Just give it a chance

Just live your life at the last moment
Por: Tats Barreto.
Beta-Reader Dani P.


Prólogo.

Bom dia! São seis horas e trinta e dois minutos. Londres desperta ao som da BBC News.”

A voz do locutor da rádio invadiu meus ouvidos, despertando-me imediatamente. Me virei na cama, preguiçosa, apertando minhas cobertas quentinhas contra o meu corpo. Ainda sinto que um dia a preguiça me mata. Se meu despertador fosse um simples relógio, com certeza eu o programaria para despertar só daqui a 5 minutos. Mas ele era um rádio, um rádio escandaloso e chato, que toda manhã, com a mesma voz, tirava-me dos meus sonhos mais profundos.
Com muita má vontade, me levantei, indo direto para o banheiro. Parei em frente ao espelho, abrindo-o e tirando de lá a escova de dentes e a pasta. Coloquei o creme dental sobre a escova e fechei o espelho, colocando a escova na boca e escovando meus dentes ,observando meu reflexo desleixado no espelho. Meus cabelos caíam livremente pelo meu ombro e estavam todos bagunçados; meus olhos, caídos e cansados. Eu estava horrível, literalmente. Depois de escovar os dentes, lavei meu rosto com delicadeza e comecei a despir meu pijama, pronta para tomar um banho. Completamente nua, entrei no box e deixei a água morna cair sobre meus ombros e nuca, logo me colocando inteira debaixo da ducha. Lavei meus cabelos com calma, sentindo o cheiro bom do meu xampu. Percebendo que estava demorando muito, passei rapidamente o condicionador e enxagüei, desliguei o chuveiro e saí depressa do box, torcendo meus cabelos e me enrolando na minha toalha, tremendo de frio.
Fui até meu quarto, batendo o queixo e sentindo os arrepios percorrerem meu corpo. Estava muito frio aquela manhã, mesmo de janelas fechadas eu podia sentir. Abri meu armário, peguei minhas roupas que já ficavam separadas e as vesti com rapidez, quase não suportando o frio. Vesti meu uniforme de trabalho: um suéter branco, calças brancas e sapatos brancos. Faltava meu jaleco, que eu colocava na bolsa e vestia assim que chegava no trabalho. Olhei-me no espelho atrás da porta do guarda-roupa. Não via nada de diferente em mim, todos os dias eu me vestia do mesmo jeito, não havia nada que se avaliar alí. Peguei uma pequena presilhinha brilhante e fiz um coque delicado no meu cabelo. Completei meu visual com delicados brincos de pérolas e com uma maquiagem leve. Visual conferido, fui arrumar minha cama e o banheiro.
Terminei as tarefas, só me restava tomar café. Fui até minha sala-cozinha e comecei a preparar minha refeição matinal. Para não ficar no silêncio, liguei o outro rádio que havia ali. Tocava Wiseman, do James Blunt, e fiquei feliz pois adorava as músicas dele. Fiz as torradas e o capuccino em um segundo, me sentando para apreciar o café da manhã. Olhei para o relógio na parede, que marcava 7:15 da manhã. Me assustei com o horário e quase engoli o resto do meu café. Fui até meu quarto pegar minha bolsa e escovar os dentes de novo. Saí apressada de casa, quase esqueci de desligar o rádio e fechar a porta. Fui passando batom enquanto descia as escadas e um vento frio me queimou o rosto assim que saí na rua.
Andei a passos largos até o metrô, que não ficava muito distante do meu prédio. Entrei na estação e fiquei alguns minutos esperando por um trem que não viesse tão lotado. Quando consegui entrar em um, iria me sentar em um assento, mas dei preferência a uma senhora de cabelos muito grisalhos e fofos como algodão. Ela se sentou, agradecendo e eu sorri, me segurando em um dos apoios do metrô. Só mais sete estações e eu desceria praticamente na porta do meu trabalho. Há anos fazia o mesmo caminho.
Desci, como sempre, na estação de metro de Camdem Town. A saída dela era na esquina do lugar aonde eu trabalhava, que ficava em uma grande avenida. Como sempre, fui andando até meu destino, indo contra o fluxo de pessoas que transitavam por alí. Parei de andar somente quando cheguei na frente de um grande prédio branco, de vidros verdes e vistosos. Entrei pela entrada lateral, de funcionários, saindo direto no refeitório e pátio dos empregados. Logo que pisei ali, sorrindo,, minha companheira de trabalho e amiga de anos veio me cumprimentar com um abraço sincero.

-Bom dia!-ela me desejou-Já tomou café?

-Bom dia! Já tomei café sim, hoje não vou te fazer companhia!-respondi a ela, sorrindo e me dirigindo até o vestiário dos funcionários. Deixei minha bolsa no armário,e minha amiga,que ainda estava com a dela, fez o mesmo. Tiramos nossos jalecos e os vestimos, saindo da saleta e voltando ao refeitório. se sentou em uma das mesas do mesmo, aonde havia café e vários pãezinhos para se comer de café da manhã.

-Tem certeza que não quer comer nada, ?

-Não ...Eu acho que já vou subir para a enfermaria, hoje é dia de brincar com as crianças e também tenho alguns adultos para cuidar...-falei, fechando alguns botões do meu jaleco-Depois a gente se vê, amor!-mandei beijinhos para ela que retribuiu e rumei até o elevador, que ficava do outro lado do refeitório. Entrei nele, cumprimentando a todos meus companheiros de trabalho que também estavam ali dentro. Fazia sete anos que eu trabalhava no Instituto Nacional de Combate ao Câncer de Londres. Aquele hospital era a minha casa. Meus pacientes e colegas de profissão eram como a minha família. Meus dias se resumiam a cuidar de todas aquelas pessoas, fossem adultos ou crianças; cada perda, era uma ferida enorme do meu coração; cada vitória, uma alegria incomparável. Eu não era médica, era enfermeira padrão. Ficava ao lado dos guerreiros todos os dias, vendo cada passo que eles davam, fossem eles pra frente ou pra trás, na grande batalha que travavam contra seus inimigos. Sim, essas pessoas pra mim não são doentes; são guerreiros. Nunca estive no meio de pessoas tão corajosas como as que eu cuido. Por isso, não há motivo para que eles sejam chamados de doentes. Nenhum doente luta como eles lutam.

O elevador parou no andar da enfermaria. Era ali que eu ficaria o dia todo, cuidando das emergências ou administrando sessões de quimioterapia.

-Bom dia flor do dia!-, meu super amigo, que também ficaria de plantão aquele dia ali comigo, me cumprimentou com um abraço apertado e um beijo na bochecha. Ele era lindo, um Deus grego, na opinião de muitas (e na minha também). Se eu dissesse que nunca me senti atraída por ele, seria a mais pura mentira, pois é o tipo de homem que nenhuma mulher consegue desgrudar o olho.

-Bom dia chuchu! Tá feliz hoje hein?-não deixei de notar o sorriso enorme que ele trazia estampado na sua face. –Teve uma cantada bem sucedida com a ?

-E quem disse que eu estou interessado na ? Pelo amor de Deus, ! Você sabe qual é a fruta que eu gosto!-ele fez uma voz extremamente afeminada e gestos estranhos.

-Você me assusta, .

-Brincadeira!-ele desmentiu, andando abraçado de lado comigo até um leito-Bem...Pode ter ser sido isso mesmo.

-Vocês se amam!-eu disse. Sempre torci para que o romance dos dois desse certo, mas isso nunca acontecia-Por que não se dão uma chance?

-...Já percebeu que você fala isso todos os dias, meu amor?- falou debochadamente.

-Vou falar até vocês se ajeitarem!

-Então vai ficar falando até os seus dias acabarem, chuchu!-ele me deu um beijo na bochecha e saiu andando até outro leito. Abri as cortinas do leito em que estava parada, encontrando Lucy, uma menininha de apenas oito aninhos de idade que ficava todos os dias na enfermaria, fazendo quimioterapia.

-Como vai você, Lucy?-perguntei carinhosamente a ela.

-Estou bem , e você?-Lucy era a coisinha mais fofa daquele mundo,mesmo de camisola branca e sem nenhum fio de cabelo, seus olhos verdes como duas grandes esmeraldas cintilavam sempre, mesmo que a quimioterapia acabasse com sua vitalidade.

-Melhor impossível, querida! Está sentindo dores hoje?-me sentei ao lado dela na cama, dando minha mão para que ela segurasse.

-Não, eu estou bem! Hoje a moça que colocou a agulha não me machucou tanto!-a menininha me respondeu sorrindo. Retribuí com a maior sinceridade do mundo.

-Na quinta vou levar vocês da ala infantil para assistir o teatro dos palhaços, você vai assistir, não vai?

-Claro que eu vou! Eu adoro os palhaços...E ah, você está muito bonita hoje, !-sorri mais largamente ainda. Era por isso que eu amava cada um dos meus pacientes.

-Obrigada meu amor!-dei um beijinho na mão fraca dela.

-...!-escutei a voz da chamar atrás de mim, um pouco nervosa. Me virei para vê-la, sem soltar a mão de Lucy-Tem uma emergência chegando. Você vai ter que atender!

-Tudo bem...Lucy, o te leva pro seu quarto depois, ok? E confere se tudo saiu certinho!- sorri, acenando para ela e indo direto para a porta de emergência da enfermaria. Assim que parei na frente dela, outros enfermeiros entraram empurrando uma maca, aonde um homem encontrava-se tendo convulsões graves. Os médicos haviam colocado uma máscara de respiração nele, mas a mesma estava se soltando, devido aos movimentos bruscos e involuntários que aconteciam no corpo dele. Conduzi o resgate até uma maca desocupada, mas só depois de muito esforço conseguiram colocá-lo em cima dela. Rapidamente, peguei uma injeção e comecei a tentar aplicar nele, enquanto os outros enfermeiros tentavam segurá-lo. Depois de várias tentativas, consegui, e o efeito começou a surtir. O moço parou de ter as convulsões quase que imediatamente, e ficou com os olhos abertos, girando sem foco. Sinais típicos de uma lesão cerebral, que provavelmente, devia ser causada por um carcinoma no cérebro. Olhei piedosamente para o paciente; dispensei os enfermeiros, e preparei um soro com analgésicos fortes para serem aplicados na veia. Observei os olhos dele fecharem aos poucos, ainda confusos. Ele tinha os olhos espantosamente . Talvez os mais que eu já vi na minha vida. Fiquei perdida por alguns momentos, até que ele fechou os olhos de vez. Dei as costas para o leito dele, mas não pude deixar de olhar para trás de novo. Pode ser besteira, mas eu havia sentido que aquele paciente iria ser especial.

Primeiro Capítulo.

O paciente ainda estava respirando pelo tubo de oxigênio e seus batimentos cardíacos eram monitorados. Já se passava da metade do dia, e ele ainda dormia pesadamente sob os efeitos dos remédios. Tentei me concentrar enquanto cuidava de outros pacientes, mas meu olhar sempre desviava para o leito mais ao fundo da enfermaria; o leito onde ele estava. Não entendia, não sabia porquê, mas precisava que ele acordasse, que ao menos descobrisse seu nome. Os enfermeiros que acompanharam o resgate não haviam perguntado o nome e não sabiam nada sobre ele. Tinham o socorrido dentro da própria casa, onde só havia ele e mais uma empregada. Primeiramente, quando o colocaram na ambulância, ele só estava desacordado, e depois, começaram as convulsões. Tentei desviar isso da minha mente por alguns instantes e ir almoçar. Apliquei a última dose da quimeo de um paciente e fui andando rápido até o elevador que levava ao refeitório. Chegando lá, vi sentada em uma mesa com , outra amiga minha, que era a médica da enfermaria infantil . As duas comiam lanches naturais. Puxei uma cadeira da mesa e me sentei ao lado delas, respirando fundo.

-O que foi amora?- perguntou assim que sentei.

-Não foi nada meu bem, o que tem de bom pra comer?-Por mais que tentasse evitar, minhas amigas sempre percebiam quando eu estava preocupada, ruim ou com alguma coisa errada.

-Conta logo, por que você ta aflita?-Ela voltou a perguntar. Revirei os olhos.

-Nem eu sei porque estou assim! Isso é coisa de TPM...Vou pegar meu almoço...-Me levantei, tentando não parecer irritada. Odiava quando me forçavam a dizer coisas que eu não compreendia ou não queria falar. Fui até o pequeno self-service que tinha ali e me servi de uma pequena quantidade de comida. Normalmente eu me alimentava bem, mas hoje era uma rara exceção. Me sentei de novo na mesa e comecei a comer em silêncio, com os olhares delas sobre mim. Será que eu parecia tão preocupada assim?

- , e o paciente que chegou na emergência hoje de manhã? Descobriram alguma coisa sobre ele?- falou comigo depois de muitos minutos de silêncio.

-Anh...Ainda não, . Não sabem nada, estamos esperando ele acordar. –respondi, pela primeira vez me concentrando na conversa.

-, as crianças estão super animadas para verem os palhaços! Ainda mais quando eu contei que nós duas é que vamos levá-las...- puxou o assunto, com um sorriso no rosto. Ela começou a trabalhar como pediatra no Hospital na mesma época que eu. Em questões de semanas, viramos amigas inseparáveis e mais ou menos um ano depois, começou a trabalhar na enfermaria também, juntando-se a nós. Fazia uns dois anos que trabalhava somente com as crianças, sendo a médica responsável pela parte do Hospital dedicada a elas. Era uma médica maravilhosa, casada com outro médico que também trabalhava conosco, o . Só a mesmo que sempre foi solteirona e nunca admitiu ser apaixonada pelo .

-Ah, eu adoro as crianças...Elas são mais corajosas do que muitos adultos que eu vejo naquela enfermaria...Sabe, eu converso com todos os meus pacientes, tento fazer eles seguirem em frente, mas tem uns que realmente não sabem encarar desafios.-comentei, roubando um pouco da bebida da .

-Ei, folgada!-ela reclamou, fazendo bico.

-O que vocês acham de fazer um jantar em casa quando o plantão não for de noite?- sugeriu, com um sorriso no rosto.

-Eu acho ótimo!-fazia tempo que não passava uma noite me divertindo com meus amigos. Seria realmente bom.,

-Pode ser semana que vem!- também concordou com a idéia. Ficamos conversando por mais algum tempinho. Tinha até me esquecido da minha paranóia com o paciente desconhecido, quando precisei voltar para a enfermaria com a . Assim que cheguei lá, olhei para o fundo da enfermaria e vi ao lado da cama do paciente. Imediatamente fui ver o que tinha acontecido, passando pelos outros pacientes sem nem ver se eles precisavam de ajuda. Parei ao lado de , que observava o moço abrir e fechar os olhos, ainda meio dopado.

-Ele acordou.- disse, mas obviamente eu já havia percebido. O moço parou de piscar os olhos, fixando seu olhar em nós dois, como se quisesse saber o que estávamos fazendo ali. Ele colocou as mãos sobre a máscara de oxigênio, fazendo menção de tirá-la, mas eu impedi delicadamente, retirando para ele.

-Está se sentindo bem? Consegue respirar sem aparelhos?-perguntei, e ele afirmou com a cabeça.-Não sente nenhuma dor?-novamente ele só afirmou com a cabeça. Parecia que ainda estava muito mole e dopado para falar. Como ele não estava sentindo dores, comecei a tirar o remédio que havia sido aplicado na veia dele. Entreguei a bolsinha de soro e as agulhas que tirei do braço dele para , que logo voltou com curativos e um pouco de álcool. Limpei cuidadosamente o lugar onde a agulha tinha furado e fiz um curativo. Olhei para ele e novamente fiquei perdida naqueles olhos azuis, que agora me encaravam. Sorri timidamente e cheguei mais perto, apertando com cuidado algumas áreas da cabeça dele.

-Dói?-perguntava, enquanto sentia os cabelos macios dele enrolarem nos meus dedos. Ele fazia uma cara de profunda dor, mas não respondia. Tendo isso como um sim, parei e ele ficou me olhando como antes.

-Qual é o seu nome?-isso era uma das coisas que eu mais queria saber. Olhar para aqueles olhos estava me sufocando, mas eu não conseguia desviar minha atenção dali.

-.-a voz estava rouca e meio fraca,mas mesmo assim não deixou de ser bonita.

-O que aconteceu para você vir parar aqui,?-tentei ser o mais doce possível.

-Acho que você é que deveria saber me responder essa pergunta.-ele retrucou, já com a voz mais firme e em um tom seco insuportável. Aquelas palavras me atingiram profundamente. Fiquei algum tempo sem saber o que responder depois do baque dessa resposta. Tentei forçar um sorriso, que deveria ter saído torto e juntei a força que me restava para dizer:

-Bom, , infelizmente eu não sei te responder essa pergunta, pois não fui eu que o resgatei. Mas se você quiser que eu chame os competentes bombeiros que lhe salvaram, eu os chamarei e eles lhe explicarão.

Mesmo pálido e ainda aparentemente fraco, deu um sorriso debochado e continuou me perfurando com seus olhos sagazes. Eu retribuía o olhar, na verdade, eu estava gostando de me perder nos olhos dele.

-Pode chamar os competentes enfermeiros que me resgataram para explicar o que houve comigo. –Ele entoou a palavra “competentes” o máximo que pode. Dessa vez mais ofendida do que nunca, dei as costas para ele e fui me encaminhando para bem longe dele. que cuidasse daquele infeliz. O que eu havia feito para ele? Fui tentar ajudá-lo na melhor das intenções, me preocupei com ele, para ser tratada desse jeito? Realmente, há umas pessoas muito ignorantes nesse mundo. Andava tentando conter meus passos duros de raiva, já estava bem longe dele quando ouvi a sua voz novamente:

-Eu desmaiei na sala da minha casa. Minha empregada deve ter chamado a emergência.Bem, agora que você já sabe, pode me tirar daqui?

Virei-me lentamente para observá-lo. Minha vontade era de voar no pescoço dele. Depois de tanta ousadia, ainda insistia em puxar assunto comigo? Insolente.

-Não posso. O senhor ficará de repouso até quando eu achar necessário e quiser dar a sua alta.

Ele deu uma risadinha debochada. Tudo o que ele fazia e falava exalava deboche.

-Desculpe, mas sou eu que pago o hospital, enfermeira .

Não sabia como ele descobriu meu nome. Devia ter lido o meu crachá enquanto estávamos próximos.

-Pelo que eu saiba , ainda não fizeram a sua ficha no hospital e muito menos pagaram a sua internação aqui. Agora, se me permite, irei chamar um enfermeiro certamente mais competente para cuidar de você.

Eu tinha vencido, sem dúvidas. Dei as costas de novo, sorrindo por dentro de pensar a cara que ele estaria fazendo agora. Fui até o balcão da enfermaria, onde mexia em algumas fichas de internação. Me apoiei na bancada, ainda sorrindo vitoriosamente e isso foi notado por .

-Que cara é essa? Você fez a ficha do paciente?

-Não.-respondi com amargura. fez uma careta engraçada para mim.

-Como assim não, Taty? A gente precisa saber quem ele é, se ele tem convênio médico ou se vai pagar a internação. Você tem que fazer a ficha.

-Dougie, eu não vou fazer a ficha daquele homem. Faça você. Agüente você a aspereza dele. –rebati rispidamente.

-Aspereza? Oh...Sinto que embicou com um paciente difícil. Isso não é típico seu, .

-Realmente, não é típico meu. Mas não sei se posso lidar com coisas típicas tratando daquele homem. Avise ao que ele precisa examiná-lo. Acho que ele tem...Alguma coisa na cabeça. –dizendo isso, procurei por alguém que precisava de ajuda naquela enfermaria, para não ter que estender esse assunto com . Vi um senhor chamando e deslizei o mais rápido que pude até o leito dele, tentando tirar da minha cabeça a forma petulante e grosseira com que fui tratada por aquele homem desconhecido para mim. Eu era muito calma e delicada com meus pacientes, isso se eles também tivessem a mesma educação comigo. E sentia que de nenhuma forma mereceu o tratamento que dei a ele de primeira.

Terminei de cuidar do vovozinho que tinha câncer de próstata e me virei para atender mais alguém, me deparando com aqueles olhos fuzilantes ainda me encarando. Fechei minha cara imediatamente e de cabeça erguida, me distanciei o máximo que pude do leito dele, me concentrando em atender o maior número de pessoas que conseguia. Vi se dirigir até com uma ficha na mão e perguntar todos os dados dele. Aparentemente ele não fez nenhuma desfeita para , o que sugeria que o problema era só comigo? Não, não podia ser. Ele nem me conhecia! Estava pensando seriamente em dar alta para ele logo, mas não podia. Esse homem precisava fazer exames o mais rápido possível. Se tinha vindo parar num Hospital que só atende pacientes com câncer é porque sabia que algo sério estava acontecendo.

O dia passou, e eu sendo enfermeira padrão, tinha que sempre fazer um paralelo entre a enfermaria e os quartos particulares. O meu plantão estava quase acabando e eu agradecia a Deus por casa minuto que se passava até o relógio anunciar as seis da tarde. Nunca reclamei do meu serviço e nem tive pressa para voltar para casa, mas aquele dia estava sendo uma grande exceção. Finalmente, eu iria sair do Hospital, me despedi de e fui rumo ao vestiário, aliviada por estar indo embora, quando me impediu:

-HEY! Não vai embora, me ajuda! Você tem que levar o pro quarto particular pra mim, já passou da minha hora de ir!

-O QUE? , eu já estava indo embora também! E eu não vou levar aquele...Aquele...AH, você é que ficou responsável por ele! Por que não pede para a ?

-Eu? Pois saiba que colocaram na ficha de resgate o SEU nome! E é sério amor...É só levar ele pro quarto, deixar ele bonitinho lá e ir embora! Por favor, vai...E a também já foi.-ele fez uma cara de chantagista impagável. Cerrei meus olhos, o encarando com frieza, mas o meu grande problema é que não conseguia falar não para as pessoas. Bufei e ele tendo isso como um sim, me abraçou e me encheu de beijinhos na bochecha.

-Te amo, !

-Não seja cínico, !-fiz careta e ele riu, me dando um último beijinho na bochecha e indo embora. Respirei fundo, formando um mantra dentro da minha mente: “Não se estresse com aquele homem, não se estresse com aquele homem”. Peguei uma cadeira de rodas para ajudar no transporte, isso se ele não quisesse ir andando. Me dirigi até o leito dele, onde ele não vestia mais as roupas que chegara ao hospital e sim uma camisola azul. mexia no lençol da cama, com as costas encostadas na cabeceira da mesma. Parecia estar distraído e pensativo. Fui me aproximando e quando fiquei ao lado da cama dele, abri a cadeira de rodas com estrondo. Ele me olhou com desprezo e voltou a se concentrar no que estava fazendo. Pigarreei e com a voz firme, disse:

-Você quer ir para um quarto particular, certo?

-Certo.-ele não fez questão de olhar para mim.

-Pode se levantar?-a cada momento eu deixava o tom da minha voz mais frio ainda.

Sem nenhum tipo de problema, ele se sentou de lado na cama e levantou, calçando os chinelos que o hospital dava. Ficou de pé na minha frente, a proximidade entre nós dois era enorme e eu podia ver de perto todos os detalhes do rosto dele e suas orbes faiscarem contra mim. O ar tinha sumido dos meus pulmões , assim como a minha voz escapara da minha garganta. Prendi minha respiração, quando senti a dele bater contra o meu rosto ao falar:

-Suponho que essa cadeira de rodas seja para mim?

-É...Mas presumo que você vai preferir ir andando.-Respondi somente quando senti o ar voltar para as minhas veias respiratórias e meu coração se acalmar. Daniel deu um sorrisinho desdenhoso e uma risada falha.

-É claro que eu vou querer usar a cadeira. Eu estou pagando o hospital para usar os serviços dele.

Eu já deveria ter esperado uma resposta dessas. Dei um sorriso igual ao dele e virei a cadeira para ele se sentar, e assim o fez. Peguei as roupas dele em cima da mesinha do leito dele ,dei para que ele segurasse e com um tranco, comecei a conduzir a cadeira dele para fora da enfermaria. Não conseguia ver as feições de , mas ele com certeza estava se deliciando em me ver cedendo aos caprichos dele. Por nada, ele começou a dar uma gargalhada de puro fazer, que ecoava pelo corredor. Vermelha de raiva, assim que cheguei no elevador, empurrei a cadeira pra dentro sem nem um pingo de delicadeza, quase fazendo-o cair dela.

-Mate um paciente e quem pagará as conseqüências será você.-ele levantou a cabeça para me observar, já que eu estava de pé ao lado dele. Concentrei minha visão no teto e evitei agradá-lo ainda mais respondendo a provocação.-Então...Não disse que eu teria alta hoje?

-Eu disse, mas o médico não aprovou sua alta. Você vai ficar aqui e amanhã vai começar a fazer uma bateria de exames.

-E quem disse que eu quero fazer esses exames? Quero ir pra minha casa, agora.-o tom dele não foi debochado, e sim sério e autoritário. Com muito esforço o olhei de canto de olho.

-Eu poderia muito bem dizer que era só você se levantar dessa cadeira de rodas e ir embora, mas não sou capaz de fazer isso.-tentei parecer fria, mas não sei se consegui fazer isso com sucesso.

-Por que não?- perguntou em forma de desafio. Aquela pergunta me deixou muito incomodada. Não que o sentimento que eu tive quando ele chegou no Hospital ainda existisse, mas eu não poderia deixá-lo ir embora sabendo que o problema dele iria continuar e ele iria passar mal novamente. Perdida nos meus pensamentos, devo ter esquecido de responder a pergunta, pois ele voltou a falar.

-Vi que não tem uma resposta...

-Eu não seria capaz de deixar uma pessoa doente voltar para casa, sabendo que o problema que ela tem é sério e traria ela de novo para o Hospital. Qualquer tipo de médico que possua ética pensa assim, . E bom, chegamos ao nosso andar. –O elevador parou antes que eu precisasse responder outra pergunta dele. Empurrei a cadeira para fora do elevador, caminhando pelo longo corredor da internação. Ficamos em um silêncio fúnebre, até eu chegar no quarto reservado para ele, o 216, segundo a chave, e abri-lo. Entramos e parei a cadeira de do lado da cama. Ele desceu sem dificuldade e sentou-se na cama, seus olhos passeando pelo quarto perfeitamente arrumado e bem melhor do que qualquer leito da enfermaria. Tinha televisão, frigobar, uma cama confortável e macia, atendimento de primeira e até ar condicionado. Fiquei parada, observando a feição satisfeita dele.

-Bom, eu já vou ir...Boa noite, .

-Boa noite, . –ele respondeu.

-Leu o meu crachá?

-É...Mas não sei seu primeiro nome. Você me chama de , preciso te chamar de alguma coisa também, querida. –esse querida foi a palavra mais sarcástica e provocativa que já ouvi na minha vida. Mordi meus lábios, tentando segurar uma risada nervosa e desacreditada.

-Pode me chamar de , querido. –dei as costas, carregando a cadeira de rodas de novo e sorrindo perversamente, quando ouvi a voz de invadir meus ouvidos mais uma vez:

-Eu poderia ter vindo andando. Mas foi no mínimo divertido ter alguém me carregando.

-Que bom! É realmente ótimo que se delicie às custas dos outros, querido. Qualquer coisa,é só apertar o botão ao lado da cama. –dei uma piscadela e sai da sala, sem mais me demorar. Assim que pisei no corredor, percebi que o ar estava faltando nos meus pulmões de uma forma incrível. É, ele me deixava tão nervosa que eu chegava a perder o ar. Só podia ser isso. Me recuperei, levantei a cabeça e fiz todo o caminho de volta, dessa vez desejando ir para casa sem maiores interrupções.


Segundo Capítulo.


Não que eu estivesse com insônia por querer pensar nele, em como ele estava, se estava bem, se havia sofrido mais convulsões. Não consegui dormir porque não conseguia parar de pensar na insolência daquele tal de . Você pode até achar que é besteira, mas na minha vida, não estava acostumada a lidar com pessoas tão aborrecedoras como ele e a minha experiência de ontem me deixou um tanto que perturbada. Tão perturbada a ponto de tirar meu sono. Eu rolava para lá e para cá da cama, e não conseguia dormir de jeito nenhum. E amanhã teria que acordar cedo, para encarar advinha quem? Ele mesmo.
Já sem saber o que fazer para conseguir dormir, me levantei da cama, bufando, passando as mãos pelos cabelos. Calcei meus chinelos e me dirigi até a cozinha, sem acender as luzes, pois a luz da lua era suficientemente clara para iluminar aquele cômodo, poupando a necessidade de gastar energia. Não que eu seja pão dura e não gosto de pagar contas de luz, e sim porque me importo com o meio ambiente. Fui até o armário e peguei uma caneca para mim, coloquei-a na pia e fui até a geladeira pegar leite para esquentar. Coloquei a leiteira no fogão e acendi-o, esperando esquentar. Fiquei distraída, olhando para as minhas unhas bem feitas, pensando em coisas que não conseguia me concentrar. A única coisa que chamava a atenção nos meus pensamentos era a perspectiva do dia de amanhã. Perspectiva essa que me assustava um pouco.
Me lembrei do leite, e por pouco ele não ferveu. Coloquei na caneca, mas havia esquentado um pouco demais, o que me fez colocar leite frio para ele ficar morno. Sim, eu sempre faço isso! Como naquela cozinha não tinha nada para se apreciar, fui até a sala, abri a janela e fiquei apoiada nela, olhando para a rua totalmente deserta à minha frente. Uma brisa gelada batia no meu rosto enquanto eu saboreava meu lente quente, mas meu corpo estava muito bem aquecido pelo meu pijama flanelado, super quentinho. A lua não se encontrava no céu e apenas poucas estrelas podiam ser vistas, e como desde criança, tenho paixão por observar estrelas, foi isso que comecei a fazer. Era incrível como a cada mudança de estação, elas mudavam também. Eu admirava as estrelas, pois apesar de sempre mudarem de lugar, de posição, irem para locais diferente do céu, continuavam as mesmas. Diferente de muitas pessoas que eu já tinha conhecido nessa vida.
Um barulho de vaso se quebrando veio da cozinha. Me assustei e fui até lá ver o que era e dei de cara com meu gatinho, que havia sumido há uns dois dias, se sacudindo depois de ter pulado na janela da lavanderia e caído estatelado no chão, levando o vaso de mini rosas junto com ele.

-Cenourinha!-exclamei, logo indo pegar ele no colo-Menino, assim você se machuca! Por que você sumiu?-ele começou a ronronar e a se espreguiçar carinhosamente no meu colo. Dei um beijinho na cabeça dele e o coloquei no seu cestinho, que ficava na sala. Cenourinha se esfregou todo na caminha, ronronando e miando, depois se aquietou e ficou me olhando. Mandei um beijinho pra ele, que se virou de barriga pra cima. Peguei meu copo da janela e levei-o até a pia da cozinha, lavando-o, sem saber aonde parar com meus pensamentos. Depois disso, decidi ir dormir e dessa vez iria conseguir. Me joguei na cama, tirando da minha mente qualquer resto de pensamento que me faria pensar naqueles olhos .



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-MINHA DEUSA!-eu caminhava pelo corredor ao lado de , quando surgiu a uma distância de nós, de braços aberto e gritando isso. abriu os braços, esperando que ele fosse abraçá-la, mas ele se jogou em mim, me dando um abraço apertado e deixando ela com uma cara de bunda PÉSSIMA.

- meu amor, não minta, eu sei que sua Deusa é a !-falei, ainda sufocada pelo abraço dele, que me soltou e deu um sorriso para mim, mas rapidamente seu olhar se tornou malicioso e se voltou para .

-Ah, ela é mais do que uma Deusa.- disse, e tentou continuar com sua cara de desagrado, mas não obteve muito sucesso. Dei uma risadinha, e decidi quebrar o clima.

-Vamos logo, seus folgados, a gente tem que trabalhar!

Fomos andando juntos, conversando até a enfermaria. foi cuidar de um novo paciente, que havia chegado ali de noite, enquanto eu fiquei com no balcão, enquanto ele procurava as fichas dos pacientes que eu teria de cuidar hoje. Me entregou sete fichas, e adivinhem quem era o primeiro paciente da manhã? .

-Ah não, não, não! Não mereço isso logo de manhã!-reclamei, colocando a mão na testa.

-Como você ama esse homem, !

-Você ouviu algum desaforo dele pra dizer isso?-rebati, totalmente feroz.

-Não. Ele foi muito educado comigo, se quer saber.

-Desculpe , mas não consigo imaginar aquele homem sendo educado!

-Ah , para com isso vai! Anda logo, que hoje ele tem um montão de exames pra fazer, que o mandou e é você que tem que levar ele pra fazer todos.

-ARGH!-reclamei mais ainda, largando as fichas sobre a mesa e pegando uma cadeira de rodas para subir, de muito mal grado, até o andar onde o estava. Podem até chamar de loucura essa repulsa por ele, mas nunca havia sido tratada tão mal assim por um paciente. Isso mexeu comigo, demais. Respirando fundo, fui subindo de elevador até o segundo andar. O elevador parou, e eu sai para o corredor, demorando o máximo que conseguia parar chegar até o quarto de número 216. Mas ele cada vez se aproximava mais e acabou sendo inevitável. Parei em frente a porta e dei duas batidas audíveis, não recebendo resposta. Bati mas duas vezes e nada, de novo. Me irritei, e mesmo que ele não gostasse e me xingasse até, peguei meu cartãozinho, que dava acesso à todos os quartos, e passei na fechadura, abrindo a porta sem mais delongas. Entrei no quarto e vi uma senhorinha, de cabelos muitos brancos, sentada na cama de , segurando uma mão dele e conversando em tom baixo com o mesmo. Fiquei totalmente sem graça após aquilo. Se soubesse que iria interromper algo,não teria entrado sem permissão. ficou estático olhando para mim, parecia estar muito constrangido também. Já a senhorinha, que por sinal era muito bem vestida, sorriu carinhosamente para mim.

-Me desculpem, esqueci do horário de visitas...Volto já!-ia dando meia volta para sair dalí, mas fui interrompida.

-Não precisa se retirar. A Elizabeth já estava de saída.-a voz dele soou firme e grave, não rouca como a do dia anterior.

-Eu não devia ter interrompido, com licença.-mesmo que não tivesse feito uma objeção, seria estranho eu atrapalhar um momento íntimo dele. E se aquela fosse sua mãe? Não era certo interromper, por isso, fui para fora do quarto. Alguns minutos depois, a senhora saiu do quarto, e me vendo parada ali fora, veio falar comigo.

-Querida, é você que vai cuidar do ?

-Sim, sou eu mesma!-respondi, não entendendo quem ela era e muito menos o que queria comigo.

-Por favor...Cuide bem dele. Não deixe que nada de mal aconteça ao , ele é uma pessoa muito boa.

Pessoa boa? Ok, admito que segurei meu riso só para não ofender a senhora. Ela que me desculpasse, mas eu ainda não tinha visto bondade no . Espero que ele se mostrasse diferente, e fosse realmente bom, como ela disse.

-É claro que irei cuidar. É a minha obrigação.-disse sorrindo para ela.

-Obrigada, querida.-ela também sorriu e seguiu pelo corredor. Esperei ela se distanciar para entrar no quarto de novamente. Entrei com as orelhinhas abaixadas, envergonhada por tê-lo interrompido.

-Você não sabe bater na porta ou apertar a campainha, enfermeira ?-ele fez questão me comentar assim que eu parei em frente a cama dele.

-Eu pensei que você não receberia visitas.-rebati, com amargura na voz.

-Eu também pensei que não receberia visitas.-ele sorriu sarcasticamente ao dizer isso, mas não consegui deixar de reparar que o sorriso dele era perfeito. estava com a aparência muito melhor do que a de ontem. Seus olhos pareciam estar mais brilhantes e sua pele mais rosada e bonita, seu rosto e corpo inteiros pareciam estar mais saudáveis.

-Que bom que sabe que a aspereza espanta as pessoas. –Essa foi minha vez de sorrir cinicamente.

-Se espanta, o que você ainda continua fazendo aqui?-Era incrível, ele tinha sempre algo na ponta da língua para rebater.

-Trabalhando.

-Ganha bem para isso? Para aturar pessoas ásperas assim como eu?-Pensei que iria parar, mas cada vez que eu respondia ele parecia arrumar mais coisas para dizer.

-Não te interessa quanto eu ganho. E eu te agradeceria se você levantasse sua BUNDA dessa cama e sentasse nessa cadeira de rodas, porque se não vai perder o horário do seu exame. –manti minha classe ao dizer isso, mas por dentro estava tremendo de raiva.

-Calma...Perder a linha ficaria feio pra você. –ele se levantou e foi se aproximando de mim. Minhas pernas ficaram bambas no mesmo instante-Espero que você tenha classe suficiente para não se deixar cair.-a distancia entre nós era de menos de um corpo. Seus olhos me fuzilavam de um jeito intimidador. Minha garganta ficou seca,não consegui pronunciar mais nada e ele simplesmente se sentou na cadeira de rodas, calçando aqueles chinelinhos que o hospital dava.

-Elizabeth esqueceu-se de trazer meus chinelos...Aquela velhaca...-ele resmungou e eu senti o ímpeto de perguntar quem, afinal, era aquela pobre senhorinha que teve a coragem de me pedir para cuidar dele, alegando que ele era uma boa pessoa. Mas era óbvio que não ia perguntar, não podia demonstrar nenhum tipo de preocupação com ele.

-Bom, hoje você vai fazer cinco exames. –tentei desviar o assunto e quebrar o clima pesado entre nós, demonstrando que não havia me rebaixado.

-Cinco? Hum...Ótimo, sinto que irei fazer um tour pelo hospital. Adoro conhecer lugares novos, te confesso que nunca havia conhecido um hospital, vai ser interessante!- satirizou com um falso ânimo na voz. Sim, essas coisas me faziam querer soca-lo.

-Tenho certeza de que você vai amar!-Fingi apóia-lo, usando a mesma falsidade em minha voz e fui conduzindo-o para fora de seu quarto.

-Amar? Não, não. Posso até gostar, mas amar não.

-Por que não se permite amar?-questionei, de sobrancelhas arqueadas.

-Amor é para os fracos. –já devia ter pensado nessa resposta. É claro que ele era daqueles tipos de homem machistas e repugnantes, que achavam que amor era uma coisa inexistente dentro dos próprios corações. Era de se esperar que não possuísse esse tipo de sentimento.

-Se você acha...Não posso mudar sua opinião, querido.

-Não pode mesmo. Você é só uma enfermeira.-Irritante, irritante. Estávamos saindo do quarto, mas fiz questão de sem querer, bater a cadeira dele de lado na parede, fazendo com que o pé dele esmagasse e ele desse um grito.

-Eu vou processar você por danos morais!

-Processe e não vai encontrar ninguém que te ature aqui nesse hospital!-repliquei quase no mesmo momento, e de cabeça erguida voltei a andar com ele, que FINALMENTE, se calou. O primeiro exame da manhã seria a tomografia computadorizada e o local aonde se fazia era em outro bloco do Hospital, ou seja: muitos minutos tendo que aturar . Isso era um carma, fato. Ficamos andando em silêncio por muitos corredores e eu agradeci por isso, mas logo ele quebrou o silêncio:

-Depois que eu fizer os exames, posso ir embora daqui?

-Você tem trauma de hospitais? Por que não quer ficar aqui e se cuidar?-isso não era preocupação, e sim curiosidade. Ta, era sim um pouco de preocupação.

-Não me faz bem. – respondeu e não quis falar mais nada. Respeitei sua vontade de não explicar nada, afinal,eu nem o conhecia direito. Minutos depois, chegamos ao centro de exames do Hospital e eu o levei até a sala onde fariam a tomografia. Outros enfermeiros é que realizavam o exame, enfermeiros especializados, por isso deixei sobre os cuidados deles e fiquei somente esperando, na sala de espera. Normalmente aquele exame exigia um acompanhante da família, mas eu nem sequer sabia se tinha uma família. Ele ainda era um total mistério para mim, e eu tinha a sensação de que continuaria sendo por muito tempo.

O exame demorava uma meia hora para ser realizado. Enquanto isso, fiquei sentada, pensando no nada. Na verdade, pensando em como e eram bobos de não se acertarem logo. E também ainda estava tentando descobrir quem era a tal de Elizabeth. Ah, que droga, meus pensamentos tem que parar de voltar para , não é possível. Fiquei esperando mais um pouco e logo uma enfermeira trouxe ele, na cadeira de rodas. estava com a feição rabugenta e um pouco dopada.

-Mas que droga, eu não agüento mais andar de cadeira de rodas! Me faz sentir um inútil, um velho com problemas de locomoção!-ele reclamou assim que eu encostei as mãos na sua cadeira, para fazer todo o caminho de volta para o quarto dele.

-Se você quiser andar normal, é só me falar que eu não trago mais essa cadeira de rodas.-falei serenamente, empurrando a cadeira de rodas.

-Pensei que você ia rebater com alguma coisa grosseira, mas me surpreendi, não?-O momento de calma dele nunca durava por muito tempo.

-Não está acostumado a se surpreender?

-Dificilmente acho uma pessoa que me surpreenda. –aquelas palavras me fizeram arrepiar. Então quer dizer que eu tinha a capacidade de surpreendê-lo? Pois é, tinha que admitir que ele também possuía esse dom.

-Entendo...Talvez seja porque nenhuma pessoa deve ter paciência suficiente para ficar ao seu lado até te surpreender.

-Você tira muitas conclusões sobre mim. Vou começar a tirar sobre você também, enfermeira .- acho que dessa vez eu tinha conseguido deixa-lo irritado, e prevendo uma briga, decidi me calar e não provoca-lo mais. Andamos em silêncio, assim como na ida, e quando chegamos no quarto, entramos em silêncio também. deitou-se na sua cama e ligou a televisão, ainda com um ar visivelmente irritado. Eu não sabia o que dizer. A falta de trocar palavras com ele me deixava estranhamente nervosa. Ei, o que eu estava dizendo? Eu deveria ficar feliz com aliviada, isso sim!

-Seu próximo exame será daqui a uma hora. Vou ir cuidar de umas crianças e depois venho te buscar aqui, de novo.

-Bata na porta antes de entrar.-ele não fez questão de olhar para mim; continuou prestando atenção no documentário sobre pescaria que passava no Discovery Channel.

-Você vai receber mais visitas?-a pergunta saiu automaticamente da minha boca.

-Não, porque nenhuma pessoa tem paciência de ficar ao meu lado tempo suficiente para me surpreender.-a frieza na sua voz foi a pior que eu já ouvi na minha vida. Fiquei sem saber o que responder, e me poupando de palavras, saí do quarto sem dizer mais nada. Por incrível que pareça, me senti mal por ter sido tão rude com ele. Não que ele não merecesse, mas sem querer eu deveria ter mexido com alguma parte muito sensível (se é que essa parte realmente existia) do seu ser. O que eu mais precisava era conhecer quem era aquele homem e pelo menos saber o mínimo que fosse da sua vida. Pensando assim, voltei até a enfermaria e fui até o balcão, onde procurei pela ficha de . Quando a achei, meus olhos percorreram por toda a sua extensão, mas não encontrei o que queria. O campo sobre “Parentes para contato” estava totalmente em branco.



Terceiro Capítulo.


Amor é para fracos...

Flashback On

”-Mamãe...O papai não vai chegar?-uma linda menininha de cabelos muito loiros, olhos penetrantes e um sorriso angelical segurava forte a mão da mãe. Aquela seria sua primeira apresentação teatral na escola e estava muito ansiosa. Allyson tinha apenas sete anos de idade, mas um enorme dom para a música. Desde o cinco cantava no coral da escola primária, tinha uma voz delicada e maravilhosa, além de todo seu carisma e inocência que encantavam as pessoas. Ela observava as outras crianças ao lado de seus pais, que lhe davam palavras de força e os incentivavam, e ela estava ali, somente com sua mãe. A única criança cujo pai não estava ali para apoiar.

-Vai chegar sim filha...Ele já deve estar vindo.-Lively, sua mãe loira e de olhos verde intenso, respondeu, olhando apreensivamente para todos os lados do pátio de apresentações da Bloustmory College. Onde estaria seu marido? Não era possível, que justo naquele dia, talvez até hoje o dia mais especial da vida da filha deles, ele não estaria presente. Era sempre, sempre o trabalho, sempre a empresa, sempre os negócios primeiro...E aonde ficava a família? Ela não sabia. Não sabia nem se ainda a palavra família tinha algum significado para ele, pois há muito tempo ela deixou de acreditar que algum sentimento de compaixão existia dentro do coração de seu marido.

Ela tentava pensar que ele iria chegar, que ele estava vindo, mas uma aflição enorme tomava conta de si a cada instante que passava. A apresentação começaria dalí a 15 minutos; ele tivera tempo suficiente para chegar.

Allyson abraçou as pernas da mãe, único lugar onde alcançava. Lively abraçou a filha carinhosamente, afagando seus cabelos. Seu coração doía em pensar a frustração de Ally se seu pai não viesse. A ausência constante dele fazia o comportamento da filha ficar cada vez mais triste e diferente. As coisas andavam muito difíceis na casa deles.

Os 15 minutos se passaram mais rápido do que o imaginado. A coordenadora do coral logo veio buscar Allyson para subir ao palco.

-Mãe...Cadê o papai mamãe? Ele prometeu que iria vir aqui me ver, ele disse ontem que viria, por que ele ainda não apareceu?- Allyson estava indignada com a falta de presença do pai.

-Meu bebê, seu pai deve estar preso no trânsito, mas ele vai chegar, não fique preocupada!-Lively se ajoelhou para ficar do tamanho da filha- A mamãe está aqui com você, e garanto que mesmo longe, o papai também está pensando em você e te desejando boa sorte!

-Eu to com medo!-ela abraçou sua mãe mais forte do que nunca, quase caindo em prantos.

-Não precisa ter medo minha princesa, vai dar tudo certo! Agora você tem que ir ...-a mãe foi desfazendo o abraço da filha aos poucos-Boa sorte, a mamãe te ama!-e deu um beijo estalado na bochecha da mesma, que sorriu chorosa e foi levada pela coordenadora até o palco.

Antes da apresentação começar, disfarçadamente Lively tentou ligar para o celular do seu marido, mas como sempre, ele só dava ocupado. Uma raiva imensa começou a tomar conta de seu peito. Ele não possuía consideração por ninguém. As esperanças de que ele chegassem estavam esvaindo-se. Allyson subiu ao palco com seus outros coleguinhas de classe. Cantava perfeitamente, mas meus olhos percorriam desesperadamente a platéia, buscando seu pai. Isso fazia a raiva de Lively aumentar mais ainda.

A apresentação acabou e Allyson desceu do palco decepcionada , indo de encontro a mãe.

-Filha, você foi perfeita!-Lively abraçou a filha, dando um beijinho na sua bochecha. Vendo que não houve quase retribuição, segurou o rosto da filha,olhando em seus olhos-Por que você está assim meu amor? Sua apresentação foi maravilhosa!

-O papai não veio.-Allyson disse, chorosa, e uma única lágrima escorreu de seu rosto branco e decepcionado. Aquela cena revoltou Lively mais ainda.

-Não se importe com isso Allyson. Seu pai não anda merecendo suas lágrimas.-ao terminar de falar isso, pegou a menina pela mão e foi atravessando a multidão de pessoas que ainda estavam ali, abraçando os filhos e conversando. Não queria que sua filha ficasse pior ainda. Foi rumando para os portões da escola, e quando se aproximava deles, deu de cara com o motivo do choro da sua filha. Seu marido estava entrando na escola com as mãos no bolso e com a cara amarrada e bruta de sempre. Lively teve um grande impulso e bater na cara dele.

-Ally!-ele se aproximou das duas,que haviam parado de andar, e abriu os braços para que a filha o abraçasse, mas não foi isso que ela fez. Allyson ficou parada contemplando o pai, as lágrimas escorriam livremente pelo seu rosto. Ele ficou sem entender a reação da filha, que sem mais agüentar, saiu correndo para longe dos pais, soluçando. Lively ficou estática, tentando transmitir no olhar toda a raiva que seu peito abrigava naquele momento. Queria dizer muitas coisas, mas algo dentro de si a impedia.

-O que aconteceu com ela?- perguntou, ainda inconformado com a atitude da filha, que sempre foi sua devota, sempre distribuía abraços e carinhos a ele.

-O que aconteceu? Você devia se fazer essa pergunta, . Você abandonou a sua filha no dia mais importante da vida dela, para quê? Para ficar trabalhando. Era óbvio que você não viria, sua agenda anda cheia. E creio que nela não há espaço para mim e para a Allyson.

Lively não agüentaria mais ficar ali, encarando a expressão de surpresa e desgosto do seu marido. Somente passou por ele, tentando segurar as lágrimas de raiva que surgiam no seu rosto e indo a procura de sua filha, deixando aquele homem sozinho. Talvez fosse assim que ele gostaria de ficar.“

Flashback off

-Scarlett, seu pai não vai vir te ver hoje?-perguntei para a menina de cabelos muito ruivos em que eu aplicava a primeira dose de quimioterapia do dia. Scarlett tinha 14 anos e câncer no fígado. Ela estava batalhando em busca de um transplante, mas não encontrava um doador, o que a levava a ser totalmente dependente das sessões de quimioterapia.

-Ele não pode vir, . Tem algumas coisas importantes no serviço para resolver.-ela me respondeu, fazendo careta quando a agulha o remédio entrou em sua veia. Decidi não falar minha opinião sobre as pessoas que colocam o serviço acima da família, mas Scarlett não conseguiu calar-se e continuou falando-Sabe, ultimamente ele anda priorizando mais o serviço do que eu. Ele é a única pessoa que eu tenho na vida e as vezes sinto...Que ele está cada vez mais longe.

-Imagino como é, Scarlett. Na verdade, eu sei como é, porque não tive pais. Mas pense, seu pai está trabalhando para te dar uma vida melhor, pagar seu transplante e seus remédios. Mesmo que ele não esteja aqui com você, você está no pensamento dele, pois tudo o que ele faz é em sua função. –falei carinhosamente para ela e vi seus olhos verdes marejarem de lágrimas rapidamente.

-...Acho que esse foi o conselho mais bonito que eu já ouvi. –Scarlett se sentou na maca, assim como eu estava e me deu um abraço apertado. Eu retribuí com o maior carinho do mundo. Ver que minhas palavras emocionavam as pessoas era a maior retribuição que eu podia ter por ficar horas e horas cuidando das mesmas. O meu maior objetivo ali, além de ajudar na parte médica, era dar um apóio emocional para aquelas crianças, adolescentes, adultos, que enfrentavam uma doença que destrói e na maioria das vezes é chocante como o câncer. Pena que nem todas as pessoas daquele Hospital eram receptíveis assim. E por pensar nisso, me lembrei que uma espécime de homem muito indelicada tinha um exame para fazer dalí a alguns minutos

-Ah Scarlett, magina...Minha função aqui também é essa. Bom, agora preciso ir.-suspirei, fazendo cara de desgosto-Tenho que ir no quarto de um paciente fazer um exame de sangue.

-Por que fez essa cara, ?-Scarlett me perguntou, dando um sorriso sapeca.

-Por que? Você não sabe como ele é grosso e insolente comigo. Não consigo ter paciência com ele. Ele me tira do sério!-respondi com a raiva subindo crescentemente em meu peito.

-Você sabe que o ódio é o sentimento que mais leva ao amor né? –ela deu uma risadinha marota no final da frase. Fiz uma cara engraçada de superioridade e me despedi dela, correndo para chegar até o segundo andar do Hospital, mas quando estava no elevador, lembrei que me esqueci de pegar os instrumentos necessários para tirar o sangue dele e tive que fazer todo o caminho de volta, muito revoltada. Peguei as coisas na enfermaria e tornei a subir, pensando no que Scarlett me falara. Era algo totalmente desconexo. Amor e ódio, para mim, são coisas inversas que não se completam de maneira alguma. Se Deus fez o ódio e o amor, obviamente era para que eles fossem antônimos e não essenciais um para o outro. Sacudi a cabeça, tentando livrá-la desses pensamentos, e quando o elevador chegou até o segundo andar, desci a passos grandes, me dirigindo até o quarto onde ele se encontrava. Para não cometer o mesmo erro que cometi durante a manhã, apertei a campainha do quarto, esperando por resposta. Escutei um resmungo e abri a porta, me deparei com um encostado à janela de seu aposento, com a cabeça baixa e olhando para o horizonte. Talvez minha surpresa tivesse sido porque nunca vi tão pensativo e tão misterioso assim.

Me aproximei cautelosamente, não sei porque estava aflita com aquela situação. Quase encostei nele, antes de dizer:

-? Esse é seu ultimo exame.

-Você acha que eu não ouvi você chegar? –ele se virou bruscamente para mim. O ar pareceu me faltar na hora quando vi nossos corpos tão próximos e seus olhos me encararam com um misto de raiva e de desprezo. Naquele instante percebi que ele bem maior do que eu, apesar de eu estar de salto.-Não precisava fazer essa cerimônia toda.

-Eu só tentei ser educada. Mas acho que educação é uma palavra que não existe no seu dicionário.- depois disso, tive a leve impressão de que o deixei mais nervoso ainda. Seu peito subia e descia em aparente raiva e por vezes sua respiração quente batia em mim. Eu permanecia estática, sustentando com coragem o olhar que ele me lançava, mas morrendo por dentro.

-Veio aqui para fazer o exame ou continuar batendo de frente comigo?-A frieza das palavras dele continuava me cortando, mas eu resistia à elas. Não descia do meu pedestal.

-Para fazer o exame.

-Então faça.- deu as costas para mim e se sentou na cama de novo, ainda com a pior cara do mundo. Respirei fundo, tendo o ar de volta aos meus pulmões e fui até ele com os instrumentos para fazer o exame de sangue. Antes de tudo, coloquei as luvas descartáveis. Depois, coloquei seu braço pesado e relutante sobre o apoio e procurei sua veia, logo depois a passando um elástico em volta de seu braço para que não perdesse a veia. Limpei delicadamente o local com álcool e algodão,e abri a seringa descartável, preparando-a para fincá-la no braço de . Olhei de canto de olho para suas feições, que continuaram irredutíveis do mesmo modo quando o furei com a agulha e comecei a tirar seu sangue. Terminado o processo, tirei a seringa de seu braço, depositei seu conteúdo em um tubo de ensaio e a joguei fora, no lixo que tinha do lado da cama dele, e também tirei o elástico de seu braço. Ele me olhou rapidamente após isso e se deitou na cama, olhando para o teto, e me desprezando como sempre. Comecei a pensar se aquela revolta inesperada não teria sido causada pela nossa discussão pela manhã...

”-Entendo...Talvez seja porque nenhuma pessoa deve ter paciência suficiente para ficar ao seu lado até te surpreender."

”-Você tira muitas conclusões sobre mim. Vou começar a tirar sobre você também, enfermeira .” [...]

”-Você vai receber mais visitas?”

”-Não, porque nenhuma pessoa tem paciência de ficar ao meu lado tempo suficiente para me surpreender.”

Só poderia ter sido isso. A revolta dele não era sem motivos. A culpada era eu. Infelizmente era. Não queria admitir que eu parecia tê-lo magoado, mas era o que meus olhos viam. Ou pareciam querer ver.

-Olha, desculpa se eu fui muito arrogante com você hoje de manhã, .-as palavras saíram sem a minha permissão. Quando eu vi já tinha escapado enquanto eu pensava se realmente iria pedir desculpas.

-Por que você está se humilhando para mim? Não quero que você se desculpe, não é necessário. Isso é algo estúpido. E eu não estou magoado. Pode ter certeza que no dia que eu me magoar com suas palavras, estarei num manicômio e não em um Hospital do câncer. – A grosseria dele não me permitiu pensar em algo imediato para responder. Fiquei tão atordoada com suas palavras que perdi o rumo. Aquilo atingiu meu coração como uma bomba. Eu pedi desculpas para ele da forma mais sincera do mundo, e recebo isso como resposta? O que eu fazia que tanto o irritava?

-Tudo bem, se para você se desculpar com alguém é uma forma de humilhação, não posso fazer nada. Só tentei ser diferente de você. Repensei no que eu te disse pela manhã e senti que te devia desculpas por ter sido tão rude. Mas parece que é assim que gosta de ser tratado-não conseguia refrear as lágrimas que apareciam sem permissão, embaçando minha visão-e então assim eu te tratarei.

Sem pensar em mais nada, peguei as coisas que tinha levado até ali e sai do quarto, batendo a porta com força ao passar. Senti uma lágrima escorrer do meu olhos direito e a limpei com fúria. Não, eu NÃO iria chorar por causa desse grosso, cavalo, estúpido de nome . Não mesmo. Ergui minha cabeça de novo, engolindo meu choro, e desci para a enfermaria, a fim de nunca mais voltar para o segundo andar.

Flashback On

decidiu voltar para o trabalho depois do fiasco que foi sua tentativa de assistir a apresentação de sua filha. Não entendia o problema de ter chegado atrasado. O que ele poderia fazer? Se ele não trabalhasse, quem iria bancar os luxos e mimos de Lively e Allyson? Essa era sua função, e ele somente a desempenhava, e o pior de tudo é que as duas pareciam estar infelizes! Tudo, tudo que Lively tinha na vida foi graças a ele. Ele a tirou da pobreza quando a pediu em casamento; cada peça de roupa, sapato, perfume, jóia, era fruto do dinheiro dele. Aquela mulher não tinha que reclamar e nem lhe negar nada. Além do mais, ele tinha certeza que Allyson faria outras apresentações e que ele conseguiria ver alguma delas. Não havia motivos para todo aquele espetáculo.
Desligou seu notebook, fechando-o. Pegou alguns documentos de cima da mesa e guardou-os em dentro de sua pasta de couro. Olhou para a parede oposta, onde o relógio marcava 11:30 da noite. Não se importou. Pegou sua pasta da mesa, conferiu se não tinha esquecido nada e saiu de seu escritório, e assim que abriu a porta, as luzes se apagaram. Ao sair, deu de cara com sua secretária, Janice, que ainda estava ali, sentada na sua mesa com as pernas cruzadas. Sua saia curtíssima já atraíra a atenção dele inúmeras vezes, assim como seu decote generoso, seus lábios, seus cabelos ruivos... sorriu para a moça, que retribuiu o sorriso. Ambos já sabiam o que o sorriso um do outro significava. Janice lançou um olhar pervertido para o patrão, que chegou mais perto, sem tirar o sorriso sugestivo de seus lábios. Ela o puxou pela gravata cinza, encaixando o corpo dele perfeitamente entre suas pernas. Trocaram mais um sorriso cúmplice, e ele roubou um beijo avassalador da moça, que retribuiu a altura. O beijo continuou, e colocou suas mãos firmes e fortes por debaixo da blusa de botões de Janice, puxando seus lábios e fazendo-a gemer e trazê-lo mais para perto ainda. Ele desceu seus beijos até o pescoço da mesma, levantando a blusa dela aos poucos, de uma forma enlouquecedora. Não era à toa que uma secretária ficava até depois das 11 trabalhando, e o melhor de tudo, é que não cobrava hora extra, assim pensava ele.
As coisas teriam piorado, e muito, se ele mesmo não tivesse dado um fim. Parou as carícias, observando a boca inchada e com o batom totalmente borrado de Janice.

-Por que parou?-perguntou ela, pendurando-se no seu pescoço e beijando sua bochecha sensualmente, depois passando para o lóbulo da sua orelha-Para que motel vamos hoje?

-Para nenhum- se afastou de Janice, antes que cedesse-Não vê que já é tarde? Não posso chegar mais tarde ainda em casa, se não a Lively vai desconfiar...

-Desde quando você se importa com sua esposa? Pelo que eu saiba já faz alguns meses que não.-Janice perguntou desafiadoramente, sem desenlaçar seus braços do pescoço do patrão.

-Eu não me importo com ela. Me importo com a minha reputação. –ele rebateu secamente, se afastando de vez da moça e pegando um lenço no bolso para limpar sua boca suja de batom vermelho. Janice fez cara de decepcionada e ajeitou sua blusa-Bom, eu tenho que ir. Amanhã a gente resolve esse assunto.-sem dizer mais nada, nem se despedir, saiu definitivamente de sua sala, descendo de elevador e parando no estacionamento subterrâneo de sua empresa. Seu carro estava estacionado no jeito. Ele abriu a porta do seu Aston Martin e entrou nele, imponente, saindo com o carro em alta velocidade dalí.

Dirigiu rápido pelas ruas de Londres. Toda vez que parava em algum farol tentava procurar se havia algum rastro se seus beijos com Janice, e até passou seu perfume novamente para que o mesmo se sobrepusesse sobre o da mulher. Correu tanto, que em menos de quinze minutos já estava na porta da sua mansão. Os portões automáticos abriram-se e ele entrou, atravessando os jardins escuros. Parou seu carro na frente de casa e desceu, algum empregado iria estacioná-lo para ele. Abriu as grandes portas de mogno e as luzes automáticas da sala se acenderam conforme ele foi andando, se dirigindo até a escada. Subiu em silêncio a escada de mármore, e atravessou o corredor, mas não entrou no seu quarto. Seguiu até o final dele e entrou no quarto de sua filha, evitando fazer o mínimo de barulho possível. Era óbvio que ela não estaria acordada aquela hora, mas do mesmo jeito ele se ajoelhou ao lado da cama da filha, descançando sua pasta no chão, e fez carinho nos seus cabelos loiros e macios. Ela parecia dormir profundamente, respirava calma e devagar. Ele se aproximou mais e deu um beijinho em sua bochecha, e então de repente ela abriu os olhos.

-Ally...O que você está fazendo acordada? –ele questionou, mas a menina assim que o viu, virou-se para a parede-Ally...

-Sai daqui, papai. –ela respondeu ríspida, sem encarar o pai.

-Não fala assim comigo. Eu sei que você tá triste porque eu não fui na sua apresentação, mas...Você tem que entender, que o papai tem que trabalhar para dar dinheiro para você...

-Mas você só faz isso! Você só trabalha! Você não brinca mais comigo...Não me ama mais!-Allyson ainda estava virada para parede e falava chorosa.-Sai daqui papai, por favor.

conhecia o gênio da sua filha e sabia que tentar convencê-la não seria nada fácil, por isso preferiu deixar essa tarefa para o dia seguinte. Mas só que o dia se seguinte, se estenderia por meses e mais meses. Ele deu um beijo na cabeça da filha e saiu do quarto dela, indo em direção ao seu. Entrou cautelosamente no dormitório, para não acordar sua esposa. Sua pobre esposa, que todo os dias estava ali, na cama dele, o esperando, sendo fiel. E que sabia que o casamento dos dois afundava cada vez mais. “

Flashback Off


Quarto Capítulo.


Alguns dias se passaram desde o meu último encontro com . Na verdade, foram três dias. Depois da nossa última discussão, procurei ao máximo voltar a vê-lo, pisar no mesmo chão que ele, respirar o mesmo ar que ele e olhar nos seus olhos. Não queria me demonstrar afetada com o que ele me dissera, e até mesmo magoada, mas simplesmente não conseguia voltar a ficar do seu lado sem sentir uma raiva e uma mágoa imensas. Pedi para que cuidasse dele durante esses dias, seria muito melhor para minha saúde mental. Ter que conviver com ele me deixava em um estado de confusão e agonia que eu não conseguia entender. Era algo estranho; como se eu soubesse que precisava ficar do lado dele, precisava cuidar dele, mas ao mesmo tempo não conseguisse suportar a sua arrogância. Arrogância essa que parecia ser dedicada exclusivamente a mim, pois em nenhum momento reclamou da falta de educação dele, e pelo contrário: o achou um paciente muito pacífico e nem de perto lembrava ser a pessoa que eu descrevi para ela.
Eu não sabia se minha amiga estava surtando ou algo do tipo. O fato era que não ofendeu a nenhum outro enfermeiro que cuidou dele durante esses dias de internação. Acabei concluindo que seu problema era somente comigo. O que eu tinha feito para aquele homem? Não tinha a mínima idéia. Desde o primeiro momento em que chegou o hospital, procurei ser o mais delicada e gentil o possível,como era com todos os meus pacientes. Fiquei preocupada com suas convulsões, tentei saber um pouco mais dele e o que recebi foram só coices e expurgos vindos de todos os lados. E essa mágoa toda se formou no meu peito em apenas dois de dias de convivência com ele. Me assustava em pensar o que seria de mim se convivesse mais de uma semana, um mês, ou um ano tendo que cuidar daquela criatura. Com certeza teria que procurar um psicólogo, porque enlouqueceria.
Se quer saber, eu não entendo porque fico me importando tanto com ele e com a sua indelicadeza comigo. foi só mais um paciente, bem diferente e rude diga-se de passagem, mas não era motivo o suficiente para que eu gastasse meus neurônios com pensamentos sobre ele. Não mesmo!
O meu grande problema é esperar das pessoas atitudes que sejam as mesmas que as minhas. Quando ele chegou no hospital, como todo e qualquer paciente, pensei que iria ser tratada com educação e respeito, pois foi assim que o tratei. Porém, vi que pensar assim foi um erro enorme, e esse erro, acabou se tornando uma decepção dolorosa, que me marcou muito. Me marcou de uma forma irritante, pois não conseguia parar de pensar nisso em nenhum momento, era algo que estava me perseguindo como uma mosca zumbindo na minha mente. Uma mosca que dizia “, , ” milhões de vezes dentro do meu cérebro.

-! Por favor, eu estou falando com você!-a voz irritada de penetrou meus pensamentos. Com um estalo, minha mente voltou ao normal e eu a olhei.

-Desculpa!-falei constrangida. Eu estava dentro de um ônibus lotado de crianças, indo para um teatro, onde elas veriam um espetáculo de palhaços. Minha amiga estava sentada do meu lado, em um dos bancos da frente do veículo. Provavelmente, esse tempo todo fiquei encostada com a cabeça no vidro,pensando nessas milhões de coisas que falei acima.

-Em que mundo você anda? Eu hein...Parece até que tá apaixonada!- continuou, me encarando estranhamente, como se quisesse ler meus pensamentos.

-Apaixonada? , faça-me o favor...Apaixonada por quem? Pelo vento né, só se for.

-Ah , ia ser legal se você se apaixonasse de novo. Você não sente falta de um homem? Já faz dois anos que você terminou com o James...-é, eu já tive um namorado. Ou melhor, um noivo. James e eu namoramos por cinco anos e decidimos noivar. Alguns dias antes do casamento eu descobri que ele tinha tido um filho com outra. E bem, não resta dúvidas de que eu terminei tudo na hora, né?

-Olha , se for pra ter mais um homem que nem o James prefiro não me apaixonar. E eu posso até sentir falta, mas só vou ficar com alguém que eu goste de verdade e que me faça sentir segura...

-Porque uma mulher de quase trinta anos de idade procura um relacionamento seguro.-ela completou a frase para mim, em tom de impaciência.

-É, isso mesmo, e não fale que eu tenho quase trinta anos. -falar da minha idade me deprimia e muito.

-Ué, você quer que eu fale o que, mulher? Você tem 28 já! Caramba , sai dessa vida amiga, se joga, desencalha!

-Você fala como se eu fosse a maior encalhada da face da terra só porque você tem um marido lindo, sensual, inteligente, romântico e que trabalha com você!-rebati as críticas insistentes dela.

-Não fala assim do meu se não eu fico com ciúmes-ela me mostrou a língua-Só quero te ver feliz, .

-E por acaso eu não sou?

-Me refiro à felicidade afetiva. Talvez isso te deixe menos estressada. – tentou disfarçar o uso da palavra “estressada”, mas eu ouvi e logo me irritei.

-Estressada? Eu não sou estressada! Se eu fosse estressada, já teria parado de trabalhar naquele hospital mais tempo, porque você não sabe o quanto andam me irritando lá!

-Não acredito que você fica dando corda para aquele tal de te irritar!- indignou-se. Mas, espera aí! Como ela sabia sobre se não tinha contado nada à ela?

-Quem te disse que eu me irrito por causa dele?

-A . É , se você mesma não me conta as coisas, tem quem conte!-ela deu uma piscadinha, e se levantou do assento para falar com algumas crianças que brigavam no fundo do ônibus. Fiquei sem reações por algum tempo, pois me surpreendeu ao descobrir algo que eu nem pensava em contar para ela.

Aproximadamente meia hora depois, chegamos no teatro, que ficava em uma travessa da Regent Street. e eu organizamos a saída das crianças do ônibus, tendo o auxílio de alguns pais que estavam acompanhando os filhos no passeio. Passamos todos na bilheteria para comprar os bilhetes e entramos no teatro. As crianças saltitavam de alegria. A maioria delas não saia do Hospital fazia muito tempo, e nas poucas vezes que o faziam, ficavam imensamente felizes e comentavam dias a fio sobre os passeios. A sessão do teatro não foi fechada só para nós, mas o lugar não estava tão cheio assim. Sentamos juntos o máximo que pudemos e ficamos esperando alguns minutos até o espetáculo começar.

Não prestei atenção na peça por vários motivos, os quais vou listar :

1-Desde pequena tenho um trauma enorme de palhaços, ou seja: não consigo olhar para a cara de nenhum deles.

2-Estava ali só por causa das crianças. Eu não gosto de teatro e aceitei acompanhar única e exclusivamente para agradar os pequeninos.

3-Minha mente não conseguia se concentrar em nada. Só em uma coisa que eu prefiro não repetir mais, pois isso está virando meu carma.

Quando a peça acabou, dei graças à Deus, aleluia, por finalmente poder ir embora daquele lugar e ter que evitar olhar para os palhaços. Saímos todos do teatro, as crianças faziam uma algazarra enorme, quase pulando de felicidade. As mães passavam por mim e e comentavam sobre os sorrisos estampados nos rostos dos filhos, e meu peito se enchia de alegria a ouvir cada pequeno dizendo que adorou o passeio. Voltamos para o ônibus em clima de tristeza. Algumas crianças protestavam, dizendo que queriam um bis do espetáculo, mas os acalmou quando começou a contar uma história. Vi Lucy sentada sozinha em um banco e fui até ela, me sentando do seu lado. Ela brincava de pentear os cabelos artificiais de uma Barbie,que vestia um lindo vestido de noiva.

-Adorei a sua boneca.-falei para atrair a atenção dela.

-Oi ! –Lucy disse, me notando-Obrigada…Minha mãe trouxe ela ontem para mim. Acho que ela parece com você!

-Comigo? Ah, obrigada Lucy, mas acho que ela é mais bonita do que eu.-agradeci, passando um braço pelos ombros dela.

-...Se eu te perguntar uma coisa você me responde?-ela perguntou com sua voz de criança inocente. Fiz que sim com a cabeça-Você tem medo de palhaços?

-Esse é meu segredo, não posso te responder, desculpe!-brinquei com ela.

-Ah ,conta vai! Eu vi sua cara de medo no teatro!

-Tá bom! Eu morro de medo de palhaços, desde pequenininha, quando eu ganhei um boneco de palhaço que ficava se mexendo e sorrindo para mim de noite.-Lucy riu da minha revelação, uma risada gostosa de se ouvir.

-Palhaços são legais. Me deixam feliz-ela comentou depois de rir, e voltou a pentear os cabelos da sua Barbie. Dei um sorriso ao ouvir isso.

-Que bom, te ver feliz também me deixa feliz!-dei um beijo na cabeçinha dela, que retribuiu com um sorriso.Fiquei sentada com Lucy, conversando, até o final da viagem. Quando o ônibus chegou de volta ao Hospital, vi a carinha de tristeza das crianças aparecer. Todo passeio era assim; eles queriam sair e não mais voltar para aqueles quartos brancos, aqueles aparelhos, as sessões de quimioterapia. Mas infelizmente, cada um deles ali tinha uma doença, que precisava ser tratada.

Ajudei a conduzir as crianças até seus quartos e me despedi dela para voltar à enfermaria.No caminho de volta para a enfermaria, havia uma espécie de área de lazer para os internados. Um jardim com vários banquinhos, onde os velhinhos passavam a tarde e uma sala de jogos e de leitura para quem quisesse se distrair. Não costumava reparar em quem estava lá, mas justo naquele dia decidi olhar para o jardim e meus olhos o avistaram, sentado em uma mesinha debaixo de uma árvore, aproveitando o pouco de sol que fazia naquele dia típico de outono. Usava uma blusa de manga comprida cinza, uma calça preta e os chinelos do Hospital. Estava jogando cartas com um senhor, mas o pior de tudo: estava fumando. Senti meu sangue subir na hora. Era expressamente proibido fumar dentro das dependências do Hospital e ele deveria muito bem saber disso. Não me controlei e saí até lá, andando furiosa até , que logo que notou.

-Enfermeira !-ele exclamou, com falsa surpresa. Senti seus olhos percorrem todo meu corpo. Maldita calça branca que aumentava minhas pernas.-Quanto tempo não te vejo!

-Não-é-perimitido-fumar-nas-dependências-do-HOSPITAL!-a fúria tomou conta de mim, e eu me aproximei e peguei o cigarro da mão dele, socando-o no cinzeiro da mesa. deu uma risada debochada, fria e calculada.

-Eu estou FORA do Hospital, se a senhora não percebeu!-descaradamente, ele enfiou a mão no bolso da calça e pegou outro cigarro do seu maço, colocou-o a boca, e acendeu, me desprezando totalmente. Minha indignação e minha raiva aumentaram como nunca. O senhor que estava jogando baralho com ele se assustou comigo.

-NÃO SIGNIFICA QUE VOCÊ ESTEJA FORA DA ÁREA DO HOSPITAL!

-Pronto? Já acabou o escândalo?-aquela cara de deboche repugnante só me fazia querer cada vez mais voar no pescoço dele. Minha respiração falhava de pura raiva. Eu não estava conseguindo controlar meus instintos e a cena da minha mão na cara dele estava se tornando cada vez mais clara na minha mente. Tentava repetir um manta para mim mesma: “Não soque esse idiota, não soque esse idiota”, mas a vontade de fazer isso era tentadora. ainda me encarava com o maior sarcasmo e deboche possíveis. Deu uma risadinha curta, e voltou a jogar cartas com o velhinho.

-Dessa vez se você roubar eu paro de jogar, cara. –ele se dirigiu ao senhor, desprezando-me da forma mais intragável possível. Não queria me mostrar afetada pelo desprezo, mas também não queria dar as costas e deixá-lo ali. Cruzei meus braços e fiquei assistindo os dois jogarem, enquanto ele dava tragadas no seu cigarro e o pobre senhorzinho tossia roucamente. Eu não iria arredar o pé dali enquanto não se tocasse do que estava fazendo. Mas ouvi a voz de me chamar:

-! O que você tá fazendo aí?-Me virei para trás e o vi parado na entrada do jardim, me encarando como se eu fosse uma doida que tinha acabado de fugir de um Hospício (n.a: mas eu sou de um Hospício –q ignorem). Ele olhou mais para minha frente e seu olhar se encontrou com os olhos severos de , que o encararam. desviou sua atenção para mim novamente, e me puxou pelo braço para fora do jardim. Claro que eu protestei, mandando ele me soltar diversas vezes, mas ele só fez isso quando me levou para bem longe do jardim.

-Meu, não dá bola para ele!- me encostou na parede e falou seriamente-Se você se irritar, você vai estar dando a ele o que ele quer!

-Você ouviu os meus gritos?

-Quem não ouviu? , é sério…Quanto mais nervosa você fica, mais ele te atormenta.

-, eu não fico nervosa! Foi só hoje, eu não me agüentei, ele estava fumando, você não viu?- era meu melhor amigo, mas às vezes ele me irritava. Eu não sou o tipo de pessoa que gosta de receber críticas, e eu sei que esse é um defeito muito grande.

-Eu vi , vi sim, mas por favor, não se estressa com ele tá? Te garanto que não vai fazer bem...Ou melhor, já ando percebendo que não te faz bem.- olhou atentamente para o meu rosto e fez uma cara de desapontamento.

-Eu estou perfeitamente bem, . E tenha certeza que eu não dou motivos para que ele me irrite!-exclamei, demonstrando um pouco de irritação na minha voz. mexeu a cabeça negativamente, em sinal de desaprovação.

-Tudo bem, . Só quis te avisar...-ele me deu um beijo na testa e foi andando. Só que minha mente teve um estalo repentino, e eu tinha que perguntar, tinha que ir atrás de , e foi isso que fiz.

-!-falei alto o suficiente para ele se virar e voltar até mim, com um ponto e interrogação estampado na face.-Você...Você conhece o de algum lugar?

-Erm...Não ! De onde você tirou isso? –percebi que ele não queria demonstrar, mas havia um certo nervosismo na sua voz. –Não, eu não conheço ele.

-Ok...-assenti, e ele sorriu timidamente e voltou a seguir seu rumo. Fiquei olhando-o andar, com as mãos no bolsos e pensando em um milhão de coisas sobre o que tinha acontecido há alguns segundos atrás. pareceu realmente estranho,tanto em pedir para que eu não me estressasse com , tanto para responder minha pergunta. Eu sentia que ele ocultara alguma coisa de mim, mas decidi não pensar mais nesse assunto e segui rumo à enfermaria. Meu expediente duraria por muitas e muitas horas, e só eu e iríamos ficar nesse plantão. iria ficar no da madrugada, e não nos encontraríamos hoje.

Claro que continuei trabalhando, atendendo as pessoas nos quartos particulares ou na enfermaria. Finalmente eu tinha encontrado algo para me distrair, que me fizesse relaxar um pouco e tirar do meu cérebro certas coisas que andavam me perseguindo. Se eu não gostasse de ser enfermeira, não teria tanta satisfação em trabalhar e o tempo não passaria tão rápido quanto eu sinto que passa. Certa hora, parei no balcão um pouco e o Ramal de um dos quartos tocou, mostrando que alguém precisava de atendimento. Quando olhei fiquei com vontade de não ter feito isso. O ramal que tocava era o do quarto dele, do . Droga, droga, droga. Eu não queria ter que encarar ele novamente, não queria ter que perder a paciência, mas como sempre, o mundo CONSPIRA contra mim, e estava no outro bloco do Hospital, cuidando de um paciente que estava em estado grave. Ou seja: teria que pagar o pato.

É terrível ser uma pessoa de má sorte. Reuni todas as minhas energias positivas e comecei a rumar para o quarto de , com o nariz em pé, neutralizando todo pensamento furioso que insistia em surgir na minha mente. Não tive paciência para esperar o elevador e subi os dois andares de escada; era até mais saudável. Andei imponentemente pelo corredor do quarto de , e quando parei em frente à porta do mesmo, apertei a campainha sem hesitar. Se eu tivesse que encara-lo mais uma vez, que fosse logo. Como eu já havia esperado, ele não respondeu,e eu passei o cartão e fui entrando. E me dei de cara com a porta do banheiro semi-aberta. Vi tomando banho, de costas para a porta, e levei um susto. Fiquei estática com aquela visão. Não conseguia me mexer, nem respirar, não conseguia fazer nada. Só observava a cena, sem mover nenhum músculo enquanto ele esfregava seus cabelos, a água caindo em seu corpo...Perfeito. Seus braços fortes, suas costas tentadoras...E aquela bunda! Meu Deus, que bunda! Parecia que eu tinha acabado de ver a perfeição. Eu nunca havia reparado no físico dele, afinal, só o vira de pijama ou de roupa normal, e Meu Deus, eu não posso mentir, eu me surpreendi. Nunca tinha visto-o por esse lado; nunca tinha reparado como ele era lindo e charmoso. CALMA AÍ. Lindo e charmoso? , o que você cheirou hoje? é um grosso, insolente e estúpido, a última coisa que ele poderia ser é charmoso!

Meus olhos queriam continuar vendo, mas minha mente não, o que fazia meu cérebro entrar em um conflito angustiante. Eu queria sair dali, não era certo ficar olhando pra ele, mas não obedecia minha razão. Toda a minha sanidade estava concentrada em olhar aquele homem. Só despertei quando ouvi o chuveiro sendo desligado, e em um pulo, me joguei para a parede do lado da porta, antes que ele se virasse e visse que eu estava observando-o. Minha respiração saia abafada e ruidosa, enquanto um silêncio mortal reinou dentro do banheiro. Não ouvia nenhum sinal de vida de , e pensei em ir embora para não causar uma má impressão, quando a porta do banheiro se escancarou e um molhado, de cabelos desgrenhados e de toalha na cintura me olhou com curiosidade.

-Espionar é feio, sua mãe não te ensinou, ?-ele se virou para mim, e foi se aproximando. A sensação de que o oxigênio tinha sumido da atmosfera terrestre tomou conta de mim. exalava um perfume bom, mesmo que fosse de sabonete; era cheiroso, entorpecente. –Você acha que eu sou idiota. Eu percebi que estava me vendo.-aproximava-se cada vez mais, ficando frente a frente comigo. Eu ia o mais pra trás que podia na parede, quase furava-a e esquecia-me de que não tinha como fugir.

-Eu não estava te vendo. Vim...Vim ver o que você queria. –minha voz não saiu como esperava. Acabou falhando e demonstrando insegurança. deu um sorrisinho de canto, e se aproximou mais ainda. Estávamos a milímetros de distância, tão próximos que nossas respirações se fundiam. O cheiro dele e sua boca estavam me deixando sem nenhuma lucidez.

-Mas acabou vendo o que não queria. –seu olhar passou dos meus olhos para a minha boca e inevitavelmente eu fiz o mesmo. –Ou você queria?-ele apoiou um de seus braços na parede, ao lado da minha cabeça e se não estivesse muito enganada, senti sua respiração falhar.

-Fala logo...Porque você chamou. –não sei da onde reunia forças para dizer algo. Engoli em seco, enquanto meus olhos praticamente se fechavam com a distância entre nós dois. Não, eu não estava conseguindo controlar as minhas sensações e muito menos os meus atos.

-Eu só queria ver se você viria. – se afastou de mim tão rápido quanto se aproximou, e simplesmente deu as costas, indo para a sua cama. De repente eu voltei à realidade e sai do quarto, quase correndo, batendo a porta ao passar. Meu coração batia tão rápido que eu sentia que a qualquer instante ele rasgaria meu peito. Andei sem prestar atenção aonde ia, meu cérebro estava atordoado, meu coração descontrolado. Ele nem ao menos havia tocado em mim. Ele não era NADA para mim. Por que eu sentia isso? Por que eu desejei que ele me beijasse? Que ele me tocasse? Não queria dar ouvidos para as batidas que ecoavam no meu peito. O que eu iria ouvir, era a razão. E a razão me dizia que eu não podia sentir o que quer que fosse por ele.



Quinto Capítulo.


Meu desespero era maior do que eu. Precisava sair daquele hospital. Respirar um ar que não fosse aquele, ir para um lugar bem longe daqui, pra minha casa, onde eu estaria a metros e mais metros de distância dele. Não queria mais sentir isso, não queria me confundir, me desesperar, não queria que o ar me faltasse de novo. A única coisa que eu desejava era me livrar de tudo que estava me perseguindo, de tudo que tinha acontecido. Quando olhei para o relógio e vi que ele acabara de dar 22:00 da noite, sem hesitar fui correndo até o vestiário, pegando minha bolsa dentro do meu armário e tirando meu jaleco. Saí do vestiário a mil e quando abri a porta para sair na rua, apareceu na minha frente, me segurando pelos dois braços e me impedindo de andar.

-Hey, onde você pensa que vai pequena? Hoje é dia de ir embora comigo!

-, eu preciso ir pra casa, hoje não.-falei até um pouco ríspida, tentando andar, mas ele me impediu.

-Não, nada disso! Por que você tá assim hoje?-ele olhou nos meus olhos, tentando decifrar meus sentimentos. Eu tinha muito medo disso, porque normalmente ele conseguia fazer isso.-A senhora vai voltar comigo sim, se não eu vou ficar magoado.

-Tá, tá bom.-concordei, um pouco a contra gosto. deu a mão pra mim e me levou até o carro dele, um jipe Audi que ele comprou em mais de 36 vezes. Dei vários risos quando ele chegou no Hospital com aquele carro e disse isso. tirou uma com a cara dele até a morte. destravou o carro, e eu sentei no banco do passageiro. Eu não tenho carro por que sou pobre ok? Mas sim porque sou a favor de preservar o meio ambiente e evitar a destruição da nossa atmosfera. Meu amigo também entrou no carro e partiu, e eu agradecia a Deus por ele dirigir prudentemente. Ficamos em silêncio por muito tempo, até quase a metade do caminho. Eu sabia que se eu puxasse algum assunto com ele, com certeza essa conversa iria parar em um assunto que era preferível estar morto.

-Pequena, você tá muito estranho hoje. Fala alguma coisa, normalmente você fala que nem um papagaio!-Tinha quase certeza de que ele não conseguiria ficar calado por muito tempo.

-Eu não to estranha, só estou preservando as minhas cordas vocais. –respondi meio distante, e riu com a minha piada sem nexo.

-, eu te conheço bem até demais. Eu sei quando você tá preocupada com alguma coisa, e quero que você me conte o que é.-não, não ia desistir tão fácil disso.

-Não tem nada pra te contar, , que droga!-me irritei e cruzei os braços, sabendo que essa atitude só faria ele insistir mais.

-Eu sei que quando você fala isso é porque tem, desembucha. Por que desde quando você voltou do segundo andar você tá assim?-ele foi bem direto, eu fiquei muda, sem saber nem ao menos por onde começar a responder. Sim, eu contava tudo para , mas tinham coisas que eu preferia não mencionar, ou porque eram muito pessoais, ou muito sentimentais, e para falar de sentimentos com um homem é meio difícil.

-, como você é chato, insistente e inconveniente!-protestei, virando a cara pra ele. Eu não queria contar mesmo, droga.

-O que eu fiz pra você ? Só quero ver se eu posso te ajudar...Não gosto de te ver angustiada assim.

Ele me olhou com cara de cachorrinho sem dono. Seus olhos chegavam até brilhar para mim. Eu sabia que seria difícil contar tudo o que acontecera para , mas ele era meu melhor amigo, e eu sabia que mesmo que às vezes eu não escutasse muito os conselhos dele, inconscientemente eu os seguia.

-Tá, mas...Você promete que não vai fazer nenhum comentário enquanto eu estiver falando?-questionei para , que fez que sim com a cabeça, mostrando sinceridade em seus olhos. –Se você rir também apanha.-ele sufocou um risinho, e voltou sua atenção para a rua, antes que batesse o carro. Respirei fundo, pensando em uma forma de contar com neutralidade à o que tinha acontecido, e comecei a soltar:

-Hoje, você estava na UTI quando eu tive que ir atender um chamado de um quarto. E quando eu fui ver quem estava chamando, adivinha? Era ele. E eu ttive que ir, não tinha outra pessoa para ir no meu lugar...Cheguei lá, apertei a campainha mas não ouvi resposta, então fui entrando e...E quando eu vi, ele estava tomando banho, com a porta meia aberta e eu não fiquei olhando.-engoli em seco nessa parte-Tentei me encostar na parede de sair de mansinho, mas ele desligou o chuveiro, e de repente tudo ficou em silêncio e quando vi, ele saiu do banheiro e começou a me provocar...

-De que jeito?- parecia um pouco assustado com as minhas revelações.

-Dos dois jeitos...Ele começou com as grosserias de sempre, mais foi se aproximando.. , ele quase me beijou.-concluí, fazendo uma cara fúnebre. Lembrar daquilo fez meu estômago dar várias voltas, como se ele não gostasse de sentir as estranhas sensações que causou em mim.

-Tá, isso foi muito estranho. E eu pensei em uma coisa que acho que você não gostará de ouvir. –ele falou cautelosamente, e quando o carro parou em um farol, voltou-se pra mim e me encarou, olhando profundamente em meus olhos.

-Fala o que você pensou, agora. –não pedi, eu obriguei ele a falar. suspirou fundo.

-Eu acho que aquele cara gosta de você. Não tem outra explicação pra ele te tratar tão mal assim e vice-versa. E isso que aconteceu hoje foi só uma prova disso. –quase fuzilei-o quando ele disse isso. Como tinha coragem de falar uma coisa dessas? Desde quando uma pessoa que supostamente gosta da outra, trata ela como me trata? Isso era totalmente impossível.

-, por favor, não fala uma coisa sem nexo dessas! Se ele tivesse pelo menos respeito por mim, até pensaria no que você disse, mas o fato é que aquele homem me odeia, me trata como um lixo, e eu só te contei isso porque não entendi a atitude dele!

-Amor...Às vezes as pessoas acham que essa é uma forma de esconder seus sentimentos.- filosofou, e o farol abriu. Fiquei em silêncio por alguns segundos, pensando no que responder. -Por que ele iria querer esconder os sentimentos dele que uma pessoa que ele mal conhece?

-Não sei, . Isso foi só o que eu concluí.-isso pareceu ser o fim dessa nossa conversa. Quando prestei atenção no caminho, percebi que já nos aproximávamos da minha casa. Alguns minutos depois, me deixou na frente do meu prédio. Me despedi dele com um beijinho estalado na bochecha e subi as escadas, enquanto ouvi partir com o carro. Cheguei ao meu apartamento e abri a porta, sendo recebida por Cenourinha, que se enrolou nas minhas pernas assim que eu pisei em casa.

- Ai bebê...-me agachei para pegar ele no colo, que ronronou alto.-Se você me entendesse...Eu te contaria tudo que eu estou sentindo. –comecei a fazer carinho na sua cabeçinha, e ele fechava os olhinhos com os afagos. Fiquei olhando para Cenourinha e aos poucos fui perdendo-me nos meus pensamentos. Balancei a cabeça para me livrar deles e coloquei meu gatinho no chão, que me seguiu quando eu fui até o quarto. Joguei a bolsa na cama e suspirando, fui me despindo, disposta a tomar um banho quente e até murchar de tanto ficar na banheira. Terminei de tirar todas as minhas roupas, e rumei para o banheiro, deixando Cenourinha brincando em cima da cama. Liguei a água da banheira e esperei ela encher, sentada no vaso sanitário, mas sem fazer necessidades. Com a cabeça no mundo da lua, meus olhos se perdiam ao observar a água correndo livremente na banheira. O vapor começou a subir conforme o nível da água, e quando já estava funda o suficiente, eu entrei, sentindo a água quente envolver todo meu corpo.
No mesmo instante lembrei de . Droga, porcaria, merda. Por quê? Por que eu tinha que me lembrar dele assim, do nada? Não agüentava mais sofrer com isso, sinceramente, não agüentava. Afundei minha cabeça na água sem dó nem piedade e fiquei submersa por algum tempo, até emergir, quase sem ar. Minha respiração ofegante só me fez relembrar mais ainda de algumas horas atrás e de como eu tinha ansiado o toque dele. Meu cérebro, sem permissão, começou a simular a sensação do toque dele e eu senti um arrepio percorrer a minha espinha. Passei as mãos pelo rosto desesperada: eu TINHA que tirar isso de mim, essa vontade enlouquecedora de me atirar nos braços dele. Não entendia como uma hora um podia odiá-lo e depois daquilo passar a sentir essas coisas.
Um suspiro alto saiu de minha garganta, e eu decidi que a partir daquele momento, não iria mais pensar em nada. Só queria relaxar e principalmente, esquecer de tudo. Ou quase tudo.

Flashback On

-Bom dia, meu amor!-Lively disse, assim que os raios de sol invadiram seu quarto e iluminaram a face de seu marido, fazendo-o despertar de seu sono. Ele abriu os olhos devagar, e ela , que estava apoiada em seu peitoral nu, começou a distribuir beijos por toda a sua extensão. resmungou algo incompreensível, enquanto Lively continuava a trilha de beijos até sua boca, dando-lhe um selinho. Um sorriso enorme estava estampado em sua face e seus olhos verdes brilhavam ansiosos. Ansiosos para que ele se lembrasse da data tão especial que naquele dia se realizava: o aniversário de oito anos de casamento dos dois. Ela continuou sorrindo para o marido, crente que ele lembraria, que ele falaria algo. Mas nada. Deveria ser por causa do sono, assim pensou ela, mas sua esperança foi por água a baixo quando ele a empurrou de cima dele e levantou-se, sem nem olhar para trás, sem nem ao menos lhe dar bom dia também. Lively ficou pasma olhando ele se dirigir até o banheiro e bater a porta com indelicadeza ao entrar. Se afundou no travesseiro dele, sentindo seu cheiro, e principalmente, raiva. Deu um soco no mesmo e se levantou revoltada, pegou seu roupão de cetim no baú de sua cama e vestiu-o, saindo do quarto pisando firme.

Foi até o quarto da sua filha, e sem querer, acabou acordando-a com um pouco de indelicadeza. Allyson resmungou por alguns minutos, até Lively começar a brigar com a mesma para que ela se levantasse. Mandou a filha ir tomar banho sozinha, sem nem ir ajuda-la e deixou seu uniforme da escola em cima da cama, para que ela o vestisse. Saiu do quarto de Ally e foi para cozinha. Se estivesse de bom humor, com certeza teria cumprimentado seus empregados, mas não foi isso que fez. Dirigiu-se seca até um armário da extensa cozinha, e de dentro dele pegou um frasco com seu calmante. Retirou de dentro dele uma pílula, pegou um copo de água no bebedouro e a tomou, tendo a certeza de que aquilo iria aliviar um pouco da sua raiva. Ficou observando as empregadas arrumarem a farta mesa de café na sala de jantar e quando elas terminaram, se sentou para ser servida. Já sentia o efeito do calmante surtindo efeito em si, e até deu bom dia para uma de suas criadas. Foi servida de um pedaço de mamão e leite frio. Acreditava que comer muito de manhã na a fazia bem. Começou a comer, quando ouviu passos descendo a escada de mármore e logo ouviu a voz de chegar aos seus ouvidos.

-Lively, por que você não foi arrumar a Allyson?-ele se sentou, com a arrogância de sempre, do lado oposto ao seu na mesa. Allyson vinha em seu encalço, e sentou em uma cadeira ao centro da mesa, aparentemente triste e sonolenta. Seus cabelos estavam mal penteados. Lively corajosamente levantou seu olhar para o marido e ficou o observando antes de responder:

-Allyson não é um bebezinho, ela já deveria saber se trocar sozinha. E se viu que eu não fiz isso, por que não foi lá e arrumou a menina? Se te incomoda que eu não faço nada, como diz, por que você mesmo não faz?

Ela viu a face de se fechar mais ainda em raiva. Sabia que retrucar o que ele falara era pior ainda, mas seu desgosto era tanto que não conseguia ficar quieta.

-Porque essa é a sua obrigação. E você não faz nada mesmo Lively, ao menos cuidar da sua filha e da sua casa você deveria fazer! Não trabalha, tem tudo o que quer na mão e ainda não arruma a menina para ir na escola?-uma empregada servia enquanto ele cuspia suas palavras que atingiram Lively como balas de canhão.

-Então fique você em casa. Cuide você da Allyson. Tente fazer a metade das coisas que eu faço e entre elas está te suportar!-Lively rebateu grosseiramente. Ele a tinha como uma mera escrava e ela ainda pensava que ele se lembraria do aniversário de casamento dos dois. Levantou-se engolindo a vontade de chorar, e sem nem encostar na comida, foi subindo as escadas para voltar ao seu quarto. Ficar na presença dele estava a incomodando. Mas quando começara a subir os degraus, puxou seu braço com força, impedindo- a de andar.

-O que você está pensando da vida, Lively? Pensa que pode falar essas coisas pra mim na frente dos nossos empregados?

-Eu não penso, eu posso falar. Me solta.-ela tentou se soltar, mas ele não permitiu.

-Não. Você vai me escutar. Não sei porque a senhora está com essa antipatia por mim, mas eu preciso que você me acompanhe na festa da empresa hoje à noite.

Lively deu uma risadinha debochada. Depois de ter sido grosso, não ter lembrado o aniversário de casamento dos dois e quase chama-la de escrava ele ainda queria que ela fosse na festa da maldita empresa dele?

-Eu não vou ir, . Eu vou ficar em casa, cuidando da nossa filha, sendo uma escrava que sempre vai estar de pernas abertas na sua cama pra te receber, não é isso que você quer? Não é pra isso que você acha que serve uma esposa?-ela não conseguiu se controlar e suas palavras saíram em um tom mais alto que o esperado. aumentou ainda mais o aperto contra o seu braço, quase esmagando seus ossos.

-Você vai ir na festa comigo. Você tem que ir, eu estou mandando você ir Lively. Você é minha esposa e vai me acompanhar, mas se você preferir que eu chame outra mulher para me acompanhar que não seja você, não me incomodarei.

-Eu não vou ir!-ela ainda resistiu-Não vou ir a uma festa da porcaria da sua empresa, quando deveríamos estar fazendo uma festa pra comemorar nossos oito anos de casamento!–Lively não queria ter deixado aquilo escapar.Não queria demonstrar que aquele era o motivo de todo seu chateamento, mas o impulso foi maior do que ela.

-Foda-se que hoje é o nosso aniversário de casamento! A gente pode comemorar outro dia! Essa festa é mil vezes mais importante do que isso, e você vai ir se não te garanto que não vai gostar nem um pouco das conseqüências.- os olhos dele quase a perfuravam, tanto de superioridade quanto de raiva. Ele parecia estar dominado por um ódio imenso. Apertava mais o braço dela a cada minuto sem uma resposta. Ela mordeu os lábios para não falar mais uma série de verdades para ele e controlar seu choro, temendo que aquele aperto se tornasse muito mais do que isso. Simplesmente conseguiu se soltar e lançou um olhar superior à ele, mas ao mesmo tempo concordando com a imposição, e subiu para o seu quarto. voltou para a mesa do café e continuou a fazer a refeição como se nada tivesse acontecido. Já Lively se sentou inconformada na sua cama, massageando seu braço, que aos poucos estava ficando roxo, devido a força da mão dele. Quando ela pensava que as coisas não poderiam ficar piores, a vida só lhe provava o contrário.

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Sem ter saídas, Lively começou a escolher um de seus vestidos de festa para usar na celebração da empresa de seu marido. A tarde começou a ir embora quando ela decidiu ir se arrumar. Tomou um banho, e já com o vestido escolhido, se maquiou sozinha, sem ajuda de ninguém, e também fez o próprio cabelo. Sempre soube se virar sozinha perfeitamente bem, nunca precisou depender de ninguém. Não entendia porque se tornara tão submissa assim ao seu marido. Aquela não era ela. Não era a Lively que sempre sonhou em ser uma grande artistas, mas teve seus sonhos interrompidos por uma gravidez e um casamento precoces. No começo, não se importou, afinal, a amava, a tratava de uma maneira que ela não sentia falta de trabalhar e até mesmo se sentia feliz por ficar em casa e poder dedicar-se a seu marido e filha. Mas agora, o que ela mais queria, era voltar a pintar suas telas, abrir uma galeria e voltar a ativa. Sua vida havia tomado um rumo que ela nunca imaginara.
Terminou de se arrumar. Estava deslumbrante. Seu vestido era azul marinho, de cetim brilhante, de alças e longo. Colocou um colar simples e delicado de prata no pescoço, que combinava com os brincos de prata e brilhantes. Soltou e alisou seus cabelos loiros, maquiou-se com suavidade, calçou lindas sandálias prateadas e passou um de seus melhores perfumes. Sabia que não merecia essa produção toda, mas queria mostrar para ele que não estava nem um pouco abalada. Conferiu-se no espelho e foi ver Allyson, que fazia seu dever de casa quietinha no seu quarto. Chegou devagar e ajoelhou-se ao lado da filha, que sorriu para ela.

-Você está parecendo uma princesa, mamãe.-disse Allyson, ainda sorrindo enquanto sua mãe passava a mão por seus cabelos loiros.

-Obrigada filha, mas a única princesa aqui é você.-deu um beijinho na cabeça da filha e voltou a alisar seus cabelos, observando o que ela estava escrevendo.

-Aonde você vai ir hoje, mamãe?-Allyson descansou o lápis sobre sua escrivaninha e encarou a mãe.

-Eu e seu pai vamos a uma festa da empresa. A Elizabeth vai ficar com você, não se preocupe.

-Ah mamãe...Eu não posso ir junto?-a menina fez biquinho, tentando convencer a mãe.

-Não, é uma festa para adultos, você não pode ir. Se comporte. Não vamos chegar muito tarde. –Lively deu um beijinho na testa da filha e saiu do quarto dela, voltando para o seu. Olhou-se no espelho e tentou achar algum defeito em si, alguma deformidade, anomalia, que afastava cada vez mais seu marido. Mas não encontrou. Talvez o problema não fosse com ela, como pensava, e sim com ele. Ela nunca o negou nada; nenhuma noite de amor, nenhum beijo, nenhum toque. Não havia motivos para que perdesse o interesse nela. Lively imaginava muitas coisas, mas preferia tentar afastar isso de sua mente. Seria pior se ficasse pensando nos porquês de tudo.

Ouviu passos no corredor e quando virou para trás, viu seu marido parado à porta, com a pasta em uma mão e o paletó pendurado no ombro. Ele deu um sorriso enviesado e entrou no quarto, sem lhe cumprimentar, então ela voltou a olhar-se no espelho, mas conseguia ver tudo o que ele fazia. deixou sua pasta em cima da cama e começou a se despir, desabotoando sua camisa. Porém, parou no meio do caminho e foi aproximando-se dela por trás, encostando os lábios no seu pescoço. Lively inevitavelmente fechou os olhos; fazia muito tempo que isso não acontecia. Ele colocou as mãos em volta da sua cintura, aproximando mais os corpos dos dois.

-Faz tempo que eu não te vejo bonita assim.-ele falou, ainda sem desgrudar os lábios de seu pescoço. Lively sentiu-se até feliz com o elogio, mas flashes da briga que acontecera de manhã vieram à mente dela.

-Talvez seja porque você não tenha mais tempo de reparar em mim.-Lively rebateu o comentário, e sentiu que ele deu uma risada falha.

-Pare de falar sobre o tempo.- começou a beijar o pescoço da mulher, provocando o máximo que podia. Os flashes de todas as brigas que eles andavam tendo ainda passavam por seus pensamentos. Ele foi subindo as mãos pela cintura dela, parando com elas um pouco abaixo do seu busto. Os beijos tornaram-se mais intensos, a ponto de deixarem marcas. Lively suspirou quando ele levou as mãos até seus seios e os apertou com força. Ela sabia que de nenhuma forma ele merecia ter essa retribuição depois de tudo, mas estava ficando difícil resistir. decidiu virá-la de frente e lhe roubou um beijo cheio de desejo. Aos poucos as mãos dele se dirigiram até as alças do vestido dela, e quando ele fez menção de abaixá-las, Lively o impediu.

-Você acha que as coisas são muito fáceis, não acha? Você me xinga pela manhã, me machuca por dentro e por fora.-ela foi empurrando ele para longe de si aos poucos- e de noite acha que eu serei toda sua em um estalar de dedos. Fique sabendo que nada funciona desse jeito.

ficou com cara de desgosto quando ela lhe deu as costas e voltou a se admirar no espelho. Por alguns instantes ficou observando-a por trás, a raiva aparente em seus olhos . Lively não deu importância a isso, mostrou-se o mais superior possível, mesmo que tivesse sofrido para dizer não a ele. O que importava naquele momento, era que tudo o que ele fazia à ela não merecia essa retribuição. Ele despiu a camisa e as calças, tirou os sapatos e foi para o banheiro. Ela decidiu descer e esperá-lo na sala. Aproximadamente meia hora depois, desceu impecavelmente arrumado, vestindo um terno elegante preto e uma gravata cinza-escuro. Seus cabelos estavam penteados e seu ar arrogante presente mais do que nunca. Ouviram-se passos e Elizabeth, a governanta da mansão, apareceu na sala.

-Com licença senhora , mas o que a senhora vai querer que sirvam de jantar para a Allyson?

- Pergunte para ela o que ela vai querer...Não tenho nada em mente. –Lively respondeu e a governanta assentiu, subindo as escadas rumo aos quartos. Ela e o marido se encararam por alguns instantes; permanecia com seu olhar de desagrado. Ele passou por ela e foi até a porta, dizendo gravemente:

-Vamos.

Lively o seguiu, quieta como se estivesse em um funeral. Ele abriu a porta e educadamente deixou ela passar primeiro, logo depois saindo e fechando-a. Os dois desceram os degraus de mármore da mansão e foram até o carro, onde um motorista os esperava. O empregado abriu a porta para que eles entrassem, e os dois se sentaram lado a lado, mas sem trocar nenhum olhar, e assim foram até chegar na empresa de . O motorista parou o carro e abriu a porta para que eles descessem, e lado a lado eles subiram as escadas da frente da Biocorp Group. Na entrada, haviam recepcionistas que entregavam panfletos para os convidados e até jornalistas, que tiraram fotos dela e de . Esse era o preço de ser mulher do maior empresário farmacêutico do mundo. Os dois entraram no saguão de entrada, que fora impecavelmente arrumado para a grande festa, e foram andando até o salão de festas, que estava mais glamuroso ainda, se possível. Assim que pisaram lá, todos vieram cumprimentá-los. Lively não gostava de toda essa atenção. Ela era só a “mulher do ” para todas aquelas pessoas ali. Só aquela que tinha que ser meiga e atender a todos os pedidos do marido.
ficou conversando com alguns empresários e como sempre, se esqueceu de que ela estava ali do seu lado. Para evitar a crescente irritação que subia em seu peito, Lively decidiu se afastar e foi procurar sua melhor amiga e mulher do sócio de seu marido, Claire. Sentou-se na mesa do salão aonde ela estava e tentou se distrair, evitando olhar para , que nem havia percebido que sua mulher tinha saído de perto.
Ele continuou conversando com alguns colegas, bebendo e fumando, nem notando a ausência da esposa. Seus olhos incansáveis procuravam outra coisa. E essa coisa tinha acabado de pegar um copo de wisky com o garçon mais próximo e vinha em sua direção. continuou falando, mas só prestava atenção na mulher de cabelos ruivos, vestido preto, de decote vertiginoso e de fenda gigantesca que se aproximava cada vez mais. Ela passou sorrateiramente ao seu lado, e sussurrou:

-Você está me matando de tesão com esse terno.

Ele mordeu os lábios, se animando com o comentário tão promíscuo que Janice fez. Ela saiu do seu lado rebolando, e ele até virou-se para observá-la. Estava tentadoramente sexy. Ele não iria resistir. Disfarçou com elegância que iria atrás de um garçon para pegar uma bebida e seguiu Janice. Quando ficou bem próximo a ela, da mesma maneira que ela havia feito há alguns momentos atrás, ele disse:

-Me encontre na minha sala, lá em cima.

Janice sorriu enquanto ele deu as costas e se afastou dela, antes lançando-lhe um olhar penetrante e cheio de malícia. atravessou a multidão, evitando todos que queriam falar com ele e foi se dirigindo para o elevador, que o levaria até sua sala. Janice percebeu para onde ele ia, e esperou somente alguns minutos, tempo suficiente para que o elevador retornasse e ela pudesse subir atrás dele. Ajeitou seu decote, e sozinha ficou esperando o elevador parar no último andar do prédio. Assim que ele parou, viu a porta da sala de seu chefe aberta e para lá se dirigiu, dando de cara com um sentado na sua cadeira, de frente para a porta. O olhar dele transbordava malícia e desejo. Janice foi se aproximando, abaixando as alças do seu vestido e deixando seu colo a mostra. Deu a volta na mesa e se jogou no colo de , trocando um beijo mais do que fervoroso com ele. As mãos dele começaram a passear por todo seu corpo, entraram na fenda de seu vestido e logo tiravam a sua calcinha.

-Você não presta mesmo...Sua esposa está lá embaixo...Que nem uma idiota...Te acompanhando...E você aqui...Se amassando com uma secretária...-ela falou entre o beijo, provocando-o com leves mordidas.

-Eu quero que ela se dane...- subiu suas mãos para o decote da moça, apertando seus seios e fazendo-a gemer. Ela passou a tirar o terno do seu amante, deixando-o cair no chão, e logo depois começou a abrir o zíper da calça de alta costura dele. Os dois não paravam de se beijar por nenhum segundo. Ele levantou o vestido de Janice até depois da cintura da mesma, enquanto ela ainda trabalhava em descer sua calça e sua cueca. de um sorriso absolutamente tarado quando sua cueca foi parar no chão, e ela sorrateiramente deslizou a mão para uma das gavetas da escrivaninha, tirando uma camisinha de lá de dentro. Janice abriu a embalagem com os dentes, deixando ele mais excitado ainda.

-Você fica extremamente sexy quando faz isso.- disse, fechando os olhos quando ela mesma colocou o preservativo nele, e sem mais esperar, fez os corpos dos dois virarem um só.

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Lively olhava para todos os lados do salão, mas não enxergava em lugar nenhum. Queria saber onde ele estava, não era possível que ele ficaria a festa inteira longe dela. Não prestava mais atenção no que Claire falava. Sabia que não devia se preocupar, mas era difícil. Só foi interrompida de seus pensamentos quando , o melhor amigo de seu marido e sócio da empresa se sentou na mesa ao lado de sua esposa.

-Hey Lively! Em que mundo você está?

-Hãn? Ah, Oi ...-ela deu um sorriso amarelo-Você sabe onde o está?

-Não, por isso mesmo eu vim aqui. Ele precisa fazer um pronunciamento e simplesmente sumiu! Precisamos dele aqui agora. – disse, meio preocupado.

-Eu vi ele indo para o elevador quando a Lively veio falar comigo!-Claire comentou, e Lively imediatamente levantou-se. Estava determinada a achá-lo. Ele não podia deixá-la sozinha desse jeito. Entrou no elevador respirando fundo, seu coração batia de um jeito diferente. Ela sentia que aquela ausência dele e o motivo dela não iria agradá-la nem um pouco. O elevador parou no último andar; ela imaginou que ele devia estar resolvendo algo em sua sala. Viu que a porta da sala estava entreaberta e sem bater-grande erro seu-entrou, e a cena que seus olhos registraram acabou com o seu mundo.

Havia uma ruiva em cima de seu marido. Transando com ele! Uma vadia, uma puta...Ela não acreditava. Isso era inadmissível. Era tudo o que ela menos sonhava que ele estaria fazendo naquela hora, com ela na festa, acompanhando-o mesmo depois de tudo o que ele havia feito! Não teve reações. Sua única reação foi ficar paralisada, enquanto os dois forjavam uma cara de espanto e a vadia parava de se mover em cima dele. Sem conseguir controlar, as lágrimas de puro ódio começaram a descer pelo seu rosto, e começou a encará-la sem um pingo de vergonha ou de surpresa estampado na sua face.

-Lively...Lively, calma...-ele começou a dizer, mas ela foi mais rápida e bateu a porta do escritório, impedindo seus olhos de continuarem vendo aquela cena. Ela perdeu totalmente seu rumo. Parou de andar bruscamente, se apoiando na mesa da secretária, pois começou a sentir uma tontura horrível. Ouviu a porta do escritório se abrir novamente alguns segundos depois e não precisou adivinhar quem era.

-Lively me escuta!

-CALA A BOCA!-ela não se controlou e gritou, pegando um porta-lápis em cima da mesa e atacando na direção dele,que estava só de calças.

-PARA COM ISSO! OLHA O ESCÂNDALO QUE VOCÊ TÁ FAZENDO, VOCÊ TÁ DOIDA? – gritou se aproximando,e quando ele o fez Lively deu um tapa de mão cheia em seu rosto tão perfeitamente esculpido, deixando uma bela marca vermelha nele. Ele a encarou com fúria, mas ela tinha nojo de retribuir o seu olhar e mais ferida e machucada do que nunca, entrou no elevador que por sorte ainda estava parado naquele andar.

Flashback Off

Acordei assustada. Meu coração doía, latejava, provando que eu tinha acabado de ter um sonho ruim, se não um pesadelo. Mas eu simplesmente não sabia com o que eu tinha sonhado! Bem, coisa boa é que não foi...Eu sentia que não. Percebi aos poucos que tudo a minha volta estava muito escuro. O dia ainda não tinha nascido, ainda devia ser de madrugada. Fechei meus olhos de novo, relaxando meu corpo, mas não o coração, que continuava a bater aceleradamente e a doer. Tentei me lembrar dos sonhos, porém, só a forma de dois grandes olhos vinha a minha mente. Os olhos dele.

Eu não podia ficar pensando nisso! Eu tinha que dormir, para encarar o dia de amanhã, mas minha luta para repelir meus pensamentos era em vão. O que mais atormentava, era que a todo instante a lembrança das palavras dele, sua respiração ofegante e a imagem do seu corpo semi nu na minha frente voltava aos meus pensamentos. Isso era irritante. Bufei e me remexi na cama, puxando mais o edredom para cima de mim e fechando os olhos com força, disposta a dormir fosse o que custar.
Acho que só consegui depois de muitas tentativas, e quando senti que o sono tinha me pegado de jeito, meu rádio-despertador tocou. Não, eu não mereço mesmo! Emburradíssima, me levantei e logo tratei de tomar banho, fazer minha higiene matinal e me arrumar com o uniforme branco e sem graça de sempre. Pra mudar um pouco, naquele dia coloquei um brinco de pequenos brilhantes amarelos e prendi meu cabelo em um bonito rabo-de-cavalo. Me maquiei diferente também, passei um pouco de delineador e um batom não muito forte. Depois de terminar de me arrumar, fui tomar café com cenourinha no meu encalço e logo parti para o Hospital.
Obviamente a minha viagem de metro até o Hospital foi entediante como sempre. Quando cheguei lá, só guardei minhas coisas no armário e já subi direto para a enfermaria, onde encontrei , que me abraçou.

-Bom dia pequena linda!-ele me disse, dando um beijo na minha bochecha.-Já tem trabalho pra você fazer!

-Ai ai...O que seria?-perguntei suspirando desanimadoramente.

-Levar os resultados dos exames do pro ver.

Até tinha me esquecido desses exames. Os resultados demoram entre cinco dias e uma semana para sair, e no caso dele não houve nenhum atraso . provavelmente pegaria eles e marcaria uma consulta para .

-Ah...Me dá eles e pode deixar que eu levo!-concordei com a tarefa, e foi para trás do balcão pegar os exames. Ele me entregou e eu sorri, indo em direção ao elevador que dessa vez me levaria para o terceiro andar do Hospital. Quando o elevador chegou ao seu destino, desci e virei a esquerda, indo para sala de . Chegando lá, bati na porta da sala dele, e escutei um “Pode Entrar” vir de lá de dentro. Abri a porta, vendo um sentado atrás de sua mesa, preenchendo algumas fichas.

-Hey doutor!-falei, e ele imediatamente olhou pra mim com um sorriso no rosto e se levantou de sua mesa, vindo me cumprimentar com um abraço amigável.

-Tudo bem senhorita , enfermeira padrão?- interrompeu nosso abraço me dando dois beijinhos na bochecha. –A que honra devo sua visita?

-Vim te trazer uns exames de um paciente...

–Oh, que decepção, estava crente que era pra conversar um pouco com seu amigo...Mas me enganei.-Rimos e eu entreguei os exames na mão dele, que observou a pasta onde eles estavam e se sentou em sua mesa novamente. Fez sinal para que eu me sentasse na cadeira à sua frente. Me senti uma paciente, quando ele abriu os exames e começou a observá-los. Fiquei olhando atentamente a sua feição, que de feliz foi adquirindo uma certa preocupação; as rugas de expressão na sua testa se juntaram em curiosidade e ele levou uma mão até o queixo, ainda lendo aqueles papéis. Meu coração de repente começou a doer um pouco, como se eu estivesse adivinhando o que estaria por vir.

-, eu preciso ir falar com esse paciente agora. É muito sério.- finalmente ergueu os olhos para mim, deixando bem claro todos os sentimentos que começaram a atordoar meu coração.




Sexto Capítulo.


Fiquei meio estática quando escutei o que falou. Tudo bem, aquilo não era nada. O fato de ele querer falar imediatamente não significava nada, poderia ser muito bem para contar uma notícia boa, mas eu sentia e via no olhar dele que não era isso. Respirei fundo, desviando os pensamentos ruins que insistiam em aparecer e fiz que sim com a cabeça para , que levantou de sua mesa e foi até a porta, abrindo-a para eu passar. Atravessei o portal e fechou a porta depois que ele também passou, e fui na frente, pois ele não sabia onde ficava o quarto do . Tivemos que pegar o elevador e descer até o segundo andar. Juro que mal conseguia respirar nos poucos minutos que fiquei no elevador junto com . Estava agindo como se ele fosse um homem bomba, que poderia explodir a qualquer segundo.
Descemos no segundo andar e continuei na frente quando começamos a atravessar o corredor, indo em direção ao quarto de . Se fizesse um pouco mais de silêncio naquele corredor, seria possível escutar as batidas desenfreadas e dolorosas do meu coração. Procurei andar devagar, mas não houve saída. Logo estávamos em frente a porta de e meus dedos trêmulos apertavam a campainha de seu quarto. Como sempre, não houve resposta de primeira, o que me fez engolir em seco e apertar de novo. Dessa vez, ouvi um muxoxo vindo lá de dentro, o que significava que poderíamos entrar e foi isso que fizemos.
O quarto ainda estava mergulhado na escuridão. Indelicadamente, acendi a luz, que revelou um semi-acordado, enrolado nos cobertores e cobrindo o rosto contra a claridade. Ainda era muito cedo, ele deveria estar dormindo, se não fosse a nossa presença ali. Ficamos algum tempo esperando ele acordar totalmente e sentar-se na cama, com os cabelos desgrenhados e a cara mal-humorada de quem tivera o sono interrompido.

-Bom dia, . – falou, sentando-se na ponta da cama dele e o encarando profundamente. Não sei se era fruto da minha imaginação, mas ele encarou da mesma forma que no dia anterior: como se eles já tivessem se conhecido antes. sustentou o olhar de por alguns longos segundos antes de responder:

-Bom dia, doutor . –Ele nem ao menos olhou para o nome de no crachá. Comecei a me assustar e a pensar as mesmas coisas que pensei ontem quando perguntei a se ele conhecia , mas me lembrei que o já tinha sido examinado por .

-Desculpe interromper seu sono tão indelicadamente assim, mas eu precisava vir imediatamente falar com o senhor. – usava um tom de voz firme e até um pouco frio.-A enfermeira veio me entregar esses exames agora há pouco. Você se lembra deles?-ele entregou para a pasta com os exames, que estavam em suas mãos. observou os exames, e depois os devolveu para .

-Lembro sim.

-Bem, todos esses exames, a tomografia, a ressonância magnética, a punção, o exame de sangue, de urina...Não deram resultados muito satisfatórios. – continuou, e quando ele pronunciou essas palavras, senti um vento frio bater no meu corpo. Olhei para , crente de que iria ver alguma preocupação nos seus olhos, mas eles se mostravam sem nenhuma emoção. –Mas, você já deveria ter uma idéia sobre isso não é, ? Nenhuma pessoa vem diretamente a um Hospital do Câncer sendo que não sabe o que tem. Se a emergência te trouxe até aqui, é porque você ou alguém da sua família tinha noção do que você está sofrendo.

-Minha empregada que chamou a ambulância. Não pedi para me trazerem para cá. – rebateu o comentário de friamente, e senti que um clima pesado começou a reinar entre os dois. Não só entre eles, no quarto todo, me atingindo também. Naquele instante pensei que não deveria estar ali. O paciente era , e o médico era , a conversa era entre os dois e eu não deveria estar assistindo. Mesmo que eu não quisesse ir embora, pois eu queria saber o que estava acontecendo, virei as costas para os dois e rumei para a porta, mas se pronunciou contra isso:

-, pode ficar aqui, você não está atrapalhando. Bem, continuando... , seja sincero comigo. Você já sabia o que tinha?

O ar pareceu ficar mais denso ainda. desviou um pouco sua atenção para mim e nossos olhares se encontraram. Pela primeira vez eu vi um sinal de angústia perpassar em seus olhos. E o máximo que pude fazer foi retribuir com mais angústia ainda.

-Não.-ele respondeu secamente, e sorriu meio de canto. Tinha percebido que estava mentindo. A agonia só aumentava a cada segundo, o ar ficava mais rarefeito, me impedindo de respirar. Eu já estava adivinhando o que veria a seguir, mas não queria ouvir. Era impossível entender naquela hora porque esse medo tão grande de saber a verdade me dominava. Pensei que isso iria demorar mais, porém decidiu ser curto e grosso em suas palavras:

-Então é melhor eu te falar o que você tem, . Você está com um Glioblastoma Multiforme no cérebro, ou seja, um tumor de alto grau. Você está com câncer no cérebro.

Um silêncio descomunal reinou naquele quarto. abaixou o seu olhar, encarando o nada, perdido nas suas próprias preocupações. Eu mordi meus lábios, tentando extravasar um pouco da minha dor, que havia atingido o seu auge. No fundo, eu já sabia o que tinha, mas nesses dias que ele ficou no Hospital, que eu cuidei dele, havia até esquecido disso. Mas agora, tudo tinha voltado à tona. O diagnóstico fora dado por um médico profissional. Nada era mentira, invenção: era a pura verdade. E nesse caso, uma verdade muito dolorosa.

-Mas infelizmente, sua situação é mais do que preocupante, . Você demorou muito para vir até um médico, para fazer esses exames, e eu sinto muito, muito mesmo em lhe dizer que o seu tumor está em um estado irreversível e não há como operá-lo. Se levarmos você para a mesa de cirurgia e tentarmos tirar seu tumor, você morre, porque ele está numa parte muito importante do seu cérebro. A cirurgia seria sua grande chance, mas ela está descartada. –Pensei que não havia mais palavras para serem ditas, mas continuou. deu uma risadinha debochada, como se ele já tivesse se conformado.

-Se você falar logo que eu vou morrer vai ser mais fácil. – interrompeu , falando debochadamente. Era incrível como até nessas horas ele conseguia ser tão frio e ignorante.

-Tudo bem...Você tem 90% de chances de falecer daqui há 6 meses.

sorriu de canto. Seus olhos não expressavam nada. Nada mesmo. Eu não conseguia ver o que ele estava sentindo, era como se ele estivesse bloqueando suas emoções. trocou um olhar indecifrável comigo. Diferente de , minhas emoções estavam mais a tona do que nunca. Meus olhos queriam chorar, mas eu estava me controlando o máximo que podia.

-Os 10% que lhe restam, só irão valer a pena se você permanecer aqui no Hospital e fazer quimioterapia. Há uma chance de parar o crescimento do tumor se você começar a se tratar, mas você é quem toma a decisão. Não precisa me dizer o que você quer fazer agora. Pode me contar o que você decidir até amanhã. – foi se levantando da cama de . Ele parecia um tanto magoado, talvez por não ter conseguido achar uma solução para o problema do seu paciente. Lançou um último olhar para ele e para mim, e foi saindo quarto, mas eu não fui atrás.

-, você não vem?

Fiz que não com a cabeça e me olhou confuso antes de sair de vez do quarto. Eu fiquei ali, parada, olhando para . Uma mistura de tristeza e pena. Queria dizer tantas coisas, queria poder ajudá-lo, mas sabia que qualquer tentativa de fazer isso seria duramente reprimida por ele. O silêncio nos dominou novamente. nem ao menos se mexia, continuava sentado a sua cama, encostado na cabeceira. Respirei fundo para falar algo, mas não consegui.

-Vai ficar tendo pena de mim por mais quanto tempo, ? Se for pra ficar aqui me olhando desse jeito, é melhor você sair daqui.

Tenho que admitir que depois disso meu coração começou a doer mais ainda, só que dessa vez, um sentimento de raiva se juntou aos outros. Eu estava ali quase chorando por ele, me preocupando, sentindo coisas estranhas desde a noite passada e ele continua me tratando como se eu fosse um lixo. Fiquei encarando-o por um tempo e sem encontrar palavras para me defender, dei as costas para e sai de seu quarto, batendo a porta ao passar. Se ele não quer ajuda, se ele não precisa de alguém que o console, então ele que se foda. Eu estava disposta a ficar do lado dele,mesmo depois de todas as grosserias e desfeitas que ele me fez, mas nem assim ele parecia aceitar a minha presença. Isso me revoltava.
Desci de novo para a enfermaria, arrasada, acabada, revoltada, me sentindo mal de todas as maneiras possíveis. Minha vontade era de ir embora naquele instante, mas eu ainda tinha um dia inteiro de trabalho pela frente. Encostei no balcão e apoiei minha cabeça em cima dos meus braços, parando pra pensar um pouco. Eu não devia estar sofrendo desse jeito por ele. não merecia nada, nem uma lágrima, nem um sentimento de dor que se formava no meu peito. Ele não significava nada para mim, só servia para me deixar irritada e magoada. Não era certo ficar me acabando por causa disso.

-, você tá bem?- colocou a mão sobre meus cabelos e eu levantei minha cabeça para ela, forçando um sorriso.

-Eu to bem, só to com um pouco de sono, .

-Tem certeza? Que cara de choro é essa? Te conheço ...O que fizeram pra você?- insistiu, e eu que já estava com meus nervos à flor da pele, acabei explodindo com ela:

-Mas que droga você e o , eu não posso respirar que vocês já vêm perguntar se eu to bem, eu to bem, EU TÔ ÓTIMA! –a última parte da minha explosão saiu um pouco alta demais e todos na enfermaria olharam para mim. me fuzilou com o olhar, lívida de raiva.

-Escuta aqui, dona ...Eu venho nas melhores das intenções perguntar se você tá bem e é desse jeito que você me trata?

O olhar dela era tão severo que eu tive até um pouco de medo. Eu sabia como era quando se estressava, e acabei percebendo que eu tinha ido um pouco longe demais.

-Desculpa, . Não quis ser grossa é que eu ando...Prestes a explodir. Me desculpa. –pedi desculpas demonstrando ressentimento na voz. amigavelmente me puxou para um abraço apertado. Os abraços dela me confortavam de uma maneira incrível, faziam pelo menos um pouco da minha insegurança e do meu nervosismo saírem de dentro de mim. Ela desfez o abraço, segurando meus ombros com as duas mãos e me olhando no fundo dos olhos, como se quisesse adivinhar cada sentimento que se passava dentro de mim.

-Não sei porque você tá assim, dona . Na verdade, eu até sei porque, e sinceramente espero que você venha desabafar logo comigo, antes que eu me irrite.- deu um sorrisinho implicante no final da frase e eu devolvi com um olhar triste. Detestava ter que ficar guardando meus problemas dentro de mim, a sete chaves, em um lugar tão profundo do meu coração a ponto de ficarem perdidos o bastante para não existir alguma maneira de desabafá-los depois.

-Eu não tenho nada pra desabafar.-menti descaradamente. Eu era uma infantil, trouxa, que não conseguia dividir nada relacionado à mim nem com as pessoas que eu mais amava. balançou a cabeça negativamente e deu as costas para mim, indo até o leito de um paciente. Sim, eu tinha idéia, tinha plena consciência de que eu magoava meus amigos demais com esses tipos de atitude, mas eu era assim e não conseguia mudar! Continuei apoiada no balcão, pensando em um turbilhão de coisas, quando vi se aproximar. Lá vem, outro que iria perguntar se eu estava bem.

-, tá na hora na quimioterapia da Scarlett. Você tem que ir buscar ela lá no quarto dela.

Foi realmente um milagre que não percebeu minha confusão e não perguntou nada sobre. Assenti positivamente e saí da enfermaria, andando devagar para a enfermaria das crianças, que ficava no mesmo andar. Parecia que eu estava flutuando; não tinha muita consciência sobre os meus movimentos. Meu corpo permanecia ali, se movimentando, mas minha mente se encontrava em um lugar bem distante. As palavras que dissera para ainda ecoavam na minha mente, como fantasmas que não queriam me deixar em paz.

”-Vai ficar tendo pena de mim por mais quanto tempo, ? Se for pra ficar aqui me olhando desse jeito, é melhor você sair daqui.

Essa frase era a que sem dúvidas fazia meu coração doer toda vez que meu cérebro fazia questão de relembrá-la. Ouvir a voz de dizer essas palavras tão frias e cortantes me magoava mais do que tudo, mas ao mesmo tempo me dava raiva, por eu ser tão estupidamente idiota e ter tido pena dele. Ele não merecia nenhum sentimento de pena vindo de nenhuma pessoa da face da Terra.

Ainda pensando nisso, percebi que já estava atravessando a enfermaria das crianças e indo em direção à , para que ela buscasse Scarlett no quarto para mim.

-, pode ir buscar a Scarlett para mim?-pedi a ela, colocando a mão sobre minha testa. Minha cabeça começara a latejar de dor.

-Posso sim...Tá com dor de cabeça? Quer um remedinho?- ofereceu, e eu neguei sua oferta. Ela então rumou até os quartos das crianças, saindo por uma porta oposta à que eu entrei. Fiquei esperando ela voltar com Scarlett, enquanto observava algumas crianças brincando, outras fazendo algum tipo de terapia ou recebendo medicação. Algumas acenavam para mim e eu retribuía tristemente, sem ânimo nenhum. Distraída, nem percebi quando voltou.

-Aqui está sua paciente...Até daqui a pouco, Scarlett!- afagou os cabelos dela e se reuniu à algumas crianças que brincavam.

-Tudo bem, Scarlett?-cumprimentei ela com um beijinho estalado na bochecha, e como ela estava sentada em uma cadeira de rodas, fui para trás da mesma e comecei a empurrá-la.

-Eu estou ótima, e você? –ela respondeu, provavelmente sorrindo. Pois é, Scarlett que enfrentava um câncer, fazia quimioterapia todos os dias, vivia dentro de um Hospital sem poder ser uma adolescente normal parecia estar mais feliz do que eu!

-Estou bem...-respondi, meio distante. Meio não, totalmente distante. Como eu queria que aquele dia acabasse, meu Deus.

-Não parece, sua voz está triste, . O que aconteceu?-era o que me faltava. Até Scarlett me perguntando o que tinha acontecido. É incrível! Quando não queremos falar sobre um assunto, sempre vem alguém que faz você ter que falar.

-Não aconteceu nada, Scarlett. Juro pra você, só estou um pouco triste.

-Ah , vai conta...Você não fica triste por qualquer coisa.-tentei demorar para responder o máximo possível, e até comecei a empurrar a cadeira dela mais rápido. Eu não tinha falado o que acontecera nem para os meus amigos, como iria falar para Scarlett? Chegamos até a enfermaria, e parei sua cadeira de rodas do lado de um leito. Ela se levantou sorrindo e sentou-se na cama, logo depois encostando as costas na cabeceira da mesma. Ainda sem silêncio, fui pegando todos os instrumentos necessários para aplicar a quimioterapia nela; tinha deixado tudo no jeito, pelo visto. Vesti as luvas descartáveis, encaixei a primeira dose da sessão dela no suporte para o soro e coloquei a agulha no tubinho que conduzia o remédio. Estiquei o braço dela e limpei com álcool o local onde injetaria a agulha. Procurei a veia dela para fixar a agulha, e quando fiz ela soltou uma exclamação de dor.

-Outch , dessa vez doeu!

-Ai perdão Scarlett, desculpa, por favor!-limpei um pouco do sangue que estava saindo do furo feito pela agulha e coloquei um pequeno esparadrapo para segurar o tubinho que levava o remédio até o corpo de Scarlett. Raramente eu machucava um paciente ao aplicar alguma injeção ou remédio. Isso provava que eu continuava mal. Muito mal.

-Tá desculpada, mas ...É óbvio que você não tá bem, você nunca me machucou!

-Foi sem querer Scarlett...-coloquei a mão na testa de novo, sentindo minha cabeça latejar de dor mais uma vez.

-, desabafa. Dá pra ver nos seus olhos que você tá precisando. –Scarlett me olhava de um jeito terno e encorajador. Era um olhar comovente, amigo e sincero. Um olhar que fez meu coração desabar ali na hora. Como eu podia estar sendo tão negligente comigo mesma? Como eu podia tentar negar tanto assim meus sentimentos? Não agüentei mais segurar, e uma lágrima silenciosa e profunda caiu dos meus olhos. Me sentei na cama de Scarlett e mais lágrimas caíram, eu já não conseguia mais controlar. Já era hora de tirar tudo isso de dentro de mim.

-...Você tá assim por causa daquele paciente que você me contou outro dia, não é?-Scarlett foi direta e mais certa do que qualquer pessoa que queria saber dos meus problemas. Apenas afirmei com a cabeça, tentando limpar as lágrimas que caiam pelo meu rosto. Pois é. Eu estava chorando por causa de um cara grosso, estúpido, sem sentimentos que só sabia ofender e magoar os outros.

Eu estava chorando por .



Continua...



N/A: Oi pessoas! Tudo bem? Wow, fazia um belo tempo que eu não atualizava essa fic. Na verdade não tenho desculpas pela demora, o fato é que fiquei com preguiça de mandar a att pra Dani kkkkkkkkkkk, me matem! Bom, mas agora saiu, e espero que vocês tenham gostado desse novo capítulo! Beijos xx

N/B: Tate preguiçosa -N. "Não deram resultados muito satisfatórios" "Você tem 90% de chances de falecer daqui há 6 meses" TAAAAAAAAATE QQQQÇO ): Eu vou chorar,tchau.
Qualquer erro avise: ilove.dani@hotmail.com ou @danypeixoto .