Is He Worth It?
por Minks Falcone
Beta-Reader: Loma R

Capítulo 1
And if you ask me if I love him... I'd lie.

Acordei às 7h, como em qualquer outro dia. Me preparei para ir para a escola e, às 7h30, estava saindo de casa. Mas cheguei atrasada, como sempre.
- Posso entrar? – Perguntei eu, envergonhada. Continuava a odiar que todos olhassem para mim, como faziam sempre. Estava ficando cansativo.
- Ms. , na próxima não entra! – Disse o Sr. Green, professor de Geografia.
Ele sempre dizia aquilo, e sempre me deixava entrar. Tive que passar pela frente de todo mundo, apesar de me sentar na última fila. Não havia espaço suficiente entre as mesas para eu passar entre elas. Quando me sentei, a se virou para trás.
- Parabéns, você ganhou o concurso de maior freak do dia – Disse ela, com um sorriso irônico.
Quem me dera conseguir responder a estas coisas que ela e as outras me diziam todos os dias, mas simplesmente não conseguia.
- Me deixa em paz – Foi a única coisa que consegui dizer.
- Ms. , importa-se de virar para a frente? – Felizmente o Sr. Green intercedeu.
- Com prazer – Respondeu ela, para os dois.
Depois começou a mandar bilhetinhos ao , o rapaz mais fofo e bonito que pisava a terra. E claro, namorado dela. Felizmente, a campainha tocou e eu peguei nas minhas coisas rápido, numa tentativa de sair dali o mais depressa possível. Mas, quando cheguei ao corredor, a , melhor amiga da , fez o favor de me dar um encontrão, fazendo com que tudo caísse dos meus braços. Me abaixei, ardendo de humilhação, porque estavam todos rindo de mim, e senti as lágrimas virem-me aos olhos. A , minha melhor amiga, apareceu nesse momento. Me ajudou a pegar as coisas e me levou para o banheiro.
Me sentei no chão do banheiro chorando.
- Qual é o prazer delas em me torturar? – Perguntei, retoricamente. Eu sabia, claro. Eu usava uns óculos com uma armação preta, enorme que os meus pais haviam escolhido para mim, o meu cabelo era uma porcaria e eu não sabia me vestir. Nem era bonita e elegante como elas. Claro que era divertido gozar com a freak.
- Eu te digo. Elas sabem que você muito melhor que elas e não a suportam, entendeu?
- Quem me dera ser isso…
- Mas você tem dúvidas?
- Sinceramente, ?
- Jogue esses pensamentos fora. Você vai ser alguém na vida, e elas vão servir as mesas. Um dia irão servir a sua mesa – Disse ela, com um sorriso maléfico.
- Não sei como, mas você sempre consegue me animar.
- Sabe o que mais? Três palavras para você, : aula de Química!
- Pois é, aula de Química – Respondi, pegando minhas coisas.
Assim que entrei no laboratório, o vi sentado na nossa mesa. , meu parceiro de laboratório. A estava sentada no meu lugar, por isso fui para o lado da , enquanto a professora não chegava. Mas ela chegou e eu tive que ir para o meu lugar.
- Olá, – Disse , com um sorriso.
- Olá, – Adorava a maneira como ele sempre me chamava pelo sobrenome e sempre sorria daquela maneira carinhosa quando me cumprimentava.
A aula passou como as outras. Ele me perguntava de vez em quando algo que não sabia, mas a nossa relação não passava disso. Mas não podia me queixar. Ao menos ele sabia que eu existia. No fim da aula, a veio falar com ele.
- Por que é que você ainda anda a perder tempo com esta mosca morta? Pode pedir para trocar de lugar – Disse ela, olhando para mim com desprezo.
- Ela não é assim tão má – Disse , já um pouco afastado.
- Pois não, é péssima – Disse ela, pondo os óculos de sol. Eles saíram do laboratório e eu deixei de ouvi-los.
- Como foi a aula? – Perguntou enquanto saíamos.
- Normal – Respondi, desanimada.
- Não desanima. Um dia vai melhorar, prometo.
- Espero que sim.
Nessa tarde, na aula de Ciências, a mandou um bilhetinho ao . olhou para mim, atento, e depois olhou para ela.
- Não me parece – Disse ele a ela, sem fazer som.
Ela assentiu com a cabeça e olhou para mim pelo canto do olho. Eu corei e desviei o olhar.
Um pouco mais tarde, enquanto arrumava as minhas coisas, veio falar comigo.
- Nem imagina o que ouvi…
- O quê?
- Ouvi que você está apaixonada pelo – Murmurou ela.
- Claro, eu te disse.
- Sim, mas eu ouvi a Kelly a contar à Sarah.
- Como é que isso é possível? – Perguntei, em pânico – Eu não disse a mais ninguém!
- Não olha para mim, eu também não disse!
- Mas agora todo mundo sabe! – Disse eu, batendo a porta do armário. Saí da escola o mais depressa possível.
Me sentei nas escadas do meu prédio, incapaz de ir para casa, mas vi o entrar e fugi. Me escondi debaixo das escadas. Eu sei, um esconderijo muito inteligente, mas pelo menos ele não me viu. Ele subiu, assobiando, e eu parei de respirar, com medo que ele me ouvisse. Ele já devia saber da notícia que corria. Quando deixei de ouvi-lo, saí de debaixo das escadas e dei de cara com o , o meu vizinho debaixo. Ele tinha 18 anos e eu tinha um fraco por ele quando era pequena, mas agora éramos amigos.
- Por que é que você está escondida debaixo da escada?
- Não estou.
- Mas estava. Por causa dele? - Ele apontou com a cabeça para as escadas por onde tinha acabado de subir.
- Não - Neguei, mas não fui bem sucedida.
- O que é que aconteceu desta vez? - Ele sabia tudo o que se passava comigo, ele e a eram quase os meus únicos amigos, pelo menos os únicos em quem eu confiava.
- O rumor que eu gosto dele anda correndo pela escola. E ele já deve saber – Eu lhe contei, me sentando nas escadas desanimada.
- Vai ter que falar com ele, mais cedo ou mais tarde.
- Prefiro mais tarde – Eu disse, me levantando - Tenho que ir.
- Ok, adeus linda.
- Linda, claro - Respondi eu com um sorriso, enquanto subia as escadas.
- Não duvide disso - Disse ele.
Entrei em casa e verifiquei que os meus pais não estavam. Fui para o meu quarto e me atirei com a mochila para cima da cama. Comecei a ouvir música vindo do andar de cima. Só podia ser o , porque o quarto dele ficava exatamente em cima do meu. Não me perguntem como eu sei, apenas sei...

's P.O.V.
Passou a aula de Química, com a . Não quero parecer insensível nem nada, mas quem me dera ter outra parceira de laboratório. Alguém mais, sei lá, animado!
Na aula de Ciências, a me mandou um bilhetinho.
"A gosta de você. Se afaste dela!"
O quê, a , gostar de mim? No way. Olhei para ela, que olhou para mim e olhei de volta para a .
- Não me parece – Eu lhe disse só com os lábios, sem fazer um som.
Ela confirmou com a cabeça e eu não sabia em que acreditar. Não me parecia, sinceramente, que fosse verdade. Talvez devesse lhe perguntar.

's P.O.V.
O dia seguinte foi igualmente ruim. Na primeira aula, quando fui ao quadro, quase caí quando tropecei no pé que a tinha posto no meu caminho.
Quando finalmente foi a hora do almoço, eu fui para o meu armário para guardar as minhas coisas. Quando o fechei, estava ao meu lado. Fiquei tão surpresa que não consegui reagir.
- Ouvi dizer uma coisa sobre você, mas não tenho a certeza se é verdade – Disse ele, sério.
Claro que ouviu. Ele agora ia dizer que tinha ouvido que eu gostava dele e eu não ia saber o que dizer.
- O que foi?
- Ouvi dizer que você gosta de mim – Disse ele, sem olhar para mim.
E agora? Só podia negar, mas não ia ser convincente. Gostaria de saber quem é que espalhou essa história. E aposto que sabia.
- O quê? Quem é que te disse isso?
- A . Mas é verdade ou não?
- Claro. – Murmurei eu. – Não, não é verdade. – Disse eu mais alto, para ele me ouvir.
- Então por que é que ela disse? – Perguntou ele.
Porque é uma vaca lunática e mentirosa?
- Não sei, pergunta para ela – Foi o que eu respondi, virando as costas.
Não correu tão mal como eu esperava. Pelo menos consegui negar e acho que ele acreditou. Cheguei em casa e encontrei o outra vez.
- Então, como foi o dia?
- Ele veio falar comigo. Mas eu acho que ele acreditou que não é verdade.
- Mas você está bem?
- Estou como sempre. O dia foi outro inferno, mas é a vida – Disse eu, com um sorriso triste.
- Um dia vai melhorar, com certeza.
- Mas estou cansada de esperar por esse dia! – Gritei eu, subindo as escadas correndo.
God, estava tão cansada que me dissessem que um dia iria melhorar! Queria que melhorasse agora!

Capítulo 2
Honest, let's make this night last forever.

No dia seguinte, quarta-feira, tínhamos aula de Química outra vez. A minha maior vontade era de ficar na cama, quentinha… Mas fui arrastada para fora pela minha mãe.
- Você vai chegar atrasada, !
- Já chego sempre – Murmurei, só para mim.
Cheguei atrasada, como era costume. Fui me sentar e a se virou para trás, como fazia sempre que tinha alguma ofensa para me dizer. Mas desta vez não era ofensa, era ameaça.
- Fica bem afastada do , ouviu?
- Não sei porque você está me ameaçando. Você está sempre dizendo que sou uma freak, deveria saber que mesmo que eu quisesse, não tinha essa opção – Disse, acentuando o mesmo que eu quisesse. Pela primeira vez na vida consegui lhe dar uma resposta decente! Que bem que me sentia!
- Sim, claro que não tem essa opção – Disse ela, me lançando um olhar de desprezo e virando-se para a frente.
Ela podia ser muita coisa, mas inteligente não era de certeza. Sinceramente? Não conseguia entender o que o via nela. Quer dizer, até conseguia. Mas os rapazes não podiam ser assim tão otários para só ligarem pro aspecto físico, não é?
A aula passou lentamente e eu não consegui prestar atenção. Eu bem que tentava, mas acabava sempre pensando noutra coisa qualquer.
Na hora do almoço, eu e a nos sentamos em nossa mesa habitual, um pouco afastada das outras. De repente ela começou com uma conversa estranha, sobre o novo bar que tinha acabado de abrir.
- Já ouviu falar do bar? Parece que é mesmo legal.
- Não sei, nem me interessa – Respondi, dando um gole no suco.
- Chama-se Gossip. Não é mesmo lindo o nome? – Disse ela, entusiasmada.
- Sim, é lindo – Eu disse, indiferente.
- Está decidido, vamos lá hoje – Declarou ela, com um grande sorriso.
- O quê?! Não, você está doida? – Exclamei, indignada.
- Por favor, ! Vai ser divertido.
- Você está brincando comigo? Aquelas todas provavelmente vão estar lá – Disse, apontando para e as suas amigas.
- Olha, nós nos arrumamos de maneira que elas não nos reconheçam se a gente se encontrar.
- Não, não quero ir! – Insisti.
- Passo na sua casa às 10h. É bom que você esteja pronta.
Percebi que ela não iria mudar de ideia e que eu ia acabar por ir. Então decidi ceder, porque precisava que ela me maquiasse e arrumasse o cabelo, porque eu não sabia fazer nada disso.
- Pronto, está bem.
Ela quase saltou da cadeira de entusiasmo.
- Mas com uma condição – Eu disse, fazendo o sorriso dela vacilar um pouco.
- O que é, sua chata?
- Ei! Não sou chata! – Resmunguei.
- Diz a condição!
- Tem que me ajudar a me arrumar.
- Claro! Você vai ficar linda! – Disse ela, sorrindo abertamente.
Tocou o sinal para a aula e nós fomos. Íamos ter Química, e eu estava um pouco nervosa por ter que me sentar ao lado de depois de ele me ter perguntado aquilo. Mas tinha que ser.
Quando chegamos à sala, a professora já estava lá. Me sentei no meu lugar em silêncio, sem olhar para o .
Hoje iríamos dissecar o pulmão de um porco. A professora pôs o pulmão no meio da nossa bancada e os instrumentos. Arregacei as mangas e olhei para , pronta para começar.
- Essa pulseira está abrindo – Disse-me ele, apontando para uma fitinha vermelha do Senhor do Bonfim da Bahia que eu tinha em meu pulso. Estava mesmo abrindo.
- Ah, obrigada. Está sempre saindo! – Disse, tentando apertá-la só com uma mão, meia desajeitada.
Ele pegou nas pontas, afastando a minha mão. Deu dois nós e depois olhou para mim, que estava a olhar para ele surpreendida.
- Achei que você precisava de ajuda – Explicou ele, com aquele sorrisão que eu amo.
- Sim, sim, obrigada – Disse, com um sorriso envergonhado.
Mais tarde, em minha casa, a me fez sentar numa cadeira e pegou toda a maquiagem que tinha levado com ela. Me pôs um pouco de lápis, um pouco de sombra, mas não muita, e blush. Depois me fez vestir um vestido tomara-que-caia branco, por cima dos joelhos, e umas sandálias da mesma cor, de salto alto. Depois puxou o meu cabelo todo para trás, pegou na mecha do meio e prendeu-a com uns ganchos. Me tirou os óculos, o que não me incomodava muito, porque eu não via assim tão mal. Pôs um pouco de gloss e eu estava pronta. Olhei ao espelho e estava realmente bonita, como nunca tinha estado antes. Talvez a tivesse razão. Talvez ir ao bar fosse boa ideia.
Fomos até casa do para saber se ele queria ir conosco. Ele aceitou logo e fomos embora. Quando chegamos, estava uma fila enorme para entrar. Ao fim de algum tempo, não sei quanto, entramos.
Lá dentro estava mesmo muito calor e a música estava altíssima. Estava um pouco escuro, mas focos coloridos se movimentavam por todos os lados. Sentamo-nos ao balcão e a e o começaram a falar sobre qualquer coisa. Mas eu estava muito ocupada olhando em volta para prestar atenção. De repente a olhou para mim, com um olhar que expressava cuidado, e eu olhei para trás e vi o vindo em nossa direção. Ela se levantou e preparou-se para ir embora, mas eu olhei para ela em pânico, tipo não me deixa sozinha, mas ela pegou o e se foi embora.
Grande melhor amiga… Pode ser que ele não venha para o meu lado.

's P.O.V.
O bar estava mesmo cheio de gente. Parecia que todo mundo tinha vindo para a abertura! Olhei em volta e o apontou para uma menina que estava sentada no balcão. Parecia sozinha.
- Vai lá você, dude – Disse.
- Não, vai lá você, . Esta noite é pausa da – Disse ele, rindo.
Encolhi os ombros e fui em direção a ela. Me sentei ao lado dela e ela olhou para mim. Ela era realmente muito linda. Olhou para mim de uma maneira, como se quisesse que eu fosse embora, mas que ficasse ao mesmo tempo. Reconheci esse olhar, mas nem liguei.
- Posso te pagar uma bebida? – Perguntei, fazendo o meu melhor sorriso sedutor.

's P.O.V.
Nem acredito que ele se sentou mesmo ao meu lado e falou comigo. Com um sorriso demasiado sedutor para mim.
- Claro – Respondi, sorrindo de leve.
- O que você quer?
- O mesmo que você – Na verdade, não entendia nada de bebidas.
Ele pediu dois Bloody Mary, e eu rezei para que não fosse muito alcoólico. Olhei para ele e ele olhou para mim, sorridente.
- Sou o .
Aí percebi tudo. Ele não sabia quem eu era. Por um lado isso era bom, quer dizer que podia agir como eu quisesse, sem pensar nas consequências. O que era muito tentador. Mas por outro lado era ruim, porque ele nunca ia falar comigo se soubesse que era eu.
- Tori – Disse, com um sorriso. Foi o primeiro nome que me veio à cabeça.
As nossas bebidas chegaram e ele me entregou a minha.
- Espero que você goste de Bloody Mary.
- Nunca bebi – Disse, cheirando a bebida. Cheirava forte, mas eu não podia voltar atrás agora.
- Cheers – Disse ele, bebendo a bebida toda de uma vez. Fiquei a olhar para ele de olhos esbugalhados. Como é que ele fez aquilo sem se engasgar ou outra coisa pior?
- Cheers – Eu disse, respirando fundo e bebendo tudo, como ele. Foi a pior escolha que eu podia ter feito. Comecei a tossir e parecia que iam me sair as entranhas pela boca.
- Você não devia ter feito isso se não está acostumada a beber – Disse ele, gentil, me segurando para eu não cair do banco.
- Pois você tem razão – Disse, quando finalmente parei de tossir.
- Se você já se sente melhor, podíamos ir dançar – Sugeriu ele, de novo com o sorriso sedutor que eu não gostava.
- Claro – Concordei, respirando fundo várias vezes antes de me levantar. Quando me levantei, fiquei um pouco tonta. Ele me segurou de novo e eu sorri.
- Acho que fiquei um pouco bêbada – Eu disse, dando uma risadinha.
- Não se preocupe, eu não deixo que te aconteça nada de mal.
Não fiquei muito sossegada com aquela frase, mas não pensei mais nisso. Fomos para a pista de dança e começamos a dançar uma música bem calminha. Ele pôs as mãos na minha cintura e eu passei os braços pelo pescoço dele. Estávamos a mexer no ritmo da música quando ele levantou o meu queixo.

's P.O.V.
Essa menina tinha me deixado completamente fascinado. Quando ela começou a tossir por causa da bebida, nem me deu muita vontade de rir. Fiquei bem preocupado. Mas ela ficou bem, um pouco corada, e fomos dançar. Ela mexia-se lentamente ao som da música, e eu não resisti. Levantei o queixo dela e lhe dei um selinho. Ela se afastou de mim, parecendo assustada.
- O que foi? – Perguntei, sem entender nada.
- Desculpa, tenho que ir. Já passei da hora – Disse ela, se afastando, e eu fiquei confuso.
- Que hora? – Peguei no pulso dela para impedi-la de ir.
- Eu tenho mesmo que ir. Prazer em te conhecer, – Ela puxou o pulso e desapareceu no meio das pessoas. Mas alguma coisa tinha ficado na minha mão. Uma coisa que eu reconhecia, mas não sabia de onde. Era uma fitinha vermelha do Senhor do Bonfim da Bahia.

Capítulo 3
Hey, I'm looking up for my star girl

's P.O.V.
No dia seguinte, acordei com uma dor de cabeça horrível. Fui para a escola me sentindo mal, e me sentei no meu lugar em silêncio. Devia estar com um ar horrível, com olheiras, pela maneira como todo mundo olhou para mim. Nesse dia, a não se virou para trás para mandar nenhuma piadinha. Não consegui evitar olhar para o discretamente. Ele estava distraído brincando com uma pulseirinha vermelha do Senhor do Bonfim. O meu coração começou a bater mais acelerado. Aquela pulseirinha era parecida demais com a minha! Claro que podia ser outra, muita gente usa pulseirinhas daquelas. Puxei um pouco a manga, o suficiente para perceber que não tinha a minha. Meu Deus, devia ter caído ontem, quando ele tinha me agarrado pelo pulso! E se ele se lembra que a pulseirinha estava desapertando do meu pulso na aula de Química?

's P.O.V.
Eu conhecia esta pulseirinha de algum lado. Com certeza. E, juntando isso aos olhos dela, tinha a certeza que conhecia aquela menina de algum lado. Estava cansado de dar voltas à cabeça, tinha passado metade da noite acordado pensando nela, mas não me conseguia lembrar. Não sabia mesmo como a encontrar, só tinha a pulseirinha dela. De repente, algo me acertou na cabeça. Olhei em volta e a estava apontando para o chão, um pouco atrás de mim. Me virei e estava lá uma bolinha de papel. A peguei antes que o professor visse. Era um recadinho dela, mais um de tantos. Este dizia “Já reparou na maneira como a olha para você?”. Suspirei. Já começava a ficar um pouco cansado desta conversa. Olhei discretamente para a e a vi olhar distraidamente pela janela. Ela pareceu acordar e olhou em volta, pousando o olhar em mim. Olhei de novo para o papel, pensando no que responder. “Você está um pouco paranóica.”. Provavelmente ela ia me matar por aquela resposta, mas eu não queria saber de nada disso. Mandei o bilhete de volta e ela me fuzilou com o olhar.
Comparando a com a Tori, a menina do bar, a era desinteressante. E eu estava começando a ficar cansado dela, da sua burrice. Os rapazes já me diziam para deixá-la há algum tempo. Talvez era altura de começar a pensar nisso. A campainha tocou para a saída e eu me levantei lentamente, pondo a pulseirinha no bolso. A se aproximou rapidamente.
- Por que é que você respondeu daquela maneira?
- Porque você já começou a chatear sempre falando da mesma coisa.
- Mas é legal gozar com ela!
- Não, não é! Ela é até simpática – Disse eu, saindo da sala.
- Não acredito que você disse isso! – Exclamou ela, e me virou as costas e foi embora.
Os rapazes vieram falar comigo.
- Dude, qual é o drama agora? – Perguntou , se referindo à .
- Ela está sempre falando mal da , e já enxeu o saco – Disse eu, arrumando as minhas coisas no armário.
- A nerd? – Perguntou o .
- Não chama ela assim! – Resmungou , que tinha chegado nesse momento, lhe dando uma palmada no braço.
- Ai, desculpa. Mas é verdade – Disse ele, massageando o braço.
- Coitada! Ela não merece ser tratada da maneira como é tratada – Continuou ela.
- Como é que ela é tratada? – Perguntei eu.
- Caramba , ou você é cego ou é tapado – Disse ela, agressiva.
- Calma, não precisa de ser tão agressiva.
- Desculpa. Mas nunca você nunca reparou nas coisas que a e a lhe fazem?
- Não, nunca – Respondemos os quatro ao mesmo tempo.
Ela olhou para nós, incrédula, e suspirou, revirando os olhos.
- Pelo amor de Deus. Vocês vivem em que mundo? Por que é que você acha que a te disse que a pobre menina estava apaixonada por você, ?
Eu não respondi nada e ela continuou.
- E isso é só uma pequena parte da história. Mas não vou ficar aqui contando tudo. Vê se você presta mais atenção às coisas que acontecem à sua volta! – Exclamou ela.

's P.O.V.
Não conseguia deixar de pensar na noite anterior. Não devia ter fugido, mas não teria coragem para ficar nem mais um segundo. A havia passado o dia todo me dizendo que eu não devia ter ido embora assim, sem avisar, apesar de eu a relembrar constantemente que a tinha avisado. O não largava a pulseirinha e eu estava morrendo de medo que ele se lembrasse.
Fomos almoçar as duas, como em qualquer outro dia, e a não parava de falar no seu parceiro de laboratório, um dos amigos do .
- Ai, o é mesmo lindo! Você já olhou bem para ele?
- Sim, pois é.
- E é super fofo. Nunca sabe nada, nem traz material!
Isso era a definição dela de fofo? Para mim, isso não passava de irresponsabilidade, mas cada um pensa de maneira diferente, não é?
- O está com a minha pulseirinha do Senhor do Bonfim – Disse eu, já não aguentando mais aquela conversa.
- O quê? – Disse ela, surpreendida.
- Sim, deve ter caído do meu pulso ontem, quando ele me agarrou.
- E agora?
- Esperemos que ele não se lembre que eu tinha uma. Mas duvido muito que se lembre.
- Sim, mas também se ele se lembrar, não é assim tão mau.
- Não, claro que não – Disse eu, sarcástica – Nunca mais olha para a minha cara.
- Oh, pode não ser assim.
- Sim, claro .
Ela não sabia mais o que dizer, e eu também fiquei em silêncio. Nunca devia ter ido ao bar, foi o maior erro. Mas agora não podia voltar atrás, tinha que esperar para ver o que acontecia.
- Devíamos ir ao bar outra vez – Disse ela, do nada.
- O quê , você está doida? Nunca deveria ter ido!
- Desculpa, mas a noite foi ótima para as duas!
- Não vou, . Me recuso a passar por aquilo outra vez! – Disse eu, firmemente.
Ela abriu a boca para reclamar e eu me levantei, indo-me embora. Que raio de ideia!
No dia seguinte, estava incrivelmente irritada. Há hora do almoço, enquanto eu estava no banheiro arrumando um pouco o meu cabelo, ela entrou lá dentro e começou a gritar comigo.
- Por que é que você existe?
Fiquei a olhar para ela, pois não tinha resposta para aquela pergunta estúpida.
- Você devia morrer, desaparecer da minha frente para sempre!
- Acredita, o prazer era todo meu, mas acontece que não dá – Respondi eu, irritada. Ela me empurrou para a parede.
- Quem é que você pensa que é para falar assim comigo?
Antes que eu pudesse responder, ela me deu dois tapas, que doeram imenso por causa da quantidade de anéis que ela tinha nos dedos. As lágrimas me vieram aos olhos e percebi que ela tinha reparado nisso.
- Espero que agora você tenha entendido quem manda – Ela riu e saiu do banheiro.
Eu fiquei ali sem saber o que fazer, mas entraram umas meninas e eu saí. Fui chorar para um canto fora da escola, encostada a uma parede. Aí, alguém falou comigo.
- Você está bem? – Era a , namorada de um dos amigos do , o .
- Sim, estou ótima – Disse eu, fazendo um esforço para parar de chorar.
- Você é a , certo?
- Sim – Disse eu, olhando surpreendida para ela.
- Sou a – Disse ela, sorrindo docemente – Mas o que te aconteceu?
- A me deu um tapa, mas nada que eu já não esteja habituada.
- Ela é uma autêntica vaca – Disse ela, se sentando ao meu lado.
- Pensava que você era amiga dela.
- Essa é a ideia. Tenho que ser, por causa do .
- Pois…
- Ela é uma vaca, mas também tem andado nervosa. Parece que o conheceu outra menina e está a pensar em deixá-la.
Outra menina?
- Sério? – Disse eu, querendo saber mais.
- Ah desculpa, estou aqui divagando. Você parece melhor – Disse ela, sorrindo.
Bolas! O resto? Oh meu Deus, e se a menina era eu, ou melhor, a Tori? Não, não podia ser. Era bom demais.
- Sim, estou. Obrigada – Disse eu, com um pequeno sorriso. Ainda não acreditava que ela tinha vindo falar comigo. Ela era mesmo querida!
- Tenho que me ir embora, desculpa. Você tem alguém com quem estar?
- Tenho, obrigada.
- Se acontecer mais alguma coisa você já sabe, pode sempre falar comigo – Disse ela, se levantando.
- Ok, obrigada.
Ela me sorriu e foi embora. Eu peguei no telefone e liguei pra . Dois minutos depois ela estava ao meu lado. Lhe contei tudo o que tinha acontecido, até a conversa com a .
- Outra menina? Oh , só pode ser você!
- Aquilo não sou eu. É outra pessoa! – Insisti eu.
- Claro que é você! Você apenas se solta mais, mas é você!
Não respondi. Ela podia ter razão, mas eu acho que não queria acreditar. Era mais fácil ser outra pessoa, que não o conhecia e que ele não conhecia. Era isso, ele não me conhecia.
- Olha, vai para casa e descansa. Se quiseres, me liga. Mas não fique a pensar muito nisso.
- Ok. Até logo – Disse eu, me levantando.
Quando cheguei ao prédio, encontrei o .
- Então, como vão as coisas?
- Iguais. Ele continua a não reparar em mim.
- Mas reparou na Tori. E a Tori é você.
- Mas não é fácil ser ela fora daquele bar – Disse eu, suspirando.

's P.O.V.
Os meninos me obrigaram a ir ao bar. Disseram que talvez a Tori estivesse lá, mas eu duvidava. Mas não morria por ir ver. Quando chegamos ao bar, eu estava um pouco nervoso. Se a Tori estivesse lá, não sabia como falar com ela. Ela não era como a , que cada palavra que eu dizia servia para ela ficar feliz. Não, a Tori era especial.
Assim que entramos, olhei para o bar. Ela não estava lá. Embora eu já estivesse desesperançoso, fiquei desanimado na mesma.
- Talvez ela venha noutro dia – Disse , me dando uma cerveja.
- Duvido. Acho que nunca mais vou voltar a vê-la. Mas ela me pareceu tão familiar, como se já a conhecesse.
- Talvez você a conheça. Deve ser uma das amigas da .
- Não, não, tenho a certeza que não é isso. Ela é diferente delas.
- Então não sei, . Ouviu a . Presta mais atenção às coisas que se passam à tua volta – Disse ele, sorrindo.
- Pois é.
Nessa noite só queria ficar bêbado. Não conseguia deixar de pensar nela, e isso estava me deixando louco.

's P.O.V.
A sexta-feira, o sábado e o domingo passaram mesmo rápido. Na sexta, o andava cheio de olheiras e completamente distraído. Mas não largava a porcaria da pulseirinha! Sempre que a tentava falar com ele, ele a despachava. E ela descarregava a raiva e a frustração em mim, claro. Passei o sábado todo fechada no quarto, vendo filmes antigos e ouvindo música. No domingo, fui obrigada a sair de casa pela minha mãe. Fui bater à porta do , mas quem abriu foi uma menina.
- Sim? – Disse ela, me olhando com desprezo.
Eu ia dizer que voltava mais tarde, mas quando ela falou assim comigo, mudei de ideia e decidi ser irritante.
- O está? – Perguntei eu, me fazendo de sonsa.
- O que é que você quer dele? – Continuou ela, com desprezo.
- Ele tinha combinado de sair comigo.
Nisso, o apareceu.
- Por que é que você está demorando… Ah, – Disse ele, sorrindo.
- Queria sair contigo, mas já vi que você está ocupado – Disse eu, olhando com desprezo para a menina.
- Pois está. Muito ocupado – Disse ela.
- Me dá dois segundos, – Disse ele, como se não tivesse ouvido a menina.
- O quê? – Exclamou ela, de boca aberta.
- Depois te ligo, Rachel – Disse ele, a empurrando suavemente para fora de casa.
Ela olhou para ele furiosa e foi embora.
- Desculpa ter estragado a tua diversão.
- Ela volta, não se preocupe – Disse ele, fechando a porta de casa.
- Pensava que os seus pais moravam aí.
- Eles foram viver para o sul. Eu fiquei, por causa da universidade.
- Ainda bem. O que seria de mim sem você… - Disse eu, rindo.
- Claro – Disse ele, me abraçando de lado.
Passamos o dia a andar de um lado para o outro, a entrar e a sair de lojas. Nos sentamos no terraço de uma Starbucks, perto da estação de King’s Cross, e o foi buscar as nossas bebidas. Quando fiquei sozinha, olhei em volta e vi o e a sentados numa mesa um pouco afastada, mas não o suficiente para eu não conseguir ouvir a conversa.
- , você está tão estranho. O que aconteceu?
- Nada , pára com isso – Ele estava a evitar olhar para ela.
- Não pode ser nada! – Insistiu ela.
Grande burra. Insistir só era pior, todo mundo sabe que não se deve insistir com uma pessoa quando essa pessoa está chateada!
- , pára com isso! Foi para isso que viemos aqui? Para você me chatear? – Ele olhou para ela, zangado.
- Não bebê, desculpa – Ela tentou lhe dar a mão, mas ele se afastou.
se sentou e me deu a minha bebida.
- Quero saber tudo – Disse eu.
- Tudo o quê?
- Daquela menina. Onde é que você as encontra? Sempre que vou lá é uma diferente! Não são…
- Não, claro que não. O que é que você pensa que sou? Claro que não, !

's P.O.V.
Dude, já não aguentava mais a . Ela não parava de me perguntar o que se passava, se eu estava bem e coisas assim. Tipo, eu sei que ela gosta de mim, mas não me ama. Pelo menos, acho que não. Quer dizer, já o dissemos várias vezes. Que nos amávamos. Mas acho que nunca foi mesmo sentido. Acho eu.
De repente, ouvi uma gargalhada que eu conhecia. Olhei na sua direcção e vi a sentada numa mesa com um cara que eu já tinha visto lá no prédio. Não era estranho eu conhecer a gargalhada dela. Éramos parceiros de laboratório. Pensando melhor, acho que nunca a tinha visto rir às gargalhadas. Então de onde é que eu conhecia a gargalhada?
- O quê, gêmeas? Você é um tarado, ! – Disse ela, rindo.
Não conseguia desviar o olhar. Aquela não era a que eu conhecia. Sempre pensara que ela era fechada e calada. Mas as aparências iludem. Ela era divertida, e não era pouco.
- ? – Disse . Não olhei para ela e ela seguiu o meu olhar.
- O quê, a mosquinha morta?
Revirei os olhos e não respondi. Continuei a olhar para a , que continuava a rir com o outro rapaz. Não consegui evitar sorrir ao vê-la feliz daquela maneira. A bufou de raiva.
- Você só pode estar brincando! O que é que você vê nela?
- O quê?
- Você está aí todo cheio de sorrisinhos olhando para ela! O que é que você vê nela?
- Não inventa! Estou cansado de te ouvir dizer idiotices! Estou cansado! – Disse eu, me levantando – Toma o dinheiro para você pagar, faz o que você quiser. Eu vou embora!
E a deixei ali sentada, fui embora sem olhar para trás.

's P.O.V.
Ouvimos gritos vindos da mesa do .
- Olha quem está ali – Comentou o .
- Eu sei, já tinha visto – Disse eu, tentando ouvir a conversa deles.
- Parece que ele cansou dela de vez.
- Shh! – Disse eu – Estou tentando ouvir!
- Toma o dinheiro para você pagar, faz o que você quiser. Eu vou embora! – Exclamou , se afastando.
- Uhuh, parece que foi desta! – Exclamou o , infantil.
- Shh, coitada – Disse eu, sem o sentir.
O sentia mais ou menos. Apesar de ela ter transformado a minha vida num inferno nos últimos 5 anos, não conseguia deixar de sentir uma certa pena dela. Foi deixada na frente de todo mundo.
- Coitada? Não acredito que você está com pena dela! – Exclamou , surpreendido.
- Só um pouco. Ninguém merece ser tratado assim!
- Você tem um coração bom demais, – Disse ele, com um sorriso.
- Talvez – Disse eu, encolhendo os ombros.
pagou a conta, se levantou e foi embora chorando. Ela me fez chorar muitas vezes na minha vida, e não fazia sentido nenhum eu estar com pena dela! Mas eu era assim. Simpática demais. Era o que todos me diziam.
- Mas a culpa é toda minha - Disse eu, distraída.
- Culpa sua?
- Sim. Se eu não tivesse ido ao bar, ele nunca teria conhecido a Tori e nunca a teria deixado.
- Você só pode estar brincando comigo. Você devia estar louca de felicidade, em vez de estar aí com pena dela!
- Eu estou! Acredita que estou. Você tem razão, não tenho nada que estar com pena dela. Ela fez a minha vida num inferno! Eu a odeio!
- Assim é que se fala – Disse o , com uma gargalhada.
Depois disto, conversamos mais um pouco, até ser mais tarde. Depois fomos juntos até em casa e passamos pelo , que estava sentado num banco. Eu estava a rindo de uma coisa que o havia dito e olhei para o em meio a uma gargalhada. Ele olhou para mim, um pouco triste, mas o olhar dele suavizou um pouco quando me viu. Desviei o olhar, envergonhada e eu e o continuamos o nosso caminho.
Quando cheguei em casa, os meus pais já estavam a jantar.
- Onde você andou até essas horas, menina? – Perguntou a minha mãe, brava.
- Desculpem, sai com o e perdemos a noção do tempo.
- Você deve estar com fome – Disse a minha mãe, sorrindo. Ela sempre gostara do , e tinha uma esperança secreta de que nós nos apaixonássemos.
- Um pouco – Disse eu, me sentando à mesa. A minha mãe me serviu de lasanha e comemos todos em silêncio.
Depois fui para o meu quarto e me deitei na cama, ouvindo música. Ouvi a porta do quarto em cima do meu bater com força e me lembrei do . Me lembrei de quando olhamos um para o outro, na rua. A intensidade do olhar. Talvez tenha sido imaginação minha, provavelmente havia sido imaginação, mas ele quase tinha sorrido para mim.
Diferente das outras vezes.

Capítulo 4
You and I have got a lot in common

's P.O.V.
Na segunda-feira, a chegou ainda mais atrasada do que nos outros dias. Mesmo, tipo uma meia hora atrasada. Ficou vermelhinha, mais do que nos outros dias, e ficou adorável.
- Miss , estou cansado de dizer a mesma coisa. Para a próxima não entra! – Disse o Mr. Green.
- Peço muitas desculpas, Mr. Green – Disse ela, correndo para o seu lugar.
A riu ruidosamente, o que só fez a corar mais. Aquela menina tinha um prazer especial em fazer as outras pessoas se sentirem mal. Quando a se sentou, a se virou para trás e lhe disse qualquer coisa, que a fez ficar ainda mais envergonhada. Começava a reparar agora no que a dizia. Quando ela me tinha contado aquilo do estalo, eu não tinha acreditado. Sinceramente, não tinha. Apesar de ela ser a minha melhor amiga, não conseguia imaginar a fazendo aquilo. Mas agora já acreditava em tudo.
- Parece que a não ficou muito afetada pela cena de ontem – Comentou , que se sentava ao meu lado.
- Ainda bem – Respondi, indiferente.
chegou a mesa para trás o máximo que pôde. Aquilo que a lhe disse a tinha afetado bastante. Depois pôs um fone no ouvido, tapado pelo cabelo para não ser vista pelo Mr. Green. Ligou o iPod e encostou-se para trás, absorta na música.

's P.O.V.
Assim que me sentei, a virou-se para trás. Mas desta vez, me assustou mesmo. Estava com um brilho estranho nos olhos, e parecia que tinha chorado. Estava com um ar um pouco maníaco.
- Você nem sabe o que te espera – Murmurou ela, com um sorriso malévolo.
Eu nunca fui muito de me assustar com as coisas que ela me dizia, mas agora tinha mesmo ficado com medo. Ela estava claramente alterada, e eu não sabia do que ela seria capaz. Como eu suspeitava, eu é que ia sofrer por ele ter terminado com ela. E parecia que não ia ser pouco. Cheguei a minha mesa o mais para trás que consegui, para me afastar dela. Nestas situações, só a música me acalmava. Era um pouco arriscado, mas eu estava mesmo nervosa. Pus um fone no ouvido e pus a tocar a música Sunny Afternoon, do The Kings. Encostei-me para trás na cadeira, numa tentativa de me acalmar. Mas com a cabeça da à minha frente não estava sendo fácil.
- Posso ir ao banheiro? – Perguntei eu, ansiosa.
- Sim, mas rápido – Respondeu o Mr. Green.
Pus a carteira e o iPod no bolso, escondi o fone o melhor que pude e me levantei. Assim que saí da sala, respirei fundo. Não era justo a vir atrás de mim, a culpa não era minha! Quer dizer, até era um pouco, mas ela não sabia! Não podia saber. Por isso não era justo ela descarregar tudo em mim. Quando tocou, a veio ter comigo.
- Você não voltou!
- Estou fugindo da .
- O quê? Por quê?
- O terminou com ela ontem e ela me ameaçou.
- Mas ela não sabe que a culpa é sua!
- Pois não, mas ela descarrega em mim mesmo assim – Disse eu, olhando em volta.
- ! – Chamou a . Ela estava com os quatro rapazes, e todos olharam para mim. Fomos até ela e a lançou um pequeno sorriso a .
- , a anda a tua procura – Disse a , olhando para mim, séria.

's P.O.V.
A chamou a , e ela até nós. Parecia assustada.
- Eu sei – Respondeu ela.
- Vai embora – Disse , preocupada.
- Não posso fugir para sempre.
- O que é que ela quer? – Perguntei. Estávamos os quatro não entendendo nada.
- Não sei – Respondeu a . Mas ela sabia, eu sei que sabia.
- Não é óbvio? Você terminou com ela e agora ela anda furiosa – Afirmou a .
- O que é que isso tem a ver com ela? – Perguntei, apontando para a .
- Ela é o saco de porrada, onde ela descarrega sua raiva – Disse a , falando pela primeira vez.
- Você está exagerando – Disse a , em voz baixa.
Pela expressão na cara dela, não estava nada exagerando. Como é que a podia ser tão má pessoa? De repente, ela apareceu a nossa frente. Não olhou para nenhum de nós, só para a .
- Preciso falar com você – Disse ela, com um sorriso falso.
- Não quero falar contigo – Respondeu a , mantendo a firmeza. Ela ficava extremamente bonita quando corava.
- Mas eu tenho que te dizer uma coisa! – Insistiu a , agarrando no braço da .
Percebi porque é que a estava tão assustada. A estava com um olhar um pouco assustador, com os olhos vermelhos e brilhantes. E depois eram aqueles anéis todos que tinha nos dedos, que deviam machucar como tudo.
- Ela não vai a lado nenhum – Intervim eu. Não podia deixar a levar as consequências dos meus atos.
- Isto não é nada contigo, – Se o olhar matasse, eu tinha morrido agora mesmo com o olhar que a me lançou.
- Se você tem problemas, vai resolvê-los. Mas isto não tem nada a ver com ela – Afirmei, me referindo à .
ficou sem respostas, olhou para nós cheia de ódio e foi embora, seguida pela .
- Obrigada – Disse a , olhando para mim. Mas continuava com o mesmo ar assustado.
- Ela já foi embora, você não precisa estar assustada.
- Foi embora até me encontrar sozinha – Disse ela, com um suspiro.
- Por isso você não vai andar sozinha – Disse a .
- Claro que não. Quando você não puder estar com a , estamos nós com você – Concordou a .
Me limitei a olhar. Eu queria dizer alguma coisa, fazer alguma coisa para a ajudar, mas não sabia o quê. A culpa era minha de isto lhe estar acontecendo. Só havia uma coisa a fazer, certo? Fui atrás da , deixando-os todos sem explicação.
- , preciso de falar com você – Agarrei-a pelo braço.
- O que foi agora? – Disse ela, com uma expressão de desdém.
- Desculpa ter falado dessa maneira contigo. A culpa de como eu me sinto não é sua. Será que podemos falar num lugar mais privado? – Fiz o meu melhor para não parecer contrariado.
- Claro!
Fomos para uma sala vazia e ela sentou-se numa das mesas, à espera de eu continuar a falar.
- Estou arrependido de ter acabado contigo. Me dá outra oportunidade? – Disse eu, me controlando para não ir embora.
- Claro, amor! – Ela sorriu e atirou-se para cima de mim. Literalmente. Não caímos os dois no chão por sorte – Tive saudades suas – Ela agarrou meu rosto com as mãos e me beijou.

's P.O.V.
O que raio é que ele foi fazer? Gritar com ela? Dizer-lhe que não podia fazer aquilo? Espero bem que não, isso só ia piorar a situação.
- Que raio aquele idiota foi fazer? – Perguntou , falando pela primeira vez.
- Espero que não tenha piorado a situação – Respondeu a .
- Vamos saber agora – Disse .
Vimos o a sair da sala e logo a seguir dele a , de mãos dadas.
- Não, ele não fez aquilo… - Disse eu, surpreendida.
- Também não acredito! – Exclamou a , surpreendida – Nunca pensei que ele fosse fazer algo assim por alguém.
- Assim como? – Perguntei, um pouco perdida. Quer dizer, eu tinha percebido, mas queria ter a certeza que não estava a sonhar acordada.
- Ele voltou para ela – Explicou a – Era a única maneira de ela te deixar em paz. Mas ele a odeia completamente.
Afinal tinha percebido bem. Ele tinha mesmo feito aquilo por mim. Quando ele passou por nós, olhou para mim e os nossos olhos se cruzaram. Sorri-lhe levemente e ele encolheu os ombros. Ela levou-o para longe de nós, quebrando o contato visual. Ele não foi à aula de Química, nem ela. Só conseguia pensar no que é que ele tinha pensado para fazer aquilo por mim.
Mais tarde, quando cheguei em casa, bati à porta de para lhe contar tudo. Quem abriu foi outra loira, e eu tive que me conter imenso para não desatar às gargalhadas na cara dela.
- Olá – Disse ela, com um sorriso. Pelo menos esta era simpática. Oca, mas simpática.
- Desculpa interromper, mas eu preciso mesmo falar com o – Fiz o meu sorriso mais amável.
- Claro, claro. Já estava de saída. Sou a Julie.
- Sou a .
- , está aqui para você. Depois te ligo – Gritou ela para dentro de casa.
O apareceu à porta e deu um beijo em Julie.
- Adeus, boneca – Disse ela.
A Julie se foi embora e ele olhou para mim.
- Bons olhos te vejam – Disse ele, com um sorriso.
- Podemos ir passear? Está um dia lindo.
- Claro, deixa-me ir buscar as chaves.
Saímos e eu contei-lhe a história toda.
- Ele fez mesmo isso?
- Sim. Nem os amigos dele acreditaram – Não conseguia parar de sorrir.
- Uau – Ele riu-se.
Passamos em frente de uma loja de esportes e eu fiquei vidrada em uns Chuck’s (all stars) azuis que estavam na vitrine. Esses sapatos são o meu único vicio.
- Ah, uma loja de tênis. Preciso comprar uns – Disse o – Vem comigo?
- Não, eu fico aqui, senão ainda gasto todo o meu dinheiro – Disse eu, com uma gargalhada.
Ele entrou na loja e eu fiquei a olhar para os Chuck’s. Até que uma voz ao meu lado falou, uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar.
- São mesmo bonitos, não são?
- Não sabia que você também gostava de Chuck’s – Ganhei coragem para falar com ele, pondo de lado a timidez.
- Você está brincando? São os melhores sapatos do mundo – me sorriu daquela maneira deliciosa, que só ele sabia fazer.
- Sou completamente viciada neles – Disse eu, soltando-me. De repente, já não sentia aquela timidez irritante que aparecia sempre que ele falava comigo e me atrapalhava. Conseguia falar livremente – Tenho 7 pares – Completei, com um sorriso travesso.
- Sete? Quem me dera. Só tenho três, mas estão completamente gastos.
Ri e ele sorriu. Mas foi um sorriso diferente. Não foi o sorriso que ele me costumava fazer nas aulas de Química. Foi um sorriso carinhoso, mas mais profundo e mais verdadeiro. Isso fez-me pensar numa coisa que já não pensava há algum tempo.
- , posso te perguntar uma coisa?
- Claro.
- Por que é que…
Nesse momento o saiu da loja com um saco. Olhou para nós e sorriu. Eu parei de falar, achei melhor não continuar com aquele tema em frente ao . Ele era o meu melhor amigo, mas tinha a sensação que o responderia mais sinceramente se estivéssemos sozinhos.
- , este é o – Apresentei-o, como se não o conhecesse – , este é o , o meu melhor amigo.

's P.O.V.
Não sei como nunca percebi como ela é divertida. E é verdadeira, não é como a , que cada sorriso e expressão são cuidadosamente estudados em frente ao espelho durante horas.
- , posso te perguntar uma coisa?
- Claro.
- Por que é que…
Bolas, apareceu um cara que estava com ela. E ela não acabou a frase. Apresentou-nos e eu apertei-lhe a mão, mas só queria esmagar-lhe a mão. Seria ele namorado dela?
- , este é o , o meu melhor amigo.
Melhor amigo. Espera aí, nem acredito que estou com ciúmes. Nesse momento, o meu telefone tocou. Era a , para variar.
- Tenho que ir – Disse eu, desligando o telefone na cara da . Era melhor ir até ela antes que ela se chateasse de vez.
- Ah, ok – Disse ela, com um sorriso um pouco mais fraco.
- Falamos depois – Disse eu, sorrindo-lhe.

's P.O.V.
Depois disso fui para casa. Não conseguia acreditar que tinha tido uma conversa com o fora da escola. E ele é que tinha vindo falar comigo! GOD, estou tão feliz! Nessa noite sonhei que era linda, que era a Tori, e que ele me amava. Eu sei, um pouco estúpido, mas uma garota pode sonhar, não pode?
Fui para a escola, na terça, ouvindo música. Apesar de já não querer me matar, ainda tinha que vê-la agarrada a ele o tempo todo. O dia passou lentamente e foi mesmo chato. A continuou a mandar piadinhas, como se nunca tivesse acontecido nada. Tudo voltou ao normal. O mal falou comigo e não estive com a .
Na quarta acordei mais animada. Dia de aula de Química, significava obrigatoriamente estar com o . As aulas da manhã foram chatas, estava ansiosa para falar com o . Precisava de lhe perguntar porque é que ele tinha feito aquilo, ouvir a resposta da boca dele. Quando finalmente tocou para a aula de Química, quase corri para o laboratório.
- Olá, – Disse o , como sempre. Mas o sorriso era diferente. Era como o do outro dia, mais profundo e carinhoso.
- Olá, – Sorri-lhe abertamente.
A professora chegou e nós paramos de falar. A professora começou a explicar alguma coisa sobre átomos, mas eu não estava prestando atenção. estava muito próximo de mim.
- No outro dia você ia me fazer uma pergunta – Murmurou ele, sem deixar de olhar para o quadro.
- Sim, ia te perguntar porque é que voltou com a – Murmurei de volta, olhando para ele.
Ele olhou para mim e eu fiquei presa aos olhos lindos dele. Ele hesitou, mas acabou por responder.
- Era a única maneira. E é só até arranjarmos uma solução definitiva – Olhou de novo para a frente.
- A única maneira de quê?
- A única maneira de ela não te fazer mal – Disse ele, olhando para mim, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Fiquei sem fala, a olhar para ele.
- É isso que os amigos fazem – Disse ele, voltando a olhar para a frente, com um sorriso.

Capítulo 5
I can't get you out of my mind

Amigos, claro.
Se há uns meses, ou melhor, dias, alguém me dissesse que me diria que somos amigos, eu pensaria que essa pessoa estava louca. E tudo graças à . Limitei-me a sorrir e a corar.
À tarde, quando as aulas acabaram, eu e a fomos conversar com a , que estava com os rapazes.
- Queridas, hoje à noite vamos sair. Querem vir? – Convidou a .
- Não posso – Me apressei a dizer.
- Nem eu – A olhou para mim e sorriu.
- Oh, por quê? – A fez beicinho.
- Os meus pais não me deixam sair em noites de aulas – Completamente mentira, mas ela não precisava saber.
- Nem os meus – Disse a . Ainda era mais mentira que a minha, os pais dela deixavam-lhe fazer quase tudo.
- Ok. Fica para outro dia, amores – A fez cara triste - Bem, temos que ir, não é rapazes? Até amanhã, queridas – Abraçou-nos de novo e foram-se embora.
- Então você não pode sair em noites de aulas? – Disse eu para a , com um sorriso.
- Cala-te, você também mentiu. Mas a ideia não era má.
- Qual ideia?
- De irmos sair, dah.
- Não acho que seja assim tão boa.
- Oh, vá lá! Se vista de Tori outra vez, ninguém te reconhece. Aposto que o está mortinho por voltar a vê-la, ou melhor, te ver.
- Talvez você tenha razão. Mas não sei… Tenho medo.
- Medo do quê?
- Não sei bem. Tenho medo que ele descubra que sou eu e não queira mais falar comigo.
- Isso não vai acontecer. Mesmo que ele descobrisse, duvido muito que deixasse de falar contigo. Muito pelo contrário, acho que não te largava.
- Espero que sim. Vamos sair!
- Vamos? Vamos! Assim é que se falar, mulher! – quase saltou de entusiasmo – Vamos já para tua casa, temos muito o que fazer.
Chegámos lá rapidamente, a quase obrigou o condutor do ônibus a passar por todos os sinais vermelhos. Batemos à porta de e a garota simpática do outro dia a abriu, a Julie.
- Olá, Julie – Cumprimentei-a com um sorriso.
- Olá, – Ela deu-me um beijo em cada bochecha – O está no banheiro. Entrem, entrem.
A casa do era o lugar mais estranho do planeta. As paredes da sala estavam cobertas com pôsters do Jimy Hendrix e dos Rolling Stones, com uma fotografia aqui e ali. Sentamo-nos no sofá azul-escuro, em silêncio. Mas ao fim de algum tempo já estava ficando estranho.
- Julie, como vão as coisas com o ? – Perguntei, para quebrar o gelo.
- Vão mesmo bem – Ela levantou-se e sentou-se ao meu lado – Acho que estou apaixonada – Murmurou ela, quase ao meu ouvido.
- Sério? Que bom! – Pobre garota, não fazia a mínima ideia de onde tinha se metido.
- , bem me pareceu ouvir a sua voz – O entrou na sala, sorridente.
- Sim. Vamos sair hoje e queríamos saber se você também queria vir. Você também pode vir se quiser, Julie.
- Oh, obrigada, mas não posso. Tenho um jantar de família – Desculpou-se Julie, com um sorriso um tanto triste – Mas obrigada pelo convite!
- De nada – Sorri-lhe. Ela era mesmo simpática. Espero verdadeiramente que o não a magoe – E você, ?
- Claro, claro. Passem por aqui quando quiserem ir.
- Ok, até logo.
Despedimo-nos e fomos para minha casa. A abriu o meu armário.
- Querida, você não tem aqui nada. Temos que ir fazer compras.
- Boa! – Não havia nada que eu mais gostasse de fazer do que ir às compras, apesar de raramente comprar alguma coisa.
Comprei um vestido branco tomara que caia, com umas flores roxas e amarelas, estilo havaiano e umas sandálias de salto alto brancas também. A comprou um vestido azul-marinho, com alças fininhas e umas sandálias pretas. Já em casa, ela arrumou o meu cabelo como da outra vez e me maquiou. Me olhei no espelho e fiquei orgulhosa. Estava linda, tal como a .
- Vou ligar pra pra dizer que afinal vou e que nos encontramos lá, para não ir sozinha – Disse ela, segurando a minha mão.
Ela foi telefonar e uns minutos depois estávamos a bater à porta de . Ele saiu e nos elogiou imenso. Fomos para o carro dele. À medida que nos aproximávamos do bar, mais nervosa eu ia ficando. Quando lá chegamos, eu estava passando mal.
- Calma, . Vai correr tudo bem, menina – agarrou meus braços e chacoalhou-me.
- Vai correr tudo bem. Vai correr tudo bem – Repeti várias vezes enquanto saía do carro e entrava no bar, sozinha.
Olhei para trás e vi a abraçar a e a apresentar ao . Sentei-me no bar, tremendo de nervosismo, até que ouvi a voz dele.

's P.O.V.
A veio com o , mas nem sinal da . O levou a para o bar e eu os segui com o olhar. Foi aí que a vi. A Tori estava lá sentada, sozinha, exatamente como no outro dia. Olhei para o , que me sorriu.
- Vai lá dude, vai falar com ela.
Nem pensei duas vezes. Quase corri para o bar e me sentei ao lado dela.
- Olá.
Ela quase saltou da cadeira, com o susto. Olhou para mim, assustada, e engoliu em seco, sorrindo de seguida.
- Olá, .
- Pensava que nunca mais te ia ver.
- Pois, eu estive para não vir. Aliás, eu não queria vir - Disse ela, olhando em frente.
- Posso te pagar uma bebida?

's P.O.V.
- Sim. Pode ser o mesmo do outro dia – Respondi eu. Estava a correr tudo bem até agora.
- Mas não bebe tudo de uma vez – Disse ele, com uma gargalhada.
Eu sorri e ele pediu as bebidas. Depois olhou para mim, com aqueles olhos profundos.
- De onde você é?
- Isso interessa? – Respondi eu, com um sorriso misterioso.
- Gostaria de poder te ver mais vezes – Disse ele, com o sorriso sedutor do outro dia.
Sorri-lhe suavemente. Ele não parava de olhar para mim e eu começava a ficar com medo que ele me reconhecesse. As bebidas chegaram e ele desviou a atenção de mim. Respirei de alívio e dei um gole na bebida, saboreando-a.
- Isto até é bom – Disse eu.
- Pois é – Disse ele, rindo-se – Quer dançar?
- Claro, me deixa só acabar.
Ele bebeu a bebida toda de uma vez, como no outro dia, e eu bebi aos goles, mas depressa. Quando me levantei, estava um pouco tonta.
- Estou bêbada de novo.
- Não faz mal. Eu te ajudo – Ele riu e me guiou para a pista de dança.
Começou a tocar uma música mais animada, e eu comecei a me mexer ao som dela. Comecei a rir feito doida, nunca me tinha sentido tão bem.
- Te conheço de algum lado? – Perguntou ele ao meu ouvido. Me arrepiei toda e respondi.
- Não, acredito que não.

's P.O.V.
- Posso te beijar? – Perguntei-lhe, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Costumava ter resultados com as meninas, apesar da Tori não ser como as outras.
- Não – Ela olhou para mim divertida e riu.
- Vá lá – Insisti.
- Vá. Só um selinho, como da outra vez.
Sorri-lhe e fiz isso mesmo. Não me atrevi a tentar beijá-la, não queria que ela fugisse de novo.

's P.O.V.
A música animada acabou e veio uma mais calminha. Ele pôs as mãos na minha cintura e eu fiquei um pouco tensa. A coisa estava a ficar mais séria e eu não queria fazer nada de que me arrependesse mais tarde. Afastei-me dele e ele olhou para mim, confuso.
- O que foi desta vez?
- Desculpa , mas nunca devia ter deixado isto chegar tão longe – Disse eu, sentindo a garganta ficar com um nó.

's P.O.V.
- Tori, o que aconteceu? – Perguntei eu, ansioso. Ela estava com um ar triste que me inquietava. Só queria poder fazer aquela tristeza desaparecer.
- , adeus – Aquilo soou demasiado definitivo para meu gosto.
Não consegui dizer nada e ela foi embora. Pus a mão no bolso e senti lá a pulseirinha. Não acredito que a tinha deixado escapar outra vez. Fui conversar com os rapazes e eles olharam para mim.
- Então você não estava com a Tori? – Perguntou o .
- Ela fugiu outra vez, – Disse eu, pegando a bebida que ele me estendia.
Só queria me embebedar e esquecê-la. Mas não ia ser fácil. Ainda tinha que aturar a .
- Lamento, dude – Disse o .
- Quem me dera saber quem ela é. Tenho a sensação de que a conheço de algum lado, mas não sei de onde! Estou ficando louco.
Nenhum deles soube o que dizer. A apareceu e arrastou o para a pista de dança. engatou uma loira peituda e eu fui abordado por algumas garotas, mas nenhuma me interessou. O mais estranho foi que dei por mim a pensar na , e não na Tori. Abanei a cabeça, confuso, sem saber o que me estava acontecendo. Tinha que haver alguma relação. Revi o sorriso da Tori na minha cabeça e coloquei-o noutro lugar, que não tinha nada a ver, a aula de Química. Consegui vê-lo na cara da . Seria ela a Tori? Não, era demasiado rebuscado. Mas depois me lembrei da aula em que lhe apertei a pulseira vermelha do senhor do Bonfim da Bahia que estava a desapertar. Tirei a pulseirinha que estava no meu bolso e olhei para ela. Seria a mesma?

Capítulo 6
When the secret comes out…

's P.O.V.
- , ontem a noite foi ótima. Eu e o conversamos bastante e descobrimos que temos muito em comum! – Disse a de manhã, animadíssima – Ele foi mesmo fofo e dançamos quase até ao bar fechar. E você, como foi?
- Podia ter sido melhor. Fiquei mesmo nervosa e fugi de novo.
- O quê? Me conta tudo!
Contei para ela todos os pormenores e ela olhou para mim, espantada e sorridente.
- Sabe o que isso significa?
- Não – Respondi com medo.
- Significa que ele é doido por você.
- Sim, claro, deve ser.
Ela encolheu os ombros e olhou para o lado, distraída. O passou por nós e olhou para mim, muito atento para o meu gosto. Mas eu não consegui desviar o olhar. O segui até desaparecer do meu campo de visão. O que eu sentia por ele estava ficando cada vez mais forte e não havia mais por onde fugir. Já não podia o ignorar, ele aparecia sempre à minha frente, desse por onde desse. A campainha para irmos para as aulas tocou e eu me levantei, deixando a para trás.
O dia passou rápido demais. Quando dei por mim, estava na hora da aula de Química. Fui para lá lentamente, com medo de enfrentar o . Não sei bem do que tinha medo. Tinha perfeita noção de que me tinha arriscado demais na noite anterior, cada vez que nos encontrávamos naquele bar, mais provavelmente ele iria descobrir que era eu. Por isso tentei chegar o mais tarde possível. E consegui. Quando entrei na sala, já estavam todos lá.
- Ms. , levou falta – Disse a professora, sem olhar para mim.
- Peço desculpas – Me sentei no meu lugar, um pouco mais afastada de que o normal e sem olhar para ele.
- Posso ir jogar o chiclete no lixo? – Perguntou , com a sua voz esganiçada.
- Já devia estar lá – Respondeu a professora, rabugenta.
passou por mim, em direção ao lixo e, quando voltou, deu um chute no meu banco, fazendo-o desequilibrar-se e fazendo-me cair. Os meus óculos saltaram-me da cara e quebraram ao meio quando atingiram o chão. Olhei para , que estava a olhar para mim com os olhos muito abertos, como se tivesse acabado de descobrir algo mesmo grande. Como se tivesse acabado de descobrir o meu segredo.

's P.O.V.
Assim que ela olhou para mim sem os óculos, eu percebi que tinha razão. A era a Tori. A . Tinha que parar de chamá-la pelo sobrenome. Ela desviou o olhar de mim, mas não conseguiu evitar que eu visse a dor que estava espelhada nos olhos dela.
- Quer ajuda para levantar? – Perguntei-lhe, me levantando do meu banco.
- Não, eu estou bem – A resposta dela foi agressiva e determinada.
- Ms. , talvez seja melhor ir à enfermaria – Disse a professora, olhando para ela pela primeira vez.
- Não, eu estou bem – Ela tentou se levantar, mas assim que apoiou o pé direito no chão voltou a sentar-se.
- Eu vou com ela – Me ofereci.
Queria falar com ela rapidamente, por isso não estava disposto a esperar até ao fim da aula.
- Não, eu estou bem – Insistiu ela, olhando para mim. A expressão dela era irritada, mas via-se nos olhos dela a dor.
- Mr. , vá com a Ms. à enfermaria.
Estendi-lhe a mão para ajudá-la levantar, que ela aceitou contrariada. Depois apoiou-se em mim para conseguir andar. Mas percebi que ela estava tensa, o que só era uma confirmação para mim. Assim que estávamos afastados da sala o suficiente, ela me largou e encostou-se a uma parede.
- Eu consigo ir sozinha.
Olhei para ela, fascinado. Ao fim de 5 anos estava a descobrir que ela era uma pessoa completamente diferente do que eu pensava. Por isso mesmo não podia deixá-la ir. Algo nela impedia-me de o fazer. Isto já não era sobre a menina do bar. Era mais do que isso. Era eu não conseguir deixar de pensar nela, . Por isso agarrei o pulso dela.
- Acho que isto te pertence – Tirei a pulseirinha do bolso. Ela seguiu a pulseirinha com o olhar, mas não disse nada. Depois esticou o braço e pegou a pulseira – Por que é que você não me contou?
Ela olhou para mim, talvez a pensar se devia contar ou não. Negar já não valia a pena e ela o sabia. Agora era uma questão de me enfrentar, e eu não queria que fosse assim tão difícil como parecia ser para ela. Estava a ficar impaciente, ela já estava em silêncio há tempo demais. Talvez não me fosse contar nada. Talvez nem falasse comigo. Quando ela abriu a boca para falar, eu quase suspirei, aliviado.
- Você nunca mais olharia para a minha cara.
E foi isso. Ela afastou-se, deixando-me ali no meio, com cara de bobo. Podia tê-la seguido facilmente, mas algo me disse que era melhor não.

's P.O.V.
Foi um dos piores momentos da minha vida. Enquanto me afastava, rezei para que ele não me seguisse. Ele não me pareceu zangado. Foi mais… magoado. A enfermeira disse que eu tinha tido sorte, mais um pouco e teria quebrado o pé. Quando saí da enfermaria, encontrei a à minha espera.
- Que raio foi aquilo?
- A deu um chute no meu banco. A enfermeira disse que eu podia ter quebrado o pé.
- Não era isso, burra. O que foi aquilo com o ?
- Ah, obrigada pela preocupação – Me fingi ofendida.
- Sim, sim, você está ótima. Me conta tudo!
- Ele descobriu. Me deu a pulseira.
- E você? – Ela me obrigou a parar de andar, ou melhor, de coxear.
- Eu disse-lhe a verdade.
- Qual verdade? A verdade já ele tinha descoberto!
- , você consegue ser tão boba às vezes. Não é essa verdade. Ele perguntou porque é que eu não lhe tinha contado. E eu disse que ele nunca mais iria olhar para mim. Foi horrível – Comecei a fungar, as lágrimas vieram-me aos olhos.
- Oh , não chora – A me abraçou e passou a mão no meu cabelo – Ele ficou bravo? Ou fez alguma coisa de mal?
- Não, parecia magoado. Quando fui embora, ele ficou parado – Continuei a chorar e a ia dizer alguma coisa, mas calou-se.
- O que foi? – Eu levantei a cabeça e vi o a vir na nossa direção – Oh meu deus, , e agora?
- Calma, ele só deve querer falar. Se ele for um estúpido, você lhe dá um tapa e vem falar comigo, eu vou estar aqui, prometo. Se não, seja feliz – Ela sorriu, numa tentativa de me dar força.
- Ele está se aproximando – Murmurei, nervosa.
- Podemos conversar? – Perguntou ele.
- Claro – Deixei-o me levar para uma sala vazia.
- Está bem? – Perguntou ele.
- Sim, sim – Respondi.
- Você está chorando – Ele estava a olhar para mim com uma expressão indecifrável. - Não estou não – Limpei as lágrimas que estavam nas minhas bochechas. Ele sorriu ligeiramente e levantou a mão para me ajudar, mas logo a abaixou.
- Você devia ter me dito que era você. Você nem imagina as noites que não dormi a pensar em você.
Ele disse aquilo tão de repente que eu parei de limpar as lágrimas e olhei para ele, espantada. Ele corou, percebendo o que tinha acabado de dizer e coçou a cabeça, desviando o olhar de mim.
- Desculpa, nunca pensei que pudesse… - Nem sabia como acabar aquela frase. Ter esse efeito sobre você? Te fazer sentir assim?
- Pois, eu…
entrou na sala, interrompendo-o.
- Desculpem, mas a anda à sua procura . Por todo o lado. E está a vir nesta direção.
- Nada bom… - Disse ele.
Olhou para mim, na dúvida. Eu não queria empurrá-lo porta fora para ir até aquele monstro, mas também não queria que ela entrasse pela sala a dentro e nos visse. Quando reagi, era tarde de mais. A estava dentro da sala. Olhou para o , depois para mim e para a .
- O que é que você está aqui fazendo com elas? – Ela apontou para nós, com desprezo.
- Ele estava com uma dúvida de Química – Foi o melhor que consegui.
- Sim, química – Ele concordou, relutante.
Ela olhou para nós, desconfiada, mas acabou por aceitar. God, que nervos. Ela era tão burra!
- , amor, quero ir te comprar uma coisa. Fazemos 5 meses – Ela sorriu abertamente.
- Já? – Ele fez um sorriso amarelo.
- Sim, fofo. Vamos, para não encontrarmos muita gente.
Sairam da sala e eu e a olhamos uma para a outra. Ao menos o não tinha rido de mim. Tinha dito que não conseguia deixar de pensar em mim.
Bom, mais ou menos.

Capítulo 7
I can’t hold it back no more

Depois de eles saírem, eu me encostei em uma mesa.
- Bem, aquilo foi intenso.
- O que ele disse? Foi bom? Me conta! – quase saltava de impaciência.
- Ele disse que tinha passado muitas noites acordado pensando em mim – Disse eu, com uma gargalhada.
Não me sentia tão bem há muito tempo. Muito tempo mesmo. A correu para mim e me abraçou, e juntas demos pulinhos de felicidade.
- Agora só temos que pensar numa maneira de o livrar da – Disse eu, quando nos separamos.
- Não vai ser fácil.
- Mas eu não tenho medo dela. Tenho mais medo que ele não me queira…
- Credo , que negativa! Ouviu o que ele disse? Está caidinho por você!
- Espero que não mude de ideias quando me conhecer melhor.
- , pára de pensar assim! Sabe do que é que você precisa? De uma ida ao shopping. De uma renovação do armário.
Olhei para ela, desconfiada. Se ela pudesse, escolhia a minha roupa toda e o que vestir em cada dia. Mas desta vez ela tinha razão. Se eu queria que ele reparasse em mim, tinha que ser mais como a Tori, e menos como a . Não pense que vou mudar a minha personalidade por ele, nada disso. Só vou me pôr um pouco mais bonita. Que mal há nisso?
- Você tem razão, mas não hoje.
- Por que não hoje?
- Não ouviu a ? Eles foram comprar coisas. Com certeza estarão lá, e eu não quero me encontrar com eles.
- , o shopping é muito grande. Não vamos encontrá-los, nem devemos ir às mesmas lojas.
Ela até tinha razão. E estava a olhar para mim daquela maneira que me dizia que não a conseguiria fazer mudar de ideia. Aceitei e fomos para o shopping. Assim que lá entramos, a olhou em volta, pensando onde eram as melhores lojas. Ali ela sentia-se em casa. Primeiro me levou a uma loja onde me fez experimentar um monte de tops. Decidimo-nos por um branco básico, um azul turquesa com a parte de cima feita de lã e um laranja avermelhado que se apertava atrás do pescoço. Devo dizer que nem me ficavam nada mal. Depois fomos a outra loja, onde comprei umas calças jeans skinny, que, segundo a , realçavam mais as minhas curvas. Comprei ainda umas calças brancas, também skinny. Depois fomos a outra, onde vendiam vestidos. Comprei um branco, que ficava um pouco acima dos joelhos, com umas flores na parte de cima, comprei um marrom tomara-que-caia e um azul escuro mais justo, para usar à noite. Depois foi a vez dos sapatos. Eu quase já não me aguentava em pé, mas a me arrastou, me prometendo que depois íamos tomar sorvete. Mas foi precisamente aí que aconteceu o que eu não queria. A estava lá, andando de um lado para o outro, experimentando umas sandálias com um salto gigante. O estava sentado num banco, com um ar desanimadíssimo, olhando para ela.
- O que você acha, querido? – Perguntou ela, sem nos ver.
- Acho que te ficam bem, tal como as outras cinco – Respondeu ele, indiferente.
- Você tem que ser um pouco mais exato. Afinal, é o presente que você me vai dar – descalçou as sandálias.
- Sim, essas são perfeitas. Posso pagar? – pegou as sandálias.
- Sim – A sorriu, satisfeita, e ficou a ver se afastar, apreciando o seu traseiro. Depois nos viu e o seu sorriso se transformou num sorriso de desprezo – Olha, olha quem é ela. Você está um pouco fora do seu mundo, .
- , você se acha bonita? – Perguntou a , muito séria.
- Sim – Respondeu a , desorientada.
- Então cala a boca antes que isso mude – Respondeu , estalando os dedos ameaçadoramente.
Eu tive que me esforçar muito para não rir. Eu sabia que era tudo teatro, a era incapaz de fazer mal a alguém, mas convenceu a , que engoliu em seco e nos lançou um olhar de desprezo, sem dizer nada.
- Pronto, aqui está. – apareceu ao lado dela e lhe estendeu o saco, enquanto guardava a carteira de couro no bolso. Depois nos viu e ficou olhando para mim e sorriu. olhou para ele e depois para mim e eu quase a conseguia ouvir pensar. Mas depois fez-se alguma luz e ela o arrastou da loja, sem uma palavra.
- Essa foi linda, – Elogiei, entre gargalhadas.
Ela sorriu e depois virou-se para os sapatos. Pegou um par de sandálias de salto alto, parecidas com as que tinha acabado de levar.
- Aposto que você fica linda nestas.
- , sabes que só uso Chucks – Disse eu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Mas compramos roupas tão lindas! – Exclamou , chocada – Como é que você pode usar aquelas coisas com tênis?
- , tenho lá em casa umas sandálias brancas que comprei para ir ao bar. Ficam bem com quase tudo que compramos agora. E a maioria das coisas também fica bem com tênis – Expliquei.
- Você é capaz de ter razão… Sabes mais do que é que você precisava?
- O quê?
- Lentes de contato.
- Vou pedir à minha mãe.
- Faz isso!
Nessa noite, quando estava no meu quarto arrumando as roupas, caiu um papel de um dos sacos. Peguei-o e abri. Era um bilhete.
“A nossa conversa não acabou. Ainda preciso de falar com você. Amanhã falamos melhor, ok?
Fiquei congelada olhando para o papel. Um papel? Era mesmo estranho e ao mesmo tempo romântico. Senti borboletas na barriga e sorri. O pior já tinha passado, certo? Talvez ele fosse declarar o seu amor por mim, de joelhos. Certo, sem ser de joelhos. E provavelmente não era isso que ele queria me dizer. Mas uma garota pode sonhar, certo?
No dia seguinte, o meu pé doía muito. Depois de ter passado três horas no shopping, era normal. Foi uma grande burrice, foi o que foi. Vesti o top azul turquesa e as calças brancas, com os Chucks azuis às riscas brancas. Olhei ao espelho e não consegui evitar sorrir. Parecia outra pessoa, super elegante. Agora só faltava substituir os óculos por lentes de contacto. Mas tudo a seu tempo. Acabei por tirar o top e vestir um blusão azul escuro da GAP que a minha mãe tinha me trazido de Paris. Podia não estar tão elegante, mas me sentia bem melhor.
Quando cheguei à escola, a estava à minha espera no portão. Assim que me viu, me arrastou para as traseiras da escola, onde não estava ninguém. Ela estava um bocado preocupada.
- O que é que foi? – Perguntei, ansiosa.
- O terminou com a . Agora ela suspeita que foi por sua causa e anda à sua procura. Desta vez é sério , ela tem razão, não é como das outras vezes em que era só bater por bater.
- O quê? Como é que você sabe?
- Não interessa. Vai para casa, por favor, pelo menos hoje, até ela se acalmar um pouco. A está vendo se arranja uma solução, mas é essencial que você vá para casa.
- Faltar o dia todo? Os meus pais me matam!
- , pelo amor de Deus! Eles entendem, de certeza! Vai já para casa!
Ok, devo admitir que estava com um pouco de medo. A era um pouco maior que eu e tinha as amigas todas e os amigos todos… Achei melhor fugir. Quando cheguei a casa, fui bater à porta do , mas ele não estava lá. Estava sempre faltando às aulas, mas no dia em que eu precisava mesmo dele, ele tinha ido. Que pontaria! Me sentei num degrau com a cabeça entre as mãos a pensar numa solução para o meu problema. Como parar a . Depois, me levantei e comecei a andar de um lado para o outro, a olhar para o chão, até que vi uns Chucks pretos à minha frente. Esses Chucks estavam colados a umas pernas, que estavam coladas a um corpo que estava colado a uma cara com a qual eu passava os dias a sonhar. estava parado à minha frente, olhando para mim. Pisquei os olhos, para ter a certeza que não era uma alucinação. Não era.
- O que é que você está fazendo aqui? – Perguntou ele, tão surpreso quanto eu.
Olhei para ele e arqueei a sobrancelha. Isto era demais, mesmo para ele. Vivíamos no mesmo prédio desde que eu me lembro e ele não sabia?
- Você está brincando, certo?
- O que foi? – Ele ficou confuso.
- Eu moro aqui.
- A sério? Há quanto tempo? – Perguntou ele, com um sorriso que fazia o gelo derreter.
- Hum, cerca de 15 anos – Respondi, friamente.
- Sério? – O sorriso dele desapareceu quando ele percebeu a porcaria que tinha feito. Depois ficou sem saber o que dizer.
Eu olhei para ele mais uma vez e depois subi as escadas, magoada. Nunca pensei que ele não soubesse. Pensava que ele simplesmente ignorava. E me magoava mais do que eu imaginava ele não saber. Fechei a porta com força, infantilmente. Queria que ele viesse atrás de mim e que pedisse desculpa, apesar de lá no fundo saber que isso não ia acontecer. Me encostei à porta, sentada no chão. Me sentia ridícula por esperar que ele viesse bater à porta, uma vez que não éramos nada um do outro. Por isso é que não acreditei que fosse ele quando bateram à porta. Me levantei lentamente e a abri. Era mesmo ele.
- Olha, me desculpa por não saber que você morava aqui.
- Eu compreendo, mas me magoa um pouco.
- Desculpa, sério, mas nunca te vi aqui – Ele estava sinceramente desconsolado.
- Não tem problema. Quer entrar?
- Eu estava mais pensando em dar uma volta. Preciso arejar as ideias.
- Hum, ok.
- Você podia vir comigo – Ele me olhou fundo nos olhos.
- Você quer mesmo que eu vá? Você está com ar de quem precisa de arejar as ideias sozinho.
- Claro que quero. Eu e você ainda temos muito que falar – Disse ele, sorrindo abertamente. Devia ser proibido ser tão bonito. Os meus joelhos transformaram-se em gelatina e eu sorri nervosamente.
- Ok, tenho só que ir deixar a mochila no meu quarto. Espera só um pouco.
Fui para o quarto e atirei a mochila para o chão. Depois olhei ao espelho. Sinceramente não percebia o que ele via em mim. Eu não era bonita como a e as outras, nem era gostosa nem… burra. Sorri para mim mesma e me virei para ir embora. Mas parei quando vi o parado à porta do quarto.
- Sabe, acho que o teu quarto é exatamente em baixo do meu – Disse ele, olhando para cima.
- Pois é – Disse eu, sem pensar.
Ele olhou para mim com um sorriso divertido e eu corei. Só queria desaparecer por um buraco no chão.
- Hum, quer dizer, acho que é.
Ele sorriu, como quem diz "eu acredito". Ele entrou no quarto e olhou em volta. Eu dei um passo atrás, aumentando a distância entre nós.
- Belo quarto – Olhou de novo para mim, com uma expressão indecifrável, e deu mais um passo em frente.
- Hum, obrigada – Eu dei outro passo atrás e desviei o olhar dele. Quando dei por mim estava encostada à parede.
- Tem tudo a ver contigo – Ele sorriu, mas os olhos dele continuavam indecifráveis. Deu outro passo em frente, cada vez mais próximo de mim.
- Obrigada, acho eu – Comecei a ficar nervosa. Quer dizer, mais nervosa, porque nervosa já estava desde que ele tinha aparecido à minha frente.
- De nada – Ele sorriu de novo e andou até nossos rostos estarem separadas por apenas alguns milímetros.
Eu ri nervosamente. Tinha sonhado tantas vezes com este momento, mas não estava a sentir nada daquilo que era suposto. Supostamente eu deveria querer que ele me beijasse, mas não era bem isso que eu queria. Até queria, mas queria mais que ele me conhecesse primeiro. Ele olhou para os meus lábios e começou a aproximar-se, mas eu empurrei-o ligeiramente.
- O que é que você está fazendo? – Perguntei, com a pouca coragem que consegui arranjar.

Capítulo 8
Where’d you go, I miss you so

Ele olhou para mim, admirado. Mas depois se afastou e corou ligeiramente. Se virou de costas para mim e voltou para a porta. Eu entrei no banheiro e me olhei no espelho. Tinha os lábios vermelhos de tanto os morder, com os nervos. Continuava sem perceber porque é que ele me queria beijar. Talvez era só pela diversão. Eu não queria ser só mais uma para ele usar e jogar fora. Corriam rumores que ele fazia isso com frequência. Mas, pela maneira como ele reagiu, me parecia mesmo arrependido. Por isso achei que não valia a pena ficar chateada.
- Desculpa, desculpa, não estava pensando – Disse ele, em voz baixa.
- Não tem problema – Sorri, mas ele estava de costas.
- Não? – Ele se virou, talvez com medo da minha reação. Mas quando viu que eu estava sorrindo, a expressão dele suavizou.
Ele me olhou e eu encolhi os ombros, com um sorriso envergonhado. Não valia a pena fazer um escândalo. Ele recuou ainda mais para a porta e eu não me mexi.
- Eu devia ir andando – Disse ele. Exatamente como nos filmes, meio a fugir.
- Claro – Concordei, contrariada. Ele voltou a sorrir e saiu.
Tinha quase beijado o garoto dos meus sonhos, mas tinha paralisado no último minuto. Que raiva, só queria bater com a cabeça na parede. Peguei o telefone, para ligar pra . Mas depois me lembrei que era de manhã, ela estava nas aulas. Então me sentei no chão, pensando. Eu tinha medo de ele gostar de mim. Tinha medo de ele me pedir em namoro. Estranho, eu sei. Mas era a verdade. Tinha medo de fazer todas as coisas que os namorados fazem, tinha medo de não me sentir à vontade com ele, perto dele. A verdade é que, quando estávamos sozinhos, eu estava sempre rezando para que aparecesse outra pessoa. Se ele gostasse de mim e me pedisse em namoro, isso significava muitos momentos sozinha com ele. E eu ficava tão nervosa sempre, sem saber o que dizer… Quem me dera ser como a , ela saberia sempre o que dizer. Mas ao mesmo tempo não aguentava mais olhar para ele e não o poder conversar. Talvez, muito talvez, eu conseguisse me sentir à vontade junto dele.
No dia seguinte, a me telefonou dizendo que ela, a e o iam me buscar em casa. O ? Mas por que é que ele me ia buscar em casa? Nós mal nos conhecíamos! Mas depois percebi: a ainda andava à minha procura e a havia obrigado o a ir com elas. Passei o dia a fugir da , com sucesso. Nem uma vez me cruzei com ela, nem a vi fora das aulas. Mas também não vi o . Nem mesmo nas aulas. Por isso já estava à espera do que encontrei quando entrei na aula de Química. Um banco vazio ao lado do meu. Me sentei, desanimada, sentido os olhos da nas minhas costas, como se fossem facas.
O veio se sentar ao meu lado, e eu olhei para ele espantada. Mas ele olhou para mim amigavelmente e depois olhou em volta, demorando o olhar em . Depois olhou para mim de novo.
- Você deve querer saber onde está o .
- Sim, quero – Disse eu, verdadeiramente curiosa.
- Ele foi viajar. Um pouco repentino, eu sei, mas ele me pediu para te dizer que não tem nada a ver com o que aconteceu ontem.
- Ah, ok, obrigada.
- O que é que aconteceu ontem? – Perguntou ele, depois um curto silêncio.
- Nada de mais, não quero mesmo falar sobre isso.
- Claro. Só quero dizer que ainda bem que ele te encontrou, já nenhum de nós aguentava a – Ele me deu um sorriso fofo.
- Own, obrigada. Mas como você sabe que sou melhor?
- Pior você não pode ser – Ele se riu – Tenho que ir para o meu lugar, a Gio já está me chamando.
Olhei para ela, que estava a fazer enérgicos sinais ao , e ela me acenou com um sorriso. Eu lhe respondi com um sorriso e me virei para o .
- Acho melhor. Obrigada.
- De nada – Ele voltou a sorrir e se foi embora.
Depois disso eu voltei a ficar sozinha, entregue aos meus pensamentos. O tinha ido viajar assim de repente? Durante quanto tempo? Olhei para a , em busca de apoio moral, mas ela estava conversando com o , ignorando o que acontecia em volta dela. Olhei para o relógio, entediada. Já tinham passado 20 minutos e a professora ainda não havia chegado. Por isso peguei na mochila e me fui embora, cansada de estar ali sozinha. Sei que todas as pessoas tinham ficado chocadas, eu não era do tipo de pessoa de sair assim de uma aula, mesmo quando o professor não estava lá. Mas a verdade era que eu não andava a sentir muito eu ultimamente. A minha timidez quase tinha passado à história, parecia milagre.
Saí da escola, enquanto tirava o meu iPod da mochila e, no momento em que ia a pôr os fones nos ouvidos, ouvi um barulho atrás de mim. Me virei lentamente e adivinhem quem era… Claro, a nossa amiga .
- Agora os teus amiguinhos não estão aqui para te proteger – Disse ela, com um sorriso maldoso.
- Pensava que as pessoas como você não batiam, faziam outras coisas ou mandavam alguém bater – Respondi, tentando aparentar mais confiança do que na verdade estava a sentir.
Na verdade eu estava morrendo de medo. Tipo, ela tinha mais meio metro que eu! Ok, isso é um bocado exagerado, mas era muito mais alta que eu. E parecia mais forte, também. Sim, algo me diz que alguém vai levar agora, e não vai ser ela.
- Só em ocasiões muito especiais, e você tem a honra de ser uma delas.
Yay, tenho a honra de apanhar da em pessoa. Toda a minha vida esperei por este momento. Talvez se eu corresse conseguisse fugir...
- Por que é que você não guarda as ocasiões especiais para outras pessoas?
- Porque você se meteu no meu caminho, e todo mundo sabe que isso não se faz. Pensei que você também soubesse disso, ao fim deste tempo todo. Mas me enganei, e eu não gosto de me enganar.
- Isso não é culpa minha.
- É culpa sua! Você também estragou tudo com o !
- Não fiz nada! E você acha que me bater vai fazer o gostar de você?
- Pelo menos te mantém afastada.
- Oh meu Deus, você vai mesmo me bater! – Disse eu. A minha voz não soou assustada, mas sim bastante espantada, e dei uma pequena gargalhada.
Ela olhou para mim, surpreendida, mas furiosa. Suponho que não gostava que se rissem na cara dela.
- Você, a grande , vai mesmo me bater! – Comecei a rir – Desculpe, isto é demais.
Ela avançou para mim e me deu um tapa. Eu olhei para a frente, a minha cara ficava mesmo no peito dela. Que fique esclarecido, ela estava usando uns saltos altíssimos. Eu não sou assim tão baixa. Olhei para cima, mas não consegui deixar de pensar que muitos garotos dariam muita coisa para poderem apreciar esta vista tão de perto. Quer dizer, eu não estou a dizer que a vista é boa. Para mim. Mas para muitos garotos é. Uf, confusão. Anyway
- Isto é para você não se fazer de engraçadinha.
- Vocês são tão previsíveis. "Vejam como sou má, mando as pessoas lixarem a vida dos outros ou magoá-los. E bato se riem de mim" – Não me perguntem como arranjei coragem para falar assim. Deve ser da adrenalina – Sabe , se eu fosse como você, você estaria toda machucada agora. Mas eu não sou assim. Sou pacifista – Quando disse isso, fiz o "V" com os dedos, sabem, como os hippies faziam. Depois dei um passo atrás, como precaução, antes que ela processasse o que tinha dito.
Ela começou a gritar coisas que eu não consegui entender e começou a andar para mim. Juro, só pensei no Abominável Homem das Neves. Por isso comecei a fugir. Sim, eu fugi. Não me orgulho muito disso, mas temi pela minha vida. Ok, não temi, mas achei melhor. Já tinha deixado a minha marca, mas agora era melhor esperar até ela se acalmar um pouco. E não conseguia parar de rir.
Mais tarde, a me ligou.
- Oh meu Deus , você fugiu da aula! Estava todo mundo falando sobre isso! – Eu não disse que isso ia acontecer?
- Todo mundo? Sou assim tão importante? – Ri com a imagem das amigas da a comentarem que eu tinha faltado à aula.
- , o que aconteceu com você?
- Nada, mas a professora não estava lá e não estava com vontade de ficar lá mais. Tinham passado 20 minutos, era óbvio que não íamos ter aula.
- Sim, mas tivemos. Outra coisa que falaram sobre você… - Ela fez uma pausa, como se estivesse a pensar na melhor maneira de dizer – Bem, dizem que você bateu na .
- Ela é que me ia batendo. – Respondi, com um sorriso.
- O quê? O que aconteceu?
- Ela me encontrou fora da sala e começou a dizer que a culpa de o já não querer nada com ela era minha e não sei quê. E eu disse que não. Pronto, também ri na cara dela, e ela me deu um tapa. E eu comecei a dizer como ela era previsível, que estragava a vida das pessoas e batia nas que gozavam com ela. Também disse que se eu fosse como ela, ela estaria toda quebrada. E depois ela começou a andar para mim, tipo hooligan, a gritar sabe-se lá o quê e eu fugi. – Disse eu, rindo – Devias ter estado lá, eu não conseguia parar de rir.
- Você está brincando! – A começou a rir às gargalhadas – Amanhã vai ser bonito!
- Oh, logo se vê.
- Pois… O ?
- Foi viajar – Respondi, parando de rir. Mas talvez ela não percebesse que eu não estava contando tudo. Pois, talvez nos meus sonhos.
- Você vai me contar que aconteceu? – Eu não disse? Hoje estou vidente.
- Você me conhece muito bem – Eu sorri ligeiramente – No outro dia, quando você me disse para vir para casa, eu o encontrei aqui. E ele quase me beijou. Pronto, foi isto e nós não vamos falar mais sobre isto, pois não? – Perguntei, retoricamente.
- Mas…
- Não vamos falar mais sobre isto!
- Ok, desculpa. Você sabe quando é que ele volta?
- Não. O não me disse.
Comecei a ouvir barulhos na escada do prédio e tirei o telefone do ouvido durante uns segundos. Ouvi alguém subir as escadas, várias pessoas.
- Espera só um pouco – Disse eu para a , distraidamente.
Tirei de novo o telefone do ouvido e saí do quarto. Passei pelos meus pais, que estavam na sala, e abri a porta da entrada. Não era o . Claro, nem sei o que me deu. Mas, mesmo assim, não estava com vontade de estar dentro de casa.
- Progenitores, vou sair – Sim, eles são meus progenitores. Eu sei, eu assusto a mim mesma às vezes.
- Não volta tarde! E não faça nada que eu não faria quando tinha a sua idade – Me disse a minha mãe.
- Sim mãe, não se preocupa. Isso me deixa muita coisa para fazer – Respondi, com uma gargalhada.
Os meus pais riram e voltaram a sua atenção para a televisão. Eu saí e depois é que me lembrei que tinha a ao telefone.
- , desculpa!
- Não tem problema. Você nem imagina o que eu acabei de descobrir… - A voz dela estava muito mais triste que o habitual.
- O que foi?
- Lembra do Jason?
O Jason… Tenho muitas histórias engraçadas com esse rapaz. Costumava passar os dias com ele, éramos mesmo amigos. Eu, ele e a . Já não o via há 2 anos, mas falávamos regularmente.
- Claro que me lembro do Jason. O que foi? Você está me assustando.
- lamento, ele morreu – Ela começou a chorar ao telefone e eu me sentei na escada, também chorando.
- O quê? Como?
- Foi atropelado. Oh , oh , e agora? – Ela começou a chorar mais e eu não aguentava aquilo.
- , vou ter que desligar. Falamos amanhã.
Nem ouvi a resposta dela. Desliguei o telefone e abracei os joelhos, escondendo a cara nos braços, a chorar. O Jason, morto? O Jason cheio de alegria, sempre com um sorriso nos lábios, morto?

Capítulo 9
I can’t believe my eyes

Não sei quanto tempo fiquei nas escadas até me levantar e me arrastar para o meu quarto. No dia seguinte, nem eu nem a estávamos muito conversadoras. Os rapazes e a não nos deixaram sozinhas por um segundo, por causa da , já que tivemos que contar pra eles. Mas tirando isso, não falamos do sucedido.
O não foi à escola nem nesse dia nem no dia seguinte, por isso tive que suportar outra aula de Química sozinha. A ausência de me incomodava, mesmo que eu estivesse de costas para o banco dele. Mas me dava tempo para pensar em tudo o que tinha acontecido com mais calma e mais racionalmente, coisa que não tinha sido possível nos últimos dias. Cada dia que passava eu me convencia mais de que ele não gostava de mim, mas sim da ideia que tinha de mim que tinha visto no bar. Isso tinha sido provado pela tentativa dele de me beijar, como tinha feito no bar. Eu queria passar tempo com ele, para ele ver quem eu era de verdade, para que ele gostasse de mim como eu era. Se não gostasse, paciência, ele é que perdia. Ok, não era bem assim, mas não conseguia me afastar.
Na segunda-feira seguinte ele já lá estava de novo. Mas eu não me consegui entusiasmar muito, pois a morte de Jason ainda assombrava a minha mente. E ele reparou. No primeiro intervalo, veio atrás de mim quando saí da sala, mas eu fugi dele. Quanto mais tarde ele falasse comigo, mais animada eu conseguiria estar. Essa era a teoria. Mas na prática não foi bem assim. Quando chegou a aula de Química, eu continuava tão deprimida como antes. E aí não podia fugir.
- O que aconteceu? Você fugiu o dia todo. Por que é que você está tão triste?
Olhei para ele. Ele estava genuinamente preocupado, o que fez com que o nó que eu sentia na garganta se apertasse mais.
- Um amigo meu morreu – Disse eu, fungando.
- Oh, lamento muito. Alguém que estudava aqui na escola?
- Não. Quer dizer, estudou há dois anos. Mas não você se deve lembrar dele. Não era do teu círculo, como você deve calcular – Aquelas palavras foram ditas com uma agressividade que até a mim me surpreendeu. Ele recuou um pouco, defensivo.
- O que foi isso?
- Desculpa. Hoje não estou muito bem. Não queria ser tão agressiva.
Ele me olhou fundo nos olhos e depois desviou o olhar, e não me falou no resto da aula. Boa, agora tinha ficado chateado. Como se já não bastasse ter a outra querendo me matar! Quando a aula acabou, ele saiu o mais rápido que pôde. A veio falar comigo com um sorriso nos lábios, o primeiro naqueles dias.
- Oh , estou tão feliz! O me convidou para sair!
- Sério? Já não era sem tempo! – Comentei, sorrindo abertamente. Ao menos alguém estava feliz.
Quando saímos da sala, vimos o e a conversando num canto. Será que iam voltar outra vez? Depois os vi se beijando e os meus joelhos quase não aguentaram com o meu peso. A olhou para mim preocupada e me segurou, me impedindo de cair. Porra, o que era isto? Ele andava a acabar e a voltar para ela como se não fosse nada! E eu? Ele não podia me dar esperanças e depois voltar para ela! A veio conversar com a gente, com a boca aberta de espanto.
- O que é que aquele veado pensa que está fazendo?
- Gostaria de saber – Respondeu .
Eu não conseguia falar, tal era a raiva que sentia. Quando eles pararam de se beijar, a olhou para mim com uma cara tipo "ele é meu, e nunca vai ser seu" que me deu vontade de ir lá e lhe partir a carinha toda. Mas não o fiz. Eu não sou assim.
Por isso fui para casa, me sentindo miserável. E, para piorar tudo, conseguia ouvi-los no andar de cima, a fazer aquilo que vocês imaginam. Por isso pus a música o mais alto que podia, para abafar. No dia seguinte não fui à escola. Não me estava sentindo nada bem. Por que seria? Ah sim, o e a iam lá estar se exibindo. Eu juro que não percebia porque é que ele estava fazendo isto. Na quarta-feira ainda não me sentia bem, mas a minha mãe me obrigou a ir. Quando cheguei, fui rodeada pelos rapazes, pela e pela . Estavam todos em choque por o ter voltado para a e não pararam de tentar me animar. Começava a adorá-los, a vê-los como meus amigos também. Isso foi o que me fez aguentar o dia. O continuava a não falar comigo, nem mesmo na aula de Química. Quase comecei a chorar a meio da aula, ao ver os olhares que a lhe mandava. Sei que ele reparou nisso, pois aproximou um pouco mais o banco de mim. Mas foi só isso.
A minha vida foi assim durante duas semanas. Mas isso também teve um lado positivo. Me aproximei muito dos rapazes, em especial do . Não passávamos um dia sem falar um com o outro.
Uma segunda-feira, o falou comigo, depois de duas semanas de silêncio. Odiei a maneira como me senti, pronta a voltar ao que éramos antes. Não que fôssemos muita coisa, mas éramos algo e ele tinha estragado isso.
- , preciso de falar com você.
- Ai sim?
- Compreendo que você me odeie, mas tenho que te explicar.
- Talvez mais tarde.
- Tu e o têm alguma coisa?
Olhei para ele perplexa. Depois comecei a rir. Sim, comecei a rir na cara do .
- , acho que você não tem nada a ver com isso.
- Tenho sim. Vocês são meus amigos.
- Ai, agora já sou sua amiga. Depois de não me falar durante duas semanas já sou sua amiga. Pois olha, eu digo que não sou. Pergunta-lhe se quiser, mas de mim você não vai ouvir nada.
E fui embora. Sim, me afastei dele. Como achava que não conseguia.
- , te vi falando com o – Me disse o , mais tarde, enquanto me levava a casa.
- Sim, pois foi. Ele me perguntou se nós tínhamos algo.
- O que você disse?
- Disse que ele não tinha nada a ver com isso e que se quisesse saber que te perguntasse, porque eu não ia responder.
- Quer que lhe responda o quê?
Olhei para ele, com um sorriso divertido, sem perceber qual era a dúvida dele.
- A verdade.
- Claro – Ele me pareceu um pouco desiludido por um segundo, mas depois sorriu, apagando qualquer traço de desilusão do seu rosto – Não quero que ele te magoe.
- Não se preocupe, eu não deixo – Respondi, lhe dando um tapa no braço, na brincadeira.
Ele começou a me fazer cócegas e depois nos rimos imenso. Quando dei por mim, estávamos à porta do prédio, à frente do . Eu e o paramos de rir e o olhou para nós, chateado.
- Façam menos barulho.
- Por que é que está sendo assim? – Perguntei, sentindo a boa disposição sair do meu corpo.
- Vocês estão a me incomodar com o barulho.
- Desculpa dude, a rua é pública – Disse , agressivo.
- Calma , não vale a pena – Murmurei eu, tentando acalmá-lo.
olhou para nós mais uma vez e foi embora.
- , vocês são amigos. Não vale a pena se zangarem assim.
Ele ainda estava a olhar distraído para a porta por onde tinha acabado de entrar. Depois me olhou e sorriu.
- Tem razão. Não vale.
- Bem, eu fico aqui – Me virei de frente para ele, subindo um degrau, ficando apenas um pouquinho mais alta que ele.
- Até amanhã – Ele me abraçou e despenteou o meu cabelo.
- Boa , obrigada – Tentei fazer cara séria, mas não consegui e desatei a rir.
Ele me abraçou de novo e depois se foi embora, sem dizer mais nada. Eu fiquei um pouco a ver ele se afastando, sem perceber aquela reação. Porque é que toda a gente à minha volta andava a agir de uma maneira tão estranha?

's P.O.V.
No dia seguinte apanhei o sozinho.
- Posso falar com você, dude?
- Sim.
Fomos para uma sala vazia e eu entrei depois dele, fechando a porta.
- O que quer, ?
- Você e a têm alguma coisa?
- O que tem a ver com isso? Já fez o suficiente, não acha?
- Sim ou não? – Perguntei, elevando ligeiramente a voz.
- Não vou te responder. Você perdeu o direito de saber quando andou a brincar com os sentimentos dela – Ele também elevou a voz.
- Dude, você gosta dela?
- E se gostar?
- Porra, pode parar de responder com perguntas? Gosta dela ou não?
- Para que é que te interessa? Você voltou para a – Ele me virou as costas e começou a ir para a porta.
Eu me passei e disse aquilo que não queria dizer, mas que sabia que iria causar uma reação da parte dele.
- Você sabe que ela vai sempre ter um fraco por mim.
Ele se virou, e me deu um murro. E eu não me fiquei. Também lhe dei um murro. Só paramos quando o sinal tocou e a entrou na sala e olhou para nós, desiludida. Aquele olhar me magoou mais do que alguma vez pensei.
- Vocês dois, parem com isso imediatamente – Murmurou ela, furiosa – O que é que deu em vocês?
- Desculpa, ele quem pediu – Disse o , me largando e olhando para mim com desprezo.
- , não vale a pena – Ela pôs a mão no ombro dele e o afastou de mim.
Eu fiquei a olhar para ele, sentindo uma raiva crescer dentro de mim. Uns dias antes tinha sido eu na posição dele, a falar com ela dessa maneira. Mas tinha sido estúpido e tinha estragado tudo, achando que ela não me faria falta. Mas agora me arrependia mais disso do que de qualquer outra coisa na minha vida toda. Por isso tinha que dar tudo por tudo, tinha que a recuperar. Por isso tinha que acabar com a . Saí da sala, sem olhar para eles. Encontrei a no corredor e a puxei para dentro de uma sala.
- , desta vez é sério.
- , tenho que te contar uma coisa.
Ficamos a olhar um para o outro, sem saber qual devia falar primeiro. Mas eu cedi.
- O que foi?
- Estou grávida.
Essas palavras me atingiram com tanta força que tive que me sentar. Ela não podia estar grávida. Isso não podia estar a acontecer.
- O quê? Você tem certeza?
- Sim, fiz o teste 5 vezes. O que vamos fazer? – Ela começou a choramingar e se agarrou a mim.
- Não sei… - Não tive escolha senão abraçá-la. Mas o meu mundo se desmoronou. Se acabavam aqui todas as probabilidades de algum dia poder estar com a .

Capítulo 10
This is goodbye

's P.O.V.
O não me levou pra casa nesse dia. Ainda estava um pouco desiludida por ele e o terem andado à porrada. Por mais que ele me tivesse magoado, o ainda significava muito para mim. Quando cheguei à porta do prédio, não podia acreditar nos meus olhos. estava sentado num degrau chorando. Sim, chorando, a sério. Quando me aproximei, ele olhou para mim. Os olhos dele estavam cheios de lágrimas e eu senti um aperto no meu coração por vê-lo assim.
- , você está bem?
Me sentei ao lado dele, esquecendo todas as vezes que ele tinha me feito sofrer. Ele se virou para mim e me abraçou com força, enterrando o rosto no meu ombro. Eu o abracei, acariciando o cabelo e esperei que ele se acalmasse. Quando finalmente ele parou de chorar, se afastou de mim.
- , o que foi?
- A está grávida – Disse ele, engolindo em seco.
- O quê? – Senti que não conseguia respirar.
- Sim, ela está grávida. E agora eu não sei o que fazer. Não sei…
O abracei de novo, desta vez enterrando a minha cara no ombro dele e inspirando profundamente o perfume da sua pele. Ele encostou a cabeça à minha, e eu senti por um momento que tudo se ia resolver, que ia ficar tudo bem. Mas assim que o abraço se dissolveu, todos os problemas voltaram.
- Eu tenho que assumir todas as responsabilidades – Disse ele, evitando olhar para mim – Mas não é com ela que eu quero estar.
Eu baixei a cabeça, sentindo que estava prestes a desmaiar. Não aguentava mais aquilo.
- É com você. Desde que nos encontramos naquele bar, é com você que eu quero estar. Não consigo pensar noutra coisa.
- , não fale isso. Você vai ver que tudo se vai resolver.
Não sabia como tornar isso verdade, nem se algum dia iria, mas tinha que me convencer disso. Ele foi comigo até a porta da minha casa e depois foi embora. Passei a noite acordada, com a perfeita consciência da presença do no andar de cima. Me virei e revirei na cama, sem saber o que fazer. Será que eles iam ficar com o bebé? Será que iam desistir da escola e arranjar trabalhos ranhosos, sendo miseráveis para o resto da vida? Não suportava ver o jogar fora a vida dele por causa daquela coisa. Mas eu não podia fazer nada. Por isso tomei uma decisão. Foi provavelmente a decisão mais difícil da minha vida, e eu não se como arranjei coragem para a fazer. Mas é certo que fiz e que me senti melhor depois. Muito melhor.
Na manhã seguinte abordei a minha mãe durante o café da manhã.
- Mãe, você se lembra de quando estava sempre querendo que eu fosse um ano para casa da tia, para me afastar daqui um pouco?
- Sim filha, lembro. O que tem?
Eu respirei fundo, antes de falar a minha decisão alto.
- Eu gostaria de aceitar. E ir o mais rápido possível.
- Oh filha, agora no meio do ano?
- Mãe, você nem imagina… Meu mundo está de pernas para o ar e eu não aguento mais. Eu tenho que ir embora.
Eu comecei ali mesmo a chorar e ela correu a me abraçar.
- querida, o que aconteceu?
E eu lhe contei tudo. Do bar, do e da estar grávida. Falei que não aguentava vê-lo desperdiçar a vida por aquela garota, ela não merecia isso, e não poder mudar nada. Quando acabei, ela não sabia o que dizer para me confortar.
- amor, olhe para mim – Disse ela, me limpando as lágrimas – Me deixa cuidar de você. Hoje não vai à escola, ok? Vai ficar aqui em casa com a mamãe. Eu vou ligar para a tia, para saber se ela aceita e vou começar a tratar dos papéis para você poder mudar. Seu pai vai entender, com certeza.
- Obrigada mãe, você é a melhor – Disse eu, fungando um pouco.
Depois fui para o quarto, enquanto minha mãe tratava de tudo. No intervalo das aulas, a me ligou.
- Então , cadê você?
- Hoje não vou à escola – Murmurei, sentido o cansaço invadir meu corpo por não ter dormido nada na noite anterior.
- Pois isso já percebi. Mas por quê? O também anda por aqui como um zumbi, sem reação e o está preocupadíssimo com você.
- , a está grávida.
- O quê? Caralho, como foi isso acontecer?
- Quer que eu explique como isso acontece? – Disse eu, com um pequeno sorriso.
- Não , não. Ao menos não perdeu a gracinha – Disse ela, sorrindo também – O que você vai fazer? – A voz dela estava de novo séria.
- , eu não vou aguentar. Eu pedi para a minha mãe para eu ir para Bolton, para casa da minha tia. Assim ao menos fico longe deles.
- Oh , você vai mesmo fazer isso? Você tem que ser forte e esquecê-lo!
- Você sabe muito bem que não sou forte. Você sempre foi a forte de nós duas. Mas não conta nada para ninguém ainda, ok? Ainda não é definitivo e quero ser eu a contar.
- Ai ai garota, o que eu faço com você… Eu não conto, mas você me avisa logo quando for definitivo, ok? A gente tem que fazer uma grande festa de despedida.
- Claro que sim, . Eu te amo, sabia?
- Pois, se não amasse era estranho – A voz dela voltou ao tom menos sério.
Depois, minha mãe me chamou para vermos um filme. Ela me disse que minha tia havia adorado a ideia e que agora era só tratar dos papéis da escola e falar com a outra escola. Eu concordei que ela fizesse isso, e depois me enrosquei nos braços dela enquanto assistíamos "De volta para o Futuro". Adormeci nos braços dela e só acordei mais tarde, quando o meu pai chegou em casa.
- Boa tarde, família.
- Boa tarde, querido – Minha mãe lhe deu um beijo – A pediu para ir para Bolton, para casa da minha irmã.
- Agora, no meio do ano?
Minha mãe lhe lançou o olhar eu-te-explico-depois-mas-tem-uma-boa-razão e ele veio me abraçar.
- Se é isso que a minha princesa precisa, pode ser.
- Obrigada pai, eu sabia que você ia deixar.
Ao jantar, estávamos todos em silêncio. Eu estava pensando na minha decisão, no que me ia custar. Ia poder estar com os meus primos e começar de novo, ser eu mesma, sem ninguém que me conhecesse. Mas, ao mesmo tempo, ia sentir falta da , da e dos rapazes. E certamente ia sentir falta do , de me sentar ao lado dele todas as segundas e quartas-feiras na aula de Química. Estava pensando nisso até que a minha mãe falou comigo.
- , você se sente bem para ir à escola amanhã?
- Sim, acho que sim – Encolhi os ombros.
- Então eu com você de manhã, para tratar dos papéis da transferência.
- Ok, mãe.
Nessa noite não dormi nada de novo. Tive pesadelos e estava sempre a acordar. A verdade é que não sabia se era boa ideia ir à escola amanhã, mas tinha que me despedir. Nem que fosse com um olhar. Na manhã seguinte, acordei com uma estranha leveza. Não sentia nada. Absolutamente nada. Um vazio enorme. Minha mãe me levou à escola e me disse que ia tratar de tudo e que ia contatar a outra escola. Eu lhe sorri, agradecida. Depois me virei para enfrentar um dos meus últimos dias de aulas naquela escola. A veio conversar comigo logo que me viu e me abraçou.
- Querida, como você está?
- Vou indo.
- , onde é que você andou? – e os rapazes rodearam-me.
- Ontem não estava me sentindo muito bem. Mas estou bem agora.
- Que bom – Murmurou o no meu ouvido – Preciso falar com você.
- Ok – Respondi, o deixando me levar para longe deles, dar voltas na escola.
- Desde que você começou a passar mais tempo conosco, eu…
Tentei não pressioná-lo, mas estava a ficar impaciente.
- Eu gosto de você – Disse ele, por fim.
- Eu também gosto de você – Respondi, encolhendo os ombros.
- Não, eu gosto mais do que como amigo. Você aceita sair comigo? – Ele olhou para mim esperançoso.
- Sair com você? Hum , você é um bom amigo, muito bom mesmo, mas não passa disso… - Matou-me ver a tristeza no olhar dele.
- Bem, tinha que tentar.
- , eu vou embora – Senti que tinha que lhe contar – Vou para Bolton.
- O quê? Por quê? Quando?
Nesse momento, o passou por nós, tão perto que podia ter ouvido a conversa. Pela maneira como ele me olhou, acho que ouviu. Os nossos olhos se encontraram e eu não consegui deixar de olhar. Ele me olhou tristemente, o que me fez ainda mais certa da minha decisão.
- Por causa dele? – Disse o em voz baixa, quando se afastou.
- Olhe, não fale assim dele. A culpa não é dele, a decisão foi minha.
- Sim, mas é por causa dele, não é? O que é que ele fez?
- Pare, ok? Ele não tem culpa – Disse eu, me afastando.
- Me diz. O que é que ele fez?! – Gritou ele, no meio do corredor.
Eu me aproximei dele, irritada, e murmurei no ouvido dele.
- A está grávida.
E depois me afastei, sem olhar para trás. No momento seguinte apareceu a na minha frente.
- O que é que ele queria?
- Ele gosta de mim.
- Já tinha suspeitado, mas woah!
- Eu sei. Ele me convidou para sair. Mas depois eu disse que me ia embora e ele começou a se passar e a perguntar o que é que o tinha feito, e que lhe contei da . Viu? Por isso mesmo é que eu quero me ir embora. Estou tão cansada de dramas!
- Vou sentir a sua falta, – Ela afagou o meu cabelo.
- , a gente não vai deixar de se falar. E você vai me visitar, eu venho te visitar.
- Mas não vai ser o mesmo – Ela pareceu um pouco triste.
- , eu tenho mesmo que fazer isso. Você sabe que eu odeio deixar você, mas eu não aguento mais. Desde isso do Jason, eu não tenho estado muito bem. E com isso tudo, eu não consigo mais.
- Eu percebo, . Você tem a minha bênção – Disse ela, sorrindo de novo.
Quando voltei para casa, a minha mãe estava ao telefone com a diretora da outra escola. A conversa parecia estar correndo bem, por isso fui ligar para a .
- É quase certo, amor. Pode começar preparando a festa – Disse eu rindo, tentando esconder a minha tristeza.
- Ok. Eu vou reunir todos em minha casa. Convido também o ?
- Sim, claro. Convide também o . Quero me despedir dele também.
- Claro. Então, em minha casa daqui a meia hora, ok?
- Claro, até já.
Fui para a sala e minha mãe me viu.
- , você já voltou?! Eu estava falando com a directora de escola onde os seus primos estudam e consegui uma vaga. Você pode começar já na segunda-feira.
- Ótimo. Mãe, você me pode levar a casa da ? Quero me despedir dos meus amigos.
- Claro, querida.
Ela me levou e minutos depois estávamos lá.
- A que horas venho te buscar?
- Eu te ligo depois.
Quando entrei na casa da , ainda ninguém tinha chegado. Ela me disse que não tinha conseguido falar com o , mas os outros vinham todos. Eu a abracei, grata, e pouco depois chegaram os outros.
- , você tem andado muito estranha. Vai falar o que se passou? – Disse , enquanto todos se sentavam na sala.
- Eu vou embora. Vou para casa da minha tia em Bolton – Falei eu, suspirando.
- Por quê? – Perguntou o , me olhando admirado – Por causa da ? A gente sabe o que passou, o nos contou. Mas isso não é motivo para você ir embora!
- Eu não esperava que vocês compreendessem, mas eu tenho que fazer isso. Eu… eu o amo mesmo, não consigo ficar assistindo enquanto ele jogar a vida fora por causa daquela vaca.
O , que tinha estado muito calado, olhou para mim.
- Você o ama?
- Sim.
- Nós compreendemos, e apoiamos. Desde que você não se esqueça de nós – Falou o , pela primeira vez.
- Não, claro que não, . Nem vamos deixar de falar, e eu volto. Só preciso de me afastar durante um tempo. Mas eu amo vocês todos – Disse eu, com um pequeno sorriso.
- E você vai quando? – Perguntou o , um pouco aborrecido.
- Vou embora amanhã e começo a escola na segunda.
- Já? Mas hoje é quinta! – Exclamou , infeliz.
- Eu sei que é um pouco em cima da hora, mas eu não tinha a certeza até hoje.
- Oh, nós vamos sentir tanto a sua falta – Disse , me abraçando.
- Você vai amanhã na escola? – Perguntou o .
- Não, vou ficar em casa para empacotar as minhas coisas.
começou a chorar, fazendo a e eu começarmos também. Nos envolvemos num abraço de grupo e assim ficámos durante uns minutos, até nos acalmarmos. Depois minha mãe me telefonou, dizendo que tinha uma reunião no trabalho e que eu ia ter que ir para casa sozinha. Ficamos juntos até as seis da tarde, hora em que eu tive que ir, senão ficava escuro. A despedida foi de novo com muitas lágrimas e com muitas promessas de manter contato e de visitas.
Fui a pé para casa, e a meio do caminho começou a chover. Quando cheguei à porta do prédio, encharcada, me lembrei que não tinha as chaves. Então me sentei no degrau, apanhando mais chuva, e esperando que alguém aparecesse e me deixasse entrar. Até que ele apareceu.

Capítulo 11
The one thing I wish I’d forget is goodbye

- O que aconteceu com você? – Perguntou , e eu olhei para ele.
- Não tenho chaves – Murmurei eu, com um nó na garganta.
- Você quer ir para a minha? Eu te arranjo roupa, você deve estar gelada – Ele pegou na minha mão de me ajudou a levantar.
- Sim, um pouco.
Me deixei levar para casa dele, onde ele me deu uma camiseta muito grande, dele, e umas calças de treino, da mãe dele. Depois me perguntou se eu queria comer alguma coisa. Eu disse que não, que estava bem. Eu sabia que tinha que falar para ele que me ia embora, e tinha que ser agora.
- , eu tenho que falar com você.
- Não, espera. Eu tenho que falar uma coisa para você, é muito importante – Disse ele, avançando para mim.
- O que foi?
- Eu tenho que dizer que eu te amo. Para valer, mesmo, muito. Desde que eu encontrei você naquele bar e percebi que você era essa garota maravilhosa, eu não tenho conseguido tirar você da minha cabeça. E é você, , não é a Tori. É você.
Ele se aproximou de mim e colocou uma mão no meu rosto. Meu coração começou a bater muito depressa e minha respiração também acelerou. Fechei os olhos ao sentir o toque dele, a pele dele na minha. Depois senti os lábios dele tocando nos meus e a língua pedindo permissão para entrar na minha boca. Eu deixei, me sentido mais nervosa do que alguma vez me tinha sentido. Quando as nossas línguas se tocaram senti algo que nunca tinha sentido antes, como se uma parte de mim acordasse. Levei minhas mãos ao rosto dele, e ele me puxou para ele, me pressionando contra o seu corpo. Nos beijamos até ficarmos sem fôlego e depois juntamos nossas testas, ficando só a olhar um para o outro. Mas isto só tornava a minha ida mais difícil, mas ao mesmo tempo, tornava mais difícil ficar.
- O que é que você queria dizer? – Murmurou ele, sorrindo de leve.
- , eu… - Engoli em seco, ganhando coragem – Eu vou embora, vou para Bolton.
- O quê? – Ele separou as nossas testas e olhou para mim, angustiado – Você não pode ir agora!
- Agora é que eu tenho que ir. Sei que parece egoísta, mas é a única maneira de eu não sofrer demais.
- Não , não faça isso, por favor! – Ele me olhou com os olhos se enchendo de lágrimas, fazendo os meus se encherem também.
- , não torne isso mais difícil. Vamos ter sempre essa memória e as memórias do bar. E eu te amo também, muito mesmo. Mas você vai ter um bebê e tem responsabilidades, não pode perder tempo comigo.
- Isso é mesmo a despedida? – Ele engoliu em seco, tentando controlar as lágrimas que começaram a cair.
- É – Disse eu, mas minha voz foi só um sussurro. Comecei também a chorar e ele me abraçou.
- Nunca vou me esquecer de você. Você vai ser sempre a primeira garota que eu amei.
- Você vai ser sempre o primeiro garoto que eu beijei – Disse eu, com um pequeno sorriso – E que eu amei.
No dia seguinte, não consegui deixar de chorar. Meus pais não estavam em casa e eu estava a arrumar as minhas coisas dentro de caixas, as mais importantes, depois os meus pais acabariam o resto e me mandariam. Quando abri o álbum de fotografias, não consegui parar de chorar. Tantas fotografias com as meninas, com os meninos todos, incluindo o . Havia uma em que estávamos todos sorridentes e eu estava no meio, esmagada pelo abraço do e da . uando acabei, me deitei na cama, desanimada. Mas depois me lembrei do . Droga, não tinha me despedido dele. Saí de casa e desci as escadas correndo. Bati na porta da casa dele com toda força que tinha até ele abrir. Depois o abracei com força.
- Olha, a minha pequenina. Pensei que você se tinha esquecido que eu existia!
- , senti tanto a sua falta!
Ele me convidou para entrar e eu lhe contei tudo. Ele me olhou com a sobrancelha arqueada e sorriu de leve, divertido.
- Você tem dois pretendentes?
- , isso não tem graça nenhuma. Eu amo o e ele vai ser pai. Eu vou embora, vou para a casa da minha tia.
- Vai mesmo? – O sorriso desapareceu e ele me olhou sério – Vou sentir a sua falta, – Ele me abraçou de novo.
Ao menos ele não tinha começado a dizer que isso não era razão. Eu sabia que ele ia compreender, que ia apoiar. Por isso fiquei de novo um pouco triste.
- Promete que me liga sempre que puder? – Perguntei, olhando para ele.
- Você sabe que sim, vou ligar todos os dias, várias vezes – Ele respondeu, dando um grande sorriso.
A gente ficou conversando muito tempo, como nos velhos tempos. Eu ri como não ria há muito tempo e me senti eu de novo. Mas a despedida foi triste e eu não queria ter que ir embora, voltar a enfrentar a realidade. Ele me ajudou a arrumar as coisas no carro dos meus pais e me abraçou longamente. Depois ficou acenando enquanto nos afastávamos. Olhei um pouco para cima e vi o na janela, olhando para mim. Não consegui aguentar o olhar e voltei a acenar para o .
Na manhã seguinte acordei no quarto da minha prima. Olhei em volta e a vi sentada na cama vendo televisão. Me sentei na cama e ela me viu.
- ! Que bom, já acordou! Você chegou ontem e veio direto pra cá – Ela sorriu – Você estava tão cansada.
- Kelly, que bom ver você – A abracei.
- Nem acredito que a gente vai passar a morar juntas. Vai ser lindo! O Jesse está muito feliz, também.
- Ai, seu irmão me mata - Eu comentei.
Jesse era o garoto mais engraçado que eu conhecia. Apesar de ter 18 anos, idade para ter juízo, ele se comportava como um garoto de 16.
- Sua mãe me pediu para levar você para a sala assim que você acordasse. Acho que ela tem uma surpresa qualquer para você – Ela me deu um sorriso e me puxou pela mão.
Assim que entramos na sala, os meus tios vieram me cumprimentar. O meu primo não estava, mas eu não liguei muito a isso. Estava mais ocupada a pensar na surpresa da minha mãe.
- Mamãe, a Kelly falou que você tinha uma surpresa para mim.
- Pois tenho. Você lembra quando nós fomos ao médico, ele disse que você já podia usar lentes. E quando você saiu eu pedi a ele uma receita. Aqui estão, , já não tem que usar mais óculos – Ela me estendeu uma pequena caixinha e eu corri para ela, a abraçando.
- Obrigada mãe, nem imagina o quanto eu queria isso!
- Agora vai se arrumar para nós irmos passear um pouco e ver a sua escola nova. Preciso falar com a diretora.
- Ok, estou indo.
A Kelly veio atrás de mim e quando estávamos no quarto, meu telefone tocou. Era a .
- Kelly, desculpe, mas tenho mesmo que atender.
- Não se incomode comigo – Respondeu ela, com um sorriso.
- Onde você anda, ? Já liguei um milhão de vezes! – Me repreendeu a .
- Desculpe, só acordei agora. Como estão as coisas?
- Estão bem. Já temos todos imensas saudades de você, sua doida.
- Sério? Como está o ?
- Ele está bastante triste. Ele está aqui ao meu lado. Quer que eu passe o telefone a ele?
- Sim, por favor.
- Oi – Ouvi a voz do e me deu pena. Ele parecia realmente triste.
- , como você está?
- Como você acha que eu estou? Você foi embora…
- , eu não quero que você fique assim por mim. Vamos continuar a ser amigos, você sabe disso. Já estou me sentindo mal o suficiente, não quero também discutir com você.
- Eu sei, me desculpe. Eu só quero estar com você.
- Eu vou aí nos fins de semana, prometo. Como vão as coisas entre você e o ?
- Não estão. Ele tratou você como lixo e eu nem consigo mais olhar para ele.
- , eu sei que você sente saudades dele. Não tem assim tanta importância para estragar a amizade de vocês. Me prometa que vai falar com ele.
- Vou tentar.
- É a ? – Ouvi a voz da Me passa, .
- Ok. Vou passar para a , . Depois falamos.
- Beijo, .
- Oi, amiga! – Disse a , entusiasmada – A gente já está sentindo a sua falta aqui.
- Sério? Eu também sinto muito a falta de vocês.
- Quando é que você vem pra cá nos visitar?
- Ainda não sei, amor. Talvez no próximo fim de semana.
- Acho bom. Agora, falando de outra coisa, o apareceu ontem na casa do .
- Ele está bem?
- Não, nada bem. Acho que isso tudo o deixou muito pra baixo. Sabe, da . Eu acho que ele estava chorando, mas eu fui embora.
- Chorando? – Senti meus olhos se enchendo de lágrimas.
- Sim. Me matou vê-lo assim. Ele é como um irmão para mim e eu só queria que ele ficasse bem… Enfim, hoje eu vou falar com ele, ver se consigo o ajudar.
- Depois me conte, sim? Eu agora tenho que ir, mas eu ligo depois.
- Espera, espera. O e o querem mandar um beijo para você. Vou passar.
- Ok.
- , tudo bem? – Perguntou o .
- Tudo sim, e com você?
- Melhor se você estivesse aqui. Bem, a está me batendo e dizendo para eu passar para o , que você tem que ir. Um beijo para você e me ligue amanhã, ok?
- Sim, claro. Beijo, .
- Oi, linda – Disse a voz doce do Só queria mandar um beijo para você.
- , meu amor. Obrigada, um beijo grande também para você.
- Não se esquece de ligar depois para nós.
- Ok, prometo. Vá, beijo. Fala a todos que os amo.
- Ok, eu falo. Beijo.
Desliguei e fiquei sentada na cama, olhando para o telefone. Quem me dera estar perto deles, poder abraçá-los e me rir com eles. E o estava chorando, o que só me fazia mais querer abraçá-lo e fazer tudo ficar bem.

Capítulo 12
In my dreams I've kissed your lips a thousand times
(n/a: ouçam a música hello, do glee, para entrar no espírito)

- , você está bem? – Perguntou Kelly, sentando-se ao meu lado.
- Sim, sim – Disse eu, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
- Eram os seus amigos?
- Sim. Está me custando muito mais do que eu pensava.
- Mas sua mãe disse que você veio por livre vontade.
- O garoto que eu amo engravidou a namorada e eu achei melhor vir embora, para não ter que vê-la todos os dias e imaginar o bebê do meu dentro da barriga daquela piranha.
- Sério? Que horror! E ele a ama?
- Não. Isso é a pior parte. Ele me ama, segundo ele.
- Então, mas isso é ótimo! Não percebo por que é que você veio embora.
- Kelly, pensa. Ele tem que assumir as responsabilidades como pai, não vai deixar a namorada.
- Pois… Lamento muito, . Mas se anima, aqui você vai conhecer montes de garotos lindos. Só vendo pelos amigos do Jesse… Ai , eles são tão gostosos. Acho que vai haver uma festa qualquer em breve, e você tem que ir conosco.
- Sim, logo se vê. Agora tenho que me arrumar.

's P.O.V.
Cada vez que fechava os olhos conseguia vê-la me olhando, conseguia sentir seus lábios nos meus, suas mãos no meu rosto. Eu pensava que era feliz antes, com uma namorada nova a cada semana e uma garota nova todas as noites. Mas agora sabia que isso tinha sido tudo um desperdício, que eu nunca havia conhecido a verdadeira felicidade. Não até ter conhecido a . Ela me fazia ser uma pessoa melhor e eu não queria mais ser eu sem ela ao meu lado. Mas, como castigo, provavelmente por ter magoado tantas garotas antes, a tinha que engravidar. Eu só queria que isto fosse tudo um pesadelo. Quando dei por mim, já era segunda-feira. Passei o dia todo a ansiar pela aula de química. Mas quando entrei na sala a verdade me atingiu de tal forma que quase me sentei no chão. A não ia lá estar. A carteira dela estava vazia, mas eu quase conseguia vê-la lá sentada sorrindo. Dizem que só percebemos o que sentimos por uma pessoa quando a perdemos. Pois, eu nunca tinha acreditado nisso até agora. Quis sair correndo da sala, mas a me viu e veio falar comigo.
- , como você está?
- Não sei. Pensei que quando entrasse na sala ia ver a lá sentada. Foi um bocado estúpido, mas só agora percebo a falta que ela me faz.
- , olhe para mim. Todos nós sentimos a falta dela. Mas se você a ama mesmo, então deve deixá-la ir.
- Você pensa que eu não sei disso?
- Você sabe que não tem que casar com a , nem nada assim.
- Não tenho?
- Não. Minha tia também engravidou com 16 anos e terminou com o namorado. Ela lhe disse que se ele só estava com ela pelo bebê mais valia nem estarem juntos.
- Sim, mas você sabe como é a . Vai fazer um escândalo se eu terminar com ela.
- Sei que você vai fazer a coisa certa, e eu vou te apoiar sempre.
- Eu sei que sim, mas eu não sei qual é a coisa certa para fazer!
- , olhe para mim! Eu sei que você vai conseguir. Você consegue sempre.
- Não sei como você consegue acreditar tanto assim em mim, mas obrigado.
Ela me sorriu e foi para o lugar dela. Eu me sentei no meu, me sentido um pouco melhor, e a professora entrou.
- Boa tarde, turma. Como todos já devem saber, temos menos uma aluna, por isso, Mr. , se faz favor, se junte à Ms. e ao Mr. .
- Claro – Eu peguei minhas coisas e me fui sentar ao lado do .
- Agora podemos começar a aula. Bom, na última aula…
A partir daí deixei de ouvir. Eu nunca tinha sido bom a química, e não ia ser agora que ia começar a ser. Depois da aula, o veio ter comigo.
- , podemos falar?
- Claro.
- Eu quero pedir desculpa pelas coisas que falei.
- Não, eu é que falei as maiores besteiras.
- Pois foi – Ele sorriu de leve – Como você está?
- Podia estar melhor, e você?
- Também, né? Isso de a ter ido embora deixou mossa.
- Deixou pois…
- Meninos, a gente vai comer sorvete. Querem vir? – Perguntou a .
- Pode ser – Respondemos, dando de ombros.
Acabei me divertindo, até. Já não estava com eles havia muito tempo e tinha sentido muito a falta disso. Mas, embora ninguém dissesse nada, todos sentíamos a falta da . Mais tarde, quando eu estava sentado à porta do prédio, apareceu a .
- , a pessoa que eu procurava.
- Oi, . Estava me procurando por quê?
- Acho que você não está bem. Pensei que você poderia querer falar um pouco. Isso, e o me mandou vir convidar você para vir hoje sair com a gente.
- Quanto a falar, não posso dizer nada que você já não saiba. Mas sair aceito.
- Você que sabe, não posso obrigar você a falar.
- A está me sufocando. Não passa um minuto sem ter que estar comigo, fazendo histerismos e escândalos. E eu não sei quanto mais tempo eu aguento isso.
- Pois, aquela moça parece ser insuportável. Mas você não tem que casar com ela, nem tem que estar com ela. Basta apoiar, não tem que estar namorando. Mas também não pode deixá-la sozinha, isso também não.
- Ela vai fazer um escândalo enorme se eu terminar tudo com ela, por isso não posso fazer isso. Mas obrigado pelos conselhos.
- Não é nada, . A gente passa aqui às 22h, ok? Esteja pronto, não queremos esperar – Ela deu uma risada e foi embora.
Estava começando a me convencer que tinha que terminar com a . Mas acho que se eu fizesse isso todo mundo ia me ver como um covarde, que engravida a namorada e nem fica com ela. Enfim, agora não podia fazer nada.
Às 22h em ponto ouvi a buzina do carro de tocando fora do meu prédio. Me apressei a descer e a entrar lá. Quando chegamos à discoteca, eles foram dançar, me deixando sozinho, depois de a ter me feito prometer que eu ficaria bem. Fui me sentar no bar e apareceu uma garota, que tinha todo o ar de já estar bêbada.
- Oi amor, não quer me pagar uma bebida?
- Claro. O que você quer?
- Pode ser Bloody Mary.
Por um momento vi a sentada na minha frente dizendo exatamente o mesmo. Foi assustador, meu. Não consegui falar nada por um momento e ela me olhou com cara estranha.
- Dois Bloody Marys – Pedi para o garçom.
- Me conte, qual é o seu nome? – Ela me perguntou, sorrindo.
- , e o seu? – Respondi, sem graça.
- Florie. Prazer em conhecer você, .
Ela sorriu sedutora e se aproximou, colocando o peito na minha frente. Não consegui deixar de olhar. Eu podia estar com o coração quebrado, mas não estava cego. A garota era mesmo muito gostosa.
- Prazer em conhecer você também, Florie. Você está aqui há muito tempo?
- Hum, nem, e você?
Nossas bebidas chegaram e ela pegou no limão que estava a enfeitar o copo e o mordeu.
- Você não adora o arrepio que o limão dá? – Perguntou ela, se abanando ligeiramente.
- Sim – Respondi, mordendo meu limão também.
Mentira, odeio limão, odeio o arrepio, odeio o cheiro. Bebi minha bebida toda de uma vez, e pedi outra. Quanto mais depressa ficasse bêbado, mais fácil ficava a levar de volta para minha casa. Ainda por cima meus pais estavam fora e tinham deixado a casa só para mim.
- Nossa, você é rápido – Comentou ela, com uma risada.
- Que tal a gente ir dançar? – Perguntei, lhe dando meu sorriso de pegador.
- Me parece uma ótima ideia.
Eu acabei de beber a minha segunda bebida e a deixei me levar para a pista. Pela noite afora acabei bebendo muito mais e a levei de volta para minha casa. A gente ficou e eu nem pensei mais na nem na .
Na manhã seguinte, quando eu acordei, ela tinha ido embora e tinha um bilhete na almofada.

“Você estava um fofo dormindo e eu não quis acordar você. Tive
que sair, mas você foi ótimo ontem à noite. Sempre que você
quiser se divertir, me ligue. Beijo, Florie”

Depois pensei no olhar reprovador da quando soubesse e na , que ia me matar. Tentei me sentar direito na cama, mas a minha cabeça explodiu. Eu adorava ficar bêbado, mas odiava a ressaca, como todo mundo. Comecei ouvindo um ruído que identifiquei como sendo o toque do meu celular. Peguei nele e atendi antes de ver quem era.
- Alô?
- Acordei você? – Disse uma voz que eu reconheceria em qualquer parte.
- ?! Não, claro que não.
- Ainda bem. Como você está?
- Essa pergunta tem pegadinha, certo? – Respondi, rindo de leve.
- Pois tem – Ela também riu.
- Como estão a correr as coisas? As pessoas estão tratando você bem?
- Sim, está tudo ótimo. Estão todos me tratando lindamente. Como vão as coisas com a…
- Indo.
- Vou ser sincera. Eu nem sei porquê liguei. Apenas peguei no celular e quando dei por mim estava ouvindo a sua voz. Tenho que ir.
- Não, não vá.
- Tenho que ir para a aula.
- Me liga depois?
- Não sei, .
Ela desligou e eu fiquei sem reação. Só depois comecei a pensar. Era terça-feira e eu tinha que ir para a aula. Me levantei com um salto e fui para o chuveiro. Algum tempo depois estava saindo de casa. Cheguei à escola no fim do segundo tempo da manhã e encontrei meus amigos logo.
- Onde você andou, ? – Perguntou , severa.
- Eu, hum, estava dormindo.
- A ressacar, melhor dizendo. Eu vi você sair com aquela garota loira. Você estava a cair de bêbado – Corrigiu , zangada.
- Uma garota? – Perguntou .
- Sim.
- Como é que ela era? – Perguntou , mas logo levou uma tapa de – Quer dizer, acho muito mal.
Ele me lançou um pequeno sorriso, para a não ver. Mas ela viu e lhe lançou um olhar assassino e ele se encolheu um pouco.
- E a ? – Perguntou , baixando a voz.
- O que ela não sabe não a magoa – Respondeu .
- Não gosto disso – Disse .

Capítulo 13
Hey Stranger

's P.O.V.
Nem sei porquê liguei pra ele. Saudades, provavelmente. Mas depois fui arrastada para a aula pela Kelly e não tive mais tempo para pensar nisso. Aqui as aulas eram bem mais exigentes do que na minha escola antiga, por isso tinha que prestar mais atenção.
- Pst, este fim de semana há uma festa na St. James School. Você quer vir conosco? – Perguntou a Kelly.
- Claro.
- Vai ser mesmo divertido. Garotos super gostosos que conversam com a gente sempre estão lá. Você vai se divertir com certeza.
- Bem, preciso – Respondi, com uma risada fraca.
Ela me sorriu e voltou a prestar atenção à aula. O resto desse dia passou muito depressa. A semana também e de repente já era sexta-feira e a Kelly estava me emprestando roupas para eu usar na festa.
- , você tem que experimentar esse vestido. Fica lindo com o tom da sua pele e do seu cabelo.
Ela me passou um vestido vermelho e eu o vesti. Realmente ficava bem, a minha pele era clara e o meu cabelo dourado. Ele era tomara-que-caia, apertava no peito e alargava em baixo, voltando a apertar um pouco por cima dos joelhos, onde acabava.
- Você parece uma estrela de cinema, .
- Obrigada – Respondi, enquanto mirava o meu reflexo no espelho.
Calcei umas sandálias rasas, por conselho da Kelly, que dizia que dançar horas e horas de saltos matava seus pés. Pintei as unhas de vermelho e uma hora depois estávamos prontas. Jesse nos levou até lá no carro dele e nos apresentou aos amigos dele que estudavam naquela escola. Depois disso, eu e a Kelly nos afastamos deles e fomos pegar uma bebida. Eu pedi Sex On The Beach, ignorando o Bloody Mary.
- Não tem aqui tantos gatos? – Me perguntou Kelly, olhando em volta e rindo.
- Sim, você tinha razão – Respondi, olhando para um garoto em especial.
Esse garoto não parava de olhar para mim desde o início da festa. Ele me sorriu e eu sorri de volta, dando um gole na bebida. Ele falou alguma coisa para o amigo e avançou na minha direção.
- Você quer dançar comigo? – Me perguntou ele.
A Kelly sorriu e me incentivou a aceitar. Não que eu precisasse de grande incentivo. Ele era loiro e tinha os olhos verdes lindos.
- Sim – Respondi, com um sorriso.
Ele me pegou na mão e me levou para o meio da pista de dança. Eu estava um pouco nervosa, sem saber muito bem o que fazer, mas ele fez eu me sentir à vontade e me guiou.
- O meu nome é Jay – Murmurou ele no meu ouvido.
- Sou a – Respondi, sorrindo.
Esse garoto me estava fazendo sentir tão confiante e gostosa. Dancei como nunca tinha dançado antes e me diverti como nunca havia me divertido antes. Algum tempo e muitas bebidas depois, o Jay me olhou e pegou na minha mão.
- Você quer ir para um local mais sossegado? – Murmurou ele, no meu ouvido.
- Claro.
Ele me levou para um local muito afastado e onde não estava ninguém. Ele podia me estuprar ali que ninguém me ajudava. Mas, por qualquer razão, eu não sentia medo. Não sei se isso era bom ou mau, mas ele me transmitia uma sensação de segurança. Eu estava mesmo muito bêbada, por isso também não pensei muito nisso.
- Bem, aqui você me podia estuprar que ninguém ouviria – Disse eu, dando uma risada.
- Ah, é isso que você pensa que eu quero fazer? – Ele me olhou, com um pequeno sorriso.
- Não, claro que não.
- Ainda bem. Não quero te magoar – Disse ele, sincero.
Eu sorri e ele colocou uma mão no meu rosto. Eu fechei os olhos e senti os lábios dele nos meus. Estava um pouco nervosa, mas ele fez eu me sentir bem. No início, o beijo foi suave, mas depois ficou mais apaixonado e intenso. Ele me empurrou contra a parede e continuou a me beijar.
- Hm, ? – Ouvi a voz hesitante de Kelly me chamando atrás do Jay.
O Jay se afastou e olhou para ela. Eu saí de trás dele e olhei para ela.
- Oi, Kelly – Lhe sorri abertamente.
- Desculpe incomodar, mas o Jesse está chamando por você. Temos que ir embora – Ela parecia muito desconfortável.
- Sim, claro. Me dê só um segundo. Já vou até vocês.
Ela se afastou e eu olhei para o Jay, rindo.
- Você está rindo do quê?
- Isso foi a coisa mais engraçada que já me aconteceu. Me dá o seu número de celular, Jay?
- Também foi a minha. Claro, escreve aí.
Eu guardei o número dele, lhe dei o meu e me despedi com um selinho. Encontrei a Kelly um pouco mais à frente e ela deu uma risada.
- Parece que alguém teve sorte – Disse ela.
- E tenho o número dele – Respondi, lhe mostrando.
- Sua sortuda! Mas não pode falar disso com o Jesse. Ele é muito protetor.
- Ah, ok. Obrigada.
- Você vai telefonar para ele?
- Não sei. Se calhar espero que ele me telefone primeiro – Eu cambaleei um pouco e ela me segurou.
- Sim, isso. Ele que telefone primeiro.
- Meninas, o que demorou tanto? – Perguntou o Jesse – , você está bêbada?
- Hm, sim – Respondi, evitando olhar para ele.
- Olha para mim – Disse ele, severo – Quando chegarmos em casa, você vai se comportar normalmente, não vai estar assim, viu?
- Sim, senhor – Não consegui evitar uma risadinha, mas logo me calei quando vi que ele estava mesmo sério – Desculpa, eu não costumo ser assim. Eu vou me portar bem.
- Vá, não faz mal. Todo mundo tem direito de se divertir. Kelly, quando chegarmos, leva ela para o quarto logo, ok? Não me parece que ela consiga enganar a mãe como nós – Ele riu e me ajudou a entrar no carro.
Quando chegamos em casa, a Kelly disse à mãe que estávamos muito cansadas e me levou para o quarto. Eu só me ria e cantava alto, o que tornou a tarefa de Kelly mais difícil. Na manhã seguinte, quando acordei, tinha a cabeça prestes a explodir e a minha língua parecia cartão. A Kelly olhou para mim, desaprovadoramente.
- Ontem à noite você fez um bonito show. Meus pais quase descobriram.
- Peço mil desculpas, eu não queria fazer nada disso. Eu nem queria ficar bêbada, mas parece que não aguento bem a bebida – Eu murmurei, sem abrir os olhos.
- Pois, para a próxima, tenha mais cuidado.
- Sério, desculpa. Não volta a acontecer.
- Eu sei que não. Agora me conta tudo tudo! Quem era ele?
- Você o viu.
- Sim, mas não estava prestando muita atenção. Admito, estava procurando outra pessoa.
- Sério? – Eu lhe sorri, continuando com os olhos fechados – Hm, Kelly, podemos falar disso depois? Minha cabeça está me matando.
- Sim, ok. Você quer que eu traga o café aqui em cima?
- Não, me dê um minuto que eu estou descendo. Só preciso de um minuto.
- Ok, até já.
Ela saiu do quarto e eu abri os olhos. A luz entrou dentro da minha cabeça e explodiu como se fosse uma bomba. Eu inspirei fundo e me levantei. Depois do café, a Kelly me fechou no quarto.
- Quero saber tudo! O nome dele?
- Bem, acho que ele se chamava Jay.
- Jay?! Ele era como? Loiro?
- Sim, acho que sim.
- Olhos verdes?
- Sim, verdes ou azuis, não me lembro bem.
- Oh meu Deus! Você pegou o garoto mais gostoso da St. James! E dos arredores, ou seja, desta zona toda.
- Oh não… Ele tem namorada?
- Não, não tem. Oh não, por quê?
- Não me dou bem com os garotos populares. Não quero confusões.
- O que está feito, está feito.

's P.O.V.
Não conseguia deixar de pensar na desde que ela tinha ligado. Mas não contei a ninguém. Se eu contasse à , ela ia querer analisar os meus sentimentos profundamente. Contar à era estranho, pois era a melhor amiga de . Contar aos rapazes estava fora de questão. Eles podiam ser os meus melhores amigos, mas não eram as pessoas mais indicadas para entender o que eu estava sentindo. Por isso guardei isso para mim, enquanto aturava os pedidos irritantes da .
- Bebê, você quer ir jantar lá a casa hoje à noite? Meus papais querem conhecer você – Disse ela, na segunda-feira, agarrando o meu braço.
- Hoje à noite? Vou ver se dá.
- Amor, tem que dar. Eles querem muito conhecer você e eles não gostam de remarcar.
- Ok, eu vou. Agora me larga que eu tenho que ir para a aula.
Virei as costas antes que ela me impedisse. Mais à frente apareceu .
- ! Quero convidar você para vir jantar lá a casa. Os meus pais estão fora, por isso estou convidando vocês todos, como fazíamos antes, lembra?
- Oh , a acabou de me obrigar a ir jantar a casa dela.
- Diga que está doente.
- Quem me dera poder. Mas eu passo na sua casa depois, devo conseguir me safar mais cedo.
- Espero, . A gente precisa de falar com você – Falou ela, com cara séria.
- Não pode falar agora?
- É sério, .
- Ok, eu vou tentar ir mais cedo. Vou conseguir, quero dizer – Corrigi, sob o olhar bravo da .
- Foi melhor. Ah, e mais uma coisa. Fiquei sabendo que a ligou pra você.
- Como você sabe disso?
- Ah, então é verdade. Eu não sabia, na verdade. Estava blefando. Agora quero saber porque você não contou.
- Uff, agora você vai querer examinar os meus sentimentos até a exaustão. Sem ofensa, , mas os meus sentimentos não são bons para serem examinados. Podem haver algumas surpresas desagradáveis.
- , você está obviamente sofrendo. Eu só quero te ajudar. Nós só queremos te ajudar.
- Deixa eu lidar com isso à minha maneira, deixa?
Comecei me afastando, na esperança que a conversa acabasse por ali, mas isso não aconteceu.
- , é para isso que os amigos servem! – Falou ela, mais alto para eu ouvir.
- Sim, zoar a minha cabeça até eu explodir.
Sabia que isso a tinha magoado, mas não estava nada com vontade de voltar atrás. Ela ia continuar a querer falar sobre a e eu simplesmente não queria falar sobre isso.

Capítulo 14
Don’t know if I should hate you or miss you

's P.O.V.
A minha nova vida começava bem. Na primeira semana, tinha conseguido pegar o garoto mais gostoso do lugar. De repente, eu tinha passado de nerd-mosquinha-morta para imã-de-gatos. Depois de ligar para a , lhe contar as novidades e dizer que ia passar o fim de semana seguinte em casa, fui com a Kelly ao cinema. Quando estávamos saindo do cinema, a Kelly prendeu a respiração e abriu muito os olhos.
- , olha quem está ali!
Olhei na direção em que ela apontava e vi Jay com um grupo de garotos e garotas.
- Vamos embora, vamos – Disse eu, corando.
- Não , vai dizer olá!
- Não vou nada. Deixa ele ali.
- Se não vai você, vem ele.
- O quê? Como…
Mas, antes de eu acabar, a Kelly começou a rir alto, de maneira a chamar a atenção dele.
- Kelly, shiu, assim ele vai pensar que somos loucas – Murmurei, mas já era tarde demais.
- Oi, – Ouvi uma voz grossa dizer atrás de mim.
Me virei lentamente e fiquei de frente para um garoto muito gostosão que me sorria abertamente. Minha memória não tinha me pregado uma peça. Ele era mesmo um dos garotos mais lindos que eu já tinha visto. Mas aí reparei que ele me era algo familiar. Mandei esses pensamentos para trás das costas, era ridículo ele me ser familiar. Sorri com o meu melhor sorriso e respondi.
- Oi, Jay. Não tinha visto você.
- Aí, a sua amiga precisa de ajuda, não acha?
Olhei para Kelly, que estava a tossir como louca e concordei. Eu e o Jay a ajudamos a se sentar e depois ele se voltou para mim.
- Você não estuda no St. James, não é?
- Não, estudo na Bolton High School.
- Que pena – Ele me piscou o olho. Mas depois acrescentou com uma cara um pouco triste - Olha, eu agora tenho que ir, mas depois te ligo.
- Claro.
Ele me beijou a bochecha e foi embora com os amigos. A Kelly me sorriu e eu a olhei zangada.
- Nem fale. Você não devia ter feito isso.
- Não devia como? Ele veio falar com você, não veio? E disse que ligava depois. Você devia ter visto a cara da amiguinha dele. Parecia que tinha levado com uma panela na cara.
- Isso não tem graça! Como eu já disse, eu não quero confusão. Foi por isso mesmo que vim pra cá. Porque, para ter confusão, teria ficado lá em Londres, onde está todo mundo.
- Porra, também não precisa ser assim, já percebi. Mas não vai negar que não gostou que ele falasse com você.
- Gostei, gostei do jeito como ele me olhou… - Admiti com um pequeno sorriso.
- E como ele se despediu – Continuou ela, com um brilhinho nos olhos.
- Claro… - Disse, com um sorriso sonhador.
Mas não conseguia deixar de pensar que algo na cara dele era familiar. Nunca o tinha visto antes, de certeza absoluta. Por isso é que era estranho eu o reconhecer de algum lado. Mas, por mais voltas que desse à cabeça, não conseguia me lembrar. Por isso tentei pensar noutra coisa. O que não foi difícil, porque nesse momento o me ligou.
- Hm, Kelly, tenho mesmo que atender essa chamada.
- Claro, eu vou ali naquela loja.
Eu lhe sorri antes de atender. Suspirei e olhei para o monitor de telefone. Não é que eu não gostasse de falar com ele, porque gostava, e muito. Só que ele me fazia sentir desconfortável com toda a cena de eu-estou-perdidamente-apaixonado-por-você. Mas não podia ignorá-lo, ele continuava a ser um dos meus melhores amigos.
- Oi, .
- Oi, . Tudo bom? – Sorri quando ouvi a voz dele, parecia contente.
- Sim, e com você?
- Tudo ótimo. Me conte, como vai a vida?
- Vai indo. Eu e o estamos bem de novo.
- Sério? Que bom!
- Sim, e eu comecei a sair com uma garota.
- Aaaai, conta tudo!
- Ela se chama Katrina. Nós nos conhecemos num bar e temos passado algum tempo juntos desde esse dia. Ela é linda e muito divertida.
- , fico tão feliz por você!
- Obrigado. Mas não foi por isso que eu liguei.
- Não? Então o que foi?
- Não sei muito bem como contar isso…
- Desembucha! Você está me deixando preocupada.
- O pegou outra garota – Ele falou, após uma curta hesitação.
Apesar da razão me dizer que eu não me devia importar, o coração falava outra coisa. Isso doeu tanto quanto uma facada, saber que o tinha me esquecido assim tão rapidamente.
- O quê? – Perguntei, sem acreditar.
- , eu lamento muito.
- , depois te ligo, ok?
- Sim, quando você quiser.
Desliguei sem me despedir. O que me incomodava mais era que nenhuma das minhas melhores amigas havia me contado isso.

's P.O.V.
- , abre já essa porta!
Me arrastei do sofá e abri a porta. Eram a e o .
- A está mesmo mal pelo que você disse a ela.
- Eu sei, foi mesmo mal. Mas ela estava me sufocando.
- Ela só quer ajudar, como todos nós. Você não vai ficar feliz enquanto não deixar a . Ela é como um pesadelo do qual você não consegue acordar, por mais que tente.
Não sei como é que ela fazia isso, mas tinha acertado. Só que eu não podia admitir isso, porque para segui-la teria que admitir que precisava da e isso era ainda mais impossível. Abri mais a porta para eles entrarem.
- Não posso fazer isso com ela. Ela pode ser a pessoa que é, mas não merece ser abandonada grávida.
- Mas você pode dar apoio para ela, continuar do lado dela, mas estar com outras garotas – Percebi que o “outras garotas” significava .
- Ela nunca aceitaria isso. Não vale a pena insistir.
- Ah, mas pegar garotas que você conhece nos bares, já pode ser – me olhou zangada.
- , você não percebe que não aguento mais esta conversa?
Senti as lágrimas a caminho. Era já a segunda vez que chorava, e isso estava me incomodando. Onde é que já se viu homem chorando por uma garota? Enfim, a percebeu isso.
- , acho que é melhor você ir. A gente depois se vê, ok amor?
- Claro. , a gente só quer ajudar. Só queremos ver você feliz de novo, como antigamente.
Eu não disse nada, me limitei a acenar com a cabeça. Não sabia o que poderia causar e não queria arriscar. deu um selinho no e ele saiu. Depois, ela se virou para mim com uma expressão afetuosa e me levou para o meu quarto.
- Vamos , desembuche.
- Não sei o que você quer que eu diga – Murmurei, sentindo um nó na garganta.
- Eu sei que você está pensando que não tem escolha, que a sua vida está arruinada. Mas isso não é verdade. Você pode ser feliz, sabe? Não tem que ficar para sempre agarrado à e à criança.
- Isso é mais fácil de falar do que de fazer – Uma lágrima escorreu pela minha cara.
- , não chora – Ela me olhou tristemente e me abraçou – Eu sei que a é complicada, mas você tem aqui os seus amigos tentando arranjar uma solução. E nós vamos arranjar.
- Não estou vendo solução nenhuma – Mais lágrimas seguiram aquela primeira.
- , , olha para mim! Nós vamos arranjar solução! Por favor, não chora! – Ela limpou as lágrimas que escorriam teimosamente dos meus olhos e me sorriu – Eu te prometo que vamos arranjar solução. Só te peço que não ande aí, pegando geral, também.
- Mas eu não aguento nem mais um minuto com ela. Ela me dá dor de cabeça! Sempre falando merda e fazendo escândalos! Um dia vou matá-la, de verdade.
- Bem, esperemos que não chegue aí, senão não tem mesmo solução. Você vai passar a ficar mais com a gente.
- Mas você não percebe, ela me chantageia para ficar com ela. Ela diz que começa a fazer escândalo no meio das pessoas se eu não fizer o que ela quer. E depois começa a falar que não se pode irritar porque está grávida e eu já não posso mais com essa conversa.
- Deixa ela fazer o escândalo todo que ela quiser. Todo mundo sabe como ela é e não vão culpar você. Aliás, você quer saber o que as pessoas pensam de você?
- Nem por isso… - Só podia ser besteira.
- Todo mundo acha você um herói por aguentar a . Acho que ninguém ia te julgar por deixar ela.
- Sim, mas isso vai contra o que eu penso.
- Isso não quer dizer que você não possa, de vez em quando, deixar de fazer o que ela quer. E isso vai começar agora. Você vai ligar para ela e dizer que não pode ir jantar na casa dela.
- Ai não, ela me mata.
- , não seja criança. A ficou mesmo magoada, merece que você faça isso por ela.
- Você paga o funeral – Falei, dando de ombros, enquanto pegava o celular.

's P.O.V.
Ainda estava pensando no na hora de jantar. Eu estava tão silenciosa que toda a mesa parou de falar e olhou para mim.
- , o que se passa com você, querida? – Perguntou minha tia, preocupada.
- Nada, eu estou bem, tia.
- Você não parece nada bem – Disse Jesse.
- Prometo que estou bem, estou só cansada, ok?
- Você que sabe – Respondeu ele, dando de ombros.
Depois do jantar, em vez de subir para o quarto, eu saí para a porta de casa. Peguei o telefone, para ligar para a , mas algo me impediu. Elas deviam ter uma boa razão para não me terem dito, de certeza que só queriam me proteger. Mas no momento em que eu me preparava para ir para dentro, o meu telefone tocou. Na tela piscava a palavra “”. Atendi logo, mas me arrependi. Não estava nem de longe preparada para falar com ele. Mas já não podia voltar atrás.
- Oi – Disse eu, timidamente.
- Oi – Respondeu ele.
God, como eu sentia saudades daquela voz. Como eu sentia saudades daquele ser que só existia para tornar a minha existência mais difícil.
- Hoje senti a sua falta na aula de química.
- Foi? – Foi a minha brilhante resposta.
- Sim, eu não consigo mesmo aprender aquela matéria.
- Oh , claro que você consegue. Só que você nunca se esforçou.
- Nunca tive que me esforçar…
- Pois, é a vida. – Não consegui evitar uma pequena gargalhada.
Nos calamos e ficou um silêncio estranho entre nós. Eu não conseguia quebrá-lo, não sabia o que dizer. Nem ele, pelo visto. Eu olhei para a lua, só ouvindo a respiração dele. Mas eu estava farta desses silêncios estranhos, de todo o sofrimento que ele me causava e de tudo, mesmo tudo.
- , a gente tem que deixar de se falar. De vez – Falei, inflexível.
- O quê? Você está falando sério? – Respondeu ele, após uns minutos de silêncio.
- Sim, muito sério. Eu vim pra cá para não ter que falar com você, me lembrando constantemente daquele ser abominável que carrega um ser que mistura o ser mais lindo e perfeito do mundo com o ser mais horrível que vive – Suspirei, embaralhada com a minha própria conversa – O que eu quero dizer é que não quero mais me prender a você e à vida que eu poderia estar levando no mundo perfeito, mas que não posso levar. Só tenho 15 anos e estou me sentindo como uma velha, sem vida. Eu conheci outro garoto e gostaria de ser livre na minha cabeça para recomeçar de novo com ele – Pronto, estava tudo dito. Mas no momento em que o disse, me arrependi. Nem conseguia imaginar o que ele devia estar passando, preso àquela coisa que só guinchava e berrava – , escuta, eu não…
- Você tem razão. As nossas vidas não são isso. Eu cometi um erro e estou pagando por ele, mas você não tem que pagar também. Você devia ficar feliz com esse outro garoto, eu vou sair da sua vida para sempre.
Dito isso, ele desligou. Para sempre… essas palavras eram as palavras que eu menos queria ouvir no mundo. Para sempre, tão final, tão decisivo. Mas era mesmo isso. Ele tinha razão, eu tinha que ser feliz, com o Jay ou qualquer outro garoto. Mas havia tantas coisas me prendendo às memórias menos felizes, tantas pessoas, tantos laços. Era altura de eu tomar uma grande decisão, maior do que a mudança. Era altura de eu cortar relações com os meus melhores amigos.

Capítulo 15
This constant struggle isn't always in the palm of our hand

Uma das decisões mais difíceis da minha vida, mas necessária. De qualquer maneira, estava sentindo um buraco dentro de mim, tão grande desde que tinha ido embora, estava me sentindo tão sozinha. Eles não iam perceber, nem eu esperava tal coisa. Mas era o melhor para mim.
Decidi que a primeira coisa que eu faria no dia seguinte, a seguir às aulas, seria comprar um novo chip para o celular. Assim eu me tornava incomunicável.
Me levantei e entrei em casa. Mandei uma mensagem à , a dizer que afinal não ia poder ir a casa no fim de semana, dizendo também que gostava muito dela e deles todos, para eles nunca se esquecerem disso. Depois disso desliguei o telefone, tirei o cartão e parti ele ao meio. Limpei a única lágrima que me caiu e me deitei. No dia seguinte, me sentia como merda, mas sentia que tinha feito a escolha certa. O único problema é que, se o Jay quisesse me ligar, não tinha o meu número. Mas isso não foi preocupação durante muito tempo. Depois das aulas, quando eu estava com a Kelly no shopping a comprar um cartão novo, ele apareceu.
- Oi, – Cumprimentou ele, com um grande sorriso.
- Oi – Respondi, sem sentir grande coisa. Tinha passado o dia assim, meio zumbi.
- Bem, você está com uma cara horrível. Aconteceu alguma coisa? – Disse ele, preocupado. O sorriso desapareceu da cara dele.
- Aconteceram muitas coisas, mas não quero falar de nenhuma. Aqui tem o meu novo número de telefone – Respondi, lhe dando um papel com o número.
- Se você precisar de falar, pode contar comigo – Disse ele, de um jeito amoroso.
- Hm, ? Eu preciso de ir, tenho que acabar um trabalho. Você consegue voltar sozinha? – Perguntou Kelly, desanimada.
- Claro Kell, não se preocupe comigo.
- Okay, até logo.
Quando ela se foi embora, o Jay me olhou e falou.
- Agora você está por minha conta, e eu não quero ver você assim. Vai me contar o que se passou?
- Só se você me pagar algo para beber – Respondi, com um sorriso, fugindo à pergunta.
- Você manda, eu obedeço.
Ele me levou para um café e pedimos nossas bebidas. Depois ele me olhou, esperando uma explicação. E eu expliquei. Não sei o porquê, mas lhe contei tudo. Quando terminei, estava quase sem ar. Lembrar-me de tudo assim de repente tinha sido demasiado para mim. Nossas bebidas chegaram e eu bebi a minha quase toda de uma vez. Depois olhei para ele, recebendo compreensão e preocupação.
- Nem consigo imaginar isso que você está passando – Disse ele – Mas acho que você tomou a decisão certa.
- Sim, mas agora só vejo escuridão à minha volta, já nem posso mais ligar para a minha melhor amiga, que conheço desde sempre.
- Não tem que ser escuridão. Nós podemos dar a volta nisso.
- Como? Eu estou sozinha, sem amigos…
- Sem amigos? Você tem a sua prima, o seu primo, eu…
- Você? – Não consegui não ficar surpreendida.
- Sim, eu. Porque não haveria de ser?
- Sei lá, a gente não se conhece propriamente…
- Mas você é tão linda que eu só podia ser seu amigo – Disse ele, com um sorriso inocente.
- Obrigada. Sério.
- Sempre às ordens – Ele sorriu de novo – Você quer ir ao cinema?
- Claro.
- Ouvi dizer que “Eclipse” é uma bosta.
- Hey, não fala mal do “Eclipse”. Os livros até são bastante bons – Disse eu, com uma gargalhada.
- Então está decidido.
Compramos os bilhetes e assistimos ao filme. Depois fomos dar uma volta, só conversando.
- Então, team Jacob ou team Edward? – Perguntou ele, com um sorriso divertido.
- Team Jacob, definitivamente. Além daquele corpo de deus, ele é um docinho – Respondi, com uma gargalhada – E está sofrendo muito por ela.
- Eu discordo de você. O corpo dele não me diz nada, como seria de esperar, e o Edward está lutando contra tudo para ficar com ela.
- Desde quando você tem opinião sobre isso? – Perguntei, surpreendida, mas sem evitar rir.
- Desde que você me obriga a ver esse filme – Respondeu ele, rindo.
- Ai, mas assim não dá. Eu sou team Jacob e você é team Edward, isso não vai dar certo.
- Na verdade, eu sou mais team Alice, se é que você me entende – Disse ele, com um sorriso maroto.
- Meu Deus, menos detalhes. Não quero saber.
- Pronto, já parei – Ele se riu e olhou para o relógio – Merda, está ficando tarde. Eu tenho mesmo que ir.
- Sim, eu também.
- Adorei estar com você – Ele me olhou nos olhos, intensamente, me causando um arrepio dos pés à cabeça.
- É, a gente tem que fazer isso mais vezes – Respondi, desviando o olhar, suavemente, para ele não perceber.
- Você quer que eu vá com você até sua casa?
- Não, deixa, eu vou sozinha. Estou acostumada.
- Sério? É que se aparecer aí um assassino estuprador pesa na minha consciência.
- Não vai aparecer nenhum assassino estuprador – O assegurei, com um sorriso – De qualquer maneira, não seria a mim que ele estupraria. Tem garotas mais bonitas – Acrescentei com uma gargalhada.
Ele acariciou a minha bochecha, fazendo o meu coração acelerar. Depois sorriu, como que dizendo “você não sabe o que diz” e me deu um beijo no rosto. Depois foi embora, me deixando pregada ao chão. Meu Deus, o que tinha sido aquilo? Completamente surreal. O buraco tinha se fechado um pouco, não tinha pensado em nenhum deles nesse tempo que estive com o Jay, parecia milagre.
Mas essa alegria não tardou a desaparecer.
Quando me encontrei sozinha, as lembranças voltaram todas e a solidão atacou forte. Caminhei para casa acompanhada só por esses pensamentos, que nem a Kelly conseguiu fazer desaparecer por completo.
O resto da semana passou lentamente, sem que eu voltasse a ver ou a falar com o Jay. Meus pais vieram no fim de semana, e ficaram mesmo felizes por me ver. Não perceberam a minha tristeza, nem eu falei nela.
Quando eles foram embora, no domingo à noite, eu fui para o quarto e não aguentei as lágrimas. Não falava com a ou com um deles há uma semana e estava a custar muito mais do que pensava. Nem o Jay conseguiria fechar o buraco nesse momento.
A Kelly se limitou a me abraçar, esperando que eu me acalmasse, pois ela sabia que nada do que ela dissesse me faria sentir melhor. Ela pôs um filme, acho que era o “Um lugar chamado Notting Hill”, mas não sei, não estava prestando muita atenção. Acabei adormecendo no meio, tendo uma noite atribulada, cheia de pesadelos. Na manhã seguinte acordei aos berros, com a Kelly me abanando, assustada.
- , está tudo bem – Disse ela, me abraçando.
- Me desculpe, tenho andado mal…
- Eu sei que sim, eu sei que está sendo difícil, mas você não pode ficar pra baixo desse jeito.
- Eu sei.
Levantei, me vesti, tomei o café da manhã e fui para a escola, com a Kelly e o Jesse. O dia foi uma besteira, só me conseguia lembrar da porcaria da aula de Química, o lá sozinho ao lado do meu lugar vago. Mas no fim do dia, todos esses pensamentos desapareceram. Quando eu ia a sair da escola, encontrei o Jay com os amigos.
- , oi – Me cumprimentou ele, com um abraço.
- Jay, que bom ver você – Respondi, sinceramente.
- Pessoal, essa é a . , esses são os meus amigos.
Olhei para eles todos com um sorriso e reparei numa garota que parecia que estava querendo me matar com o olhar. Desviei os olhos dela, fingindo que não tinha reparado, e voltei a me concentrar no Jay.
- O que você está fazendo aqui?
- Nós estávamos no caminho para a casa da Sofia – Ele apontou para essa mesma garota que continuava me olhando – E eu me lembrei que o caminho passava por aqui, por isso estávamos esperando um pouco para ver você.
- Você é é maluquinho. Aposto que eles estão todos querendo me matar por fazê-los esperarem.
- Não se preocupe, eu não seria capaz de matar você – Falou um dos amigos do Jay, alto, moreno e gostoso, como eles eram todos.
- Chuck, você está babando e isso não é bonito – Falou a Sofia, com um sorriso frio.
- Cala a boca, Sofia – Respondeu o Chuck, incomodado.
- Escute, eu posso vir conversar com você depois, se você quiser – Murmurou o Jay no meu ouvido – É só você ligar que eu apareço.
- Não quero afastar você dos seus amigos.
- Eu não me importo, sério. Nem que seja para ver o Crepúsculo ou assim, eu venho ficar com você, viu? Só ligar.
- Vamos ou não? – Perguntou Sofia, aborrecida.
- Okay, obrigada – Respondi ao Jay, com uma pequena gargalhada.
- Sim, estou indo – Falou o Jay para a Sofia, me piscando o olho.
Fiquei assistindo eles irem embora e depois fui para casa. Fiz todos os deveres de casa e depois olhei para o celular, considerando a oferta do Jay. Decidi que mais tarde eu ligaria, para irmos ao cinema ou algo assim. Estar com ele realmente me fazia sentir melhor, ele era tão gentil e me tratava tão bem… Não era nenhum , mas era um começo.

Capítulo 16
Since you’ve been gone I can breathe for the first time

Depois de fazer tudo o que tinha para fazer, fiquei olhando para a janela, deitada na cama. Depois me lembrei da proposta de Jay para nos encontrarmos. Olhei para o relógio, que marcava 17hs e pensei se devia ligar. Acabei por decidir que sim, ele tinha dito que não se importava.
- Am? – Atendeu ele ofegante, depois de muitos toques.
- Oi, Jay – Falei, estranhando.
- Ooooi – Ele pareceu contente por me ouvir. Mas era provavelmente tudo invenção da minha cabeça.
- Tudo bom?
- Sim, e com você? – Ouvi uma voz de garota perguntando “quem é?” e me perguntei se não havia interrompido algo. Ele respondeu “minha mãe”.
- Hm, interrompi alguma coisa? – Perguntei, nervosa.
- Não, você não interrompe nada, mamãe – Disse ele, rindo.
- Ai, agora sou mamãe – Falei, rindo com ele – Eu queria saber se você pode vir até aqui, se não estiver ocupado, claro.
- Claro mamãe, estou indo agora.
Dez minutos depois estávamos nos encontrando.
- Sério, o que interrompi?
- A Sofia e eu estávamos… estudando.
- Você não acredita que sou assim tão ingênua, né? Posso ter um ano a menos que você, mas não sou estúpida.
- Ok, a gente estava fazendo seeeexo, feliz? – Ele falou, rindo e prolongando a palavra “sexo” como se eu fosse lerda.
- Sim, já percebi – Ri com ele, mas senti uma pequena pontinha de ciúmes.
- E você, o que estava fazendo?
- Você sabe, isto e aquilo – Respondi, dando de ombros, ao mesmo tempo que ria.
- Hm, parece interessante. Nem sei como você conseguiu interromper isso para ficar comigo...
- Pois é, foi um grande sacrifício.
Continuamos a rir a tarde toda, muitas vezes sem razão. Estar com ele era como libertar a minha alma, me fazia respirar melhor, esquecendo os meus problemas. Ao fim de uns meses, já nem pensava mais em nada, só na minha nova vida. Fiz 16 anos e o verão chegou, com as férias.

's P.O.V.
O resto do ano passou rápido. A ficou menos chata, percebeu que podia fazer toda a chantagem do mundo, mas que nem assim conseguia me manter. Claro que eu não a deixei, mas a minha felicidade aumentou muito. O verão chegou, e os meus pais me informaram que íamos visitar os meus tios mais para a frente. Tinha deixado de pensar tanto na , agora que já não conseguia mais falar com ela. Todos nós sentíamos a falta dela e não percebíamos porque ela já não falava mais conosco, embora eu tivesse uma suspeita. Mas enfim, finalmente liberdade e algum tempo longe da e dos problemas.

's P.O.V.
- , você quer ir comigo a uma festa que vai haver na praia hoje à noite? Para celebrar o fim das aulas – Perguntou o Jay, pelo celular.
- Claro, adoraria, realmente hoje é o último dia de aulas. Quem vai?
- O Chuck, a Sofia, eu e você.
- Ah, que bom – Fiquei um pouco desiludida por eles irem também. Eu sabia que o Jay e a Sofia eram ex-namorados e de vez em quando davam uns pegas, e isso me causava ciúmes, embora eu e ele fossemos só amigos, grande amigos.
- Eu preferia ir só com você, mas eles também quiseram ir. Mas deixa, a gente foge deles na entrada – Ouvir ele falar isso fez todos os ciúmes desaparecerem. Ele também queria estar só comigo.
- Isso me parece um ótimo plano. A que horas e onde?
- Eu te vou buscar aí às 19hs, ok? Leva a Kelly e o namorado, se ela quiser ir.
- Vou falar isso para ela. Beijo, até logo.
- Beijo.
A Kelly aceitou, claro. Ela adorava tudo o que era festa e tinha arrumado um namorado novo, o Tyler, que ela amava profundamente. Escolhemos as roupas, eu um biquíni tomara-que-caia preto e um vestido branco, lindo, e ela um biquíni normal, branco, e um vestido marrom, igualmente lindo. Combinamos que nos encontrávamos lá, pois ela ia com o Tyler e eu com o Jay.
Assim que chegamos à festa, eu olhei em volta, boquiaberta. Tinham feito várias fogueiras e colocado redes para deitar presas nas árvores, e estava tudo lindo.
- Você gostou? – Perguntou o Jay, no meu ouvido.
- Adorei, isso está lindo!
- Você é que está linda.
Lhe lancei um olhar cala-a-boca, embora com um sorriso. Ele foi buscar bebidas, me deixando sozinha com a Sofia.
- Então , como você está? – Perguntou a Sofia, amigavelmente.
- Bem e você?
- Melhor que nunca. O verão sempre me faz sentir bem. Como vão as coisas entre você e o Jay?
- Hm, bem – Não sei bem o que é que ela queria dizer com aquela pergunta, não percebi a que coisas ela estava se referindo.
- Ainda bem. Não magoa ele, ele está mesmo gostando de você.
Espera, ela pensava que nós namorávamos?! Quando eu ia falar que não, o Jay apareceu.
- Aqui tem seu suco de laranja sem álcool, , e seu Cosmopolitan, Sofia.
- Jay, posso falar com você? – Perguntei, sem saber o que pensar.
- Claro, vamos até a beira do mar.
Nos sentamos na areia e ficamos descalços, sentindo a brisa do mar e ouvindo o som relaxante das ondas batendo.
- O que você queria falar?
- A Sofia acha que nós estamos namorando.
- Muita gente acha que nós estamos namorando.
- Sim, mas não uma das suas amigas mais próximas.
- Nem sei onde ela foi buscar isso. Mas também, qual é o problema?
- O problema é que a gente não namora!
- Calma, eu falo para ela a verdade. Também não precisa de ficar assim – Disse ele, magoado.
- Desculpe, é só que eu odeio mal-entendidos.
- Você quer dançar? – Perguntou ele, sorrindo.
- Aqui? Mas mal se ouve a música.
- A gente não precisa de música.
Ele se levantou e me ajudou a levantar. Colocou uma mão na minha cintura e com a outra segurou minha mão. Encostei a cabeça no ombro dele e me deixei levar, relaxada pelo seu perfume.
- Nunca pensou que podia haver mais que amizade entre nós? – Perguntou ele, de repente.
Já me tinha passado pela cabeça, tinha que admitir. Aqueles olhos verdes e aquele sorriso sempre me tinham cativado e ele sabia sempre o que dizer em cada momento, me fazendo sentir melhor.
- Já – Murmurei, com a pouca coragem que consegui.
- Sério? – Falou ele, surpreendido.
- Hm, sim. Mas foi só durante uns momentos.
- Nunca pensou a sério?
- Por que é que você está fazendo tantas perguntas?
- Eu já pensei nisso. E gostei do que pensei. Se você me der uma chance.
- Uma chance?
- Eu admito, estou afim de você. Não consigo pensar noutra coisa, você ocupa todos os meus pensamentos e os meus sonhos – Ele me olhou, com aqueles olhos verdes implorando.
- Jay, eu não sei. O que nós temos agora é ótimo. Você quer mesmo arriscar estragar isso?
- Eu estou cansado de querer te beijar e não poder, de querer ter você só para mim, de guardar isso para mim sem poder falar alto.
- Jay, eu… - Quando dei por mim, estava sorrindo abertamente – Eu estou sentindo isso, também.
Ele me inclinou para trás e me beijou docemente, fechando os olhos. Eu fechei os olhos também, para saborear melhor o momento. Depois me puxou para cima, sem deixar de me beijar e levou as mãos ao meu rosto. Eu rodeei o pescoço dele e deixei me levar naquele beijo. A boca dele se separou da minha e senti os seus lábios beijando gentilmente o meu pescoço, enquanto eu fechava os olhos com força, sentindo um prazer e um desejo que nunca tinha sentido. Os lábios dele voltaram para a minha boca e eu os recebi, fervorosamente.
- Porra, desculpem! – Ambos demos um salto e nos separamos quando ouvimos a voz de Chuck ao nosso lado.
- Caralho Chuck, vai embora! – Gritou Jay, irritado.
- Desculpem, não os vi! – Se desculpou Chuck – Mas eu vinha perguntar a você Jay, se queria maconha.
- Você só pode estar zoando comigo!
- Calma dude, eu estou já indo embora.
- Acho bom que sim.
Chuck foi embora, um pouco assustado, e o Jay se voltou para mim. Nos sentamos na areia e ele sorriu.
- Maconha, Jay?
- , eu deixei de fumar. Prometo pela minha vida.
Mordi o lábio, sem saber se devia acreditar ou não. Mas ele já tinha provado que não mentia tantas vezes e eu o conhecia tão bem que decidi acreditar. Por isso o beijei.

's P.O.V.
A viajem até a casa dos meus tios se aproximava e eu começava a respirar melhor. Ia estar longe da duas semanas inteiras e mal podia esperar.
- Um mês? – Se queixou , quando eu lhes contei.
- Sim. Fique feliz por mim, vou ficar longe da esse tempo todo! – Falei, dando um gole no meu suco.
- Vendo por essa perspectiva, tem razão. A barriga dela já está parecendo bastante assustadora – Comentou .
- Ai, nem fala disso. Começo a sentir um peso muito maior, agora que já dá pra ver a coisa.
- Não chama o bebê de coisa! – Reclamou – Ele não tem culpa dos seus erros.
Ela até tinha razão. Mas não conseguia pensar naquilo como um bebê, como não conseguia me imaginar criando uma criança. Reparei que a estava muito calada, o que andava a acontecer muito ultimamente.
- , o que foi? – Perguntei.
- Estava pensando na . Ainda não sei como ela foi capaz de fazer o que fez.
- Nós devíamos fazer alguma coisa! – Apoiou .
- Sim, mas o quê?
- Não sei…
Entretanto, os meus pensamentos se perderam na . Já não pensava nela há muito tempo, mas não a tinha esquecido. Longe disso.

Capítulo 17
This is critical, so stuck on you

's P.O.V.
- , você quer fazer alguma coisa hoje à noite? – Perguntou o Jay, pelo celular, na manhã seguinte – Os meus pais vão estar num jantar de negócios qualquer, você podia vir aqui.
- Claro, isso seria ótimo.
Nesse momento, a campainha da porta tocou.
- Espera Jay, alguém tocou à campainha e tenho que ir abrir.
- Manda outra pessoa atender… - Pediu ele, com voz de gatinho mal-tratado.
- Não tem mais ninguém em casa. Eu volto já.
Desliguei e desci as escadas. Abri a porta e quase caí para trás com quem vi.
- Muito bem, sai da frente para nós entrarmos – Ordenou . Atrás dela vinham a , o , o e o .
Obedeci, muda com o choque. Eles entraram todos na sala e eu quase chorei de alegria. Parecia um sonho, ver eles todos na minha frente. Mas eu sabia que eles estavam zangados, e tinham toda a razão. Olhei para todos eles, matando as saudades, mas reparei que o não estava entre eles.
- Você merece apanhar! – Disse a , ameaçadora.
Tenho que admitir que ela estava um pouco assustadora.
- Eu sei, o que eu fiz não tem desculpa – Senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
- Pois não! O que você estava pensando? – Perguntou , chorando também.
- Foi… foi por causa do . Não estou esperando que vocês entendam, mas cada vez que falava com um de vocês, eu só me lembrava dele. E eu não aguentava mais.
- Essa é a pior desculpa que existe – Resmungou o .
- Sim, não arranja melhor? – Perguntou o .
- Eu…
- Nós estamos zoando – Disse o , sorrindo – Nós entendemos, mas você podia ter avisado. Se você precisava de algum tempo, a gente entenderia.
Comecei a chorar pra valer, daquele jeito que dói na barriga e que nem conseguimos nos mexer. Acho que nunca tinha chorado assim antes. Os meus amigos me rodearam e me abraçaram fortemente, chorando comigo. Ou melhor, as garotas choraram. Nem tive coragem de falar no , com medo de estragar tudo. Passamos o resto do dia juntos, como já não acontecia há muito tempo. Matamos a saudade e, no fim, eu prometi que ia passar algum tempo em casa.
Depois, fui para casa do Jay.
- Oi amor, já estava pensando que você não vinha – Falou ele, me abraçando.
- Desculpe, estava com os meus amigos que já não via há muito tempo. Mas agora sou só sua.
- Que bom – Ele me deu um longo selinho e depois olhou para mim – Meus tios e meu primo vêm amanhã para cá. Eu quero muito que você conheça ele, ele é como um irmão para mim.
- Claro, terei o maior prazer nisso.
- Ótimo.
Depois ele me beijou. Me levou até ao quarto dele e fechou a porta atrás de nós.
- Jay, o que você está fazendo? – Perguntei, nervosa.
- Só nos dando um pouco de privacidade, caso os meus pais cheguem.
Relaxa.
Ele me empurrou até à cama e começou beijando o meu pescoço. Quando ele começou a desabotoar a minha camisa, eu o afastei.
- Jay, pára.
- O que foi?
- Eu… Eu não quero fazer isso.
Ele saiu de cima de mim e me olhou, meio bravo.
- Então o que você está aqui fazendo?
- Você está me expulsando daqui porque eu não quero transar com você?
Ele não disse nada, mas pela expressão dele era mesmo isso.
Me levantei, arrumei o meu cabelo bagunçado e minhas roupas, peguei meu casaco e saí. Quando cheguei à rua, olhei em volta, desorientada. Já estava escuro e eu estava com medo de ir para casa sozinha, ainda era um pouco longe. Comecei a chorar, sem saber o que fazer. Vi um homem com aspecto assustador me observar ao longe e peguei no celular, procurando alguém para ir me buscar.
Acabei telefonando para o Jesse.
- Jesse, preciso de ajuda. – Murmurei, chorosa.
- ? O que foi?
- Preciso que você me venha buscar.
- Onde?
Lhe dei as indicações, observando o homem ao longe. Ele não tinha se mexido, mas eu estava a começar a entrar em pânico.
- Vou já para aí, mas depois me conta a história toda.
- Sim Jesse, mas venha rápido. Estou com medo.
Assim que desliguei, vi o homem mudar de posição. Dei um passo atrás, aterrorizada. Até o Jesse chegar, muitas coisas podiam acontecer. Como é que eu podia ser tão estúpida? É claro que o Jay ia querer transar comigo, como é que eu não tinha pensado nisso? O homem avançou um pouco na minha direção e eu ponderei tocar para casa do Jay, para ele me deixar entrar. Mas eu não queria voltar a olhar para ele. O homem avançou mais alguns passos ao mesmo tempo que eu ouvi um motor de um carro se aproximando. O Jesse parou mesmo ao meu lado e eu entrei, suspirando de alívio.
- O que raios você estava fazendo aqui?
- Jesse eu vou contar, mas por favor não fica bravo.
- Vá, conta lá.
- Eu estava aqui me encontrando com o meu namorado.
- Você tem namorado?
- Sim, é o Jay.
- O Jay? – Ele olhou para mim, com um misto de preocupação e irritação.
- Sim. Nós estávamos muito bem até que ele me levou para o quarto.
- Ai , me diz que você não fez o que eu estou pensando!
- Não fiz não. Mas ele ficou bravo e me pôs na rua – Eu acabei, chorando.
O Jesse parou o carro na beira da estrada e me abraçou.
- Não fica assim, você tomou a decisão certa. Você não deve se sentir obrigada a fazer coisas que não quer.
- Sim, mas eu gosto mesmo dele e não quero o perder!
- Se ele não é capaz de te esperar, então ele não te merece – Disse ele, limpando as minhas lágrimas.
- O nunca faria isso comigo, tenho certeza!
- Agora me perdi. ?
- Um garoto que eu conheço, lá de Londres – Expliquei – Ele era lindo e amoroso, e gostoso.
- Mas?
- Mas tem uma namorada grávida.
- Ah – Ele me olhou, desconcertado.
- Jesse, isto está ficando estranho. Me leva para casa, por favor?
- Concordo.
Fomos o resto do caminho em silêncio, me dando tempo para pensar. Jesse tinha razão, eu não podia me sentir pressionada para fazer sexo se eu não queria. Se isso significava perder Jay, era porque ele não me respeitava o suficiente para esperar.

's P.O.V.
Dois dias depois, fui para casa dos meus tios. Quando cheguei, meu primo estava suplicando a uma garota para o perdoar, no celular. Ela acabou por perdoar e depois ele se virou para mim.
- , que bom ver você, dude.
- Também é bom ver você – Nos abraçamos – Estava falando com quem?
- Minha namorada. Fiz merda com ela ontem e estava implorando perdão. Ela me perdoou e está vindo agora para aqui. Quero que você conheça ela, é a mulher da minha vida – Falou ele, com um sorriso bobo.
- Eh, exagero – Respondi, rindo do sorriso dele.
- Jay? – Ouvimos uma voz chamando. Ele se endireitou, com um sorriso, e abriu a porta do quarto.
- Entra, meu amor. Conheça o meu primo, .
Não estava preparado de maneira nenhum para aquilo que vi.
Acho que nenhum de nós estava. De repente estava em frente à , mas uma diferente. Sem óculos, com o cabelo mais curto e vestida de uma maneira completamente diferente. Mais arrojada, mais sexy. Até estava a usar maquiagem, coisa que nunca pensei ver a usar. Estava mais linda que nunca, e parecia mais confiante.
- , esta é a minha namorada . , este é o meu primo – Apresentou o Jay, sem reparar no olhar que eu e partilhávamos.
- Muito prazer – Disse ela, me estendendo a mão.
Engoli em seco, aceitando a mão dela. Agora não nos conhecíamos? Assim que as nossas mãos se tocaram, eu senti algo. Me senti vivo, como já não sabia o que era. E eu vi nos olhos dela que ela também sentiu, pela forma como a mão dela apertou a minha, ligeiramente.
- Igualmente – Respondi, quando recuperei a voz.
- , você está linda hoje – Disse o Jay, sorrindo para ela.
- Sim, mas no outro dia estava prestes a ser estuprada por um homem qualquer aqui na rua da sua casa – Ela respondeu, meio brava.
- , eu fui um filho da puta com você – Ele se ajoelhou na frente dela – Você não pode me odiar mais do que me odeio nesse momento.
- Se levanta, seu babaca. Eu já disse que te perdoava – Ela deu um sorrisão para ele.
Ele se levantou e eles se beijaram, ali mesmo na minha frente.
Eu me senti doente e olhei para o lado.
- Ah , desculpe – Jay pareceu se lembrar da minha presença – A gente tem que celebrar a sua chegada hoje à noite.
- Sim, temos – Respondi, abatido.
- Vamos sair! – Informou ele.
- Yay – Disse a , sem olhar para mim.
Nessa noite, combinamos nos encontrar com a na boate. Quando chegamos, lá estava ela, sentada no bar. Me lembrei imediatamente de como a tinha conhecido, num bar como aquele, mas com outra identidade. Ela estava ainda mais linda. Estava com um vestido preto, justo ao corpo, uma meia calça preta e umas botas tipo cowboy, também pretas. Quando olhou para nós, esboçou o maior e mais brilhante dos sorrisos.
- É a minha namorada – Disse o Jay, orgulhoso.
Eu não disse nada, me limitei a segui-lo.
- Você está linda – Elogiou o Jay, assim que se sentou ao lado dela. Eu me sentei ao lado dele, longe dela.
- Quando é que você vai perceber que eu sou linda? – Ela sorriu e o beijou. Ali mesmo na minha frente.
- Eu já sei. – Ele riu – Desculpem, mas vou ter que ir ao banheiro.
Ele se levantou e nos deixou sozinhos. Esta era a oportunidade que eu tanto queria de falar com ela, perguntar por que é que ela estava agindo assim.
- Você está bonito – Disse ela, quebrando o gelo.
- Você também – Respondi, começando a ficar bravo. Parecia que ela estava zoando com a minha cara.
- , desculpe a minha atitude. Eu só achei melhor o Jay não saber que a gente se conhece, pelo menos por enquanto – Os olhos dela expressavam emoção, pela primeira vez desde aquele primeiro olhar.
- O que você quiser – Respondi, seco.
- , não fala assim comigo. Eu sou a mesma pessoa que era há cinco meses.
- Esse é o problema. Você não parece ser.
- … acho que você devia mesmo experimentar Sex On The Beach – Disse ela, me mandando um olhar significativo.
- Bebidas alcoólicas? Pensava que você não bebia, amor – Falou o Jay, atrás de mim.
- E não bebo. Mas já experimentei, claro. Estava só a aconselhar o seu primo – Mentiu ela.
- Obrigado pelo conselho – Menti, também.

Capítulo 18
Now that you're close I feel like coming undone

's P.O.V.
, na minha frente, este tempo todo depois. E o que senti? Sinceramente, não sei. Amor não foi. Acho eu. Mas agora é que eu estava percebendo a familiaridade. Jay tinha um sorriso quase igual ao de . Não era tão bonito, ou radiante como o de . Nem os olhos. Os olhos azuis de eram de uma profundidade impressionante, quase conseguíamos ver a alma dele através dos olhos. Os de Jay eram verdes, bonitos, mas não passavam disso.
- Linda, você quer ir dançar? – Perguntou Jay, todo sorridente.
- Claro – Aceitei e ele me levou até ao meio da pista de dança.
Enquanto dançávamos, eu dava espreitadelas a . Vi ele nos olhando com ar de cachorrinho abandonado. Depois, vi uma loira peituda meter conversa com ele. E ele deu! Fiquei brava, mesmo sabendo que não era nada comigo. Vi eles conversando, cada vez mais próximos e vi eles pedirem bebidas. Depois, do nada, ele foi com ela para outro canto. Fiquei tão brava que parei de dançar.
- O que foi? – Perguntou o Jay, preocupado.
- Nada amor, não me estou sentindo bem. É só isso. Pode me levar pra casa?
- Claro. Me deixe só avisar o .
- Ele foi com uma loira para um canto qualquer.
- Então depois mando uma mensagem.
Fomos para o carro e ele me deixou em casa. Nos despedimos e eu subi. Quando entrei em casa, Kelly estava me esperando.
- Que cara que você está, amiga. O que foi?
- Adivinha quem é o primo do Jay.
- Hm, não sei.
- O .
- ? Quem é… Espere, o ? O seu ?
- Sim, esse .
- Mas você ainda gosta dele?
Não respondi. Provavelmente porque não sabia a resposta. O modo como eu tinha ficado quando ele foi não sei para onde com a loirinha peituda, ou como nos olhamos quando nos vimos. Mas o problema continuava o mesmo. Ele tinha uma namorada grávida. E, para piorar, eu namorava com o primo dele, que era quase um irmão.
Por que é que a vida não podia ser fácil? Por que tinha que ser tão complicado ser feliz? Eu era feliz agora, mas não era feliz. Nessa noite mal consegui dormir, pensando nisso. Dava voltas e voltas na cama, sem saber o que fazer. Tinha que telefonar à e à , elas saberiam o que dizer.
Acabei por adormecer, mas tive um sonho estranho. Estávamos os três num lugar escuro, sem teto, nem paredes e nem chão. Eles estavam os dois a olhar para mim, bravos, e eu não sabia o que dizer. Eles começaram a andar à minha volta e eu comecei a chorar. A Kelly me acordou, assustada, falando que eu estava chorando. Eu a acalmei e ela voltou a dormir num segundo. Mas eu não. Não voltei a dormir.
- , você está com uma cara nada boa – Falou o Jay, quando nos encontramos de manhã.
- Valeu, Jay.
- Desculpe.
- Não dormi nada – Expliquei, dando um gole no meu suco.
- Por quê?
- Sei lá porquê, Jay – Respondi, brava.
- Calma, só estou querendo ajudar.
- Sim, eu sei. Cadê o ?
- Ele não queria vir, ficou em casa dormindo.
- Ah, ok. Fez bem.
- Por quê você está sendo assim? – Perguntou ele, encostando os lábios em meu pescoço.
- Nem sei, Jay, estou me sentindo mesmo estranha. Desculpe, meu amor – Acariciei o cabelo dele.
- Foi algo que eu fiz? – Perguntou ele, me olhando preocupado.
- Não, não foi nada que você fez – Eu respondi, com um sorriso, perante aquela preocupação – Você é perfeito.
- Ah, mentir é muito feio – Ele respondeu, com um sorriso, acariciando minha bochecha.
- Eu sei, devo sempre falar a verdade.
E era verdade. Tirando aquele pequeno incidente uma semana antes, Jay tinha sido perfeito para mim. Sempre querendo me fazer feliz, sempre me fazendo sentir bem. Eu podia amar ele, mas ainda sentia um pequeno vazio. Não era um amor como o que eu tinha sentido pelo . Era menos forte, menos apaixonante, mas mesmo assim era amor. E eu queria ser feliz, queria esquecer o passado. Talvez com o tempo, o amor crescesse.
- Cansei de ficar em casa – Falou o , se sentando na cadeira livre da nossa mesa.
Me olhou com um sorriso que eu interpretei como um sorriso eu-transei-ontem-à-noite. Eu respondi com um sorriso frio e ele desviou a atenção para o Jay.
- Lamento aquilo de ontem à noite, dude. Obrigado por tudo.
- Na boa, . Desde que tenha valido a pena – Eles partilharam um sorriso cúmplice, me deixando completamente a apanhar do ar.
- O que aconteceu? – Não resisti a perguntar.
- O ficou completamente bêbado e eu tive que voltar para buscá-lo, foi isso que aconteceu. Nem conseguia apanhar um táxi – Explicou o Jay, com uma risada.
- Ah, interessante – Respondi, indiferente.
- Acho que vou beber um café, a ressaca ainda não passou completamente – Falou o , me olhando direto nos olhos com um sorriso irritante.
Qual era o problema dele? Por que é que ele estava sendo assim? Seria vingança pela minha atitude de ontem? Merda, estava me fazendo sentir ainda pior. Mas eu não podia ser fraca. Se ele queria guerra, guerra ele teria.
- Coitadinho – Respondi, friamente.
Ele não respondeu, só continuou a sorrir. Mordi o lábio, para não reagir, com tanta força que fez sangue. Ele chamou o garçom e pediu café. Depois, ele e o Jay começaram a falar sobre a peituda com quem o tinha estado na noite anterior e eu me levantei, peguei minha bolsa e fui embora. Sem mais nem menos. Olhei de relance para trás, e vi o olhando para mim, com o sorriso um pouco menor. Boa, tinha conseguido o afetar. Foi a minha vez de lhe mandar um sorriso irônico. Depois, olhei para a frente e saí do café.

's P.O.V.
Era mais difícil a irritar do que eu pensava. Quer dizer, eu sabia que a tinha feito ficar brava, mas ela não ia dar o braço a torcer. Nunca ia deixar isso transparecer. Ela me deixava louco com aquela atitude, louco com aquele novo visual, louco por ela. Era nisso que eu estava pensando enquanto falava com o Jay sobre a peituda com quem eu tinha transado na noite anterior. Como ela era gostosa e sexy, dizia eu, mas que não tinha sentido nada, pensava.
- Hey, onde foi a ? – Perguntou o Jay, olhando em volta.
Ele nem tinha reparado que ela tinha ido embora. Como isso era possível? Ele tinha aquela garota, mas nem sequer reparava que ela tinha ido embora. Me deu vontade de gritar com ele, perguntar como ele não tinha reparado que o café tinha ficado um pouco mais escuro desde que ela tinha ido, como tudo tinha perdido um pouco a cor. Mas me limitei a dar de ombros, guardando tudo isto só para mim.
- Tenho que ligar para ela. Nem acredito que não percebi que ela tinha ido embora!
Esperei enquanto ele ligava para ela. Ela não atendeu e ele desligou, um pouco triste.
- Acho que ela está brava.
- Pois…
- Você reparou que ela saiu?
- Não – Menti.
- Eu tenho que ir falar com ela – Ele se levantou, pagou e foi embora.

's P.O.V.
O Jay me encontrou sentada em um banco no jardim, olhando para o nada. Ele se sentou ao meu lado, sem um som e olhou para mim, suplicante.
- Me perdoe por não ter visto você indo embora.
- Pois, estava mais interessado a falar da peituda – Respondi, agressiva.
Desde quando sou ciumenta? Isto deve estar mesmo me afetando, mais do que eu pensava.
- , ele estava me contando. Eu não quero saber da peituda para nada. Eu só quero saber de você – Ele disse, acariciando o meu cabelo.
- Jay, eu não sei o que se passa comigo – Falei eu, chorando.
Ultimamente andava a chorar mais do que o normal e agora estava ficando ciumenta. Começava a ficar assustada com essas mudanças.
- Então, não chora, amor! Eu estou aqui para você, nunca vou te deixar.
Me deixei abraçar por ele, sem falar nada, só ouvindo o som do coração dele. Isso me acalmou. Pouco depois, o Jay recebeu uma chamada.
- Sim? Sim, nós vamos até você. Até já.
Eu olhei para ele, interrogativa, enquanto ele desligava o celular. Depois ele olhou para mim e respondeu.
- O pediu para a gente ir até ele. Eu o deixei lá no café sozinho.
- Sim, vamos.
Quando chegámos ao café, o estava falando com a peituda da noite anterior. Eu tive que lutar contra os meus pés para não voltar para trás e ir embora. Dei um sorriso, com muito esforço, e fomos até ele.
- Esta é a Kristen – Ele falou, me olhando, mas desta vez sem o sorriso irritante. Era mais como se ele estivesse pedindo desculpas.
- Prazer. Vocês devem ser o Jay e a… , certo? – Ela falou, com um sorriso afetado.
- Sim – Respondeu o Jay, sorrindo feito babaca.
- Sim, eu sou a namorada do Jay – Eu acentuei a palavra mais para o Jay do que para os outros.
- Sim, a melhor – Ele sorriu para mim e me deu um beijo na bochecha.
- Bem, eu estou indo. Prazer em ver você, , e em conhecer vocês – Falou ela, felizmente.
- Prazer também – Eu respondi, cínica.
Quando ela se foi, nós fomos para a casa do Jay. Pelo caminho, nenhum de nós falou. Eu caminhava no meio dos dois rapazes, com a mão direita dada com a do Jay e a esquerda a roçar na do . O meu coração batia tanto por estar de mão dada com o Jay como por a minha mão roçar na do . E eu não sabia mais o que fazer. Não podia decidir e estava com medo que o coração falasse mais alto que a cabeça.

Capítulo 19
- I'd rather hurt than feel nothing at all

's P.O.V.
Droga, droga, droga! Eu não queria que a visse a Kristen. Apesar de tudo, eu sei que isso ia magoá-la, e eu não queria isso. Mas mesmo depois de eu os ter chamado, ela veio falar comigo e eu não podia a mandar embora. Depois fomos para casa. A minha mão estava muito perto da de e eu estava fazendo um esforço enorme para não a agarrar. Felizmente, chegamos a casa rapidamente, o que me permitiu me afastar dela.
- O que vamos fazer hoje, gente? – Perguntou o Jay.
Eu olhei imediatamente para a . Eu queria estar muito estar com ela, mas ao mesmo tempo não o suportava.
- Eu vou para casa – Ela informou, para meu alívio – Minha mãe já está aqui e eu não vejo ela há muito tempo.
- Você tem mesmo que ir? – Perguntou o Jay, fazendo bico.
- Sim, fofo. A gente se vê depois, prometo – Ela se despediu dele com um selinho e saiu, sem olhar para mim.
Quando ela saiu, ele ficou a olhar para a porta durante algum tempo.
- Meu, eu não sei mais o que fazer. Eu amo ela, mas eu só faço merda e tenho medo que ela se canse e me deixe – Disse ele, de repente, com um olhar triste.
- O que você fez?
- No outro dia, ela veio até minha casa e os meus pais não estavam aqui. A gente estava bem, estávamos nos beijando, e eu levei até ao quarto.
Ele fez uma pausa e o meu coração quase parou. Beijos? Quarto? Isso só podia significar uma coisa e eu não queria ouvir. Eu sabia que ela era virgem antes e eu queria que isso mudasse comigo, não com outro qualquer, mesmo que fosse o Jay. Mas não podia fazer nada agora, exceto reprimir minha raiva e continuar ouvindo o Jay.
- O que você fez? – Perguntei, de novo, tentando parecer indiferente.
- Eu queria transar com ela, mas ela falou que não estava preparada e eu a expulsei.
- Você o quê? – Não podia acreditar no que estava ouvindo. Como é que ele podia ter feito uma coisa daquelas?
- Eu sei, eu sei! Eu não sei o que estava pensando! – Ele parecia mesmo arrependido.
- Como você pôde fazer uma coisa dessas? Ela é… - Ia começar a falar que ela era linda e perfeita, mas me consegui controlar a tempo – Ela é uma garota sensível, já deu para perceber. De qualquer maneira, isso não é jeito de tratar ninguém.
- Acha que ela me vai deixar? Ela tem andado meio estranha.
- Não sei, dude. Mas trata ela bem, de qualquer maneira.
- Faço o quê?
- Sei lá, compre um presente, qualquer coisa.
Essa conversa estava me deixando com vontade de me atirar da janela. Eu estava ajudando ele a ficar com a garota que eu amo. Tem coisa pior que isso?!

's P.O.V.
Enquanto caminhava para casa, o desespero tomava conta de mim. Eu não conseguia mais aguentar aquilo. Ter o tão perto de mim, como eu tinha sonhado tantas vezes, mas não poder estar com ele. E o Jay, por outro lado, me amava. E eu não queria magoar ele. Mas não podia fugir do problema outra vez. Já tinha aprendido a minha lição. Fugir dos problemas não resulta, eles arranjam sempre maneira de nos encontrar. Tinha só que esperar mais alguns dias até ir embora. Mas precisava falar com alguém, senão explodiria. Por isso peguei o celular e liguei para a .
- , me mataaa! – Exclamei, dramaticamente.
- O que foi, amor?
- Adivinha quem é o primo do Jay.
- Quem é?
- O .
- O ? O que eu conheço?
- Sim, é horrível!
- Como você está se aguentando, minha flor? – Perguntou ela, preocupada.
- Eu não sei mais o que fazer. Ele está me deixando louca. Ele faz minha cabeça deixar de pensar e está me deixando maluca de ciúmes!
- Ciúmes?
- Sim. Já transou com uma vadia qualquer.
- Ele não tem conserto!
- , eu não aguento mais isso. Quem me dera que você estivesse aqui.
- Pois é amor, eu também.
- Você poderia vir. Quer dizer, tenho que pedir para a minha tia, mas ela deixa, com certeza.
- Sério? Eu vou pedir para minha mãe. Meu Deus, tenho tantas saudades suas!
- E eu suas, minha linda. Vá, vai começar a se preparar para vir.
- Claro. Depois te ligo.
- Beijo.
Assim que desliguei, corri para casa, esquecendo todo o desespero anterior. Claro que a minha tia deixou a vir, e combinamos que ela viria no dia seguinte. Nessa noite mal dormi, a pensar que ia voltar a estar com a minha melhor amiga. Na manhã seguinte, recebi uma chamada do Jay.
- Oi, minha linda.
- Oi, Jay.
- O que vai fazer hoje?
- A vem pra cá. Eu queria estar com ela, mas vou levar ela a sua casa, se você não se importar.
- Claro. Terei o maior prazer em conhecê-la.
- Okay, amor. Até logo.
- Tchau.

's P.O.V.
Assim que o Jay desligou, me contou que a vinha para cá. Não sei se isso era uma coisa boa ou má, mas pelo menos com ela podia falar sozinho.
- Você conhece essa ? – Ele me perguntou.
- Não, por que conheceria? – Respondi, rapidamente.
- Não sei, só estava perguntando.
Duas horas depois, a estava avisando Jay que estavam chegando. Eu me preparei para os olhares e os silêncios desconfortáveis. Mas não foi nada disso que aconteceu, para minha surpresa. Assim que a apareceu, me deu um sorriso, enquanto o Jay e a se beijavam. Depois, assim como a , fingiu que não me conhecia e fomos apresentados. Mas eu me senti melhor. Pelo menos não estava sozinho contra elas. Nessa noite fomos os quatro sair. Claro que a e o Jay desapareceram logo, me deixando sozinho com a .
- , seu bobo, nunca falou que tinha um primo – Comentou ela, rindo.
- Nunca calhou na conversa – Respondi, lhe sorrindo tristemente.
- Eu sei que isso não está sendo fácil. Mas a me contou que você pegou uma garota.
- Hm, sim – Respondi, sentindo que estava prestes a ser repreendido.
- Não é assim que vai conquistar ela de volta.
- Eu não quero conquistar ela de volta. Ela está mais feliz com o Jay. Comigo tem o drama todo, o drama do qual ela fugiu.
- Você tem que resolver os seus problemas, é um fato, mas não seja tão duro com você. Ela não está mais feliz com o Jay, mas não fale para ela que eu disse isso.
- O que você quer dizer? – Pela primeira vez em muito tempo senti um pouco de esperança.
- Só estou dizendo que ela pode ser tão ou mais feliz com você como é com o Jay. Ele não tem nada que você não tenha.
- Mas ela está feliz com ele agora, eu estou indo embora em uma semana.
- Ai, estou mesmo precisando de uma bebida – Falou Jay, se aproximando.
- Eu também – Disse .
- Eu estou cansado. Vou indo para casa – Eu disse, me levantando.
- Oh, agora que eu estava esperando uma dança – Falou a , me sorrindo.
- Sério? – Perguntei, sem acreditar.
- Sério – Ela confirmou.
- Bem, eu não estou assim tão cansado.
- Então vamos, que eu adoro essa música – Ela disse, pegando na minha mão.

's P.O.V.
De repente me deu muita vontade de dançar com o , estar perto dele. Ele ficou tão surpreendido que me deu vontade de rir. O estranho é que eu nem tinha bebido nada e estava me sentido livre e solta. Eu o levei até ao centro da pista de dança e depois me virei de frente para ele. Ele ainda não acreditava que isso estava acontecendo e eu também não, para ser sincera.
- Você está doente, ou bateu com a cabeça? – Ele perguntou, com um sorriso bobo.
- Não, estava sentindo saudades de você.
- Ok, você definitivamente bateu com a cabeça – Ele deu uma risada e eu senti um arrepio.
- Como vão as coisas lá em Londres?
- Vão andando.
A música acabou e foi substituída por uma mais calminha. Eu me aproximei dele e coloquei os braços em volta do seu pescoço. Ele abraçou a minha cintura e eu descansei a cabeça no ombro dele.
- Não acha que isso é um pouco demais? – Ele murmurou para o meu cabelo.
- O Jay não consegue nos ver e mesmo que conseguisse, eu invento qualquer coisa e ele acredita.
- Não estava falando no Jay.
Eu não respondi, sabia que ele tinha razão. Mas eu não queria largá-lo, não queria deixar de sentir os braços dele à volta da minha cintura, a bochecha dele na minha cabeça e a respiração dele no meu pescoço. Só tinha uns minutos, mas era melhor que nada, e eu não queria estragar esses minutos com palavras. Quando a música acabou, nós ficámos naquela posição mais uns segundos, até termos coragem para nos separarmos. Voltamos para o bar, onde o Jay e a estavam conversando. Eu dei um sorriso, para não deixar transparecer o que estava sentindo, e fez o mesmo. Isso era o suficiente para enganar o Jay, mas não a . Ela pegou na minha mão, mas, tirando isso, não disse nada, mas eu percebi que mais tarde iria querer falar.
- Estou vendo que foi uma boa dança – Falou o Jay, colocando o braço por cima dos meus ombros.
Eu vi o desviar ligeiramente o olhar, com o sorriso apenas nos seus lábios, mantendo os olhos tristes. Me perguntei como é que o Jay, sendo eles tão próximos, não via isso.
- Foi – Respondi – Agora sou eu que estou cansada. Vamos, ?
- Sim, vamos.

No dia seguinte, fui para casa do Jay de manhã. Quando cheguei, vi uma garota saindo. Assumi que era mais uma vadia que o tinha pegado, por isso nem liguei muito. Até que ela falou comigo.
- Você conhece o Jay?
- Hm, sim – Respondi, desconfiada.
- Então fala para ele ligar quando quiser, que eu me esqueci de falar isso.
- Ligar por quê?
- Depois de uma noite como esta, tem que se ligar, certo? – Ela deu uma risada e foi embora.
Eu estaquei a olhar para a casa dela. Ele tinha me traído. Nunca ninguém tinha me traído antes, por isso eu não sabia como reagir. Decidi o confrontar, mas sem escândalo. Toquei à porta e ele abriu, de tronco nu e toalha em volta da cintura, com o cabelo molhado.
- Bom dia, amor – Ele disse, com um sorriso, se aproximando para me beijar.
- Bom dia – Eu falei, fugindo do beijo dele – Uma garota que estava saindo daqui me pediu para falar para você ligar para ela, porque depois de “uma noite como esta” você tem que ligar, certo? – Eu acabei com um sorriso irônico.
- O quê? – O sorriso dele desapareceu e ele ficou atrapalhado – , eu…
- Poupa o fôlego, vom certeza ela vai querer falar muito. Fica bem, Jay – Comecei a me afastar, mas depois me lembrei de uma coisa – Jay, como você pôde fazer isso assim na minha frente? Eu não sou estúpida, e odeio ser tratada como tal.
Eu virei as costas e me afastei. Quando já estava longe e tinha a certeza que ele já não me conseguia ver, me sentei no chão, sem reação. Só me apetecia chorar, mas eu não ia fazer isso. Ele não merecia uma única lágrima minha. Só que uma escapou, idiota.
- Tudo bem com você? – Ouvi perguntar.
- Sim – Falei, fungando. Ele se sentou ao meu lado e me obrigou a olhar para ele.
- Até eu sei ver que não está tudo bem.
- O Jay me traiu. E eu sei que você sabe.
- É, eu sei – Ele falou, suspirando - Eu vi ele chegando com ela, mas os dois estavam bêbados.
- Você sabe tão bem como eu que isso não é desculpa. Ele é um mentiroso nojento e eu o odeio – Eu gritei, me levantando.
- , lamento. Mas ele não fez por mal – Ele falou, se levantando também.
- Não fez por mal? Como é que não fez por mal?
- Ouve o que ele tem para dizer. Eu sei que o que ele fez foi errado, mas ele te ama muito mesmo. Por favor.
O Jay começava a me magoar muito mais do que aguentava. Já antes não tinha tido tempo para me ver ou falar comigo no celular, e agora estava me traindo… Eu tinha sentido o tão perto de mim na outra noite que agora não podia acreditar no que estava ouvindo. Eu tinha acreditado que ele sentia algo por mim, mas agora estava me empurrando de novo para o Jay. Não percebia nada. O olhei e os olhos dele me diziam mais do que mil palavras. Ele estava magoado comigo, muito. Mas ele só queria que o primo fosse feliz e eu compreendia isso. Mesmo que isso custasse a minha felicidade.
Voltei para casa e contei tudo para a . Ela me deu razão em tudo. Ela disse que eu não devia desculpar o Jay tão rapidamente, mas que acreditava que ele me amava mesmo. Mas eu não sabia se alguma vez ia ser capaz de o desculpar. Uma traição era algo muito sério.

's P.O.V.
E eu ficava assistindo enquanto o Jay arruinava tudo com a . Pegar outra? Como ele tinha sido capaz de fazer isso? Eu por pouco não perdi a cabeça quando voltei para casa e o ouvi se queixando. Ele só falava como a amava e como tinha sido um erro horrível e como tinha que falar com ela.
- Eu juro, se ela me perdoar, eu nunca faço mais nada para a magoar!
Depois disso ele foi ligar para ela. Claro que ela não o perdoou, e ele ficou mal. Continuou o dia todo a tentar, mas era só a que atendia o telefone, passado algum tempo. Até que eu lhe pedi para falar com ela.
- , como está ela?
- Mal. Esse seu primo não sabe o que faz. Já é a segunda vez que a magoa e ela não merece isso!
- Eu sei, mas ele está arrependido, prometo. Não pode falar isso para ela?
- O que aconteceu com você, ? Pensei que você ainda amava ela!
- Hm, sim. Mas ele está mesmo mal – Eu respondi, pois não queria que o Jay ouvisse os meus sentimentos verdadeiros.
- Sim, você que sabe. Vou ver o que posso fazer.
O resto do dia passou, mais o outro a seguir, e só no terceiro é que tivemos notícias da . Ela falou que estava disposta a perdoar ele, mas que não ia voltar a ser como antes. A confiança dela ia demorar a ser recuperada. Não consegui partilhar a felicidade do Jay e inventei que não me estava sentindo bem. e a apareceram lá na casa no dia seguinte e eu mal conseguia olhar para .
- , você quer ir dar uma volta? – Perguntou , fingindo que queria os deixar sozinhos. Mas eu sabia que ela queria mesmo falar comigo.
- Sim, vamos.
Saímos para a rua e ela me olhou, sorrindo.
- O que foi? – Perguntei, com um pequeno sorriso.
- O mostrou para a uma música que você escreveu e eu estava aqui pensando em como ela era linda.
- Qual?
- Acho que uma era "The Heart Never Lies".
- Ah, sim, essa. Eu já escrevi há um tempo, sabe? Antes de isto tudo acontecer.
- Você tem talento. Vocês todos têm talento. Acho que teriam muito sucesso se enviassem um demo para uma gravadora.
- Nós já tínhamos pensado nisso. Talvez um dia.

's P.O.V.
Passado um tempo, veio conversar conosco. Ela falou que o tinha preferido ficar lá fora, a apanhar algum ar, e falou que ia para casa, estava esperando uma ligação de sua mãe. Eu falei que depois ia e ela foi embora. Eu e o Jay ficamos juntos mais um bocado até eu decidir que também já estava na hora de eu ir.
Quando saí da casa, ouvi o som de violão ao longe. Fui atrás dele e vi tocando. Me escondi atrás de uma parede, espreitando. Ele estava lindo, com o vento bagunçando o cabelo dele e o sol batendo de leve em sua pele. Fechei os olhos, só ouvindo e sentindo o vento na cara. Depois ouvi ele a começar a cantar, baixinho.

I don't think he deserves you
(Não acho que ele mereça você)

I'm gonna come right out and say it
(Por isso vou falar isso)

Even though I hardly know you at al
(Apesar de mal conhecer você)

That's what makes this so hard
(É isso que torna tudo mais difícil)

'Cause I remember he hurt you
(Porque eu me lembro que ele te magoou)

Told you he didn't have the time
(Falou que não tinha tempo)

To see you or even answer your calls
(Para ter ver ou atender suas chamadas)

After breaking your heart
(Depois de partir o seu coração)

I know we barely even started
(Sei que mal começámos)

But I fully believe you could have been the one for me
(Mas eu acredito que você podia ter sido a única para mim)

And I miss what we might have had
(Eu sinto saudade do que podíamos ter tido)

Baby I miss what we could have done
(Baby sinto saudade do que podíamos ter feito)

I wrote a sad song about it and I'm still pretty bitter
(Escrevi uma musica triste sobre isso e ainda estou um pouco desgostoso)

But I'm happy if your happy, he won
(Mas se você está feliz eu estou feliz, ele ganhou)

I still miss you in the night
(Ainda sinto a sua falta à noite)

And I want you to know
(E quero que você saiba)

If he leaves you cold in the city aching for a lover
(Se ele te deixar fria na cidade, ansiando por um amor)

Honey, you can always come home.
(Querida, você pode sempre vir para casa)

Ohh, do you ever stop to think
(Você alguma vez pára para pensar)

That he did it to you once
(Ele fez isso uma vez)

So he's probably gonna do it again
(Por isso provavelmente vai fazer de novo)

Oh do you defend
(Você defende?)

That he's an angel of virtue
(Que ele é um anjo de virtude)

He made a mistake and it cost him what he loved
(Ele cometeu um erro e custou-lhe o que ele amava)

But he knows what he's done
(Mas ele sabe o que fez)

He's sorry for it now
(Está arrependido por isso agora)

Oh, he's never gonna leave you again
(Ele nunca vai deixar você sozinha)

Well maybe your right, but I still believe
(Bem, se calhar você está certa, mas eu ainda acredito)

That you could have be the one for me
(Que você podia ter sido a única para mim)

And I miss what we might have had
(E sinto saudade do que podíamos ter tido)

Honey, I miss what we could have done
(Querida, sinto saudade do que podíamos ter feito)

I wrote a sad song about it and I'm still pretty bitter
(Escrevi uma musica triste sobre isso e ainda estou um pouco desgostoso)

But I'm happy if your happy, he won
(Mas estou feliz se você está feliz, ele ganhou)

I still miss you in the night
(Ainda sinto a sua falta à noite)

And I want you to know
(E quero que você saiba)

If he leaves you cold in the city
(Se ele te deixar fria na cidade)

Aching for a lover
(Ansiando por um amor)

Honey you can always come home
(Querida, você pode sempre vir para casa)

If he leaves you cold in the city
(Se ele te deixar fria na cidade)

And you're begging for a lover
(E você está suplicando por um amor)

Honey you can always come home
(Querida você pode sempre vir para casa)

Eu engoli em seco e abri os olhos. Quando o fiz, senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Ele parou de tocar e eu não tive coragem de dar outra espreitadela. Me sentei no chão, encostada à parede, limpando as lágrimas que insistiam em cair. Meu coração estava apertado no meu peito e tinha um nó enorme na garganta. Porque é que ele tinha estragado tudo? Mordi a língua para não fazer barulho, enquanto chorava. Aquela música só podia ser sobre mim, e tornava mais difícil desculpar o Jay, pois eu sabia que o devia estar sofrendo muito. E eu só queria ir lá abraçar ele e falar que ia ficar tudo bem, mesmo que não ficasse. Por um momento estaria tudo bem. Eu sabia que o nunca me magoaria do jeito que o Jay me magoava, se eu estivesse com ele. Mesmo que ele tratasse a da maneira como tratava, eu sabia que comigo seria diferente. Ele recomeçou a tocar e eu reconheci a mesma música. Eu não me senti capaz de me levantar, de o deixar ali sozinho. Por isso fiquei lá ouvindo. Dessa vez ele não cantou, apenas tocou. Mas cada nota que ele tocava era como uma facada no meu coração. Eu me levantei e me afastei rapidamente, incapaz de ouvir aquilo tudo de novo. Como é que eu podia estar trocando ele por um garoto como o Jay? Mas eu não conseguia pensar nisso. Só conseguia imaginar como eu ficava feliz nos braços dele. Não sabia mais o que fazer para fugir a isso, eu o amava profundamente.
Dois dias depois, eu e a estávamos passeando pela cidade e encontramos o Jay e o . O Jay avançou logo para nós sorrindo. Eu não tinha visto o desde que tinha ouvido ele tocar, por isso sustive a respiração, nervosa.
- , ! Que bom ver vocês aqui – Falou o Jay, me dando um selinho.
- Oi, Jay – Falou , lhe dando um sorriso. Depois ela olhou para o , que se mantinha bem atrás do Jay – Oi, .
- Oi – Falou ele – Nós não queríamos incomodar vocês.
- Não incomodam nada – Eu consegui dizer, apesar de sentir a garganta seca.
Ele me olhou nos olhos, quando eu falei, e eu senti minhas bochechas ficarem vermelhas com a intensidade do olhar. Era só eu e ele, nesse momento, sem mais ninguém. Foi esse olhar que fez tudo valer a pena. Todo o sofrimento, toda a dor. Porque nesse momento, não tive dúvidas. Independentemente do que acontecesse, íamos ter um ao outro sempre.
Depois o Jay se lembrou que tinha que fazer qualquer coisa e foi embora, levando o com ele. Eu e a continuamos. Eu estava muito calada e a percebeu que algo se passava, mas não fez perguntas.
No último dia da estadia deles, eu estava com a , a ajudando a fazer as malas, até que alguém tocou à campainha. Como não estava mais ninguém em casa, eu fui abrir. Meu coração começou a bater forte quando vi quem era.
- , posso falar com você? – Perguntou .
- Sim, claro.
Nós saímos para o jardim, com o cuidado de nos mantermos longe de qualquer janela da casa. Ele me olhou, meio desconfortável.
- Eu só queria dizer que eu ainda sinto da maneira que sentia quando você foi embora, apesar de ter passado este tempo todo. Eu sei que você está bem agora e não quero causar nenhum transtorno.
Dito isso, ele me virou as costas, sem sequer esperar uma resposta. Eu fiquei parada, sem reação, vendo ele ir embora. "Eu também amo você!", eu queria gritar. Mas não tive coragem. Fiquei vendo o amor da minha vida se afastando, me questionando quando voltaria a estar junto dele.

's P.O.V.
Quando chegamos a Londres, estava chovendo. O tempo estava coincidindo com a minha disposição. Quando entramos em casa, vimos que o Charles, o meu irmão mais velho, tinha voltado dos Estados Unidos. A minha mãe correu para ele, já não nos víamos há mais de um ano, e o meu pai abriu vinho, para celebrar. Depois ele se virou para mim.
- Então, como vão as coisas, irmãozinho? – Odiava a maneira como ele sempre me tratava como se eu fosse um bebê.
- Ele engravidou a namorada – Falou a minha mãe, com desdém.
- O quê? – O meu irmão ficou completamente surpreendido.
- Sim, é verdade. Mas eu já decidi que ele vai para a universidade, volta para tratar do bebê só depois – Continuou a minha mãe. Eu nem olhei para ela, farto daquele tratamento.
- Mano, você quer vir dar uma volta comigo de carro? Para conversarmos melhor – Perguntou o Charles, percebendo o meu desconforto.
- Claro, obrigado.
Entrámos no Porshe Panamera dele e ele acelerou, derrapando na estrada.

Capítulo 20
- This is the end, but baby don't you cry

's P.O.V.
Eu acordei a meio da noite com o celular a tocar. Abri a luz e fui ver quem era, ainda meio adormecida. Era a , por isso atendi.
- Sim?
- , você nem sabe… - Ela estava chorando muito, fazendo um esforço enorme para falar.
- O que foi, ? – Perguntei, assustada.
- Aconteceu uma coisa horrível.
- Fala de uma vez!
- O … Ele sofreu um acidente de carro.
- Ele está bem? – Sustive a respiração, com medo da resposta.
- Ele ainda está na cirurgia, , mas não parece nada bem. Você tem que vir agora!
- Estou correndo.
Quando desliguei o celular, não conseguia respirar. Lágrimas escorriam pela minha cara e eu me esforçava por inspirar algum ar. Corri acordando meus tios e lhes contei o que tinha acontecido. Eles se ofereceram para me levar a Londres e se levantaram. Eu voltei para o quarto, onde Kelly me esperava, sem perceber o que tinha acontecido. Eu não conseguia falar, só tirava a roupa do armário e me vestia, pois se parasse não sabia o que aconteceria.
Quando acabei de me vestir, me sentei no chão, completamente perdida. As lágrimas escorriam agora abundantemente e a falta de ar só tinha piorado. Só me lembrava da dizendo "mas não parece nada bem". Ele não podia morrer, não podia! Tudo o que eu ainda queria falar para ele, tudo o que tinha tido oportunidade e nunca tinha dito.
- , a minha mãe me contou o que aconteceu. Olha para mim! – Falou a Kelly, segurando a minha cara entre as suas mãos – Respira comigo, vá lá!
Ela me conseguiu acalmar um pouco, o suficiente para eu conseguir me levantar e me lavar. 10 minutos depois estávamos saindo de casa. Recebi uma chamada do Jay a contar o que tinha acontecido. Eu falei que já sabia, chorando, e ele perguntou como. Mas eu não conseguia responder, por isso desliguei a chamada. Liguei para a , mas não havia novidades.
A viagem foi a mais desesperante que eu alguma vez tinha feito. 3 longas horas depois, chegamos a Londres. Fomos direto ao hospital, onde eu entrei a correr nas UTI. Encontrei os meus amigos todos lá, mais os pais do . A olhou para mim com os olhos cheios de lágrimas e voltou a enterrar o rosto no peito do , que também estava bastante mal. A correu a me abraçar, e eu a apertei bem contra mim.
- Quero saber como foi! – Exigi.
- O estava andando de carro com o irmão mais velho dele e outro carro chocou contra eles, do lado do . O irmão mal ficou machucado, mas o … - Ela tapou o rosto com as mãos, sem conseguir acabar a frase – Eu ouvi um médico falar, quando eles trouxeram ele, que não parecia nada bem.
- , , eu não sei como vai ser se…
- Shh, isso não vai acontecer – Falou o Harry, que estava ouvindo a conversa.
se sentou ao lado do , abraçada por ele, e eu me sentei numa cadeira vaga, tentando controlar as lágrimas. se sentou ao meu lado e eu encostei a cabeça no ombro dele.
- Alguém avisou a ? – Perguntei, de repente.
Todos me olharam estupefactos, mas eu expliquei. Afinal, ele era o pai do filho dela. A disse que tinham ligado, mas ela não podia vir, a barriga já estava grande demais.
- Ele disse que me amava há dois dias e eu não tive a coragem de falar isso para ele – Eu desabafei, sentindo uma dor no coração, da tristeza.
- Ele sabe, , eu sei que sim – Falou o , tentando me consolar.
- Não sabe não. Ele pensa que eu amo o Jay.
Nesse momento o Jay apareceu há minha frente. Olhou para a e depois para mim. Os olhos dele, vermelhos, se abriram muito, de espanto.
- Você aqui? – Ele murmurou.
- Depois conversamos, sim? – Eu respondi, com a pouca força que ainda tinha.
Ele olhou para os meus amigos, todos muito infelizes, a soluçando alto, e depois de novo para mim.
- Claro. Você conhecia ele daqui. Por que é que fingiu que não conhecia?
- Você ouviu ela, conversem depois – Disse o , agressivo.
Jay aceitou isso e foi se sentar numa cadeira um pouco afastada. Os pais dele foram falar com os pais de . A mãe dele estava sentada no chão, com a cabeça entre os joelhos. Eu não conseguia olhar para aquela cena sem sentir cada vez mais tristeza.
Passado algum tempo, uma enfermeira foi falar com eles.
- A cirurgia ainda vai demorar algumas horas. Não preferem ir para casa? Nós avisamos quando acabar – Falou ela, docemente.
- Não, obrigada – Foi a resposta geral – Nós queremos estar aqui quando ele acordar.
- Vocês são amigos muito dedicados. Ele tem muita sorte – Disse ela, com um pequeno sorriso. Depois foi embora.
Eu acabei por adormecer no ombro de , e acordei 2 horas depois.
- Então, alterações? – Lhe perguntei.
- Nenhuma.
- Essa espera está me matando. Só queria saber como está correndo.
- , você devia ir para casa. A e o já foram e a também está pensando em ir. Quando ele sair de cirurgia, ainda vai dormir por muitas horas, até a anestesia passar.
- Você deve ter razão. Vou telefonar para os meus pais. Que horas são?
- São 6 da manhã. Faz isso, e você devia comer alguma coisa, também.
- Sim, vou fazer isso – Peguei no celular e falei com eles. Eles chegariam dentro de 20 minutos.
Me levantei e o Jay veio conversar comigo.
- , eu preciso mesmo de falar com você. Por favor! – Os olhos dele eram tão tristes que eu não consegui dizer que não.
- Dude… - Começou o , irritado.
- Não, deixa . Jay, você pode vir comigo até à cafetaria.
Ele concordou e fomos os dois. Ele insistiu em pagar a minha comida e em a levar até a mesa onde eu estava. Quando ele finalmente se sentou à minha frente, eu inspirei fundo.
- Por favor, você tem que me contar tudo. Eu sempre achei vocês um pouco estranhos um com o outro. Por que é que você fingiu que não o conhecia?
- Na verdade, eu conheço o há 5 anos. Ou mais do que isso, sempre vivemos no mesmo prédio. E eu sempre tive uma quedinha por ele. Até que ficamos parceiros na aula de Química e aí eu o comecei a conhecer mesmo e me apaixonei à sério. E ele por mim. Só que ele tem uma namorada grávida, por isso eu fui para Bolton. Eu não te contei porque queria recomeçar de novo – Memórias invadiram a minha cabeça e eu recomecei a chorar.
- Então você ama ele – O Jay concluiu com um suspiro.
- Jay, eu lamento tanto. Eu te amo, mas como amigo. Você me ajudou a ultrapassar uma fase muito má. Sem você, eu não sei o que seria de mim, sério. Você significa muito para mim, Jay.
Ele ficou em silêncio e eu me preparei para ouvir ele gritar comigo, ou assim. Mas ele se limitou a sorrir sem prazer nenhum e pegou na minha mão.
- Isso é melhor que nada, certo?
- Jay, eu lamento mesmo.
- Eu sei. E, no final, fui eu que estraguei tudo. Eu te traí, eu te tratei mal. Não percebi o que tinha.
- ? – Chamou a – Hm, desculpem por interromper – Ela se virou para ir embora, mas eu a chamei.
- Não, , o que foi?
- Eu só estava te chamando para avisar que os seus pais chegaram.
- Ah, sim, estou indo agora mesmo. Jay, amanhã falamos, sim?
- Claro.
Eu lhe dei um sorriso cansado e segui a . Combinei com o que voltaria em 6 horas para trocar com o a vigia do . Quando chegamos em casa, a minha mãe me abraçou e eu chorei no ombro dela.
- Mamãe, eu não sei o que faço se acontecer alguma coisa a ele.
- Filhinha, você vai ver que tudo vai se resolver.
- Você não pode dizer isso, você não sabe!
Tomei um banho rápido e me deitei um pouco na cama, pondo o despertador para me acordar 5 horas depois. Não consegui dormir nada bem, estava sempre acordando a chorar, com os pesadelos.
Deambulei pela casa, pensando no que fazer se corresse mal. Um mundo sem ele não valia a pena, não era um mundo feliz. Eu não podia viver sabendo que ele já não estava mais aqui. Eu não conseguia inspirar fundo, estava muito tensa. Voltei para o meu quarto e abri o álbum de fotografias que andava sempre comigo. Logo a primeira era uma foto de nós os dois, da altura em que já éramos amigos. Fiquei a olhar para os olhos dele, que me olhavam de volta, e para o sorriso dele, que era para mim. Como seria se eu nunca mais pudesse voltar a ver aquele sorriso? Como seria a minha vida sem a voz dele falando o meu nome, ou o toque dele na minha pele. Passei o dedo por o rosto dele, e uma lágrima caiu em cima da minha cara na fotografia. Eu fechei o álbum e me deitei no chão, olhando para o teto. E se ele nunca mais regressasse àquele quarto por cima do meu? Se eu nunca mais ouvisse música vinda de lá ou se nunca mais ouvisse ele andando lá sem cima, não sei como seria. Eu devia ter falado logo o que sentia, em vez de ser covarde. Agora ele podia nunca mais acordar, nunca mais saber que eu sem ele não vivia.

Capítulo 21
- I just want to stay with you in this moment forever

Quando o despertador tocou, eu me levantei em um salto. Já era de manhã, por isso meus pais já estavam acordados. Tomei outra ducha rápida e pedi a eles que me levassem ao hospital. Eles concordaram e, 30 minutos depois, eu estava chegando.
Vi na sala de espera e fui falar com ele.
- Alguma alteração?
- Não. Os médicos dizem que já não deve demorar muito para ele acordar, mas isso pode ser 10 minutos ou duas horas, por isso não sei.
- Eu tenho todo o tempo do mundo. Mas ele já está bem?
- Ele já está fora de perigo – Quando ele falou aquilo, senti tanto alívio que até me vieram lágrimas aos olhos - A cirurgia demorou 8 horas, mas eles conseguiram tratar de tudo e, à princípio, está tudo bem com ele.
- À princípio?
- Sim, eles só podem ter certeza quando ele acordar.
- Hm, claro. Você tem um ar super cansado, . Vai para casa, sim? Eu te aviso se acontecer alguma coisa.
- Obrigado – Ele beijou o topo da minha cabeça e foi embora.
Eu liguei o meu iPod e olhei para através do vidro que separava o quarto do resto. A cortina estava semi-aberta, por isso dava para ver lá dentro. Me aproximei do vidro e olhei bem para ele. Estava tão pacífico, com os olhos fechados levemente e o peito a subir e descer lentamente. O que me incomodava eram os tubos que saíam dele e os pequenos arranhões que cobriam o seu rosto. Abri a porta do quarto e entrei, a fechando atrás de mim. Fui até a cama e acariciei o seu rosto. Senti um arrepio ao sentir a pele quente dele debaixo dos meus dedos.
- Te amo, . Mais do que tudo – Murmurei, com lágrimas nos olhos.
Me abaixei e lhe dei um beijo na testa. Depois me sentei na cadeira que estava ao lado da cama, olhando para ele.

's P.O.V.
Quando acordei, estava no hospital. Via tudo um pouco desfocado e as minhas memórias eram confusas, mas me lembrava do que tinha acontecido. Senti o perfume da , mas devia estar imaginando coisas. Era mais provável ela nem estar em Londres do que ter estado ali, no meu quarto. Olhei em volta e não vi ninguém no meu quarto. Nem sequer a minha mãe. Me senti um pouco triste, até que olhei para fora do quarto, através da parede de vidro. Mal podia acreditar no que estava vendo. estava lá, com um grande casaco de lã e o cabelo bagunçado preso às pressas, falando com um médico. Fechei e abri os olhos várias vezes, para ter certeza que não era uma visão. Ela olhou para mim e me sorriu cansada, mas feliz. Depois chamou o médico de novo e apontou para mim. Ele se apressou a entrar no quarto, seguido por ela.
- Mr. , vou tirar o tudo da sua boca, para você poder falar. Vou precisar que tussa.
Fiz tudo o que ele mandou, sem deixar de olhar para a . Ela estava lá, ela tinha voltado por mim.
Quando o tubo estava fora da minha garganta, o médico começou a fazer perguntas. Ela pegou o celular e saiu do quarto.
- Sabe em que ano estamos?
- 2010.
- Sabe o mês?
- Agosto.
- Muito bem. Você se lembra do que aconteceu?
- Sim, tudo, mas está meio nublado.
- Isso é normal. Se precisar de alguma coisa, chame.
- Ok, obrigado.
Ele saiu, me deixando sozinho de novo. Algum tempo e voltou a entrar. As olheiras dela eram mesmo profundas, mas mesmo assim ela estava sorrindo.
- Já avisei todo mundo que você acordou. Daqui a pouco isto vai ser inundado de pessoas – Ela soltou uma pequena risada.
- , nem acredito que você está aqui.
- Como podia não estar? – Ela ficou séria e passou a mão pelo meu cabelo.
Eu ia falar, quando a porta se abriu e Jay entrou. Ele olhou para a e para mim e voltou a sair. Ela olhou para a porta, distraidamente, sem tirar a mão do meu cabelo.
- Bem, acho que agora todo mundo vai querer entrar. Já estou vendo os seus pais e os seus tios. Vou sair para dar espaço para eles – Ela me beijou a testa levemente e saiu, sem olhar mais para mim.

's P.O.V.
Eu saí do quarto, mas fiquei vendo de fora. A mãe dele entrou e correu para o abraçar, chorando de alívio e de alegria. Senti umas mãos nos meus ombros e olhei para trás. Era a , que sorria, embora cansada. Acho que estávamos todos muito cansados.
- Eu sabia que ia correr bem.
- Eu sei que você sabia. Estou tão aliviada.
- Os médicos dizem que ele ainda deve ficar aqui mais umas semanas, mas depois disso já vai estar bem – Disse , aparecendo com o – Ai, estou tão feliz! – Ela falou, me abraçando.
- , já sabemos a história toda. Você vai voltar para cá? – Perguntou .
- Hm, eu não sei bem. O problema inicial ainda está aqui.
- Você não contou pra ela? – Perguntou para .
bateu com a mão na testa e me olhou pedindo desculpas.
- Me esqueci completamente!
- Contar o quê?
- Nós desconfiamos que o bebê não seja do – Murmurou , entusiasmada.
- O quê?!
- Mas não pode falar isso para ele, ainda. Só quando tivermos provas.
- Mas como é que sabem?
- O ouviu uma conversa entre a e a . Não disseram nada em concreto, mas deu para entender. Eu vou tentar saber mais, mas até lá ninguém pode falar nada para o .
- Ele deveria saber! – Insisti.
- Não, , ele vai pensar que estamos inventando para fazê-lo se sentir melhor. Além disso, não temos certeza. Podemos estar só dando falsas esperanças.
- Você tem razão – Concordei.
Ficamos a olhar para o , enquanto a família dele toda falava com ele. O Jay apareceu e entrou no quarto, sem olhar para mim. Pouco depois ele saiu, seguido pela família. Nós tomamos isso como um sinal para irmos. Todos eles falaram muito com o , enquanto eu fiquei um pouco atrás. Estava ainda a pensar na possibilidade de o bebê não ser dele. Era uma notícia boa demais para ser verdade.

Quando os meus pais me foram buscar, minha mãe me abraçou forte.
- Oh, meu bebê, é tão bom abraçar você de novo, agora que está tudo bem.
- Também é bom abraçar você, mamãe.
- Você pode considerar voltar a morar com a gente?
- Sim, mãe, claro! Bolton já deu o que tinha a dar.
- Sua tia me contou que você arranjou um garoto bem gostoso – Falou ela, rindo.
- Mãe! – A repreendi, rindo também – Ele se chama Jay. Mas não deu em nada.
- Por quê, querida?
Vi o meu pai nos olhando feio e não respondi. Ela seguiu o meu olhar e percebeu, soltando uma risada infantil. Uns dias depois, eu me senti corajosa o suficiente para visitar o sozinha. Fui de ônibus até ao hospital e depois até o andar dele. Através do vidro, vi que ele estava sozinho. Respirei fundo e entrei no quarto. Ele estava olhando para a janela, para a chuva a cair quando eu entrei. Olhou para mim, com aqueles lindos olhos brilhando na luz, e sorriu. Aquele sorriso fez os meus joelhos vacilarem e causou um frio na minha barriga.
- ! Não sabia que você viria.
- É, só decidi hoje de manhã.
- Fico feliz por você ter vindo. A única visita que recebi hoje foi a – O sorriso dele desapareceu um pouco – Ela está mesmo com uma barriga grande.
- Não pensa nisso agora. Tenho uma novidade para você.
- O quê?
- Vou voltar para Londres.
- Sério? – O sorriso dele voltou, ainda maior que antes.
- Sim. Estes meses longe de casa me fizeram perceber que é aqui que eu estou feliz.
- Isso quer dizer que você vai voltar a morar embaixo de mim?
- Você sabe? – Perguntei, com uma risada, me aproximando da cama.
- Eu sei tudo – Ele respondeu, rindo também.
- , eu…
- Sim?
- Eu ouvi você tocando uma música, lá em Bolton, no dia em que o Jay me traiu. Foi você quem a escreveu?
- Não, não. Mas achei que encaixava bem na situação.
- Foi muito lindo, sabe? – Eu me sentei na cadeira ao lado da cama e pus a mão em cima da cama.
- Obrigado – Ele sorriu, mas era um sorriso diferente. Era mais íntimo, mais pessoal.
- Você tem uma voz linda. Já estou imaginando você famoso, todo mundo cantando suas músicas. Você e os garotos.
- Ah, eu gostava. Mas não sei.
Nesse momento, ouvi a porta do quarto se abrir. Me virei e vi a e a entrando. Elas me olharam surpreendidas e a avançou para mim.
- ?! Você está… - Ela mal conseguia falar de espanto. Mas acabou por recuperar, como toda víbora recupera – Eu quero você fora daqui imediatamente!
- Não fala assim com ela! – Falou o , se levantando ligeiramente.
- Deixa, . Eu estava saindo, de qualquer maneira.
- Nem devia ter vindo – Falou , com desprezo.
- Não vá embora – Pediu o , em voz baixa.
- Eles devem estar chegando. Eu vou esperá-los lá fora – Eu caminhei para a porta, onde elas estavam paradas, e parei em frente da .
- Você tem que ter cuidado, esse ódio todo ainda vai fazer mal a você – E saí do quarto, sentindo pena do .

's P.O.V.
Assim que a fechou a porta atrás dela, eu suspirei. Ia ser uma longa visita. E agora, olhar para a barriga da fazia eu me sentir mal, só de pensar no tempo que faltava para as responsabilidades virem a sério.
- O que é que ela estava fazendo aqui? – Perguntou ela, irritada.
- Ela é minha amiga. Tem todo o direito de aqui estar.
- Não gosto disso. Eu estou quase a ter o seu bebê e você está aí com outras – Ela falou, chorando.
- , não é nada disso. Senta aí – Disse eu, apontando para a cadeira – , eu vou fazer tudo direito com você. Não tem que se preocupar com isso.
- Sério?
- Sim.
Ela pegou na minha mão e a encostou em seu rosto.
- Bebê, eu te amo tanto.
- Eu também te amo.
- Eu tenho andado a pensar em nomes para o bebê. Eu gosto de Nicole, se for menina, e Nicholas, para garoto.
- Sim, eu também gosto.
Me senti completamente sufocado nesse momento. Olhei pelo vidro e vi a lá, sentada na sala de espera. Ela me olhou e sorriu, me dando força para aguentar a .

's P.O.V.
A ficou com o mais de meia-hora. De vez em quando, ele olhava para mim através do vidro e eu lhe sorria.
Quando ela finalmente saiu, eu fui falar com o . O encontrei meio triste, olhando para a janela.
- , o que foi?
- Você viu o tamanho da barriga dela? Já está falando de nomes e eu não consigo sequer imaginar o bebê. Eu sei que vai acontecer, mas eu não estou preparado para ser pai!
- , você vai ser ótimo. Tenho certeza.
- , tenho medo. Muito – Ele olhou para mim e eu senti o peso do que ele estava sentindo.
- , eu nunca mais vou te deixar.
- Eu tenho que convencer ela a dar para a adoção.
- Acho que isso é o que ela quer. Sinceramente, você não está imaginando a criando um bebê, né? Eu te ajudo a encontrar um casal para ficar com o bebê e assim você pode ficar bem de novo.
- Você faz isso?
- Sim, até posso falar com a . Acho que se correr, ainda a alcanço.

Saí do quarto sem esperar resposta e corri como uma maluca. Consegui alcançar a quando ela estava saindo.
- , preciso de falar com você.
- O que foi?
- Você quer ficar com o bebê?
- Eu não sei.
- Não sabe? , você está quase a ter o bebê! Tem que decidir o que quer fazer.
- Eu não sei, eu não sei! – Ela parecia mesmo em pânico, eu até tive pena dela.
- Você pode dar o bebê para a adoção e ter filhos mais tarde. Eu te ajudo a encontrar uma família para ficar com o bebê, se você quiser.
- Por que é que você está fazendo isso?
- Para você e o não ficarem com as vidas destruídas. Você deve ter sonhos, ir para a universidade, ser alguém na vida!
- Tinha que ser sobre o – Ela falou, com desprezo – Você realmente não percebe, ele é meu!
- Eu sei disso, . Mas você tem que pensar em você. Se você ficar com esse bebê, bem, pode dizer adeus ao seu futuro. Só quero que você pense bem. Além disso, quando o perceber que o bebê não é dele, você fica sozinha.
Ela me olhou como se tivesse acabado de levar um tapa.
- Mas o bebê é dele! – Insistiu ela.
- , pensa no que falei. Se você decidir aceitar, pode vir falar comigo. Mas é melhor se apressar, a verdade pode sair mais rápido do que você pensa.

's P.O.V.
- Ela vai pensar – Falou quando entrou no quarto.
- Não acredito que você fez isso por mim.
- Não acredita por quê? – Ela perguntou com um sorriso.
- Não sei. Me custa acreditar que você é real e que está mesmo aqui.
- , eu nunca mais vou te deixar – Ela falou se sentando na cadeira e olhando para as mãos que estavam no colo – Quando a me ligou contando, eu não queria acreditar. Eu pensei que você ia morrer, – Ela olhou para mim e tinha lágrimas escorrendo pelo rosto – Eu só pensava nas coisas que eu não tinha falado para você, nas coisas que não tínhamos feito juntos – Ela limpou as lágrimas, mas mais seguiram as primeiras – E eu tive que vir… - Ela já não conseguia falar mais.
- , vem aqui – Ela se aproximou de mim e eu lhe limpei as lágrimas – Não pensa mais nisso. Se me tivesse acontecido alguma coisa, você sempre teria o Jay.
- , eu nunca amei o Jay – Ela murmurou, chorando.
- Não? - Eu fiquei genuinamente surpreendido e não consegui evitar um sorriso.
- Não. Foi sempre você.

Capítulo 22
- Love of my life, my soulmate

's P.O.V.
Enquanto caminhava para casa, pensando na vida, começou a chover. Drogaaaa! Comecei a andar mais depressa e, quando cheguei, já estava completamente encharcada. Não encontrei as chaves, por isso toquei para a casa do .
- , já mal reconheço você! – Falou ele, quando abriu a porta e eu entrei.
- , que saudades! – O abracei forte e depois olhei para ele – Você está igualzinho!
- Mas você não. Você está linda, ! Não que você não fosse linda antes…
- Obrigada, – Respondi com um sorriso.
- Posso saber porque é que só agora tive a honra de receber a menina que eu sei que voltou há duas semanas?
- Hm, tenho andado meio ocupada. O sofreu um acidente.
E lhe contei tudo o que tinha passado, com o Jay e depois.
- Mas agora ele já está melhor?
- Sim, ele já está quase ganhando alta do hospital.
Nesse momento, meu celular tocou.
- Sim?
- ? É a .
- ?!
- Sim. Eu pensei muito na sua proposta e gostaria muito de aceitar – Ela falou, meio desconfortável.
- Ok. Você quer se encontrar comigo?
- Sim. Pode ser agora?
- Claro.
Combinamos um lugar e desligamos. Me despedi do e fui me encontrar com a . Para meu espanto, ela foi até bastante simpática. Era óbvio que ela estava mesmo desesperada, mas mesmo assim… Eu lhe garanti que a ajudava a procurar uma família e que podíamos começar nesse mesmo dia.

Ao fim de três semanas, conseguimos uma família. Levei a a conhecer eles e ela pareceu ficar feliz. Nesse dia, o saiu do hospital.
- Me conta o que você andou fazendo nessas semanas! – Insistiu ele.
- Sim, estamos todos curiosos – Disse .
- Vocês querem mesmo saber?
- Sim!
- Eu estive ajudando a a arranjar uma família para adotar o bebê.
Todos olharam para mim, com os olhos muito abertos. Eu esperei por alguém falar, com medo da reação.
- Você fez o quê? – Perguntou a , ainda sem compreender. - Eu ajudei a a arranjar uma família para o bebê – Repeti – Assim, o bebê é criado por alguém que o ame mesmo e o trate bem, e você já não fica preso, .
Eles continuaram calados e eu comecei a me sentir mal.
- Por favor, alguém diga alguma coisa! – Supliquei.
- Você fez isso por mim? – Disse , sorrindo.
- Claro. Faria tudo, você sabe – Respondi, aliviada.
- , nem acredito que você fez isso! – Falou , me abraçando.
- Eu te amo, – Disse , me olhando nos olhos.
Como sempre, isso fez o meu estômago dar uma cambalhota e eu soltar uma gargalhada idiota. Eu sabia que ia amar ele para sempre.

1 ano depois
- , você pode vir até aqui falar comigo? Estou sozinha – Perguntei, pelo celular.
- Claro. Um minuto.
E, literalmente, um minuto depois ele estava tocando a campainha. Fui abrir e lhe sorri. Nunca me cansava de olhar para ele, observar cada pormenor de seu rosto. Ele também me sorriu, corando.
- O que foi?
- Nada, estava só olhando para você. Entra.
Ele entrou e fomos os dois para o meu quarto. Estava escuro e nos deitamos no chão, um ao lado do outro, de barriga para cima.
- Estava mesmo pensando em você quando ligou.
- Sim? – Me virei de lado, para olhar para ele.
- Sim. Trouxe um presente para você, de Nova Iorque.
- Ai, você esteve fora tanto tempo, é bom que seja alguma coisa de jeito – Resmunguei.
Ele tinha ido com a família para Nova Iorque durante duas semanas, duas semanas inteiras em que não tínhamos falado. Era tempo demais.
- Espero que você goste – Ele me estendeu uma caixinha e eu me levantei para abrir a luz.
A expressão dele era indecifrável e eu abri a caixinha, nervosa. Lá dentro estava um colar de prata. Muito simples, só as nossas iniciais, mas eu não conseguia deixar de olhar para ele. O tirei da caixa, observando mais cuidadosamente.
- O que você acha? – Perguntou ele, ansioso.
- , nem tenho palavras! Eu amei!
- Para você não se esquecer de mim – Falou ele, meio desajeitado, mas adorável.
- , eu nunca vou me esquecer de você, tonto. Agora me ajuda a colocar o colar.
Ele se levantou e me colocou o colar. Depois começou beijando o meu pescoço, me fazendo arrepiar. Mas eu gostava da sensação, por isso não o impedi. Me virei, fazendo a boca dele ir ao encontro da minha. Nos beijamos calorosamente, e eu fui invadida por um desejo que nunca tinha sentido antes. Eu queria ele, eu precisava dele. Minhas mãos foram até a barra da blusa dele e eu comecei a puxar ela para cima, sem nunca separar os meus lábios dos dele. Ele me deixou tirar a camisa e continuou me beijando, enquanto eu passava minhas mãos por seu tronco nu.
- Você tem certeza? – Murmurou ele, sem fôlego.
- Cala a boca, – Respondi, fazendo-o me beijar de novo.
Alguns meses atrás eu lhe tinha dado a conversa de "ainda não estou pronta para fazer sexo", para deixar bem claro a minha posição. Ele tinha sorrido e aceitado esperar, apesar de eu saber que isso custava para ele. Era só disso que eu precisava, que ele demonstrasse que me amava. Eu nunca tinha sentido nada assim antes. A minha pele queimava onde ele tinha as mãos. Eu não estava mais aguentando esse desejo. Eu estava tremendo quando ele tirou a minha blusa.
- O que foi? – Perguntou ele, sentindo meu corpo tremendo.
- Nada.
Eu o levei até a cama e nos deitamos, com ele por cima de mim. Ele beijou o meu pescoço e passou as mãos pelo meu corpo, me fazendo gemer baixinho. Ele sorriu, de um jeito que eu nunca tinha visto. Os olhos dele brilhavam com uma intensidade que eu nunca tinha visto antes. Só me fez lembrar o quanto eu o amava, o quanto eu queria passar o resto da minha vida com ele.
- Eu te amo – Murmurou ele, algum tempo depois, enquanto eu estava deitada no peito dele.
- Quero ficar com você para sempre – Respondi, fechando os olhos.
- Tenho medo que você se arrependa – Confessou ele, após um curto silêncio.
- , por que é que você ficou tão inseguro agora? – Perguntei, olhando para ele com um sorriso.
- Não sei – Ele riu, nervoso – Só que eu nunca senti isso por ninguém.
- , você não vai se livrar de mim tão cedo – Eu lhe dei um selinho e voltei a me deitar no peito dele.
Nesse momento ouvimos a porta da entrada a abrir. Eu e o nos levantamos em um salto e olhamos um para o outro. Eu desatei a rir e ele me olhou, assustado.
- Droga, os meus pais! – Murmurei, mal conseguindo falar entre as risadas.
- Pára de rir, isso é sério! – Falou o , começando a se vestir rapidamente.
- Estamos em casa, querida – Falou a minha mãe.
Começamos a ouvir passos virem na direção do quarto e o estava cada vez mais nervoso. Até que a porta de abriu, revelando uma mãe muito surpreendida. morreu ali mesmo de vergonha e eu caí no chão a rir. A minha mãe entrou no quarto e fechou a porta atrás dela, para manter o meu pai longe. Ela olhou de mim para e depois para mim de novo, sem saber como reagir.
- Pelo menos, me diga que usaram camisinha – Falou ela para mim.
corou ainda mais, coisa que eu pensei que não fosse possível, e me olhou, completamente com ar de quem queria se enfiar num buraco.
- Sim, mãe, claro – Respondi, quando parei de rir.
- Pelo menos isso – Falou ela, um pouco mais aliviada – Agora, põe uma roupa e vem falar com seu pai – Ordenou ela.
- Ok. Só um pouco.
Minha mãe sorriu pra mim e , e saiu. Assim que ela saiu, olhou para mim, branco como um fantasma.
- Me mata de uma vez.
- , você viu a reação da minha mãe. Ela ficou na boa, porque ela sabe que isso é normal. Não tem problema nenhum, meu amor – Eu falei, pegando na mão dele e a beijando.
- Põe alguma roupa, a sua mãe tinha razão – Ele falou, desviando o olhar mim.
Foi aí que eu me lembrei que ainda estava nua. Me tapei com o lençol e procurei no armário algo prático para vestir. Quando eu estava pronta, peguei na mão de , que estava com um medo de morrer do meu pai, e saímos do quarto.
- Ah, filha. Sua mãe já me falou do trabalho que vocês estavam fazendo aí – Falou o meu pai, quando entrámos na sala.
- Trabalho?
- Sim, de Física. Espero que esteja correndo bem.
- Sim, está ótimo – Respondi, sorrindo para a minha mãe.
só acenou com um sorriso amarelo e segurou a minha mão com mais força.
- Nós agora vamos para o quarto terminar o trabalho, ok? – Perguntei, me levantando.
- Querida, tenho certeza que o deve estar cansado. Ele pode sempre voltar amanhã – Disse a minha mãe.
- Hm, sim – Respondi, um pouco desorientada.
Levei até a porta de casa, onde nos despedimos com um selinho. Depois voltei para a sala.

's P.O.V.
Me matem e me enterrem de uma vez. Sério. Nunca tinha passado por nada tão humilhante na minha vida toda. Não que não tenha valido a pena, porque valeu. Agora eu e a éramos um só. Pela primeira vez na minha vida, tinha feito sexo por amor. Era como se tivesse perdido a virgindade de novo, desta vez com a garota certa. O meu celular começou a tocar e eu atendi.
- Sim?
- , hoje a gente vai sair. Você quer vir connosco? – Perguntou .
- Nós quem?
- Só nós, os quatro.
- Não sei.
- Não sabe? O que aconteceu, ?
- Nada.
- Nada não. Eu te conheço, dude.
- Não vou contar, . Desiste.
- Hm, estou percebendo. Alguém teve alguma ação hoje.
- Cala a boca, .
- Aposto que ela já ligou para a contando tudo.
- , às vezes penso que você nasceu para me zoar a cabeça.
- Desculpe, desculpe – Pediu ele, rindo – Você vem connosco ou não?
- Vou. Mas só se você parar com a brincadeira.
- Ok, a gente se encontra no bar daqui a uma hora.
Uma hora depois, eu estava entrando no bar. Encontrar os garotos não foi difícil, uma vez que eles estavam já um pouco bêbados.
- Duuuude, você veio! – Falou o , rindo.
- E já estou me arrependendo.
- Não fala isso, não. A noite ainda vai baixa. Quero dizer, ainda é uma criança – Disse , o mais bêbado deles todos.
- Não liga para eles. O já não bebe há mais de um mês, a pedido da . Ela o deixou vir hoje – Explicou , rindo. Depois de mim, ele era o mais sóbrio.
- Isso explica muito. E você, como vai com a ?
- Tivemos uma pequena discussão hoje, mas nada que não se resolva.
- Então você não devia estar aqui.
- Eu sei. Mas o me pediu – Ele me parecia com vontade de tudo, menos de estar ali.
- Vai, mas é embora.
Ele nem pensou duas vezes. Saiu correndo, me deixando a aturar dois bêbados. O desapareceu rápido, com uma garota qualquer. Mas o ficou lá comigo, falando coisas idiotas e bebendo mais.
- Não sei como você e a ainda estão juntos. Quer dizer, eu gosto muito dela e tal. Mas ela é tão diferente daquilo que você costuma escolher.
- Se calhar, é por isso mesmo que eu gosto dela.
- Sim, mas sem sexo? Jooones, por favor – Ele riu de novo, completamente idiota.
- , pára de falar besteira.
- , eu só quero te avisar. Você sabe que, mais cedo ou mais tarde, você vai querer outra. Você pode nem se apaixonar por outra, pode amar muito a , que eu acredito que você ama, mas está no seu sangue. Você vai trair ela, você não foi feito para namorar com a mesma garota por muito tempo – Ele falou isso sério, me assustando.
- , eu disse para você parar de falar besteira. Eu vou embora.
- Vai e pensa no que eu disse. Até amanhã.
Eu nem respondi. Saí do bar o mais rápido que consegui, me afastando do . O que ele tinha falado não saía da minha cabeça. E eu tinha medo que ele tivesse razão. Eu amava a , amava ela acima de tudo. Mas tinha medo de a magoar. O celular vibrou no meu bolso e eu dei um salto, pegando-o. Era a .
- Oi, coisa boa – Falou ela, quando atendi.
- Oi, meu anjo. Como você está?
- Eu estou ótima. Estava sentindo a sua falta. Você hoje fez de mim a mulher mais feliz do mundo, sabe?
- Só hoje?
- Oh, você sabe do que estou falando, bobo. Você faz de mim a mulher mais feliz do mundo todos os dias.
- Eu te amo, para sempre. Você sabe isso, não sabe? – Perguntei, me sentido culpado.
- Claro que sei. O que houve, meu amor?
- Nada. Só quero que você saiba.
- Que bom – Ela respondeu, sem suspeitar de nada – Eu liguei para dizer a você que a Cassie vai fazer uma festa e está convidando todo mundo. É amanhã.
- Você sabe como eu adoro festas.
- Aparece na minha casa às 19h e vamos juntos.
- Nem fazia sentido de outro jeito.
- Até amanhã, meu doce - Desliguei o celular e continuei a andar, sem saber para onde.

Mais há frente, uma garota estava bebendo uma cerveja encostada a uma parede. Ela estava usando um vestido que mal tapava a bunda dela, apesar de estar frio. Quando passei por ela, ela me chamou.
- Ei, você aí.
- Eu? – Olhei para ela e ela estava sorrindo para mim, meia selvagem.
- Sim. Venha até aqui me aquecer, que eu tenho frio.
- Vai ter que ser para outro dia – Respondi, me aproximando um pouco dela.
- ? – Ela perguntou, me olhando mais de perto.
Primeiro estranhei. Como é que ela sabia o meu nome? Mas depois eu olhei melhor para ela e percebi que também a conhecia.
- Florie?
- Que legal encontrar você aqui. Você nunca mais deu notícias.
- Me desculpe, mas não estava procurando mais “diversão”.
- Bela maneira de largar uma garota, – Ela falou, dando uma risada – Você tem um cigarro?
- Não. Você não estava esperando mesmo que eu ligasse.
- Não, mas teria sido simpático. Como vai a vida?
- Vai bem. E a sua?
- Estou só com um pouquinho de frio – Ela falou, se encostando a mim.
- Hm, já não estou solteiro.
Ela me sorriu, de novo com o sorriso selvagem e os olhos brilhando.
- Não me importo com isso.
A olhei de cima a baixo. Ela era alta e elegante e estava usando um vestido preto completamente justo ao corpo. Tinha umas botas pretas até aos joelhos e os olhos muito pintados. Ela tinha no todo uma aparência bastante louca e sensual, que me fez pensar duas vezes. Ela mordeu o lábio, colocou as mãos no meu pescoço e aproximou a boca dela da minha. Foi aí que acordei e percebi o que estava fazendo.
- Mas eu me importo – Respondi, me soltando das mãos dela.
- Como queira. Você tem o meu número, eu fico esperando.
Ela me piscou o olho e virou as costas, indo embora. Nem acredito que quase fiz aquilo. Tinha quase traído a , tal como o tinha previsto. Talvez ele tivesse razão, talvez eu não fosse homem de uma só garota. Encostei a cabeça a parede, com os olhos fechados. Imaginei a chorando e logo fiquei pior.
Eu não podia fazer isso a ela de jeito nenhum. Nunca.

Capítulo 23
- Goodbye my lover, goodbye my friends

's P.O.V.
Acabamos por não ir à festa. Quando o apareceu, estava com um ar miserável, por isso fomos dar uma volta, só nós dois. Durante imenso tempo, ele não falou nada, até que parou e me olhou nos olhos.
- , precisamos conversar.
Quando ele disse isso, eu nem queria acreditar. Mal conseguia olhar para ele, pois eu já sabia o que viria a seguir. Mas nunca pensei que aconteceria mesmo. Não respondi nada e esperei para que ele falasse.
- Eu… , eu…
- Não precisa falar mais nada – Disse, com lágrimas nos olhos, sem aguentar mais – Só não percebo o que aconteceu.
- Não é você, sou eu…
- Sério? , com tanta coisa que você podia falar, tinha que ser isso – Fechei as mãos com força, para não chorar.
- , você é maravilhosa, mesmo!
- Então por que é que está fazendo isso? – Perguntei, incapaz de controlar as lágrimas que começaram a escorrer pelo meu rosto.
Ele se virou de costas para mim e levou as mãos ao cabelo. O ambiente estava de cortar à faca e o silêncio estava ensurdecedor. Ele se virou de novo para mim, com tristeza espelhada no rosto, sem falar nada. Uma ideia começou a se formar na minha cabeça, uma ideia que eu esperava por tudo que estivesse errada.
- Você me traiu? – A minha voz não foi mais do que um murmúrio assustado. Sustive a respiração, com medo da resposta.
Ele engoliu em seco e eu tive a minha resposta. Arranquei o colar que sempre trazia no meu pescoço e atirei para ele. Sem esperar que ele falasse, virei as costas e corri, sem direção. Não conseguia ver o caminho, por causa das lágrimas que enchiam os meus olhos. Corri até não conseguir mais, o que felizmente coincidia com a entrada do prédio. Sentei-me no degrau e deixei as lágrimas escorrerem livremente. Não conseguia respirar, sentia-me sufocada. A pessoa que eu mais amava no mundo, com que eu sempre sonhara, tinha me deixado. A dor estava me consumindo e eu não estava aguentando mais, só queria arrancar meu coração partido para fora do peito, para não doer mais. Eu nunca tinha sentido nada assim antes. Era como se, de repente, eu já não tivesse vontade de fazer mais nada. A minha razão de viver tinha desaparecido e eu não sabia o que fazer. Eu só queria morrer, desaparecer para sempre, não sentir isto que estava a sentir.
- O que aconteceu, beleza? – Perguntou uma voz que eu não conhecia.
Levantei a cabeça e vi um garoto que nunca tinha visto antes. Ele tinha mau aspecto e eu me levantei, pois ele estava se aproximando de mim com um sorriso assustador.
- Nada.
- Nada que eu não possa resolver de certeza – Falou ele, dando mais um passo na minha direção.
- Não foi nada. Me deixa.
Recuei até a porta do prédio e procurei as chaves no bolso. Mas depois me lembrei que não as tinha e limpei as lágrimas, em pânico. Os meus pais não estavam em casa e eu duvidava que alguém ouviria se eu gritasse.
- Não, bebê, você tem ar de quem precisa de se divertir.
- Não, eu só quero ficar sozinha! Me deixa! – Falei mais alto, com um restinho de esperança de ser ouvida.
- Cala a boca. Aqui você não manda. Eu tentei levar as coisas a bem.
- Do que você está falando? – A minha voz saiu tremendo e ele riu, colando o corpo no meu.
- Disso.
Ele tapou a minha boca com a mão e começou a beijar o meu pescoço, enquanto a outra mão segurava as minhas. Eu tentei gritar, mas não conseguia. Tentei me libertar, mas ele era muito mais forte do que eu. Depois ele juntou os lábios com os meus, deixando uma mão livre para abrir a minha blusa. Lágrimas começaram a escorrer de novo, mas lágrimas de impotência perante o que estava me acontecendo. Fiquei enojada quando senti a mão dele dentro da minha blusa, passando pela minha barriga e meu sutiã. Fechei os olhos com força, causando a queda de mais lágrimas. Senti o tesão dele e mais lágrimas caíram dos meus olhos. Ele me tirou a blusa e prendeu as minhas mãos com ela, ficando com as duas mãos livres para fazer o que quisesse. Senti as mãos dele no botão das minhas calças e aí foi o fim. Comecei a chorar mais e ruidosamente, completamente desesperada.
- Silêncio! – Ordenou ele, me dando um tapa.
Ele abriu o botão das minhas calças e, quando ia colocar a mão, foi puxado para trás. Primeiro não percebi o que estava acontecendo, fiquei sem reação. Mas depois vi dando porrada no outro. Tentei soltar as minhas mãos da blusa, mas não consegui. Entretanto, estava sentado no peito do outro e dava murros na cara dele, com uma raiva que eu nunca tinha visto.
- Para, por favor! Eu vou embora, prometo! – Suplicou o outro, com a cara cheia de sangue.
- Eu devia matar você! – Respondeu , com ódio na voz.
- Não, eu lamento tudo! Por favor, me deixa ir!
- , deixa ele – Pedi, incapaz de assistir mais aquilo.
hesitou, mas saiu de cima dele, o deixando se levantar. Ele nem olhou mais para nós e foi embora correndo, nos deixando sozinhos. O soltou as minhas mãos e eu me apressei a vestir a blusa e a fechar o botão das calças. Ele me observou e fez cara feia.
- O que foi?
- Você está toda marcada. Eu estava com vontade de matar aquele filho da puta pelo que ele fez a você.
- Seria pior se você não tivesse aparecido – Murmurei, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas de novo.
Ele olhou para mim, triste, e eu corri para abraçá-lo. Apesar de tudo, eu o amava e ele me tinha salvado de ser violada. Ele me abraçou forte e apoiou o queixo no topo da minha cabeça. Eu estava tremendo de frio e ele estava quente, o que me soube mesmo bem. Chorei tudo o que podia, até já não ter mais lágrimas. Quando isso aconteceu, eu me afastei dele e o olhei nos olhos. Logo as memórias de ele terminando tudo voltaram. Me virei de costas para ele, incapaz de olhar para ele mais.
- Você pode me abrir a porta, por favor? – Perguntei, friamente.
- , você entendeu tudo mal.
- Entendi o que mal? – Respondi brava, me virando para ele.
- Eu não te traí – Ele falou, triste.
- O quê?
- Eu nunca seria capaz de fazer isso.
- Então por quê? Por que é que você acabou comigo?
- Eu… Eu não te amo mais – Ele desviou os olhos de mim quando disse isso.
Eu não queria acreditar no que estava ouvindo. Eu queria chorar, mas nem isso conseguia. Me sentei no degrau, sem saber o que fazer. Preferia que ele tivesse me traído do que isso. Mas eu já sabia que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Sabia desde o início, mas mesmo assim estava chocada. Fiquei sentada no degrau um bom tempo, sem reação. Depois me levantei e olhei para ele, com toda a coragem que arranjei.
- Você pode abrir a porta por favor? – Eu falei, com a voz mais fria que consegui fazer.
- Sim – Ele falou com voz doce, me confundindo.
Subi as escadas a correr e, assim que entrei em casa, corri para a cama. Chorei com a cara na almofada, para não ser ouvida. Eu tinha dado para ele tudo o que tinha, tinha-me entregado completamente como todo o mundo falava para eu não fazer, como eu sabia que não devia ter feito. Mas eu tinha feito, porque apesar de tudo, uma parte de mim tinha acreditado que ele ia me amar para sempre, não ia ser como as outras garotas. Mas eu tinha sido estúpida. Agora estava com uma dor enorme no meu peito, nem conseguia respirar direito. Depois, quase tinha sido violada. Nem sabia dizer o que tinha sido pior, mas esta era de certeza a pior noite que eu alguma vez ia viver.
Acabei por adormecer no meio das minhas lágrimas, com os olhos doridos e inchados. Acordei no meio da noite, com fome. Caminhei calmamente até a cozinha, onde peguei um copo de leite. Estar sozinha não estava me fazendo nada bem, por isso pensei logo no . Talvez ele me abrisse a porta, se não tivesse nenhuma garota lá... Vesti um casaco e peguei as chaves. Saí de casa sem fazer ruído e desci as escadas do prédio, me apertando contra o casaco.
Bati na porta do , fazendo figas que ele abrisse. Felizmente, ouvi passos e a porta abriu.
- ? – Perguntou ele, de boxers, com os olhos semicerrados de sono – O que você está fazendo aqui?
- , estou incomodando?
- Não, entra.
Eu entrei e ele fechou a porta em seguida. Me sentei no sofá e esperei que ele fosse ligar as luzes e se sentasse ao meu lado.
- Aconteceu alguma coisa, meu bem? – Perguntou ele, um pouco mais acordado.
- Aconteceu tudo , só quero morrer!
- Calma aí linda, me conta tudo – Murmurou ele preocupado, me abraçando.
Por isso é que eu tinha vindo aqui. Eu sabia que ele ia me abraçar e fazer eu me sentir melhor, fosse o que fosse que tivesse acontecido. Eu descansei a cabeça no peito quente dele e relaxei com sua respiração.
- O terminou tudo comigo. Ele falou que não me amava mais – Senti a minha garganta se fechando com outra crise de choro vindo.
- O quê? Eu vou matar esse filho da puta!
- Calma aí. Não foi tudo. Eu quase… Eu quase fui violada , foi horrível. O apareceu e me salvou, eu não sei o que teria sido de mim se ele não tivesse aparecido. Por um momento pareceu que ele ainda se preocupava, mas depois ele falou que não me amava mais, e foi horrível!
Minhas últimas palavras não passaram de um murmúrio e eu voltei a encostar a cabeça no peito dele, deixando as lágrimas escorrerem livremente. Ele me envolveu com os seus braços e ficou me segurando até eu me acalmar um pouco.
- Eu vou matar esse filho da puta, vou agradecer a ele e depois vou matar ele outra vez! – Falou ele, com ódio.
- Eu fui tão estúpida, . Eu acreditei que ele me amava mesmo, apesar de tudo o que me diziam e de tudo o que eu sabia. Eu pensei que podia ser diferente, que podia ser desta que ele se apaixonava a valer, mas acho que fui só mais uma a cair nas manhas dele. O pior de tudo é que eu estou me sentindo completamente humilhada.
- , olha para mim. Você não tem que se sentir mal. Se alguém tem que se sentir humilhado e mal nessa história é ele. Foi ele quem fez tudo mal, foi ele quem cometeu o maior erro da vida dele em deixar você ir. E eu te garanto que ele um dia vai perceber isso e aí ele vai se sentir muito pior do que você está agora.
- Mas esse dia pode nunca chegar. O pior de tudo vai ser ter que ficar vendo ele todos os dias, e sentir que ele só estava me usando.
- Meu bem, eu te garanto que ele não estava te usando. Não sei o que passou, mas esse garoto te amava mesmo. Não quero que você fique aí pensando que foi só um brinquedo nas mãos dele, porque isso não é verdade. Não sei se isso ajuda ou não, mas eu tenho a certeza que ele te amou.
- Ajuda sim, obrigada.
- Mas eu ainda vou matar ele. Terminar assim com você é uma coisa que eu não admito que façam!
- , não vale a pena. Eu sabia que isso ia acabar mais cedo ou mais tarde.
- Não interessa!
- , por favor! Deixa ir, eu não quero que você faça nada a ele.
- Como você quiser, meu bem. O que você vai fazer agora?
- Eu? Vou pôr isso tudo para trás das costas e me concentrar no meu futuro – Respondi – Eu vou ser feliz, .

*

Acabei por perceber que não valia a pena. Admito que ver o todos os dias me custou, mas foi só por mais uns meses, até o fim do ano. Claro que os sentimentos ficaram menos fortes, menos intensos, mas, mesmo assim, tudo ficou diferente. Já não éramos um grupo como antes, havia sempre alguma coisa que não podia ser dita, ou feita. Por isso é que o fim do ano foi um grande alívio. Apesar de tudo, da despedida, de me separar dos meus amigos, ia poder ser completamente feliz. A despedida custou muito, não vou mentir. Sempre eram os meus melhores amigos, minha família. Mas fui embora, sem olhar para trás. Estava na hora de viver a minha vida.


nota da autora: Bem, meus amores, chegou o fim... mas só da parte 1! Vem aí a parte 2, por isso não fiquem tristes! Queria agradecer por todas as leitoras que comentaram e mesmo as que não comentaram, vos amo a todaas! Beijos, e não se preocupem, não vai demorar muito até eu voltar :D

nota da beta: e mais uma fic termina, é sempre muito triste, mas essa vai ter parte dois então não sentirei tanto :) A blessing in disguise, rs.
xx, Loma