Passos escuros
Por:Nath Cordeiro
Beta-Reader:Carol Silver



Eu mudei por você Mas não quis sofrer Por ser tão leal pra mim Vou, aprendo a viver. E num segundo perder O medo de ser quem eu sou Ser quem eu sou Que a vida me leve afinal Não tenho mais medo de errar E aprender com os meus passos escuros. Passos escuros – Hevo84

Capítulo 1


Me chamo e podemos dizer que eu tinha uma vida normal, com uma família comum. Quando criança eu e meu irmão estávamos sempre juntos e isso fez com que na adolescência fossemos super unidos, melhores amigos, apesar de um ano de diferença.
Acordei na manhã de um sábado que eu achava que seria como os outros. Minha mãe estava na sala sentada no sofá, com um livro em seu colo. Sentei-me ao lado dela e enxuguei as lágrimas que escorriam de seus olhos. Percebi que o livro era um álbum de fotos que não era aquele que eu sempre costumava ver. Ele tinha fotos que eu nunca tinha visto na vida. A maioria das fotos eram minhas. Em algumas eu estava nos braços de outra mulher e outras eram minhas com o meu irmão.

- Mãe, onde estava esse álbum? – perguntei enquanto folheava as fotos – Eu não sabia que ele existia.
- Eu achei no armário. Agora me dá ele aqui. Esquece desse álbum, esquece as fotos que você viu – tirando o “livro” das minhas mãos.
- Ixi Dona Sandra, o que aconteceu? São só fotos.
- Não importa. Esquece que elas existem – ainda chorando – agora vai acordar seu irmão.

Não respondi, apenas subi lentamente para o segundo andar. Fiquei perturbada ao ver aquelas fotos, eram parte do meu passado que eu desconhecia. Sempre achei estranho minha mãe nunca ter mostrado fotos de quando éramos criança. Espantei meus pensamentos e bati na porta do quarto em que meu irmão dormia. Adentrei no local escuro e sentei na cama.

- , a mamãe mandou vim acordar você. – passando as mãos em seus cabelos.
- Me deixa dormindo aqui, por favor, maninha. – com a voz totalmente rouca.
- Ninguém mandou você ficar até tarde no computador.
- Tudo bem, eu acordo. Bom dia, . – ele se levantou e beijou a minha testa.
- Vai se trocar e desce. Eu vou pro meu quarto.

Saí do quarto dele e fui pro meu. Liguei o computador e nada de muito novo e interessante me surpreendeu. Sentei na cama, e fiquei observando atentamente a todas as fotografias que estavam colocadas no meu mural das recordações e encontrei com os meus olhos uma foto em que eu estava brincando de mangueira com o meu irmão, aquilo me chamou a atenção. Eu nunca havia parado pra reparar o quanto nós não éramos, e ainda não somos, parecidos fisicamente. Meus pensamentos voavam, até que foram atrapalhados pelo que entrou no quarto e sentou na cadeira, puxando-a para minha frente.

- Você está sonhando? - disse olhando firme nos meus olhos.
- Não, é que eu estava pensando em umas bobagens.
- Você sabe que até as suas bobagens eu gosto de escutar né?
- Mas isso não vai somar em nada na sua vida. Acho que você devia me escutar menos, eu só falo asneira.
- Mas eu gosto das suas asneiras, eu gosto tanto de ouvir sua voz.
- Ah, eu estava pensando em como a nossa infância foi maravilhosa – ficamos em silêncio por algum tempo, eu me levantei e peguei a foto que eu estava observando – Lembra desse dia?
- Lembro. Estava muito calor e estávamos na casa da vovó. – ele disse pensativo
- E ligamos a mangueira sem ninguém saber. – começamos a rir.
- Quer saber de uma coisa? – ele segurou as minhas mãos – Eu daria a minha alma pra voltar no tempo, e encarar tudo de novo em cada momento. – ele disse olhando em meus olhos e depois nos abraçamos.
- Eu não me imagino não sendo a sua irmã.
- O que eu seria sem você?
- Sinceramente? Não seria nada. – eu comecei a rir da minha modéstia – Agora vamos almoçar?
- Vamos, eu estou com fome. – beijou a minha testa e saiu correndo do meu quarto.
- Seu gordo – eu gritei enquanto deixava o quarto.

Entrei na cozinha sem falar nada. Encarei a minha mãe sem meu irmão perceber e me sentei à mesa.
[Fim POV ]

[POV ]
Assim que entrei no quarto da percebi que havia acontecido algo antes do meu despertar. Ela estava estranha, mas quando aquela garota quer esconder alguma coisa, ninguém descobre, nem eu que a conheço perfeitamente. O almoço foi bem quieto, nenhuma palavra foi dita. O único barulho que se ouvia era o dos talheres batendo nos pratos. Como em todos os dias, depois do almoço, minha mãe foi descansar e eu e a fomos lavar a louça. Então, durante o nosso “trabalho”, meu celular tocou.

- Vai lá atender, eu termino aqui.
- Valeu, maninha. – joguei um pouco de água no rosto dela e fui atender o celular – Alô?
- Fala . Beleza?
- Beleza e contigo, ? – voltei pra cozinha e me sentei em uma cadeira.
- Opa, belezão. Vai fazer alguma coisa hoje?
- Acho que não.
- Então vem pra cá, o está aqui.
- Daqui a pouco eu apareço por aí. – desliguei o celular.
- Você vai pra casa do ? – a minha irmã me perguntou secando as mãos.
- Vou sim, por quê?
- Porque você vai me esperar que eu vou junto. Preciso falar com a .
- Mas vai logo, eu estou saindo daqui a pouco.
- Relaxa, . Eu só vou me trocar.

Fui avisar a Dona Sandra que iríamos sair enquanto a foi trocar de roupa. Depois de quinze minutos estávamos a caminho da casa do . Como ele não mora longe, chegamos rápido. A tia Angelina, mãe do , abriu a porta para nós entrarmos. Na sala estavam a , irmã do , e o conversando em um sofá. No outro sofá estavam o e a namorada dele, Laryssa. Cumprimentamos a todos. A já foi puxando a e a Lary, acho que o assunto era bem importante. Eu sentei no lugar que antes era ocupado pela , e iniciei uma conversa qualquer com meus dois amigos.
[Fim POV ]

[POV ]
Assustei-me quando a chegou já falando que precisava falar comigo e com a Lary. Como parecia importante eu fui sem hesitar. Entramos no meu quarto, eu me sentei na cama, ela na cadeira de frente para mim e a Lary sentou no chão. Minha amiga abriu a bolsa, tirou uma foto e me entregou.

- Quem são essas duas crianças fofas? – eu perguntei olhando para a foto, e passei pra Laryssa.
- Eu e o . – ela respondeu como se não estivesse feliz.
- Sério? Vocês não eram parecidos. – minha cunhada respondeu enquanto olhava a foto.
- Não éramos e ainda não somos. Eu não lembro nem a minha mãe.
- Bem, isso é verdade. Quem parece a tia Sandra é o . Mas vai saber que você se parece com o seu pai?
- Pode ser, mas eu nunca vou saber. Não tenho fotos do meu pai e ele... – ela parou no meio da frase, porém eu sabia que ela se referia ao pai ter fugido com uma qualquer – , eu preciso da sua ajuda.
- Diga no que eu posso ajudar.
- Amanhã você vai pra minha casa e vai me ajudar a procurar um álbum de fotos que minha mãe não me deixou ver. Lary, não se sinta excluída. É só que, quanto menos pessoas envolvidas nisso, melhor.
- Beleza. Agora vamos com a galera antes que pensem que morremos. - respondeu

Voltamos pra sala e nos sentamos onde tinha lugar. Não fizemos nada de interessante, só assistimos a um filme. O foi o primeiro a ir embora. Depois foi a vez do e a . Olhei no relógio, já era quase onze horas, então eu dei boa noite pro meu irmão e minha cunhada, que ia dormir em casa, e fui pro meu quarto. Me deitei na cama e adormeci.
Acordei no dia seguinte já preparada para a busca ao álbum perdido. Troquei-me e comi alguma coisa antes de sair. Meus pais não estavam em casa, então deixei um bilhete avisando onde eu tinha ido.
[Fim POV ]

[POV ]
Não consegui dormir direito só pensando no álbum de fotos e onde ele estaria. Ninguém poderia saber que eu estava procurando por ele, nem o . Levantei da cama e tirei o pijama. Desci e vi minha mãe saindo. Estava tudo a meu favor, ela tinha saído e era cedo o bastante para o não estar acordado. Sentia-me um pouco enjoada e optei por não comer. Sentei-me no sofá e fiquei esperando a chegar.
Não demorou muito para a campainha tocar. Levantei-me e abri a porta pra minha amiga. Subimos e fomos pro quarto da minha mãe e começamos a procurar. Depois de quase uma hora, eu já estava quase desistindo, achando que ela havia jogado o maldito álbum com o meu passado no lixo.

- , eu achei alguma coisa. – a falou enquanto tentava tirar alguma coisa do armário.
- O que você achou? – fui para o lado dela.
- Um fundo falso na gaveta. – tirou e me mostrou uma tampa de madeira. Eu olhei pra gaveta e logo vi a capa azul claro.
- Esse é o álbum. – peguei-o e me sentei na cama e ela do meu lado.

Começamos a ver as fotografias. Meus olhos se enchiam de lágrimas a cada mudança de página. Estava sendo bem estranho conhecer partes da minha vida. Estava sentindo como se tudo que passei não tivesse sentido, como se eu só tivesse dado passos escuros. Não conseguia mais segurar o choro. A se levantou e foi ver o que mais tinha na gaveta. Entregou-me uma pasta preta que possuía várias folhas de papel, que pareciam documentos. Hesitei em abrir, por medo de ter algo que eu não queria. De repente a porta do quarto se abre e alguém entra.

- , o que eu disse sobre esse álbum? – me assustei com o grito e joguei a pasta na gaveta.
- Mãe, isso são fotos minhas, é minha historia, o meu passado. A senhora não tem o direito de escondê-lo de mim. – eu gritava também.
- E por isso você acha que pode mexer nas minhas coisas? – ainda gritava.
- Você não me deu outra escolha, se eu tivesse pedido pra ver você não iria deixar.
- Que gritaria é essa? – o entrou no quarto só de cueca.
- Não se intromete, filho. Meu papo é com a sua irmã.
- Fala logo o que você tem pra me dizer – eu dizia entre lágrimas.
- Eu só quero o seu bem, se eu escondi esse álbum foi pensando no melhor pra você e seu irmão.
- O que isso tem a ver comigo? – ele perguntou enquanto esfregava os olhos.
- Vão para o quarto de vocês, por favor.

Não respondemos e saímos.

- , acho melhor eu ir embora. – a falou as primeiras palavras desde quando a “briga” começou.
- Faz o que você quiser. – fui em direção ao meu quarto, mas seguraram o meu braço.
- Olha o jeito que você fala. Você nunca foi assim. – disse olhando em meus olhos.
- Me deixa . – tirei meu braço das mãos dele – Finge que eu morri, porque eu quero ficar sozinha. – entrei no quarto e bati a porta.
[Fim POV ]

[POV ]
Fiquei “assustado” com a reação da minha irmã, ela nunca falou daquele jeito com ninguém. O pior de tudo era que a ficou magoada.

- , não leva a sério o que ela fez. – tentei melhorar a situação.
- Tudo bem, . A está irritada. Eu vou pra minha casa. Fala pra sua irmã me ligar se for preciso.
- Falo sim. Eu te levo até a porta.

Acompanhei a garota até a porta e voltei pro quarto. Fiquei pensando em várias coisas sem sentindo. Levantei-me e tentei ir pro quarto da , pra conversar com ela, mas estava trancado. Sempre que eu precisava ficar sozinho eu ia pro telhado da casa, lá era meu esconderijo, meu refúgio. Deitei-me sobre as telhas e fiquei observando o céu. Permaneci desse jeito o dia inteiro, só voltei para dentro quando já estava escuro. Passei pelo quarto da minha mãe, que estava dormindo. Então desci e fui assistir televisão. Depois de algum tempo, eu ouvi a porta do quarto abrindo e logo depois fechando novamente. O sono logo chegou, então subi. Vi que a porta do quarto da minha irmã estava meio aberta e a luz estava acesa. Entrei na esperança dela estar acordada. Ela estava adormecida abraçada ao travesseiro. Nem pensei direito e me sentei na cama. Coloquei sua cabeça sobre minhas pernas, apaguei a luz e comecei a acariciar seu cabelo pouco úmido de lágrimas. Após algum tempo, fechei meus olhos e não abri mais. Até o momento que fui acordado pelo grito de desespero que minha irmã dava.

- Calma , eu estou aqui com você. – eu disse após abraçá-la
- , aquelas fotos pegando fogo, nossos rostos distorcidos. Era tudo tão assustador e depois você foi embora, me deixando sozinha no escuro. – ela chorava com a cabeça apoiada em meu peito.
- Fica calma. Foi só um pesadelo, só isso. Eu nunca vou te deixar sozinha. Agora dorme, precisamos acordar cedo pra ir pra escola. Eu vou pro meu quarto.
- Não, fica aqui comigo. Dorme aqui, só assim posso ficar tranqüila.
- Ok, eu durmo aqui. – ela se deitou de novo com a cabeça nas minhas pernas e adormeceu, logo depois adormeci também.
[Fim POV ]

[POV ]
Ouvi meu despertador tocar. Abri meus olhos, que ardiam de tanto chorar, e vi o sentado na minha cama, dormindo de mau jeito. Parecia estar desconfortável. Levantei o mais devagar possível para não acordá-lo, mas não foi o suficiente. Ele despertou logo que fiquei de pé.

- Bom dia, . – disse se espreguiçando.
- Bom dia, . Eu vou tomar um banho antes de ir pra escola.

Dei-lhe um beijo no rosto e fui pro banheiro. Tomei um banho até que rápido e voltei pro quarto enrolada na toalha. Meu irmão ainda estava deitado em minha cama, porém não dormia. Ele deixou o local logo que eu entrei. Coloquei o uniforme de calça azul marinho e blusa branca com um detalhe em amarelo nos ombros. Desci para tomar café e, quando terminei, subi novamente para escovar os dentes e me maquiar.
O já me esperava na sala. Fomos pra escola do mesmo jeito de sempre, a pé. Não demoramos muito para chegar. Entramos na escola e cada um foi pra sua aula. Entrei na sala e vi a sentada no mesmo lugar de sempre. Fui até o fundo da sala e me sentei na cadeira do lado. Ela não olhou pra mim. Parecia estar realmente magoada com o ocorrido do dia anterior.

- , me desculpa por ter sido grossa com você?
- Está tudo bem, . – sem olhar pra mim.
- Não está tudo bem. Você está chateada comigo. Foi sem querer. – esperei a resposta dela em vão – , fala comigo.
- Você venceu, está desculpada. – dessa vez ela olhou pra mim – Me diga, você resolveu as coisas com a sua mãe?
- Resolvi nada. Depois da briga eu me tranquei no quarto. Só fiz contato com o mundo exterior quando o entrou no quarto e dormiu comigo. – rimos juntas.
- Ui, você dormiu com o seu irmão gostoso? – ela falou com um tom de malicia.
- Eu te dei o direito de achar meu irmão gostoso? – eu falei séria.
- Desculpa, esqueci que você é ciumenta.
- É, da próxima vez eu vou esquecer de não te bater.
- Nossa, que violenta.

O professor entrou na sala, nos mandou ficar quietas e começou a passar matéria na lousa. As aulas passaram rápido. Quando me dei conta já estava sentada no banco do pátio com a , meu irmão, o , a Laryssa e o . Ficamos conversando até o sinal bater. Subimos para as salas novamente. As últimas aulas demoraram uma eternidade e meia para acabarem. E quando bateu o ultimo sinal eu desci voando. Esperei o no fim da escada. Ele desceu junto com o . Despedimo-nos de todos e voltamos pro nosso lar-doce-lar. Entramos em casa e demos de cara com a nossa mãe sentada no sofá com a mesma pasta preta nas mãos. Logo me lembrei do pesadelo que tive e fiquei desesperada.

- Sentem-se. Eu preciso conversar com vocês dois. – não falamos nada e sentamos um do lado do outro, segurei na mão do meu irmão, como se aquilo me desse forças.
- Mão, o que aconteceu? – ele perguntou preocupado.
- Bem, eu achei que ia conseguir manter essa mentira pro resto da vida, mas eu estava errada.
- Pára de enrolar. Dá pra senhora falar logo? – eu a interrompi.
- Não sei se vocês já repararam que vocês não são parecidos fisicamente. E devem se perguntar o porquê disso. – comecei a ficar com medo das próximas palavras. Eu apertava a mão do cada vez mais forte – Eu não sei nem como vou falar isso, mas tem que ser dito. Vocês não são irmãos de sangue – só com essas palavras todas as minhas duvidas tiveram resposta – Filha, sinto muito. Eu não queria que fosse assim – começou a chorar – , você não é minha filha. – aquilo foi como uma facada no meu coração.
- Eu sou adotada? – eu perguntei esperando que a resposta fosse “não”.
- Sim filha, você é adotada.
- Eu não sou uma ? – gritei totalmente atordoada e com raiva do que tinha escutado.
- , calma... – o tentava me acalmar.
- Calma é o caralho. Não é fácil ficar sabendo que minha vida inteira foi um farsa, uma mentira. Se eu não sou uma , então qual é o meu nome de verdade? – ninguém me respondeu – Me responde, mãe. Ou devo dizer Sandra? – não conseguia parar de gritar.
- Você é uma – ela disse assustada com a minha reação.
- ? Esse é meu sobrenome? Quer saber o que eu acho desse sobrenome? Que é uma merda, um sobrenome de merda.
- Filha, fica calma. Eu sei que é difícil...
- Não me chama de filha. Eu não sou sua filha.
- , não fala assim com a nossa mãe.
- Nossa mãe vírgula. SUA mãe.

Eu não consegui segurar o choro, as lágrimas já rolavam livremente pela minha face. Sem muito pensar, sai correndo em direção a porta.

- Aonde você vai? – os dois perguntaram juntos.
- Falar com alguém que não mente pra mim, bem diferente de você, Dona Sandra. – sai correndo pela rua.

Eu não tenho certeza de mais nada nessa vida, só de que eu não sou uma .
Não era só um sobrenome, era a minha certeza, a minha família, o MEU TUDO. É estranho saber que tudo isso era em vão, tudo isso era mentira. Eu fui enganada a vida inteira, pela pessoa que eu mais amei no mundo. Como pode isso? Passar anos e anos sem saber o meu começo, e a partir de agora, sem saber o meu fim. Eu precisava desabafar pra alguém sincero o suficiente comigo, a única pessoa que nunca precisou interpretar do meu lado, a ÚNICA!
Ainda correndo, cheguei ao prédio da e logo subi, afinal éramos tão unidas que nem precisava me identificar na portaria. Apertei a campainha ainda com o coração acelerado. Ela então abriu e sem pensar entrei. Em um ato de desespero a abracei forte, sem querer soltá-la, ela sem entender nada me consolava.

- Calma . Me conta, o que aconteceu? - sentei no sofá.
- Você não vai acreditar . Era tudo uma grande mentira – não conseguia conter as lágrimas que corriam uma seguida da outra.
- O que era uma grande mentira, , O QUE?
- Eu nunca fui uma , eu fui enganada a vida inteira pela pessoa que eu achava que era a minha mãe.
- Ela deve ter tido um bom motivo pra isso, . Sua mãe nunca faria nada pra te prejudicar.
- É , mas todo esse cuidado acabou dando nisso. Eu não tenho mais certeza nem do que eu sou. Eu nem me conheço.
- O que importa é que ela te ama , é amor de mãe. Ela te criou, ela te ensinou tudo o que você é hoje. Não é justo fazer isso com ela, não é justo tanta raiva com alguém que tanto te amou.
- Mais também não foi justo me enganar tanto tempo, . Eu passei a vida toda acreditando de que era a minha família, e assim, da noite para o dia, descubro que nunca foi e nunca será.
- Eles são sim a sua família, .
- Não são. Eu sou uma . – ela fez uma cara espantada pelo fato de receber a noticia assim - É isso mesmo que você ouviu. Mas de que adianta saber meu nome se tenho nem idéia de onde minha família esteja?
- Sua família é o e a Tia Sandra, e eles estão na Rua Avanhandava, 85. E você tem que ir até lá conversar direito com a sua mãe.
- Em primeiro lugar, ela não é minha mãe, ela é uma mulher que me achou e ficou com pena de mim. E em segundo lugar, eu não vou voltar pra lá hoje.
- E onde você vai passar a noite?
- Não sei. Eu estava pensando em dormir aqui.
- Não, , você vai voltar pra sua casa, que é o seu lugar.
- Tudo bem, você não deixa eu dormir aqui, não tem problema, eu passo a noite na rua. Tchau . – fui em direção a porta.
- espera. Pode dormir aqui. – eu a abracei e agradeci – Mas tem uma condição.
- Qual é a condição, ?
- Amanhã você vai pra sua casa direto da escola, e vai resolver as coisas com a... – eu a olhei com cara feia, já que sabia que iria falar a palavra “mãe” – com a tia Sandra.
[Fim POV ]

[POV ]
Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo naquele momento, eu só sabia que não era a minha irmã. E NINGUÉM faz idéia do quanto isso é difícil pra mim.
Fiquei abraçado a minha mãe por alguns segundos, tentando consolá-la. E quando ela resolveu se deitar, eu fui até a cozinha, e abri a geladeira, mas perdi o apetite quando vi algumas fotos minhas quando criança, abraçado com a , coladas com imãs na porta. Fui ao quarto, liguei o som, e deitei na cama olhando para o teto. Meu coração estava apertado, eu não podia negar, eu não sei viver sem ela.
Coloquei um casaco e nem ao menos tirei o uniforme. Sai de casa desesperado, e fui direto em direção à casa da .
Eu sabia que ela estava lá, meu coração me dava certeza disso. Anunciei-me na portaria e subi. A abriu a porta, e sem a cumprimentar eu fui entrando.

- Calma ! A está dormindo.

Entrei no quarto tentando não fazer barulho, e a vi deitada na cama de casal dos pais da , abraçada com um ursinho, como ela sempre fazia desde pequena. Aproximei-me e percebi algumas lágrimas que já haviam seco no seu rosto.

- Vem aqui pra sala. – a me chamou. Sentei no sofá e ela me deu um copo d’água - Você tem que relaxar. A está bem aqui.
- , eu não quero perdê-la.
- Mas você não perdeu. você sabe que você é ÚNICO na vida da alia. Ela te ama mais do que qualquer coisa, e o carinho, o amor e o afeto que ela tem por você, não vai e não pode morrer assim.

Fiquei sentado com os olhos vermelhos de tanto chorar, pensando no que a havia acabado de me falar, mas não sei se posso acreditar que tudo que eu e vivemos, vai continuar vivo dentro dela. Acho que o que ela menos quer é me ver agora. Não sei se consigo compreendê-la, mas não posso contrariá-la.
Agradeci a , e fui para casa. Chegando, vi tudo normal, como quando eu sai, mas algo parecia diferente. Ela não estava lá. Abri a porta de seu quarto e fiquei por lá, observando cada móvel e cada espaço que me fazia lembrar mais e mais dela. Adormeci em sua cama, abraçada com o Raffa, seu ursinho que sempre a acompanhava nas noites de sono.
Levantei da cama. Quando me dei conta já estava dentro da escola. Subi um lance de escada e fui até a sala do 2º ano ver a minha irmã. Parei do lado da porta, o professor já estava fazendo a chamada e antes que eu pudesse interromper, chegou à vez da .

- . – o professor chamou em alto e bom som. Ouvir aquilo me deixou deprimido, não consegui me conter e comecei a derramar lágrimas.
- Presente. – como ela pode responder por um nome que não era o dela?
- Você não é uma – invadi a sala – Fala que você é uma . Fala, por favor, eu preciso ouvir você dizendo isso. – eu falava aos prantos.
- Desculpa , mas eu não posso fazer nada. Eu SOU uma – aquilo me chocou, fazendo com que eu me sentasse na cama rapidamente.
- Calma , tudo não passou de um pesadelo. A sua irmã nunca diria isso – eu falava pra mim mesmo enquanto passava a mão no rosto.

Fiquei ali sentado por algum tempo. Por que tudo tinha que acontecer justo comigo? Qual era o problema da não ser a minha irmã biológica? Ela é a garota que eu mais amo na vida, sem ela do meu lado eu não sou feliz por completo.
Capítulo 2


[POV ]
Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho escandaloso do despertador que estava no criado-mudo. Olhei no relógio, e apesar de ser quase uma hora antes do que estou acostumada a acordar, me levantei e fui me arrumar para o colégio. Tomei um banho rápido, coloquei meu uniforme, desci pra cozinha e bebi um copo de leite. Subi, escovei meus dentes e peguei minha mochila. Antes de sair passei pelo quarto da minha mãe. Ela estava dormindo com uma foto recente da minha irmã. No “retrato” a estava linda com seu vestido de princesa vermelho na festa de 15 na qual eu fui o príncipe. Beijei a testa de minha mãe e fui pro colégio.
Cheguei ao prédio onde eu estudava. O portão tinha acabado de ser aberto, eu fui o primeiro aluno a chegar. Preferi ficar na rua, pra ter certeza de que eu iria ver a antes das aulas. Os minutos foram passando e os alunos foram aparecendo, mas ninguém que realmente fosse importante. Estava decidido a não sair dali até ver a minha irmã. Quando faltavam uns cinco minutos para bater o sinal eu vejo o descendo do carro. Meu coração acelerou de uma tal forma que eu fiquei ofegante. Eu estava pronto para sair correndo e abraçá-la logo que seus pés tocassem a calçada. Porém, minhas esperanças fora embora com o carro que partiu sem deixar mais ninguém além do meu amigo. Fui em direção a ele querendo saber por que ele estava sozinho.

- cadê a ?
- Ela está em casa. A e ela vão vim na segunda aula. – ele dizia enquanto caminhávamos até a sala. – Elas vão vim pra escola, fica tranqüilo. – ele falou após alguém tempo em silencio.
- Gee, me fala... – fui interrompido pelo sinal e saímos correndo. Entramos na classe e sentamos um ao lado do outro lá no fundo.
- O que você queria que eu te falasse?
- Aé, como ela está?
- Pelo o que a me disse... – a professora entrou na sala.
- Bom dia terceiro ano. Vamos começar a aula.
Paramos de falar. Abrimos o caderno e nos preparamos para copiar matéria.
[Fim POV ]

[POV ]
Fui despertando aos poucos, e a cada momento reparava que eu não estava em casa, e que minha vida se transformara em pesadelo. Peguei o travesseiro, que antes eu apoiava a minha cabeça, e coloquei no rosto para abafar o grito que estava em minha garganta.

- Eu odeio minha vida. – gritei.

Mas será que eu odeio mesmo? Se eu odiasse de verdade eu odiaria minha infância, todos os momentos felizes que passei, e principalmente, odiaria o . Mas como odiar o que se ama? Porém, não posso amar mentiras.

- Bom dia, . – a interrompeu minha linha pensativa.
- Só se for pra você. – disse após tirar o que tampava meu rosto – Fala que tudo o que ateceu ontem não passou da minha imaginação. – pedi já sabendo que a resposta não me agradaria.
- Gostaria de dizer isso, mas não. Não foi sua imaginação. – ela falou sentando-se aos pés da cama – Ah, e espero que não se importe do ter te carregado no colo até o meu quarto.
- Não me importo.
- Bom, pelo o que eu me lembro, nós temos um acordo, e minha parte eu cumpri. Deixei você dormir aqui, agora é a sua vez.
- ‘Tá bom. Eu vou me arrumar pra ir pra escola, mas não estamos atrasadas?
- Não para a segunda aula.

Levantei-me da cama e comecei a trocar o pijama que a me emprestou pelo meu uniforme, sem a mínima vontade. Na minha cabeça só se repetia o nome ‘’. Eu não estava pronta para vê-lo como um amigo e não como um irmão, e o fato de depois da escola eu teria que ir para ‘casa’ não ajudava em nada. Logo eu estava pronta para ir pra escola com a . Saímos da casa dela e começamos a caminhar.
Eu estava tão desligada que nem percebi o tempo que demoramos em chegar. Ficamos no pátio até bater o sinal do inicio da segunda aula, então subimos para nossa sala e entramos na troca de professores. Sentamos em nossos lugares de sempre. O professor de química logo começou a primeira das duas aulas. Os cem minutos de aula demoraram a passar. O sinal bateu seguido pelo barulho das pessoas saindo das salas. O momento de encarar o estava bem próximo, meu coração disparou ao ver a imagem dele passado direto pela porta da minha classe.

- Vamos descer? – a perguntou já de pé na minha frente.
- Não, . Eu vou ficar por aqui, não tenho fome.
- Você tem que falar com seu irmão.
- Se ele quiser falar comigo ele que me procure. Eu não vou correr atrás. – abri minha mochila e peguei um livro e comecei a ler.
- Você quem sabe. – virou-se e foi em direção à porta, me deixando sozinha.
[Fim POV ]

[POV ]
O sinal tinha disparado, nos avisando que o intervalo chegou. Nem esperei ninguém e eu saí correndo da sala. Desci para o pátio e esperei por ela ali, no final da escada. Vejo a imagem de descendo as escadas, mas a pessoa que eu queria não estava junto. Fiquei aflito, e se ela não tivesse ido pra escola?
A passou ao meu lado, sem perceber minha presença. Sai correndo atrás dela, e quando alcancei, segurei seu braço.

- , cadê a ?
- Bom dia, . Eu estou ótima, obrigado por perguntar. – ela parecia irritada.
- Eu estou falando sério. Onde ela está?
- Na sala. Disse que se você quisesse falar com ela que a procurasse.
- Valeu pela resposta. – soltei seu braço.

Subi os lances de escadas o mais rápido que eu seguia. Cheguei ofegante, ao corredor. Passei sem dar atenção por todas as salas, até que parei na frente da classe onde ela estava. A porta estava aberta e a luz acesa. estava sentada em uma das últimas cadeiras, com os pés apoiados na da frente, e lia um livro que o título não é importante. Meu coração disparou sem que eu pudesse trolar, minhas mãos estavam suadas e a adrenalina invadiu meu corpo. Por que eu estava tão nervoso?
Adentrei lentamente, o mais silencioso possível. Parei logo nas primeiras fileiras e fiquei a observando.

- Acho que precisamos versar. – minha voz saiu um pouco abafada, tirando a centração dela – Por que não voltou pra casa? – aproximei-me dela e sentei na cadeira ao seu lado.
- Pra que voltar para um lugar onde só mentem pra mim?
- Você está generalizando. Eu nunca menti pra você, e se não se lembra, eu vivia essa farsa com você.
- Mas que grande coisa. Não faz diferença pra você. Você ainda tem a sua mãe.
- Quem disse que não faz diferença? – eu olhava no fundo dos seus olhos – Você acha que está sendo fácil pra mim? Foi um choque pra mim também.
- Eu não queria que isso estivesse atecendo. – algumas lágrimas rolaram no rosto dela.
- Eu também não queria, não mesmo. – sem pensar muito, eu a abracei bem forte.
- Precisava tanto desse abraço, você não faz idéia. – ela disse e eu sorri.

Ficamos abraçados em silêncio. Não precisávamos de palavras, só de estarmos juntos estava tudo bem.

- Como vão ser as coisas daqui pra frente? – perguntei sem soltá-la.
- Eu vou procurar meus pais biológicos. Só que eu vou precisar de ajuda, e a sua ajuda é a mais importante. – eu estava disposto a ajudar.
- Claro que eu ajudo. Tudo pra ver minha irmãzinha feliz.
- , não me chama mais de irmãzinha. Isso machuca. – ela soltou-se dos meus braços e encarou o chão.
- Se você quiser assim. – segurei de leve em seu queixo e levantei seu rosto – E o que você vai fazer quando os entrar?
- Ainda não tenho certeza. Se eles me quiserem de volta, eu acho justo ir morar com eles. – eu não queria que ela fosse embora.
- Então você vai me abandonar?
- Não vou te abandonar, só vou me mudar. Ainda nos veremos na escola, isso se eu tinuar matriculada aqui. – ficamos em silencio – ‘Tá, eu não quero ficar pensando muito nessas coisas, já tenho a versa com a Sandra pra me preocupar.
- Você vai voltar pra casa?
- Se sua mãe quiser... – era estranho ouvi-la dizer ‘sua mãe’
- Eu a faço querer. – sorrimos.

Ficamos sorrindo como idiotas por um tempo. Era estranho tudo aquilo. Eu e a , irmãos até o dia anterior, agora somos apenas amigos. O sinal mais uma vez bateu, dando a ordem para voltarmos para a sala.

- Bom, eu vou pra minha aula. – beijei seu rosto e me levantei.

Tropecei em algumas carteiras até chegar à porta. Apoiei minha mão no batente e olhei para trás. Ela estava sentada me olhando, com um sorriso sincero na face. Sorri também e deixei a sala, mas antes que eu pudesse começar a caminhar, ouço ela me chamar.

- ! – gritou de dentro da sala e eu voltei.
- Fala. – disse da porta.
- Eu te amo. – meu sorriso alargou-se involuntariamente.
- Eu também te amo pequena. – mandei um beijo pra ela e fui, lentamente, para minha sala.
[Fim POV ]

[POV ]
Eu estava totalmente enganada. Eu achando que o iria discutir comigo e se recusar a me ajudar, mas pelo trário, foi o mais doce que uma pessoa pode ser.
Depois que ele deixou minha sala, eu fiquei imóvel, só sorrindo. Talvez um sorriso bobo, porém feliz. As pessoas foram chegando aos poucos, e com elas a minha amiga. sentou-se ao meu lado e ficou me olhando até resolver falar alguma coisa.

- Tudo bem que se eu estivesse no seu lugar eu não estaria sorrindo, mas fico feliz de te ver assim.
- É eu também estou feliz por estar sorrindo.
- Vejo que a versa com o te fez bem.
- Muito mais do que bem. Ele até cordou em me ajudar a procurar meus pais biológicos.
- E você tem esperanças de entrá-los? – ela parecia não botar fé.
- Um pouco, mas o bastante para tentar. Você vai me ajudar, certo?
- ‘Tá bom, eu te ajudo. – soltei um grito animado e a abracei – Agora me solta que você está me apertando.
- Fresca.

As três aulas seguintes não passaram rápido, mas também não demoraram tanto. Um pouco antes de bater o sinal, peguei meu celular e mandei uma mensagem pro ‘Me espera pra ir embora’. A professora resolveu nos segura uns cinco minutos além do horário. Quando fomos liberados, sai apressada. Meu irmão, digo, meu novo amigo me esperava ao pé da escada, sorri ao vê-lo ali parado. Nós dois nos despedimos de nossos amigos e colegas e fomos andando até nossa casa, se é que eu ainda posso assim dizer. Seguimos em silêncio. Já estava acostumada com o caminho, então não senti o cansaço e nem o tempo passando. Chegamos. Fiquei parada na frente do portão, esperando o abrir. Ele entrou primeiro, e eu segui atrás. Ele passou sozinho pela porta da sala, pude ouvir a Sandra dar boa tarde. Fiquei ali fora por alguns segundos, respirei fundo, como se aquilo fosse me dar coragem, e entrei. Minha ‘ex-mãe’, ao me ver, veio de braços abertos em minha direção. Recebi um abraço apertado, como nunca havia recebido antes, fortei-me em seus braços. Algumas lágrimas escaparam de meus olhos e escorreram pelo meu rosto. Alguns momentos depois, senti mais dois braços me envolverem. Tinha certeza de que era juntando-se ao abraço. Senti-me completa repentinamente, mas não era algo que fosse real totalmente. Aos poucos fui me soltando do abraço. Sequei as lágrimas que a Sandra ainda deixava escorrer e pedi, delicadamente, para ela parar de chorar. Ela sorriu, e seguiu arrancar-me um sorriso sincero. Pedi para ela e o sentarem-se. Precisávamos versar.

- Filha, eu não queria que fosse dessa maneira, de verdade. Eu errei, eu sei que errei. Eu devia ter te tado isso bem antes. – ela explicava-se. Eu queria falar, mas não tive coragem de interrompê-la - Perdoa-me por fazer você passar por tudo isso? E você também , imagino que não deve estar sendo fácil pra você.
- Não, não está sendo fácil. Mas eu te perdôo.
- Eu também de perdôo.
- Que bom, meus filhos. – sua voz era trêmula, talvez porque estivesse com vontade de chorar – Eu fico realmente feliz, é como se tirasse uma pedra enorme das costas.
- Mas tem outra coisa que eu quero falar – tinuei – Eu quero entrar meus pais biológicos.
- Mas filha... – eu pressentia que viria uma espécie de sermão.
- Mas nada. Eu tenho esse direito. Por mais que eles tenham me rejeitado, eu sinto que é a coisa certa a se fazer.
- E eu dou toda força. – disse olhando em meus olhos.
- Tudo bem. Você já tem idade o suficiente pra julgar o que é certo e errado, e como sei que você não vai mudar de idéia, a única coisa que tenho a fazer é te ajudar e rezar para que você não se magoe de alguma forma.
- E é isso que eu quero – tinuei –, eu preciso da sua ajuda. Você é a única pista que eu tenho.
- Então eu sou a pista que possui mais pistas. – ela levantou-se – Eu já volto.

Sandra subiu para o andar superior e logo ouvi a porta do quarto, provavelmente dela, fechando-se. O ao meu lado parecia estar uma tanto intrigado, assim como eu. Ainda estávamos de mãos dadas, era incrível como aquele simples ato me dava forças. Olhei para o lado, e vê-lo ali comigo fez um sorriso surgir em meus lábios. Ele estava diferente, eu não sabia exatamente o que era. Seu cabelo bagunçadamente arrumado, seus olhos expressivos, sua boca, tudo nele me trazia um sentimento bom. Encarei nossas mãos. Sem que eu esperasse, seu perfume invadiu meus pulmões, nunca havia reparado no tanto que ele é cheiroso. Pude ouvir sua voz ao longe chamando toda a minha atenção.

- , sei que você não vai gostar da idéia, mas tente chamá-la de mãe. Acho que é o mínimo, ela está disposta a te ajudar. E outra, ela vai ficar feliz. – ele olhava no fundo de meus olhos e sua voz era calma.
- Se você acha isso importante, por que não fazê-lo? – dei um sorriso fraco, mostrando que eu compreendia.

Ficamos em silencio a partir de então, o suficiente para ouvir a mesma porta de antes se abrindo e fechando. Sandra apareceu ao pé da escada trazendo uma pilha de papel nas mãos e o álbum de fotos que dera inicio a toda essa situação que passávamos. Ela sentou-se no sofá e começou a folhear a pilha que tinha nas mãos.

- Acho que isso pode te ajudar em alguma coisa. – me estendeu um papel e eu o peguei – Essa é sua certidão de nascimento. Como sta ai, eu não sou sua mãe perante a lei. Quando eu te recebi para eu criar, você já era registrada e tinha quase onze meses de vida.

, de sexo feminino, nascida no dia onze de junho de mil novecentos e noventa e três (11/06/1993), as oito e trinta e sete (08h37minh). Filha de Elena e Antonio . ’ Estava tudo ali naquela folha, o começo da minha história.

- Elena e Antonio, esses são os meus pais. Você os hece?
- Só heço a Elena. Nós trabalhávamos juntas. Ela tinha já uma filha de um ano quando ficou grávida de você. Ela diz que não foi planejado que apenas ateceu. – então começou a me tar sobre eu mesma - A gravidez parecia ser turbada por brigas entre ela e o marido, nunca esqueci as brigas que eles tinham por telefone, o escritório inteiro parava para ouvi-la gritando. Ele queria que a Elena abortasse, mas ela se recusava. Para não ficar em casa, com risco de ser agredida, ela recusou a licença maternidade. Quando estava com oito meses, no meio do escritório, começou a ter trações e a bolsa estourou. Eu fui a única que tive coragem de ajudá-la. A ambulância foi buscá-la e levou-a para o hospital. – minha mãe de criação não suportou a emoção e começou a chorar.
- Mãe, se você quiser parar eu não me importo.
- Não, eu tenho que tinuar – tinuou – A empresa obrigou-lhe a tirar a licença ou então a demitiriam. Elena não teve escolha, não podia perder aquele emprego. Os seis meses se passaram e eu sem notícias dela. Até que um dia ela voltou, dizendo que você era uma menina linda. Fiquei realmente feliz por ela. Mais cinco meses se passaram, e então ela chegou chorando ao serviço. Eu perguntei o que havia atecido, e entre lágrimas desesperadas ela me tou. Seu pai a agredia por você ter nascido, e ameaçava te matar. Ela sempre te defendeu e suportou com muita garra, mas já havia tomado uma decisão. Como você já era amamentada por mamadeiras ela te entregaria para um orfanato. Ouvir aquilo me apertou o coração, era insuportável, e me comoveu. Eu estava disposta a te criar como se você minha filha. Era meu sonho ter uma menina, mas fui impedida após ter você, – falou ao meu irmão -, eu fiquei infértil. E então no dia seguinte ela trouxe você pra mim. Você era tão frágil. Peguei-te nas mãos e você abriu um sorrisinho que se eu fechar os olhos lembro-me perfeitamente. Com você ela me entregou esse álbum para o caso você quisesse saber quem era ela. Ele já estava começado com algumas fotos dela com você nos braços. Ela despediu-se de você e foi embora. No dia seguinte fui para o escritório e ela não apareceu, nunca mais apareceu. O resto da história você deve imaginar. – quando ela finalizou, eu e o também chorávamos.
- Mãe, não chora. Está tudo bem, agora eu te entendo perfeitamente. Você só queria o meu bem, e o bem do . – eu falava enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Ajoelhei-me em sua frente, finalmente larguei a mão do , e sequei suas lágrimas. Eu abracei-a com força, eu precisava daquilo naquele momento. Ouvir toda a minha história me abalou, mas não podia transparecer não na frente da minha mãe.

- Por favor, parem de chorar. Nós somos felizes juntos, não somos? Então pra que chorar? – sua fala não teve muito significado, já que ele também chorava.
- Sim, meu filho. Somos felizes. – eu apenas cordei com a cabeça.
- Mãe, obrigado por ter me acolhido. Se não fosse você, eu seria jogada em um orfanato qualquer.
- Eu só fiz o que achei certo, e o que meu coração me mandava fazer. – dessa vez, foi ela quem secou as minhas lágrimas.
- Mãe, eu te amo!
- Eu também te amo.
- E eu amo vocês duas. – o disse da maneira mais carinhosa possível e imaginável.
- Meus filhos amados, eu vou ter que voltar para o trabalho. Desculpem-me por acabar com esse momento.
- Tudo bem. – eu e meu irmão de criação dissemos juntos. Nós dois somos estranhamente ectados.
- Tem comida na geladeira se vocês tiverem fome. – beijou nossas testas com todo amor – Eu volto no horário de sempre. Ah, e estejam arrumados quando eu chegar, vou levá-los pra jantar em um restaurante. – pegou sua bolsa e saiu pela porta da sala.

Nós dois, que sobramos no sofá, ficamos sem dizer mais nada. Eu estava me sentindo estranha em estar sozinha com ele no mesmo ambiente, coisa que nunca ateceu. Para distrair meus pensamentos, e não demonstrar o meu estado, peguei novamente minha certidão nas mãos e reli todas as informações que ali estavam.
. Demoraria em me acostumar com aquele sobrenome. Pior, demoraria em me acostumar em ter outra família, e ter alguém como irmão que não era o . Como seria daqui pra frente? Como eu começaria a procurar meus pais biológicos?
Foi então que me liguei que uma das pessoas mais interessadas nessa história ainda não sabia das novidades. Levantei-me do sofá e subi correndo para o meu quarto, sem nem ao menos dar satisfações. Cheguei ao quarto, joguei-me na cama e disquei o número que eu já muito hecia. Minha amiga atendeu logo. Nem perguntei como ela estava já soltei todas as novas informações.

- Espera, deixa-me ver se entendi. Sua mãe biológica te deu para a tia Sandra por que o homem, que você pode chamar de pai, queria te matar? – ela estava um tanto possessa com esse fato em especial.
- Não sei ao certo. Eu entendi a mesma coisa que você.
- Vamos pensar pelo lado positivo, se a tia não tivesse te acolhido, você não teria uma família que te ama. – e seus pensamentos positivistas – E claro, se você entrá-lo, ele não poderá mais te machucar, já que você é grandinha o bastante para saber defender-se sozinha.
- Esse é o problema. – esbracejei ao telefone.
- O que, você se defender sozinha? – eu que sou difícil de entender, ou ela que não entende as coisas?
- Claro que não. O problema é eu achar a ele e minha mãe. – soltei um suspiro insolável – Eu não sei nem por onde começar.
- Tenta ir ao cartório onde a certidão foi tirada, talvez você siga alguma coisa. Ou tenta jogar no Google, é uma boa opção.
- Vou ignorar a segunda idéia. Em relação à primeira, acho que é uma boa. Vou falar com o , e talvez eu vá amanha depois da escola. – só de pronunciar todas as letras de seu nome uma tranqüilidade invadiu meu peito. – Aliás, vou desligar. Preciso versar com ele.
- Tchau então. Até amanha na escola.

Desliguei o telefone. Corri escada abaixo em direção a sala. Afinal, por que eu estava correndo? Eu estava com pressa para o que? Diminui a velocidade ao chegar aos últimos degraus. Meu irmão apenas levantou os olhos e observou-me. Eu, por minha vez, retribui com um sorriso acanhado e aproximei do sofá onde ele estava desde quando eu subi. Sentei-me ao seu lado, e sem perguntar eu apoiei a cabeça em suas pernas, assim deitando no estofado. Fechei os olhos para aproveitar todos os toques de sua mão em meu cabelo e em meu rosto, seus dedos delineavam minha face. Um arrepio percorreu minha espinha, foi uma sensação nova para mim, nunca havia sentido algo parecido. Abri os olhos e o encarei. Seu olhar tinha um brilho diferente, era hipnotizante e viciante. abaixou o rosto em minha direção, por um momento pensei que ele iria selar meus lábios, mas ao invés disso beijou minha testa.
O que se passava ali estava no melhor e perfeito clima, porém minha boca estragou tudo. Sem a minha permissão.

- , - minha voz saiu falha e num tom baixo – Você vai comigo ao cartório amanha depois da escola?
- Você já quer começar com essa busca? – pude sentir um toque de desapontamento nas palavras por ele dita.
- Eu preciso começar logo. Quanto mais rápido eu começar, mais rápido eu acabo com toda essa fusão.
- Então se é assim. Eu vou com você.
- Obrigado. – sorri.

Aconcheguei-me melhor em seu colo. Fechei as pálpebras novamente, somente para descansá-las, pelo menos esse era o meu objetivo. Tudo foi ficando mais escuro, minha respiração ficou mais branda e já não ouvia nada. Rendi ao sono que me atacava.




Nota da autora: Será que alguém chorou nesse capítulo? Confesso que eu chorei escrevendo. E querem saber outra coisa que fez eu chorar? Ler os comentários aqui, sério. É maravilhoso ver que as coisas que você faz com o maior carinho têm o reconhecimento e agrada as pessoas. E vou responder cada um logo menos... Vamos falar da fic um pouquinho. O que acharam da idéia da fic? Porque eu nunca tinha visto uma história onde o favorito é seu irmão e depois descobre que é adotada e mimimi. Não tenho mais o que falar, acho. Ah.... agradeçam também a Carol que tá betando isso aqui *-* Valeeeeeuu Carol *o*. E quem quiser me seguir no twitter é : @blackslammer. Begs begs

Danielle: Seu comentário foi o primeiro, então será o primeiro a ser respondido kkk Que bom que está amando por enquanto, espero que continue amando, e ame muito mais.
Meise: Comente sempre sim, é isso que dá vontade pra continuar a fic. E sério mesmo que você chorou? Que coisa mais foufinhaaaa
Crys: Relaxa, neném. Quando eu leio fic do McFly eu também invento os nomes, ou então coloco os do nx mesmo. Coitado do Fi sempre fica de fora. KOAKSPOAKS
Clarissa: To continuando, neném kkk E nem ta tão perfeita assim. kkk
Racuia, @___whoa, Ana Passaretti:: minhas lindaaaas. Valeu por acompanharem por aqui também, mesmo mesmo. Fiquei MUITO feliz quando vi o comentário de vocês aqui. Sz’
N/b: Ahhh Nath, nem precisa agradecer... estou aaamaaando betar sua fic pq ela é linda demais! *O*
Posha, me emocionei demais com esse capítulo, sério!!
Então gelerê, geraaaal comentando ai hein?
E qualquer erro, por favor: cah.teague@gmail.com