
Memory Lost
Autora: Kat
Beta-Reader: Sweet Caroline
Cap. 1
Ela abriu os olhos lentamente, a sua vista estava toda embaçada. Um garoto de cabelos bagunçados segurava a mão da garota, enquanto dormia encostado na cama. Ela soltou a sua mão lentamente e olhou em volta, confusa. Ela se encontrava deitada em uma cama de hospital.
- Quem é você? - Ela perguntou em Português, assustada, para o garoto que abriu os olhos rapidamente.
- , você acordou! – Ele se levantou rapidamente com um sorriso enorme, falando com um forte sotaque britânico. – Marie, vem aqui, ela acordou! – O garoto se virou para novamente, com um sorriso maior ainda. Por mais que aquele sorriso fizesse ela querer sorrir também, a garota continuou olhando assustada para ele.
- Qu... quem é você? – perguntou em português e se encolheu um pouco na cama, ficando longe do rapaz.
- ? Tem alguma coisa errada? Sou eu, !
- Minha filha! – Marie entrou correndo no quarto e abraçou trêmula, derramando várias lágrimas.
- Mãe? O que aconteceu, mãe? Como eu vim parar aqui? – olhava assustada para a mãe, ela parecia tão envelhecida...
- Você não se lembra? – Marie soltou a filha e a olhou assustada, as duas conversavam em português e o garoto olhava para as duas, cada vez mais ansioso.
- E o que esse garoto tá fazendo aqui?
- Eu sei que você tá chateada com ele filha, mas ele praticamente não sai desse hospital há cinco dias, você devia...
- Cinco dias!? Mãe, o que aconteceu comigo!? – se ajeitou na cama, olhando para a mãe nervosa. Marie e trocaram olhares assustados, ele não tinha entendido o que elas tinham dito, mas tinha entendido o olhar de Marie e saiu correndo do quarto atrás de um médico, enquanto Marie começava a chorar de novo, desesperada.
- Olá, – diz o médico em um tom agradável e rápido. – Sou o Dr. Kinsella, um dos neurologistas residentes. Estes são Mikaela, enfermeira especialista, Megan e Charles, nossos dois médicos estagiários. E então, como está se sentindo?
- Bem. – Só não entendo como estou falando inglês e entendo o que o médico gato fala. Será que estou ficando louca?
- Certo. – O médico assente. – Vou lhe fazer umas perguntas. Não se incomode se algumas parecerem óbvias de mais.
Ele dá um sorrido profissional e tenho a sensação de que o sujeito já disse isso antes umas mil vezes, no mínimo.
- Você pode me dizer qual o seu nome?
- Meu nome é . – Respondo imediatamente. O dr. Kinsella assente e faz uma marca em sua prancheta.
- E quando você nasceu?
- Em 1986.
- Muito bem. – Ele fez outra anotação. – Agora, , quando você sofreu o acidente de carro, bateu com a cabeça no pára-brisa. Houve um pequeno inchaço no seu cérebro, mas parece que você teve muita sorte. Mas ainda preciso fazer algumas verificações. – Ele levanta a caneta. – Por favor, olhe para a ponta da caneta. Vou movê-la de um lado para o outro...
Os médicos não deixam a gente falar, não é?
- Ei! – Aceno para ele. – O senhor está me confundindo com outra pessoa. Eu não sofri um acidente de carro.
O dr. Kinsella franze a testa e volta duas páginas na prancheta.
- Aqui diz que a paciente se envolveu em um acidente de trânsito. – Ele olha ao redor, procurando confirmação.
Por que ele está perguntando às enfermeiras? Foi comigo que aconteceu.
- Bem, devem ter escrito errado – digo com firmeza. – Eu saí para comprar pão, deu uma louca no meu cachorro, ele me puxou e eu caí no chão. Estou me lembrando muito bem.
O dr. Kinsella e Emma (pelo jeito, a minha enfermeira) trocaram olhares perplexos.
- Foi definitivamente um acidente de trânsito. – Murmura Emma. Como eu sei o nome dela? Ah sim, a plaquinha: Oi, meu nome é Emma! J. - Dois veículos, bateram de lado. Eu estava na emergência e vi quando ela entrou. E outro motorista. Acho que ele teve uma pequena fratura no braço.
- Eu não poderia ter batido com o carro. – Tento manter a paciência. – Para começar, não tenho um carro. Nem sei dirigir!
Pretendo aprender a dirigir um dia desses. Só que nunca precisei, tudo fica perto de casa, as aulas são caras demais, e além do mais não tenho dinheiro para comprar um carro.
- Você não tem... – O Dr. Kinsella vira uma página e franze os olhos para o que está escrito. – Um New Beetle conversível?
- Um New Beetle? – Caio na gargalhada. – Fala sério!
- Mas aqui diz...
- Olhe, – interrompo-o o mais educadamente que posso – vou lhe contar quanto ganha uma assistente de fotógrafo de 18 anos em um estúdio pequeno, certo? E o senhor me diz se eu posso comprar um New Beetle conversível.
O Dr. Kinsella abre a boca para responder, mas é interrompido por uma estagiária que lhe dá um tapinha no ombro. Ela rabisca algo nas anotações e o rosto do Dr. Kinsella parece levar um choque. Ele encara a estagiária, que levanta as sobrancelhas, olha para mim, depois aponta de novo para o papel. Parecem dois atores rejeitados da escola de mímica.
Agora o Dr. Kinsella está chegando mais perto e me olhando com uma expressão séria, atenta. Meu estômago começa a dar cambalhotas. Já assisti House um monte de vezes e sei o que essa expressão significa.
, fizemos uma tomografia e vimos algo que não esperávamos encontrar. Pode não ser nada.
Só que nunca é nada, não é? Caso contrário, por que o House teria pegado o caso? E por que teria um episódio disso? Porque louco ele não é, eu amo o Hugh Laurie. (N.A: House já passava em 2004? o.o N/B: Já sim.)
- Tem alguma coisa muito errada comigo? – pergunto quase agressivamente, tentando esconder o súbito tremor de pânico na voz. – Pode dizer, certo?
Minha mente já está cogitando as possibilidades. Câncer. Buraco no coração. Vou perder uma perna. Talvez eu já tenha perdido uma perna, só não querem me contar. Disfarçadamente tateio sob os lençóis.
- , quero fazer outra pergunta. – A voz do Dr. Kinsella é mais gentil. – Pode dizer em que ano estamos?
- Em que ano estamos? – Encaro-o de volta atônita.
- Não se assuste – diz ele com uma voz tranquilizadora. – Só diga em que ano você acha que estamos. É uma das nossas verificações de rotina.
Olho de um rosto para outro. Dá para ver que estão fazendo alguma brincadeira comigo, mas não consigo deduzir qual.
- Em 2004 – repondo finalmente.
Há um silêncio estranho no quarto, como se ninguém quisesse respirar.
- Certo. – O Dr. Kinsella senta-se na cama, ao meu lado. – , hoje é dia 10 de setembro de 2009.
Seu rosto está sério. Todos os outros também parecem sérios. Por um instante, uma fenda assustadora parece se abrir em meu cérebro, mas então, com um jorro de alívio, entendo. É uma pegadinha!
- Há, há. – Reviro os olhos. – Muito engraçado. armou essa com vocês? Ou alguém da minha família?
- Não conheço nem uma e muito menos conheço alguém da sua família – responde o Dr. Kinsella sem afastar o olhar. – E não estou brincando.
- Ele fala sério, – entoa a estagiária. – Estamos em 2009.
- Mas... Isso é o futuro – digo feito uma idiota. – Está me dizendo que já inventaram a máquina do tempo? De Volta Para o Futuro aconteceu de verdade? – Forço um risinho, mas ninguém ri junto.
- , isso pode ser um choque – diz Emma, pondo a mão gentilmente no meu ombro –, mas é verdade. Estamos em setembro de 2009.
Sinto como se os dois lados do meu cérebro não estivessem se conectando ou algo assim. Posso ouvir o que eles dizem, mas é simplesmente ridículo, Ontem era 2004. Como podemos ter pulado cinco anos?
- Olha, não pode ser 2009 – digo finalmente, tentando não revelar como estou abalada. – É 2004. Eu não sou idiota...
- Não fique perturbada – diz o Dr. Kinsella, lançando olhares de alerta para os outros. – Vamos devagar com isso. Por que você não conta a última coisa de que se lembra?
- Certo, bem... – esfrego o rosto. – A última coisa de que eu me lembro é de sair ontem com o meu cachorro, Elvis, para comprar pão na padaria que fica na esquina da minha casa, era um domingo de manhã, umas 11 horas, na volta, o Elvis viu uma cachorra do outro lado da rua, eu acho que ela tava no cio, porque deu a louca nele e ele saiu correndo, e ele é um golden retrivier grande e me puxou e eu caí no chão, tipo com força, ele deve ter me arrastado. E eu acordei aqui no hospital. Foi em 20 de julho de 2004. – Minha voz está tremendo. – Sei a data exatamente porque eu tinha um prazo para entregar umas fotos no trabalho no dia seguinte. E eu devo ter perdido o emprego porque o Elvis tinha derramado café nelas!
- , isso tudo aconteceu há mais de cinco anos – diz Emma em voz baixa.
Ela parece tão segura! Todos parecem tão seguros! O pânico me sobe por dentro enquanto olhos aqueles rostos. É 2004, sei que é. Me sinto em 2004.
- De que mais você se lembra? – pergunta o Dr. Kinsella. – Volte à partir daquela tarde.
- Não sei – respondo na defensiva. – De estar no trabalho... De quando me mudei para morar com a minha amiga... Tudo!
- Sua memória está confusa?
- Um... um pouco – admito com relutância enquanto a porta se abre. Uma estagiária saíra do quarto havia um instante e agora estava de volta com um exemplar do Daily Mail. Aproxima-se da cama e olha para Kinsella. – Posso?
- Pode. – Ele assente. – É uma boa idéia.
- Olhe . – Ela aponta para a data no topo da página. – É o jornal de hoje.
Sinto um choque gigantesco ao ler: 10 de setembro de 2009 - Londres. Mas, puxa... são apenas palavras imprensas no papel, não provam nada. Vejo mais abaixo uma foto de Tony Blair.
- Meu Deus, como ele envelheceu! – exclamo sem pensar.
Como mamãe, relampeja na minha cabeça, e um arrepio súbito percorre minha coluna.
Mas... isso também não prova nada. Talvez a luz do quarto não estivesse boa.
Com as mão tremulas, viro a página. Há um silêncio sepulcral no quarto; todo mundo me olhando, boquiabertos. Meu olhar viaja inseguro por algumas manchetes. – Londres concorre para ser a sede das Olimpíadas de 2014... O Wall Street encontra problemas em se recuperar – e então sou atraída por um anuncio de livraria:
“Metade do preço em todos os livros de fantasia, inclusive Harry Potter e as Relíquias da Morte.”
Certo. Agora eu estou realmente nervosa. Li todos os livros do Harry Potter, todos os cinco. Não me lembro de nenhuma relíquia.
- O que é isso? – Pergunto para as estagiárias tentando parecer casual, apontando para o anuncio. – O que é Harry Potter e as Relíquias da Morte?
- É o último livro da série – responde uma garota de óculos. – Já saiu há séculos.
Não consigo evitar um gritinho.
- Harry Potter acabou?
- E já estão fazendo o sétimo filme! – Outra estagiária completa ansiosa. – E adivinha o que aconteceu no último...
- Shh! – exclama Natália. - Não conte!
As duas continuaram discutindo, mas não escuto mais. Olho para o jornal até que as letras pulem na frente dos meus olhos...
- Então estive deitada aqui, em coma... – engulo um seco -... durante cinco anos?
Não acredito. Eu era uma garota em coma. Todo mundo estava esperando que eu acordasse durante cinco anos inteiros. O mundo continuou sem mim. Minha família e meus amigos provavelmente gravaram fitas, fizeram vigílias, cantaram e coisa e tal...
Mas o Dr. Kinsella balança a cabeça.
- Não, não é isso, , você só foi internada há cinco dias.
O quê?
Chega. Não aguento mais isso. Dei entrada em um hospital há cinco dias, mas agora, magicamente, é 2009? Onde é que estou? Em Nárnia, caralho?
- Não entendo! – Digo desanimada, deixando o jornal de lado. – Estou alucinando? Fiquei maluca?
- Não! – responde enfaticamente o Dr. Kinsella. – , acho que você está tendo o que chamamos de amnésia retrográfica, um estado que surge muito ocasionalmente depois de ferimentos na cabeça...
Ele continua falando, mas as palavras não se fixam direito em meu cérebro. Enquanto olho as enfermeiras ao redor, sinto uma suspeita súbita. Eles parecem falsos. Não são profissionais de verdade, são? Isso é um hospital de verdade?
- Vocês roubaram meu rim? – Minha voz irrompe num rosnado de pânico. – O que fizeram comigo? Vocês não podem me manter aqui. Vou chamar a polícia... Meu deus! Eu estou em Londres! Eu nem sei como eu estou falando em inglês! – Tento lutar para sair da cama.
- . – A enfermeira loura me segura pelos ombros. – Ninguém está tentando machucar você. O Dr. Kinsella está falando a verdade. Você perdeu a memória.
- É natural que você entre em pânico, que acredite que há algum tipo de conspiração. Mas estamos falando a verdade. – O Dr. Kinsella me olha com firmeza nos olhos. – Você esqueceu um pedaço da sua vida, . Você esqueceu. Só isso.
Quero chorar. Não sei se estão mentindo, se isso é só uma brincadeira ridícula, se eu deveria confiar neles ou sair correndo. Minha cabeça está uma confusão, um redemoinho...
Então congelo derrepente. A manga da camisola do hospital se prendeu enquanto eu estava lutando para sair da cama e eu vejo uma cicatriz que nunca vi antes. Uma cicatriz que não reconheço. E não é nova. Deve ter meses.
- , você está bem? – Pergunta o Dr. Kinsella.
Não consigo responder. Meus olhos estão fixos na cicatriz desconhecida.
- Você está bem? – repete ele.
Com o coração martelando, pego lentamente uma mecha do meu cabelo. Ele está mais longo, mais macio, mais cacheado. Mais bonito. Meu cabelo não era assim certo? Era uma confusão ondulada e ele era mais claro. É o meu cabelo verdadeiro, eu sei que é. E de jeito nem um ele poderia ter mudado e crescido em cinco dias. Eu sei que foram cinco dias... Minha mãe me disse.
Sinto como se tivesse nadado para além da parte rasa e estivesse em água turva com quilômetros de profundidade, em um oceano desconhecido, um oceano sem fim.
- Vocês estão me dizendo que... – pigarreio, rouca. – que eu perdi cinco anos da minha memória.
- É o que parece, no momento. – O Dr. Kinsella assente.
- Posso ver o jornal de novo, por favor? – Minhas mãos tremem quando o pego com a enfermeira. Viro as páginas e todas tem a mesma data escrita. 10 de setembro de 2009 – Londres. 10 de setembro de 2009 – Londres.
É mesmo o ano de 2009. O que significa que eu devo ter...
Ah, meu Deus. Estou com 23 anos.
Estou velha.
Cap. 2
Fizeram uma xícara de chá forte para mim. Porque uma xícara de chá cura amnésia, não é?
Não, pare com isso. Não seja tão sarcástica. Sinto-me agradecida pelo chá, é de menta, eu adoro chá de menta é tão... mentoso. Pelo menos é algo em se apoiar. Pelo menos é algo real. Britânicos e seu vício em chás... Vai entender.
Dr. Kinsella fala sem parar, sobre exames, terapias, consultas... Assinto calmamente, como se dissesse: “Sim, sem problemas. Estou tranqüila com tudo isso”. Mas por dentro não estou nem de longe tranqüila. Estou pirando. A verdade fica me socando na barriga, repetidamente, até eu ficar tonta. E como eu estou tonta.
Uma coisa eu entendi; eu posso recuperar a minha memória aos poucos ou eu posso simplesmente nunca lembrar.
Quando finalmente ele recebe uma mensagem no bip e precisa ir embora com sorriso amarelo, se desculpando, por ter uma emergência, sinto um alívio enorme. Não entendo nada do que ele diz, de qualquer modo e não agüento mais fingir que estou prestando atenção e entendendo, parece a 8ª série, pela mãe do guarda da esquina!
Tomo um gole grande do meu chá de menta (não, eu não queimei a língua. Não sei como), me deixo cair de volta nos travesseiros e sinto todos os músculos do meu corpo relaxarem imediatamente. Certo, eu retiro tudo o que eu disse com respeito ao chá. Faz um século que eu não bebo nada melhor.
Depois que o doutor saiu, minha mãe e aquele mesmo cara entraram no meu quarto. Mamãe está com o nariz vermelho, como quem chorou, ele também parece que chorou, está com os olhos brancos. Minha mãe se senta ao me lado na cama e segura a minha mão apertando-a, sem dizer nada, somente me consolando. Eu sinto que vou chorar, eu acho que preciso chorar. É muita informação, acho que estou louca. É isso, daqui a pouco o efeito dos sedativos vão passar e eu vou acordar com uma camisa de força no manicômio, aonde é o meu lugar, só pode ser, eu fiquei maluca.
Ele se senta em um sofá que fica abaixo da janela e fica me olhando melancólico. Os meus olhos se encontram com os dele momentaneamente. Como é o nome dele mesmo? Ele disse... Ah, é! !
- Então você não lembra de mim? Nada? Nem um pouco? – Ele pergunta rouco e está me olhando tão profundamente que eu sinto que ele vai me perfurar com aqueles olhos, tão azuis.
Era como se ele quisesse me acordar do esquecimento me olhando daquele jeito. Eu fico alguns segundos, hipnotizada, simplesmente o olhando. Memorizando cada traço do seu rosto, tentando lembrar de qualquer coisa, e nada. Mas eu logo me lembro da pergunta e balanço a cabeça negativamente, triste, eu queria me lembrar dele. O que será que ele era para mim?
- É não é? – Minha voz treme um pouco quando eu pronuncio o seu nome. – Você pode me deixar a sós com a minha mãe? Eu preciso muito fazer algumas perguntas para ela.
- Certo, eu tenho que ir embora mesmo e, bom... dar as notícias. – Ele aponta para um aparelho em sua mão. Meu Deus, será que aquilo era um celular? Ele se levanta pesadamente e se aproxima da cama, meu estomago dá um salto enorme com a expectativa. Mas ele simplesmente aperta o ombro de minha mãe que sorri de leve e em seguida dá um beijo no alto da minha cabeça. Meu Deus, eu acho que fiquei vermelha. – Eu volto aqui depois com o e o povo todo. – Ele deu um tchauzinho, com um sorriso torto para minha mãe e em seguida saiu do quarto, com as mãos nos bolsos, olhando para o chão e, ele parecia tão... desolado.
Recapitulando. Eu tenho 23 anos, sou fotógrafa profissional, trabalho para a Heat (Heat Magazine. OMG!), como a fotógrafa PRINCIPAL! O ano é 2009 e eu esqueci de 5 anos da minha vida. (nem acredito nisso ainda, e o pior é que é verdade.) A última coisa que eu me lembro é de ter 18 anos e de ir comprar pão na padaria da esquina com o meu cachorro, o Elvis, sabe, no Brasil. (Elvis, que segundo a minha mãe está muito velho agora, já teve duas ninhadas de filhotes e mora em Paris com ela. Minha mãe está morando em Paris, eu ainda não acredito nisso, porque, tipo assim... É PARIS!).
Eu era assistente de fotografia em um estúdio pequeno, estava quase acabando a faculdade de Artes Visuais (sim, o meu curso era curto.), e tinha acabado de mudar para um apartamentinho com a minha melhor amiga: , ela também trabalhava nesse estúdio, mas como secretária. Que também está morando em Londres no momento, e ela também trabalha na Heat, mas como gerente do departamento visual. (quando que a nossa vida mudou tanto assim? Meu Deus!).
Ah é, eu esqueci de mencionar uma coisa: Eu estou em Londres, é a Londres da Inglaterra, Europa. Não é Londrina, Paraná, Brasil, América-Latina! As pessoas não param de falar inglês! O que é até normal já que é o que falam por aqui na INGLATERRA! E até onde eu me lembro, eu tirei quatro na última prova de inglês do colégio! E pelo jeito eu to morando aqui! AQUI! A minha mãe me contou que em 2005 eu e a nos mudamos pra cá com empregos de estagiárias na Heat, eu não sei como a gente conseguiu, fatão.
Será que eu ou ela dormimos com alguém pra isso? Será que nós duas dormimos com alguém? Será que teve que ser ao mesmo tempo? ECA! Tomara que não!
Sim, eu estou com amnésia, eu sofri um acidente de carro. EU! Que até ontem nem sabia dirigir! Deve ter sido por isso que eu bati o carro. Tá, ontem não, cinco anos atrás. E o carro era um New Beetle! (nem sei o que é isso disk. Mentira, sei sim. Mas enfim...) É um carro beeem caro, e eu consigo pagar graças ao meu emprego super bem remunerado e importante (alguém me belisca? Eu ainda não acredito!). A minha mãe está dormindo na poltrona ao meu lado, ela está um pouco envelhecida e está tão... francesa. Toda de, sei lá... roupas francesas. A gente está em setembro. Qual é a estação do ano em setembro de Londres? Preciso ver no Google. Será que eu tenho computador? Que pergunta, é claro que eu tenho. Eu sou bem paga no trabalho HÁ!
Soltei um suspiro de um jeito bem pesado. O tal de foi ‘pra casa e prometeu que volta no dia seguinte com “o e o povo todo”. Quem era esse e que povo todo era esse? Será que a também ‘tá incluída nesse povo? Borbulhando, é assim que eu estou me sentindo, borbulhante.
Era de noite e eu acordo depois de um pesadelo. Eu passei um tempo olhando para o teto, mas um pouco depois saio da cama com dificuldade. Gabriela tinha dito que era bom eu me movimentar um pouco. Minhas pernas estão bambas, mas consigo cambalear até o banheiro contíguo.
Respiro fundo e fecho a porta do banheiro, para poder me olhar no espelho que ficava atrás da mesma. Eu abro os olhos e, nada. Escuro demais, eu bufei e acendi a luz.
Essa sou... eu?
Não consigo nem pensar direito. Minhas pernas viraram geléia. Me seguro em um suporte de toalhas, tentando manter o controle do corpo, cair no chão não ia me ajudar em nada.
Fecho os olhos e tento visualizar o meu eu antigo. Cabelo um pouco abaixo dos ombros, castanho de um claro estranho, ondulado, rebelde, uma aparência: oi, acabei de sair da praia. Sempre bronzeada devido ao meu vicio por piscinas e praias. Não exatamente os melhores dentes do mundo, mais gorda do que eu gostaria, olhos castanhos, meio claros. Brilho labial, pouco lápis e pouco rímel. Essa era eu: .
Então eu abro os olhos de novo. Uma mulher diferente me olha de volta. Uma mulher, não uma garota. Parte do cabelo estava um pouco estranho devido ao acidente, mas o que sobrou tem um tom luminoso e misterioso de castanho, mais escuro e mais cacheado que antes, com enormes cachos definidos nas pontas e sem nem um frizz. As unhas dos pés estão feitas e as pernas brancas. Não de um branco feio, mas como se não pegasse sol tanto quanto antes e mais musculosas, eu estava muito mais magra, caramba! Eu estava com uma aparência muito mais madura, mais... adulta.
Eu me afasto do espelho com a cabeça girando. O choque foi passando aos poucos e eu voltei para o quarto, olhando para os lados, decidida. Uma maxi-bolsa preta se encontrava repousada em cima da mesa de cabeceira. Determinada, eu peguei a bolsa e comecei a tirar as coisas de dentro dela, examinando cada item atentamente, como se algo pudesse me dizer o que eu andei fazendo nos últimos 5 anos, com mais clareza. Meu Deus, olha só isso tudo:
Um brilho labial Victoria’s Secrets; um Black Berry enorme e lilás, caraca, isso é um celular? Óculos de sol Ray Ban, amarelos, tipo, óculos amarelos? Chaves com um chaveiro da Tiffany; uma máquina fotográfica digital pequena, mas com aparência cara; alguns chicletes de menta; notas de supermercados; uma agenda branca com manchinhas pretas, tipo pele de vaca. Adoro vacas.
Sentindo como se estivesse espionando a mim mesma, eu liguei a câmera e comecei a olhar as fotos. Eu não reconhecia ninguém nelas, a maioria das pessoas eram caras da minha idade e todos gatos, putz, tô muito bem de vida. Até que aparece uma foto minha com , alguém tinha tirado a foto e nós duas estávamos em alguma praça que eu obviamente não reconheço e estamos tomando sorvete e rindo muito de alguma coisa, ela está muito bonita e tão adulta quanto eu. Seus cabelos escuros e lisos estão mais longos, ela também está muito menos bronzeada, mas fora isso continua a mesma de sempre, alta e linda como uma modelo. não aparecia em nem uma das fotos, por quê?
Eu desliguei a câmera e liguei o meu celular. É um modelo todo grande que não reconheço, mas mesmo assim é simples de usar. Não há mensagens de voz ou de textos novas, então eu decido ler as mensagens antigas. Todas são de números que eu não reconheço e falam de coisas estranhas, mas a última era assim:
Me deixa explicar por favor! Eu posso passar na sua casa?
Quem teria me mandado aquela mensagem? O número não é nem um pouco familiar... Eu desliguei o celular, arrasada. Nada me lembrava nada. Decidi abrir a agenda um pouco nervosa. Começo a folhear as pequenas páginas, essa letra é com certeza minha e os mil deseinhos nas bordas das páginas me fazem ter mais certeza ainda disso. Há anotações em cada página: Almoço 12h30. Bebidas p. encontro Gill – arte. Mas está tudo escrito em iniciais e abreviações. Não dá para descobrir muita coisa. Sinto como se o chão tivesse saído de baixo de mim.
Eu não sei como é a vida que eu levo agora. E se eu tiver virado uma puta do mal?
Eu não devia ficar pensando nessas coisas. Amanhã eu tento falar com , e ela vai me contar que eu sou muito legal e não mudei nada desde os 18 anos. Oh, é claro que não mudei.
Cansada, eu guardo todas as coisas de volta em minha bolsa e cutuco a minha mãe de leve.
- Mãe, será que eu posso tomar um banho?
Cap.3
Eu já estava acordada há um bom tempo, mas ainda não tinha me mexido e muito menos aberto os olhos. Minha mãe tinha saído cedo e várias enfermeiras já tinham entrado e saído do quarto várias vezes. Para checar se eu estava viva, eu acho.
Eu escutei algumas vozes do lado de fora do meu quarto. Visitas? Eu abri os olhos lentamente e pelos sussurros pareciam ser várias pessoas. A porta se abriu um pouco e eu fechei os olhos rapidamente.
- Shh! Cala a boca, ! Eu acho que ela tá dormindo! – Uma voz rouca sussurrou, fazendo um barulho de tênis se arrastando no chão cessar imediatamente. Era . Eu estremeci levemente. Como eu sabia que era ele? E quem diabos era ?
- Será que a gente acorda ela, ? – Uma voz que eu não conhecia sussurrou. Eu estremeci novamente, como se eu devesse conhecer aquela voz. Será que , era ?
Alguém abriu as cortinas do quarto e eu abri os olhos rapidamente, assustada com a luz.
- ! Você acordou! – gritou e pulou em cima de mim. Ela falou em inglês. Ela era pior do que eu nessa matéria no colégio! Que porra é essa!? – Meu Deus! A tia Marie me contou! Você lembra de mim né? – A última parte ela sussurrou.
- Claro que sim! – Eu falei lentamente em português. Meu Deus só agora que reparei como é difícil falar em português! – , o que eu tô fazendo em Londres? Como é que eu sei falar inglês? Quem são eles? – Na última parte eu apontei para os garotos com a cabeça. estava com o cabelo molhado e uma expressão confusa, ele devia ter acabado de acordar. Os quatro olhavam para mim cheios de expectativa.
Olhos azuis, cabelo cacheado, sardas e um alargador preto na orelha. Loiro, piercing no nariz, olhos azuis infantis, jeito de surfista, ele estava com o cenho franzido e era o mais baixo. Cabelo castanho, moicano, alto, olhos azuis e a expressão mais preocupada. Cabelo loiro liso perfeito, incríveis olhos castanhos esboçando uma careta preocupada. Nada. Eu não lembrava deles, aqueles rostos com feições preocupadas não me lembravam nada.
- Meu Deus! Você não lembra de nada! – se jogou na poltrona, ela parecia perdida. – Sorry, dudes. – Ela olhou triste para os garotos. Eles viraram os olhares para mim sem acreditar, um deles deu um passo na minha direção, mas pôs a mão no seu ombro, fazendo-o voltar, aos poucos os quatro começaram a sair do quarto, lentamente.
- Esperem! – Pronto. Lá estava eu de novo falando inglês sem nem sentir. – Voltem! – Todos os quatro entraram no quarto de novo, rapidamente, cheios de expectativas. – Eu não me lembro de vocês agora. Mas eu talvez vá lembrar. O Dr. Kinsella disse que eu vou recuperar a memória aos poucos... – Ou nunca. Mas os quatro nem se mexeram.
- Por que você não se apresentam e falam o que vocês são para ela? Você começa, Tom! – que tinha se levantado, foi até os quatro e puxou um deles para perto da cama.
- Certo, isso é estranho... Hã, eu sou o Tom Fletcher, mas você me chama de Tommy. – Ele sorriu com vergonha, ele tem só uma covinha, que foooofo. – A gente é bastante amigo e você tava morando na minha casa há um mês atrás, mas antes disso a gente morou juntos durante dois anos. E é isso. – Nossa, dois anos? Ele deve ser o meu melhor amigo. Tom fez sinal para o que estava ao seu lado falar.
- Ahm, meu nome é e eu sou seu ex-namorado. - Meu Deus, eu quase cuspi o meu coração agora! Eu namorava com ele? Cara, ele é muito lindo! Quer dizer, todos eles são, mas eu pensei que eu era só amiga deles, minha mãe não disse nada de nenhum ex-namorado! Certo, ele se assustou com a minha reação... Eu fiz um gesto com a cabeça e ele voltou a falar aliviado. - A gente namorou há uns três anos atrás e já moramos juntos enquanto namorávamos. Agora a gente é tipo melhor amigo. – Tom e o outro-que-eu-ainda-não-sabia-o-nome olharam indignados para . e ele soltaram uma risadinha cúmplice. – Eu acho que é isso.
- Eu sou o e EU sou o seu melhor amigo. – O garoto inflou o peito com orgulho, Tom deu um pedala com força no garoto que deu um passo para a frente, com o impacto. – Ah vai! Eu fui o primeiro que você falou! – massageava a cabeça e olhava para Tommy indignado. Eu ri de leve, parecia certo.
- E o primeiro que deu em cima dela! – exclamou, revirando os olhos, fez uma careta, mas não se defendeu. Eu ri baixinho. Parecia verdade. – A gente já se falou antes. – se pronunciou olhando para mim. – Eu sou o e sou o seu namorado.
Puta merda. Dessa vez o meu estomago revirou inteiro, deu uma cambalhota, o meu coração se debateu no peito como se quisesse sair dali, eu olhei para assustada, ela estava muito séria. olhou feio para . Todos o repreendiam com o olhar.
- Certo. Ex-namorado. A gente terminou faz pouco tempo. Ahn, é isso. – Ele passou a mão pelos cabelos. – Ah, a gente também já morou junto. Aliás, a sua casa tá cheia de coisas minhas. – terminou de falar e se sentou no sofá que ficava abaixo da janela. Com vergonha?
- Ah, não seja por isso! Você já morou na minha casa durante três semanas! – exclamou com um sorriso orgulhoso. Será que ele também é meu ex-namorado? Meu Deus, eu virei algum tipo de pegadora nesses últimos anos? Preciso perguntar à .
- Por que eu já morei com todos vocês? – Eu olhei nervosa para . – Eu não moraria com você caso acontecesse alguma coisa? – Ela riu de leve e olhou para os garotos de um jeito maldoso. Eles se encolheram. Que foi isso?
- A minha casa estava cheia. – Ela respondeu ainda olhando daquele jeito para os quatro.
- Cheia? Cheia de quê? – Eu perguntei sem entender. Será que a mora em um depósito?
- De gente. – Ela respondeu finalmente me olhando. – Duas amigas nossas moram junto comigo. – Cadê elas então? desviou o olhar da minha direção, olhando para uma parede como se ela fosse interessante, com uma expressão culpada. – Eles não deixaram elas virem. Disseram que já tinha gente demais. Ele não queriam me deixar vir! – Certo, eles estão loucos? Olhei fatalmente para os quatro, que imediatamente olharam para o chão, culpados. Eles não queriam me deixar conhecer as garotas que estão morando com a minha melhor amiga? Elas são putas ou algo do tipo?
- Por que vocês não deixaram elas virem? – Certo, eu fiquei com medo de mim mesma agora. Quando foi que eu aprendi a falar assim?
- O e o estavam preocupados em te sobrecarregar. Então a gente vinha hoje e a as garotas vinham amanhã. – Tom explicou em tom de suplica, rapidamente. Ele está com medo de que eu grite ou algo assim? Uau, eu sou poderosa.
- Tudo bem. Obrigada por isso. – Eu abri um sorriso enorme. Subitamente fiquei bem-humorada. Quatro caras gatos se preocupam comigo! – Sim, ninguém me respondeu porque eu já morei com todos vocês aí. – Eu apontei um por um com o meu dedo de unha feita. Peraí. Eu olhei para o meu dedo discretamente.
Cadê as minhas unhas feias, roídas e pequenas? Essas eram longas, bem-cuidadas e pintadas de uma cor escura! Uau. Eu parei de roer unhas. Eu sou uma adulta decidida. Legal. Mas eu tenho calos na ponta dos dedos da mão esquerda e as unhas não são tão longas assim. Será que eu toco alguma coisa?
- Quando você namorou com ele, – Tom começou a explicar apontando com a cabeça para – vocês moravam juntos. Quando vocês terminaram, você veio morar comigo. Quando a Gio se mudou lá pra casa, você morou com o por três semanas até achar um apartamento. Aí você começou a namorar com o e vivia lá. Aí quando você terminou com o , ficou uns quatro dias na minha casa, até terminar de tirar as suas coisas da casa dele. E agora você está de volta no seu apartamento. – Wow muita informação, muita informação...
- Quando tempo... – Eu comecei a perguntar, mas me interrompeu.
- Você namorou e morou comigo durante dois anos, morou 2 anos com o Tom e namorou e morou durante 9 meses com o .
- A gente não... – Eu comecei a perguntar e olhei para Tom rapidamente, fui interrompida de novo.
- Nunca. – Tom falou rapidamente ficando vermelho. Eu ri nervosa e olhei para , ele piscou. Oh não. Por favor, não, por favor, por favor, não...
- Tô brincando. – falou sem som, mexendo os lábios. Ufa. Caraca carambolas! Acho que ninguém reparou. Não. Foi rápido demais.
- O que vocês fazem da vida? – Eu perguntei de repente. Não tinha pensado nisso ainda. Mamãe não me falou nada deles.
- Ahn... Uma coisa de cada vez. Por que eu e você não conversamos um pouco enquanto eles vão à cafeteria? Eles não tomaram café ainda...
- Certo. – Eu respondi lentamente. Os quatro saíram conversando rapidamente e baixinho, de um modo que eu não pude entender o que eles falavam.
Oh meu deus. Eles são strippers. Por isso eles são tão lindos. Eu e a fomos a um strip club (não sei o por quê) e conhecemos eles. Por isso as outras garotas não vieram. Elas também são strippers. Caralho, será que mamãe sabe?
- , eles não são go go boys são?
me olhou sem acreditar. Em seguida ela jogou a cabeça para trás e começou a rir incessávelmente. Um alivio enorme me invadiu. Certo, eu acho que eu viajei legal agora.
- Claro que não! – Ela conseguiu falar entre risos, mas depois voltou a gargalhar escandalosamente.
- Tá bom. Dá pra você explicar a minha vida agora? – Quando eu falei isso, parou de rir abruptamente.
- Merda, eu tinha esquecido. – se sentou na poltrona ao lado da cama. – Então é verdade? Isso é sério?
- É sim, . Pra mim eu tenho 18 anos e o ano é 2004. – Eu segurei a mão dela. era a mesma. Só estava um pouco mais bonita. Mas seus olhos eram os mesmos. Porra, agora eu tenho certeza. Essa cagada toda é real. – O que a gente veio fazer em Londres, ?
- Viver o sonho. A gente conseguiu um trabalho igualzinho ao que a gente fazia no Foto-Estúdio, só que na Heat. – Nós duas falávamos em português. Isso sim era certo.
- Como a gente conseguiu esses empregos? – Eu perguntei com medo da resposta.
- Lembra da minha tia Mae que mora nos EUA? – Eu balancei a cabeça positivamente. Ah não! A doce tia Mae teve que dormir com alguém!? – Ela veio aqui de férias e deixou os nossos currículos para preencher vagas de estagiárias na Heat. E deu certo.
– Mas, , a gente nem falava inglês! – Estou aliviada, tia Mae não teve que se degradar.
- Falava sim. A gente passou um ano inteirinho estudando. A gente queria muito sair do Brasil. – sorriu com a lembrança. – Qual é a última coisa que você se lembra?
- De sair para comprar pão com o Elvis em um domingo e ser arrastada por ele. – Eu soltei uma risadinha e se segurou para não cair na gargalhada de novo.
- Caramba! Eu lembro disso! Você se arranhou todinha e depois desmaiou de susto! – Eu comecei a rir. Minhas costelas doíam, mas não dava para segurar. Eu tinha desmaiado? Logo se acabava de rir junto comigo.
- Eu não fui demitida no dia seguinte no Foto-Estúdio?
- Não. Eles te deram dois dias de folga para se recuperar do “acidente” e você pôde revelar as fotos de novo.
- Santo Elvis! – Eu joguei as mãos para o alto e nós duas voltamos à rir. – E o que aconteceu nesses últimos anos?
- Bom, você namorou com o por dois anos. Ele te conhece melhor que qualquer um, 'cê deu um fora no depois de nove meses. E os garotos são quase como nossos irmãos. – Os olhos de brilharam de um jeito estranho, quase maternal. – A gente trabalha na Heat, eu sou a diretora do departamento visual e você a melhor fotógrafa de todas. Aquele lugar não existe sem você, você é quem tira foto de todas as pessoas importantes. Você tem um apartamento bem legal na Mary Lebone Road, eu moro em um duplex com a e a na Flower Street, e os garotos moram em um condomínio.
- Hm, e também são minhas amigas?
- Sim. Nós somos bests. – abriu um sorriso. Bests, ela usava essa palavra se referindo à nós duas desde os nossos 15 anos. E agora tinham mais duas garotas. Feels weird. Peraí! Eu acabei de pensar em inglês!? Caraca!
- Como a gente conheceu elas? Elas trabalham com a gente?
- Mais ou menos. A gente conheceu elas por causa do trabalho. A é revisora e a é colunista. – Eu ergui as sobrancelhas rapidamente. Elas devem ser cultas. Nossa.
- Em que revista? Na Heat?
- Aham. A gente trabalha pra elas. – UI! Sou amiga das chefes! Amei. – Na verdade, não. Elas são superiores, mas você é quem trabalha pra mim. – Poxa, eu já tinha ficado toda animada aqui.
Fiquei com vontade de perguntar no que os garotos trabalhavam, mas pelas últimas reações, eu acho que é melhor esperar um pouco. Não deve ser nada de ruim, se não não ficaria tão feliz falando deles.
- Eles moram juntos?
- Eles quem? – Às vezes consegue ser mais lenta que eu.
- Os garotos. , Tom, e .
- .
- Hã? – Eu não posso falar nada, mas tipo, às vezes as pessoas falam alguma coisa e eu simplesmente não entendo, sei lá, não faz sentido nem um para mim. Aí eu acabo sendo meio lenta e as pessoas me chamam de tapada, como eu odeio isso.
- Ele não gosta que chamem ele de . É , sempre. – Ah! Agora eu entendi. Eu também não gosto muito que me chamem de . - E não, eles são vizinhos. O Tom foi o primeiro a comprar uma casa lá, ai você foi morar com ele e depois os outros compraram casas na mesma rua.
- Nossa, eu nunca pensei que a nossa vida ia mudar assim, sei lá. – Eu olhei para com um sorriso bobo e provavelmente com os olhos brilhando.
- Eu sei. Eu sempre imaginava a gente aposentadas em Santos. – Como?
- Em Santos? – Eu abri um sorriso engraçado. – Por que Santos? Eu nem sabia que você gostava de lá!
- Sei lá, tem aquela música e... – Ai não. Não acredito. Eu segurei o riso imaginando o que estava por vir. Ela não vai cantar. Ela não vai... – Peladjos em Saaantos! – Eu não consegui me segurar e comecei a rir. tinha essa mania, lembrava de uma música e cantava. Ela nunca precisou cantar mais do que essa linha da música para me fazer rir, ela faz uma voz tão engraçada.
- Eu não acredito que você ainda canta isso! Somos adultas agora! – Eu dei um tapa leve no braço de .
- Aaah, vai! Mamonas Assassinas forever! – começou a rir junto comigo. Ai, as minhas costelas estão doendo muito agora. – Eu tava ouvindo Robcop Gay outro dia! – Ela deu um sorriso maroto. Aí não dá mais. Foi a gota d’água. Eu comecei a ter um ataque de risos. Eu estava rindo tanto que eu me contorcia toda e não conseguia respirar. Ela começou a rir junto comigo. As minhas costelas doíam e cada centímetro do meu corpo que eu tinha batido no acidente também, mas eu continuei rindo. Eu não fazia ideia de como eu precisava disso. – E o estava junto comigo, e ele começou a rir que nem um retardado e ele nem entendia a música! – Eu comecei a rir mais ainda, eu nem sabia que era possível rir tanto assim de uma coisa tão boba. Nós duas estávamos rindo em uma altura absurda.
Enquanto nós ríamos, se apoiando uma na outra os garotos entraram no quarto sorrindo. Eu fiquei com vergonha e tentei segurar o riso. Mas não dava, não com rindo tão escandalosamente ao meu lado. Logo começou a rir com nós duas e a risada dele era tão estranha que eu voltei a gargalhar, logo todos ríamos que nem um bando de retardados. Entre gargalhadas eu tentava explicar qual era o motivo de tanta risada, mas nem eu sabia mais. Eu só me lembrava de todas as cagadas pelas quais eu já tinha passado com e com todos rindo eu só ficava com mais vontade de rir ainda.
- O que está acontecendo aqui? – Gabriela entrou no quarto irritada. – Dá para ouvir as risadas do outro lado do corredor! – Eu e nos olhamos e começamos a diminuir os risos. – Vamos, vamos! O horário de visita da acabou, vocês vão ter que se retirar! – O que é isso? Uma prisão? Eu tenho horário de visita? Eu parei de rir e aos poucos os outros foram parando. se levantou com uma careta e beijou o alto da minha cabeça.
- Eu volto aqui amanhã com as garotas ok? – Às vezes parece minha irmã mais velha. Os garotos se aproximaram e cada um deu um beijo estalado na minha bochecha, me deixando óbvia e completamente vermelha, eu acenei triste e vi meus amigos saindo do quarto lentamente, tristes em terem que ir embora. Meus amigos. Estou me sentindo completa. Tenho ótimos amigos. É, eu não devo ter virado uma puta nem nada assim depois de adulta.
Gabriela começou a me mexer toda, vendo se eu estava bem. Quando ela terminou de me examinar eu me senti incrivelmente cansada, dia de muitas emoções, quando dei por mim eu estava sonhando.
Cap.4
Eu abri os olhos lentamente. Era de madrugada, minha mãe estava me olhando zelosa.
- Oh, desculpe filha, eu te acordei?
- Não, mãe, eu é que tinha dormido muito cedo. – Eu me sentei na cama, olhando mais desperta para minha mãe.
- Sabe o que é? Eu tenho que voltar para Paris, eu tenho uma exposição para arrumar, eu queria conversar sobre isso com você, mas quando eu cheguei, você estava dormindo. – Exposição? Ah não. Minha mãe tem que ficar aqui comigo. Que palhaçada é essa? Eu quase morri! Na verdade, eu nem sei se quase morri... Mas eu perdi a memória, eu preciso dela! Tá, só uma parte da memória, mas mesmo assim.
- Quando é que você precisa voltar? – Eu tentei parecer calma, mas minha voz soou estranha.
- Amanhã. – Eu engoli em seco. – Eu falei com , ela e os seus amigos vão cuidar de você. Desculpe filha, mas eu tenho a minha vida em Paris.
- Certo, eu entendo. Não tem problema nenhum. – Eu tentei sorrir, mas minha bochechas doeram com a tentativa. Será que eu também as bati no acidente?
- Eu tenho que ir arrumar as malas, obrigada por ser compreensiva, filha. – Minha mãe se levantou, me deu um beijo e um abraço daquele jeito mãe. O cheiro dela, até o cheiro da minha mãe tinha mudado. Pelo menos um pouco. O perfume talvez, eu não sei.
Eu me deitei na cama novamente, apertando os olhos com força. Agora era só eu. era a única que eu “conhecia” dos meus amigos, nesse momento eu queria só me lembrar de todos e poder curtir a minha vida adulta dos sonhos em paz.
No dia seguinte, eu acordei com Gabriela entrando no meu quarto com um buquê enorme de flores na mão. Ela tinha um sorriso enorme. Eu fiquei tonta de felicidade, eram lírios! Lírios com pequenos jasmins em volta. Eu simplesmente amo lírios!
- De quem é? – Eu perguntei, enquanto Gabriela botava o buquê em um vaso ao lado de minha cama e eu sentia o cheiro maravilhoso das flores. Ela estendeu um cartão.
- Leia o cartão, eu vou pegar os balões. – Gabriela sorriu piscando para mim e saiu do quarto. Balões? Alguém me mandou balões? Eu abri o cartãozinho branco que estava dobrado no meio, um pouco nervosa. Ele estava escrito com uma letra cursiva, meio de lado e com certeza de homem.
Será que a gente também pode ir aí mais tarde? – XX , , Tom e .
Tudo bem, eu me derreti todinha agora. Eles são uns fofos! Enquanto eu suspirava olhando para o cartão, Gabriela entrou no quarto com vários balões. Eram no mínimo dez, sendo que eram todos coloridos, menos um que estava mais alto e era um coração vermelho. Eu abri um sorriso enorme, Gabriela sorria mais ainda.
- Por favor, me diga que não entrou no quarto errado! – Gabriela somente riu e balançou a cabeça negativamente e me entregou mais um cartão. Em um lado, que era a frente, estava escrito com uma letra de forma, como se fosse toda em letras maiúsculas.
Tom deu a ideia das flores, mas eu que quis dar os balões. - XX,
Eu virei o cartão com um sorriso bobo. No outro lado, a letra era cursiva, fina e um pouco pequena, muito mais difícil de ler do que as outras.
Mentira! Quem deu a ideia dos balões fui eu! Mas o balão gay em forma de coração foi o . - XO, .
- E aí? Eu posso trazer o seu café da manhã? – Gabriela me perguntou bem humorada, depois de eu ter rido de leve.
- Claro que pode! – Eu sorri radiante para ela, nem comida ruim de hospital ia arruinar o meu humor depois de flores e balões.
Gabriela saiu do quarto e eu me levantei, com menos dificuldade do que no dia anterior, e fui até o banheiro para dar um jeito na minha cara amassada de sono. Quando voltei, e mais duas garotas estavam sentadas no sofá do quarto e me olhavam sorridentes.
- ! – Uma delas levantou com um pulo e me deu um braço de urso antes que eu pudesse dizer alguma coisa.
- ! Deixa a pequena respirar! – A outra garota que eu não conhecia falou autoritária, mas sem parar de sorrir. Que estranho. Eu me sentei na minha cama, olhando para pedindo explicações, mas ainda sorrindo.
- Ah claro! Essas são - apontou para a garota que tinha me abraçado – e . – A outra garota me olhava ainda sorrindo.
- Oh, não pode ser verdade! Você não se lembra de mim? – A garota do abraço de urso perguntou, me olhando sem acreditar, de um jeito triste. Eu olhei desesperada para . – Como não!? A gente é melhor amiga! – Ela olhou como uma criança que tinha ralado o joelho para a outra. – , eu pensava que vocês estavam brincando!
- Eu te disse que era sério, ! Eu falei com o médico. – A outra garota se levantou e se sentou ao meu lado. – Meu nome é , eu trabalho na Heat com vocês, sou colunista, a gente se conheceu por causa da em 2005, eu era Free-Lancer naquela época, e a gente é muito amiga. – Ela sorriu abertamente para mim e eu sorri de volta. Era impossível não corresponder um sorriso tão sincero e bonito como aquele. Ela é a , claro! A outra deve ser ! É, eu sou muito mais lenta que qualquer pessoa viva. Em seguida, eu olhei para triste, ela ainda olhava para mim, aparentemente desapontada.
- Desculpa, não é sua culpa. – também se sentou ao meu lado, só que do outro lado. O que não estava. Claro duh! Ela não ia sentar em cima da . Por Deus, como eu sou enrolada! – Isso é horrível... Meu nome é , eu também trabalho na Heat, mas como revisora. Eu era estagiária em 2005 e fui eu que dei o seu número para o , depois disso a gente ficou muito amiga e morou junto com a , até você ir morar com o .
Eu sorri para as duas sem saber o que fazer, eu já estava começando a me sentir como aquelas assistentes de mágico. Só sorrindo para as pessoas.
- Peraí. Por que eu fui morar com vocês? Eu não tava morando com a ? – Eu tô ficando confusa. Eu morei em quantos lugares diferentes nesses últimos anos? olhou com o canto do olho para , e ela sorriu confiantemente.
- Vocês duas estavam brigadas e você estava em um hotel. Quando você conheceu a , a gente já morava juntas e logo nós três ficamos amigas e você foi morar com a gente. – explicou lentamente. Ela parece ser a mais adulta de nós.
- Brigadas? – Eu olhei assustada para , que correspondeu o meu olhar com culpa.
- É, a gente ficou um ano sem se falar. – Minha cabeça está girando. Será que eu ouvi direito? – Eu tinha sido promovida para secretária chefe do Recursos Humanos da revista e eu fiquei muito chata. Uma verdadeira puta. Só falava de trabalho e só queria sair com o pessoal do RH, eu estava realmente intolerável e insuportável. Logo, você saiu de casa.
Que universo paralelo é esse? agindo como uma puta chata? É ISSO! Eu fui absorvida por um buraco negro e vim parar em um universo paralelo, onde eu namoro caras perfeitos, tenho um trabalho perfeito e sei falar inglês!
- Vocês voltaram a se falar em 2006, no começo do ano, você terminou com o no fim desse mesmo ano. Mas a gente estava morando na casa da , ocupando todos os quartos. Foi por isso que você foi morar com o Tom. – explicou enquanto olhava para a porta, Gabriela entrava com uma bandeja enorme, com um café enorme, com tudo o que se tem direito. Agora as coisas estão começando a fazer sentido. Mas por que eu estou com a sensação que não sei nem metade da história desses últimos anos?
- Desculpe a demora, . Eu quis trazer um café especial. O doutor Kinsella decidiu que você pode voltar hoje para casa! – Gabriela arrumou o café na mesa que ficava no canto do quarto e fez sinal para eu ir me sentar.
- Alta? Que bom! – Gelei total. Nem sei ir para a minha casa! Qual é, eu fiquei cinco dias desacordada e o médico já que me mandar para casa?
Eu retiro tudo o que eu disse de ruim nessa vida sobre comida de hospital. Esse é um dos melhores cafés da manhã que eu já tomei na minha vida! Eu mastigava uma torrada lentamente, enquanto , e zanzavam pelo quarto arrumando as minhas coisas, apreciavam as flores e os balões e ligavam para todas as pessoas que me conhecem dizendo que eu tinha recebido alta. É. Todas as pessoas que me conhecem. Porque eu não conheço ninguém, nem sei onde moro! Tudo bem, eu conheço a . E ela me contou que eu moro em um apartamento legal na Mary Lebone Road. Mas isso lá são informações suficientes sobre a sua vida? Eu acho que não.
A próxima coisa que eu me dei conta, era que o Dr. Kinsella, , , e Tom entravam no quarto, todos com sorrisos no rosto e eu já estava com tudo arrumado e vestia roupas normais. Roupas que por sinal me deram muito orgulho de mim mesma. Eu usava uma calça jeans meio justa, que deixava minhas pernas muito bonitas, uma camisa com um trecho de uma música do Bruce Springsteen (desde quando eu gosto dele?) e um all star de couro branco.
- Olá, ! – O Dr. Kinsella sorria radiante para mim. – Então, você só tem que fazer uma consulta no Neuropsicólogo e terá alta. – O doutor aponta para a porta satisfeito, gelei, gelei muito agora, super fato.
Eu vou para a consulta. O consultório fica no próprio hospital, só que em outra ala. O médico é um cara amável de jeans, chamado Michael. Eu me sento em uma mesa, com ele, fazendo testes. Eu devo dizer que me saio muito bem! Consigo me lembrar de cinqüenta palavras da lista; lembro-me de um conto; faço um desenho de memória.
- Você está funcionando extremamente bem, . – Diz Michael, depois de verificar o último item. – Sua habilidades executivas estão aí, sua memória de curto prazo está ótima, você não tem grandes problemas cognitivos... Mas está sofrendo de uma séria amnésia retrógrada focal. Isso é muito incomum.
- Mas por quê?
- Bom, tem a ver com o modo que você bateu a cabeça. – Michael fala com um quê animado na voz, ele se inclina, desenha uma cabeça no seu bloco de anotações e começa a preencher o cérebro. – Você teve o que chamamos de ferimento por aceleração e desaceleração. Quando bateu no pára-brisa, seu cérebro foi jogado de um lado para o outro dentro do crânio, e uma pequena área foi, digamos... beliscada. Pode ser que você tenha danificado seu armazém de memórias... Ou pode ser que tenha danificado o caminho neural, sua capacidade de recuperar memórias. O armazém está intacto, pode-se dizer, mas você não consegue abrir a porta.
Os olhos dele brilham como se isso tudo fosse realmente fabuloso e eu devesse estar impressionadíssima comigo mesma.
- Você não pode me dar um choque elétrico? – Pergunto frustrada. – Uma cacetada na cabeça ou algo do tipo?
- Infelizmente, não. – Ele parece achar engraçado. – Contrariamente à crença popular, bater na cabeça de uma pessoa com amnésia não traz a memória de volta. Portanto não tente fazer isso em casa. – Ele falou divertido, sorrindo e empurra a cadeira para trás. – Deixe-me acompanhá-la ao seu quarto.
Chegamos ao meu quarto e encontramos todos os meus amigos me esperando, sentados espalhados pelo quarto, conversando animadamente. Menos Tom, que fala ao telefone. Imediatamente ele encerra a conversa e fecha o mesmo.
- Como foi? – Tom pergunta, ele foi o primeiro a me ver chegar.
- O que você lembrou, pequena? – pergunta . Pequena? Só agora que eu me dei conta de que eu a mais baixa no recinto.
- Nada – admito.
- Quando voltar ao ambiente familiar, provavelmente verá a memória retornar naturalmente – diz Michael de modo tranqüilizador. – Se bem que pode demorar um pouco.
- Certo. – concorda, sério. – Então o que fazemos agora?
- Bem. – Michael folheia suas anotações. – Você está em boa forma, fisicamente,. Você pode receber alta hoje, tranquilamente. Vou marcar uma consulta para daqui a um mês. Até lá, o melhor lugar para estar é em casa. – Ele sorri. – Tenho certeza de que é onde você quer estar também.
- É! – Digo depois de uma pausa. – Em casa. Fantástico.
Enquanto digo as palavras percebo que não sei o que quero dizer com “casa”. Minha casa era o apartamento no Brasil. E isso não existe mais.
- Qual é o seu endereço? – Ele pega uma caneta. – Para meu registro.
- Eu... não sei.
- Eu anoto – diz , solícita, e pega a caneta.
Isso é loucura. Não sei onde moro. Pareço uma velha confusa.
- Bem, boa sorte, . – Michael olha para todas as pessoas do quarto. – Vocês podem ajudar, dando à o máximo de informações possíveis sobre a vida dela. Anotem coisas, levem-na a lugares onde ela esteve. Qualquer problema é só me ligar.
A porta se fecha atrás de Michael e tudo silencia. Todos estão trocando olhares. Se eu fosse uma teórica de conspiração, diria que eles estão tramando um plano.
- O que foi?
- Pequena, a gente tava falando antes sobre como iríamos... – hesita – lidar com a sua saída.
Primeiro: até a me chama de pequena? HÁ, como se ela fosse muito mais alta que eu! Segundo: “Lidar com minha saída”. Ela fala como se eu fosse uma prisioneira perigosa, psicótica.
- Estamos numa situação bastante estranha – continua ela – você morava sozinha. Não tem como você ficar comigo e com as meninas, a Gio está morando com o Tom. A gente não sabe se você deve ficar com o , o ou com o ou se você deve ir para Paris ficar com a sua mãe. É meio complicado, afinal de contas... Eu sou a única que você conhece.
Estou me sentindo muito mal agora. Eu olho completamente perdida para , Ela sempre se desespera quando eu faço essa cara. Desde quando a gente se conheceu com 15 anos em uma praia no Brasil. Eu já falei que ela salvou a minha vida? Eu estava surfando, tinha caído da prancha e tinha dado de cabeça com tudo na mesma, eu desmaiei e se ela não tivesse me tirado da água eu teria morrido afogada. Ela sempre disse que eu fiquei seqüelada depois disso e fiquei assim toda lenta e doida, só porque eu tenho desmaios fáceis. Hum, tá!
- Mas olha, eu posso ficar com você no seu apartamento até você melhorar e se lembrar de tudo. – Eu sorri e fui para cima de a abraçando, eu estava esse tempo todo sentada na beira da cama e todos riram com a minha reação. – Eu acho que você gostou da ideia não é, pequena? – Eu balancei a cabeça afirmativamente, toda boba.
- Mas que papo é esse de pequena? Só porque eu sou a mais baixa? – e se olharam e começaram a rir. sorriu sarcástica para eles. – Qual é ! Como se você fosse muito mais alta do que eu! Quem foi que inventou isso?
Eles devem achar que eu sou o bozo. Estão todos rindo. Mas eles não estão rindo de mim... Eu olhei para o lado e vi que e não riam. Eles apontavam um para o outro e tinham feições irritadas. Ah, então um dos dois foi quem começou com isso... Eu saí de perto de e fui em direção a e . Os dois me olharam meio assustados.
- Qual dos dois? – Eu coloquei as mãos no quadril e olhei perigosamente para os dois. Certo, eu bato só um pouco acima do queixo deles, mas eu também não sou muito menor que o (que é o mais baixo) e a só é um pouquinho mais alta do que eu.
- Foi o !
- Foi o !
Os dois falaram ao mesmo tempo, vocês só podem estar de brincadeira. Eu me sentei na cama e fiquei olhando feio para os dois que estavam começando a discutir.
- Vamos. A gente 'tá em dois carros. Vai você, o , e a no carro do Tom, e eu, o e a no carro do , tá legal? – Propôs , eu balancei a cabeça afirmativamente e todos pegamos as coisas e fomos saindo.
Depois de passar na recepção e tudo, nós estávamos no estacionamento arrumando as coisas e se ajeitando, menos e que ainda estavam discutindo um pouco longe dos carros.
- PAREEM! – Eu gritei com todas as minhas forças enquanto colocava a minha bolsa no porta-malas de Tom.
- Foi ele quem começou! – gritou em resposta, apontando para .
- Não interessa quem começou! – Eu entrei no carro me sentando ao lado de no banco de trás. se sentou no carona rindo de Tom que tinha acabado de se sentar no seu lugar e resmungava tentando ligar o som que aparentemente estava com problema.
- AAAH! – Eu ouvi o berro de quando o bateu, acho. Eles estão se batendo? Por tudo quanto é mais sagrado, eles parecem garotinhos brigando por uma coisa boba assim!
- Não me façam ir até aí! – Eu gritei ameaçadoramente da janela aberta, olhando os dois que ainda discutiam sobre quem tinha começado a me chamar de pequena.
- 'Tá bom, 'tá bom, a gente já parou! – falou derrotado e se virou para mim.
- Não acabou não! Fui eu quem...
- Os dois entrem no carro AGORA! – Eu interrompi com meu grito poderoso, ele se assustou e os dois foram para o carro de praticamente com medo. – Meu Deus. Eu sofri um acidente de carro, fiquei cinco dias internada e eles ficam brigando assim. Grandes amigos eu fui achar! – A última parte eu falei com a maior ironia que eu já usei na minha vida. Tom começou a rir e saiu do estacionamento do hospital. e me olhavam assustados. Eu acho que só o Tom entendeu a ironia na minha voz. How make?
- Eu tava brincando. – Eu falei lentamente. Os dois soltaram o ar, aliviados. bateu na mão de Tom e ela mesma ligou o rádio. Eu ri baixinho. Eles pareceram muito um casal agora.
- Eu tô com fome! Eu tô com foome! Eeeu tô com fome! Eu tô coooom fome! – cantava com todas as suas forças, enquanto eu ria feito uma descontrolada, Tom xingava todos os palavrões do mundo, em todas as línguas que conhecia (alguns eu nunca tinha ouvido!) e tapava os ouvidos entrando em desespero. Nós estávamos à caminho da minha casa, presos em um trânsito horrível, parecendo uns maníacozões, preciso frisar isso. Estava na hora do almoço e eu nunca tinha ficado em um engarrafamento tão grande assim na vida! Nem na hora do rush na Marginal Tietê em São Paulo.
- Porra! Tá bom, ! A gente vai parar para comer! SATISFEITO? – Tom explodiu do nada, eu automaticamente parei de rir e de gritar. Um silêncio enorme se instalou no carro, enquanto Tom começava a se preparar para dobrar a esquina e parar em algum lugar para comer. pegou o celular e ligou para o avisando para seguir a gente, até uma lanchonete qualquer. Ui.
- Caralho, que frio! – Nós tínhamos acabado de estacionar e eu tinha abri a porta do carro toda feliz, mas eu a fechei rapidamente no mesmo segundo. Meu Deus deve estar fazendo uns seis graus lá fora. O estacionamento estava tão quente quanto o hospital e eu nem me toquei.
Já descobri que estação do ano é. Outono. Impossível não perceber com todas as árvores com as folhas todas amarelas ou já totalmente sem folhas. – Como eu fui sair sem agasalho? Eu to achando que tô aonde? No Brasil? – começou a rir e me deu um casaco preto de Tom que estava esquecido no chão. Eu falei isso alto e em inglês?
Todos saíram do carro, eu fui a última, tentando ajeitar o casaco de Tom no meu corpo, dobrando as mangas e coisas assim. olhava distraída para o carro de que estacionava atrás do de Tom. Eu coloquei o capuz. Estou com frio até nas orelhas, Nas orelhas! Eu senti um cheiro bom vindo do capuz, eu o puxei e cheirei discretamente, aquele cheiro me lembrava alguma coisa era... eu olhei para o lado assustada.
Uma menina começou a gritar histérica apontando para a cara de , e que estava ao seu lado ficou pálida quando Tom se virou para ver o que estava acontecendo. Que isso!?
- Que porra é essa!? – perguntou, gritando. Nada discreto, saindo do banco carona. O seu rosto se encheu de compreensão quando viu Tom pedindo calma para garota que ainda gritava histérica na cara dele e de . Eu juro que quando as duas viram e saírem do carro ela tiveram uns 30 filhos. Sério, eu nunca tinha ficado tão perto de duas meninas tão histéricas quanto aquelas. O que está acontecendo?
Eu estava em estado de choque. As garotas vieram para perto de mim e segurou o meu braço me passando conforto. Mas eu estava muito ocupada olhando para os garotos tirando fotos com as meninas histéricas.
- O que é isso? Por que elas estão atacando eles? – Eu perguntei para nervosa. Ela não teve tempo de responder.
- Em que mundo você vive!? Eles são o McFLY! – Uma delas disse histérica. Eu franzi o cenho sem entender.
- Mc o quê? – Hã? De Volta para o Futuro? McDonald’s? Que porra é essa?
- OMG! Maddison, essa mulher não sabe quem eles são! – Eu a olhei sem entender. Como assim? Eu sei sim. Eles são , , e Tom. Os meus amigos que eu não conheço. Certo, isso soou estranho. – Esquece! -
A menina se virou e pediu um autógrafo para , olhando para ele toda sugestiva. estava assinando nos peitos da tal de Maddison. O QUE É ISSO?
Eu estava quase para pular no pescoço da loira oxigenada, quando me puxou para a porta da lanchonete.
- Vamos esperar eles aqui dentro. – falou baixinho, enquanto e a ajudavam a me puxar para dentro do lugar e me sentar em uma cadeira.
- O que foi isso? O que o estava fazendo no decote daquela menina? Por que a outra pediu um autógrafo pro ? Por que elas gritaram? Por que elas estavam tirando fotos com eles? – Eu nunca tinha feito tantas perguntas e tão rapidamente em toda a minha vida. me olhava sem saber o que dizer.
Céus. Eu entendi. Parei de falar, pasma. Eles são famosos. Por isso eles são tão lindos. Por isso que as vozes são lindas. Por isso ninguém me deixou ver MTV, ler revistas de fofoca ou ouvir radio nos últimos dias. Por isso ninguém sabia como me dizer o que eles faziam da vida.
Ninguém sabia como me dizer que os meus melhores amigos eram famosos.
Foi assim que eu conheci o , na Heat Magazine. As coisas estão fazendo mais sentido agora.
Tomara que eles não sejam umas daquelas boybands ridículas, que as garotas glorificam e acham que eles são deuses gregos, que na verdade não cantam e nem tocam. Só dançam. O que será que eles são? São atores? Não. McFLY deve ser nome de banda.
OH MEU DEUS! Como a teve a CORAGEM de não me contar isso no segundo em que ela me viu?
- , você me deve uma explicação. – eu abaixei o capuz do casaco preto de Tom, ajeitei o cabelo e me apoiei na mesa com o cotovelo. Quando abriu a boca, tremula, se sentou do meu lado e do outro. Tom e sentaram cada um em uma cabeceira silenciosamente. continuou calada e eu olhei as garotas uma por uma. – Já que elas ficaram mudas, será que você podia me explicar o que acabou de acontecer, ? – Eu olhei para calmamente, mas falando com muita frieza. Eu pude perceber que engoliu em seco e olhou para os lados desesperado, procurando por ajuda. Olhei para os seus olhos com força. Ele me olhou de novo. Um lampejo passou por minha cabeça. Uma voz cantando bem próxima ao meu ouvido com uma voz rouca. Eu fechei os olhos e os apertei com força. Os abrindo em seguida, ignorando o lampejo e olhando nos olhos de novamente. – Vamos. Eu estou esperando uma explicação.
Cap.5
Certo, recapitulando mais uma vez.
Eu estou morando em Londres (Eu nunca pensei que um dia eu fosse chegar a morar em qualquer lugar da Europa, juro.), na Mary Lebone Road, que fica perto da casa do Sherlock Holmes (!), do Madame Tussaud e daquele planetário fabuloso que eu esqueci o nome.
Eu realmente tenho 23 anos, o ano é realmente 2009. Pelo que me contaram, eu sofri um acidente de carro, não estou em nem um universo paralelo, não viajei no tempo e nem nada assim, sério. Eu também não acreditei logo que me contaram. Eu tenho quatro melhores amigos e duas melhores amigas, dos quais não sei nada à respeito, na verdade, não me lembro de nada deles. Eu também não lembro do meu trabalho de fotógrafa principal da Heat Magazine. Não lembro que a minha mãe mora em Paris, não lembro que eu sei falar em inglês, não lembro que sei tocar guitarra, não lembro de como o meu cabelo ficou bonito assim, não lembro de aprender a dirigir, enfim.
Mas de todas as coisas que aconteceram nesses últimos cinco anos e que eu esqueci graças ao acidente, tem uma que eu não sei mesmo: como que diabos que fui conseguir esquecer.
Será que alguém nesse mundo mais do que louco pode me explicar como, mas como que eu fui esquecer que os meus quatro melhores amigos são famosos?
Eu nunca surtei tanto sem demonstrar isso em toda a minha vida. Nós estávamos lá na lanchonete e todos estavam calados, esperando me dar uma resposta, ou no mínimo me olhar. Porque ele ainda não me olhava, tentando fazer com que os outros o ajudassem, pedindo com o olhar. Eu só fiquei ali o olhando, com as sobrancelhas erguidas. Eu acho que eu estava fazendo aquela minha expressão assustadora, eu totalmente entendo agora para que eu a aprendi.
- A gente é uma banda bem conhecida. – Foi só isso que ele me respondeu antes do garçom, que já era um senhor de idade, vir anotar os pedidos.
Enquanto todos faziam os seus pedidos, me contou por cima da mesa a proporção da famosidade deles, a entrada no livro dos recordes por baterem um recorde dos Beatles logo no começo da carreira, os vários Brits Awards ganhados, as turnês no Japão, nos EUA, na América-Latina, com direito a turnê até no Brasil (que eu fui com eles. Para tirar fotos dos shows, eu suponho), a ida à África para arrecadar dinheiro para caridade, o filme com a Lindsay Lohan, e tudo, Tom é o compositor com mais singles nº 1...
Ela falou tanta coisa e tão rápido, enquanto os pedidos eram feitos e chegavam, que, quando ela finalmente parou de falar para atacar o seu hambúrguer, eu fiquei ali em choque, tentando processar tudo. Eu estava respirando fundo e tentando não olhar nos rostos que me encaravam preocupados.
É. Eles são famosos. Tipo, muito famosos. Famosos no mundo inteiro. Como se esquece de algo assim? Como uma garota que já namorou dois dos caras mais desejados do mundo inteiro esquece disso? Sabe o que é ser mundialmente famoso? Eu não sei. Mas eles sabem. Porque eles são.
Eu estava comendo as minhas batatas bem devagar e encarando o vazio. Momento autista legal. tocou no meu braço gentilmente e tirou um aparelho do seu bolso.
- É o seu Ipod. Você tinha esquecido ele na minha casa no dia que você sofreu o acidente. Antes de ele acontecer, sabe? – sorriu amarelo, tentando esconder preocupação que estava evidente em seu olhar. - Têm algumas músicas nossas. Vídeos e coisas assim. Além das músicas e bandas que você gosta. Por que você não escuta depois? – Eu balancei a cabeça afirmativamente e peguei o aparelho da sua mão, dando o meu melhor sorriso confiante.
Que coisa enorme. Quantas músicas será que tem nisso aqui? Eu comecei a tentar ligar o aparelho. Sem sucesso. Quando eu tinha 18 anos, eu juro que as coisas eram mais fáceis de usar... Eu olhei para discretamente com o canto do olho, mas ele estava realmente muito ocupado com o seu sanduíche.
Suspirei profundamente, olhando confusa para o treco confuso que eu segurava. Confusa, eu nunca estive tão confusa. No meio de uma confusão ainda mais confusa do que o me próprio confundimento. Hã? Nem eu me entendi agora, fato.
Eu senti mãos cobrirem gentilmente as minhas, pegando o aparelho. Eu olhei para o outro lado assustada. sorria amavelmente para mim. Sem dificuldade, ele ligou o aparelho e colocou um fone na minha mão. A tecnologia realmente avançou bastante nos últimos cinco anos.
- Vem cá, deixa eu te apresentar para as suas bandas, músicas e álbuns preferidos. – sorriu fofo para mim, enquanto eu me aproximava mais da sua cadeira e colocava um fone, sorrindo em agradecimento.
Eu não sei quanto tempo nós dois ficamos ali. me mostrou todas as bandas que tinham no meu Ipod, me disse o nome de todos, me mostrou quem eram os meus favoritos, mostrou todas as mais tocadas, mostrou as músicas do McFLY (que são muito boas, por sinal, e não tem nada a ver com Backstreet Boys ou N’Sync) e também me mostrou a música do Bruce Springsteen que estava na minha camisa, Born To Run, eles já tinham feito um cover dela, que estava realmente, muito incrível.
Deve ter sido muito tempo, que nós ficamos ali, eu digo. Porque a próxima coisa de que me dei conta, foi que e as meninas estavam pedindo a conta e contando quanto cada um ia ter que pagar, todos já tinham terminado de comer. Eu não paguei, eu abri a minha carteira e me surpreendi com o fato de que eu realmente tinha dinheiro.
Mas ninguém me deixou pagar, começou um discurso de que eu não sabia a senha dos meus cartões de crédito e não sabia como contar os euros e que, portanto, todos deviam ser gentis e pagarem a minha parte da conta. Estraga-prazeres. Só porque eu estava me sentindo toda independente podendo pagar a minha conta e coisa e tal. Não gostei. Como se eu fosse alguma sedentária que não pode pagar a própria conta. Certo, eu não sei porque sedentária. Na verdade, eu sei sim. Eu nunca fiz nada da vida além de dormir, comer, tirar fotos e escrever. Colocar tudo o que você sente e pensa no papel, sabe?
- Então? Vamos todos para a casa da ? – perguntou, olhando sorridente para mim. Minha casa? Eles querem que eu receba gente na minha casa? Eu nem sei onde os copos ficam!
Eu passei a mão pelo cabelo puxando-o para trás e mordi o meu lábio inferior, tentando fazer entender que eu não estava muito confortável com aquilo.
- Ahn, eu acho que não é uma boa, cara. A não gostou da ideia. – Tom disse sorrindo compreensivo. – Eu acho que é melhor só a ficar lá com ela.
- Tá bom. – deu de ombros, mas sorriu em seguida. Como o Tom sabia? Eu hein. Ele lê pensamentos ou me conhece mais do que a ? Porque ela parece não ter nem percebido que eu não tinha gostado. É isso que dá ter uma melhor amiga lenta.
Nós nos levantamos e fomos para os carros, os garotos saíram e entraram nos carros rapidamente, eu acho que eles ficaram com medo de eu ter um ataque do coração se mais garotas histéricas aparecessem e começassem a ser histéricas, chorar, todas esses ataques que fãs tem quando encontram os seus ídolos. Poxa, eu ainda não acredito que esses caras sejam ídolos de pessoas como eu. Não que eles não sejam admiráveis nem nada. Na verdade eu não sei. Não sei coisas suficientes ainda para saber se eles são admiráveis ou não. Tomara que sim, que eles não sejam falsos e só usem playback nos shows... Ai, eu preciso muito conversar direito com a , eu ainda não sei de nada. Bom, era bem capaz que eu tivesse um ataque do coração, sabe? Enquanto saí do restaurante, eu tive um bom-humor súbito e fui andando toda sorridente até o carro. Eu entrei no banco de trás e me sentei ao lado de , colocando o meu cinto e cantarolando toda feliz.
- Que música é essa? – perguntou, me olhando assustado de repente. O carro já estava andando há um tempo e Tom e conversavam animadamente sobre algo que eu não entendia. Eu tenho a impressão de que eu não entendo nada deles e que eu nunca vou entender. Ô povo pra falar rápido e ao mesmo tempo. HÁ, a suja falando do mal-lavado, eu e a sempre conversamos falando mil coisas ao mesmo tempo. Boa pergunta. Que música é essa? Eu tô cantarolando ela há uns cinco minutos já.
- Cantarola ela mais alto. – Eu o olhei sem entender, mas comecei a murmurar a melodia mais alto. estava com uma expressão concentrada. Depois de alguns segundos cantarolando a mesma parte que eu parecia ser um refrão, começou a cantar junto com a melodia.
- So here I am, it’s in my hands. And I’ll savour every moment of this. So here I am, alive at last. And I’ll savour every moment of this. – parou de cantar, eu o olhava sorrindo e Tom e tinham parado de conversar. Tom nos olhava pelo retrovisor do carro e estava totalmente virada para trás.
- O que foi isso? – Tom perguntou enquanto virava uma esquina.
- A tava cantarolando The Taste Of Ink do The Used. – explicou, dando de ombros. Eu não lembro de nenhum The Used.
- Eu não lembro dessa música. – Eu disse olhando desentendida para Tom.
- Como não? Você é toda viciada neles desde que a gente assistiu aquele show em 2007! – me olhava como se eu fosse algum tipo de alienígena. Tom freio bruscamente na frente do farol vermelho.
- 2007? MAS ELA ESQUECEU DE CINCO ANOS! – Tom se virou para mim rapidamente. – Você lembrou disso agora? – Ah cara, eu sei lá! Agora todo mundo vai ficar na expectativa, eu não lembro de nada de Londres, de nada deles, NADA!
- Mais ou menos. Eu tô com essa melodia na cabeça desde hoje de manhã. – Eu dei de ombros e comecei a admirar a vista da janela.
Eu acho que eu nunca vou me cansar de Londres. Eu tenho certeza de que eu não me cansei e nunca vou. Nunca, cara! Aqui é tão lindo! Eu me distraí rapidamente com a beleza da cidade, enquanto os três falavam um milhão de coisas. Tom colocou um CD e foi mudando as músicas.
Eu acho que eu conheço essa música, eu... eu realmente estava cantando essa música, sem duvida nem uma é ela.
- Is it worth it can you even hear me. Standing with the spotlight on me. Not enough to feed the hungry! – cantava a música ao meu lado em plenos pulmões. A próxima coisa de que me dei conta foi que , Tom e cantavam a música juntos. Eu estava sorrindo e tapando os ouvidos, eles estavam cantando muito alto. Eu comecei a rir, sei que conheço essa letra. Eu preciso lembrar dela ou aprender de novo.
Tom parou o carro na frente de um prédio e buzinou. Um portão se abriu e nós entramos em uma garagem.
- Savour every moment of this! Savour every moment of this! – Eu cantei as duas linhas da música, era o que ele mais falava, eu não lembrei, mas aprendi. me olhou rindo, eu tinha tentado cantar o último refrão, mas só falei besteira, por não saber a letra. Tom desligou o carro rindo. cantava o refrão da música aos berros. Eu acho que ela bebeu no almoço.
Nós quatro saímos do carro e eu os segui até o elevador, parou de cantar quando uma senhora e uma criança saíram de dentro do mesmo, antes de nós entrarmos. A garotinha deu tchau para mim ao passar. Eu acenei de volta com um sorriso. Sou sociável com os vizinhos, legal.
Nós quatro entramos no elevador. Novamente, os três conversavam e eu não entendia nada. Eu olhei nervosa para os botões, eu não sei em que andar eu moro! pareceu ser a única a perceber que o elevador não andava.
Ela olhou para os garotos, revirou os olhos e apertou no 13º andar. Ui, eu moro no treze.
- E os outros? – Eu perguntei em voz alta, tentando não me olhar no espelho. É, eu ainda não me acostumei com a minha nova aparência.
- Eles já devem estar chegando, eles estavam logo atrás da gente. O deve ter ido estacionar na rua. – Tom respondeu, dando um passo em direção à porta que já estava começando a abrir. Ai, meu Deus. É agora. Eu vou conhecer a minha casa. Vou ter um lampejo e vou lembrar de tudo. Foi o que Michael disse. Que estando em casa, eu ia começar a me lembrar das coisas.
Nós saímos do elevador, e eu fiquei olhando para os lados. Eram duas portas. Qual será a minha? A branca com um tapete de estrelinhas coloridas, ou a preta com o capacho cinza? foi andando naturalmente na direção à branca. Eu sorri boba. Era a minha casa.
Tom colocou a mão no meu ombro gentilmente.
- A chave deve estar na sua bolsa.
- Ah, claro! – Eu olhei para Tom sorrindo amarelo. e estavam na frente da porta com expressões pacientes. Eu abri a minha bolsa e comecei a remexê-la atrás de um molho de chaves, um chaveiro, qualquer coisa com chaves, qualquer uma que pudesse abrir a minha casa. Eu comecei a ficar nervosa. Eu não lembro de ter visto chave nenhuma no hospital, o que eu faço? Como eu vou entrar na minha casa!? E se ninguém tiver uma cópia!? Eu vou ter que arranjar um chaveiro para arrombar a minha linda portinha branca e deixar ela toda feia!?
Tom chegou perto de mim sorrindo de lado, ele colocou a mão direita dentro da minha bolsa e em um segundo a tirou de lá, segurando um chaveiro da Kipling cheio de chaves. Macacooooo! Eu amo macacos, sério. Um dia desses eu... Tudo bem. Um dia, em 2004, eu sonhei que eu carregava uma caixa cheia de bananas dentro do Titanic (?) e um monte de macaquinhos de cheiro me atacavam. Eles eram todos cor de ouro e eu não ficava com medo, porque eles era mínimos e foi tãão fofo! Tipo, bananas e macaquinhos no Titanic, e ele nem estava afundando!
Eu fechei a bolsa e comecei a morder a ponta de unha do meu dedão da mão esquerda. Tom jogou a chave para . Só agora eu me toquei que ainda estou parada na frente do elevador. destrancou a porta e fez sinal para que eu me aproximasse e a abrisse. Com passos cautelosos eu fui até a porta branca e parei receosa a encarando.
Eu senti alguém segurar a minha mão. me olhava com um sorriso encorajador. Eu abri a porta lentamente e adentrei o hall. Um porta-casacos estava lotado de casacos e cachecóis, ao lado da porta, eu olhei para um casaco amarelo, sorrindo. Vestir isso deve ser legal, deve deixar tudo mais ensolarado. Sabe, eu adoro o sol, ele é tão... quente.
Dei mais alguns passos e entrei na sala. Uma mesa grande estava mais no canto, um sofá branco, em forma de L, cheio de almofadas roxas estava do outro lado, na frente dele uma TV enorme, fininha e preta, que estava presa à parede. Abaixo da TV ficava um armário com um som e muitos cds e dvds. Nossa.
A sala era toda clara. Eu fui andando e fiquei na frente da TV, um tapete peludo e creme estava abaixo dos meus pés e eu olhei curiosa para uma foto na parede. Era uma praça, as folhas estavam todas amarelas, iguais aos do lado de fora e bem longe estavam um homem passeando com um cachorro que eu tenho certeza que é Elvis, estranho. Mas era uma bonita foto. se sentou no sofá, me olhando com um sorriso, sério, eu senti uma vontade muito grande de me jogar em cima dele e apertar suas as bochechas até, sei lá, o mundo acabar. Mas eu sorri de volta, olhando mais uma vez para o sofá. Ele era muito bonito. Um casaco de homem estava ao lado de já estava lá antes. Eu não dei muita atenção a isso.
Eu segui para o corredor com Tom e logo atrás, as paredes do corredor eram cheias de porta-retratos com as mais diversas fotos, eu olharia isso depois. Abri a primeira porta à esquerda. Era um escritório.
Cap. 6
À frente de uma janela com vista para vários telhados, estava uma escrivaninha soterrada por vários papéis e fotos, no canto, ao lado da janela, havia uma estante abarrotada de livros e uma bancada ocupava toda uma parede do quarto, com equipamento completo para revelação manual de fotos, um fio atravessava o quarto, com várias fotos penduradas. Eu andei até a escrivaninha e comecei a mexer nos papéis e nas fotos. Era tudo meu, as fotos, a maioria das folhas estava com a minha letra, que não tinha mudado. Pelo menos a minha letra não tem segredos dos últimos cinco anos. Mas eu queria lembrar de tudo que escrevi.
Eu sorri com orgulho de mim mesma para as fotos presas no “varal”, eram todas dos meus amigos. Eu olhei com um sorriso maior ainda para uma: era o quintal de uma casa e minha mãe estava tentando dar banho em Elvis, ele sacudia o seu pelo, jogando água para todo lado, era possível ver as gotas de espuma voando e minha mãe ria, toda molhada e com uma calça caqui e uma camisa larga, parecia mais com a mãe que eu me lembrava, rindo. Não que ela não risse mais, é só que no hospital ela estava tão preocupada comigo que estava toda séria.
Olha, de quem vocês acham que eu herdei a minha lezera, sarcasmo, ironia e bom-humor? A minha mãe é assim mesmo e eu juro que eu acho que o meu pai foi o bozo. Haha mentira, ele era um fuzileiro naval e mamãe teve uma noite de sexo casual com ele e eu nasci, que belo exemplo eu tenho, não acham?
- ? Vem, tem mais pra ver. – estendeu a mão para mim e me levou para fora do escritório. Ela ignorou a porta ao lado do escritório. – É só o quarto de hóspedes, esse aqui é o seu quarto. – abriu uma porta que estava bem na nossa frente.
Oh meu Deus! Eu tenho o quarto mais legal do mundo! Eu juro, eu tenho certeza que é realmente aqui onde a mágica acontece!
Tudo bem, eu exagerei, mas o meu quarto tem um monte de coisas que pelo menos, eu acho legal. Claro né, o quarto é de quem? De alguma novela mexicana comprada pelo SBT? Claro que não. É MEU! Sem falar que o SBT onde e não quem que nem eu. Tudo bem, eu não sou exatamente a pessoa que mais fala corretamente nesse mundo grande. Haha, eu pareci a minha professora de matemática do primeiro ano agora. Fiquei com vontade de rir que nem uma jaguatirica com essa! E as jaguatiricas lá riem? Tô cansada das hienas, sabe? Eu não gosto de falar de um único assunto e nem de ser clichê. O meu cabelo cheira bem. Eu uso xampu de lírios. Estou usando um sutiã vermelho com bolinhas brancas. Bob Dylan tem olhos azuis lindos, Bruce Springsteen é um gatinho com uma voz rouca muito sexy, que adora camisas quadriculadas, ele é o The Boss e eu não sei como eu sei essas coisas. Lálálá.
Eu dei alguns passos, entrando no quarto lentamente. As paredes brancas estavam cheias de fotos, muitas, mas muitas fotos. Ao redor do quarto tinham uns três quadros cheios de fotos minhas com todas as pessoas que eu conheço, ou conhecia antes, nem sei. Fotos, fotos, fotos, eu realmente uso muito essa palavra, não?
Em um canto do quarto tinha uma espécie de cabide, tipo com DUAS GUITARRAS e um violão pendurados. Eu sei tocar! Ou sabia, sei lá. Acho que eu ainda devo lembrar de como faz. Para tocar, eu quero dizer, porque eu ainda sei falar inglês... Preciso parar de mudar de assunto, depois eu descubro como eu faço essas coisas ninjas, ou se não faço, enfim.
Eu me aproximei da cama, ela estava coberta com um edredom verde. Aai, eu amo verde. Um violão azul estava jogado em cima dela, era uma cama de casal que parecia ser simplesmente muito macia. Em cima dela, tinha um dos quadros de fotos e eu olhei para ele distraidamente. Todas as fotos eram divertidas, vi de relance uma foto minha abraçando entre risos, finalmente uma foto minha com ele.
No outro lado do quarto em uma mesa, havia um notebook (Notebook! Adoooro!), um teclado estava armado mais ao lado. Uau, até piano eu aprendi a tocar? Ok, teclado. Ou piano elétrico?
Em cima da mesa haviam mais papéis, palhetas e coisinhas soltas, como brincos esquecidos, brilhos-labiais e pulseiras jogadas. Em cima da cadeira que ficava na frente da mesa, estavam jogadas várias roupas viradas do avesso, típico de mim deixar as coisas bagunçadas assim.
Ao lado da cama de casal, havia um criado-mudo, com uma luminária, algumas libras, chicletes, alguns cosméticos, mais palhetas (nossa, pra quê tantas?), uma câmera hp, profissional (*------*) e uma carteira de cigarros (?), junto com uma carteira de homem (?), além de um caderno vermelho, bem surrado, cheio de desenhinhos engraçados na capa e uma caixinha de música. O caderno realmente chamou a minha atenção. Na capa tinha o desenho grande de um rato com uma guitarra na mão. Um anão de jardim, um Mickey com uma gravata borboleta e um Picachu usando uma roupa social e fazendo cara de eu sou o foda. Eu ri.
Mas o que é isso? Eu comecei a fumar e a usar carteiras masculinas? Tá, eu fumava um pouquinho, mas só roubava cigarro dos outros, eu nunca comprava os meus próprios... Eu tinha prometido para a minha mãe que nunca ia ser uma fumante possessiva. E quanto a carteira... eu devo ter virado uma batedora de carteiras, sabe? Só assim eu ia ter dinheiro para tantas guitarras e coisas caras e legais do gênero.
Um par de saltos estava jogado bem no meio do quarto. Eu não consegui não sorrir. Saltos vermelhos. Eu sempre tive uma coisa com saltos vermelhos, eles nunca são demais e são multifuncionais, combinam com tudo, juro. Tá, mais ou menos, não dá pra usar sempre, mas ah, depois eu explico a minha teoria de saltos altos com cores vibrantes.
Fora a carteira e os cigarros, o quarto era perfeito! Eu reparei que tinham duas portas no quarto, e que eu não tenho armário... Hum, que estranho.
Eu abri a primeira porta lentamente, super curiosa e eu preciso dizer que: OH MEU DEUS! EU TENHO UM CLOSET! E ele é totalmente mega fabuloso!
Logo à minha frente havia umas cinco prateleiras simplesmente, cheias de sapatos. E em cada lado eram armários, cara, as portas deles eram de espelho, que coisa mais do que fabulosa! Tinha mais algumas fotos coladas em uma das portas, cara, eu amo fotos. E já deu para notar que eu tirei muitas nesses últimos anos em Londres, porque eu definitivamente não tinha tantas delas assim em 2004.
E eu também tenho muito mais roupas! Eu abri um dos quatro armários e me deparei com um milhão de calças jeans dobradas em prateleiras! Praticamente uma coleção! Paraíso! Paraíso! Já amei só pelas calças! Eu fui praticamente saltitando até o banheiro.
Porque só podia ser um banheiro, se não fosse, eu ia ficar com uma cara de tacho bem legal. Tom tinha sentado na minha cama e dedilhava alguma coisa no violão, ele olhou para mim e riu, enquanto eu rodopiava no meio do quarto, quase tropeçando nos saltos. Paraíso! Eu amei demais o meu quarto! Ué, cadê a ?
Eu parei a minha dança estranha por um momento, olhando para os lados. Ela não estava mais lá. Eu não pude evitar olhar para Tom, admirada. Ele tocava muito bem. Claro, duh! Ele é famoso por estar em uma banda, duplamente duh!
Eu fui até a outra porta e a abri. Era o meu banheiro. Eu disse que era um banheiro! Eu tenho um banheiro só para mim, uhul!
Uma caixa enorme de maquiagem estava aberta e uns trilhões de cosméticos estavam em volta da pia. O banheiro era todo branco, a pia ficava em uma bancada, com um espelho na frente, um vaso sanitário (obviamente), as toalhas e o tapete do chão eram roxas combinando e tinha UMA BANHEIRA! Eu dei um gritinho de felicidade quando a olhei e entrei na banheira vazia em um pulo, ela era maravilhosamente enorme!
- O que aconteceu!? – Tom entrou praticamente correndo no banheiro. Ele soltou o ar aliviado, ao me ver sorridente dentro da banheira. Eu me senti uma criança na casinha na árvore agora. Tom era o pai que ia ver o tempo todo se o filho tinha caído de lá. Essa foi boa, haha! – O que você tá fazendo dentro da banheira, ? – Ele perguntou com ar de riso. Ele tá me achando boba e ainda me chamou de . É a primeira vez que qualquer um deles não me chama de !
- Eu tenho uma banheira, Tommy! Por que você não me contou isso antes? – Eu fiz biquinho, enquanto cheirava uns sais de banho coloridos, que tinham por ali por perto da minha querida banheira. Tom sorriu bobo ao ouvir o jeito que o chamei e começou a rir como quem acha bonitinho quando eu acabei de falar. Oh, eu devo ser realmente muito fofa.
- Eu não achei que essa fosse uma informação importante das nossas lembranças ou da sua vida. – Tom falou de um jeito importante e sério, me fazendo rir.
- Ah, entra aqui comigo, vai!
- O quê?
- Entra!
- Como assim “entra”? E eu to segurando o violão. – Nossa, eu nem tinha visto o violão azul na mão dele.
- Por favooor! – Eu fiz a minha melhor cara de cachorro pidão. Como se violões não pudessem ficar um pouco no chão, olha! – Eu quero saber quantas pessoas cabem aqui dentro! – Eu fiz cara de pidona o olhando, esperando a resposta. Mas por que mesmo que eu fui falar isso? Agora o Tom está me olhando com o sorriso mais safado do mundo inteiro, mas pelo menos ele entrou na banheira.
Tom me olhou com uma cara muito engraçada, se segurando para não rir e se ajeitando do meu lado. Nós dois cabíamos perfeitamente, ele ainda estava segurando o violão e ainda sobrava espaço. Ele se endireitou mais um pouco ao meu lado e começou a tocar uma musiquinha toda alegre.
Eu comecei a rir do nada. Como eu sou estranha! Eu fiz o meu amigo entrar comigo em uma banheira vazia, nós dois estamos com roupas normais (lê-se: de frio) e ele está com um violão! O meu violão! Muito surreal. Não que eu quisesse estar sem roupas em uma banheira cheia de água e esses sais de banho legais com o Tom, eu sinto no momento que ele é meu irmão, mas vocês me entenderam, certo? Entenderam que eu sou bem esquisitinha né? Whatever.
Eu comecei a ouvir vozes vindas do meu quarto, Tom estava rindo junto comigo e tinha parado de tocar. Eu tirei um lado do meu tênis e o joguei na direção da porta do banheiro no exato momento em que , e entraram. Não sei por que eu fiz isso, meus pés estavam quentes, nem sei. Acho que eu só quis me livrar dos sapatos mesmo.
- Que isso? Quer me matar? – perguntou risonho, ele era o que estava mais na frente, os outros dois me olharam, me achando estranha. Normal. Eu olhei para Tom e ele começou a rir mais ainda.
- Por que vocês dois estão dentro da banheira e rindo? – perguntou, fazendo um sorriso estranho.
- Eu quero ver quantas pessoas cabem, entrem aqui dentro! – Tom voltou a rir e colocou o violão para fora da banheira, me puxando e me abraçando apertado.
- Você não sabe quanto você faz falta em cinco dias, pequena!
- Nossa! Como você me ama Tommy! – Eu falei fazendo uma voz convencida e comecei a rir, em seguida retribuí o abraço de Tom, feliz. – Entrem, entrem! – Eu exclamei, sendo puxada por Tom para o canto da banheira, fazendo mais espaço. Minhas bochechas já doíam de tanto rir a essa altura. Nem ri muito. Mentira, eu ri que só hoje, sim.
- AE! – deu uns pulinhos estranhos meio que dançando e entrou na banheira, em seguida também me abraçando. Tom ainda tinha os braços em volta dos meus ombros e agora me dava um abraço apertado, eu juro que ele vai quebrar as minhas costelas assim!
- Mais gente! Vamo lá! Eu quero ver quantos cabem! – Eu gritei sem fôlego, devido à força do abraço de . deu de ombros e entrou na banheira também. Se juntando a , abraçando a mim e ele, falando várias coisas, e eu acho que ele estava falando em francês, não entendi nadinha. Tom, que já estava vermelho de tanto rir, riu mais ainda, não sei como, e abraçou a nós três ao mesmo tempo. Que lindo, um abraço grupal, cheeio de amor. Eu já estava sufocada, meu Deus, como esses homens cheiram bem! – Já tem quatro! Vem, ! Vamos ser cinco! – Só agora que eu reparei nas risadas escandalosas que dava, ele fez um sinal com a mão e saiu correndo do banheiro, eu acho que ele estava chamando por alguém, aos berros, entre os risos. Pessoas rindo e gritando ao mesmo tempo são sempre tão engraçadas, se bem que isso é mais coisa de bêbado. Será que o bebeu junto com a na hora do almoço?
Eu estava oficialmente, sem fôlego, sem ar, sufocando, tentando me soltar para respirar, ter três caras te abraçando ao mesmo tempo dentro de uma banheira pode ser uma experiência muito claustrofóbica, fato.
– Eu... não... consigo... respirar...
- Ah, eu não! Tô preso na ! Sai de cima, seu ogro! – gritou com , quase fiquei surda com essa. Ogro! KKK ogro!
saiu de cima e os outros dois me soltaram, eu devia estar muito vermelha e pelo que acabei de ver no espelho, estou. A próxima coisa da qual eu me dei conta foi que espremia nós quatro, tentando entrar na banheira também, em meio de muitos risos. Mais risos que antes. Dessa vez eu juro que eu estou totalmente soterrada.
Se você me perguntar como quatro mongolões e uma mongol couberam dentro de uma banheira que foi feita para somente uma pessoa, eu diria: não faço a menor idéia. Eu realmente não sei como nós conseguimos ficar amontoados uns em cima dos outros.
Porque o literalmente pulou em cima da gente. Pelo menos não fiquei totalmente soterrada por ele. e foram os que mais sofreram.
Cara, que calor, que calor, que caloor! Eu estava com duas camisas, um casaco, uma calça jeans, meias e um all star no pé direito. Metida no meio daquela cagada. As minhas amigas podiam muito bem me ajudar, mas nããão! Elas estavam ocupadas demais assistindo a cagada, tirando fotos, filmando, chamando a gente de loucos e rindo.
- ! Me ajuda! Socorro, ! , me tira daqui! – Como elas só riram mais ainda, eu com muito, mas muito esforço, consegui me soltar dos sei lá, oito braços que me rodeavam. Parecia que estava sendo atacada por um polvo, sériozão.
Me arrastei para fora da banheira, caindo pesadamente no chão. Ai, minhas costas. Ai, tá doeeendo! Eu gemi de dor, amaldiçoando aquele chão feio por ser tão duro. Tudo bem que é um chão branquinho, limpo, brilhante e bonito, mas ele é duro e as minhas costas doem!
Eu acho que estava com uma expressão de dor muito grande e devo ter gemido muito alto, porque saiu de um jeito incrivelmente rápido de baixo de , Tom e , e pulou da banheira para perto de mim. Tudo bem, não deve ter sido um gemido muito alto, foi mais um resmungo, porque só o ouviu.
Mas quando os outros retardados, que ainda estavam se esmagando na banheira, o viram do meu lado, pularam para junto de nós e logo vieram as meninas.
Eu parei de fazer caretas na hora e me sentei ereta no chão rapidamente, odeio ser o centro das atenções desse jeito. Não sou de vidro, mas do jeito que me olha parece que eu sou a coisa mais quebrável e frágil que tudo. Quebrável não é a mesma coisa que frágil? Não sei, releve isso.
- Pela rainha, parem de me olhar assim. A dor já passou! – Eu revirei os olhos e sorri de lado para . Tudo bem, ainda dói, mas eu não ia admitir. Eu nunca mais me jogo para fora de uma banheira cheia de caras ricos, famosos e gostosões, juro.
Meu Deus, que tipo de retardada eu sou? Eu acabei de sair do meio dos caras gostosões só porque estava sem conseguir respirar? Era para eu ter ficado lá! Tem jeito melhor de morrer, senão ficando sem fôlego com caras hots? Sou uma grande idiota.
Cap. 7
- Isso foi muito legal! - Fecho a porta de casa animada. está ao meu lado e todos - menos ela, obviamente - acabaram de ir embora. - São todos realmente muito divertidos - Estou sorrindo de orelha a orelha. Nós oito passamos a tarde vendo filmes, comendo pipoca e falando besteira. Estou começando a entender as conversas. Antes elas pareciam codificadas, porque são movidas por piadas, ironias e brincadeiras. Realmente sinto como se todos fossem meus amigos, sei que são. Só falta eu me lembrar disso.
Vou até a sala e me sento no sofá branco, ele é bem macio. Olho curiosa para o local em que o casaco de homem antes estava largado, e está vazio agora. se joga ao meu lado, sorrindo.
- Então, o que a gente faz sextas nesse horário?
- Quando não tem festas? - Os olhos bonitos de brilham. - Dança!
- A gente dança? - Eu pergunto lentamente, olhando cuidadosamente para . Como assim?
- É! A gente faz aula de dança. Tem um estúdio que fica aqui perto, que tem aulas realmente fabulosas.
- Dançar. - Ecoo tentando parecer entusiasmada. - Claro. Então... Eu me exercito muito?
- Pequena, você é viciada! Sempre corre, vai pra academia ou pra aula de dança.
Correr? Malhar? E dançar pelo exercício?
Eu nunca me exercito. Eu sempre fui uma sedentária. Só nadava, mas era de vez em quando e apesar de eu ser boa, nunca nadei o suficiente para ficar em forma. Sempre amei dançar, mas só depois de algumas doses de álcool e em boates, clubes, baladas, festas ou coisas do gênero.
- Mas não se preocupe, vamos fazer alguma coisa ótima e calma hoje. - Diz , tranquilizando-me. - Uma massagem, ou uma bela aula de alongamento. Pegue suas roupas de malhação e vamos! - Eu estava esperando que nós ficássemos em casa, comendo brigadeiro e vendo uma das trilhões de reprises de Charmed ou Friends. Mas se bem que ir aos lugares que eu frequentava pode ajudar a minha memória, não é uma má idéia.
- Certo! - Hesito. - Na verdade isso é meio que um pouco embaraçoso... mas eu não sei onde ficam as roupas exatamente, são tantos armários e...
parece absolutamente chocada.
- Você não sabe onde exatamente estão as suas roupas? - Lágrimas brotam subitamente em seus olhos, ela abana a mão diante do rosto. - Desculpe. - E engole um seco. - Mas acabo de perceber como isso deve ser um pesadelo para você. - Ela respira fundo, recompondo-se, e me abraça. - Eu sou uma boba, nós não precisamos ir para o estúdio de dança. Se você quiser nós duas podemos ficar aqui comendo brigadeiro e vendo comédias românticas enquanto eu te conto tudo da sua vida! - Nossa. A é realmente completamente bipolar.
- Não... , calma, tá tudo bem, mesmo. - Não está, mas eu não preciso preocupar a única amiga de quem tenho lembrança. - Vamos, agora eu fiquei com vontade de ver como esse estúdio de dança é. Me conte dele. - me solta e seus olhos brilham me olhando, ela sempre adorou dança. se levanta e se dirige ao meu quarto, eu vou logo atrás dela.
- Ah, é muito legal! Tem até uma academia lá e tudo!
entra no meu quarto e vai direito para o closet. Ela abre todas as portas dos armários e várias gavetas, me permitindo ver superficialmente todas as minhas roupas.
- Olhe, - pega um vestido azul-escuro, um pouco curto, com alças fininhas e um babado minúsculo na bainha - esse foi o vestido que você usou no seu primeiro encontro com o ... Não lembra? - Eu mordo os lábios, olhando com esforço para o vestido.
- Na verdade, não.
- E essa sua calça jeans? Você a usou no seu primeiro dia de trabalho como fotógrafa "chefe". - mostrou uma calça jeans, linda, clara, com bolsos marcando e que parecia ser bem justa, fazendo aspas com a mão livre. Eu balanço a cabeça negativamente em resposta. - Hm, experimente os sapatos, você tem de se lembrar dos seus sapatos. - Ela vai até as minhas "estantes" de sapatos rapidamente.
- Isso é inacreditável. - Viro-me para . - Você sabe que eu nem sei andar de salto alto, pra que eu tenho tantos? - Só para constar, a minha teoria de saltos altos de cores fortes não se aplica a mim, e eu não sei como eu não estranhei aquele salto vermelho no meio do quarto, pensei que alguma das meninas tinha esquecido aqui.
- Sabe sim. - fica perplexa. - Claro que sabe, desde 2004.
- Não. - balanço a cabeça sem acreditar em como pôde esquecer como eu ando ridícula de salto. - Você sabe que eu nunca consegui andar de salto . Caio, torço o tornozelo, pareço idiota...
- Pequena, - os olhos de estão arregalados – você vive de salto, sempre usa salto, rasteirinhas ou tênis. Você estava usando esse quando nós saímos à noite juntas da última vez. - Ela pega um par de escarpins amarelos com salto agulha de dez centímetros. Do tipo que eu acho lindo de morrer, mas nem mesmo olhava nas lojas. Sapatos amarelos, é mesmo?
As solas estão arranhadas. A etiqueta de dentro saiu. Alguém andou usando esses sapatos.
Eu?
- Calce! - Ordena .
Lentamente eu enfio os sapatos nos meus pés descalços. Eu já comentei que eu praticamente só consigo andar descalça em casa, tirando quando o chão está gelado? Quase imediatamente eu tombo e me agarro a .
- , você consegue andar com eles. - Diz com firmeza. - Já vi você fazendo isso mais de um milhão de vezes.
- Não consigo. - Faço a menção de tirá-los, mas agarra o meu braço.
- Não! Não desista. Isso está dentro de você, sei que está! Você precisa... Destravar!
Se for assim, então eu também eu ainda lembro como se toca violão, piano e guitarra. Ainda me pergunto como eu aprendi a fazer tantas coisas ninjas em cinco anos. Experiências científicas, só pode.
Tento dar outro passo, mas meu tornozelo se dobra como se fosse massa de modelar.
- Não adianta. - Solto o ar, frustrada. - Não fui feita para isso.
- Foi sim. Tente de novo! Encontre o ponto! Está tudo na postura! - parece estar me treinando para a Olimpíada. Já contei que era ginasta e eu nadadora? - Você consegue, .
Cambaleio até o outro lado do cômodo e me agarro à porta.
- Nunca vou conseguir. - Digo desanimando.
- Claro que vai. Só não pense nisso. Distraia-se. Já sei! Vamos cantar uma música! Garçom, aqui mesa de bar...
- Garçoom, aqui mesa de baaar, você já cansou de escutaar centenas de casos de amoor! - Tentando manter a mente concentrada na música e sem rir, dou um passo adiante. Essa música é ridícula. Depois outro. Mas só está querendo me ajudar. E depois outro.
Ah, meu Deus. Estou conseguindo. Estou andando de salto alto!
- Está vendo? - Grasna em triunfo. - Eu disse! Você é uma garota do tipo salto alto.
De garota de tênis e havaiana, para garota do tipo salto alto. Estou me sentindo. Chego ao outro lado do cômodo, giro cheia de confiança e volto com um sorriso empolgado. Estou me sentindo uma modelo!
- Eu consigo! É fácil!
- Isso! - levanta a mão e faz hi-five comigo. Abre uma gaveta, pega umas roupas de ginástica e as joga em uma sacola enorme. Ela começa a sair do closet, fechando todas as portas e gavetas. - Ande, vamos indo.
Vamos à academia no meu carro. Ele é realmente adorável, amarelão. Muito perfeito. O carro tem cheiro de couro, menta, perfume feminino e cigarros, é uma delicia. dirige, eu ligo o radio distraída e um cd começa a tocar. Cássia Eller. Meu olhos brilham. Acho que amarelo virou a minha cor favorita.
- ... Se esse aqui o meu carro, onde eu sofri o acidente?
- Você bateu com o meu carro. - Senti um frio subir a minha espinha. Eu tinha destruído o carro de . - Não faz essa cara, , foi culpa minha, o carro era semi-automático, você nunca tinha dirigido no meio termo, um cara avançou o sinal e você bateu. Não se preocupe com nada. Eu já ia trocar de carro mesmo. - deu de ombros, atenta ao trânsito. Eu olhei um dos machucados, em minha mão. Tenho certeza que não foi culpa dela e deve ter ficado se matizando todos esses dias com esse pensamento.
- Escuta, , eu tenho certeza que não foi sua culpa...
- Você queria pegar um táxi, eu que te forcei a ir no meu carro. Era só porque eu queria pegar carona com um carinha gato. Você não lembra. - disse ríspida, dobrando uma rua, sem me olhar. - Quer que eu te conte algumas coisas?
- Sim, me fale do meu trabalho. - Eu disse com um suspiro.
- Ah, não tem nada de mais. Você só tem que chegar lá e tirar fotos das pessoas. Quando você não vai fazer photoshots em alguma locação especial, você vai para o prédio da Heat. Lá tem ajudantes para te ajudar com as coisas, você só tem que ajudar os fotografados com as poses e fazer a sua mágica com a câmera e a luz. - Eu sorri. Eu definitivamente posso fazer isso.
- E você? O seu cargo parece importante. - riu.
- Na verdade, é. Mas é bem simples. - dá um sorriso cativante para o motorista de um caminhão. - Por favor, me deixe passar, Sr. Motorista... Obrigada! - Ela passa para outra pista e manda um beijo para ele. - Eu só tenho que ajeitar o design da revista, marcar e arrumar os photoshots e escolher as melhores fotos que são as que serão usadas. É basicamente isso. - olha para mim sorrindo. E volta a sua atenção para a pista desviando de alguns trabalhadores e aumenta o volume do rádio, cantando junto com Cássia.
- Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre? Sem saber... Que o pra sempre, sempre acaaba! - Cantei junto com e em seguida nós duas rimos. Eu fiquei arrasada quando a Cássia Eller morreu, quando foram os Mamonas então... chorei e fiquei de luto por uma semana.
- E quando eu vou poder voltar para o trabalho?
- Não se preocupe. - acelera de novo e entra em um estacionamento minúsculo, estacionando o meu carrinho ao lado de um Porsche. - Charlie, o editor-chefe, disse que você tem até o mês que vem de descanso, pronto! - desliga o motor e o rádio, descendo do carro em seguida. Ainda estamos no começo de setembro, isso vai ser legal. entra numa elegante área de recepção mobiliada com assentos de couro marrom e uma fonte cheia de pedrinhas.
- Olá! - sorri para a recepcionista.
- Hey, . - O rosto sorridente da recepcionista despenca ao me ver. - ,, querida! Coitadinha! Soubemos do acidente. Você está bem?
- Sim, obrigada. - Eu sorrio, tentando passar confiança.
- nos contou do pequeno esquecimento. Meu nome é Dolores. - Eu me inclino e dou um beijo na bochecha da garota, ela deve ser um pouco mais nova que eu. Em seguida, jogo um olhar mortal para . Ela finge que não é com ela, humpf, odeio essas coisas.
- Isso está trazendo alguma lembrança de volta, pequena? - pergunta baixinho em um tom maternal, estou começando a me acostumar com esse negócio de pequena, tenho que encarar a realidade, eu realmente sou pequena, a menor dos meus amigos, e é tão carinhoso, que eu estou começando a gostar. Balanço a cabeça negativamente e sorri meio triste. Dolores nos olha também triste, acabei de reparar que todos na recepção também me olham. Estou me sentindo um membro do Show de Horrores da Amnésia.
- Venha! - exclama, me puxando pelo braço com firmeza. - Vamos nos trocar, talvez você se lembre de alguma coisa no vestiário. - A última parte ela falou para somente eu ouvir, assenti discretamente, sempre foi uma ótima amiga.
Os vestiários são os mais lindos que eu já vi, de madeira lisa com chuveiros em mosaico e música suave nos alto-falantes. Desapareço num reservado e visto um short curto e justo, com um top e uma camisa que fica larga e deixa os meus ombros à mostra.
Eu não posso sair assim, percebo horrorizada. Minha bunda vai parecer gigantesca com esse short apertado. Simplesmente não posso usar esse negócio.
Mas não tenho nada além disso. Com relutância, termino de calçar as sapatilhas e depois me esgueiro para fora do cubículo com as mãos sobre os olhos. Isso pode ser realmente assustador, realmente. Conto até sete e me obrigo a dar uma espiada.
Cap.8
Na verdade... Não estou nada mal. Tiro as mãos completamente e me olho. Pareço esguia, magra, até bonita e tão... Diferente. Experimento flexionar o braço, e bíceps que nunca vi saltam. Olho, atônita. Será que estou tomando bomba? Oh meu Deus! Será que mamãe sabe?
- E então! – vem até mim, vestindo uma legging e um top curto. – Por aqui... – Ela me leva por um corredor até uma sala de dança. falava animada sobre várias coisas da aula e pessoas que as faziam conosco, não estou entendendo nada. A sala é cheia de espelhos e barras, onde fileiras de garotas mais novas que nós e da nossa idade estão posicionadas em colchonetes, se alongando e sorrindo. Quem fica tão feliz assim fazendo exercícios? Já deu para perceber que esse povo é doido.
- -querida, você voltou! – A professora era linda, bem magra, tinha a pele negra e o cabelo todo cacheadinho perfeito, usava um collant preto, uma meia calça roxa, com sapatilhas e uma daquelas saias transparentes de ballet. Ela veio na minha direção e me abraçou com carinho. – Sou Hope, a sua professora de dança. – Todas pararam de se alongar e me olharam com sorrisos simpáticos. – Você não disse que ela ia voltar tão cedo, ! – sorriu amarelo em resposta. – Vamos, peguem colchões e começaremos aos poucos.
- Olá. – Eu dou um aceno tímido, sorrindo torto para as pessoas que ainda sorriam simpáticas para mim, algumas responderam animadas e outras só sorriram mais. De novo aquela sensação de ajudante de mágico.
- Por que me chamam de -querida? – Eu pergunto, cochichando para , ela ri pelo nariz.
- Depois eu te conto, nada em especial. – Ela sussurra de volta e pega um colchonete, se posicionando. Por que eu estou com a impressão de que é uma coisa tão pouco importante que nunca vou saber? Isso me dá uma sensação horrível de que eu sempre sou a última a saber de tudo e, principalmente, quando se trata da minha vida. E o mais irritante é que isso é inevitável e super óbvio quando você sofre um acidente de carro e perde um bom pedaço da memória. Eu acho que eu odeio a minha vida, quase fato.
Enquanto as outras levantam os braços, eu pego nervosamente um colchonete e me sento. Fazer ginástica nunca foi exatamente o meu ponto forte. Acho que só vou acompanhar do melhor jeito que puder. Estico as pernas diante do corpo e tento alcançar os dedos dos pés, se bem que de jeito nenhum eu vá...
Diabo. Consigo tocar os dedos dos pés. Na verdade, consigo encostar a cabeça nos joelhos. O que aconteceu comigo?
Incrédula, acompanho a manobra seguinte... E consigo fazer também! Meu corpo está se movendo para cada postura como se pudesse se lembrar de tudo perfeitamente, mesmo que eu não consiga.
- Muito bem, moças, vamos fazer alguns passos básicos para pegar o ritmo. – Hope se levantou do seu colchonete batendo palmas, com um controle minúsculo ela liga a música, que misteriosamente não sai de lugar nenhum, mas simplesmente toca no ambiente inteiro. Uau.
Se posicionando na frente da turma, Hope mexe os ombros no ritmo da música, estica os braços e se vira balançando o quadril. Não sei explicar, mas ela faz sinal para nós a imitarmos na virada da música. Me ferrei. Olhando nervosa para os lados, vejo que todas já chutaram os colchonetes e esperam a hora certa atentas. Faço o mesmo discretamente. Eu nunca fui boa em pegar coreografias, sempre fico parecendo uma sem-ritmo até conseguir pegar o passo, depois que eu pego faço até bonito, mas quando é muito difícil, ui. Só rebolar não vai resolver o problema nesse momento.
A virada chega, e eu vejo o meu próprio reflexo no espelho, a mulher tem um ar confiante, não pareço estar nervosa. Mexo os ombros com ritmo, completamente sincronizada com a melodia. Estico os braços e balanço o quadril junto com a batida marcante da música. Olho para com um sorriso radiante. Desde quando o meu corpo obedece prontamente meus comandos? Rio que nem uma idiota, enquanto Hope desliga a música e começa a passar os próximos passos, somente com contagem, avisando que depois ela colocaria a música novamente, e todas temos que fazer tudo de uma vez.
Depois de muitas músicas animadas, uma música mais lenta começa. Meu peito sobe e desce enquanto minha respiração diminui o ritmo depois das coreografias rápidas. Na frente da sala, Hope começa a fazer passos de ballet. Isso eu tenho certeza de que não consigo fazer. A professora começa a fazer um daqueles giros de bailarina. Eu olho em volta, todas soltam risinhos e resmungam. me olha e revira os olhos para o meu olhar nervoso. Nunca gostei de ballet clássico, tive aulas aos seis anos, reclamei tanto que minha mãe ficou com dó e me tirou da aula, a professora era uma russa psicótica, queria que fôssemos perfeitas nos passos mesmo sendo um bando de garotinhas que só queriam brincar de Barbie em paz, era uma louca de pedra.
- Certo, certo. Vamos somente alongar mais uma vez, para desaquecer e terminar a aula. – Todas se sentaram no chão imitando Hope, novamente todas começamos a fazer os mesmos alongamentos que os do começo da aula, mas na ordem contrária, primeiro os mais difíceis.
Depois no vestiário, estou extasiada. Sento-me diante do espelho, secando o cabelo, olhando enquanto a confusão ondulada assume o castanho misterioso com os cachos definidos.
- Não consigo entender. – Falei à . – Você sabe que eu sempre fui péssima em esses trecos de exercícios.
- Nem eu entendi no início, – está espalhando montes de hidratante no corpo todo. – Você foi quem veio aqui na primeira vez, disse que estava cansada de ser sedentária. Você tem um talento natural pra essas coisas e ficou viciada nas aulas, me viciou também. – sorriu para mim como se fosse em agradecimento.
Desligo o secador, passo a mão pelo cabelo seco e termino de me vestir.
- , como foi que eu, sei lá, comecei a me envolver com os garotos? – Pergunto casualmente, mas isso vem me martelando, eu não falaria com eles espontaneamente, eles são muito bonitos e espalhafatosos, ia me sentir intimidada, às vezes consigo ser a pessoa mais envergonhada que eu mesma conheço.
- Você tava trabalhando no dia em que eles foram tirar fotos e fazer uma entrevista na Heat, eu não sei direito porque a gente tava brigada – se vestia e falava animada. – Mas tinha uma estagiária que era fã deles lá no RH e ficou séculos falando de como você e a Margot eram sortudas de tirar fotos deles, pelo que eu sei, foi falar com você, mas pegou o teu telefone com a , já no elevador quando eles estavam indo embora.
- E com o ? Sei lá, foi do nada?
- Hm, não. Já um tempo depois de você e o terminarem, ele já tava todo cheio de olhares pra você, mas só rolou uns dois anos depois, ele sempre tinha ciúmes de qualquer cara que saísse com você, ele pirou quando um cara aí disse que a fotógrafa dele era gostosa, o ficou surtando dizendo que o cara era um sem-vergonha. Foi bem engraçado. Vocês ficaram umas cinco vezes com longos intervalos, depois a coisa ficou séria e a próxima coisa que a gente se deu conta foi que você tinha ido morar com ele. O não era exatamente o melhor namorado, mas tinha o jeito dele de compensar e por mais que você não demonstrasse, tava toda boba de amor por ele. – falava rapidamente, como se não pudesse parar.
- Mas porque foi que a gente ter... – Paro de repente, distraída com meu reflexo no espelho. Sem notar o que estive fazendo, com uma escova e um elástico, prendi meu cabelo em um rabo de cabelo alto perfeito, e ainda ajeitei minha franja para o lado.
Como fiz isso, porra?
- O que foi? – pergunta nervosa, notando minha expressão.
- Acabei de fazer um rabo de cavalo perfeito. – Faço um gesto para o espelho. – Olha, isso é bizarro, eu nunca fiz isso tão rápido na vida. Sempre demorei anos para ajeitar o cabelo.
- Claro que fez – parece perplexa. – Você prende o cabelo assim o tempo todo, tipo, todo dia.
- Todo dia? – Cada vez eu fico mais perplexa com as coisas da minha vida, tipo, eu sei andar de salto, prender o cabelo direito, faço exercícios físicos regularmente, tenho namorados realmente decentes... O que mais eu sei fazer? Desarmar uma bomba? Muito surreal, muito.
Continua...
N/A: Oi queridaaas :D
Então, por algum motivo estranho o meu N/A da att passada não apareceu, então ou por ele aqui, e como ela já é bem grande, nem vou falar nada a mais rs.
N/A-antiga: Feliz páscoa! Como foi a páscoa de vocês? A minha páscoa foi legalzinha, minha mãe tá aqui e a gente alugou 5 filmes *---*.
Vamos ver... "Fama" é bem legal, mas eu tava esperando mais, "A Princesa e o Sapo" é super divertido, "9 - A Salvação" é bem mais ou menos, meus pais dormiram kk, "Coco Antes de Chanel" é bom, e finalmente o filme que eu mais queria ver "Número 23" é incrível, muito bom, cheio de reviravoltas, recomendo muito, o Jim Carrey tá incrível eeee pra melhorar tudo o gatão Logan Lerman é o filho dele no filme, ele nem aparece muito, mas arrasa quando aparece e eu amo ele :D.
Ok, chega né? rs
Beijo queridas, obrigada pelos comentários. :**
Comentários:
lana: Brigada *---*. Bom, a história só tem um mistério e já me disseram que ele é bem óbvio, então, brigada mesmo. E você não gosta do sol? Eu gosto 8)
Cams: Sempre que você comentar, você vai aparecer na att, é o meu agradecimento por você ler e se dar ao trabalho de comentar :D. Muitas tem esses pensamentos, mas eu juro que eu escrevi aquilo com as mais puras intenções kkk. AEAEAE olha aqui a att!
lana: Oiie, você aqui de novo *--*. Que bom que eu te fiz rir rs. Porque aí eu não fico me achando tão estranha, acreditas que as vezes eu fico horas rindo das idiotices que eu escrevo aqui? Não se preocupe eu tenho até o cap 12 escrito. :**
Patrícia/Gaby: Obrigada pelos comentários lindos. *----*