Murder Living
CAPÍTULO I - Cause I mean this more than words could ever say
(Porque eu quero dizer isso mais do que palavras jamais irão dizer)
"Certas pessoas dizem que o amor acontece à primeira vista, talvez seja verdade, talvez não. Mas comigo o amor demonstrou ter varias faces... desde a face do riso até a face do pranto".
Eu soube, inconscientemente, desde o primeiro momento que o vi, que o amava. Só que talvez tenha interpretado esse sentimento de forma errada, mas era amor, sim, sem dúvidas, era e continua sendo amor.
E este amor foi tão arrebatador que, me levou a mais extrema das alturas e me carregou para o mais profundo dos abismos.
Hoje, tomei a coragem de tentar por em palavras o que sentia por muito tempo. Talvez consiga, talvez não... não posso lhes assegurar nada, pois, por muitas vezes, nem ao menos consegui realmente dizer o que senti... os sentimentos podem ser confusos, o amor e o ódio não estão tão distantes um do outro como muitas vezes imaginamos... foi isso que eu aprendi.
A partir daquele dia..."
CAPÍTULO II - I'm so dirty, babe
(Sou tão suja, querido)
"Foi uma época difícil, de dificuldades tão absurdas que queria apenas me recolher em meu quarto, fumar um cigarro e pedir para a humanidade esquecer que um dia existi. Estava distante de minha mãe havia tempo, cerca de três anos, talvez mais, nos falávamos uma vez por mês, não era muito, mas o suficiente. Não havia muitas coisas que gostaria que ela ficasse sabendo, o sonho da pobre garota que vai para a cidade não estava dando certo. Mamãe sempre perguntava como iam as coisas "não muito bem, mas é temporário..." dizia eu, o engraçado era que eu realmente acreditava que seria temporário. Deus nunca nos dá um fardo maior do que podemos carregar, era o que sempre dizia mamãe.
Pobre mamãe, sempre acreditando que a força divina agia em favor dos justos, não era bem assim, Deus definitivamente não existe, eu sei, eu descobri, do meu próprio jeito. A vida me mostrou que Deus não tem nada a ver com suas escolhas, mas sim você, somente você, e a vida te faz ficar tão suja. Eu estou tão suja...
Nunca fui de me deixar abalar na frente dos outros, sempre me mostrei forte, independente. O meu escudo sempre foi o riso, desde pequena, quando me sentia inferior, miserável e mal vista. Escondia-me atrás do riso, e funcionava... Sim funcionava muito bem... Ninguém nunca descobriu ou mesmo desconfiou.
Sempre fui uma pessoa de poucas amizades, porém amizades leais. Suzan foi uma delas. Bonita, alegre... a única que conseguia me tirar dos momentos de depressão. Sim, sofro depressão, descobri há alguns meses e comecei a me medicar... mas isso não vem ao caso agora. Como dizia, Suzan conseguia fazer sentir-me como alguém especial. Segurou muitas barras pra mim já, como a dos dois meses de aluguel atrasado que ela se comprometeu a pagar ou mesmo emprestar uma grana pela erva que eu fiquei devendo para uns caras.
É difícil admitir, mas, sim, eu consumia drogas. Drogas de todos os tipos: desde a mais simples à mais pesada. Não que eu as consumisse dia-a-dia, não, somente quando saia para a noite, era divertido, ficava mais solta e esquecia dos problemas. No dia-a-dia no máximo uns baseados, nada que pudessem comprometer.
Estava com 20 anos nessa época, vim para a cidade grande no intuito de tentar estudar, crescer na vida, fazer fotografia. Estranho, eu sei, mas por trás das lentes de uma câmera eu sentia como se fosse outra pessoa, como se esse mundo cruel e imundo pudesse melhorar de alguma forma. Como se algo lindo ainda resistisse à essa imundice banal e estivesse lá apenas esperando para ser capturado e guardado. O sonho de ser fotógrafa acabou a partir do primeiro dia em que fui em uma das faculdades pedir uma bolsa de estudos para o diretor.
"Você é uma menina de grande potencial para a fotografia sem dúvida" foi o que me dissera, só que havia um preço alto demais para ser pago para que eu pudesse entrar na universidade, alto talvez para os outros. Não para mim. Sim, é vergonhoso dizer isso, mas, dormi com o diretor da faculdade, ele devia ser 30 anos mais velho que eu, talvez mais, me senti imunda, suja. Mas é a vida, sempre me pregando peças. Mas a vida não estava satisfeita, queria mais, muito mais, a bolsa de estudo não veio. Não foi diferente nas outras universidades, nãos começaram a ser as respostas para o meu sonho, sempre não, não, não... até que chegou uma hora que o melhor a fazer foi desistir e tentar viver dignamente.
Foi o que pelo menos eu tentei.
CAPÍTULO III - Well I though I heard you say 'I like you'
(Bem eu pensei ter ouvido você dizer que gosta de mim)
Conheci Suzan por acaso em uma festa heave, na verdade nos conhecemos de uma forma hilária, Suzan nunca escondeu sua opção sexual, ela era bissexual. Na época, para uma garota do interior isso era uma afronta.
- Oi...
- Oi...
- Posso te pagar uma cerveja?
- Claro...
- Hei, Joe, duas cervejas aqui sim? Então como se chama?
-
.
- Oi, eu sou a Suzan.
Não vou negar que Suzan era uma companhia adorável. Até o momento em que ela me beijou. Não gostei nem um pouco do que ela fez. Fiquei assustada, só havia saído com homens em toda a minha vida e a atitude dela foi constrangedora pra mim.
- Olha, Suzan, eu gostei muito de te conhecer, mas acho que você entendeu tudo errado...
- Não tudo bem, eu entendo sim... olha, me desculpa, eu não sabia que... bem... Ora, você entendeu, né?
- Ah, sim... Claro.
- Desculpa mesmo, , eu espero que nós possamos ser amigas.
- Claro, amigas, sim...
E a partir daquele dia nunca mais nos separamos. O fato de Suzan ser bissexual não mais me incomodou, ao contrário, me fez abrir os olhos de como a sociedade em que eu vivia era preconceituosa e má.
Comecei a morar com Suzan, dividindo o aluguel de um apartamento pequeno e barato. Suzan me ajudou muito me arranjando um emprego de garçonete. O salário não era bom, mas ajudava a pagar as contas e me manter viva.
Trabalhava na lanchonete das 8 da manhã às 10 da noite. Nunca saia às 10, sempre depois de fechar a loja, limpá-la e fechar o caixa.
E foi em um dia como qualquer outro que eu o conheci...
- Oi, o que vai querer?
- Hum... acho que o de sempre, torradas, ovos mexidos, café... E o seu telefone.
- Hã?! - não dava pra negar, ele era o cara mais lindo que eu havia visto, com um sorriso cativante, olhos mel, cabelos claros. Mas eu estava a trabalho e sabia o que esses caras querem com as garçonetes, então tentei ser o mais profissional possível - Ah, já volto com o seu pedido.
Quando voltei com o seu pedido à mesa depois de alguns minutos.
- Hum... perfeito... só que...
- Falta alguma coisa?
- Sim... o seu telefone.
- Desculpe, estou no meu horário de trabalho, agora se eu puder te ajudar em mais alguma coisa?
Ao contrário do que pensei, ele deu um sorriso encantador e disse:
- Não, acho que já tenho tudo o que quero... no momento.
No final do expediente, ele estava lá. Que loucura, pensei comigo mesma, mas ele não pareceu se abalar com o olhar gelado e enviesado que eu dirigi a ele. Simplesmente passei reto por ele para voltar para casa.
- Hei, vai me deixar aqui sozinho? Fiquei te esperando todo esse tempo pra nem ao menos saber seu nome?
Nessa hora lembro-me de ter parado, virado e dito:
-
. Agora, boa noite.
- Oi,
, eu sou o Matt. Posso te acompanhar de volta pra casa?
Foi irresistível não ter aceitado, ele era tudo o que uma garota queria, ele parecia ser sincero e companheiro, então o deixei me acompanhar até em casa. Chegamos em casa mais rápido do que esperava.
A partir daquele dia ele ia me buscar toda noite depois do serviço na lanchonete, ele parecia realmente gostar de mim. E eu estava realmente gostando dele.
- Hã... não quer entrar e tomar um café?
- Claro.
Me sentia muito nervosa, não que eu já não tivesse feito isso antes mas sempre me sentia nervosa quando era a primeira vez com uma pessoa, nem ao menos nos havíamos beijado, eu sei que parece estranho mas ele parecia realmente querer algo sério comigo e respeitou o meu tempo.
Quando ele entrou no apartamento, Suzan estava acordada lendo uma revista deitada em uma poltrona velha.
- Hei,
, já chegou... eu preparei a janta pra você, é só requentar e... Oi.
- Hã, oi, Suzan. Bom, esse é o Matt, o amigo no qual eu te falei...
- E aí, Suzan, tudo bom? A
fala muito de você...
- Que bom... - Estava estampado na cara dela de que ela não foi com a cara do Matt.
- Bom, acho que já vou dormir. Foi um prazer, Matt. Até amanhã,
.
Nós dois ficamos em silêncio, vendo-a se retirar da sala e entrar no quarto dela. Não havia gostado da reação de Suzan, Suzan era a minha família em Nova York e era importante pra mim que ela aceitasse o Matt.
Enquanto pensava no que Suzan havia acabado de fazer, senti Matt se aproximando por trás de mim colocando meu cabelo de lado e dizendo:
- Eu sei que é cedo pra dizer isso, mas... eu te amo.
Fechei os olhos e absorvi cada palavra que ele disse, como eu queria ouvir aquilo.
- Também te amo Matt.
Aquilo foi o sinal verde. Matt virou-me com tudo e me deu um beijo ardente e apaixonado. Senti minhas pernas ficarem bambas, meu coração acelerar e senti meu corpo desejando mais. Não demorou muito e fomos para o meu quarto. Lá, me entreguei a Matt de corpo e alma, desejando apenas sentir o momento, desejando ser amada, ser completada. Me entregar a Matt me fez a mulher mais feliz do mundo. Me senti completa. Me senti amada.
Tudo o que eu mais queria.
CAPÍTULO IV - This happens all the time and I can't help but think I'll die alone
(Isto acontece todo tempo e eu não posso deixar de pensar que acho que morrerei só)
As semanas foram se passando e eu estava cada vez mais apaixonada pelo Matt. Ele estava sempre presente na minha vida, sempre sendo participativo.
Ele era mais do que perfeito, sempre de bom humor, receptivo, companheiro. Com Matt ao meu lado parei de fumar maconha e de consumir qualquer outro tipo de droga.
Passaram-se três meses e Matt veio morar comigo e com Suzan. Não foi nem um pouco fácil, pois depois de um certo tempo de relacionamento entre Matt e eu, Suzan disse com todas as palavras: "Eu não gosto dele,
, e sei que ele não é o homem certo para você, ele vai te fazer sofrer." Brigamos muito depois do que ela me disse, ela me magoou muito dizendo aquilo, estava claro que ele me amava e eu a ele. Não entendia a reação de Suzan, até pensei em largar o apartamento, mas Matt achou melhor não, disse que éramos amigas e não poderíamos ficar desta forma. Ele me convenceu e eu fui pedir desculpas por todas as coisas que disse a ela e que, provavelmente, também a magoaram.
Estávamos morando juntos há cerca de três meses e tudo corria às mil maravilhas. Matt estava passando por um momento de dificuldade, não achava emprego e sentia-se muito mal contando comigo para nos sustentar. Não ligava, sabia que mais cedo ou mais tarde ele acharia algo.
Até que certo dia, quando não estava passando muito bem, o dono da lanchonete resolveu me dispensar mais cedo. Havia dias que eu não melhorava, acreditava ser alguma virose ou algo do gênero. Suzan achava que eu não estava me alimentando direito e estava me ralando no trabalho. Talvez fosse verdade, já não era fácil me sustentar com o salário da lanchonete, o que dirá sustentar duas pessoas. Cheguei em casa mais cedo, querendo tomar um banho e ir direto pra cama, quando abri a porta do apartamento e não encontrei Matt, deduzi que estivesse no quarto descansando, o que eu não esperava era que estivesse descansando com outra mulher. O choque foi horrível, minha cabeça começou a doer, fiquei com nojo de onde dormia. Uma loira oxigenada tentava se cobrir enquanto Matt levantava-se e tentava me explicar o que estava acontecendo.
-
, amor... eu, eu posso explicar...
- Cala a boca, Matt!! Quem é ela, hein? Há quanto tempo vocês estão juntos, me fazendo de trouxa, hein? Seu... seu desgraçado! Sai já do meu apartamento! Você e essa vadia!
A única coisa que me lembro é que vi minha vista escurecer, agüentei firme, me segurei na porta e fui pro banheiro, onde me tranquei e fiquei por horas. Horas de inconsciência. Tenho uma vaga lembrança de escutar Matt batendo na porta e me chamando, as batidas persistiram, persistiram e... de repente, cessaram. Não sei quanto tempo mais fiquei ali, trancada, olhando pro nada. Creio eu que adormeci no banheiro. Até ouvir um barulho e ver Suzan junto com o porteiro arrombando a porta do banheiro com rostos preocupados. Não entendia nada. Só lembro que me veio a memória tudo o que eu havia visto, então senti uma dor aguda no coração, de decepção. Um soluço brotou em minha garganta, seguido de vários e vários, que pareciam não cessar nunca.
Suzan estava lá, comigo, me abraçando. O porteiro se fora, não me lembro quando.
- Suzan... como você estava certa, Suzan... como pude ser tão... estúpida!
- Shhh - silenciou-me Suzan - não pense nisso agora,
, eu tô aqui com você, eu vou cuidar de você, eu juro.
E ela cumpriu, ficou comigo até eu pegar no sono.
Os dias se arrastaram, eu estava definhando. Pouco a pouco, fui voltando à antiga vida, à antiga rotina, à antiga medíocre existência. Foi a vida novamente... com suas peças...
Sempre a vida.
CAPÍTULO V - Singing songs that make you slit your wrists
(Cantando músicas que fazem você cortar os pulsos)
Não demorou muito. Voltei a consumir drogas e bebia sempre que podia. Talvez isso fosse um sinal de uma pessoa depressiva, afinal, não são todos que ficam tão pra baixo por causa de um relacionamento. Talvez eu usasse esse pretexto para me afundar mais e mais. Não foi difícil ser despedida da lanchonete na qual trabalhava. Decepcionei a todos: minha mãe, que não sabia o que na verdade acontecia, a Suzan, que sempre me deu um voto de confiança e a certeza de um amanhã melhor, e a mim mesma por acreditar que um dia conseguiria me erguer desse buraco no qual cada vez mais me afundava.
Não havia mais razão.
Não havia mais vida. Não mais vivia, só existia. Uma existência medíocre.
Não agüentava me olhar no espelho. Não me reconhecia, quem era aquela estranha no espelho? O que ela fez com a
que um dia existiu?
Não havia respostas. Não havia mais dúvidas. Não havia mais incertezas.
Só havia coragem para pôr tudo a baixo...
CAPÍTULO VI - And they found you on the bathroom floor
(E eles te encontraram no chão do banheiro)
Estava nervosa. Sentia meu coração batendo contra o peito, parecendo querer fugir. Não ouvia nada nem ninguém, apenas ouvia minha respiração ofegante. Não pensava em mais nada.
Mas não demoraria muito... não agora.
Tranquei-me no banheiro, nenhum lugar melhor para o que eu ia fazer. Peguei algumas toalhas e deixei no vão da porta para que nada chamasse a atenção de Suzan. Olhei-me no espelho, uma última vez, e vi terror em meus olhos.
Abri o armário do banheiro. Lá estava. Pronta para ser usada.
Logo em seguida, abri o chuveiro. Parei em frente ao espelho do armário, com as mãos em cima da pia.
Peguei a lâmina que havia guardado, pressionei-a contra meu pulso esquerdo. Doeu, então parei. Será que era isso mesmo o que queria fazer? Sim, disse uma voz, sim, o que mais haveria neste mundo para você? A voz estava certa, metade de mim estava certa, a outra metade, incerta.
Não poderia continuar muito com isso.
Com rapidez passei a lâmina em meu pulso esquerdo, tão rápido que nem eu mesma tive tempo de perceber o que havia feito. O sangue começou a escorrer pelo meu pulso e cair na pia. Havia muito sangue. Quente, pegajoso... e vital.
Já estava feito, tinha que ser acabado. Com a mesma lâmina cortei meu pulso direito, não doeu tanto quanto esperava.
Não sentia dor apenas medo, desespero. O sangue saía em grandes quantidades. Comecei a me sentir zonza e com medo. Iria morrer, meu Deus, estava morrendo! Comecei a chorar silenciosamente, esperando que acabasse logo. Não sabia que tinha tanto sangue.
De repente, como uma cortina negra, tudo ficou escuro. Me senti flutuando.
Estava voando... para longe dali.
Estava terminando...
CAPÍTULO VII - Pain in my heart for your dying wish, I'll kiss your lips again...
(Dor em meu coração por seu desejo de morrer, beijarei seus lábios de novo)
Lembro-me apenas de ter acordado e não lembrado de onde estava. Pensei, pensei e não me recordava o que havia acontecido. Fiquei um tempo parada. Olhando, observando. Nada.
De repente veio-me uma imagem. Sangue. Muito sangue. Então me recordei o que havia ocorrido.
Olhei para os meus pulsos. Estavam enfaixados, ambos. Então eu realmente fiz, pensei comigo mesma, neste instante entrou uma enfermeira com uma cara não muito boa.
- Vejo que acordou. Como se sente?
- Hã, bem. Só sinto sede...
- Claro... Bom, você tem visita. Posso mandá-la entrar?
- Sim! Por favor...
Só podia ser Suzan.
-
?! Oh,
, você está bem? - perguntou Suzan, correndo em minha direção. - Você não tem idéia de como me preocupou! Nunca mais faça isso, ok?
Comecei a chorar incessantemente.
- Desculpe... eu não quis... nunca quis te preocupar, Suzan. É apenas que... que, eu não tinha nada a perder, sabe?
- Claro que tinha... você... você poderia perder o meu amor.
Suzan veio lentamente ao meu encontro. Sabia que ela iria me beijar, sempre soube que ela me amava mais do que uma amiga. Ela nunca disfarçou isso, mas sempre respeitou meus sentimentos. Não sei o que me deu na hora, de repente foi tão bom sentir-me amada. Senti-me tão segura e sabia que Suzan jamais me magoaria. Em meio as minhas tristezas era ela quem sempre estava comigo, me amando, me consolando... e nunca pedindo nada em troca. Eu queria dar mais pra ela.
Suzan beijou meus lábios levemente. Com tanta delicadeza, como se tivesse medo de me machucar, como se eu fosse tão frágil. Mas eu queria mais, não sabia o que acontecia comigo. Senti uma força maior do que eu que, simplesmente, se apossou de mim.
Com força fui de encontro aos lábios de Suzan. Nunca havia beijado outra mulher antes. Foi bom. Os lábios dela eram macios, suaves, carinhosos... diferentes dos de um homem.
- Eu te amo tanto,
- foram as palavras de Suzan sussurradas em meu ouvido.
- Também te amo, Suzan... Nunca me deixe...
- Com licença? - pediu a enfermeira de cara mal humorada. - Não estava com sede? Trouxe água para você... - ela disse, apontando para uma jarra com água.
- Ah, claro... - respondi com certa timidez, afinal a enfermeira presenciara um momento nunca ocorrido antes.
- Pode deixar que eu mesma a sirvo. Obrigada - respondeu Suzan, um pouco grossa, mas imagino que foi por causa da interrupção da enfermeira.
- Com licença. - pediu a enfermeira, em seguida retirou-se.
Enquanto Suzan me servia veio-me uma dúvida.
- Suzan... como você soube que... eu... bem...
Suzan olhou-me nos olhos, entregando-me o copo d'água.
- Hã... acho que você desmaiou,
, e com a queda, você puxou tudo o que havia ao seu redor, fazendo o maior estardalhaço. Te chamei, te chamei e nada de você me responder. Na hora... - disse ela acariciando o meu rosto. - Não sei... me veio uma sensação estranha, de medo ou algo parecido... então senti, ou melhor, soube, que você havia feito algo... pedi ajuda e... bem... aqui está você...
- Hum... - Senti- me tão mal com aquilo que fizera, naquela hora coloquei-me no lugar de Suzan e da horrível experiência que proporcionara a ela.
- Hei... que carinha é essa? - disse Suzan, aproximando -se. - Só me prometa que nunca mais fará isso, okay?
- Eu sinto tanto...
- É... eu sei... mas não importa agora... porque eu tô aqui... - disse Suzan, encostando os lábios levemente aos meus, como se fosse o selo de uma promessa.
CAPÍTULO VIII - Take my fucking hand and never be afraid again
(Pegue minha maldita mão e nunca fique com medo de novo)
Depois de tudo o que ocorrera não parei para pensar no rumo em que minha vida havia tomado. Primeiro Matt, depois a tentativa de suicídio e por último o romance com Suzan...
Suzan era perfeita. Nunca pensei que pudesse me apaixonar por outra pessoa que não fosse Matt, principalmente quando se tratava de outra mulher.
Suzan foi me cativando pouco a pouco, e o sentimento de carinho foi se tornando paixão, o sentimento de paixão foi se tornando amor.
Eu amava Suzan.
Continuávamos a sair juntas. Arranjara um emprego de recepcionista numa gravadora, com a ajuda de um dos muitos amigos de Suzan. Finalmente havia achado algo em que gostasse de trabalhar, me empenhei bastante e não demorou muito para eu ir crescendo na gravadora, fazendo especializações e enfim chegando a ser assistente de produção. O emprego consistia em ajudar o produtor com detalhes fúteis mas importantíssimos, como iluminação, maquiagem, ou até mesmo atender as vontades dos nossos clientes ou dos artistas.
Todas as sextas e sábados saíamos, para bares, festas e shows.
Assumimos nosso relacionamento para poucos. Não queríamos sair espalhando aos quatro ventos o que se passava conosco, e estávamos felizes com isso. Quando saíamos, geralmente, agíamos apenas como amigas íntimas, bem íntimas por sinal.
Com Suzan, descobri sentimentos que nunca descobrira em mim. Uma deles era o ciúme. Não que fosse super enciumada, mas tinha um ciúme enorme de Suzan com os outros rapazes. Porra, Suzan era uma garota perfeita, que deixava todo cara babando. Ela era linda e extrovertida, cativava a todos que estavam por perto. Principalmente os homens.
Me sentia super insegura com isso. Sabia que era difícil comparar o afeto de um homem e de uma mulher, e muitas vezes tinha medo de perder o bem mais precioso que achara para um homem.
- Demorou tanto pra eu ter você... você acha realmente que eu te trocaria por outro?!?! - era o que sempre dizia Suzan.
Isso me reconfortava, mas bastava aparecer e lá estava eu novamente enciumada. Era difícil. Tinha que disfarçar. Afinal, agíamos como amigas em todos os lugares, que mal há em Suzan ficar com um cara sendo que ela não está acompanhada? Aposto que era o que todos pensavam...
E sempre me controlei... amava Suzan, ela era minha. Eu era dela. E nada e ninguém iam tirar ela de mim...
Era o que achava... Até o destino me pregar outra peça.
CAPÍTULO IX - And as we falling down...
(E enquanto nós caímos...)
Tudo aconteceu naquela semana. Em apenas uma semana minha vida mudou completamente.
Era uma manhã fria do mês de junho, minha época favorita entre o outono e inverno, lembro-me de ter aberto os olhos e não saber onde estava. Não foi difícil lembrar, bastava olhar para o lado e vê-la lá, deitada, ao meu lado. Linda e serena. Era incrível como conseguia me esquecer de todos os problemas quando estava com ela. Dei um sorriso e pensei no quanto era feliz e não sabia. Ela dormia tranqüilamente. Abracei-a dando-lhe um beijo suave. Ela abriu os olhos preguiçosamente e correspondeu rindo.
Era sábado, meu dia favorito, nem eu nem Suzan precisávamos trabalhar. Suzan voltou a dormir em poucos minutos, fora uma noite longa.
Levantei-me, coloquei um roupão e fui preparar o café.
Fui à cozinha, acendi um cigarro e coloquei água para ferver. Oito e meia da manhã. Sentei-me à mesa e fiquei lendo o jornal. Vi uma propaganda, de uma banda. Desconhecida por sinal. Um show, era o que dizia, com cover de algumas bandas como Iron Maiden, The Misfits e Morrisey fora algumas músicas de própria autoria. My Chemical Romance. Esse era o nome da banda.
Lembrei-me subitamente que Suzan havia comentado algo a respeito.
"É uma banda punk gótico, muito boa por sinal, começaram a carreira há pouco, mas já estão fazendo o maior sucesso! E o melhor de tudo. Consegui entradas para o show." Na hora me pareceu ótima a idéia, mas naquele momento, de manhã, tudo o que queria era ficar uma longa e relaxante tarde de sábado ao lado de Suzan vendo filmes antigos na tv e comer muita pipoca debaixo das cobertas. Quem sabe ela não mude de idéia, pensei comigo enquanto levantava e preparava o café, que fazia questão de levar na cama pra Suzan.
- Acorda, preguiçosa! Você sabe que eu odeio cozinhar, né? Olha o que eu fiz...
- Hein?! - disse Suzan, olhando espantada para mim. - Você cozinhou hoje é,
? Que maravilha!
Ao contrário de Suzan, eu odiava cozinhar. Simplesmente não tinha o dom, mas tentei fazer uma surpresa para Suzan.
- Hum... vejamos o que você preparou. Café, torradas e... bem... o que que é isso, hein?
- Ah, bem, eh... omeletes! Só que um pouco... queimadas?
- Claro... estava bom demais pra ser verdade! - disse Suzan, rindo da minha cara.
- É assim, é? Eu me dou ao maior trabalho pra tentar cozinhar pra você e você dá risada das minhas omeletes? - disse eu fingindo estar magoada.
- Oh, minha linda! Fica assim, não! Adorei a surpresa! - disse ela, se levantando e me beijando.
Como eu gostava de Suzan. Era uma sensação maravilhosa estar com ela. Sentia-me tão bem. Tão completa. Tão feliz.
- Amor... - disse eu olhando pra ela.
- Hum? - respondeu ela tomando um gole do café que preparara.
- Ah, bem que a gente podia ficar o dia todo aqui, né? Quentinha, juntinha...
- Mas,
, você esqueceu, é? Hoje tem o show do My Chemical Romance, aquela banda, lembra?
- Ah, sim lembro, sim... mas sei lá, queria te curtir hoje, você só pra mim...
- Oh, honey, você sabe o trabalhão que eu tive pra arranjar esses convites, faz esse esforço por mim vai?!
- Você sabe que eu não consigo negar nada pra você, né?
- Aham... e é por isso que eu te amo!
Nosso dia passou sem preocupações. A noite estava chegando, o show tão esperado por Suzan também. O esperado show da banda que estava começando a agitar a galera. My Chemical Romance.
Mas havia algo errado. Sentia que, por motivo desconhecido, seria a pior noite da minha vida.
Estava certa...
CAPÍTULO X - You told me this gets harder, well, it did!
(Você me disse que ficaria difícil, bem, ficou!)
Chegamos cedo naquela noite. Percy, o cara que havia arranjado os ingressos, disse que precisava chegar mais cedo para a preparação do show, estava fazendo um favor pros caras já que ele era amigo do vocalista da banda, e disse também que iria aproveitar a oportunidade para ver se os caras eram tão bons mesmo. Quem sabe não haveria a chance deles gravarem um CD?
Percy era um cara muito legal, sempre foi um ótimo amigo de trabalho, saímos várias vezes juntos. Percy, Suzan e eu. Percy e Suzan já eram amigos de longa data, foi ele que deu uma força para arranjar um emprego para mim na gravadora. O local estava vazio, via-se no balcão uma ou duas pessoas solitárias bebendo. Mas, segundo Percy, o local iria bombar.
Vi que havia um pequeno palco, com duas caixas de retorno e três microfones nos seus respectivos pedestais. Vi que havia alguns caras lá, arrumando os instrumentos e testando o som.
Sempre fui muito detalhista. Vi que havia dois guitarristas, um deles, que parecia ser bem jovem de cabelos arrepiados com uma tatuagem no braço e alargador nas duas orelhas, tocava baixo sua guitarra. O outro de cabelos armados parecia afinar a sua, mais ao fundo vi que tinha um garoto magricela de óculos, de aparência tímida tocando o baixo. E havia dois caras, um conversando com o outro, um tinha baquetas na mão e outro segurava o microfone.
- Som. Teste. Som...
Deve ser o vocalista, pensei comigo, ele tinha uma voz linda. Suave e envolvente. Era também lindo, do seu modo, mas era. Cabelos compridos quase até os ombros, negros, que davam todo o charme ao seu rosto angular. Com sobrancelhas bem posicionadas, em olhos de um castanho esverdeado, mais abaixo um nariz reto, fino e delicado, seguido por uma boca bem formada, de lábios finos, mas muito sensuais. Tinha também um estilo próprio, original é o que diria. Usava uma calça jeans, toda rasgada em partes bem comprometedoras, uma camiseta preta e uma jaqueta de couro. Fiquei hipnotizada, admito, fiquei observando-o, em cada detalhe.
Vi-o sorrir, um sorriso cativante. Não foi difícil deduzir que devia ter todas as mulheres que desejasse.
- Nossa ele é realmente muito bonito não? - perguntou Suzan, me tirando do devaneio de pensamentos em que me mergulhei.
- É, é verdade... muito bonito, sem dúvida.
Fomos em direção ao bar, com Percy junto. Pedimos nossas bebidas, bebia o meu drink distraída. Absorta. Enquanto Percy e Suzan batiam um papo sem notar o meu devaneio.
- E aê, Percy? Tudo certo?
Percy virara-se para a voz que o chamou.
- Ah, Gerard! Cara, como você está? Foi mal não ter ido lá falar com você, eu vi que você estava ocupado e tal...
- Tranqüilo. Já estamos com tudo quase pronto pro show desta noite.
- É, meu irmão, finalmente chegou a noite tão esperada.
- Pois é... e elas quem são? - disse ele dando um sorriso encantador na nossa direção, mas não pude deixar de notar que seus olhos se voltaram para Suzan, que era realmente espetacular.
- Ah sim, deixa eu te apresentar as minhas acompanhantes desta noite... esta é Suzan, uma grande amiga minha, e esta é
, uma colega de trabalho, grande amiga minha também.
- Poxa, elas são muito lindas - disse ele olhando fixamente para Suzan - Prazer em conhecê-las, espero que curtam o show.
- Ah sim, claro. Fizemos questão de vir - respondeu Suzan, dando um sorriso encantador. Não sei se foi impressão minha, mas achei que Suzan estava flertando com ele também, aquilo me subiu a cabeça. Não disse nada apenas sorri.
- Que bom... espero que curtam realmente, e espero ver vocês depois do show.
- Claro, por que não?! - disse Percy - Quem sabe não comemoramos depois?!
- É, tomara - disse Gerard em meio a risos - bom, mas já vou indo. Vejo vocês mais tarde. E se retirou.
Se já estava me sentindo mal, a sensação desagradável piorou mais ainda. Se esse tal cara, Gerard, fosse dar em cima de Suzan que fosse longe de mim. Fiquei muito magoada com a atitude de Suzan para com ele. Pareceu-me que ela havia gostado.
- Puxa, ele é super simpático, não? - perguntou Suzan.
- Porra, muito simpático. Tão simpático que, se você pedisse...
- Ora, , não me venha com ciúmes, tá? - disse Suzan, cortando o que eu ia dizer; ela parecia irritada.
- Ah! Agora vai me dizer que ele não tava dando em cima de você? Fala sério, Suzan! Eu vi e percebi que você gostou também!
- O quê?! Como você tem coragem de dizer isso?
- Minha querida, não precisa ter coragem é só ver o que ocorre. Só um idiota não teria visto.
- Hei, meninas, qual é? Não vamos brigar por causa disso não. Eu sei que vocês se gostam e isso não é motivo certo? - disse Percy, sendo ele um grande amigo e sendo um dos poucos que sabiam de Suzan e eu.
- É, Percy, você está certo - disse - mas não dá pra negar o que aconteceu aqui. E a Suzan sabe melhor do que ninguém que eu estou certa!
- Eu? Oras,
, já tô cansada de seus ciúmes idiotas!
- Pois bem - disse Percy - o show já vai começar e desse jeito vocês não vão curtir o show, que tal se cada uma pedir desculpa pra outra, hein?
- Não mesmo - disse eu. - Vou fumar um cigarro e, caso Suzan mude de idéia, eu estarei perto do palco fumando e esperando ela vir me pedir desculpas!
- Então é melhor você comprar mais alguns maços de cigarro,
, porque eu não vou pedir desculpas por algo que eu não fiz!
- Ótimo, você é quem sabe!
Levantei-me e fui em direção ao palco onde havia um espaço aberto para o famoso "bate cabeça". Estava nervosa e chateada, sabia que não deveríamos ter vindo, pensei comigo. Sabia, sabia!! Peguei o maço de cigarros, trêmula, e o abri. Droga, havia apenas um cigarro. Peguei-o e tentei acendê-lo, estava tão nervosa que mal conseguia acender o meu cigarro.
- Droga! - disse, soltando toda minha frustração.
- Hei, quer ajuda aí?! - ofereceu-se uma voz vinda de cima, atrás de mim.
Virei-me e dei de cara com um dos guitarristas, o mais jovem. Tinha um rosto jovem, demonstrando inexperiência, um sorriso, olhar ingênuo. Mas sua voz era firme, grossa, segura. O que mudava totalmente a idéia de que ele era tão inexperiente quanto parecia. Era um cara muito bonito e charmoso. Não sei o que me deu na hora, mas como uma adolescente idiota, imaginei-me beijando aqueles lábios em que havia um piercing e um sorriso maroto.
Ele nem esperou eu aceitar a sua ajuda. Esticou sua mão direita em direção aos meus lábios. Tirou o cigarro de minha boca e pegou o isqueiro de minha mão. Colocou o cigarro na boca e tragou-o, acendendo-o assim e logo após me passou o cigarro já aceso.
- Ah... er... Obrigada...
- De nada. Mal dia? - perguntou ele, sentando na beira do palco.
- É, um péssimo dia.
- Todos temos. Mas você vai se sentir melhor depois do show - disse ele dando um sorriso brincalhão - nós sempre ajudamos os outros com nossas músicas.
- Hum, bom saber. Porque sinceramente não queria ter vindo.
- Ah, mas já que está aqui... não vai perder o show certo? Precisamos de público, sabe? De preferência garotas, e se forem tão bonitas quanto você, melhor ainda...
- Que belo mentiroso você! - disse eu melhorando meu humor.
- Eu? Claro que não, sinceridade é o meu segundo nome.
- E qual seria o seu primeiro?
- Putz, que fora! - disse ele dando uma risada e batendo com a mão na testa - Meu Nome é Frank Anthony Iero, mas pode me chamar de Frank, guitarrista do My Chemical Romance, e você?
-
, mas pode me chamar de
, assistente de produção de uma gravadora.
- Uma gravadora, hein,
? Bem do que nós precisamos... para qual gravadora você trabalha?
- Para a Eyeball Records.
- Que legal, na verdade, o Gerard - disse Frank, apontando para o vocalista motivo da discussão com Suzan - conhece um cara de lá... só não lembro o nome dele...
- Percy.
- Isso! Você o conhece?
- Sim. Trabalho com ele... Bom, mas acho que você precisa se preparar para o show.
- Hum, você está me dispensando,
?
- Bem, na verdade, não... é que... parece que o tal de Gerard tá te chamando, olha! - disse eu fazendo com que Frank se virasse e visse Gerard o chamando.
- Ah, é verdade. Como sempre Gerard me atrapalhando...
- Pois é... mas relaxa, eu vou estar aqui embaixo o tempo todo vendo você tocar...
- Que bom. Assim eu toco olhando pra você...
- Por favor. Não faz isso, eu vou ficar dando risada.
- Que má você é! Tô fazendo a maior dedicação pra você e você vai dar risada de mim? Eu...
- Hei, Frank, será que eu tenho que vir te buscar é? - disse Gerard ao lado de Frank em pé, interrompendo nossa conversa.
- Caralho, Gerard! Dá um tempo! Já tô indo, porra!
- Então vem logo, caralho. Será que você só pensa em foder?
- Fica de boa! Seu...
- Hei, Frank, tudo bem... vai lá, eu entendo... - disse eu interrompendo o que o Frank iria chamar o Gerard e tentando evitar brigas. - Vá se preparar...
- Hã... okay... a gente se vê depois,
...
Conversar com Frank naquela hora melhorou o meu estado de humor. Senti-me melhor, mas subitamente me veio à cabeça Suzan. Olhei ao redor e não a encontrei. Fui em direção ao bar pedir mais uma bebida e comprar mais um maço de cigarros, já que os meus haviam acabado.
Acendi outro cigarro, mais calma, e sentei-me no balcão, olhando para o palco. Frank parecia estar discutindo com Gerard. Só esperava que não fosse por minha causa. Creio que estava enganada, porque nessa hora eu vi Gerard apontando descaradamente pra mim. Senti-me sem graça e achei que ele fora muito grosso em dizer que Frank queria apenas "foder" comigo, como ele mesmo dissera.
-
?
- Hein... - quando me virei dei de cara com Suzan.
- Olha... eu... eu sei que eu fui um pouco grossa com você mas sabe, eu já tô cansando do seu ciúmes,
, eu te amo. Você sabe disso, e a sua desconfiança me mata!
- Tudo bem, Suzan. Sei que não tenho 100% de razão, mas do mesmo jeito se eu tenho ciúmes é porque eu te amo muito também.
- Fico tão chateada quando a gente briga, paixão...
- Eu também, Suzan... eu também... - disse me aproximando dela. - Será que eu posso dar um beijo na pessoa que eu mais amo nesse mundo? - perguntei aquilo, pois o bar já estava cheio e sempre disfarçávamos o que sentíamos uma pela outra. Suzan sorriu meigamente.
- Claro que pode... - e aproximou-se de mim beijando-me de um jeito selvagem.
Esquecemo-nos de tudo e de todos, apenas preocupei-me em beijar Suzan, o amor da minha vida. Quando nos separamos de nosso beijo vimos que todos olhavam tentando disfarçar e surpresos com nossa atitude. Suzan e eu ficamos sem graça. Olhei em direção do palco e vi, que os caras da banda também estavam olhando pra nós, inclusive Frank que me pareceu desapontado por saber que namorava e Gerard surpreso por não desconfiar que éramos parceiras.
O show já estava próximo de começar. Já tinham ido lá anunciar. Realmente Percy estava certo, o lugar estava lotado. Como Suzan e eu chegamos cedo ficamos bem na frente para não perder nada.
O palco estava às escuras. Só se ouvia o delírio da platéia e o som de duas guitarras. Não se via absolutamente nada. Até que uma rajada de luzes ofuscou nossa visão e Gerard chegou pulando no palco e berrando.
Os caras eram muito bons... estava curtindo ao máximo o show, a música alta com letras profundas e algumas doses de bebida me fizeram viajar no show. Suzan e eu curtimos ao máximo...
- A música que a gente vai cantar agora é para os que estão amando... é uma prova de amor... espero que vocês gostem... "Demolition Lovers"!!
Foi a música mais linda que eu já ouvira na minha vida. Nesta hora lembro-me de ter parado e ficado olhando para o Gerard e prestando atenção no que a música dizia. Ele cantava de olhos fechados, concentrado. Aquela música dizia tanto... de repente Gerard abriu os olhos e deparou com os meus olhos. Ele ficou me olhando fixamente, não conseguia desviar o olhar. Lembro-me de olhar dentro daqueles olhos castanhos esverdeados e ouvir o que a música dizia, nada mais parecia existir. Saí do transe quando senti Suzan abraçando-me e beijando-me.
Fiquei sem graça, não consegui corresponder com a mesma paixão que Suzan ao nosso beijo. Separei-me dela, sorri e me virei para continuar a ver o show. Vi que Gerard agora olhava fixamente para Suzan, abaixou-se e ficou cantando o mais próximo possível dela. Segurei firme e não fiz nenhuma cena de ciúmes. Senti-me queimando de raiva naquele momento, olhei para Frank que parecia estar concentrado fazendo um solo de guitarra. Ele era muito bonito, foi o que pensei, e foi tão gentil comigo... me aproximei mais ao palco, as pernas deles estavam bem a minha frente, ao meu alcance. Estiquei uma mão e toquei no tornozelo dele. Ele se assustou e olhou para baixo querendo saber quem o havia tocado.
Quando ele olhou, vi que ele sorriu para mim, e desta vez ele começou a tocar olhando pra mim. Sabia que estava fazendo isso para dar ciúmes a Suzan. Olhei para o lado e vi que Gerard deixara de "dar em cima" dela fazia um tempo e agora ela estava parada olhando para Frank e eu.
A música, acabou repentinamente: "And as we're falling down, I'll see your eyes. And in this pool of blood, I'll meet your eyes. I mean this forever". O silêncio surpreendeu-me, não esperava que a música acabasse assim. Era uma música realmente maravilhosa, o público começou a bater palmas e mais palmas. O show acabara.
- Nós somos o My Chemical Romance. Espero que tenham gostado, pois estamos prontos para o mundo nos ouvir gritar. Até o próximo show!!
Gritos, aplausos e assovios... a multidão pareceu adorar o show. Foi realmente muito bom, me senti bem, mesmo não tendo gostado de Gerard, mas era inevitável: o cara tinha o dom da música.
- Nossa! Foi muito bom o show, né? - perguntei a Suzan.
- Sim... eu vi que você gostou demais até...
- Não entendi, o que você quis dizer com...
- Meninas! Então como foi o show? Gostaram? - perguntou Percy, interrompendo.
- É, foi muito bom - respondeu Suzan.
- Sim, gostei muito das músicas dos caras...
- Então vamos lá falar com eles? - propôs Percy.
Seguimos em direção ao palco, onde os rapazes estavam desmontando a bateria, os cabos, a guitarra e tal. Gerard estava dando autógrafos para algumas garotas. Achei a cena ridícula.
- Gerard! Cara! Foi ótimo o show, hein?
- Yeah, Percy! Foi muito bom, parece que a galera adorou... e vocês adoraram? - disse Gerard olhando para Suzan e eu.
- Sim... foi melhor do que eu imaginava, Gerard. Parabéns - disse Suzan, novamente parecendo flertar com ele.
- É, as músicas foram muito boas... quem as compõe?
- Ah, eu mesmo...
Na hora me surpreendi, aquele cara não parecia ter nada na cabeça e de repente chega dizendo que escreveu aquelas músicas? Realmente ele era bom, não como pessoa talvez, mas tinha o dom.
- Uau, parabéns.
- Então... ainda está de pé aquela comemoração depois do show? - perguntou Percy.
- Por mim... - respondeu Gerard - depende de quem vai - disse isso olhando para Suzan - e se os caras vão querer ir também...
- Lógico que os caras vão junto... é bom porque assim aproveito e conheço melhor eles - disse Percy. - E vocês, meninas, vão com a gente, né?
- Hã, não sei, Percy eu acho que...
- Claro que nós vamos! - disse Suzan. - Vamos, não vamos,
?
- Bem, pode ser...
- Então está certo - disse Gerard. - só dá um tempo pra gente arrumar nossos equipamentos e já vamos.
- Hei, então quer dizer que você vai com a gente comemorar,
? - perguntou Frank.
- Pois é, mais uma vez não tive escolha...
- Vai ser divertido, eu prometo.
- Já que você diz...
- Então... vamos pra onde? - perguntou Gerard já na saída da boate.
- Bom, eu sei que não é comum isso mas eu estava pensando... e se fosse em casa? - ofereceu Percy.
- Ah, na sua casa? - perguntou Gerard um tanto duvidoso. - Por mim, tudo certo?
- Por nós também, Gee - respondeu Mikey, o irmão mais novo de Gerard.
- Certo, mas eu faço questão que vocês vão na nossa van... ela é clássica! - ofereceu Gerard, arrancando gargalhada dos demais da banda.
- Hum, por quê? O que a sua van tem de tão especial? - perguntou Suzan.
- Ah, nada demais. Apenas que é ela que nos carrega para os shows e é um presente de minha avó... sem falar que ela é muito original.
- Bem, rapazes, eu tô de carro... - disse Percy - mas se as garotas quiserem ir com vocês...
- Eu... eu não sei, Suzan, acho que a van vai ficar apertada e...
- Não, não... é tranqüilo, cabe todo mundo. Vocês não vão fazer uma desfeita dessas vão? - disse Gerard.
- É verdade,
, poxa vai ser divertido! - disse Frank.
- É verdade,
, não pega nada! - disse Suzan.
- É que... bem, a gente mal se conhece e...
- Não seja por isso. - disse Gerard - Esse aqui é o Mikey, o baixista e meu irmão. Esse aqui é o Ray o outro guitarrista. E esse aqui é o Matt o nosso baterista. E o Frank que você já conhece...
Fiquei super sem graça na hora, não gostei da forma como eu estava chamando a atenção, todos estavam quietos olhando fixamente para mim, esperando uma resposta.
- Hã... Prazer pessoal, eu sou a
...
- Mas podem chamar ela de
- disse Frank.
- É, e esta é... minha... amiga Suzan...
A galera cumprimentou a gente com um aceno.
- Mas então, vocês vão com a gente? - perguntou Gerard.
- Vamos, sim... - respondi.
Chegamos no estacionamento e demos de cara com uma van em condições não muito boas, estava toda "pichada" e parecia ser bem velha.
Quem iria dirigir a van era Matt, o baterista. O restante dos rapazes foi atrás conosco. Suzan, como sempre, já estava se adaptando com as pessoas, conversando, rindo e brincando. Eu fiquei quieta naquele momento só observando.
Os caras não paravam de zoar um instante sequer. Colocaram um som alto na van e abriram umas garrafas de cerveja. Não sabia se os caras estavam drogados ou não. Desconfiava que estivessem, estavam muito alegres pro meu gosto.
- Então... - disse Gerard enquanto acendia um cigarro - vocês são namoradas, é?
- Somos... - disse eu, encarando-o; vi que Suzan ficou sem graça com minha atitude.
- Ah, é? - disse ele dando um gole na cerveja - então... por que vocês não se beijam pra gente ver, hein?
Frank, Ray e Mikey ficaram quietos nessa hora. Mas ficaram olhando com curiosidade, esperando que a gente fosse se beijar.
- Porque, na verdade, não estou com vontade. Mas não se preocupe, Gerard, eu te chamo pra ver, ok? - respondi, rispidamente.
Ao contrário do que pensei, Gerard riu.
- Claro, me chama, tá? Quem sabe eu não ajude participando...
- O quê?! Cara, como você é folgado...
- Calma,
, ele está bêbado, não dá bola pra ele não - disse Suzan, segurando o meu braço.
O silêncio reinou na van, todos ficaram sem graça, vi que Gerard ficou quieto, bebendo e fumando, mas não deixou de me encarar. Sentia tanta raiva dele que acho que estava soltando faíscas pelos olhos.
- Er... bem... então... - disse Frank- mas vocês moram juntas?
- Sim - respondeu Suzan dando um sorriso cativante, tentando voltar a ter uma conversa civilizada com todos.
Frank e Suzan começaram a conversar, não demorou muito e todos começaram a conversar como se nada tivesse acontecido. Menos Gerard e eu.
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Ele ficou lá sentado fumando e eu sentada de frente pra ele fumando também.
Não demorou muito e chegamos a casa de Percy. Lá, entramos, bebemos um pouco e conversamos. Eu e Gerard mantivemos a distância. Fiquei junto a Percy - quando ele não estava junto de Gerard, de Frank ou dos outros rapazes, que eram muito legais. Só fiquei afastada de Suzan, pois Gerard não desgrudara dela nem um instante sequer.
Notei que depois de beber mais do que o recomendado, Gerard e Suzan estavam fazendo muita questão de se tocar e coisas do gênero. Estava morta de ciúmes.
- Então,
, quer dizer que não tenho nenhuma chance com você... - disse Frank.
- Por que você tá falando isso?
- Você é lésbica!
- Não, não sou.
- Bissexual?
- Acho que sim... Na verdade, não sei, Frank, Suzan é a primeira mulher com quem me envolvo, sabe...
- Ah, isso é normal. Sabe, já me envolvi com pessoas do mesmo sexo que eu...
- Sério?
- Sério. Mas descobri que o bom mesmo é sair com mulheres. Mas eu acho que a gente tem que experimentar de tudo nessa vida pra depois não se arrepender de ter feito ou não ter feito, não acha?
- É verdade... Hey, onde está Suzan? - perguntei, notando repentinamente que ela não estava em lugar nenhum. O que me assustou ainda mais foi constatar que Gerard também não estava em lugar nenhum.
- Ah, eu não sei,
... - disse Frank, olhando em volta para ver se os achava.
- Hã, acho que vou procurar Suzan. Já está ficando tarde...
- É... é verdade - disse Frank, parecendo notar o meu desespero. - Quer que eu vá com você?
- Não... não precisa...
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Procurei por Suzan na cozinha, na sala... e nada. Na hora meu coração acelerou, olhei escada a cima... Será? Pensei comigo mesma. Senti minhas pernas enfraquecerem. Não, tenho que procurar melhor...
Olhei em direção a cozinha e vi a porta dos fundos, que davam pro quintal. Andei apressadamente em direção à porta.
Percy sempre fora um cara sonhador, romântico. Nunca se casara, mas sempre planejou. casar e ter filhos. Sua casa era uma típica casa de família.
Nos fundos havia uma churrasqueira com piscina. Tudo muito bem iluminado.
Em uma mesa, perto da churrasqueira. Vi Suzan com Gerard, é claro. Senti o sangue subir por minha face.
Sem dúvida alguma, Gerard estava dando em cima de Suzan.
Eles estavam tão perto um do outro. Vi que Gerard quase sussurrava ao ouvido de Suzan, e via que ela ria, meigamente. Aquele sorriso lindo que ela dava só para mim...
- Suzan? - chamei-a, interrompendo-os.
-
! Que susto!
- É mesmo?! - disse eu sarcasticamente. - Vim aqui pra te chamar pra irmos embora...
- Mas já?! - disse Gerard. - Ainda é cedo, e amanhã é domingo...
- Eu sei! - respondi seca - acontece que estou cansada, e queria curtir um pouco minha namorada esse final de semana...
- Você pode curtir ela sempre, e não precisa ir pra casa pra curtir ela... - disse ele com um sorrisinho sarcástico.
- Pois é.. acontece que eu quero curtir ela sozinha... se é que você me entende?
- Ah sim... claro... - disse ele, já completamente bêbado. - Você quer dizer que você e a Suzan vão...
- Já chega!! Será que você não se toca? - disse eu irritada, pegando no braço de Suzan. - Vamos embora Suzan, a "festinha" acabou!
Nem deixei Suzan dizer nada, estava nervosa. Oras, quem ele pensava que era para ficar se intrometendo na minha vida pessoal?
Entrei na sala bufando.
- Hei, pessoal. Suzan e eu já estamos indo...
- Mas já,
? - perguntou Percy, meio bêbado. - A noite é uma criança...
- Eu sei, querido, mas estou cansada... Quem sabe numa outra ocasião?
- Claro.. isso seria ótimo - disse Percy.
Nos despedimos de todos, vi que Suzan estava emburrada. Dane-se, pensei comigo mesma, não era ela que tinha que suportar toda aquela humilhação pública.
- Hei,
! - era Frank.
- Hei!
- Hã... foi legal te conhecer hoje. Espero que haja mais vezes...
- Verdade, Frank, adorei te conhecer também... Você é um cara muito legal.
Nesse momento, Gerard apareceu, vindo dos fundos, ele aparentava estar nervoso.
- Ora, as garotas iam embora sem se despedir de mim é?! - disse ele.
Ele disse isso enquanto vinha em nossa direção. Dava para ver que ele estava completamente bêbado...
Ele veio, e me abraçou com força. Não me mexi. Como ele era babaca.
- Mas como você é nervosinha... - ele disse rindo, enquanto me abraçava.
Ele me largou e virou-se para Suzan. Abraçou-a tão forte quanto havia me abraçado. Largou-a, olhou-a nos olhos e lhe deu um beijo na boca. Rápido e brusco. Não tive reação, foi rápido demais. Vi que Suzan ficou vermelha. Talvez de vergonha, talvez de excitação...
Não suportei o que vi. Virei-me bruscamente, abri a porta e saí. Batendo-a logo atrás de mim. Não demorou muito e ouvi sons de passos vindo correndo em minha direção. Era Suzan.
Não disse nada durante todo o percurso de volta para casa. Não havia o que dizer. E aquilo não era nada. Era apenas o começo do meu pesadelo...
CAPÍTULO XI - "I fall out of grace"
(Eu caí das graças)
Passamos o domingo todo no nosso apartamento. Não fizemos nada de especial. O que ocorreu na madrugada passada nem ao menos foi comentado. Agi como se nada tivesse acontecido. Claro que não agi normalmente, fiquei na minha, à distância.
A semana começou, e eu estava cheia de serviço para fazer. Telefones, agendamentos, reuniões, encontros, propostas... Tudo caía em minhas costas.
Foi numa quarta-feira quando o telefone tocou em minha sala.
- Eyeball Records.
, boa tarde.
- Oi...
?
- Pois não?
- Hum.. não tá reconhecendo minha voz, não é?
- Não...
- Aqui é o Gerard, nervosinha.
- Ah, claro. Em que posso ajudá-lo?
- Hum, infelizmente nada, querida. Percy está?
- Claro, um minuto. - Como ele conseguia me irritar!
Não dá para negar que o resto do meu dia foi uma droga, aquele cara conseguia me irritar com qualquer coisa!
A semana passou voando. Graças a Deus, tudo tinha dado certo e o excesso de obrigações que eu tinha que fazer foi feito em menos tempo do que esperava. Foi bom, pelo menos na sexta-feira pude voltar mais cedo para casa.
Quando entrei em casa, vi que Suzan estava no telefone entretida. Quando ela me viu, pareceu assustar-se e mudou o tom de voz.
- Então... como eu ia dizendo, Megg... Bem... tenho que desligar... adivinha quem chegou?!
... Sim... pode deixar... Mando, sim... Pra você também... Outro, querida... tchau.
- Quem era? - perguntei.
- Ah... era... a Megg.
- Megg?
- Sim, você não conhece. Ela é nova no trabalho, mas já sabe de você...
- Hum, que bom...
Passados alguns dias. Em um dia de sábado, vejo que havia uma rosa em frente ao tapete de nosso apartamento. Era uma rosa vermelha, com um cartão. Não agüentei a curiosidade, abri-o e li.
"Su,
Infelizmente não tenho dinheiro para te comprar dúzias de rosas. Mas espero que esta seja suficiente para que saiba o quanto te gosto.
GW"
Quem era esse tal de GW?
- Suzan... venha aqui.
- O que é, amor?
- Você recebeu isso aqui, ó.
- Hum... flores... - Vi Suzan lendo e se espantando.
- Quem é GW, Suzan?
- Oras, você não sabe,
?
- Não...
- É o Gerard... Gerard Way lembra? GW...
- Ah, claro. E desde quando ele tem te mandado rosas, Suzan?
- Pra sua informação, dona
... esta foi a primeira vez.
- Ótimo...
- Tá com ciúmes, né?
- Eu? Daquele babaca? Eu não!
- Ainda bem...
Pensei que fosse apenas aquilo que estava acontecendo... estava enganada.
Certo dia, voltei do serviço e dei de cara com ele, sim, Gerard. Sentado no meu sofá conversando, ou melhor, xavecando a garota que eu amo.
- Hei,
, já chegou do serviço, querida? - perguntou Suzan.
- Já...
- Hum.. olha que legal, o Gee veio aqui pra chamar a gente pra uma outra apresentação deles.
- Nossa, mas quanta gentileza! - disse eu sarcástica. - Por favor, me dê licença que eu vou tomar um banho.
Suzan e eu discutimos muito depois disso. E acabamos nem indo na tal apresentação deles. Não sabia o que estava acontecendo, Suzan estava mudada. Diferente. Distante.
Não parava de falar com a tal de Megg no telefone, saía e não me dizia aonde ia...
Estávamos cada vez mais distantes. E eu, cada vez mais desesperada.
Uma noite dessas, o telefone tocou. Suzan, agitada, foi atender.
- É pra você,
.
- Pra mim? Quem é?
- É o Frank...
- Alô?
- Oi,
, é o Frank, tudo bom?
- Oi! Tudo bom e você?
- Melhor agora! E aí? O que me conta?
- Ah, na mesma, né? Só trabalhando... mas e vocês?
- Poxa, a gente está indo bem. Fazendo muitas apresentações, a galera parece estar curtindo a gente...
- Que legal... nossa, Frank, como você conseguiu o meu telefone?
- Ah, foi o Gee que me passou...
- O Gerard? Mas como?
- É, ele disse que um dia desses telefonou pro Percy e pediu...
- Ah, sim...
Conversamos sobre como estávamos, e prometemos que, assim que tivéssemos tempo marcaríamos algo para fazer.
O que me havia perturbado era saber que o Gerard tinha pegado o nosso número de telefone. "Suzan" foi o que me veio a cabeça.
"- Ah, claro. Em que posso ajudá-lo?
- Hum, infelizmente nada, querida. Percy está?"
Mas é claro. Ele ligou para pegar o meu número de telefone com o Percy... E não havia resposta mais óbvia por ele estar querendo o número de casa... Suzan.
Mas não ia ficar assim... Ahh, não mesmo! Esse desgraçado ia ver só...
CAPÍTULO XII - "Well, if you wanted honesty..."
(Bem, se você queria honestidade...)
No dia seguinte mesmo, fui trabalhar e conversar com Percy.
- Hei, Percy, posso falar com você por um instante?
- Claro,
...
- Bom, eu sei que é estranho eu estar pedindo isso, mas eu queria que você me passasse o endereço daquele seu amigo, Gerard Way, sabe?
- Ah, sei... Mas posso saber o que você quer com o cara?
- Não é nada demais, Percy, eu juro... apenas conversar com ele.
- Não me traga problemas, hein?
- Ok... eu juro.
- Boa menina.
- Valeu, Percy... te amo!
Peguei um táxi na saída do serviço. Liguei para Suzan avisando que chegaria tarde. Que tinha negócios a resolver...
Gerard não morava num lugar melhor que o nosso, dava pra ver que o cara estava passando dificuldades e tal.
Era um apartamento barato, no subúrbio da cidade. Onde ele provavelmente dividia com o resto dos caras.
Bati duas vezes na porta. Ela demorou a ser atendida. Quando vejo, Gerard aparece de calças, sem a camiseta. Parecia que ele estava dormindo...
- Você aqui?! - disse ele, olhando surpreso para mim, como se não estivesse acreditando.
- É...
- Ah, meu Deus, o que você quer, hein?
- Hã... posso entrar?
- Pode, né? - falou ele, abrindo passagem para eu entrar.
Não tinha outra, o apartamento estava uma bagunça.
- Ah... desculpa, eu não tenho nada pra te servir... - começou ele.
- Não precisa. O que eu tenho pra dizer é rápido.
- O que você tem pra dizer?
- É simples: deixa a Susan em paz, está me ouvindo?
- O quê?
- É isso mesmo. Eu sei dos seus telefonemas, das flores... o que você pensa que está fazendo, hein?
- Eu? Nada demais... - disse ele, dando um riso debochado.
- Pois saiba que está! E eu já tô cansada, eu vim aqui por um ponto final nessa palhaçada tua, você está me entendendo?! - falei, me exaltando. Levantei-me, e fui em direção à porta.
- Sabe o que eu acho? - disse ele, me fazendo parar.
- O quê?! - perguntei, virando-me em direção a ele.
- Eu acho que você não tem ciúmes da Suzan.
- O quê?! Como você pode dizer isso? Ela é a pessoa que eu amo... e por sua causa nada é a mesma coisa...
- Sei... - disse ele, se levantando e vindo em minha direção. - Mas mesmo assim, eu acho que você não tem ciúmes dela...
- Ah... não?!
- Não...
- O que é, então?
- É isso... - disse ele, me puxando e me dando o beijo mais maravilhoso que eu lembro ter recebido.
Lembro que na hora, tentei empurrá-lo, mas ele era mais forte. Com força, me puxou pela cintura para que eu ficasse mais perto dele, enquanto que com a outra mão ela segurava minha cabeça para que não pudesse fugir.
O beijo dele era maravilhoso, arrebatador... estonteante.
Não resisti e me entreguei.
Repentinamente, do mesmo jeito que veio o beijo, ele interrompeu o beijo e me afastou, ainda me segurando, e olhou para os meus olhos.
- Não disse? - ele falou, dando um risinho de "ganhei".
- Seu desgraçado! Quem você pensa que é? Me larga! - disse, me desvencilhando.
- Ah!! Que droga - ele resmungou, parecendo nervoso. - Vai dizer que não gostou?
- Não! Não gostei! Odiei!
- Ótimo! - disse ele, me soltando e empurrando. - Pode ir... já me diverti hoje...
- Seu idiota! Eu te odeio!
- Oh, que surpresa. Por favor, me diga algo que eu não saiba...
Não tinha mais o que dizer. Tremendo de raiva, virei-me e fui embora.
Droga, por que tudo tinha que dar errado? Fui lá para dar um fim nessa palhaçada e quem acaba sendo lesado sou eu?!
Voltei a pé pra casa, estava nervosa demais. Caminhadas sempre me ajudavam a pensar, a relaxar.. quem sabe esta não ajudasse...
CAPÍTULO XIII - "The damage you've inflicted temporary wounds..."
(Com os danos você abriu feridas temporárias...)
Creio que se passaram dez dias desde o dia em que eu fui à casa de Gerard. Parecia que ele tinha sumido, mas mesmo assim, via que Suzan não estava feliz. Ela andava séria, não era mais a mesma Suzan que me fazia rir, que me apoiava... Ela estava virando uma estranha.
Eu estava perdendo Suzan... e eu não podia fazer nada, estava de mãos atadas...
Havia dias em que mal conseguia dormir de desespero, pensando o que poderia fazer, mudar, falar, descobrir...
Não demorou muito para que o dia que eu tanto temia chegasse.
- ?
- Oi... - era Suzan, me olhando com um olhar triste.
-
, eu... eu preciso falar com você...
- Ah... pode falar. - Naquela hora meu coração soube, senti medo.
-
, eu te amo tanto...
- Eu também, Suzan... sempre.
- Mas,
, tudo tem seu tempo... nada é para sempre...
- Não tô entendendo, Suzan.
-
, eu não poderia fazer escondido de você...
- Fazer o que, Suzan?!
-
, eu... eu... me apaixonei por outra pessoa.
A partir daquele momento, não lembro de ouvir mais nada. Já sabia o que viria... já estava cansada de ouvir aquilo.
- Chega, Suzan! Eu não quero ouvir!
-
... por favor, me escuta...
- Não... depois a gente se fala... eu... eu tenho que ir... É isso, eu tenho q ir...
- Não faz isso,
, por favor!
- Desculpa... eu tô atrasada... num dá... chega... tá bom?
Eu sabia o que estava acontecendo, mas fingia não ser comigo... não podia ser comigo... não de novo...
Saí de casa. Como isso pôde ter acontecido? Não acreditava, tudo parecia tão distante e surreal. Deveria ser um sonho. Só podia ser um sonho!! E logo eu estaria acordando...
Mas não acordei...
Não sabia para onde ir, o que fazer... Estava completamente perdida.
Percy...
Percy foi a primeira pessoa que veio a minha mente, sim, Percy... ele me ajudaria. Falaria com Suzan e a faria esquecer essa loucura que estava me dizendo... isso... tudo daria certo... tudo TINHA que dar certo.
Fui a pé, no trajeto sempre pensando que tudo não passava de um mal entendido... como se tudo não passasse de um sonho... surreal...
Cheguei à casa de Percy. Eram 7:50. Percy abriu a porta com cara de sono. E pareceu assustado ao me ver lá, em pleno sábado.
-
?! O que você faz aqui à uma hora dessas? - Na mesma hora ele se arrependeu de ter perguntado. Vi isso em seus olhos. Acho que ele percebeu que não estava bem. Tanto que a primeira coisa que fez foi me abraçar forte, enquanto eu soluçava em seus braços.
Percy me colocou sentada no sofá e foi buscar um copo com água e açúcar. Estava nervosa por demais pelo que me acontecia.
- Calma,
... Agora, me conte... o que aconteceu, hein?
- Oh, Percy... é... é a Su... a Suzan...
- A Suzan? O que aconteceu? Vocês brigaram?
- Não, Percy... foi muito pior... Ela... ela quer terminar comigo!
- O quê? Mas por quê?
- Eu... eu não sei. Ela simplesmente disse que está apaixonada por outra pessoa...
- Não é possível... Ela sempre foi louca por você,
...
- Parece que não é mais, Percy... - Olhei profundamente em seus olhos. Meus olhos estavam marejados e mostravam frustração. - Eu a perdi, Percy... perdi o amor da minha vida!
Não havia muito o que Percy poderia fazer. Ele simplesmente me abraçou e me consolou pelo resto da manhã. Não conseguia dizer mais nada. Apenas chorar, por pra fora tudo o que sentia, tudo o que me corroia, tudo o que me afligia... Se chorar resolvesse alguma coisa...
-
, você precisa falar com a Suzan...
- Não! Eu não quero... eu não posso... eu, eu... não conseguiria...
- Você não pode fugir dela pra sempre,
.
- Talvez você esteja certo... mas não estou pronta para ver Suzan ainda.
- Você é quem sabe...
- Posso ficar aqui hoje?
- Você sabe que sim,
.
- Obrigada...
Percy me levou para um dos quartos do andar de cima e fez eu me deitar. Acredito que já era hora do almoço, mas não tinha fome.
Percy fechou as cortinas da janela, deixando o quarto em sombras. Ele me deixou no quarto, sozinha... para poder refletir melhor no que acontecera.
Só, no quarto. Comecei a pensar tudo o que passara em minha vida. Desde o início. Quando cheguei em Nova York. As coisas que fiz, não fiz, que errei... eram tantas...
Como pude perder Suzan? O bem mais precioso que a vida me dera, e que eu deixei escapar por entre os meus dedos...
Senti um buraco enorme dentro de mim... como se tudo o que eu tinha de bom, de esperança, de vida... tivesse sido sugado. E mais nada restava, apenas dor.
Levantei os meus pulsos, e os olhei. Vi as cicatrizes que ali tinham, da última vez em que tentei me matar.
Parecia que foi há tanto tempo...
Pensei, pensei, pensei... e de repente, senti uma névoa escura embaçando os meus olhos. Senti meu corpo flutuar, senti-me leve e feliz... senti-me segura e aquecida... estava adormecendo...
Dormir... o único momento em que os fantasmas não perseguiam.
CAPÍTULO XIV - " You are never coming home... never..."
(Você nunca está voltando pra casa... nunca...)
Silêncio... silêncio... silêncio... e, então, escuto. Consigo ouvir meu coração batendo, sem parar. Num ritmo acelerado. Batendo. Batendo. Batendo... e então, mais uma vez, acordo.
Abri os olhos. Depressa, sentia meu coração batendo forte contra o peito. Olhei ao redor. Olhei para mim mesma. Onde estava? O que acontecia?
Então, tão rápido quanto o susto. Voltou-me a memória. Suzan... e meu coração continuava a bater... forte contra o peito, sentia medo.
Desci as escadas, tudo estava no mais absoluto silêncio. Onde estava Percy? Olhei ao redor e nada. Fui em direção à cozinha. Eram três da tarde. Dormira cerca de três horas. Vi que a secretária mostrava ter uma mensagem não escutada. Coloquei para escutá-la.
Oi, Percy... aqui é a Suzan... Ah... eu sei que.. é estranho eu estar te ligando, mas... você... Você sabe onde está a
? Ela saiu hoje cedo e... bem... ainda não voltou. Ela parecia... preocupada. Desculpe incomodar. Se souber de alguma coisa... me avisa, tá?
Fim da mensagem.
Meus olhos encheram-se de lágrimas. Só de ouvir a voz de Suzan me dava um aperto no coração.
Olhei a casa, vazia. Sentei-me no sofá, e fiquei olhando ao redor.
Vi minha bolsa. Talvez ainda estivesse lá... já fazia tanto tempo...
Levantei-me, e fui em direção a minha bolsa. Procurei, procurei... e quando já havia perdido as esperanças de encontrar... ali estava.. ainda cheio.
Parara de tomar quando comecei a ficar com Suzan. Tomar aquilo com ela não fazia mais sentido... mas agora...
Olhei em direção ao balcão de bebidas de Percy.
Fui lá e preparei uma dose dupla de uísque. Bebi junto com duas pílulas. Tomei em um gole. Ardeu minha garganta, doía... mas logo melhoraria... sempre melhorava.
Fui em direção ao sofá e deitei-me, não demorou muito... sentia-me leve, feliz... sem nenhuma preocupação... consegui. Consegui. Fugi do que tanto temia...
Comecei a achar graça nas coisas. Ainda deitada, comecei a dar risada da vida, das minhas atitudes... de tudo o que via.
Nem percebi quando Percy chegou em casa.
-
... você está bem?
- Eu? Ah... claro que sim... - disse com a voz embargada.
- O que você fez,
?!
- Eu? Nada...
Percy viu o copo em minha mão e do lado as drogas.
-
! O que você pensa que está fazendo?! - disse ele, me puxando e me carregando para cima.
- Ah, Percy... qual é?!
Ele abriu o banheiro. Ligou o chuveiro em água fria.
- Se você pensa que se drogar vai ajudar em alguma coisa,
, está muito enganada. Não adianta fugir!
Não conseguia falar nada. Estava tão mole. Via tudo em câmera lenta, e não ouvia mais uma palavra do que Percy dizia.
Só senti a água gelada escorrendo pelo meu corpo. Dei um grito. Tentei sair de lá, mas Percy não deixou. Me fez ficar lá até que eu me acostumasse com a água, e voltasse um pouco do "transe".
Percy me tirou do chuveiro, secou-me e levou-me para o quarto. Sentia como se estivesse morrendo. Sentia uma dor física e mental tão forte. Comecei a chorar, desesperada. Como um bebê...
- Shhh...
, calma... calma... eu tô aqui pra te ajudar... lembra? Não vou deixar você afundar,
, porque eu tô aqui...
Lembro que chorei até minhas lágrimas cessarem. E adormeci, mais uma vez... e mais uma vez... fugi dos fantasmas que me perseguiam.
CAPÍTULO XV - "I'll photocopy all the things that we could be..."
(Eu vou copiar todas as coisas que nós poderíamos ter sido)
Não vou entrar em detalhes do que me ocorreu durante aquele longo e angustiante final de semana na casa de Percy. Pedi para Percy não avisar a Suzan que eu estava lá. Talvez eu tenha feito isso por maldade, ou quisesse que ela ficasse com peso na consciência. Mas mesmo assim, pedi... ou melhor, implorei para Percy não dizer nada a ela.
Foi no domingo à noite que eu resolvi ligar para ela e dizer que estava bem.
- Alô?
- Suzan... sou eu.
-
! Graças a Deus! Eu estava desesperada... quase chamando a polícia.
- Você sabia que eu estava bem.
- Não... não sabia... da forma que você saiu de casa no sábado.
- Não importa! - disse eu, sendo brusca. - só estou ligando pra avisar que estou bem.
- Onde você está?
- Prefiro... não te dizer...
- Por que você está fazendo isso comigo,
?! Me fala! - Ela parecia desesperada.
- Não tô fazendo nada, Suzan...
- Está, sim.
- Desculpe... não foi minha intenção.
-
... volta pra casa...
- Não!
- A gente não conversou tudo o que tinha pra conversar...
- E não precisa, Suzan. Tudo o que você me disse no sábado está bem esclarecido.
- Eu.. eu não queria que fosse assim...
- Mas foi, Suzan... - Estava controlando-me para não chorar.
- Eu sinto tanto... - disse ela, sua voz parecia trêmula, como se estivesse prestes a chorar.
- Não tanto quanto eu, Su... - Não dava, já estava chorando.
-
...
- Suzan... - disse eu, interrompendo-a - Tenho que desligar.
- Não...
! Onde você está? Quando você volta?
- Não sei, Suzan... Depois nos falamos.
- Não faz isso comigo. Eu...
- Desculpa... - E desliguei na cara dela.
Desliguei o telefone e comecei a chorar. Como doía perder a Suzan.
Percy apareceu do meu lado. E mais uma vez, como um irmão mais velho. Me segurou em seus braços e disse palavras reconfortantes.
- Percy... eu te amo tanto... obrigada por tudo...
Percy olhou em meus olhos. Com uma bondade de um pai... um pai que eu nunca tivera ou conhecera...
E sorriu. Sorriu-me e disse:
- Eu também,
...
A única coisa que me consolava nisso tudo. Era saber que, no meio de tantas dificuldades e atribulações, eu achara uma pessoa, um amigo de verdade. Que eu podia contar sempre... E esse amigo era Percy.
Segunda-feira, de manhã, por volta das oito horas da manhã.
Perguntei a Percy se podia chegar um pouco mais tarde na gravadora. Precisava passar em casa e decidi passar na hora em que Suzan estivesse no trabalho... era mais fácil assim. Percy deixou.
Quando eram oito e meia, saí da casa de Percy. Fui andando lentamente aquele percurso. Parei, comprei um maço de cigarros. E prossegui. Observando tudo ao meu redor. Era uma manhã bonita. O sol batia contra as folhas amareladas e alaranjadas dando um ar de outono. Geralmente, dias assim me deixavam animada. Mas hoje, era uma exceção.
Estava quase chegando no apartamento. Subi as escadas, peguei o molho de chaves na minha bolsa e entrei.
Tudo estava como deveria estar. Só faltava Suzan.
Creio que fiquei parada uns quatro ou cinco minutos. Olhando, pensando... acordei do transe e fui para o quarto. Não havia ninguém, como era de se esperar.
Sentia um peso tão doloroso no coração... uma mistura de tristeza e desespero... eu procurava algo a me segurar, para me manter segura... mas não achava apoio nenhum... estava só. Este era o meu destino talvez... sofrer... ser só...
Mas eu não quero ser só!
Eu preciso de alguém... que me ajude... que me escute... que me entenda!
Como aquela que passa por uma multidão e não é notada... estou só... e guardar tudo o que eu sinto é tão difícil... dói tanto. Se ao menos alguém me ouvisse... ou... se a dor sumisse...
A dor é boa... ela te faz sentir-se vivo. Mas essa dor que eu sinto é dilacerante... corrói a alma... abriu mais uma ferida. E eu não acho a cura.
Peguei algumas roupas, troquei-me e fui trabalhar. Afinal, a vida continua. Infelizmente... continua.
A semana passou lentamente. Quase parada. Os dias perdiam o sentido. Estava fora de mim... perdi a noção de tempo. O que eu fiz hoje parece que foi feito há anos. A separação de Suzan parecia ter acontecido há tanto tempo...
Nesse meio tempo, Suzan ligou várias vezes para a gravadora. Eu nunca atendi.
Ficar sem ela doía. Mas vê-la e não tê-la era muito pior.
Certo dia, achei uma foto de nós duas juntas. Estávamos abraçadas, sorridentes. O mundo era nosso...
Vê-la foi um misto de alívio e dor...
Como poderia viver sem ela? Longe dela? Qual o sentido da vida sem ela? Como eu vivia antes de conhecer Suzan? Não havia respostas...
Chegou sexta-feira, sabia que não poderia adiar mais o encontro com Suzan. Precisava ir em casa e... quem sabe.. conversar.
Depois do expediente, fui direto para minha antiga casa, onde morava com Suzan.
Não me dei ao trabalho de bater. Simplesmente peguei minhas chaves e abri. Abri com a esperança de ver Suzan sorrir para mim, correr em minha direção e dizer que tudo não havia passado de uma grande besteira.
Abri a porta. Parei. Estarrecida. Suzan olhou em direção a porta. E olhou-me surpresa.
-
- murmurou ela.
Olhei para quem estava sentado a seu lado. Gerard olhava para mim com uma cara de surpreso.
- Hã... oi... desculpe interromper - disse, fingido-me de indiferente ao que via. - Só vim pegar minhas coisas...
-
... eu...
Não a deixei terminar. Passei por ela e fui em direção ao quarto. Doía tanto. Peguei minhas coisas mecanicamente, sem prestar atenção no que estava fazendo. A única coisa que vinha em minha cabeça era a visão de Gerard com Suzan.
Então era ele...
Um silêncio mórbido caiu sobre nós.
Gerard estava na sala em silêncio, Suzan estava na porta do quarto me olhando e eu apenas pegando minhas coisas. Todos em silêncio, pensando consigo mesmos.
Finalmente, terminara de pegar minhas coisas. Peguei a mala e saí do quarto, passando mais uma vez por Suzan sem lhe dizer uma palavra. Parei em frente à porta. Abri-a. Mas antes... sem me virar, disse:
- Desculpe por ter incomodado. Acho melhor eu deixar a chave com você... Quando eu precisar, eu telefono dizendo quando venho. - virei e deixei a chave na mesa do lado da porta.
Saí de lá. Sem esperar pela resposta de Suzan.
Descobrira... Agora sabia... o que havia tirado Suzan de mim...
Como eu o odiava... O odiava tanto quanto minha própria vida.
CAPÍTULO XVI - "These hands stained red from the times that I've killed you"
(Estas mãos manchadas de vermelho das vezes que eu te matei...)
Ódio. O ódio me corroia. Me queimava. Fazia com que tivesse pensamentos horríveis sobre eles, sobre mim... O ódio era tanto que chegava a dar vontade de matá-lo. Como pude ser tão estúpida?
Maldito o dia em que nós nos conhecemos! Maldito! Maldito mundo... Maldita vida. Maldito destino que me tira tudo.
Estava no apartamento de Percy, só. Ele saíra. Fumava nervosamente enquanto pensava.
Tudo se ligava. Os telefonemas estranhos, as flores, o dia em que o Gerard estava em casa quando eu voltei mais cedo... Tudo fazia sentido!
Talvez eu estivesse cega demais para ver.
Acendi mais um cigarro. Eles não estavam adiantando. Olhei para minha bolsa. Elas ainda estavam lá... Mas não! Não podia me entregar àquilo tudo novamente... mas... só hoje...
Levantei-me e peguei minha bolsa. Lá estavam.
Na mesma hora, a voz de Percy veio-me a memória. "Se você pensa que se drogar vai ajudar em alguma coisa,
, está muito enganada... não adianta fugir!" Talvez ele estivesse certo. Mas...
Os problemas se foram. Tudo parecia ser tão tranqüilo... A vida era tão calma. Tudo era tão perfeito... Pensei em Suzan, junto a Gerard.
Não doeu! Ao contrário. Foi engraçado. Engraçado... sim, engraçado.
Danem-se eles. Dane-se o mundo. Porque, agora, eu estava livre! Livre...
Acordei no dia seguinte. Dormira, ou melhor, apagara em minha cama, com a roupa do dia anterior. Estava atrasada! Não, não estava... era sábado.
Finais de semana eram o meu alívio e o meu martírio. Eram nos finais de semana que percebia o quanto Suzan me fazia falta. Senti um vazio tão grande em meu peito. Uma ferida aberta, que sangrava e corroia.
Olhei o relógio, eram oito e trinta e três. Estava cedo. Podia voltar a dormir, mas sabia que não conseguiria.
Resolvi dar uma caminhada. Longas caminhadas faziam com que eu pensasse melhor, refletisse sobre os prós e contras de certas ações. Caminhar me fazia parar para pensar que rumo tomar na vida.
Vesti-me, coloquei jeans velhos, uma camiseta branca e uma camisa de flanela xadrez por cima. Peguei meu maço de cigarros e saí.
Era uma manhã fria, onde o sol batia preguiçosamente contra as árvores. Apesar de fazer sol, havia um vento gelado cortante.
Caminhei sem rumo, sem saber para onde minhas pernas me levavam. Quando dei conta, estava perto de uma praça que havia próximo do apartamento onde eu e Suzan morávamos.
Sentei-me em um dos bancos. O banco onde já me sentara várias e várias vezes com Suzan.
Saudades... Memórias... Recordações... Momentos mágicos que se foram.
Era incrível como só vivia depressiva. Ri com a idéia.
Permaneci lá, sentada, fumando, não sei por quanto tempo, até que veio-me sons de risadas. Risadas felizes. Risadas tão...
-
?!
Olhei em direção a voz que chamara. Era Suzan, junto com risada. Sabia que aquela risada não me era estranha.
-
, o que você faz aqui? - perguntou ela, espantada.
Reparei que os dois estavam de mãos dadas. Doeu. Senti ciúmes.
- Hã... nada. Não se toma um ar quando se está injuriada?
- Não... na verdade, não. Só achei estranho de te achar aqui. Você não costuma acordar cedo - disse ela, rindo meigamente para mim.
- É... é verdade. - Sorri tristemente - Bom... acho que já vou indo.
- Foi bom te ver,
...
- É... digo o mesmo...
Levantei-me e saí. Não havia mais nada a falar.
CAPÍTULO XVII - "And it's hard to say I'm shaken by the choices that I make"
(E é difícil dizer que estou abalada pelas escolhas que eu fiz)
Quarta-feira, de manhã.
-
, reunião imprevista, na sala do Percy, daqui a quinze minutos.
- Ok, Roy, já vou.
Entrei na sala de Percy.
- Bom dia,
. Por favor, sente-se. - Era incrível como Percy podia ser formal em horário de trabalho.
Sentei-me de acordo como ele pedira.
- Bom, eu sei que vocês devem estar achando estranha essa reunião, mas é que aconteceu algo imprevisto.
Todos olharam curiosos uns para os outros.
- Bem... - disse Percy, continuando - nesta manhã, decidimos fechar um contrato que promete dar certo.
Percebi que todos estavam ansiosos por saber.
- Como é de costume, estou passando as informações a vocês.
- Mas para quem estamos fazendo um novo CD, Percy? - perguntou Roy.
- Para o My Chemical Romance.
Pensei não ter ouvido direito. Será que estava errada ou ouvira dizer que nós, da Eyeball Records, havíamos feito um contrato com o My Chemical Romance? Não podia ser verdade... só podia ser brincadeira.
- Mas o que é isso?! - disse, exaltando-me.
- O que é isso o quê,
? - perguntou Percy.
- Você... você fechou contrato com essa banda?!
- Marcarei outra reunião para maiores detalhes. Podem ir - ele disse, dirigindo-se aos outros do grupo - Quero que você fique,
. Precisamos conversar.
Todos saíram da sala. Ficaram apenas Percy e eu. O silêncio caiu sobre nós. Estava nervosa e irritada. Sentia-me traída. Comecei a conversa.
- Você não disse nada sobre um contrato, Percy. Nem ao menos sobre eles...
- Desculpe,
, não queria que fosse assim, mas foi melhor. Você já estava sofrendo demais com o caso da Suzan, e te deixar envolver com esse caso seria pior. Resolvi ter certeza do fechamento do contrato para depois te avisar. Por favor, entenda...
- Entender, Percy?! Como você quer que eu entenda? Você sabe o que aconteceu!
- Sei, mas também recebo ordens, e temos que ser profissionais,
. Eu sei que é difícil te pedir isso, mas, por favor, você terá que trabalhar para eles.
Fiquei quieta. Não havia o que responder. Na hora, sentia tanta raiva de Percy, que estava quase quebrando minha caneca de café na cabeça dele.
- Desculpe,
, - disse ele, depois de ver que eu não responderia - mas isto não é uma opção. Espero que você seja profissional. Daqui a dois dias marcaremos uma reunião com eles, e quero que tudo corra certo...
Terminado o que disse, ele se retirou. O que mais poderia acontecer?
Dois dias depois, como Percy avisara, houve a reunião com a banda.
A reunião estava marcada para as dez da manhã.
Nove e cinqüenta. Eu e Percy estávamos na sala, à espera deles. Como era uma reunião formal, Percy e eu estávamos vestidos socialmente. Odiava vestir-me de social. Aqueles saltos finos e maquiagem em excesso me enfadavam.
-
, eles estão entrando. Por favor, comporte-se.
- Sim, papai.
A secretária abriu a porta para que eles entrassem. Todos eles estavam bem vestidos. Gerard foi o primeiro a entrar. Estava bem vestido, muito bonito. "Como você é idiota.
!". Ele entrou confiante na sala. Percebi que ele me olhou de uma forma cínica, com um sorriso nos lábios.
Veio e cumprimentou Percy calorosamente, logo em seguida me cumprimentou secamente, como se nunca tivesse me visto antes.
Vi Frank, pelo menos alguma coisa boa aconteceu! Ele também estava tão bonito. Quando ele me viu, deu um sorriso lindo, que fez meu coração, por alguns instantes, se alegrar.
Sentamo-nos à mesa e começamos a velha ladainha de sempre. Não participei muito. Só respondia quando Percy perguntava, apenas anotava tudo. Gerard fingiu me ignorar. Melhor assim.
- Bom, então creio que estamos combinados, rapazes? - disse Percy.
- Claro... - falou Gerard, parecendo satisfeito.
- Ótimo! Então vou pedir pra minha secretária fazer o contrato para, mais tarde, vocês assinarem.
- Perfeito.
- Enquanto isso, não gostariam de conhecer a gravadora?
Todos pareceram se animar com a idéia.
- Ótimo - disse Percy. -
poderá mostrar a vocês.
Olhei para ele, assustada. Ele apenas olhou para mim e sorriu; um sorriso de "vamos... só mais um pouquinho". Suspirei, resignada àquela tarefa chata!
- Claro - disse eu seriamente. - Se os senhores quiserem me acompanhar...
Todos levantaram e seguiram-me.
Frank foi o que mais puxou conversa comigo. Sem dúvida, ele era uma pessoa maravilhosa.
- E, aqui, é o melhor estúdio que nós temos, senhores - disse, mostrando para eles.
- Nunca estive em um estúdio antes - disse Gerard. Ele virou-se e olhou para mim, sorrindo. Seus olhos brilhavam de paixão e deu para notar que a música era muito importante para ele.
Por um instante, todo o ódio que eu sentia dele desapareceu. Ele não deveria ser má pessoa... a não ser pelo fato de que me tirou Suzan.
A visita ocorreu como esperada. Consegui me controlar, e os garotos pareceram satisfeitos e felizes quando deixaram a gravadora. Missão cumprida. Por enquanto...
Pelo fato de estarmos fazendo documentação de contrato e vendo o que precisaríamos para fazer o novo CD, o dia foi muito cansativo. Nem ao menos tive tempo para almoçar, e saí bem mais tarde do que previra. Percy era muito dedicado e resolveu ficar mais um tempo no estúdio para dar alguns telefonemas e resolver alguns outros detalhes. Mas ainda faltava muito que fazer.
Percy disse que eu poderia ir. Estava tão cansada, e não tinha carona de Percy para voltar para casa. Resolvi pegar um táxi. Saí do prédio. Estava frio. Uma brisa gelada passou por mim, fazendo-me arrepiar. Andei em direção à calçada e vi que havia uma pessoa lá...
- Gerard?!
- Hã... oi!
O que ele estaria fazendo ali à uma hora dessas?
- Puxa... como você demorou pra sair... - disse ele, rindo meigamente.
Falso!
- É... tive que trabalhar mais do que o esperado.
- Pois é, mas, mesmo assim... eu te esperei.
- Esperou? - eu perguntei, olhando cinicamente pra ele.
- Esperei - disse, dando um sorriso zombeteiro. Aquilo me irritava.
- E esperou pra quê?! Eu acho que você tem mais o que fazer.
- Talvez... mas tinha que falar com você.
- Você já está falando.
Ele riu.
- Como você é cínica.
- E como você me irrita...
- Ora, ora... Olha só como você fala com o seu novo cliente!
- Pois é. Você é o meu cliente dessa porta pra dentro - eu disse, apontando para a porta da gravadora. - Agora, não me venha querer fazer chantagem, okay?
- Além de cínica é irritadinha.
- Acho que tenho os meus motivos.
- E é por isso que eu vim aqui hoje.
- Pra quê?
- Te pedir desculpas... - disse ele, sussurrando e chegando mais perto.
- Desculpas? Acho que é tarde demais - disse, olhando para baixo, para que ele não percebesse o quanto sentia com isso tudo.
- Talvez... Mas, mesmo assim... Sinto muito.
- Por que você não pára com isso? - disse, chorando. - Desculpas não vão fazer as coisas voltarem a ser o que eram antes.
Ele viu que eu chorava. Enquanto chorava eu olhava para o chão. Gerard veio tentar me abraçar.
- Não! - eu disse, empurrando-o. - Me deixa em paz!
Ele foi mais forte, e me puxou, abraçando-me. Carinhosamente, colocou sua mão em meus cabelos e começou afagá-los. Aquilo pareceu ter feito minha vontade de chorar ainda maior.
Não sei quanto tempo fiquei ali, abraçada com ele. Eu o odiava... mas me sentia tão segura nos braços dele. "O que você pensa que está fazendo?!" Separei-me dele.
- O que você pensa que está fazendo, Gerard? - disse, olhando-o nos olhos pela primeira vez, mostrando toda a minha fraqueza para ele.
- Te consolando...
- Me consolando por algo que você roubou?
- Não se roubam pessoas,
...
- Eu te odeio - disse, olhando nos olhos dele e chorando mais ainda.
- Eu sei... - disse, abraçando-me de novo.
Por mais idiota que pareça, aceitei de novo seu abraço.
- Vamos, eu vou te levar pra casa... - disse ele, abraçando-me de lado, fazendo com que caminhássemos lado a lado.
Não respondi. Simplesmente o deixei me guiar. Olhava para baixo, sem entender o que eu acabara de falar ou fazer.
Pegamos um táxi e fomos para casa de Percy. Não conversamos nada durante o trajeto de volta, apenas ficamos abraçados.
Chegamos à casa de Percy. Gerard acompanhou-me até a porta.
Olhava fixamente para o chão quando disse:
- Obrigada por ter me trazido.
Ele levantou meu queixo e respondeu:
- Por nada...
Vi que ele se aproximou um pouco de mim e me deu um beijo suave nos lábios. Eu fiquei parada. Não o rejeitei nem o aceitei.
Ele se distanciou e olhou em meus olhos. Vi que seus olhos fitavam fixamente os meus. Depois, passaram para o nariz e ficaram lá, fitando meus lábios.
-
... - disse ele, olhando ainda fixamente para minha boca.
- O quê?
- O que você diria se eu dissesse que eu quero te beijar na boca?
- Eu diria que você é um idiota...
Ele riu.
- E o que você faria se eu te beijasse na boca?
- Eu te odiaria mais do que odeio agora...
Ele ficou em silêncio por um segundo. Logo em seguida, olhando em meus olhos.
- Acho que vale a pena o risco.
Não tive nem tempo de pensar no que aquela resposta queria dizer. Gerard me puxou bruscamente ao encontro de seus braços. Prendendo-me, beijou avidamente a minha boca. Beijou com rudeza, sem se importar o que eu sentia ou se eu queria.
Ele beijava com tanta ansiedade, com tanto desejo... Não foi difícil entregar-me àquele beijo. Gerard encostou-me na parede e me beijou mais e mais. Sugava minha língua, mordia meus lábios. Aquele beijo parecia me trazer vida.
De repente, me dei conta. Ele estava com Suzan. Fez Suzan me largar, e agora estava ali, me beijando?
Empurrei-o, com as duas mãos em seu peito. Ele se afastou um pouco e me encarou. Estávamos ofegantes por causa daquele beijo apaixonado.
Olhei para ele.
- Você é um idiota!
- O quê?! - disse ele, fazendo cara de surpreso.
- É isso mesmo! Quem você pensa que a Suzan é, hein? Você não vale nada! Vá embora daqui! - falei, abrindo a porta da casa de Percy.
- Você é maluca?
- NÃO! - gritei. - Simplesmente te odeio! E, se você acha que as coisas acontecem assim, meu querido, você está muito enganado. Agora... me deixa!
- VOCÊ É LOUCA! - disse ele, também se exaltando. - Você já reparou que você adora os meus beijos? - ele perguntou, fazendo aquela cara de cínico.
- Seu beijo? Faça-me o favor! E se ENXERGUE!
- Por que você está falando isso? - disse ele, puxando-me de dentro de casa e prendendo-me em torno de seus braços.
- Me larga!
Mais uma vez, Gerard me prendeu na parede. Eu me debatia e o xingava de tudo quanto era nome, mas ele não me soltava. Até que ele me segurou os braços e com a outra mão pegou no meu queixo... fazendo com que nos fitássemos.
Ele olhou no fundo dos meus olhos. Eu estava ofegante.
Ele veio e me deu outro beijo, segurando meus braços e meu queixo. Meu coração acelerou.
E tão rapidamente quanto ele me beijou, ele se afastou de mim. E começou apenas a roçar seus lábios contra os meus. Aquilo era uma tremenda tentação. Era um convite explícito para um próximo beijo.
Enquanto ele roçava seus lábios levemente nos meus, eu fui pra frente, querendo beijá-lo mais uma vez. Só que em vez de Gerard ficar parado e aceitar, ele fugiu do beijo e me largou.
- Sabia que você gostava... - disse, sussurrando em meu ouvido e soltando uma risada de deboche.
- Sai daqui! - disse eu empurrando ele.
Ele só sorriu. Aquele sorriso que eu odiava e que me encantava... Virou-se com as mãos nos bolsos e foi embora, sem dar mais explicações.
O que eu estava fazendo?! Estava ficando louca. Completamente louca...
CAPÍTULO XVIII - "Can we settle up the score?"
(Nós podemos acertar as contas?)
Domingo. Acordei com dor de cabeça. Não me lembrava de nada que aconteceu no sábado. Somente na sexta. Também, não seria difícil. Aquele beijo repassava várias e várias vezes em minha mente. Lembrava de cada detalhe. Como se tudo aquilo que acontecera fosse um misto de sonho e realidade.
Lembro-me de ter brigado com Percy, ele achou os meus "comprimidos" e simplesmente os jogou ralo abaixo.
- Quem você pensa que é pra fazer isso?
- Seu amigo,
!
- Não! Por que você não cuida da sua vida?
Estava arrependida de ter brigado com Percy. Puxa vida, fazia cerca de uma semana que estava morando com ele e ainda por cima não respeitava as regras de sua casa...
Desci as escadas. Percy, pelo jeito, ainda não acordara. Com um roupão felpudo aconchegante e pantufas, sentei-me uma poltrona. Acendi o cigarro. Não havia problemas, pois Percy também fumava.
Olhava para o nada. Pensava em nada. Até que acordei do transe.
O que eu poderia fazer em pleno domingo de manhã? Hum... que tal ler o jornal? Boa idéia...
Levantei-me preguiçosamente da poltrona e fui em direção à porta. Abri a porta e dei um grito. Gerard, por sua vez, também deu um grito.
- Você aqui? - perguntei ofegante e risonha pelo susto.
- É... - disse ele, rindo.
Comecei a rir na cara dele.
- Hey... o que aconteceu de engraçado?
- Haha... Eu sabia que você grita muito e tal, mas... que gritinho fino você deu agora, hein? - questionei, não me agüentando e rindo descontroladamente.
Ele olhou com uma cara de desentendido e começou a rir junto comigo. Não sei o que me deu na hora, mas não parava de rir, e ríamos juntos como se fôssemos amigos e estivéssemos nos divertindo...
- Chega,
...
- Desculpe... - disse, controlando o riso. - Mas, então, o que você aqui a essa hora em pleno domingo?
- Eu sei que é estranho, mas não consegui dormir e pensei em vir aqui pra te chamar pra dar uma volta comigo...
Não sabia se devia ou não. "O que está acontecendo com você,
?!" Eu ainda cogitava a idéia de querer dar um passeio com ele. Será que havia esquecido de tudo o que aconteceu?
- Vou me arrumar... - Droga! A merda já estava feita. - Não quer entrar e esperar?
- Ah... acho melhor não... O Percy pode me ver.
- É verdade...
Subi as escadas sem pressa. Fui ao quarto e peguei as primeiras roupas que vi. Jeans rasgadas com uma baby look preta, tênis velhos...
Apareci, logo em seguida, fechando a porta.
- Como você está diferente de quando eu te vejo normalmente - disse ele, zombando.
- Pois é. Esta - falei, apontando para mim mesma -, é a verdadeira
! Sem frescuras, sem etiquetas. Simplesmente eu! - disse, brincando. Era engraçado como me soltava com ele.
- Prazer,
...- disse ele, me dando a mão educadamente. - E este - disse apontando para ele mesmo -, É o verdadeiro Gerard.
- Prazer, Gerard... - falei, entrando em sua brincadeira.
Começamos a nossa caminhada em silêncio. Mas era engraçado. O silêncio não era constrangedor, pelo contrário, era confortador. Como se não houvesse palavras para serem ditas, apenas sentimentos a serem vividos...
-
... - disse Gerard subitamente.
- Hum?
- Posso te levar para um lugar onde gosto muito de ir?
- Pode...
Durante todo o trajeto, ele não quis me dizer para onde íamos. Até que, finalmente, chegamos. Ficava num bairro de periferia. Um antigo teatro, fechado há tempos, de construção antiga.
- O que é isso aqui? - perguntei.
- Calma... já te mostro.
Ele pegou em minha mão e me puxou em direção a uma porta. Entramos.
- Você pode estar entrando aqui, Gerard?
Ele ficou em silêncio por um instante, dentro do teatro. Olhando para as altas paredes antigas e imponentes.
- Gee... - ele disse.
- O quê?! - perguntei, não entendendo o que ele queria dizer com aquilo.
- Gee... - disse ele, olhando para mim - Me chama de Gee,
.
- Claro...
- Eu conheço o cara que cuida daqui. E, bem, ele me deixa vir aqui, às vezes.
- Hum... e o que você vem fazer aqui?
- Vou te mostrar.
Ele, me puxando pela mão, foi passando por entre as poltronas do teatro, seguindo em direção ao palco. Subimos as escadas e entramos no palco. Gerard me levou para bem no centro do palco.
- É isso que eu faço aqui...
- Isso?
- É! - disse ele, parecendo empolgado - Olhe,
... - ele disse, apontando para onde deveriam estar a platéia - O meu público...
Olhei para ele e sorri.
- Eu sei que parece estranho - continuou -, mas eu venho sempre aqui para q eu nunca me esqueça o que eu quero ser na vida...
- Famoso?
- Não... a fama é uma conseqüência. Eu quero ser músico,
... músico! Quero que as pessoas ouçam a minha música e que minha música as faça se sentir diferente, que as façam se sentir melhor do que já são!
Era lindo o que ele dizia...
- Então é isso... - disse, sorrindo para ele.
- É... - disse ele olhando do centro do palco para mim, que estava um pouco mais no canto do palco.
- Fique aí - disse a ele, descendo as escadas do palco.
- Aonde você vai?
- Você já vai ver... - Desci as escadas do palco e me sentei em uma poltrona, em frente a ele. - Vamos, Gee, cante para mim. Sou o seu público.
Gerard olhou com surpresa para mim e sorriu.
E começou a cantar. Sim, cantar aquela mesma musica que me levou ao delírio: Demoliton Lovers.
Se fosse em outra circunstância, estaria rindo, afinal, não havia microfone ou até mesmo música acompanhando Gerard. Mas, mesmo assim, era lindo.
Gerard não parecia se preocupar. Com as mãos nos bolsos de sua calça, ele cantava, suavemente, de olhos fechados.
Uma hora, enquanto cantava, com o dedo indicador, ele me chamou. Levantei-me e fui lá, em direção ao palco. Minha cabeça estava na altura de seus tornozelos. Gerard se abaixou e me puxou para cima do palco, ainda cantando. Ele me abraçou e ficou cantando, sussurrando em meu ouvido aquelas palavras lindas. "I mean this forever", foi o que ele disse, logo em seguida, abaixando a cabeça lentamente em direção aos meus lábios.
Com as mãos em sua nuca, o puxei para mais perto. Beijando-o com vontade. Deus! Como o queria! Não sabia o que estava acontecendo comigo!
-
... - começou Gerard, suspirando e interrompendo nosso beijo.
- Eu sei... - disse tristemente.
- Sabe?
- Sei...
- Sabe o quê? - ele perguntou, rindo zombeteiramente de minha cara.
- Eu sei que... está errado! Que droga! - falei, me largando dele e me virando.
- Não está errado,
.
- Como não, Gerard? E a Suzan?
- Eu não posso fazer nada...
- Não pode? Como você tem coragem de dizer isso?
- Eu já disse,
, não se manda nas pessoas... ou em seus corações.
- Eu... eu tenho que ir, Gerard. Não está fazendo bem a gente se ver...
- Espera,
- disse, me puxando. - Eu não vou desistir de você.
- É... - falei, quase chorando. - Não vai desistir de mim, vai conseguir o que quer e, depois que se enjoar, vai me mandar embora... assim como você fez com Suzan.
Gerard olhou tristemente em meus olhos.
- Não...
E me beijou com tanto carinho. As lágrimas começavam a rolar livremente pelo meu rosto. Gerard parou de me beijar e começou a beijar as lágrimas, secando-as.
- Você não pode fugir de mim,
. Não agora que eu a encontrei.
Separei-me dele. O que estava acontecendo? Eu estava gostando dele... mas... e Suzan? Onde ela fica nessa história? Como poderia fazê-la sofrer tanto quanto eu sofri?
- Desculpe, Gerard... não temos escolha. - E saí.
Fui pra casa, fugir.
Caminhei rapidamente para casa. Gerard, Gerard, Gerard... Ele não saía da minha cabeça um instante se quer! Como isso pôde ter acontecido tão rápido, meu Deus?
Será que amava Gerard? Não, não podia ser, devia estar louca...
Mas e aqueles beijos? Nunca me senti assim antes... nem com Suzan, a mulher que eu dizia amar com todas as minhas forças... Então, por quê? Por que estava acontecendo isso?
Dúvidas, quantas dúvidas...
Não podia largar tudo para ficar com Gerard. Havia muitas coisas em jogo, muitas vidas em jogo...
Eu perdi o que mal havia conquistado.
Larguei mão de Gerard...
Segunda-feira, mais um dia de trabalho, mais um dia no qual a "verdadeira
" tinha que se disfarçar com maquiagem e saltos altos. Mais um dia ter que sorrir, quando, na verdade, queria gritar...
Desci as escadas da casa de Percy. Ele estava sentado, lendo um jornal e tomando uma xícara de café.
Ainda estava brigada com ele. Bom, na verdade, acho que ele estava brigado comigo. No final de semana, nem dirigiu a palavra a mim.
Cheguei por trás e o abracei.
- Me perdoa, Percy... - disse, sussurrando.
Ele ficou em silêncio, fingindo que ainda lia o seu jornal. Não disse mais nada, apenas continuei abraçada a ele, em silêncio. Até que ele pegou em minha mão e bateu nela levemente.
- Só quero o melhor pra você,
... - disse, virando-se e olhando para mim.
- Eu sei... - disse, sorrindo para ele.
Nos abraçamos e fomos para o serviço juntos, como sempre. E nos tratamos como se nada houvesse acontecido.
Chegamos ao prédio da EyeBall Records em menos de vinte minutos. Cumprimentamos as pessoas do primeiro andar e dirigimo-nos ao elevador. Havia muito trabalho naquele dia.
- Como estão as coisas com os novos clientes,
? - disse Percy, me olhando de esguelha. Claro que ele estava se referindo de como iam as coisas com Gerard Way.
- Ah, vamos bem. Quero dizer, estamos sendo profissionais...
- Ótimo,
, você tem sido uma boa garota.
- Obrigada, papai - disse, rindo para ele.
O elevador chegou ao nosso andar. Descemos e nos encaminhamos para nossas respectivas salas.
- Não esqueça,
, você precisa telefonar para os garotos e marcar um horário para fazerem as fotos.
- Okay...
Só esperava que não tivesse que falar com Gee...
Liguei para lá à tarde. Depois do almoço, os caras não tinham atendido telefone celular. Então, liguei para a casa deles mesmo. O telefone demorou para ser atendido. Quando foi atendido, só dava para ouvir vozes. Pelo jeito, estavam discutindo.
- Alô?! - disse a voz do outro lado, gritando.
- Oi... aqui é
, da gravadora.
- O quê? - disse ele - Desculpa... não tô ouvindo.
- É da gravadora!
- Quem tá falando?
-
!
-
! - Não reconheci de quem era a voz. - Aê, seus bando de viado, calem a boca aí! - Oi,
, é o Frank...
- Oi, Frank! Tudo bom?
- Tudo. Melhor agora...
- Que bom. Eu estou ligando para marcar com vocês um horário para tirarmos as fotos para o CD.
- Puxa, que bom! Mal posso esperar para ir aí tirar as fotos e ver você...
- Ah... obrigada.
- Você sabe que é verdade... - De repente, ele pareceu ser interrompido. - O quê? Sai fora, Gerard...
- Alô,
? É o Gerard... - Como não poderia reconhecer aquela voz?
- O-oi... - No fundo, só conseguia ouvir o Frank reclamando e chamando o Gerard de tudo quanto era nome.
- Eu ouvi o Frank dizer que vamos fazer as fotos.
- Sim. Na verdade, eu estou ligando para marcar uma data.
- Por mim... Se fosse hoje mesmo, eu faria...
Fiquei quieta, sem ter o que dizer...
- Estou com saudades... - disse ele, baixinho.
- Ah... bem... então... o que vocês acham dessa semana mesmo?
- Perfeito! Eu e a galera não temos nada mesmo...
- Ótimo... bom, hoje é segunda-feira... tudo bem para vocês na quarta?
- Acho que sim...
- Perfeito, então. Qualquer coisa retorno mais tarde...
-
...
- Sim?
- Desculpa... Essa não é a
que eu conheço, essa é a
... cheia de frescuras. Eu quero falar com a
.
Foi inevitável eu não ter dado risada.
- Fala, Gerard.
- Não, você não é a
. A
me chama de Gee...
- Eu estou no serviço, Gerard.
- Me chama de Gee.
- Não posso.
- Por favor? - Mas que voz mais 'piduxa' foi aquela?
- Tá bem... Gee - eu disse, sussurrando o nome dele.
Gerard deu uma risada satisfeita.
- Posso sair com você hoje?
Pensei por um instante em aceitar, mas não podia.
- Desculpa, Gerard... ops, quero dizer, Gee... mas não posso. Não podemos.
- Por que você tem que ser tão difícil? - disse ele, rindo zombeteiramente.
- Não estou sendo difícil...
- Eu sei que você quer sair comigo.
- Não! Não quero.
- Claro que quer. E, se você ouvisse agora sua própria voz, saberia o que eu estou dizendo.
- Às vezes você é tão chato...
- Eu sei, e persistente também. Vamos sair hoje?
- E eu sou teimosa. Já disse que não
- Ótimo. Você é quem sabe. Até mais. - E desligou na minha cara.
Fiquei sem reação. Como uma hora ele pode ser tão atencioso e na outra ser tão rude?
Trabalhei o dia todo com um peso no coração pela forma na qual o Gerard havia me tratado. Estava com um misto de raiva e arrependimento.
O dia passou rápido. Fui para a casa de Percy. Já estava cansada de ficar na casa de Percy e decidi que, quando tivesse tempo, procuraria um apartamento para eu morar e parar de atormentar Percy. Ele já fizera muito por mim...
Cheguei a casa antes de Percy, pois ele sempre demorava um pouco mais. Fui à secretária eletrônica dele. Havia duas mensagens.
"Oi,
, é o Gee. Sinto muito por hoje. Espero que seja você que esteja ouvindo essa mensagem senão..." Ele riu. "Eu sei que é estranho, mas não consigo parar de pensar no dia do teatro. Preciso te ver e falar com você. Até mais"
Fim da primeira mensagem.
"Oi. Ah... é a Suzan... já faz tempo que não nos falamos, não é? Tem acontecido tanta coisa... e... sinto sua falta. Eu tentei ligar pra gravadora, mas você nunca estava disponível. A gente precisa conversar,
... eu... eu..." Ela suspirou. "Sinto muito por tudo o que aconteceu... Te amo. Tchau"
Fim da segunda mensagem.
Fiquei boba com a mensagem que Suzan deixou para mim. O que será que aconteceu com ela para ela ter me ligado? Será que Gerard e ela haviam terminado?
Escutei um barulho na porta, ela estava sendo aberta. Provavelmente deveria ser Percy...
- Já chegou? Pensei que fosse demorar mais tempo na grava... - Virei-me e dei de cara com Gerard rindo para mim - Gerard?!
- É! - disse ele, rindo. - Sempre desconfiei que as pessoas escondessem uma chave reserva atrás do vaso ou debaixo do tapete. - disse ele, com cara de vitorioso.
- O que você está fazendo aqui?
- Vim te ver...
- E se o Percy estivesse aqui?!
- Eu não sou tão burro, né,
? Eu liguei pra lá e verifiquei que o nosso amiguinho ainda estava trabalhando.
- Você não presta! - disse, ainda espantada com a ousadia dele.
- É... talvez não preste...
Fiquei olhando para ele sem saber o que dizer. Até ele quebrar o silêncio.
- Já jantou? - disse ele.
- Já - menti.
- Mentirosa... - disse ele, olhando com olhos avaliadores.
- Não tenho motivo para mentir...
- Claro que tem.
- E qual seria?
- Fugir de mim.
- Não preciso fugir de você, Gerard...
- Precisa, sim... - disse, vindo em minha direção, era incrível! O andar dele, o sorriso dele... Tudo me deixava extasiada, fora de mim...
- Sabe qual é o seu problema? - disse, sem esperar uma resposta. - Você se acha demais...
- E sabe qual é o seu problema? - disse ele, arrebatando a minha crítica - Você teme demais...
Virei. Tinha que me afastar dele, e fui indo a direção à cozinha.
- Não é verdade,
?
- Não!
- É, sim... - disse, me virando e levantando o meu rosto para que pudesse ver meus olhos. - Você é linda.
- Pára com isso! - disse, me afastando dele - Não sou bonita...
- É, sim. Você é mais do que bonita, é especial.
- Claro, eu e a metade do mundo.
- Por que você é tão amarga,
?
- Não sou amarga, apenas realista, Gerard. Eu sei que você não é o bom samaritano, pelo contrário, deve ter toda mulher que deseja.
- De que vale o universo se eu só quero uma pessoa?
Ele foi se aproximando de mim, respirando ofegantemente perto de minha orelha.
- Pára, Gee...
- Não posso, não consigo,
... Será que você não percebe que você é minha? Que você vai ser só minha? Que o destino assim o quer... Eu te quero,
!? Quero tudo, te quero toda pra mim...
Afastei-me e olhei em seus olhos. Naquele dia, seus olhos estavam mais claros do que o normal; um verde lindo...
Coloquei minhas mãos em seu peito e senti seu coração batendo descompassadamente. Subi minha mão para seu pescoço, para seu rosto. Fitando-o cegamente, passei a mão por aqueles lindos cabelos.
Daquela vez, foi mais forte que eu. Coloquei as duas mãos no seu pescoço, segurando-o, e o puxei para mim. Gerard correspondeu ao meu beijo. Entreguei-me àquele beijo, sem medo. Foi maravilhoso. Era maravilhoso sentir os braços de Gerard me envolvendo num abraço forte e protetor, era maravilhoso sentir nossos corações baterem acelerados, era fantástico como o mundo parava de girar quando eu estava com ele...
Com Gerard era tudo tão maravilhoso... Parecia-me que havia nascido naquele instante e que tudo ao meu redor era novo. Como conseguia viver antes sem conhecer Gerard?
Sentia que cada célula do meu ser necessitava loucamente dele para viver.
Aquilo era mais que paixão. Só podia ser amor...
Eu estava amando...
- Você não ouviu uma palavra se quer do que eu disse, né?
- Desculpe... - disse, rindo sem graça.
- Não faz mal... - disse ele, me abraçando, fazendo com que apoiasse minha cabeça em seu peito - Está feliz?
Levantei minha cabeça e fitei seus olhos.
- Feliz? - Não sei o que me deu na hora, mas comecei a chorar. Gerard me abraçou fortemente até que os soluços cessassem...
- Desculpa, Gee... não sei o que aconteceu...
- Arrependimento?
Olhei para ele, espantada. Como ele podia dizer aquilo? Mas, na mesma hora, vi que, em seus olhos, havia um misto de brincadeira. Ele simplesmente riu, me levou para o sofá e lá deitamos.
Ficamos em silêncio. Apenas ouvia sua respiração.
- Como o mundo é louco, não acha? - disse ele, olhando para o teto.
- Louco?
- É... A vida tinha tudo para poder nos fazer ficar separados, mas, mesmo assim, não conseguiu.
- O que você quer dizer com isso?
- Que o que sentimos um pelo outro foi mais forte que o destino.
- Mais forte que o destino? - disse, rindo.
- É! Você não acredita no destino?
- Não, nunca acreditei nessas coisas. Acho que cada um rege sua vida.
- Não,
... O destino rege nossas vidas. Cada encontro, palavra, ato... Tudo já estava previsto pelo destino... Era do destino que nos apaixonássemos.
- Então, quer dizer que tudo o que acontecer entre nós dois é obra do destino?
- Mais ou menos. Não é porque é coisa do destino que temos que simplesmente nos sentar e esperar acontecer.
- Faz sentido...
- Faz, mas eu sei,
, que o destino te pôs no meu caminho.
Ri para ele. Gerard demonstrava ter uma idéia completamente diferente do que eu imaginava dele. Era um sonhador, e eu adorava cada detalhe dele, cada pensamento...
A partir daquele dia, acreditei que existisse destino, e deixei o nosso futuro nas mãos dele...
CAPÍTULO XIX - "I'm climbing out right now"
(Estou superando agora)
Gerard foi embora logo em seguida. Não poderia se demorar muito, afinal, Percy logo chegaria. Com tremendo pesar, me despedi dele. Esperando e torcendo por nosso próximo encontro.
Estava louca. Havia tantas coisas a serem resolvidas, tantas coisas a serem esclarecidas e discutidas... mas com ele era tão diferente, não pensava em mais nada. Apenas deixava os sentimentos fluírem...
Sem pensar no que fizera ou no que acontecera, fui tomar um banho demorado. Merecia aquilo. Fazia tanto tempo que não me sentia bem comigo mesma, satisfeita.
Não sabia quando seria nosso próximo encontro, mas esperava que fosse o mais rápido possível.
No dia seguinte, quando cheguei na gravadora, recebi que mensagem de que Suzan havia me ligado três vezes querendo falar comigo urgentemente.
Roy, que me passou a mensagem de Suzan, disse que ela parecia estar muito mal. Fui para a minha sala e de lá liguei para ela. Talvez não a encontrasse em casa, provavelmente, estaria trabalhando, mas, mesmo assim, liguei para deixar uma mensagem na sua caixa postal.
Disquei o meu antigo número de casa e esperei o telefone tocar. Até que, estranhamente, ele foi atendido.
- Alô?
- Suzan? É a
...
-
! Que bom ouvir tua voz! - disse Suzan, parecendo agradecida.
- Suzan, você me ligou hoje?
- Liguei.
- Você não deveria estar no serviço à uma hora dessas?
- Sim, mas eu... Eu perdi o emprego
- O que está acontecendo com você, Suzan?
- E-eu... preciso falar com você,
.
- Não sei quando isso será possível, Suzan...
- Por favor,
! Eu preciso muito falar com você. É importante.
- Bom, se é assim...
- Que tal almoçarmos hoje?
- Hoje? - disse enquanto conferia em minha agenda - Claro. Hoje, então.
- No lugar de sempre? - perguntou Suzan, parecendo animada
- No lugar de sempre...
- Ótimo! Te vejo às 12:30, tudo bem?
- Perfeito, Suzan.
- Até mais tarde.
- Até.
O que será que Suzan queria falar comigo de tão importante? Ela parecia agitada, fora que ela disse que não estava mais trabalhando...
A manhã se passou rápida, sem complicações e, quando menos esperei, já era horário do almoço.
Saí do prédio e peguei um táxi. O "lugar de sempre", como Suzan dissera, era um pequeno restaurante italiano chamado Rizzie. Suzan e eu sempre íamos lá.
Cheguei lá um pouco mais de 12:30. Suzan já estava sentada lá. Olhava ansiosamente para mim. Vi Suzan. E, ao contrário do que eu imaginava, não senti nenhuma dor ou angústia ao vê-la. Será que Gerard havia me mudado tanto assim a ponto de ter-me feito esquecer de Suzan?
Suzan estava diferente. Pelo seu rosto, ela parecia estar cansada. Os olhos fundos e tristes, a boca, que antes sempre dava sorrisos lindos e cativantes, agora estavam mostrando-me um sorriso triste, sem vida. Os cabelos, antes lindos e brilhosos, agora pareciam sem vida e opacos, presos num rabo de cavalo simples.
Por Deus, o que havia acontecido com a Suzan que eu conhecia?
- Que bom que você veio... - disse ela, sorrindo para mim.
- É...
- Sente-se - disse ela, apontando para uma cadeira em sua frente.
Pedimos o almoço. Quando o garçom se retirava. Perguntei a Suzan:
- Suzan, o que há com você? - estava seriamente preocupada com ela.
- Estou tão mal assim? - disse ela, dando um sorriso debochado.
- Está... - disse séria, fazendo com que Suzan parasse de rir.
Suzan ficou quieta por alguns instantes, olhando para o vago.
- Sinto muito,
... - disse repentinamente.
- Pelo o quê?
- Por tudo... por você... por nós... pelo que eu te fiz passar... Tudo foi um erro.
- Um erro, Suzan?
- É - disse ela dizendo tão baixo que mal conseguia ouvi-la - Você sabe do que eu estou falando. Estou falando "dele".
- Gerard?
- Sim... - disse ela, com os olhos marejados de lágrimas.
- Você fez sua escolha, Suzan - disse segurando-me para não chorar também.
- Eu sei! Mas... fiz a errada...
- Do que você se arrepende, Suzan?
- De tudo! - disse ela, repentinamente, se exaltando - De ter te deixado... de ter ficado com ele... de ter me apaixonado por ele...
- Não foi sua culpa - falei. Era eu, realmente, quem estava dizendo aquilo?! - Não controlamos as pessoas, ou seus sentimentos. - Lá estava eu, repetindo a fala de Gerard.
- Não, não controlamos. Mas acontece que estou pagando um preço alto demais.
- Por que, Suzan?
- Ele me deixou...- disse, abaixando a cabeça. - Há uma semana... não sei por quê.
Nessa hora, meu coração acelerou e doeu. O que eu fiz com ela?
- Me deixou, sem nada para dizer, apenas disse que nossos caminhos não eram para serem juntos... - disse ela, continuando. Eu não conseguia dizer nada. - Será que ele não entende que eu gostava dele?
- Desculpa, Suzan, mas por que você tá me dizendo isso?
Suzan olhou assustada para mim, como se estivesse surpresa com a forma na qual eu me dirigi a ela.
- Por que você é tudo o que eu tenho...
- Você não me tem mais, Suzan. Você não me quis mais.
- Você sabe que não é bem assim...
- É, sim, Suzan. Você fez sua escolha, e está pagando por ela...
- Por que você está sendo desse jeito comigo,
?
- Porque você me trata como se eu fosse uma idiota, Suzan! - disse, me exaltando. - Você acha que eu vou estar sempre aqui te esperando, Suzan? Não! Eu não vou estar! E sabe por quê? Porque eu descobri que, quem não me quer, não me merece... - Olhei para baixo e percebi que estava botando todo aquele sentimento de dor que guardei durante todo aquele tempo para fora. - Você não sabe o que me fez passar, Suzan. Você... você me traiu! VOCÊ era tudo o que eu tinha! E sabe o que você fez? Simplesmente se foi, Suzan. E agora quer vir aqui, se consolar comigo?
Suzan começou a chorar silenciosamente.
- Eu te amo, Suzan... - continuei. - Você era tudo o que eu tinha, e te perdi. Doeu, mas eu aceitei o fato. E, agora, estou erguendo minha própria vida, sem depender de ninguém; estou fazendo meu próprio caminho, fazendo