
— Não acredito que você fez isso comigo! – ela gritou jogando as roupas dentro da mala – Eu não quero te ver nunca mais!
— Me perdoe – ele tentava abraçá-la – eu prometo que vou tentar fazer dar certo dessa vez.
— Isso foi o que você disse da última vez – ela tentava fechar o zíper da mala, sem sucesso
— Você pode parar de fazer suas malas – ele puxava as mãos dela pra longe da valise – e me escutar, pelo amor de Deus.
— Não! – ela olhou séria, em seus olhos – Nem esse direito você me dá?
— Pelo menos me deixe explicar – ele vociferava a segurava pelos braços.
— Eu já ouvi esse discurso tão bem ensaiado várias vezes, – o olhou com aversão – já o sei de cor.
Ele olhava pra ela angustiado.
— Você está o perfeito retrato do seu pai, exatamente idêntico, a única diferença é que diferente da sua mãe, eu vou te deixar antes de deixar a mim mesma – disse, e ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Você não sabe como é – ele se sentou na cama, tentando se acalmar.
— Eu não sei como é? – ela gritava o olhando com cólera – Eu não sei como é mesmo! Eu nunca disse que estava em um lugar estando em outro, ou disse estar com uma pessoa e estar com outra! Eu sempre fui verdadeira e sincera com você, - ela já chorava – e a única coisa que eu pedi em troca foi SINCERIDADE! E sabe o que você me deu em troca? MENTIRAS, TRAIÇÕES... Talvez isso esteja mesmo em seu sangue.
— Por favor – ele colocou a cabeça entre as mãos, frustrado – Só me deixe explicar...
— Eu cansei! Eu estou exausta e não aguento olhar pra você nem mais um segundo! – ela pegou a mala e saiu batendo a porta da frente.
A guirlanda pendurada na porta balançou com o impacto e caiu na varanda. Ainda se via alguns resquícios da festa da noite anterior, algumas luzinhas, um Papai Noel gigante ao lado da caixa de correio, quase coberto de neve.
— Você não pode dirigir assim – ele gritou enquanto saia pra fora de casa, tropeçando na guirlanda.
— Você também não podia me trair, - ela jogou a mala no banco traseiro – e mesmo assim o fez. Parece que proibições não são importantes nessa relação... – ela entrou no carro e enfiou a chave na ignição.
Ele andava vagarosamente em direção ao carro, por causa da camada fina e mortal de gelo que cobria o caminho, e pedia a ela que esperasse. Ela deu a partida, a volta com o carro e parou.
— E dê isso a quem você ache que mereça ser respeitada – arrancou a corrente do pescoço e a atirou pela janela do carro.
Ele correu para tentar pará-la ou, pelo menos, pegar o colar, quando escorregou na calçada. Tentou se segurar no boneco, mas a única coisa que conseguiu foi bater a cabeça na caixa de correio e desmaiar na frente de sua casa.
Ele se mexeu desconfortável, sentindo uma dor terrível na parte de trás de sua cabeça, abriu os olhos e uma luz branca o cegou, fazendo-o levantar a mão para tampá-la. Supôs estar em um hospital, por causa das paredes brancas e do aparelho que apitava ao seu lado.
— Aleluia você acordou, cara – ele ouviu uma voz ao seu lado.
— Pensamos que você tinha morrido – outro disse.
— Vejo que acordou, senhor – uma cabeça levemente grisalha, com olhos bondosos e um sorriso sincero, apareceu em seu campo de visão – Eu sou o Dr. Warhol, como está se sentindo?
— Moído – disse por fim, tentando se levantar, sem sucesso por causa da dor.
— Pelo menos está sentindo alguma coisa – disse o homem que estava do seu lado esquerdo, ajudando-o a se levantar.
— Então, o que aconteceu? – ele olhou para o homem da direita, que julgava ser o médico.
— Você não se lembra? – ele o olhou preocupado.
— Não – disse – Como vim parar aqui?
— Você sofreu uma queda e bateu a cabeça – o médico disse – Felizmente alguém chamou a ambulância e você chegou a tempo.
— Onde eu caí?
— Na calçada da sua casa, cara – um dos homens ao seu lado disse, com a feição quase penosa.
— Hm, - disse tentando se lembrar – Eu... Puta que pariu, minha cabeça ta doendo.
— Quer que eu peça para a enfermeira trazer um analgésico? – o médico perguntou.
— Eu agradeceria – ele disse se deitando novamente e fechando os olhos com força – Quando eu tento me lembrar de alguma coisa, parece que minha cabeça vai explodir...
— Acho melhor você dar uma descansada...
“Ele diz como (...) semanas (...) já não fossem descanso o suficiente...” ele pode ouvir um dos homens sussurrando e o outro o mandando calar a boca.
—... e nós nos falamos quando você acordar, - a enfermeira chegou com um copo d’água e um comprimido em uma bandeja – tudo bem pra você?
Ele concordou com a cabeça e engoliu o comprimido, bebendo a água logo após.
Quando acordou novamente, sua cabeça estava um pouco melhor, menos dolorida e cansada. Sentou-se na cama, sentindo dormência nas pernas, parecia que não as mexia há dias, ou semanas.
— Bom dia, senhor – o médico disse entrando no quarto e sorrindo – como está se sentindo essa manhã?
— Melhor – respondeu – mas ainda enjoado.
— Provavelmente fome – ele disse – pedirei à enfermeira que lhe traga comida.
Ele se sentou na poltrona ao lado de sua cama, pegando uma caneta no bolso do jaleco e anotando algo em sua prancheta.
— Como está a cabeça?
— Doendo, mas melhor que ontem...
— Tonturas? Perda temporária de visão?
— Não...
— Certo, certo – ele anotou mais alguma coisa e colocou a prancheta em cima da mesinha – Você se lembra do que aconteceu?
— Depois do que você me contou, - ele fez uma pausa – eu tenho a leve impressão de que já vi isso acontecer... Mas não me recordo muito bem.
— Certo, - o médico pensou por alguns instantes – Precisamos fazer alguns exames com você. A princípio imagino que esteja com uma espécie de amnésia, ou perda de memória seletiva, mas não vou confirmar nada até ver os resultados.
O médico foi saindo do quarto e quando estava na porta se virou:
— Tem alguns amigos seus que querem o ver, - ele deu passagem para três caras entrarem – Se vocês puderem, tentem fazê-lo lembrar de algo – ele sorriu para os recém chegados e saiu fechando a porta atrás de si.
— E aí cara, como está se sentindo? – perguntou o mais alto dos quatro.
Não conseguiria contar nos dedos quantas vezes haviam o feito essa pergunta.
— Melhor – fez esforço para sorrir – só meio abalado, digo, por não me lembrar de nada...
— Deve ser fogo, não sei o que faria no seu lugar, – e lhe deu um sorriso confortador.
Ele concordou com a cabeça.
— , - o outro chamou – entregue pra ele o negócio.
— Que negócio? – ele perguntou confuso.
— Isso, - disse tirando uma corrente, com um pingente delicado de coração, do bolso – seu vizinho disse que o encontrou perto de você quando o viu desmaiado...
pegou o colar e o analisou mais de perto.
— Se lembra disso? – perguntou.
— Me lembro que já vi, mas não me lembro onde – disse abrindo o pingente e vendo uma foto dele mesmo e uma garota bonita, com traços fortes e longos. Os dois riam e ele devia estar a abraçando, não dava pra ver muito bem, pois a foto era bem pequena – Quem é ela?
O outro cara o olhou espantado:
— Não sabe quem é? – perguntou.
— Óbvio que não, né ?! – o outro disse dando um pedala em sua cabeça – Se ele perguntou... – rolou os olhos – essa é a , . Sua... Hm... Ex-namorada.
— Ex? – ainda olhava confuso para o pingente – Não me lembro nem de começar a namorá-la, quem dirá de terminar com ela.
— Vocês dois moravam juntos – explicou – Mas quando fomos buscar algumas roupas pra você na sua casa, a maioria das coisas dela não estava lá, inclusive o carro...
— Er, - começou a falar, quase envergonhado – ela gostava muito de você.
— O que quer dizer com isso? – perguntou desconfiado.
— É que... – ele começou a falar, sob os olhares repreensivos de e do outro cara.
— Garotos, - a enfermeira entrou no quarto – o horário de visitas acabou, o senhor precisa descansar.
— Espera um pouco, ele estava... – começou.
— Não, deixa pra lá, – disse – Depois a gente volta, melhoras cara.
Ele concordou com a cabeça enquanto eles saiam do quarto, e conseguia ouvi-los falando no corredor.
“O que eu te falei sobre pensar antes de falar as coisas, ?” repreenderam-no. “Foi mal, ... Eu nem me toquei do que tava falando...” respondeu, e depois não se ouviu mais nada, eles deviam estar longe da porta.
— Então, querido – disse a enfermeira – Como está se sentindo?
Já estava começando a encher o saco o quanto as pessoas perguntavam aquilo pra ele, “Como acham que eu me sinto? Se eu estivesse bem eu estaria em um hospital?”.
A enfermeira aplicou alguma coisa em seu soro, e em alguns segundos, ele adormeceu.
“Bom dia, pequeno”, ela disse, virando-se pra mim e sorrindo, eu a observei manejar uma frigideira, provavelmente preparando nosso café da manhã. Ela estava linda, com uma camiseta minha e meias e os cabelos presos em uma trança mal feita. Eu adorava o jeito como os olhos dela se apertavam para tentar enxergar algo que as outras pessoas achavam que não estava lá, como ela mordia os lábios quando estava pensando ou fazendo força, ou quem sabe os dois. Ele riu com esse pensamento. Adorava a marquinha que ela tinha no pescoço, onde, incrivelmente, era onde ela sentia mais arrepios quando ele a beijava. Amava quando ela ria e colocava a língua entre os dentes, como uma criança que faz pirraça. Adorava todos os seus trejeitos e manias, seus vícios e incertezas, até adorava quando ela era autoritária e mandona. Era o jeito dela, e ele a amava assim mesmo.
“Um ovo ou dois?” ela perguntou, me tirando do devaneio. A respondi e sentei-me à mesa enquanto ela colocava dois ovos em meu prato. Ela se sentou do meu lado, vendo eu a observando quieta. Após alguns segundos, ela envesgou os olhos e mostrou a língua. Ri desviando o olhar.
“O que tanto olhava? Gamou, é?!” ela perguntou rindo. Respondi que não e ela deu um sorrisinho amarelo, meio sem graça. “Eu já passei do estágio de gamar faz tempo, estou loucamente apaixonado...” piegas, mas a pura verdade. Ela olhou pra mim, chocada e emocionada, se esticou por cima da mesa e me deu um selinho, acariciando meu rosto. “Você é perfeito”, respondi que ela também era e nos esquecemos do café da manhã, tínhamos coisas melhores pra fazer.
acordou assustado, havia sonhado com a menina da foto, o sonho foi tão real e vívido, tinha quase certeza de que aquilo havia realmente acontecido. Olhou para o lado e o relógio marcava duas da manhã, pegou a corrente e a enrolou nos dedos, olhando-a atentamente. . O que será que havia acontecido?
Algumas horas depois, mais precisamente seis, o médico entrou no quarto e o cumprimentou, perguntando como ele estava, assim como todo mundo que entrava naquele quarto o fazia.
— Tive um sonho essa noite – comentou.
— Um sonho? Sobre o quê? – o médico puxou a caneta e a prancheta, se preparando para anotar.
— Acho que era mais uma... Lembrança – disse.
— E como isso aconteceu? Digo, alguma coisa induziu a esse sonho, ou algo assim? – ele perguntou, interessado.
— Acho que foi esse colar, - ele mostrou a corrente que estava enrolada em sua mão – os caras a trouxeram ontem pra mim, disse que pertencia a uma ex-namorada minha.
— Interessante – ele disse, anotando – Conte-me sobre o sonho.
— Ah, - começou – nós estávamos tomando café, foi bem banal, na verdade.
— Mas você se lembrou, isso já é ótimo.
Ele concordou com a cabeça.
— E dos garotos que vêm aqui te visitar? Se lembra deles?
— Na verdade não, mas achei chato perguntar.
O doutor riu, acrescentou alguma coisa à folha da prancheta, e a pôs de volta na mesinha.
— Acho que deveria perguntar a eles coisas sobre você – disse já se levantando – Contataram sua família, sua mãe virá vê-lo depois de amanhã, quando, provavelmente, já estará de alta.
— Obrigada, doutor – deu um sorriso.
— Como foi que eu conheci vocês? – perguntou.
— Nós temos uma banda – respondeu – faz sete anos.
— Tudo isso? – disse surpreso – E o que eu faço nela?
— Você é o baterista – falou – e o gay da banda.
Os três riram e fez cara de assustado.
— Eu sou gay?
Eles riram mais ainda.
Uns trinta minutos depois, ele se recordava de coisas mínimas, mas sabia o necessário para não preocupar sua mãe, e sentia que estava começando a se lembrar das coisas.
O outro dia passou muito rápido, os garotos foram lá, como todos os dias. Diziam terem sido obrigados por Fletch, quem descobriu ser o empresário da banda, a irem lá todos os dias, por estarem de “férias” graças a . Fletch mandou um cartão de melhoras e disse que quando tivesse tempo iria visitá-lo.
Estava ansioso por poder voltar pra casa, havia ficado quase um mês no hospital, suas pernas já estavam quase atrofiando e estava cansado de tanto branco e daquele cheiro hospitalar, precisava de vitamina D e inalar um pouquinho de poluição.
Na hora de dormir, olhou para o lado e viu seu Iphone, o qual havia trazido mais cedo naquele dia, na mesa de cabeceira. O pegou e o destrancou, vendo o pedido de senha aparecendo na tela. Tentou se lembrar de qual poderia ser sua senha, mas nada vinha à sua mente. Largou o celular em cima da mesa e virou, para dormir. Onde será que tinha conhecido ? Aquela garota não saía de sua cabeça. O sorriso dela, seus olhos, o jeito como se movia, tudo. !
Pegou o celular de novo, destrancou e digitou assim que pediu a senha, na mesma hora apareceram 15 mensagens não lidas e 62 ligações não atendidas. 9 mensagens e 50 ligações eram de sua mãe, o resto era de Fletch e de seus amigos. Nada de .
Abriu a pasta de imagens do celular, e tinha poucas fotos, mas todas elas eram de , algumas dela sozinha e outras dela com ele e os amigos, menos a última foto, tirada um dia antes do natal, era ele beijando outra garota, bronzeada e com os cabelos descoloridos, será que já tinha terminado com ? Ou não? Não, já deviam ter terminado, ele nunca faria com ela o que seu pai fez com sua mãe. Ele tinha caráter.
Mexeu mais no celular, e não achou mais nada interessante. Com o pensamento no dia seguinte, e sua volta pra casa, adormeceu.
“Espera, espera” ela dizia tampando meus olhos com as mãos, “Não olhe ainda”. Eu estava curioso para saber o que tanto ela queria me mostrar, tinha ficado o dia inteiro quicando frenética na cadeira, doida para me contar alguma coisa.
“Levanta o pé, degrau” ela me avisou, fiz o que ela disse, subi dois degraus e senti que estava na sombra, provavelmente em uma varanda. Ela entrou de costas, ainda tapando meus olhos, abrindo a porta com o pé, “Entra”. Onde é que ela havia me trazido? “Pronto, pode abrir” ela disse tirando as mãos dos meus olhos, “O que achou?” me perguntou.
Olhei e a única coisa que consegui ver foram coisas, móveis talvez, cobertos com lençóis brancos, à direita a bancada da cozinha, logo de frente uma escada, e na parede da esquerda uma porta que dava para um banheiro. Virei para ela e respondi que a casa era Legal, ela me olhou chocada “Legal? Só legal? Essa é a casa que pretendemos morar por muito tempo” ela explicou. Disse que tinha achado bonita, mas não via nada demais na casa, ela pegou em minhas mãos, deu um sorriso malicioso e me puxou escada acima “Acho que ainda não te mostrei a melhor parte da casa”.
estava começando a se familiarizar com esses sonhos, ou lembranças. Até gostava deles, na maioria das vezes mostrava algo relacionado com , e tudo sobre ela lhe interessava.
Tinha acordado há uns cinco minutos quando uma enfermeira entrou acompanhada de uma senhora magra, com uma feição amável, no quarto. Na hora em que a viu, já sabia que era sua mãe, se lembrou de sua infância, adolescência e de todo o tempo que passou com ela.
— Bom dia, meu anjo – ela disse o abraçando e dando um beijo em sua cabeça – Como vai você?
Engraçado como essa frase, falada por ela, não era tão irritante assim.
— Estou me sentindo bem melhor, mãe – ele sorriu.
— Nossa, eu fiquei tão preocupada – ela disse o abraçando apertado de novo – Quase achei que ia perder o meu bebê. Ai minha nossa, liguei pra todo mundo, até para a eu tentei ligar, mas ela não atendeu. Mas eu já imaginava que ela não iria atender, você sempre se enfia em problemas quando briga com ela, e dessa vez tentou se matar. Vocês têm que parar com isso, um dia vocês vão me matar do coração, vocês sabem que eu não estou mais tão nova assim e que se...
— Como assim ‘sempre me enfio em problemas quando brigo com ela’? Isso já aconteceu outra vez? – perguntou confuso.
— Ah sim, o doutor me falou que você perdeu a memória – ela estalou os lábios, como quando estava se preparando para ler uma historinha para ele, quando criança – Você e viviam brigando, nunca entendi o porquê de ela te aceitar de volta, sem ofensas, - ela olhou pra mim com pena e eu concordei com a cabeça – como da última vez que brigaram, pelo mesmo motivo de sempre, você bebeu tanto que quase entrou em coma alcoólico, quebrou o bar inteiro e ainda entrou lá em casa pela janela da cozinha, foi onde você conseguiu essa cicatriz, - ela disse puxando meu braço e mostrando uma cicatriz comprida e fina na parte externa do braço – E na vez antes dessa, você bebeu um monte também, e entrou em uma boate... Hm... Só para homens e dançou pelado. Tiveram que chamar a polícia pra te tirar de cima do palco – ela riu, mas ainda me repreendendo.
— Qual é o motivo de sempre?
— Er, - ela parecia a ponto de chorar – traições... de sua parte, exclusivamente.
— Eu a traí? – estava surpreso que fizera a única coisa que prometera a si mesmo não fazer.
Sua mãe concordou com a cabeça.
— Eu fiquei muito decepcionada com você, da primeira vez – ela fez uma pausa – mas no fim das contas, achei que a culpa era minha...
— Não – ele abraçou a mãe, exasperado – Por que seria sua culpa eu ser um canalha?
— Porque você não teve um exemplo melhor, querido – ela acariciou o rosto do filho – Seu pai nunca foi a fidelidade em pessoa, eu sempre soube, mas sempre ignorava, fingia que não via... Porque eu não queria que você pensasse que sua mãe havia sido traída ou algo assim. Mas eu fiz pior, deixei você pensando que eu aceitava isso, como se fosse certo – parou mais uma vez, enxugando uma lágrima – Só me arrependo de uma coisa na minha vida, de não ter deixado seu pai quando descobri que as viagens a negócio eram viagens ao negócio da secretaria dele.
Os dois riram, quebrando um pouco o clima.
— Mas acho que foi até bom, se eu tivesse deixado ele, grávida, provavelmente você não teria frequentado as melhores escolas, tido uma educação melhor – ela sorriu – agradeço a seu pai, unicamente, por ter me dado você. Apesar de você ser esse mulherengo canalha e egoísta, eu te amo, meu filho.
— Eu também te amo, mãe – ele a abraçou – E prometo que vou tentar mudar, não sei como pude ser tão cachorro.
— Vamos pra casa, meu anjo – disse – acho que você já se cansou daqui.
Ela não fazia idéia do quanto ele estava enjoado daquele lugar.
Ela estava sentada na cama, com a cabeça apoiada no joelho e os braços em volta das pernas, quando entrei no quarto pude ver seu rosto, ela estivera chorando. Sua maquiagem estava borrada e havia uma lágrima negra de rímel escorrendo por sua bochecha. Perguntei o que é que ela queria me dizer, e ela levantou da cama, silenciosamente, e apertou o botão da secretária eletrônica, em alguns segundos uma voz feminina, fina e sedutora, encheu o quarto:
“, meu querido, você não me passou seu número ontem à noite – risos – você deve ter se esquecido, afinal estivemos muito ocupados – mais risos, altos e vulgares – mas procurei na lista e achei seu número... Que tal repetirmos a dose essa noite? No mesmo lugar e na mesma hora, amorzinho. Sonhe comigo” então a secretaria apitou, indicando o fim do recado.
“Vejo que a reunião foi boa ontem à noite, hein?!” ela disse me olhando com cólera, eu pedi para me explicar e ela ergueu a mão, em um gesto para me calar “Eu não quero ouvir, só quero saber, quantas vezes mais você me traiu, ?” respondi que aquela tinha sido a única vez e ela riu sarcástica, “Certo, e quem era aquela garota com quem estava semana passada, na frente do pub?” ela nem me esperou responder, “Da próxima vez, façam aquilo que estavam fazendo, dentro de quatro paredes, ou pelo menos atrás de uma moita! Ninguém é obrigado a ver ela se esfregando em você!” eu a puxei pelo braço e a beijei, ela se debateu no começo, mas depois se deixou levar, quando eu a soltei ela ficou olhando nos meus olhos por alguns segundos, “Promete que nunca mais vai fazer isso?”, eu sorri pra ela mostrando sinceridade e concordei com a cabeça, a beijando novamente.
acordou assustado e com frio, olhou no relógio ao lado da cama, marcava duas e quinze da manhã e se levantou, fechando a janela e pegando um cobertor, tentando assim dormir novamente.
“Você tinha prometido” ela gritava, apontando o dedo na minha cara, “Você prometeu que nunca mais ia fazer isso! Como você pôde?!” ela entrou no banheiro, batendo a porta, e a trancou quando tentei entrar. Do lado de fora eu só conseguia ouvir o choro baixo e coisas se quebrando, me sentei em frente à porta e disse a ela que não sairia de lá até que ela saísse. Passaram-se segundos, minutos, horas afinal, e ela não saiu. Comecei a ficar preocupado e quando me levantei pra empurrar a porta, quebrá-la se fosse necessário, e invadir o banheiro, ela a abriu, olhando pra mim com os olhos vermelhos e inchados, fungou e disse: “Eu não sei como fui boba em te perdoar, no fundo, no fundo, eu sabia que você iria me decepcionar...”, então passou por mim e pegou uma toalha, entrando no banheiro de novo.
Continuei falando, quero dizer, gritando, com ela, mesmo do lado de fora do banheiro, disse que sentia muito, que nada mais importava se ela não estivesse comigo, e que, se dependesse de mim, eu nunca mais seria como meu pai. No momento em que o citei, ouvi o chuveiro sendo desligado, e a imaginei chegando perto da porta para escutar melhor, mas ainda assim não dando o braço a torcer. Continuei a falar, disse que ela devia saber como era, eu estava bêbado, carente por ter passado três meses em turnê, e um pouco chateado com a última briga que havíamos tido.
Alguns minutos se passaram em silêncio, até ela abrir a porta e me abraçar, dizendo “Você não é igual seu pai, você é melhor que ele. Nunca duvide disso”, eu teria acreditado nisso, senão tivesse marcado de ir para um pub naquela mesma noite.
Como ele era cafajeste, foi a primeira coisa que pensou quando acordou pela manhã. Como ele podia fazer isso com alguém? Enganá-la desse jeito e ainda mentir na cara dura? Sangue frio talvez, ou desapego.
Com certeza a sensação de tê-la perdido o havia mudado, agora sentia como as promessas que havia feito para eram falsas, e quebradas no momento em que as proferia. Talvez agora pudessem ter um relacionamento melhor, passar por cima de tudo isso. Com todas as coisas que estava se recordando, sentia alguma coisa dentro dele quando pensava nela, amor? Saudade? Só poderia responder essas perguntas quando encontrasse a razão delas. Pensava que talvez estivesse ficando louco e aqueles sonhos fossem frutos de sua imaginação, como uma necessidade de ter alguém, a ilusão de ter alguém.
A cada sonho, sentia que se afastava mais e mais dele, como se fugisse, essa era a sensação. E cada vez mais doía, como um buraco no peito e uma estaca no coração. Começava a achar que aquilo era a falta que sentia dela, como se não conseguisse viver sem ela. Ele não sabia o que tinha gerado essa dependência, mas sentia que tinha a necessidade de ficar ao lado dela.
Observava-a pintando, segurando o pincel como se fosse a coisa mais delicada do mundo, e a tela a coisa mais incrível e interessante que já havia visto. Enquanto pintava, ela mordia o lábio e levantava uma sobrancelha, como se não estivesse entendendo algo, e depois de alguns segundos olhando pra tela – eu quase conseguia ver a sombra do entendimento passando por seus olhos – ela sorria, como se achasse idiota não ter pensado, no que quer que fosse, antes. Ao observá-la não podia deixar de sorrir, ela era linda, provavelmente a mulher da minha vida. Eu queria passar o resto da vida ao lado dela. Ela nunca havia dito que me amava, porque segundo ela “Amor não existe, o único amor que existe é o de pai e mãe, o resto são atrações passageiras que só servem pra iludir e machucar”. Sempre tentei achar uma maneira de fazê-la retirar essas palavras, mas nunca tive coragem. Talvez depois do natal, quando eu propor, ela veja que existe amor diferente do paterno. Ou não.
Sorri mais uma vez, pensando na surpresa que estava lhe preparando, quando ela olhou pra verificar alguma coisa que achava ter pintado errado e viu meu sorriso, “Ta sorrindo besta por quê?”, ela riu, “Eu já falei que preciso que fique sério pra eu poder te pintar... Não quero nenhum quadro de um carinha com sorriso tarado” ela riu e eu levantei, fazendo-a quase ter um ataque cardíaco por eu ter mudado de posição.
Enquanto sonhava com , podia até sentir as tais borboletas em seu estômago enquanto olhava pra ela, se isso não era amor, não sabia de mais nada.
Levantou-se da cama se dirigindo ao banheiro, jogou uma água no rosto para acordar e desceu até a cozinha, onde sua mãe o esperava, preparando o café da manhã. Ele sorriu pra ela e sentou-se à mesa.
— Um ovo ou dois? – ela perguntou sorrindo, enquanto o sorriso dele se desmanchava – O que foi, querido? Você está bem? – ela disse preocupada, colocando a frigideira em cima do fogão e indo em direção a ele.
Questão de milésimos após aquela pergunta, ele se levantou e decidiu o que iria fazer, iria procurar por , era o que precisava.
— Aonde você vai, ? – foi a última coisa que escutou ao pegar seu casaco, as chaves do carro e sair de casa, tropeçando mais uma vez na guirlanda.
Não sabia onde procurar primeiro, andou sem rumo durante algum tempo. Já era final de tarde, quando parou o carro no acostamento, perto do Palácio de Buckingham, e ligou para . Havia tentado ligar para alguns dias atrás, mas deu direto na caixa postal, ela devia ter mudado de número. Quando apertou o botão para completar a ligação, apareceu uma foto de , , , , e mais duas garotas desconhecidas, ficou olhando para a tela do celular até ouvir um barulho baixo, “...ude? ...cê est... aí?”, demorou alguns segundos para se tocar que o barulho vinha do celular, o colocou na orelha.
— ? ? – estava quase em colapso – Você esta aí, cara?!
— Oi, – respondeu por fim – Foi mal cara, estava meio avoado aqui.
— De boa, dude – ele respondeu aliviado – O que me conta?
— Eu estava... er, - parou por um segundo – Você sabe onde a mora?
— Você vai até lá? Agora? – ele pareceu assustado – Eu não tenho certeza se ela mora lá, dude. Ela se mudou com você faz quase dois anos – explicou.
— Mas onde ela morava antes de...? – perguntou, já ansioso.
— Onde você está?
— Na rua do Palácio de Buckingham.
— Certo, você vai seguir essa rua, - ele começou a explicar e pegou uma caneta no porta luvas e foi anotando em um recibo que achou no chão – vai passar o Parque de St. James, o Instituto de Artes Contemporâneas – concordou com um ‘Ahm’ e o amigo continuou – você vai chegar ao contorno e vai virar na avenida Northumberland, sabe onde é?
— Perto do teatro?
— Isso – ele concordou – você vai passar o teatro e duas estações de metrô. E quando você virar depois da Charing Cross, você vai estar na rua dela – ele terminou – qualquer coisa peça informações, é a rua John Adams, a casa dela é a marrom, com um duende no jardim, acho que é número 220. Conseguiu entender?
— Hm... Parque, instituto, contorno, Northumberland, teatro, estações, John Adams número 220 – repetiu.
— Isso – disse – Boa sorte, dude.
Quando passou pelo teatro já era noite e chovia, mas ele não parecia ter percebido, continuava em frente, já imaginando o que falaria para ela. Quando estava na frente da casa número 220, parou o carro e encostou o rosto nas mãos que estavam no volante, respirou fundo por alguns segundos e abriu a porta do carro. Saiu andando em direção à porta da casa, não reparava em mais nada, até derrubou o duende enquanto caminhava até lá. Tocou a campainha uma, duas, três vezes e nada... Esperou alguns minutos e tocou novamente, ninguém atendeu. Tentou ver alguma coisa pela janela, mas estava tudo escuro.
— Ela já se mudou faz meses, rapaz – disse um velhinho desconhecido, sentado em sua cadeira de balanço na varanda de sua casa, olhando o nada – Não adianta tocar a campainha, nem bater na porta.
— Pra onde ela se mudou? – ele perguntou aflito.
O velho olhou pra ele por alguns segundos e gritou um nome, e uma velhinha apareceu alguns segundos depois, arrastando os chinelos.
— Já falei pra parar de me gritar assim, Joe – ela ralhou com ele.
— O rapaz aí quer saber pra onde a pequena foi – ele ignorou e apontou para .
Ela olhou para ele, apertando os olhos, tentado o enxergar. Pegou os óculos que estavam pendurados em um cordão em seu pescoço.
— Você é o ? – ela perguntou me olhando.
— Sim – respondeu indo até a escada da varanda deles.
Ela suspirou.
— Me desculpe, querido – ela se desculpou – mas ela pediu para não te falar pra onde ela ia. Mas se eu fosse você, eu perderia as esperanças, ela foi pra longe... Muito longe.
— Por favor, senhora...?
— Abigail Fields, mas me chame de Abby – ela completou.
— Senhora Abby – ele sorriu, tentando a convencer – Por favor, eu imploro que me falem onde está.
— Perdão, , querido – ela deu um sorriso amarelo – mas eu não posso tomar essa decisão. Quem sabe se você tivesse vindo três, ou quatro semanas, mais cedo, ela ainda estaria aqui.
estava quase gritando de frustração, fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar.
— Senhora Abigail, - ele começou – eu não tinha como vir, eu estava hospitalizado.
— Oh meu Deus, - ela parecia preocupada – o que houve?
— Bati a cabeça, perdi minha memória – abanou com a mão, como se não fosse nada – o que eu quero dizer é, eu preciso falar com a , entende Abby? Eu faço qualquer coisa.
Por um momento, ele pensou que ela iria se sensibilizar com a história e lhe contar.
— Me desculpe mesmo, querido – ela chegou perto dele e colocou a mão em seu ombro – mas eu não posso dizer nada contra a vontade de , você não viu como a pobrezinha chorava pelos cantos o dia inteiro. Você vai ter que superar, assim como ela se mudou para fazê-lo...
Ele concordou com a cabeça e virou as costas, indo embora, quando sentiu um vento frio passando por ele, viu como estava molhado, provavelmente pegaria uma gripe daquelas. Enquanto caminhava até o carro, ainda sendo observado por Abigail e Joe, passou pelo duende e o levantou, olhando para a cara de alegria da estátua. Foi até o carro pensando em como seria bom ser aquele duende.
“Por favor, ... Me deixe aqui! Eu não quero que você se limite por minha causa”, ela chorava de dentro do apartamento. Só a corrente da porta nos separando, a princípio pensei em arrebentar a corrente e invadir, mas estava tão culpado com tudo, que só aquiesci e fui em direção ao elevador. Apertei o botão, chamando o elevador, e olhei pra trás, na esperança de que ela viesse correndo, me abraçasse e dissesse que me perdoava e tudo daria certo, mas a única coisa que ela fez foi fechar a porta, silenciosamente.
“Olá, ” disse June, saindo do elevador com uma sacola de compras, “E aí, falou com ela?”. Concordei tristemente com a cabeça e ela entendeu tudo, “Pela cara não deu muito certo, né?!” ela colocou as compras no chão e me abraçou, “Não vou dizer que aprovo suas ações, mas vejo que está sofrendo... E isso é bom. Quem sabe assim você não aprende a valorizá-la?!”. A abracei por alguns minutos, quase chorando em seu ombro, e ela me soltou, “Já vou entrar, ela provavelmente está pior que você, então...”, concordei e disse pra ela me ligar quando estivesse à vontade para conversar comigo.
“Não acho que isso vá acontecer tão cedo” ela pegou as compras do chão, e a chave da porta, “Mas em todo caso, eu tenho seu número”, me deu um beijo na bochecha e um sorriso confortador, leia-se de dó.
Acordou de madrugada, assustado com a buzina do próprio carro. Havia caído no sono e, enquanto dormia, sua cabeça escorregou de seu braço e bateu na buzina. Ele, provavelmente, tinha acordado toda a vizinhança. Olhou para o lado oposto da rua, vendo duas ou três casas acendendo as luzes. Ótimo, agora iria apanhar na rua.
Quase morreu do coração quando ouviu uma batidinha fraca no vidro da sua janela, imaginou vários modos de fugir, ou de pelo menos chamar por socorro. Olhou temeroso e suspirou de alívio quando viu o rosto cansado de Joe Fields com um guarda chuva, do lado de fora. Ele fez um gesto para ele abaixar o vidro do carro.
— Eu vou te falar uma coisa, meu rapaz – ele começou – quando você disse que faria qualquer coisa, a última coisa que eu imaginaria era você buzinar na minha rua às três da manhã...
— Me desculpe, senhor Fields – se desculpou envergonhado – adormeci no volante e acabei apertando a buzina sem querer.
— Bom, melhor parado do que dirigindo - ele ponderou por um momento – Olha, admiro sua obstinação, ou teimosia, e te falaria o endereço da , se eu soubesse... Mas a velha lá não me fala nem sob tortura...
— Assim, - fez uma pausa – o senhor acha que conseguiria descobrir pra mim? Eu tenho algum dinheiro no banco, carros, ações...
— Não, não, meu jovem – ele abanou com a mão – Não quero dinheiro, só quero ver a feliz... O que ela parecia ser quando estava com você... Bom, quando não estava chorando na minha sala, contando para Abigail que tinha sido traída, - disse o olhando com censura – mas ainda assim, posso tentar, se...
Ele pausou olhando para , esperando que ele concordasse com a condição ainda não imposta. Quando ele assentiu, Joe continuou.
— Se me prometer que nunca mais vai traí-la - e lhe deu um olhar de ameaça – por que se a menina aparecer na minha casa chorando de novo, é bom que seja porque a pediu em casamento ou lhe deu uma mansão. Senão eu juro – disse dando ênfase na palavra – que eu vou atrás de você, aonde quer que esteja, e me certifico que não vá trair ninguém, nunca mais. Se é que você me entende.
Temeroso, assentiu com a cabeça.
— Então passe aqui amanhã, lá pelas 5h15, que é a hora que Abigail vai para o clube do livro dela... – ele rolou os olhos – E não me atrevo a usar o telefone, a velha deve ter grampeado o maldito... E possivelmente enfiado um chip em mim.
não sabia o que dizer, então assentiu novamente.
— Certo, - Joe disse – então sugiro que vá embora logo, porque o senhor Edgar da casa em frente, ex lutador de Kung Fu, está espreitando na janela, esperando o momento oportuno pra vir partir sua cara em duas... Ele anda bem violento e irritadiço desde que a esposa deu a luz ao terceiro filho e ele não dorme mais de duas horas por noite.
, amedrontado com a idéia de apanhar de um cara praticamente sonâmbulo e possivelmente pesando algo por volta de 200 kg, resolveu ir embora. Com um aceno de cabeça para o senhor Fields, ele deu a partida no carro e saiu dali, ainda a tempo de ver Edgar abrindo a porta da frente e apertando os olhos para conseguir enxergar a placa do carro, mas escuro do jeito que estava e com a chuva, era meio improvável.
“Me deixe em paz” ouvi o grito pelo telefone, “Nunca mais ligue aqui, eu não quero falar com você” e então desligou o telefone na minha cara. Tentei ligar mais umas cinco vezes, na sexta, June atendeu, “, ela não quer falar com você, pelo amor de Deus”, eu conseguia ouvir os soluços do outro lado da linha, disse à June que não desistiria até que falasse comigo, “Cara, ela ta abalada, chateada e sem dormir à quase três dias, dá um descanso pra ela”, chocado com a informação, disse que queria que ela melhorasse, mas não podia esperar porque estava com medo de perdê-la. “Não acredito que ela vá fazer isso, mas , dê a ela o benefício da dúvida... Pelo menos isso”, assenti e desliguei o telefone.
acordou em casa, deitado em sua cama, sem nem fazer idéia de quando ou como havia chegado. Olhou no relógio e faltavam 15 minutos para o meio dia. Se levantou desanimado, tomou um banho rápido e desceu as escadas em silêncio, estranhando. Quando chegou à sala, sentiu falta daquele perfume doce e quase insuportável que sua mãe usava, olhou para a mesinha que ficava ao lado da porta, onde eles colocavam as chaves e viu um bilhete.
Não precisou ouvir mais, já estava paranóico pensando que alguma força maior devia estar contra ele, quando sua comida chegou. No momento, não parecia muito apetitosa, mas a partir do momento em que pôs na boa viu o quão esfomeado estava.
Após o jantar, subiu para seu quarto se jogando na cama, exausto. Ficou olhando para fora pela janela, o céu estava como seu humor, nublado e cinzento.
“...às vezes parece até que você não liga pra gente”, ela dizia olhando o céu nublado pela janela do passageiro, “como se essa fama de rockeirozinho libidinoso fosse mais importante que nós”. Pela sua voz embargada e chorosa, pude perceber que ela estava em lágrimas. Disse à ela que nada era mais importante e que eu faria tudo por nós, “É, é o que eu ando percebendo” ela disse sarcástica, “talvez se você pudesse parar um pouco de dar em cima de todas e ficar com qualquer uma delas, eu até acreditasse... Mas pelo visto, não é possível”. Começamos a discutir mais alto, eu, dirigindo, não podia olhar pra ela por mais de 15 segundos, e ela gesticulava como doida enquanto gritava, como se seus gestos me fizessem entender sua frustração. Enquanto gritávamos, ela disse “Eu pensei que você fosse diferente do seu pai...” chorando. Como eu odiava quando me comparavam ao meu pai. Tirei os olhos da estrada por meio segundo, ela gritou tentando virar o volante, eu tentei controlar o carro e capotamos na encosta, descendo o morro, até bater em uma árvore. Felizmente, só o carro saiu danificado, consegui sair do carro e tirei de lá. Ela saiu, desesperada e me abraçou ansiosa, me beijando em seguida. Aquele briga não tinha valor depois disso.
Ele precisava que o perdoasse, por isso, assim que acordou no dia seguinte, foi em direção à Camberley e, em menos de uma hora, parou em frente a um prédio luxuoso. O porteiro o olhava enquanto ele digitava e esperava que atendessem.
“Olá?” ouviu a voz sair do interfone, se recordando da mãe de na mesma hora.
— Senhora ? – perguntou inseguro – A está?
— Quem quer falar com ela? - ela perguntou educadamente.
— É o... – agora sua insegurança transparecia, suas mãos tremiam e sentia que iria derreter.
Ouviu um barulhinho do outro lado do interfone, e viu uma cortina se mexendo no terceiro andar, e podia jurar que sua ex-sogra o olhava atrás das cortinas.
— ? - ela estava mais que surpresa – Ela deu uma saidinha, querido.
Por um segundo achou que ela estaria mentindo, mas depois pensou direito, quem era ele para julgar?
— Certo, então volto mais tarde...
Quando estava se afastando, ouviu o interfone novamente:
— Acho melhor não, – ela dizia – Ela ainda não quer te ver, e todos os seus esforços vão acabar machucando ainda mais um ao outro. Como mãe dela e, espero que mútuo, quase sua, eu peço que não faça isso.
— Mas eu preciso falar com ela... Esclarecer as coisas!
— Eu sinto muito, – ela parecia sentir – nas primeiras vezes eu achei que poderia dar certo, mas você provou o contrário... Eu gosto de você, mas amo filha também e não gosto de vê-la sofrer.
Então o barulho de interfone sendo desligado.
Ele estava revoltado, como ela podia ter feito isso? Necessitava falar com . Se não podia ser desse jeito, seria de outro.
“... você ache que mereça ser respeitada” essa foi a ultima coisa que falei pra ele no dia da briga. Se arrependera? Não. Sentia falta? É claro que sim. Mas nada a faria voltar àquela vida. Como se ela não sofresse o bastante tendo que conviver com as traições, ainda tinha que aturar os olhares. Toda vez que saía com ele e seus amigos em comum tinha que suportar eles a olhando com dó.
O que não mudou desde que o deixou. Olhares de pena, era assim que a olhavam agora. Como se a qualquer instante fosse cair no choro. Seus amigos, sua própria mãe e até as parceiras de tênis dela.
Depois da ultima briga, foi morar com seus pais e seu irmãozinho, em Camberley. Sua mãe adorou a idéia, afinal, assim ela poderia sair farrear, enquanto cuidava de Jimmy. Jimmy era uma criança bem esperta e quieta, imagino que seja porque nessa família ninguém pode expor suas opiniões sem ser repreendido, principalmente, ou exclusivamente, por causa do seu pai. Membro do parlamento, só pensa em sua imagem. Quando começou a sair com , ele praticamente a expulsou de casa. E sua mãe, bom, ela não opina em nada.
se sentia estressada fazia dias, semanas, e não conseguia se acalmar, nada resolvia. Se sentia enjoada e com mal estar. Resolveu terminar o quadro de , vestiu seu avental e ficou encarando a semi-pintura, até ouvir uma voz.
“…here I am... I‘m trying…”
A princípio achou que estivesse ficando louca, imaginando a voz de , mas continuou ouvindo aquela voz rouca, abafada e o som de um violão. Foi até a sacada de seu quarto e olhou para a rua onde, o motivo de suas lágrimas, estava sentado em um banquinho, tocando um violão e cantando olhando para sua sacada, e agora pra ela.
“…here I’m, are you…”
Ele estava lindo, como sempre, exatamente como ela se lembrava. Ficou emocionada com a música que ele, lentamente, tocava. Olhou pra ele, e lá estavam as lágrimas de novo.
“Come on, let me hold you, touch you, feel you, always… Kiss you, taste you, all night, always…”
Ele se levantou, quase chegando ao portão do prédio.
“And I’ve missed your laugh, your smile, I’ll admit I’m wrong if you’d tell me…”
Ele até tinha mudado a letra original, como se quisesse dizer a ela o quanto sentia sua falta, de seu sorriso, de sua risada. Não sabia o que pensar.
“I’m so sick of fights, I hate them... Let’s start this again for real…”
A música parecia se encaixar muito bem na vida dos dois, até aquela frase que ele vivia dizendo, vamos tentar de novo... pra valer.
“So here I am, I’m trying... So here I am… Are you ready?”
Não sabia o que fazer, não sabia como agir, o que dizer. Saiu da sacada ouvindo os aplausos dos outros moradores do prédio e alguns gritos de “Se ela não quiser tem quem queira...” de sua vizinha.
A hora que saiu pelo portão, os olhos de estavam brilhando, provavelmente de esperança.
— O que você veio fazer aqui? – ela perguntou sem chegar muito perto dele.
— Eu... – ele começou e foi interrompido por um “Fala mais alto, não ta dando pra ouvir daqui”.
rolou os olhos e o puxou pra dentro do prédio, foram em silêncio até entrarem em seu apartamento.
— Fique aqui, - ela disse – já volto.
foi trocar a roupa toda suja de tinta por algo limpo, e ficou sentado no sofá da sala, quase roendo as unhas de nervoso.
— ? – perguntou uma voz fininha de trás do sofá.
já tinha se decidido, não iria deixá-lo magoá-la de novo, iria por um fim ao sofrimento e ao relacionamento, de uma vez por todas. Colocou uma roupa qualquer e foi em direção à sala, ouvindo risadas altas. Sorrateiramente, olhou para o sofá, onde fazia cócegas em Jimmy que ria, até chorando e rolando no sofá, quando entrou no campo de visão dele, ele exclamou ainda rindo:
— Olha quem voltou, – ele sorriu fofamente.
Agora ela não tinha mais certeza do que fazer quanto a , depois daquela cena.
— Eu vi, pequeno – ela disse sorrindo para o garoto – Você pode deixar eu e o conversarmos um pouquinho, meu amor?
— Ta, mas, - ele olhou para – Você vai voltar né?!
olhou, confuso, para que acenou com a cabeça.
— Claro, campeão – ele sorriu para o garoto.
Jimmy saiu contente, em direção ao quarto.
Os dois estavam sentados em silêncio, olhando em diferentes direções fazia minutos. olhava para o rosto de , que por sua vez, olhava para a estampa do sofá.
— Então... – disse, incentivando-a a falar.
Ela se empertigou, estalando a língua, e olhou pra ele.
— Eu não posso continuar com isso, – ela disse e ele sorriu amarelo – Eu sofri demais com tudo o que fez, e não quero mais ser enganada. Me desculpe, ou não, eu não ligo, mas eu não sou palhaça.
— Eu nunca disse que você... – ela o interrompeu:
— Nunca claramente – ela o olhava com chateação – Mas era o que suas ações deixavam claro pra mim, o tempo todo. Eu já fiquei sabendo da sua perda de memória, então como você não se lembra, não vai ser tão difícil se esquecer de mim...
— Eu me lembro de você – ele pegou nas mãos dela, que as puxou – de nós, de tudo.
— Tanto faz – ela se levantou, encaminhando-se para a porta – Ainda prefiro assim. Quero que vá embora, ... E não me procure mais, e dessa vez eu realmente estou falando sério.
Ele se levantou em silêncio, aceitando a derrota, e saiu do apartamento, se virando pra ela em seguida.
— Eu te amo, sabia? – ele disse desolado.
— Nós vamos superar – ela disse numa tentativa de sorriso.
Ele assentiu e entrou no elevador, que o esperava, vendo a porta se fechar.
fechou a porta, encostando-se a ela e escorregando até se sentar, chorando. Não sabia se iria realmente superar, estava quase se arrependendo da decisão, e sentiu bracinhos em sua volta. Abraçou o garoto a sua frente e ela chorava com ele em seu colo. Não sabia o que fazer.
Fazia dias que ele no saa de casa, o celular e todos os telefones da casa estavam desligados e, de algum modo, as pessoas sabiam que ele no queria visitas, e nem apareciam em sua casa. Durante os primeiros dias, a nica coisa que fez foi ver fotos antigas e chorar, quando achou a aliana que pretendia dar , ficou mais triste ainda, desolado, quase depressivo. S queria que ela voltasse pra casa.
Era uma segunda feira chuvosa, exatamente 13 dias, 22 horas e 47 minutos do dia em que falou com pela ltima vez. estava sentado em frente televiso, com uma garrafa de cerveja apoiada em sua perna, um balde de pipocas em seu colo, e um saco de batatinhas aberto em cima do sof. Eram 8hs da noite e ele assistia A vida bela, pela 8 vez naquela semana, quando ouviu a campainha. Com uma lerdeza enorme, ele se levantou, colocou a chave na porta e a abriu, j se preparando para xingar por t-lo atrapalhado em sua fossa.
Oi disse tmida e sem saber o que fazer.
a olhava com descrena, sem acreditar que ela estava realmente ali, esboou um sorriso radiante, perguntando, silenciosamente, quase telepaticamente, o que ela estava fazendo ali.
Ns voltamos pra casa ela disse e a olhou confuso com o plural da frase.
Ela mostrou um pequeno objeto branco, com dois sinaizinhos de rosa na telinha. a olhou, emocionado e surpreso.
Tem certeza? ele disse esboando um sorriso de rgua.
Ela assentiu.
Eu no acredito, - ele a abraou apertado estou to feliz!
Ele segurou o rosto dela com as mos, e ficaram se olhando e sorrindo. Ela parecia mais feliz e radiante do que nunca, j ele estava com a barba por fazer, dando-lhe um ar de selvagem.
E agora? ele perguntou inseguro.
Ela o beijou, apaixonadamente, com os braos em volta de seu pescoo. Ele foi a puxando pra dentro de casa, ainda a beijando. Ela o interrompeu, sorrindo. Saiu de seu abrao e foi at a porta da frente, pegando a guirlanda do cho e a pendurando de volta porta, mesmo no sendo natal.
Eu te amo ela disse o beijando de novo.
Que bom que vocs voltaram pra casa ele disse antes de beij-la novamente, com a mo em sua barriga.
N/A:. Ciao! Come estai, bella?
Viu? Fiz vocs esperarem por esse pedacinho, rs. O que acharam do final? Satisfeitas?
No final da minha primeira fic em andamento, queria agradecer todas as gatinhas que comentaram e seguiram a fic, apesar de pequena ela
bem especial. Agradecimento mega importante ao Math, gato garoto, por me manter acordada de madrugada, enquanto eu escrevia.
J comecei outras fics, vrios projetos inacabados, mas pelo menos UMA eu termino... Um dia, rs
Mais uma vez, obrigada suas lindas por terem acreditado na fic.
mmwah, @lomahwho
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