Our Secret Party
'Bleeding Love'
Autora: Thamih Jones
Beta-Reader: Brille

01

Meu dia estava ficando tedioso, isso era uma coisa que me deixava impaciente e ansiosa. tinha saído cedo para a gravadora ou para ensaiar com os garotos – eu não tinha realmente prestado atenção, estava meio adormecida ainda quando ele me falou. Eu não tinha nem que trabalhar. Eu não tinha treino na pista de patinação hoje, mas poderia ir trabalhar a noite no meu segundo emprego opcional. Não que eu amasse trabalhar naqueles lugares, mas tinha que admitir que era um tanto quanto divertido. Certo, eu teria que esperar a noite chegar, mas fazer o que?
Pensando bem, esse tempo me seria útil, eu estava mesmo precisando dar um trato em mim mesma. Acho que vou começar pela depilação…
Me levantei do sofá, deixando a TV ligada, e subi as escadas até meu quarto. Em meu banheiro tudo estava uma bagunça, mas não tive dificuldade em achar minha maquininha para depilação, já sabia onde tudo se localizava na minha bagunça.
Pernas, virilha… Devolvi a maquininha a seu lugar, pegando a pinça e cuidando da sobrancelha enquanto deixava um produto cuidar do buço.
Molhei meu cabelo e o prendi de um jeito que minha tia havia me ensinado, separando a franja e garantindo que estivesse totalmente esticado. Senti a parte em que ele começava a se afinar e cortei-o ali, soltando-o e rindo ao ver o quanto eles pareciam excessivamente curtos – comparado a antes – agora que estavam emaranhados e totalmente bagunçados por tê-los prendido para frente. Penteei-os e passei a gilete nas pontas. Havia tirado um pouco mais de dois dedos deles, deixando-os um pouco abaixo dos seios, em camadas na frente, somente para tirar as pontas duplas e ressecadas.
Voltei a prendê-los molhados mesmo com uma piranha e fui para o quarto, procurando meu kit de manicure, que parecia ter fugido dali. Esmaltes não tinham perninhas para fugir, mas minha prima tinha para pegá-los.
Sem bater, já que ela não estava em casa, entrei em seu quarto, que ficava em frente ao meu. Estava na escrivaninha embaixo da janela, bem a vista. Quero dizer, tudo naquele quarto estava sempre à vista, já que estava sempre arrumado. Meu banheiro estava bagunçado pela minha falta, mas em geral ele não ficava bagunçado. Não muito. Meu quarto era apenas um pouco desorganizado, mas eu me sentia meio mal ao compará-lo com o dela.
Voltei para sala com o estojo de manicure em mãos, sentei no sofá e comecei a fazer minhas unhas. Laranja, vermelho ou roxo? Roxo combinava mais com meu humor, mas meu dia já estava tão sem graça que unhas vermelhas já seriam alguma coisa, apesar de costumeiras.
Eu já estava no dedo mindinho do pé quando o barulho da porta me assustou, me fazendo pular e consequentemente borrar o esmalte. Olhei para ver quem era – mesmo sendo óbvio, já que eu dividia o apartamento apenas com ela – e Charlotte sorriu para mim, o que eu devolvi com uma carranca.
- TPM? – ela arriscou, fazendo uma careta.
Rolei os olhos. “Não, Charlie, está tudo um tédio e você me fez borrar a última unha”.
- A culpa não é minha se você se assusta fácil, priminha. – E dando de ombros entrou na cozinha, depositando os pacotes que carregava na pia, voltando em seguida para o sofá, só para começar a mudar de canal sem me perguntar nada.
Hey, eu tinha levado um tempão pra achar aquele canal, o único que prestava no momento, isso não era justo.
- Oi, eu tava assistindo – reclamei grossamente.
- Como você pode fazer as unhas e assistir TV ao mesmo tempo? – Ela continuou a zapear deliberadamente os canais.
Aquilo me irritou. Qual é, minha mãe falava isso, só que era sobre lição de casa e afins. “Como você pode assistir TV e fazer lição? Como você pode escrever bilhetes e prestar atenção na aula? Como você pode ouvir música e estudar? Blá, blá, blá…”. Eu simplesmente posso ué.
- Eu não tenho culpa de meu cérebro ser capaz de fazer duas coisas ao mesmo tempo enquanto o seu não – retruquei. – Agora volta pra aquele canal.
- Você nem lembra o que tava assistindo. – Ela finalmente parou em um canal.
- Porra, Discovery? Fala sério, nem minha mãe assistia isso! – Tá, ela assistia às vezes, mas isso não vinha ao caso.
- Vai me dizer que você não adora os suricatos?
- Eu gosto do Timão, mas isso não quer dizer que eu queira ver um programa sobre eles na savana. Agora volta pro canal que tava.
Finalmente eu havia conseguido terminar de pintar e limpar as bordinhas de todas as unhas. Respirei um tanto aliviada.
- Não, eu tô assistindo esse agora.
Enfurecida, levantei com meu estojo em mãos, indo até a TV e a desligando antes de seguir para a escada. Charlotte começou a reclamar atrás de mim, mas eu ignorei isso.
- Da próxima vez vê se coloca as coisas que você tirar do meu quarto de volta no lugar.
- Como se seu quarto tivesse lugar certo pra alguma coisa!
- Meu quarto, minhas coisas, minhas regras – finalizei sem olhar para trás, mas alto o bastante para que ela me ouvisse, e bati a porta do quarto como uma adolescente frustrada. Não que eu fosse muito diferente de uma, afinal.
Coloquei o estojo de qualquer jeito em uma das prateleiras do guarda-roupa, ignorando como sempre o bolo de roupas emboladas ali, e me sentei na cama apoiando os cotovelos nas pernas e o rosto nas mãos. Meu cabelo ainda estava úmido e estava começando a coçar, mas eu ainda não queria tomar banho.
O que melhor para se fazer do que ligar o rádio e perder tempo na internet em horas vagas e tediosas? Foi o que fiz durante algumas horas, até que uma música em particular me chamou a atenção, e eu me peguei observando a foto deles em meu computador.
Olhar para e um como o braço por cima dos ombros do outro na foto da banda, sorrindo como verdadeiros amigos enquanto ouvia Mr. Brightside não era uma coisa muito confortável. estava ficando cada vez mais ousado, o que estava arriscando cada vez mais minha relação com .
Eu me sentia suja, uma pessoa horrível, aquele sentimento de culpa devastando todo meu interior. Mas não conseguia me livrar de nenhum dos dois. Como eu poderia escolher um dos dois sem quebrar o coração de um deles, sem acabar com a amizade que eles tinham? Eu iria acabar com a amizade deles, o que acabaria com a banda, o que afastaria os quatro homens mais unidos que eu já havia conhecido, seria uma calamidade.
E como eu poderia ousar escolher entre dois homens que tanto me completavam? Eles eram parecidos e ao mesmo tempo distintos, me faziam sentir tão viva quanto se era possível.
Mas todo esse sentimento de culpa variava de forma constante. Eu amava o perigo de estar com e amava o conforto de estar seguramente nos braços de . Por vezes, eu me sentia tão culpada por estar com , como se fosse fosse o traído, que eu tinha que me afastar para tentar respirar melhor. Mas quando eu me sentia culpada por estar com , eu não conseguia me afastar. Ele não deixava, meu corpo não me permitia.
A música já estava no final quando eu desliguei o rádio com violência. havia me dito há três semanas que aquela música descrevia que era como ele se sentia, quando ele me disse que as coisas estavam ficando cada vez mais difíceis para ele. Eu estava o machucando cada vez mais, era como se ele me amasse, me desejasse mais a cada dia ao invés de se enjoar de mim, de começar a me odiar. O problema era quem, assim como ele me amava cada vez mais, eu também o amava, e a .
Houveram batidas na porta e eu dei um pulo para trás, meu coração na boca.
- Amor? – a porta se abriu, revelando . Meus olhos se arregalaram, minha respiração acelerou. Era uma sensação retardada de como se ele pudesse ter ouvido meus pensamentos. – Você está bem? – ele perguntou preocupado.
- Ahn? Ah, estou. – Eu me recompus, sorrindo forçadamente para ele.
– Você me assustou, só isso.
Ele riu, entrando no quarto e me abraçando.
- Eu te avisei que ia voltar mais ou menos essa hora.
- Avisou? Ah, , você sabe que eu nunca assimilo nada enquanto não acordo direito. – Recostei minha cabeça em seu peito, sentindo um vazio enjoativo no estômago.
- Os caras estavam querendo sair hoje, mas eu não sei se eu vou.
- Ah, eu prometi ajudar Charlie com uns trabalhos dela, ela tem um gigante que é pra amanhã e não conseguiu fazer nem metade ainda. – É, lá estava eu usando mais uma vez Charlie como desculpa. Eu sempre tinha alguma.
- Sério? – ele tinha uma voz chateada agora, o que me fez abraçá-lo mais forte. – Odeio essa maldita faculdade dela. Quem faz faculdade afinal, você ou ela?
- , ela trabalha o dia todo coitada, mal tem tempo para estudar para as provas. Se não fosse por ela eu não poderia estar morando em Londres, lembra?
Ele bufou irritado.
- Estava querendo fazer alguma coisa com você hoje à noite, um jantar, beber alguma coisa, sei lá. Ficarmos sozinhos um pouco, longe dos caras, essas coisas”.
- Own. – Eu passei a mão por sua bochecha e lhe dei um selinho. – Podemos fazer isso amanhã, o que acha?
Ele rolou os olhos.
- Tenho outra opção?.
- Aproveite e saia com eles hoje. – Eu sorri tentando ser doce com ele.
- Tá bem. – Ele me deu um beijo na testa.
- Sem mulheres – eu tive que falar.
Ele deu de ombros.
- Você é a única pra mim.
Ele encostou os lábios nos meus, acariciando minha língua com a sua por longos minutos, até me dar um selinho e ir embora.
Bom, já estava realmente na hora de tomar um banho, afinal deixar meu cabelo molhado preso o fazia inevitavelmente coçar horrores.
- E aí, vamos comer plástico ou isopor hoje? – brinquei com Charlotte quando adentrei o a cozinha com a toalha na cabeça, meia calça por baixo da calça jeans e sutiã.
- Qualquer coisa que eu faça sai melhor do que o pedaço de pedra que são seus bifes – ela retrucou, destampando uma panela de onde saiu uma grande quantidade de vapor. – me perguntou sobre o que era o meu trabalho.
- O que você respondeu? – questionei sentindo meu coração dar uma guinada.
- Que era sobre as guerras alemãs, espero que você não tenha falado outra coisa, porque ele parecia desconfiado.
Soltei o ar aliviada.
- Não, eu não tinha dito sobre o que era o trabalho.
- Você não vai contar pra ele nunca né? – Ela se virou do fogão para olhar em meus olhos.
- Pra ele me xingar e me proibir de trabalhar, isso se não terminar comigo? E onde eu vou arranjar um emprego que seja tão flexível e ganhe tão bem? – Eu desviei meu olhar do dela e comecei a separar os partos e talheres.
- Você que sabe, mas ficar inventando tanto não vai dar certo. Minha faculdade não vai durar pra sempre sabia?
Um cheiro fraco de algo queimando chegou a minhas narinas.
- Charlie, a comida tá queimando!”.
Ela deu um pulo assustada e desligou o fogão, fazendo com que nós duas ríssemos.
- Saudade de quando minha mãe cozinhava pra mim – ela desabafou.
- Saudade de quando minha mãe fazia tudo pra mim – eu confessei, e nós trocamos sorrisos cúmplices de saudade.
Nós comemos a comida que parecia borracha e limpamos a cozinha juntas, antes de eu tomar a direção de meus aposentos para terminar de me vestir para sair.

02

Era muito rotineiro o que eu faria hoje: sair, encher a cara e descontar mais uma vez minhas frustrações na primeira gostosa que eu visse.
Eu devia ter visto os sinais para parar há muito tempo, mas tudo o que eu sentia era irrefreável. Era como se toda vez que eu a visse minha mente trabalhasse de um jeito diferente, de modo insano. Entre uma mulher e meus amigos é claro que eu escolheria meus amigos, isso era lógico. Mas com ela nada era lógico, então eu não podia evitar trair meu amigo. Isso era terrível, difícil para mim, eu prezava a amizade mais que tudo, nossa banda era minha família, mas se essa era a condição para poder tê-la em meus braços, eu me subordinaria.
- Dude, a não vai gostar nada de saber que eu estou indo para uma boate dessas – disse repetiu como todas as vezes que íamos para algum lugar daqueles.
, sempre preocupado demais, sempre agindo como certinho até que do nada resolvia esquecer que tinha uma namorada. Me poupe.
- Ela não vai ficar sabendo, como sempre – disse no banco de trás.
Eu me recostei no banco do carona, colocando as mãos atrás da cabeça e relaxando o corpo.
- Igual à , né? – Sim, eu não resistia a cutucá-lo pelo menos um pouco.
- Eu dei a opção dela passar a noite comigo, ela que não quis. – Ele se defendeu.
Eu sorri de olhos fechados, adorava quando ela deixava na mão. Hoje, porém, era uma pena que não fosse por minha causa.
- Por quê? – questionou. Ele estava sentado (esparramado) ao lado de , enquanto dirigia.
- Ia ajudar a prima com um trabalho da faculdade – ele respondeu irritado. – De novo.
- Dude, acho que as duas têm um caso – zombou. – Você não tá dando conta da menina coitada. Hey, qualquer dia desses eu posso ensinar umas coisinhas pra ela se você quiser. Ouch!
havia lhe dado um tapa na cabeça, eu conhecia aquele som da mão batendo em sua nuca muito bem, de tão freqüente que acontecia.
- É, eu nunca vejo a prima dela com nenhum cara, e ela já foi bater na porta algumas vezes puta porque a estava gemendo muito alto. – Todos no carro riram, menos eu, que senti vontade de virar no banco e socar ele. Respirei fundo, ignorando o ódio que esquentava meu sangue. – Mas a não é lésbica. Talvez ela tenha largado a priminha depois que descobriu minhas habilidades.
- Eu ainda acho que foi ao contrário. Você é tão ruim que traumatizou a coitadinha e agora ela prefere passar a noite com a prima do que com você – eu não pude evitar o ciúme em minha voz, mas eles riram, provavelmente nem o notando.
- Eu ainda sei me divertir sem ela – ele disse, achando aquilo ótimo.
Sorte dele então, pois eu já não sabia mais me divertir sem ela.
- Acho que dá pra estacionar aqui. – mudou de assunto, parando o carro próximo ao meio fio.

Apoiado no balcão do bar, rodei o copo em minha mão, fazendo seu conteúdo girar dentro dele. Todos os outros caras estavam de costas para o bar, olhando as strippers como se nunca tivessem visto mulher antes na vida. Eu apreciava o trabalho delas, mas nos últimos meses eu precisava de muita bebida antes de lhes dar atenção. Os paparazzi já estavam até cansando de me fotografar saindo bêbado ou até carregado de lugares como aquele, isso já não era mais notícia. Frustrado, virei o líquido de uma vez só pela garganta, batendo o copo no balcão com um pouco mais de força que necessário e adorando a sensação de queimação que descia por minha garganta como fogo.
- Mais uma dupla – ordenei ao bartender, que não se demorou a preencher meu copo novamente.
Somente quando minha visão começou a ficar lenta, juntamente com meu raciocínio, eu me virei para olhar o lugar, localizando , e sentados quase que no meio do lugar. Eu nem havia percebido que eles tinham ido para longe de mim. Levando o copo comigo, fui até eles, sentando ao lado de , que já parecia meio alterado.
- Não podiam ter sentado em um lugar mais discreto não? – perguntei a eles, ignorando a garota a nossa frente que se esfregava no poste.
apenas balançou a cabeça negativamente, os olhos vidrados na garota, enquanto os outros pareciam nem ter me ouvido.
Recostei-me no sofá e olhei para a garota a nossa frente. Ela tinha cabelos pretos como a noite e uma bela bunda, apesar de não ser muito avantajada na parte superior. Eu não via graça nela, apesar de seus movimentos serem e sexy.
Excitado? É claro que aquilo me excitava um pouco, mas ainda assim não tinha graça. Eu sabia que se eu transasse com ela não teria graça. Seria apenas mais uma noite, mais uma garota qualquer. Ela, ou qualquer outra, não conseguiria me satisfazer completamente, não importando quão bêbado eu estivesse. A não ser pela única exceção.
Balancei a cabeça frustrado novamente, virando mais uma vez a bebida goela abaixo. Eu estava em um lugar como aquele para esquecer dela, não para ficar me lamentando. E o fato da garota a nossa frente ser morena não estava ajudando.
- Vou procurar outra – murmurei para , que nem desviou o olhar da dançarina. Ninguém mandou escolher a baranga da como namorada.
Observei a minha volta as outras garotas, mas nenhuma em particular me chamava à atenção. Talvez só não fosse dar muito certo hoje, talvez eu devesse procurar outra coisa para fazer.
Avistei em um canto escuro – sendo que o lugar já era mal iluminado – um lugar vazio, sem dançarina, sem ninguém, para onde fui atraído. Ao me sentar ali ri sozinho, imaginando que pensariam que eu poderia estar me masturbando, afinal, é meio suspeito um cara se isolar em um lugar como aquele. Que se dane.
Fechei meus olhos e recostei a cabeça na quina atrás de mim, tentando organizar meus pensamentos e ao mesmo tempo ignorar a maioria deles. O que estava acontecendo comigo? Desde quando eu me deixava afetar daquele jeito por uma mulher?
Mas não adiantava. Seu rosto, suas curvas, seu sorriso, sua voz… Ela não saia da minha mente.
Me levantei dali decido a achar uma stripper qualquer, decidido a beber até desmaiar se fosse necessário. Eu já estava na metade do caminho de volta ao bar quando a música aumentou e o lugar ficou com uma iluminação ainda mais fraca, dando destaque ao palco que ficava do outro do estabelecimento. Pedi mais uma bebida e fui para perto do palco, onde seis garotas entravam. e estavam para lado direito, então eu me direcionei ao esquerdo, olhando por cima do ombro para achar com uma gostosa com o curto uniforme de garçonete em seu colo. Eu queria poder tirar uma foto e mostrar a .
A música mudou, e as seis garotas começaram a dançar, parecendo se divertir com aquilo. Elas vestiam curtos shorts jeans colados com a barra esfiapada e babylooks brancas. Não tinha uma ali que não fosse gostosa e bonita, apesar de que a bebida podia estar melhorando alguma coisa, eu não tinha certeza.
Elas se mexiam ao ritmo da música, hora de modo sincronizado, hora de modo aleatório.
Em duplas, elas se aproximaram e passaram as mãos uma pela outra de modo provocante – o que me trouxe lembranças de uma festa há menos de dois meses atrás – e trocaram de lugar, o que fez com que agora uma garota de cabelos ruivos intensos ficasse a minha frente. Ela tinha uma franja reta que chegava a metade dos olhos, o cabelo com pouco movimento até metade das costas, maquiagem forte preta nos olhos, um batom vermelho chamativo e um corpo esculpido por Deus. Ela tinha os movimentos mais incríveis que eu já havia visto em uma mulher. Não era como qualquer stripper que crescera em um lugar sujo ou fora mimada pelos pais e se revoltara, mas ela tinha movimentos quentes com um toque sutil, elegante. Estava claro que ela sabia o que fazia, levando suas mãos até atrás da cabeça e deslizando pelo pescoço e lateral do corpo, fechando os olhos e abrindo ligeiramente a boca, rebolando de um modo que estava me enlouquecendo. Todas as garotas tiraram a blusa, revelando um top branco, e passaram as blusas por seus corpos, passando-os de forma provocante por entre as pernas, antes de beijar as camisetas e jogá-las para nós. Uma delas foi bem na minha cara, e eu sorri pervertido para a ruiva, mesmo ela não tendo me notado ali.
Durante eternos minutos seguintes, eu achei que iria surtar com aquela garota a minha frente, minha calça estava tão apertada que minha vontade era subir naquele palco e arrastá-la para trás das cortinas, comê-la ali mesmo.
Elas já estavam sem o short, apenas com calcinhas finas e ainda o maldito top, quando em sincronia se jogaram de quatro contra o chão, engatinhando para mais perto da ponta do palco, até que pararam e ficaram de joelhos, passando a mão por seus próprios corpos. A ruiva a minha frente fazia movimentos tão perfeitos e ousados que eu achei que seria capaz de gozar apenas olhando-a.
Dei alguns passos para frente, a luz agora batia diretamente em seu rosto. Ela tinha olhos azuis, cílios excessivamente longos, a pele tão lisa e branca pela maquiagem e os lábios tão vermelhos que teria sido incapaz para qualquer um reconhecê-la. Mas aqueles traços eram familiares demais para mim, eu já os havia observado tanto que seria capaz de desenhar um quadro de sua imagem mesmo com os olhos fechados. Mas a bebida estava me deixando confuso, eu não conseguia ter certeza do que estava vendo.
Até que ela me viu. Nosso olhar se encontrou e eu pude ver toda a intensidade de sua alma mesmo através daquelas lentes azuis. Não, não podia ser ela…

03

Meus olhos se arregalaram imediatamente ao reconhecer aquele rosto, aqueles olhos. E eu soube no mesmo instante que ele me reconhecia também. Maldição, não é possível! O que ele está fazendo aqui? Como ele me achou? Ai Meu Deus, será que estava ali também? Eu estava ferrada.
Para minha sorte, estava na hora de levantar, e eu aproveitei para escapar para o camarim o mais rápido que pude. É claro que o camarim daquele lugar era dividido com todas as outras dançarinas e não era exatamente luxuoso, mas o lugar não era de todo ruim.
Arranquei minha peruca e a joguei contra o espelho, me jogando no desconfortável sofá atrás de mim e afundando meu rosto nas mãos. Inevitavelmente comecei a chorar, sentindo desespero, ódio e medo.
Passei as costas da mão contra meus lábios, querendo me livrar daquela maquiagem. Eu havia estragado tudo. iria achar que eu era uma vagabunda qualquer, nunca mais olharia na minha cara. Eu era um lixo, estava acabada.
Eu podia imaginar a cara de decepção de , apesar de tudo em sua expressão ter apresentado apenas surpresa e confusão. Meu choro aumentou e eu bati minha cabeça contra o sofá, tentando aliviar minha dor interna, o que na verdade não ajudou em nada.
A porta do camarim se abriu e fechou com um estrondo, me fazendo pular de susto e me sentar rígida no sofá.
- Que porra você acha que tá fazendo? – sua voz grossa ribombou alta pelas paredes, me fazendo encolher as pernas contra meu corpo.
- Vá embora – eu tentei manter minha voz firme, mas não havia como esconder meu choro. Passei as mãos com força contra os olhos, pouco me importando em como isso borraria drasticamente a grande quantidade de maquiagem escura ali. - Não quero falar com você.
Ele riu ironicamente.
- Você não quer falar comigo? Você faz uma coisa dessas, - ele abriu o braço direito em direção a porta - e não quer falar comigo? Como você foi capaz disso? - Havia dor em seus olhos, decepção. Aquilo me rasgou por dentro com força total.
- É um trabalho como qualquer outro, eu só estou tentando ser alguém! - respondi grossamente, me levantando e indo em frente ao espelho para me livrar das lentes de contato que irritavam ainda mais meus olhos, assim como aqueles malditos cílios longos.
- Ser alguém? Desse jeito? O que você acha que vai conseguir aqui dentro? Já pensou no quanto isso aqui te afunda Thamíris, no quanto isto te rebaixa?
- Me rebaixa? – Aquilo estava começando a acordar o ódio dentro de mim. Peguei minha bolsa e guardei minhas lentes na caixinha, enfiando todo o resto dos apetrechos nela sem nenhum cuidado em seguida. Então me virei para ele. – Eu não nasci com a vida ganha, eu nasci em um lugar muito diferente daqui, Daniel, eu já enfrentei muita coisa para chegar onde estou hoje, não preciso de alguém como você me apontando como se eu fosse uma vagabunda qualquer. Ou você acha que eu estaria com vocês hoje se não trabalhasse aqui, se não pudesse pagar o belo apartamento onde moro ou as roupas e sapatos caros que tenho que usar para ir com vocês a estréias, festas e programas que tanto adoramos? Vocês sequer olhariam na minha cara.
Ele me olhou de forma magoada, se aproximando de mim.
- Isso não é verdade, não jogue a culpa para cima de mim. Dinheiro não faz diferença alguma pra mim.
Foi minha vez de rir com descrença.
- Certo. Pra você é fácil dizer, você tem de sobra. Como você acha que eu me sinto vendo as garotas que vocês pegam, que cresceram sustentadas de bom grado pelos pais com suas roupinhas de grifes e vozes enjoadinha, falando sobre coisas inúteis porque nunca tiveram que aprender as coisas de verdade pelo modo difícil? Eu me cansei de apenas sobreviver , isso daqui é o que eu faço.
- E é por isso que eu te amo. – ele disse sério, franzindo as sobrancelhas – Você é diferente delas. Você é uma mulher forte e decidida, e eu amo isso em você. Mas por que você tinha que escolher fazer uma coisa dessas? Você não pensou no quanto isso me machucaria? Eu estou pouco me fodendo para suas malditas roupas, para seu maldito apartamento. Eu, eu não entendo…
- sempre me deixou bem claro o quanto aprecia todo esse luxo, e vocês não ficam atrás. , você não entende? – Eu me aproximei ainda mais dele, pousando minhas mãos nas laterais de seu rosto. – É a única coisa que eu sei fazer que pague tão bem.
- Mas… - Ele fechou os olhos e colocou as mãos sobre as minhas. Aquela luz amarelada vindo das lâmpadas empoeiradas me dava senso de realidade, não me deixava esquecer que nada era tão fácil. – Eu sei o quanto você é boa nisso, mas… Por favor, , me diz que você não se prostitui – ele abriu os olhos, permitindo então que lágrimas escapassem de seus olhos. – Eu não poderia suportar…
Eu me afastei dele, um tanto espantada.
- É claro que não – eu balbuciei, ofendida. – Como você…? Ora, , vá para o inferno.
Ele respirou fundo, assimilando as informações.
- Mesmo assim. – Ele se aproximou novamente, decididamente com raiva. – Como você consegue fazer uma coisa dessas, como você se deixa ser tão… Vulgar? Isso é ridículo, , você não vê? Você não é assim.
- , eu sou assim! Olhe para minha vida! Eu durmo com dois homens que são melhores amigos apenas pelo fato de não conseguir escolher entre eles! Que diferença faz o que esses homens aí fora pensam quando me vêem dançando? Eles não sabem quem eu sou, eles apenas conhecem o que vêem naquele palco. É apenas um trabalho, no qual eu me dou muito bem, no qual eu até me divirto. E o que você está fazendo aqui, afinal?
- Estava tentando te esquecer, como sempre – havia irritação em sua voz. – Olhe para mim. – Eu me foquei em seus olhos, me sentindo suja. Era estranho, mas era como se eu precisasse que ele aprovasse as coisas que eu fazia, como uma filha tentando deixar a mãe orgulhosa. – Você me promete que não vai mais trabalhar aqui? Promete que nunca mais vai fazer esse tipo de coisa?
- Não seja ridículo.
Ele segurou meus braços, próximo a meus ombros, ainda mantendo o contato visual de forma intensa.
- Estou falando sério, você não vai mais trabalhar aqui.
- Eu trabalho em três, às vezes quatro boates diferentes, e ganho muito bem pra isso. Não vou largar isso pra ter uma vida medíocre apenas porque você não se sente confortável com isso.
- Eu arranjo outro emprego pra você – ele disse decidido.
- Com horários tão flexíveis que me permitam treinar e participar das competições de patinação com um pagamento tão alto? Duvido.
Suas mãos aumentaram a força do aperto em meus braços.
- Eu dou um jeito, você tem que me prometer que não vai mais trabalhar nisso.
- Não vou prometer nada. – Eu me sentia ofendida pela forma como ele falava comigo, como se eu estivesse fazendo algo realmente errado.
Ele me apertou ainda mais forte.
- Eu não vou deixar.
- Me solta, – eu disse séria.
- , pare com esse maldito orgulho! Você não pode continuar trabalhando nisso.
- É claro que posso, faço isso há muito tempo. O único abusando do orgulho aqui é você.
- Certo, já que você pensa tanto em como só juntou-se com a banda para cima e para baixo porque tem dinheiro para se acertar com nossos luxos, não pensou em como vai ser quando descobrirem o que você faz?
- Ninguém vai descobrir nada, ninguém sabe nem meu nome por aqui, ninguém nem me vê sem toda essa maquiagem. Acha o que, que algum paparazzo vai me achar em um lugar perdido como esse e me colocar na capa das revistas? Não, , eu sei me cuidar.
Ele ergueu as sobrancelhas, transparecendo uma graça irônica.
- Eu não falei nada sobre paparazzi.
Franzi as sobrancelhas, sentindo a região sob suas mãos começar a formigar.
- Do que você está falando? – Ele continuou me encarando de um modo maligno, até eu me dar conta. – Você não seria capaz!
Ele riu.
- E por que não? Se ele te ama tanto, vamos ver se ele seria capaz de lidar com isso.
- Seu desgraçado! – Eu tentei me soltar de suas mãos, mas ele me segurou com ainda mais força. – Você está me machucando, me solte!
- Prometa! – ele exigiu, me sacudindo.
- NÃO! – eu gritei na cara dele.
- Não seja idiota, apenas prometa de uma vez! – ele ordenou com raiva, me dando mais uma sacudida.
- Eu te odeio, nunca devia ter deixado você chegar perto de mim! ME SOLTE!
- Ótimo, eu vou contar a ele e você que se vire! – Ele me jogou contra o sofá, se direcionando a porta em seguida.
- NÃO! – eu corri para ele e parei em frente à porta, bloqueando seu caminho.
- É sua escolha – ele disse inflexível.
- Daniel, por favor – sim, eu estava implorando. – Não faça isso.
- , sai do meu caminho.
Eu apenas não agüentava mais, desmoronei. Deixei que meu corpo desabasse, ficando de joelhos ao lado da porta, afundando meu rosto entre as mãos e chorando tão alto que era possível ouvir meus soluços no corredor.
- Vocês são tudo o que eu tenho – eu sussurrei antes que a porta se batesse ao meu lado.

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Xoxo Thamih (Bittencourt) Jones

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