Estou vendo.
olhava pela janela, sentia seu coração ser esmagado, ela podia simplesmente sentar ali e contar toda a verdade e eles seriam felizes. Mas ela não faria isso.
- Bom, vou descer. Nos vemos no casamento? – Perguntou receoso, e a viu concordar sem sequer se virar.
Casamento. Tinha até esquecido desse detalhe. Ao ouvir a porta bater, se jogou na cama, não queria passar por aquilo de novo. Não podia sentir aquilo novamente.

Capítulo 13

Dois dias se passaram muito rápido. Felizmente, tinha ido para a casa de com aquela loira oxigenada. A casa estava cheia de parentes e amigos, gente rindo alto e bebendo por todos os cantos. Ava e Mercius formavam um casal tão bonito. Foram feitos um para o outro.
observava o casal de tios ali cumprimentando todos após o ‘sim’, era tão bonito ver que, quando o amor é recíproco, a felicidade é certa. Via as pessoas com sorrisos de orelha a orelha, era ela a única pessoa que não estava feliz ali? Digo, estava feliz pelos tios, mas não por ela. Como poderia estar feliz? Da onde estava sentada podia ver um casal encostado na árvore, sabia muito bem quem eram, mas preferia não acreditar no que seus olhos teimavam em mostrar: encostada na árvore com à sua frente que, por sinal, fazia carinho em sua barriga e sorria bobo. Era triste ver aquilo. Mas o ápice foi quando ela o abraçou e sorriu cínica na direção de .
- Ok, é demais pra mim! – Olhou pra , que estava ao seu lado agarrada em – Vou entrar.
murmurou algo parecido com ‘uhum’ e nem viu que a outra já estava longe. No caminho, percebeu outro casal juntinho. e conversavam ao pé da escada, hum, digamos que muito intimamente. A amiga parecia estar tão concentrada no que os lábios do rapaz diziam, então preferiu não interromper aquele momento e foi para seu quarto.
‘Nada melhor que uma festa na casa pra disfarçar seus males interiores’ Falou sozinha. ‘há! Cara, eu amo minha mãe!’ pegou aquele pote transparente com tampa branca que dizia em letras grandes “Nutella ” e em letras um pouquinho menores, fazendo a alegria da garota “contém 5 Litros”. ‘Mudei de idéia. Nada melhor que isso pra esquecer as coisas!’
Ela não estava louca. Ainda não, pelo menos. A música alta a permitia conversar consigo em voz alta sem que os outros percebessem. ‘Haaaam. Esse aqui!’ Ergue uma caixinha de DVD para o alto como se levantasse um troféu. ‘The Ugly Truth! Não é o momento para chorar! Vamos sorrir com esse Deus grego!’ colocou o filme e jogou-se na cama com o pote de nutella e uma colher. ‘Dude, como esse Gerad Butler é lindo! Puta que pariu!’
- , o que você está fazendo aqui? – entrou no quarto depois de meia hora.
- Amando o Sr. Mike Chadway. – Disse, colocando mais uma colherada na boca – Digo, assistindo “A verdade nua e crua”.
- De novo. – rolou os olhos. – E posso saber o que isso está fazendo aqui com você? – apontou para o balde de nutella.
- Hum... está me fazendo companhia.- Ironia mode on.
-Você só pode estar louca, né? Pensei que Dr. Gwinuve tivesse proibido você de comer porcarias.
- Ah, ! Me deixa vai! Você não estava mesmo acreditando eu ia esperar nove messes pra comer isso, não é? – Falou, com o sorriso mais meigo do mundo em seu rosto.
- Sua irresponsável! É irresponsabilidade atrás de irresponsabilidade, ! Que coisa!
- , não precisa brigar comigo. – Deu pause no filme e olhou o irmão, com uma expressão triste no rosto – Eu já pedi desculpas.
- Como se suas desculpas consertassem seu erro! Pô!
- Que erro? – apareceu na porta com olhar curioso e olhou assustada para .
- Nada, , sai daqui. – o olhou ríspido e ele saiu dali sem dizer mais nada.
- Olha, ... – Seu tom de voz agora era mais calmo – Eu acho que você está fazendo uma besteira muito grande não contando pra ele.
- Eu sei!- baixou a cabeça.
- Ele tem o direito dele, sabe? Imagina como ele vai se sentir quando descobrir. Sim, porque um dia ele vai descobrir.
- Eu prefiro nem pensar nisso, . Mas no momento ele já está se preocupando com os direitos dele em relação a outra pessoa. – Disse, e viu uma expressão de dúvida no rosto do irmão - Você já sabe que a também está grávida? E que eles vão se casar?
- O QUE? – gritou.
- Pois é, eu tive essa mesma reação.
apenas saiu do quarto batendo pé, aparentemente estava furioso. preferiu não pensar no que o irmão havia lhe dito, nunca descobriria nada. Esperava, pelo menos. Voltou a assistir ao filme.

- ! - gritou, vendo o amigo entrar na cozinha.
- Oi . – disse seco.
- Você é louco?
-Não que eu saiba. Por que? – respondeu irônico.
- Você vai se casar?
- Ah. – cara de paisagem. – Vou. O que ser louco te a ver com isso?
A vontade de era jogar toda a verdade na cara de . Mas ele não podia fazer isso.
- Amorziiiiiiiinho! – entrou gritando e foi se pendurar no pescoço de , que fez uma cara de poucos amigos. – Você me abandonou! – fez bico.
- Ah! Me poupe! Que nojo, dude! Esse filhote de cruz credo! – falou e saiu do recinto, deixando embasbacada e um risonho.
Quando acabou o filme, resolveu descer e fazer um social, afinal, já tinha sido bastante deseducado da parte dela ter ignorado a festa e ido assistir um filme! Quando chegou ao andar de baixo, porém, viu que restavam poucas pessoas por ali. e haviam sumido, e coincidentemente (ou não), e também. e não estavam ali, ainda bem. estava deitado no sofá com a cabeça no colo da mãe enquanto recebia um cafuné.
- Que inveja! – Disse, chegando mais perto e rindo da cara de prazer que o irmão fazia – Também quero colinho! – riu.
Sentou-se na companhia dos pais e dos parentes que ainda estavam por ali, estavam debatendo sobre algo importantemente sem sentido. Já era tarde e ela estava cansada. Cansada de não fazer nada, ok. Mas cansada mesmo assim.

Acordou com alguém fazendo carinho em seu rosto.
- ! – Assustou-se ao ver o rosto do rapaz tão perto ao dela.
- Bom dia, ! – ele tinha a cara mais doce.
- O que você está fazendo aqui? – esfregou os olhos para ter certeza de que não sonhava.
- Bem, eu vim me despedir. – agora tinha um semblante triste – Não queria ir embora sem falar com você. De novo.
- Muito gentil de sua parte. – Debochou.
-Hey! – repreendeu-a.
-Ok. Desculpe. – Disse e os dois riram. Era assim que ela queria que fosse. Acordar todos os dias com ele a seu lado, e seu rosto ser a primeira coisa que ela enxergaria na manhã. Sentiu uma tristeza tomar conta de seu corpo. Sabia que, a partir do momento que ele saísse por aquela porta, poderia nunca mais o ter. Lembrou então do que havia lhe dito ‘ele me ama’, ‘Ele te odeia!’. Era difícil admitir, mas estava o entregando de bandeja para outra mulher. Só esperava que ela o fizesse feliz.
- Er... Então... Tchau. – Ele disse se levantando.
- . – Chamou-o.
-Sim? – Ele parou na porta para olhá-la.
-Seja feliz, ok? – Não era aquilo que ela queria dizer. Mas foi o que saiu.
- Você também. – Sua voz saíra com tom de decepção.
Assim que ele saiu do quarto, sentiu uma espada atravessar-lhe o peito. Mas agora estava feito. Não adiantaria nada voltar a trás. Já tinha tomado sua decisão. Ou não. Ainda dava tempo. Saiu correndo em direção a porta, desceu as escadas e viu que todos estavam do lado de fora da casa.
- ! – Gritou vendo-o entrar no carro.
- Oi? – Ele disse meio dentro meio fora do veículo.
- Eu preciso te contar uma coisa antes de você ir.
- Fale então. – Ele disse, saindo de vez do carro.
- NADA DISSO! Vamos perder o avião, amorzinho. – gritou para ele – Além do mais, nada do que ela diga vai ser importante, bebê.
- , fala logo, senão perco o vôo. – pediu.
- ... – tentou encontrar uma forma de dizer aquilo, mas antes que conseguisse a interrompeu.
- , vamos embora de uma vez. Essa mosca morta não quer que você vá embora, é isso. SÓ ISSO. Vamos perder o vôo e você vai se atrasar pra sua reunião com a banda, ou você esqueceu? - A voz de soava cínica e arrogante.
- Caramba, é verdade. Bom , não dá pra esperar. Tchau. – voltou a entrar no carro e ligou o motor.
- Espera! Você precisa ouvir! – Ela gritou novamente, mas ele não a ouviu. Deu partida no carro e foi embora.
sentou na grama em frente a casa com o rosto entre as mãos. Ela tentara, não é mesmo? Foi amparada pelo irmão que estava assistindo tudo.
- Ele vai se arrepender, . – bem que tentou confortá-la – Um dia ele vai se arrepender por não ter te escutado.
- , agora eu quero mais é que ele nunca saiba! – Disse, enxugando as lágrimas – Eu tinha tomado uma decisão, ele jamais saberia, não contaria nem sob tortura. Mas por um impulso, por uma bobice, eu ia contar. Eu ia estragar tudo. Imagina se ele duvidasse, se ele não acreditasse e mim? Ia ser horrível. Mas não... ele preferiu não ouvir. Ele preferiu ir pra vida dele, com as coisas que ele QUER na vida dele. E eu não faço parte desse desejo. Então, agora vai ser melhor assim. Ele não vai ficar sabendo e ponto.- levantou sob os olhares do irmão e continuou – Pelo menos você tá aqui comigo! Assim vai ser mais fácil.
- Eu também acho. – levantou-se também e ambos entraram na casa.

Capítulo 14

andava de um lado para o outro, preocupada. não chegava nunca com aqueles dois. Ele havia saído com Henry e Johny cedo da manhã para levá-los ao parque, mas já era mais de meio dia e eles não apareciam e não atendia o telefone. Odiava isso no irmão, tinha telefone pra quê, caramba? Nunca atendia. Ouviu a capainha tocar e, num movimento súbito, abriu a porta.
- Ah, são vocês! – Disse, sem disfarçar a cara de decepção.
- Boa tarde pra você também, amiga. – riu, imaginava qual seria o problema.
- Desculpe.
- Hey, o não voltou ainda? – entrou, dando beijinhos na que estava de pé em frente a porta, e a viu negar com a cabeça – É por isso esse seu mau humor? – perguntou, com medo de apanhar.
- AH, , vai te catar! – Riu, bateu a porta e voltou pro sofá.
- , seus filhos estão com o , relaxa.- veio da cozinha com cervejas na mão e sentou-se no sofá ao seu lado – Daqui a pouco eles estão por aqui.
A verdade era que ela não precisava realmente se preocupar. Os meninos estavam com , e ele era ótimo com eles. Digo, daria um bom pai. Se ele estivesse interessado nisso. Mas não era o caso, uma vez que ele tinha uma banda com seus melhores amigos, e filho agora não estava em questão, já lhe bastavam os sobrinhos. Sim, é isso mesmo. , , e formavam uma banda de Pop/Rock muito conhecida em Londres. Seu nome era “The Guy’s”.
Quando foi embora, não deixou somente para trás, deixou seus amigos e sua bandinha de garagem para se tornar um empresário de uma banda famosa em NY. O que ele não imaginava era que a bandinha de garagem ia ficar famosa SEM ele. Enquanto sua banda, era, digamos, apenas conhecida. Mas nem por isso ele voltou. Na real ele não viera pra Londres desde que se mudou, nem de passagem ele veio. Isso, de certa forma, deixava um pouco aliviada. Sabia que a qualquer momento ele poderia aparecer ali e dar uma volta na vida dela. Sim, ela sabia disso. E sim, ela temia isso. Por quê? Ah, só porque Henry tinha a cara dele? E Johny seus trejeitos? Não. Os dois eram a exata cópia do . No momento que o dito cujo olhasse para os meninos, saberia. Pelo menos era o que lhe dizia todos os dias. Não só ele, mas os que sabiam quem era o pai. Por falar nisso, essa parte da história foi bem complicada. Todos queriam saber por quê uma adolescente de 19 anos estava grávida sem sequer ter um namorado. As más línguas falaram até em vadiagem. Elas falavam de tudo, na verdade. O período da gravidez teria sido horrível se ela não tivesse seus amigos e seu irmão junto. Teria sim, imagine como é ruim ficar ouvindo pessoas cochichando e apontando quando você passa? E você sabe exatamente sobre o que elas estão falando? Quando os meninos nasceram, bem que tentou se mudar para o Brasil com eles, ir morar com os pais, certamente seria muito bom naquele momento. E nunca os descobriria. Por razões legais, porém, ela ficou na Inglaterra. Às vezes se pegava pensando nele como pai. Pai de um filho de .
Só de pensar nela, já sentia um mal estar percorrer seu corpo. Aquela zinha! Quando eles se casaram, ela usava um vestido lindo e exibia uma barriguinha, segundo , mas nem isso a deixou bonita. estava um Deus, segundo ela, também. É claro que não tinha ido. Por motivos óbvios. Jamais iria ao casamento dele com OUTRA mulher que não fosse ela, e mesmo que fosse, também já tinha aquela barriguinha que não era tão “inha” assim, imagina a cena! tinha ido só por obrigação. Desde que foi embora, ele havia alimentado um ódio do amigo. Talvez por todas as vezes que viu a irmã chorar sozinha no quarto, ou pelas vezes que viu nos sobrinhos o “amigo”, ou também pelo primeiro dia na escolhinha.

*Start Flashback*

- Hey, meus amores, estão contentes?- arrumava o uniforme dos filhos.
- Humhu! – Henry balançou a cabeça e o irmão fechou a cara.
- Eu não!
- Por que não, Johny? – sentou-se na frente do garotinho que tinha os braços cruzados no peito e fazia cara de mau.
- Porque não, mãe! – Ele respondeu resmungando. Tinha apenas três anos e já falavam direitinho.
- Não nega que é filho do pai dele, heim?! – entrou no quarto e viu a cara de poucos amigos da irmã.
- Haha, engraçadinho.
- Vem cá, meu garotão. – puxou o sobrinho mal humorado – Vai ser legal! – Então ele puxou Henry – Vou estar com vocês lá!
- E a mamãe? – Johny perguntou, ainda bravo.
- Também vai, né, mamãe? – olhou para , que estava sentada no chão os observando. Sabia que ela deveria trabalhar. Mas ela não negaria isso aos filhos de forma alguma.
- Sim! É claro que eu vou! – levantou e começou a pular e a gritar enquanto dizia: - Nós vamos conhecer amiguinhos novos! – Falava como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. (E é né?) E fazia os filhos rir.
- E vai ter um monte de gatinhas lá! – falou empolgado e viu o olhar reprovador de em cima dele – Ok, ok. Vamos! - Levantaram-se e foram para a creche.
- Tio, o que são gatinhas? – Henry perguntava, já sentado em sua cadeirinha no carro.
- Viu o que você fez? – olhou pra , indignada – Agora responde, né?!
- São meninas bonitas. – Ele respondeu rindo, e o garotinho fez cara de que não tinha entendido mesmo assim.
- Vocês são a mãe e o pai? – A professora recepcionou e na entrada da escolhinha, e cada um estava com um dos meninos no colo.
- Não, não. – soltou Johny no chão – Sou tio dos meninos. – deu um sorrisinho amarelo. também soltou Henry e olhou triste para . Aqueles eram os momentos mais difíceis. A mulher percebeu a situação e não falou mais nada.

Houve várias brincadeiras de entrosamento entre as crianças e os pais (e tio), e, na hora de ir embora, Johny não queria ir de jeito nenhum, fez prometer que o levaria no dia seguinte.
- , deixa que eu dou banho nos dois. Vai fazer nosso jantar. – Ele parecia ter percebido a tristeza da garota.
Ela apenas murmurou um ‘uhum’ e foi em direção à cozinha.
- Tio, por que você não é meu pai? – Henry perguntou enquanto brincava com a espuma dentro da banheira.
- É! Por quê? – Johny concordou com o irmão.
A princípio, ficou sem reação àquela pergunta, mas ela devia ser respondida, certo?
– Bom, porque eu sou o tio! Se fosse pai, não seria tio! Não é mesmo? – Falou a primeira coisa que lhe veio em mente, mas os dois ficaram-no olhando com cara de interrogação.
- E quem é o nosso pai? – Johny perguntou, com cara de que não sabia o significado da palavra pai.
- Hum... bem... er... o pai... amm... – Ele definitivamente não sabia o que dizer. – Ah! Não quero conversar! Quero brincar! Vou entrar aí com vocês! – Ele jogou espuma nos meninos e tirou a roupa pra entrar com eles. Divertiram-se demais. Nenhum dos dois voltou a perguntar aquilo. Não naquele dia.

*End Flashback*

sempre foi muito amigo de . Era médico, jovem, bonito, e . Foi ele quem fez o pré natal e o parto dos meninos. Há alguns anos ele tinha ido fazer a faculdade e a pós em Dublin, e assim que voltou, sua primeira paciente o fez reencontrar velhos amigos.
e ficaram tão íntimos que acabava sempre rolando “algo a mais”, se é que me entende. Até o dia em que eles começaram a namorar. Com total apoio de todos. Além do mais, ele amava Henry e Johny como se fossem seus filhos. E quase eram, né? Ele os viu nascer, literalmente. Bem, essa aproximação fez com que o convidasse a entrar pra banda. E ele aceitou, claro. Simples assim. Era muito bom no que fazia. Digo, em tudo. Era bom médico, bom , bom namorado e, principalmente, bom amigo.

- Mãããããããããããe! - Despertou de seus pensamentos ao ouvir aquele grito invadir a sala.
- Hey, meus amores! Que sujeira, hein?! - Olhou para , que parecia mais sujo que as crianças – Vocês demoraram!
- Ah maninha, relaxa! Eles estavam se divertindo tanto que eu fiquei com pena de trazê-los de volta.
- Hum... vai dar banho neles agora? Depois precisamos combinar sobre o almoço de amanhã.
- Falando nele, o almoço tá pronto? – fez cara de faminto e depois riu – Ok, ok. Vou dar banho neles e já descemo. – Dizia, a caminho da escada.
- Viu? Seu filhos estão inteirinhos!
- Ah, , quando tu tiver os teus, tu vais entender.
- Tiver o quê? – perguntou, chegando junto delas.
- Filhos, .
- Ih! Nesse momento eu me retiro do recinto? Filhos? Não... já basta o Henry e o Johny nessa nossa grande família, né amor? – Deu risada – Vou ajudar o com eles, falando nisso. – Deu um beijo no topo da cabeça de e saiu.
- , que almoço que tem amanhã? – perguntou depois de um tempo.
- Ah, o quer “desopilar” a vida e hum... comemorar os dois anos do primeiro show da banda.
- Ah sim! Como me esqueci disso? O fala o tempo todo que “os dois anos estão chegando e eu nem acredito”. – Imitou a voz de e as duas riram – E falando em “desopilar a vida”, tu vais hoje à noite?
- Não sei ainda. É provável que não. Não queria deixar os meninos em casa.
- Mas tem a Lucy. Ela fica com eles. – Lucy era a vizinha que viu e crescerem e sempre ficava com os meninos.
- Mas... a que horas é o show mesmo? – Disse, dando-se por vencida.
- Não sei, mas é cedo. Vamos, amiga! Você nunca negou uma festa! Nem depois que eles nasceram!
- Ah! Não sei! Eu penso nisso mais tarde!
- Mãe, o tio jogou água no tio lá no banheiro! – Johny apontou pra , que tinha uma expressão de criança culpada.
- É! E o tio jogou nele de volta!- Henry apoiou o irmão.
- Meu Deus! Será que somos as únicas adultas nessa casa? – olhou pra , que só ria - Garanto que encharcaram todo o banheiro! – Disse, com as mãos na cintura.
- A gente secou! – e disseram juntos e caíram na risada.
- Mãe, tô com fome! – Johny colocou a mão na barriga.
- Vamos almoçar então, né? – pegou o filho no colo e foi pra cozinha, seguida dos amigos e Henry.
- Amor, a não quer ir no show! Prontofalei! – disse para , recebendo um olhar reprovador da outra.
- Mas por quê? – Ele olhou pra ela, incrédulo.
- É, por quê? - reforçou.
- Por causa dos dois. – respondeu antes da amiga.
- Ah ! Leva eles! O show é cedo, eles vivem pedindo pra ir assistir a gente! – pediu.
- , como eu vou cuidar de duas crianças no meio do bar lotado? Com aquelas fã enlouquecidas? Elas vão matar meus filhos!
- Ah, ! Deixa de ser chata! Eu e a vamos estar lá, a gente ajuda com eles.
- E vocês ficam na área reservada, né? – colaborou.
- É. Tá decidido. Vocês vão e pronto! – falou, colocando uma garfada na boca.
- Mas e se eu não quiser ir? Vocês vão me arrastar?
- Não. Você fica em casa chupando o dedo e a gente leva o Henry e o Johny. Que tal, meninos? – perguntou e os dois festejaram.
- Tá bom então, né? – Deu-se por vencida e o assunto encerrou.

Capítulo 15

- , que tal esse vestido? – entrava no quarto de .
- Muito curto!
- ! Eu não tenho mais idade pra ser controlada, certo?- Repreendeu o irmão e ajudou-o com as mangas da camisa.
- Eles já estão prontos?
- Sim, estão lá em baixo esperando a gente descer. Eles não perdem essa mania de ficar usando as mesmas roupas, mas com cores diferentes!
- É genético, meu amor! – debochou da irmã. - Ah, vai te catar! Desce de uma vez, vou terminar de me arrumar. – Saiu do quarto do irmão e foi em direção ao seu, ainda precisava dar uma ajeitada no cabelo e fazer uma maquiagem básica. Usava um vestido verde musgo sem alças, bem preso ao busto e solto a partir dele. Não era tão curto, é que era exagerado. Resolveu deixar os cabelos soltos, era mais natural.
Ao descer, encontrou no sofá com os meninos. Ambos de calça jeans e tênis, com uma camisa social de mangas compridas dobradas até o cotovelo. Johny vestia uma preta e Henry uma vermelha. Que mania!
- Vamos?
Aquele lugar estava realmente lotado e não estava com muita paciência para ficar conversando com as fãs enlouquecidas.
- Hey, grandão! – apertou as bochechas de Henry.
- Hey, tio! – O garoto pulou no colo da mãe.
- E você ,garanhão? – falou com Johny, que se ria todo no colo de Ana.
- Iou, tio! – Johny arrancou gargalhadas de todos que estavam por ali.
- Ah, ! Olha o que você fez com meu filho! Tá falando como um mano do gueto! - estava indignada.
- Ah! Cala boca! – repreendeu a amiga, que fez bico.

Foram para a área VIP, onde havia mesas reservadas.
- Só tu mesmo pra me arrastar até aqui.
- Ah, ! São os meninos ali, sabe? É seu irmão! Seus dois amigos! E seu namorado! Como tu não viria? – falava como se aquilo fosse óbvio (e era, né?) e fez a amiga “lembrar” que tinha esquecido o próprio namorado. Fazia uns dias que não falava com ele.
- Tá bom! Tá bom! Estou aqui, não estou? Chega de sermão! – Respondeu, emburrada.

Era tão bom ouvir as músicas deles. Não eram uma banda famosa, mas eram bons e tinham muitas fãs! E elas cantavam enlouquecidamente com os pulmões cada simples trecho das músicas. Era incrível assistir aquilo.
- Mãe.- Johny puxou a manga de sua blusa.
- Fala, meu amor.
- Quero ir no banheiro.
- Vamos lá então. – Levantou-se e aproximou-se de Henry – Vamos no banheiro, quer ir também? – Ao que o garoto negou enquanto balançava a cabeça e as pernas no ritmo da música – Amiga, fica de olho nele pra mim? – Perguntava, enquanto Johny a puxava choroso – Calma filho, estamos indo já!
- Tô apertado, mãe! – Disse bravo.
pegou o filho no colo e foi para o maldito banheiro.
- No de menina não, mãe!
Estava o ajudando a fechar o zíper da calça quando ouviu uma voz estridentemente conhecida. Não! Não podia ser ela! Saiu do banheiro às pressas com Johny no colo. Mas não dizem que a pressa é inimiga da perfeição? Ela esbarrou em alguém ao sair. Não, não foi alguém, foi . Sim, ela esbarrou em .
- ?! - Ele perguntou surpreso.
- ? – Ela reagiu da mesma forma e ele soltou um risinho ao ver perceber que ambos tinham uma cara de espanto – O que você está fazendo aqui? – Ainda estava incrédula.
- Estou esperando a . – Sim, então tinha sido mesmo a voz de que ela ouvira lá dentro. – E esse rapazinho, quem é? – Perguntou, fazendo cócegas no garoto, que respondeu rindo alto:
- Meu nome é Johny!
não esperava por aquilo. Não pensava que encontraria tão cedo. Não mesmo! Muito menos com sua mulher.
- Tchau ! – Saiu sem nem esperar que ele dissesse uma palavra sequer. Foi ao encontro das amigas, pegou sua bolsa e chamou Henry.
- Vem, filho, vamos embora.
- Ah, mãe! Eu quero ficar! – Ele disse, quase chorando.
- Mas já? – perguntou.
- É, . Vamos Henry! – Falou um pouco nervosa, e o garoto apenas a acompanhou.
- Mas o que aconteceu, ? – perguntou, mas não obteve resposta. Só viu Johny levantar os braços e entortar a boca, como quem diz “também não sei!”.

- Mãe, eu queria ficar lá com o tio ! – Henry disse quando eles desciam do táxi para entrar em casa.
- Eu sei, meu amor. Mas já está tarde e, além do mais, daqui a pouco ele está em casa, tá? – Tentou ser o mais convincente possível, os filhos não precisavam pagar o preço, certo?
- Eu posso esperar ele acordado?
- Hum... depois de tomar banho e comer alguma coisa, posso pensar no seu caso...

O garoto fez uma expressão divertida, e então banhou os dois e deu janta. Sabia que nenhum deles aguentaria esperar acordado. E estava lá, provavelmente eles demorariam muito mais para voltar. Quando estava jogada no sofá da sala enquanto os filhos assistiam algo como Toy Story na televisão, seu celular tocou. Eram duas mensagens.

“Hey lindinha, porque saiu correndo?
Nem conseguimos nos ver! Está tudo bem?
Xx


Sorriu ao lembrar do quão carinhoso o namorado costuma ser. Era tão atencioso!

“ Não acredito! Quando vi a sua cara de quem
viu fantasmas fiquei puta. Mas quando o vi entendi.
Se precisar,é só ligar!
Xx


A noite não terminara ali. Aquele encontro lhe renderia muitos pensamentos. Muitos medos! Seu pesadelos viriam a tona. Ótimo!
- Alô? – Tentou espantar aquilo da mente.
- ! – disse preocupado – Você tá bem? Depois que eu o vi entendi tudo. Ele não tinha o direito e...
- , fica calmo. Eu tô bem. – mentiu – Só fiquei nervosa quando o vi e não soube reagir. Preferi vir pra casa. E ele tem todo o direito né?! O bar é público.
- Ele podia ter avisado. – sua voz saiu indignada e instalou um silêncio – Quer que eu vá pra aí?
- Quero. – Fez voz de criança. Seria bom ele ficar com ela ali. Era uma ótima companhia.
- Estou indo!
Alguns minutos depois ele já estava ali. Ajudou a colocar Henry e Johny na cama e, depois de tomarem banho, deitaram-se na cama.
- Ele não devia estar aqui. – falou com a cara enterrada no peito do garoto.
- Eu sei. – olhava o nada enquanto acariciava os cabelos dela – Todo mundo ficou surpreso quando ele apareceu ali. O então, nem preciso falar. Quase deu na cara dele. – soltou um risinho - Mas o impediu. – falou divertido e a fez rir – Ele insistiu em saber quem era a criança em seu colo.
- Ninguém contou a ele, né?
- Até o momento que eu saí de lá, não. Mas eu tive a impressão de que o pularia no pescoço dele cuspindo toda a verdade a qualquer momento.
- Sempre tive medo da reação dele quando se encontrassem. Ele parece mais ressentido que eu.
- Como vai ser se ele vier amanhã?
pensou, pensou, pensou e pensou em todas as possibilidades de fugir daquele almoço. Ir para bem longe. Não, mandar para bem longe com aquela loira de farmácia.
- Eu não quer vê-lo, ! – colocou as mãos no rosto.
- É inevitável, . Você sabe! – Disse, acariciando suas mãos.
- Eu sei! Mas eu não quero.
- Amanhã a gente pensa, tá? Quando a gente, acordar decidimos o que fazer. - Ela balançou a cabeça afirmativamente e voltou a deitar ao lado do rapaz, que a abraçava com carinho.

Capítulo 16

abriu os olhos ao ouvir vozes. Viu sentado na cama conversando baixinho com Henry.
- Viu, ó! Ela acordou! – Henry disse, botando a língua para .
- Bom dia, meus amores!
- Vamos pra piscina, mamãe?
- Vai descendo que eu já vou, tá? – Deu um beijo no rosto do garotinho – Mas me espera pra entrar! - e o viu sair correndo – E agora? – Olhou para com os olhos cheios de lágrimas.
- Vem cá. – Puxou-a para perto – Eu sei que já disse isso, mas você sabe que uma hora ou outra vai ter que fazer isso, né? Digo, não vai poder esconder esses dois dele pra sempre! - Depois de um longo suspiro, levantou-se, deu um beijo no namorado e entrou no banheiro.
“Ah meus deus! E agora?” sentou no chão do banheiro com a mente em turbilhão. “O que eu vou fazer? Não, o que ele vai fazer? Só digo ‘olá , esses são seus dois filhos?’ NÃO! Se ele puder não ficar sabendo, eu agradeço. Mas é direito dele, certo? Certíssimo, mas não vai! Não vai! E não vai!” Entrou no banho, deixou que a água quente caísse por seu corpo. Aquela sensação de estar prestes a se jogar num precipício não era agradável, e a água a fazia esquecer um pouco daquilo. Fechou os olhos e deixou que algumas lágrimas de desespero percorressem seu rosto, talvez houvesse mais motivos para se preocupar. A felicidade dos filhos? Seria justo com eles privar-lhes de ter um pai? Mesmo que um merda de pai? Valeria a pena correr o risco de piorar a situação? O fato daquele sentimento chamado amor ainda estar guardado dentro dela era preocupante. Mesmo que adormecido e ferido pela mágoa e ressentimento, estava lá. É. Era muito motivo para se preocupar.
- ? – Ouviu a aquela voz amiga e sorriu instantaneamente – Tu tá bem?
- ! Que bom que você tá aqui.
- É né... eu também faço parte dessa comemoração. Se não fosse por nós, esse primeiro show não teria saído! – divertiu a amiga, mas logo sua voz saiu em tom receoso – Você sabe quem está lá embaixo, não é?
voltou a fechar os olhos e fez um sinal positivo com a cabeça.
- E sabe que a mulher dele está junto, não sabe? – continuou, e ela repetiu o gesto, dizendo debochada:
- No mínimo o filhote deles está junto e brincando com os meus filhos! – Puxou a toalha e começou a se secar, quando viu a expressão nervosa que a amiga tinha no rosto – O que foi, mulher de Deus? Pra que essa cara?
- , cala a boca e vem aqui. – conduziu-a até o quarto e sentaram-se na cama. – Não existe “filhote” nenhum.
- Como não, ? Tu mesmo disse que ela já tinha barriga no casamento.
- E tinha. Ele... – simplesmente não conseguia falar.
-, tu tá me assustando.
- ... o bebê... ele... ele nasceu morto. – falou triste.
- Como assim nasceu morto?
- Sei lá, ! Nasceu morto e pronto.
- Calma amiga. Você tá nervosa. O que aconteceu?
- Ontem, depois que você foi embora, o me chamou e ficou me fazendo muitas perguntas sobre quem era o garotinho que estava lá e, quando eu perguntei onde estava o filho dele, ele ficou muito abalado e me contou. Aí agora, quando ele chegou e viu os dois correndo no jardim com o , ele abraçou a e disse “ Será que nosso filho seria lindo assim?”, e ela respondeu “ Não. Nosso filho seria muito mais!”. Eu vi tudo. Foi muito ruim pra mim ver isso, . Ela sabe de tudo todo esse tempo, e ela esconde isso dele! Como ela consegue viver com isso?
- Amiga, as pessoas más pagam o preço por serem más. Algumas nem sentem muito.
- Só pode ter sido castigo!
- É! Isso aí!
- Mas me diz, decidiu o que vai fazer?
- Ah, amiga, vou deixar rolar por enquanto. De repente ele vai embora logo e não desconfia.
- E se não for?
- Não sei, . Já tô fazendo o maior esforço pra sair desse quarto e olhar pra cara dele. Pra sequer ficar no mesmo ambiente que ele sem levantar suspeitas.
- Ok. Falamos disso depois, certo? Agora temos que nos concentrar e fazer dar certo.
As duas começaram a rir e levantou-se para trocar de roupa.
- Tá muito quente? Muito frio? – disse, olhando para o armário.
- Depende. Muito quente para roupas de lã e muito frio para andar pelada por aí. – disse, rindo da sua própria frase.
- Hum... e para este biquíni roxo com esse vestidinho lilás? – mostrava as roupas como se tivesse uma decisão difícil.
- Contando que eu tô de biquíni preto, esse shorts jeans que é seu, por sinal, e essa blusa preta que você me deu... - fez uma expressão pensativa - Acho que está ótimo!
Decidida, e vestida a roupa, penteava os cabelos quando ouviram uma gritaria, e entrou correndo no quarto.
-!
- Que foi, ? Que gritaria toda é essa lá em baixo? E porque você está todo molhado? – perguntou assustada.
- , o Henry se afogou. – disse ofegante, e passou correndo por ele. Ao chegar no jardim, viu uma cena de cortar o coração. Henry estava enrolado em uma toalha, chorando muito, no colo de , que também estava muito molhado, por sinal. Sim, ele mesmo.
- Henry! – Disse, chegando perto do filho.
- Mamãe! – O garotinho desesperado agarrou o pescoço dela com força.
- O que houve, meu amor? – Disse, pegando-o no colo, mas ele não conseguia responder, só chorava e soluçava.
olhou para , que parecia muito desnorteado, e repetiu a pergunta.
- O que aconteceu, ?
- Eu não sei... – passou a mão pelos cabelos – Eu estava vindo lá de dentro e vi ele ali, e pulei. – disse, meio nervoso.
Ela virou as costas e saiu andando com o filho, que agora soluçava baixinho, no colo. Ao passar por , perguntou :
- Cadê o Johny?
- Tá lá dentro brincando com o . Ouvi essa gritaria toda e vim ver o que era. O que aconteceu?
- Pede pro explicar. E pede pro subir.
- Como assim? – ficou com uma expressão confusa, mas a irmã não respondeu, apenas subiu as escadas e foi para o quarto.
- Pronto meu filho. Vamos tirar essa roupa molhada e tomar um banho gostoso de banheira? – Perguntou, e o viu negar com a cabeça – Ué, por que, meu amor?
- Banheira não. – o pequeno respondeu entre soluços
- Tá bom então. Vamos só trocar de roupa, tá?- Olhou para o filho, que assentiu com a cabeça.
tirou a roupa molhada do menino, secou-o e colocou roupas secas.
- Quer me contar o que aconteceu? – colocou-o, deitado na cama.
- Eu não sei, mamãe.
- Como não sabe, filho? - Ela perguntou e o menino voltou a chorar – Henry, não precisa chorar, eu não vou brigar contigo.
- Eu tava caminhando naquela coisa azul, em volta da piscina, e caí.
- E não tinha ninguém lá com você?
- Só aquela tia.
- Que tia?
- Aquela que tem cabelo amarelo.
pensou e bufou.
- Mas agora já passou, tá? – Passou a mão pelos cabelos do filho e ele fechou os olhos. Ficou ali acariciando o cabelo do menino, que agora parecia mais sereno.
- ? – olhou imediatamente para a porta de seu quarto quando ouviu.
- Oi.
- Como ele está? – chegou perto da cama.
- Está bem, agora.
- Que bom. – ele olhava para o garoto com uma cara estranha – Você chamou ele de Henry, né? – perguntou, e a viu balançar a cabeça como se fosse óbvio – Mas não era Johny? – falou confuso.
- , Johny é o irmão dele. – respondeu sem desviar o olhar.
- Mas eles são iguais.
- . – ela olhou pra ele com cara de poucos amigos – Se for só isso, você pode descer e nos deixar em paz?
Ele sentou ao lado do garoto na cama com cuidado e, depois de um tempo em silêncio, perguntou:
- Ele contou o que aconteceu?
- Ele tava caminhando na borda da piscina e caiu.
- Mas ele tava sozinho, lá?
Ela pensou duas vezes antes de responder, mas olhou pra ele e disse bem séria:
- Não. A estava lá.
- A ?
- Sim. – Respondeu seca, e o viu levantar e sair.
- Amor?
- !
- O me contou o que aconteceu. Ele tá bem?
- Sim.
- Por que o saiu daqui com uma cara enfurecida?
- Eu contei que a mulher dele deixou meu filho cair na piscina e não fez nada.
- O quê?
- É. Isso mesmo. – Ficaram um pouco em silencio e puderem ouvir vozes altas vindas do primeiro andar.
- Como foi esse reencontro? – sentou ao lado dela na cama e pegou sua mão.
- Não consegui raciocinar ainda. Parei quando vi meu filho no colo dele. Ele tentando acalmar o Henry, e ele tava bem nervoso. Foi desconcertante.
- Eu imagino. Você pediu pro me chamar?
- Sim, pra você dar uma olhada nele. Será que precisa levar pro hospital?
- Deixa eu ver.
levantou e deixou que o namorado cuidasse do menino. As vozes altas continuavam no andar de baixo. Parecia que tinha alguém discutindo.
- Ele tá bem, . Agora é só cuidar pra ver se vai mudar alguma coisa, aí tem que levar no pediatra, tá? – Ele chegou perto e abraçou-a com carinho – Vamos descer? Seu outro filho quer saber o que está acontecendo.
pôs um lençol sobre o filho, apagou a luz do quarto e desceu com .
- Mãe! – Johny veio correndo e pulou nela.
- Oi meu pequeno.
- Cadê o mano?
- Tá dormindo lá em cima. Viu porque não pode ficar lá sem a mamãe? – O menino apenas balançou a cabeça serelepe.
- Vou voltar pra brincar com o tio , pode?
- Pode meu amor.
- Tô com fome, .
- Daqui a pouco sai o almoço, . Vem, vamos lá com as pessoas.
Sentaram-se no sofá na companhia dos amigos, enquanto dedilhava alguma coisa no violão.
- ! – gritou da cozinha.
- Eu? – respondeu sem se mexer.
- Tira essa bunda gorda do sofá e vem ajudar no almoço! - A amiga gritou e fez todos na sala rirem.
- Eu vou antes que ela venha atrás de mim com uma faca! – falou baixinho para só os que estavam próximos ouvissem.
- Tu ouviu o que ele disse? – perguntava baixo para .
- Ouvi em partes, eu estava quase dentro daquele armário procurando a pimenta.
- Quem ouviu o que quem falou? – entrou na cozinha, se intrometendo na conversa das amigas.
- O que o falou. Como está o Henry? – perguntou, temperando o strogonof.
- Tá bem, dormindo agora. O que o falou? – perguntou, provando a comida que estava na panela.
- Ué, muito interessada? – provocou a amiga e recebeu um olhar reprovador.
- Eu não sei o que aconteceu direito. – começou, sentando no balcão de frente para a amiga, que sentava ao seu lado – Ele desceu as escadas chamando pela .
- E ele tava bem irritado. – Interrompeu .
- É, bem nervoso. Ela veio lá da rua, onde ela tava bem deitada na espreguiçadeira, com um copo de cerveja na mão...
- E com o sorriso mais cínico do mundo. – completou, novamente, , fazendo as outras duas rirem.
- É verdade, e põe cínico nisso. Bem, ele começou a gritar com ela, dizendo que ela era uma irresponsável, que ela era má e não tinha esse direito, que podia ter acontecido alguma coisa muito ruim a ele. – fez uma pausa.
- E daí?
- E daí, , que ele disse uma coisa terrível. – respondeu.
- E que coisa terrível que ele disse pra aquela vaca loira que ela não tenha merecido? – olhou séria pra amiga.
- Ele disse que talvez Deus tenha tido razão em ter tirado o filho deles, porque ela seria uma péssima mãe. – respondeu, e fez com que o queixo de caísse.
- É, realmente é terrível, mas é a mais pura verdade. – respondeu meio seca depois de alguns segundos.
- Ai ! Coitada dela. O que ela te fez?
- Como assim, ? Coitada? Tadinha, o que será que ela fez? Não bastasse ela esconder do marido dela que ele tem dois filhos, ela quase matou um deles!
- HÃ? – e perguntaram juntas, olhando sérias para a amiga. suspirou fundo e respondeu.
- Ela estava lá quando o Henry caiu na piscina. E não fez nada quando viu ele se afogando.
Nenhuma das três disse uma palavra no que se seguiu. ficou olhando pro chão e as outras duas se entreolhando. Por um bom tempo o silêncio predominou, até que entrou na cozinha aos berros com Johny no colo.
- EU QUERO COMIDA! – gritou.
- É! EU TAMBÉM! – Johny seguiu.
- Eita, temos mais um bebê na casa! – foi até os meninos.
- Está quase pronto. Mais cinco minutinhos e já vai estar na mesa, ok?
- OOOOOOOOKAY! – os dois gritaram juntos e saíram da cozinha.
- O que aconteceu depois que eles discutiram? – olhou para , que separava pratos e talheres.
- Ele saiu batendo a porta e ela foi atrás.
- Que morram! – pegou os pratos da mão da amiga e foi pôr a mesa.
Alguns minutos depois estavam todos almoçando. propôs um brinde e começou a falar:
- Bem, eu queria agradecer a todos vocês por estarem comigo desde sempre. Por me apoiarem sempre que precisei, por estarem sempre com a banda. Um agradecimento especial eu queria fazer pra , bem, acho que eu posso falar né? – olhou para os lado e fez todos rirem, inclusive a irmã – Mana, obrigado por ter me dado esses dois presentes, eles não são meus filhos, mas são como se fossem. Eles me ensinaram tudo que eu ainda não sabia, e com certeza, me ensinaram que o simples é, na maioria das vezes, muito mais gostoso. Eles transformaram a minha vida, me trouxeram uma responsabilidade que não era minha, mas que eu peguei pra mim como se fosse a coisa mais importante do mundo. E... bem... obrigado mesmo por ter me mostrado como se reerguer depois de um tombo. Mesmo quieta lá no seu canto, sofrendo sozinha, tentando não passar isso nem pra mim nem pros meninos, a gente sempre soube o que tava acontecendo, e sabia o motivo. Mas a dor era só sua. Hum... Acho que esses anos de amizade, de banda, de vida, foram excepcionais. É maravilhoso ter amigos assim como vocês. Ter uma família assim como vocês. Porque sem isso, eu acho que hoje nós não estaríamos aqui. Nem tendo duas quase formandas... – apontou pra e – Nem uma banda... – apontou para si e para os meninos – Nem duas crianças. – olhou para Johny, que não prestava atenção no que ele dizia – Enfim, não seríamos nada. Não teríamos dado o primeiro passo. O primeiro show. E eu nem acredito que hoje faz dois anos! A nós!
Assim que terminou de falar eles brindaram. limpou as lágrimas que teimavam em cair por seu rosto. Não era o momento de chorar.
Todos no clima de festa, emoção e felicidade. , claro, era uma exceção. Não podia estar feliz com aquela situação. Estava contente pelo irmão e pelos amigos, pela banda em si. Mas sua vida, naquele momento, não era digna de felicidade. Ela poderia desmoronar a qualquer momento sem aviso prévio. Aí sim, seria o inferno.
e foram escalados para lavar a louça. Foi, digamos, no mínimo, engraçado. Era água, espuma, e pratos voando.
- Nunca mais deixo duas crianças lavarem a louça na minha casa! – disse, rindo ao ver a bagunça que os amigos faziam.
- Na próxima é você que lava, então! – disse, o fazendo rir.
- Mãe, por que o tio tem que lavar a louça? Ele não pode ir brincar comigo?
- Porque tem, meu amor, um dia você vai crescer e vai ter que lavar a louça também! – colocou o filho no colo e ele fez careta ao ouvir o que ela dizia.
- Quando o mano vai acordar?
- Hum... não sei. Deixa ele dormir, ele tá dodói.
-Ah! – Johny fez beiço e deitou no colo da mãe.
- Olha quem tá descendo! – gritou, assustando o menino que quase dormia.
- Mano!
descia com Henry nos braços. O menino tinha o rosto todo amassado do travesseiro.
- Hey, meu pequeno. Dormiu bem? – perguntou ao o menino, que respondeu com a cabeça.
- Tô com fome, mãe!
- Novidade, hein?! – Ela pegou a mão do garoto e levou-o para a cozinha, sendo seguida por Johny e .
- Não nega, né? – observava os meninos que estava na mesa da cozinha conversando sobre algum muito animado.
- Nega o quê? – pareceu sair dos seus pensamentos ao ouvir o namorado.
- Que são filhos do pai deles. – Respondeu meio rindo. Ao que ela fechou a cara olhando pra porta.
- E quem é o pai deles? – Aquela pergunta soou como uma facada no coração. Não podia ser possível. Ninguém precisava daquilo, certo?
- Ai , como você é indelicado, meu amor. – chegou atrás dele o abraçando. Agora o circo estava completo, com direito a palhaços e tudo.
- É , como você é indelicado. – enfatizou a frase, com uma dose de ironia.
- Você cala a boca, . – olhou pra ela, que fez beiço.
- É, sai daqui, não era nem pra você estar dentro da minha casa. - perdeu o controle e recebeu olhares de todos que estavam na cozinha.
- Calminha aí, essa casa não é só sua. – usou seu tom mais superior.
- Não? É do meu irmão também? Tenho certeza que ele não vai se importar se eu te pôr pra fora daqui pelos cabelos. – Cada palavra saía com um ódio que dava medo.
- Calma, . – chegou na frente da namorada, que estava tremendo.
- , o que houve pra você ficar assim, tão nervosa? – chegou perto dela.
- E você, sai daqui também. Você nunca devia ter voltado! – Agora foi a vez de a defender – Pega essa vagabunda, - apontou pra , que ainda estava estática na porta – e some daqui. – A essa altura já estavam todos assistindo a cena.
- O que é isso? Vai defender a princesa agora? – pareceu se ofender.
- Vou, ela é minha namorada e vocês não são bem vindos aqui.
- Fale por você, e não pelo dono da casa! – reprimiu-o.
- Então deixe que o dono da casa fale, . – entrou na cozinha – Você não é bem vindo aqui! – Todos, inclusive , olharam para , que estava realmente bravo e com uma expressão muito séria.
- O quê? – perguntou atônito.
- Você ouviu , FORA! – gritou e fez com que os sobrinhos começassem a chorar.
virou as costas e, a cada passo que ele dava para fora da cozinha e, posteriormente, da casa, fazia estremecer. Não sabia ao certo se era de alívio, por ele estar indo embora novamente e não atormentar seus pensamentos e sonhos nunca mais, ou por ele estar indo embora novamente, deixando-a para trás com seus dois filhos e o amor que ainda sente por ele, mesmo que negasse. Enfim, o que era fato era que ele estava indo embora novamente da casa. Não se sabia o que ele iria fazer da porta pra fora. Podia acabar com o casamento dele e voltar a ser o -mala-sem-alça de sempre, e não esse homem prepotente em quem ele se tornou. Talvez realmente fosse bom que ele voltasse pro mundinho dele, se lá ele era feliz, né? O que ele queria aqui, incomodando quem estava tão bem?
- Calma, meus amores! – Ela tentava, em vão, acalmar os filhos que soluçavam e fritavam.
- Ah, , desculpa.
- O tio não quis brigar, viu? – Olhou para o irmão, que parecia muito embaraçado.
- É! É! Eu tava brincando o com tio .
Enquanto os tentavam acalmar as duas crianças, e se entreolhavam, como sempre, e cochichavam de vez em quando. saiu da cozinha acompanhado de e .
- Eu fiz mal? – sentou no sofá.
- Eu teria feito o mesmo! – sentou-se também.
- E perdi o controle. – Apoiou os cotovelos no joelho e a cabeça nas mãos.
- Calma, dude. Você só a defendeu de algo que a faz mal. – disse, olhando sério para o outro.
Depois do ocorrido, cada um foi pra sua casa, exceto , que ficou ali com a namorada. Ela precisava dele mais do que nunca.
- Eles já dormiram? – perguntou ao ver a irmã descendo e sentando ao lado de no sofá.
- Sim, enquanto eu não respondi o porquê de todo mundo estar brigando eles não descansaram. – Disse, suspirando alto.
- E o que você disse? – O irmão a olhou espantado.
- Que era tudo uma brincadeira. Não era uma briga.
- Eles acreditaram? – perguntou, no mesmo tom de antes.
- O Henry sim, mas o Johny...
- Normal!
- Sabe o que o Henry disse, ? – baixou o olhar e o irmão a olhou preocupado – Que aquele tio era legal, e que você não podia brigar com ele. E que ele tem que vir brincar com ele um dia. – Disse, engolindo a seco e permitindo que o silêncio tomasse conta da sala.
Aquele dia tinha sido cheio. Tantas coisas aconteceram ao mesmo tempo. Tantos confrontos com a mesma pessoa, e justo aquela que não devia nem estar ali. Não devia ter voltado e feito tudo dar a volta. E Henry. Ele tinha que tornar tudo mais difícil? Ele tinha que odiar o . Ele não podia ser legal com aquele crápula. Definitivamente, seria muito difícil. Os tempos que estão por vir seriam complicados, muito complicados.

Capítulo 17

Eram oito e meia da noite de uma sexta feira, um fim de uma semana de muito trabalho e muita dor de cabeça.
- ? – bateu na porta e entrou no quarto dos meninos.
- Shiii. Eles acabaram de dormir. – disse rindo.
- Ok. Como estão as coisas? – se sentou no tapete azul de aviõezinhos que cobria todo o chão do quarto.
- Estão indo, né. Só tô conseguindo levar porque eu tenho esses dois. Me sinto tão bem quando ouço a risada deles. E é isso que me faz olhar pra frente, sabe? - disse, acariciando o rosto de Johny, que ainda sorria.
- É isso aí, amiga. Não pode deixar a peteca cair.
levantou-se da cama, acompanhada por , e saiu do quarto em direção à sala.
- Mas você está fazendo o que aqui mesmo? – perguntou rindo, já no sofá.
- Bem, os meninos estão todos lá em casa. E muito homem junto não dá certo, né? – Riram.
- É verdade. E a ?
- Deve estar chegando. Eu liguei pra ela no caminho. Hoje a noite é nossa!
- É! Hoje a noite é nossa! – repetiu a frase da amiga com uma empolgação extra.
- É! Como fazíamos antigamente! – abriu a porta e respondeu paras as amigas, que correram para abraçá-la.
- O que vamos fazer? – se atirou no sofá após a festa da chegada de .
- Primeiro temos que comprar mantimentos! – disse, batendo palminhas.
- Siiim! Noite das gordinhas tensas! – acompanhou a amiga.
- Ok, então. Vamos fazer nossa lista. – levantou para pegar papel e caneta – Comecem. – disse, rindo. Sabia as besteiras que sairiam dali.
- Vodka! – gritou.
- Shi, sua louca! Se acordar meus filhos não tem festa pra gente! – riram.
- Sorry! - ela sorriu sem graça.
- Bem, eu opino pela pizza, pelo negrinho, pela cachaça... – ia enumerando quando a amiga a interrompeu.
- Calma, calma, eu não escrevo na mesma velocidade dos seus pensamentos, poxa! – riram novamente.
- Eu concordo com tudo que ela disse, mas precisamos de muita coca-cola para não ficarmos desesperadamente bêbadas.
- , eu não vou beber para ficar bêbada. Têm duas crianças pequenas nessa casa, alguém precisa estar sóbrio.
- Ai, depois que eles nasceram você ficou chata! – cruzou os braços e fez beiço.
ignorou a amiga e foi em direção à cozinha.
- Não é chatice, , é responsabilidade! Alguém aqui tem que ter, certo? – disse, rindo – , onde a gente vai encontrar um mercado aberto essa hora? E quem vai lá?
- Em que mundo tu vive, ? Nunca ouviu falar de tele-entrega de mercado vinte e quarto horas? – Olhou com a sobrancelha arqueada como se aquilo fosse um absurdo.
- Não! – risos.
ligou para o mercado e para a pizzaria, claro, metade mussarela e metade quatro queijos, clássico. Enquanto esperavam, fofocavam.
- Não ouviram mais falar do casal bomba? – perguntou, agarrada a uma almofada.
- Que casal bomba, ? – ainda ria da tirada do mercado.
- e .
- Eu não. – respondeu com a maior frieza possível.
- Bem, o está lá em casa. Digo, na casa do . – respondeu incerta.
- E a mulher dele?
- Sei lá, , o convidou ele pra ficar lá, SEM A . E ele ficou. Pra onde ela foi eu não sei, e pra falar a verdade, espero que pro inferno!
- Ele me ligou duas vezes. – disse, séria, após um silêncio tomar conta da sala, fazendo as amigas olharem da mesma forma para ela, mais precisamente com caras de espanto.
- Como assim, ? – virou-se e a encarou.
- Assim oras, pegou o telefone e discou meu número. Duas vezes. Simples.
- ! Você há de concordar que de simples isso não tem nada. O cara te liga duas vezes pra dizer o quê? Tipo “Alô amor, tô te ligando de um orelhão, tá um barulho, uma confusão, mas eu preciso tanto te falar....” – debochou com uma música sertaneja.
- Não , não foi a la Bruno e Marrone que ele me ligou. Foi a la mesmo. Na primeira ele me xingou muito, me acusou de muita coisa, falou do meu namorado e do meu irmão. E desligou o telefone na minha cara.
- Estúpido. – disparou.
- Típico dele. – acrescentou.
- Sim. O que não foi típico foi a segunda ligação:

*Start Flashback*

- Alô? – disse, sonolenta.
- ? – A voz de saíra embargada.
- ? O que você quer? – agora a raiva tomava conta.
- Pedir desculpas. – Naquele momento ela pode perceber que ele fungava.
- , que horas são?
- São quatro e meia. – respondeu, duvidoso.
- Ok. Então volte a dormir porque você está no meio de uma crise de sonambulismo.
- Cala a boca, guria!
- Fala de uma vez então, . – bufou.
- Eu fui um idiota. – respondeu.
- Não. Você é um idiota. – ironizou.
- Eu sou um idiota. – concordou ele – Sou um idiota que faz tudo errado. Um idiota que só faz besteira. E só machuca as pessoas. Um daqueles que consegue acabar com a própria vida, achando que está coberto de razão. Um daqueles que casa com a pessoa errada só por uma paixão. E pior, um daqueles que abandona tudo por medo. – Ele disse, já deixando o choro tomar conta de si. Havia desistido de escondê-lo de quem o ouvia.
- , você está bêbado? – Perguntou, tentando manter a ironia e a postura, mas permitindo que uma grossa e quente lágrima caísse por seu rosto. Aquela frase havia atingido seu coração de forma desastrosa. Se ela pretendia manter a calma e esquecê-lo de vez, ele havia acabado com os planos dela.
- Não, ! Eu estou falando sério. E estou sóbrio. – Falou fraco. Ficaram uns minutos apenas ouvindo os soluços e fungadas um do outro. Por um bom tempo pareciam dois adolescentes. Recém enamorados. Seria cômico, se não fosse trágico – Boa noite. – e desligou.

*End Flashback*

- Jesus, tô bege. – disse após ouvir aquilo da amiga.
- E aí? – perguntou, após engolir aquilo a seco.
- E aí? Aí que ele simplesmente desligou o telefone. Na minha cara. Pela segunda vez. Me deixando ali, chorando sozinha.
- Isso foi de sexta pra sábado? – olhou pensativa.
- Sim, da semana passada. Por quê?
- Porque ele saiu do quarto com o rosto inchado, com olheiras enormes, e bem triste.
- E?
- E a mulher dele entrou no apartamento como se fosse dela e o arrastou de volta para o quarto. Meia hora depois ela saiu batendo os pés e a porta.
O silêncio destacou-se novamente entre elas, mas foi interrompido pela campainha.
- O mercado. – levantou-se e foi para a porta, pagou e pegou as compras.
- E a pizza? - perguntou, quebrando o gelo.
- Deve estar chegando, ô esfomeada. - ria da amiga.
- Enquanto isso, vamos beber! – vinha da cozinha com copos e vodka – Não quero mais falar nisso, ok? Hoje é pra ser uma noite feliz!
Brindaram em copos pequenos e viraram, cada uma, três em sequência. Só para esquentar a noite.
- Esperem aqui, vou buscar uma coisa. – subiu as escadas e logo em seguida voltou com uma caixa colorida, na qual havia várias fotos coladas – Fotos!
Sentaram novamente no carpete verde oliva e começaram a olhar fotos. Muitas fotos. Fotos da infância e adolescência delas. Ou melhor, deles todos. A pizza chegou e elas comeram ali no carpete mesmo, junto com as fotos, com as lembranças. Com a nostalgia que aquilo trazia a elas.
Comeram, beberam, choraram e riram. Era simplesmente bom assim. Estar entre as melhores amigas sem precisar esconder nada, ser puramente sincera, e amar isso.
- O que é isso, meu Deus? – riu ao abrir a porta de casa e encontrar três garotas adormecidas no tapete, com várias fotos ao redor, e garrafas de cachaça – ? – perguntou ao ouvir o amigo atender o telefone – Achei tua mulher! – Disse, rindo alto.
- Onde ela tá, ? – Perguntou preocupado.
- Desmaiada no meu tapete. Junto com a e a . – Riu mais ainda.
- Ouch, dude. Que susto essa vaca me deu! – Riram juntos.
- Posso levar ela pra cama? – provocou o amigo.
- Claro que não! – ele respondeu, bravo.
- E , ele pode? – continuava rindo.
- Muito menos!
- Ok, vamos deixar ela dormir no tapete até amanhã. Não quero nem estar aqui quando ela acordar. Vai estar cheia de dores e vai resmungar o dia inteiro.
- Tá bom, . Mas se abusar dela, hein... – Risadas, aquilo renderia muitas risadas no dia seguinte.
e levaram as garotas para os quartos e limparam a bagunça. Bem adestrados, não?

Capítulo 18

- Eu quero essa Ruffles! – entrou no quarto onde os dois meninos comiam o salgadinho enquanto pintavam e desenhavam.
- Tiiiiiiiiiiio! – Henry correu para abraçá-lo, enquanto Johny apenas estendia o braço com o salgadinho.
- Vim brincar com vocês, posso? – Sentou no chão e ficou observando os aviões, et’s e os outros desenhos que ele não conseguia decifrar.
- Tio, quer desenhar também? – Johny perguntou com a boca cheia.
- Hey rapaz, nada de boca cheia, hein?! – Falou engraçado, fazendo o pequeno menino dar risada.
- Tio, por que você não vem brincar mais com a gente? – Henry levantou-se de onde estava e sentou no colo de , que o abraçou e respondeu:
- Huum... Porque o tio trabalha bastante, nem sempre dá para vir aqui brincar. – Mentiu.
Os três ficaram ali brincando por muito tempo. E maioria deste, sendo observados por um alguém à porta.
- Mamãe! – Henry correu para abraçá-la.
- ? – a olhou apavorado – Na-não vi que você estava aí.
- E se não estivesse mudaria alguma coisa, ? – Perguntou, soltando-se do abraço do filho.
- Não! Claro que não. – passou as mãos pelo cabelo.
- Então, o que você está fazendo aqui? – Doía mais nela falar assim do que nele ouvir, talvez.
- Bem, eu vim brincar com os meninos. – Olhou pra baixo ao responder, como uma criança que fez arte e a mãe descobriu.
- Já brincou? Então pode ir embora, certo? – O fuzilou com os olhos, dando a entender que não queria mais papo.
- Desde quando você é tão fria assim? – Foi em direção a ela com uma expressão curiosa.
- Desde o dia em que você me deixou aqui sozinha. Agora vai. – Apontou o corredor.
- Mas qual o mal que eu te fiz pra você me odiar tanto assim? E não me querer nem perto dos seus filhos? – Perguntou, chegando cada vez mais perto.
- Se você não sabe, vá perguntar a sua mulher. De repente ela tem uma resposta adequada para isso.
- O que a tem a ver com isso? – Perguntou, cerrando os punhos.
- Você deveria conhecer melhor a pessoa com quem se casou, . – Ela o ia maltratar – De repente, você é mesmo um idiota por ter casado com a pessoa errada. Ou melhor, não é ter casado com a pessoa errada que te faz um idiota: é ela que te faz de idiota. Porque você é um. E dos maiores que eu já vi. Agora sai da minha casa. – Olhou fundo nos olhos do garoto, que permanecia atônito com as palavras que saíam da boca dela.
- Eu, sinceramente, não entendo por quê tamanha desavença com a . Ela é uma pessoa tão legal.
- Legal? Você bateu a cabeça? – o fuzilou com os olhos.
- , ela perdeu um filho. NÓS perdemos um filho. Ela ficou diferente depois disso. Mas via de regra ela costuma ser legal. Vocês deviam se aproximar, sabe? – falava suave e recebia olhares incrédulos – Vocês duas são as mulheres mais importantes da minha vida. Não queria que fosse essa guerra pra sempre.
- , desde quando eu sou importante na tua vida? – Ela olhou séria para ele - Para de falar besteira e vai embora.
- Posso me despedir deles, pelo menos?
- Se você quiser que eu chame o pra te botar pra fora daqui a força, fique à vontade.
- Eu não reconheço mais você. – disse triste e saiu andando pelo corredor.
- Mamãe, aonde o tio vai? – Henry chegou perto da mãe, falando de boca cheia – Ele não vai mais brincar com a gente? – Perguntou triste.
Ao ouvir a voz do filho sair tão doce, tão preocupado com o fato do tio nunca mais vir brincar com eles, não conteve as lágrimas, sentou-se no chão, escorada a porta, abraçou o pequeno e respondeu:
- Não meu amor, o tio foi trabalhar. Outro dia ele vem brincar, tá bom?
- Por que você tá chorando, mamãe? – Johny largou o brinquedo e correu para abraçá-la também.
- Estou triste. Mas vai passar já já. – Disse, limpando as lágrimas – Vão brincar, vão. – Levantou-se e deixou os filhos ali.
Quem aguentaria uma situação dessas? Aqueles que deveriam odiá-lo o adoram. Não é justo. Isso torna tudo muito mais difícil.

Capítulo 19

- ? – entrou na casa do amigo, que estava aberta.
- Aqui na cozinha, ! – Ela ouviu um grito.
- Hey! – sentou ao lado do amigo, que estava com cara de paisagem – Olha o que trouxe pra você! – estendeu um copo de café e um saquinho cheio de muffins – Passei na Starbucks e lembrei de você!
- ÓÓIN! Obrigada, meu bem! – Falou engraçado.
- SUA BICHA! – riu do amigo.
- Ai ! Não fala assim que ofende meu ego! – Ele parecia ter ficado ofendido.
- Ok, seu gay! Cadê minha amiga? – Riram.
- Foi dar uma volta. Estava muito nostálgica.
- Hum... E por que você está sentado aqui na cozinha com essa cara?
- Ah ... eu sinto muita falta da nossa amizade, sabe? De quando o fazia parte disso. Ele pode ter feito você sofrer muito, mas eu sei que ainda há algum sentimento aí dentro. Por mais que você se esforce pra esconder, eu sei. Eu noto. – disse, e viu a garota baixar a cabeça – Eu sei que você tenta ao máximo com o , e que ele é um ótimo cara e gosta muito de você. Mas isso não significa que você o ame.
- . – Ela o olhou séria – Por que isso te afeta? Quero dizer, por que isso agora? Depois de quatro anos... você nunca disse nada.
- Contando que no primeiro ano você só viveu para os meninos? No segundo você virou a mãe mais chata do mundo...
- Hey hey hey, pode parar por aí, ! – Riu – Ele me magoou sim. Muito. E eu odeio a mulher dele. E eu precisava me manter de pé e firme para meus filhos. Foi um período muito difícil pra mim, você sabe.
- Claro , eu sei. Mas não foi fácil pra ninguém perder o amigo. Ninguém questionou sua dor nem nada. Mas é que, de uma certa forma... – pensou um pouco antes de dizer o que pensava.
- De uma certa forma?
- De uma certa forma, ele foi embora por culpa sua. – ele a olhou receoso.
- Ok. – ela levantou-se da cadeira – Isso foi pesado, hein! – Ela sorriu – Eu sei que foi por minha causa, e que a culpa é toda minha. E já me torturo bastante por isso. Não preciso que você me informe. – Debochou.
- , não fiz por mal. – Levantou-se e tocou seu braço.
- Eu sei! – Abraçou-o forte.
passava as mãos no cabelo da garota enquanto tentava acalmá-la.
- Vai ficar tudo bem! Vai dar tudo certo. – Ele a apertava como se assim não houvesse espaço para dor.
- Será?
- Eu espero, . Eu espero...
- Será que um dia ele vai saber, ?
- Eu também espero que isso aconteça. Não quero ter que viver essa guerra pra sempre. – Tirou seus braços envoltos na amiga e a olhou nos olhos – Você vai ter que contar, . Uma hora isso tem que acontecer. E, de preferência, antes que aconteça uma catástrofe.
andou pela cozinha com as mãos na cabeça. Ela sabia que o amigo estava certo. E pior, sabia que a única que podia fazer isso era ela.
- , eu não sei como vou contar pra ele. Na verdade, eu preferiria que ele nunca ficasse sabendo...
- , larga essa mágoa, garota. Vocês já foram felizes, lembra? Querendo ou não, mesmo quando vocês brigavam feito loucos, vocês se davam bem! Era até legal. Claro, chegou um ponto que ficou insustentável, insuportável. Mas antes disso... Tu lembra?

*Start Flashback*

- ! – Gritava a irmã desesperada – Páááára!! Socooooorro!!
- Aaaaaaah! Siiinta minha vingaaaança! – ria mais que a irmã ao fazer cosquinhas nela.
Ao ouvirem os gritos escandalosos dos amigos, , , , e desceram as escadas da casa dos correndo. Mas, ao verem que eram apenas cosquinhas, partiram pra cima dos dois. Agora, além de , também era vítima.
- Não! Seus traidoooores! – Gritava .
parou para observar a cena rara. Era muito difícil ver os sete amigos assim, se divertindo tanto. E juntos. Foi então que teve uma brilhante idéia típica de . Puxou e, quando ela ia gritar, pôs o dedo indicador em sua boca indicando silêncio, o que fez com que todos os pêlos de seu corpo se arrepiassem ao mínimo toque do garoto. olhou para como se pedisse uma explicação, e ele apenas sussurrou alguma coisa em seu ouvido e puxou , que ria escandalosamente. Lançou um olhar dele para e e deu uma piscada.
puxou , que caiu em cima dele e já ia começar o xingamento, quando ele botou a mão na boca dela, indicando o casal empolgado. Restava , mas como iriam tirá-lo dali sem que os outros dois percebessem?
pensou uns instantes e chamou os amigos para o andar de cima. Já no quarto de , pegou o celular e ligou para o telefone da casa. olhou para os lados e não viu ninguém, então foi atender o telefone, enquanto a irmã continuava a apanhar com almofadas e recebendo cosquinhas de .
- Alô. – disse, ainda ofegante da risada.
- , suba para seu quarto imediatamente sem fazer barulho algum.
- Hã?
- SUUUUUBA! – gritou.
desligou e subiu para o quarto sem entender nada.
- Dude, enlouqueceram de vez? Subiram por quê? – enchia os amigos de perguntas quando o interrompeu.
- Heeeeey, , tua irmã tá rindo com o lá em baixo, R I N D O, entendeu? Rindo, e não brigando, xingando ou ironizando, RINDO e se divertindo.
Só então todos os outros entenderam a brilhante ideia do amigo, e todos o veneraram, rindo.
Enquanto isso, lá em baixo, se atirou em cima de como se estivessem brincando de lutinha. Nenhum dos dois parecia ter percebido o ‘sumiço’ dos outros.
- Ai meu pé! – Gritou , chorosa, e por uns segundos teve uma expressão apavorada no rosto.
- Eu te machuquei? Onde dói? Aqui? – perguntava, apertando o pé da garota.
- Não bobo, já passou! Tu só pisou nele! – ela respondeu e os dois caíram na risada.
Por algum tempo os dois ficaram ali, brincando como crianças inocentes. E, de certa forma, havia mesmo inocência ali. Os dois haviam esquecido as ironias, as implicâncias, o ódio que alimentavam dentro de si. Naquele momento, eles eram apenas eles mesmos.

*End Flashback*

- Era bom, né? – olhou para o amigo. Pensou em tudo que ele havia lhe dito. Fazia todo o sentido do mundo. a olhou com cara de interrogação e ela sorriu. -Vou pensar no que fazer, ok? Primeiro preciso dar um jeito nessa situação. Fazer ficar mais fácil, mais amena essa relação entre a gente... antes de contar qualquer coisa.
não pôde deixar de sorrir, com uma enorme satisfação por ter alcançado seu objetivo de convencer a amiga a mudar de idéia. Mas sabia que ainda viria muita coisa pela frente antes do desfecho dessa história.
Sentaram-se no sofá da casa do rapaz, à espera de .
- E os meninos? Como estão?
- Bem. Cada vez mais espertos. Vou buscá-los na escolinha daqui a pouco. – Sorriu - Ontem o Johny perguntou por que todo mundo tem um pai e eles têm um tio. – falou serena, e o amigo ficou apavorado.
- Como assim? E o que você disse?
- Bem... eu disse que ainda era muito cedo pra eles entenderem isso, mas que um dia eles saberiam. E daí mudei de assunto. – Olhou para a cara de espanto do outro. – Ele aceitou e não perguntou mais.
Ficaram mais alguns minutos divagando sobre como seria o futuro deles, as viagens que poderiam fazer, as fãs enlouquecidas que eles teriam que aguentar quando fossem bem famosos, os países que iriam conhecer, enfim, ficaram conversando sobre tudo e nada, ao mesmo tempo.
- Hey... vou indo, ok? Vou pegar os meninos na escolinha. Tenho que ir a pé, deixei o carro com o . – Fez uma cara triste e a olhou com estranhamento. – O carro dele está na oficina. – sorriu e deu um beijo demorado no amigo.
- Eu vou junto. Vou encontrar os caras pra gravar, devem estar me esperando lá já. – Disse, com um meio sorriso, levantando-se. Pegou a carteira e as chaves que estavam em cima da mesinha ao lado da porta, como sempre, e abriu-a para que a amiga passasse por ela e, assim que ela o fez, trancou-a.
- Ih! Vai chover. – pronunciou assim que pôs o primeiro pé na rua.
- Espero que só chova depois que eu estiver dentro de minha humilde residência. – Sorriram largamente.
- Sei não, hein! – Rogou.
- Sai pra lá! Só vai chover depois, tá? – Deu um tapinha em seu braço. - Então, até mais. – sorriu novamente e deu um beijo demorado na bochecha do rapaz.
“Ótimo, vai chover logo hoje que não estou de carro”, pensou, ironicamente contradizendo seu pensamento positivo. Seguiu caminhando até a escolinha dos filhos, que não ficava muito longe dali, apenas dois quarteirões. De lá até sua casa era um pouquinho mais, mas nada exageradamente longe.
- Mamãe! – Henry veio correndo em direção à mãe quando a viu na porta os esperando.
- Oi, meu amor! – beijou o rosto do filho e pôde ver uma das professoras se aproximar com Johny no colo.
- Olá, Susie. – cumprimentou a moça.
- Boa tarde, . - Retribuiu o cumprimento e passou o garotinho para o colo da mãe.
- O que ele tem? – olhou preocupada para o filho.
- Teve um pouco de febre. Estava bem manhoso. Mas está tudo na agenda.
- Ok. Até amanhã então.
virou as costas incrédula, como assim meu filho fica doente e ninguém avisa? “Está tudo na agenda”. Como se isso fosse melhorar o estado dele. Olhou para o filho adormecido em seu colo com uma expressão triste.
- Filho. - virou-se para Henry. – Coloca a mochila nas costas. – Pediu e o menino obedeceu – Agora dá a mãozinha para a mamãe. Não solta, tá? – Ela olhou séria para o menino, que assentiu. Colocou a mochila de Johny no ombro, ajeitou o garoto em seu colo e foi andando pela rua. Não podia andar muito rápido por causa de Henry. E não podia demorar muito pra chegar em casa. Algumas quadras depois da escola, começou a chover. Primeiro só uns pingos. Apressou o passo e Henry passou a reclamar.
- Mãe, tô cansado. – parou.
- Vem, meu amor, vamos até aquela lojinha ali? E sentamos um pouco.
Caminhou até uma lojinha que já estava fechada, mas tinha um banco coberto por um toldo azul marinho. Sentou-se ao lado do filho e pôs a mão na testa de Johny.
- Mamãe, porque o mano tá assim? – Henry perguntou, com uma expressão assustada.
- O mano tá dodói. Mas já vai passar. Vou ligar pro tio vir nos buscar, tá?
ligou pro irmão ir buscá-los, já que a chuva agora caía muito forte. Ele não atendeu. Tentou falar com e também não conseguiu. A mesma coisa com e . não estava com o celular e não tinha como ajudá-la. Não estava muito longe de casa. Uns vinte minutos mais caminhando no seu passo. Mas com Henry junto, seria difícil. Como iria caminhando deixando Johny pegar chuva? Na verdade, nenhum dos dois ali poderia pegar chuva, eram muito pequenos!
“Ok, será que pode piorar?”, pensou, olhando para os filhos.
- Filho, que tal nós irmos na chuva?
- Na chuva, mamãe? – ele olhou espantado.
- Aham. – respondeu.
- Mas você nunca deixa a gente ficar na chuva! – indagou.
- Eu sei, meu amor. Mas agora a gente precisa ir na chuva, certo? – Ela o olhou com carinho e sorriu junto com ele – Então vamos.
levantou e pegou novamente na mão do pequeno. Quanto mais andavam, mais forte a chuva ficava. Johny acordou e começou a chorar.
- Calma filho. A gente já tá chegando. – mentiu para tentar acalmar o filho, que chorava incansavelmente.
- Mãe, tô cansado. - repetiu Henry.
não sabia o que fazer. Tinha vontade de sentar no chão e chorar como uma criança junto com os filhos, ou de sair correndo com eles. Nenhuma das duas ideias lhe parecia muito agradável. Chovia muito forte, o céu estava preto, e agora uma ventania tomava conta da cidade, fazendo um barulho de assovio que, exageradamente, doía os ouvidos de quem não aguentava mais aquela situação. Os três já estavam encharcados e parecia não haver saída a não ser ir andando até em casa bem devagarzinho. Daquele jeito mesmo, sentindo-se o maior monstro do mundo.
- ! – ouviu alguém gritar seu nome e olhou na direção da rua. – O que você está fazendo aí na chuva com esses dois? – a olhava assustado, com uma sobrancelha arqueada.
Mais que imediatamente, ele saiu do carro e veio em direção a ela.
- TIO! –Henry gritou de felicidade e o pegou no colo.
- Vem, vamos pro carro. – ele chamou.
- , vai molhar todo o carro! – disse, resistente.
- Você prefere ficar aí? Na chuva com seus filhos? – Ele olhou incrédulo para ela, que negou com a cabeça, e então ele sorriu vitorioso. Carregou Henry até o carro e o acomodou sentado no banco de trás. Lançou um olhar significativo para , que se sentava no banco ao lado do menino e, ao invés de encará-lo e retribuir-lhe o olhar, ela apenas mirou o rosto do pequeno em seu colo que suspirava, soluçava e gemia sem ter ordem definida para tal.
Ele apenas balançou a cabeça negativamente - ainda não entendia tamanha indiferença da garota em relação a ele -, fechou a porta de trás e sentou-se em seu banco. Colocou o cinto e, antes de virar a chave da ignição, soltou um longo suspiro, parecendo dar-se por vencido contra seus próprios pensamentos, e perguntou, com um tom expressivamente preocupado, mais para si do que para ela:
- O que ele tem?
- Febre. – Ela respondeu, tendo a maior vontade de chorar.
- Quer que leve ele no hospital? – Ele parou no sinal e olhou para ela, que ainda estava com a cabeça baixa acariciando o rosto do filho e parecia se acalmar.
- Não, não. Vamos pra casa, por favor.
- , tem certeza? – ele perguntou novamente, ao que ela só respondeu balançando a cabeça.

estacionou o carro em frente à casa dela, desceu do carro, pegou Henry no colo e ajudou a sair do carro com Johny. Abriu a porta e a acompanhou até o quarto.
- Vou dar um banho quente nele ali no quarto do enquanto você ajeita o Henry, tá? – a olhou carinhoso, pegou a pequena mão do menino e foi em direção a outro quarto.
tirou a roupa do filho e o colocou debaixo do chuveiro quente. Não conseguiu evitar que as lágrimas caíssem por seu rosto. Sentia-se impotente. Despreparada. Ridícula. Irresponsável. Sentia-se um lixo. Colocou um pijama no menino, que resmungava muito de dor aqui e ali. Realmente estava manhosinho.
- Filho, vamos dormir um pouquinho? – perguntou para o menino, que respondeu que sim com a cabeça.
Ela o colocou na cama dele e o tapou apenas com um lençol fino, para não subir a febre. Ficou de joelhos ao lado da cama. Ainda estava molhada, e aos poucos ele fechava os olhos. Viu aparecer com Henry no colo, dormindo.
- , ele disse que estava cansado demais. E enquanto eu colocava a roupa nele, ele dormiu. – dizia meio confuso.
- Coloca ele aqui. – Ela levantou-se de onde estava e ajeitou a cama do menino. fez exatamente da mesma forma que ela havia feito anteriormente. Colocou-o na cama, puxou um lençol e acariciou o rosto do garoto.
- , vai tomar um banho você também. Está toda molhada. – Ele disse olhando-a, sério. Ela estava parada ao lado da cama, olhando fixamente para ele. Ainda tinha vontade de chorar e aquela situação não facilitava em nada. levantou-se e ficou de frente pra ela. – ? – chamou e ela, impulsivamente, o abraçou forte, enterrando o rosto em seu peito. Ele ficou assustado, mas abraçou-a também. Não pôde evitar que um sorriso se formasse em seu rosto. Acariciava seus cabelos enquanto ela chorava. – Calma . Está tudo bem agora. – Ele tentava, inutilmente, acalmá-la. Mal sabia ele que nada estava bem agora.
Ele ficou ali alguns minutos abraçado à garota, que soluçava baixinho sem falar nada. Aquela situação já era bem estranha sem palavras. Um turbilhão de coisas passava pela sua mente. Seu celular começou a tocar e ele o tirou do bolso com uma das mãos, recusando a chamada. – , você tem que tirar essa roupa molhada. – Ele afastou-a de seu corpo e limpou as lágrimas do rosto dela. – Se não, quem vai ficar doente é você! – Reprimiu-a, divertido.
concordou com a cabeça e foi para seu quarto. Tirou a roupa e entrou debaixo do chuveiro. A água quente sempre a reconfortava. Continuou a chorar ali embaixo. Ainda sentia-se mal. Sabia que estava no quarto com os filhos. Tinha que contar pra ele. Precisava achar uma forma fácil de fazer isso. Simplesmente não aguentava mais aquela situação a sufocando. Sentia vontade de olhá-los nos olhos e dizer: “Oi, eles são seus filhos. Mas eu os escondi de você por todo esse tempo porque você foi embora com outra mulher. Que me ameaçou, por sinal. Mas agora que você voltou, não consigo mais esconder”. Seria tão mais fácil. Ok, talvez nem tanto.

estava sentado no chão do quarto dos meninos e os ficou olhando. O celular tocou novamente e ele resolveu atender.
- Amorzinho, onde você está? – Ao ouvir aquela voz, revirou os olhos e deu um leve tapinha na testa. Tinha esquecido completamente de buscar no salão de beleza.
- Estou na casa do . Pegue um táxi e vá para o hotel. – Ele disse, seco.
- Não! – ela gritou. – Venha me buscar agora! – ficava cada vez mais chata e insuportável.
- , eu não vou. Se você quiser ficar plantada aí na frente, o problema é seu. – desligou o telefone na cara da garota. Estava de saco cheio dela.
Viu Johny choramingar e foi até ele. Pôs o dorso da mão na testa do menino e sentiu-a ferver. Sentiu uma coisa se revirar dentro de seu estômago. Aquele garoto era perigosamente parecido com ele. Ficou o mirando mais uns segundos até ele murmurar alguma coisa novamente e o arrancar de seu devaneio. abanou o ar ao pensar o quão ridículo havia sido seu pensamento e foi até o quarto de .
- ? – Bateu na porta.
- Entra. – Ela permitiu e assim ele o fez, encontrando-a sentada na cama, já vestida, com um olhar perdido no nada.
- O Johny tá ardendo em febre. – Ele a olhou preocupado. – A gente precisa fazer alguma coisa.
- Vou ligar pro . – levantou da cama e caminhou até seu celular, sem perceber a cara totalmente frustrada de . Por que ela precisava do se ele estava ali?
- Não atende. Droga! – Resmungou.
- Tenta o . – tentou ajudar, afastando mais uma vez aqueles pensamentos insanos.
Ela pegou o celular e tentou ligar para o irmão, mas novamente ele não atendeu.
- Ok. Vou pegar um remédio. – Soltou os ombros com força e, percebendo que teria que tomar um a providência, foi até a cozinha, onde guardava uma caixa com remédios, mas nenhum ali servia para o filho.
- Quer que eu vá até a farmácia? – ofereceu-se, ao ver a cara de decepção que ela fazia ao remexer a caixa sem pegar nenhum remédio.
- Você iria? – A cara dela foi tão sonhadora, sem que ela percebesse, claro, que ele nem esperou o comando chegar de um neurônio a outro.
– O que eu compro? – Disparou.
- Tylenol infantil, eu acho. É o menos pior. – ela disse, indo em direção à bolsa. Quando virou-se com o dinheiro, ele já havia saído do quarto.
Foi então até o filho, que ainda choramingava.
- Calma meu amor... Você já vai ficar bom, tá? - Ela acalmou o filho e ele pareceu adormecer.

Capítulo 20

entrou no quarto e não pôde crer no que seus olhos teimavam em lhe mostrar.
estava senda no chão, apoiada com a cabeça e os braços na cama do filho, como um adolescente dorme na mesa da escola. Suas costas subiam e desciam conforme sua respiração, denunciando que ela dormira ali.
- Hey. – levantou a garota no colo e levou-a em direção a sua cama.
- ? - perguntou assustada.
- Shii, dorme agora, ok? – Colocou-a deitada e cobriu-a com cuidado. Certo, todo mundo sabe que a vontade dele não era cobri-la, e sim despi-la. Mas, naquela situação, conteve sua vontade e apenas fez o correto.
- E o Johny? – perguntou sonolenta.
- Vou dar o remédio agora. – Respondeu, apagando a luz do quarto. E ia encostando a porta quando ouviu ela chamar.
- ?
- Oi? – Abriu a porta novamente e olhou pra ela.
- Obrigada. – Ela disse, e recebeu um sorriso de volta.
Ele foi então até o quarto dos meninos e fez o que o farmacêutico havia lhe orientado. Deu as gotinhas do remédio para o menino e o fez dormir novamente. Desceu as escada e sentou no sofá da sala, esperando que chegasse para que ele pudesse ir embora, mas o amigo demorou a chegar e ele adormeceu ali mesmo, com as roupas úmidas e os pensamentos inquietos. Definitivamente tinha uma pergunta claríssima em sua mente: “ Quem era o pai daquele dois meninos?”

- ? – o sacudia e ele abriu os olhos assustado – O que você está fazendo aqui?
- Ah. Estava esperando o chegar. – sentou-se no sofá para encarar , ainda piscando algumas vezes.
- E por que você estava esperando o ?
- O Johny tá doente. E a tá dormindo. Não quis deixá-los sozinhos. – Falou sinceramente.
- O que ele tem? – perguntou preocupado.
- Febre.
- E por que não me chamaram? – falou alto, andando pela sala.
- ELA TENTOU TE CHAMAR! – respondeu mais alto. – Quem sabe se você atendesse o telefone, não é mesmo!
- Eu não podia atender, estava ensaiando. – Respondeu, conformado.
- Então não reclame. – subiu as escadas e foi até o quarto dos pequenos. Pousou, mais uma vez, sua mão sobre a testa de Johny, que agora parecia mais morna. O garoto suava bastante.
- Oi tio.
- Olá pequeno. Como está se sentindo?
- Com fome. – Sorriu fraco e não pôde deixar de sorrir mais ainda. Pegou o garotinho no colo e foi até a cozinha.
- Vejamos... O que você quer comer? – colocou-o sentado na cadeirinha de criança e abriu a geladeira.
- Pizza! – o pequeno gritou e riu alto.
- Não, rapaz, pizza hoje não, ok? Que tal uma mamadeira gostosa de leite com achocolatado? – Fez cara de criança e o pequeno se conformou.
pegou uma leiteira, despejou um pouco de leite e colocou no fogo. Aos poucos ele misturava o achocolatado.
- Sabe Johny, era assim que a minha mãe fazia. – ele sorriu ao lembrar-se da mãe, e ainda mais ao perceber que falava com uma criança que provavelmente não entendia o que ele estava dizendo.
Colocou um pouco do leite no dorso da mão pra saber se estava muito quente. Sorriu satisfeito ao ver que não. Entregou pra Johny e o pegou no colo. Dirigiu-se ao sofá, ligou a TV em um canal de desenho e sentou-se ao lado do menino, que aos poucos ia deitando em seu colo. ria do desenho junto com o garotinho, que não largava a mamadeira de jeito nenhum.
descia as escadas quando parou para assistir os dois no sofá. Era, definitivamente, bonito ver aquilo. A campainha tocou e ele terminou de descer para abrir a porta, e, ao fazê-lo, encontrou uma muito brava.
- Eu não acredito que você deixou de ir me buscar pra ficar vendo desenho animado, . – Ela já entrou gritando na casa e assustou o pequeno, que estava concentrado no desenho.
- , fala baixo. Você não é a única aqui dentro e ninguém é surdo.
- Ok. Por que você está assistindo desenho com esse pirralho?
- Cala a boca! Veio até aqui só pra encher o saco? Deu, conseguiu, agora vai embora, por favor?
- Amorzinho, você nunca falou assim comigo.
- Claro, você nunca foi tão chata assim. – olhou para ela bem sério, enquanto apenas ria da cena, quando chegou ao seu lado.
- Ah sim, você não estaria aqui se ela não estivesse.
Mas a ignorou e foi falar com o filho. Aquela briga não era dela. entendeu o recado e arrastou a mulher para o jardim da casa.
- Oi meu amor! - fez carinho no filho que estava sentado no sofá, ainda tentando ver o desenho. – Quem foi que fez esse mamá, hein?
- O tio . – sorriu largamente.
- Hum... e está gostoso? – perguntou, também sorrindo, ao que o garotinho resmungou um ‘uhum’ sem tirar a mamadeira da boca.
- O que foi isso? – a abraçou pro trás e apoiou o queixo em seu ombro.
- Não sei. – riram.
- Você está bem?
- Agora estou. Se não fosse por ele... – pensou antes de dizer.
- Se não fosse por ele?
- Se não fosse por ele eu nem sei se teria chegado em casa. – Então ela sentou ao lado do filho no sofá, sendo acompanhada pelo namorado. Começou a explicar tudo, desde o começo na casa de , da chuva, da febre, enfim, tudo. Contou-lhe que, como não iria sair de carro, não levou bolsa, nem dinheiro. Só o celular no bolso da calça.

Capítulo 21

Não é todo dia que se acorda às 7 da manhã, não é mesmo? Ainda mais quando o dia anterior tinha sido difícil demais. Mas o dia de hoje prometia e não poderia deixar passar. Estapeou o despertador, espreguiçou-se uma ou duas vezes, suspirou e, por fim, levantou-se. Arrastou os pés até o banheiro e, ao encarar seu rosto no espelho, quase se assustou com a imagem que vira. Olheiras, profundas olheiras. Mais parecia um leão a uma pessoa, tamanha era a “juba”. Ligou o chuveiro e posicionou-se debaixo dele, só aproveitando a gostosa sensação que aquela água bem quente trazia quando batia contra sua pele. Ficaria cheia de vergões, e ao lembrar-se disso esfriou a água, deveria estar deslumbrante. Era a oportunidade da vida, pra deixar de ser uma reles estagiária e se tornar gente de verdade. Digo, ter um emprego de verdade.
saiu do banho e encontrou os filhos sentados na cama dela, conversando. Ficou parada na porta do banheiro os observando. Como podia? Em alguns meses completariam quatro anos, mas já falavam tudo, tinham um extenso vocabulário - sem contar nas besteiras que aquele bando de marmanjo tinham ensinado a eles. E não é que eles aprenderam rápido? Era incrível como a semelhança só aumentava a cada dia. Ainda se perguntava como não tinha notado. Cada risada, cada expressão, cada traço do rosto dos dois meninos, era como se ela visse o ali, uns vinte anos atrás.
- Mããããe! - Johny abriu um sorriso de orelha a orelha.
-Bom dia, mamãe! – Henry disse, se atirando para trás na cama dela.
- Posso saber o que vocês dois estão fazendo aqui a essa hora? – Beijou o topo da cabeça dos dois garotinhos, que só gargalharam. - E por que ainda estão de pijama?
- O tio disse que era pra gente ficar aqui enquanto ele faz panquecas! – Johny gritou, como se panquecas fossem coisas muito raras naquela casa.
Ela pegou a revistinha em quadrinhos que tinha sempre dentro do criado mudo, para o caso de um deles não conseguir dormir e invadir sua cama no meio da noite, a entregou para os meninos e disse: - Leiam enquanto eu me arrumo, tá bom?
Nenhum deles respondeu, só pegaram a revistinha e apontavam, riam, e “liam”. Abriu o guarda-roupas e pensou, pensou e pensou novamente. Decidiu-se então por um vestido branco, tomara que caia, bem preso ao busto e que ia até metade da coxa, um casaquinho preto e seus sapatos de salto preto. Abriu a gaveta e pegou sua calcinha da sorte (quem não tem uma?), era uma mini calcinha rosa bebê, simples, mas era da sorte. Ainda enrolada na toalha foi secar o cabelo. Odiava usar o secador de cabelos, os preferia muito mais ao natural a secos e com penteados. Mas não era um evento qualquer, era muito importante que ela estivesse impecável. Secou as madeixas, deixando-as bem cacheadas, modeladas e brilhosas. Fez uma maquiagem leve, porém marcante, olhos bem marcados e na boca um batom clarinho com um gloss transparente bem brilhoso. Voltou ao quarto e vestiu o vestido com muito cuidado para não sujá-lo com a maquiagem nem estragar o cabelo. Deu mais uma olhada no espelho, e encantou-se com a imagem que refletia: essa sim era quem ela precisava ser naquele momento. Só faltava deixar a mente limpa para dar o melhor de si. Pegou a bolsa, chamou os filhos e desceu as escadas para encontrar na cozinha, de avental, realmente preparando panquecas.
- É hoje? – Olhou apavorado para a irmã.
-Sim, como estou? – Ela sorriu, levantou um pouco os braços e deu uma voltinha.
- Linda. – Disse boquiaberto. – Mas isso é roupa pra ir numa entrevista? – coçou o queixo.
- Ah. - entortou a boca – Não é, mas também não posso usar roupas que, caso eu seja contratada, eu nunca vá usar. Tenho que estar elegante dentro do meu estilo, sacas?
-Hum... agora tudo faz sentido. – sorriu. – Ainda não me conformo com a entrevista ser num hotel.
- , se é pra trabalhar num hotel, faz todo o sentido que a entrevista seja lá mesmo.
- Mas e se esse cara quiser aprontar alguma coisa?
- , é uma entrevista, não um encontro às cegas.
- Não me convenceu, ainda. – disse, virando a panqueca na frigideira, e viu a irmã ignorar. – O vai te levar? – Mudou de assunto rapidamente antes que algo voasse em sua direção.
- Não, ele está em Dublin, o hospital o chamou. Não se esquece de levar os meninos pra creche, ok? Por mais que eles insistam, hoje é dia de semana e eles têm que ir. – Disse, já saindo pela porta da cozinha. Pegou a chave do carro no balcão ao lado da porta e foi.
Dirigiu calmamente até o hotel. Precisou admitir que talvez aquela roupa não se enquadrasse àquele ambiente. Era como se fosse um castelo, de tijolo à vista, antigo. Era um dos hotéis mais chiques de toda Londres. Mas tudo bem, agora não adiantaria mais trocar de roupa, teria que ir pra entrevista com aquela mesmo.
Ao adentrar no hotel, não pode deixar de perceber como havia pessoas elegantes ali dentro. Na sua grande maioria turistas, mas pessoas muito bem arrumadas e que falavam baixo ao passar pelo hall. Dirigiu-se à recepção e a moça deu um sorriso simpático.
- Bom dia, no que posso ajudá-la?
- Tenho uma entrevista marcada com o Sr. Ross.
- Munhoz, certo?
- Sim. – sentiu seu estômago se revirar e um calafrio subiu-lhe pelo corpo.
- Ele a está aguardando em sua sala. Irei acompanhá-la. – A simpática garota, que não devia ter um dia a mais que vinte anos, foi em direção ao (grande) elevador apressadamente, sendo seguida por . Ao entrar, girou uma chavezinha e clicou no botão do último andar.
Aquele era o maior elevador que já havia visto, devia ter uns três ou quatro metros de comprimento. Tinha suas paredes aveludadas num tom de vinho, o chão era de mármore e com certeza os detalhes eram em ouro. Então, no momento que a porta do elevador se abriu, ela teve a certeza de que ela nunca iria conseguir aquele emprego, não com aquela roupa.
Uma grande sala apareceu a sua frente, o carpete tinha a mesma cor das paredes do elevador, podia jurar. Havia dois sofás e uma mesa de centro no meio da sala, e duas portas lado a lado bem em frente, do outro lado da sala, ao elevador.
- Sente-se, ele já virá chamá-la. – Ela apontou um dos sofás, sorriu, e foi-se novamente.
Aquele hotel tinha, com certeza, muitos anos de vida: era bem antigo, mas moderno ao mesmo tempo. Notou os quadros na parede, eram bonitos e famosos. Em cada canto da sala havia uma obra de arte, coisas abstratas, que nem um ano olhando fixamente para aquilo a faria entender.
Ouviu a porta se abrir e aquela sensação do estômago revirando voltou. Um homem extremamente lindo saiu por ela, com um sorriso igualmente encantador. Não tinha mais do que trinta anos e estava em ótima forma física. Ele se aproximou e a analisou de cima a baixo quando ela levantou-se para cumprimentá-lo. Com um sorriso nada discreto no rosto, ele estendeu a mão e disse:
- Michael Ross.
- Munhoz. – Respondeu, tão nervosa quanto sem graça ao lembrar da roupa que vestia.
- Vamos entrar? – Ele apontou a porta por onde saíra e deixou que ela fosse à frente. – Bom, , sejamos diretos. – Ele disse, sentando-se atrás de uma mesa em frente à garota. – A vaga para a qual fostes chamada é referente à sub gerência deste hotel.
Ao ouvir tais palavras, o queixo de foi ao chão. Sub gerência? Como assim? Não disseram nada que tivesse a palavra gerência no meio. Na verdade, ela jurava que era um cargo do tipo secretária. O rapaz percebeu a cara de ponto de interrogação dela e continuou.
- Eu sei, ninguém foi informado disso. Mas foi de propósito, nossa gerente esta indo para a filial da França e queremos alguém como ela aqui. Ela nos recomendou então a sua faculdade e o reitor, que a atendeu pessoalmente, por sinal, entregou alguns currículos a ela. Veja, nós gostamos de saber quem vamos entrevistar, então sempre pedimos informações pessoais a respeito dos candidatos, por isso, vou lhe fazer algumas perguntas e ir falando da vaga, ok?
Por um momento ela se sentiu invadida, desrespeitada, mas assim que ele voltou a falar ela mudou de idéia.
- Soubemos que você cria seus filhos gêmeos sozinha, certo?
- Na verdade, meu irmão me ajuda, e atualmente eles estão em uma escolhinha. – Ela sorriu genuinamente.
-Sim, mas você não é casada?
- Isso tem relevância profissional? – Ela se arrependeu no segundo seguinte às palavras terem saído. Ao que ele apenas sorriu envergonhado.
- Certo, realmente acho que não, me desculpe. – Sorriso encantador novamente. – Continuarei. Mesmo criando seus filhos sozinha, você estuda e trabalha, e é isso que procuramos em uma funcionária.
“O quê, exatamente? Ser uma escrava no estágio? Se matar estudando e ainda criar duas crianças?” Pensou secretamente enquanto ele falava.
- Queremos alguém que saiba o que são dificuldades, que não tenha a vida ganha, que saiba lidar com contingências, que tenha estilo, o que você, visivelmente tem. Que seja contundente o que você, também, já me mostrou que é, e que seja firme.
Ela estava cada vez mais convencida de que aquilo era uma piada. O cara era gato, certo, mas contundente? Firme? O que diabos ele queria? Ele só fala, fala e nada de chegar ao ponto.
- Olhamos seu currículo escolar, vi que é uma ótima aluna e o relatório do seu supervisor no estágio me impressionou. Você gostaria de fazer alguma pergunta?
- Quantas pessoas já foram entrevistadas? – Errado. Nunca faça essa pergunta em uma entrevista. Mas foi a única coisa que ela conseguiu pensar ao ver o monte de elogios que estava recebendo.
- Sete, com você são oito. – ele sorriu, divertido. – E não, não haverá outras. Agora, antes que você pergunte, eu vou lhe dizer por que você está tão deslocada. – Sorriu novamente, como se fosse o cara mais inteligente do mundo. – Esse hotel nasceu de um hotelzinho simples de uma família igualmente simples, há muitos, muitos anos. Com o tempo ele foi crescendo e acabou se tornando um dos hotéis mais importantes de Londres. E você sabe por quê? Porque ele foi administrado por pessoas relativamente modernas, frente a seu tempo. Pessoas que enxergavam a frente e levaram o hotel até lá antes de todos, mas sem deixar de lado as raízes. Nós fomos às melhores faculdades e procuramos pelos melhores alunos, pelos que se destacaram. Queremos alguém que ainda não tenha se formado para termos a chance de que se transforme exatamente no que o hotel precisa.
Então tudo ficou mais claro para ela. Não que ela entendesse por que tinha se destacado. Tudo bem que suas notas eram realmente boas, mas ela não era a melhor aluna da turma. E ela era mãe solteira. E estagiária. Mas enfim, se ele achou que ela era boa o bastante para estar entre os oito estudantes escolhidos para a entrevista, era porque algo bom ela tinha. Então ele perguntou se ela tinha mais perguntas e ela disse que não. Ele a acompanhou até o elevador e despediu-se, avisando que assim que tivesse a resposta entraria em contato com ela.
Quando as portas do elevador se fecharam, ela teve a sensação mais estranha do mundo. Essa com certeza tinha sido a entrevista mais bizarra da vida dela: tinha falado meia dúzia de palavras e o cara não tinha calado a boca. Sabia que não seria chamada para aquele emprego, mas valeu pela massagem no ego. Passou pela recepcionista e sorriu em despedida, recebendo um igual doce sorriso de volta. Enquanto dirigia-se até o carro, pegou o telefone e ligou para .
- Amiga? – perguntou, nervosa.
- ! Como foi na entrevista?
- Não sei! Ele falou mais que eu! – riram.
- Mas o que tu acha?
- Ai, , não sei. Pelo que ele descreveu a vaga, isso não é pra mim. Eu lá tenho pinta de executiva? - elas riram novamente, enquanto entrava no carro.
- Relaxa, . Vai dar tudo certo. – tentou confortá-la, mas a amiga ficou parada, não acreditando no que via. – ? – perguntou.
- , tu não vai acreditar no que eu estou vendo. – falou baixo.
- Um príncipe encantado?! – arriscou e gargalhou em seguida. – Sim, porque nesse hotel...
- ! A ...
- O que tem ela, ? – Perguntou sem vontade.
- Ela está se agarrando com um homem do outro lado da rua. – continuou falando baixo.
- E esse homem não é, por acaso, o marido dela?
- Ai, , desde quando o fica se agarrando assim às oito da manhã na frente de um hotel?
- Putz. Sai daí, !
- Não dá! Preciso ver mais disso! – desligou o telefone sem nem se despedir ou se importar com a reação da outra. Ficou pensando se ia lá e tirava satisfação, ou se realmente ficava ali só observando aquilo. Com certeza, porém, não seria legal se soubesse que sabia de seu caso extraconjugal.
Quando viu o ‘casal’ se afastando, ela deu partida no carro e seguiu seu caminho. ‘Isso não é justo’, pensava enquanto dirigia.
Sua maior vontade era pegar o telefone e ligar pro corno do . Digo, ligar pro e contar que ele estava sendo traído. Mas ela nem tinha certeza se era . Na verdade, tinha sim. Saberia reconhecer aquela tatuagem bagaceira de dragão em qualquer lugar do mundo. Mas ainda era melhor descobrir direitinho e depois contar. Ou nem se meter. Mas ela não sabia por que tinha doído tanto nela ver aquilo.
- E aí???? – entrou em casa e deparou-se com o irmão no sofá com os meninos. – Iiiih! Essa cara diz que não deu certo.
- Ah, não sei. – Jogou-se no sofá.
- E pra quê era?
- Sub gerente do hotel. – Falou, simples, e o irmão a olhou apavorado.
- SUB GERENTE???
- Por que o espanto? – riu. – E eu posso saber por que o senhor não os levou para a escola??
fez cara de criança que fez arte. – O Johny ainda tava com febre, então decidi ficar aqui com eles, vendo desenho.
- Huum.... Ok então. – riram. – Vou tomar alguma coisa. –Levantou-se e foi até a cozinha.
- O esteve aqui.
Sentiu uma agulhada no peito ao ouvir o que o irmão havia dito.
- Pra? – Tentou ser o mais indiferente possível.
- Pra ver os meninos. E por que tu não me contou o que aconteceu ontem?
- Porque eu não te vi, oras. Devia estar dormindo quando tu chegou. – entortou a boca, e o irmão sorriu.
- Então, ele veio devolver seu celular que ficou no carro dele ontem, antes que a encontrasse. Ele a estava indo buscar no Hotel. Por acaso vocês não se encontraram? Ela está hospedada no hotel em frente ao The Milestone.
Agora a agulha entrou por inteiro no peito dela. acabara de confirmar: era a na porta do hotel.
- . - voltou para o sofá. – Eu encontrei com ela sim, mas ela não me viu porque.... – pensou se contava, mas o irmão fez um gesto com a cabeça, a incentivando a continuar. – Porque ela estava se agarrando com um cara na porta do hotel dela.
- Como assim? – ficou com uma expressão de susto.
- É. Assim.
- Você tem que contar, .
- E por acaso o acreditaria em mim?
- Ok. Precisamos pensar. – Ele falou ao mesmo tempo que a campainha tocou .
- Amiga, que história louca é essa, hein?
- Dar oi pra quê, não é mesmo? - sorriu e beijou a bochecha da menina.
contou a eles exatamente o que tinha visto mais cedo. Queria contar a , só de raiva. Queria que ele sofresse bastante.
- Mas você tem certeza do que viu? – perguntava para a irmã, que estava com uma expressão demoníaca.
- Tenho, . Eu reconheci aquela tatuagem bagaceira que ela tem nas costas.
- Ele precisa saber disso.
-Eu sei, mas vou falar com a antes.
- Não inventa, ! Tu vai arrumar confusão, isso sim!
-Ah ... – Simplesmente não tinha mais palavras.

Capítulo 22

- , eu não aguento mais! – bateu a mão com força na mesa da cozinha da casa de . Já estavam discutindo há alguns minutos e a mulher parecia não entender e argumentar cada vez mais, isso estava deixando o outro mais puto da vida.
- Como assim, ? – colocou as mãos na cintura e bateu o pé.
- Eu não consigo. Você não é mais a pessoa por quem eu me apaixonei. – passou as mãos pelo rosto e em seguida pelo cabelo.
- Mas o que eu fiz?
- O que você fez? Você simplesmente está destruindo nosso casamento!
- Aposto que aquela garota está colocando você contra mim.
- Cala boca, . Deixa a fora disso. – Fechou as mãos com força, tentando conter sua raiva por ouví-la falar assim da menina.
- Defendendo?
- Ela não merece que você fale assim dela. – Ele falou calmamente, levantando os ombros.
- Ela merece coisa muito pior pelo que ela fez com você, .
- O que ela fez? – arqueou uma sobrancelha e questionou a mulher, que agora estava com sua expressão assustada.
- Ué, você melhor do que ninguém deveria saber das coisas que ela fez, não? – Tentou contornar.
- Nem me venha com essa. Pelo visto é você que está tentado colocar-me contra ela, não é mesmo? Olha só você falando. Parece uma adolescente que tem medo que o namorado...
- Adolescente o caralho, ! Somos adultos e casados. – Ela gritou, e ele respondeu no mesmo tom.
- Então aja como adulta, porra! – socou a mesa novamente.
- Que gritaria é essa? – abriu a porta e deparou-se com o casal gritando.
- Inconveniente você, não? – respondeu, petulante.
- Acho que não, querida. A inconveniente aqui é você! Eu estou na minha casa. E se por acaso você ainda não notou, não é bem vinda aqui. – Ele falou a mesma altura, apontando a porta, que ainda estava aberta.
- Você pensa que pode falar assim comigo? Está muito eng...
- Ei ei ei! Chega, . Ele tem razão. A casa é dele, você nem deveria estar aqui. Então vá embora, outra hora passo no hotel e nós continuamos essa conversa. – estava visivelmente nervoso e atordoado.
- No hotel não, amorzinho. – Ela fez aquela voz melosa e ia abraçá-lo quando ele segurou seus braços suspensos no ar.
- Não significa que estejamos bem. Nós vamos terminar essa conversa em outro momento, até lá, fique longe daqui, ok? – disse, soltando com força os braços da mulher, que o fuzilou com o olhar.
- NUNCA DEVÍAMOS TER SAÍDO DE NOVA YORK PARA VOLTAR PRA CÁ, . – ela gritou, batendo o pé novamente. - Eu sabia que aconteceria isso! Você não pode ver aquela mulher que fica assim. Todo aturdido. Mesmo lá, você não podia nem ouvir falar no nome daquela... – Ela não terminou sua frase porque a pegou com força pelo braço e a arrastou para fora do apartamento.
- Se for falar mal da , pelo menos tenha a decência de não falar na frente de quem gosta dela. E cuidado, se morder a língua vai morrer envenenada. – Ele apenas bateu a porta na cara dela, sem se importar com ela, que começava a bater com força, xingando até a vigésima geração da família de e de todos os outros. Inclusive do marido dela. – O que foi isso, dude? – ele sentou no sofá ao lado do amigo, que tinha a cabeça apoiada nas mãos, com uma expressão cansada. – Por que vocês estavam brigando?
- Ah, . Eu cansei dela. – Ele levantou o rosto para encarar o amigo. – Ela não era essa mulher fútil e mimada quando me casei com ela.
- Era sim. – o amigo riu e ele acompanhou. – Só você não percebeu. Ela continua exatamente a mesma mulher.
- Então por que agora eu não consigo suportar mais? – Agora o rosto de tinha um enorme ponto de interrogação, e nem se privou de rir alto.
- Meu caro, você voltou pra casa. Pro lugar de onde não deveria ter saído nunca! Voltou para perto de seus amigos. E isso inclui a . Tu fica claramente estranho demais quando está perto dela.
- É tão evidente assim?
- Uhum. – murmurou e ele sorriu torto. Precisava tomar uma atitude em relação a isso. Realmente não aguentava mais sua mulher. Nem aguentava ficar longe de . Ela parecia odiá-lo, e não dava oportunidade nem de uma conversa muito longa. De fato era bom estar em casa novamente. Estar perto daqueles que gostava, mesmo sabendo que todos estavam com os dois pés atrás com ele. Apesar de nem saber o motivo direito. Ok, ele sabia que era por tê-los deixado na mão com a história da banda. Mas eles já o tinham substituído pelo engomadinho-nem-tão-engomado-assim sem nem pensar duas vezes. E . Nem lembrava por que ela guardava tanta mágoa dele. Iria fazer alguma coisa. Senão, definitivamente, iria pirar.

Xx

estava chegando em casa da sua aula maluca com horários mais malucos ainda quando ouviu seu celular gritar e vibrar dentro da bolsa. Numero não identificado, dizia no visor. Entortou a boca, jogou a bolsa no sofá e caiu ao seu lado, atendendo:
- Alô? – Perguntou curiosa.
- Srta. Munhoz?
- Sim, quem fala?
- Aqui é Michael Ross. Estou ligando para pedir que compareça ao hotel esta tarde às 15 horas, por favor.
- Claro, Claro. – Começou a tremer. – Estarei aí, Sr. Ross.
- Michael. Me chame de Michael. Te vejo logo.
Ela desligou o telefone e ficou batendo de leve com ele no queijo. Olhava para o nada tão distraída que nem viu o irmão entrar em casa.
- O que foi, ??? – parecia preocupado – Que cara é essa?
- O cara do hotel ligou.
- E????
- E é pra eu ir lá hoje à tarde.
- E???
- E nada, ô. Se fosse pra me dispensar ele não iria perder meu tempo pedindo pra eu ir pra lá.
- Aham.- Ele resmungou como se não acreditasse naquilo. - Vou encontrar o agora, quer ir junto?
- Não, tenho aula de novo, só vim comer. – Botou a língua pro irmão e foi tomar banho.
Não podia acreditar. Será que tinha conseguido o emprego? Será que ele seria capaz de chamá-la até lá só para dizer que ela não tinha sido escolhida? Não podia esquecer de ligar pro estágio pra avisar que não poderia passar lá e pedir desculpas. Apesar de todos saberem da entrevista, ela sentia-se um pouco culpada por deixá-los na mão, era ela que fazia todo o trabalho mesmo.
Saiu do banheiro e, ainda enrolada na toalha, atendeu o telefone, que tocava novamente.
- Oi amor. – Sentou-se na cama ao ver que era o namorado.
- Oi.
- Que voz triste é essa, ?
- Nada não, . Preciso te ver, só isso.
- Claro, posso passar aí de noite? – Ela perguntou, estranhando o modo de falar do namorado. Nunca era assim.
- Pode sim. Traz a chave, se eu não tiver chegado ainda me espera aqui.
- Certo. Te vejo mais tarde. – E antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.
Já tinha ido para a aula, já tinha voltado pra casa, escolhido uma roupa, ligado para o estágio, tomado banho mais uma vez, lanchado, e ainda andava de um lado para o outro de calcinha e sutiã quando alguém bateu na porta e ela mandou entrar, sem se lembrar de seus trajes.
- Oi . – entrou faceiro no quarto, mas ficou estático e boquiaberto quando a viu roendo unhas.
- Oi . O que você tá fazendo aqui?
- Eu vim perguntar se posso vir brincar com os meninos mais tarde. - Ele disse, sem tirar os olhos do corpo dela, e só então ela se deu conta do que vestia.
- Fecha os olhos, ! – Gritou. E pegou a primeira coisa que enxergou: sua micro camisola. – Pronto, pode abrir.
- Por que esse nervosismo todo?
- Tenho que ir no hotel daqui a pouco, o gerente me chamou.
- Aquele da entrevista? – Perguntou sorrindo.
- Sim.
- Espero que dê tudo certo. – Ele disse, chegando perto dela, que estava escorada na parede numa pose que julgava muito sexy, algo que ela nem notou. – Aliás, se ele te chamou é porque já deu certo, não é? – cada vez mais perto.
- É? – Agora havia embaralhado tudo, o nervosismo, a proximidade de , ela sentia seus músculos não obedecerem aos seus comandos.
- Claro que sim. Você é boa demais! – Ele sussurrou em seu ouvido a frase com duplo sentido antes de agarrá-la com força, ao que ela não lutou contra. Ele beijou seus lábios com saudade e vontade, enquanto ela parecia responder àquilo. Suas mãos passeavam pelo corpo quase nu da garota e ela o escabelava cada vez mais. Ele a pegou no colo e com muita agilidade a levou até a cama, onde a coisa só se intensificou. Só ela sabia como sentia falta daquilo. Aquela pegada, aquela vontade, aquele homem. Sem pensar, ela tirou a camisa dele e sua mão já estava em seu cinto quando ele arrancou a camisola do corpo dela. Em pouquíssimos minutos eles já estavam completamente nus, suados, vermelhos, ofegantes e num baita amasso que já gerava suspiros e gemidos, ele começou a beijar seu colo enquanto suas mãos apertavam seu quadril. apontou para a gaveta, deixando claro o que queria e, em um rápido movimento, ele abriu a gaveta, pegou uma camisinha, colocou-a em seu devido lugar e prosseguiu. Depois de um tempo ele deixou-se cair sobre ela de olhos fechados e um sorriso torto nos lábios. Alguns minutos se passaram e eles apenas trocavam furtivos olhares.
- Não acredito. - ela sussurrou, ao que ele disse, sem conter o aumento de seu sorriso:
- Eu precisava. – Ele disse, beijando os ombros nus da garota, e ela parecia se arrepender do que fizera.
- , a gente não devia...
- Não fala ! Não fala que a gente vai acabar brigando. E além do mais, você tem que ir, pra não se atrasar. – ele disse com a maior naturalidade do mundo, e ela pulou da cama pro banheiro, quase o derrubando. Não teve muito tempo de pensar, quando saiu já estava sozinha no quarto. Vestiu uma saia preta de cintura alta com uma regata branca, calçou os sapatos pretos, penteou os cabelos e passou rapidamente o secador, maquiou-se e saiu. Ainda não acreditara no que aconteceu, mas não tinha tempo para aquilo.
Estacionou o carro em frente ao hotel e entrou rapidamente, cumprimentando a mesma moça de antes, que já a encaminhou ao elevador. Sentou-se no mesmo sofá, mas dessa vez com os pés e as mãos inquietos. Sua cabeça girava em muitas possibilidades.
- ? – Michael estralou os dedos em frente ao seu rosto. Dessa vez ela não ouviu nem a porta se abrir, muito menos ele chamar seu nome algumas vezes.
- Olá. Desculpe-me, estava distraída. – Ela sorriu sem graça e entrou na sala junto com ele.
- Bem, eu vou ser direto. Você foi escolhida para ser a sub gerente deste hotel. – Ele falou com um sorriso encantadoramente gigante e ela não sabia se pulava, chorava ou gritava. Sorriu em agradecimento muitas vezes e não conseguia falar nada. Ao que ele entendia perfeitamente.
- Bom, espero você no início do mês que vem. Ainda terá um mês de férias para se divertir, porque depois que você começar, vou tirar seu coro. – ele disse a última frase sorrindo galantemente, como se ela ouvisse aquilo todos os dias. - Fale com a Marie lá em baixo, a moça que te acompanhou hoje, e ela lhe acompanhará até a sua nova sala. Será um prazer trabalhar com você. – Ele deu ênfase a prazer de propósito, e ela ficou encabulada. Saiu do hotel e foi pra casa. Iria ter coragem de encarar o namorado mais tarde? Não seria justo. Em poucos minutos ela adormeceu.
Mais tarde seu celular tocou e ela atendeu assustada com o toque alto.
- ? Te acordei? – a voz dele soava tão doce.
- , o que você quer? - perguntou mal humorada, ignorando completamente o fato de que tinha tido a melhor rapidinha da vida com ele há menos de quatro horas. E que, de fato, nunca tivera uma transa tão boa quanto aquela.
- É que eu queria passar aí mais tarde, pra ficar um pouco com os meninos. Mas eu não sei se você vai querer né... depois do que aconteceu mais cedo...
- Não fala sobre isso. Pode vir. Não vou estar em casa mesmo. Mas não deixe eles aprontarem, ok?
- Ok. – Ele respondeu, meio a contra gosto. Aonde ela iria?
Ela desligou o telefone, olhou o relógio e forçou-se a levantar. Arrumou-se e foi encontrar o namorado. Eles iriam comemorar o mais novo emprego dela. Era o que ela achava, pelo menos. Ao entrar no apartamento de , algo chamou sua atenção: caixas. Sim, algumas caixas de papelão estavam distribuídas pelo apartamento, havia rolos de plástico-bolha no canto da sala, que estava bem bagunçada. Procurou pelo namorado e não o encontrou, estava acontecendo algo que ela ainda não sabia? Percebeu uma papelada em cima da mesinha de centro e sentou-se ao seu lado, analisando os papéis. Havia uma passagem para Dublin para dali três dias, contrato de aluguel de uma casa, contrato de trabalho com um hospital. Mas que diabos estava acontecendo, caramba? Que história era aquela? Continuou a olhar os papéis e, por um momento, uma ideia surgiu em sua mente: será que tinha alguma coisa a ver com a viagem da semana passada? Mas ele teria falado algo, não teria? Olhou ao redor, aquelas caixas... ele estava de mudança. Sentiu uma dor invadir-lhe o peito, uma sensação horrível tomou conta de seu sentimento e ela não sabia do que se tratava. Não queria terminar seu relacionamento com ele, ainda não estava preparada para isso. Ele era um cara legal, gostava de seus filhos, gostava dela. Ela sabia disso. Escorou-se no sofá, encolheu as pernas e enfiou a cabeça entre os joelhos. Esperando que lágrimas viessem, mas não, não naquele momento. Depois de alguns minutos ouviu barulho de chaves e deduziu que ele chegara. Ela levantou a cabeça para encará-lo e ele tinha uma expressão triste.
- , o que é tudo isso? – Ela apontou para a mesa e para as caixas, sem se levantar.
fechou os olhos como se tomasse coragem para fazer o que estava prestes a fazer. Suspirou longamente, andou até a namorada e a abraçou forte, e foi nesse momento em que ela começou a chorar. Sabia que tinha terminado.
- Eu não quero que você vá. – Ela se surpreendeu quando ouviu sua própria voz melancólica.
- Meu amor, - ele começou a falar, se soltando aos poucos dela, que pôde perceber seu rosto úmido. Ele chorava tanto quanto ela. – Eu sei que você não quer. Mas não há nada que possamos fazer. – Ele sentou de frente para ela e, olhando no fundo de seus olhos, ele disse as palavras dolorosas: - Nosso namoro termina aqui, .
Oi? Como assim? Ele estava indo embora por que mesmo? Alguém poderia explicar, por favor?
- Mas o que aconteceu? – Ela espalmou a mão no rosto do rapaz, fazendo carinho, tentando entender o que estava acontecendo. – Você deixou de me amar? – sua voz soou fraca e ele sorriu.
- Não. Nunca. – Ele segurou as mãos dela e suspirou. – Eu te amo demais! Mas a questão não é o que eu sinto. E sim o que você sente. – jogou os ombros para baixo e viu que ela abria a boca para falar algo, mas antes que possível ele continuou a falar. – Eu sei que o que você sente por mim é verdadeiro, mas não é tão forte quanto o que você sente pelo . – fechou os olhos e sentiu as lágrimas escorrerem ainda mais pelo seu rosto. – Eu sei que você foi fiel até aqui, mas eu te conheço melhor do que ninguém, pequena. É por ele que teu coração dispara. – Será que se ele soubesse o que acontecera hoje mais cedo ele estaria sendo tão carinhoso assim?
- Não! – Ela gritou para tentar se convencer de que realmente não era, mas sabia que tudo que o ainda namorado estava dizendo era verdade.
- , por favor.
- , me explica o que está acontecendo? – Ela disse, olhando para suas mãos.
- Certo. – pensou por um minuto por onde começaria. – O hospital de Dublin queria me contratar, com o dobro do meu atual salário. Eles estão sem pediatras, e como minha residência foi lá, eles sabem o quão bom eu sou. – sorriu espontaneamente. – Eu pensei muito, . Muito mesmo. Em várias hipóteses, e uma delas era te levar comigo, mas lembrei que você não pode tirar os meninos do país sem antes contar pro e blá blá, outra foi manter nosso relacionamento a distância. – Ela abriu um sorriso quando ouviu, mas logo desmanchou quando ele continuou. – Mas não sou bobo, eu sei perfeitamente o que poderia acontecer na minha ausência. Não que seja culpa sua, mas é a ele que teu coração pertence, e não a mim.
Ela não tinha o que dizer, infelizmente ele tinha razão. Sabia disso melhor do que ninguém. Apenas não tinha reação nenhuma.
- E como a gente fica?
- Não fica. Nosso namoro tem que terminar, . Eu vou estar muito longe daqui, vou sofrer sem ti ao meu lado. Ficaria paranóico sabendo que aquele cara fica indo na sua casa toda hora. Em algum momento você iria ceder. Não quero isso. Eu quero guardar só os momentos bons do nosso namoro. Foram três anos e meio em que brigamos muito pouco. Eu fui muito feliz contigo. – Ele segurou as mãos dela com força e de olhos fechado continuou. – Agora é a tua vez de buscar a felicidade de verdade.
- Eu fui feliz contigo. – respondeu incrédula.
- Foi, eu sei que foi. Mas boa parte desse tempo não era em mim que teu pensamento estava. Não era comigo que você queria estar.
- Isso não é verdade, .
- , agora não interessa mais. Eu vou para Dublin em três dias. Gostaria que você ficasse comigo nesses dias, para que seja menos doloroso. E não quero te ver chorando.
Ele mal terminou de falar e ela se atirou nele, em um forte abraço. soluçava como uma criancinha. Um dor estranha tomava conta de seu peito e parecia haver uma bola de tênis na sua garganta. Não queria que ele fosse embora. Queria que ele estivesse sempre com ela. Sabia que era egoísta da sua parte, mas era a verdade. Ele sempre esteve ao lado dela, em todos os momentos, sempre foi um ótimo namorado. Nunca deixou faltar nada, pelo contrário, sempre deu muito carinho para ela e os meninos, que considerava como seus filhos. À medida que a dor aumentava ela o apertava mais, como se fosse segurá-lo e fazê-lo mudar de idéia. Ela poderia muito bem viver sua vida ao lado dele, sem nem pensar duas vezes. Não trocaria aquele homem por . Ele não a merecia. Era um corno ordinário. não, era o cara mais apaixonado do mundo. Ela sabia que casaria com ele um dia, sem esforço nenhum. E seria feliz, sim. Seria capaz de amá-lo como ele a amava. Achava, pelo menos. Era completamente possível que ele se tornasse o homem da vida dela, não era? Enquanto ela chorava, ele passava as mãos pelas suas costas e soluçava baixinho. Com certeza estava sendo mais doloroso para ele. Então, como um estalo mágico em sua cabeça, soltou-se do abraço, olhou fundo nos olhos do rapaz e o beijou. Beijou com vontade. Inicialmente ele ficou surpreso, mas sorriu consigo e retribuiu. Não era um beijo apressado. Não era violento nem agressivo. Eu diria, apaixonado. Ela sabia que aquela seria a última vez que estaria com ele como namorada, e que daquele momento em diante ele iria estar com outras pessoas, até encontrar aquela que o merecesse de verdade. Sabia também que ela o amava. De uma forma diferente. Mas amava e iria sentir sua falta. Iria sentir falta de acordar olhando para ele. De dormir abraçadinha com seu corpo malhado. Dos seus deliciosos carinhos. Iria sentir falta dele a acalmando e abraçando como se tudo aquilo fosse passar e, de fato, passava. Nunca mais iria se refugiar naquele abraço. Nunca mais ouviria sua voz doce sussurrando em seu ouvido que tudo ficaria bem e que ele estaria ali para sempre, junto com ela. Ele sentia aquilo também. Sabia que sentiria falta daquela menina mulher e de seus filhos, que de certo modo eram dele também. Pensando nisso, ele a deitou no carpete e ali eles fizeram amor. De uma forma pura, amável e saudosa.
- Vou sentir sua falta. – Ela disse, deixando algumas lágrimas escorrerem de seus olhos, deitada no peito nu do rapaz, que acariciava seus cabelos.
- Eu também vou, . – Respondeu com os lábios contra a testa dela, de olhos fechados fortemente, lutando contra as lágrimas que teimavam em descer.
Ficaram ali por muito tempo, em silêncio, abraçados como se o mundo pudesse acabar e os dois ainda estariam a salvo ali, nos braços um do outro. Ela não sabia explicar o que era aquele sentimento que dominava seu corpo. Se já era saudades, se era arrependimento por não ter sido melhor pra ele, se era alívio por estar livre, se era remorso. Ela não saberia distinguir, só sabia que não era um sentimento bom e, apesar de estar confortavelmente em seu peito, gostaria que passasse logo aquela sensação de que algo estava errado. Em controvérsia, gostaria, também, nunca mais sair daquele abraço. Que sempre lhe transmitira coisas boas e que, vamos combinar, era gostoso demais. sabia muito bem o que se passava em sua mente, estava triste por a estar deixando para trás. Mas não podia negar que aquela era a oportunidade da vida dele, e mulher nenhuma (principalmente uma que não o amava na mesma medida que ele a amava) iria impedi-lo de conseguir. Sentiu-se mal com esse pensamento egoísta e a abraçou com mais força, iria sentir muita falta daquela mulher que ainda chorava em seus braços.
-Você já contou para os meninos? – Já era noite escura quando ela quebrou o silêncio, ainda soluçando. Ele balançou a cabeça negativamente e respondeu:
- Ainda não. Mas vamos deixar isso para amanhã? – Sorriu malicioso enquanto distribuía beijinhos pelo rosto molhado da garota. – Tô com fome. – disse em seguida e levantou-se puxando-a para cima. - Vamos cozinhar. – Completou, pegando-a no colo.
- Ei, a gente vai cozinhar assim? – apontou para os corpos nus e entortou a boca.
- Ah, é. Tinha esquecido. Por mim sim, juro que não me importaria em ficar te assistindo nesses “trajes”. – respondeu largando-a no chão, mas sem soltá-la do abraço.
- Na ausência de trajes, né? – Riram. soltou-se dos braços fortes do garoto e caminhou até a sala. Por um momento observou as roupas atiradas no chão, espalhadas pelo tapete. Iria sentir falta do sexo com ele. Não era (sempre) animalesco, muito menos chato. E sempre tinha amor. Espantou aquele pensamento, vestiu sua calcinha e a camiseta dele e juntou a boxer do namorado. Voltou para a cozinha e o encontrou comendo uma maçã, escorado na bancada de centro da cozinha.
- Que visão! – Brincou maliciosa enquanto jogava a boxer na direção dele, que fez cara de criança que fez arte. – O que você quer comer?
- Faz aquela pizza?
- Pizza? Não é mais fácil pedir tele entrega?
- A sua é melhor. – Sorriu largamente. – Por favor! – Fez beicinho e gargalhou em seguida.
- Ok. Mas você vai me ajudar.
Quarenta minutos depois, com a cozinha toda suja de farinha, colocava a pizza no forno. Sorriu consigo ao lembrar de como aquele cara ali na sua frente, também sujo de farinha, era apaixonado pela pizza dela. E lembrou-se então de contar o que viera contar.
- . – olhou séria. – Lembra da entrevista?
- Sim. Como foi? – Ele perguntou, puxando-a para perto, e viu aquela cara séria dela se desfazendo e sendo tomada por um sorriso enorme.
- Eu consegui! – Então ele a agarrou e o mundo acabou. Por aquele momento, pelo menos. Ela sentiu uma felicidade extrema com aquele abraço, e uma sinceridade tremenda. Sabia que ele seria seu amigo pra sempre. Independente do que tinham passado juntos. Independente dele achar que ela não o amara o suficiente ou quanto ele queria. Independente de ele ir pra longe. Independente de tudo o que aconteceu e de todos os detalhes, ela sabia que ele sempre seria um porto seguro.

Capítulo 23.

Depois daquela noite de revelações, chegava em casa com , percebeu alguns carros estacionados na rua e estranhou. A casa estava cheia. Entrou de mãos dadas com o rapaz e ao abrir foi logo recepcionada pelos filhos, que pulavam alegremente com a boca cheia de salgadinhos. , e estavam atirados no chão da sala jogando videogame, e estavam na cozinha, para variar, e vinha logo atrás dos meninos.
- Salgadinho, ? Não são nem dez horas da manhã! – Colocou as mãos na cintura e olhou séria para o irmão.
- Bom dia pra você, irmã! – ele debochou – E é sábado, relaxa. – abraçou-a e cumprimentou .
- Precisamos conversar galera. – Esse último disse, sentando no sofá, com ao seu lado – E gostaria que fosse agora.
Então todos vieram para perto e se entreolharam, curiosos. Certamente não seria fácil dizer: “oi, vou embora e nossa banda que se exploda”. E ainda tinha ali, ele não fazia parte daquele círculo de amizades agora. Ele era um intruso.
- Bem, acho que preciso contar agora pra vocês que eu estou voltando pra Dublin. – Disse, sem rodeios.
- Todo esse suspense pra uma viagem? – gargalhou alto.
- E quanto tempo vai ficar lá? – perguntou, ainda sorrindo.
- , eu não vou voltar. – Ele olhou os rostos dos amigos e todos, exceto e as crianças, estavam espantados. – O hospital me chamou e eu vou pra lá. Já está tudo acertado.
Então começaram um festival de perguntas. saiu da sala e foi brincar com os meninos no quarto. Era até melhor que ele não participasse daquilo. ainda estava com as mãos entrelaçadas às de e sentia que voltaria a chorar a qualquer momento, mas o assunto agora era a “The Guy’s”. parecia triste demais, e estavam sem palavras e as meninas apenas olhavam para a amiga, como se soubessem o que ela estava sentindo.
- Quando você vai? – quebrou aquele silêncio, sem direcionar o olhar para o rapaz à sua frente.
- Depois de amanhã. Já está tudo encaixotado, pronto pra mudança. – encarou seus tênis, e de fato eles pareciam muito interessantes, mas então se lembrou de algo importante – A gente podia começar a procurar um baterista, não é? Quero dizer, se vocês quiserem a minha ajuda e...
- ! – gritou, interrompendo a frase do outro e assustando todo mundo.
- , pra que isso? – segurou o braço do rapaz, visivelmente transtornada, então ele levantou-se e foi andando na direção do quarto.
- Oi? Alguém entendeu alguma coisa? – perguntou, enquanto ela e todos os outros ainda olhavam o caminho que acabara de traçar. – Não? Porque vou dizer, eu não...
- , fica quieta. Ele foi chamar o . Baterista, . – falava sem paciência.
realmente ficou assustada com a reação do amigo. E, naquele momento, teve pena de . Sabia que ele estava se sentindo mal por tudo aquilo e realmente havia exagerado desnecessariamente. Apertou as mãos que estavam entre as suas e sorriu sinceramente para ele, que estava com um semblante triste.
- Por que a gritaria, ? – estava sentando entre os dois meninos com um carrinho hotweels nas mãos.
- Quanto tempo tu vai ficar por aqui?
- Como assim? Posso ir embora agora, se quiser. – levantou-se rápido e soltou o carrinho no chão, visivelmente transtornado.
- Não, . Não daqui da casa, daqui de Londres.
- Não sei, . Não tenho data pra ir embora.... Sei lá! Por quê?
-Tu tem que ir embora?
- Dude, tu tá me assustando. Por favor, vamos falar coisa com coisa? O que diabos está acontecendo lá embaixo?
- O vai embora pra Dublin. – disse, sentando no chão e pegando o carrinho, e não pôde conter um sorriso largo.
- E? – perguntou esperançoso.
- E que ficamos sem baterista. Ficamos sem amigo, fica sem o namorado e os meninos aí... – apontou pros dois, que brincavam de corrida com seus diversos carrinhos coloridos – ...ficam sem a figura paterna que eles tinham.
, definitivamente, não esperava por aquilo. O amigo praticamente o tinha convidado pra sem baterista, voltar a ser amigo deles – não que em algum momento ele tivesse deixado de ser - e ainda por cima, deu a entender que o caminho estava livre pra ele em relação à garota. Agora, quanto aos meninos, será que ele, um dia, seria algum tipo de figura paterna pra eles? Olhou para os dois, Deus, como eram parecidos. Como pareciam se divertir muito com apenas alguns carrinhos? Lembrou-se de quando ele era mais novo, sua mãe dizia que ele costumava se entreter com coisas bobas, nunca foi uma criança muito exigente. Naquele momento se viu espelhado nos dois pequenos em sua frente. Sorriu ainda mais e voltou a olhar pro amigo, sentando-se novamente entre os garotos.
- . – chamou e viu o amigo olhar pra ele, sentiu uma dor no peito, o amigo não estava feliz – O que tu quis dizer com tudo isso? – Perguntou e viu Henry sentar em sua perna, que estava cruzada como um índio.
- Se tu não tivesse ido embora com aquela vaca loira nada disso estaria acontecendo. – Ele sorriu engraçado. – Falei que nem a agora.
- Seu gay. – riu.
- Tio gay. – Johny falou e fez os outros gargalharem.
- Olha o que tu fez, seu imbecil! Perdi o respeito dos meninos! – disse, invocado.
- Tio imbecil. – Johny falou novamente.
- Ei rapaz! – fez cosquinhas nele, que ria se contorcendo.
- . – se obrigou a interromper aquele momento antes que falasse alguma coisa do tipo ‘que lindo pai e filho’ – O que eu quero dizer é que agora tem um lugar pra ti aqui. O lugar que sempre foi teu, mas que nós tivemos que substituir porque tu nos deixou. Isso inclui todos os requisitos anteriores. – ele disse, e arqueou a sobrancelha, não entendendo – Banda, amigos, e... – Não quis terminar, sabia que falaria merda.
- E...? - , meu amigo. Fico lisonjeado que queira que eu volte pra banda, mas creio que o não vai gostar de nenhuma das hipóteses, sendo a principal delas eu me aproximar da irmã dele e dos seus sobrinhos, não acha?
Então, o garoto olhou sério nos olhos do amigo e levantou-se:
- Primeiro: a banda não é composta só pelo . Segundo: quem tem que deixar você se aproximar dela e dos filhos dela é a , não o . Terceiro: você tem que querer. Se quiser, para de arrumar desculpas. Quarto: eu vou descer antes que a queira me matar por ter saído da sala daquele jeito, e acho que tu deveria descer junto.
Então os três se levantaram e acompanharam para fora do quarto, sem dizer uma palavra até Johny chegar no colo da mãe.
- Tio gay. – Ele disse, e todos ali gargalharam.
- E o tio é imbecil. – Henry falou e os outros gargalharam mais ainda.
- Johny! Sua mãe vai bater em mim por isso! – disse, recebendo um tapa de - Ok, seu tio também. – Todos continuaram rindo. Apenas e que só sorriam. Até o silêncio se estabelecer entre eles e o único som ouvido ser o dos barulhos estranhos feitos por Johny e Henry, que imitavam uma corrida de carros pelo tapete da sala.
- , desculpa, cara. – disse, e todos olharam pra ele – Acho que exagerei na minha reação. – baixou a cabeça, tinha realmente exagerado desnecessariamente.
- Eu entendo, dude. – Ele disse, sorrindo – Espero que o aceite ficar no meu lugar. Digo, o lugar que era dele. – Todos olharam pra ele espantados, inclusive , que chegou a soltar as mãos dele, mas ele as pegou de volta, apertando. – Me sentiria menos culpado.
olhou para a irmã e viu que ela estava apavorada com a sugestão de . sorria feito um idiota, assim como . e se entreolhavam, e então seu olhar parou em , que estava estático, com a boca entreaberta. Deus, que ele não dissesse sim.
- Diz que sim. – bateu palminhas e todos riram.
- Preciso pensar, cara. Bem ou mal ainda tenho a minha vida em Nova York, e ainda tenho a . – Ele disse, pensativo – Mas vou pensar. – Sorriu pensando na possibilidade e nas coisas que havia dito mais cedo pra ele.
- Ah, claro, a . - falou irônica. Já sabia das fofocas sobre a “cornitude” de , e não conseguia se conter. Se coçava pra contar a cada vez que via o rapaz, e sempre alguém tinha que segurá-la, como naquele momento em que ele a olhava com uma sobrancelha arqueada e um ponto de interrogação no rosto.
- , preciso de ajuda pra fazer o almoço, vem comigo? – olhou séria pra ela, que a seguiu até a cozinha dandos risinhos discretos.
- Vou juuuunto. – correu atrás e entrou na cozinha a tempo de ver as amigas se entreolhando – Duuuuude, o que foi isso? – E as três começaram a rir impiedosamente.
- Certo, , a partir de hoje tu só sai de casa com mordaça. – falou, dando impulso para sentar na bancada, e as outras duas se sentaram no chão, escoradas à parede oposta a ela.
- Como você tá se sentindo com tudo isso? – abraçou os joelhos ao ouvir a garota ao seu lado perguntar, como se ela mesma tivesse medo daquela pergunta.
- Triste. – encolheu os ombros – Não queria que ele fosse embora.
- E agora?
- Agora, , não sei o que fazer. – entortou a boca.
Então o silêncio tomou conta da cozinha e, após alguns minutos, puderam ouvir gargalhadas divertidas vindas da sala e foram se juntar. Seja lá qual era a situação entre eles antes delas saírem da sala, já estava resolvido. e riam juntos sem aparente problema um com o outro. parecia se divertir bastante enquanto fazia caretas pros sobrinhos. e se jogavam almofadas como duas crianças arteiras. As três de entreolharam por um momento e sorriram.

Xx

- Hey, por que você tá aqui? – perguntou, sentando no balanço ao lado de , que se balançava calmamente enquanto chutava a areia com a ponta dos pés e nem o viu se aproximar.
Depois do almoço todos estavam na sala se divertindo. Jogando videogame, contando piadas idiotas e rindo. Como há muito tempo não faziam. Ela havia desistido de assistir a felicidade dos amigos e decidira espairecer um pouco. E nada como uma pracinha deserta para isso, certo? Errado. Havia um ali. Um curioso, por sinal. Não que ela fosse egoísta. Digo, ao ponto de não suportar a felicidade alheia. Ainda mais quando se tratava dos seus amigos. Mas estava sendo difícil lidar com tudo aquilo. De certa forma, a ida de para Dublin viria a calhar. Mas ela sentiria sua falta. Por que, céus, por que tudo tinha que ser tão complicado? Não queria ter que lidar com tudo. Seria tão mais fácil se alguém viesse e decidisse por ela o que fazer, como fazer, por que fazer.
- Me seguindo, ? – levantou o olhar na direção do garoto, que não esperava tamanha frieza.
- Sim. – disse simplesmente, fazendo com que o silêncio reinasse novamente entre eles. Aquela tensão era tão palpável quanto a vontade de de despejar a verdade de uma vez só, sem nem pensar. Mas sabia que aquilo tinha que ser dito com calma, sem raiva ou ressentimento, sabia que precisava que ele aceitasse aquilo. Tremeu. Ainda não tinha pensado na hipótese dele simplesmente não aceitar e não gostar da ideia de ser pai. Pai de dois. Pai de gêmeos. Pai de filhos de . O que significaria que eles teriam que manter contato o resto de suas vidas. Também não tinha pensado no fato mais provável, que era ele se revoltar por ela ter escondido aquilo por tanto tempo. E talvez quisesse tirar os meninos dela. No fundo, achou que não seria capaz daquilo. Bem, de qualquer forma ele precisaria saber independentemente de gostar ou não. Independentemente de querer ou não. E ele iria saber agora.
- . - não sabia como deveria falar.
- Hm? – Perguntou esperançoso.
- Você gosta de crianças? – fez careta ao ouvir sua própria voz falhar ao fazer uma pergunta tão idiota.
- Adoro. – ele respondeu, com o olhar sonhador – Meu sonho é ter uma casa cheia de filhos correndo de um lado para o outro. – seus olhos brilhavam só de imaginar, tamanha a intensidade do que dizia, mostrando o que aquilo realmente significava pra ele – Por mim teria um time de futebol.
- Do qual você seria o técnico? – sorriu boba, recebendo um sorriso sincero. Então seus sorrisos murcharam como se pensassem ao mesmo tempo na mesma coisa – O que você sentiu?
- A pior dor possível. –Ela não precisava dizer mais do que isso pra ele saber que ela falava de seu filho com - Hoje você imagina sua vida sem um dos meninos? – ela apenas negou com a cabeça, se assustando com a possibilidade de um dia isso ocorrer – Então, eu tinha planos. Muitos planos. Eu já era o pai mais feliz do mundo, já me sentia completo, nada mais me importava. Eu só queria, de uma vez por todas, conhecer meu filho. E quando aconteceu, sei lá. Foi como se matassem uma parte de mim. Você consegue imaginar?
, sem pensar duas vezes, levantou-se e o abraçou, sem jeito, uma vez que ele ainda estava sentado no balanço. Não entendia o porquê, mas queria que a dor que ele estava sentindo fosse tirada, ou transferida para ela. Não queria vê-lo sofrendo. Sorriu ao sentir suas pernas serem apertada nos braços de . Estranhou a onda daquele sentimento chamado carinho que, nunca na vida, ela sequer sonhou em ter por . Acariciou seus cabelos, que estavam na altura de sua cintura, e sorriu mais uma vez. Pensou que nunca vira tão vulnerável como naquele momento. Nunca o vira tão... tão sensível. Imaginou que aquele seria um ótimo momento para contar-lhe aquilo.
- ... – Recomeçou, se agachando em frente ao garoto, que tinha os olhos marejados – Você ama a ? – perguntou olhando diretamente em seus olhos, para que ele não pudesse hesitar, e aquela pergunta pareceu pegá-lo de jeito. Ele entortou os lábios e arqueou a sobrancelha numa careta engraçada e confusa ao mesmo tempo.
- Eu... Eu não sei. – Soltou todo o ar e jogou os ombros para baixo, cansado de pensar naquilo.
- Se amasse você saberia, certo? – Não conteve o sorriso vitorioso no rosto.
- Eu acho... Acho que sim. – Devolveu-lhe o sorriso.
- Eu preciso te contar uma coisa. – Ela fechou os olhos e suspirou, ponderando uma última vez sua decisão.
- Conte-me. – Até que em fim ele descobriria o que tanto queria esconder dele.
- Eu... ... hm... Acho que você precisa saber... Precisa saber que...
- Mamãe! – Johny gritou e bufou, frustrada.
- Tio ! – Henry gritou, ao mesmo tempo em que o irmão o fez, e viu sorrir, como quem não se importava em ser interrompido pelos dois meninos que corriam em sua direção. Ficou feliz em saber que, independente do assunto, os priorizaria sempre. Será que quando soubesse da verdade ainda seria assim?
- Sua boba! Nem nos chamou para o parquinho! – Johny cruzou os braços e fez beicinho, emburrado.
- Desculpa, meu filho. Já que estamos aqui, agora, por que não vamos brincar no escorregador? – Ela perguntou e viu os pequenos olhinhos brilharem. Olhou pra , que sorria todo bobo os encarando com Henry no colo, e sibilou um ‘desculpe’, ao que ele sorriu mais ainda, como quem diz que não tem problema. Viu-o pegar Johny com o braço livre e o puxar para cima, o colocando no colo. E não conteve a risada gostosa ao ver a cena. , com Henry e Johny, um em cada lado de seu colo, bagunçando seus cabelos e rindo como se aquilo fosse muito mais divertido que o escorregador. Naquele momento teve a certeza do que queria fazer. Teve certeza de que era aquilo que ela queria para a vida. Para o resto de sua vida. Era , com aquele sorriso, e seus filhos. Os quatro juntos, como uma família. Iria dar um jeito nas coisas. E que fosse agora.
Chamou e apontou para a direção de casa, avisando que iria entrar. Ele nem respondeu direito, estava muito entretido com os meninos que o sujavam de areia. Sorriu e balançou a cabeça. Sabia o que era necessário agora. Entrou em casa, vendo e conversando na sala sobre como seria legal se ele viesse de vez em quando nos visitar. e falavam empolgados sobre a banda, tinham a plena certeza de que voltaria. E como achavam que a banda deveria mudar de nome. e já estavam na cozinha, preparando o jantar. Como aquele povo pensava em comida! Entrou e sem cerimônias disse para as duas: - Depois de descobrir essa história da eu vou contar ao . – Disse, sentando-se na bancada, recebendo o olhar atento das amigas.
- O QUÊ? – pareceu surpresa demais.
- Estávamos conversando agora ali no parquinho. Eu quase contei. Os meninos me interromperam. Mas, não sei por quê, tive vontade de contar tudo. De falar a verdade e não esconder mais isso.
- Que lindo, amiga. - disse, piscando os olhos exageradamente com um rosto angelical.
- E o que falta? – perguntou, experimentando o molho da massa – Digo, para descobrir a história da ?
riu desconfortável e disse:
- Falta, de fato, descobrir alguma coisa.
As amigas riram e ela desceu da bancada, começando a arrumar a mesa, e ouviu dizer:
- Só espero que o faça antes do final de semana que vem. Vai ser impossível passar um feriado inteiro na mesma casa que ela.
- Cara, verdade! – bateu na testa e lembrou-se de que no final de semana seguinte viajariam para a praia. Seriam quatro dias que todos eles ficariam em casa, juntos. Isso, até o momento, incluía .
Então elas começaram a arquitetar planos maléficos para ajudar a descobrir alguma coisa. Até ficar de tocaia na porta do hotel foi cogitado. Algo que ela realmente pensou em fazer. Mas estaria ocupada demais para tal. Serviram o jantar e chamaram os meninos para comer. , , e já estavam na mesa quando os outros entraram. Henry e Johny iam sentando a mesa quando os chamou.
- Hey! Vamos lavar as mãos antes! – Disse engraçado com as mãos na cintura, como se quisesse intimidar, e os pequenos gargalharam, o seguindo para o banheiro – , posso pegar uma roupa sua? – Perguntou no meio do caminho, e apenas assentiu com a cabeça. Subiu ao quarto do amigo e pegou uma camiseta e uma calça limpas, trocou-se, lavou as mãos junto com os pequenos e desceram de volta para jantar.
Sentaram-se à mesa e tudo o que pôde observar durante todo o jantar foi como lidava com os meninos. Como ele parecia um pai. Sorriu toda boba quando foi cutucada por .
- Não baba tanto, amiga. – disse, e recebeu um tapinha no braço. sentiu o rosto corar e riu de si mesma. Como estava sendo idiota. Seu (ainda) namorado também estava na mesa. Ao seu lado, por sinal.
- , venha em ajudar com essa louça! – gritou de dentro da cozinha, fazendo todos rirem, quando comentou:
- Viram o que eu passo em casa?
- Eu posso te ouvir daqui, ! – Ela gritou novamente e todos riram mais ainda. levantou-se e foi até ela, enquanto tirava as coisas da mesa e os garotos iam se divertir, de novo.
- Como eles são parecidos, não é mesmo? – chamou atenção de , que secava um prato perdida em seus próprios pensamentos.
- Não sei como conseguem. – juntou-se a elas, pegando os pratos e guardando-os no armário.
- Nem me falem. Como ele nunca desconfiou?
- Ah, . Vai ver ele nunca parou para pensar, de fato. O dia que você contar tenho certeza que ele vai se sentir um idiota por nunca ter pensado nisso. – riram.
- Como será que vai ser a reação dele?
- Eu aposto que ele sai correndo. – disse, dando de ombros.
- Eu aposto que ele chora. – disse, sonhadora – De emoção, é claro.
- Eu aposto que, seja lá qual for a reação dele, vai me surpreender. – disse rindo - Vou fazer um chá, querem? – ela perguntou, pondo água na chaleira, e as amigas concordaram, sentando-se à mesa já engatando um assunto qualquer.
- Então, quando vai ser a formatura? – perguntou, entregando as xícaras às amigas e sentando com a sua própria.
- No fim do ano. – disse, nervosa – Se nós passarmos, né?
- Claro que vamos passar, cabeção! – deu um pedala na amiga e elas riram.
- Eu quero um festão, hein!
- Nós também queremos. – As outras duas disseram em coro.
- Ih! – apontou pra porta – Olha quem vem com sono aí.
pegou Henry no colo. O menino coçava o olho e dizia coisas sem sentido.
- Vou dar um banho nele e colocá-lo pra dormir. – Ela disse, levantando-se com o garoto.
- E eu vou pra casa dormir. Vocês me cansam. – disse, se espreguiçando fingidamente.
- A gente, né? Sei. – saiu da cozinha e se dirigiu a . – Leve essa mulher pra casa, e trate de fazer as coisas com bastante calma hoje, hein! Ela anda reclamando que você a cansa. – Sorriu maldosa, vendo rir e a amiga virar um pimentão, enquanto todos os outros da sala explodiam em gargalhadas.
- Eu vou também. – levantou-se e beijou os lábios de – Té mais, galera. – E saiu, sem mais despedidas.
, ainda com o filho no colo, olhou para e viu que ele estava na mesma situação. Com Johny no colo, com tanto sono quanto o irmão.
- Precisamos dar banho neles. – Ela disse, sorrindo.
Eles subiram as escadas lado a lado em silêncio.
- Eu... eu não sei como fazer. – Ele disse baixinho e ela sorriu. Puxou-o pela mão até seu quarto.
Colocou a banheira pra encher e ligou uma estufa para aquecer o banheiro e disse pra ele:
- Nada como um bom banho quentinho para fazê-los ter uma boa noite de sono. – Sorriu –Traga o Johny. – Ela disse, segurando Henry em um braço e toalhas no outro.
Enquanto ela despia Henry com cuidado, ele fazia o mesmo com Jhony, a imitando sempre. Ele seguiu seus passos em tudo. A cena chegara a ser até romântica. Contando a troca de olhares cúmplices, os sorrisos satisfeitos, as gargalhadas sonolentas dos meninos. Até a atmosfera conspirava a favor daquele momento.
tirou Henry da banheira, sendo seguida e imitada por , e o secou, vestindo seu pijama de listrinhas. Enquanto encontrava algumas dificuldades de vestir o pijama de carrinhos em Johny. Cada um deitou em uma cama com um dos meninos. Agora o quarto estava em uma penumbra e a única iluminação era do abajur fraquinho que ficava entre as camas. e se encaravam arduamente, sem desviar o olhar um do outro. Mas havia tanta coisa naquele olhar que ninguém saberia traduzí-lo.
- Viu? Não foi tão difícil. – Ela perguntou com a voz baixa e ele sorriu sincero.
- Eu poderia fazer isso para o resto da vida. – Ele disse, depois de um tempo em silêncio, e ela não teve certeza se ele se referia ao banho.
- Mas você já tinha dado banho em Henry uma vez.
- Sim, mas ele estava bem acordado e colaborando. Não sonolento como agora. – Ele respondeu – E não era ao banho que eu me referia. Quis dizer sobre isso. – Apontando com o indicador para as camas. Deitou ao lado do garotinho e começou a fazer-lhe cafuné sem se importar em receber uma resposta de , que apenas sorriu incrédula.
Adormeceram ali, sem mais. Um em cada cama. Cada um com seus pensamentos diferentes que no fim queriam dizer a mesma coisa. Deixando claro que eles dois queriam a mesma coisa.

Xx

- Sim. Ok, amiga, já estamos indo te encontrar. – falava no telefone enquanto tocava na campainha da casa de . – Só estou esperando a atender.
- É claro que ela não está pronta. Por que estaria? – dizia no outro lado da linha – Aposto dez mangos que abre a porta. – Riram e a porta se abriu.
- ! – a abraçou sorridente.
- Tu perdeu teus mangos, . – Gargalharam juntas.
- Droga. Te pago em cafés mais tarde, pode ser? – riram.
- Te encontramos em 15 minutos. – ainda ria da brincadeira e entrou no apartamento.
- A tá se arrumando ainda.
- Que novidade, não é? – riram, sentando-se no sofá.
- Aonde vocês vão?
- Vamos na Starbucks. A gente costumava viver lá. Todos os dias, lembra? Faz séculos que não fazemos isso. – Ela disse e o garoto sorriu – E você, aonde vai todo arrumado? – Por um momento sentiu medo da resposta.
- Vou no hotel conversar com a . – deu um meio sorriso torto.
- Estou pronta! – disse, entrando na sala antes que um silêncio constrangedor se instalasse entre eles. – Vamos?
- Sim, a já tá lá enlouquecida. – riram.
- Té mais, . - disse, abrindo a porta, e apenas olhou na direção dele, sorriu, e acenou com a cabeça. Não era necessário mais que isso.
Foram para a Starbucks em silêncio, e quando chegaram lá foram recepcionadas por uma escandalosa.
- Até parece que faz uma semana que não nos vemos! – disse, sorrindo.
- Claro! Fazem cinco dias! – riram.
- , acalma esse coração! Precisamos decidir coisas sobre essa viagem.
- Ai, . Não deixa nem eu curtir esse momento. Fazia tanto tempo que eu não vinha aqui. Esse cheiro de café me faz bem.
Fizeram seus pedidos e começaram a jogar conversa fora. Já com seus cafés em mãos, começaram a organizar a viagem do feriado.
- Bem, somos quantos? – perguntou.
- Lá de casa somos 5. – disse, e as duas olharam para ela – vai levar uma menina para conhecermos. – explicou.
- Lá de casa somos três, mais a . – seguiu.
- E dois. Isso nos dá... onze pessoas? Vamos em muitos carros, por sinal.
- Quantos quartos tem a casa?
- Muitos, isso não é o problema. O que me incomoda é que eu vou segurar vela. – disse, fazendo as amigas rirem.
- , o que o tava te falando quando eu cheguei na sala? – perguntou, olhando fixamente para a rua.
- Que tava indo no hotel conversar com a , por que? – respondeu, tomando mais um gole do seu capuccino de chocolate, e viu a amiga apenas aportar para a rua, sem tirar os olhos.
As três puderam ver andando lado a lado com um rapaz. Ela sorria, mas parecia estar nervosa, até o momento que ele a segura pelos dois braços, diz algo bem sério e a abraça. E os dois voltam a andar. As três amigas se entreolham e se levanta.
- Eu vou atrás dela.
- ! – e disseram em coro, mas já era tarde demais, a amiga já tinha passado pela porta. Algo não daria certo.
- Isso vai dar merda, . – A primeira disse, colocando o rosto entre as mãos.
saiu pela porta do café e nem se importou com as amigas que gritavam seu nome lá de dentro. Sabia que precisava fazer alguma coisa. Resolveu seguir a loira que estava à sua frente com o mesmo cara daquele outro dia. Mas será que era possível? Quanto mais andava, mais percebia pra onde aquele caminho a estava levando. O hotel. O hotel onde estava hospedada. Aquele hotel no qual o marido dela estava indo encontrá-la. Não sabia onde estava sua cabeça, mas continuou simplesmente a seguir a mulher que ia mais à frente, agora de cabeça baixa e de mãos dadas com o cara. Afastou-se um pouco quando os percebeu entrando. Imaginava que o tal homem ficaria do lado de fora do hotel, por isso não foi logo atrás. Mas não, o cara entrou junto com e podia pressentir que aquilo não ia prestar. Logo que eles entraram no elevador ela correu para a recepção. Olhou para a recepcionista e soltou sem pensar duas vezes:
- Boa tarde. Preciso urgentemente entregar uma coisa para a . Ela acabou de subir... – disse, apontado para a direção do elevador, por onde a outra tinha acabado de passar - ...você pode me dizer, por favor, qual o quarto em que ela está hospedada? – Surpreendeu-se com a própria mentira. E com a capacidade de inventá-la em míseros segundos.
- É tão urgente assim, senhora? Não posso deixá-la subir sem antes comunicar o hóspede.
- Eu sei. – Abriu a bolsa procurando por algo que pudesse lhe ajudar. – Preciso entregar isso a ela. – Levantou a mão e mostrou-lhe um envelope. – São documentos importantes. – Sorriu nervosa e a recepcionista deu-se por vencida.
- Quarto 1409, décimo quarto andar.
- Muito obrigada. – respondeu sorrindo e correu para o elevador. Não fazia ideia do que iria fazer. Só esperava que Deus a ajudasse naquele momento. Apertou duzentas vezes o botão do décimo quarto andar, como se aquilo fosse fazer o elevador subir mais rápido. Não sabia por que estava com tanta pressa, mas ela realmente estava. Quando a porta finalmente se abriu ela avistou um corredor bem comprido com tapete bege e paredes rosa salmão. Achou de incrível mau gosto, mas não tinha tempo para reparar muito na decoração do lugar. Foi andando enquanto olhava atentamente para as portas, procurando pelos números. Quando finalmente achou a porta equivalente ao número 1409, parou. Então ela tinha chegado até ali, e agora? O que faria? Tocaria a campainha e se fazia notar ou simplesmente ficaria ouvindo para ter o que falar contra a loira em algum outro momento? Ficou parada em frente à porta, sem saber o que fazer. Começou a ouvir vozes altas e descompassadas que vinham detrás daquela porta. Eles estavam discutindo. Achou a segunda opção muito interessante para a ocasião e posicionou o ouvido contra a porta, sentindo-se uma adolescente ouvindo a discussão dos pais.
- Pelo amor de Deus, mulher! Desiste disso! – o homem gritava e parecia estar furioso – Por tudo que nós vivemos! Por tudo que nós passamos!
- Não dá, Brandon! Como você pretende viver? – Ela respondeu na mesma altura – Vai me sustentar com o dinheiro dos bicos que tu faz por aí? – achou aquilo de uma extrema grosseria.
- Aquilo é o suficiente pra nós dois, amor! Minha casinha já está pronta, só falta você lá!
- Ai Deus! É difícil de entender que eu não quero ir morar naquele moquifo?
- Não chame minha casa assim! – Totalmente compreensível aquela reação dele. Até ela se sentiu ofendida. Que mulherzinha abusada.
- Amor. – suspirou e baixou o tom de voz, dificultando a intromissão de – Eu não posso largar o agora. Ele é o nosso sustento. E paga por tudo o que eu quero. E além do mais, não vou entregá-lo de bandeja praquela lambisgóia – quase se engasgou ao ver que falava dela, e o homem pareceu se enfurecer novamente.
- De novo essa história! Já está na hora de largar esse trouxa! Deixa ele pra outra e vem ser feliz! Esquece essa porra de dinheiro, esquece tudo. Vamos fazer a nossa vida, juntos dessa vez! Mas que merda! Eu pensei que depois que você perdeu nosso filho, as coisas ia se acertar. Que você ia largar ele e voltar pra mim! – E o queixo de quase encostou no chão. “Nosso filho”? Como assim? Que porra era aquela? – Depois de tantos anos separados com essa história de golpe, tá na hora de parar.
- Pára de falar besteira, Brandon! Ainda posso continuar com isso. O vem aqui hoje, vou convencê-lo a voltar pra NY. E lá a gente pode recomeçar essa história. Ainda vai dar certo, amor. – Ela quase tinha carinho ao falar a última frase.
- Eu é que não vou esperar pra ver! Eu cansei de esperar, . Eu vou embora, e eu não vou voltar. E não demore muito, meu amor não dá em árvore e eu já estou cheio de esperar pra vivê-lo. – Ele disse isso com tanta raiva que chegou a dar um pulo para trás com a mão no peito. Chegou a ficar com pena, mas nem teve tempo de sentir muita coisa, já que a porta se abriu mostrando um homem grande, moreno, incrivelmente bonito e com olhos tão verdes e tão intensos que chegavam a doer em quem via. Ele abriu a boca e ficou estático parado na porta enquanto encarava , que estava tão apavorada quanto ele.
- Se arrependeu já, coração? – apareceu atrás dele com um sorriso irônico, mas este se desmanchou quando Brandon deu espaço para que ela enxergasse o mesmo que ele – O que diabos você está fazendo aqui?

Capítulo 24.

- Anda, garota! Fale de uma vez. – esbravejou, cerrando os punhos.
- É ela? – o homem olhou para a loira, indicando com a cabeça, e ela apenas rosnou algo que ele deve ter entendido como sim – Eu vou embora. Já dei meu recado. – disse, e saiu passando por uma ainda imóvel.
- ! O que você tá fazendo? – Não controlou as próprias palavras – O filho é desse cara? UM GOLPE? – gritou, e a loira a puxou pra dentro do quarto sem fazer questão de fechar a porta – QUE MERDA É ESSA? - continuou gritando até a loira segurá-la forte pelo braço.
- Para de gritar, sua retardada. É o que você ouviu mesmo. Aquele filho era do Brandon, e eu casei com o pra ficar com o dinheiro dele. – Ela disse com um sorriso de canto de lábios que fez ter vontade de socá-la até a morte – Mas tudo deu errado. E agora, por sua causa, vou ter que fazer o dobro de esforço pra conseguir tudo o que eu quero.
- Pelo amor de Deus, ! Você não precisa disso! Eu ouvi! O cara diz que te ama! Pra que estragar a felicidade dos outros? Deixa o em paz! – disse, nervosa.
- Eu sei que não. Mas é tão bom ver como eu atrapalho a vida de vocês. De como é engraçado ver a sua cara quando ele está brincando com os dois fedelhos.
- Não mete meus filhos na conversa, sua víbora. – disse entre os dentes.
- O é um otário! Só ele não percebeu ainda como aqueles dois são a cara dele. Até os trejeitos. Tudo. Mas ele é cego demais. – gargalhou – Então, criança, ouve bem. – mudou seu tom repentinamente, assustando mais uma vez – Se, por uma remota hipótese, o que você ouviu aqui hoje chegar aos ouvidos do , eu juro, mas veja bem, eu juro por tudo que é mais sagrado nessa vida, que eu faço seus filhos sumirem do mapa! – Ela disse, com a voz mais ameaçadora possível, e sua expressão era de completa raiva.
- E eu juro, , que se você encostar um dedo nos meus filhos, não vai sobrar corpo pra contar história.
- Ui ui ui, que medo! – debochou – Meu recado está dado... – Então , que falava séria, mudou completamente sua expressão para carinhosa – Querido! Chegou cedo. – E agarrou o pescoço de , que estava na porta, olhando fixamente de uma para a outra.
- O que está acontecendo? – ele perguntou meio perdido, e fez a mulher rir. Enquanto nem se mexia.
- A veio conversar comigo. - forçou a voz ao dizer o apelido da outra - Veio dizer que não aguentava mais essa birra entre a gente, e como já somos adultas temos que superar nossas desavenças adolescentes. – não pôde acreditar no que ouvia. Como podia uma pessoa ser tão falsa? – Não é tão legal? Que as pessoas que você gosta estejam se dando bem, amorzinho? – Ela concluiu e sorria.
- É ótimo, ! ! Fico tão feliz. – disse embasbacado.
- Cala essa boca, sua anta! É mentira! Olha pra minha cara de quem viria até aqui pra sugerir uma coisa dessas! Nem que fosse o fim do mundo e ela fosse a última pessoa sobrevivente! Faria amizade com uma pedra mais fácil! – gritou e assustou , que largou a mulher e a olhou confuso. tinha uma expressão furiosa no rosto, fazendo com que ela não esquecesse as ameaças – Eu vim aqui porque vi ela com outro na rua. Resolvi segui-los. Cheguei aqui e descobri que você é o maior corno da história. Tudo faz parte de um golpe muito bem bolado por essa daí que tu chama de mulher! – jogou rápido toda a verdade em cima dele sem pensar, antes que pudesse se arrepender.
- , que merda é essa que você tá falando? – Ele a olhou sério.
- É isso mesmo, . Eu ouvi tudo quando cheguei. – baixou a cabeça e disse em um tom mais calmo. , que até então só observava, resolveu se pronunciar com sua voz mais ofendida o possível. Tomem todos seus lugares, começava agora a encenação da ótima atriz.
- , amor, eu não sei do que ela está falando! Eu juro! – Ela pôs uma mão no peito e passou a outra pelos cabelos – A gente estava conversando tranquilamente aqui antes de você chegar.
- , é verdade o que ela disse? – Ele perguntou ríspido, como se ignorasse o que ela tinha dito.
- Claro que não! Eu jamais seria capaz de fazer uma coisa dessas contigo! , eu te amo tanto! – Ela gritou como se estivesse realmente ofendida, e ele olhou para a outra que assistia incrédula àquela cena.
- ? – Ele disse, como se pedisse para ela falar.
- Você vai acreditar nela? – Ela perguntou, apontando para a loira como certa incredulidade – Tem certeza? – reforçou.
- Vocês querem me deixar louco! Só pode! – Ele disse alto, andando em círculos pelo quarto, com os braços erguidos e em seguida os baixando para pôr as mãos nos cabelos – Eu quero a verdade. – Disse cansado, e olhou para a mulher dele, que apressou-se a dizer:
- Amor, eu tô falando a verdade. Essa louca quer te por contra mim! Que nem naquele dia do bar. Lembra? – Ela disse, olhando pra e soltando um risinho discreto – Ela é uma ótima atriz, você sabe. – baixou a cabeça e falou quase num sussurro – Acredita em mim, amor, por favor.
olhou nos olhos de . Como ele queria que aquilo fosse verdade. De traí-lo, quer dizer, porque assim ele finalmente se livraria dela e viveria sua vida feliz, sem ter que se importar com roupas de marca aos montes e altos rombos em seus cartões de crédito. Mas o fato dela tê-lo feito relembrar da cena no Trix quatro anos atrás o fez repensar.

*Start Flashback*
- ! Eu não acredito nisso! – o olhava com uma cara assustadoramente triste, estava quase chorando.
- ? –sua voz saiu um pouco abafada, o que diabos ela estava fazendo ali? , a garota loira, observava a cena, também assustada.
- Como você pôde, ? – Ela sentiu as lágrimas em seus olhos – Eu te amava tanto! A gente passou momentos incríveis juntos! Ontem à noite você disse que me amava! Por que você mentiu pra mim? Se não me queria mais era só dizer... Não precisava ficar se agarrando com uma loira por aí! – praticamente vomitou as palavras, sua voz estava meio embolada devido ao nível de álcool que tinha ingerido, mas a cena foi perfeita como o planejado.
havia se afastado de e o olhava com um olhar de desprezo de dar medo. , por outro lado, estava mais confuso do que nunca. Só podia ser um pesadelo. ‘ chorando dizendo que me amava? E que diabos de noite passada ela está falando?! Certamente lembraria de uma noite com , digo...’ saiu de seus pensamentos ao ouvir a voz de , que até agora estava quieta.
- Eu não acredito que você foi capaz de fazer uma coisa tão baixa com essa garota, ! – parecia decepcionada – Achei que você fosse um cara legal, mas estava errada. Você é exatamente como todos os outros idiotas que eu conheço. Tenho nojo de você, . – Foi com essas palavras que a garota loira deixou um extremamente abalado e confuso. deixou o Trix pisando firme sem olhar pra trás. passou as mãos pelo rosto e pelo cabelo, como se tentasse acordar de um pesadelo, estava meio atordoado com tudo aquilo. Virou-se para encarar , queria uma explicação para tudo aquilo, precisava de uma explicação.
Seus olhos encontraram os da garota, que subitamente havia parado de chorar e agora tinha uma expressão calma, como se nada tivesse acontecido. achou que estava bêbado, era a única explicação. o viu encará-la como se implorasse por uma resposta. E riu, na verdade gargalhou antes de dizer:
- Eu deveria mesmo trabalhar na novela das oito, você não acha? Aqui está a sua vingança, . Da próxima vez pense duas vezes antes de jogar minhas roupas recém lavadas no lixo orgânico, seu idiota. – disse tudo calmamente com um ar de deboche e deixou inconformado, parado, com um olhar perdido... Chegava a dar pena.

*End Flashback*


Realmente, ele não tinha motivos para acreditar em . Ela era muito boa com essa história de representar. Olhou para a mulher ao seu lado e ela parecia realmente abalada com o que a outra havia dito sobre ela. Então, voltou seu olhar para , que aguardava uma resposta sua. De repente, uma onda de ódio tomou conta de seu coração e de sua mente, e a única coisa que ele conseguiu pensar foi em quão baixa ela tinha sido novamente.
- Vai embora. – Disse simplesmente, a olhando nos olhos. Ela apenas assentiu com a cabeça e caminhou até a porta, mas antes de sair e ainda a segurando, ela simplesmente olhou profundamente em seus olhos e disse tristemente:
- Espero que não demore muito para se dar conta da merda que está fazendo. Espero que não seja tarde demais. Depois não diga que eu não avisei. – Disse, e saiu com a cabeça baixa, segurando as lágrimas teimosas.
ficou estático, sem reação. Alguma coisa estava errada. não havia reagido. Não havia gritado e nem cantado vitória, não havia feito NADA. Aquilo, definitivamente, não era seu tipo. Perder calada. Enfim, voltou sua atenção para a mulher e acariciou seu rosto.
- Obrigada por acreditar em mim, amor. – Ela disse com um sorriso.
- Senta aqui, . – Ele sentou na beirada da cama e deu dois tapinhas ao seu lado para que ela o acompanhasse. – Precisamos conversar. – Ele disse sério.
- Claro. – Sentou-se, e eles entrelaçaram as mãos.
- Nós não vamos mais voltar para NY. – Ele disse rápido, e ela o olhou surpresa.
- Mas por que, ? Não temos motivos nenhum para ficar aqui.
- Temos sim. Eu tenho um ótimo motivo. – disse sorrindo. Ela ainda não sabia da novidade – Os caras me chamaram para fazer parte da banda, de novo. – Ele disse contente, e ela se obrigou a sorrir. – E eu aceitei.
- Que bom amor! Isso é ótimo. – abraçou-o e fez uma careta de inconformada e indignada ao mesmo tempo. Teria que mudar seus planos – Mas e seu emprego? Nosso apartamento? – Ela o soltou e o olhou nos olhos. Ele tinha um brilho tão incrível. Como era possível alguém tão bem sucedido largar a carreira pra entrar numa bandinha?
- Essa semana eu vou lá pra arrumar a nossa mudança e informar a banda que eu estou largando. Se você quiser pode ir junto pra arrumar seu mundaréu de roupas. – estava muito feliz. Apesar de aquele momento anterior estar martelando em sua mente, ele realmente estava feliz por estar voltando de vez. - E se eu não quiser voltar? – Ela perguntou, olhando triste para ele.
- Não é como se você tivesse escolha, . – Ele respondeu sério – Sou eu que nos sustento e sou eu que mando. Então nós vamos voltar.

deixava as lágrimas correrem livremente pelo rosto. Estava realmente magoada pelo que tinha acabado de presenciar. Ele tinha acreditado naquela víbora. Como ela podia ser tão falsa? Tão cínica? Considerava aquilo humanamente impossível, porque ela tinha representado muito bem mesmo se tratando de um assunto tão sério. Sabia que não tinha muitos créditos com por causa daquela vez no pub, mas mesmo assim, ele não podia simplesmente ignorar o que ela havia dito. Por deus, agora era uma adulta, jamais faria uma idiotices daquela só para separá-los. Andou a passos demorados e melancólicos até a Starbucks. Não sabia se as amigas ainda estariam ali a esperando, mas, independente disso, precisava sentar um pouco. Entrou no café e olhou para a mesa onde antes estava sentada. Avistou apenas e caminhou até ela, sentando-se na cadeira ao seu lado, quieta.
- Deus! O que aconteceu, ? – Ela perguntou assustada.
- Ai, ! – Soltou o ar e voltou a chorar, se jogando nos braços da amiga.
- Eu sabia que isso não ia prestar! – chegou junto delas e sentou-se, enquanto afagava os cabelos da amiga, que chorava.
e ainda não sabiam o que tinha acontecido, apenas assistiam ao desespero da amiga que chorava inconsolavelmente. Já estava com o rosto inchado e lavado pelas lágrimas. As pessoas passavam e olhavam descaradamente para as três, assustadas com os barulhos que o choro dela causava dentro do ambiente. Tentou por várias vezes se acalmar, e toda vez que começava a contar o que tinha acontecido, voltava a chorar antes mesmo de terminar a primeira frase. Só falava o nome de , Brandon e . Deixando as outras duas completamente confusas. Já estava escurecendo quando resolveu levá-la embora. Pegaram o carro de e a levaram para casa, onde ela se atirou na cama e continuou a chorar. Logo os meninos – , e – entraram no quarto preocupados. contou o que tinha acontecido, a parte que sabia, e disse que ela estava daquele jeito há horas. O silêncio instalou-se no quarto e ela decidiu encarar aquilo. Sentou-se na cama e olhou para os cinco ali parados, na sua frente, com expressões que iam de dó a curiosidade. Passou as mãos pelo rosto para limpar as lágrimas e soltou um longo e profundo suspiro. Endireitou-se na cama e olhou para o chão.
- Não me interrompam, deixem que eu termine de falar, senão eu não vou conseguir. – Ela disse, encarando os pés antes de começar. Todos assentiram e sentaram-se no chão, de frente para a menina que desatou a falar. Falava rápido e com a voz embargada, como se fosse voltar a chorar a qualquer momento. Mas não chorou, continuou firme. Contando tudo com os devidos detalhes e informações precisas. À medida que ela falava, as expressões dos amigos a sua frente iam mudando de espanto a incredulidade. Então todos se sentiam como ela. Aquele sentimento era revoltante a todos.
Quando terminou de contar, o silêncio se instalou novamente, e ela apenas olhava para o chão. Assim como todos os amigos olhavam cada um para um ponto fixo diferente. Todos estavam atingidos com aquilo.
- Ele foi falar pra ela que eles vão voltar pra cá. – falou baixinho, ainda sem tirar os olhos da parede, e todos olharam pra ele, assustados, como se seu sussurro tivesse sido um grito ensurdecedor.
- Como assim? – perguntou, no mesmo tom de voz, como se tivesse alguém no quarto ao lado que não pudesse ouvir aquela conversa.
- Ele decidiu ficar e voltar pra banda. E foi por isso que ele foi no hotel.
- Então fodeu. – disse e todos riram. Ela não era de falar aquelas coisas.

Xx

Alguns dias se passaram e não se falava mais no assunto. e tinham voltado para NY para buscar suas coisas. Quando voltassem de vez para Londres, ainda ficaria na casa de até achar um lugar para morar. Ele nem olhava na cara de e parecia bem magoado. Então ela decidiu deixar as coisas acontecerem. Sim, porque em algum momento ele iria ficar sabendo das coisas. Ela não precisava insistir, ele tinha o tempo dele de digerir as informações. Mas também sentia muito por ter que adiar o momento de contá-lo que ele era pai. Se fosse agora, era capaz dele nem acreditar. E isso pioraria as coisas. Então ela simplesmente o deixaria. Deixaria que ele desse de cara na porta. Que ele desse com os burros n’água. Era assim que ele queria, era assim que seria. Mas ela também sabia que quando ele estivesse pronto para ouvir, ela não iria negar aquilo. Ela ia deixar a mágoa e a birra de lado e contaria, sem pensar nela. Pensaria em seus filhos e em . Pelo menos esperava que aquilo acontecesse mesmo, e que não demorasse muito.
Nessa semana que ele ficou fora, os meninos não paravam de perguntar “onde tá o tio ?” ou “quando o tio vem brincar com a gente?” e coisas do tipo. Incrível como em tão pouco tempo se apegaram de uma forma assustadora a ele. Mas o mais assustador era que, a cada dia que passava, eles estavam cada vez mais parecidos com . Johny até arqueava a sobrancelha da mesma forma! E Henry tinha exatamente a mesma gargalhada. Era tão gostoso assistir aos dois juntos. Sempre divertidos e alegres, independente do que acontecesse. E o era exatamente assim quando era adolescente. Sempre pra cima. Estava perdida em mil pensamentos quando o telefone tocou, insistentemente, e ela teve que sair de sua confortável cadeira para atendê-lo.
- Sim? – Atendeu e colocou o aparelho na orelha, sem nem ao menos se dar o trabalho de olhar no visor quem estava ligando. Seja lá quem fosse, já tinha atendido mesmo.
- E aí cabeção, preparada para um longo feriado em uma praia sinistra, com muitas pessoas malucas e duas crianças endiabradas? – a voz brincalhona disse.
- Ei! Meus filhos não são endiabrados, ! Isso acontece quando você e o estão por perto ensinando besteiras! – respondeu rindo, e fazendo o outro rir também – Mas a que devo a honra dessa ligação? – riu novamente, indo sentar-se naquela mesma cadeira.
- Liguei pra contar que o chegou agora, com muitas malas. Só dele. Disse que a foi pro hotel de novo.
- E o que eu tenho a ver com isso mesmo, ? – Não queria ser grossa com o amigo. Mas não havia nenhuma necessidade dele ligar contando isso. Tinha?
- Eita! Relaxa, não foi pra falar das malas que eu liguei. Depois que ele chegou, ontem à noite, nós ficamos bebendo um pouco e jogando papo fora. Conversamos muito sobre a banda, sobre a volta dele. Ele disse estar muito feliz por estar entre nós novamente, mas que ele tem medo do futuro. Ele não consegue imaginar a fazendo parte dessa nossa vida, desse nosso cotidiano. E que ele torce para não ter que escolher, porque ele não pensaria duas vezes em mandá-la pastar. – fez uma pausa para rir – Eu sei que no fundo no fundo essas coisas te interessam sim, . Já que é exatamente isso que você está esperando para contar pra ele. Por mim, você vinha aqui agora e falava tudo. Assim a gente não teria que aguentar a vaca loura por quatro dias debaixo do mesmo teto. – ela sorriu ao ouvir o amigo falar. Como podia ser tão bem entendida por ele?
- Eu até iria, . Mas realmente não acho que seria uma boa idéia colocar a mente dele em dúvida assim. Ela pode explodir. Já pensou o que a faria comigo se eu explodisse o potinho de ouro dela? – ironizou.
- Ela poderia nos envenenar! – fingiu espanto, falando com a voz afeminada – Se bem que a gente podia dopar o potinho de ouro dela e fazer alguma coisa pra ela ficar bem puta com ele, não acha? – Agora sua voz era animada, e ele já bolava planos maléficos.
- Ei ei ei! , nós estamos falando do . Não é como se a gente precisasse usar “potinho de ouro” toda hora. – riram.
- Tá bom, sua chata.
- Bem, preciso buscar os meninos na creche. Juizo aí com esse moço. Não bebam muito, ok?
- Oooown! Que bonitinha! Preocupada comigo, ? Ou será que é com o ? Acho que é com o . Só porque ele é mais bonito e é um potinho de ouro...
- Tá, ! Tá. Vai passear vai. Beijos. – E desligou o telefone na cara do amigo. Com certeza ele estava rindo. Levantou-se e foi realmente buscar os filhos, apesar da preguiça.

Xx

Estava arrumando as malas e pensando no que seria daquele feriado. Quatro dias com , , Johny e Henry debaixo do mesmo teto. Se todos saíssem vivos já estaríamos no lucro. Estava com pena de , que teria que passar algumas horas dentro do carro com ela. Ela sabia – ou esperava - que iria se comportar na frente dos amigos. Não ia ficar se esfregando nela nem nada. Mas já não se podia dizer a mesma coisa sobre . Que mulherzinha mais irritante e promíscua. Deusulivre. Terminou de arrumar suas coisas e foi para o quarto dos meninos, onde eles brincavam, concentrados, com seus brinquedos.
Abriu o armário e pegou duas malas pequenas em formato de carro. Uma vermelha e a outra verde. Colocou-as abertas em cima de uma das camas e começou a escolher as roupas. Vez ou outra olhava com o canto dos olhos para os filhos e sorria boba. Sentia-se orgulhosa por ter duas coisas tão lindas em sua vida.
- Mamãe, o tio vai viajar com a gente? – Johny perguntou, sem tirar os olhos do brinquedo, e ela gelou. Por que diabos eles tinham que lembrar toda hora? Que saco.
- Sim, meu amor. O tio vai estar lá. – Tentou sorrir e voltou a atenção para a mala. Mas não por muito tempo.
- A gente pode ir com ele? – Henry largou seu brinquedo e foi sentar na cama, ao lado de uma das malas.
- Não sei, Henry. O tio vai com o tio . – Disse, sem jeito.
- Ah, mamãe! Por favor! – Johny também largou seu brinquedo e juntou-se aos dois.
- É, por favor! – Henry disse, fazendo biquinho.
- Vou pensar, tá bom? Agora vão brincar. – Ela ordenou, mas eles se entreolharam e começaram a pular e a gritar ao mesmo tempo:
- Por favor! Por favor! Queremos o tio ! Queremos o tio ! – não saberia explicar aquele nó na garganta. Se era felicidade, excitação ou o que era.
- Chega! – Disse, séria – Vamos ligar para o tio e ver o que ele acha, está bem? – perguntou sorrindo, e os dois pararam de gritar e sorriam mais ainda.
Ela pegou o celular no bolso de trás da calça jeans e discou o numero de . Quando ouviu finalmente sua voz, um choque percorreu-lhe pelo corpo.
- ?
- Oi . – ficou instantaneamente sem graça.
- O que você quer? Digo, que não possa esperar até amanhã. – Foi visível a tentativa frustrada de ser frio.
- É que tem dois ‘alguéns’ aqui na minha frente que querem muito falar contigo. – Ela disse, sorrindo ao ver as expressões dos meninos, e ouviu rir. Entregou o telefone para Johny.
- Ooooi tio ! – ele disse, divertido.
- Eu também quero falar, mamãe! – Henry tentou puxar o telefone da mão do irmão e, vendo que eles iniciariam uma disputa pelo aparelho, ela se meteu.
- Ok. – ela pegou o telefone e sentou-se no chão, puxando os dois. Colocou o telefone no viva voz e disse:
- Agora os dois podem falar, o tio vai ouvir os dois ao mesmo tempo, não é tio ? – Disse sorrindo, e viu as expressões satisfeitas dos dois.
- Ooooooi tio ! – disseram em coro, e o outro riu.
- Oi pequenos!
- Tio , você quer ir com a gente pra praia amanhã? – Johny perguntou, tropeçando um pouco nas palavras, mas se fez entender.
- Diz que sim! Diz que sim! – Henry completou enquanto levantava e corria em círculos. o puxou e o colocou em seu colo.
- Sim? – Ele disse brincalhão, em tom de pergunta. No fundo estava receoso com a atitude de .
- Eba! Eba! Eba! – Eles disseram juntos e foram festejar junto aos brinquedos.
- ? – o ouviu perguntar – Ainda está aí? – Ela riu sozinha e tirou o telefone do viva voz.
- Eu.
- Você não se importa?
- Olha, . Meus filhos gostam muito de ti. Não posso privá-los da tua companhia. – respondeu cabisbaixa – Mas se você não quiser, não tem problema. Eu dou um jeito nisso.
- Não, Não! – apressou-se a dizer – É claro que eu quero. – sorriram juntos, sem saber – Quero dizer, como vamos fazer? No carro do não cabe todo mundo.
- Eu vou sozinha no meu, com eles. – Disse receosa – Pra ter mais espaço e pra dar privacidade pra ele e a garota que ele vai nos apresentar.
- Até que enfim o está trazendo alguém pra turma. – riu com seu próprio comentário – Então eu vou contigo?
- Acho que sim, né? – Ficou um silêncio, e nenhum dos dois sabia mais o que falar – Eu passo aí pra te pegar então, certo? – disse, meio incerta.
- Er... Então boa noite, .
- Boa noite, .
Ok, o que não se fazia pela felicidade de filhos? Seria obrigada a ficar no mesmo carro que por algumas horas. Com e seus filhos. Como se fossem uma família. Deus, será que poderia piorar? Como se ela não tivesse gostando nem um pouco daquilo. A quem ela queria enganar, mesmo? Porque, apesar de ainda estar magoada com a situação, o que ela sentia ainda estava lá, intacto. E a vontade de vê-lo sempre também.
Terminou de arrumar as malas dos meninos e os arrumou para dormir. Estavam numa faceirice só. Não se aguentavam em si, de tão contentes que estavam. Iriam para a praia. E iriam para a praia com o tio ! não conseguia entender tamanha afinidade. Apenas ria dos meninos e, após fazê-los dormir, foi para seu quarto tomar um banho e descansar. O dia seguinte seria longo. Com certeza.

Acordou com Johny pulando em sua cama.
- Mamãe! Acorda! Tá na hora de ir pra praia! Tá na hora, mamãe! Acorda, sua boba! – Johny a sacudia, todo elétrico, enquanto Henry coçava os olhos, sentado em sua cama. Ela olhou de relance para o relógio e viu que eram 5:30 da manhã, e eles só pretendiam sair às 9.
- É muito cedo ainda, meu amor. Vamos dormir mais um pouquinho? – Ela sentou-se na cama.
- Mas eu quero ir pra praia! – emburrou-se.
- Johny, é muito cedo ainda, filho. Eu e o Henry vamos dormir. – Puxou o outro pela mão, deitando-se na cama e o deitou em seu peito, abraçando-o – Você não quer nanar aqui com a mamãe, também? – Estendeu o outro braço e ele que foi resmungando. Mas mal tinha se acomodado e já estava dormindo. sorriu e pegou no sono logo em seguida. Tudo aquilo era ansiedade? Que horror.

Xx

O despertador tocou às oito horas, e ela levantou-se, observando que os dois estavam na mesma posição. Sorriu sozinha e foi tomar um banho para acordar de vez. Saiu enrolada na toalha e foi buscar algo para vestir. Por um momento sentiu-se uma adolescente preocupada com o que deveria vestir para impressionar o garoto da turma ao lado. Estava de calcinha e sutiã fazendo careta para o guarda roupas. Riu com esse pensamento e pegou uma calça jeans escura, uma blusinha de regata verde militar comprida e uma jaqueta branca. Calçou seu All Star branco velho de guerra e penteou os cabelos. Deveria acordar os dois de uma vez. Viu passar ainda de boxer pela porta de seu quarto em direção à cozinha.
- Hey! Bom dia, ! – Ela disse antes que ele saísse de vista, e ele resmungou um bom dia de volta – Aonde você está indo, querido irmãozinho?
- Tomar café. – Disse entre um bocejo.
- Te faço uma proposta. – ela disse, com um sorriso no canto dos lábios - Que tal se eu fizer um café da manhã bem reforçado e tu der banho nos meninos? – Disse, quase como se implorasse.
- Tudo bem. - Ele deu de ombros e entrou no quarto da irmã.
- . – Ela chamou-o antes que ele os acordasse – O vai comigo. – disse, e o irmão a olhou, estranhando. Ela riu da reação dele e explicou. Desceu as escadas e foi para a cozinha enquanto ouvia os gritos de acordando os dois.
pulou na cama, os acordando de forma divertida (não sei pra quem). Deu banho e os vestiu, e logo em seguida desceu com eles ao seu encalço. Sentaram-se à mesa muito bem posta, com panquecas e waffles, com achocolatado e suco.
-Eu poderia fazer esse acordo todas as manhãs! Meu dia chega a ficar mais colorido com um café da manhã desses! – Disse brincalhão.
Tomaram o café, escovaram os dentes e carregaram os carros. pegou muitos brinquedos, revistinhas, e coisas para distrair os meninos. Pegou também comida e refrigerante. se despediu dizendo que ia buscar a menina e os encontrava em meia hora na casa de . Então, depois de acomodar os meninos em suas cadeirinhas, ela deu a partida no carro e foi para a casa de . Ainda chegou lá a tempo de ver descer com sua bagagem bufando.
- Eu vou te matar, sua desgraçada. – Disse entre dentes – Me fazer levar aquela piranha de açude. Não! Sério! Que baita amiga que você é!
- Deixa ela, ! Já expliquei um milhão de vezes. – disse, colocando metade do corpo para dentro por uma das janelas de trás, brincando com um dos garotos.
- Cadê o tio , mamãe? – Henry perguntou, e e olharam para ela, sorrindo cúmplices.
- Ele já está descendo. – disse, escabelando o garotinho, vendo que saía do prédio com sua mala.
- Vamos, ? – disse, meio braba – E você, sua amiga de quinta, te vejo lá no .
- Uéé. O que aconteceu com ela? – perguntou assim que desceu do carro para ajudá-lo a colocar a mala no porta malas.
- Ela está indignada porque vai ter que levar a sozinha. – Disse simplesmente, assustando por sua sinceridade.
- Fazer o quê? Antes lá com ela do que aqui com a gente. – ele deu de ombros, e ela o olhou séria.
- Isso é uma hipótese fora de questão. Se dependesse de mim, ela iria a pé! – disse, e entrou novamente no carro, vendo-o fazer o mesmo, mas sendo ovacionado pelos meninos. Enquanto ela dirigia calada rumo à casa de , a olhava com o canto dos olhos a todo momento.
- Quer que eu dirija, ? – Ele tentou quebrar o gelo.
- Não precisa. Eles querem mais a sua companhia do que a minha. – Disse brincalhona, olhando os filhos pelo retrovisor. Ele concordou e virou-se para brincar com os meninos, que riam descontroladamente das caretas que ele fazia.
Quando chegaram à casa de , este já os esperava do lado de fora, junto com . Ambos escorados no carro conversando. Assustaram-se ao ver e no mesmo carro, mas riram com a hipótese de atirar pela janela no meio da estrada. Logo em seguida, chegou e a menina que o acompanhava preferiu não sair do carro. demorou um pouco para chegar e, assim que o fez, desceu do carro, bufando, dizendo que a vaca loira tinha resolvido trazer a casa inteira - fazendo todos rirem, menos , claro, que também desceu do carro e se atirou no pescoço de .
- Amorzinho, posso ir com você? – Perguntou alto o suficiente para todos ouvirem. Achava que o marido nunca lhe negaria.
- Não, . – Ele disse simplesmente, e ela perguntou o porquê, ofendida – Porque você não foi convidada pelos donos do carro. – E apontou para os garotos, que botaram a língua pra ela, fazendo todos gargalharem.
- Eu não vou aguentar todo esse tempo de viagem com uma idiota que me chama de vaca o tempo inteiro, ! – Ela disse, manhosa.
- Então não vá! – Ele perdeu um pouco a paciência.
- Por que eu não posso ir com você? – perguntou novamente. E ele olhou para , que respondeu com o olhar “por mim ela vai a pé”, e ele riu, mas não respondeu – , por quê? – insistiu.
- Porque o carro é meu, e eu digo que nele você não vai. – disse sem rodeios – Vamos de uma vez? – Ela perguntou, se virando de costas para o casal e encarando os amigos. Todos concordaram ainda risonhos com o que acabara de acontecer.
- , se eu não vou junto, você não vai também! – o puxou pelo braço quando ele ia entrar no carro. Ele apenas a olhou nos olhos e gargalhou. Mas gargalhou bem alto e na cara dela.
- Era só o que me faltava! – Disse, soltando o braço das mãos da mulher e entrando no carro, deixando-a furiosa. Mal ele bateu a porta e já estava arrancando com o carro, fazendo os filhos comemorarem.
- Desculpe por isso. – Ele disse depois de um tempo.
- Relaxa . Não é comigo que você tem que se preocupar. – não era isso que ela queria dizer. Mas ela realmente não se importava em ver dar vexame na frente de todos. Ele deu de ombros e passou parte da viagem brincando ou ‘conversando’ com os meninos; para aquela situação era, no mínimo, inusitada. A sensação de ter os três ali, juntos dela, se divertindo, felizes, era inexplicável. Na verdade, inexplicável mesmo era aquela sensação de estar completa, que por uns minutos preencheu seu peito, junto com ela, uma felicidade instantânea. Poderia se acostumar com isso. Poderia viver assim, dentro daquele carro, com aqueles três faceiros.
No rádio tocava alguma música bem baixinho, e quando os meninos pegaram no sono, resolveu puxar papo com ela. Até que conseguiram conversar civilizadamente, sem trocar farpas e ofensas. Mas eram assuntos totalmente aleatórios e que não trariam confusão. Pra não era muito fácil falar sobre qualquer coisa com . Parece que a todo momento ela deixaria escapar alguma coisa. Ou tinha vontade de xingá-lo e falar mais algumas verdades. Já para , apesar de ainda estar magoado com a atitude dela, era mais fácil conversar. Até preferia assim. Sem brigas, sem ofensas, sem discussão. Se tinha uma coisa que ele realmente odiava, era discussão.

Capítulo 25.

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Já era difícil sequer aguentar a hipótese de passar quatro dias inteiros na mesma casa que . Mas ter que aguentá-la agarrada ao pescoço de , toda melosinha, depois do que descobriu, era demais. Tudo bem trair o cara, ela nem gosta dele mesmo. Mas larga o osso, cadela! Sai de cima! Desocupa a moita! Mas não, a loira de farmácia não ia largar o potinho de ouro que encontrou no fim do arco-íris, certo? Jamais trocaria um cara de futuro que, querendo ou não, trabalhava muito e ganhava muito bem por isso; por um pé rapado que vivia às suas custas e não era capaz nem de se sustentar. Nem por todo amor do mundo que ela pudesse sentir por Brandon ela largaria . E de uma coisa tinha certeza: não gostava nem um pouco de . Ela simplesmente amava o que ele tinha dentro do bolso: a carteira. Elas nunca se gostaram, sabiam que ambas queriam a mesma “coisa”, mas só uma poderia tê-la. Como foi mais esperta e corajosa, ficou com o prêmio. É, é assim mesmo que via as coisas. A garota foi mais ousada, mais inteligente. Fez o que foi necessário, lutou por aquilo que queria. Sim, as razões pelas quais ela fez isso e as formas pelas quais ela o conquistou estão fora de julgamento, do contrário ela seria eliminada na primeira fase do jogo, quando trapaceou pela primeira vez. Senão, seria quando jogou sujo e baixo com em uma cama de hospital. Ou ainda, omitindo informações importantíssimas e que, certamente, dariam um rumo diferente à brincadeira. Mas poderia ter sido diferente, sim, se tivesse tomado uma atitude logo no começo, peitando a loira e impondo sua vontade. Que ele não ficasse com ela, tudo bem, mas que ao menos assumisse os filhos. Agora a coisa toda era muito mais perigosa. COMO, me diga, como ela iria contar a que, além dele ter sido traído e enganado por aquela que lhe jurou amor eterno, ele tinha dois filhos que lhe eram escondidos por aquela outra participante? É simplesmente inimaginável uma cena dessas. O certo seria que a própria contasse sua parte da história, deixando a outra contar o resto. Mas todos sabiam que ela não faria isso. Nem por muito dinheiro. Nem por nada. Ela não entregaria de bandeja a ninguém, muito menos a . Lembrou-se da frase da garota “Ele está feliz ao meu lado. Não ouse tentar atrapalhar isso. Porque eu acabo contigo!”. Não sabia do que era capaz de fazer contra ela e os meninos, mas também não queria pagar pra ver. Agora ali estava ela, sentada na sala entre os amigos e os filhos.
apresentou Even a todos, e ela já estava bem enturmada. Era uma brasileira de fazer inveja em qualquer uma. Tinha os cabelos pretos lisos bem compridos e com cachos nas pontas. Sua pele era bronzeada e parecia um pêssego de tão macia e lisa. Os dentes alinhados formavam um belo e encantador sorriso. E, para finalizar, seu sotaque de inglês aprendido desde pequena fazia ela parecer uma garota lindamente engraçada. só babava toda vez que ela sorria. conversava com ela sobre alguma marca de roupas enquanto e discutiam algo sobre a banda, agora que havia decidido ficar. Ele já tinha comunicado sua excelentíssima esposa disso. Por isso ela parecia mais grudada a ele do que nunca. Estava até tentando disputar sua atenção com os meninos, veja bem. Enquanto ele estava com Jonhy em uma perna e Henry na outra fazendo algum joguinho com as mãos, ela o beijava no pescoço sem pudor algum e vez ou outra dava uma mordidinha. Ele não parecia nem notar sua presença, ou fingia. Mas não tirava os olhos da brincadeira, o que deixou contente pela primeira vez no dia. Tinham acabado de chegar da praia, porque estava chovendo. É claro que ela não esperava um dia ensolarado nem nada, mas podia não chover, pelo menos, pra que eles pudessem aproveitar o mar. Todos sabiam que a previsão era de chuva, mas quiseram ir para a praia mesmo assim. Olhou ao redor e sorriu. Fora ela, tudo tinha se encaixado. arrumara uma namorada legal, e tinham se acertado definitivamente e pretendia pedir em casamento logo logo. Só faltava ela. E faltava ainda aquele tal de felizes para sempre que ela não sabia se viria. Levantou-se e foi até a cozinha, precisava comer. Pensar em tudo aquilo consumira-lhe as forças e ela precisava recarregar a bateria. Abriu a geladeira e só então se lembrou do quão vazia estava. Eles haviam chegado no dia anterior e fizeram as refeições todas no centro da pequena cidade. Tinham esquecido completamente de abastecer a casa. Estava chovendo forte e ela duvidava que eles iriam achar alguma coisa aberta. E, além do mais, estava cansada e não sairia de casa por nada no mundo. Voltou para a sala e sentou-se na mesma poltrona de antes, cruzando os braços emburrada.
- Que foi, ? – Even perguntou, sorrindo.
- Tô com fome.
- Mata um homem e come! – respondeu, risonha.
- Mato mesmo, pode ser o seu? – Disse, com a sobrancelha arqueada, em tom ameaçador.
- Ei! Eu não fiz nada! Não me mate! – se encolhia e balançava os braços na sua frente, como se aquilo fosse salvá-lo.
- Não tem comida? – perguntou.
- Não. A geladeira só não tá mais vazia que meu estômago. Ela, pelo menos, tem um pouco de gelo dentro. – Disse, e todos riram dela, que fazia careta apertando a barriga.
- Vamos ao mercado então. – levantou, puxando a namorada para cima, fazendo o mesmo com , que estendia as mãos como uma criança. Ao ver todos levantados, menos a irmã, ele perguntou:
- Você não vai?
- Preguiça. – sorriu – Já vou ter que ajudar na cozinha depois, vou dormir enquanto isso.
- Mamãe, a gente pode ir? – Henry perguntou, segurando a mão de , e ela não pôde conter um sorriso.
- Claro filho. Mas se comporta, ok? E obedece o tio . – suspirou ao se ouvir falar isso. Ele, genuinamente, sorriu bobo. Ela lançou um olhar para o irmão, que entendeu o recado: era pra ele ficar de olho nos meninos. Sorriu novamente e foi em direção ao quarto que estava separado para ela. Não viu quanto tempo ficou lá, deitada de barriga pra baixo, pensando, matutando aquela situação. Queria poder fazer tudo de uma vez só. Queria ser feliz de uma vez. Queria poder dizer para o pai dos filhos dela para tomar cuidado com os filhos dele. Queria jogar a verdade aos quatro ventos. Queria tanta coisa que só sabia que, naquele momento, de todas elas, a única coisa que ela poderia conseguir era dormir. Fechou os olhos e soltou um longo suspiro. Ouviu o barulho da chuva caindo no telhado da casa e se sentiu confortável com ele.
- Podemos conversar? – pulou da cama ao ouvir aquela voz enjoada. Olhou em direção à porta e lá estava escorada ao batente, com um sorriso cínico no rosto. Deus, será que nem num momento ela conseguiria ficar sozinha?
- Fala. – deu-se por vencida e sentou-se na cama, ainda fitando a garota à sua frente.
- Só queria te dizer que nada do que você disse naquele dia fez o brigar comigo ou me largar, como você pode ver. – Ela apontou para o próprio corpo, como quem diz ‘estou aqui, está vendo?’ - E queria dizer, também, que nada que você faça vai mudar a história das nossas vidas.
- Nossa, mas até que pra quem pinta o cabelo há anos alguns neurônios estão intactos.
- Chega de ironias e cresce, garota.
- Claro, crescer que nem você? Que só sobe na vida enganando e mentindo? Não, obrigada, prefiro continuar com minhas ironias inofensivas.
- Vamos combinar, pra mim funcionou, certo? Olhe onde eu estou e olhe onde você está.
- Vamos analisar essa informação, . Onde você está? Bem, você está hospedada num hotel, longe do seu marido, porque ele não quer ficar contigo. Não pode nem comprar uma calcinha sem pedir permissão porque, bom, o cartão de crédito é dele, e você não tem renda nenhuma. O dia em que ele te largar, o que você vai ter na vida? Aquele cara? O Brandon? Sim, porque nem emprego você vai conseguir, a menos que seja de garçonete. Não que eu tenha alguma coisa contra as garçonetes. Só acho um emprego honesto demais pro teu tipo. – viu a face irritada da outra e não conteve um sorriso malicioso – Vejamos o outro lado. Em nove meses concluo a minha faculdade. Em uma semana começo a trabalhar num dos melhores hotéis da cidade. Eu me sustento e sustento meus filhos. Eu pago pelas coisas que eu quero sem ter que pedir permissão pra homem nenhum.
- Querida, eu não estou sozinha no hotel porque ele não quer ficar comigo, e sim porque eu não quis ficar na casa do . Eu compro o que eu quiser sem pedir permissão. E não se preocupe com minha estabilidade, o nunca vai me largar, ele me ama. – gargalhou com as mãos na cintura e levantou, a encarando.
- Será mesmo? – arqueou a sobrancelha - Sabe, eu sempre pensei que o tivesse convidado o pra ficar com ele. Sem que você fosse junto. E olha, não é que ele foi! – Disse, fingindo surpresa - Acho que se ele não quisesse ficar sem você lá ele teria ido para o hotel contigo, não é mesmo? Não que isso faça diferença, uma vez que você conseguiu colocar aquele homem pra dormir contigo, enquanto o teu marido dormia sozinho. Ótima troca. – ironizou – Se eu fosse você, não contava tanto com o fato dele nunca te deixar. O não é burro. Uma hora ele vai descobrir. Mesmo que não seja eu a contar pra ele, já que ele preferiu não acreditar em mim. Além do mais, mais cedo ou mais tarde ele vai ver que os meninos são a cara dele. Ninguém consegue se segurar com esse comentário. – deu de ombros, como se aquilo fosse fácil até pra ela. Um silêncio tomou conta do quarto e a atmosfera tensa era até palpável. Havia parado de chover e sentia o cheiro delicioso de terra. Mas ainda não se desconcentrara da situação.
- Você acha mesmo que tem alguma chance com o ? Caso ele me largue? – perguntou, irônica.
- Não pensei nisso. – mentira – Não me interessa o que o venha a fazer, desde que ele assuma os filhos.
- Se liga, garota! O dia que ele descobrir isso, ele vai ficar com tanta raiva que não vai querer ver vocês três nem pintados de ouro! E adivinha quem vai estar ao lado dele para consolá-lo? – passou as mãos no contorno do corpo de uma forma vulgar.
- Você? Será mesmo? De quem será que ele terá mais raiva, ? Pelo menos não sou eu que faço ele de palhaço. – fez uma pausa, vendo a outra ficar sem falas. Era agora que tomaria uma atitude – O negócio é o seguinte, . Eu vou contar tudo ao . De novo.
- AH, MAS VOCÊ NÃO VAI NÃO! – gritou desesperada – Ele não vai te ouvir mesmo.
- Será mesmo, ? – gritou tão alto quanto – Será que eu não posso mostrar a ele que ele pode confiar em mim, e ele não vai me ouvir quando eu disser que aquele maldito filho que ele sofre tanto por ter perdido não era nem dele? Será que ele não vai desconfiar quando eu disser que você tem um caso com aquele cara há mais tempo do que conhece ele? Você está tão certa disso? – Ela dizia furiosa, olhando nos olhos da loira, que tremia, mas respondeu:
- Eu tenho certeza que ele não vai te ouvir. Ele já não te ouviu da outra vez. Ele é otário demais pra acreditar em algo assim. Ele amava aquela criança demais e nada vai mudar isso, ! Pode falar o que tu quiser, eu vou desmentir e aquele trouxa vai acreditar em mim, como sempre! Vai continuar sendo um otário que acredita que eu amo ele. – dizia, mas ela já não prestava mais atenção. Agora ela olhava fixamente por cima dos ombros da loira. Sentiu dó ao ver a expressão triste e apavorada estampada no rosto de , que estava parado atrás da mulher. Um nó se formou em sua garganta. O que será que ele tinha ouvido da conversa.
- Então é isso, ? – Ele perguntou, com a voz meio embargada, e ela imediatamente virou os calcanhares e ficou de frente para o marido, totalmente desnorteada e constrangida.
- , meu amor. Não é nada disso. – tentou agarrá-lo, mas ele, sem delicadeza nenhuma, a pegou pelos braços e jogou na cama, saindo do quarto logo em seguida.
percebeu os olhares de todos os amigos sobre ela e a garota. Estavam todos parados no corredor que dava para o quarto. E todos, sem exceção, estavam espantados.
- Pelo amor de Deus, o que tá acontecendo aqui? – perguntou, sacudindo a amiga pelos ombros.
- Desde quando vocês estão aqui? – Foi a única frase que conseguiu formar.
- Desde quando você falou do filho dele com ela. – ela respondeu, e não conseguia sair do transe – , pelo amor de Deus, fala alguma coisa!
- Eu vou atrás dele. – disse, virando de costas, mas ela o impediu.
- Não, . – Ela disse, baixinho – Eu vou. – E passou por todos, sentindo os olhares cravados nela.
Passou pelo portão da casa e viu que todos os carros estavam ali, não estaria longe. Não sabia por onde começar a procurar. Sentia que as lágrimas começariam a correr a qualquer momento. Sentia a dor que ele deveria estar sentindo. Ela sabia que ele estava sofrendo. Não por estar sendo traído pela mulher, ou por ela chamá-lo de idiota, trouxa, otário ou qualquer outra ofensa que tenha vindo dela. Mas sim pela criança que ele tanto amara e tanto sofrera em perder. E, com certeza, estava se sentindo um idiota por não ter ouvido semana passada. Caminhou sem direção alguma, apenas deixou que suas pernas a guiassem para qualquer lugar. Deparou-se com a orla da praia. Estava tudo deserto. Ouvia-se apenas o barulho das ondas quebrando na areia e o assovio do vento. O céu estava escuro, e ela sabia que logo voltaria a chover. Só esperava encontrar antes disso. Tirou os sapatos e colocou os pés na areia gelada. Passou as mãos pelos próprios braços em uma tentativa de afastar aquela ansiedade, deu um longo suspiro e voltou a procurar. Alguns metros à sua frente ela pôde ver o corpo de . Ele estava sentado na areia, abraçado às pernas e com a cabeça enterrada entre os joelhos. Sentiu um alívio instantâneo por ele estar bem. Fisicamente, pelo menos. Apesar do frio, ele estava sem camisa e com uma bermuda xadrez que ia até a metade das canelas.

estava sentando à beira da praia, refletindo sobre o que tinha acabado de acontecer. Então era tudo verdade. Tudo que tentara lhe dizer. Não estava nem aí pra ou para o que ela pudesse sentir ou fazer. Estava sentido com o fato dele achar que um dia poderia ter sido pai. Que hoje estaria criando um filho que nem dele era. Que era fruto de um golpe. Fruto de uma mentira. Suspirou profundamente e olhou para frente, encarando o mar. Ele parecia entender a revolta de .
- Oi. – Ele ouviu e olhou para o lado. estava sentada com as pernas esticadas, brincando de fazer círculos na perna descoberta pelo shorts jeans que usava, e olhava fixamente pra ele. Pela primeira vez, viu em seus olhos algo diferente. Só não soube dizer o que era. Sorriu involuntariamente e respondeu:
- Oi.
- Você está bem? – ela perguntou, soltando uma mão da outra e passando pela lateral do rosto dele, que fechou os olhos. Era tão bom sentir aquele toque. Negou com a cabeça lentamente e, ainda de olhos fechados, pôde sentir puxar-lhe para um abraço confortável. Pareceram séculos que eles ficaram ali abraçados enquanto ela, carinhosamente, afagava os cabelos dele.
- Vai ficar muito chato se eu disser que tentei avisar? – Ele se afastou dela e estreitou o olhar.
- Veio aqui para isso? Pra tripudiar em cima do meu sofrimento?
- Não, , eu... er...
- Pode se divertir, ! Finalmente você conseguiu o que queria. - ele gritou levantando-se, e ela fez o mesmo imediatamente.
- Ei, eu não vim pra isso! – ela gritou também.
- Quer saber?! Eu não quero ouvir! Não quero saber o que tu tem pra me dizer. Me deixa sozinho, , por favor. – Dito isso, virou-se de costas pra ela e começou a andar, deixando-a para trás.
não podia acreditar. Ela e sua boca grande mereciam mesmo era morrer secas. Agora ela tinha perdido a chance de contar tudo. Aquilo tinha doído tanto nela. Aquele abraço tinha sido tão verdadeiro. Ela quis abraçá-lo. E teve a nítida impressão de que ele retribuíra ao abraço a apertando com força. E queria que ele não tivesse a soltado nunca. E agora ela o via indo para longe mais uma vez. Levantou-se também, enfiou os pés na areia com força, socou o ar e sentiu vontade de chorar. Chorar de verdade. Gritar tudo o que queria. Ouviu um trovão e estremeceu. Sentiu um pingo em sua bochecha e olhou para o céu, que estava mais preto do que nunca.

[n/a: coloque a música para tocar e ouça até o fim da cena, por favor.]

Sabia que aquele não era o momento perfeito, tudo dizia o contrário. Mas nada a impediria mais. Ela iria contar, e foda-se a reação dele.

Desperate for changing
(Desesperado por mudanças)
Starving for truth
(esfomeado pela verdade)
I'm closer to where I started
(Eu estou mais perto de onde comecei)
I'm chasing after you
(Estou perseguindo você)

- ! – gritou, correndo em sua direção, mas ele não parou nem virou para olhá-la. E ela continuou correndo, tendo dificuldades para alcançá-lo, uma vez que ele andava rápido – ! - Gritou de novo – Por favor, me ouve.
- Pra quê? – Ele virou-se de supetão e levantou os braços, exasperado – Pra quê, caramba? Nada que você diga vai fazer eu me sentir melhor! – estava visivelmente abalado, e sua voz saía embargada.
- Posso tentar, pelo menos? – Ela o encarou fundo e pediu baixo.
- Acho que não. Cansei de você sempre tentar mudar tudo. Quando estávamos bem, você ia lá e fazia alguma coisa pra estragar. Quando eu estava feliz, ia lá e dava um jeito de fazer dar errado. Como foi com a .
- , para. Deixa eu falar. – Deixou duas lágrimas escorrerem pelo seu rosto. Nem tentou impedi-las de descer – Por favor.
- NÃO! – ele gritou e deixou visível sua revolta – EU NÃO VOU TE OUVIR! – Virou-se e voltou a andar, novamente, para longe de .
- VAI SIM! – colocou-se a correr atrás dele e quando o alcançou, segurou-lhe os braços com força e encarou seus olhos azuis já lavados pelas lágrimas – Vai ouvir porque nem que eu diga pro mar ou pra areia eu vou dizer, e nada vai me impedir dessa vez. – a chuva caía fortemente e ela ainda segurava o braço dele, sem se importar com sua blusa branca que ia ficando cada vez mais transparente. tirou o braço das mãos dela e virou-se de costas.
- Não, por favor. – pediu baixo e voltou a se afastar.

I'm falling even more in love with you
(Eu estou ainda mais apaixonado por você)
Letting go of all I've held onto
(Deixando para lá tudo que eu tinha)
I'm standing here until you make me move
(Eu estarei aqui até que você me mova)
I'm hanging by a moment here with you
(Estou esperando por um momento aqui contigo)

- ! O JOHNY E O HENRY SÃO SEUS FILHOS! – gritou de olhos fechados, sentindo a chuva gelada encharcar seu corpo.
Por um momento, pensou ter ouvido errado. Virou-se para encarar a garota, que agora chorava com o rosto entre as mãos.
- O quê? – perguntou em um sussurro, mais para ele do que para ela, provavelmente.
- Você ouviu bem. Eles são seus filhos.
- Diga isso olhando nos meus olhos, . – Disse, puxando as mãos dela para baixo.
- ELES SÃO SEUS FILHOS. – ela disse pausadamente em voz alta, até demais, encarando arduamente enquanto ouvia o estrondo que as ondas faziam ao encontrar a areia.
- Você só pode estar brincando. – Ele negou com a cabeça, inconformado – Só pode ser mais uma das suas ceninhas. – esfregou a mão pelo rosto e em seguida pelos cabelos encharcados.
não pôde acreditar. Sentia suas lágrimas se confundirem com a água da chuva, já estava ensopada, e também. O que poderia fazer pra ele acreditar? Por Deus, era tão difícil assim aceitar de uma vez?
- Agora é a sua vez de olhar nos meus olhos, . – Ela disse, colocando a mão no queixo dele e levando em sua direção. Quando seus olhos se encontraram, ela disse, com a voz carregada de sentimento: - Você acha mesmo que eu brincaria com uma coisa dessas? – ele continuou imóvel – Certo, então eu vou dizer diferente. – olhou-o fundo nos olhos, respirou fundo e tentou juntar forças para continuar - Você não perdeu um filho que nem sequer era teu. Você ganhou dois que são exatamente a sua cara. Só um idiota como você pra não notar isso. Você ganhou dois rapazinhos lindos, que são iguais até na hora de reclamar e têm a mesma teimosia. – Ela dizia isso sem desviar o olhar dos olhos dele. Sabia que ele cederia em algum momento.
levou alguns segundos para processar a informação. Algo martelava dentro de sua cabeça, e não conseguia entender bem como aquilo poderia ter acontecido - Mas como? - Ele perguntou, se soltando dela e encarando o mar.
- O baile. – Ela disse, e ele a olhou incrédulo.
- Não é possível, ! – disse nervoso. Seria mesmo possível que uma única noite, uma única transa, poderia lhe render tais consequências? Era muito azar. Ou não.
- , para de negar pra ti mesmo! É só olhar pros dois que você vai perceber que é verdade! Visualiza a imagem deles! Tu não vê a forma como o Johny arqueia a sobrancelhas? Ou como o Henry imita todas as tuas caras? Não! Talvez seja porque eles têm o mesmo charme e a mesma forma idiota de sorrir. – Gritou, também nervosa. Custava ele aceitar, de uma vez por todas? E entender que sim, eram filhos dele e pronto?
ficou em silêncio por uns segundos, sem saber o que falar. Voltou sua atenção para o mar novamente. Era fato que eles eram parecidos demais com ele. Por alguns cálculos rápidos podia ver que a idade dos meninos batia com a data do baile. Também nunca havia sido apresentado ao pai dos meninos. E sabia que não era. Mas ele? Por que ele? Por que só agora contaram? Milhares de perguntas se formavam em sua mente e, antes mesmo de ficar feliz com a descoberta, uma dor apunhalou-o no peito.

I'm living for the only thing I know
(Eu vivo pela única coisa que eu sei)
I'm running and not quite sure where to go
(Eu corro e não tenho bem certeza para onde vou)
And I don't know what I'm diving into
(E eu não sei onde vou me meter)
Just hanging by a moment here with you
(Eu estou esperando um momento aqui contigo)

- Por que você escondeu isso de mim? – fechou os olhos, na tentativa de espantar aquela coisa ruim, e tremeu. Temia aquela pergunta mais do que qualquer outra.
- Eu tentei te falar algumas vezes. – Suspirou – Mas sempre acontecia alguma coisa. Lembra do dia que você foi embora? Que eu corri até o carro e a não me deixou falar? Então, naquele dia, quando o carro saiu da minha vista, eu jurei para mim mesma que não iria contar mais. Nunca mais. Você não quis me ouvir. – Disse, encarando a areia. Precisava ser tão difícil?
- Quando foi que você descobriu? – Ele se virou e a olhou nos olhos.
- Naquela vez em que te ligaram e que você veio até aqui. – Apesar de achar que era um direito dele, ela não aguentava mais tantos questionamentos. Será que dava pra parar de fazer perguntas de uma vez?
- Eu tinha o direito de saber, ! – Fechou as mãos com força, como se o resto de sua sanidade pudesse escapar pela ponta dos dedos.
- Eu ia contar, , eu juro! - desesperou-se – Mas a apareceu no hospital falando que tava grávida, que vocês iam casar. E... E ela me ameaçou, !
- O que ela podia fazer contra você? – perguntou, irônico.
- Eu tinha dezoito anos, caramba! – gritou, perdendo o controle. Passou as mãos do rosto para os cabelos e tentou, quase que inutilmente, falar com a voz mais calma possível - Eu fiquei apavorada, ok? Eu me desesperei! – Deixou que as lágrimas tomassem conta novamente. Não era fácil falar daquele dia –Imagine, . No meio da noite, eu estava sozinha num quarto de hospital. Eu entrei em pânico com aquela maníaca me ameaçando. - suspirou - E eu me lembrei daquele bilhete. De como você disse que ficaria bem sem mim. Da forma como ela falou de você e do amor que você tinha por ela.
- Você sabia que não era dela que eu gostava! – disse, quase num sussurro.
- Sabia? –arqueou a sobrancelha, pensando na probabilidade de que, se soubesse daquilo, tudo poderia ter sido bem diferente.
- De qualquer forma, você não tinha esse direito. – desconversou - Ficando ou não contigo, eu tinha que saber, . Eles são meus filhos e você escondeu isso de mim por quase quatro anos!
- Ah é? Você acha que foi fácil? Acha que foi legal aguentar essa barra sozinha? Como se eu quisesse isso? Como se eu tivesse pedido por isso? Por mais que eu tivesse e todo o pessoal junto comigo, não eram eles que eu queria do meu lado. Era você, . Era a tua companhia que eu queria no primeiro ultrassom. Era contigo que eu queria estar quando eu descobri que eram gêmeos. E quando descobri o sexo. Era contigo que eu queria festejar quando eles deram os primeiros passos de mãos dadas, ou quando eles falaram pela primeira vez. Mas não era você que estava lá! – olhava o homem a sua frente. Suas palavras duras e carregadas de mágoa o estavam atingindo, via isso pelas lágrimas que escorriam por seu rosto. Assim como as dela, que não se importavam mais em se misturar com a água da chuva.
- Eu não estava lá porque eu não sabia! – Falou mais alto que o necessário, devido ao barulho alto que a chuva, os trovões e as ondas do mar faziam.
- Eu tentei, muitas vezes, te contar. Te liguei diversas vezes de madrugada. Mas sempre perdia a coragem. Ou, às vezes, a atendia e brigava comigo. – Disse, como se tentasse justificar o injustificável. Sabia que ele tinha todos os motivos do mundo para ficar bravo com ela.
- Não é justo, depois de tanto tempo, você vir me dizer essas coisas.
- Que seja, , agora você já sabe, faça como preferir. – disse e virou-se para voltar para casa.

There's nothing in the world
(Não há nada no mundo)
That could change my mind
(Que possa mudar a minha idéia)

- VOCÊ SABE QUE EU ESTARIA AQUI SE EU SOUBESSE, NÃO SABE? – Ele gritou quando ela ainda não estava muito longe.
Ao ouvir a voz esganiçada e embargada de , virou-se para encará-lo. Havia um misto de incredulidade e felicidade em seu olhar. Ficou o olhando por alguns segundos. Ele estava lindo, todo molhado, com o tronco nu, e os cabelos sobre a testa pingavam em seus olhos, ele não parecia mais tão irritado. Caminhou até ele e colocou a mão em seu rosto.
- Estaria? – perguntou baixo, mas tendo a certeza de que ele a ouvira.
Em vez de responder, a abraçou forte e deixou que o choro saísse ainda mais alto. Começou a soluçar feito uma criança. Como se aquilo respondesse todas suas dúvidas em relação a ele, o apertou em seu abraçou. Mesmo sentindo-se sufocada, estava feliz por ele não ter saído correndo nem nada. Ele parecia realmente emocionado. Finalmente aquela agonia tinha acabado. Finalmente toda verdade tinha sido dita. E finalmente a paz pareceu reinar em seu peito. Só faltava um último tópico para se dizer que havia cumprido a missão: contar aos meninos que eles tinham, de fato, um pai. E que esse pai era o tão idolatrado tio .
Durante o abraço, e soluçavam e sentiam que aquilo era necessário. Sabiam o que o tempo tinha lhes tirado, mas tinham consciência de que ainda dava tempo de reconquistar. a soltou e a ficou encarando por uns segundos. Ainda precisavam conversar muito sobre aquilo. Não seria assim, do dia para a noite, que tudo estaria bem entre eles. Que tudo seria resolvido. Que tudo seria esquecido. Viu os olhos da garota brilharem com intensidade. Ainda chovia forte, e não havia silêncio nenhum. Não fosse os barulhos do mar e da chuva, seriam as incessantes manifestações em suas mentes. Estava frio, mas nenhum dos dois ligava para isso. Por um momento, enquanto se perdiam no olhar um do outro, pareceu lembrar de algo muito importante. Beijou sua bochecha demoradamente e, novamente olhando em seus olhos, disse:
- Vamos! – e começou a correr, puxando-a pela mão. Queria, de uma vez por todas, abraçar seus filhos – Vamos pra casa. – Ele tinha no rosto o maior sorriso já visto por ela. Tinha a impressão de ainda ver algumas lágrimas solitárias caírem espaçadamente. Corriam de forma desajeitada pelas ruas de paralelepípedo, e vez ou outra tropeçava, sendo aparada por , que parecia não se importar muito. Estava com pressa.
- Onde eles estão? – entrou em casa e perguntou a e , que estavam de pé ao lado da porta, mas, antes que uma delas respondesse, ele ouviu uma gargalhada gostosa e se virou para o meio da sala.
Henry e Johny estavam sentados no chão, com , e , brincando. Todos na sala o olharam espantados e esperando alguma reação. caminhou até eles e se jogou de joelhos em sua frente, com lágrimas nos olhos. E num impulso puxou os dois meninos, cada um em um braço, e os abraçou com força, chorando como uma criancinha que se machucou. observava a cena com uma mão na boca e a outra no peito. Como queria aquilo. Como esperara pra assistir àquilo. Sentiu todos os olhares da sala irem de para ela, e vagarem para ele novamente. Ela não conseguia pronunciar nenhuma palavra.
- Tio , você se machucou? – Henry perguntou, assim que os largou. E ele sorriu, percebendo a preocupação do pequeno.
- Não me machuquei não, pequeno. – respondeu, fungando.
- Então por que está chorando? – Johny o olhou, arqueando a sobrancelha, perguntando desconfiado, o fazendo perceber que aquele ato era realmente igual ao seu.
- O está feliz, filho. E os adultos são meio bobos às vezes, e choram de felicidade. – Ela respondeu, olhando cúmplice para , que aumentou ainda mais o sorriso.
- Ei, eu exijo uma explicação! – falou, divertido.
- , sua anta. – deu um pedala no amigo – Ela contou. – respondeu e todos riram.
- Então todos sabiam, é? – perguntou, olhando de para os amigos, que deram de ombros, sem graça.
- Não sei como você não descobriu antes com as indiretas da . – disse, sentando-se no colo de .
Enquanto todos conversavam, olhava para a irmã num misto de alívio com preocupação. Temia o que poderia acontecer de agora por diante. Nada do que aconteceu iria se apagar do nada, sumir pra sempre. Ainda havia coisas pendentes a serem resolvidas.
- PARABÉNS! - Todos ouviram uma voz destoante vinda de um dos quartos, acompanhada de palmas estridentes – Até que enfim! – Puderam ver com a face irada aparecer.
- Ah, não, dude! – se levantou, observando a garota – Não cansou de dar seu showzinho? Pensei que você já tivesse ido embora.
- Não podia ir sem antes parabenizar os otários. – respondeu, seca.
- Depois de tudo o que tu disse e fez, como ainda tem coragem de estar aqui? - perguntou incrédulo, também se levantando.
- Eu já estou indo embora, acabei de chamar um táxi. – puxou as malas até a porta de entrada e, antes de sair, colocou o dedo no rosto de – Se eu fosse você, cuidaria muito bem desses pirralhos. Minha promessa ainda está de pé. – disse e saiu, com suas malas, até o táxi que a esperava do outro lado do portão. Todos olharam para , inclusive .
- Que promessa? – perguntou curioso, e suspirou.
- Ela prometeu que, se eu te contasse, ela sumiria com eles do mapa. – esfregou as mãos pelo rosto. Não gostava nem de pensar na hipótese de algo acontecer com eles.
- Heeey, calma. – parou em frente a ela e passou as mãos por seus braços, tirando-os da frente a abraçando – Nada vai acontecer, . – E por um momento ela pensou ouvir dizer “nada vai acontecer, eu estou aqui com vocês agora, vou protegê-los”. Era o que ela queria ouvir, na verdade. Essa era sua mente lhe pregando peças.
- Tio , vem brincar de uma vez. – Johny veio puxá-lo pelo braço.
- É, larga a minha mãe! – Henry puxou o outro braço e todos da sala desataram a rir.
- Ei, pelo que eu entendi dessa história maluca, precisamos comemorar! – Even disse, chamando atenção de todos – Vamos fazer um jantar bem legal! – disse empolgada, indo para a cozinha, sendo seguida pelas meninas, deixando os homens na sala, enquanto babava mais que o normal nos meninos.
Antes de começar a ajudar as meninas, lembrou-se do quão molhada estava e foi para o quarto trocar de roupa. Enquanto se vestia, repassava toda aquela tarde em sua mente. Quem diria que tudo seria dito daquele jeito? Na beira da praia e com aquela chuva? Como um desabafo? Ela não tinha ensaiado isso, mas se pudesse repensar e refazer, talvez o faria exatamente daquela forma. Trocou de roupa e, quando ia em direção à cozinha, lembrou-se que também estava molhado, mas tinha certeza que ele não tinha saído da sala para trocar de roupas. Não desgrudaria dos meninos de jeito nenhum agora. Entrou no quarto em que estavam as coisas dele e avistou a mala em cima da cama. Sem dificuldades, encontrou uma camiseta e uma bermuda. Por que mesmo ela estava mexendo nas coisas dele? Sorriu boba e foi para a sala, entregar-lhe as roupas.
- Ei. – chamou sua atenção, e ele a olhou sorrindo. Ela atirou as roupas pra ele, que aumentou seu sorriso em agradecimento. Não eram necessárias palavras naquele momento. Enquanto picava a cebola, ia contando os detalhes do que acontecera, desde quando eles saíram para o mercado. Não tinha entendido porque também ficara em casa. Revelou estar com medo das ameaças, aquela mulher era louca e ninguém sabia do que ela seria capaz de fazer. As três à sua frente encheram os olhos de lágrimas ao ouvirem a amiga relatar o diálogo na beira da praia, e tiravam com a sua cara, dizendo que agora estava tudo livre para ela, que enfim a felicidade batia à sua porta. Depois de pronto, o jantar foi servido, junto com um brinde, proposto por , em comemoração. Fazia tempo que aquela turma não se divertia naquela intensidade. De certa forma, o que acontecera abalara a amizade entre eles, e era como se não houvesse mais intimidade o suficiente para tal. Mesmo sabendo que não era só porque agora tinha voltado, sabia da verdade e que tinha, finalmente, se livrado da mulher asquerosa dele que tudo voltaria ao normal assim, de uma hora para a outra. Mas tudo se encaminhava para tal feito, pelo menos.
- Mamãe, tô com sono. – Johny coçou os olhos quando todos estavam jogados no chão da sala, fazendo algum tipo de jogo.
- Então vamos dormir. – Sorriu e puxou o filho pela mão. Despediu-se dos amigos e pegou Henry, que já dormia há horas no colo de . Sorriu boba para ele, que quase babava em cima da criança enquanto lhe fazia cafuné.
Vestiu o pijama nos filhos e os colocou na cama de casal. Terminava de vestir a blusa de seu pijama e deitou-se ao lado de Henry, o cobrindo melhor. Não pôde conter um sorriso idiota. Seria essa a primeira vez em anos que ela dormiria em paz consigo mesma? Ouviu baterem na porta quando já estava quase pegando no sono. Abriu os olhos e viu só de boxers e com os cabelos bagunçados parado na porta, com olhar de cachorro que caiu da mudança.
- Que foi? – perguntou sorrindo, sem tirar o rosto do travesseiro.
- Eu... er... posso... – disse, enquanto se aproximava da cama, meio receoso.
- Pode o quê, ? – riu da careta que ele fizera ao pedir: - Eu posso dormir aqui? – pediu de olhos fechados – É que eu não consegui dormir lá no meu quarto sabendo que meus dois filhos estão aqui. E é a minha primeira noite como pai. E...
- Cala a boca e deita, . – respondeu rindo, indo mais para a ponta da cama e puxando Henry consigo. Assistiu-o se deitar na outra extremidade da cama e empurrar Johny delicadamente e meio sem jeito mais para o meio. Acomodou-se devidamente e sorriu abobalhado. Como podiam ser assim, tão estranhamente parecidos com ele? Enterrou uma das mãos no cabelo do pequeno à sua frente e encarou o rosto de , que estava com os olhos fechados mas sorria também.
- Sempre sonhei com isso.
- Isso o quê, ? – perguntou, sem abrir os olhos.
- Isso. – Apontou pra cama – Dormir com filhos. – Disse, fazendo careta ao perceber o quão estranho aquilo tinha soado. Um silêncio estranho se acomodou entre eles. E teve certeza de que era aquilo que ele queria para o resto da vida. Estar ali, deitado na cama, com os filhos. E com aquela mulher por quem ele ainda não sabia exatamente o que sentia.
- Boa noite, . – disse baixinho, se aninhando nas cobertas.
- Boa noite, . – Ele respondeu, ainda com o sorriso brincando nos lábios.
O barulho da chuva no telhado embalou o sono dos quatro. Aquele seria o recomeço de uma história? De certa forma, sentia-se incrivelmente completo e sentia-se em paz. Com sentimento de dever cumprido. Ainda havia coisas a serem acertadas, mas o mais importante havia sido esclarecido e estava tudo bem. De certa forma, o que vier de agora em diante será apenas o complemento daquela história.


CONTINUA...

N/A: Não, esse não é o fim. Eu sei que todo mundo pediu pra eu mandar o fim todo de uma vez. O que aconteceu, e eu peço mil desculpas por isso, é que estou embarcando pra Londres no sábado (16/07), isso é daqui dois dias. Bem, eu até escrevi um fim pra ela. Mas ficou mal escrito, sem emoção e não ficou como eu queria. Então, eu prefiro fazer vocês esperarem mais um pouquinho a deixar vocês com um fim ruim. Mas também não queria deixar vocês sem a parte mais importante da fic. hehe Enfim, gostaram da tão esperada cena na qual ela conta??? Ficou como vocês imaginavam? Não ficou boa o suficiente? Amaram? Os comentários estão ali em baixo pra vocês dizerem o que acharam. *-*
Bom, na próxima eu prometo que já é o fim, mesmo. E não me matem, ok? É só um mês que eu vou ficar fora. Então é isso meninas, se quiserem falar comigo meu twitter: @samunhozz. Beijos e até a próxima ^^