Passos escuros
Por:Nath Cordeiro
Beta-Reader:Carol Silver



Eu mudei por você Mas não quis sofrer Por ser tão leal pra mim Vou, aprendo a viver. E num segundo perder O medo de ser quem eu sou Ser quem eu sou Que a vida me leve afinal Não tenho mais medo de errar E aprender com os meus passos escuros. Passos escuros – Hevo84

Capítulo 1


Me chamo e podemos dizer que eu tinha uma vida normal, com uma família comum. Quando criança eu e meu irmão estávamos sempre juntos e isso fez com que na adolescência fossemos super unidos, melhores amigos, apesar de um ano de diferença.
Acordei na manhã de um sábado que eu achava que seria como os outros. Minha mãe estava na sala sentada no sofá, com um livro em seu colo. Sentei-me ao lado dela e enxuguei as lágrimas que escorriam de seus olhos. Percebi que o livro era um álbum de fotos que não era aquele que eu sempre costumava ver. Ele tinha fotos que eu nunca tinha visto na vida. A maioria das fotos eram minhas. Em algumas eu estava nos braços de outra mulher e outras eram minhas com o meu irmão.

- Mãe, onde estava esse álbum? – perguntei enquanto folheava as fotos – Eu não sabia que ele existia.
- Eu achei no armário. Agora me dá ele aqui. Esquece desse álbum, esquece as fotos que você viu – tirando o “livro” das minhas mãos.
- Ixi Dona Sandra, o que aconteceu? São só fotos.
- Não importa. Esquece que elas existem – ainda chorando – agora vai acordar seu irmão.
Não respondi, apenas subi lentamente para o segundo andar. Fiquei perturbada ao ver aquelas fotos, eram parte do meu passado que eu desconhecia. Sempre achei estranho minha mãe nunca ter mostrado fotos de quando éramos criança. Espantei meus pensamentos e bati na porta do quarto em que meu irmão dormia. Adentrei no local escuro e sentei na cama.
- , a mamãe mandou vim acordar você. – passando as mãos em seus cabelos.
- Me deixa dormindo aqui, por favor, maninha. – com a voz totalmente rouca.
- Ninguém mandou você ficar até tarde no computador.
- Tudo bem, eu acordo. Bom dia, . – ele se levantou e beijou a minha testa. - Vai se trocar e desce. Eu vou pro meu quarto.
Saí do quarto dele e fui pro meu. Liguei o computador e nada de muito novo e interessante me surpreendeu. Sentei na cama, e fiquei observando atentamente a todas as fotografias que estavam colocadas no meu mural das recordações e encontrei com os meus olhos uma foto em que eu estava brincando de mangueira com o meu irmão, aquilo me chamou a atenção. Eu nunca havia parado pra reparar o quanto nós não éramos, e ainda não somos, parecidos fisicamente. Meus pensamentos voavam, até que foram atrapalhados pelo que entrou no quarto e sentou na cadeira, puxando-a para minha frente.
- Você está sonhando? - disse olhando firme nos meus olhos.
- Não, é que eu estava pensando em umas bobagens.
- Você sabe que até as suas bobagens eu gosto de escutar né?
- Mas isso não vai somar em nada na sua vida. Acho que você devia me escutar menos, eu só falo asneira.
- Mas eu gosto das suas asneiras, eu gosto tanto de ouvir sua voz.
- Ah, eu estava pensando em como a nossa infância foi maravilhosa – ficamos em sincio por algum tempo, eu me levantei e peguei a foto que eu estava observando – Lembra desse dia?
- Lembro. Estava muito calor e estávamos na casa da vovó. – ele disse pensativo - E ligamos a mangueira sem ninguém saber. – começamos a rir.
- Quer saber de uma coisa? – ele segurou as minhas mãos – Eu daria a minha alma pra voltar no tempo, e encarar tudo de novo em cada momento. – ele disse olhando em meus olhos e depois nos abraçamos.
- Eu não me imagino não sendo a sua irmã.
- O que eu seria sem você?
- Sinceramente? Não seria nada. – eu comecei a rir da minha modéstia – Agora vamos almoçar?
- Vamos, eu estou com fome. – beijou a minha testa e saiu correndo do meu quarto.
- Seu gordo – eu gritei enquanto deixava o quarto.

Entrei na cozinha sem falar nada. Encarei a minha mãe sem meu irmão perceber e me sentei à mesa.
[Fim POV ]

[POV ]

Assim que entrei no quarto da percebi que havia acontecido algo antes do meu despertar. Ela estava estranha, mas quando aquela garota quer esconder alguma coisa, ninguém descobre, nem eu que a conheço perfeitamente. O almoço foi bem quieto, nenhuma palavra foi dita. O único barulho que se ouvia era o dos talheres batendo nos pratos. Como em todos os dias, depois do almoço, minha mãe foi descansar e eu e a fomos lavar a louça. Então, durante o nosso “trabalho”, meu celular tocou.
- Vai lá atender, eu termino aqui.
- Valeu, maninha. – joguei um pouco de água no rosto dela e fui atender o celular – Alô?
- Fala . Beleza?
- Beleza e contigo, ? – voltei pra cozinha e me sentei em uma cadeira.
- Opa, belezão. Vai fazer alguma coisa hoje?
- Acho que não.
- Então vem pra cá, o está aqui.
- Daqui a pouco eu apareço por aí. – desliguei o celular.
- Você vai pra casa do ? – a minha irmã me perguntou secando as mãos.
- Vou sim, por quê?
- Porque você vai me esperar que eu vou junto. Preciso falar com a .
- Mas vai logo, eu estou saindo daqui a pouco.
- Relaxa, . Eu só vou me trocar.
Fui avisar a Dona Sandra que iríamos sair enquanto a foi trocar de roupa. Depois de quinze minutos estávamos a caminho da casa do . Como ele não mora longe, chegamos rápido. A tia Angelina, mãe do , abriu a porta para nós entrarmos. Na sala estavam a , irmã do , e o conversando em um sofá. No outro sofá estavam o e a namorada dele, Laryssa. Cumprimentamos a todos. A já foi puxando a e a Lary, acho que o assunto era bem importante. Eu sentei no lugar que antes era ocupado pela , e iniciei uma conversa qualquer com meus dois amigos.
[Fim POV ]

[POV ] Assustei-me quando a chegou já falando que precisava falar comigo e com a Lary. Como parecia importante eu fui sem hesitar. Entramos no meu quarto, eu me sentei na cama, ela na cadeira de frente para mim e a Lary sentou no chão. Minha amiga abriu a bolsa, tirou uma foto e me entregou.

- Quem são essas duas crianças fofas? – eu perguntei olhando para a foto, e passei pra Laryssa.
- Eu e o . – ela respondeu como se não estivesse feliz.
- Sério? Vocês não eram parecidos. – minha cunhada respondeu enquanto olhava a foto. - Não éramos e ainda não somos. Eu não lembro nem a minha mãe.
- Bem, isso é verdade. Quem parece a tia Sandra é o . Mas vai saber que você se parece com o seu pai?
- Pode ser, mas eu nunca vou saber. Não tenho fotos do meu pai e ele... – ela parou no meio da frase, porém eu sabia que ela se referia ao pai ter fugido com uma qualquer – , eu preciso da sua ajuda.
- Diga no que eu posso ajudar.
- Amanhã você vai pra minha casa e vai me ajudar a procurar um álbum de fotos que minha mãe não me deixou ver. Lary, não se sinta excluída. É só que, quanto menos pessoas envolvidas nisso, melhor.
- Beleza. Agora vamos com a galera antes que pensem que morremos. - respondeu

Voltamos pra sala e nos sentamos onde tinha lugar. Não fizemos nada de interessante, só assistimos a um filme. O foi o primeiro a ir embora. Depois foi a vez do e a . Olhei no relógio, já era quase onze horas, então eu dei boa noite pro meu irmão e minha cunhada, que ia dormir em casa, e fui pro meu quarto. Me deitei na cama e adormeci.
Acordei no dia seguinte já preparada para a busca ao álbum perdido. Troquei-me e comi alguma coisa antes de sair. Meus pais não estavam em casa, então deixei um bilhete avisando onde eu tinha ido.
[Fim POV ]

[POV ]
Não consegui dormir direito só pensando no álbum de fotos e onde ele estaria. Ninguém poderia saber que eu estava procurando por ele, nem o . Levantei da cama e tirei o pijama. Desci e vi minha mãe saindo. Estava tudo a meu favor, ela tinha saído e era cedo o bastante para o não estar acordado. Sentia-me um pouco enjoada e optei por não comer. Sentei-me no sofá e fiquei esperando a chegar.
Não demorou muito para a campainha tocar. Levantei-me e abri a porta pra minha amiga. Subimos e fomos pro quarto da minha mãe e começamos a procurar. Depois de quase uma hora, eu já estava quase desistindo, achando que ela havia jogado o maldito álbum com o meu passado no lixo.
- , eu achei alguma coisa. – a falou enquanto tentava tirar alguma coisa do armário.
- O que você achou? – fui para o lado dela.
- Um fundo falso na gaveta. – tirou e me mostrou uma tampa de madeira. Eu olhei pra gaveta e logo vi a capa azul claro.
- Esse é o álbum. – peguei-o e me sentei na cama e ela do meu lado.
Começamos a ver as fotografias. Meus olhos se enchiam de lágrimas a cada mudança de página. Estava sendo bem estranho conhecer partes da minha vida. Estava sentindo como se tudo que passei não tivesse sentido, como se eu só tivesse dado passos escuros. Não conseguia mais segurar o choro. A se levantou e foi ver o que mais tinha na gaveta. Entregou-me uma pasta preta que possuía várias folhas de papel, que pareciam documentos. Hesitei em abrir, por medo de ter algo que eu não queria. De repente a porta do quarto se abre e alguém entra.
- , o que eu disse sobre esse álbum? – me assustei com o grito e joguei a pasta na gaveta.
- Mãe, isso são fotos minhas, é minha historia, o meu passado. A senhora não tem o direito de escondê-lo de mim. – eu gritava também.
- E por isso você acha que pode mexer nas minhas coisas? – ainda gritava.
- Você não me deu outra escolha, se eu tivesse pedido pra ver você não iria deixar.
- Que gritaria é essa? – o entrou no quarto só de cueca.
- Não se intromete, filho. Meu papo é com a sua irmã.
- Fala logo o que você tem pra me dizer – eu dizia entre lágrimas.
- Eu só quero o seu bem, se eu escondi esse álbum foi pensando no melhor pra você e seu irmão.
- O que isso tem a ver comigo? – ele perguntou enquanto esfregava os olhos.
- Vão para o quarto de vocês, por favor.

Não respondemos e saímos.

- , acho melhor eu ir embora. – a falou as primeiras palavras desde quando a “briga” começou.
- Faz o que você quiser. – fui em direção ao meu quarto, mas seguraram o meu braço. - Olha o jeito que você fala. Você nunca foi assim. – disse olhando em meus olhos.
- Me deixa . – tirei meu braço das mãos dele – Finge que eu morri, porque eu quero ficar sozinha. – entrei no quarto e bati a porta.
[Fim POV ]

[POV ]

Fiquei “assustado” com a reação da minha irmã, ela nunca falou daquele jeito com ninguém. O pior de tudo era que a ficou magoada.

- , não leva a sério o que ela fez. – tentei melhorar a situação.
- Tudo bem, . A está irritada. Eu vou pra minha casa. Fala pra sua irmã me ligar se for preciso.
- Falo sim. Eu te levo até a porta.

Acompanhei a garota até a porta e voltei pro quarto. Fiquei pensando em várias coisas sem sentindo. Levantei-me e tentei ir pro quarto da , pra conversar com ela, mas estava trancado. Sempre que eu precisava ficar sozinho eu ia pro telhado da casa, lá era meu esconderijo, meu refúgio. Deitei-me sobre as telhas e fiquei observando o céu. Permaneci desse jeito o dia inteiro, só voltei para dentro quando já estava escuro. Passei pelo quarto da minha mãe, que estava dormindo. Então desci e fui assistir televisão. Depois de algum tempo, eu ouvi a porta do quarto abrindo e logo depois fechando novamente. O sono logo chegou, então subi. Vi que a porta do quarto da minha irmã estava meio aberta e a luz estava acesa. Entrei na esperança dela estar acordada. Ela estava adormecida abraçada ao travesseiro. Nem pensei direito e me sentei na cama. Coloquei sua cabeça sobre minhas pernas, apaguei a luz e comecei a acariciar seu cabelo pouco úmido de lágrimas. Após algum tempo, fechei meus olhos e não abri mais. Até o momento que fui acordado pelo grito de desespero que minha irmã dava.

- Calma , eu estou aqui com você. – eu disse após abraçá-la.
- , aquelas fotos pegando fogo, nossos rostos distorcidos. Era tudo tão assustador e depois você foi embora, me deixando sozinha no escuro. – ela chorava com a cabeça apoiada em meu peito.
- Fica calma. Foi só um pesadelo, só isso. Eu nunca vou te deixar sozinha. Agora dorme, precisamos acordar cedo pra ir pra escola. Eu vou pro meu quarto.
- Não, fica aqui comigo. Dorme aqui, só assim posso ficar tranqüila.
- Ok, eu durmo aqui. – ela se deitou de novo com a cabeça nas minhas pernas e adormeceu, logo depois adormeci também.
[Fim POV ]

[POV ]
Ouvi meu despertador tocar. Abri meus olhos, que ardiam de tanto chorar, e vi o sentado na minha cama, dormindo de mau jeito. Parecia estar desconfortável. Levantei o mais devagar possível para não acordá-lo, mas não foi o suficiente. Ele despertou logo que fiquei de pé.

- Bom dia, . – disse se espreguiçando.
- Bom dia, . Eu vou tomar um banho antes de ir pra escola.

Dei-lhe um beijo no rosto e fui pro banheiro. Tomei um banho até que rápido e voltei pro quarto enrolada na toalha. Meu irmão ainda estava deitado em minha cama, porém não dormia. Ele deixou o local logo que eu entrei. Coloquei o uniforme de calça azul marinho e blusa branca com um detalhe em amarelo nos ombros. Desci para tomar café e, quando terminei, subi novamente para escovar os dentes e me maquiar. O já me esperava na sala. Fomos pra escola do mesmo jeito de sempre, a pé. Não demoramos muito para chegar. Entramos na escola e cada um foi pra sua aula. Entrei na sala e vi a sentada no mesmo lugar de sempre. Fui até o fundo da sala e me sentei na cadeira do lado. Ela não olhou pra mim. Parecia estar realmente magoada com o ocorrido do dia anterior.

- , me desculpa por ter sido grossa com você?
- Está tudo bem, . – sem olhar pra mim.
- Não está tudo bem. Você está chateada comigo. Foi sem querer. – esperei a resposta dela em vão – , fala comigo.
- Você venceu, está desculpada. – dessa vez ela olhou pra mim – Me diga, você resolveu as coisas com a sua mãe?
- Resolvi nada. Depois da briga eu me tranquei no quarto. Só fiz contato com o mundo exterior quando o entrou no quarto e dormiu comigo. – rimos juntas.
- Ui, você dormiu com o seu irmão gostoso? – ela falou com um tom de malícia.
- Eu te dei o direito de achar meu irmão gostoso? – eu falei séria.
- Desculpa, esqueci que você é ciumenta.
- É, da próxima vez eu vou esquecer de não te bater.
- Nossa, que violenta.

O professor entrou na sala, nos mandou ficar quietas e começou a passar matéria na lousa. As aulas passaram rápido. Quando me dei conta já estava sentada no banco do pátio com a , meu irmão, o , a Laryssa e o . Ficamos conversando até o sinal bater. Subimos para as salas novamente. As últimas aulas demoraram uma eternidade e meia para acabarem. E quando bateu o ultimo sinal eu desci voando. Esperei o no fim da escada. Ele desceu junto com o . Despedimo-nos de todos e voltamos pro nosso lar-doce-lar. Entramos em casa e demos de cara com a nossa mãe sentada no sofá com a mesma pasta preta nas mãos. Logo me lembrei do pesadelo que tive e fiquei desesperada.

- Sentem-se. Eu preciso conversar com vocês dois. – não falamos nada e sentamos um do lado do outro, segurei na mão do meu irmão, como se aquilo me desse forças.
- Mão, o que aconteceu? – ele perguntou preocupado.
- Bem, eu achei que ia conseguir manter essa mentira pro resto da vida, mas eu estava errada.
- Pára de enrolar. Dá pra senhora falar logo? – eu a interrompi.
- Não sei se vocês já repararam que vocês não são parecidos fisicamente. E devem se perguntar o porquê disso. – comecei a ficar com medo das próximas palavras. Eu apertava a mão do cada vez mais forte – Eu não sei nem como vou falar isso, mas tem que ser dito. Vocês não são irmãos de sangue – só com essas palavras todas as minhas duvidas tiveram resposta – Filha, sinto muito. Eu não queria que fosse assim – começou a chorar – , você não é minha filha. – aquilo foi como uma facada no meu coração.
- Eu sou adotada? – eu perguntei esperando que a resposta fosse “não”.
- Sim filha, você é adotada.
- Eu não sou uma ? – gritei totalmente atordoada e com raiva do que tinha escutado.
- , calma... – o tentava me acalmar.
- Calma é o caralho. Não é fácil ficar sabendo que minha vida inteira foi um farsa, uma mentira. Se eu não sou uma , então qual é o meu nome de verdade? – ninguém me respondeu – Me responde, mãe. Ou devo dizer Sandra? – não conseguia parar de gritar.
- Você é uma – ela disse assustada com a minha reação.
- ? Esse é meu sobrenome? Quer saber o que eu acho desse sobrenome? Que é uma merda, um sobrenome de merda.
- Filha, fica calma. Eu sei que é difícil...
- Não me chama de filha. Eu não sou sua filha.
- , não fala assim com a nossa mãe.
- Nossa mãe vírgula. SUA mãe.

Eu não consegui segurar o choro, as lágrimas já rolavam livremente pela minha face. Sem muito pensar, sai correndo em direção a porta.

- Aonde você vai? – os dois perguntaram juntos.
- Falar com alguém que não mente pra mim, bem diferente de você, Dona Sandra. – sai correndo pela rua.

Eu não tenho certeza de mais nada nessa vida, só de que eu não sou uma . Não era só um sobrenome, era a minha certeza, a minha família, o MEU TUDO. É estranho saber que tudo isso era em vão, tudo isso era mentira. Eu fui engda a vida inteira, pela pessoa que eu mais amei no mundo. Como pode isso? Passar anos e anos sem saber o meu começo, e a partir de agora, sem saber o meu fim. Eu precisava desabafar pra alguém sincero o suficiente comigo, a única pessoa que nunca precisou interpretar do meu lado, a ÚNICA!
Ainda correndo, cheguei ao prédio da e logo subi, afinal éramos tão unidas que nem precisava me identificar na portaria. Apertei a campainha ainda com o coração acelerado. Ela então abriu e sem pensar entrei. Em um ato de desespero a abracei forte, sem querer soltá-la, ela sem entender nada me consolava.

- Calma . Me conta, o que aconteceu? - sentei no sofá.
- Você não vai acreditar . Era tudo uma grande mentira – não conseguia conter as lágrimas que corriam uma seguida da outra.
- O que era uma grande mentira, , O QUE?
- Eu nunca fui uma , eu fui engda a vida inteira pela pessoa que eu achava que era a minha mãe.
- Ela deve ter tido um bom motivo pra isso, . Sua mãe nunca faria nada pra te prejudicar.
- É , mas todo esse cuidado acabou dando nisso. Eu não tenho mais certeza nem do que eu sou. Eu nem me conheço.
- O que importa é que ela te ama , é amor de mãe. Ela te criou, ela te ensinou tudo o que você é hoje. Não é justo fazer isso com ela, não é justo tanta raiva com alguém que tanto te amou.
- Mais também não foi justo me engr tanto tempo, . Eu passei a vida toda acreditando de que era a minha família, e assim, da noite para o dia, descubro que nunca foi e nunca será.
- Eles são sim a sua família, .
- Não são. Eu sou uma . – ela fez uma cara espantada pelo fato de receber a noticia assim - É isso mesmo que você ouviu. Mas de que adianta saber meu nome se tenho nem idéia de onde minha família esteja?
- Sua família é o e a Tia Sandra, e eles estão na Rua Avanhandava, 85. E você tem que ir até lá conversar direito com a sua mãe.
- Em primeiro lugar, ela não é minha mãe, ela é uma mulher que me achou e ficou com pena de mim. E em segundo lugar, eu não vou voltar pra lá hoje.
- E onde você vai passar a noite?
- Não sei. Eu estava pensando em dormir aqui.
- Não, , você vai voltar pra sua casa, que é o seu lugar.
- Tudo bem, você não deixa eu dormir aqui, não tem problema, eu passo a noite na rua.
Tchau . – fui em direção a porta.
- espera. Pode dormir aqui. – eu a abracei e agradeci – Mas tem uma condição.
- Qual é a condição, ?
- Amanhã você vai pra sua casa direto da escola, e vai resolver as coisas com a... – eu a olhei com cara feia, já que sabia que iria falar a palavra “mãe” – com a tia Sandra.
[Fim POV ]

[POV ]

Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo naquele momento, eu só sabia que não era a minha irmã. E NINGUÉM faz idéia do quanto isso é difícil pra mim. Fiquei abraçado a minha mãe por alguns segundos, tentando consolá-la. E quando ela resolveu se deitar, eu fui até a cozinha, e abri a geladeira, mas perdi o apetite quando vi algumas fotos minhas quando criança, abraçado com a , coladas com imãs na porta. Fui ao quarto, liguei o som, e deitei na cama olhando para o teto. Meu coração estava apertado, eu não podia negar, eu não sei viver sem ela.
Coloquei um casaco e nem ao menos tirei o uniforme. Sai de casa desesperado, e fui direto em direção à casa da .
Eu sabia que ela estava lá, meu coração me dava certeza disso. Anunciei-me na portaria e subi. A abriu a porta, e sem a cumprimentar eu fui entrando.
- Calma ! A está dormindo.

Entrei no quarto tentando não fazer barulho, e a vi deitada na cama de casal dos pais da , abraçada com um ursinho, como ela sempre fazia desde pequena. Aproximei-me e percebi algumas lágrimas que já haviam seco no seu rosto.

- Vem aqui pra sala. – a me chamou. Sentei no sofá e ela me deu um copo d’água - Você tem que relaxar. A está bem aqui.
- , eu não quero perdê-la.
- Mas você não perdeu. você sabe que você é ÚNICO na vida da alia. Ela te ama mais do que qualquer coisa, e o carinho, o amor e o afeto que ela tem por você, não vai e não pode morrer assim.

Fiquei sentado com os olhos vermelhos de tanto chorar, pensando no que a havia acabado de me falar, mas não sei se posso acreditar que tudo que eu e vivemos, vai continuar vivo dentro dela. Acho que o que ela menos quer é me ver agora. Não sei se consigo compreendê-la, mas não posso contrariá-la.
Agradeci a , e fui para casa. Chegando, vi tudo normal, como quando eu sai, mas algo parecia diferente. Ela não estava lá. Abri a porta de seu quarto e fiquei por lá, observando cada móvel e cada espaço que me fazia lembrar mais e mais dela. Adormeci em sua cama, abraçada com o Raffa, seu ursinho que sempre a acompanhava nas noites de sono.
Levantei da cama. Quando me dei conta já estava dentro da escola. Subi um lance de escada e fui até a sala do 2º ano ver a minha irmã. Parei do lado da porta, o professor já estava fazendo a chamada e antes que eu pudesse interromper, chegou à vez da .

- . – o professor chamou em alto e bom som. Ouvir aquilo me deixou deprimido, não consegui me conter e comecei a derramar lágrimas.
- Presente. – como ela pode responder por um nome que não era o dela?
- Você não é uma – invadi a sala – Fala que você é uma . Fala, por favor, eu preciso ouvir você dizendo isso. – eu falava aos prantos.
- Desculpa , mas eu não posso fazer nada. Eu SOU uma – aquilo me chocou, fazendo com que eu me sentasse na cama rapidamente.
- Calma , tudo não passou de um pesadelo. A sua irmã nunca diria isso – eu falava pra mim mesmo enquanto passava a mão no rosto.

Fiquei ali sentado por algum tempo. Por que tudo tinha que acontecer justo comigo? Qual era o problema da não ser a minha irmã biológica? Ela é a garota que eu mais amo na vida, sem ela do meu lado eu não sou feliz por completo.

Capítulo 2


[POV ]
Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho escandaloso do despertador que estava no criado-mudo. Olhei no relógio, e apesar de ser quase uma hora antes do que estou acostumada a acordar, me levantei e fui me arrumar para o colégio. Tomei um banho rápido, coloquei meu uniforme, desci pra cozinha e bebi um copo de leite. Subi, escovei meus dentes e peguei minha mochila. Antes de sair passei pelo quarto da minha mãe. Ela estava dormindo com uma foto recente da minha irmã. No “retrato” a estava linda com seu vestido de princesa vermelho na festa de 15 na qual eu fui o príncipe. Beijei a testa de minha mãe e fui pro colégio.
Cheguei ao prédio onde eu estudava. O portão tinha acabado de ser aberto, eu fui o primeiro aluno a chegar. Preferi ficar na rua, pra ter certeza de que eu iria ver a antes das aulas. Os minutos foram passando e os alunos foram aparecendo, mas ninguém que realmente fosse importante. Estava decidido a não sair dali até ver a minha irmã. Quando faltavam uns cinco minutos para bater o sinal eu vejo o descendo do carro. Meu coração acelerou de uma tal forma que eu fiquei ofegante. Eu estava pronto para sair correndo e abraçá-la logo que seus pés tocassem a calçada. Porém, minhas esperanças fora embora com o carro que partiu sem deixar mais ninguém além do meu amigo. Fui em direção a ele querendo saber por que ele estava sozinho.

- cadê a ?
- Ela está em casa. A e ela vão vim na segunda aula. – ele dizia enquanto caminhávamos até a sala. – Elas vão vim pra escola, fica tranqüilo. – ele falou após alguém tempo em sincio.
- , me fala... – fui interrompido pelo sinal e saímos correndo. Entramos na classe e sentamos um ao lado do outro lá no fundo.
- O que você queria que eu te falasse?
- Aé, como ela está?
- Pelo o que a me disse... – a professora entrou na sala.
- Bom dia terceiro ano. Vamos começar a aula.
Paramos de falar. Abrimos o caderno e nos preparamos para copiar matéria.
[Fim POV ]

[POV ]

Fui despertando aos poucos, e a cada momento reparava que eu não estava em casa, e que minha vida se transformara em pesadelo. Peguei o travesseiro, que antes eu apoiava a minha cabeça, e coloquei no rosto para abafar o grito que estava em minha garganta.
- Eu odeio minha vida. – gritei.
Mas será que eu odeio mesmo? Se eu odiasse de verdade eu odiaria minha infância, todos os momentos felizes que passei, e principalmente, odiaria o . Mas como odiar o que se ama? Porém, não posso amar mentiras.
- Bom dia, . – a interrompeu minha linha pensativa.
- Só se for pra você. – disse após tirar o que tampava meu rosto – Fala que tudo o que aconteceu ontem não passou da minha imaginação. – pedi já sabendo que a resposta não me agradaria.
- Gostaria de dizer isso, mas não. Não foi sua imaginação. – ela falou sentando-se aos pés da cama – Ah, e espero que não se importe do ter te carregado no colo até o meu quarto.
- Não me importo.
- Bom, pelo o que eu me lembro, nós temos um acordo, e minha parte eu cumpri. Deixei você dormir aqui, agora é a sua vez.
- ‘Tá bom. Eu vou me arrumar pra ir pra escola, mas não estamos atrasadas?
- Não para a segunda aula.

Levantei-me da cama e comecei a trocar o pijama que a me emprestou pelo meu uniforme, sem a mínima vontade. Na minha cabeça só se repetia o nome ‘’. Eu não estava pronta para vê-lo como um amigo e não como um irmão, e o fato de depois da escola eu teria que ir para ‘casa’ não ajudava em nada. Logo eu estava pronta para ir pra escola com a . Saímos da casa dela e começamos a caminhar. Eu estava tão desligada que nem percebi o tempo que demoramos em chegar. Ficamos no pátio até bater o sinal do inicio da segunda aula, então subimos para nossa sala e entramos na troca de professores. Sentamos em nossos lugares de sempre. O professor de química logo começou a primeira das duas aulas. Os cem minutos de aula demoraram a passar. O sinal bateu seguido pelo barulho das pessoas saindo das salas. O momento de encarar o estava bem próximo, meu coração disparou ao ver a imagem dele passado direto pela porta da minha classe.

- Vamos descer? – a perguntou já de pé na minha frente.
- Não, . Eu vou ficar por aqui, não tenho fome.
- Você tem que falar com seu irmão.
- Se ele quiser falar comigo ele que me procure. Eu não vou correr atrás. – abri minha mochila e peguei um livro e comecei a ler.
- Você quem sabe. – virou-se e foi em direção à porta, me deixando sozinha.
[Fim POV ]

[POV ]

O sinal tinha disparado, nos avisando que o intervalo chegou. Nem esperei ninguém e eu saí correndo da sala. Desci para o pátio e esperei por ela ali, no final da escada. Vejo a imagem de descendo as escadas, mas a pessoa que eu queria não estava junto. Fiquei aflito, e se ela não tivesse ido pra escola?
A passou ao meu lado, sem perceber minha presença. Sai correndo atrás dela, e quando alcancei, segurei seu braço.
- , cadê a ?
- Bom dia, . Eu estou ótima, obrigado por perguntar. – ela parecia irritada.
- Eu estou falando sério. Onde ela está?
- Na sala. Disse que se você quisesse falar com ela que a procurasse.
- Valeu pela resposta. – soltei seu braço.

Subi os lances de escadas o mais rápido que eu conseguia. Cheguei ofegante, ao corredor. Passei sem dar atenção por todas as salas, até que parei na frente da classe onde ela estava. A porta estava aberta e a luz acesa. estava sentada em uma das últimas cadeiras, com os pés apoiados na da frente, e lia um livro que o título não é importante. Meu coração disparou sem que eu pudesse controlar, minhas mãos estavam suadas e a adrenalina invadiu meu corpo. Por que eu estava tão nervoso? Adentrei lentamente, o mais silencioso possível. Parei logo nas primeiras fileiras e fiquei a observando.

- Acho que precisamos conversar. – minha voz saiu um pouco abafada, tirando a concentração dela – Por que não voltou pra casa? – aproximei-me dela e sentei na cadeira ao seu lado.
- Pra que voltar para um lugar onde só mentem pra mim?
- Você está generalizando. Eu nunca menti pra você, e se não se lembra, eu vivia essa farsa com você.
- Mas que grande coisa. Não faz diferença pra você. Você ainda tem a sua mãe.
- Quem disse que não faz diferença? – eu olhava no fundo dos seus olhos – Você acha que está sendo fácil pra mim? Foi um choque pra mim também.
- Eu não queria que isso estivesse acontecendo. – algumas lágrimas rolaram no rosto dela.
- Eu também não queria, não mesmo. – sem pensar muito, eu a abracei bem forte.
- Precisava tanto desse abraço, você não faz idéia. – ela disse e eu sorri.

Ficamos abraçados em sincio. Não precisávamos de palavras, só de estarmos juntos estava tudo bem.

- Como vão ser as coisas daqui pra frente? – perguntei sem soltá-la.
- Eu vou procurar meus pais biológicos. Só que eu vou precisar de ajuda, e a sua ajuda é a mais importante. – eu estava disposto a ajudar.
- Claro que eu ajudo. Tudo pra ver minha irmãzinha feliz.
- , não me chama mais de irmãzinha. Isso machuca. – ela soltou-se dos meus braços e encarou o chão.
- Se você quiser assim. – segurei de leve em seu queixo e levantei seu rosto – E o que você vai fazer quando os encontrar?
- Ainda não tenho certeza. Se eles me quiserem de volta, eu acho justo ir morar com eles. – eu não queria que ela fosse embora.
- Então você vai me abandonar?
- Não vou te abandonar, só vou me mudar. Ainda nos veremos na escola, isso se eu continuar matriculada aqui. – ficamos em silencio – ‘Tá, eu não quero ficar pensando muito nessas coisas, já tenho a conversa com a Sandra pra me preocupar.
- Você vai voltar pra casa?
- Se sua mãe quiser... – era estranho ouvi-la dizer ‘sua mãe.’
- Eu a faço querer. – sorrimos.
Ficamos sorrindo como idiotas por um tempo. Era estranho tudo aquilo. Eu e a , irmãos até o dia anterior, agora somos apenas amigos. O sinal mais uma vez bateu, dando a ordem para voltarmos para a sala.

- Bom, eu vou pra minha aula. – beijei seu rosto e me levantei.
Tropecei em algumas carteiras até chegar à porta. Apoiei minha mão no batente e olhei para trás. Ela estava sentada me olhando, com um sorriso sincero na face. Sorri também e deixei a sala, mas antes que eu pudesse começar a caminhar, ouço ela me chamar.

- ! – gritou de dentro da sala e eu voltei.
- Fala. – disse da porta.
- Eu te amo. – meu sorriso alargou-se involuntariamente.
- Eu também te amo pequena. – mandei um beijo pra ela e fui, lentamente, para minha sala.
[Fim POV ]

[POV ]

Eu estava totalmente engda. Eu achando que o iria discutir comigo e se recusar a me ajudar, mas pelo contrário, foi o mais doce que uma pessoa pode ser. Depois que ele deixou minha sala, eu fiquei imóvel, só sorrindo. Talvez um sorriso bobo, porém feliz. As pessoas foram chegando aos poucos, e com elas a minha amiga. sentou-se ao meu lado e ficou me olhando até resolver falar alguma coisa.

- Tudo bem que se eu estivesse no seu lugar eu não estaria sorrindo, mas fico feliz de te ver assim.
- É eu também estou feliz por estar sorrindo.
- Vejo que a conversa com o te fez bem.
- Muito mais do que bem. Ele até concordou em me ajudar a procurar meus pais biológicos.
- E você tem esperanças de encontrá-los? – ela parecia não botar fé.
- Um pouco, mas o bastante para tentar. Você vai me ajudar, certo?
- ‘Tá bom, eu te ajudo. – soltei um grito animado e a abracei – Agora me solta que você está me apertando.
- Fresca.

As três aulas seguintes não passaram rápido, mas também não demoraram tanto. Um pouco antes de bater o sinal, peguei meu celular e mandei uma mensagem pro ‘Me espera pra ir embora’. A professora resolveu nos segura uns cinco minutos além do horário. Quando fomos liberados, sai apressada. Meu irmão, digo, meu novo amigo me esperava ao pé da escada, sorri ao vê-lo ali parado. Nós dois nos despedimos de nossos amigos e colegas e fomos andando até nossa casa, se é que eu ainda posso assim dizer. Seguimos em sincio. Já estava acostumada com o caminho, então não senti o cansaço e nem o tempo passando. Chegamos. Fiquei parada na frente do portão, esperando o abrir. Ele entrou primeiro, e eu segui atrás. Ele passou sozinho pela porta da sala, pude ouvir a Sandra dar boa tarde. Fiquei ali fora por alguns segundos, respirei fundo, como se aquilo fosse me dar coragem, e entrei. Minha ‘ex-mãe’, ao me ver, veio de braços abertos em minha direção. Recebi um abraço apertado, como nunca havia recebido antes, confortei-me em seus braços. Algumas lágrimas escaparam de meus olhos e escorreram pelo meu rosto. Alguns momentos depois, senti mais dois braços me envolverem. Tinha certeza de que era juntando-se ao abraço. Senti-me completa repentinamente, mas não era algo que fosse real totalmente. Aos poucos fui me soltando do abraço. Sequei as lágrimas que a Sandra ainda deixava escorrer e pedi, delicadamente, para ela parar de chorar. Ela sorriu, e conseguiu arrancar-me um sorriso sincero. Pedi para ela e o sentarem-se. Precisávamos conversar.

- Filha, eu não queria que fosse dessa maneira, de verdade. Eu errei, eu sei que errei. Eu devia ter te contado isso bem antes. – ela explicava-se. Eu queria falar, mas não tive coragem de interrompê-la - Perdoa-me por fazer você passar por tudo isso? E você também , imagino que não deve estar sendo fácil pra você.
- Não, não está sendo fácil. Mas eu te perdôo.
- Eu também de perdôo.
- Que bom, meus filhos. – sua voz era trêmula, talvez porque estivesse com vontade de chorar – Eu fico realmente feliz, é como se tirasse uma pedra enorme das costas.
- Mas tem outra coisa que eu quero falar –continuei – Eu quero encontrar meus pais biológicos.
- Mas filha... – eu pressentia que viria uma espécie de sermão.
- Mas nada. Eu tenho esse direito. Por mais que eles tenham me rejeitado, eu sinto que é a coisa certa a se fazer.
- E eu dou toda força. – disse olhando em meus olhos.
- Tudo bem. Você já tem idade o suficiente pra julgar o que é certo e errado, e como sei que você não vai mudar de idéia, a única coisa que tenho a fazer é te ajudar e rezar para que você não se magoe de alguma forma.
- E é isso que eu quero – continuei –, eu preciso da sua ajuda. Você é a única pista que eu tenho.
- Então eu sou a pista que possui mais pistas. – ela levantou-se – Eu já volto.

Sandra subiu para o andar superior e logo ouvi a porta do quarto, provavelmente dela, fechando-se. O ao meu lado parecia estar uma tanto intrigado, assim como eu. Ainda estávamos de mãos dadas, era incrível como aquele simples ato me dava forças. Olhei para o lado, e vê-lo ali comigo fez um sorriso surgir em meus lábios. Ele estava diferente, eu não sabia exatamente o que era. Seu cabelo bagunçadamente arrumado, seus olhos expressivos, sua boca, tudo nele me trazia um sentimento bom. Encarei nossas mãos. Sem que eu esperasse, seu perfume invadiu meus pulmões, nunca havia reparado no tanto que ele é cheiroso. Pude ouvir sua voz ao longe chamando toda a minha atenção.

- , sei que você não vai gostar da idéia, mas tente chamá-la de mãe. Acho que é o mínimo, ela está disposta a te ajudar. E outra, ela vai ficar feliz. – ele olhava no fundo de meus olhos e sua voz era calma.
- Se você acha isso importante, por que não fazê-lo? – dei um sorriso fraco, mostrando que eu compreendia.

Ficamos em silencio a partir de então, o suficiente para ouvir a mesma porta de antes se abrindo e fechando. Sandra apareceu ao pé da escada trazendo uma pilha de papel nas mãos e o álbum de fotos que dera inicio a toda essa situação que passávamos. Ela sentou-se no sofá e começou a folhear a pilha que tinha nas mãos.

- Acho que isso pode te ajudar em alguma coisa. – me estendeu um papel e eu o peguei – Essa é sua certidão de nascimento. Como consta ai, eu não sou sua mãe perante a lei. Quando eu te recebi para eu criar, você já era registrada e tinha quase onze meses de vida.

, de sexo feminino, nascida no dia onze de junho de mil novecentos e noventa e três (11/06/1993), as oito e trinta e sete (08h37minh). Filha de Elena e Antonio . ’ Estava tudo ali naquela folha, o começo da minha história.

- Elena e Antonio, esses são os meus pais. Você os conhece?
- Só conheço a Elena. Nós trabalhávamos juntas. Ela tinha já uma filha de um ano quando ficou grávida de você. Ela diz que não foi planejado que apenas aconteceu. – então começou a me contar sobre eu mesma - A gravidez parecia ser conturbada por brigas entre ela e o marido, nunca esqueci as brigas que eles tinham por telefone, o escritório inteiro parava para ouvi-la gritando. Ele queria que a Elena abortasse, mas ela se recusava. Para não ficar em casa, com risco de ser agredida, ela recusou a licença maternidade. Quando estava com oito meses, no meio do escritório, começou a ter contrações e a bolsa estourou. Eu fui a única que tive coragem de ajudá-la. A ambulância foi buscá-la e levou-a para o hospital. – minha mãe de criação não suportou a emoção e começou a chorar.
- Mãe, se você quiser parar eu não me importo. - Não, eu tenho que continuar –continuou – A empresa obrigou-lhe a tirar a licença ou então a demitiriam. Elena não teve escolha, não podia perder aquele emprego. Os seis meses se passaram e eu sem notícias dela. Até que um dia ela voltou, dizendo que você era uma menina linda. Fiquei realmente feliz por ela. Mais cinco meses se passaram, e então ela chegou chorando ao serviço. Eu perguntei o que havia acontecido, e entre lágrimas desesperadas ela me contou. Seu pai a agredia por você ter nascido, e ameaçava te matar. Ela sempre te defendeu e suportou com muita garra, mas já havia tomado uma decisão. Como você já era amamentada por mamadeiras ela te entregaria para um orfto. Ouvir aquilo me apertou o coração, era insuportável, e me comoveu. Eu estava disposta a te criar como se você minha filha. Era meu sonho ter uma menina, mas fui impedida após ter você, – falou ao meu irmão -, eu fiquei infértil. E então no dia seguinte ela trouxe você pra mim. Você era tão frágil. Peguei-te nas mãos e você abriu um sorrisinho que se eu fechar os olhos lembro-me perfeitamente. Com você ela me entregou esse álbum para o caso você quisesse saber quem era ela. Ele já estava começado com algumas fotos dela com você nos braços. Ela despediu-se de você e foi embora. No dia seguinte fui para o escritório e ela não apareceu, nunca mais apareceu. O resto da história você deve imaginar. – quando ela finalizou, eu e o também chorávamos.
- Mãe, não chora. Está tudo bem, agora eu te entendo perfeitamente. Você só queria o meu bem, e o bem do . – eu falava enquanto lágrimas escorriam pelo meu rosto.

Ajoelhei-me em sua frente, finalmente larguei a mão do , e sequei suas lágrimas. Eu abracei-a com força, eu precisava daquilo naquele momento. Ouvir toda a minha história me abalou, mas não podia transparecer não na frente da minha mãe.
- Por favor, parem de chorar. Nós somos felizes juntos, não somos? Então pra que chorar? – sua fala não teve muito significado, já que ele também chorava.
- Sim, meu filho. Somos felizes. – eu apenas concordei com a cabeça.
- Mãe, obrigado por ter me acolhido. Se não fosse você, eu seria jogada em um orfto qualquer.
- Eu só fiz o que achei certo, e o que meu coração me mandava fazer. – dessa vez, foi ela quem secou as minhas lágrimas.
- Mãe, eu te amo!
- Eu também te amo.
- E eu amo vocês duas. – o disse da maneira mais carinhosa possível e imaginável.
- Meus filhos amados, eu vou ter que voltar para o trabalho. Desculpem-me por acabar com esse momento.
- Tudo bem. – eu e meu irmão de criação dissemos juntos. Nós dois somos estranhamente conectados.
- Tem comida na geladeira se vocês tiverem fome. – beijou nossas testas com todo amor – Eu volto no horário de sempre. Ah, e estejam arrumados quando eu chegar, vou levá-los pra jantar em um restaurante. – pegou sua bolsa e saiu pela porta da sala.

Nós dois, que sobramos no sofá, ficamos sem dizer mais nada. Eu estava me sentindo estranha em estar sozinha com ele no mesmo ambiente, coisa que nunca aconteceu. Para distrair meus pensamentos, e não demonstrar o meu estado, peguei novamente minha certidão nas mãos e reli todas as informações que ali estavam.
. Demoraria em me acostumar com aquele sobrenome. Pior, demoraria em me acostumar em ter outra família, e ter alguém como irmão que não era o . Como seria daqui pra frente? Como eu começaria a procurar meus pais biológicos?
Foi então que me liguei que uma das pessoas mais interessadas nessa história ainda não sabia das novidades. Levantei-me do sofá e subi correndo para o meu quarto, sem nem ao menos dar satisfações. Cheguei ao quarto, joguei-me na cama e disquei o número que eu já muito conhecia. Minha amiga atendeu logo. Nem perguntei como ela estava já soltei todas as novas informações.

- Espera, deixa-me ver se entendi. Sua mãe biológica te deu para a tia Sandra por que o homem, que você pode chamar de pai, queria te matar? – ela estava um tanto possessa com esse fato em especial.
- Não sei ao certo. Eu entendi a mesma coisa que você.
- Vamos pensar pelo lado positivo, se a tia não tivesse te acolhido, você não teria uma família que te ama. – e seus pensamentos positivistas – E claro, se você encontrá-lo, ele não poderá mais te machucar, já que você é grandinha o bastante para saber defender-se sozinha.
- Esse é o problema. – esbracejei ao telefone.
- O que, você se defender sozinha? – eu que sou difícil de entender, ou ela que não entende as coisas?
- Claro que não. O problema é eu achar a ele e minha mãe. – soltei um suspiro inconsolável – Eu não sei nem por onde começar.
- Tenta ir ao cartório onde a certidão foi tirada, talvez você consiga alguma coisa. Ou tenta jogar no Google, é uma boa opção.
- Vou ignorar a segunda idéia. Em relação à primeira, acho que é uma boa. Vou falar com o , e talvez eu vá amanha depois da escola. – só de pronunciar todas as letras de seu nome uma tranqüilidade invadiu meu peito. – Aliás, vou desligar. Preciso conversar com ele.
- Tchau então. Até amanha na escola.

Desliguei o telefone. Corri escada abaixo em direção a sala. Afinal, por que eu estava correndo? Eu estava com pressa para o que? Diminui a velocidade ao chegar aos últimos degraus. Meu irmão apenas levantou os olhos e observou-me. Eu, por minha vez, retribui com um sorriso acanhado e aproximei do sofá onde ele estava desde quando eu subi. Sentei-me ao seu lado, e sem perguntar eu apoiei a cabeça em suas pernas, assim deitando no estofado. Fechei os olhos para aproveitar todos os toques de sua mão em meu cabelo e em meu rosto, seus dedos delineavam minha face. Um arrepio percorreu minha espinha, foi uma sensação nova para mim, nunca havia sentido algo parecido. Abri os olhos e o encarei. Seu olhar tinha um brilho diferente, era hipnotizante e viciante. abaixou o rosto em minha direção, por um momento pensei que ele iria selar meus lábios, mas ao invés disso beijou minha testa. O que se passava ali estava no melhor e perfeito clima, porém minha boca estragou tudo. Sem a minha permissão.

- , - minha voz saiu falha e num tom baixo – Você vai comigo ao cartório amanha depois da escola?
- Você já quer começar com essa busca? – pude sentir um toque de desapontamento nas palavras por ele dita.
- Eu preciso começar logo. Quanto mais rápido eu começar, mais rápido eu acabo com toda essa confusão.
- Então se é assim. Eu vou com você.
- Obrigado. – sorri.

Aconcheguei-me melhor em seu colo. Fechei as pálpebras novamente, somente para descansá-las, pelo menos esse era o meu objetivo. Tudo foi ficando mais escuro, minha respiração ficou mais branda e já não ouvia nada. Rendi ao sono que me atacava.



Capítulo 3

Um mês se passou desde então. E nesse intervalo de tempo, todas as buscas que eu fazia sempre acabavam em pistas falsas ou apenas em nada. Consultei a maioria dos cartórios da cidade, e até fui capaz de jogar o nome de minha mãe biológica em um site de pesquisa online. Meus amigos, Coonrado e Sandra me ajudavam como podiam, e não posso reclamar por falta de apoio, pois isso eles me davam aos baldes. Na escola meu rendimento havia caído, mas nada que eu não conseguisse recuperar nesse ultimo bimestre. Nas férias terei todo o meu tempo dedicado à minha investigação.
Cheguei à escola acompanhada do meu irmão, eu ainda estava decepcionada com o dia anterior que me levou ao nada mais uma vez. Encontrei com meus amigos ali no pátio. De todos nós, eu era a que tinha o semblante mais desgastado. Eles conversavam sem pausas, e apenas absorvia as informações e não compartilhava minhas palavras com ninguém, eles já estavam acostumados com essa atitude que eu desenvolvi nesse ultimo mês.
Meus tímpanos foram invadidos pelo sinal estridente que dava inicio a mais um dia de estudos. Subimos até o corredor onde ficavam nossas salas, e então, eu e a nos separamos do resto do grupo ao chegarmos à porta de nossa classe. Sentamos nas ultimas cadeiras, como sempre, e ali ficamos imóveis. Quando finalmente todos os alunos estavam devidamente sentados a professora adentrou ao local. Para a surpresa de todos, ela estava acompanhada da Diretora e um garoto diferente de tudo o que eu já vi naquela escola. Ele não era nem tão alto e nem tão baixo, seus fios de cabelo tinham total contraste com sua pele branca. Observei-o da cabeça até os pés, e então me virei para minha amiga:

- Você sabe quem é? – sibilei o mais baixo possível para não ser ouvida.
- Não tenho a menor idéia. – respondeu-me no mesmo fio de voz.

A diretora pigarreou à frente de todos, e assim obteve a atenção diretamente para ela e o novato.

- Eu gostaria de apresentar o novo colega de classe de vocês. Digo-lhes que esse é o . E espero, segundo ano, que vocês o aceitem sem nenhum problema.

Quem em sã consciência ingressaria em uma nova escola no ultimo bimestre de um ano letivo?

- Que tal você falar um pouco sobre você, ? – definitivamente essa diretora tem um problema muito sério.
- Ah – sua cara de ‘não estou afim’ foi impagável – Eu sou o , tenho 16 anos e acabei de voltar da França. – bem que ele tinha um sotaque fraco – Morei lá desde quando eu tinha um ano de idade, ou quase isso. E acho que é isso.
- Muito obrigado, . Agora pode se sentar.

O tal foi se sentar em uma das cadeiras vagas, logo nas primeiras fileiras, mas, como eu já disse antes, a diretora tem algum problema. Antes mesmo que ele pudesse encostar o corpo à cadeira, ela, sem pedir, pegou a mochila do garoto e veio andando até o fundo da sala, na minha direção. Puxou a cadeira vaga a minha frente, onde eu apoiava os pés, e depositou o material dele.

- Sente-se aqui. Você e a Grandino se darão muito bem.
- Qual é, como pode ter tanta certeza? – eu contestei.
- Eu tenho certeza que irão. – essa velha mal comida fuzilou-me com o olhar – E eu já disse que esses brincos que abrem a orelha não são permitidos nessa instituição.
- São alargadores.
- Tanto faz. Não tenho tempo para discutir esse assunto. – iniciou uma caminhada até a porta – Obrigado, professora. Pode iniciar sua aula.

Então ela saiu do meu campo de visão. O aluno novo pegava seu caderno, enquanto eu olhava incrédula para a sua nuca. Quando ele estava com os materiais sobre a mesa, ele virou-se para trás, na tentativa de puxar algum assunto.

- Você sempre bate de frente com as autoridades? – eu apenas o encarei, não tinha o que responder. Quem era ele para tentar me dar lição de moral? – Se fosse nas escolas de Paris... – eu não iria agüentar ouvir aquilo.
- Olha, eu não quero ouvir você falar da sua tão amada Paris. Eu não quero você aqui, e tenho certeza que você queria estar lá na frente. Vamos fazer assim, então, você presta atenção na aula, e eu finjo que você não existe.
- Eu só queria ser legal. – ele jogou as palavras no ar e virou-se novamente.
- E não conseguiu.

Cruzei os braços e fingi que prestava atenção em alguma palavra que a professora dizia. Por que aquela diretora teria dito que eu e o francesinho falsificado iríamos nos dar bem? Só esse nosso começo já deu para ter certeza que ela estava totalmente errada. O Coonrado precisaria saber de tudo aquilo. Peguei meu celular e digitei uma mensagem. ‘Aluno novo na minha sala. Mais chato impossível’. Fechei o slide e voltei a atuar minha atenção na lousa. Pude ver por cima do ombro do seu caderno aberto em uma folha já escrita. Estiquei o pescoço e li algumas palavras que para minha pessoa não tinham o menor significado, mas as terminações estranhas me davam certeza de que aquilo era francês.
Meu celular vibrou em meu bolso, me assustando. Com o susto eu me desequilibrei e quase bati a cabeça na cabeça do aluno novo. Ele olhou feio para mim e eu ignorei. Abri a mensagem para ler ‘Olha que coincidência, aluna nova na minha sala também’. Eu ri comigo mesma, será que eles eram irmãos?
Ao fim da primeira bateria de aulas, eu e a descemos juntas para o pátio e nos encontramos com o resto do nosso pessoal. Cada um comprou seu lanche e fomos nos sentar no mesmo banco de sempre. Em nenhum momento eu tirei os olhos do meio do pessoal que passava a minha frente, mas tinha total atenção no assunto que embalava a conversa. No meio de toda aquela multidão enxerguei o e junto de uma garota que nunca havia visto naquela escola. Ela era mais baixa que ele, tinha os cabelos bem pretos, e sua pele branca pedia por um banho de sol. Os dois eram bem parecidos, e tinha alguma coisa naquela garota que não era estranho aos meus olhos.

- Alguém sabe quem é a garota que está com o aluno novo? – eu perguntei sem tirar os olhos dos dois.
- Aquela é a aluna nova que eu te falei. Qual é o nome dela mesmo, hein ? – o Coonrado disse em meio às risadas.
- . Ela veio de Paris, vocês sabiam? – ninguém se deu ao trabalho de responder.
- O não parou de falar nela, desde a hora em que o professor a apresentou. – a Laryssa informou a mim e a .

O sinal tocou. Tentamos ficar enrolando ao máximo ali, mas a inspetora quase nos puxou pelos cabelos até a sala. Retornei ao meu lugar ao lado da , e começamos a zoar com alguns que entravam na sala. Para estragar o momento, o chegou e sentou-se em seu lugar. A professora que daria aquela aula entrou e todos ficaram em ordem, ou pelo menos tentaram.
Mais uma vez eu não prestaria atenção na matéria. Coloquei os braços sobre a mesa e apoiei minha cabeça. Nem tive o tempo de fechar os olhos, e senti minha amiga me cutucando para passar um pedaço de papel amassado. Abri a bolinha e dentro tinha um recado.

‘O garoto novo é bonitinho’
‘Se você acha, quem sou eu para negar o seu gosto?’
‘Ele parece ser legal’
‘Pode até ser. Mas comigo já perdeu pontos valiosos. Ele não tem conhecimento nenhum da minha vida, do que eu estou passando, e ele vem tentando me dar lição de moral barata. Se quiser pode tentar falar com ele. Eu vou dormir’

Devolvi o bilhete e voltei à posição de antes. O sono dominou meu ser, célula por célula, e finalmente me venceu.
Acordei aos trancos de alguém me chacoalhando. Abri os olhos, e com a visão ainda embaçada reconheci a silhueta da posta de pé ao meu lado. Olhei em volta e a sala se esvaziava.

- Vamos, dorminhoca. A aula já acabou.
- Nossa, passou tão rápido.
- Você estava dormindo.
- É, tem lógica. – pronunciei enquanto bocejava.

Coloquei minha mochila sobre só um ombro e sai da sala. Nós duas seguimos o fluxo até a saída do prédio e lá encontramos os nossos amigos. Depois que sai da sala, não vi o e sua irmã em lugar algum, provavelmente já teriam ido embora. Como todos os dias, enrolamos um pouco na frente do portão e cada um tomou o caminho para sua casa.
Uma semana passou-se desde então, e todos os dias dela o , mesmo não sentando mais próximo a mim, encontrava uma forma de me irritar ou me contrariar. A irmã dele, , também não era uma pessoa muito agradável, e toda vez que tinha oportunidade ela ficava se mostrando por ter morado em Paris.
Naquela segunda-feira a escola inteira for surpreendida por um trabalho sobre ‘Evolução das Espécies’, tudo bem até falarem que o trabalho era em trio. Eles acabaram com a minha dupla formada, e fizeram alguém se infiltrar entre eu e a . Não teria muito problema nisso se a única pessoa da minha sala que sobrou sozinho foi nada mais nada menos que . Fechei a cara no momento em que ele encostou sua mesa na minha.
Durante a atividade eu só abrir a minha boca para falar o extremamente necessário e responder o que me perguntavam. Nas ultimas semanas eu não tinha disposição para nada, e sentia que isso influenciaria no meu desempenho escolar.
O que será que o Coonrado estaria fazendo naquele exato momento? Pergunta mais idiota, o mesmo trabalho que eu, teoricamente, estou fazendo. Então vamos a uma mais difícil, com quem será que ele está no grupo? Com toda certeza somente com pessoas que ele se dava bem.
A voz, com sotaque irritante, do tirou-me da hipnose que meus pensamentos me causavam. Ele me estendeu o papel com todo o nosso trabalho e uma caneta. Eu fiquei só encarando os objetos e depois a ele.

- O que você quer que eu faça com isso? – perguntei.
- Você não fez nada. Então coloca, pelo menos, os nomes. – revirei os olhos e cedi.
- ‘Tá bom.

Abaixei a cabeça e escrevi o nome e sobrenome da . Escrevi o meu nome com a maior facilidade, o problema foi na hora de escrever o resto. Empaquei totalmente, uma confusão invadiu a minha mente. Escrever Grandino ou ?
- Não sabe o seu próprio sobrenome?
- Cala a boca, . Claro que eu sei. – escrevi o que faltava – Está vendo aqui? Grandino, esse é meu sobrenome. - Grande bosta. Agora escreve o meu.
- Ai, ‘tá bom. Fala seu nominho precioso. – eu disse totalmente sarcástica.
- .


Capítulo 4


Eu estou ouvindo perfeitamente? Ele disse com todas as letras? Não podia ser verdade, eu não podia ser irmã do . Como eu poderia ser irmã dele, só se fossemos gêmeos. Agora eu sei de onde eu conhecia a , da imagem do meu espelho.

- , esse é o seu sobrenome? – esforçava-me para esconder a voz trêmula.
- É esse sim. Quer que eu mostre o meu RG para comprovar? – na realidade eu queria.
- Não, não precisa. Eu só quis confirmar para não escrever errado. – fiquei surpresa com a minha capacidade de inventar algo convincente tão rapidamente.

A minha caligrafia saiu totalmente tremida, minha mão estava trêmula de nervoso. Levantei-me da cadeira e senti falta do meu equilíbrio. Só então eu reparei que minhas pernas também tremiam loucamente. Cambaleei até a frente da sala, apoiando nas carteiras para não cair. Entreguei o nosso trabalho à professora, e virei meu corpo para retornar ao meu lugar. Avistei o e meu estômago revirou. Eu não podia encará-lo no momento.

- Professora, eu posso ir ao banheiro? – o que tinha acontecido comigo? Eu nunca pedia autorização, sempre ia saindo.
- Pode, mas não demore. – ela nem ao menos olhou para ver quem era. Melhor pra mim.

Caminhei pelo corredor o mais devagar que eu consegui. Entrei no banheiro feminino e me certifiquei de que ele estava vazio antes de trancar a porta. Parei em frente ao espelho e encarei a imagem refletida. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, e algumas teimavam em escorrer. Eu estava abatida, já não reconhecia a mim mesma. Eu não tinha mais a alegria em meu semblante, não era mais espontânea como antes. Eu não era mais a mesma.
Limpei o choro que molhava meu rosto com o dorso de minha mão. Liguei a torneira, e joguei a água em meu rosto, lavando-o e diluindo minha maquiagem. Encarei-me novamente pelo espelho, ele também precisava de uma limpeza. Enchi minha mão d’água e atirei em meu reflexo. Ele foi se deformando com a água que escorria e logo tomou forma novamente. Não adiantaria em nada persistir naquilo.
Abri o celular para ver quanto tempo eu havia perdido naquele ato desesperado. Na tela, como se eu não soubesse, apareceu uma foto minha e do Coonrado, que ele mesmo colocara, e instantaneamente uma vontade de sentir seu abraço me envolvendo me atingiu. ‘Preciso falar com você. Estou no banheiro feminino do andar da minha classe. A porta está trancada, então bate que eu abro pra você’ foi o que eu consegui digitar antes de enviar.
Dei um impulso para cima e meu corpo foi parar sobre o granito da pia. Agora eu teria que esperá-lo aparecer.
Alguns minutos se passaram. As batidas na porta me tiraram do transe que eu estava submersa em minhas lembranças e pensamentos. Parei de respirar. Podia ser o Coonrado, mas também podia não ser. Esperaria até que a pessoa falasse alguma coisa.

- Abre logo antes que alguém apareça.

Aquela voz não me enganava, finalmente ele estava ali. Pulei da pia e corri até a porta. Destranquei-a e deixei que ele entrasse. Ele trancou a porta novamente e eu, então, corri para seu abraço. Seus braços envolveram minha cintura, e um deles subiu pelas minhas costas até a mão encontrar meus cabelos e acariciou ali, eu estava completa naquele instante. Encostei minha cabeça em seu peito, e liberei as lágrimas que estavam presas. Sua blusa já estava totalmente molhada quando ele resolveu falar alguma coisa.

- Fica calma. Respira e me diz o que aconteceu. – ele falava ao lado do meu ouvido, e isso me arrepiava e eu não sabia o motivo.
- Minha família está mais próxima do que do imaginava. – minha voz foi abafada pelo corpo dele – O é um , provavelmente ele seja meu irmão. A é minha irmã, ela é a filha que a mamãe disse que a Elena tinha.
- Eu descobri isso também. Eu fiz grupo com a e ela disse que o sobrenome era . – desencostei meu rosto de seu ombro, e ele segurou meu queixo e fez com que eu encarasse seus olhos e então prosseguiu – Você encontrou o que tanto procurava isso é bom. Você devia estar feliz, e não chorando. – senti sua outra mão tocar minha face e secar algumas gotas que escorriam.
- Eu sei que eu não devia chorar, mas foi tão sem emoção, sem expectativas. E outra, eu não me dou bem com o , como eu e ele podemos ser irmãos? Queria que fosse como é com você.
- Você não pode ter tudo.
- Essa não é uma boa hora para você vim com suas lições de moral. Então, cala a boca e me abraça, é tudo o que eu preciso.

Novamente ele me abraçou, e eu o abracei forte, bem forte. Não queria deixá-lo partir, queria que aquele momento parasse para todo o sempre. Eu era feliz e não sabia. Eu buscava a felicidade que eu já tinha, e querendo ou não eu havia perdido parte dela.

- Nós temos que ir. Se o intervalo começar, eu não vou poder sair. – incrível como ele tem capacidade de estragar os melhores momentos.

Separamo-nos. Eu sai primeiro para garantir que nenhuma autoridade passava pelo corredor. Avisei que estava tudo seguro e então o Coonrado veio para o corredor. Cada um seguiu para a sua sala, não precisaríamos nos despedir ou algo do tipo já que nos veríamos no intervalo.
Entrei na minha sala de aula e passei direto pela mesa da professora e fui para o meu lugar. A e o tinham uma conversa que parecia ser interessante para os dois, não para mim. Preferi não atrapalhá-los, sentei em minha cadeira sem dizer nada, e assim ficaria até que eles reparassem que eu havia voltado.

- Nossa você demorou. Estava fazendo o que? – é minha amiga não demorou muito para sentir minha presença.
- Nada de muito interessante. Pode voltar pra sua conversa. Eu quero ficar quieta.
- O que ela tem? – perguntou a em um tom baixo, mas não baixo o bastante para eu não ouvir.
- , pergunta as coisas diretamente pra mim. E eu não tenho nada, literalmente.

Ele fez uma cara de quem estava assustado com a minha reação, talvez porque eu não tenha sido rude como sempre era com ele.
Finalmente o sinal para o intervalo tocou. Os outros alunos começaram a se movimentar para sair da sala, e eu fiquei sentada sem me mover. A levantou-se com o e foi andando para a porta ao lado dele. Pelo visto minha amiga me abandonaria.

- – chamei-a e ela olhou para mim -, fica aqui na sala comigo. Preciso falar com você.
- , vai descendo. Eu já me encontro com você. – ele apenas balançou a cabeça e saiu.
- Já está intima desse jeito?
- Cala a boca. Ele é legal. Você deveria tentar conversar com ele. Se você não se lembra, ele também é um .
- Por um momento eu estava ignorando esse fato.
- Você não pode ignorar o fato de que você está próxima do seu objetivo. E talvez seja ele que vai te levar até sua mãe.
- É pelo menos ele tem que servir para alguma coisa.
- Você falando assim dele, nunca vai conseguir se aproximar do garoto.
- Como se eu quisesse.
- Meu você fica reclamando do coitado como se ele tivesse culpa de alguma coisa. Pára de ser tão orgulhosa. Assim você nunca vai conseguir nada na sua vida. – ela gritava sem nenhum motivo concreto.
- Por que você está gritando? Se você quer tanto que eu seja amiga dele, você podia ajudar ao invés de ficar gritando comigo.
- Eu estou gritando pra ver se entra alguma coisa nessa sua cabeça. Se você diz que eu não estou ajudando, então eu vou ajudar. Sábado reunião em casa, e se você não se aproximar do eu vou contar tudo pra ele.
- Combinado.

Apertamos as mãos e concretizamos o acordo, e logo saímos da sala, ainda tínhamos um intervalo para aproveitar. Descemos as escadarias e nos dirigimos ao nosso banco, companheiro de todas as manhãs. O nosso circulo de amizade estava todo ali, e estavam também os apêndices, digo, e . Cumprimentei a garota e coloquei-me ao lado do Coonrado, sentando no encosto do banco.

- , essa é a . – o Coonrado apresentou-a. Como se eu não soubesse quem ela era.
- Prazer. Mas me chama de , por favor.
- O prazer é todo meu, . – forcei um sorriso, que saiu bem convincente por sinal.
- Galera, antes que eu esqueça. Sábado tem reuniãozinha na minha casa. – a ia mesmo tornar real nosso acordo – e , vocês também estão convidados.
- Muita gentileza sua, querida. – a minha suposta parente respondeu, sinceramente me pareceu um pouco falso.
- A mamãe já sabe disso? – obrigado, .
- Ainda não. Mas vou falar com ela ainda hoje. – ou seja, vai rolar. A mãe dos Rocha sempre deixava fazer as reuniões na casa deles.

Os dias que faltavam até sábado não passaram da forma que eu queria, muito lentos, pelo contrário, passaram com uma velocidade alucinante, incontável. Praticamente num piscar de olhos já era sábado, e eu já me arrumava para ir à casa dos Rocha. Eu tinha que me aproximar do , se não meu segredo seria revelado pela minha melhor amiga. Onde eu estava com a cabeça quando aceitei esse acordo?
Desci as escadas para encontrar o Coonrado, que já me esperava impaciente na sala. Ele estava tão entretido com a televisão que nem percebeu que eu já estava ali.

- Estou pronta. Vamos? – ele se assustou com a minha voz, o pulinho que ele deu não deixa negar.

Ele levantou-se rapidamente e veio até mim, e só então reparei na roupa em que ele vestia. Não há palavras que possam descrever como ele estava bonito e atraente. Ele veio andando até mim e com ele o seu perfume estonteante, que viciou meus pulmões, e sem razões seus braços fortes me abraçaram e ele depositou um beijo em meu rosto. Sem que eu pudesse contestar ele soltou-me sem a minha permissão.

- Você está linda. – não consegui responder, o rubor em minhas bochechas já era capaz de mostra que eu fiquei envergonhada com aquela afirmação.

A Sandra chegou à sala, acabando com o possível clima que tenha ficado no ar. Entramos no carro e então partimos. Paramos na frente do prédio e entramos. O caminho que o elevador fazia até o quinto andar nunca pareceu tão longo e demorado como naquele dia. Ao chegar ao andar já era possível ouvir as vozes de todos os meus amigos, pelo visto tínhamos sido os últimos a chegar. Entramos no apartamento e cumprimentamos a todos. Antes mesmo de eu estabelecer um lugar para sentar e ficar a par do assunto a já me puxou para um lugar mais afastado.

- Você ainda lembra o que você tem que fazer, né? – ela sussurrou com medo de alguém ouvir.
- Lógico que eu lembro.
- Acho ótimo. Então que sua amizade com seu parente comece agora. – e saiu andando, me deixando ali parada sem entender muita coisa.

Suspirei e retornei à sala. Minha amiga tinha tomado o lugar que eu pretendia sentar, ao lado do Coonrado, e o único lugar vago era ao lado do . Sente-me ali sem dizer uma palavra se quer.
Eu tentava de várias formas inventar algum assunto para sustentar com o , mas quando eu idealizava o diálogo em minha mente sempre acabavam do pior jeito. A solução era falar a primeira coisa que viesse na cabeça, sem pensar onde aquilo daria.

- Você já fez o trabalho de Botânica? – mas que porra de assunto era aquele?
- Óbvio que já. Está precisando da minha ajuda, é? – ele se fez de superior.
- Óbvio que não. Pode não parecer, mas eu sou a melhor da turma em Biologia, então eu não preciso da ajuda de pessoas como você. – quem é a superior agora?
- Ogra.
- Aprendi com você. – retruquei imediatamente.

Cruzei os braços e só então percebi que eu recebia da eu olhar de reprovação. O que ela queria que eu fizesse, agradecesse por ele me dar patada? Eu estava fazendo o máximo para ter uma conversa plena com o , ok, pode não ser ao máximo, mas eu estava tentando. Cansei de ser culpada pela minha amiga, levantei e fui até a cozinha. Enchi o copo com água gelada e bebi lentamente, e a cada gole a irritação que queimava a minha garganta ia esfriando até o ponto em que eu estava calma novamente. Eu tinha apenas dois caminhos a escolher e eu já tomara a minha decisão. Tentaria uma ultima vez me aproximar do , se dessa vez não funcionar quero que se foda, ele vai saber de toda a história contada pela boca da , esse era o combinado.
Retornei para a sala e ocupei o mesmo lugar de antes, o mesmo lugar ao lado do . Respirei bem fundo, o que não pareceu suficiente, e escolhi as melhores palavras, ou pelo menos as que eu julgava conveniente.

- , nós podemos conversar?
- O que é? Se for pra ser grossa, não precisa nem começar. – ele estava pedindo por isso, mas eu tinha que ser mais paciente.
- Eu quero conversar de verdade com você. Conversar. – falei ultima palavra pausadamente.

Só então percebi que todos que estavam na sala, pararam para ouvir o que eu falava com o . Ai que eu fiquei mais irritada, todos sabem que eu odeio que fiquem ouvindo as minhas conversas. Eu encarei cada um deles, e o que eles fizeram? Só riram da minha estúpida cara.

- Babacas. – fixei meus olhos num ponto fixo e ali fiquei sem me mexer.
- Vem, vamos conversar em outro lugar. – levantou-se e cutucou meu ombro.

Aquela atitude do me surpreendeu. Talvez ele não fosse uma pessoa tão ruim do jeito que eu imaginada, talvez ele possa ser alguém legal e que eu vá me dar bem. Nós dois fomos para a cozinha, eu me sentei em uma das quatro cadeiras e ele sentou-se bem na minha frente. Ele permaneceu calado até eu julgar que eu estava pronta para começar uma conversa.

- Desculpa pela péssima recepção, de minha parte, quando você entrou na escola.
- Não tem problema. Eu que tenho que pedir desculpas por ter me intrometido na sua vida sem nem ao menos saber quem você era. – eu apenas respondi com um sorriso fraco.
- Obrigado pela sua atitude lá na sala. Por que fez isso?
- Que atitude? Eu ter te chamado pra conversar aqui? – respondi um simples ‘sim’ e ele prosseguiu – Fiquei curioso pra saber o que você tinha pra me falar, e... Bom, deixa pra lá.
- É mancada parar bem ai, você já me deixou curiosa.
- Não vou falar, é totalmente idiota.
- Eu não me importo.
- Tudo bem, vou falar, mas não ria. – ele respirou bem fundo – De certa forma, não sei como, eu me sinto conectado a você. É uma ligação meio estranha e muito forte. Às vezes eu acho que estou pensando a mesma coisa que você, ou tendo a mesma sensação.

Aquilo era meio incomum e um pouco hilário. Fiquei encarando-o, tentava encontrar alguma coisa para falar. Mas o que responder para uma pessoa que se sente conectado a você?

- Tudo bem, não se mate atrás de uma resposta. – caralho, ele sabe mesmo o que eu estou pensando.
- Obrigado, você me livrou de um puta trabalho. E, saia da minha mente agora, eu não te dei essa permissão.
- Eu não estava na sua mente. Qualquer um perceberia que você não sabe o que dizer.
- Odeio transparecer em tudo. Mas de qualquer forma, eu não deixo você saber o que eu estou pensando, isso é tão constrangedor.
- Tudo bem, se você quer. – nossa, que fácil.
- Promete?
- Prometo.
- Ótimo.

Ótimo mesmo foi o assunto ter acabado ali. A conversa com o foi tão confortante, sem querer aquilo me fez bem, aparentemente nós nos daremos muito bem. Tentávamos retomar a falação, porém não passava de monossílabos jogados ao vento. Cansei de ficar sentada. Levantei da cadeira e fui procurar alguma coisa para comer, eu estava com fome. Não achei nada além de pão de forma e bolacha água e sal, nada que mataria a minha fome.

- Vou para a sala ver se alguém quer pedir pizza. – informei ao .

Continua...




n/a: Geeente, eu sou uma autora muito desnaturada. Por pouco que vocês não ficam sem uma n/a. kkk Podem me chamar de burra, eu deixo. Mas nada além disso, ok? Geente, foi att dupla, não éé liiindo? *-* E foi revelador, néé? O que vocês acharam do seu terceiro fave ser seu irmão, heeein? Eu não sei mais o que falar, então... Neste exato momento meu Corinthians ta perdendo pro Rio Claro, comofaz? Mas não vamos falar de futebol, tem coisas mais legais que isso.Entããão nenéns, dia 17/04 tá chegaaando e tem show dos meus liiindos da Believe (quem ainda não conhece a Believe, trate de conhecer, é muuuuito bom myspace.com/bandabelieve ) e a @AnaBiiia vai comigo (iêêê)... E é claro, dia 02/05 também ta chegando e tem show do Nx, a @AnaBiiia vai comigo nesse também, e de camarote. Nota mental: melhorar minhas n/a’s, fikdik. Então eu vou indo, nenis!!! E claro, comentem ali \/ o que vocês estão achando da fic, ok? Podem criticar, eu também deixo. Kkkkk Beeegs @blackslammer



N/b: Só pra avisar que os erros com script jpa foram corrigidos! ;D
Continuem lendo e comentando muito, pq essa fic merece! *-*
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