I’m not a heroine.
Por: Anne E.
Beta-Reader: Dani P.


Capítulo 01 – Selva de aço e concreto.
“Já está bem frio agora, o Sol apareceu entre as nuvens algumas vezes hoje de tarde, mas agora à noite ele não reina tanto, o vento frio balança o meu cabelo de um lado para o outro, mas o que eu esperava? Eu estou sentada no topo de uma das maiores árvores do Central Park, mamãe deve achar que eu estou no meu quarto com a cara no computador, mas eu sei que ela só fala isso para implicar comigo, desde que ela conheceu esse novo cara: Henry, ela não me dá muita atenção, já não me liga com a mesma freqüência, parece não se importar tanto quanto antes. Ainda bem que eu não tenho que vê-la todos os dias, se não meu pesadelo seria ainda maior, às vezes eu apenas quero que tudo isso acabe, eu não pedi que nada disso acontecesse, eu nem sei por que aconteceu! Eu queria mais respostas, mas não sei onde procurar...”.

Não veio mais nada em minha cabeça para escrever, minha angústia era grande demais para ser colocada apenas em uma página de um caderno de capa vermelha de veludo. Sentada ali nos galhos daquela majestosa árvore eu pude contemplar a maravilhosa noite na cidade.
As poucas estrelas que ainda lutavam para brilhar no céu escuro e denso, todas as luzes dos prédios acesas, os carros com seus motoristas furiosos tentando chegar o mais rápido possível em algum lugar que provavelmente não seja do meu total interesse, eu estava bem longe da ponte onde passa o rio por baixo, um ser humano comum talvez não conseguiria escutar todos os sons que eu escuto vindos de lá, se não chegasse bem próximo da ponte.
Eu ouço a lenta correnteza do rio, as barcas de lixo passando vagarosamente com sua carga, os ratos passeando pelas margens de concreto, tudo. Eu podia simplesmente ouvir tudo, os animais agitados abaixo de mim, as conversas das pessoas nas ruas.
Admito que isso me assustou bastante quando eu percebi que eu escutava muito mais do que as outras crianças, até certo ponto eu achei normal, mas quando eu perguntei as minhas amigas do Jardim de Infância se elas podiam escutar o que era falado nas outras salas da escola e fiquei com cara de boba na frente de todos, eu comecei a perceber que eu não era uma garotinha comum.
Esse tempo todo eu vivi em segredo, ninguém sabe da minha condição e isso me sufoca cada dia mais, não poder contar para ninguém as coisas que eu posso fazer; mas acho que se alguém soubesse se assustaria e pensaria que está delirando ou coisa to tipo, então não é um assunto muito fácil de lidar.
Dei mais uma olhada na cidade de concreto a minha frente, e fechei meu caderno, apenas um da série de outros que eu tenho na estante do meu apartamento, me levantei do galho da árvore e subi o mais alto que eu pude, sentindo o vento gelado cortando o rosto e fazendo com que o meu nariz e bochechas ficassem rosados. As pessoas não prestam muita atenção no que acontece a volta delas, eu sempre “caminhei” assim, não preciso gastar nem um centavo se quer com táxi, ou ônibus, o seja lá o que for que as pessoas normais usam como condução.
Desci a alguns metros de casa, a rua estava vazia, típica de um dia de domingo à noite, completamente sozinha. Apenas a luz dos postes brilhava sobre ela. Ah, como eu amo viver neste lugar, só não me pergunte como se chamam os meus vizinhos, porque eu simplesmente não tenho a mínima idéia, a única coisa que eu sei é que ao meu lado mora uma velha louca cheia de bichos, a casa dela cheira a quilômetros! Ou sou apenas eu que pode sentir o cheiro? Pobre desafortunada eu sou.
Peguei as chaves no bolso e coloquei na fechadura da porta, escutei o costumeiro barulho da porta rangendo quando abre, sempre o mesmo barulho desde que meu pai comprou esse apartamento para mim. Ele foi o maior incentivador da faculdade de Fotografia; sinto saudades dele todos os dias, ele agora trabalha do outro lado do mundo, está em Roma com a empresa de Engenharia dele. Fico feliz por alguém estar se divertindo.
Coloquei o caderno vermelho na estante datada com um post-it rosa escrito 2010, aquele caderno era apenas o primeiro daquela repartição, tive que mandar fazer uma estante que cobrisse toda a parede para poder colocar todos os meus cadernos; não os considero como diários, não mais, agora eles são apenas relatos da minha vida para que ela não caia no amargo esquecimento. Mas sinto que em breve terei que colocá-los em uma caixa, porque já não há mais paredes para eu colocar mais estantes no apartamento.
É um lugar bem simples a minha casa, era pequeno isso é verdade, mas era aconchegante, a sala era conjugada com o que eles chamam de “sala de jantar”, mas na minha casa era apenas o lugar onde tinha uma pequena mesa cheia de livros e papéis desorganizados, eu estudava mais do que comia sobre aquela mesa, a cozinha ficava logo ao lado, era bem pequena, eu não precisava de muito espaço, eu quase não fazia comida, mas, eu tenho meus dotes culinários. Meu quarto, ah, a melhor parte, ao lado da porta da cozinha tinha uma escadinha de metal que levava ao andar de cima, talvez eu não possa chamar de andar, até porque não era um exatamente.
Era como uma varanda, apenas o piso e um corrimão separava dos resto da casa, sem paredes, sem privacidade, como se eu precisasse de uma, eu vivo sozinha! A parede atrás da minha cama tinha uma enorme janela que dava de frente para a rua, junto com uma cortina enorme que deixava um escurinho aconchegante por dentro. Ao lado eu tinha um espelho de corpo inteiro, e a volta dele todas as minhas fotos, desde criança até os dias atuais, fotos de todos os lugares que eu já fui, reconheço que andar de avião é muito mais confortável, mas podendo voar, quem gastaria dinheiro com passagens? E sim, eu sou uma apaixonada por fotografias.
Minha câmera é a minha paixão, juntamente com os meus sapatos, roupas e acessórios, pode dizer o que quiser, mas em relação a calçados eu sou uma pessoa fútil.
Não sou rica, apenas me dou ao luxo de alguns presentinhos.
Sentei em minha cama e puxei o notebook para o colo. Estava com saudades do meu pai e queria falar com ele. Há dias ele não dava noticias, mas quando eu abri o chat, ele não estava lá. Alguma coisa estranha estava acontecendo, ele sempre me procurava todos os dias, sempre conversava com ele, pelo menos com um dos pais eu tenho que conversar não é?
Vesti meu pijama, peguei meu macarrão instantâneo e fui assistir as reprises de “FRIENDS”, eu sei eu sei, Friends acabou há anos, mas poxa, eu ainda fico rindo horrores do Joey! Na minha sala também tinha uma estante, mas essa de livros, seriados, DVD’s e CD’s, acreditem eu sou uma pessoa culta.
Naquele instante, eu só queria curtir mais uma noite nova-iorquina, como uma cidadã comum, apenas queria vegetar na frente da televisão até dormir; amanha seria um dia cheio na faculdade.

Capítulo 02 – Gotas que caem do céu.
Sabe quando um sonho parece tão real que às vezes você pensa mesmo que viveu aquilo que você sonhou? Eu sempre confundo as minhas memórias de coisas que realmente aconteceram com esses sonhos malucos. E veja bem, essa noite eu sonhei que eu estava sobrevoando uma ponte, eu sabia que eu conhecia aquela ponte, eu já estive lá, mas eu não conseguia ver nada a minha volta, era tudo um borrão muito escuro, e algo bateu em mim com muita força, e eu cai dentro da água, mas não antes de ver que tinha um corpo pendurado por um corda, mas eu conseguia sair de dentro da água, alguma coisa me prendia e ficou de repente tudo muito escuro, e eu não vi mais nada.
Acordei ensopada de suor, parecia que eu tinha corrido uma maratona! “eca, nem pra eu sonhar alguma coisa mais calma” pensei. Em todo o percurso até a faculdade eu fiquei pensando naquele sonho estranho e sem nexo nenhum, mas de onde diabos eu tirei aquilo, eu devo estar mesmo ficando louca que nem a velha que mora ao lado, não, isso é inaceitável. Certifiquei-me de pousar a alguns quarteirões da porta da faculdade, a aquela hora já deveria estar lotada de gente, e ficaria bem estranho eu descer do nada em cima de todos eles, eu já sou esquisita o suficiente, não preciso de mais gente olhando pra mim com cara de curiosidade.
Até eu encontrar a minha sala, foi horrível, os corredores estavam tão lotados que mal dava pra levantar o pé, foram minutos que mais pareceram anos até ver a porta com uma placa prateada em cima “Fotografia 01”. É estranho ser novato em alguma coisa, você termina o segundo grau pensando que já sabe tudo, enquanto você está apenas começando. Daí você chega à faculdade e vê que ainda tem anos para estudar e você só está começando. Há muito tempo eu não entrava em uma sala de aula, quase dois anos. Nesse meio tempo que eu fiquei sem estudar, e fiquei com a minha mãe me lembrando todos os dias que quem não estuda não ganha nada na vida, eu trabalhei em uma pequena revista, que faliu só pra constar, fotografando diversas coisas.
Eu adorava ir ao parque fotografar o cotidiano das pessoas, eu pedia às pessoas nas ruas para eu fotografá-las para colocar no blog que eu mantenho, o blog já é parte da minha vida, quase como uma peça de roupa essencial, se eu não atualizar me sinto pelada, e realmente ando me sentindo meio pelada, a alguns dias não posto, mas também a alguns dias não pego na minha máquina.
Fiz uma nota mental de reservar um tempo para poder fotografar novamente, estava começando a sentir falta do peso da câmera, de brincar com o zoom e com as luzes da cidade.
O professor parecia meio atrasado, todos os alunos já estavam na sala, e só se ouvia aquele burburinho de amigos que conseguiram entrar na mesma faculdade, contando as novidades das férias, de onde viajaram. Eu estava sentada na segunda fileira de carteiras, a sala era muito maior do que eu imaginei, pensei que poucas pessoas tinham interesse em fotografia, aparentemente me enganei.
Poucos minutos depois entra na sala um professor de aparência desengonçada, ele é baixinho e careca, e parece suar muito, a gola de seu terno com mangas de remendos de camurça parece o incomodar, a todo instante ele puxa a gola para mais longe de seu pescoço, seria cômico se não fosse trágico, o coitado deveria estar bastante nervoso.
¬- Bom dia, eu sou o Sr. Smith, eu vou tentar ensinar a vocês tudo o que eu sei sobre fotografar, eu vou ensinar a parte técnica da fotografia, os melhores ângulos, as melhores luzes, os movimentos, o zoom, tudo o que for útil para vocês porem em prática o que querem. – apesar da aparência engraçada, ele falava com firmeza, parecia até que não tinha quase cinqüenta alunos dentro da sala.
Ele seguiu explicando o funcionamento de várias câmeras fotográficas, as melhores marcas, as melhores formas de carregá-las e utilizá-las. No geral a aula foi bem interessante, eu, amadora, aprendi mais do que podia imaginar, de repente essa faculdade de fotografia não iria ser tão ruim assim.
Depois do intervalo, em que eu como sempre passei sozinha analisando as outras pessoas, eu me surpreendi com o professor que entrou na sala, ele não parecia ter mais que vinte e cinco anos, tinha cabelos negros bagunçados, uma pele branca, mas não pálida como a das outras pessoas da cidade, uma barba ralinha, que dava todo o charme ao seu visual, ah, os olhos, o que mais chama atenção em um cara, o olhar é a porta para a alma de alguém, e aqueles olhos eram imersos em um azul claro e cintilante, como uma piscina em um dia quente de verão. Ele vestia uma blusa preta de manga na altura dos cotovelos, e uma calça também preta, e um tênis branco reluzente, parecia novo de tão limpo.
Eu fiquei pensando em como ele se vestia como um adolescente de classe mais afortunada, mas me intrigou mais ainda, um cara tão novo lecionar em uma faculdade, bem esse é um mistério que uma curiosa como eu não posso deixar passar.
- Eu vou dispensar bom dias e apresentações formais, afinal, eu nunca fui muito chegado nelas mesmo. Eu sou Peter Jones. Mas sintam-se a vontade para me chamar apenas de Peter. Eu vou ensinar para vocês tudo o que eu sei sobre a criatividade; tudo o que um fotográfo precisa ser é espontâneo, é a criatividade e a espontaneidade que levam fotos a terem diferencial. Espero que todos tenham trago suas câmeras. – ele se sentou sobre a mesa dos professor e esperou que todos tivessem tirado suas câmeras.
Me senti desigual frente aos outros alunos, a minha câmera era a mais velha, em vista das outras que até reluziam de tão novas, mas aposto que nenhum daqueles alunos metidos tinha tanto amor com as suas do que eu tinha com a minha. Eu a ganhei antes de terminar o segundo grau, foi um presente de aniversario de 16 anos. Meu pai mandou para mim da Itália, desde então, ela come comigo, dorme comigo, toma banho comigo. Eu não sei mais o que é viver sem ela pendurada em meu pescoço.
- Agora eu quero que todos vocês liguem as suas câmeras e tirem fotos de tudo o que virem pela frente – o professor sorria descontraído diante os rostos espantados dos alunos – é isso mesmo que vocês estão ouvindo, eu quero ver vocês exercerem a criatividade apenas com o que vocês a volta de si.
Todos começaram a olhar uns para os outros perplexos, alguns sussurravam “eu vou tirar fotos de que? Não tem nada aqui!”. Eu também não fazia a mínima de que tirar fotos; começou a chover e eu fui até a janela ver os pingos de água caírem e limparem a cidade, fotografei os pingos que vinham de encontro ao vidro, tudo o que era relacionado à natureza me chamava a atenção, eu nunca entendi como ela poderia ser tão majestosa e ao mesmo tempo tão traiçoeira.
Cada pedacinho daquela sala me trazia uma inspiração diferente, a pintura da parede, as janelas, e até o professor que estava em sua mesa tranqüilo com alguns papeis a mão. Eu estava com vontade de sair na chuva e fotografar cada gota que o seu jogasse em mim. Mas eu não podia, droga de identidade secreta.
Depois de quase meia hora o professor pediu que cada um ligasse sua máquina em um cabo, e as imagens apareciam em um telão branco que ele havia posto em frente ao quadro. Cada foto tinha um comentário diferente, bons ou ruins, a maioria bons, meu estômago estava embrulhando, o que será que ele acharia das minhas fotos?
Quando chegou a minha vez, minha mão já estava pingando suor, eu estava gelada.
- Nossa, você está gelada, está passando mal? – o professor perguntou com olhar preocupado.
- Não, não, só quero saber o que você achou das minhas fotos. – eu disse entregando a câmera a ele e me afastando para sentar, tudo a minha frente girava.
Por um instante eu achei que ele tinha odiado cada figura que eu registrei, foi um minuto calado que mais pareceu uma pequena eternidade. Enfim ele se manifestou.
- Todas as fotos ficaram boas, mas uma em particular ficou ótima. A das gotas de chuva, nem estava chovendo dentro da classe, mas as janelas fazem parte da sala, você foi além do que eu queria. Parabéns.
Eu simplesmente não sabia onde me enterrar, oi, eu não achei a foto grandes coisas assim, foi uma foto mais que comum para mim. Não fez sentido. Os murmúrios que eu ouvia, podem ser baixos para você, mas não para mim, eu ouvia claramente os alunos se perguntando quem eu era, e como eu tive aquela idéia de tirar fotos da chuva. Ótimo se esquisita eu virei a sensação da turma.

“Primeiros dias sempre me assustam, eu não gosto de começos, muito menos de finais, hoje eu me senti mais do que uma estranha no paraíso, essa faculdade era tudo o que eu queria, mas eu não sei se posso me adaptar as pessoas. Tudo o que eu queria agora era um abraço, um refúgio, muitos sonham em ter sua independência, em morar sozinhos para se livrarem dos pais o mais rápido possível, mas eu já cansei de ficar sozinha. Tenho o abraço da natureza para me consolar, mas esse consolo nunca vai preencher o vazio que eu sinto.”

Eu sentia o vento cortar meu rosto e deixá-lo gelado. Eu via toda a cidade. Cada luz começando a brilhar nos prédios, e escutava a correria do horário em que todos estavam voltando para casa. Mas em meio a tanta gente, eu ainda me sentia só.
Quantos namorados uma pessoa normal pode ter antes dos 19 anos? Eu só tive um, e eu sinto falta dele. Eu não quero ser dramática nem nada, mas eu passei, anos tentando esquecê-lo, sabe o seu primeiro amor, aquele que você vai lembrar para sempre? Esse meu primeiro amor, anda comigo sempre.
Mas alguma coisa me chamou atenção, eu senti algo forte vindo em minha direção, uma presença, mas eu não consegui definir o que era, nem de onde vinha. Olhei por todos os lados, mas não tinha nada. Estranho.
Voltei para casa antes de escurecer totalmente, deitei em minha cama e peguei alguma revista para folhear, eu não queria ler, apenas ver as fotos. Em todo o caminho de volta eu senti aquela força voar comigo, eu sentia, mas não a via em lugar algum, o que diabos era aquilo me perseguindo? Deitada ali em minha cama eu ainda podia senti-la bem perto de mim, ou estava ficando louca, ou tinha alguém me vigiando.
Olhei rápido para a janela a tempo de ver o pedaço de um cabelo loiro sumindo de repente. Corri o mais rápido para ver, mas quando cheguei, tinha apenas as luzes iluminando a rua vazia. Como sempre.

Capítulo 3 – Central Park
“Tem alguma coisa na cidade, em todo esse tempo em que vivo aqui, é a primeira vez que sinto algo parecido, e ontem eu vi esse cabelo loiro, eu não tenho a mínima noção do que pode ser. Melhor eu ficar atenta e me arrumar para conseguir um emprego, não da pra viver dependente da mesada que ganho mais.”

Dei uma olhada rápida no espelho e sai apressada, o tempo piorava cada vez mais, o céu já não era de um cinza nebuloso, parecia mais que um furacão estava a caminho de tão escuro que o céu estava.
Pela primeira vez eu estava andando como uma pessoa normal pela cidade; eu apertava o casaco junto ao corpo para que o vento frio não entrasse em contato com minha pele. Em toda a minha vida eu nunca havia precisado de emprego. Sempre fui muito bem sustentada pelos meus pais, mas chega um ponto na vida de todos nós que a única coisa que queremos é ter nossa liberdade de usar o dinheiro da forma que a gente queira, mesmo que essa forma seja estúpida e irracional.
Andei por quase todo o centro da cidade e acabei conseguindo um emprego de meio-período em uma pequena loja de CD’s, ela era engraçadinha, meio escura e a balconista se vestia engraçado, quase como uma hippie. Eu queria trabalhar por um período integral, mas a faculdade me atrapalharia completamente, e eu não iria contar aos meus pais que estava trabalhando, ganhar um dinheiro sem esforços, é uma coisa irrecusável.

Eu estava sentada nos galhos de uma árvore, sabe, as pessoas daqui não costumam a olhar muito para o alto, afinal, o céu é cinza na maior parte do ano, e eles estão cientes que os prédios são grandes o suficiente para serem perdidos de vista, quando vi um cara se sentado em um banco, com um copo de café nas mãos e um livro. Eu senti um calor subir pelo corpo, uma sensação familiar, eu conhecia aquele cara, mas não sabia de onde.
- Oi? – é isso mesmo, eu fui lá saber quem era o cara, oras, eu sabia que eu o conhecia, e eu sou muito curiosa e intrometida mesmo.
- Oi, posso te ajudar? – Ah, eu sabia! Aquela voz nunca me enganaria.
- ! Não acredito seu cretino, você sumiu e nem me ligou! – eu pulei em seus braços e quase derramei seu café.
- Desculpa, mas quem...
- Mentira que você não está me reconhecendo. Sou eu, ! Cara você esqueceu-se de mim, que decepção. – eu me assentei ao seu lado e fiquei olhando sua expressão confusa, não eu tinha certeza que ele era o cara, aqueles olhos castanhos claros que ao sol ficavam verdes, aquele cabelo loiro, o maxilar poderoso, o olhar penetrante, sim, eu tinha certeza de que era ele.
- ! – seus olhos se encheram de um reconhecimento excitante. – Nossa, eu não reconheci você, desculpa, mas é que você está tão diferente daquela menininha que eu conhecia há anos! – ele me deu um abraço simples, mas muito caloroso e apertado, nem todo mundo é espalhafatoso como eu sou.
- Quase achei que eu tinha errado de cara, fiquei com medo de você nunca mais se lembrar de mim.
- Como eu me esqueceria de você? Impossível, mas que você está muito diferente, ah, isso é verdade, você não parece mais menina, virou uma mulher!
Senti o sangue subir ao rosto quando ele disse que agora eu parecia com uma mulher. A verdade era que eu tinha mudado muito mesmo, eu não era mais uma garotinha de quinze anos, eu estava a prestes à fazer vinte anos. E vê-lo ali na minha frente sem mais aquele jeito de moleque, me fez reviver a época em que nos conhecemos.
É verdade que eu sempre fui apaixonada por fotografia, e eu costumava fotografar aqui, mas eu era mais tímida naquela época, eu ficava escondida fotografando um cara que hora estava sentado com os amigos, hora jogando bola, hora correndo de manhã no parque, até ele sentir que eu o estava fotografando e vir falar comigo, nem preciso dizer o quão constrangida eu fiquei não é? Mas eu fui pega no flagra, não tive como negar.
Sorte que ele não ter achado ruim, e nem achado que eu queria seqüestrá-lo ou algo do tipo ; e como se essas histórias que acontecem nos livros fossem verdades ele me chamou para sair, eu ainda era uma garota estúpida, e nos tornamos grandes amigos, ele era meu modelo preferido, e eu não sei ao certo o que eu era para ele.
Até ele ir embora sem motivo aparente, e eu não vê-lo há tanto tempo; quase dois anos para ser mais exata.
- Você só fala assim porque tem anos que não nos vemos, a verdade é que eu nem mudei tanto assim. – Eu disse constrangida com o seu elogio.
- Quanto a isso, eu queria pedir desculpas, eu tive que ir embora, recebi uma proposta irrecusável de emprego no exterior vindo do meu pai. Eu estava terminando o segundo grau, e seria ótimo já ter meu dinheiro.
- E por que você voltou então?
- Porque... Trabalhar com parentes é pior do que ser escravo. – ele disse sorrindo envergonhado. Aquele sorrisinho sempre me encantou.
- Hm, concordo. Mas você nunca mais me procurou, achei que não fosse vê-lo nunca mais.
- Eu tentei te procurar, mas não consegui te ligar mais, e a internet é mais limitada quando se tem poucas informações.
- Pois é, depois que você se foi eu tive que mudar com minha mãe, meus pais se separaram, meu pai está trabalhando fora, mas agora eu moro sozinha. – eu estava quase me gabando por morar sozinha, quando você for morar sozinho vai saber sobre o que eu estou falando.
- Sério? Porque eu adoraria conhecer a sua casa. – ele está me dando mole? Não acredito.
- Então vamos conhecer, a gente tem muita coisa pra colocar em dia. – levantei e estendi a minha mão para que eu pudesse guiá-lo até a minha humilde residência.
Fui obrigada a pegar um táxi. Por mais que eu gostasse dele, e pudesse contar tudo e qualquer coisa para ele, eu ainda não tinha contado sobre os meus “super poderes”.
Chegando em casa me sentei no sofá e ofereci um lugar ao meu lado para ele se sentar.
- Então, você mora aqui. – ele parecia meio constrangido, mas não sei ao certo se isso foi apenas impressão minha.
- É, aqui que eu moro. Quer tomar alguma coisa? – perguntei tentando deixá-lo confortável.
- Ah, não obrigado. Você tem uma coleção considerável de livros e CD’s aqui. – ele disse se levantando e indo em direção a minha estante. – mas falta alguma coisa neste lugar.
- O que falta?
- Falta a sua paixão, suas fotos. – ah, claro que ele não tinha visto minhas fotos. Estavam no meu quarto, que ficava bem em cima das nossas cabeças, sabe eu não deixo as minhas fotos em um lugar em que todos podem ver assim que chegam, não sou exibida.
- Claro que não falta, vem, vou te mostrar. – sai puxando a barra de sua camisa para o meu lugar favorito, meu quarto sem privacidade.
Ele olhou para a minha parede com olhos que pareciam brilhar a luz pálida que entrava pela janela. Por um momento fiquei envergonhada, e se ele perguntasse que estante era aquela, que livros eram aqueles?
- Você já foi a quase todos os lugares do mundo! – ele sorriu incrédulo – eu não devo ter ido a mais do que três capitais da Europa.
- Ah, eu apenas tive mais oportunidade. – claro que eu não contaria que eu não gastei nem um centavo com passagens.
- Tem tantas fotos aqui quanto livros, que eu devo perguntar de que autores são.
- São meus.
- Você andou escrevendo tantos livros assim e eu não tive nem um exemplar se quer?
- Eles não foram publicados, e creio que não serão.
- Você escreve tão mal assim? – ele ia chegar onde queria, alguma coisa me disse que ele já sabia do que se tratava aqueles cadernos.
- São pessoais.
Ele andou até uma das prateleiras e pegou um do ano de 2008 e começou a folhear, até parar em uma página e lê-la, por mais que eu organize os cadernos em anos, eu não sei de que data, até que data eles estão organizando. É como você tentar lembrar de tudo o que você fez em todos os dias da sua vida. Complicado não é?
- O que você está lendo? – perguntei intrigada e envergonhada.
- Isso - ele se sentou ao meu lado e entregou o caderno aberto na página em que ele estava lendo.

“06/04/2008
Ainda faz frio, hoje o sol apareceu tímido no céu, mas as nuvens o venceram e o encobriram. Mas não é sobre isso que eu quero falar, eu quero falar sobre o que eu vi hoje no parque, aquela imagem simplesmente não sai da minha cabeça, era um cara, ele estava sentado em um banco com um copo de café nas mãos e um livro muito grosso, julgo ser um livro escolar, porque um cara daquela idade nunca pegaria para ler um livro daquele tamanho por vontade própria. Ele tem os cabelos jogados sobre o olho, bagunçados, e despojados, eu não consegui ver seus olhos, não consegui ver seu rosto direito. Mas o que eu vi, foi suficiente para me encantar. Eu queria saber quem ele era. Mas não tive coragem de dar uma de louca perdida somente para ouvir sua voz e o ver me encarando. De alguma forma, ele me faz revirar o estômago.”


- Quando eu disse que eles eram pessoais, eu falei sério – Meu Deus! Eu não sabia onde me esconder de tanta vergonha!
- Eu já os vi antes, lembra quando você me convidou para ir à sua casa ver algumas fotos suas? Tinha um deles em cima da mesa do computador e sem querer eu o li. Mas lendo esse aqui, eu quase não posso acreditar que você pensou em mim dessa forma. – ele não retirou seus olhos dos meus por nem um segundo, ele me olhava firme, como se quisesse ver em meu interior se aquilo era mesmo verdade.
- Quando eu te vi pela primeira ver, eu admito que foi isso sim que eu pensei de você, um cara bonito dando sopa no parque, mas eu te conheci, claro que não da maneira mais ortodoxa, escondida tirando fotos suas, mas o que eu posso dizer, você é fotogênico! – eu teria que ser sincera como eu nunca fui, nunca gostei de me esconder atrás de mentiras.
- Quando eu disse que você tinha mudado, eu também disse a verdade, quando a gente se conheceu e por todo o tempo que nós passamos juntos, a única forma que eu te via era de cabelo preso em um rabo de cavalo meio bagunçado, com cara de que você acabou de acordar e nem ligou para o cabelo, e eu sinceramente não conseguia te imaginar de vestido. Mas hoje, hoje eu vi você vestida assim, e quase não acreditei que fosse a mesma pessoa, eu fiquei fora por tanto tempo, eu te procurei por tanto tempo até desistir, eu achei que não fosse te encontrar nunca mais. – eu podia ver que ele estava sendo sincero comigo, droga, o que ele estava dizendo? Que não tinha me esquecido, que ele me achava bonita, o que diabos ele estava querendo dizer?
Vendo assim parece até que eu estava vestida com uma roupa de gala, mas eu só estava de sapatilhas e calça preta, uma blusa branca e uma jaqueta jeans com um cachecol no pescoço. Mas revivendo os anos passados, eu estava muito bem vestida, antes eu usava apenas tênis, calça jeans surrada e camisetas, não me ligava em aparência. Sempre fui muito simples, e até hoje sou, mas todo mundo muda, seja pra melhor ou pra pior.
- Então, você não me reconheceu por que agora eu estou vestida como uma menina?
- Quase isso! – ele disse com um sorriso brincalhão dançando em seus lábios. – eu não te reconheci porque tem dois anos que eu não te vejo, e você já não usa mais aquele rabo de cavalo, deve ser a primeira vez que eu te vejo de cabelo solto!
- Eu quase não te reconheci também, esse cabelo curtinho – eu disse passando a mão pelos seus cabelos claros e macios, levemente frios – ficou diferente do bagunçado ao qual eu estava acostumada, mas eu prefiro assim, arrepiado. E agora você não parece menino, você tem até uma barba!
- Tenho não é? Isso é um saco pra fazer quase toda a manhã. – ele disse passando a mão pelo rosto e depois levando para brincar com uma mecha do meu cabelo. – é bom te ver de novo. – ele me abraçou pela cintura pousando o rosto na curva do meu pescoço.
- É bom te ver também. – algo dentro de mim dizia que era mais do que bom vê-lo de novo.

Capítulo 4 – Desejo reprimido.
Depois de inesperadamente ver a última pessoa que eu imaginava ver, eu me sentia estranhamente leve, até caminhando para a faculdade eu tinha ido naquela manhã. Eu não conseguia tirá-lo da minha cabeça, nem os flashes da nossa adolescência juntos. Ele era o cara mais diferente que eu tinha conhecido.
Diferente em partes, porque ele ainda era um garoto e gostava de garotas, de todos os tipos de garotas, e eu como a amiga sempre escutava suas histórias, desejando no fundo fazer parte de uma delas, mas de maneira diferente.
Ele era minha paixonite de criança boba, mas nunca tive coragem de falar o que eu realmente sentia. Depois que ele se foi sem dizer nada, eu fiquei em pedaços. Sem saber o que fazer, sem saber para onde ir.
E ainda pra variar, nesse mesmo ano meus pais se separaram, eu queria ir embora com meu pai para o exterior, mas minha mãe me obrigou a ficar aqui com ela. Mas eu ainda iria surpreender meu pai indo pra Itália vê-lo.
Eu tinha marcado com para nós nos encontrarmos em um café para conversarmos, porque a gente realmente não tinha falado muito aquele dia, nós nos enrolamos no sofá e fomos ver seriados e comer chocolate.
Percebi que eu tinha chegado antes dele no café, separei uma mesa para nós dentro do café, estava frio e eu não queria ficar com o nariz vermelho e gelado. Não demorou muito ele chegou irradiando calor dentro do lugar. Somente a sua presença já me fazia sentir diferente. Fiquei observando ele se aproximar, ele não tinha mudado o seu jeito clássico de andar. Simples e despojado.
- Te fiz esperar muito? – ele perguntou depois de me dar um beijo na testa.
- Não, acabei de chegar, nem pedi meu café ainda. – eu disse.
- E então, o que você está fazendo agora? – ele me perguntou depois que pedimos nossos cafés e biscoitos com gotas de chocolate.
- Agora, eu estou fazendo faculdade de fotografia, e consegui um emprego de meio-período em uma loja de discos, mas só começo realmente no mês que vem. E você o que andou fazendo por todo esse tempo?
- Eu, bom, eu estava trabalhando com o meu pai, ele tem uma empresa de publicidade, só que ele começou a me cobrar mais que o normal e eu já estava de saco cheio daquele lugar insuportável, eu queria sair, viajar, curtir ao invés de ficar mofando em um escritório apertado, então resolvi voltar para minha amada cidade, de onde eu nunca deveria ter saído! Eu só não imaginava que fosse te encontrar aqui ainda. – ele disse bebendo seu café e ficando com um bigode da bebida.
- Então, nem eu imaginava te ver por aqui de novo, esperei por tanto tempo você me ligar e dizer que não estava com raiva de mim, por que você sabe que as garotinhas da escola ficaram loucas de preocupação com você não é? – eu disse brincalhona limpando o bigode que ele tinha feito com a bebida.
- Sério? Ótimo, tomara que elas achem que eu fui seqüestrado, ou levado para uma outra galáxia completamente distante. Na escola eu descobri que não se pode dar confiança para uma garota só que todas vem atrás de você!
- Achei que você gostasse desse assédio!
- Eu gostava no início, admito, mas depois, as garotas foram ficando grudentas, e queriam que eu ligasse pra elas a cada minuto pra falar o que eu estava fazendo. A única garota que eu não queria ter me afastado foi você.
Era fácil conversar com ele. Às vezes não tão fácil, pode ser que ele não estivesse me dando mole, talvez fosse tudo parte da minha imaginação. Mas lembrando do rosto dele tão perto do meu no meu sofá enquanto assistíamos televisão ainda me causava arrepios, ver aqueles olhos apertadinhos me encarando, sentir todo aquele corpo junto ao meu me abraçando; se eu entrasse em uma prova de resistência, talvez eu até ganhasse, porque a vontade de pular no pescoço dele e beijá-lo de todas as formas estava tão forte dentro de mim que era difícil controlá-la. Mas ele era o , o que cresceu comigo, que eu me descobri com ele, que me ajudou a ser quem eu sou hoje. Ele tinha sido mais presente na minha vida do que meus próprios pais. E essas coisas eu não podia ignorar.
Ele disse que eu era a única garota a qual ele não queria ter se afastado me fez lembrar de todas as coisas que passamos juntos. Me fez lembrar das nossas tardes na garagem da casa dele, da gente disputando para ver quem ganhava no “Need for Speed”, da gente se divertindo tirando fotos juntos, da gente fazendo guerrinha de balão de água.
- Você lembra de quando tentou me ensinar a tocar violão? – eu disse tentando mudar de assunto.
- Ah claro, você era péssima! – ele disse sorrindo com os olhos brilhando de diversão.
- Para! Eu não era tão ruim assim, era até razoável! Você que era um péssimo professor.
- O que? Eu aposto as minhas cuecas que você nunca iria achar um professor melhor do que eu! – ele disse fingindo estar ofendido.
- Nunca assine cheques se a sua bunda não puder descontar! – disse chegando mais perto dele e sussurrando em seu ouvido.
Momentaneamente ele fechou os olhos para escutar o que eu tinha a dizer. Por um milésimo de segundo eu achei que ele tinha gostado do som da minha voz em seu ouvido. Mas talvez tivesse sido apenas impressão.
- Com o que aquela nuvem se parece? – ele disse apontando para o céu cinza e nebuloso.
- Hm, deixe-me pensar, se parece com todas as outras nuvens no céu, de mau - humor.
- Engraçadinha – ele se assentou e colocou os braços em cima dos joelhos ligeiramente dobrados. Ele parecia anos mais novo quando se sentava daquele jeito.
- O que foi?
- Nada.
Por vários minutos ele permaneceu calado, apenas olhando ao longe as árvores e as pessoas que passam ali perto, o movimento levemente cessando ao longo do parque.
- Você não acha lindo tudo isso aqui? No meio de tantos prédios, um lugar verde em que se pode sentar e esquecer dos problemas; quando eu era mais novo eu gostava tanto de vir aqui, de subir em todas as árvores, de poder me deitar na grama e simplesmente ver as folhas das árvores se balançarem conforme o vento. – ele disse ainda fitando o longe, divagando.
- Você falando assim, parece até que você tem 60 anos e está prestes a morrer. – eu disse colocando uma pontada de tragédia em minha fala.
- Você continua tão trágica quanto eu me lembrava. – ele disse se virando para mim, que agora estava assentada ao seu lado, e passando o braço por cima dos meus ombros. – e continua linda do mesmo jeito, parece que você não envelheceu nada.
- São apenas dois anos , não é o suficiente para mudar tanto na aparência de alguém – eu disse fitando aqueles olhos intensos, a barba que não foi feita de manhã que o deixava com cara de homem e não mais de menino.
Olhei para o relógio e me assustei com as horas, eu já estava atrasada para a aula na faculdade, a única maneira de chegar na hora era voando. Talvez eu fizesse isso.
- Nossa olha as horas, eu preciso ir pra faculdade, mas, você quer passar lá em casa a noite? A gente pede uma pizza e aluga algum filme pra ver! – eu disse me levantando rapidamente.
- Ah claro. – ele disse parecendo desconcertado.
As coisas estavam começando a ficar esquisitas, ele que quase nunca falava aquelas coisas pra mim, agora as dizia como se elas fossem nada mais do que um oi e um obrigado. Minha mente divagava sobre as possibilidades daquilo estar acontecendo enquanto eu literalmente voava para a aula.
Eu não consegui prestar atenção em nada do que o professor falava, ele não passava de uma imagem animada na minha mente, que mexia a boca, mas não emitia nenhum som.
- Ei, você entendeu o que o professor explicou? – uma garota de cabelos castanhos e ondulados veio me perguntar no fim da aula, acho que o nome dela era , ou alguma coisa assim. Não que eu seja anti-social, é só que ninguém ainda tinha conversado comigo.
- Desculpa, mas hoje tudo o que o professor falou não passou de palavras sem sentido pra mim. – eu disse sorrindo envergonhada.
- Pra mim também. Ele nada mais era do que uma foto de boca aberta! – ela disse agradecendo e indo na direção oposta a minha enquanto saiamos pela porta da frente da faculdade.
Eu acenei para ela e fui em direção a calçada, lá estava estacionada uma moto imensa preta, e em cima dela um cara de cabelos e arrepiados, um sorriso torto no rosto e uma sobrancelha levantada.
- Meu Deus! Onde você roubou essa moto? – eu disse me aproximando da figura já conhecida.
- Eu tenho meus contatos. Quer dar uma volta? Prometo que eu não corro muito. – ele disse me estendendo um capacete.
- Se você não correr eu não quero subir.
Um sorriso desafiador apareceu em seu rosto e eu subi na moto, senti os botões frios da jaqueta jeans que ele usava por debaixo dos meus dedos. Ele acelerou a moto e saiu cortando as ruas. Eu era louca por velocidade, não importa a maneira como ela vinha. Ele saiu cortando todos os carros na rua, ultrapassando sinais vermelhos em todos os cruzamentos me fazendo gargalhar, em poucos minutos nós já estavam em frente a um prédio enorme com milhares de janelinhas de resplandeciam luzes fortes. Era um hotel: New York Pallace.
Ele colocou a moto em uma pequena garagem no subterrâneo do prédio e fizemos uma longa viagem de elevador até o último andar do prédio. No corredor tinha apenas duas portas, imaginei que aquele fosse o maior quarto do hotel. Ele abriu a porta e fez um gesto para que eu entrasse antes dele.
Era de um branco impecável, contrastando com alguns móveis pretos aqui e ali, tinha uma pequena sala, e na parede lateral uma porta branca e imensa, julguei que atrás daquela porta estaria o seu quarto, mas não me atreveria entrar ali sem ser convidada.
Ele colocou os capacetes em cima de uma mesinha em um canto da sala e tirou a jaqueta revelando uma blusa de frio preta justa em seu corpo. Ver seu corpo detalhado naquela blusa, os braços bem delineados. Me fez ficar estática por um tempo.
- Nossa, que lugar lindo, coitado do seu pai, ele deve estar gastando uma fortuna com você. – eu disse também tirando minha jaqueta e me assentando no sofá.
- Ai que você se engana, ele não está gastando nem um centavo comigo, tudo isso, sou eu que pago. – ele disse orgulhoso por estar sendo independente.
- Eu ainda mais ou menos dependo dos meus pais, ainda recebo uma mesada pra poder pagar a faculdade.
- Enquanto eu pude tirei o dinheiro do meu pai, mas depois que eu fui trabalhar com ele, e ele não quis mais me dar dinheiro eu tive que me virar do jeito que eu pude; com alguns anúncios publicitários aqui, outros ali, eu consegui arrecadar o suficiente pra viver muito bem durante pelo menos dois anos. – ele se sentou ao meu lado e me ofereceu uma latinha de refrigerante enquanto ficava com uma garrafa de cerveja nas mãos.
- Tudo bem, por que você pode tomar cerveja e eu tenho que tomar refrigerante? – protestei.
- Achei que você não bebesse. – ele me olhou sem entender.
- É o seguinte, eu não sou fã de cerveja, prefiro Vodka, mas se vamos beber, beberemos todos! – eu disse tomando a garrafa de cerveja da mão dele e me apossando dela.
- Perdão! – ele disse sorrindo e indo em direção ao frigobar pegar mais uma cerveja.
Nós ficamos quase toda a noite conversando, sobre nossas aventuras quando éramos adolescentes. Rimos das nossas palhaçadas e burradas; a cerveja já estava me deixando mais alegre, minhas bochechas já estavam rosadas, e eu já começava a ver as coisas rodarem em intervalos regulares de tempo.
- Ok, acho que chega de cerveja. – eu disse colocando a garrafa quase vazia de cerveja em cima da mesinha de centro.
- É acho que chega mesmo, eu já estou vendo duas de você, se uma já é difícil de agüentar imagina duas! – ele disse com um sorriso debochado no rosto.
- Cala a boca! – eu o empurrei de leve no ombro, mas a aquela altura da noite nos já estávamos tão zonzos que estávamos sentados no chão e não foi preciso muita força para que eu o empurrasse e ele caísse no chão e eu caísse por cima.
Por um instante eu olhei seus olhos, levemente vermelhos devido a quantidade de bebida que tínhamos ingerido, passei a mão levemente pelos cabelos e macios dele, e senti ele aproximar seu rosto do meu, até unir nossos lábios. Os lábios dele eram doces e macios, como se eu estivesse encostando em uma rosa. Por uma fração de segundo eu me perguntei se aquilo era correto, mas eu não dei muita importância para essa parte da minha mente, e permiti que ele me beijasse, permiti que um desejo que há anos estava reprimido se revelasse, permiti que minhas mãos segurassem o seu rosto, me permiti aproveitar tudo aquilo que esteve junto a mim há tantos anos e nunca realmente fora meu.

Acordei em um quarto grande em cima de uma cama igualmente grande com lençóis incrivelmente brancos. Não me lembrava como eu tinha ido parar ali, porque pelo que eu me lembrava eu tinha adormecido no chão ao lado de , mas agora eu não via o chão, e nem minhas roupas.
Eu estava apenas de camiseta e calcinha, eu queria lembrar-me do porque eu estar naquele estado seminu, mas quanto mais eu tentava, mais minha cabeça doía.
A grande porta de frente para a cama se abriu e uma figura loira, sem camisa, apenas de calça de moletom preta e uma bandeja nas mãos entrou no quarto respondendo a minha pergunta se aquela porta realmente levava ao quarto. Ele sorriu pra mim, acredito que se deliciando pela minha cara de confusão.
- Bom dia. – ele disse colocando uma bandeja com uma jarra de suco de laranja, copos, torradas e manteiga em cima da cama.
- Bom dia... Eu acho – eu queria perguntar por que ele estava sem camisa e eu estava sem parte considerável das minhas roupas. Mas eu só conseguia olhá-lo com cara de boba.
- O que foi? – ele estava se divertindo a beça com a minha cara de idiota.
- Estou aqui pensando, por que você só está de moletom e eu estou sem grande parte das minhas roupas. – eu disse puxando distraidamente os lençóis para perto de mim.
- Que mente obscura você tem, antes que você me ache um tarado aproveitador, eu vou te dizer que nada aconteceu, nos estávamos tão bêbados que dormimos no chão da sala, daí eu acordei antes de você e te carreguei até a cama, e tirei sua calça pra você poder dormir mais confortavelmente. – ele disse calmamente como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo todo.
- E você tirou minha calça, sei, só isso? – eu disse desconfiada.
Ele retirou a bandeja de cima da cama e a colocou no criado-mudo ao lado da cama.
- Talvez você não se lembre, mas eu me lembro muito bem do que a gente fez ontem – ele disse se aproximando de mim ficando a centímetros do meu rosto, por cima de mim, mas sem realmente se encostar, como se esperasse eu dar permissão para que ele pudesse encostar-se a mim.
- Talvez você não saiba, mas eu me lembro muito bem do que aconteceu ontem a noite. – eu disse colocando as mãos em sua nuca e o puxando para mais perto de mim, como se entendesse ele se deitou por cima de mim e apoio sua cabeça em meus ombros. – só não entendo porque eu estou com essa bruta dor de cabeça e você parece tão normal.
- Anos de experiência minha querida. – ele disse apertando seu corpo junto ao meu.- Sabe eu sempre fiquei imaginando como seria esse momento, mas nunca imaginei que pudesse superar todas as minhas expectativas.
- Você imaginava que isso pudesse acontecer? – eu perguntei tentando parecer indiferente, mas me corroendo de curiosidade por dentro.
- Claro, quando eu te conheci, achei que você era uma louca com problemas mentais, mas quando eu fui te conhecendo percebi que você era muito mais do que isso, você não faz parte do estereótipo da mulher bonita de hoje em dia, você é muito mais do que isso, simples mais irreverente, e em todos esses anos que nós passamos juntos, eu sempre quis te beijar, te falar o que eu sentia. – ele já falava como se estivesse pensando alto, como se eu não estivesse dentro daquele quarto escutando tudo. – Mas você sempre foi intocável, por mais que eu te quisesse, eu não queria que a nossa amizade acabasse, e eu ficava em um dilema tão grande, que eu não sabia mais o que fazer, eu gostava tanto de ficar com você de tarde jogando conversa fora, fotografando com você. E depois que eu fui embora, nenhum amigo completou a falta que você me fez, nenhum amigo foi tão paciente quanto você era, ninguém conseguiu superar você.
Por um instante eu somente fiquei calada escutando ele dizer tudo o que ele havia guardado por tanto tempo, um desejo mudo. E percebi que todo aquele tempo eu não estava agindo como uma idiota me apaixonando pelo meu melhor amigo, porque ele também tinha se apaixonado por mim.
- Como você podia gostar de mim? Eu era tudo o que os caras não gostam, eu não me vestia com roupas curtas e decotadas, eu não era loira, eu não tinha amigas gostosas, eu não era líder de torcida, eu era uma nerd que ficava estudando. Meu único amigo de verdade era você. E eu nunca entendi por que. – eu disse soltando tudo o que apertava em meu peito.
- Eu gostava, e ainda gosto de você, somente porque você não é nada disso que você citou, caras gostam de mulheres assim para passar uma noite, no máximo duas ao mês. Eu gosto de você porque eu não quero estar com você apenas uma ou duas noites, eu quero estar com você em todas as noites. – ele disse se apoiando nos cotovelos e olhando para mim.
- Em todo esse tempo eu achei que eu era uma burra, que eu não poderia ter você nunca, que você era muito mais do que eu poderia conseguir, que você não passava de um amigo. – eu olhava aqueles olhos apertadinhos me fitarem com toda a atenção. – como o coração prega peças na gente.
O destino é uma coisa engraçada. Você sabe que tem alguém reservado para você no seu futuro, só não imagina quem seja essa pessoa, e nem imagina que essa pessoa possa estar do seu lado, jogando videogame com você, amarrando seus cadarços uns nos outros para você tropeçar.
Mas o que o mar leva, ele trás de volta.

Capítulo 05 – Blond Girl

“Às vezes é engraçado como as coisas acontecem, você fica correndo atrás da felicidade e ela nunca dá o ar da graça, mas quando você se acomoda, e deixa de procurá-la, ela aparece do seu lado na forma mais inesperada, todas essas coisas que estão acontecendo comigo, me fazem sentir como se eu tivesse 15 anos de novo, me fazem sentir ingênua. Tudo aconteceu realmente muito rápido, mal tinha chegado à cidade e nós dois já estávamos colocando a tona tudo o que tínhamos sentido a anos atrás. Talvez esteja tudo corrido demais, perfeito demais pra ser real, eu não sou pessimista, mas a vida infelizmente me ensinou a ser realista. Eu só não quero que isso acabe, é tão bom ter ele de volta.”

Ao longo de meses eu passava mais tempo na casa de do que na minha, eu já sentia saudades da minha cama, do meu sofá, das minhas fotos, e de todo o meu aconchego. Claro que sentir o perfume de todos os dias invadindo cada alvéolo do meu pulmão era melhor do que ficar em casa sozinha sentindo o cheiro do meu próprio perfume, mas chega uma hora que tudo o que você mais quer, é a sua casa.
Quase metade de meu guarda-roupa estava pendurado no closet dele, se meus livros estivessem lá, com certeza eu me sentiria ainda mais em casa. Tinha pouco tempo que estávamos juntos, mas pelo tempo que nós nos conhecíamos fazia parecer que estávamos juntos já fazia uma eternidade.
Era fato que tudo aconteceu numa velocidade inexplicável, quase não pude absorver tanta informação junta, e admito, nem ligo. Pode me apelidar de qualquer coisa, desde “fácil” até qualquer um outro que você ache mais apropriado, mas a verdade era que eu temia que tudo pudesse acabar com a mesma velocidade que começou.
Na faculdade eu aprendia técnicas importantíssimas para poder fotografar mais e com maior qualidade, desde pequenos ângulos que fazem toda a diferença, até as pequenas luzes que conseguem iluminar toda uma fotografia. Também fiz amigos, mas como meu instinto sempre alertava, eu era cautelosa com eles, pois é, acredite era mais de um amigo.
– lembra a garota que não entendeu muito mais do que eu em uma das aulas? – era uma figura hilária, tinha um talento nato para ser humorista ou até mesmo palhaça, tudo para ela se resumia em sorrisos, não era a toa que suas fotos eram as mais alegres e coloridas da turma.

era igualmente hilário, porém um pouco mais reservado que ela, os dois já se conheciam há muito tempo, fizeram o ensino médio juntos e optaram pelo mesmo curso, eu particularmente acho que os dois formariam um belo casal, pena eles não terem a mesma opinião sobre isso.
- Você conseguiu pegar o ângulo que a professora pediu? – me perguntou com o seu habitual sorriso no rosto.
- Olha, eu acho que sim, olha aqui – estendi minha câmera para que ela visse a foto de uma árvore. – eu tentei mostrar tudo o que ela queria, desde as folhas mais baixas até os pedacinhos do céu, só não sei se ele vai gostar.
- Eu não sei se eu consegui fotografar o que ele queria. – ela estendeu a câmera pra mim, que continha uma imagem de uma flor e um grande pedaço do céu.
- Do que vocês estão falando? – chegou de surpresa por trás das nossas carteiras me fazendo pular de susto.
- Nossa, quase que eu vi minha avozinha agora – eu disse colocando a mão no peito para tentar aliviar meu coração que batia enlouquecido.
- Desculpa – ele disse sem se arrepender realmente. – o que vocês vão fazer hoje à noite?
- Eu acho que vou ficar em casa comendo brigadeiro e vendo filme – respondeu desanimada.
- E você ? – ele perguntou.
- Eu acho que vou seguir o exemplo da , eu não tenho nada pra fazer hoje à noite.
- Então vamos fazer nada juntos! Vamos alugar uns filmes, comprar bastante besteira pra comer e vamos fazer uma festinha – às vezes soava meio gay, mas era somente a mais pura e habitual empolgação.
Eu conhecia e há tão pouco tempo, e era como se eles fossem meus amigos há anos. Eu me sentia confortável perto deles, como se eu não tivesse nada a esconder deles, apesar de lá no fundo eu saber que isso não era verdade.
- Ah não, me esqueci, disse que queria que eu fosse a casa dele hoje à noite. – eu disse levemente decepcionada. – desculpem.
- Hm, acho que alguém vai se dar bem hoje a noite! – tentou dar todo o seu olhar sedutor, mas tudo o que conseguiu foi arrancar uma gargalhada de .
- Deixa de ser boba garota, eu só vou no apartamento dele, é a coisa mais normal do mundo. – eu disse com as bochechas rosadas.
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou! Então sobrou só eu e pra fazermos nada juntos! – ela disse entusiasmada, por um minuto eu pensei que isso era tudo o que ela mais queria, uma noite a sós com o , mas, é melhor esperar pela fofoca do outro dia antes de tirar qualquer conclusão.
A semana toda eu me senti desconfortável, com uma sensação de estar sendo constantemente observada, eu procurava sinais em toda parte, escutava conversas a quilômetros de distância, vigiava o ar a todo instante, mas nunca encontrava o que tanto me incomodava. Aquele pedaço de cabelo loiro não saia da minha mente a nenhum instante, algo dentro de mim me dizia que ele tinha alguma coisa a ver com essa sensação que me incomodava.
Mas o que seria? Quem seria? E como me observava sem eu conseguir descobri-la? Era muitas perguntas e pouquíssimas respostas.
Eu já havia começado a trabalhar numa pequena lojinha de Cd’s não muito longe de casa, ela era pequena, mas muito ampla com as paredes pintadas de branco e com prateleiras pretas que contrastavam. Era uma lojinha simpática, igual à dona, Giorgia, ela era o cúmulo de uma pessoa simpática, era baixinha de cabelos castanhos cacheados e olhos verdes, passava toda a imagem de uma garotinha inocente, pobres os que acharam que ela era realmente inocente.
A loja era nova, e por isso nem sempre tinha movimento, dificilmente entrava um ou outro para olhar umas prateleiras e ir embora, e outros que entravam na loja achando que o antigo dono do estabelecimento tinha mudado a decoração.
Escutei o sino que ficava no alto da porta soar, eu estava me preparando para ir embora, já colocava a bolsa no ombro quando a vi entrando. No mesmo instante senti uma onda de calor percorrer o ar a minha volta, mesmo que estivéssemos quase no inverno, o ar ficou carregado, denso, difícil de respirar; ela tinha cabelos platinados que escorriam pelas costas como as águas de uma cachoeira, olhos grandes e astutos que examinaram todo o local antes de parar sobre mim. O sino da porta soou de novo e entrou na loja.
- Com licença – ele disse desviando da garota que estava parada na porta me encarando. – Oi – ele disse se encostando no balcão e ficando de costas para a garota.
- Oi – eu mal olhei para ele, eu só conseguia acompanhar a figura loira platinada que caminhava entre as prateleiras como quem não quer nada.
- Eu tenho uma surpresa pra você hoje – ele disse todo meigo com as bochechas e nariz levemente rosados por causa do vento frio do lado de fora da loja.
- Que legal, eu já estou quase saindo. – minha voz não tinha emoção, eu estava imóvel.
- Você está bem?
- Estou.
Eu sentia o perigo pairado no ar, eu tentei ler a mente da garota loira pra tentar ao menos saber no que ela pensava, mas tudo o que eu via era uma escuridão, eu não conseguia ouvir nada, eu não conseguia ver nada, isso nunca havia acontecido antes, nenhum humano comum era capaz de me bloquear.
Talvez ela não fosse um humano comum.
Não, não era possível que ela pudesse ser igual a mim, por anos eu pensei ser uma exceção a todas as regras, pensei ser única, e agora essa garota surge do nada e se parece comigo. Eu tinha que ir atrás de respostas, eu tinha que saber o que ela era.
- Posso ajudar? – eu disse parando a poucos centímetros da garota que olhava as prateleiras vagamente.
- Acho que não mais, já estou de saída. – ela disse com uma voz suave e educada; eu tentava ler sua mente, fazia tanto esforço que já sentia o suor frio, e os calafrios passarem pelo meu corpo.
Ela saiu silenciosamente da mesma forma que entrou, eu estava pálida e gelada pelo esforço, há muito tempo que não tentava ler a mente de ninguém, porque apesar de eu ter alguns “poderes” eu não os usava a todo instante, eu tentava ser o mais normal possível.
- Você tem certeza de que está bem? – senti a mão de segurar meu braço.
- Tenho.
- Mas você está gelada e pálida. – ele insistiu.
- É só um mal estar, logo passa, podemos ir agora. – eu disse tentando soar indiferente a ele, mas ele não se convenceu por completo.
- Tudo bem, vamos.
Na garupa da moto eu sentia o vento deixando minhas mãos geladas e doloridas, todos os meus sentidos estavam aguçados, eu sentia o perigo ao redor de mim, eu sentia que algo ruim iria acontecer. Chegando a casa de ele falou pelo caminho todo até chegarmos ao seu apartamento, pra mim ele era apenas uma figura falante que não emitia som nenhum.
- Você está me escutando? – ele perguntou nervoso.
- Ahn?
- Eu estou conversando sozinho a um tempão, o que você tem? Parece que você não está nesse planeta! – ele se jogou com tudo no sofá e se esparramou.
- Eu... Eu só estou muito cansada, nem quero ir à faculdade hoje.
Sentei-me ao lado dele e liguei a televisão, eu pulava todos os canais, e voltava ao que eu estava assistindo primeiro, não tinha nada interessante passando.
Eu realmente estava atordoada, minha mente não conseguia se fixar em nada, eu estava me distraindo muito facilmente com qualquer coisinha. Eu nunca imaginei sentir aquela sensação de perigo tão forte. Eu nunca pensei que pudesse existir alguém como eu.
- Vou tomar um banho – eu disse a que apenas balançou a cabeça de forma afirmativa sem olhar para mim.
Peguei uma toalha dentro do armário e me enrolei nela, liguei o chuveiro e senti o jato que água quente sobre o corpo, ele me relaxou, meu corpo esqueceu a pressão externa, eu me sentia livre e feliz, por vários minutos eu fiquei ali parada somente sentindo a água cair sobre mim, o banheiro já estava todo enfumaçado e quente, quando eu senti a presença de mais alguém no banheiro, era que abria a porta de vidro do Box e chegava mais perto de mim.
Eu não me virei para ele, apenas fechei os olhos e senti o contato da pele fria dele com a minha quente, ele me abraçou firme e depositou um beijo na curva do meu pescoço.
- Isso é invasão de privacidade sabia? – eu disse brincalhona.
- Você está na minha casa, eu entro onde eu quiser sabia? – ele disse distribuindo beijos por toda a extensão do meu ombro me fazendo arrepiar.
- Tecnicamente essa aqui não é a sua casa sabe... Pelo que eu andei percebendo, têm mais coisas minhas aqui do que suas – eu me virei e me aninhei em seu peito.
- Vocês mulheres, nunca vou entender pra que vocês precisam de 200 pares de sapatos se tem apenas dois pés.
- Vocês homens, nunca vou entender pra que vocês querem colecionar carros se você só pode dirigir um de cada vez.
- Oras, essa é fácil, a gente quer dirigir um diferente a cada dia. – ele pegou um vidro de xampu e começou a lavar o cabelo.
- A gente também quer sair com um par de sapatos diferente a cada dia! – já que eu estava tomando banho, porque não tomar direito não é?
fez um moicano de xampu arrancando gargalhadas minhas que estavam entaladas no fundo da minha alma. Ele segurava o vidro de xampu e fazia caras e bocas fingindo imitar algum cantor de rock qualquer. O fato dele estar totalmente nu a minha frente não me incomodava, e ele também parecia não se incomodar por eu estar nua na frente dele também, ele estava ensopado da espuma branca do xampu, e sorria como um garoto de 10 anos que acaba de receber a primeira mesada.
Os momentos com ele eram assim, fáceis de acontecer, nem parece que há uma hora atrás eu o tinha ignorado, deixado ele falando sozinho, era como se o que aconteceu mais cedo não tivesse acontecido, como se eu tivesse ficado naquele apartamento o dia todo, talvez nós devêssemos ficar juntos o tempo todo, não seria uma má idéia.
- Sabe o que eu estava pensando – eu disse quando ambos já estavam secos e devidamente vestidos.
- O que a sua mente diabólica estava pensando? – ele perguntou me puxando pela cintura e me abraçando.
- Estava pensando que você poderia ir morar lá em casa... – eu fiz uma pausa apreensiva para ver a expressão do rosto dele. – pensei, que o dinheiro que você gasta pagando diárias aqui no hotel, você poderia gastar de outra forma!
- , você está me pedindo em casamento? – ele disse com um sorriso de orelha a orelha.
- NÃO! – gargalhei – só estou te chamando pra morar comigo, já que você não vai mais sumir no mapa de novo, espero que não, não tem porque você morar num hotel, minha casa tem espaço!
- Hm, deixe-me pensar por um minuto na sua oferta. – ele ficou olhando para o teto por longos segundos que me deixaram agoniada, não é todo dia que uma garota convida um cara para morar com ela, Deus, quando minha mãe descobrisse que eu estava morando com um cara, ela iria pirar.
- Você pretende responder hoje ainda? – eu disse nervosa.
- Vamos ver, se eu responder assim você entende.
Nós dois estávamos em pé abraçados dentro do closet, ele estava só com uma calça de moletom, e eu de camiseta branca e calcinha, o frio que fazia lá fora não afetava o quarto de hotel com aquecedor.
Ele passou a mão por baixo de minhas coxas e me levantou selando meus lábios aos dele, tudo o que eu fiz foi me segurar firme enquanto ele me carregava a passos lentos e cuidadosos, ele me deitou suavemente sobre a enorme cama branca de lençóis alvos e aprofundou o beijo.
Ele se encaixava perfeitamente a mim, como se nós dois fossemos peças de um quebra-cabeça que a muito se perderam. Suas carícias eram delicadas, e elas deslizavam por todo o comprimento do meu corpo, ele me apertava junto a ele e me fazia perder o ar, de um jeito que eu nunca perdi com ninguém.
Ele interrompeu o beijo lentamente e olhou para mim de cima, tirando uma mecha do meu cabelo negro do meu rosto. Sua boca estava levemente vermelha e continha um sorriso satisfeito. Por um tempo eu só conseguia olhar dentro daqueles olhos apertadinhos que me faziam delirar.
- Então isso foi um sim? – perguntei pousando minha mão em sua face.
- Claro, mas antes de qualquer coisa eu adoraria poder confirmar a minha resposta. – ele se juntou a mim novamente.
Ele iria morar comigo, eu iria vê-lo ao acordar e ao dormir. Se aquilo fosse um sonho, eu não queria acordar.

Capítulo 06 – Mudanças.
- Eu sabia! Sabia que isso ia acabar acontecendo! – eu disse entusiasmada a que exibia um sorriso satisfeito.
- Eu não sabia, mas esperava!
- Me conta tudo! – era fácil conversar com ela, parecia que nos conhecíamos desde sempre.
- Já que você não pode ficar com a gente, eu e decidimos ver filmes de terror na casa dele, eu fiz brigadeiro, e ele comprou Doritos e refrigerante, daí conversa vai, conversa vem, e o filme estava passando, eu não tenho medo de filmes de terror sabe? Mas para aquela ocasião eu me fingi de medrosa. Me agarrei ao braço dele, e que braços – ela pareceu delirar com a lembrança. – mas, não vamos perder o foco, então eu me aproximei mais, e mais, e quando eu vi, estávamos nos beijando!
Ela dava pulinhos na cadeira empolgada com a noite anterior. Eu me sentia feliz pelos dois, eu esperava mesmo que eles ficassem juntos, eles implicavam tanto um com o outro que só podia ser amor disfarçado, não tinha outra explicação.
- Srta. e Srta. vocês tem alguma dúvida? – a voz do professor Brown a frente da sala me assustou, nós mal tínhamos percebido que a sala já estava cheia e que o professor já estava a toda na frente do quadro explicando.
- Desculpe professor – eu disse baixinho e me virei constrangida. Eu não gostava daquele professor, ele era baixinho, meio careca e ranzinza, eu ficava imaginando como um cara daqueles conseguia fotografar. Eu sem dúvidas preferia o professor Jones, com aqueles lindos olhos, que nos desafiavam a sermos melhores do que ele.
Eu achava a faculdade um máximo, adorava ir lá e ver todos fotografando, e sorrindo e conversando, era como a Disney para mim. E sim, eu sei, sou esquisita porque gosto de escola. Mas quando você faz algo que você realmente gosta, aquilo não te cansa, não fica tedioso, mas parece que é parte do seu dia-a-dia, uma coisa normal, como acordar e escovar os dentes.
Era fácil fotografar para mim, tudo podia virar foto, tudo deveria ser registrado, e graças as minhas habilidades especiais eu conseguia tirar fotos dos ângulos que eu bem entendia.
Mas minhas fotos preferidas ainda eram as que era modelo. Eu tinha feito um mural somente com nossas fotos, ele já estava quase lotado, e logo não caberia mais nem uma foto. Mas nas poucas vezes em que eu estava em casa, eu gostava de me sentar em minha cama e ficar vendo cada uma daquelas fotos, cada uma delas trazia a tona uma lembrança diferente. E eu sabia, que eu ainda poderia pregar muito mais lembranças por toda a casa.
Eu tinha prometido a que iria ajudá-lo com as malas, ele insistiu que não era preciso, mas eu gosto de ajudar, então depois que a aula na faculdade acabou eu fui até o hotel pegar algumas malas.
- Ei, você é mesmo muito teimosa. – disse me recebendo na porta do apartamento.
- Boa noite pra você também! – eu disse sorridente – onde estão suas malas?
- Sabe, é que eu dormi a tarde toda e...
- Você não arrumou nada ainda não é? –perguntei, apesar de já saber a resposta.
- É, mais ou menos isso. – ele disse colocando a mão na nuca e fazendo uma cara de quem sente muito.
- Então vamos arrumá-las oras! Ficar parado aqui na porta não vai fazer com que elas se arrumem sozinhas! – eu disse invadindo o apartamento e indo em direção ao quarto.
Que estava uma zona. Todas as roupas dele estavam espalhadas pela cama e pelo chão. Os tênis estavam jogados em um canto, e tinha malas abertas por todo o chão do quarto.
- Nossa, como você é bagunceiro... Você tentou embolar toda a roupa de uma vez só na mala? – eu perguntei me divertindo com a situação.
Ele apenas erguer os braços com um sorriso tímido no rosto. Ele tinha tentado jogar tudo na mala de qualquer jeito para que quando eu chegasse visse as malas prontas, mas tudo o que eu vi foram roupas jogadas pelo quarto, e nenhuma mala pronta.
Aos poucos íamos dobrando as roupas calmamente. Pedi que ele procurasse por sacolas para colocar os tênis para eles não sujarem as roupas. Depois de tudo colocado devidamente em seu lugar nas malas, ele foi tomar uma ducha rápida para podermos ir embora.
A carteira dele estava sobre o criado-mudo ao lado da cama, minha mão coçou com a vontade de dar uma espiadela na carteira. Não contive a curiosidade e a peguei, atenta aos movimentos que ele fazia no banheiro para que eu não fosse pega de surpresa. Eu escutava ele cantarolar baixinho alguma música que eu não conhecia, escutava as gotas de água que pingavam no chão, escutava o barulho da água passando pelos canos.
Abri a carteira devagar, tinha cartões de crédito, cartões de visita que talvez pudessem ser úteis para ele, documentos, a carteira de habilitação; tinha um bolsinho escondido por baixo do lugar onde ficavam os cartões de crédito, eu coloquei os dedos ali e senti um pedaço de papel. O puxei devagar e o abri. Era uma foto antiga, já amarelada pelo tempo, e amassada nos lugares onde ela foi dobrada. Mas ainda sim, eu reconhecia aquela foto, era uma foto nossa, de quando nós tínhamos 16 anos deitados na grama um ao lado do outro. A foto já não tinha as cores originais por completo, mas ainda sim, era uma foto nossa. Senti meu coração apertar dentro do peito. Por anos ele tinha guardado uma foto nossa na carteira. Ele nunca tinha me esquecido.
Imaginando coisas, eu quase me distraí, escutei ele desligar o chuveiro e pegar uma toalha. Rapidamente dobrei a foto e a coloquei em seu lugar. Coloquei a carteira sobre o criado mudo, e me sentei imóvel na cama fazendo a cara mais inocente que eu conseguia.
Quando ele saiu do banheiro, eu fiz com a mão para que ele se aproximasse de mim. Me levantei e fiquei de frente com ele, envolvi seu pescoço com os meus braços e o girei, deitando ele na cama e ficando por cima dele. Todo meu amor, todo o meu agradecimento, todos os meus sentimentos vieram à tona, e eu os passei todos para ele através daquele beijo. Eu queria que ele soubesse que eu o amava, eu queria que ele sentisse o tanto, eu queria gritar para ele que tudo só tinha sentido quando eu estava perto dele.
Mas eu senti uma pontada de culpa, ele não sabia quem eu era de verdade, eu não sabia do que eu era capaz. Eu senti uma brisa gelada levantar os meus cabelos, rapidamente eu levantei o olhar e vi que alguns objetos estavam flutuando ao nosso redor, vi os lençóis da cama e os travesseiros subindo. Aquilo não era normal, eu nunca tinha feito aquilo antes.
Interrompi o beijo e tentei me acalmar, tentei manter a atenção de em mim para que ele não visse que as coisas do quarto estavam pelos ares.
- Nossa. Assim eu acho que eu não vou querer me levantar daqui pra ir embora. – ele disse com uma cara abismada.
- Não se preocupe, na minha casa também tem uma cama. – eu disse, eu tentava soar comum, e aos poucos os objetos foram descendo até pararem em seus lugares. Me senti aliviada e pude olhar para .
- Vai ser ótimo poder estar com você a toda hora. – ele disse.
- Também acho. Então vá se vestir e vamos embora. – eu sai de cima dele e fui para a sala carregando algumas malas, eram malas grandes, então tentei levar só duas, e mesmo assim fazendo cara de quem não está agüentando. Mas eu poderia levar todas e elas nem iriam fazer cócegas.
Eu tinha arrumado a casa toda para poder receber . De manhã antes de sair para o trabalho eu coloquei toalhas novas à disposição, troquei os lençóis da cama, e dei uma geral no lugar, já que eu quase nunca ia pra lá a casa aos poucos foi criando uma camada de poeira em cima dos móveis. Tirei todos os meus diários da estante e os coloquei em caixas, organizados para que não se misturassem, e deixei a estante livre para colocar o que ele quisesse.
Tudo estava perfeito, somente a espera da vida a dois.
- Pronto. – eu disse colocando as malas em cima da minha cama. – Eu deixei um espaço para você no armário, onde você pode colocar suas roupas e tênis. Tem toalhas novas e limpas também.
- Ei, quando eu vim aqui tinha diários nessas prateleiras, o que você fez com eles? – ele perguntou passando a mão pela extensão da prateleira de madeira escura.
- Eu os guardei em caixas, deixei a estante livre pra você. – eu disse despreocupada colocando as outras malas por cima da cama.
- Não precisava fazer isso.
- A casa agora também é sua, é claro que não é nada perto do luxo que você está acostumado a morar, mas é alguma coisa, e você também tem que ter o seu espaço, meus diários irão ficar bem, não se preocupe com eles.
- Pode deixar que eu arrumo minhas roupas. – ele disse. – não quero te dar mais trabalho.
- Imagina! Mas já que você insiste, eu vou fazer o jantar então.
Eu desci as escadas e fui em direção a cozinha. Na verdade eu não tinha idéia do que fazer para o jantar. Eu não queria demorar, então só coloquei uma lasanha para assar.
Estávamos sentados no sofá comendo a lasanha e eu me lembrei de que no dia anterior ele disse que tinha uma surpresa pra mim.
- , agora que eu lembrei, ontem você disse que tinha uma surpresa pra mim. O que era? – perguntei antes de encher a boca de lasanha e ficar suja de molho.
- Ah, é uma coisa que eu comprei e customizei pra você. – ele disse parecendo indiferente.
- E o que é?
- Depois eu te mostro.
Claro que eu fiquei curiosa, era um instinto natural em mim querer saber de tudo o que acontece ao meu redor. E eu estava pinicando de vontade de saber o que ele tinha comprado pra mim. Tentei prestar atenção no que passava na televisão, mas eu não conseguia me concentrar. Mas aos poucos minha mente foi deixando de lado que eu iria ter uma surpresa e começou a vagar, eu comecei a sentir sono, e como não estava passando nada de interessante na televisão eu comecei a cochilar.
me carregou até minha cama e me cobriu até os ombros, foi quando eu acordei.
- Assim você me deixa mal acostumada. – eu disse sonolenta assustando que se preparava para se deitar também.
- Achei que você estava dormindo. – ele disse se aconchegando ao meu lado.
- Eu quero saber o que você comprou pra mim.
- Você é muito curiosa sabia?
- Sabia.
Ele se levantou e abriu a porta do armário e tirou um embrulho retangular lá de dentro. No início eu achei que fosse um livro por causa do formato. Mas depois que eu segurei o embrulho e o abri, percebi que era um porta-retrato branco com uma foto antiga nossa em que nós dois estávamos correndo pela praia em uma das viagens que nós tínhamos feito.
Em volta da moldura tinha uma frase escrita: “Amor é um marco eterno, dominante, que encara a tempestade com bravura”, de caneta com a letra dele.
- , isso é Shakespeare? – perguntei.
- É sim.
- Não sabia que você era tão culto assim – eu disse encostando a ponta do meu dedo na ponta do nariz dele.
- Eu posso surpreender... Você gostou? – ele perguntou.
- Eu adorei – eu dei um selinho nele como prova da minha gratidão. – Vai ficar aqui.
Eu coloquei o porta-retrato em cima do criado-mudo e fiquei olhando para ele. Nós estávamos tão felizes na foto, correndo pela orla da praia, sorrindo com os cabelos brilhando na luz do sol. Aqueles momentos, mesmo que pequenos eram os que eu mais gostava de lembrar, eu às vezes me perdia nessas lembranças.
- Eu adoro essa foto, acho que ela é a que mais representa o que nós somos juntos, duas pessoas felizes e sem preocupação. Era assim que eu me sentia quando era mais novo, feliz e despreocupado com tudo e com todos. – ele disse encostando-se aos travesseiros e olhando para o teto.
- Eu não acho que nós fazíamos o estereótipo de que todo adolescente é rebelde, para as outras mes da escola eu era estranha, porque não era loira, não usava as roupas da moda, e não andava com outras garotas, eu era morena, que usava calça jeans e camiseta e que andava com garotos. Toda do contra.
- Sabia que esse era o seu charme? As outras garotas só falavam de unhas, cabelo e roupas, sapatos, caras famosos, e a gente pra poder ganhar uns beijos no fim da noite era obrigado a escutar esse tipo de coisa.
- Ah, mas você adorava as garotas vazias, saiu com quase todas do colégio! – eu disse brincalhona dando um soco de leve no ombro dele.
- Claro, fúteis ou não, elas eram garotas! Nenhum cara em sã consciência recusa.
- Mas você não saiu apenas com garotas vazias não é? – perguntei curiosa, apesar de ter passado todo o meu tempo com , tinha muita coisa sobre ele que eu não sabia.
- Não, eu sai com muitas garotas inteligentes, mas quando não é pra dar certo, não dá sabe? Por melhores que elas fossem, não era aquilo que eu queria, sempre faltava alguma coisa. Mas você, você nunca me contou dos caras com quem você saiu. – ele disse se virando de repente para mim.
- Ah, foram poucos... Alguns foram grandes erros, que graças a eles eu aprendi muita coisa. Mas alguns foram marcantes e eu converso com eles até hoje. – respondi, eu não falava dos caras com quem eu havia saído. Não sei se por vergonha ou paranóia mesmo.
- Hm, eu gostava das tardes que você passava na garagem lá de casa. Era divertido, a gente fez um cantinho só nosso, tinha tudo! – ele falava e sorria de um jeito maroto que o fazia parecer um adolescente de novo.
- Tinha um mural onde a gente colocava as nossas fotos, uma escrivaninha onde ficava o computador, um frigobar onde ficavam os refrigerantes...
- Tinha um abajur daqueles com aquela gosma dentro lembra?
- Ah! Nossa, sua mãe deve ter jogado tudo aquilo fora não é?
- Eu creio que sim, depois que nós mudamos para um apartamento, eu não vi grande parte das minhas coisas, algumas fotografias eu consegui salvar como essa do porta-retrato, mas muita coisa se perdeu.
- Eu adorei o presente, o nosso passado anda tão junto com a gente que é como se nós nunca tivéssemos nos separado. – eu disse me aproximando dele.
- Pra mim, nós nunca nos separamos de verdade, tudo bem que dois anos é muito tempo, mas, a memória da gente junto nunca saiu da minha cabeça. Estava tão vivo como se tudo tivesse acontecido no dia anterior.
- Ainda parece que tudo aconteceu no dia anterior, e olha pra gente hoje, os dois crescidos, eu me visto como uma garota agora, e você tem barba, fizemos uma grande evolução.
- Minha mãe ficaria orgulhosa! – ele disse brincando, e preencheu o espaço entre nós dois.

“Às vezes as coisas não acontecem sempre da maneira que nós esperamos. Nem sempre a gente pode escrever o futuro e esperar que ele aconteça da forma de queremos; não é o tipo de coisa que se possa controlar, algumas coisas simplesmente acontecem sem explicação, coisas pequenas que podem mudar todo um curso, ou coisas grandes que poucas vezes não fazem diferença. Eu queria poder prever o meu futuro, infelizmente é uma das habilidades que eu não tenho, isso não pertence a mim, mas se eu soubesse o que iria acontecer no futuro, tudo ficaria tedioso demais, eu saberia do que iria acontecer, eu saberia o que me espera. Eu gosto do elemento surpresa, eu gosto de saber que amanhã é um novo dia e que todo o tipo de coisa pode acontecer, eu gosto de viver intensamente sem saber se amanhã eu vou morrer ou não. Eu gosto de sorrir sem medo de ser feliz.
E eu gosto de estar com ela em todos esses momentos.
&


A partir daquele dia, minha vida deixou de ser simples e sozinha, daquele dia em diante, eu tinha uma companhia a quem dedicar tudo o que eu possuía. Eu tinha com quem compartilhar meus problemas e a quem recorrer quando tudo desse errado. Eu tinha mais do que um conto a ser escrito, eu tinha um conto de fadas.

Capítulo 07 – Control yourself
“Algumas coisas simplesmente não tem explicação, algumas coisas acontecem tão rápido que nossa mente mal consegue acompanhar, algumas coisas simplesmente acontecem. agora mora comigo, e isso, simplesmente aconteceu, talvez porque eu queria que acontecesse, talvez porque ele queria também, talvez porque era o certo a ser feito. O destino conspira contra cada um de nós, está nas mãos dele traçar uma linha na nossa vida, mas está nas nossas mãos decidir seguir ou não essa linha. Por mais que eu não tenha esperado que isso fosse acontecer esse ano, eu estou feliz que tenha acontecido, e assim, vou curtir cada momento ao máximo.”
Alguns dias eu ficava pensando se estava gostando de trocar aquele quarto branco, impecável e luxuoso do hotel pelo meu simples e pequeno apartamento, ele dava sinais de que estava gostando, já começava a espalhar as coisas dele pelo quarto e a dormir mais despojadamente, mesmo que a definição de despojado dele seja: com a mão na minha boca.
Ter ele por perto fazia uma enorme diferença depois de tanto tempo morando sozinha, a casa se enchia de uma alegria sem igual, poder ouvir os batimentos cardíacos de outra pessoa era confortável, quase uma melodia. Eu passava a maior parte dos meus dias ultimamente equilibrando a semana de provas com o trabalho de meio período, justamente agora que o movimento na loja tinha aumentado eu tinha que estudar para os exames finais do período.
às vezes me ajudava a estudar, me fazendo perguntas sobre a história da arte e essas baboseiras que eu não concordo em ter que estudar, mas ele não era um bom professor:
- Qual o nome do cara louco que não tinha orelhas e que sua arte vale milhões, mas ninguém entende o que ele pintou? – perguntava com um sorriso malicioso.
- assim não tem graça, eu preciso estudar! – eu dizia irritada tirando o livro com força das mãos dele. – eu não sei nada sobre esses caras estranhos que pintavam esses quadros mais estranhos ainda e que as pessoas precisam ser mais estranhas do que eles para poderem entender!
- Não é tão difícil assim, cada pintor tinha uma mania diferente, um jeito diferente de pintar, alguns pintavam com traços geométricos, olha essas cubos e triângulos nas pinturas – ele disse apontando para uma figura que não fazia sentido nenhum aos meus olhos – alguns fazem traçados mais fortes, outros tentam captar expressões de terror como essa aqui do grito, outros simplesmente rabiscam e ainda sim captam a essência de alguma coisa.
Eu olhava boquiaberta para ele enquanto ele falava de arte, quem poderia imaginar que algum dia entenderia de arte? Talvez a arte da pornografia, dos desenhos nas carteiras da escola, mas nunca, nunca mesmo a arte clássica com nomes tão importantes como Van Gogh e Picasso.
- O quê? – ele disse quando percebeu que eu olhava espantada para ele.
- Minha mente não consegue processar o que meus ouvidos estão captando – eu disse.
- Eu já te disse que eu posso surpreender! Por que ninguém acredita em mim? – ele disse parecendo chateado, mas não passava de mais um de seus draminhas baratos.
- Dramático. – eu disse por fim folheando mais o livro de um milhão de páginas no meu colo, cheio de letrinhas miudinhas e grandes gravuras que eu havia pegado na biblioteca da faculdade.
A biblioteca era imensa, com suas prateleiras de madeira e seus arquivos gigantescos, era um lugar calmo, com poucos alunos circulando por entre seus corredores de volumes de todos os assuntos. Nem preciso dizer que aquele era o meu paraíso. Diversas vezes eu me deparava analisando as prateleiras desde a mais alta até a última para tentar pegar algum livro para passar o tempo. A minha vontade era de levar todos para casa, mas infelizmente o lugar tinha uma política de um livro de cada vez.
A faculdade ia ficando cada vez mais familiar para mim, era um lugar em que eu me sentia bem, em que eu podia me expressar através das minhas fotos. Na última semana os alunos do primeiro período fizeram uma exposição de fotos de variados assuntos, que ficou afixada pelos corredores da instituição; eu ficava envergonhada quando escutava alguém elogiar uma fotografia minha, e ao mesmo tempo orgulhosa por fazer com que as pessoas gostassem do meu trabalho.
Faltavam poucos dias para o começo do recesso de três semanas da faculdade, e nesse curto espaço de tempo estávamos recebendo nossas notas dos exames finais, fiquei bem surpresa ao ver que eu tinha ido muito bem em todas as matérias, até mesmo nas mais chatas, o que rendeu vários apelidinhos carinhosos vindo de .
- Eu sempre soube que você era uma nerd. – disse enquanto comiamos pizza de calabresa e assistíamos “Os Simpsons”.
- Eu nunca escondi que era uma nerd, você já sabia disso desde o começo. – eu disse tentando parecer indiferente diante do comentário dele, não que eu não gostasse de ser inteligente, mas os rótulos que eram postos de acordo com a capacidade das pessoas sempre me incomodaram.
- Isso é verdade... Nenhuma garota ficaria horas na frente de um computador tentando me vencer em algum joguinho, a maioria delas provavelmente estaria no computador fofocando com alguma amiga.
- Ei! Isso é muito preconceituoso! Só porque uma garota está mexendo em um computador não quer dizer que ela está fofocando com uma amiga! – olhei de cara fechada para ele diante daquelas palavras. – vocês homens são inacreditáveis!
- E vocês mulheres não são previsíveis, então, nós homens tentamos descrever um padrão para vocês. – ele disse indiferente.
- Querido, mulheres não seguem padrões, isso é coisa de homem.
Ele ficou fitando a televisão por um longo tempo, dificilmente eu ganhava uma discussão com , ele sempre me vencia com algum comentário espertinho que me deixava sem respostas, acho que no final das contas ele gostava mesmo era de me ver com cara de boba pensando em alguma resposta.
- Esse silêncio todo quer dizer que eu ganhei de você? – eu disse limpando os dedos em um guardanapo.
- Eu estava pensando aqui, você realmente não segue nenhum padrão, você é livre e pensa no que te dá vontade de pensar, você faz o que você quer, fala o que bem entende, eu nunca vi uma garota com tal atitude, é claro que eu já conheci umas encrenqueiras que falam o que querem nas horas mais inapropriadas, mas você não é assim. Eu pelo contrário fico no meu círculo vicioso, acordo, trabalho, como, me deito com a minha mulher, e no outro dia tudo de novo. – ele disse enquanto brincava com os dedos e olhava para baixo, colocando todo um toque dramático ao seu monólogo.
- Que deprimente, já pensou em fazer terapia? – eu disse sem me convencer com todo o teatrinho dele, eu sabia que ele queria vencer a discussão, mas eu não queria dar trégua a ele.
- É, tudo bem, dessa vez você venceu, mas só dessa vez. – ele disse olhando para mim e deixando de lado todo o seu teatro.
- FINALMENTE! – eu pulei em cima dele e lhe agarrei o cabelo – finalmente eu ganhei uma! Eu já não aguentava mais ser humilhada pelas respostas espertinhas!
- Não fiquei tão empolgada, sempre tem revanche. – ele disse bagunçando todo o meu cabelo.
Tudo sempre se tornava brincadeira entre mim e , uma simples conversa sempre terminava com os dois rolando pelo chão tentando ver quem desistiria primeiro; ele era um chato de galochas, com suas gracinhas, mas era ele quem mantinha o meu bom-humor vivo até mesmo nas horas mais difíceis. Naquele momento estávamos mais uma vez atracados um no outro, eu puxando-lhe os cabelos e ele apertando as minhas bochechas, mesmo com o rosto todo esticado graças aos puxões potentes eu ainda estava morrendo de rir da cara de dor que ele fazia a cada vez que eu aumentava a força puxando seu cabelo.
Ele começou então a me fazer cócegas com a intenção de eu soltar seu cabelo, eu tinha a impressão que talvez se eu soltasse o seu cabelo metade ficaria em minhas mãos. Eu não suportava as cócegas, me contorcia e começava a faltar ar, tudo o que minha mente queria era que parasse de me fazer cócegas.
De repente os olhos dele ficaram fora de foco e as cócegas pararam instantaneamente, achei que talvez ele estivesse tendo um ataque ou coisa assim, por segundos eu fiquei desesperada, tudo pareceu estar acontecendo em câmera lenta, e segundos depois seus olhos voltaram ao foco e ele piscava desorientado enquanto se encostava no sofá.
- está tudo bem? Eu te machuquei? – eu poderia tê-lo machucado, eu não estava controlando minha força.
- De repente ficou tudo escuro e eu não tinha controle dos meus braços, ficou tudo dormente... E eu não sei o que aconteceu. – ele disse massageando o local onde minhas mãos há poucos instantes estavam puxando loucamente seu cabelo.
- desculpa, eu devo ter te machucado, vamos, vamos pra cama, o dia hoje foi cheio. – eu o ajudei a levantar, ele ainda estava meio desorientado tentando entender o que tinha acontecido, mas eu já sabia.
Por mais que eu tentasse controlar as coisas que aconteciam no meu interior, às vezes elas vinham à tona pelo mais puro instinto de proteção. Naquele momento da brincadeira, tudo o que minha mente queria era que parasse com as cócegas, e foi exatamente o que aconteceu, ela fez com que parasse, ela simplesmente o bloqueou, o privou de um sentido importante, a sua visão, e posteriormente o privou de seus movimentos.
Eu fiquei assustada por ver imóvel, mas mais assustada ainda por saber que eu estava fazendo aquilo, mesmo sem querer. Quando eu estava com ele, minhas emoções ficavam tão claras e vivas que às vezes era impossível de controlá-las, logo eu teria que contar a ele o que acontecia comigo, mas eu tinha medo que isso pudesso fazer com que ele se afastasse de mim, com medo.
Subimos as escadas e ele se deitou em seu lado da cama e ficou olhando para o teto, sem rumo, sem foco, apenas olhando e pensando, eu estava curiosa para saber no que ele estava pensando, mas decidi que eu não tinha o direito de invadir seus pensamentos apenas para saciar a minha curiosidade.
Sentei-me ao seu lado e puxei o notebook para o meu colo. Há muitos dias eu não conversava com meu pai, ele andava sumido demais, talvez por causa do trabalho, ele sempre fora tão dedicado, mas não era de seu feitio ficar tanto tempo sem dar notícias.

“Pai. Você anda sumido há muito tempo, está acontecendo alguma coisa? O senhor está me deixando preocupada. Me responde o mais rápido possível, por favor. Beijos .”

Enviei o email e fiquei com a esperança de que ele me respondesse o mais rápido possível. Morto eu sabia que ele não estava, eu podia sentir ao longe a sua presença, distante, mas ainda estava lá. Mas não fazia a mínima idéia do que poderia estar acontecendo.
não tinha se mexido nem um centímetro na cama, continuava a fitar o longe, quase não piscava.
- Qual o problema? – eu perguntei me aproximando mais dele e me deitando ao seu lado.
- Eu só estava imaginando o que poderia ter acontecido. Em um segundo você estava lá toda sorridente em cima de mim, nós dois estávamos nos divertindo mesmo com você arrancando todos os meus fios de cabelo, e um segundo depois ficou tudo escuro, e eu não podia me mexer. Será que tem algum problema comigo? – ele respondeu me olhando aflito. Eu queria poder contar a verdade a ele, e tentar sumir com toda aquela aflição, mas eu ainda não podia.
- , para de besteira, não tem nada de errado com você. Foram só alguns segundos, sua pressão deve ter baixado muito e ficou tudo meio escuro, mas deve ter sido só isso, mais nada. – eu tentei acalmá-lo com essa mentira, eu não queria que ele ficasse desesperado.
- Eu não quero ficar cego, nem quero perder meus movimentos, eu não quero te perder. – ele me olhava mais aflito ainda, com aqueles pequenos olhos que naquele instante tomaram dimensões tristonhas e aflitivas.
- Ei, para de falar besteira, ninguém aqui vai ficar cego e nem paralítico, e você também não vai me perder. – eu o abracei e o senti me envolver em seus braços e me apertar, como se ele tivesse medo de que eu pudesse desaparecer. – não foi nada, não se preocupe, vai ficar tudo bem.
Eu tinha certeza de que tudo ficaria bem, mas não podia negar que ele estava com medo, eu podia sentir a fina camada de suor frio que cobria seu corpo, via a leve palidez que sua pele tinha adquirido depois do susto, e escutava seu coração acelerado. Ele era tão forte, e ao mesmo tempo tão frágil, como uma lâmpada, ele gerava calor e iluminava, mas que ao mais simples tombo se quebrava. Mas eu não deixaria essa luz se apagar.

Fins de semana são como bolos de chocolate de padaria, você vê a aparência, espera que ele seja tudo o que você imagina, mas nunca sabe o gosto antes de prová-lo. Mal começava a segunda feira e eu já ficava desesperada pelo fim de semana, acho que todo mundo é assim, desesperado por um tempo da rotina cansativa do dia-a-dia da cidade grande.
Tudo o que eu queria era poder acordar tarde, sem me preocupar se eu tenho que trabalhar ou estudar, poder comer com calma, sentada em um sofá ou em uma mesa, ao invés de comer correndo pelas ruas, e ficar o dia todo sem fazer absolutamente nada. Isso seria algo que uma pessoa comum faria, mas eu definitivamente não sou uma pessoa comum.
- O que você acha da gente fazer alguma coisa diferente esse fim de semana? – perguntou quando eu estava escovando os dentes, ele tinha acordado antes de mim, como sempre, e já estava todo animado na porta do banheiro.
- Hãm? Espera eu acordar primeiro.
A nossa rotina é simples: eu sou preguiçosa, e ele é animado; eu sou lenta, e ele faz tudo na velocidade da luz; eu gosto de prazos, ele não se importa com o tempo; eu arrumo, ele atrapalha. Nunca tinha entendido muito bem aquela frase dos opostos se atraem; porém agora ela faz mais sentido.
- O que mais de diferente a gente pode fazer no fim de semana? – perguntei enquanto sentava ao seu lado no sofá da sala.
- Não sei, eu quero fazer alguma coisa, mas fora da cidade, estou cansado desses prédios enormes, desse cinza monótono do céu, do barulho... Já sei! – ele disse entusiasmado de repente.
- Por que eu tenho o pressentimento de que boa coisa você não está pensando? – olhei desconfiada para ele, seus olhos brilhavam de excitação e um sorriso largo e sincero se espalhava pelo seu rosto fino e branco.
- Nós vamos acampar! – se fosse mais afeminado, nesse momento ele estaria dando pulinhos no sofá e batendo palmas. Mas ele se conteve.
- ACAMPAR? Meu Deus! Eu nunca imaginei que você algum dia fosse fazer essa proposta. – disse assustada, não era do tipo que acampava.
- Tudo bem, qual o problema de acampar?
- Nenhum, só que eu não tenho registros de você falando que acampou.
- Exatamente, eu nunca acampei, por isso acho que devemos ir! Então, o que você acha? – ele me olhava estranhamente sedutor, com uma sobrancelha levantada.
- Tudo bem, posso saber em que você está pensando? – perguntei, mesmo já sabendo a resposta.
- Sabe, a gente mora na mesma casa, já tomamos banho juntos, conhecemos muito um ao outro, você assim, não acha que está faltando alguma coisa não? – ele disse com tom de quem não quer nada, mas com certeza estava querendo alguma coisa.
E eu sabia o que ele queria, sabia que ele queria dormir comigo, sabia e muito bem ainda por cima, mas por mais íntimos que nós fossemos, esse ainda era um assunto um pouco polêmico para mim. Não me faltava vontade, mas sobrava vergonha, e eu pensava que se um dia eu fosse fazer isso, eu queria que fosse especial e único.
- Não acredito que vamos ter essa conversa, mas, eu acho sim que falta alguma coisa, mas, eu não sei se ainda é hora de incluirmos isso na nossa vida, não por enquanto.
- Mas por quê? Todo mundo faz, e a gente mora junto, vive junto, somos quase casados. – ele insistiu.
- Olha, eu quero, mas não ainda, eu quero que seja diferente, eu ainda não estou no momento para isso, e não quero que a nossa primeira noite juntos seja no meio do mato, numa barraca de acampamento.
- Pensando por esse lado, talvez não seja lá uma boa idéia mesmo. – ele disse com cara de derrotado.
- Desculpa, mesmo, mas ainda vai chegar a minha hora, e eu sei com quem eu quero que isso aconteça. – pousei a mão em sua face e descrevi semi-circulos com o polegar, os fios da barba começavam a apontar e já pinicavam, ele era assim, tudo o que eu mais apreciava em um só pacote que estava sentado bem no meu sofá, como eu podia negar algo para ele?
- Me conta quem é esse cara que eu vou quebrar a cara dele – ele disse brincalhão como sempre. – escuta, eu não quero te forçar a fazer nada, você faz o que você quiser e quando bem entender, é só que eu pensei que talvez você já não estivese querendo nada comigo, não sei ao certo porque eu pensei isso, demore o tempo que você precisar, eu vou estar aqui, não importa o que acontecer.
- Eu te amo, não importa o que eu diga a você, não importa nada que aconteça conosco, eu sempre vou sentir isso por você, eu sempre serei sua, única e exclusivamente sua.
- Então, isso é um sim? Vamos acampar?

Capítulo 8 – Camping
O que eu mais gostava na minha vida era como ela era imprevisível, em uma hora eu estou acordando e na outra eu já estou em uma estrada longingua e vazia com longas faixas pela sua extensão e margeada por longas árvores de um verde glorioso. Eu adorava todo o contato que eu tinha com a natureza, eu adorava sentir o vento passar pelo meu rosto, a maneira como ele eriçava o meu cabelo, eu gostava de sentir a textura das árvores sobre as minhas mãos, eu gostava de ver como a natureza era algo que nós não podemos manipular, apenas admirar.
Enquanto se enrolava com a barraca, eu dei a desculpa de que iria procurar alguns gravetos para fazer a fogueira. Era apenas uma desculpa, eu queria mesmo era sentir o vento mais frio do alto da copa das árvores passar pelo meu corpo. Tinha muito tempo que eu não voava, que eu não me libertava; meu disfarce de pessoa normal não me permitia voar mais pelos céus como eu tanto gostava.
Eu sabia que chegava o dia em que eu teria que dizer a e a mim mesma quem eu era, às vezes eu pensava que eu não me aceitava, eu tinha lá minhas habilidades, mas estava sempre lutando para escondê-las de alguém, as usava em segredo, eu tinha tudo só para mim. Eu sempre quis alguém para compartilhar o que eu tinha, mas nunca havia confiado tanto em alguém, e eu sabia que eu poderia contar a . Eu apenas tinha esperar o momento certo.
Desde sempre eu tinha me acostumado com a ideia de que eu era a única em todo o mundo que tinha esse poder, mas desde a chegada daquela garota loira e misteriosa eu estava ficando preocupada, eu não tinha conseguido ler a mente dela, ela simplesmente tinha me bloqueado, e eu estava tão frustrada com isso, meus poderes falharam quando eu mais precisei deles; por dias eu tentei não pensar que isso tinha acontecido, tentei colocar em minha mente que ela era uma garota normal, que entrou na loja por acaso e que por coincidência eu não consegui ler a mente. Coincidentemente, minha mente não aceitava essas afirmações.
O vento frio do alto da montanha me ajudava a refletir, estar em contato com algo tão majestoso era gratificante, saber que eu era diferente, mas ao mesmo tempo estava incluida naquele mundo, minha relação com a natureza era essa, eu me sentia parte daquele mundo, um lugar onde não há julgamentos em que eu posso me libertar e viver como se tudo que eu tenho fosse comum.
Deixei de lado meus devaneios e procurei alguma lenha para montar a fogueira, o dia já estava escurecendo e dando espaço a escuridão que a noite trazia consigo, o céu tinha tons amarelos, alaranjados e vermelhos, como tintas derramadas acidentalmente em um papel azul.
Na clareira, já havia armado a barraca, compramos a maior da loja, todo mundo sabe que quando dois sem noção vão as compras, nada vem no tamanho e na quantidade certa, conosco não poderia ser diferente não é? Compramos mantimentos que agora analisados, poderiam acabar com a fome no mundo, e um colchão inflável king-size, claro, era espaçoso demais para poder dormir em um colchão normal.
- Você demorou – ele disse saindo da barraca ao ouvir meus passos. – sabia que eu não podia deixar você ir pegar lenha sozinha, mulheres são molengas.
- Ei, mal agradecido, graças a minha vagarosidade você terá lenha para aquecer esse traseiro branquelo seu! – eu disse fazendo pose de irritada, mas na verdade era comum nós trocarmos insultos como esse.
- Você tem ficado muito engraçadinha de uns tempos pra cá! Não te reconheço mais. – ele disse fingindo desapontamento na voz.
- Anda, para de falar besteira e acende logo essa fogueira, daqui a pouco vai ficar tão escuro que você não vai nem conseguir achar o zíper da sua calça.
- Eu tenho algum volume aqui que vai me ajudar a me guiar. – ele disse erguendo uma sobrancelha e fazendo a cara mais sexy que eu já tinha visto em toda a minha vida. As coisas estavam começando a mudar entre eu e ele, a atração estava cada dia mais forte, e a cada dia meu corpo pedia mais o dele, a cada minuto eu precisava mais dele, eu já não sabia mais quanto tempo eu poderia aguentar ficar sem ele.
- Exibido – tentei parecer indiferente mesmo sabendo que no fundo eu queria saber mais sobre ele.
Sentada vendo o fogo crepitar eu me lembrava da minha infância, quando eu era mais nova, meu pai uma vez tinha me levado para acampar, a gente se sentou ao redor da fogueira e ficamos contando histórias à noite toda até eu adormecer em seus braços. Diversas vezes eu sentia falta da presença dele. Ele estava demorando a responder meu email, e eu estava pensando que se ele não respondesse logo, eu iria até ele descobrir o que estava acontecendo.
Quase não percebi que tinha se sentado do outro lado da fogueira e dedilhava algumas notas no violão. Minha canção favorita, ”Wherever You Will Go” ele não tinha esquecido nem mesmo da minha música preferida. Ver sua silhueta do outro lado da fogueira, trocando precisamente de notas de acordo com a canção, entoado a música com uma voz levemente rouca e ritmada, me fez pensar em como eu o amava.
Ele cantava e olhava direto para mim, dentro dos meus olhos, como se ele conseguisse analisar toda a minha alma, todo o meu passado, presente e futuro apenas me observando, e eu simplesmente não conseguia parar de olhá-lo, aquela figura me hipnotizava, me deixava em um mundo completamente distante do que todos estão, completamente em transe com sua imagem. Peguei minha câmera e tirei uma foto dele enquanto ele olhava para o braço do violão para trocar a nota.
Quando de repente eu escuto ele gritar, e jogar o violão para o alto, olhei assustada para ele, tentando entender o que estava acontecendo, ele correu para a barraca e procurava alguma coisa desesperadamente dentro dela, olhei para onde ele a poucos instantes estava cantando e tocando e vi algo se mexendo, focalizei melhor minha visão e vi que era uma cobra, não daquelas gigantescas iguais as dos filmes, mas uma cobra grande que se enrroscava em volta de si mesma pronta para a qualquer momento dar o bote no primeiro que ficasse a sua frente.
Fui o mais rápido que eu pude até o outro lado da fogueira enquanto ainda procurava alguma coisa qualquer que pudesse matar a cobra dentro da barraca, e ergui a mão lentamente em direção a ela, assustada a cobra projetou seu corpo em direção a minha mão, com as presas finas e ocas como agulhas a mostra, com reflexos mais rápidos, eu a segurei pela cabeça sentindo a textura fina de suas escamas tocarem a minha pele quente, a cobra se debatia loucamente querendo se soltar, até parar e ficar imóvel, a espera de ser morta ou libertada, rapidamente eu ergui voo e a jogei o mais longe que pude, talvez com a queda ela morresse, mas eu não estava me importando tanto com isso.
Corri até onde estava e encostei em seu braço que estava coberto por uma camada de suor frio. Ele olhou com olhos astutos para mim, procurando o dono do toque em seu braço e uma pontada de preocupação passou por seus olhos.
- Você está bem? Onde está a cobra? Ela te mordeu? Aconteceu alguma coisa? – ele perguntava freneticamente, quase sem piscar ou respirar, me segurando fortemente pelos ombros, percebi que ele não estava com medo da cobra, mas com medo do que ela pudesse fazer comigo.
- Calma , a cobra se assustou com você e foi embora, você está pálido e suando, não precisa disso tudo, já acabou. – eu disse tentando acalmá-lo segurando firmemente em seus ombros o incentivando em afrouxar o aperto em meus braços.
- Desculpa, eu fiquei assustado, e vim procurar alguma coisa que pudesse matar a cobra, fiquei preocupado, achei que fosse acontecer alguma coisa com você. – ele se sentou perto da fogueira novamente, e colocou o rosto entre as mãos, o típico gesto que ele fazia quando estava estressado ou nervoso.
- Tudo bem, não aconteceu nada, vamos tomar um banho? Tem uma cachoeira bem aqui perto, a gente poderia entra na água, apesar de que ela deve estar super gelada uma hora dessas.
Eu conseguia escutar o barulho de água caindo e se encontrando com as pedras lisas, sentia até o cheiro da água, aquele cheiro limpo, sem pesos da água corrente. Saímos da mata e o que eu vi supera todas as visões que eu já tive, era uma cachoeira pequena, com um pequeno lago de forma redonda, margeado por árvores que alguns de seus galhos ficavam por cima da água criando um telhado improvisado. A lua estava bem acima daquele lugar naquele momento, dando a todas as folhas, pedras, galhos, e água um tom prateado encantador.
Entramos hipnotizados na clareira, e por um instante ficamos apenas olhando ao nosso redor, tentando absorver tudo, para que ficasse gravado em nossa mente e se imortalizasse ali.
- Como você conseguiu descobrir essa cachoeira? – perguntou me tirando do transe.
- Quando eu estava procurando lenha vagarosamente, mas eu não tinha chegado a vê-la, eu só tinha escutado o barulho da água. – respondi olhando a luz prateada projetada no rosto de , fazendo seus fios de cabelo tomarem um tom cinza e brilhante.
olhou para mim, e ficou me encarando, por um minuto eu queria perguntar o que ele tanto olhava, mas eu não conseguia formar palavras, meu cérebro pareceu se desligar, nada naquele momento importava para mim, eu não via nada além de , eu não escutava nada além do som tranquilizante da água caindo lentamente. Ele se aproximou de mim e me envolveu pela cintura, eu coloquei meus braços em volta de seu pescoço, ele olhava para mim, em meus olhos, apenas para eles, com um olhar atento, lentamente o foco nos meus olhos foi sendo mudado para baixo. Em segundos minha boca já estava colada a sua.
Ele fazia movimentos suaves, tranquilos, pacientes e apaixonados. Todos os seus beijos eram assim, até mesmo os rápidos, me passavam um carinho que nenhuma carícia era capaz de transmitir, me traziam segurança como ninguém era capaz de me trazer. Ele segurou a barra da minha blusa e a levantou lentamente, subindo em direção a minha cabeça, eu poderia parar tudo naquele momento, simplesmete interromper o beijo e abaixar a blusa, mas eu estendi meus braços para que ele pudesse tirá-la com mais facilidade.
Tudo pareceu ficar claro naquele momento, era apenas a ele que eu queria, e era apenas a ele que eu pertencia. Eu fazia caminhos por todo o seu corpo com as mãos e sentia a pele quente dele por baixo da camisa, levemente suada, sentia todas as curvas de suas costas, cada músculo, cada pedacinho de pele era sedutor.
Lentamente levantei sua camisa, e ele me ajudou a passá-la por seu pescoço bagunçando levemente seu cabelo. Aos poucos as carícias iam aumentando e meu corpo já estava colado ao dele, tentando impedir qualquer espaço que pudesse haver entre nós, vagarosamente, quase sem eu perceber ele desabotoou meu short, que escorreu por minhas pernas até o chão. Todo o meu corpo estava em alerta, cada centímetro do meu corpo gritava pelo dele, cada pedaço estava sensível, cada toque dele me fazia arrepiar e sentir um frio na barriga.
Dasabotoei sua bermuda que escorregou com a mesma facilidade que a minha, mas a dele devido ao fato que ele usava calças e bermudas largas que deixavam uma boa parte de sua cueca a mostra. Ele passou a mão pela extensão de minha perna e agarrou as minhas coxas e me tirou do contato do chão, me agarrei forte ao seu pescoço para ajudá-lo a me carregar com mais facilidade, e ele caminhou sob a luz prateada da Lua que nos observava de cima.
Senti o toque da água fria de encontro com a minha pele quente, que me fez gemer alto e apertar os braços que envolviam , ele caminhava para o fundo, até a água chegar pouco depois da altura de seu peito, ele me agarrava pela perna, seu aperto ia ficando cada vez mais desesperado, suas mãos procuravam por todo o meu corpo me arrancando suspiros e arrepios. Habilibosamente ele soltou a parte de trás do meu sutian e o puxou de leve sobre meus braços, e ficou ali olhando para a minha pele desoberta, com o olhar perdido, que me fez rir de leve, ele olhou para mim, admirado, e encostou de leve os lábios sobre meu pescoço, desdenco lentamente os beijos, com os lábios e o nariz frio enconstando em minha pele que parecia em brasa. Ele riu contente da minha excitação, contente por ele causar o mesmo que eu causava nele, eu sentia o volume bem definido entre minhas pernas, o que me tirava ainda mais a concentração do que acontecia ao meu redor, com os gestos delicados ele puxou a barra da minha calcinha com os dedos agéis, enquanto eu puxava sua boxer com os dedos dos pés. Senti-lo daquela maneira era diferente de tudo o que eu poderia algum dia ter experimentado. Ele sorria levemente para mim, enquanto eu sentia minhas bochechas ficarem vermelhas e quentes.
Aos poucos, só o seu toque já não me satisfazia mais, eu queria mais, meu corpo pedia mais, meu subconsciente queria mais. Senti se mexer sob a água e senti a pontada aguda em mim, que me fez arquear um pouco. Ele olhou para mim todo preocupado e cuidadoso, e eu acenei afirmativamente para ele. Ele prosseguiu lentamente, e eu sentia a dor que se espalhava até meu abdomen. Respirei fundo e relaxei, aos poucos a dor diminuiu e eu pude sentir tudo o que o meu corpo tanto pediu. Naquele momento eu já não era mais garota ou me, eu era uma mulher, experimentando sua primeira noite de amor sob a luz do luar, com a pessoa que ela mais amava em todo o sistema solar.

“Quantas garotas conseguem realizar seu sonho de uma primeira noite de amor no melhor estilo conto de fadas? Tudo o que eu mais queria naquele momento se tornou realidade, agora eu tinha todo em mim, e todo para mim. Nós já não éramos dois, éramos apenas um só, um só corpo, um só sentimento. O amor as vezes pode ser cruel e não responder a todas as nossas expectativas, mas muitas vezes pode ser mágico, essa noite irá ficar para sempre em minha memória, ela irá se estender por todos os anos da minha vida, e eu ficarei feliz em lembrar que ela aconteceu, ficarei orgulhosa de ter deixado que ela acontecesse. Mas, so ficarei completamente feliz se eu tiver ao meu lado para poder lembrá-la comigo.
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P.S.: Essa será a minha melhor memória, meu melhor momento, você é tudo o que eu poderia desejar, você é simplesmente minha agora, tudo o que eu quero é poder estar com você a cada momento, e poder te tocar, te ter para mim em qualquer momento. Da vida, você só escolhe os melhores momentos para serem lembrados, esse dia, eu nunca terei que escolher lembrar, ele vai sempre estar afixado em minha mente. E estará constantemente presente em meu pensamento.
P.S. 2: Adoro isso de pegar seus diários e escrever meu ponto de vista!


Capítulo 09 – Encontro Inesperado
“Poucas experiências na nossa vida são únicas e exclusivas, escrever é uma delas para mim, as palavras são como fotografias em forma de letras, e quando eu escrevo eu pareço fazer parte de outro mundo, aqui eu posso ser quem eu quiser, posso estar onde eu quiser, posso fazer o que eu quiser, é uma forma de fugir da implacável realidade que me cerca todos os dias, queria eu pode construir um mundo a minha maneira, criar minhas prórpias regras, tudo de acordo com a minha imaginação, mas por um motivo ou outro eu ainda não tenho esse poder.”

Sentada em um galho de árvore primaveril eu via a cidade desabrochar ao meu redor, essa era a minha época preferida do ano, o parque ficava colorido, cheio de pequenos animais e pessoas com suas vestes curtas e graciosas. O vento não era frio mais, agora era apenas uma leve brisa morna que sacudia a barra de algumas saias e bagunçava cabelos.
Eu tinha conseguido um tempo para almoçar, mas decidi comer só um cachorro quente e aproveitar meu tempo livre, eu gostava de pensar nas coisas às vezes, recapitular assim por dizer. O que mais tinha me marcado ultimamente foi a minha primeira noite junto com , foi um momento tão inexplicável, que talvez não haja palavras que possam descrevê-lo.
Eu estava em um momento de absoluta felicidade na minha vida, tudo aconteceu rápido, mas agora parece que a eternidade se estende a nossa frente.
Ouvi passos abaixo de mim e uma figura loira de pele alva se sentou no banco com um copo de café e um jornal, não foi preciso mais do que alguns segundos para eu reconhecer , fiquei admirando os seus jestos, pode parecer psicopata da minha parte, mas era divertido observá-lo, ver o padrão de seus movimentos, descobrir novos gestos que passam despercebidos às vezes, ele de alguma forma parecia novo para mim, mais maduro, mais alto, mais forte, mais... Tudo bem, estamos perdendo o foco aqui.
Enquanto eu o observava, senti meu coração gelar em meu peito, esse nunca foi um bom sinal, geralmente ele me alertava que eu estava prestes a ser atropelada por um avião enquanto eu voava, ou que algo ruim iria acontecer a alguém. Olhei apreensiva para , e vi uma mulher de cabelos platinados se aproximar dele, aquela mesma mulher que me frustrou tanto quando eu não consegui entrar em seus pensamentos.
- Oi, desculpe incomodar você, mas você poderia me informar como eu faço para chegar até o Hotel Pallace? – ela perguntou com sua voz sedutora e calma.
- Hm, você tem que seguir até o final do parque por ali e depois entrar na primeira rua... – disse gentil.
- Ah, muito obrigada, eu estou rodando por aqui há horas perdida, eu sou nova na cidade e não conheço muita coisa, talvez você pudesse me ajudar a chegar lá? Do jeito que eu sou com certeza eu vou me perder de novo. – tudo bem, todos sabemos que essa é a desculpa mais fajuta do mundo né? E já que concordamos, todos sabemos também que ela não era nova coisa nenhuma na cidade, agora essa vadia loira está dando em cima do meu namorado, ah não, essa eu não vou deixar passar. Antes que pudesse responder alguma coisa eu desci da árvore e dei a volta por ela.
- meu amor! Que surpresa encontrar você aqui no parque à uma hora dessas! – eu disse me sentado ao lado dele e o abraçando sem me importar que a expressão do rosto da garota tinha deixado de ser amigável para ser ”na primeira oportunidade que eu tiver eu te mato”.
- ! Nossa eu estava aqui ajudando essa garota a encontrar o Pallace... – ele começou a dizer, parecia meio constrangido, mas ele iria superar.
- Ah, claro, e você já explicou não é? Você pode ir agora antes do escurecer, o parque fica assustador à noite – acrescentei a minha ameaça o olhar mais furioso e penetrante que eu tinha, ela pareceu entender o recado não-verbal.
- Ah, obrigada mais uma vez, acho que essa é minha deixa para ir embora, talvez a gente se encontre mais vezes, seria um prazer. – ela juntou a sua bolsa para mais perto do corpo e deu meia volta saindo deslizante entre as árvores floridas da estação.
- Eu não acredito nisso! – eu disse olhando furiosa para – você iria aceitar o pedido dela e levá-la até o Pallace se eu não tivesse chegado?
- Ei, não vá fazendo suposições dessa maneira! Eu ia dizer a ela que eu tinha que voltar ao trabalho e que não poderia, mas você nem ao menos deixou que eu começasse a falar! Sua ciumenta, você acha mesmo que eu faria isso com você?
- Olha, eu espero que você não faça mesmo, porque se você o fizer, eu vou atrás de você, onde quer que você esteja, e vou te fazer sofrer miseravelmente – eu disse e sai apressada do banco a passos largos e duros.
Eu sei, eu sei, eu fui dura demais com ele, afinal ele não tinha feito nada de errado, eu nem tinha dado a chance para ele poder falar alguma coisa, sentia meu coração pesar naquele momento, eu tinha feito errado em tratá-lo daquela maneira, mas eu ainda não posso voltar no tempo e concertar as minhas besteiras. A furia tinha subido a minha cabeça, aquela garota estava tramando alguma coisa, de tempos em tempos ela aparecia como se quisesse estudar o local, eu senti que algo me observava por semanas, e já que agora eu sei que ela é diferente de todas as pessoas que eu conheço não restam muitas dúvidas de que era ela quem estava me observando e que o cabelo loiro que eu vi desaparecer da janela do meu quarto uma vez sem dúvida pertencia a ela.
iria ficar muito tempo com raiva de mim, se eu o conhecia bem, hoje ele nem iria olhar nos meus olhos, iria comer alguma coisa e ir dormir mais cedo que o normal, odiei ter falado aquilo com ele, ele não merecia, ele tem sido tão bom para mim, tirando todo o meu estresse e minha preocupação. Voltei até a loja e pedi para sair mais cedo, Giorgia tinha deixado afirmando que o movimento não estava grande naquele dia.
Fui para casa da maneira que eu mais gostava de ir, voando, mas não fui direto para lá, fui até um dos meus locais preferidos depois do parque, o alto da ponte, eu gostava de lá pq eu via a cidade toda, e era calmo, não era como sentar em cima da Estátua da liberdade ou do Empire State que ficam abarrotados de turistas tirando fotos de cada prédio da cidade.
Ali eu conseguia pensar, eu conseguia colocar minha mente no lugar, mas a mesma sensação de perigo não tinha saido de mim, de minuto em minuto eu recebia uma descarga de adrenalina que fazia meu estômago gelar, seja lá o que era, parecia estar com muita raiva, foi quando eu me dei conta, se eu não podia entrar na mente daquela garota loira, se eu sentia que ela estava por perto nos locais menos aconselhados para humanos, só podia significar que ela, ou era igual a mim, era bem parecida.
Meu coração gelou naquele momento, senti um forte aperto no peito, meu corpo parecia que interagia com o meio ambiente e me alertava que algumas coisas eram perigosas demais e que eu deveria me afastar, mas a minha mente não queria simplesmente fugir, ela queria saber mais; olhei ao meu redor e lá estava ela, a garota de cabelos loiros, com um sorriso bestial estampado em seu rosto, parecia se deliciar com a minha figura.
Ela voou rapidamente até onde eu estava e se colocou na beirada da pilastra da ponte com os braços cruzados e uma expressão de prazer em seu rosto. Seus olhos felinos era delineados finamente por um lápis preto muito escuro, ela tinha a pele branca como a neve, e cabelos incrivelmente loiros e longos.
- Ora, ora, ora, acho que não tivemos a oportunidade de nos apresentarmos ainda, muito prazer meu nome é – ela disse suavemente, parecendo gentil.
Eu não tinha nada para dizer a ela, eu apenas fiquei olhando para a sua imagem que bloqueava o sol forte, o que diabos ela queria comigo?
- O que você é? – perguntei finalmente deixando que a minha curiosidade se esvaisse de mim e chegasse ao ponto que eu mais queria, saber quem era aquela garota tão parecida comigo.
Em toda a minha vida eu sempre me senti um ser único e diferente, eu não sabia a magnitude das coisas que aconteciam comigo, eu não as usava a meu favor, eu sempre tinha sido muito boazinha com tudo e todos ao meu redor, posso até dizer que eu fui uma adolescente normal enquanto eu decididamente não era uma.
- Eu sou igual a você – a garota loira respondeu em tom despreocupado, como se ela já tivesse explicado isso uma centena de vezes.
- O que você quer?
- Eu quero poder oras, o que mais eu poderia querer, eu quero ter essa cidadezinha na palma da minha mão, quero poder controlá-la! Quero tudo ao meu redor! – ela disse estendendo os braços como se pudesse agarrar o mundo com um simples gesto.
- Isso você não poderá ter, essa cidade não te pertence, nem nunca irá pertencer se depender de mim - eu disse me levantando e assumindo uma postura séria; meu corpo estava tremendo de raiva e medo por enfrentar o desconhecido, mas eu não deixei que isso transparecesse.
- E você irá impedir? Creio que não, você não me conhece, não sabe do que eu sou capaz querida, aliás, se eu fosse você tomava mais cuidado com o seu namoradinho, não é? – ela disse descontraída e ergueu voo antes que eu pudesse respondê-la.
Mas que droga! De onde essa garota tinha saído, o que ela quer a cidade, e porque ela quer me infernizar? Talvez eu seja uma ameaça em potencial, e o que ela queria com , eu não conseguia entender, mas eu não me perdoaria se alguma coisa acontecesse com ele. Naquele momento eu senti que eu precisava conversar com ele, o mais rápido possível, eu tinha que tê-lo por perto para poder oferecer proteção.
As coisas estavam ficando cada dia mais difíceis, a cada dia eu chegava mais e mais perto de um veredicto final da minha sentença; exausta eu voei até em casa, me joguei em minha cama e simplesmente apaguei.

Continua...



N/B: Uma vilã :O Adorei! Att logo!
E você,leitora linda de 'I’m not a heroine'. Percebeu algum erro? Avise: ilove.dani@hotmail.com ou @danypeixoto.