Por: Lih NG
Capitulo I
“JULIETA — Ai de mim!
ROMEU — Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante, porque és tão glorioso para esta noite, sobre a minha fronte, como o emissário alado das alturas ser poderia para os olhos brancos e revirados dos mortais atônitos, que, para vê-lo, se reviram, quando montado passa nas ociosas nuvens e veleja no seio do ar sereno.
JULIETA — Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.
ROMEU (à parte) — Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?”
- Espera, aí! – A sra. Parson, professora de Literatura, disse interrompendo pela milésima vez o ensaio. – Jonathan, coloque mais entonação na sua fala, você precisa encarnar o personagem. Se continuarmos assim vai parecer mais um diálogo entre você e seus colegas do que uma peça de Shakespeare.
O garoto sacudiu a cabeça, concordando com a mulher, e fechou os olhos como se tentasse se concentrar.
Estavam presentes no auditório todos os alunos do terceiro ano que haviam se disposto, ou sido obrigados, a apresentar a peça de teatro daquele ano: Romeu e Julieta.
Para não seria esforço nenhum, desde pequena encontrara um talento nato e uma paixão por estar em cima dos palcos interpretando e criando personagens. Era seu destino! Aceitara de primeira o papel principal e se sentia entusiasmada por estar presente em todos os ensaios. Havia apenas uma coisa que fazia todo aquele sonho se tornar pesadelo. E essa coisa tinha nome e sobrenome: !
- Se quiser, eu posso fazer o Romeu, professora. – disse enquanto subia no palco com seu jeito maroto. Aproximou-se de , que permanecia em seu posto e apenas rolava os olhos. – Eu tenho dons para o teatro se vocês ainda não notaram... – Fez cara de galã e logo soltou uma gargalhada.
- Cai fora, ! Nem que me pagassem eu faria uma cena romântica com você. – cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha, tentando parecer indiferente e controlar a raiva que começava a crescer dentro de si.
Sra. Parson ignorou os dois garotos e se aproximou de Jonathan para dar-lhe algumas instruções, enquanto o restante da turma voltava a se distrair com seus afazeres.
- Ah, não? – disse enquanto voltava a se aproximar de . Também não era fácil para ele estar ali, mas ele não era do tipo que se deixava render por uma garota. – Eu sei que você não aceitou contracenar comigo porque eu te faço perder a cabeça.
- Não me faça rir, . Você sabe muito bem que as vagas do teatro eram pra pessoas e não para vermes. – o olhou de cima abaixo e virou-se de costas.
- Por que essa raiva toda, minha gente? – se pronunciou, enquanto saía de perto das cortinas, ao ver que os dois não parariam de discutir e a professora acabaria perdendo a paciência, assim como acontecia em todos os ensaios.
- Você ainda pergunta? Todo mundo sabe que é a pessoa mais abominável do mundo. – respondeu, rolando os olhos mais uma vez e passou um braço pelos ombros da prima.
- Claro! – sorriu ironicamente. - Porque fui eu que...
- Cala a boca! – gritou interrompendo-o e chamando a atenção de todos que estavam no auditório.
- Todos vocês aí, vamos parar com a discussão. – Gritou a professora de Literatura, batendo as mãos na beirada do palco. – Agora estamos ensaiando e não decidindo quem tem raiva de quem. e , desçam já daí. e Jonathan, sigam com a cena... – Virou-se e começou a caminhar em direção à porta do auditório sem parar de falar. - Mais entonação, mais entonação...
- Idiota. – sussurrou, encarando com os olhos semicerrados.
- Linda. – respondeu rindo e mandou um beijo no ar para a menina. Logo, desceu do palco e saiu do auditório imitando o jeito de andar da Sra. Parson, arrancando risadas de todos os outros alunos que ali estavam presentes.
- ? - chamou, fazendo a garota parar de olhar para e encará-lo. – Vai ficar com raiva toda vez que ele chegar perto? Você sabe que ele vai ta sempre no seu caminho, é inevitável...
- Eu sei, mas ainda é difícil engolir tudo que ele me fez passar... – franziu a testa e começou a fitar o chão, tentando evitar o nó que se formava em sua garganta cada vez que ela pensava a respeito daquele assunto.
- Esquece isso, pequena. Já passou. – disse passando a mão na cabeça da menina.
abriu um sorriso forçado, na tentativa de satisfazer seu primo e logo se virou para o lado a fim de continuar a cena. Notou então que Jonathan, o garoto que interpretava o Romeu, não estava mais ali.
Jonathan era um garoto bonito, alto, tinha os olhos verdes e os cabelos loiros e lisos - que às vezes ficavam caídos sobre seus olhos e às vezes arrumados para trás da orelha – e um corpo invejado por muitos garotos daquela escola. Mas apesar de toda a beleza, era uma pessoa um pouco estranha. o conhecera pouco depois de se mudar para Londres, mas os dois nunca mantiveram uma relação próxima, apesar de ela ter certeza de vê-lo a observando sempre que podia. Jonathan era do tipo de alunos que quase não freqüentavam as aulas e, provavelmente, só estava participando do teatro para cumprir algum tipo de castigo recebido. Diversos boatos sobre ele rodavam pelas bocas dos alunos, muitos envolvendo uso de drogas e até mesmo prisões, mas nada nunca havia sido confirmado e ele parecia não se importar muito com o que pensavam a seu respeito.
Sem pensar mais, decidiu que abandonaria também aquele ensaio e encontraria suas amigas antes que a aula começasse.
- Eu ainda mato aquele ! – A garota disse em um tom de voz mais alto do que o normal, assim que avistou , e conversando perto dos armários.
- O que ele fez dessa vez? – perguntou, enquanto consertava uma mecha de seu cabelo que havia escapado de sua orelha.
- Interrompeu o ensaio, falou um monte de palhaçada e ainda saiu me mandando beijinhos... – semicerrou os olhos ao se lembrar da cena e as três amigas rolaram os olhos. Já estavam acostumadas com as brigas dos dois e apenas esperavam o dia em que tudo voltaria a ser pacificamente estável ali.
- Vocês vão ficar sempre nessa? Isso foi no ano passado, vocês não esquecem não? – indagou enquanto segurava os materiais de para que ela pudesse prender seu cabelo.
- É o que eu venho tentando fazer, . Mas parece que ele faz questão de me lembrar o motivo que me faz odiá-lo, a cada cinco minutos... E o ainda me pede paciência. – rolou os e após pegar seus livros em seu armário, saiu caminhando sem esperar ninguém.
- estava lá? – seguiu a amiga.
- Claro, né? Esqueceu que ele abre e fecha as cortinas? – respondeu seca, ainda lutando contra a raiva que insistia em dominar seu interior.
- É mesmo... Tinha esquecido. – mordeu o canto da boca e começou a encarar o chão.
então olhou para a amiga e se lembrou que não era a única com problemas ali.
- Ainda pensando muito nele? – perguntou enquanto cumprimentava com a mão um grupo de garotas, sem ao menos olhar para elas.
- Não, só estranhei o fato de aquele insensível estar envolvido com uma peça de teatro. – fingiu um sorriso e rolou os olhos.
- Até quando você vai tentar esconder de mim o que você sente. Nós somos melhores amigas, esqueceu?
- Não, não esqueci. Mas você é prima dele e enquanto vocês compartilharem o mesmo laço sanguíneo eu vou sim esconder de você os meus sentimentos. Sinto muito. – disse nervosa e entrou para a sala, seguida por , que tentava acompanhar os passos rápidos que a garota dava.
- Parece que o dia não começou bem pra todo mundo hoje, não? Poxa, , não precisa falar assim comigo, eu não tenho culpa de ter nascido nessa família. – tentou se justificar enquanto caminhava até seu lugar e via que e já se encontravam ao seu lado.
O professor de Matemática não demorou a chegar e pedir que todos se sentassem, enquanto arrancava suspiros da maioria das garotas que estavam ali.
- Eu ainda não consegui me acostumar com a beleza dele... Cada dia eu acho que ele ta melhor. – falou sem desgrudar os olhos do professor e as outras três garotas riram, esquecendo-se completamente de todo o clima ruim que dominava o ambiente.
- Olha o fogo da menina! – falou, se sentando ao lado da garota. - Fica quietinha aí que pelo que eu sei, ele é casado. – Riu e viu que mudava rapidamente o sorriso que levava estampado no rosto por um olhar triste.
O professor começou a fazer a chamada e, enquanto todos os alunos conversavam e brincavam, o diretor surgiu e deu algumas fortes batidas na porta para ser notado.
- Com licença. Eu trouxe um aluno, ele vai estudar nesta sala agora, já que os professores não estavam agüentando mais as bagunças com seus colegas. – George, o diretor, disse e logo puxou pelo braço e o colocou dentro da sala. O garoto entrou rindo e olhando para todos que estavam ali. – Espero não ter mais problemas com você, . – Concluiu com o dedo indicador apontado para o garoto e saiu da sala.
- Sim, senhor. – bateu continência e logo riu debochando do homem.
- NÃO! – gritou de olhos arregalados quando viu o garoto entrando pela sala, mas quase não foi ouvida, pois todos conversavam muito alto. – É um pesadelo, não é? – Falou cutucando . – Por favor, me fala que o diretor ta brincando...
- Desculpa amiga, mas ele falou bem sério. – , que já havia se recuperado de sua tristeza momentânea, disse.
- Agora minha vida virou um inferno. – abaixou a cabeça e tentou sumir dali, mas infelizmente não conseguiu.
A sala tinha virado um alvoroço, alguns reclamavam, outros comemoravam e uns apenas riam. Mas não ligava, seu olhar estava preso a certa cabeça abaixada. Sem querer esboçou um sorriso, que logo se desfez ao sentir a mão pesada do professor em seu ombro.
- Vá se sentar, . Tem um lugar ali. – O homem apontou para uma carteira no fundo da sala e ele concordou.
Antes de se sentar, arriscou mais uma olhada na direção de , mas a garota permanecia com a cabeça abaixada. Ele não sabia ao certo se aquela mudança seria boa ou ruim, mas com certeza ela traria consigo uma carga pesada de velhas lembranças.
O penúltimo horário não demorou muito a chegar naquele dia e não havia conseguido prestar atenção em nenhuma palavra dita durante todas as aulas anteriores. Estava com os cotovelos apoiados sobre a carteira e seu queixo apoiado nas mãos e, apesar de olhar para o quadro, tinha o pensamento longe, em certa data do ano passado. Em meio a várias lembranças, sentiu algo batendo em suas costas e a despertando de seu transe. Ela olhou para trás e viu um bilhete jogado no chão. Esticou seu braço para trás e pegou o papel, desamassou e leu:
“Como está se sentindo agora que somos colegas de turma?”
Mal terminou de ler e sentiu o bilhete começar a tremer em suas mãos. Respirou fundo e logo o rasgou, sem nem sequer olhar para trás. Sua vontade era responder, mandar um de volta xingando e ordenando que ele se afastasse dela.
Com os olhos marejados, pegou uma caneta e apoiou em seu caderno. Ficou assim por alguns minutos até que desistiu da idéia. Apenas abaixou a cabeça e tentou não pensar em nada.
- ... ... ! – gritou no ouvido da amiga que levantou assustada.
- Que foi? – perguntou coçando os olhos.
- A aula acabou. Você dormiu a aula de Biologia toda. Acho que a noite foi bem cansativa ontem, hein? – brincou e ajudou a amiga a arrumar os materiais rindo.
- Você nem imagina o quanto. – entrou na brincadeira e se levantou. – Cadê as outras meninas?
- Foram olhar com a professora de física sobre a próxima avalia... Oh meu Deus! Era pra eu estar lá também. – arregalou os olhos e saiu correndo da sala, sem dizer mais nada. riu e sacudiu a cabeça negativamente. Já estava acostumada com as confusões que arrumava. Continuou a guardar os materiais, sem perceber que quase todo mundo já havia saído da sala. QUASE todo mundo.
Ouviu o barulho da porta se fechando e levantou o olhar. Viu encostado na porta com as mãos nos bolsos a encarando.
- Você não respondeu meu bilhete... – O garoto se atreveu a dizer. Mas o ignorou tentando colocar um livro na bolsa, que insistia em não caber.
- Entra logo livro, eu trouxe você aqui. Agora vai ter que caber de volta. – dizia baixo para apenas o livro ‘ouvir’, enquanto tentava empurrá-lo com sua maior força.
- Pode continuar fingindo que eu não estou aqui, eu não me importo... Na verdade tava até pensando em tirar um cochilo. – fingiu estar bocejando enquanto trancava a porta. Era impressionante como ele conseguia ter aquela escola em suas mãos.
- Sai, . – desistiu de colocar o livro na bolsa, pois depois teria que guardá-lo no armário de qualquer forma, e foi até a porta.
- Oi pra você também. – sorriu ao vê-la caminhar em sua direção.
- O que você quer garoto? Além de infernizar minha vida, é claro. – disse nervosa parando de frente para ele.
- Hum... Deixe-me pensar... Infernizar sua vida, infernizar sua vida e, talvez, infernizar sua vida. – sorriu forçadamente para a menina e ela fez o mesmo.
- Ok, você já conseguiu então. Pode me deixar ir embora. – disse cruzando os braços esperando alguma atitude do menino, que ao invés de atender ao seu pedido, apenas se sentou em uma das carteiras.
- E perder a oportunidade de te ver descabelar? Você acha mesmo que eu me rendo tão fácil?
- Assim que eu sair daqui eu vou te entregar para o diretor. Você vai ser expulso, . E eu, finalmente, vou ficar livre de você.
- Você não teria coragem, . – disse imitando o jeito debochado com que a garota falava seu sobrenome. – Eu sei que você não teria coragem de me entregar... Você gosta disso. Eu sei, nós sabemos. – Se levantou e foi caminhando em direção à menina, enquanto ela dava pequenos passos para trás.
- Você fala besteiras ainda piores cada vez que abre a boca, ! – enfatizou o sobrenome do garoto. – Agora abre logo essa porta ou eu vou gritar. Te dou dez segundos.
- Você gosta de mandar, né? Gosta de estar no poder... É por isso que você odeia tanto se lembrar daquela festa, do dia em que VOCÊ era a loser. – piscou para a garota e deu um sorriso de lado.
- Cinco... Quatro... – começou a contar alto, com a voz trêmula e segurando algumas lágrimas que começavam a queimar seus olhos.
- E se eu não abrir?
- Três...
- Vai fazer o quê?
- Dois... – ouviu o barulho da porta se destrancando, respirou fundo, empurrou para o lado e saiu da sala.
- Ele te trancou lá? – quase gritou, assustada.
- Como ele tinha a chave? – indagou com a voz baixa, apenas para ela mesma ouvir.
- Idiota... – terminou de colocar seus livros no armário e bateu a portinha do mesmo com força.
- Agora vocês tão vendo o porquê de eu me sentir tão mal quando ele ta por perto... E pelo jeito vai ser assim até o final do ano. Isso se eu não suicidar antes. – disse exageradamente, enquanto também terminava de guardar seus livros no armário e trancava sua portinha.
- Algum problema, meu anjo? – chegou por trás dela e beijou sua cabeça.
- Aff... – revirou os olhos.
- Não começa... Não to falando com você. – O garoto disse secamente e voltou a olhar para a prima.
- Pergunta pro seu amiguinho. – respondeu com um sorriso falso no rosto e saiu andando com suas amigas, deixando o garoto sozinho no meio do corredor.
não gostava de tratar daquela maneira, mas não conseguia entender o porquê de seu primo continuar sendo amigo de , depois de tudo que ele havia feito com ela. E além de tudo, os dois garotos eram melhores amigos de infância. Estar perto de , de qualquer forma, acabava se tornando sinônimo de estar perto de . E isso era exatamente o que tentava evitar a maior parte do tempo.
- Quem? – perguntou ao chegar perto do amigo, acompanhado de e . Eles não estavam muito longe quando as garotas saíram caminhando e, por esse motivo, haviam ouvido a resposta mal educada que dera ao primo.
- Provavelmente, o . – se pronunciou enquanto observava ir embora com um sorriso no rosto.
- Eu o quê? – franziu a testa.
- Nós que perguntamos, . O que você fez com a ? – cruzou os braços e encarou o amigo. Ele tentava se manter imparcial em toda a confusão que envolvia o casal, mas não gostava de ver sua prima nervosa e era muito mais fácil discutir com o amigo do que com a garota.
- Nada demais. Ela que é uma fresca, como sempre foi. Nem sei por que ainda perco meu tempo. – disse tranquilamente, enquanto cruzava seus braços.
- Ta aí uma coisa que nós concordamos. Com tanta garota, por que você continua no pé dela? Deixa a menina em paz. – deu um tapa na cabeça de bagunçando seu cabelo.
- Vai se foder! – rolou os olhos e saiu caminhando pelo corredor, sem esperar que os outros garotos o seguissem. Tudo que ele mais queria naquele momento era ir pra casa e esquecer mais uma vez as coisas que haviam acontecido durante aquela manhã.
Capitulo II
“JULIETA — Quem és tu que, encoberto pela noite, entras em meu segredo?
ROMEU — Por um nome não sei como dizer-te quem eu seja. Meu nome, cara santa, me é odioso, por ser teu inimigo; se o tivesse diante de mim, escrito, o rasgaria.”
- Eu não vou conseguir decorar todas essas falas até o dia do teatro... – disse chorosa, jogando o papel em cima da mesa. Já havia se passado uma semana desde que fora estudar em sua sala e quanto mais tempo ela passava perto dele, mais sentia que não agüentaria esperar até o final do ano e concluiria seus estudos por conta própria.
- Claro que vai, você tava indo tão bem. – pegou o papel e leu a parte que estava grifada - indicando a próxima fala que deveria decorar - na tentativa de ajudar a amiga.
- Tava, né? Mas agora eu simplesmente não consigo me concentrar. Não sei o que ta acontecendo comigo.
- Acho que isso tem nome... – falou quase em um sussurro, se intrometendo na conversa.
- . – resmungou de cabeça baixa, evitando o olhar furioso que a amiga lançaria em sua direção em seguida.
- Não repete isso nunca mais! – disse nervosa, com a testa franzida, e com um gesto um tanto quanto bruto, fechou o livro de química que levava nas mãos. Em seguida, tomou as folhas com as falas do teatro de volta para si. - Ele é um garoto morto pra mim, vocês sabem muito bem disso. Eu só devo estar um pouco distraída... – Falou em um tom de voz baixo e se levantou antes que se tornasse vítima dos conselhos mirabolantes de suas amigas.
- Aonde vai? – perguntou preocupada, ao ver que a garota ameaçava dar o primeiro passo para longe delas.
- Dar uma volta... Sozinha. – disse, reforçando a última palavra, e saiu andando em direção ao campo de futebol da escola, deixando as três garotas sentadas
à mesa do refeitório.
- To preocupada com a . – disse enquanto contava o dinheiro que havia encontrado no seu bolso.
- Eu também. – concordou, começando a procurar a página em que havia parado com a matéria.
- Esse garoto vai se ver comigo. Ele não pode continuar atormentando ela. – disse, também começando a se irritar, e levantou-se. Odiava ver sua melhor amiga daquela forma e odiava ainda mais o fato de não poder fazer nada que mudasse aquela situação. – Acho que sei de alguém que pode ajudar um pouco.
- Que saco. – falava sozinha enquanto caminhava para o meio do campo de futebol que havia no pátio da escola. Precisava colocar um pouco suas idéias no lugar e sempre achara que a melhor terapia que existia era conversar consigo mesma em um lugar onde ninguém a perturbasse. – Você não é assim, . Nunca foi... Não é só porque ele entrou na sua sala que o mundo acabou. Você tem que esquecer isso. – Deu dois tapas de leve na lateral de sua cabeça e deixou que seu corpo caísse sentado na grama, exatamente no meio do campo.
- Nervosa, linda? – Ouviu uma voz não muito familiar vinda detrás de si, mas não precisou se virar para reconhecer Jonathan, que logo tratou de sentar ao seu lado.
- Não. Só entediada mesmo...
- Deveria aproveitar para decorar suas falas agora... – Jonathan falou enquanto dobrava as pernas e colocava seus braços em volta para segurá-las, sem tirar de seu rosto o sorriso impecável que havia colocado assim que se aproximara.
- Não to conseguindo me concentrar hoje. Mas você deveria estar fazendo o mesmo. – falou tentando parecer simpática e forçou um pequeno sorriso.
- Então acho que estamos com o mesmo problema, Julieta. – O garoto sorriu e voltou a se levantar. – Quer ir fazer algo mais interessante do que ficar arrancando gramas? – Jonathan propôs enquanto oferecia sua mão para que se levantasse.
Era impossível ignorar todos os boatos sobre Jonathan que rondavam a escola, mas era ainda pior permanecer dentro de quatro paredes com , o que ela seria obrigada a aceitar assim que o sinal soasse. Então, sabendo de todos os riscos que estaria correndo, mas ciente de suas responsabilidades, segurou na mão do garoto e não demorou para que saíssem da escola através de um atalho que havia ensinado a ela.
- , posso falar com você? – perguntou assim que avistou , e conversando animadamente.
- Ai meu Deus! Socorro! – disse ainda de costas para a garota enquanto os outros garotos riam. Com sua maior cara de sofrimento, virou-se de frente para ela e tentou se manter a uma distância segura enquanto esperava que ela se pronunciasse.
- Sem gracinhas, por favor. É coisa séria
- Pode falar...
- Á sós.
- Pode falar... – insistiu e os outros três garotos riram da possibilidade do casal ir conversar sozinho, pois era algo extremamente perigoso... pra ele.
- É sobre a . – Ela continuou, ignorando todas as risadas.
- Droga. Vamos pra outro lugar. – pegou no braço da garota e foi a levando pelos corredores rapidamente. tentou se soltar por diversas vezes, mas sem dúvida ele era muito mais forte e a manteve ao seu lado durante todo o percurso, que não demorou muito já que logo encontraram um corredor vazio. - Aqui está bom. O que foi?
- A não ta bem... – disse sem rodeios. Quanto menos tempo passasse na companhia de , melhor seria para os dois. - Hoje ela tava igual um zumbi na sala.
- Normal... – O garoto interrompeu rindo
- Não é brincadeira, tenta levar as coisas a sério pelo menos uma vez. Ela não ta conseguindo decorar as falas do teatro mais... E tudo isso depois que o infeliz do resolveu ir pra nossa sala. A gente sabe o que ele fez com ela ano passado e o quanto ela sofreu por isso, eu não quero vê-la daquela maneira de novo.
- E o que eu tenho haver com isso?
- Esquece! Como eu ainda pensei que você pudesse fazer algo? – sacudiu a cabeça negativamente, incrédula com a inutilidade de , e virou-se para ir embora, mas sentiu ele segurar seu braço antes que pudesse dar o primeiro passo.
- Espera. Você é sempre tão estressadinha assim? – indagou enquanto a fazia olhar em seus olhos, mas logo seu corpo foi invadido por uma sensação estranha que o fez mudar de idéia e abaixar a cabeça.
não respondeu e os dois ficaram em um longo silêncio constrangedor até que ouviram uma conversa surgir não muito longe.
- Você tem certeza disso, García? Nós sabemos o problema que isso nos trouxe ano passado. – A voz do diretor ecoou pelo corredor, seguido por barulhos de salto alto se chocando contras os pisos da escola.
- Certeza absoluta, meu querido George. – Sua acompanhante dizia. – Os pais afirmaram que se aceitarem a matrícula, eles vão pagar uma quantia extra.
e se olharam sem saber o que fazer, ambos queriam saber do que se tratava aquela conversa. Mas para isso o diretor não poderia vê-los ali.
- Entendo... Venha comigo, vou pegar o papel em minha sala para que você assine. – George concluiu.
olhou para cima da cabeça de e viu a placa que indicava que eles estavam exatamente em frente à sala do diretor. Sem esperar mais ele pegou na mão da menina e correu até achar um espaço, relativamente pequeno, entre o fim do armário e a parede. Se encaixou ali e puxou para mais perto de seu corpo, para que não a vissem, enquanto ela demonstrava estar completamente assustada com o fato de estar mais perto de do que gostaria.
- Entre, por favor... – Disse o diretor enquanto abria a porta de sua sala.
- Obrigada. – A mulher respondeu e entrou, seguida de George. Logo a porta se fechou.
olhou para tentando entender tudo que estava acontecendo. Ao ouvir a porta se fechar, ela tentou se afastar, mas os braços do garoto a prendiam com tanta força que ela mal respirava. Seus rostos estavam muito próximos e eles podiam sentir a respiração um do outro, com a ponta de seus narizes quase se tocando. Apesar de sentir certo incomodo de estar naquela situação, a garota desejava que aquele momento nunca acabasse. Só estavam os dois ali, não importava mais o que os outros iam dizer ou pensar. Seus olhos foram fechando lentamente até que ela sentiu os lábios quentes do garoto pressionando os seus.
também se sentia diferente estando assim com ela. Era como se tivesse tido a chance de voltar ao passado e consertar todos os seus erros. O beijo não passou de um simples toque nos lábios, mas para ambos o tempo pareceu parar.
- Então estamos entendidos, avise que os espero aqui amanhã, por favor. – O diretor abriu a porta rapidamente, assustando o casal. empurrou pra longe, mas logo em seguida se lembrou que ela não podia ser vista e a puxou novamente para perto de si.
o olhou com certa raiva, como se só tivesse entendido agora o que havia acontecido entre os dois, mas ele não a olhava, ainda estava um pouco confuso com toda aquela situação.
- Avisarei... Obrigada por seu tempo, George. – A mulher agradeceu dando-lhe um beijo na bochecha e saindo com seus saltos fazendo barulho por todo o corredor.
O diretor voltou à sua sala e fechou a porta com um pouco mais de força do que esperava.
- Pode me soltar agora. - sussurrou olhando para o rosto de .
- Desculpe...
a soltou e só então teve coragem de olhá-la, porém ela já havia abaixado a cabeça.
Os dois ainda permaneceram ali por um tempo, tentando achar algo para dizer.
- Tudo que aconteceu aqui... – virou-se de costas. - Não foi nada. Foi... só...
- Um beijo. – completou e ela sentiu um frio na barriga ao ouvir essa palavra.
- Um encostar de lábios, eu diria. Não vai sair por aí dizendo que me beijou pros seus amigos. Até porque se eu pudesse, eu teria corrido. Mas você tava me segurando forte demais. – falou nervosa, apesar da voz trêmula, e saiu caminhando, deixando o garoto encostado na parede e com a testa franzida pra trás.
- Alguém viu minhas amigas por aí? – falava quase em um resmungo, enquanto tentava achar as outras garotas. – Caramba, eu nunca deixei ninguém sozinha. – Caminhava reclamando quando trombou em alguém que estava virado de lado. – Desculpa... Você viu minhas amigas por ai? – Perguntou sem ao menos saber quem era, mas logo reconheceu quando o menino a olhou. – Ah, você.
- Por que tanto desprezo? Pelo que eu saiba a gente nem se conhece... – falou enquanto passava a mão no braço em que havia esbarrado.
- Não se conhece mesmo. Mas ultimamente eu tomei uma decisão: cansei de adotar idiotas pra minha vida.
- Obrigada pelos elogios sinceros. Mas pelo que eu saiba a gente não deve julgar as pessoas. Por exemplo, se eu fosse fazer isso diria que você é apenas uma garota irritante que só sabe gritar. – deu um sorriso e voltou a se virar.
- Retardado. – rolou os olhos e continuou a procurar suas amigas.
estava no mesmo lugar, apenas estudando química. E fora que havia optado por se perder dela.
- YEAH! – Soltou um grito quando percebeu que havia conseguido resolver o exercício mais difícil do capítulo.
- Estudando, já? – se sentou ao seu lado. – A prova ainda é quinta-feira.
- Oi, ! – sorriu para o garoto. – Eu gosto de me adiantar com a matéria. E não se esqueça que quinta-feira é depois de amanhã.
- É. Eu sei... – sorriu também e ficou olhando para um grupo de garotas que passou rebolando em frente à mesa onde estava.
- Cadê os meninos? – perguntou fechando o livro.
- Por aí resolvendo seus problemas, acho que nós somos os únicos normais por aqui...
- É. Talvez devêssemos nos envolver em alguma confusão também. O que acha?
- Ótima idéia. – riu e os dois se levantaram para ir para suas respectivas salas, enquanto o sinal começava a tocar.
- Aonde estamos indo, John? – disse mordendo o canto da boca enquanto seguia Jonathan pela rua.
Era estranho estar caminhando ao lado de uma pessoa que mal conhecia, mas ultimamente tudo estava estranho em sua vida. O único que a interessava naquele momento era esquecer todas as velhas lembranças que insistiam em atormentar sua mente. E sendo com quem fosse, se conseguisse esse grande feito, estava de bom tamanho.
- Vamos encontrar com alguns amigos meus. Eles sempre têm idéias boas. Podemos fazer algo realmente interessante. – Jonathan olhou para a garota e piscou.
Sem mais nenhuma palavra, entraram em um beco que havia naquela rua e estranhou o fato de nunca tê-lo reparado ali. Sentiu um pouco de medo ao dar os primeiros passos para dentro do lugar e todas as sensações assustadoras que percorriam seu corpo se intensificaram quando ela começou a ouvir gritos e barulhos até então indecifráveis.
- Caramba, ta tendo confusão. – Jonathan disse andando mais rápido para ver o que estava acontecendo.
- Isso não é perigoso, Jonathan? – Indagou enquanto, em menos de dez segundos, a possibilidade de voltar correndo já havia passado por sua mente milhares de vezes. Sentiu que sua garganta começava a secar e seus passos já não obedeciam mais seus comandos.
- Não... Fica tranqüila. – Jonathan falou sério e segurou na mão dela. – Vem, não vou deixar fazerem nada com você. – Tentou acalmar a garota, mas sua última frase a deixou ainda mais desconfiada. Como assim ele não deixaria? Eles iam realmente querer fazer algo com ela?
- O que ta acontecendo aqui? – Jonathan perguntou a um rapaz que se aproximou dos dois assim que os viu.
- Os caras tão ajeitando as coisas com o Paul. Sabe como é, né? – Deu de ombros e olhou pra . Em seguida olhou para Jonathan como se perguntasse a ele quem era a garota.
- Minha namorada, . – Jonathan sorriu e apertou a mão da menina que não entendeu nada e apenas fingiu sorrir.
- Ela... Sabe como é o esquema aqui? – O rapaz perguntou um pouco ressabiado.
- Sabe sim.
Com um pequeno aceno com a cabeça o garoto magro e branco se afastou, sem precisar dizer mais nada. Jonathan soltou a mão de e ela logo cruzou os braços fortemente contra o peito.
- Primeiro, me leva embora daqui agora. Segundo, no caminho você vai ter que me explicar isso tudo. – Disse nervosa e Jonathan negou com a cabeça.
- Calma. Não da pra voltar agora. Depois eu te explico, só faz aquilo que eu mandar, ok?
- Não, sem essa! Eu to num lugar estranho, com um cara estranho e não tenho nem direito de saber o que ta acontecendo? Eu to indo embora. – se virou e começou a caminhar, mas Jonathan a puxou de volta sem esforço algum.
- Eu disse que não da pra voltar agora, fica quietinha aqui. – Jonathan apertou o braço da menina e a olhou com um pouco de... medo.
- Meu braço... – apenas sussurrou e Jonathan a soltou.
- Eu prometo que vou te explicar tudo, mas você tem que esperar.
- O que eu to fazendo aqui? O que eu to fazendo aqui? – começou a repetir baixo para si mesma com lágrimas nos olhos.
“Cadê a ?” enviou um bilhete para e , que estavam sentadas juntas.
“A gente achou que ela tava com você.” escreveu e devolveu o bilhete a .
- Eu não vejo ela desde aquela hora no refeitório...- cochichou aproveitando que professora havia virado de costas e notou que as amigas se olhavam um pouco preocupadas.
- Pelo menos ela não ta com o idiota. – falou apontando para , que jogava um avião de papel na cabeça de uma nerd.
- Estranho... – resmungou.
- Talvez ela esteja com o . – arriscou.
- Não...
- Não? Você ta dando conta de todos os passos do garoto, hein? – disse e riu da cara que amiga fez.
- Não fala besteiras, .
- Silêncio vocês três. – Disse a professora de História se virando para as garotas. – Três? Onde ta a ?
- Na diretoria.
- No refeitório.
- Na enfermaria.
As três disseram ao mesmo tempo e em seguida se olharam, percebendo a burrice que haviam acabado de cometer.
- Quer dizer... Ela tava com a gente no refeitório, mas aí ela passou mal e nos a levamos pra diretoria e de lá levaram ela pra enfermaria... – tentou consertar, mas logo fez uma careta quando percebeu como aquilo havia soado estúpido.
- Eu tenho cara de idiota, ? Diz logo onde ela ta. – Insistiu a professora, já sem nenhuma paciência.
- A gente não sabe... – falou abaixando a cabeça.
- Muito bem, estou vendo que terei que comunicar ao diretor. E vocês venham comigo.
- Por quê? – deu um pulo na carteira.
- Vocês estavam escondendo, são cúmplices. – A professora saiu de sala e pediu que as garotas a acompanhassem.
- Mulher louca. – disse enquanto se levantava e seguia a professora. Mas antes de sair pode ver dentro da sala um preocupado e não conseguiu esconder um sorriso assim que fechou a porta.
- Podem ir explicando, mocinhas. – O diretor disse sentado tranqüilo em sua cadeira, com as mãos cruzadas sobre a mesa. Uma imagem do corredor veio à cabeça de , mas ela rapidamente tratou de apagá-la
- Explicando o quê? A gente não ta sabendo de nada... – falou, tentando ganhar tempo suficiente para pensar em uma boa desculpa que salvasse a amiga.
- O negócio é o seguinte... A sumiu. Ninguém sabe onde ela está, nem mesmo nós que somos amigas dela. Não sei por que trouxeram a gente pra cá. – tomou frente do assunto e explicou.
- Com licença, diretor. – A secretária bateu à porta. – Me parece que o aluno Jonathan do terceiro ano também não está na sala.
As três meninas se olharam e franziram a testa.
- Obrigado. – O diretor agradeceu e voltou a encarar as meninas, enquanto a mulher se retirava.
- Eles devem estar ensaiando. – pensou rápido e deu de ombros.
- Como? – O diretor se virou para a garota.
- É. Tem ensaio da peça de Literatura... Eles são os personagens principais devem estar ensaiando por aí. – sorriu vitoriosa com a própria idéia.
- Ensaiando... – O diretor passou a mão pela barba. – Podem voltar pra sala, meninas. Eu vou encontrá-los.
As três se levantaram e saíram.
- A e o Jonathan? – perguntou surpresa, assim que chegaram ao corredor.
- Não... Será? – pensava nas coisas que eles podiam estar fazendo.
- Não sei, não. Muito estranho isso, a não gosta dele. Até porque todas nós sabemos que ele usa drogas, não é?
- É verdade...
- Acho que devemos começar a nos preocupar. – afirmou.
- Droga, . Onde você se meteu?
- E aí, Jonathan? Sumiu cara... - Um homem alto e forte cumprimentou Jonathan enquanto tentava se esconder atrás do garoto discretamente. – Quem você trouxe? – O homem olhou para a garota, e então ela parou de brincar de esconde-esconde e apareceu.
- É minha namorada. – Jonathan respondeu, apesar de não parecer muito feliz em vê-lo.
- Bonita... Viu o que fizeram com o Paul? – O homem mudou de assunto o que deixou um pouco, bem pouco, mais tranqüila.
- Vi sim. Foi o Mark, né? – Jonathan engoliu seco.
- Foi... O Mark, o Joseph, o Chris... – O homem gargalhou fortemente e deu um pulo para trás, se assustando com a altura de sua risada. – É isso que acontece com pessoas enroladas, meu caro Jonathan. – Deu um tapa no ombro do garoto e saiu caminhando.
Logo passaram por eles vários outros homens. Alguns estavam manchados de sangue, que provavelmente não era deles, outros carregavam tacos de madeira nas mãos.
- Cuidado para não ser o próximo. – Um rapaz gritou e apontou o dedo indicador para Jonathan.
Assim que os homens sumiram, ele largou a mão de e correu para onde havia acontecido a ‘briga’. O suposto Paul estava caído no chão com muito sangue e mais três rapazes chegavam perto.
- Chamem uma ambulância. – falou, conseguindo, finalmente, abrir a boca.
- Ta louca? – Um rapaz magrinho gritou. – A gente se ferra se chega alguém aqui.
- Mas... Ele vai morrer. – A garota continuou com a voz um pouco mais baixa.
- Você ta com o telefone daquele seu amigo do hospital? – Jonathan perguntou sério para outro rapaz que estava ao seu lado.
- To sim. – O garoto se levantou e saiu de perto com o celular no ouvido.
Minutos depois uma equipe médica chegou e atendeu Paul ali mesmo. não entendeu nada. Eles não estariam ferrados se alguém chegasse?
Não demorou muito para que estivesse tudo sob controle dos médicos e Jonathan se aproximou da menina com um pouco de sangue na camisa.
- Como ele está? – tentava roer sua ultima unha, mas já não havia mais nada ali.
- Ele vai ficar bem... – Jonathan falou sem expressão na voz e tirou a camisa, que em seguida jogou no meio de um lixo que havia no local. não pôde deixar de reparar no belo corpo do rapaz, apesar de tudo ele era realmente encantador. – E você?
- Eu o quê? – Perguntou assim que voltou a si.
- Acho melhor te levar embora, né? – O garoto falou e abaixou a cabeça.
- Faça-me esse favor.
- DROGA! – Jonathan gritou e mais uma vez se assustou, dando um passo para trás. – Desculpa, não to gritando com você... To precisando só extravasar.
- Ta... – A garota disse baixo com os olhos arregalados e engoliu seco enquanto caminhava até a saída junto a Jonathan.
- Vou tentar resumir a história pra você. Mas me promete que ninguém vai saber disso? – Jonathan a encarou e ela apenas concordou com a cabeça.
‘Mais um segredo pra guardar, já devia estar me acostumando.’ pensou.
- Você já deve saber, assim como metade da escola, que eu fumo. Certo? – novamente concordou com a cabeça. – Eu não ia te trazer pra fazer merda nenhuma. Te juro. Eu só queria me divertir com você porque te acho uma garota realmente atraente. – Dessa vez, a garota sentiu suas bochechas corarem e abaixou o rosto. – Mas o pessoal que revende foi acertar contas com meu amigo. Se a gente saísse dali iam pensar que eu estava fugindo para não pagar também. Aí ia acabar sobrando para mim e talvez até para você. Eu não queria que você presenciasse aquilo tudo. Me desculpa.
- E por que não podia chamar uma ambulância, mas pôde chamar os médicos?
- Aquela é uma galera que trabalha no hospital, mas que também usa... Aí sempre que precisamos, eles dão uma mãozinha.
- Hum... Você ta devendo eles também?
- To...
sentiu um calafrio ao imaginar Jonathan no lugar de Paul.
- E porque você não pára? Você sabe que é errado, não sabe? Sabe que vai te matar, não sabe? Por que continuar?
- Não é tão fácil quanto parece. Já quis parar uma vez, mas desisti. Não tenho pra quê mesmo. – Jonathan deu de ombros e ficou perplexa.
- Mas Jonathan...
- Esquece isso, . Por favor. Vamos fingir que esse episódio não aconteceu. Vamos seguir sendo somente Romeu e Julieta. – O loiro piscou para a garota, como se realmente tivesse esquecido tudo.
abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas, antes que pudesse sair algum som de sua garganta, ouviu uma voz bem familiar.
- Estão te procurando por aí.
- ... – A menina respirou fundo e fechou os olhos, só voltando a abri-los depois de virar-se para o lado e dar de cara com seu maior pesadelo.– Era o que faltava pro meu dia ficar ainda melhor.
- Só to dando o recado. Suas amigas estavam realmente preocupadas, enquanto você estava se divertindo. – olhou para Jonathan sem camisa, como se insinuasse algo. – Não sei como elas ainda agüentam ficar do seu lado. – Balançou a cabeça em sinal de negação e saiu andando.
- Idiota. Idiota. Idiota. – falou entre dentes, tentando não se irritar, apesar de ser impossível, com as palavras ditas por ele.
- Por que ele te enche tanto o saco? – Jonathan perguntou sem entender.
- Não faço a mínima idéia. – mentiu, ela sabia muito bem o porquê de tudo aquilo.
Capitulo III
NA: para esse capítulo eu recomendo que, caso você ainda não a tenha no seu PC, coloque essa música pra carregar: Ignorance
“JULIETA — Psiu! Romeu, psiu! Oh! quem me dera o grito do falcoeiro, porque chamar pudesse esse nobre gavião! O cativeiro tem voz rouca; não pode falar alto, senão eu forçaria a gruta de Eco, deixando ainda mais rouca do que a minha sua voz aérea, à força de cem vezes o nome repetir do meu Romeu.
ROMEU — Minha alma é que me chama pelo nome. Que doce som de prata faz a língua dos amantes à noite, tal qual música langorosa que ouvido atento escuta?
JULIETA — Romeu!
ROMEU — Minha querida?”
estava deitada em sua cama de barriga para cima, sonhando acordada, pensando em como seria ter um amor assim como o de Romeu e Julieta. Um amor proibido, um amor escondido, mas, acima de tudo, um amor verdadeiro.
“She’s a honky tonk woman, gimme, gimme, gimme, the honky tonk blues.” De repente seu celular começou a tocar, fazendo um enorme escândalo em seu quarto. A garota se levantou e caminhou até sua bancada.
- Alô? – atendeu, ainda um pouco pensativa.
- , ONDE VOCÊ TÁ? – gritou do outro lado da linha, o que fez com que a garota colocasse o celular bem longe de seu ouvido.
- To em casa, . Não precisa gritar. – Recolocou o aparelho em seu rosto.
- Como assim, ‘não precisa gritar’? – abaixou um pouco o tom de voz. - Você larga a gente no refeitório e não volta mais. A aula acabou e estávamos iguais baratas tontas atrás de você. Quase levamos castigo por a professora achar que éramos suas cúmplices, enquanto você ta em casa descansando e não faz nem o favor de ligar pra avisar que ta viva! Fora que nem o celular você atendia...
- Desculpa... Mas eu não tava em casa, eu acabei de chegar. Foi por isso que eu não liguei, nem atendi o celular. Eu te avisei mais cedo que tinha esquecido ele aqui. Depois eu te explico direito o que aconteceu. Mas desculpa mesmo. Eu não queria meter vocês em confusão. – falava se sentindo um pouco culpada, mas ao dizer aquela última frase, parou por um momento, ela acabara de falar igual a Jonathan, porém a confusão em que ela se meteu era muito maior que a de suas amigas.
- Acho bom você ter uma boa história. As meninas também ficaram preocupadas. E me parece que o diretor não está muito feliz com a idéia de dois alunos terem fugido da escola... Que por sinal me deixou muito intrigada. Você e o Jonathan?
- Não, . Nada disso que passou pela sua mente. É uma história realmente complicada.- ‘E eu não vou poder te contar ela toda... ’ Pensou enquanto apenas concordava.
- Seu priminho ficou preocupado também, acho melhor você ligar para ele, ok? – Disse rapidamente, pois não gostava de mencionar em suas conversas. – Tchau.
- Ta... – ia se despedir, mas já havia desligado.
Aproveitou que já estava com o celular na mão e discou o número de . Dois toques depois o menino atendeu.
- ? – Falou alto.
- Por favor, não grita também . Daqui a pouco eu to surda... – Disse enquanto caminhava de volta para a cama e deitava na mesma posição de antes.
- Onde você tava? Você tem noção do quanto eu tava preocupado com você?
- Meu Deus, vocês fazem escândalo pra tudo. Todo mundo tem um dia em que quer sair por aí... Eu sou a única que não posso. Certo?
- Não é isso. As pessoas costumam avisar quando estão no dia em que querem sair por aí. Elas não somem simplesmente junto com o garoto mais drogado da escola. O que você estava fazendo com ele?
- Estava conversando, . Não o julgue...
- Eu não estou julgando, estou dizendo o que ele faz. E você sabe.
- Eu sei...
- Eu já tava prestes a ligar pros seus pais... Tava te dando mais dez minutos para aparecer. Sorte que você ligou ainda dentro do prazo.
- Ai , você me mata com suas preocupações. – riu do desespero do primo. – Vou desligar agora, porque acho que tenho um colégio inteiro para dar satisfação, não é mesmo?
- É. Faz isso mesmo. E nunca mais repete essa loucura, ouviu?
- Ouvi, primo. Sem desesperos. Tchau. – Desligou o telefone ainda rindo.
Em seguida ligou para e que deram escândalos parecidos aos de e .
- O ficou preocupado... – falou enquanto lixava suas unhas do outro lado da linha.
- O quê? – se sentou na cama.
- É. Quando a professora mandou a gente pra sala do diretor eu olhei pra trás e ele tava com uma cara muito estranha. Olhando pro nada, sabe?
- Devia estar pensando em mais alguma merda, . Nada anormal pra ele.
- Não parecia... – insistiu.
- Para de fantasiar as coisas, amiga. O não se importa nem com a própria sombra.
- Fala sério, . Nem você. – gargalhou e franziu a testa.
- Nem eu, o quê?
- Se preocupa com a sua sombra. – A menina continuou a rir e bateu a mão na própria testa antes de começar a rir também.
- Você entendeu...
- Eu entendi.
- Minha mãe ta me chamando. Mais tarde a gente conversa. – Disse ouvindo sua mãe gritar do piso de baixo.
- Ta ok, amiga. Se cuida.
- Você também. Beijo, tchau.
desligou o telefone e foi atender ao chamado de sua mãe.
Passou o resto do dia em casa. Ora ajudava sua mãe, ora ficava olhando pro nada e se lembrando de coisas não muito agradáveis. Até que, se cansando de seu dia completamente entediante, decidiu que era melhor arejar as idéias.
- Vou dar uma volta. – Disse enquanto pegava um casaco preto e suas chaves em cima da mesa.
- Mas já são dez horas da noite. Você está enlouquecendo, ? – Sua mãe disse vindo da cozinha com um copo de água na mão.
- Eu vou enlouquecer se ficar mais um minuto dentro dessa casa. – Não esperou sua mãe responder. Sabia que ela iria brigar, mas não estava agüentando mais respirar o mesmo ar o dia inteiro.
Do lado de fora estava frio. O inverno estava chegando e a cidade ficava gelada, principalmente à noite. Quando chegou à calçada deu um suspiro, como se tirasse um peso das costas, e notou que saiu ‘fumaça’ de sua boca. Ela sorriu, adorava quando aquilo acontecia.
Continuou caminhando sem rumo por alguns minutos. A rua estava um pouco deserta, mas parecia não ter medo. Queria caminhar, se livrar de tudo que a estava atormentando desde quando cometera um dos maiores erros de sua vida. Desde a festa de encerramento do ano passado.
Sentiu uma lágrima brotar-lhe nos olhos quando se lembrou do ocorrido e de tudo que passara depois disso. A gota desceu gelada por sua face e ela sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo. Fechou os olhos e deixou que as outras lágrimas seguissem o exemplo da primeira. Era isso que ela queria, tirar aquele peso. E suas lágrimas pareciam fazer isso por ela.
Diminuiu seus passos lentamente quando ouviu uma música baixa ecoar pela rua vazia. Abriu os olhos e viu a sombra de alguém na janela de uma casa. Ela conhecia aquela casa... Aproximou-se um pouco mais e, então, percebeu que estava em frente à casa de . Seu coração disparou ao pensar que ele estava ali e a cada movimento do garoto, que podia ser visto pela janela de seu quarto, parecia bater mais forte. Então, na tentativa de não ser notada, e sem a mínima intenção de se afastar dali naquele momento, ela apenas se escondeu atrás de um arbusto que havia na calçada.
O garoto começou a cantar, juntamente com o som do violão, uma letra provavelmente escrita por ele.
I'm too far gone it's all over now
(Estou muito longe e tudo acabou agora)
and you can't bring me down.
(E você não pode me deixar pra baixo)
But it's won over by ignorance
(Mas isso foi ganho pela ignorância)
Tonight is won over by ignorance
(Essa noite foi ganha pela ignorância)
These pills weren't meant to hurt you
(Essas pílulas não tinham intenção de te machucar)
But today and ever more if fools were meant to fuck you.
(Mas hoje e cada vez mais, se os tolos tinham intenção de te fuder)
Then why do fools fall in love?
(Então por que tolos se apaixonam?)
De repente o chão pareceu faltar aos pés de e ela ficou completamente imóvel. Não era possível! Ela devia estar ouvindo errado... Ele não podia estar fazendo aquilo com ela.
Has blown up your walls again
(Suas paredes explodiram novamente)
Your lies are all part of your intellect
(Suas mentiras fazem parte do seu intelectual)
These pills weren't meant to hurt you
(Essas pílulas não tinham intenção de te machucar)
But today and ever more if fools were meant to fuck you.
(Mas hoje e cada vez mais, se os tolos tinham intenção de te fuder)
Then why do fools fall in love?
(Então por que tolos se apaixonam?)
In the story I was told well this was never mentioned,
(Na história que eu contei, bem, isso nunca foi mencionado)
Must have missed the chapter,
(Devo ter pulado um capitulo,)
When I was 17 years old,
(Quando eu tinha 17 anos)
And there's nothing left but love
(E não tinha mais nada, a não ser o amor)
não conseguia se conter… Estava chorando muito. Não era justo o que ele estava fazendo. Mas apesar de aquelas palavras soarem como facadas em seu coração, ela não conseguia se mover. Estava esperando o final da canção.
An unfortunate consequence
(Uma conseqüência infeliz)
And you'll burn in hell when you fall against,
(E você vai queimar no inferno quando você cair contra)
These pills weren't meant to hurt you
(Essas pílulas não tinham intenção de te machucar)
But today and ever more if fools were meant to fuck you.
(Mas hoje e cada vez mais, se os tolos tinham intenção de te fuder)
Then why do fools fall in love?
(Então por que tolos se apaixonam?)
In the story I was told well this was never mentioned,
(Na história que eu contei, bem, isso nunca foi mencionado)
Must have missed the chapter,
(Devo ter pulado um capitulo.)
When I was 17 years old,
(Quando eu tinha 17 anos)
And there's nothing left but…
(E não tinha mais nada, a não ser…)
They won’t let go
(Eles não irão embora)
when you see her coming
(Quando você vir ela vindo)
please let me know
(Por favor, me avise)
I'm too far gone it's all over
(Estou muito longe e tudo acabou)
and you can't bring me down.
(E você não pode me deixar pra baixo)
Don't say you’re never gonna leave me down
(Não diga que você nunca vai me deixar cair...)
Deixou-se cair sentada no chão. Aquilo havia doído muito e seus joelhos já não agüentavam continuar firmes. A garota soluçava, como se tudo que ela sempre havia tentado evitar, estivesse caindo sobre sua cabeça naquele momento.
ouviu o barulho das folhas se mexendo do lado de fora quando terminou de gravar sua musica. Finalmente havia conseguido colocar pra fora tudo que sentiu durante um bom tempo. Olhou pela janela e viu que havia alguém sentado embaixo do arbusto de sua calçada. Achou estranho, o que estariam fazendo ali com um frio desses? Resolveu ver se a pessoa precisava de ajuda. Saiu de seu quarto, pegou um casaco bem aconchegante que achou pelo caminho e saiu de casa.
não havia notado que o garoto saíra. Ainda chorava, mas tentava se conter. Ela não aceitava a idéia de ser tão fraca.
não pode acreditar quando reconheceu a pessoa que estava em sua calçada. ‘O que ela ta fazendo aqui?’ ele pensou, ainda sem saber o que fazer.
- ? – Indagou um pouco inseguro e franziu a testa. A menina fechou os olhos, como se quisesse acreditar que só estava sonhando. – O que você está fazendo aqui? – agachou perto da garota e então pode ver o estado em que ela se encontrava. – Oh, você está chorando? – Levou sua mão devagar até o rosto dela, queria que ela o olhasse. Mas assim que sentiu as pontas geladas dos dedos de em seu queixo, ela virou o rosto para o lado oposto ao que ele estava.
Os dois permaneceram em silêncio por um momento, apenas ouvindo os soluços que tentava segurar.
não agüentava vê-la daquela forma. Sua vontade era abraçá-la forte, beijá-la, amá-la. Contentou-se com apenas sentar-se ao seu lado. Era a primeira vez, depois de meses, em que ele estava tão próximo e ela não o repulsava.
já havia parado de soluçar, mas ainda se sentia mal. Tentou juntar forças pra se levantar e ir para longe dele, mas não conseguia. Quando sentou ao seu lado, ela apenas deixou que sua cabeça recostasse sobre o ombro do garoto. Talvez aquilo fosse piorar sua situação, mas a força atrativa que havia entre eles era maior naquele momento.
Quando sentiu a cabeça de em seu ombro, se enrijeceu. Estava nervoso e não esperava por aquela reação da menina. Tentou buscar algo para falar, precisava aproveitar aquele momento para esclarecer tudo.
- ... – Falou quase num sussurro.
, que havia fechado seus olhos ao se encostar no garoto, os abriu rapidamente ao ouvir ele a chamando. esperou um tempo, mas, como não obteve nenhuma resposta, prosseguiu.
– Você ouviu a música, né?- Mal havia terminado de falar e se levantou enxugando o rosto com as mãos. – Olha, eu não quero que você entenda a letra errada. Eu acho que tem muito mal entendido entre a gente... – Se levantou rapidamente também.
‘Não é possível! Como eu sou burra... O garoto me humilha em uma música depois de tudo que ele já fez e basta ele se sentar ao meu lado pra eu ceder de novo. Não, eu não posso ser assim!’ pensava em um misto de raiva e desespero.
Então, ainda sem dizer ao menos uma palavra, ela deu as costas ao garoto e começou a caminhar para casa.
- Aonde você vai? – perguntou sem entender.
- ? – Uma terceira voz ecoou pela rua quase deserta fazendo a menina interromper seu passo e dar meia volta.
- John! – Gritou, fazendo cara de alivio ao ver o loiro parado um pouco mais atrás de . Então, ignorando completamente a presença de pelo caminho, correu até Jonathan e o abraçou. Aquela reação havia sido inesperada até mesmo por ela, mas qualquer pessoa que aparecesse ali naquele momento seria suficiente para fazê-la se sentir um pouco mais segura.
deixou seu queixo cair, não acreditando no que estava vendo.
- O que aconteceu com você? – Jonathan perguntava ainda abraçado à garota. – O que esse idiota fez?
O loiro, então, encarou , o julgando por qualquer coisa que pudesse ter feito derramar lágrimas. E já não se contendo, cheio de raiva, ciúmes e desespero, resolveu tomar uma atitude. Puxou pelo braço e a afastou de Jonathan, deixando-a completamente assustada.
- O que você veio fazer aqui? Me diz! É mais um dos seus teatrinhos? É só isso que você sabe fazer na sua vida? Depois sou eu que te infernizo... Você se joga na minha calçada, se faz de coitada e depois que eu venho ver se você está bem, você simplesmente me ignora? Qual é o seu problema, garota? – gritava e quase todos seus vizinhos puderam ouvir suas palavras. Não se importava se elas eram reais, se eram o que ele realmente precisava, e queria, dizer naquele momento, ele só não agüentava vê-la nos braços de outra pessoa. Principalmente quando aquela pessoa era Jonathan Forest.
Assim que terminou de falar, virou-se para retornar à sua casa, de onde acreditava ser melhor nunca ter saído, mas antes mesmo que pudesse dar o primeiro passo, sentiu que alguém puxava-lhe o braço e foi surpreendido por um forte soco na bochecha, que o fez cair no chão.
- Lava sua boca primeiro antes de dirigir qualquer palavra a ela, ouviu? – Jonathan gritou enquanto massageava o punho. – Vamos embora, . – Lançou um último olhar de desprezo para e em seguida passou o braço pela cintura da menina, que concordou em silêncio e começou a caminhar para longe dali.
Andaram por muito tempo em silêncio, mas silêncio era a última coisa que queria naquele momento. Seus pensamentos gritavam em sua cabeça e o que ela mais queria era iniciar qualquer assunto com Jonathan, por mais banal que fosse, apenas para livrá-la daquele sufoco.
- O que você estava fazendo por aqui, Jonathan?
- Acredito que estava fazendo o mesmo que você... Afinal, porque sairíamos dez horas da noite num frio desses? – Olhou para ela e teve o olhar retribuído.
- Refrescando a idéias? – sugeriu e ele apenas concordou com a cabeça. – Mas você não mora aqui por perto... Mora?
- Não, não... Eu to passando uns dias na casa de um amigo. É ali pertinho da casa do idiota. – Jonathan disse enquanto observava semicerrar os olhos e virar o rosto para o lado. – Quer conversar sobre isso? Você não precisa ter medo de confiar em mim, afinal você também sabe um segredo meu. – Jonathan deu de ombros.
- Ele é simplesmente um idiota. – respondeu secamente.
- Mas alguma coisa ele deve ter feito para ganhar esse elogio. – Jonathan sorriu enquanto esfregava as mãos para aquecê-las.
- Você não se lembra? – A garota indagou incrédula, enquanto franzia a testa.
- Deveria me lembrar de alguma coisa? – Jonathan repetiu o gesto dela.
- Cara... Você é demais! – Exclamou, sentindo um alívio enorme se espalhar por seu peito. Logo abriu um amplo sorriso e deu um abraço apertado no garoto, que começou a rir sem entender o que se passava na cabeça dela.
- Eu já sabia, mas posso saber por que você esta me dizendo isso agora? – Riu convencido.
- No fundo eu acho que todo mundo daquela escola ainda olha pra mim e se lembra do que aconteceu. É bom saber que tem alguém que não... – A garota mordeu o canto da boca enquanto pensava se deveria continuar a falar sobre isso ou não.
- Se você quiser, eu posso continuar sendo a única pessoa que não se lembra. Mas se você quiser desabafar, não se prive disso. Depois eu posso fingir que continuo não lembrando, que tal?
- Você é realmente fantástico, John! – riu, já começando a se sentir mais leve.
- E então... Ainda temos um longo caminho até a porta da sua casa. – Jonathan deu seqüência, ainda com um sorriso no rosto.
- Eu prefiro não falar nada por agora. Na verdade acho que eu, mais do que qualquer pessoa, preciso esquecer o que aconteceu. – Abaixou a cabeça assim que terminou de falar.
- Como quiser, Milady. – Brincou Jonathan enquanto levantava o rosto da menina. – Mas com a cabeça erguida, ok?
- Okay! – respondeu empolgada e deu um beijo na bochecha de Jonathan.
Na verdade, não entendia o porquê, mas começava a se sentir muito próxima ao garoto e aquilo parecia fazer bem a ela. Talvez fosse o primeiro passo para uma recuperação.
Capitulo IV
“ROMEU — Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo. (Julieta aparece na janela.) Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal, verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! é o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala; contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. Não; sou muito ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam. Vede como ela apoia o rosto à mão. Ah! se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar naquela face!”
- Andou treinando em casa, Jonathan? – Perguntou Sra. Parson, com um leve sorriso nos lábios, assim que o garoto terminou de ensaiar sua fala.
- Não, é que agora eu tenho inspiração. – Jonathan respondeu, rindo e piscou com um olho para , que sorriu de volta.
E então, o barulho da porta do auditório batendo forte interrompeu o momento romântico, e notou que já não estava mais coordenando o som. Por mais que tentasse evitar sua presença e por mais que desejasse ficar longe dele, ainda era difícil fingir que não doía em seu peito vê-los daquela maneira.
abaixou a cabeça, deixando-se vencer por um momento, mas não demorou a se lembrar do que John a pedira, que estivesse sempre com a cabeça erguida para encarar seus obstáculos, e então voltou a levantá-la.
- O que deu nele? – Indagou a professora à outra aluna que estava ali, referindo-se à saída repentina de , mas obteve um ‘não sei’ como reposta. – Bom, acho que por hoje está bom. Não se esqueçam de treinar em casa. – Disse, indo em direção à porta do auditório.
sorriu fraco para Jonathan assim que a mulher se afastou, e ele veio em sua direção. Havia notado que a atitude de perturbara , mas estava destinado a não deixá-la pensar nele mais, muito menos sofrer por sua causa. Logo, iniciou um assunto sem muita importância, mas não demorou para que este fosse interrompido por , que chegou abraçando a prima e quase quebrando suas costelas.
- Que saudade da minha priminha! – disse dando um beijo na bochecha de .
- A gente se viu ontem, .
- E depois você sumiu o dia inteiro. – O garoto retrucou, se desfazendo do abraço que dera em e encarando Jonathan com a cara fechada.
- Sumi de manhã, mas passei o resto do dia em casa. Não foi me ver porque não quis. – falou tranqüila e em seguida mandou língua para ele.
- Achei que você estava ocupada...
- Deveria ter me ligado pra perguntar, panaca. – deu um tapa na cabeça do primo e desceu do palco, acompanhada por Jonathan, que apenas sorria assistindo a discussão dos dois.
- Eu quero conversar com você depois! – gritou quando já saia do auditório. Ela apenas fez ‘joinha’ com a mão em resposta e voltou a conversar coisas sem interesse com Jonathan.
- ! – gritou assim que viu a amiga. – Até que enfim eu te vi... Aquele telefonema ontem não foi suficiente pra passar minha angústia. – Disse afobada, arrancando risadas de todas as outras garotas.
riu também, sacudindo a cabeça lentamente e logo abraçou cada uma delas, como se houvesse anos que elas não se viam. Em seguida, virou-se para o garoto que ainda a esperava e abriu um amplo sorriso.
- Gente, vocês já conhecem o Jonathan, mas eu quero que conheçam o Jonathan, meu amigo. – Disse sorridente. - Garanto que ele é muito mais simpático que o garotinho loiro metidinho que vocês estavam acostumadas a ver.
- Eu, metido? Dessa eu não sabia. – Jonathan riu. – Prazer garotas, eu sou o Jonathan não-metido.
As meninas deram sorrisos sinceros, apesar de ainda acharem muito estranho ver tão próxima a ele, e o cumprimentaram.
- Er... Amiga, não quero acabar com o clima feliz... Mas você já foi ver o diretor? – perguntou um pouco preocupada logo depois que todos já haviam se cumprimentado.
- Não fui e nem quero ir. – disse demonstrando um pouco de medo. Ela tinha que encontrar uma maneira de escapar de um castigo, e rápido!
Neste momento, alguns garotos passaram e chamaram Jonathan para conversar. O garoto pediu licença e se afastou das meninas, que aproveitaram para falar sobre ele.
- Eu sei que é estranho. Eu sei tudo que vocês vão falar. Mas eu também sei que eu conheço um John que ninguém mais conhece. Um cara maravilhoso. – começou a falar rapidamente, assim que o garoto virou as costas, apesar de não estar convicta das palavras que saíam de sua boca. O certo é que eles haviam começado a conversar há cerca de 24 horas e, mesmo que se sentisse bem ao seu lado, ela não podia afirmar que ele era uma ótima pessoa. - Não precisam me olhar com essas caras.
- Ela nem deixa nada pra gente falar... – reclamou brincando. mandou língua.
- Bom... Você que sabe, . Só toma cuidado com os lugares que ele te levar pra freqüentar, viu? – disse enquanto observava uma garota passar com uma bolsa da Prada nas mãos.
- Ok, pode deixar, gente. Mas me digam, perdi alguma coisa ontem? – perguntou como se realmente acontecessem coisas muito interessantes naquela escola.
- AH! – gritou, voltando sua atenção à conversa e fazendo as meninas a olharem espantadas. – Eu tenho que contar uma coisa que eu ouvi ontem. – e a olharam tentando se lembrar se ela havia contado alguma coisa. – Não, eu não contei pra vocês também. Tava preocupada com a , nem me lembrei...
- Que gracinha. – disse abraçando a amiga. E as outras duas fizeram o mesmo, criando um abraço grupal e quase esmagando , que estava lá no meio.
- Me deixa falar. – disse com dificuldade assim que saiu do meio das três. – Eu ouvi o diretor conversar com uma mulher ontem.
- Jura? Então ele não é gay! – levou a mão à boca em sinal de espanto.
- É sério. – Continuou , rolando os olhos. – Me parece que ele não queria aceitar a matrícula de alguém que estudou aqui no ano passado, mas os pais da pessoa ofereceram dinheiro extra...
Todas as meninas se entreolharam. Quem poderia ser?
- E você não ouviu o nome? – indagou.
- Não, o idiota do não deixou. – Fez cara de raiva, mas logo percebeu que havia falado demais e abaixou a cabeça.
- E o que o tem haver com isso? – perguntou com um sorriso no rosto e uma sobrancelha arqueada.
- Nada, esquece... Isso eu conto depois. Eu não pude ouvir mais porque eles entraram para a sala do diretor. Seja sobre quem for que eles estavam falando, não quiseram estender muito o assunto, a conversa deles não durou nem cinco minutos. Agora vamos tentar descobrir quem é a pessoa. Ele marcou de encontrar com os pais hoje, me parece. Deve ser uma pessoa bem barra pesada. Para os pais terem que oferecer grana extra pra o aceitarem. – continuou pensando.
- Ou A aceitarem... – completou.
- Acho bem improvável ser uma mulher. Geralmente os homens que são bagunceiros. – deu sua opinião também.
O sinal para o inicio das aulas soou e todos se dirigiram lentamente para suas salas. Jonathan era da sala de , e , porém eles nunca haviam trocado uma palavra sequer. Agora, com se aproximando de Jonathan, isso seria mais difícil.
- Ei, garoto! – chamou Jonathan que acabara de entrar na sala. e pararam ao lado de .
- Pode falar... - Jonathan disse simpático.
- Se afasta da minha prima. – foi direto ao assunto, com a cara fechada.
- O quê? – Jonathan franziu a testa e teve que segurar um sorriso que tentava aparecer em seu rosto.
- É isso aí! Se afasta da minha prima, moleque. – apontou o dedo indicador para o garoto. – Eu sei muito bem com o que você se envolve. Ela pode ser bobinha e ainda ficar sua amiga, mas eu sou esperto e sei muito bem o que você quer com ela. E agora o papo é entre nós dois. Se não se afastar, você vai ter que acertar suas contas é comigo.
terminou de falar e cruzou os braços, esperando alguma reação de Jonathan, mas não obteve nada além de uma risada irônica. Logo John foi para seu lugar, sacudindo negativamente a cabeça e ainda rindo da pequena ameaça de .
Na outra sala...
- Então você e meu priminho se pegaram?! – quase berrou com a notícia.
- Cala a boca, eu não quero que ninguém fique sabendo disso. Nem as meninas... Te contei só porque você é você, né ? – disse mordendo seu lábio inferior e se a professora não estivesse já muito brava com a bagunça das duas, teria dado um super abraço na amiga.
Em certa parte era horrível ter que esconder tantas coisas dela. até queria contar tudo que a angustiava, sabia que não a julgaria, mas lhe faltava coragem e isso era essencial naquele caso.
- Mas isso não significa nada, . Eu ainda o odeio e como eu disse para ele mesmo, foi só um toque de lábios.
- Que você gostou, confesse! – piscou e riu.
- e , por favor, me dêem licença da sala. – A professora de História disse abrindo a porta para as garotas saírem e as duas fizeram caras de sofredoras.
- Não acredito... Mais uma ocorrência? – falou desesperada, enquanto saia da sala, só de pensar que teria que encarar o diretor.
- Nossa, é mesmo. Já tinha me esquecido do episódio de ontem... – disse preocupada com a amiga assim que as duas chegaram ao corredor.
Pararam sem saber para onde seguir, já que o que mais gostaria naquele momento era de sumir das vistas de George.
- Claro, porque seu amasso com o ocupou todo o espaço da sua mente. – disse rindo, parando de frente para , e vendo a amiga empalidecer na sua frente. – Oh, ... Me fala que você não está atrás de mim. – Fechou os olhos e se virou, já imaginando o tanto que ia apanhar da amiga depois disso, mas não foi com que ela deu de cara.
- DROGA! – deu um soco na mesa do refeitório antes de se sentar. – Eu não vou agüentar ficar vendo ela com aquele...
- Eu já falei com ele, dude. – interrompeu antes que o xingasse. – Mandei se afastar. Nós sabemos que ele não serve pra ela.
- Eu concordo plenamente... – acrescentou e apenas murmurou algo com a boca como se também concordasse. Estava muito ocupado, estudando.
- Não que eu me importe com ela... – acrescentou. - Mas ela é sua prima, né? E a gente é brother, então ela é minha prima indiretamente também.
- Pense como quiser... – riu. – Contanto que me ajude. – Deu de ombros.
- Fudeu! – disse de repente, chamando a atenção dos três garotos e os assustando. Afinal, a matéria era tão difícil assim?
- Que foi ? Problemas com os números ou com as letras? – disse rindo do amigo, mas percebeu que não olhava para o livro.
Ainda com um sorriso zombador, resolveu seguir o olhar de e seu sorriso se desfez quando, finalmente, enxergou o que seus outros amigos, e praticamente a escola inteira, olhavam naquele momento.
Capítulo V
“BENVÓLIO — Ora, quem é esse Tebaldo?
MERCÚCIO — Não é nenhum príncipe dos gatos, posso afiançar-vos. Oh! É o valente capitão dos salamaleques. Bate-se como cantais uma ária, por música, sem perder os tempos, nem o compasso, nem o tom. Observa suas pausas: uma, duas... A terceira será em vosso peito. Verdadeiro carniceiro dos botões de seda, um duelista! Um cavalheiro da primeira linha em todas as causas de primeira e segunda categorias. Ah! O imortal "passado!" o "punto reverso!" o ponto "aí!”
- Perdão por interromper, Sra. Parson... – Disse o diretor, adentrando pelo auditório. – Preciso de todos os professores na minha sala, agora.
- Oh! Desculpe-me, não havia sido avisada sobre a reunião... – Respondeu a mulher, enquanto retirava seus óculos do rosto.
- Não se desculpe. Nós resolvemos fazê-la agora. Ninguém estava avisado. Por favor, me siga. – Concluiu George, enquanto refazia o caminho até a saída do auditório.
- Continuem ensaiando, garotos. Daqui a pouco os atores principais chegam. – Sra. Parson, ordenou enquanto abanava suas mãos em direção aos dois meninos que se encontravam no palco naquele momento.
- O QUE ESSE PALHAÇO TA FAZENDO AQUI? – gritou, enquanto se levantava da mesa. fez o mesmo e segurou no braço do amigo.
- Fica na sua, . Não vai arrumar confusão agora.
- COMO NÃO? VOCÊ POR ACASO TA ENXERGANDO A MESMA PESSOA QUE EU? – continuava com o tom de voz alterado.
- Fala baixo, ! – insistiu.
e também, rapidamente, se levantaram e se posicionaram perto do amigo para ajudar caso ele decidisse tomar alguma atitude, enquanto todos do refeitório estranhavam aquela situação. Algumas pessoas olhavam para se perguntando por que o garoto estava daquela forma, outras apenas olhavam para quem acabara de chegar, incrédulas por o estarem vendo novamente.
- Foi ele! Foi esse desgraçado que acabou com a minha vida. – dizia enquanto se segurava para não gritar, nem partir para cima do garoto.
- Nós sabemos disso, mas não vai adiantar nada você brigar com ele agora. Use a cabeça Jones... Ele é perigoso, você sabe. – se pronunciou, segurando no ombro do amigo e concordou com a cabeça.
- Eu ainda vou me vingar... Podem escrever isso aí. – deu mais um soco na mesa e saiu em direção contrária à que o garoto estava.
- O que ela ta fazendo aqui? – dizia baixo enquanto deixava algumas lágrimas escorrerem em seu rosto.
- Eu não achei que ela fosse voltar... Será que era dela que o diretor tava falando? – respondeu, segurando na mão da amiga. As duas estavam sentadas no chão do último reservado do banheiro feminino.
- Não me interessa se era dela ou não. Ela era a única pessoa que eu não queria ver nunca mais na minha frente.
- Achei que essa pessoa era meu primo... – disse tentando amenizar o clima, mas logo percebeu que não era um momento para brincadeiras. – Mas, me diz, por que esse desespero todo? Que eu saiba, ela nunca fez nada com você... Juro que não to entendendo.
- Não é nada, .
soltou a mão de e enxugou suas lágrimas, tentando parar de chorar e fazer a amiga parar com o interrogatório. Não queria esconder nada, mas ninguém sabia do que acontecera. Era um segredo que havia guardado para si só.
- Como não é nada? Você viu a menina e parecia que ia desmaiar. Depois saiu correndo pro banheiro e começou a chorar que nem uma louca. Agora vem me falando que não é nada? – disse olhando nos olhos da menina, como se tentasse descobrir através deles o que ela escondia.
- É bobeira minha, ok? Eu não gosto dela e pronto. – Mentiu e se levantou enxugando o rosto.
- Eu não acredito... – disse séria, se levantando também. – Mas eu respeito se você não quer contar. – Falou sincera, se lembrando de seus segredos e entendendo que realmente tem coisas que você tem que guardar só para si. – Se algum dia decidir... To aqui. – deu um pequeno sorriso e a abraçou.
- É por isso que você é minha melhor amiga. Agora vamos sair daqui logo, daqui a pouco o sinal vai bater... Ta parecendo que eu tava chorando? – Se olhou no espelho e deu leves tapas em suas bochechas para tentar disfarçar a vermelhidão das outras áreas do rosto.
- Não. Você ta ótima. – disse empurrando a amiga em direção à porta.
As duas saíram do banheiro e logo encontraram com e vindo correndo em sua direção.
- Vocês não sabem quem acabou de voltar pra escola! – falou com os olhos arregalados.
- Você tava chorando, ? – reparou nos olhos da amiga, ignorando os sinais de para que ela não dissesse nada.
- Você falou que não tava parecendo. – olhou brava pra que deu um sorriso amarelo. – Mas não interessa... – Virou-se novamente para as outras duas amigas. – Sim, a gente já viu quem voltou. – E abaixou a cabeça.
- Como aceitaram ele de volta? Gente, isso é um absurdo. Vai ver que é sobre a matrícula dele que o diretor tava falando ontem... – continuou, estava espantada.
- Dela, você quis dizer... – corrigiu a amiga.
- Dela? Ta doida, ? Confundir aquele cara com uma mulher é loucura mesmo. – disse franzindo a testa.
levantou o rosto e encarou as amigas. Qual seria a que o manicômio levaria primeiro?
- Se ainda fosse um pouquinho mais baixo... Com o cabelo maior... Não, nem assim poderia ser uma mulher. – tentava imaginar, mas desistiu.
- Peraí! – franziu a testa. – De quem vocês tão falando? – Olhou para e .
- Do Richard! – As duas falaram ao mesmo tempo.
e se olharam assustadas.
- Richard? – indagou. – Vocês beberam quantas hoje, amigas? Quem entrou na escola foi a Alison. – Falou convicta e dessa vez foram e que se entreolharam. – E vocês acham que ele voltaria mesmo?
- Bom... Ele voltou. Vejam vocês mesmas. – disse enquanto apontava para onde Richard estava. – Ta lá falando com aquela menina... – Tentava identificar a pessoa. – Ta falando com a... ALISON? – arregalou os olhos. – O que essa garota ta fazendo aqui?
- Então os dois voltaram? – perguntou também assustada.
- Acho que agora estamos falando a mesma língua. – concluiu.
- Primeiramente, muito obrigado por estarem aqui... Eu sei que está na hora do intervalo, mas essa reunião era realmente muito importante. – Iniciou o diretor. – Como alguns de vocês já devem estar sabendo, nós re-matriculamos dois ex-alunos. A partir de hoje vocês voltarão a dar aula para o Richard e para a Alison.
Alguns professores se olharam incrédulos outros apenas balançaram a cabeça em sinal de reprovação.
– Eu sei. Eu sei que eles foram expulsos por terem feito coisas muito sérias. O que me fez aceitá-los de volta foi o fato de os pais terem trazido um comprovante de que agora eles mudaram. – Continuou George, entregando um papel a Sra. Parson que leu e repassou aos outros professores. – E os coitados estavam desesperados, nenhum outro colégio queria aceitá-los devido à nossa carta de expulsão. Decidimos, então, dar uma segunda chance.
- Mas isso não seria uma abertura para que todos os outros alunos que já foram expulsos quisessem voltar? – Questionou o professor de Matemática enquanto passava a folha para o professor do lado.
- Pensamos nessa possibilidade. Mas é por isso que eu os convoquei aqui. Todos devem pensar que esses alunos não haviam sido expulsos, eles haviam pedido transferência por conta própria. – O diretor se pôs de pé e começou a caminhar de um lado para o outro.
- Não seria muito arriscado, senhor? – A professora de física perguntou entregando a folha de volta para o diretor.
- Vamos correr esse risco. – Concluiu antes que os professores fizessem perguntas demais. – E conto com a ajuda de todos vocês para isso. – George se sentou e olhou nos olhos de cada um que estava presente ali. – Estão liberados.
Aos poucos, um por um foi deixando a sala.
O sinal já havia tocado e os alunos esperavam nos corredores pelos professores que ainda não haviam chegado da reunião.
- O que eles estão fazendo aqui?
- Em que sala eles devem entrar?
- Você viu como ela ta mais bonita?
- E ele? Bem mais forte...
- Mas eles não tinham sido expulsos?
A volta de Alison e Richard era o único assunto que havia naquela escola, naquele momento.
- Não é possível! Eu ainda não acredito que isso ta acontecendo... – passava a mão na cabeça e andava de um lado para o outro. A volta dos dois havia trazido o passado de muitas pessoas à tona.
- Sou só eu, ou você também está imparcial com a volta desses dois? – perguntava para enquanto via o desespero de e .
- A escola inteira ta pirando! Pra mim são só mais duas pessoas... – respondeu ao amigo, com indiferença na voz, e deu de ombros.
avistou na porta de sua sala. Olhou ao redor dela e não enxergou , que havia entrado para guardar um livro em sua carteira. Decidiu ir falar com a prima e saiu andando em sua direção. Seus amigos não entenderam onde ele estava indo e apenas o seguiram.
- . – Falou sério, apenas para que a garota o notasse ali.
- Ei, . – Sorriu, cumprimentando o primo, mas logo notou que ele não estava muito alegre. Pensou em perguntar o que havia acontecido, mas mudou de idéia ao ver estava chegando, junto a e . – Por que você continua trazendo ele pra perto de mim? – Falou baixo enquanto o menino ainda não estava tão perto dela. olhou pra trás e percebeu que os amigos o haviam seguido.
- Desculpa, eu não sabia que ele tava vindo. Ta todo mundo nervoso com a volta desses dois. – Apontou com a cabeça Alison e Richard que estavam abraçados um pouco mais a frente.
se aproximou de e finalmente notou onde ele havia parado. Sentiu seu coração apertar quando seus olhos encontraram os de e rapidamente abaixou a cabeça.
sentiu um nó no estomago ao ter aquele contato visual com . Olhou para o lado e viu Jonathan conversando com os amigos, um pouco próximo. Esticou seu braço até que conseguiu alcançá-lo, apenas deu um toque para que o garoto olhasse para ela.
- Vem cá. – Gesticulou com os lábios, já que o barulho que estava no corredor não o deixaria ouvir-la.
Jonathan pediu licença a seus amigos e se aproximou de , ignorando completamente a presença de , que não gostou nem um pouco da situação.
- O que foi, linda? – Deu um beijo na cabeça da menina, que apenas sorriu.
- Nada, estamos discutindo sobre a volta dos novatos. Queria saber sua opinião... – olhou para , ele fitava o chão com tanta vontade, que parecia ter realmente algo interessante ali. A garota sorriu, era bom ver incomodado.
- Os professores ainda não chegaram? – chegou falando, mas logo se calou quando viu que também estava ali. Os dois se olharam e a menina virou-se de costas. Ver depois da volta de Alison doía ainda mais, mas ela não queria que ele a visse mal, então decidiu que seria melhor voltar para dentro da sala e ficar ali por quanto tempo fosse possível.
- To caindo fora daqui. – disse, mas antes de sair, olhou para Jonathan como se pudesse xingar o garoto pelo olhar.
- Por quê? – perguntou um pouco confusa. - Você ainda não me disse por que estava tão nervoso... – Continuou dizendo, mas não deteve seus passos e caminhou para sua sala, deixando a garota falando sozinha.
- Achei que o tivesse te avisado... – falou, fazendo-se notar ali.
- Não se mete, frangote. – Jonathan disse tranqüilo ainda ao lado de .
- Ele ta certo. – defendeu o amigo.
parou de fitar o chão e tomou coragem para levantar a cabeça.
- Do que vocês tão falando? – indagou se metendo no meio do assunto.
- Vai pra sala, . – falou calmamente para a menina.
- Não, eu vou ficar aqui. Por que vocês tão falando assim com o John? – Falou enquanto olhava brava para os meninos. Não tinha muita intimidade com eles, mas sabia que eles não eram de arrumar confusão à toa.
- Vai para a sala! – conseguiu dizer algo e todos olharam para ele.
- Ha ha, faz-me rir ! Você acha mesmo que eu vou te obedecer? – cruzou os braços.
- Vai se esconder atrás de uma garota? – se dirigiu a Jonathan.
- Vai pra sala, . – Jonathan concordou com os garotos.
- Não, não vou! Eu tenho direito de saber o que ta acontecendo aqui. – mal havia terminado de falar e sentiu que alguém a empurrava em direção à porta da sala. Não queria ir, mas a pessoa era realmente forte. Assim que entrou ela olhou pra trás e viu fechando a porta. – IDIOTA! – Gritou e todas as pessoas que estavam dentro da sala a olharam. – Que foi? Não conhecem , não? – Reclamou e foi se juntar às suas amigas, preocupada.
Assim que começou a empurrar , e se puseram em posição de briga. Um amigo de Jonathan viu o que estava acontecendo e se aproximou.
- O que está acontecendo aqui, John? – Perguntou o garoto apoiando uma mão sobre o ombro de Jonathan.
- Nada que tenha haver com você. O negócio aqui é com ele. – disse enquanto voltava a ficar do lado dos amigos.
- Três contra um é injusto. – O garoto riu. – Não vale sair só dois de vocês com olho roxo.
- Idiota! – empurrou o garoto que voltou e acertou um soco nele.
tentou revidar, mas Jonathan começou a acertá-lo. também entrou na briga dando socos em Jonathan. Ao tentar revidar, o garoto acertou que se aproximava. aproveitou, aquela era a oportunidade pra descarregar sua raiva em John Se esqueceu dos outros e focou seu socos e chutes em uma só pessoa, mas mesmo sem conseguir identificar o quê, sentia que algo o machucava bastante e que provavelmente seria ele quem acabaria pior. Os cinco garotos se atracaram em uma briga violenta até que o coordenador e alguns professores notaram a confusão e os separam. Alguns palavrões e tentativas de socos e chutes ainda saíram dos garotos, até que conseguiram os conter.
Do nariz de pingava muito sangue, assim como de alguns cortes que havia em seu rosto, tinha um pequeno corte na altura do olho e não tinha nenhuma parte do corpo sangrando, assim como Jonathan e seu amigo.
- Todos vocês, para a sala do diretor agora! – Gritou o coordenador enquanto segurava e . – E vocês aí... – Falou com os alunos que assistiam à confusão assustados. - Voltem para suas salas. Os professores já estão chegando.
O coordenador os arrastou pelo corredor, seguido pelo professor de Matemática que levava Jonathan e seu amigo. foi apoiado na professora de Biologia. A mulher o entregou um lenço que levava sempre consigo, para que ele tentasse conter o sangue que escorria por seu rosto.
O professor de química, que estava acabando de chegar ao local, ofereceu ajuda, mas como não era mais necessário, entrou na sala de , que era onde daria aula naquele horário. Assim que abriu a porta a menina olhou para fora e viu passar, com o pano sujo de sangue, apoiado na professora.
- Está tudo bem, senhorita ? – O professor perguntou vendo olhar pálida em sua direção.
- Ta... – Ela respondeu enquanto engolia seco.
- Aquele era o ? – perguntou assim que o professor fechou a porta.
- Que tem ele? – perguntou curiosa.
- Passou ali na porta todo ensangüentado, apoiado na Julie.
- É. Eu vi mesmo... Ele e a professora de Biologia. – concordou.
- Como assim? – olhou para que ainda estava pálida. – Você ta bem? – apenas balançou a cabeça negativamente. – Er... Professor. – levantou o braço para que ele a visse. – A não ta se sentindo bem, acho que ela comeu alguma coisa que fez mal... A gente pode sair só pra ela tomar uma água?
- Podem ir, mas não demorem. – Falou enquanto apagava o quadro e as garotas saíram da sala.
- Bateram nele. – finalmente conseguiu falar, quando saíram da sala, e com os olhos arregalados. – Não que ele não merecesse, mas ele tava sangrando... Muito... – apenas segurava na mão da amiga enquanto elas caminhavam.
- ! – gritou ao ver a prima, assim que saiu de sua sala, e andou um pouco mais rápido para se aproximar. – O que aconteceu?
- É isso que eu quero saber... Ninguém me explica nada.
- Cadê os meninos? Ninguém voltou pra sala. Você tava aqui? O que aconteceu?
- Quando você saiu, eles começaram a falar bravos com o Jonathan, eu não sei o porquê. – foi dizendo o que sabia, ainda um pouco confusa, e olhou sério para ela. – Aí eu comecei a pedir explicações e todo mundo me mandou pra sala. Eu não queria ir, mas o idiota do me empurrou.
- Ele fez certo, você não queria ta no meio da briga, né? – falou ignorando o olhar furioso da prima.
- Ai meu Deus! O Jonathan! Devem ter machucado tanto ele, eram três contra um... Covardes! Ele não fez nada pra eles... – começou a falar rapidamente assim que se lembrou do garoto e logo começou a andar rápido pelo corredor, sem saber onde tava indo.
- Espera, ! – correu atrás dela. – Onde você ta indo?
- Não se preocupa com o idiota, . Você não percebe com quem você ta se envolvendo? – andou atrás dela dizendo, mas parou de falar assim que parou no corredor, fazendo o garoto quase se trombar com ela.
- Foi você que começou isso né? – franziu a testa e olhou pra . – Eu lembro que o falou algo como ‘O te avisou... ’.
- Tinha que ser... – cruzou os braços. a olhou bravo e voltou a olhar pra .
- Eu mandei mesmo ele se afastar de você. Ele usa drogas, . Ele é um marginal e você ta se envolvendo...
- Você não tem o direito de se meter assim na minha vida, eu decido com quem eu quero andar, . Você é só meu primo, não tem poder nenhum sobre minhas escolhas. – alterou o tom de voz, fazendo se irritar ainda mais.
- Você é tão burra assim? Sabe o que ele quer com você? Sabe qual é a única coisa que ele quer? É sexo! Ele vai te fuder e depois te jogar pro lado.- mal havia terminado de falar e sentiu a mão pesada de no seu rosto. Virou a cabeça para o lado e sentiu a pele começar a arder.
- Nunca... Mais... Fala... Comigo... – disse pausadamente enquanto lágrimas não paravam de rolar no seu rosto. – Agora eu entendo porque você e são melhores amigos. – Falou sacudindo a cabeça negativamente e continuou a andar, dessa vez a caminho da sala do diretor.
- Estúpido. – Foi a única coisa que disse antes de seguir . deu um soco na parede do corredor e voltou para sua sala, sabendo que não ia adiantar de nada segui-las agora.
- O que esta acontecendo aqui? – O diretor se levantou rapidamente da cadeira ao ver o estado dos meninos.
- Estavam brigando, senhor. – Respondeu-lhe, seriamente, o coordenador.
- Que vergonha, garotos. Qual o motivo da confusão? – Voltou a se sentar e apoiou os braços na mesa.
Todos os meninos começaram a falar ao mesmo tempo. Alguns palavrões escapavam de suas bocas e ninguém conseguia entender nada.
- Um de cada vez, por favor. – Pediu o diretor com um tom de voz mais elevado. – Primeiro sentem-se. – Indicou os assentos em frente a ele com as mãos.
- Com licença, diretor. Preciso ir dar aula. – O professor de Matemática disse e logo depois se retirou do local.
- Pode ir também James. Eu resolvo o problema deles. – George disse ao coordenador, que assentiu com a cabeça e também se retirou. – Então... Um por um me diga o que aconteceu aqui.
O primeiro a abrir a boca foi , mas se calou quando começou a falar.
- Ninguém aqui tinha a intenção de brigar, diretor. Estávamos conversando, resolvendo nosso problema com diálogo. Mas acho que esses dois não sabem o que é isso...
- Não é bem assim. – Jonathan se defendeu. – Eu nunca fiz nada pra esses moleques, o lance aqui é que eles têm raiva por eu ser amigo da garota mais bonita do colégio. – Quando Jonathan disse essa frase, , que até então estava com a cabeça baixa e o lenço no nariz, se levantou.
- Algum problema, ? – Perguntou o diretor ao ver o garoto de pé.
- Não quer parar de sangrar, acho que preciso ir pra enfermaria... – Respondeu com um tom de voz aparentemente calmo.
- Espere, vou chamar o coordenador para te acompanhar. – George contatou James por um aparelhinho. – Ele já vem... Prossiga Jonathan.
- Então... Como eu dizia, eles sentiram ciúmes e vieram me ameaçar.
- Não se faça de vítima. – o interrompeu. – Nós estávamos sim discutindo com você e não era por ciúmes da . A gente apenas não quer que ela comece a andar com quem não presta.
- Já estão começando com os insultos de novo... – O amigo de Jonathan interferiu na conversa.
- Fica na sua você também. – disse. – Não teria acontecido briga nenhuma se esse daí não tivesse se metido. – Apontou para o garoto. – Foi ele que começou com o lance físico.
- Bom... – O diretor uniu suas mãos em cima da mesa e olhou para os garotos. – Aqui nessa instituição não é permitido nenhum tipo de agressão, seja ela física ou moral. Não sei quem começou ou quem finalizou. Todos serão devidamente e igualmente castigados. – Olhou para Jonathan. – E você, rapazinho. Está me devendo explicações sobre outra história também.
- Me chamou diretor? – O coordenador apareceu na porta.
- Sim, James. Por favor, leve o para a enfermaria.
James fez sinal com a cabeça pra que o seguisse, mas antes de sair da sala um objeto metálico caiu no chão, próximo ao pé do garoto.
- O que é isso? – Perguntou o diretor ao ver o objeto cair.
James abaixou para pegá-lo e arregalou os olhos.
- É um soco inglês, senhor!
- ... Não chora por aquele babaca. – dizia enquanto acompanhava a amiga.
- Você viu como ele falou comigo? Ele fez eu me sentir como uma puta. – enxugava suas lágrimas com raiva.
- É por isso que ele é um babaca. - olhou para a amiga e sacudiu a cabeça negativamente. – Onde a gente ta indo?
- Pra sala do diretor. Eu preciso saber como ta o Jonathan... Três contra um é injustiça. Será que eu deveria ir à enfermaria primeiro?
- Você acha mesmo que aqueles fracotes conseguem machucar alguém? – falou, tentando fazer a amiga se preocupar menos.
As meninas caminharam mais um pouco e chegaram à porta da sala bem a tempo de ouvir o diretor gritar.
- SOCO INGLÊS? Eu espero que você tenha uma boa explicação para o que isso estava fazendo aí, !
- Soco inglês? – repetiu baixo com os olhos arregalados.
- Eu juro que isso não é meu. – disse com a voz aparentemente calma.
- Não perguntei de quem era, quero saber o que estava fazendo com você. – George passou a mão pelos seus poucos cabelos. – Meninos, voltem para a sala. vá fazer um curativo na enfermaria. – Ordenou enquanto se levantava. – Pensarei no castigo de vocês mais tarde.
Assim que abriu a porta, George encontrou as duas meninas com sorrisos amarelos no rosto.
- E vocês, o que fazem aqui? – Olhou para e . – Ou melhor, entre, por favor, tenho um assunto pendente com você e Jonathan.
entrou e ficou parada na porta.
- , sente-se ali e espere... Quero conversar em particular com você. – Indicou um pequeno sofá que havia no canto da sala. – Jonathan, permaneça onde você está. Os demais, por favor, me dêem licença.
Os outros garotos saíram andando pelo corredor acompanhados por , que acabou amenizando um pouco o clima com seus comentários bestas.
estranhou um pouco ao olhar para Jonathan e vê-lo normal, sem sangue, sem cortes... Mas ao olhar para com seu lenço, já vermelho, em mãos, sentiu seu coração se apertar.
- Sente-se mocinha. – George indicou-lhe a cadeira. – Muito bem... Onde vocês estavam ontem no horário de aula?
observava . Ele estava com a cabeça abaixada e o sangue já começava a pingar no chão. Ela não havia ouvido a pergunta do diretor. Por sorte, Jonathan pensou rápido e respondeu.
- A gente tava ensaiando. – Jonathan olhou pra , percebeu que ela olhava pra e não gostou nem um pouco daquilo.
- É... – disse um pouco devagar enquanto voltava a atenção ao diretor.
- Vocês sabem muito bem que os ensaios só podem ocorrer com a minha autorização e dentro das dependências da escola. Vocês saíram daqui sem a minha permissão. – George estava com uma cara zangada.
- Perdão senhor diretor, mas nós não havíamos saído da escola... Pensei que tivessem te dado o aviso. – Jonathan falava calmamente e o olhou assustada.
- Que aviso? Não tente me enrolar garoto...
- Não estou enrolando. – Jonathan passou a mão por cima da mesa e pegou um pequeno papel que havia ali. – Olha ele aqui... O senhor que não deve tê-lo visto, aliás tem muitas coisas mais importantes pra resolver aqui na escola, não?
O diretor tomou o bilhete da mão de Jonathan e o leu em voz alta.
- Diretor, eu e a estaremos ensaiando para a peça de teatro durante os últimos horários nas salas da educação infantil. Jonathan...
O garoto sabia que as salas da educação infantil ficavam vazias durante a manhã e que ninguém pensaria em procurá-los ali.
Quando terminou de ler o diretor o encarou seriamente. sentia vontade de rir, mas conseguiu se conter. cerrou os punhos e apertou seus olhos com força. Sentia raiva ao ver Jonathan sempre se dando bem, ainda mais nos assuntos que tinham sua garota envolvida.
- Não me lembro de ver esse papel aqui... – George disse como se falasse consigo mesmo. – De qualquer maneira, não façam isso novamente. Eu tenho que autorizar o ensaio e não somente ser avisado. Estão entendidos?
- Sim, senhor. – sorriu. Estava impressionada com o quanto Jonathan conseguia ser inteligente.
- Sim, senhor. – Repetiu o garoto. – Podemos ir?
- Podem sim. – George amassou o papel e deixou de lado. – , sente-se aqui agora. Quero ter uma conversa séria com você.
se levantou e foi em direção à mesa do diretor enquanto John e se levantavam.
- Boa sorte... – Jonathan disse baixo quando o garoto se aproximou e depois pegou na mão de .
- Mas não pense que vai se livrar do castigo pela briga. Ouviu Jonathan? – O diretor reforçou antes que o casal saísse da sala.
- O que foi isso? – disse rindo assim que saiu da sala.
- Não se esqueça que você esta comigo... – Jonathan piscou para a garota e riu. – Eu não podia deixar você ter um castigo, ainda mais porque eu não te levei para um lugar muito agradável.
- Mas como você fez aquilo? Você mandou mesmo alguém entregar o bilhete? E se fossem nos procurar lá? – perguntava enquanto eles caminhavam pelos corredores.
- É claro que não, linda. Eu coloquei o bilhete ali enquanto todo mundo discutia sobre a briga. Eu já sabia que ele iria se lembrar da nossa fuga e dei meu jeito. Ele nem percebeu. – Disse fazendo cara de malandro e abriu a boca, soltando uma pequena risada em seguida.
Logo os dois ficaram em silêncio e caminharam assim por um momento, mas não demorou para que se pronunciasse novamente.
- O que aconteceu? – Perguntou com seu semblante agora sério.
- Entre eu e os garotos?
- É... Sabe, eu vi que vocês brigaram, mas eu achei bem estranho você quase não estar machucado... Não que eu quisesse isso. – Disse rapidamente antes que o menino entendesse errado, Jonathan deu um sorriso mostrando que havia entendido o que ela queria dizer. Ela continuou. – Mas olha como o idiota ficou e eram três contra um...
- Dois. – Corrigiu Jonathan.
- Hã?
- Um amigo meu acabou entrando na briga também. Desculpa, , eu não queria brigar com seus amigos, mas foram eles que partiram pra cima.
- Me explica direito isso. – abaixou a cabeça.
- Bom, depois que o te levou pra sala, meu amigo se aproximou. Ele e o começaram a discutir e começaram com a agressão. Eu acabei sendo atingido e logo todo mundo começou a brigar. – Falou como se fosse uma coisa comum.
- Mas por quê? Digo... Por que eles começaram a discutir com você? – olhou para Jonathan. Ele olhava para frente, sério.
- Não sei bem. Acho que têm ciúmes por você ter se aproximado de mim. – Disse com as mãos nos bolsos.
- Quê? – franziu a testa. – Mas eu nem sou muito amiga deles.
Jonathan entrou na frente de e a segurou pelos ombros, para fazê-la parar de andar.
- Olha... Eu to gostando muito de... De ter me aproximado de você. Mas se isso for atrapalhar você e seus amigos, eu me afasto. – Deu de ombros. - Tudo que eu menos quero é ver você ficando sozinha. – Abaixou a cabeça e o olhou incrédula.
- Pára de dizer besteiras John. Eu também to gostando da sua companhia e não quero saber o que os outros pensam disso. Se eles se afastarem de mim pelo fato de eu estar andando com alguém que faz eu me sentir bem, então eles não são meus amigos. – disse calmamente e Jonathan sorriu.
- Você é linda, sabia? – Olhou nos olhos da garota e ela riu enquanto sacudia a cabeça lentamente, incrédula com a maneira que ele encontrava para sair de diálogos estressantes e tornar-los bastante confortáveis.
Jonathan continuou encarando o olhar de e aos poucos suas bochechas foram adquirindo um leve tom rosado.
- Obrigada. Mas pára, porque eu fico sem graça. – abaixou a cabeça, mas no meio do caminho a mão de Jonathan encontrou seu queixo. Ele levantou novamente o rosto da garota e encostou seus lábios no dela.
ficou sem reação, pois não esperava por aquilo e apenas esperou que o menino se afastasse novamente para tentar dizer alguma coisa.
– Er... Jonathan. – Sussurrou.
- Desculpa. – Pediu, abrindo os olhos rapidamente. – Nossa, foi meio que por impulso... Eu não...
- Calma. – disse rindo. – Eu não disse que não gostei... – Sentiu suas bochechas ficarem vermelhas e viu um sorriso se abrir nos lábios de Jonathan. – Mas você me pegou de surpresa e não podemos esquecer que estamos na escola. Eu não quero ter que voltar pra sala do diretor tão rápido. – Sorriu e começou a andar novamente. Jonathan demorou um pouco, mas logo a seguiu.
- Muito bem, , me explique. O que você pretendia fazer com isso? – George estava bravo e segurava o soco inglês em suas mãos.
- Eu já disse que não é meu. – estava sério. Sabia que nada que ele dissesse faria o diretor acreditar. Sua ficha naquela escola já estava mais suja do que banheiro público.
- Garoto, não sei se você já foi avisado, mas isso é uma escola! – George alterou o tom de voz. – Aqui não é lugar de brincadeiras e muito menos de agressividade. Isso é coisa de marginal e nós não aceitamos esse tipo de gente na nossa instituição.
- Não é o que parece. – sorriu irônico.
- Como? Você está querendo insinuar algo? – O diretor perguntou bravo.
- Qual é, George? Todo mundo sabe o tipo de pessoa que o Richard é. E isso não impediu que você o aceitasse de volta aqui. Aliás, ele não havia sido expulso? Eu pensei que ele não poderia voltar pra cá, já que é isso que está escrito no regulamento... – disse nervoso.
- Mais respeito, rapazinho! Quem dita as ordens aqui sou eu e você têm que aceitá-las. – Fitou-o seriamente. - Não que eu te deva satisfações, mas antes que comecem os boatos, os dois alunos que foram reintegrados só haviam sido afastados. Não houve expulsão.
- Então acredito que eu não vou receber nenhuma penalidade já que o que eles fizeram foi muito pior. – sorriu, sentindo-se extremamente inteligente pelas respostas que começavam a surgir tão facilmente em sua cabeça.
- Eu já disse que sou eu quem decide as penalidades aqui. Mas não vamos desviar o assunto, Jones, eu quero saber como você trouxe isso e o que pretendia fazer.
- Você acredita mesmo que fui eu que trouxe? Você acha que meu nariz estaria sangrando tanto se EU estivesse usando? Com certeza seria o de outra pessoa... – Começou a imaginar o estrago que aquilo poderia causar em Jonathan e gostou da idéia.
- Então, se não foi você, como isso foi cair de seu bolso? – Perguntou o diretor, irônico.
- Isso eu já não sei. Mas provavelmente o Jonathan seria a pessoa indicada pra te responder.
- Assuma seus atos, moleque! Para de jogar a culpa pra cima dos outros. – George se levantou e caminhou até a porta.
- Eu não estou culpando ninguém, só estou dizendo que ele provavelmente deve saber o que aconteceu. Ele é um garoto tão atento, tão exemplar... Lembra até de colocar um bilhete na sua mesa enquanto você não vê. – se levantou também.
- Chega dessa conversa estúpida. Suspensão de uma semana, Jones! E sem direito à reposição de provas. Vou ligar pros seus pais agora mesmo. Por favor, se retire daqui e pode ir direto para casa. – George abriu a porta.
- Não precisa se incomodar em ligar. Eles não se importam mesmo... – deu de ombros enquanto saía e o diretor bateu a porta com força.
Capítulo VI
“SANSÃO – Minha arma nua já está fora; briga tu que eu defenderei tuas costas.
GREGÓRIO – Como assim? Viras as costas e corres?
SANSÃO – Não tenhas medo de mim.
GREGÓRIO – Ora essa! Eu, ter medo de ti?
SANSÃO – Fiquemos com a lei do nosso lado; eles que principiem.
GREGÓRIO – Vou franzir o rosto, quando passar por eles; e eles que interpretem isso como entenderem.
SANSÃO – Não; como ousarem. Vou morder o polegar, o que para eles será desonroso, no caso de não retrucarem”
estava entediada em seu quarto, lendo as próximas cenas do teatro, completamente sem nenhuma outra opção para passar seu tempo. Não tinha idéia de quantos minutos, ou horas, fazia desde que se trancara ali dentro com a desculpa de decorar suas falas, nem quantas vezes já havia lido aquelas mesmas linhas ainda sem entender o que realmente estava escrito ali. De fato, inúmeros pensamentos rondavam sua mente e a impediam de raciocinar sobre qualquer outro assunto. Passou os olhos mais uma vez pelas mesmas linhas que acabara de ler e quando resolveu largar os papéis de lado, ouviu a campainha soar no andar de baixo. Com um olhar desconfiado, esperou que algum som fosse ouvido para se certificar de que sua intuição estava certa em relação à sua visita e não demorou muito a que a voz de fosse ouvida juntamente com algumas palavras de sua mãe.
- Filha, ta acordada? – A mulher perguntou enquanto dava leves batidas à porta e se virou para o lado oposto, se cobrindo até a cabeça.
- Não!
- está aqui para falar com você. – Insistiu a senhora.
- Por isso mesmo que eu não to acordada. – Resmungou baixo, de modo que só ela ouviu e permaneceu imóvel, sem nenhuma vontade de ter que enfrentar mais um daqueles discursos protecionistas de seu primo.
- Entra querido, ela ta com birra.
rolou os olhos ao imaginar a cara que sua prima faria quando o visse, principalmente depois da pequena discussão que tiveram na escola, e logo tomou coragem para girar a maçaneta e entrar no quarto. Segurou um sorriso ao vê-la totalmente coberta e se aproximou da cama.
- ... – Chamou baixo, tentando tirar o cobertor, mas a menina o segurou firme. – Pára de besteira, pequena. Eu to querendo conversar sério com você.
- Eu não quero falar com você, . Você não ouviu o que eu disse na escola? – Falou nervosa e tentou demonstrar isso ao máximo, apesar de o som de sua voz sair abafado pelo cobertor.
- Ouvi muito bem, mas eu quero falar com você do mesmo jeito. Vai ficar assim ou vai pelo menos olhar pra minha cara antes de me mandar embora? – Indagou, mas obteve apenas o silêncio como resposta.
Enquanto esperava alguma reação da garota coberta, resolveu se sentar na beirada da cama e aquilo pareceu irritá-la ainda mais, já que ele mal havia terminado de se acomodar e logo começou a receber empurrões e chutes, além dos vários resmungos. Notando a resistência do garoto e que ele provavelmente não sairia dali tão fácil, resolveu chutá-lo e empurrá-lo com mais força e acabou fazendo com que ele se desequilibrasse, porém antes de atingir o chão se agarrou às pernas dela e acabou levando-a junto consigo. Após o barulho que os dois corpos atingindo o chão fizeram, o único som que pode ser ouvido foi das altas risadas que ambos davam. aproveitou e pulou em cima de sua prima, a sufocando com o cobertor e fazendo-a espernear e rir ainda mais. Já quase sem fôlego, após um certo tempo, se soltou e tirou a coberta de sua cabeça, enquanto se sentava.
- Você ta horrível! – gritou olhando pra ela e voltando a rir desesperadamente. – Ta parecendo meu cachorro!
fechou a cara ao ouvir aquela comparação e se levantou para ir ao banheiro verificar, mas quando viu sua imagem refletida no espelho, começou a rir assim como o garoto. Estava realmente parecida com a cadela que ele tinha e que vivia sempre descabelada. Antes de voltar para o quarto, jogou um pouco de água em seu rosto e respirou fundo enquanto tentava abaixar seu cabelo, logo saiu do banheiro e viu ainda vermelho, sentado no chão e com a coberta no colo.
- Eu te odeio. – falou com os olhos semicerrados e segurou o riso. Sentou-se em sua cama e encarou o primo que abria um amplo sorriso.
- Desculpa pelas coisas que eu te disse... Eu exagerei um pouco. – Fez uma pausa, mas logo continuou a falar. – Eu sei que eu não deveria falar daquela forma com você, mas eu não era nenhuma mentira.
- , você não pode julgar o Jonathan por uma imagem que as outras pessoas criaram. Eu conheço um lado dele que ninguém mais conhece. Um lado que também tem sentimentos e precisa de ajuda. – começou a dramatizar como sempre fazia e rolou os olhos.
- Fala sério, . Você começou a andar com ele há dois dias. Você não o conhece tão bem assim.
- Tudo bem... Eu não o conheço tão bem assim, mas que diferença faz? Eu achava que conhecia o muito bem e olha o que aconteceu...
- , eu, sinceramente, não sei por que você ainda se lembra disso. Nós já conversamos tanto sobre o que aconteceu. Você sabe que ele não teve culpa...
- Pára! Pára de defender ele. A vítima fui eu! – alterou seu tom de voz e olhou nervosa para sentindo como seus olhos já davam indícios de querer se encher de água apenas com a menção daquele assunto. Mas realmente nunca entenderia, ele não sabia de tudo que havia acontecido naquela festa. – Você me disse o que ele te contou. Você acha mesmo que ele assumiria a culpa? Se tivesse sido sem querer, ele não me infernizaria tanto.
- Eu não quero discutir de novo com você... Ontem eu tive mais uma conversa com o sobre vocês dois e acredito que ele pelo menos já entendeu como as coisas aconteceram. Você podia se esforçar pra fazer o mesmo... Mas eu não vou me meter mais, porque o assunto é entre vocês. – se levantou e jogou a coberta no colo de . – Eu só vim pedir desculpas e te avisar pra abrir o olho com o Jonathan. Se ele te fizer alguma coisa, me fala que eu mato aquele gayzinho, ok? – Fez cara de bravo e abriu um pequeno sorriso, apesar da feição de choro que ainda tinha.
- Ele não vai fazer nada... E você pode parar de bancar o super-protetor. – Se levantou, deixando a coberta de lado, e abraçou fortemente o primo. – Eu te amo, idiota!
- Eu te amo também, retardada! – Deu um beijo na testa dela. – Eu tenho que ir, vou estudar um pouco. – Se soltou da prima e logo começou a caminhar até a porta.
- Quem ouve até pensa que vai estudar mesmo. – Falou rindo e viu mandar língua antes de sair do quarto.
Ainda pôde ouvi-lo gritar um “Tchau, tia!” quando ia embora e voltou sorrindo para a cama. Amava , desde pequena sempre o tivera como seu apoio, apesar das diversas brigas que costumavam ter e as quais ela odiava, e era bom saber que mesmo com as desavenças e palavras feias ditas algumas vezes, tudo sempre voltava a ficar bem entre os dois.
Ouviu seu celular vibrar quando ameaçava se deitar novamente e apenas esticou o braço para alcançá-lo em seu criado-mudo. Era uma mensagem de .
“Esqueci de mencionar que seu tapa doeu... Muito! Não faça isso nunca mais!”
Soltou uma gargalhada assim que leu e jogou o celular de volta em cima do móvel para, em seguida, pegar as folhas do teatro e tentar mais uma vez se concentrar no que ali estava escrito.
- Ah, eu não acredito que você já ta bem com ele! Você se lembra como ele te tratou? – falou nervosa ao receber a notícia, estava com os braços cruzados e acompanhava em direção à sala de aula, logo após o sinal do término do intervalo ter soado.
- Ele é meu primo e só estava preocupado. Nós sabemos que ele é meio grosseiro às vezes.
- Nós, não. Eu não sei, nem quero saber nada dele.
- , você pode ter esquecido que já se apaixonou por ele, mas eu não esqueci. Não adianta falar que não o conhece... – retrucou, ignorando as caretas que a amiga fazia. - Aliás, e formavam um belo casal. Até hoje eu não entendo por que vocês não deram certo.
- Concordo plenamente! – Uma voz irritante surgiu de repente no meio da conversa, fazendo as duas interromper seus passos e olhar para trás, dando de cara com um pedaço de gente loira chamada Alison. – Vocês nunca vão nos contar o porquê da briga?
Alison sempre fora uma das garotas mais populares da escola. Era baixinha, peituda, e seus cabelos loiros viviam sempre escovados e bem cuidados. Apesar de ser bajulada por quase todos os alunos que estudavam ali, nunca se dera muito bem com e suas amigas. E ao invés de se incomodar, ela parecia gostar disso e aproveitava para tornar o dia daquelas meninas ainda mais insuportável. Era irmã de Richard, apesar de que os dois não se pareciam muito. Richard tinha os cabelos pretos arrepiados e usava aparelho nos dentes, além de ser alto e magro. Ambos haviam sido expulsos no ano anterior por serem acusados de venda de drogas no interior da escola e inclusive roubo de alguns materiais.
- Ninguém te chamou na conversa, Alison. – respondeu sem paciência e nem percebeu que ao seu lado semi-cerrava os olhos e prendia a respiração, completamente nervosa.
- E você continua a mesma ignorante de sempre, . As duas mereceram o que aconteceu a vocês.
- E você merece uns belos socos na cara, piranha! – gritou, não conseguindo se segurar mais e ameaçou partir para cima de Alison, mas apareceu exatamente naquele momento e entrou no meio das duas.
- Sem brigas aqui, meninas. Acho que o diretor não vai ficar feliz em ter que suspender mais um.
- Tinha que ser o estúpido do ! Some da minha vida! – gritou e logo voltou para o lado de , com os braços cruzados.
- Que belo reencontro, não sabia que vocês tinham ficado tão mal assim... – Alison continuou com o sarcasmo e dessa vez foi que a reprovou com o olhar. – Ok, já estou me retirando. – Disse rindo e começou a caminhar em direção à sua sala.
- Ela não vale à pena. – disse virando-se para e .
- Olha quem fala... – fez cara de deboche e segurou um sorriso. Por um lado era bom saber que ela ainda tinha algum tipo de ressentimento em relação à Alison.
- , você disse que o diretor não ia querer suspender mais ninguém... Quem foi suspenso? – perguntou ao se desfazer do enorme susto que havia levado ao ver tão nervosa a ponto de querer bater em alguém, algo que ela nunca havia presenciado anteriormente.
- Graças a seu amiguinho – disse com ironia, se referindo a Jonathan –, o foi suspenso por uma semana. Acabei de saber pelos meninos.
- Deus ouviu minhas preces! – comemorou ao ouvir aquilo e levantou os braços enquanto olhava para o teto. – Me lembra de agradecer ao John mais tarde. – Olhou rapidamente para e voltou a olhar para cima.
- Foi injustiça, ele foi o único a receber castigo e quem começou foi seu amigo. – cruzou os braços e a garota abaixou os braços e o encarou com uma sobrancelha arqueada.
- Claro! Tudo é injustiça pra ele, esqueci que ele é o Senhor Certinho... Já que ta com tanta dó, por que não se oferece pra ser castigado junto?
- Vamos pra sala, . – propôs, tentando finalizar aquela conversa logo e concordou com a cabeça, mas antes de dar o primeiro passo, ouviu Jonathan a chamando e abriu um amplo sorriso ao perceber a cara que fizera.
- Você não aprende, ...- balançou a cabeça negativamente e se retirou dali antes que mais uma discussão se iniciasse.
- Ei, linda. – Jonathan chegou perto, exatamente no momento em que se afastava, e beijou a bochecha de . – Ei, . – Sorriu e a menina retribuiu o sorriso.
- Eu vou andando pra sala... Não demora, ta? – falou secamente para e ela concordou sorrindo.
- Então, como você está? – Jonathan perguntou marotamente e caminhou até a parede do corredor, onde encostou suas costas e a sola do pé direito.
- To bem. Você? – o acompanhou e parou em frente a ele.
- Tranqüilo...
- Fiquei sabendo que o foi suspenso... Uma semana... – comentou, tentando parecer indiferente ao assunto.
- Te disseram o porquê? – Jonathan perguntou, não parecendo surpreso com a notícia.
- Porque vocês brigaram. Não?
- É. Mas o diretor não iria castigar só ele, se fosse apenas isso. Ele tinha um soco inglês no bolso... A minha sorte foi que meu amigo viu e impediu que ele o usasse. – Deu um leve sorriso e engoliu em seco.
- Eu desconfiei pelo que tinha ouvido o diretor gritar quando cheguei lá... Mas pelo menos ele foi o que saiu mais machucado, né? Ele mereceu... – Falou tentando parecer o mais convincente possível, apesar de ainda sentir seu coração se apertar ao se lembrar de como ele havia ficado.
- Ele merecia mais, pra aprender a não te tratar mal. – Jonathan falou a olhando fundo nos olhos, em seguida, tocou de leve seu queixo e puxou devagar seu rosto para mais perto do dele, mas antes que seus lábios pudessem se encostar, o segundo sinal de aviso soou e se assustou e se afastou rapidamente.
- É melhor a gente ir. – Sorriu sem graça.
- Se você quer... – Jonathan sorriu também. – Tem planos pra essa tarde? – Perguntou e se desencostou da parede, começando a caminhar juntamente com ela.
- Na verdade eu ia estudar, mas isso eu posso fazer amanhã.
- Eu não quero atrapalhar sua vida escolar – Jonathan riu –, mas eu queria muito te ver em um lugar que não fosse essa escola - aproximou sua boca ao ouvido de e sussurrou -, um lugar onde eu pudesse te beijar. – Logo, voltou a olhar para frente e riu e abaixou a cabeça. - E eu ainda to na casa do meu amigo, que não é muito longe da sua casa...
- Tem uma pracinha lá perto. – propôs.
- Te pego às quatro? – Jonathan a olhou e esperou que ela confirmasse, enquanto já paravam em frente à sala de , e assim que ela o fez, apenas deu um beijo em sua testa antes de correr para sua sala.
- Está atrasada, . – A professora de Física disse enquanto se levantava de sua mesa, assim que a garota abriu a porta. se desculpou enquanto discretamente fazia cara de poucos amigos, e logo foi para seu lugar, notando uma carteira vazia no fundo da sala, mas ao invés de se sentir aliviada, ela sentiu algo que não soube bem identificar o que era.
- Eu ainda não me acostumei com vocês dois. – cochichou assim que se sentou atrás dela e , que estava ao seu lado, também concordou.
- Eu não falo mais nada. – , que se sentava atrás de , falou enquanto abria seu caderno e fingia começar a copiar a matéria.
- Ah... Ele é bonito pelo menos. – completou.
- É bonito, legal e eu não me importo com opiniões alheias. – respondeu, secamente e abriu a boca, fingindo indignação.
- Obrigada pela consideração com a nossa amizade.
- Eu não to falando de vocês, bobinha. Eu não me importo com o que falam sobre ele usar drogas. – Respondeu dando de ombros e pegando seu material.
- Mas é mentira? – perguntou.
- Não... – falou baixo, pois a professora já olhava com cara feia pras quatro. – Ele já me confessou que usa, mas isso é da vida dele, gente... Se ele não tivesse dentes, fosse careca e completamente gordo ninguém me criticaria.
- Você nunca ficaria com alguém assim. – arregalou os olhos.
- Por que não? Sua preconceituosa!
- SILÊNCIO AS QUATRO! Da próxima vez eu mando pra fora da sala. – Disse a professora, nervosa, e elas deram sorrisos amarelos enquanto se consertavam na carteira e olhavam para seus respectivos cadernos.
Na outra sala, , e também conversavam, no fundo da sala, irritando o professor de Química.
- Aquele soco inglês não era dele. – falou, sacudindo a cabeça negativamente e olhou para e que se sentavam lado a lado na sua frente.
- Sem dúvida é do Jonathan... – completou.
- E eu fiquei sabendo que o diretor não o castigou nem pela fuga com a . – acrescentou.
- Ele é inteligente, dude. – falou baixo. – E vai levar sua prima pro buraco.
- Eu sei... Mas não adianta falar com ela. – deu de ombros e fechou as mãos em punhos.
- E você e a ? – perguntou, desviando completamente o assunto, assim que seus olhos se depararam com os cabelos loiros de Alison mais à frente.
- O que tem? – fez-se de desentendido.
- Como tão as coisas, depois que ela – apontou com a cabeça para Alison, que sentava na primeira carteira da fila de – voltou?
- Hoje a quase bateu nela. – segurou um sorriso e abriu a boca.
- Porrada feminina? Eu não podia perder por nada.
- Parece que ela ainda tem raiva. – Continuou , ainda com seu meio sorriso.
- Bom sinal... – sorriu e ele concordou. – Sabe, tem aquela amiga delas, a , eu acho que daríamos um belo casal, mas ela ta sempre tão preocupada com suas coisas de garotas que nem me da atenção.
- Apaixonado, senhor ? – indagou, surpreso por aquela confissão repentina, mas negou.
- Só a acho interessante mesmo.
- Pois eu não vejo nada demais naquelas garotas, pra mim são só quatro meninas frescas que não têm cérebro. - se intrometeu rolando os olhos.
- Você diz isso porque nenhuma te deu mole. – riu.
- Sua prima bem quis um sexo selvagem comigo... Mas eu neguei. – fez cara de machão e obteve como resposta o dedo do meio do amigo.
Não demorou muito a que as aulas daquele dia acabassem e foi com para a casa dela, devido a um convite de almoçar lá que sua mãe lhe havia feito no dia anterior, prometendo que faria uma de suas comidas preferidas: lasanha à bolonhesa.
- Por que a quis bater na Alison hoje? – perguntou enquanto colocava a última garfada de comida na boca. Estavam apenas os dois na mesa, já que os pais da garota já haviam acabado de almoçar.
- Trinta e dois minutos. – falou olhando as horas na tela de seu celular e sorriu, enquanto franzia a testa.
- Quê? – Perguntou de boca cheia, sem entender.
- O tempo que você demorou pra tocar nesse assunto... Bastante tempo. – riu e rolou os olhos.
- Não quero saber mais. – Disse nervoso, enquanto tomava o resto de suco que havia em seu copo.
- Bobo, eu só to te enchendo o saco... Ela fez isso porque a Alison tava perturbando a gente.
- Hum... – O garoto fingiu desinteresse.
- Ela disse que a gente merecia o que aconteceu. Eu não me lembro de ter acontecido nada com a . É alguma coisa que tem a ver com a briga de vocês? Porque se ela souber e eu não... Eu vou ficar muito brava.
- Pergunta pra , ela é sua melhor amiga. – deu de ombros.
- E você é meu primo!
- Eu não quero passar por fofoqueiro depois. – Se levantou e levou seu prato até a cozinha. semicerrou os olhos e fez o mesmo.
- Odeio quando escondem coisas de mim. – Retrucou nervosa e ele entregou seu prato à garota, para que ela o lavasse, e em seguida se retirou da cozinha. – Volta aqui, ! Eu não vou lavar seu prato! – gritou, mas não obteve resposta e acabou decidindo por lavar tudo que havia ali ao menos para tentar passar o tempo.
Após terminar de lavar a louça, a garota foi tomar um banho e ler algum livro antes de se arrumar para encontrar Jonathan mais tarde.
por sua vez, passara o tempo inteiro em frente à TV, procurando por algo interessante para assistir, enquanto tentava tirar sua preguiça e ir à casa de jogar vídeo-game.
Quando o relógio da sala marcou quatro horas e cinco minutos, a campainha soou, fazendo finalmente se levantar do sofá, deixando o controle da televisão de lado, e ir atender à porta. Mas ele não gostou nem um pouco de ver quem era a pessoa que acabara de chegar.
- O que você ta fazendo aqui? – Perguntou ao ver Jonathan parado do lado de fora. O menino vestia uma regata branca, bermuda jeans preta e um all star preto nos pés.
- Te pergunto o mesmo. Que eu saiba essa casa não é sua... – Jonathan falou tranquilamente e sorriu ao ver que a mãe de se aproximava.
- Boa tarde... – Disse a senhora, simpática.
- Boa tarde! Meu nome é Jonathan, eu sou amigo da . A senhora deve ser a mãe dela... – Jonathan estendeu a mão e a mulher o cumprimentou.
- Sou sim, muito prazer. Entra um pouco, ela já está terminando de se arrumar.
- Não precisa, eu já to pronta! – gritou, descendo rapidamente as escadas. Vestia uma blusa de manga curta, preta, calça jeans e uma sandália baixa. Graças ao aquecimento global, o clima de Londres estava ficando cada vez mais perturbado, e, para um dia de inverno, aquele dia estava estranhamente quente. Seus cabelos estavam soltos sobre os ombros e seus olhos destacados pelo lápis preto que passara. Estava simples, mas muito bonita. - Desculpa pelo atraso. – Beijou a bochecha de Jonathan e logo pegou seu celular, que estava sobre uma bancada ali perto e o colocou no bolso. – Vamos?
- Vamos... – Jonathan sorriu. – Tchau, senhora . Tchau, . – Acenou com a mão e seguiu , que já caminhava apressadamente para fora de casa.
- Desculpa a grosseria de nem apresentar minha mãe, mas eu não queria que você e o ficassem muito tempo perto um do outro. Sei lá, ele anda meio irritado ultimamente e a última coisa que queria era ver vocês discutindo em frente a ela.
- Não se preocupe, . Eu não tinha intenção nenhuma de tratá-lo mal. Eu sei que não gosta de mim, mas acho que ele tem que respeitar suas escolhas... Enfim, isso não importa agora, certo? Vamos só aproveitar nossa tarde juntos. – Jonathan falou sorrindo e logo segurou na mão de , entrelaçando seus dedos aos dela.
A garota se assustou um pouco, já que não esperava caminhar de mãos dadas com ele, mas acabou aproveitando aquilo ao passar em frente à casa de , fazendo questão de mostrar a todos que ela estava muito bem acompanhada. Na verdade, ela fazia mesmo questão de que apenas certa a pessoa visse.
- Não acha que seria melhor se nós fôssemos ao parque de diversões que tem a alguns quarteirões daqui? – Jonathan perguntou chamando a atenção de , que ainda tentava descobrir se a estava vendo por alguma janela. – Aquela praça só tem alguns bancos quebrados, poucas árvores e quase ninguém...
- Ah... Lá é bonito. – olhou pra Jonathan, que fez uma cara estranha, e riu. Na verdade, ela não gostava muito de ir àquele parque. Além de ter um pequeno medo de altura, ela ainda se lembrava de muitas coisas que aconteceram ali no ano anterior. – Tudo bem... Foi só uma hipótese até que a gente achasse algo melhor pra fazer. – Mas acabou concordando, preferindo encarar seus antigos medos ao invés de esperar que ele tivesse alguma outra idéia e os dois fossem parar em um lugar parecido com o que foram da primeira fez que saíram juntos.
- Já disse que você ta linda? – Jonathan sorriu e olhou nos olhos da garota, enquanto ela apenas retribuiu o sorriso e olhou uma última vez para a casa de , que já ficava pra trás.
Não demorou muito a que eles chegassem ao parque e todos aqueles brinquedos fizessem o coração de bater mais forte. Era apaixonada por tudo que trazia alegria às pessoas, embora se esquecesse disso a maior parte do tempo e, sem dúvida, o sentimento bom que pairava por aquele ambiente era uma das coisas que mais a atraía a parques de diversões. Caminharam ambos com enormes sorrisos no rosto enquanto observavam uma criança passar correndo com um algodão-doce na mão e outra correr atrás para tentar roubá-lo; uma garota compartilhando sua maçã-do-amor com o namorado e uma senhora passear de mãos dadas com um senhor bem magrinho, parecendo que estavam escolhendo o próximo brinquedo que iriam. Jonathan também parecia sentir o clima gostoso que aquele lugar proporcionava e à medida que passavam pelos diversos brinquedos, ia contando histórias bizarras e engraçadas sobre suas experiências anteriores naquele lugar.
- Que tal a roda-gigante? – propôs depois de algumas voltas pelo lugar, sentindo aquele brinquedo completamente atrativo para ela, apesar de seu medo de altura, o que era bastante estranho.
- Montanha russa é mais legal. – Jonathan rebateu e apontou para o lugar onde uma enorme quantidade de pessoas formava uma fila que chegava a dar voltas, o que logo o fez mudar de idéia. – Roda-gigante está ótimo!
Ambos começaram a rir e foram até o brinquedo, entrando na fila - também grande, mas não tanto - e esperando que chegasse sua vez. Jonathan continuou a contar os casos sobre aqueles brinquedos e, dessa vez, escolheu relatar a vez em que fora a um parque onde a roda-gigante possuía grades nas laterais, ao invés de vidros, e uma garota que estava em uma cabine acima da sua vomitou e caiu tudo em cima de seus amigos, e dele também. fez cara de nojo e pôs as mãos no rosto, enquanto ria dele.
E assim o tempo passou, não demorando que chegasse a sua vez. Os dois entraram felizes em sua cabine e tentou não demonstrar o quando estava apreensiva por saber que iria bem alto e aquilo não a agradava muito, mas suas mãos, tremendo inconscientemente, acabaram entregando o que ela tentava esconder.
- Você ta com medo? – Jonathan perguntou com um leve sorriso no rosto e ela riu.
- Um pouco.
- O máximo que pode acontecer é eu te jogar lá do alto. – Zombou, tentando tranqüilizá-la e ela arregalou os olhos.
- Nem brinca com isso!
Os dois voltaram a rir mais uma vez e logo o brinquedo foi acionado e as cabines começaram a se sacudir enquanto o chão ficava cada vez mais longe. engoliu em seco e tentou se concentrar, esquecer que estava a uns bons metros de altura e curtir aquele momento. Mesmo contra a sua vontade, olhou para o lado e pode ver grande parte da cidade, que já começava a aparecer além das árvores que cercavam o parque. Abriu um amplo sorriso e aquela vista, tão simples, mas tão bonita, a fez esquecer qualquer medo que ameaçara invadir seu corpo.
- Você é diferente das outras garotas... – Jonathan comentou, como se fosse um pensamento que havia escapado em um som mais alto do que deveria, enquanto olhava para o parque lá embaixo.
- Como? – desviou seu olhar do vidro e o encarou com a testa franzida.
- Você não me julga, não se importa com o que falam. – Jonathan deu seqüência, dessa vez parando de olhar através do vidro e virando-se para ela, fazendo seus olhos se encontrarem com muita intensidade.
- Eu procuro olhar o interior das pessoas, sua essência, e não os rótulos criados por esse povo que mal entende sua própria vida e julga a dos outros. – sorriu, assim como Jonathan, e notou que os olhos do garoto se desviavam constantemente de seus olhos para sua boca, que aos poucos ia ficando mais próxima à dele.
- Você é perfeita. – Jonathan sussurrou e em seguida colou seus lábios nos dela.
não impediu, sentindo que o melhor a fazer naquele momento era aproveitar e se esquecer de qualquer perturbação que sua mente, teimosa, insistia em trazer de volta. Permitiu que a língua de Jonathan entrasse em sua boca, enquanto apoiava suas mãos no peito dele e sentia ele segurar seu rosto com as duas mãos. Um pequeno friozinho fez menção de aparecer no estômago de , devido à intensidade que o beijo ia adquirindo aos poucos, mas antes que ele conseguisse ali se instalar, o rosto de surgiu na mente da garota, de uma maneira completamente perturbadora e fez com que ela rompesse o beijo de forma abrupta e virasse o rosto para o lado, ainda de olhos fechados.
- O que houve? – Jonathan perguntou assustado, sem entender sua reação.
- Nada... – respirou fundo, enquanto abria os olhos e sacudia levemente a cabeça. – Eu achei que a cabine tava se sacudindo, sei lá, coisa da minha cabeça. – Falou a primeira coisa que veio à sua mente e logo rolou os olhos, percebendo o quão estúpido aquilo havia soado.
- Eu disse que não precisava ter medo, linda. Eu não deixo nada de mal acontecer a você, prometo. – Jonathan falou com firmeza, parecendo ter acreditado no que ela dissera, e passou o braço por cima de seu ombro, beijando-lhe a cabeça em seguida.
permaneceu encarando o vidro ao seu lado, apesar de não ter a vista focalizada em nada, enquanto sentia vontade de pular da cabine quando ela passasse pelo ponto mais alto do brinquedo. Estava tudo muito bem ali, Jonathan era um garoto bonito, a tratava bem, sabia como deixá-la tranqüila e confortável, tinha um beijo, digamos, delicioso, mas ela não conseguia sentir por ele nem um quarto do que sentia, mesmo que tentasse evitar, por . Pelo maldito ! E dessa forma continuou até que o brinquedo parasse para que eles descessem. Não dissera mais nenhuma e deixara Jonathan completamente incomodado, sem saber se havia feito algo de errado.
- , você ficou calada o tempo inteiro. Eu fiz alguma coisa que você não gostou? – Jonathan indagou quando já se encontravam de pé, no chão firme, e caminhavam lado a lado para fora do brinquedo.
- Não, por favor, não entenda mal minha reação... – começou a dizer, enquanto tentava pensar em algo que pudesse explicar sua atitude idiota. – Eu só... Eu tenho medo de altura, John. Não tava me sentindo confortável ali e acabei me assustando, me desculpa.
- Não se desculpe, linda. – Jonathan a olhou de forma carinhosa. – Não tem problema nenhum... Quer continuar nos brinquedos ou...
- Eu só preciso me sentar um pouco, preciso das coisas um pouco quietas por um momento. – disse ainda se sentindo um pouco estúpida e logo respirou fundo, nem notando que ao seu lado Jonathan ficava muito tenso.
- Ok – concordou olhando fixamente para um mesmo lugar. – Senta ali que eu preciso ir ao banheiro. – Apontou para um banco que estava vazio, perto de onde eles estavam e concordou com a cabeça, dando um selinho no garoto antes de ir até o lugar.
Sentou-se tranqüila no banco e ali permaneceu por muito tempo, apenas olhando as pessoas que passavam em frente a ela. Começou a observar um garoto entregando para sua namorada um ursinho que havia ganhado no tiro-ao-alvo. Eles estavam felizes e demonstravam não ter nenhum tipo de problema, o que fez com que desejasse algum dia poder se sentir feliz assim com alguém. Continuou a observar o casal, mas dessa vez ela se viu abraçada a , então fechou fortemente os olhos, tentando mais uma vez tirar aquela imagem de sua mente, enquanto ouvia um sussurro eu seu ouvido.
- Pensando em mim? – E logo ouviu também um suspiro. – Belo casal, não?
A garota permaneceu de olhos fechados, tentando se concentrar, tirar esses pensamentos de sua cabeça e então sentiu uma mão pesada em seu ombro, fazendo-a se levantar rapidamente e virar para trás com o coração acelerado.
- Er... ?! – quase gritou quando se deu conta de que a voz que ouvira, não era de sua imaginação.
- Eu! – disse, ainda apoiado no encosto do banco onde antes ela estava sentada. O garoto tinha seus cabelos molhados, havia feito um curativo no nariz e levava um sorriso alegre nos lábios.
- O que você ta fazendo aqui? – perguntou nervosa, cruzando fortemente os braços sobre o peito para evitar que notasse o quão forte seu coração batia naquele momento.
- Te pergunto o mesmo... Bom, eu sei que você estava pensando em mim, mas vir ao parque, sozinha, só pra isso? – brincou, enquanto ia para frente do banco e se sentava onde estava antes. – Achei que já estivesse acostumada com minhas aparições em sua mente.
- Ai, como você é ridículo, ! E não que eu te deva alguma satisfação, mas eu não estou sozinha, o Jonathan veio comigo.
- Desculpa, não o vi por aqui... – disse rindo, enquanto fingia procurá-lo. Olhou para os lados, embaixo do banco e depois se levantou, olhando para o lugar onde sentara, sacudindo a cabeça em seguida. – Acho que ele te deixou aqui sozinha, .
- Ele foi ao banheiro, seu idiota. – Respondeu grosseiramente, ignorando as gracinhas que o garoto fazia, ainda nervosa pelo fato de ele não ter se convencido a atrapalhar tudo apenas aparecendo em sua mente e aparecendo também em sua frente.
- Alguém demora meia hora no banheiro?
- A fila deve ta grande... – deu de ombros e pegou seu celular para ver as horas, notou então que já havia se passado cerca de vinte e cinco minutos e estranhou o fato de ter acertado ao chutar que Jonathan já não estava ao seu lado há um bom tempo, mas concentrou-se apenas em achar um modo de se livrar dele e procurar Jonathan, já se indagando o que poderia ter acontecido.
- Claro, o cara que estava na frente dele atolou no vaso ou talvez tenha sido ele mesmo... Coitado... – deu seqüência às suas brincadeiras e rolou os olhos.
- Retardado. – Falou nervosa e logo começou a caminhar, decidida a encontrar Jonathan, mas logo sentiu que ele puxava seu braço, fazendo com que ela parasse de caminhar.
- Espera, ! É brincadeira, por que você sempre se irrita?
- Porque são SUAS brincadeiras. – A garota falou secamente, soltando seu braço e encarando-o com cara de poucos amigos.
- Mas você sabe que eu não estou errado, o problema é que eu sempre digo o que você não quer pensar ou ouvir.
- O que você vê em mim, ?
- Como? – indagou confuso, sendo pego de surpresa por aquela pergunta e pela intensidade com a qual o olhou naquele momento.
- Por que você me escolheu como alvo? O que eu tenho de especial pra você se pôr sempre no meu caminho? – continuou a perguntar e ele engoliu em seco antes de abaixar o olhar e pensar em algo para dizer.
- Acho que eu não preciso te responder isso. – Falou quase em um sussurro e dessa vez foi quem engoliu em seco, se arrependendo por ter feito aquela pergunta, principalmente pelo modo como seu coração respondeu ao ouvir o que ele dissera. – E não vá pensando que eu te segui, eu já havia decidido vir aqui hoje. Só coincidiu de chegar e te ver ali sentada.
- E então você decidiu me importunar. – concluiu.
- Sabe, a verdade é que eu tava procurando uma companhia. Como você é a única conhecida por perto pensei que talvez pudéssemos passar uma tarde legal juntos, sem gritarias, palavrões...
- Você ficou louco? Tarde legal é uma coisa que não combina com , definitivamente. – respondeu logo, estranhando a proposta e evitando que qualquer mínima parte de seu cérebro gostasse daquela idéia.
- , me deixa provar que ainda posso te fazer sorrir? – propôs, olhando-a nos olhos, e deu um passo, completamente involuntário, para trás ao ouvir-lo chamando-a daquela maneira.
A garota se lembrou da última vez em que estivera sorrindo ao lado dele, numa época em que ela se sentia bem, independente de qualquer coisa. Sentiu seu estômago se revirar e olhou logo para o lado, antes que ele percebesse o que aquela pequena frase havia causado em seu interior.
- Passa essa tarde comigo? – insistiu, notando que ela não o responderia, porém mais uma vez ela permaneceu em silêncio, já que não entendia o porquê de ele estar agindo daquela forma. Ela estava acostumada com ele ultimamente agindo como um idiota e agora era simplesmente... O .
- Não posso... Eu to com o Jonathan. – Respondeu, sem ter certeza do que estava falando, quando percebeu que precisava dizer algo e sorriu ao pensar que esse era o único impedimento para ela.
- Vamos fazer o seguinte: nós vamos até o banheiro e vemos se ele está lá. Se não estiver, nós damos uma olhada por perto. Caso a gente não o encontre, você terá que ir, pelo menos uma vez, em cada brinquedo daqui comigo. – propôs com um enorme sorriso no rosto e analisou todo o parque, pensando a respeito daquela idéia.
- E se ele estiver lá?
- Eu faço qualquer coisa que você quiser. – Levantou a palma da mão direita, na altura do rosto, como faz um escoteiro, e a idéia pareceu ainda melhor para . – Combinado?
- Combinado! – A menina também levantou a palma da mão direita, já pensando no que ele poderia fazer para ela. bateu sua mão na dela e rapidamente a garota desfez o pequeno sorriso que começava a brotar em sua face e recolheu o braço. – Mas se afaste, não quero que pensem que eu sou idiota o suficiente pra andar com você por aí.
Sem esperar nenhuma outra reação do garoto, deu as costas a ele e começou a caminhar em direção ao banheiro, mas logo notou que ele já havia a alcançado e caminhava ao seu lado com as mãos no bolso e um enorme sorriso no rosto. Chegaram ao lugar onde ficavam os banheiros públicos e sentiu seu coração se apertar ao notar que Jonathan não estava ali.
- Ele pode ta aí dentro. – Apontou para o banheiro masculino, tentando justificar alguma coisa e empurrou a porta, que já estava meio aberta.
- Ninguém!
- Ele pode ter ido ao banheiro da casa do amigo dele, que não é muito longe daqui...
- Admita que você perdeu logo. – disse empolgado enquanto começava a andar em volta de e ela olhava desapontada para o banheiro vazio.
- Mas... Não... – A garota tentava falar algo enquanto acompanhava com os olhos, mas acabou ficando tonta e não conseguindo dizer nada. – Pára quieto! – Gritou nervosa e ele deteve seus passos, ainda com um sorriso no rosto. – Você não teve nada a ver com isso, né? Porque se eu descubro que foi sua culpa você vai pagar em dobro.
- No nosso acordo não foi dito nada sobre isso... – se fez de desentendido.
- ! – fitou-o, séria.
- Você acha que eu ia perder meu tempo arrumando coisas pra aquele idiota fazer?
- Eu não duvido de nada que venha de você.
- Se eu tivesse algo a ver, você nunca descobriria mesmo... – sorriu marotamente e deu de ombros.
- Mas se descobrisse... Você pagaria caro.
- Montanha-russa primeiro! – falou empolgado, ignorando a desconfiança de e sua cara de brava ao perceber que havia perdido e começou a caminhar para lá.
- A fila ta enorme... – resmungou, o seguindo.
- Eu sei, mas uma hora a gente vai ter que ir aqui, não é? O combinado é TODOS os brinquedos.
- Então por que você ta escolhendo a ordem? Também não tinha isso no acordo.
- Eu só to falando que quero ir ali primeiro. – apontou para o carrinho que passava perto deles e ela rolou os olhos.
- E se eu quisesse ir em outro?
- Nós chegaríamos a um acordo comum.
- Eu e você concordando em algo? Impossível! Fui concordar com sua proposta e olha onde eu to agora. – disse nervosa.
- Pára de complicar as coisas... Eu quero me divertir, não ficar discutindo com você. – falou franzindo a testa, mas logo mudou de idéia ao perceber que aquilo faria seus machucados doerem mais. Passou a mão de leve por seu curativo, apenas para se certificar de que estava no lugar certo e o olhou com os olhos semicerrados, se afastando dele, enquanto se lembrava do que acontecera na escola no dia seguinte.
- Ok, mas não chega perto de mim. Se você fizer alguma coisa comigo, eu te mato.
- Pirou? O que eu poderia fazer com você aqui?
- Sei lá. Eu sei muito bem o que você tinha no bolso lá na escola. Não pense que eu sou idiota, não vou esperar até que você resolva vir pra cima de mim. – Se afastou um pouco mais e ele a encarou incrédulo.
- Claro, eu sou um psicopata! E você ta acreditando de novo nas historinhas contadas pelo seu namoradinho.
- Se não foi isso, por que você foi suspenso? – colocou as mãos na cintura e ele cerrou os punhos com força.
- Porque alguém fez o favor de enfiar aquela merda no meu bolso! – Falou nervoso, um pouco alto demais, e algumas pessoas que estavam perto o olharam.
- Eu não acredito.
- Pois fique sem acreditar, eu não preciso da sua pena. – Concluiu o assunto e cruzou os braços.
não disse mais nada, apenas tentou ignorar a presença de ali e assim fez por muito tempo. Ficaram ambos em silêncio por vários minutos, enquanto a fila aos poucos ia diminuindo e eles se aproximavam mais do brinquedo. Até que, finalmente chegou a vez em que eles iriam, mas só havia sobrado um lugar no carrinho. A garota começou a agradecer mentalmente a Deus, mas logo percebeu que o menino que estava em frente aos dois estava sendo puxado para o lado.
- Não, filho. Você vai no próximo, esse casal deve querer ir junto. – A mãe do garoto propôs, simpaticamente, e tentou dizer algo para negar, mas começou a falar primeiro.
- Muito obrigado, senhora. – Agradeceu sorrindo e com um leve aceno de cabeça, enquanto empurrava para dentro do carrinho, mesmo contra sua vontade, e ela o olhou brava assim que entraram.
- Nós não somos um casal. O menino estava esperando há muito tempo.
- O combinado é irmos juntos nos brinquedos, você querendo ou não. Se ele fosse agora, nós que esperaríamos mais. – disse, aparentemente mais calmo, e esticou sua mão, com a palma virada para cima, para o lado de .
- O que é isso? – Ela indagou com a testa franzida, empurrando o braço dele para longe.
- Pra você apertar e não sentir medo.
- Eu não tenho medo.
- Não precisa fingir pra mim... Essa não é a primeira vez que vamos a um parque. Eu não me esqueci de nada do ano passado. – falou abrindo um pequeno sorriso, enquanto sentia o carrinho começar a se movimentar, em direção à primeira subida, e olhou nos olhos da garota.
- Pois deveria ter esquecido. – começou a dizer firmemente, o encarando, sem se dar conta de que estavam se movimentando. – Sabe por quê? Porque pra mim você morreu! – Falou alto e logo em seguida o carrinho começou a descer rapidamente. se assustou ao sentir a pressão que o vento fazia sobre seu rosto e acabou engolindo uma boa quantidade de ar, que fez seu estômago embrulhar completamente. apenas começou a rir ao ver a cara que ela fazia, pois já sabia que isso iria acontecer.
Tentando se manter firme, e sem vomitar, passou o resto do tempo de olhos fechado e as mãos apertadas com força no ferro que havia em frente ao seu assento, enquanto curtia as subidas, descidas e loops pelos quais passavam.
Quando o carrinho parou, abriu os olhos e soltou o ar pesadamente, como se o estivesse prendendo há um bom tempo, antes de acompanhar , que já se retirava do brinquedo, rindo.
- Por favor, espera chegar ao banheiro.
- Eu me assustei e engoli ar. – falou devagar, enquanto ainda tentava ficar de pé ao sair do carrinho. - Foi culpa sua.
- Que se sentar? – perguntou ao perceber que ela realmente parecia enjoada e segurou de leve em seu braço para ajudá-la a manter-se firme enquanto caminhavam.
- Não precisa... Já ta passando. – deu um pequeno sorriso.
- Então, em qual a gente vai agora? – perguntou empolgado e a garota rolou os olhos.
- Um que não me faça vomitar.
- Já sei! – sorriu. – Vamos ao tiro-ao-alvo, você vai ver como eu me tornei o mestre de lá.
- Não seja convencido, eu sempre conseguia mais que você. – brincou, já sentindo que o enjôo já começava a passar e seus passos aos poucos se tornavam mais firmes.
- Ah, você se lembra? Achei que tivesse dito que era melhor esquecer as coisas do ano passado. - sorriu ironicamente e caminhou até o balcão do jogo, que era ali perto, enquanto cruzava os braços e o seguia novamente. - Não pense que eu vou te dar o prêmio que eu ganhar...
- Eu nem quero. – deu de ombros.
- Ta escrito na sua testa. eu quero um ursinho! – disse imitando, de uma forma irritante, a voz de .
- Ha, ha. – riu ironicamente. – Para quê eu vou querer que você me dê algo se eu consigo melhor?
mandou língua pra e ambos começaram a jogar. Ficaram concentrados em suas armas e nos patinhos mal desenhados que tinham que acertar até que terminaram e o atendente anunciou que haviam empatado e ganhado o maior prêmio.
- O que vão querer? – Perguntou o rapaz magrelo que os atendia.
- A cesta de chocolate! – disse, com um sorriso enorme no rosto.
- Eu quero o urso. – pediu, também sorrindo.
O rapaz foi até a bancada de prêmios e trouxe um em cada mão, entregando a eles em seguida. começou a examinar tudo que havia lá dentro, com os olhos brilhando, enquanto pegava o ursinho e se virava de frente para ela. O garoto esperou que ela o olhasse, com um grande sorriso no rosto, e assim que o fez, sentiu seu coração parar de bater por alguns segundos. Ele realmente a daria?
- Toma, fica pra você... – falou ainda olhando para ela, mas abaixou a mão e o ofereceu a uma garotinha que estava parada perto dos dois.
A menina tomou o urso entre os braços e sorriu feliz antes de agradecer e correr para sua mãe para contar o que havia acontecido, enquanto desfazia o pequeno sorriso que ameaçava se formar em seu rosto.
- Você é mesmo um idiota. – Balançou a cabeça negativamente e pegou sua cesta, saindo andando, em seguida, em direção a um brinquedo qualquer.
- Achou que eu fosse te dar? Você mesma disse que não fazia questão. – foi atrás, se divertindo com a situação, enquanto a garota tentava ignorar suas palavras. Mas então, sem um porquê, ela se lembrou de e de que ele havia dito que passaria na casa de mais tarde e deteve seus passos.
- O quê? – O garoto perguntou, sem entender sua atitude, conseguindo parar antes que esbarrasse nela.
- Você não tinha que ta com o ?
- Tinha? – estranhou. – Por quê?
- Ele disse que ia à sua casa essa tarde...
- Vocês ficam conversando sobre mim? – perguntou sorrindo e ela rolou os olhos, voltando a caminhar.
- Óbvio que não, nem quando falta assunto. É que ele passou a tarde lá em casa hoje e ia aproveitar pra te ver, já que sua casa é perto da minha.
- Devia ter me ligado antes, já era.
- Você não dá a mínima pra ninguém, não é? – perguntou com um tom de deboche.
- Eu me importo com as pessoas. – franziu de leve a testa. – Mas ele não vai morrer se não me achar em casa hoje.
- Vai ser melhor pra ele. – deu um falso sorriso e entrou na fila do carrinho bate-bate, que fora o brinquedo que mais a atraíra naquele momento.
- Eu não sou tão chato assim... – retrucou e parou atrás de .
A fila não estava tão grande quanto à dos outros brinquedos, mas ainda faltava um pouco para que sua vez chegasse; então começou a cantarolar algo baixinho, apenas para passar o tempo, já que manter qualquer conversa com por muito tempo era praticamente uma missão impossível. Ela, por sua vez, sorria, sem que ele percebesse, e acompanhava a melodia batendo de leve os pés no chão. Sempre gostara da voz de , ela conseguia se acalmar ao ouvi-lo cantando, era como se ele pudesse hipnotizá-la apenas ao cantar um pequeno trecho de uma música qualquer.
- Ta ficando escuro. – falou, observando o céu ao seu redor, assim que ele terminou de cantar.
– Eu te levo para casa depois... É bom que eu vou poder falar com o . Além do mais, nós ainda não fomos a todos os brinquedos.
- Já são suficientes esses que nós fomos, rendeu o resto da tarde todo.
- , não reclama. Se não fosse por mim, você estaria mofando naquele banco até agora. – disse sério, cruzando os braços e só então se lembrou de que Jonathan havia desaparecido.
- Eu não entendo... Deve ter acontecido alguma coisa séria. – Disse se sentindo culpada por ter se esquecido dele daquela forma e preocupada por não ter idéia de onde ele pudesse estar.
- Você se preocupa com ele? Que perda de tempo. – reprovou, sacudindo a cabeça e ela deu de ombros.
- Me preocupo mesmo e isso não é da sua conta.
- Você gosta dele? – perguntou de súbito e sentiu um nó no estômago ao perceber o que havia perguntado e principalmente pelo que ela poderia responder.
engoliu em seco e pensou por alguns segundos antes de responder à pergunta, ainda não convicta de suas palavras.
- Gosto... É legal estar com ele, mas eu não posso dizer que estou apaixonada ainda. – Abaixou a cabeça e respirou fundo.
O garoto tinha medo de vê-la algum dia dizendo estar apaixonada por alguém que não fosse ele e, pior, sentia raiva ao lembrar que, um dia, fora por ele que o coração dela bateu mais forte. Embora, infelizmente, esse período não tenha durado muito.
- Burra! – falou impulsivamente, tentando descontar o sentimento de raiva que começava a invadi-lo.
- Quê? – olhou pra trás, com uma sobrancelha arqueada.
- Como você consegue ignorar o fato de ele usar drogas?
- Você não pode falar nada. É muito pior que ele. – retrucou, sentindo um nó apertar em sua garganta.
- eu não...
- Eu não quero falar sobre isso, . – O interrompeu e só então se deu conta da maneira que havia se dirigido a ele. ... Há quanto tempo ela não pronunciava aquele apelido. Teria sorrido se estivesse em outra situação, mas naquele momento tudo que fez foi sentir seu coração se apertar ainda mais.
- Esse é o problema, você nunca quer falar sobre isso! – alterou um pouco o tom de voz, nem notando o que para ela fora tão especial.
- Não, o problema é que VOCÊ É VOCÊ! – também falou um pouco mais alto, enquanto cruzava os braços.
- Claro... Se tivesse sido o Jonathan não teria problema nenhum, certo? – prosseguiu nervoso, ignorando todas as pessoas da fila que os olhavam.
- NÃO! NÃO TERIA! – gritou e a olhou, incrédulo, com a boca levemente aberta.
- Pra mim chega. – Disse baixo. – Que se dane esse acordo, esse parque... Que se dane você e ele. – Esbravejou e saiu andando com pressa, deixando sozinha na fila, com inúmeras lágrimas nos olhos.
A garota ficou parada por um tempo, completamente assustada e sem saber o que fazer, apenas tentando limpar as lágrimas que começavam a rolar por suas bochechas, passando a mão com força por seu rosto, enquanto outras insistiam em sair de seus olhos.
- Você ainda vai no brinquedo? – O atendente perguntou a ela, que já era a próxima da fila e nem ao menos havia se dado conta disso.
- Obvio que não! – respondeu nervosa.
- Então por que ainda ta na fila? – Insistiu o homem e ela notou então que todos a olhavam, o que a irritou ainda mais.
- Vão cuidar da vida de vocês, vão! – Falou nervosa e saiu dali, ainda podendo ver indo embora.
Desesperou-se, então, ao pensar em como voltaria para casa. A região do parque era perigosa à noite e ela tinha muito medo de passar por ali sozinha. Olhou ao seu redor, buscando alguém conhecido, mas como já esperava, não encontrou ninguém. Voltou a olhar para , que se afastava ainda mais e mesmo contra sua vontade percebeu que sua única alternativa era engolir o orgulho, as lágrimas e ir atrás dele. Antes que o perdesse de vista, abaixou a cabeça e correu até conseguir se aproximar. O garoto andava com as mãos nos bolsos da calça e com passos largos, o que dificultava para chegar mais perto, já que precisava dar quase três passos para alcançar um dele, mas com pequenas corridinhas ela logo ficou ao seu lado, embora olhasse para a direção oposta à que ele estava. Pensou em algo para dizer, já que queria dar uma explicação para sua corrida até ele, não querendo desistir completamente de seu orgulho, e arriscou algumas palavras.
- Você disse que me levaria até em casa... – Falou baixo e olhou para para se certificar de que ele havia ouvido, mas o garoto continuava a andar rápido e ignorar sua presença ali. – Ah, espera aí! Isso não ta certo, você ficou com raiva, mas a vida é minha e a vítima fui eu. – falou sem pensar, ao recuperar até demais o orgulho que estava escondido em seu peito, e colocou a mão na cintura, esperando que ele dissesse algo, mas apenas rolou os olhos. – , me responde!
- Dá pra calar a boca? – Ele falou alto. – Eu não quero me irritar mais e muito menos ficar ouvindo seus ataques histéricos o caminho inteiro. – Disse nervoso e abaixou a cabeça.
- Você vai me levar até em casa? – Perguntou baixo, voltando a ficar sem graça por estar ali.
- Eu procuro cumprir com o que eu digo.
- Se não quiser, não precisa... Digo, eu não quero ir sozinha, mas também não precisa fazer isso só porque tinha falado mais cedo. – continuou a dizer as coisas que vinham à sua boca, sem pensar antes e então percebeu o quanto sua voz soava irritante. – Ai, , cala a boca! Você não ajuda assim... – Falou baixo, brigando consigo mesma e dando leves tapas em sua testa, mas ouviu e a olhou com um pequeno sorriso, ao perceber o desespero da menina.
- Eu ainda não consigo entender o que tem aí dentro. – Falou, tentando se acalmar e ela o olhou com uma sobrancelha arqueada.
- Onde?
- Sua cabeça. – sorriu e mandou língua.
Os dois permaneceram se olhando por um momento e de repente todo o clima de tensão que havia entre os dois desapareceu. Para era impossível se manter com raiva dela e, apesar de conseguir resistir mais às ordens de seu coração, se sentia da mesma forma. Por mais que brigassem, que dissessem que se odiavam, ambos sabiam, no fundo, o que sentiam um pelo outro e o quanto desejavam que as coisas pudessem voltar a ser como eram antigamente. permaneceu preso ao olhar dela, ainda caminhando, e abriu um pequeno sorriso, mas que logo virou uma careta de dor assim que o garoto bateu a testa em uma pequena placa que havia na calçada, exatamente no meio de seu caminho, e quase caiu para trás.
se assustou ao ver o que havia acontecido, já que também não havia percebido a placa ali, mas não pode conter o riso quando se deu conta de quão engraçada havia sido a situação.
- Isso não foi engraçado. – reclamou com a mão na testa, ficando parado por alguns segundos para se certificar que estava bem.
- Desculpa, mas foi. – disse enquanto não conseguia segurar seu riso e parou ao lado dele. – Você gosta de se machucar, não? – Perguntou enquanto apontou para o curativo no nariz do menino e sacudia a cabeça lentamente.
- Eu disse que ainda podia te fazer rir. – falou convencido, enquanto tirava sua mão da testa e sorria para ela.
- Foi de propósito? – arregalou os olhos e soltou uma gargalhada.
- Também não é pra tanto, sua risada não custa tão caro. – Respondeu arqueando as sobrancelhas e ela semicerrou os olhos e ignorou o comentário.
- Você se machucou?
- Não... Só doeu mesmo, mas me diz pra quê essas coisas no meio da calçada?
- Não fala isso, placas são importantes.
- São. Desde que não haja um pedaço delas em frente à sua testa. – continuou a reclamar e mesmo tentando não fazê-lo vencer novamente, mantinha um sorriso enorme no rosto.
Os dois voltaram a caminhar em seguida e foram em silêncio durante o resto da trajetória, mas não era mais aquele silêncio agonizante e constrangedor. O clima entre os dois estava mais leve e ambos tinham uma feição mais feliz em seu rosto. E, mesmo sem dizer uma palavra, um sabia exatamente no que o outro estava pensando. ainda ria da cara de ao bater a testa na placa e ele reclamava do lugar impróprio no qual haviam colocado aquele objeto.
Não demoraram a chegar à porta da casa da garota e ela logo foi tocar a campainha, a fim de chamar para que o primo conversasse com , apesar de não ter em mente nenhuma desculpa para inventar caso ele perguntasse o que os dois estavam fazendo juntos. A mãe da garota logo atendeu à porta, mas nem notou que ao invés de Jonathan, era quem estava parado na calçada, já que estava escuro e ela havia deixado seus óculos dentro de casa.
- Mãe, o ainda está aí? – perguntou assim que a senhora abriu a porta, mas ela negou com a cabeça.
- Não, meu amor. Ele já foi... Disse que ia passar na casa de um amigo antes de ir embora e não queria que ficasse muito tarde. – Respondeu tranquilamente e olhou com cara de reprovação para , que apenas levantou os braços como se dissesse “Eu não tive culpa!”. – Quando entrar tranca a porta, eu vou terminar de ver um filme. – A mulher concluiu e acenou rapidamente para o garoto antes de voltar para dentro de casa, enquanto concordava e, em seguida, voltava para perto dele.
- Eu já vou. – falou sorrindo. – Foi legal... Passar essa tarde um pouco mais amigavelmente, apesar da gritaria e dos machucados.
- É... – Ela concordou e sorriu sem graça. – E obrigada por me trazer até aqui.
- De nada. – respondeu e acenou de leve com a cabeça antes de se virar e começar a andar a caminho de sua casa, enquanto permanecia onde estava, observando-o seguir em frente. Mas então deteve seus passos a certa distância e olhou para trás.
- Esqueci uma coisa. – Comentou alto, voltando rapidamente para perto de , que estranhou a atitude.
- O quê?
- Seu beijo de boa noite.
E sem esperar nenhuma resposta, fechou seus olhos e encostou seus lábios nos da garota, que se paralisou e sentiu seus joelhos amolecerem. Por um momento, pensou que cairia no chão, mas as mãos do garoto, segurando seus braços com força, a deram a segurança que ela precisava. Então, da mesma forma com que se aproximara, se afastou sorrindo e sem dizer mais nada, continuou a caminhar em direção a casa.
- Co... Como assim? – perguntou, ainda um pouco sem reação, mas não obteve nenhuma resposta. – , nem pense em falar alguma coisa sobre o dia de hoje com alguém! Ouviu? – Gritou para que ele a escutasse, sem saber o que dizer, ainda completamente confusa em relação a todos os sentimentos que começavam a dominá-la naquele momento.
Mas, na verdade, não a ouvia. Estava perdido em seus pensamentos e agora caminhava muito mais leve, pois havia feito algo que desejava fazer há tempos, embora nunca tivesse uma oportunidade como a desse dia. Saiu sem dizer nada não porque não tinha o que dizer, muito pelo contrário, ele só não queria que ela estragasse aquele momento com alguma resposta que ele não gostaria de ouvir. Aquele era SEU momento e ele sentia que estava começando a achar o caminho certo, enquanto esperava que nada saísse errado dessa vez.
Capítulo VII
“JULIETA — Dize-me como entraste e porque vieste. Muito alto é o muro do jardim, difícil de escalar, sendo o ponto a própria morte – se quem és atendermos – caso fosses encontrado por um dos meus parentes.
ROMEU — Do amor as lestes asas me fizeram transvoar o muro, pois barreira alguma conseguirá deter do amor o curso, tentando o amor tudo o que o amor realiza. Teus parentes, assim, não poderiam desviar-me do propósito.
JULIETA — No caso de seres visto, poderão matar-te.
ROMEU — Ai! Em teus olhos há maior perigo do que em vinte punhais de teus parentes. Olha-me com doçura, e é quanto basta para deixar-me à prova do ódio deles.”
- Onde está a concentração de vocês? Estava ficando perfeito, agora parece que voltamos ao primeiro ensaio. – Começou dizendo, já ficando nervosa, a Sra. Parson. – , desliga essa luz, agora é a azul. AZUL! – Gritou e olhou pra trás a tempo de vê-lo levantando uma mão em pedido de desculpas. -Chega de ensaiar, podem ir para suas salas. – A professora finalizou e saiu bufando do auditório.
Assim que a mulher se retirou, Jonathan, que estava em cima do palco com sua cabeça abaixada, se aproximou de
para tentar se explicar e acabar com o clima estranho que estava entre eles desde que o ensaio se iniciara.
- Posso falar com você? – Indagou baixo assim que chegou perto o suficiente dela, mas
negou com a cabeça, enquanto acendia algumas luzes sobre os dois, fazendo-os colocar uma mão sobre os olhos.
- Eu to atrasada pra aula, Jonathan.
- Eu também... Mas, por favor, me deixa te explicar o que aconteceu ontem. – Insistiu.
- Não precisa. –
forçou um sorriso e desceu do palco por uma das escadas laterais.
Começou a andar até a porta do auditório e então viu que terminava de desligar os aparelhos e saía da sala de som, a tempo de se encontrar com ela, enquanto Jonathan vinha atrás, tentando pensar em uma maneira de fazê-la ouvir suas explicações.
- Já te disse o porquê do sumiço? – perguntou enquanto cruzava os braços e se encostava ao batente da porta.
- Sai, . –
respondeu secamente, demonstrando que não havia acordado de bom humor, e pegou seus materiais que estavam em uma cadeira em frente à sala de som.
- Não desconta em mim... Quem falhou com você foi ele. – reclamou, observando Jonathan se aproximar e deu um pequeno sorriso ao ver a expressão nervosa que ele apresentava no rosto.
- Você teve alguma coisa a ver com aquilo, ? – Jonathan indagou, demonstrando que havia ouvido a provocação de , e
franziu a testa enquanto olhava para os dois alternadamente.
- Aquilo o quê?
- Claro que não, eu por acaso perderia meu tempo com algo relacionado a você? – falou tranqüilo, ignorando a pergunta da garota, assim como Jonathan fizera, e deu de ombros, tentando se mostrar indiferente ao assunto.
- Eu deveria ter percebido, é obvio que você estaria envolvido. – Jonathan continuou, cerrando seus punhos com força e o encarando com os olhos semicerrados, enquanto ainda mantinha sua expressão calma e feliz.
- Alguém me explica alguma coisa? –
perguntou, já começando a ficar impaciente e com medo de que alguma outra briga pudesse acontecer por ali.
- Simples, ele quer pôr a culpa em mim por ter sumido ontem... Não quer assumir seu erro. – riu ironicamente.
- E como você saberia que eu sumi se não tivesse nada a ver com isso? – Jonathan indagou se irritando com a provocação do garoto.
- John... –
o repreendeu com um tom de voz baixo.
- Talvez porque eu estivesse lá perto e vi que você a deixou sozinha...
- . – Dessa vez
repreendeu , com medo de que ele falasse mais do que deveria.
- E aproveitou pra estragar o dia dela?
- Eu tenho certeza que ela se divertiu muito mais comigo!
- CHEGA! –
gritou e os dois se calaram. – , vai pra casa, não era nem pra você estar na escola.
- Não vou... Ele vai te manipular, vai falar coisas que não são verdade. Como a história do soco inglês, por exemplo. – cruzou os braços e Jonathan riu sarcasticamente.
- Eu não sou criança, eu sei discernir as coisas, e você não é um santinho, né? –
semicerrou os olhos. – Vai embora, . – Concluiu séria e viu sair nervoso do auditório, enquanto Jonathan ficava com um sorriso no rosto. – Cinco minutos pra me explicar. – Virou-se de volta para o garoto, com os braços cruzados, e ele desfez o sorriso rapidamente, antes que ela visse.
- Ok... – Jonathan respirou fundo. – Eu saí pra ir ao banheiro e encontrei o Richard com o cara que eu to devendo... Não dava pra eu voltar porque ele ia me ver e você sabe o que ia acontecer comigo. – Falou resumidamente e
engoliu em seco ao se lembrar do que acontecera àquele outro rapaz. – Me desculpa, mas eu não queria te colocar nisso de novo. Eu te liguei depois, mas você não atendia...
- Meu celular deve ter dado problema, não chamou nenhuma vez... –
falou, ainda sem estar completamente convencida, mas já estava acostumada com os problemas que seu celular dava de vez em quando. – Mas o que o tem a ver com isso?
- Você acha que ele foi ao parque, sozinho, à toa? Com certeza alguém avisou que nós iríamos lá e ele deu um jeito de me afastar.
- Mas como? –
franziu a testa.
- Não sei, mas eu tenho certeza que tem dedo dele nessa história.
- A gente não pode afirmar nada, por enquanto...
- Você ta defendendo o ? – Jonathan perguntou incrédulo e ela negou com a cabeça.
- Não. Eu não sou injusta, é diferente... Agora, me deixa ir pra sala. – Respirou fundo e logo saiu do auditório com sua bolsa em mãos, mas Jonathan a seguiu e continuou tentando quebrar o clima estranho que insistia em ficar entre eles.
- Espera, e a gente? Você me desculpa? – O garoto perguntou, fazendo-a parar e olhar pra trás.
- Depois a gente conversa, John. É melhor ir logo antes que eu não possa mais entrar na sala... – Respondeu fingindo tranqüilidade e voltou a caminhar.
Foi sozinha até sua sala, já que os corredores estavam vazios, pois o sinal já havia tocado há mais de cinco minutos. A garota estava confusa, tentando entender o porquê de estar agindo daquela forma. Por um lado, fazia sentido o que Jonathan dissera, estava muito confiante quanto ao combinado dos dois e além do mais, ele sabia que
estava esperando há cerca de meia hora. O que ela não conseguia entender era por que ele queria passar aquela tarde com ela, como ficara sabendo onde eles estavam, porque planejara afastar Jonathan, e, principalmente, como conseguiu o que queria.
Bateu à porta da sala, sem o mínimo ânimo para assistir aula, e depois a abriu devagar.
- Com licença... – Disse baixo, vendo a cara feia da professora de História em sua direção. – O ensaio atrasou um pouco... Posso entrar? – Perguntou fazendo cara de inocente e a mulher assentiu, enquanto caminhava até o quadro para escrever as matérias da prova do dia seguinte.
sorriu e andou o mais rápido possível para seu lugar.
- Te liguei a tarde inteira ontem. – cochichou com a amiga, assim que ela se sentou.
- Eu não fiquei em casa de tarde...
- Foi aonde? Seu celular tava dando fora de área. – perguntou e
franziu a testa.
- Tava? Achei que ele não tivesse chamando porque deu problema...
- Eu cansei de ouvir a voz daquela mulher chata falando: O telefone encontra-se desligado ou fora de área. – imitou a gravação, confirmando a pergunta de
, e garota semicerrou os olhos, mas antes que pudesse prosseguir com a conversa, viu o olhar irritado de sua professora em sua direção e se consertou na carteira, enquanto pegava seu caderno.
Abriu na repartição de História, para ao menos fingir que copiaria o que a mulher passava no quadro, mas assim que colocou o caderno sobre sua carteira, viu cair de dentro dele um pequeno bilhete.
se abaixou, pegou o papel que tinha certeza não ser ela quem colocara ali e logo o abriu para ler.
“Pode deixar que nosso segredo vai ficar guardado... Por quanto tempo você quiser. Gostei de ontem, podíamos fazer isso mais vezes! .”
deixou sua boca se abrir lentamente, enquanto um sorriso também começava a surgir em seu rosto. provavelmente havia deixado o bilhete ali durante o ensaio e ela estava completamente surpresa por ele ainda conseguir fazer seu coração reagir de maneiras tão adversas em tão pouco tempo. Ela acabara de discutir com ele e mandá-lo embora e agora já sorria abobalhadamente por causa de algumas poucas palavras que ele havia escrito.
Releu novamente o bilhete e dessa vez sentiu seu coração se apertar um pouco, já que a primeira frase a lembrava de algo que ela tentava todos os dias apagar de sua memória, algo que nunca deveria ter acontecido, e que insistia em assombrá-la todas as noites. Respirou fundo, tentando mais uma vez ignorar aqueles pensamentos e decidiu entregar o bilhete a , a fim de saber a reação que a amiga teria ao ler o que estava escrito ali.
- O que é isso?
- Achei aqui na minha bolsa... Da uma olhada.–
falou baixo e deixou o papel nas mãos de , enquanto ela já começava a ler.
- Espera! Esse nome aqui no final é de quem eu to pensando? – Indagou com os olhos arregalados e a garota concordou.
- Acho que é o único que conhecemos, não?
- O te deixou um bilhete? O que aconteceu ontem,
? A que ele ta se referindo? Por que ele quer repetir mais vezes? – começou a bombardear, principalmente por estar vendo a amiga reagir tão tranquilamente ao bilhete, sendo que o normal seria ela rasgar o papel e jurar matar o garoto.
- Eu vou te explicar tudo no intervalo...
então voltou a se perder em seus pensamentos. Tentava achar explicações que sempre lhe escapavam e tentava pensar em como deveria agir diante de todas as situações que vinham acontecendo e que exigiam dela tanta força, força que às vezes não tinha certeza de possuir. Jurara a si mesma há alguns meses que nunca mais falaria com novamente, que o garoto que ela havia conhecido, e que era seu melhor amigo, estava morto e muito bem enterrado, enquanto o corpo que via em sua frente era apenas um estranho sem coração que gostava de importuná-la. Não gostava de se sentir vulnerável, fraca, e tão burra como parecia ser ao se lembrar dos acontecimentos anteriores, além de não acreditar no que ele havia sido capaz de fazer, mesmo depois de todas as promessas e lindas palavras ditas. Mas tê-lo sempre tão perto, principalmente agora que havia voltado a agir como era antes, fazia todo o seu esforço ter sido em vão, ela não conseguia odiá-lo da forma que gostaria, da forma que ele merecia, e isso a deixava completamente frustrada.
Também não sabia como agir em relação a Jonathan, gostava do garoto, sentia-se bem, livre de suas atormentações quando estava ao seu lado, mas não o conhecia, não sabia nada sobre ele e tinha medo de acabar sendo enganada e machucada mais uma vez.
E, por fim, não tinha idéia de como conciliaria aqueles dois sentimentos que agora tomavam tanto espaço dentro dela.
A aula de História passou rapidamente, sem que a garota notasse, assim como as outras duas aulas seguintes e ela apenas conseguiu se livrar de todas aquelas complicações quando o sinal que anunciava a hora do intervalo havia soado.
se levantou depressa e puxou
pela mão ao notar que a amiga não se movimentara, já apreensiva para saber tudo que havia acontecido no dia anterior e que deixara a garota tão aérea durante toda a aula. Caminharam rapidamente para fora da sala, mas ao chegarem ao corredor, acabaram esbarrando com um dos piores pesadelos de : .
- Primo! –
gritou assim que viu o garoto e o abraçou. – Não apareceu no ensaio por quê?
- O despertador não tocou. – se justificou e sorriu para ela, enquanto passava a mão em seus cabelos, os bagunçando.
- Eu devia ter pensado nisso... Acho que vou te dar um despertador novo no seu aniversário, o seu nunca toca. –
comentou rindo enquanto consertava seu cabelo.
- E eu vou comprar um celular pra você. Tentei te ligar um monte de vez ontem, pra saber onde você estava e só dava fora de área.
- Querido, aí já não é culpa do meu celular. Vai brigar com essa operadora que não pega em lugar nenhum. –
brincou e logo cruzou os braços. – E me ligou pra que? Tava preocupadinho?
- Toda vez que você se aproxima daquele babaca, eu me preocupo sim. – falou sério e ela rolou os olhos.
- Preocupa à toa. - Concluiu o assunto e sentiu que puxava sua mão, como se dissesse que queria sair logo dali. – Er... To indo para o pátio porque eu e temos muito que conversar, ok? Te amo! – Falou sorrindo e começou a caminhar junto com para um lugar onde pudessem conversar tranquilamente. permaneceu onde estava, apenas observando-as caminhar, com sua típica sobrancelha arqueada.
- Vai. – Deu de ombros, falando sozinho, e logo ouviu as vozes de e , que se aproximavam.
- Você vai? – perguntava animado.
- Não sei... Sexta tem aula. – respondeu pensativo.
- Ah, qual é? A gente vai ter acabado de fazer duas provas cansativas. Merecemos curtir também, dude! – deu um leve soco no ombro de , que rolou os olhos e lhe mostrou o dedo do meio.
- Posso saber sobre o que as gazelas discutem? – perguntou rindo, se juntando aos amigos, que caminhavam em direção ao pátio também.
- A Alison vai dar uma festa em casa amanhã depois da prova. Tipo uma boas-vindas, saca? – disse tranqüilo, enquanto acenava para uma garota que sorria em sua direção.
- E esse idiota não quer ir... – reclamou. – Você se lembra do nível das festas na casa da Alison?
- Claro que eu lembro. – riu. – Fica frio, ele vai sim. – Deu um tapa na cabeça de , que o olhou bravo.
- Me acerta de novo e eu não vou.
- Eu disse que ele queria ir... – concluiu rindo, enquanto via Alison vir caminhando de frente para ele, com um sorriso provocante nos lábios.
- ... – A garota o cumprimentou, mordendo seu lábio inferior, enquanto enrolava uma mecha de seu cabelo no dedo indicador e seus olhos verdes brilhavam com muita intensidade.
- Ei, Alison... – abriu um pequeno sorriso, a cumprimentando com um leve acenar de cabeça.
- Você vai à minha festa, né?
- Ainda não tenho certeza, mas acho que da pra aparecer um pouquinho por lá.
- Vou ficar te esperando, faz muito tempo que a gente não conversa, eu pensei que talvez...
- Olha, Alison, eu tenho que ir. – a interrompeu e ela logo desfez o sorriso que levava no rosto. - Eu prometi que ia comprar um salgado pra
, e pode acabar... Depois a gente conversa, ok? – Finalizou o assunto e deu dois leves tapas no ombro da menina antes de passar por ela e continuar sua trajetória. e apenas sorriram sem-graça, totalmente assustados com a reação do amigo, e logo o seguiram.
- Você fuma bosta, dude? – perguntou abismado.
- Por quê? – franziu a testa.
- A menina tava babando em você. Qualquer cara desse colégio daria a alma pra estar no seu lugar e você simplesmente a ignora?
- Eu não daria a alma. Meu corpo, talvez... – brincou, enquanto concordava com .
- Cala a boca. Vocês sabem a confusão que ela causa na minha vida.
- E daí? Ela é gostosa. Você ta muito gay ultimamente. – sacudiu a cabeça negativamente e fez uma careta antes de sair de perto dele e ir para o lado de .
- Olha quem fala! – rolou os olhos. – Ela é gostosa mesmo, eu sei o quanto. – Concordou, enquanto sorria ao se lembrar de algumas cenas do passado. – Mas é outra pessoa que eu quero e ela só vai me atrapalhar.
- Gay! – disse novamente e riu.
- E que desculpa ridícula você deu pra ela... – acrescentou, sacudindo a cabeça.
- Aí, ele estava indo embora, mas de repente parou e falou que tinha esquecido alguma coisa. Quando eu perguntei o quê... –
respirou fundo e depois murmurou algo inaudível.
Estava sentada embaixo de uma árvore com , contando tudo que havia acontecido no dia anterior, se esforçando para não deixar nenhum detalhe passar despercebido. ficara boquiaberta na maior parte da história e também não conseguia entender a mudança tão repentina de .
- Hã? – franziu a testa, não conseguindo entender o que ela dissera. – Fala direito.
- Ele mibshow. –
falou entre dentes, ainda muito baixo.
- Ele o quê?
- ME BEIJOU! –
gritou e depois pôs a mão na boca, se lembrando que alguém poderia acabar ouvindo, enquanto arregalava os olhos e abria a boca, sem saber se ria, gritava ou ficava sem emitir nenhum som. – Droga! E eu não sei o que fazer, . Não sei de mais nada. – A garota completou, franzindo a testa e colocando as duas mãos no rosto.
- Espera, eu ainda não digeri essa informação. – piscou várias vezes seguidas. - Então, vocês se beijaram? – Sorriu e
rolou os olhos. – E você não deu nenhum ataque, nem bateu nele ou chamou a polícia?
- Não...
- Oh my God! – deixou sua boca aberta mais uma vez.
- Pára ! Eu to realmente muito confusa. –
choramingou e começou a arrancar algumas graminhas que havia ao seu lado.
- Afinal, qual é o problema? O seu primo já não te contou que o não teve culpa aquele dia? – olhou para
que ainda estava com cara de choro. – Não sei por que vocês continuam, ou continuavam, brigando...
- Não é isso, ele foi um idiota comigo aquele dia. –
cerrou os punhos e respirou fundo para tentar evitar os nós que sempre apareciam ao citar aquele assunto, mas seu esforço fora em vão já que logo a grama se tornara um borrão verde, indicando que as lágrimas já começavam a queimar em seus olhos. – O me falou que ele não teve culpa, mas eu sei que teve. – Uma gotinha teimosa pulou de seu olho e escorreu lentamente por sua bochecha e logo ela levantou o rosto, para evitar que as outras fizessem a mesma coisa. – Eu não quero falar mais sobre isso.
- , você tem que decidir em que acreditar, não da pra ficar no meio-termo.
- Eu sei e já decidi. – Respirou fundo e tirou do rosto a lágrima que já chegava perto de sua boca. – Ele morreu pra mim! Ontem não aconteceu nada e eu me sinto muito melhor com o Jonathan, mesmo ele tendo que desaparecer de vez em quando. – Concluiu e antes que dissesse mais alguma coisa, ela mudou de assunto. – Você ouviu aquelas meninas falando sobre a festa na casa da Alison?
- Ouvi... – concordou, rolando os olhos e respeitando a decisão de
ao mudar completamente o rumo da conversa.
- Você vai? –
deu seqüência, apesar de já ter certeza da resposta da amiga, apenas para não voltarem ao mesmo assunto.
- Claro que não! O que eu faria na casa dela? Aquela... – abriu a boca para falar alguma palavra muito feia, mas logo mudou de idéia e voltou a fechá-la sem dizer mais nada.
- Eu também não quero ir... –
concordou, enquanto ouvia o sinal soar e fazia sua melhor cara de sofrimento, já que estava totalmente sem paciência para aturar mais alguns professores chatos falando de coisas que ela não entendia, nem fazia questão de entender.
- Se o Jonathan te chamar, você vai? – perguntou e em seguida se levantou, ofereceu ajuda para que
também se levantasse e as duas começaram a caminhar para sua sala.
- Acho que não... –
abaixou a cabeça e começou a encarar seus pés, enquanto andava. - Você sabe, eu não quero ir a festas mais e... E, sinceramente, não sei o que ele pode fazer lá. Além de que o provavelmente também deve aparecer...
- Então prepara um desculpa logo, porque o Jonathan ta vindo aí. – concluiu rapidamente o assunto e ela levantou a cabeça para vê-lo.
- Ei... – Disse sem-graça ao perceber que ele já estava bem mais perto do que imaginava e sorriu.
- Ainda ta com raiva de mim? – Jonathan perguntou com uma cara inocente e depois sorriu para , que retribuiu o sorriso.
- Não... Eu não fiquei com raiva, só estranhei o que aconteceu. Não é todo dia que alguém desaparece quando vai ao banheiro...
- Desculpa de novo. – Jonathan pediu, franzindo a boca de lado e
concordou sorrindo. – Vai à festa da Alison?
- Acho que não... To evitando festas, principalmente as dela. – A garota respondeu, enquanto concordava com a cabeça.
- Você não precisa ficar olhando pra cara dela o tempo todo. – Jonathan riu. – Vai ser divertido, vamos? Eu prometo que não deixo nada de mal acontecer a você.
- Não sei...
- , convença sua amiga a ir comigo? Fala pra ela o quanto você vai se divertir lá. – Jonathan pediu insistentemente, tentando achar uma maneira de convencê-la.
- Eu também não vou... Tenho coisas mais interessantes para fazer em casa. – se desculpou, sorrindo sem-graça, e ele rolou os olhos.
- Por favor... – Voltou a insistir com sua cara de piedade e olhou para
, que respirou fundo e se deu conta de que dizer não a ele seria mais difícil do que imaginava.
- Vou pensar no seu caso.
- Eu não acredito que você me convenceu a ir a essa festa... – falou, enquanto terminava de arrumar seu cabelo em frente ao espelho. A garota estava vestida com uma calça jeans, uma blusa preta larga e caída nos ombros e uma sandália de salto.
Estavam as quatro no quarto de , pois haviam combinado de se arrumarem juntas para a tão esperada festa e como
era a que morava mais perto de Alison, as convidou para que se arrumassem em sua casa.
- E eu não acredito que o Jonathan me convenceu. –
respondeu sorrindo, e se sentou na cama de . Ela estava com uma bata branca, saia jeans e uma sandália de salto também. E graças ao clima louco que dominava Londres, fazendo a cidade ficar inesperadamente quente, considerando que estavam no inverno, e elas eram obrigadas a optar por seus looks de verão.
- Ai gente, a festa não vai ser tão ruim assim. – se intrometeu, enquanto empurrava para o lado para terminar de passar seu lápis preto nos olhos. Ela estava com uma calça jeans, blusa larga de alcinha e uma rasteirinha. – Pelo menos não vai ser pior do que essa prova que a gente fez hoje.
- Concordo! – Gritou , que naquele momento saía do banheiro com um vestido xadrez vermelho e preto e os cabelos molhados pingando na roupa.
- , você acha que seu relacionamento com o Jonathan tem futuro? – perguntou quando finalmente terminou sua maquiagem.
- Não sei... Na verdade nem é um relacionamento, ta mais pra uma forte amizade.
- Com beijos na boca. – completou e
deu um leve tapa na cabeça da amiga.
- Gente essa roupa ta boa? O que eu ponho no pé pra combinar? – perguntou, enquanto penteava seu cabelo apressadamente.
- Ta linda. –
disse sorrindo. – Coloca aquela sandália que eu gosto. – Apontou para a sandália plataforma que estava no canto do quarto e concordou empolgada, indo logo calçá-la.
As meninas continuaram a conversar coisas sem importância, enquanto apressavam
, já que ela havia sido a última a ficar pronta, e cerca de vinte minutos depois já se encontravam todas do lado de fora, caminhando em direção à festa. Riam e brincavam muito, todas tentando fazer aquela noite ser divertida, apesar de todos os motivos que tentavam as convencer do contrário.
também ria com suas amigas, agradecendo mentalmente por ter a melhor companhia do mundo. Se não fosse por elas, muito provavelmente estaria mofando em casa com um pote enorme de sorvete em mãos, se lamentando pelas coisas do passado e morrendo de medo de enfrentar a todas aquelas pessoas novamente.
Caminharam por mais alguns minutos falando de coisas como as novas bolsas da Prada e o quanto tal ator estava ficando maravilhoso, até que suas falações foram interrompidas pelo toque escandaloso do celular de
, o que ela já suspeitava que aconteceria.
- É o Jonathan... – Disse, lendo o nome do garoto no visor. – Deve estar querendo saber onde eu to, já que eu disse que estava indo há QUARENTA minutos. – Comentou olhando brava para , já que ela as atrasou, e a menina mandou língua.
- Atende logo.
- Oi, John! –
seguiu o conselho e tentou se mostrar animada.
- Onde você ta, linda?
- Já to chegando, é que as meninas atrasaram um pouco...
- Ah, tudo bem... Só liguei porque caso você ainda não tivesse saído, eu iria te buscar.
- Não precisa se preocupar, eu to a menos de um quarteirão, mas obrigada mesmo assim. –
sorriu e então percebeu que as outras três garotas prestavam atenção na conversa. – Beijo, John. Tchau. – Encerrou a ligação e encarou as amigas com os olhos semicerrados. – Fofoqueiras.
- A odeia a gente. – sacudiu a cabeça fazendo bico e as outras duas começaram a rir.
- Não odeio, são vocês que ficam prestando atenção nas minhas conversas. –
respondeu, enquanto dava um tapa na cabeça da amiga.
- E você é chata e não deixa a gente ouvir. – completou e fugiu de
antes que levasse um tapa também, arrancando mais risadas das garotas, que agora também observavam a quantidade de gente que chegava à festa, que já podia ser vista de onde estavam.
- Uau! Olha quantas pessoas vieram. – apontou para o lugar, boquiaberta.
- , é uma festa da Alison. Você esqueceu o quanto o povo baba aos pés dela? – rolou os olhos e concordou.
- Povo idiota. Eu só to indo porque tava muito cansada de ficar em casa e porque queria tirar a de casa também. - falou, olhando para o lado para analisar a expressão da amiga, mas não a viu. Então olhou para trás e se deparou com a garota parada no meio da calçada, com a respiração acelerada e os punhos cerrados com força. – O que houve, ?
As três garotas pararam de caminhar e em seguida voltaram depressa para perto dela, que ainda estava da mesma maneira.
pensara que seria fácil encarar aquele lugar novamente, aquele mesmo ambiente, as mesmas pessoas, mas ao chegar perto e ver em sua frente todo o cenário de seu maior pesadelo, não resistiu e todas as suas barreiras se despedaçaram imediatamente. Sentiu um medo incontrolável surgir em seu peito e uma sensação de angustia a sufocar, impedindo-a também de seguir com seus passos.
- , o que você tem? – perguntou preocupada e ela sacudiu a cabeça devagar, piscando várias vezes, em seguida.
- Eu... Eu vou pra casa.
- É por causa da festa de fim de ano, não é? – perguntou passando a mão pelo braço direito da amiga, já imaginando o que ela devia estar sentindo.
- Gente, eu não consigo, me desculpa. Voltar aqui não me faz bem e eu nunca devia ter aceitado fazer essa loucura. É melhor eu ir embora. – Falou demonstrando o quanto estava apavorada, apenas pelo seu tom de voz.
- Olha... Eu entendo que você não queira se lembrar do que aconteceu, mas você não pode parar sua vida por causa de um dia. – aconselhou, segurando na mão da amiga.
- Ou por causa de uma pessoa. – completou.
- Esse é o problema, gente. Eu não quero estar numa festa em que ele esteja de novo. –
sentiu um aperto no coração e lágrimas começaram a brotar em seus olhos, assim como acontecia todas as vezes, e o que sempre a irritava.
- , pra mim também é horrível estar aqui. – falou. – Mas eu vim, não vim?
- A gente te protege. – levantou os braços, como uma heroína e conseguiu arrancar um sorriso do rosto de
.
- Eu prometo que não saio do seu lado, nem que você queira, mas você realmente tem que enfrentar isso, . – a olhou carinhosa e em seguida abraçou a amiga bem forte.
ficou por alguns segundos abraçada a ela, enquanto tentava criar coragem suficiente para dar mais um passo em direção àquele lugar e então percebeu que realmente não tinha sentido todo aquele medo e aquela angustia. Ela podia fazer tudo ser diferente, só dependia de ser forte. Se soltou de e respirou fundo, já decidida a dar o melhor de si para superar aquele seu trauma, recomeçando a caminhar em seguida.
O resto da caminhada até a porta da casa de Alison fora completamente silencioso e assustador, para
, que fazia de tudo para espantar algumas imagens que começavam a surgir sem permissão em sua mente, mas pelo menos fora rápida, já que não faltava muito para que chegassem. E ao tocarem a campainha, Alison fizera questão de vir atendê-las pessoalmente.
-
! – Exclamou com seu sorriso mais falso, enquanto caminhava em direção às quatro garotas, mas todas permaneceram sérias. – Ouvi boatos por aí de que você tinha tomado trauma de festas. – Comentou quase gritando, já que a música eletrônica que tocava naquele momento estava impedindo qualquer tipo de conversa normal.
- Não acredite em tudo que dizem por aí... –
sorriu falsamente, respondendo no mesmo tom de voz, e logo passou por ela.
- Que bom que vocês também vieram. – A garota sorriu da mesma maneira às outras, enquanto apenas se desviava dela.
- Não precisa fingir que gosta da gente, Alison. – disse arqueando uma sobrancelha.
- Eu não estou fingindo, apenas to tentando resgatar velhas amizades... – Continuou falando e a olhou séria.
- A gente nunca foi amiga. – Deu dois leves tapinhas no braço de Alison e seguiu as outras três garotas, que iam na direção de Jonathan e seus amigos, que se encontravam em uma roda enorme de pessoas.
- Até que enfim, pensei que não viessem mais. – O garoto comemorou ao avistar
caminhando em sua direção e logo foi cumprimentar a todas com beijos no rosto.
- Eu te disse que viria... –
falou enquanto olhava todos à sua volta, com medo de ser pega de surpresa por certa pessoa.
- Disse, mas algumas pessoas me falaram que provavelmente você não viesse mais, fiquei com medo de mudar de idéia. – Comentou, dando de ombros, e pegou um copo da bandeja do garçom que passava ao seu lado, sem nem ao menos saber de que bebida era.
- Ignore essas pessoas, por favor. – A garota rolou os olhos e viu que e já saíam para cumprimentar um grupinho que estava ao lado do deles, enquanto se mantinha ao seu lado, como prometera.
- Você parece tensa, linda. Quer beber algo? – Jonathan falou oferecendo seu copo, mas ela recusou ao se lembrar que deveria ser o mais cuidadosa possível naquela festa.
- John, eu e a vamos dar uma volta. A gente se encontra por aí depois, ok? – Falou sorrindo e nem esperou ele responder antes de sair puxando a amiga para outro lugar. Procurou pelo jardim de fundo que se lembrava ter ali e assim que chegou lá, um lugar mais vazio e menos barulhento,
respirou fundo, tentando se tranqüilizar.
- Que foi? – perguntou preocupada, estranhando a atitude repentina da amiga.
- Não sei, eu tava agoniada ali. –
mordeu o canto da boca e franziu a testa. – , me desculpa, eu não queria estragar sua festa...
- , você não ta estragando nada. Eu vim por causa de você, esqueceu?
- Ok. –
respirou fundo mais uma vez e fechou os olhos, tentando largar aquela fraqueza de lado. Ao abrir os olhos novamente, viu Alison dançando dentro da casa, enquanto alguns garotos riam e aplaudiam, e arqueou uma sobrancelha. – Quando você vai me contar o que houve entre você e ela? – Apontou com a cabeça à garota e bufou - Porque você não pode odiar alguém assim à toa...
encarou a amiga e viu que ela engolia em seco, enquanto parecia pensar em algo, até que tomou uma decisão.
- Só me deixa virar um cuba libre primeiro! – Falou começando a rir em seguida e as duas correram para o lugar onde estava montado o bar. Passaram em meio a diversas pessoas que já se encontravam bêbadas, dentre elas, um , que estava debruçado sobre o balcão.
- E aí, gatinhas? – gritou, esticando seu copo de vodca em direção a elas. – Vamos beber?
- Eu não bebo mais, . –
disse rindo enquanto abraçava o menino. – E a festa mal começou!
- E pra quê eu vou perder tempo? – O menino rebateu, sorrindo um pouco torto e abraçando também. – Espera... Eu to bêbado demais ou ta faltando duas de vocês? – Olhou ao redor quase caindo da cadeira.
- Elas tão por aí. – respondeu e depois aproveitou para pedir sua bebida ao barman que chegava com outro copo para .
- Minha nem veio me ver... – O garoto fez cara de choro e largou sua vodca pela metade em cima do balcão, para pegar a cheia que o rapaz havia acabado de lhe entregar.
- Sua? – e
perguntaram juntas, com as sobrancelhas arqueadas.
- Minha AMIGA, . Sabem qual? – O garoto indagou, começando a passar a mão pelo corpo, imitando as curvas da garota, e arrancando gargalhadas das duas.
- Sabemos sim. – respondeu logo depois, pegando o copo que o barman lhe oferecia e virando tudo de uma vez, fazendo até mesmo se assustar. – Vamos, . Temos muita coisa pra conversar.
- Conversar? – se intrometeu – Festa é lugar de beber! – Continuou falando, mas as duas apenas rolaram os olhos e o deixaram sozinho, enquanto procuravam um lugar completamente isolado.
- Já bêbado, ? – se aproximou do amigo exatamente no mesmo momento em que as garotas se retiravam, apesar de não tê-las notado ali. Tirou o copo da mão do amigo, colocando-o na bancada de novo, e se sentou no banco ao lado.
- Sua amada acabou de sair daqui, foi conversar com a do . – comentou sorrindo, enquanto apoiava a mão no ombro de .
- Quem?
- Quem, mongol? A priminha gostosa do nosso amigo . – Disse pegando o copo novamente e semicerrou os olhos pela maneira com que o garoto havia se referido a ela.
- Ela veio? – Indagou surpreso, segurando o copo e o colocando longe de mais uma vez.
- Não, mandou o corpo vim e preferiu ficar em casa. – O garoto rolou os olhos.
- E onde ela ta? – perguntou enquanto olhava as pessoas que estavam ali perto.
- Porra, dude! O bêbado aqui sou eu ou você? Eu falei que ela saiu com o ... – parou de falar por um momento, pensou em como a era e continuou. – Não, ela saiu com a amada do . Isso! Foram conversar. – Esticou o braço e conseguiu alcançar o copo novamente, mas dessa vez ignorou, já que só tinha uma coisa em mente: encontrar
.
- Aqui da pra conversar direito. –
disse enquanto se sentava com na calçada da casa de Alison, longe de toda a barulheira e de possíveis fofoqueiros. – Pode começar a me contar. – Virou-se de frente para a amiga, que respirou fundo e tomou coragem para começar.
- Você se lembra daquela viagem que fizemos no ano passado, quando todo o segundo ano foi pro Canadá? – perguntou olhando para
, que concordou com a cabeça, e depois começou a encarar o chão. – Lembra também que eu tava interessada no seu primo e tava rolando um clima? – Voltou a olhar para a garota, que repetiu o gesto. – Então... A gente tinha decidido ficar junto. Eu achei que ele estivesse gostando de mim também. – franziu a testa. – Aí nós combinamos de escapar um pouco da turma e ir lá pros bondinhos... Ou seja lá como se chamam aquelas coisas. – Balançou as mãos e
sorriu. – Mas quando eu finalmente consegui me livrar de você... – Sorriu também. – Eu cheguei lá e o vi com a Alison. – Abaixou a cabeça e
arregalou os olhos.
- Com a Alison? Tipo, beijando?
- Beijando, agarrando, passando a mão e tudo mais que fosse decente – fez sinal de aspas com as mãos - em público.
- Mas ele não te explicou? Não disse nada depois?
- Primeiro fui eu que o ignorei, ele fingiu não saber o que tinha acontecido, mas aí eu perdi a paciência e nós brigamos. E seu priminho me respondeu que era porque eu tinha demorado demais pra chegar lá. – mostrou o dedo do meio para o ar, como se estivesse ali e
sacudiu lentamente a cabeça, um pouco boquiaberta. Ela nunca soubera da relação do primo com aquela garota asquerosa.
- Não acredito! E por que você não me falou isso antes?
- Você é prima dele, . Não é tão fácil... Eu tinha medo de você acabar comentando alguma coisa e tudo que eu menos queria era que ele pensasse que eu tava mal. – franziu novamente a testa, e sentiu como algumas lágrimas ameaçavam invadir seus olhos.
- Meu Deus. É claro que eu não ia falar nada com ele... Mas é inacreditável essa atitude, o não é assim. – Falou ainda sem saber o que pensar a respeito do assunto e fez um som estranho com a boca.
- No começo eu até achava que não era mesmo, mas com o passar do tempo eu fui vendo como ele é idiota. – A garota semicerrou os olhos. – Desculpa por falar assim do seu primo, mas é a verdade.
- Não se preocupe, eu te dou razão por pensar assim já que ele fez o que fez. Agora eu entendo toda essa sua repulsa por ele. Mas, , como você se sentiu aquele dia que vocês se beijaram em frente à sala do diretor? –
perguntou e viu que engolia em seco e em seguida ficava com a visão vaga.
- Foi... Foi estranho. Eu não queria que acontecesse, para ele não pensar que eu ainda sinto alguma coisa, mas depois que a gente se beijou ficou um clima diferente. Não era raiva, nem vergonha... Eu não sei explicar. – respondeu um pouco confusa e sua visão recuperou o foco, passando então a observar através de uma janela, o garoto ria enquanto bebia e se divertia com os amigos. Sentiu seus olhos arderem e uma lágrima acabou escapando e rolando por sua bochecha.
- Você quer que eu descubra por que ele fez aquilo?
- Não! – exclamou rapidamente e enxugou seu rosto, se levantando em seguida. - É justamente por isso que eu não queria te contar.
- Ok, eu só tava perguntando... –
deu de ombros e esticou os braços para que a amiga a ajudasse a se levantar.
- Vamos pra lá e nada aconteceu aqui, ta? – olhou séria para
mais uma vez e assim que garota concordou, segurou suas mãos e a puxou para cima.
As duas caminharam então de volta para o local onde a festa acontecia. estava sendo jogado na piscina, com toda a sua roupa, exatamente na hora que elas passavam e mesmo correndo um pouco, seus pés foram molhados. Dentro da casa, o cd da Britney Spears tocava bem alto e todos dançavam, ou pelos menos sacudiam o corpo no ritmo da música. e dançavam com copos de vodca nas mãos em uma roda cheia de garotos lindos e garotas esnobes.
- Vamos falar com as meninas? –
gritou para que a ouvisse e apontou para a roda.
- Por que vocês sempre somem? – gritou, notando as amigas e fazendo sinal para que se aproximassem.
- São vocês que saem de perto da gente. – respondeu com o tom de voz normal, sem a mínima disposição para gritar, enquanto acompanhava
até a roda.
- Tem uma galera combinando de jogar verdade ou conseqüência, vocês animam? – perguntou alegremente, mesmo que suas amigas não parecessem tão animadas assim.
pensou por um momento, ela ainda estava com medo, nada ali parecia seguro e ela sabia que qualquer deslize podia fazê-la cometer o mesmo erro do ano passado. Por outro lado, sabia que precisava de uma distração e ela não estava a fim de atrapalhar a festa de ninguém. Era só ter cautela e nada daria errado.
- Já que estamos aqui... – Deu de ombros, ainda sem ter certeza do que estava fazendo, e saiu comemorando em busca de outros jogadores.
Poucos minutos depois, várias pessoas estavam sentadas em roda no jardim da casa de Alison e para a felicidade de alguns e pesadelos de outros, dentre elas estavam: , , , – que se recuperava aos poucos de sua embriaguez -, Alison Townsend, Richard Townsend e Jonathan Forest.
- Que tal se fizermos assim… - Alison começou a falar e todos prestaram atenção na garota. – Antes de rodar a garrafa, quem for rodar tem que tomar um gole, assim garantimos que será mais divertido. – Sorriu e notou que a maioria concordava. – Então eu começo. – Abriu a garrafa, tomou um gole, a fechou e rodou. – Jonathan para... ! Mas já? – Franziu a testa e riu, enquanto cerrava os punhos e encarava o garoto já notando que aquela brincadeira não seria tão divertida assim.
- Verdade ou conseqüência? - Jonathan perguntou sorrindo, gostando da situação, e olhou para
que estava séria e sentia seu coração começar a palpitar mais forte que o normal.
- Verdade. – respondeu sabendo que Jonathan faria de tudo para que ele se desse mal.
- Ah, qual é? Ta com medo de desafio?
- Não, eu só to aquecendo primeiro. Pergunta logo.
- Ok... – Jonathan olhou novamente para
, que agora encarava a grama por entre suas pernas. – É verdade... – pensou um pouco – O que acontece se a pessoa não responder a verdade? – Perguntou aos outros da roda.
- A gente cria uma conseqüência pesada. – Richard disse olhando para todos, que pareceram concordar.
- Então, é verdade que você armou aquele lance do parque de diversões? – Sorriu e fechou os olhos e respirou fundo, sabendo que não poderia mentir, já que quem o havia ajudado estava sentado naquela mesma roda.
levantou a cabeça imediatamente ao ouvir a pergunta e olhou para ele, a fim de ver como ele reagiria ao responder.
- Ah, a gente quer saber essa história aí também. – Uma outra garota que também brincava disse.
- Calma, na sua vez você pergunta sobre o que quer saber. – Alison respondeu grosseiramente, apesar de também ter ficado curiosa, mas o clima pesado que começava a pairar no lugar parecia mais interessante naquele momento.
- Responde, . – Jonathan provocou mais ainda. olhou para
, fazendo seus olhos se encontrarem, e engoliu em seco.
- É verdade. – Abaixou a cabeça e
deixou seu queixo cair, sem acreditar no que acabava de ouvir.
Jonathan abriu ainda mais seu sorriso, estava conseguindo o que queria e a brincadeira mal havia começado.
- Eu sabia. – Balançou a cabeça para ajeitar uma mecha de seu cabelo que havia caído sobre o rosto. Depois tomou um gole da garrafa e a rodou. – Alison para... Richard. – Disse assim que a garrafa parou. – Ah, não vale. Eles são irmãos.
- O que tem de errado nisso? – Richard franziu a testa.
- Ela não vai pegar pesado. – Concluiu, mas tinha que aceitar o que havia saído.
ainda estava atônita, ela precisava de explicações, muitas explicações. Olhou para , notando o quanto ele estava perdido no assunto, e em seguida para , que a olhava meio assustada. Porém, apesar dos milhares de perguntas que voltavam a perturbá-la, sabia que aquilo não era um assunto para ser discutido em uma roda de jogo, então sacudiu sua cabeça, como se assim conseguisse colocar suas idéias no lugar, mas tudo que conseguiu foi uma leve tontura.
- Manda um desafio aí, maninha. – Richard gritou, se sentindo o homem mais corajoso da festa, e fez a atenção de
voltar ao jogo.
- Deixe-me pensar... – Alison olhou para todas as garotas, e garotos também, que estavam na roda. – Serei boazinha por enquanto, portanto eu me contento em mandar você roubar o chiclete da boca da com a língua.
Richard sorriu ao ouvir o que sua irmã ordenara, apesar de achar aquilo bobo demais, e se levantou para se aproximar de , mesmo com a garota se mostrando completamente insatisfeita com aquele desafio. Richard não era feio, mas a garota sentia certa repulsa apenas de imaginar a língua dele em sua boca e não conseguia evitar que esse seu sentimento transparecesse em sua feição. Ao vê-lo se aproximando, fechou fortemente seus olhos e deixou seu chiclete bem na ponta da língua, para que aquilo fosse o mais rápido possível. Richard se agachou em frente a ela, segurou seu rosto entre as mãos e enfiou sua língua na boca entreaberta da garota, roubando facilmente seu chiclete. Antes de voltar ao seu lugar, o mascando, ele ainda deu um pequeno beijo nos lábios da garota, que abriu os olhos e o empurrou assustada.
semicerrou os olhos e tentou esconder a sensação estranha que lhe invadira o corpo ao ver aquela cena, mas nem precisou fazer muito esforço, já que logo as atenções se voltaram ao gritinho que Alison soltou.
- Uau! – Gritou batendo palminhas e logo pegou a garrafa, tomou mais um gole e girou.
- Eu pergunto para... – falou assim que a garrafa parou, tentando ver quem estava do outro lado. – ! E então, vai querer o que?
- Ver... –
começou a dizer, mas estava indecisa. Sabia que não faria nada de mal a ela, mas estava começando a se sentir sufocada naquele ambiente e sua maior vontade no momento era sair correndo dali. – Verdade.
- Ah, é medrosa igual ao . – reclamou rolando os olhos. – Então eu quero saber se você... Não, não. Essa é pesada demais. Me fala se... Hum... É verdade que você já deu pra mais de um cara na mesma noite?
- ?! –
gritou em coro com , , e .
- Quê? – olhou assustado para os cinco. – Foi só uma pergunta...
- Isso porque a outra era pesada demais... – rolou os olhos e ele deu de ombros.
- É óbvio que não é verdade. –
respondeu sacudindo a cabeça negativamente.
ignorou a reação de todos, inclusive o olhar fuzilador que lhe lançava e deu um gole na vodca, que depois de girada por ele, parou virada de para Alison.
- Desafio! – A menina pediu antes mesmo que ele perguntasse.
- Ok. – sorriu, com alguns pensamentos maliciosos na cabeça. – Fica de calcinha e sutiã até o final do jogo, independente do vento.
O garoto mal terminou de dizer e todos comemoraram. Ela pareceu não se importar e rapidamente tirou seu vestido curto, sob o olhar de todos que se diziam homens ali presentes e a cara de reprovação das garotas que ainda se encontravam sóbrias. Logo voltou a se sentar e seguiu o ritual.
para .
- Manda uma conseqüência aew! – disse animado e olhou dele para , sorrindo e imaginando o que poderia propor a eles, embora soubesse que provavelmente apanharia do amigo mais tarde.
- Toma um pouco de vodca no umbigo da . – Falou e todos gritaram, exceto Alison, e , que se negou a fazer aquilo, sentindo seu coração bater a mil e sua garganta secar instantaneamente.
- Não, mas... – tentou arranjar uma saída, mas não havia o que fazer, eles haviam aceitado jogar e agora tinham que arcar com as conseqüências.
Richard e Jonathan seguraram a garota deitada, para que ela não fugisse e uma menina morena, que estava próxima, subiu a blusa de até a altura do sutiã. pegou a garrafa e derramou lentamente a vodca na barriga da garota, sob o olhar curioso e ansioso dos ali presentes. se aproximou devagar, ainda um pouco nervoso pela situação. Por mais que o desejasse, o garoto acabava sempre deixando o orgulho falar mais alto. Olhou nos olhos de e ela os fechou apertados. Ele, então abaixou sua cabeça até que a ponta de seu nariz tocasse a pele arrepiada dela e começou a lamber a bebida. sentiu uma onda de sensações diferentes percorrer seu corpo, enquanto seu coração ameaçava saltar por sua garganta, e apenas se concentrou em não deixar ninguém perceber como ela se sentia.
- Até a última gota. – sussurrou ao notar que ameaçava se levantar e várias pessoas concordaram.
Então, quando a única coisa molhada que havia no umbigo de era a saliva de , ele parou. Todos voltaram aos seus lugares e
ajudou a amiga a se levantar, percebendo que ela não estava muito bem.
também repetiu o ritual e parou em duas garotas não muito interessantes que havia ali.
O jogo seguiu sem muitas emoções por um momento até que em certa rodada a garrafa parou de para .
- Conseqüência. – O garoto pediu querendo voltar a esquentar o jogo e já imaginando o que ela o mandaria fazer.
- Da um selinho no . – disse rápido, sem pensar muito e arregalou os olhos. Ela não fazia por mal, apenas não conseguia considerar a hipótese de mandá-lo fazer algo com alguma garota dali.
- Não, espera! – gritou. – Eu não tenho que aceitar isso...
- Você entrou no jogo porque quis, amigo. – Jonathan interferiu rindo e recebeu um olhar furioso do garoto.
não pensou em mais nada e encostou seus lábios nos de rapidamente. Depois saiu cuspindo e fingindo que vomitava. Estava furioso com e esperava que ela pagasse por aquilo.
- Bebe e roda, . – disse ainda com um pouco de nojo pelos meninos.
A garota obedeceu e parou de Alison para
.
- Pode ser conseqüência. – Pediu ainda com um leve receio, mas sabia que Alison não gostava era de , então não ia fazer mal a ela.
Certo? Talvez não...
- Você vai... Vai pro paraíso com o por sete minutos. – Fez uma cara de safada e
se levantou com um pulo.
- Caraca, agora vai pegar fogo. – cochichou para , que concordou e olhou preocupado para .
- Eu não vou fazer isso. – A garota disse com a voz embargada.
- Você tem que fazer. – Richard respondeu nervoso, odiava quem fugia dos desafios.
- Não, isso ta errado. Também não pode ser qualquer conseqüência assim... –
cruzou os braços, tentando esconder como suas mãos já começavam a tremer.
- Ela ta certa. – Jonathan interferiu e concordou.
- Você mesmo disse, John. Ela entrou porque quis. – Alison sorriu, já que adorava criar conflitos e ver as pessoas se contradizendo.
- Então os dois vão, mas eu entro também. – defendeu a amiga e todos a olharam com uma cara estranha.
- Que isso, ? Ta querendo se divertir também? Espera que sua vez vai chegar... –Alison debochou da cara da garota.
- Não seja ridícula, Alison. Eu só não confio em deixar minha amiga com ele. – Respondeu e encarou , que observava àquilo tudo sem saber o que dizer.
- Vamos fazer o seguinte então... – Sugeriu , fazendo-se notar na discussão. – Eles vão, mas a porta fica destrancada e a vigia do lado de fora. Qualquer coisa que acontecer a vai poder sair ou a entrar.
Assim que terminou de dizer, o garoto passou o olho por todos da roda. Algumas pessoas discordavam e outras nem ligavam. Alison, que era quem realmente importava naquele momento, concordou, pois fora quem dera a idéia e ficaria de fora da brincadeira.
Na verdade, Alison tinha uma paixão secreta por desde a quarta série e se sentiu a garota mais feliz do mundo quando ele a beijou no Canadá. Se dependesse dela os dois já estariam casados, mas mesmo com todas as indiretas – e diretas – que ela jogava para ele, nunca tomou nenhuma atitude. Ele só a havia beijado naquele dia porque queria fazer raiva em , pois ouvira boatos de que a garota aceitara sair com ele a pedido de
. Sim, um homem sempre acredita em boatos, mesmo quando você tem certeza de que ele entendeu seus sinais.
- Onde eles vão ficar? – Perguntou .
- Acho melhor na dispensa. – Richard olhou para a irmã, que concordou.
esperou que todos se decidissem e então se levantou com a cabeça baixa. Também estava nervoso, apesar de não querer admitir. Ele se sentia estranho cada vez que passava por sua mente o fato de estar perto dela, de falar com ela, de poder tocá-la. Era como se estivessem dando tiros e fazendo cócegas ao mesmo tempo em sua barriga. E seu sangue parecia circular com carga elétrica de 700 W.
Alison acompanhou os três até a porta da dispensa e eles foram em silêncio durante todo o caminho. Chegaram e
entrou primeiro, seguida de , enquanto se sentava no chão e se encostava na porta.
- Sete minutos a partir de agora. – Alison olhou no relógio e gritou para o casal. Logo depois voltou para o quintal sem dizer mais nada.
- Não precisava ter arrumado aquela confusão toda. – começou a dizer baixo, assim que notou que os dois estavam realmente sozinhos ali, e começou a encarar seus pés. Esperou por alguma resposta de
, mas ela não conseguia dizer nada, estava apavorada e até um pouco claustrofóbica. – São apenas sete minutos, ... – O garoto fez uma voz melosa e ela o olhou. Simplesmente não conseguia ignorá-lo quando a chamava daquela forma. levantou a cabeça e seus olhares se encontraram, fazendo um choque percorrer o corpo de ambos e a carga elétrica do sangue dele aumentar.
- Os sete piores minutos que eu podia passar. –
falou séria, criando uma barreira para que a garota sensível, apaixonada e burra não viesse à tona. – Deveriam ter dito que eu viria para o inferno e não paraíso... – Virou-se de costas para ele e começou a passar a mão por todos os produtos de limpeza que estavam na prateleira que havia na altura de sua cintura.
- Você adora fingir que me odeia né? – falou enquanto encostava suas costas na parede de braços cruzados.
- Eu não estou fingindo. – A garota pegou um amaciante, o destampou, sentiu seu cheiro, tampou novamente e voltou a colocá-lo onde estava enquanto observava seus movimentos.
- Por quê? – perguntou e franziu a testa. – O que fez seu sentimento mudar? – O garoto sentiu um nó na garganta e agradeceu mentalmente por
estar de costas, não queria que ela visse sua cara naquele momento.
- Você se faz de idiota ou já nasceu assim? –
ia pegar o amaciante novamente, mas mudou de idéia e apenas apoiou as duas mãos sobre a prateleira. – Jura que não sabe por que mudou?
- Se é pela festa do ano passado, . Eu achei que o tinha conversado com você... – dizia, enquanto tentava engolir o nó que ainda estava em sua garganta.
- Eu não quero falar disso. –
falou calmamente e prendeu seus cabelos em um coque, pois já começava a sentir calor ali dentro.
- De novo! – se irritou e se esqueceu do nó na garganta. – Qual é o problema de falar disso? – Alterou um pouco seu tom de voz.
- Eu não quero falar. –
repetiu a frase sendo um pouco mais enfática.
- Mas eu quero. Eu quero acabar com essa merda de uma vez por todas! – Gritou, perdendo sua paciência e ela se virou de frente para ele, o encarando nervosa.
- Então vai ficar falando sozinho porque eu to caindo fora daqui. –
falou com todo o resquício de autocontrole que havia dentro de si e se dirigiu à porta, apesar das pernas levemente bambas, mas segurou forte em seu braço antes que ela pudesse alcançar a maçaneta.
- Não vai. – pediu baixo tentando se acalmar. – A gente muda de assunto.
- , ta tudo bem aí? – perguntou do lado de fora.
olhou para com olhos de súplica, ele não queria estragar esse momento também.
- Ta sim, . – A garota respondeu à amiga, lançando a ele um olhar acusador e ao mesmo tempo doloroso. – Agora me solta. – Falou seriamente enquanto tentava tirar seu braço da mão de .
O garoto abriu a mão e ela começou a massagear o lugar onde ele havia apertado.
- Quanto tempo já passou? –
cruzou os braços e olhou em seu relógio de pulso.
- Acho que... Um minuto. – Respondeu e a olhou novamente. A garota fez uma cara de desespero e mordeu o canto da boca. – Poxa, a gente consegue se suportar. É só esquecer o orgulho, lembra?
- Lembro! –
exclamou, se lembrando finalmente do assunto que tanto a havia perturbado durante o jogo de verdade ou conseqüência, e voltou a expressar raiva em seu olhar. - Eu lembro que você tem uma história para me explicar. Pode começar a me contar o que aconteceu naquele parque, temos seis minutos inteirinhos pra isso.
- Porra! – gritou, se arrependendo de ter tocado no assunto e ao mesmo tempo sentindo ódio de Jonathan por ter feito aquela maldita pergunta.– Foi pro seu bem, ta legal?
- Pro meu bem? –
semicerrou os olhos e se aproximou, parando de frente pra ele.
- Eu não queria que ele te machucasse... – disse quase num sussurro.
- Me explica direito, . Desde o começo. – Ela falou com os braços cruzados enquanto passava as mãos no cabelo.
- Eu vi vocês dois passando de mãos dadas e, como tava sem nada pra fazer em casa, resolvi ver aonde ele ia te levar. Quando vocês chegaram ao parque, eu decidi fazer alguma coisa para afastar vocês. Liguei pro Richard e perguntei se ele sabia de alguma confusão em que o Jonathan estava metido, já que eles tão sempre juntos nessas merdas. – Olhou para a garota que semicerrava os olhos, quase os fechando. – Você sabia que ele ta devendo dinheiro de droga pra um cara barra pesada? – Perguntou esperando que
se surpreendesse, mas ela continuou séria.
- Sim, eu sabia. – Respondeu e engoliu em seco.
- Dude, por que você ainda ta com ele? – Perguntou incrédulo, com a testa franzida.
- Não é da sua conta. O que você fez depois?
- Falei pro Richard avisar ao cara que o Jonathan ia pagar e disse onde vocês estavam. – falou como se fosse a coisa mais inteligente que já havia feito na vida e
ficou boquiaberta. - Aí foi só ter certeza de que ele já havia fugido pra ir falar com você.
- Seu idiota! Você sabe o que podia ter acontecido? – Gritou e deu de ombros, enquanto a olhava nos olhos.
- Eu tava observando, não ia deixar fazerem nada com você, caso ele não fugisse a tempo...
- Como pode? Como você consegue ser tão estúpido assim? Depois você ainda me pergunta por que eu te odeio... Ta aí sua resposta. Eu te odeio ! – Continuou gritando, completamente nervosa e o garoto segurou o rosto dela com as duas mãos, em um ato impulsivo.
- O que você ta fazendo? –
perguntou baixo, assustada com aquela atitude e tentou empurrá-lo. – Me solta...
ficou ainda por alguns segundos daquela maneira, enquanto olhava dos olhos da garota para sua boca e sua respiração começava a ficar pesada, devido ao seu coração estar batendo forte demais. Porém ele não resistiu por muito tempo e tomou coragem pra fazer o que tanto esperava. Puxou o rosto de
para mais perto e a beijou. A garota tentou resistir a principio, lutou contra seus braços que a seguravam com força, deu socos em seu peito e tentou empurrá-lo. Porém sem perceber acabou cedendo, já que seu corpo e seu coração imploravam por aquilo.
Não fora um selinho, ou um encostar de lábios, como diria , foi um beijo de verdade, como os que os casais apaixonados de filmes dão. Foi um beijo impulsivo, caloroso, daqueles que deixam a pessoa com uma sensação única, que ela sabe que por mais que beije milhares de seres-humanos, nenhum nunca conseguirá fazer igual. Foi um beijo que deixou todos os sentimentos transpassarem, que fez os joelhos amolecerem e os corpos tremerem. Um beijo que não a deixava esquecer o quanto aquela pessoa a fazia bem e o quanto ela desejava poder passar o resto de seus dias ao seu lado.
Ambos se sentiam daquela forma. Eles haviam, sem dúvida, sido planejados, rascunhados e feitos um para o outro.
Sem se desgrudarem, começou a caminhar com
até que o corpo dela esbarrou na prateleira de produtos de limpeza. Com apenas uma mão ele derrubou tudo no chão e depois sentou
sobre o lugar, ficando entre suas pernas e ignorando o fato de que ela estava de saia. , então, começou a apertar a cintura da garota, enquanto ela descia suas mãos até chegar ao peito dele, onde começou a arranhar de leve.
Já sem fôlego, eles desfizeram um pouco o beijo e permaneceram com as testas encostadas e de olhos fechados. Podiam sentir a respiração quente e ofegante um do outro buscando por um pouco de ar.
- ... –
sussurrou ainda de olhos fechados.
- Hmm... – O garoto murmurou, sentindo seu estômago se comprimir ao ouvir ela o chamando daquela maneira e depois começou a passar a ponta de seu nariz pela bochecha dela, sentindo o seu cheiro que o fazia tanta falta.
- Não me deixa pensar. –
pediu, sentindo todo seu corpo se arrepiar, e abriu os olhos. Ao vê-lo ali, tão próximo, a garota sentiu sua respiração falhar e não conseguiu dizer mais nada. Ele estava ali, da mesma maneira que estivera havia tanto tempo, da forma como ela sentia falta, com aquele mesmo cheiro, jeito, os mesmos traços que ela observara tantas vezes.
sabia que deveria resistir, deveria ser forte e lutar contra seu desejo de estar com ele todos os dias, mas era impossível o vendo daquela forma.
- Como assim? – sussurrou também.
- Não me deixa começar a pensar senão eu vou te mandar embora... E eu não quero. –
pediu com a voz levemente chorosa e o abraçou forte, encaixando seu rosto no pescoço dele.
sorriu e retribuiu o abraço, fazendo carinho nos cabelos da menina. Sentia uma felicidade enorme crescer dentro de seu corpo ao vê-la daquela maneira novamente, confiando nele e se entregando, mesmo que ainda com um pouco de medo.
- Não ta adiantando... Eu continuo pensando. –
falou quase num sussurro e levantou seu corpo para poder olhar nos olhos de , enquanto os seus já ameaçavam se encher de lágrimas. Então sentiu medo. Sim, ele sentiu medo. Medo de que ela se arrependesse e o rejeitasse novamente. Medo de que aquele sonho se tornasse pesadelo mais uma vez.
- Você não precisa pensar em coisas ruins... – falou baixo e mordeu de leve o queixo da garota.
- Eu sei... Mas é difícil. –
falou e olhou para cima para não deixar as lágrimas afogarem seus olhos.
- Se eu pudesse... – começou a falar enquanto distribuía beijinhos no pescoço da garota, na tentativa de animá-la novamente - eu te faria... sorrir sempre... porque eu amo... seu sorriso. – A olhou nos olhos e deu um beijo estalado nos lábios da garota, fazendo com que ela sorrisse sincera.
Os dois ficaram um tempo se encarando e então notaram que involuntariamente se aproximavam, como se existisse um imã entre suas bocas. Após alguns sorrisos bobos, voltaram a se beijar e aproveitou para esquentar um pouco mais o clima. Com movimentos sutis, colocou uma mão por debaixo da blusa de
, em suas costas, e começou a subir lentamente. Chegou a seu sutiã e enquanto tentava encontrar o lugar para abri-lo, sentiu que ela mordia seu lábio inferior, com um pequeno sorriso no rosto. Mas logo o que era para ser sexy se tornou frustrante, já que ele não conseguiu encontrar um meio de abrir o sutiã e ela começou a rir da situação.
- Que foi? – franziu a testa enquanto
ria e passava as mãos pelo cabelo do garoto.
- Quando vocês homens vão se acostumar que agora a maioria dos sutiãs abre na frente? –
mordeu o próprio lábio inferior e encarou os olhos de , que se semicerraram demonstrando que ele não havia gostado do que ouviu.
- Eu não lembrei disso... E prefiro não saber que outros caras já fizeram o mesmo com você. – Virou o rosto para o lado e
voltou a rir.
- Não precisa ficar com ciúmes...
- Eu não to. – respondeu secamente.
- Ta sim.
- Não to.
- Ta.
- Não.
- Me beija. –
falou baixo e o garoto voltou a olhar para ela, com uma sobrancelha arqueada.
- Hã?
- Me... – Mas antes mesmo de terminar a frase a garota o puxou e o beijou. Agora seu coração batia apertado no peito e seus olhos arderam e se encheram de lágrimas com uma rapidez impressionante. Logo uma pequena gota escapou de seus olhos e no instante em que chegou perto de sua boca, uma voz masculina pode ser ouvida no corredor, perguntando se eles ainda estavam lá dentro.
empurrou para longe, rompendo o beijo e descendo da prateleira, enquanto o garoto permanecia parado, sem entender o que estava acontecendo, principalmente pelo fato de ela estar enxugando lágrimas em seu rosto.
- Caramba, nem vi o tempo passando... – respondeu ao rapaz. – Eles vão me matar se souberem que já se passaram DEZ minutos. – Falou um pouco alto enquanto abria devagar a porta e assim que
se recompôs, terminou de puxá-la e pôde ver que era Jonathan quem estava do lado de fora.
- Graças a Deus! Não tava agüentando mais ficar aqui... –
mentiu e saiu rapidamente, deixando um boquiaberto para trás.
Capítulo VIII
“JULIETA — Como do amor a inimizade me arde! Desconhecido e asnado muito tarde. Como esse monstro, o amor, brinca comigo: apaixonada ver-me do inimigo!”
terminou de ler o pedaço do texto da peça que a entregara e encarou a amiga, que estava sentada ao seu lado na cama.
- Qual o problema com essa fala? – Perguntou confusa. Aquela parte estava perfeita e havia ligado para ela desesperada dizendo que havia uma falha horrível no texto.
Era duas horas da tarde e tinha acabado de acordar, já que ninguém havia ido à escola, pois a maioria estava de ressaca e a minoria com preguiça mesmo.
- Ela não pode gostar dele. – resmungou com voz chorosa e jogou seu cobertor do outro lado do quarto, enquanto a encarava com os olhos arregalados.
- , você ta bem?
- To. A Julieta que é uma burra. – Continuou a reclamar e ameaçou jogar seu travesseiro no mesmo lugar que a coberta, mas a impediu.
- Você ta assim por causa de ontem, né?
- Eu to bem e não aconteceu nada lá. – negou com a cabeça, mentindo, e deixou seu corpo voltar a cair na cama, enquanto encarava o teto.
- , você acha mesmo que eu me esqueci de marcar o tempo? Acha que ficou dez minutos lá dentro sem querer? Eu abri a porta quando deu sete minutos e vocês nem notaram. Não adianta fingir que não aconteceu nada pra mim. – disse calmamente.
- Ai, ... Eu sou tão idiota! – disse, sentindo como seus olhos começavam a arder agora que tocara diretamente no assunto, e abraçou forte seu travesseiro. – Nada daquilo devia ter acontecido...
- Por que não? , não tem nada demais gostar de alguém. Qual o problema em ficar com o ? – perguntou seriamente.
- Você parece que se esquece das coisas de vez em quando. Eu não preciso repetir o motivo de eu não poder ficar com ele. – se sentou, mais uma vez, e cerrou os punhos enquanto sentia uma lágrima escorrer por sua bochecha.
- Seu primo já te disse que ele não teve culpa. – tirou o travesseiro do colo da amiga.
- E você acredita?
- Um pouco... Talvez ele realmente seja inocente. – deu de ombros e discordou com a cabeça, semicerrando os olhos.
- Eu não acredito.
- Engraçado como com o Jonathan é diferente, nele você acredita.
- O me drogou, ! – gritou, já não agüentando mais toda aquela pressão em sua cabeça.
- Sua mãe não precisa ficar sabendo disso. – A garota respondeu, entre dentes, enquanto a olhava séria. – E quem te garante que o Jonathan não fará o mesmo?
- Pára de defender ele. Você não sabe a história toda. – continuou falando alto e puxou o travesseiro de volta. Depois se deitou com a cara enfiada nele.
ficou em silêncio por um momento, pensativa. Ela acreditava que toda a confusão era apenas por causa da droga, mas, pelo visto, estava enganada.
- Então me conta a história toda. – Pediu, seriamente.
- Não posso. – respondeu ainda na mesma posição.
- Por que não?
- Porque não. É coisa minha e eu não quero que ninguém saiba. – se levantou, segurando o choro e começou a enxugar as lágrimas.
- Ok... Então, por enquanto, eu não tenho motivos para duvidar do . – falou calmamente e sentiu um aperto enorme começar a dominar seu peito.
- , eu quero ficar sozinha. Por favor... - Falou fechando os olhos e os apertando fortemente.
- Me desculpa, mas eu não vou te deixar aqui desse jeito. – se levantou e ofereceu a mão à amiga. – Você não almoçou e foi ler sobre a depressão desse Shakespeare mal-amado. Ta parecendo uma doente chorando em cima dessa cama.
abriu os olhos e bateu na mão de para que a menina abaixasse de novo o braço.
- Eu não quero sair. – Deitou-se novamente. – Me deixa ficar aqui com meu Shakespeare mal-amado. Ele me entende.
- Pelo amor de Deus! – olhou para o teto e voltou a olhar para a amiga. – Pára de drama e levanta daí. O mundo não vai acabar, .
- O meu mundo já acabou. – A garota disse como se estivesse encenando e sorriu.
- Cinco minutos pra descer aquela escada impecável. – Apontou para a direção da escada. – Vou te esperar na sala com sua mãe. – Terminou de dizer e saiu do quarto antes que inventasse uma desculpa para ficar.
“Residência dos , deixe seu recado após o sinal... Bip.”
- Er... eu to ligando pro seu celular, mas você não atende. Pensei que estivesse em casa...
- Alô? – A mãe de atendeu com uma voz ofegante. Estava chegando a casa quando ouviu o telefone tocar e correu para atendê-lo.
- Oi, senhora . O ta aí?
- É o ? – Perguntou docemente a mulher.
- É sim. – O garoto sorriu do outro lado da linha.
- Oh, querido, achei que ele estivesse com você. – Disse, franzindo a testa, e fez o mesmo. – Ele me ligou ontem dizendo que dormiria na sua casa.
- Não... Er... Ele dormiu, mas saiu daqui de manhã. – mentiu para não deixá-la preocupada. – Achei que já estivesse em casa, mas provavelmente ele deve ter se encontrado com alguém no meio do caminho. – Pensou rápido e disse a primeira coisa que passou por sua mente, mas a verdade é que não vira desde que o garoto saíra nervoso da festa na noite passada.
- Ah, sim... Se quiser eu aviso que você ligou quando ele chegar. – Sugeriu a senhora. Ela já havia se acostumado com os desvios de caminho que arrumava.
- Avisa sim, por favor. – pediu educado e se despediu.
Assim que desligou o telefone, ele saiu de casa e uma frase começou a martelar em sua cabeça:
– Se eu fosse o bêbado onde estaria? – Coçou a cabeça e saiu andando para qualquer direção.
desceu as escadas desanimada, não queria sair de casa naquele dia, mas sabia que nada faria desistir da idéia de tirá-la dali.
- Muito bem, nem demorou muito. – disse sorridente quando viu a amiga com cara de enterro.
- Eu não quero sair. – Falou, olhando para cima, enquanto arrastava os pés até onde estava. – Mãe, fala que eu não posso ir. – Pediu, fingindo sua melhor cara de sofrimento.
- Ir aonde? – Perguntou a mulher, zapeando os canais da TV.
- Eu quero levar a pra dar uma volta, respirar ar fresco... – foi dizendo antes que inventasse algum lugar bizarro para assustar sua mãe. – Mas ela quer passar o dia inteiro trancada no quarto lendo sobre a depressão de Shakespeare. – Pousou suas mãos sobre o ombro da amiga.
- Qual é o problema? Deixa a gente compartilhar nossos sofrimentos... – cruzou os braços e sua mãe riu.
- Leva ela logo, ! – Balançou a mão direita, mandando as duas saírem.
- Nem minha mãe me ama. – fez bico e começou a empurrá-la para o lado de fora, enquanto ela passava as mãos em seus cabelos bagunçados e dava leves tapinhas nas bochechas para parecer mais corada. - Eu to parecendo um zumbi.
- Nada anormal. – Zombou e mandou língua para a garota, assim que elas começaram a caminhar.
“Olá! Aqui é a caixa-postal do . Se você está ouvindo esse recado é porque eu não quero te atender ou estou bêbado demais pra isso. Deixa alguma merda aí pra mim que depois eu decido se quero responder. Beeeeeeeeeeeep.”
- Porra! Já cansei de ouvir essa mensagem retardada que você gravou. – disse nervoso. – Bom, achei que provavelmente você não estava atendendo porque tinha deixado o celular cair na privada, de novo. Mas sua mãe falou que você não dormiu em casa e agora eu comecei a me preocupar... Se puder atender logo essa merda eu vou agradecer. – Desligou e enfiou o celular no bolso da frente de sua calça jeans.
estava no ponto de ônibus sem saber para onde ir, então decidiu dar sinal para o primeiro ônibus que acreditava passar perto da casa de Alison e entrou.
- Ta legal. Aonde a gente ta indo? – perguntou depois de longos minutos de caminhada em silêncio.
- Não sei. – deu de ombros. – Eu só to me sentindo animada demais pra ficar em casa hoje.
- Engraçado... Eu to me sentindo completamente o oposto. – rebateu amargamente e rolou os olhos.
- Ah, qual é, ? Vai ficar o dia inteiro assim? – deu um tapa na cabeça da amiga, que concordou e revidou o tapa.
As duas continuaram a caminhar por mais alguns minutos. Elas já se aproximavam do centro da cidade aonde, mesmo que involuntariamente, sempre acabavam indo quando caminhavam sem destino. Elas gostavam de olhar as vitrines e azarar os vendedores bonitinhos das lojas.
Quando passavam por um semáforo, reconheceu alguém dentro do ônibus que esperava o sinal ficar verde para seguir o trajeto.
- Ei, não é o ali? – Perguntou à amiga e apontou para o garoto, que parecia distraído olhando pela janela.
- Caramba! Ele tem sempre que aparecer para estragar meu humor? – virou-se de costas para o ônibus, mas ainda podia ver pelo reflexo de uma porta de vidro.
- Não fala assim... Você bem que gostou daquela vodka no umbigo. – riu enquanto mordia o lábio inferior.
- É... Foi sexy. – Concordou baixo, se lembrando do que sentiu naquele momento.
- ! – gritou e o primo a olhou no mesmo momento.
O garoto abriu um sorriso e pediu ao motorista que abrisse a porta. Seria bom ter mais alguém para ajudá-lo em sua busca e nem havia notado a presença de ali.
- O que faz por esses lados? – o abraçou assim que se aproximou.
- To numa missão impossível. – riu e então viu , que ainda estava de costas. – Ei, .
- Ei... – Respondeu a garota, fingindo que se arrumava olhando o reflexo da porta.
- Que tipo de missão? Quero te ajudar. – perguntou se empolgando. Ela estava acostumada a ajudar com suas besteiras.
- Agora você se anima, né? – falou, fingindo que estava brincando, mas havia um tom amargo em sua voz. Logo, virou-se para olhar os dois de frente.
- Não se preocupa. O passeio de vocês não vai ser atrapalhado. Eu tenho certeza que ela não vai querer me ajudar mais quando souber o que é. – coçou a cabeça e as duas franziram a testa. – Eu to procurando o . – Falou e rolou os olhos e virou o rosto para o lado.
- E qual é a missão impossível? – perguntou ainda com a testa franzida.
- Ele não atende o celular, não dormiu em casa e eu não tenho nem idéia de onde possa estar. – Explicou e fingiu desinteresse, apesar de estar começando a se sentir sufocada por dentro.
- Deve ter dormido com alguma vagabunda. – deu de ombros e seu olhar ficou vago.
- Não... Ontem ele saiu nervoso da festa. Aconteceu alguma coisa? – perguntou ao se lembrar que estava com ela antes de sair daquela forma.
- Não. – A garota respondeu secamente.
- E você não tem nem idéia de onde ele possa estar? – insistiu. – A gente tinha combinado de fazer um campeonato de FIFA lá em casa hoje e sempre que ele não vai é porque aconteceu alguma coisa séria. Daí me preocupei. – Se explicou e olhou pra cima, com a língua pra fora, zombando do programa dos garotos.
- Por que eu saberia, ? – cruzou os braços.
- Sei lá, vocês costumavam sair juntos... E me parece que ele ficou chateado depois dos sete minutos com você lá na dispensa. – O garoto deu de ombros e mudou sua expressão facial. - Se lembrou de alguma coisa? – perguntou e negou com a cabeça. – Não custa ajudar, prima.
- É que foi só uma idéia besta. É bem improvável que ele esteja lá. – Disse tentando não dar tanta importância ao assunto.
- Fala, . Pelo menos é uma opção de lugar para procurar. – interferiu e piscou pra ela em agradecimento.
- Ok... Eu te levo lá. – respirou fundo e chamou um táxi que passava por ali. – Vamos ter que ir de táxi. É meio longe...
- Ta bom. E no caminho você me conta o que houve lá dentro. – O garoto sorriu e piscou para a prima enquanto o carro parava.
- Dentro de onde? – perguntou e entrou na parte de trás do carro.
- Da dispensa. – disse entrando depois dela. Seguido por .
Minutos depois o táxi parou em uma estradinha de terra, onde não parecia haver nada, além de árvores. entregou uma nota de vinte ao motorista e saiu do carro, agradecendo mentalmente por sempre sair de casa prevenida.
- Espera aí. – falou quando saiu. – Primeiramente, eu quero dizer que é impossível entender a cabeça das mulheres. Vocês são más e eu desisto. – Semicerrou os olhos. Estava se referindo ao que sua prima havia acabado de lhe contar. – Segundo, me fala o que a gente ta fazendo aqui?! – Franziu a testa.
- Bom, aqui é até onde o carro chega. Vamos andar mais umas duas horas pra dentro da mata. – dizia calmamente fazendo gestos com as mãos e e arregalaram os olhos.
- Você ta brincando, né? – A amiga perguntou assustada.
- To. – riu. - Vocês tinham que ver suas caras... É só me seguir, a gente já ta bem perto.
A garota então começou a andar pelo meio de algumas árvores e deixou ir em seguida, para protegê-la de qualquer coisa. Não demorou muito para que avistasse o lugar. Era um lago não muito grande, mas de água límpida e cristalina. Estava bem em meio à floresta e quase ninguém tinha conhecimento daquele lugar, o que fazia com que ele permanecesse intacto. Era, sem dúvida, um dos lugares mais bonitos já vistos por ela.
Caminhou um pouco mais e pode ver sentado perto d’água abraçado às pernas e jogando pedrinhas no lago. Seus cabelos estavam bagunçados pelo vento e ele parecia não se importar com o sol que ardia em sua pele.
- Como assim? – se aproximou da prima e sussurrou em seu ouvido. – Como você descobriu esse lugar e como sabia que ele tava aqui?
olhou para o primo com os olhos marejados. Aquele lugar lhe trazia muitas lembranças. Memórias da melhor época de sua vida.
- O me trouxe aqui uma vez... Ele costumava vir com o pai quando era pequeno. – Disse baixo para o primo e olhou para , que mordia a ponta de seu polegar direito.
- Vai lá. – A garota falou e apontou com a cabeça.
- Vai, pequena. – concordou e começou a caminhar, sem pensar em mais nada.
estava com o pensamento tão longe, que nem notou que alguém se aproximava.
parou a alguns passos do garoto. Não sabia se teria coragem de se aproximar mais... Tentou respirar fundo, mas era impossível naquele momento. Cruzou os braços sobre o peito com força, como se assim pudesse tampar o buraco que sentia dentro de si, e fechou os olhos.
- ... – Disse e abriu-os novamente. Sua voz soou tão fraca que duvidou se havia dito ou apenas pensado, mas os olhos molhados e assustados de em sua direção deram a resposta.
Deixou algumas lágrimas correrem por suas bochechas ao ver que ele também estivera chorando. Sua vontade era de correr e abraçá-lo. Dizer que o amava e que queria ficar com ele pra sempre, exatamente como ele se sentira há alguns dias em frente à sua casa. Mas sabia que não era o certo a se fazer naquele momento.
- ... – Repetiu sem saber o que dizer. – Você tava chorando... – Franziu a testa e voltou a jogar pedras no lago enquanto enxugava seu rosto com o dorso da outra mão. – Me desculpa. – Se aproximou mais dele e sentou ao seu lado. – Eu não queria ter feito aquilo. – Cruzou os braços por cima dos joelhos e abaixou a cabeça.
- Mas fez, não é? – fungou e olhou para o lado oposto ao que ela estava. – Por favor, vai embora.
- Eu vim porque todo mundo tava preocupado...
- Então devia ter se lembrando de que eu venho aqui quando quero ficar sozinho. – Disse rispidamente.
- Não precisa me tratar assim. Eu também tenho direito de vir aqui… Você mesmo me disse isso quando me apresentou esse lugar, se lembra?
- Lembro… Mas naquela época era diferente, eu acreditava que você era muito diferente dessa garota que é hoje. Naquela época você valia muito mais a pena.
- Tudo bem. – segurou suas lágrimas e sacudiu a cabeça, como se concordasse. – Pode pensar o quiser de mim, eu já não me importo. Na verdade nem sei por que perdi meu tempo vindo até aqui. – Deu de ombros e se levantou, seguindo de volta para onde estavam e .
- O que houve? – Seu primo perguntou quando ela se aproximou.
- Por favor, nunca mais me deixa fazer isso. – Pediu nervosa enquanto enxugava seu rosto com o braço e a abraçava apertado.
- Ele brigou com você? – franziu a testa.
- O que você acha? – Riu irônica. – Eu que sou idiota de ter vindo aqui.
- Vocês se importam de me esperar um pouco? Eu vou falar com ele... – perguntou e se soltou de , sem esperar a resposta das garotas.
agora estava com a cabeça abaixada sobre os braços cruzados e se sentou onde estava anteriormente, enquanto pensava no que dizer.
- Eu disse pra ir embora. – disse, sem levantar a cabeça.
- Ô ignorante, é o . – Respondeu e o garoto o olhou com a testa franzida.
- Você também ta aqui? – Perguntou incrédulo e olhou para trás, avistando e conversando. Depois voltou a encarar o lago com os olhos semicerrados e a respiração pesada.
- Não fica com raiva, ela me trouxe aqui porque estávamos preocupados. Você não atendia o celular, não dormiu em casa... – disse tentando explicar o porquê de ter levado os dois ao lugar que mantinha em segredo.
- Eu quero ficar sozinho, tem muita coisa na minha mente agora. – Passou a mão nos cabelos para os ajeitar, mas o vento desarrumou tudo novamente.
- Qual é? Você passou a noite inteira encarando essa água. – riu. – Eu sei que seu raciocínio é lento, mas não precisa exagerar. – Deu um tapa na cabeça do amigo.
- Eu to falando sério. – rolou os olhos.
- Sai dessa fossa, dude! – riu novamente.
- Olha quem fala. Quando a te deu um pé na bunda você quase morreu. – arqueou as sobrancelhas.
- Ah, a história foi diferente... – disse, franzindo a testa, e coçou a cabeça.
- É. Ela pelo menos tinha um motivo pra te ignorar. – Os olhos de voltaram a se encher de lágrimas.
- A também tem os motivos dela. Você deveria saber quais são. – falou, enquanto tirava sua camisa, já que começara a sentir muito calor ali.
- Eu bem queria saber. Te juro que não entendo o que se passa na cabeça dela... Um dia a gente ta bem, no outro ela me odeia. Sempre me fala que eu sou pior que o Jonathan, mas nunca me diz por quê. – gesticulava com as mãos enquanto falava. Estava muito angustiado. – Bom, eu sei que foi depois daquela festa que as coisas mudaram. Você tinha que ver a cara com a qual ela olhou pra mim depois. – Algumas lágrimas rolaram pelo rosto dele e pousou a mão sobre seu ombro. – Eu me sinto mal. Até hoje não me perdôo pelo que houve, por ter sido tão burro, mas eu achei que ela fosse entender. Você não explicou? – Olhou para o amigo, que afirmou com a cabeça. – Pois é... Mas quer saber? Eu cansei de correr atrás. Se ela quer que termine assim, vai terminar assim.
- Fica calmo, dude. – apertou o ombro de . – Eu não posso te dizer o que se passa na cabeça dela, porque nem eu entendo, mas ela gosta muito de você. – balançava a cabeça negativamente enquanto ouvia. – Gosta sim. Eu já cansei de chegar ao quarto dela e a ver escondendo uma foto de vocês dois juntos. – sorriu e viu levantar as sobrancelhas, pois não esperava ouvir aquilo. – Agora chega de papo-furado. Eu disse à sua mãe que você tinha saído de manhã da minha casa e ela deve ta preocupada. – Se levantou e jogou a camisa sobre o ombro esquerdo. – Você ta uma merda!- Fez uma cara estranha e estendeu o braço para ajudar a se levantar.
- Obrigado. – sorriu irônico, apesar de saber que estava realmente com uma péssima aparência.
O garoto aceitou a ajuda de e se levantou. Ficou por alguns segundos ainda encarando o lago e respirando fundo, na tentativa de se recompor. Em seguida, limpou seu rosto com a barra de sua camisa e começou a caminhar até as garotas, enquanto o seguia. Elas estavam embaixo de uma grande árvore, aproveitando sua sombra.
- O ta vindo. O que eu faço? – arregalou os olhos para .
- Aja naturalmente. Você já disse o que queria, né? – Falou tranquilamente, para tentar acalmar a amiga.
- Não... Ele não deixou. – Mordeu o canto da boca. – Mas eu já me desculpei.
- Então pronto. – forçou um sorriso. – Que bonito, nós quatro juntos... – Disse da forma mais irônica possível, antes que pensasse que ela realmente achava aquilo bonito.
- Você não pretende nunca perdoar ele? – perguntou olhando para o primo.
- Te pergunto o mesmo. – disse e apontou com a cabeça. apenas rolou os olhos.
- Vamos embora? – perguntou quando chegou perto das garotas. e imediatamente começaram a encarar o chão e sorriu simpática.
- Acho que não passa táxi aqui. Alguém tem o número de algum pra chamar? – perguntou e tirou seu celular do bolso e entregou a ela. – Caramba, vinte chamadas não atendidas! – Exclamou e puxou o aparelho de volta.
Eram sete chamadas de , dez chamadas de sua mãe e três de um número desconhecido. Provavelmente de alguma garota que ele havia azarado bêbado, antes de ir para o lago.
Entregou o celular novamente para e ela sorriu ao ver que o plano de fundo era uma foto dele que havia tirado na primeira vez que saíram juntos. Discou para o táxi e não demorou muito para que estivessem todos dentro do carro. Já haviam combinado de parar na casa de . De lá e seguiriam para a casa do .
- Muito obrigada. – disse educadamente assim que saiu do táxi. Dessa vez fora quem encontrou um dinheiro esquecido no bolso de sua calça.
- Galera, temos que fazer algo amanhã. É sábado! – falou entusiasmado levantando os braços em comemoração, para tentar quebrar um pouco do clima estranho que estava ali.
- E daí? – arqueou as sobrancelhas.
- E daí que todo mundo gosta de farrear num sábado à noite. – Sorriu, apesar de ninguém parecer animado.
- Tem razão. – sorriu também se lembrando de algo. – Liga pro e pro e avisa que amanhã tem farra. – Pegou seu celular e começou a digitar algumas coisas. – Chama as mulheres também. Eu conheci uma perfeita ontem. – Fez um sinal de ‘ok’ com a mão e piscou para .
franziu a testa e mordeu o lábio inferior. Por mais que tentasse esconder, ela sentia ciúmes de e odiava pensar que ele podia estar com outras garotas.
- É verdade. Sábado não é dia de ficar em casa. – falou para . – Vou ver se o John ta livre. Você podia chamar o Martín também e saíamos como casais.
- O retardado que passa o dia na internet? – perguntou com um tom de deboche na voz.
- É. Pelo menos ele foi homem o suficiente para tratar a como ela merece. – alfinetou e fechou a cara.
- Vamos logo, dude. – se intrometeu. – Pra que perder tempo com elas? – Enfatizou o ‘elas’ e deu dois tapinhas no peito de . Em seguida, começou a andar e o amigo apenas levantou os ombros antes de segui-lo, deixando as garotas irritadas no meio da calçada.
O tempo pareceu voar até sábado à noite. e já haviam combinado de se encontrar com Jonathan e Martín no bar aonde elas costumavam ir.
- Tem certeza de que eles não vão aparecer por aqui? – perguntou pela milésima vez a , enquanto atravessavam a rua em direção ao bar.
- Absoluta. O me falou que acha esse lugar muito ‘de menininha’. – respondeu pacientemente, já avistando Jonathan e Martín sentados em frente ao balcão.
- Então, por que combinamos com nossos caras aqui? – franziu a testa.
- Porque aqui é legal. – deu de ombros e acenou para Jonathan, que se levantou e veio em sua direção.
- Nem acreditei quando você me ligou hoje. – Disse enquanto a abraçava.
- Pois é. – sorriu, sem saber o que dizer.
Martín chegou depois e cumprimentou as duas garotas com um sorriso. Elas responderam ao cumprimento e depois se olharam com uma cara estranha. Tinham certeza que com eles não teriam a diversão que esperavam para aquela noite.
- Vamos nos sentar? – perguntou enquanto caminhava até uma mesa que estava desocupada.
- Suas outras amigas não vieram? – Jonathan perguntou atencioso enquanto todos seguiam .
- Não... Elas já tinham compromissos. – se sentou ao lado de Jonathan, em frente a e Martín.
De repente, uma risada fez o coração de gelar. Ela olhou para trás e pode ver entrando no bar , , e . Cada um com uma garota ao lado. Virou-se novamente e a fuzilou com os olhos.
- Caraca, elas tão aqui. – levou a mão à boca e cerrou os punhos ao ver Jonathan de costas.
- Eu disse que não queria vir a esse bar. – cruzou os braços, nervoso.
- Foi idéia da sua garota. – disse, percebendo a situação.
- São namoradas de alguém daqui? – A menina que acompanhava perguntou, com a testa franzida.
- Não. São minha prima e a amiga. – falou indicando cada uma.
- Qual o problema então? Elas também estão em casais. Vamos nos juntar a eles. – A acompanhante de propôs e deu de ombros. Em seguida, todos foram andando até a mesa, mesmo contra a vontade de e .
- Mentira! – abriu a boca e arregalou os olhos.
- Que? – olhou para a amiga, preocupada.
- Eles estão vindo pra cá... Com as piranhas! – respondeu, tomando um grande gole do Martine que o garçom acabara de deixar na mesa, em seguida.
também arregalou os olhos e Jonathan fechou a cara, já entendendo toda a situação.
- Qual o problema? - Martín coçou a cabeça, se sentindo um pouco perdido. Coitado.
Na verdade, nem sabia ao certo porquê tinha começado a sair com ele. O menino era muito bonito, mas era nerd demais. Nos primeiros encontros ele levou seu DS para mostrar os jogos novos para a garota e não sabia falar de outra coisa. É claro que depois ela deu um jeito de se afastar logo, usou uma desculpa de que tinha que estudar bastante e ele aceitou tranquilamente. Mas o garoto continuava sendo seu ‘quebra-galho’ quando o assunto era fazer ciúmes em .
- Que surpresa, meninas... – disse tentando amenizar a situação.
- Pois é, priminho. Nunca imaginei te encontrar aqui... Você sempre disse que esse lugar era para garotas. – sorriu falsamente.
- As meninas insistiram. – Ele também forçou um sorriso e logo apresentou cada uma de suas acompanhantes, que dedicavam às garotas seus sorrisos vulgares. – E essas são minha prima, , e sua amiga, . – As apresentou também e elas forçaram ao máximo para sair um pequeno sorriso.
- Você se esqueceu de apresentar nossos acompanhantes, querido. – disse com os dentes apertados. – Esse é o Jonathan e aquele o Martín. – Indicou os meninos que sorriram e cumprimentaram a todos simpaticamente. Bem, quase todos.
- Estávamos pensando em juntar todo mundo. O que vocês acham? – A garota que estava com perguntou e e se impressionaram com o fato de sua voz ser ainda mais insuportável que seu sorriso.
- Ótima idéia! – Martín disse empolgado, pois não estava acostumado a estar em uma mesa com tantas mulheres bonitas. Mas assim que terminou de dizer percebeu que e tramavam um modo de matá-lo.
- Garçom. – A menina que estava de mãos dadas com chamou um jovem rapaz que passava por perto. – Junte nossas mesas, por favor.
Pronto. Agora o pesadelo estava completo e e não faziam nada para impedir.
Rapidamente os garçons juntaram as mesas e todos se sentaram. Cada garoto ao lado de sua respectiva piranha… Opa! Quer dizer… Garota.
- O que ele ta fazendo aqui? – Jonathan sussurrou no ouvido de e ela sacudiu os ombros.
- Não sei... Achei que aqui fosse o último lugar no qual ele apareceria essa noite.
- A gente ainda não conversou direito sobre aquele dia. Ainda mais agora que você sabe que ele armou tudo. – Jonathan semicerrou os olhos e olhou para .
Ele ria enquanto conversava com a garota que o acompanhava. Parecia realmente estar se divertindo. franziu a testa e depois olhou para Jonathan. Seus olhos se encontraram com os verdes e brilhantes olhos do garoto e sem pensar em nada, ela o beijou. Certamente o garoto não estava esperando por aquilo, mas é claro que ele adorou a idéia, enquanto ela tentava sentir com aquele beijo pelo menos um pouco do que sentia com , embora que todo seu esforço tenha sido em vão.
- Uhu! Sua priminha é rápida, . – A garota que estava com ele falou e apontou para o casal, desviando a atenção de todos para lá.
sentiu seu coração apertar quando viu aquela cena. Cerrou os punhos e olhou para a garota que estava ao seu lado, decidindo se vingar da mesma maneira. E ele acabou conseguindo exatamente o que desejava. No meio do beijo, arriscou abrir um pouco seus olhos, para ver a expressão do rosto de , mas acabou vendo algo não muito agradável.
Sentiu uma pontada em seu coração e empurrou Jonathan devagar, interrompendo seu beijo. Continuou a olhar para e a garota, que quase pulava em seu colo, e sentiu seu estômago embrulhar. Seus lábios inferiores começaram a tremer e seus olhos se encheram de lágrimas. tentou respirar fundo e fingir que nada estava acontecendo, mas não conseguiu.
- Com licença, eu vou ao banheiro. – Disse com a voz um pouco trêmula e se levantou para correr até o banheiro feminino.
, ao ouvir aquilo, também interrompeu seu beijo e viu a garota passar perto dele com uma expressão de choro no rosto, o que fez com que ele sentisse seu coração romper-se em pedaços.
- O que deu nela? – A garota que ele beijava anteriormente perguntou quando viu entrando no banheiro.
- Deve ta passando mal. – falou, sabendo que não era esse o real motivo da prima ter saído daquela forma. – Vou ver se ela ta bem... – Se levantou e fez o mesmo.
- Eu vou com você. Afinal, você não vai entrar no banheiro feminino, né? – Fingiu sorrir e seguiu o garoto.
Assim que chegaram lá, entrou e ficou esperando na porta. Ele achava melhor ficar em pé ali do que sentado naquela mesa.
- , você ta bem? – gritou assim que entrou no lugar.
abriu a porta do último reservado e saiu com a maquiagem já borrada. caminhou até ela e a abraçou.
- Ai, não fica assim... – Fechou os olhos e apertou ainda mais o abraço.
- Que droga, . – se afastou da amiga e se escorou na pia.- Eu não quero ser sempre a que sai chorando, mas dói tanto ver ele com outra... – Fungou e encheu a mão de água para molhar o rosto.
- Eu sei. – mordeu o lábio inferior. Ela também sofria ao ver com outra, mas pelo menos o encontro dele parecia mais chato que o dela. – Mas ele também deve ficar mal quando te vê com o Jonathan. Pensa nisso... Ele só beijou a piranha depois que você agarrou o John.
- Ai... – franziu a testa e jogou a água de volta na pia. – Sabe o que é pior? – Cruzou os braços. – Eu não consigo sentir com o Jonathan nem um terço do que eu sinto com o .
- Acho que nem preciso dizer o porquê... – sorriu. - Agora joga logo uma água no rosto e refaz a maquiagem. Vou te esperar lá fora. – Falou já caminhando para a saída do banheiro.
- Como ela ta? – perguntou assim que a viu.
- Bem. - respondeu secamente enquanto se escorava na parede ao lado do garoto e cruzava os braços.
- Ah... - coçou a cabeça e olhou para a mesa, onde Martín conversava animadamente com a garota que o acompanhava. – Seus encontros com ele devem ser muito empolgantes. – Riu. – Caramba, dude, zerei outro jogo ontem! – Disse imitando a voz de Martín, ironicamente.
- Melhor que os seus eu tenho certeza que são. – revidou. – Ai, bombonzinho, eu acabei de quebrar minha unha... Nossa! Você viu aquela bolsa? E aquele sapato? – Imitou de maneira muito irritante a voz da garota e riu sarcástica.
Logo os dois se calaram e passaram a observar a mesa. Jonathan era o único que permanecia em silêncio, encarando seu copo cheio. também não conversava muito, mas a garota que estava com ele não o deixava em paz.
- É um saco mesmo. – disse e cruzou os braços. o olhou com a testa franzida. – Sair com ela... – Apontou com o queixo para a mesa. – É a terceira vez que a gente sai, mas eu mal consigo manter uma conversa.
- Eu disse... – começou a sorrir, mas mudou de idéia. – Ok, também é horrível sair com ele. – Rolou os olhos. – Ele fica o tempo inteiro falando de jogo. No primeiro encontro ele levou o DS pra me mostrar o que ele tinha. – Fez uma cara estranha e começou a rir.
- Acho que estamos na merda. – Disse e a garota concordou. – Quer cair fora daqui? – Perguntou e mordeu o lábio inferior.
- Ta falando sério? – perguntou segurando um sorriso e ele afirmou sorrindo. – Mas e a ?
- Ela vem com a gente. – deu de ombros e escondeu seu desapontamento. Ela esperava que fossem só os dois. – Aposto que a também não quer ficar aqui...
- O que tem eu? – perguntou aparecendo na porta, impecavelmente bem.
- Milagres da maquiagem! – riu. – O teve a idéia de fugir daqui. Quer vir?
- Vai dizer que você ta bem lá?! – O garoto apontou para a mesa e concordou, apesar de achar muito estranho o fato de e estarem planejando algo juntos ao invés de estarem tentando ir para muito longe um do outro.
- Mas tem o Jonathan... – Mordeu o lábio inferior e viu negar com a cabeça.
- Ah, não! Ele fica. Eu não gosto daquele garoto e você sabe.
- Deixa de ser chato. – deu um tapa no braço do menino. – Chama ele, .
- Depois não reclama se eu começar a andar na frente. – falou nervoso e começou a caminhar para a saída do bar.
- Eu vou tentar falar com ele sem ninguém notar. Me esperem lá fora. – falou enquanto voltava para a mesa e seguia , que já estava quase do lado de fora.
Assim que saiu, viu que o garoto se encostava em uma árvore que havia na calçada. Começou a caminhar e não notou que havia uma bicicleta parada ao seu lado. Então esbarrou o braço no guidón e acabou derrubando-a, chamando a atenção de todos que estavam ali.
imediatamente começou a rir, principalmente pela cara de assustada de enquanto tentava levantar a bicicleta do chão.
- Vai ficar aí rindo ou vai me ajudar? – Perguntou nervosa, não conseguindo deixá-la em pé.
O garoto caminhou, ainda rindo, na direção dela e segurou a bicicleta por cima de suas mãos. Com um pouco mais de força e jeito, conseguiu ajeitá-la e sentiu que ela seria a próxima a cair se seus joelhos não parassem de tremer.
- Obrigada. – Disse sem graça, tirando suas mãos debaixo das dele.
- Você parou de dar seus ataques. – riu e ela não entendeu o que ele queria dizer. – Quando eu me aproximo... Você não grita mais. Isso é legal.
- Eu mereço. – rolou os olhos e depois os fixou nos de .
- É sério. Você não se lembra que gritava? Eu ficava até com medo às vezes... – franziu o canto da boca e arqueou as sobrancelhas. – É bom ter a velha de volta. – Sorriu e sentiu seu coração disparar.
- Sinto te informar, mas a que você fazia de idiota não voltou, nem vai voltar. – A garota disse rápido, sem saber a quê ele se referia quando dizia “a velha ”.
- Se você ta falando isso por causa do Canadá, eu vou ter que ficar com raiva, porque o único que foi feito de idiota lá fui eu. – disse cruzando os braços.
- Você? – abriu a boca abismada. – Não foi você que combinou de ficar com alguém e encontrou a pessoa com outra... E ainda teve que ouvir que demorou demais pra chegar. – Riu nervosa e cerrou os punhos.
- É claro. Como você acha que eu me senti quando descobri que você só tinha aceitado ficar comigo por pedido da ? – Alterou um pouco seu tom de voz, o que deixou ainda mais nervosa.
- Eu o quê? – Também alterou seu tom de voz. – Quem te disse isso? – Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas.
- Não interessa. – voltou a falar baixo. – Era verdade, não era? – Deu de ombros. – Não precisa mentir mais, já passou.
- , eu gostava de você! – continuou falando alto e o garoto sentiu sua respiração falhar. – Eu acreditava que você já tinha percebido isso. – Abaixou a cabeça e sentiu uma lágrima pular de seu olho direto para o chão.
- Você... – tentou respirar normalmente, mas estava quase impossível. – Você gostava de mim? – Perguntou, sentindo como suas mãos tremiam e as escondendo, em seguida.
- E você ficou com a Alison na minha frente. – completou, levantando o rosto e o encarando.
- Me desculpa. Por favor, me desculpa. Me disseram aquilo e eu acreditei. – apertou fortemente seus dentes uns contra os outros, de modo que pode ver um músculo de sua mandíbula se salientando.
- Você é um idiota. – A garota semicerrou os olhos e ele concordou.
- Eu sou... Sou idiota e fico pior quando me apaixono, eu só faço burrices. – Sentiu suas bochechas corarem. – É por isso que eu continuo sendo um idiota. – Engoliu seco e piscou várias vezes seguidas.
- Você ainda... – Ela não teve coragem de terminar a frase, mas entendeu e confirmou com um sorriso.
- Eu ainda gosto de você. Não é tão fácil assim te tirar da cabeça. – Mordeu o lábio inferior e empalideceu. Ela não podia acreditar que estava ouvindo aquilo.
- , eu... – Respirou fundo para tentar oxigenar seu cérebro, que já começava a falhar. – Eu não sei o que dizer.
- Não é tão difícil dizer o que sente. E você não precisa responder se não tiver o que falar. – O garoto sentiu seu coração apertar por um momento. E se ela já não gostasse mais dele?
- Você é sempre tão inseguro assim? – sorriu. – Eu já disse que gostava de você. Você acha mesmo que isso mudou?
Ambos sorriram assim que ela terminou de dizer. estava feliz, pois acabara de descobrir que ela havia sentido por ele o mesmo que ele havia sentido todo esse tempo.
O garoto aproximou seu rosto lentamente ao dela. Seus lábios se tocaram e eles puderam, enfim, compartilhar todos aqueles sentimentos reprimidos, enquanto o coração dos dois parecia pulsar no mesmo ritmo.
- ‘OH-MY-GOD’! – exclamou assim que saiu do bar, ao lado de Jonathan, e viu os dois se beijando. – Será que alguém vai me explicar isso?
- Deixa os dois. – Jonathan riu e puxou a garota pela mão para um canto.
interrompeu o beijo e encostou sua cabeça no peito de , com vergonha, enquanto ele a abraçava e rolava os olhos para , como se dissesse: “Hoje você apanha!”.
- Estraga prazeres. – falou quando sua prima veio correndo em sua direção.
- Vocês tão juntos? – A garota juntou as duas mãos perto do peito, com os olhos brilhando.
se soltou dos braços de e olhou para ele.
- Digamos que a gente se ajeitou. – Disse sorrindo e teve o sorriso retribuído.
- Mentira! – tampou a boca com a mão. – E eu perdi isso? – A garota estava emocionada, como quando os casais de novela que ela sempre torcia ficavam juntos.
- Você ta insuportável hoje. – bagunçou o cabelo dela, rindo.
- Ai, vocês sabem que são meu casal-sonho... – Falou enquanto consertava o cabelo e dessa vez foi quem rolou os olhos.
- Pessoal, eu não to querendo atrapalhar, mas é melhor a gente ir logo. Daqui a pouco alguém vai acabar nos vendo aqui. – Jonathan disse um pouco de longe e voltou a ficar sério.
- É. Ele tem razão. – concordou, se aproximando do garoto.
- Pra onde a gente vai? – perguntou enquanto entrelaçava seus dedos aos de .
- Vamos ao cinema? Ainda dá tempo de pegar a ultima sessão. – sugeriu e todos pareceram concordar.
- Mas que filme ta passando? – Jonathan coçou a cabeça. Ele odiava comédia-romântica.
- Sei lá. – A garota deu de ombros. – A gente vê lá na porta.
- Ok. Então vamos? – perguntou e olhou para , que ainda não havia expressado sua opinião. Ele piscou devagar e sacudiu a cabeça, concordando.
Os quatro caminharam até o cinema, que ficava a apenas algumas quadras do bar. Não estava passando um filme muito divertido, mas eles decidiram ficar ali mesmo.
Pouco mais de duas horas depois, o filme acabou e todos começaram a sair das salas de cinema.
- , o filme era sobre o que mesmo? – perguntou rindo enquanto saía de mãos dadas com Jonathan, ao lado do casal de amigos.
- Ah, não enche! – levantou um braço enquanto o outro estava em volta da cintura de .
- É serio. Vocês não pararam de se agarrar o filme inteiro... Deu até nojo. – A garota olhou para Jonathan e ele confirmou sorrindo.
- Como se vocês pudessem falar alguma coisa. – retrucou e sentiu a mão de a apertar mais forte.
- Já ta ficando tarde. Vou te levar pra casa. – disse se dirigindo à prima e mudando de assunto.
- Não precisa, pode deixar que eu a levo. – Jonathan disse calmamente enquanto sorria para a garota.
- Não. Eu vou levar. – insistiu e o olhou com uma sobrancelha arqueada.
- Alguém me perguntou se eu quero ir? – Indagou aos dois, não acreditando no papel ridículo que eles estavam fazendo.
- A tia vai ficar preocupada. Vamos, eu vou te levar. – se soltou de e começou a puxar pelo braço.
- Ei! Ei! Ei! Larga ela! – Jonathan segurou no outro braço de , fazendo com que os dois parassem de forma abrupta.
- Me soltem os dois. Agora! – falou nervosa e eles obedeceram. – Eu vou pra casa sim, mas o John que vai me levar.
- Eu não confio em te deixar com ele. – semicerrou os olhos e Jonathan segurou um sorriso.
- Pára de ser ridículo, ! Eu não tenho mais dez anos de idade e você devia estar preocupado em levar ELA pra casa. – Disse, apontando para , que assistia àquilo com os braços cruzados.
- É claro que eu vou com ela. Mas quero te levar também. – passou novamente o braço pela cintura de , mas ela permaneceu como estava.
- Eu já mandei você parar de bancar o super-protetor comigo. Eu sei me cuidar, . – falou com raiva e saiu puxando Jonathan pela manga da camisa. – Vamos. Tchau, . – Foi andando e o garoto bateu continência a antes de segui-la.
- Tchau... – murmurou quando a amiga já estava longe.
- Desculpa, . Eu não consigo ver minha prima fazendo burrices e não tentar interferir. – falou e o olhou sorrindo, derretida pelo jeito que ele a chamara.
- Eu te entendo. Não se preocupe. – Disse calmamente e o garoto sorriu também. – Nem eu sei o porquê de ela ainda estar com ele... – Deu de ombros e pegou sua mão.
- Vou te levar pra casa. – Finalizou o assunto e os dois foram caminhando.
e Jonathan caminhavam em silêncio. Ela estava com os braços cruzados e ele com as mãos nos bolsos da calça. Seguiam reto pela direção em que saíram do cinema, mas a garota não tinha idéia de aonde iam.
- Acho que minha casa não é pra cá... – rompeu o silêncio e franziu a testa.
- Eu percebi. – Jonathan sorriu. – Mas a gente podia passar na minha, que é aqui pertinho, antes de voltar. Eu preciso pegar um negócio.
- O quê? – mordeu o canto da boca, curiosa, e ele sacudiu a cabeça.
- Umas paradinhas aí. Nada importante.
- Achei que você ainda tivesse ficando na casa de seu amigo... – disse apenas para manter algum assunto.
- Não... Não... Eu fiquei lá só uns dias. Tava brigado com meu pai. – O garoto franziu o cenho e apontou para uma casa não muito grande que havia do outro lado da rua. - É ali que eu moro.
olhou para o lugar e sorriu.
Os dois foram até o outro lado da rua em silêncio. Jonathan abriu a porta da casa com a chave que tinha e acendeu a luz do cômodo onde estavam. Havia uma escada logo à frente, do lado direito ficava a sala de televisão, do esquerdo a sala de jantar e mais ao fundo a cozinha.
- Vamos lá em cima, quero te mostrar a vista que eu tenho da varanda do meu quarto. – Jonathan falou enquanto começava a subir as escadas. A casa estava toda em silêncio.
- A gente vai acordar seus pais. – A garota disse baixo e o seguiu.
- Não. – Jonathan riu. – Eles não estão aqui. – Esperou que ela chegasse ao segundo andar e foi na direção da porta de seu quarto.
- Onde eles estão?
- Viajaram. – O garoto abriu a porta e fez sinal para que ela entrasse, sem ao menos acender a luz.
entrou no cômodo um pouco nervosa, pois não sabia que estaria ali sozinha com ele, e assim que avistou a varanda, caminhou rapidamente até lá. Se apoiou na grade e começou a observar a lua que estava cheia e brilhante, e seu reflexo podia ser visto perfeitamente em um lago que havia ali perto.
- Bonito, né? – Jonathan sussurrou no ouvido de , enquanto parava atrás dela e apoiava suas mãos sobre as da garota.
- É... – mordeu o lábio inferior e sentiu um beijo em sua nuca, fazendo seu corpo inteiro se arrepiar.
Jonathan pôs as mãos na cintura dela e a girou lentamente para que eles ficassem de frente um para o outro. Então encostou seus lábios nos dela e começou a beijá-la. correspondeu o beijo, mas ficou mais tensa ao sentir o garoto a puxando de volta para dentro do quarto.
Caminharam sem desgrudar seus lábios até que Jonathan sentiu sua panturrilha tocar a beirada da cama. O garoto parou ali e intensificou ainda mais o beijo, enquanto uma de suas mãos descia pelo cós da calça de e a outra puxava de leve os cabelos dela. A garota, que até então estava com suas mãos nas costas dele, não permitiu que o garoto chegasse até sua bunda e segurou sua mão antes que ele o fizesse. Mas ao invés de se deter, ele se virou junto com ela e a deitou na cama.
engoliu em seco quando viu Jonathan se deitando levemente por cima dela e começando a beijar seu pescoço.
- John... – Murmurou, tensa, e nesse momento sentiu algo vibrar em seu bolso traseiro. “Obrigada”, pensou enquanto tentava pegar o celular. – John, meu celular ta chamando. – Falou, conseguindo pegá-lo, mas Jonathan o tomou de sua mão e colocou sobre uma bancada que havia ao lado da cama. – Pode ser urgente, eu tenho que atender. – Insistiu, tentando esticar seu braço para pegá-lo novamente, mas ele a impediu.
- Eu tenho certeza que pode esperar... – Falou, segurando sua mão e dando um beijinho.
- Mas... – ainda tentou argumentar, mas Jonathan pôs o dedo indicador sobre os lábios dela e depois a beijou.
“Oi, aqui é a . Des...”
- Ela não atendeu. – desligou assim que caiu na caixa-postal. Ele estava parado na porta da casa de .
- Calma, talvez ela não tenha ouvido tocar... – A garota respondeu, o abraçando pelo pescoço. – Tenta ligar de novo.
- Eu vou tentar, mas a caminho da casa dela. – falou, um pouco nervoso, e deu um selinho na garota. – A gente se fala amanhã, ok? – Franziu a testa e concordou com a cabeça enquanto se soltava novamente. – Boa noite, .
- Boa noite, . – A garota entrou em casa e voltou a colocar o celular na orelha.
“Zuum... Zuum...” O celular vibrava sobre a bancada fazendo um alto zumbido no lugar.
- John, tão ligando de novo. – falou empurrando o garoto.
- Deve ser seu primo chato. – Jonathan passou a mão por cima da bancada e derrubou o aparelho sobre uma pilha de roupas que havia ali, fazendo com que o barulho parasse. – Problema resolvido. – Sorriu e começou a passar as mãos pelas coxas dela.
- Não, Jonathan. Pára. – falou seria, mas ele a ignorou. – Jonathan, eu não quero.
- Deixa de ser uma menininha boba. – O garoto sussurrou no ouvido dela e mordiscou sua orelha.
“She loves you. Yeah, yeah, yeah.”
- Alô? – atendeu seu celular sem ao menos ver quem era.
- Porra, dude! Cadê você? – falava alto do outro lado da linha, já estando num grau mais elevado de embriaguez.
- Eu to na rua. – Respondeu vagamente.
- Sua garota tava te procurando. – riu e rolou os olhos.
- Eu tive que sair, depois peço desculpas... – Deu de ombros. – Eu tenho que desligar. To tentando falar com a e não consigo.
estava rindo, mas ao ouvir o nome dela sua expressão mudou e sua sobriedade quase voltou.
- Aconteceu alguma coisa?
- Ela saiu com o Jonathan e eu não confio nele. Agora ela não atende e eu to ficando preocupado. – Coçou a cabeça. – Vou pra casa dela, talvez ela esteja lá.
- Olha, eu to perto da casa desse babaca. – falou, respirando fundo. – Eu vim trazer a menina... Como é o nome dela mesmo? – Perguntou baixo, apenas para si mesmo. – Bom, não interessa. Eu tava indo pra casa, mas vou passar lá pra ver se ele chegou.
- Ok, faça isso e, qualquer coisa, me liga. – concluiu e desligou.
- Falou. – disse já com a ligação encerrada e começou a correr, mas mudou de idéia quando percebeu que não chegaria muito longe assim, e voltou a caminhar em direção à casa de Jonathan.
já não conseguia falar mais nada. Jonathan, que já estava sem camisa, começava a beijar sua barriga, causando imensos calafrios na garota, e aos poucos levantava a blusa dela também.
- Er... Não... Espera. – murmurou tentando fazê-lo parar.
- Relaxa, linda. – Jonathan sorriu e deu um selinho em seus lábios, antes de puxar a blusa dela e terminar de tirá-la.
A cabeça de dava voltas e ela não sabia o que fazer. Tinha que confessar que Jonathan era sexy e por um lado sentia vontade de seguir com aquilo, mas sentia também um pouco de medo.
já se aproximava e pôde ver que estava tudo escuro como se não houvesse ninguém em casa. Pegou seu celular e discou o número de , que não demorou muito para atender.
- E aí? – Perguntou assim que atendeu, sem nem esperar dizer nada.
- To parado aqui na porta, parece que não tem ninguém... – Disse sem saber se aquilo era bom ou ruim.
- Eu ainda to longe da casa dela e não quero ligar pra lá porque a tia vai se preocupar. Acho melhor eu dar uma corrida. Depois te ligo.
- Ta, mas o que eu fa... – ia dizendo, mas já havia desligado.
O garoto olhou novamente para a porta que dava para a varanda de cima, já que estava aberta, e franziu a testa ao ver que havia um movimento lá dentro.
- Não dá, Jonathan. – falou, o empurrando para o lado e se levantando rapidamente. Em seguida, começou a procurar sua blusa.
- Ei, espera! – Jonathan se sentou na cama.
- Não, eu já vou.
- Porra, relaxa! – Jonathan saiu da cama e segurou no braço da garota.
- Me solta! – falou alto e conseguiu se soltar dele. Correu até perto da porta e acendeu a luz. Pôde perceber então que sua blusa estava nas mãos do garoto. – Me dá. – Esticou uma mão e cobriu seu busto com o outro braço.
- Não... Espera. – Disse seriamente. – Pra quê esse escândalo? Eu não vou te obrigar a nada, fica tranquila. Eu só tava querendo esquentar um pouco as coisas.
- Me da minha blusa.
- Não. Vou espera você se acalmar primeiro. – Jonathan se deitou na cama novamente, com a blusa ainda em suas mãos.
franziu a testa e respirou fundo. Voltou a olhar para o garoto, com um misto de raiva e desespero, abriu a porta do quarto e saiu.
- Espera. Não vai! – Jonathan gritou assim que a viu saindo e foi atrás.
A garota desceu as escadas correndo e nem percebeu que alguém já tentava abrir a porta. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela segurava para não começar a chorar ali mesmo, pois Jonathan se encontrava logo atrás, insistindo para que ela se acalmasse.
- , espera. Você é louca? Eu não vou te deixar ir sozinha e dessa maneira pra casa.
Ignorando todas as palavras gritadas pelo menino, ela destrancou a porta e levou um susto ao dar de cara com quem ela menos esperava ver ali naquele momento.
- ?
- ?! – Ele franziu a testa ao ver seu estado.
- Ai, que bom que você ta aqui... – A garota o abraçou forte, tentando se sentir segura. Mas não soube definir o que na verdade sentiu ao vê-lo ali, exatamente naquela situação.
- O que ta acontecendo? – perguntou e semicerrou os olhos assim que Jonathan se aproximou.
- , me escuta. – O garoto a puxou pelo braço, separando o abraço dos dois.
- Me solta, Jonathan. – gritou, tentando soltar seu braço mais uma vez, mas ele apertou ainda mais forte.
- Não ouviu o que ela disse? Solta ela agora! – gritou também e aproveitou para acertar um soco no nariz de Jonathan, fazendo-o se desequilibrar e cair sentado para dentro da casa.
- Vamos logo, . – começou a puxá-lo pela mão. – E você, – disse se dirigindo a Jonathan – nem pense em vir atrás.
- O mundo gira, otário! – sorriu, se lembrando do ocorrido de poucos dias atrás, quando acontecera exatamente o inverso, na porta de sua casa. Enquanto o garoto se levantava com o nariz começando a sangrar, seguiu . – Ei, ! – A chamou e começou a tirar sua blusa. – Toma, veste isso. – A entregou à garota, que estava com os braços cruzados sobre o busto, e ela sorriu.
- Brigada, . – Vestiu e o olhou. – O que você tava fazendo lá? – Mordeu seu lábio inferior e começou a encarar o chão.
- O me disse que tava te procurando... Aí como eu fui levar a menina que estava comigo em casa, e é lá perto, eu perguntei se ele queria que eu desse uma olhada pra ver se você tava lá.
- E eu tava...
- Ele fez alguma coisa com você? – cerrou os punhos e semicerrou os olhos.
- Não. Na verdade eu que me desesperei. – voltou a olhar para . – Mas eu prefiro não falar sobre isso.
- Ok. Vamos falar de outra coisa então, mas antes me deixa ligar pro , senão ele morre. – O garoto enfiou a mão no bolso e pegou seu celular, o que lembrou a que ela havia deixado o seu na casa de Jonathan.
- Oi... – atendeu ofegante, por estar andando muito rápido.
- Pode ficar tranqüilo. Ela ta aqui comigo. – falou e olhou para a garota, que andava encarando seus pés.
- Sério? – parou e respirou fundo. – Mas ela ta com você por quê? Aconteceu alguma coisa?
- Não. Ta tudo bem... Amanhã ela te explica direito.
- Ok. Só fala com ela que ela é muito teimosa. – disse nervoso.
- Quer falar com ela? – riu um pouco.
- Não precisa. Só dá o recado, por favor.
- Pode deixar... Então a gente se fala depois. – Finalizou a ligação e olhou para . – Ele mandou dizer que você é muito teimosa.
- Imaginei... – A garota rolou os olhos. – Mas ele não te errado. – Deu uma risada sem som e balançou a cabeça negativamente.
- Depois vocês conversam...
- Você volta segunda pra escola, né? – Perguntou sorrindo e ele afirmou com a cabeça. – Vê se não apronta mais. – O olhou com cara reprovadora.
- Você acha mesmo que eu tive culpa naquela história? Eu odeio qualquer tipo de arma, pra que eu teria uma daquelas?
- Eu não sei... Por que você não disse isso ao diretor? – Franziu a testa e ele deu de ombros.
- Ele já não acredita em mais nada que eu falo. Só me resta aceitar tudo que me botam culpa. – riu e deu de ombros mais uma vez.
então começou a olhá-lo com algo diferente nos olhos. Achava tudo muito estranho e confuso. Não conseguia achar uma conexão entre o da festa do fim do ano passado e aquele que estava ali ao lado dela, o que sempre estivera ao seu lado, o que ela queria.
- Você também nunca mais vai confiar em mim, né?
- Ai, . Vamos falar de outra coisa. A gente sabe aonde essa conversa vai chegar... – disse passando as mãos em seus braços freneticamente e ele respirou fundo.
- Está bem. Vamos falar de quê? – Deu um pequeno sorriso e ela se sentiu mais tranqüila, apesar de saber que qualquer assunto com ele acabava chegando àquele ponto.
- De Romeu e Julieta e a depressão de Shakespeare. – Disse sorrindo, e bateu palminhas como se aquele fosse o melhor assunto possível.
- Oh, minha Julieta, eu morrerei por você! – pôs uma mão em seu peito e esticou o outro braço à , dramatizando a fala.
- Romeu, meu querido, eu morrerei contigo. Por favor, não me deixe só nessa vida. – A garota pôs o dorso de uma mão na testa e fez cara de sofrimento.
Logo os dois começaram a rir e foram o resto do caminho falando de bobagens e imitando personagens, assim como em seus velhos tempos.
- Ah! Nem acredito que cheguei. – disse feliz e se espreguiçou, assim que eles pararam em frente à porta de sua casa.
- Eu ainda tenho que caminhar mais uns quarteirões. – fez cara de cansaço e passou uma mão em seu peito desnudo.
- Caramba! Você deve ta com frio. – A garota deu um tapa em sua própria testa. – Espera um pouco que eu pego uma blusa pra mim e te devolvo a sua. – Mostrou a palma de sua mão, pedindo que ele a esperasse e se virou para entrar em casa.
- Não precisa. – disse rapidamente e segurou na mão dela. – Você me entrega segunda... - Piscou um olho e começou a caminhar. – Boa noite!
- Boa noite, então... – deu de ombros e abanou a mão. – Obrigada mais uma vez. – Falou um pouco mais alto e sorriu.
virou-se e começou a andar de costas. Logo, deu um beijo na palma de sua mão e soprou para ela, que fingiu pegá-lo no ar e apoiou a mão fechada sobre o peito. O garoto sorriu e voltou a caminhar normalmente, com as mãos nos bolsos da calça.
Quando teve certeza de que ele não olharia para trás novamente, e a pegaria de surpresa, abriu sua mão perto da boca e fechou os olhos para tentar sentir aquele beijo.
Ainda antes de entrar em casa, ela segurou na gola da camisa de e a puxou para mais perto de seu nariz, para que pudesse sentir o cheiro do garoto. Ela fechou novamente os olhos, respirou fundo e sentiu um enorme frio na barriga, além do conforto que aquele perfume trazia para seu coração.
Capítulo IX
“JULIETA — É quase dia; desejara que já tivesses ido, não mais longe, porém, do que travessa menina deixa o meigo passarinho, que das mãos ela solta – tal qual pobre prisioneiro na corda bem torcida – para logo puxá-lo novamente pelo fio de seda, tão ciumenta e amorosa é de sua liberdade.
ROMEU — Quisera ser teu passarinho.
JULIETA — O mesmo, querido, eu desejara; mas de tanto te acariciar, podia, até, matar-te. Adeus; calca-me a dor com tanto afã, que boa-noite eu diria até amanhã.”
- ... Filha, acorde. – A mãe de sacudia o braço da garota, despertando-a de seu sonho romântico.
- Ai, mãe. Me deixa. – Disse coçando os olhos e virando-se para o outro lado.
- Você vai se atrasar para o ensaio, já são seis horas... – A mulher falou calmamente e pulou da cama.
Já era segunda-feira e durante todos os dias da semana os ensaios começavam sempre às seis e meia, para que os alunos não perdessem aula, já que esta começava às oito. Geralmente era o celular de que não a deixava dormir até mais tarde, mas como ela o havia deixado na casa de Jonathan, acabara não acordando na hora planejada.
- Por que você não disse antes? – Perguntou à sua mãe, indo até seu guarda-roupa e o revirando para encontrar seu uniforme.
- Eu tentei... – A mulher sorriu e depois mudou rapidamente sua expressão, franzindo a testa. – De quem é essa blusa? Eu a conheço... – Pareceu pensar por um momento e logo arqueou as sobrancelhas, como se lembrasse de algo. – Não é daquele menino... O ?
- Er... – olhou para seu corpo e tentou pensar em algo para responder. Ela havia esquecido que dormira com a blusa dele, pela segunda noite consecutiva. – Não, mãe, é do ... Ele a esqueceu aqui e meus pijamas estavam sujos, então acabei usando essa blusa mesmo pra dormir. – Mentiu e correu para o banheiro para escovar os dentes.
- Ah... Então depois me dá para eu lavar antes de devolver a ele. E me dá seus pijamas também. – A mulher disse simpática e tirou a camisa e a entregou, querendo que ela saísse logo dali e não perguntasse mais nada.
- O pijama ta por aí... – Disse meio embolado, cuspindo a espuma de sua boca. – Depois te entrego.
- Tudo bem, mas eu ainda acho que já vi o com essa blusa. – Sua mãe insistiu, sorrindo, e fez um som estranho com a boca como resposta. - Ele nunca mais veio aqui, não é? Por que ele sumiu?
- Sei lá, mãe. – deu de ombros enquanto voltava pro quarto e começava a vestir seu uniforme. – Nós estamos no terceiro ano, temos que estudar. Não temos tempo pra ficar fazendo visitinhas. – Disse a primeira coisa que veio à sua mente e sua mãe sacudiu a cabeça negativamente.
- Eu achava que vocês acabariam namorando... Ele parecia gostar de você. – Continuou, sem notar que rolava os olhos, já que não entendia o porquê de sua mãe estar tocando naquele assunto.
- Você viaja demais. –A garota sorriu e logo começou a empurrar a mulher para fora do quarto.
- Só estou falando minha opinião. Mas, de qualquer forma, diga a ele para aparecer outro dia aqui...
- Ok. Vou dizer. – finalizou, fechando a porta, e voltou para dentro do quarto arrastando os pés.
- Perdão, professora. – gritou, entrando correndo no auditório e largando sua bolsa em uma cadeira qualquer.
- Dormiu mais que a cama hoje? – Sra. Parson perguntou sorrindo, parecendo um pouco mais simpática, para sua sorte.
- É... – Respondeu sem-graça e arriscou um olhar para a sala de som, mas não estava lá. Ela franziu a testa e voltou a olhar para o palco, onde outros alunos ensaiavam suas falas.
- Espere aqui ao lado do Jonathan que daqui a pouco vocês entram. – A mulher falou e apontou para o garoto, que ouvia música em uma cadeira da primeira fila em frente ao palco.
engoliu em seco e começou a caminhar para o lugar, não queria ter que encarar o garoto logo nos primeiros minutos do dia, principalmente depois do que havia acontecido no sábado. Porém, o barulho da porta do auditório se abrindo a fez deter seus passos. Ela olhou para trás e viu entrar, caminhando tranqüilamente.
- Também se esqueceu do horário hoje, ?
- Pois é professora, eu não tava conseguindo dormir à noite. – respondeu marotamente e sorriu para , que retribuiu o sorriso.
- Eu vou ficar lá atrás. – A garota se dirigiu a Sra. Parson, apontando para a sala de som. – Quando for minha vez é só chamar.
A professora concordou e mandou o ensaio seguir, enquanto voltava para perto da porta do auditório.
- Ei. - disse assim que ela se aproximou, sorrindo.
- Ei. – respondeu o olhando nos olhos. – Er... Eu não trouxe sua camisa porque minha mãe ta lavando... Sabe como são as mães, né? – Rolou os olhos e concordou, voltando a ficar sério. – Mas amanhã eu trago.
- Você disse a ela que a camisa era minha?
- Não, não... Falei que era do , disse que ele havia esquecido a blusa lá em casa e blá, blá, blá.
- Ah, ta. – sorriu. – Sua mãe é bem legal.
- Ela é... – sorriu também. – E falou pra você ir lá pra casa outro dia, porque você sumiu.
- É verdade. – O garoto mordeu o canto da boca. – Mas eu não podia aparecer se você mal olhava na minha cara. – A olhou nos olhos e abaixou a cabeça. – Vou lá assistir a um jogo com seu pai. – Voltou a sorrir e apertou um botão para acender uma das luzes do palco.
- Ok. – A garota concordou e levantou sua cabeça, notando então que a professora fazia um sinal, a chamando. – Acho melhor eu ir. – Apontou para lá e ele assentiu com a cabeça.
- Ah! – exclamou antes que ela saísse. – Sonhei com você essa noite. – Piscou com um olho para e ela abriu um enorme sorriso antes de sair andando.
- Ótimo! – Disse a Sra. Parson, encerrando a cena que os alunos acabavam de interpretar. – Agora, e Jonathan subam para ensaiarmos a mesma parte da vez passada, porque ficou horrível.
concordou e logo abaixou a cabeça, enquanto subia no palco. Tinha em sua mente que deveria se manter assim por quanto tempo fosse possível, ela não queria ter que encarar o garoto e depois lhe dar explicações sobre o que acontecera a última vez que eles haviam se visto. E para sua sorte, Jonathan também não parecia muito a fim de puxar papo.
Os dois começaram a atuar, completamente desajeitados, e a situação da peça foi piorando gradualmente. Então, na tentativa de salvar aquele ensaio, teve uma idéia: fechou os olhos e imaginou que estava ali com ela, brincando, como haviam feito a caminho de sua casa e assim conseguiu interpretar melhor. Jonathan, por sua vez, não teve escapatória e restou-lhe apenas se esforçar para atuar direito.
- Muito bem. – Sra. Parson disse, interrompendo a peça. – Dessa vez ficou melhor, gostei da atuação da , mas você precisa melhorar um pouco mais Jonathan. O dia do teatro já está chegando... Onde está aquela inspiração que você tinha?
Ao ouvir a pergunta, o garoto olhou para e ela desviou seu olhar para o chão rapidamente.
- Vou me esforçar mais.
- Está bem. Agora vão para suas salas antes que os outros professores briguem comigo por estar atrasando vocês.
Aos poucos, todos os alunos começaram a sair do auditório e os dois desceram do palco sem dizer mais nenhuma palavra. saiu da sala de som e esperou a garota para que fossem juntos para a sala de aula. Ela começou a caminhar para a saída, mas sentiu alguém puxar seu braço e olhou para trás assustada.
- Ai, . – Rolou os olhos e pôs uma mão sobre o peito. – Você me assustou.
- Não me ouviu te chamando? – arqueou uma sobrancelha enquanto soltava o braço dela e começava caminhar ao seu lado.
- Não... Tava com o pensamento longe. E você fica tão escondido atrás daquela cortinha que eu nem lembro que você também ensaia com a gente.
- Você ainda tem que me explicar o que aconteceu... – falou, mudando completamente de assunto.
- Eu não TENHO que te contar nada, mas vou explicar. – falou calmamente e pegou sua bolsa, notando que sua blusa e seu celular se encontravam em cima dela. A garota olhou para os lados, mas Jonathan já havia saído do auditório. Ela mordeu o lábio inferior e pegou suas coisas antes de continuar a caminhar.
se juntou a ela e a quando os dois saíam do auditório, acabando ouvindo também o que contava ao primo.
– Quando a gente se separou de você e da , eu fui andando pra direção errada e acabamos perto da casa dele. Ele me convidou para entrar e eu fui. – tentava explicar da maneira menos constrangedora possível, ignorando a presença de ali. - Aí, lá dentro, as coisas esquentaram... Mas eu não sei por que eu mudei de idéia e quis ir embora. – Mordeu o lábio inferior e olhou pra baixo.
- E ele tentou te obrigar? – questionou nervoso.
- Não! Em momento algum... – garantiu. – Ele até disse que me levaria pra casa, mas eu tava nervosa e acabei encontrando o . Então eu preferi ir com ele, até porque já tava sentindo vergonha por causa do meu nervosismo todo.
- Eu ainda mato aquele moleque. – resmungou, ainda se sentindo extremamente nervoso, enquanto tentava não mostrar seu estado de humor, que com certeza estava pior que o do amigo.
- Ele não teve culpa, a gente ia fazer uma coisa que qualquer casal faz, fui eu que mudei de idéia bem na hora. – Falou tranquilamente e sentiu que, caso seu coração se apertasse mais um pouco, acabaria se atrofiando. O garoto respirou fundo e olhou para o lado em busca de mais oxigênio.
- Vocês não são um casal. - falou com os dentes apertados.
- Somos sim. Somos tanto quanto você e a . – Arqueou as sobrancelhas e olhou para o amigo.
- Acho que perdi muita coisa nesse sábado. – franziu a testa, não deixando de sentir seu coração doer.
- Pois é, dude. A gente ta junto agora. – sorriu um pouco. Pelo menos isso conseguia deixá-lo feliz.
- Que bom. – forçou um sorriso. – Fico realmente feliz por vocês... – Afirmou e logo os três pararam na porta da sala de .
- Acho melhor vocês entrarem logo. To indo pra minha turma... – falou, enquanto apontava com o polegar para sua sala. – Nós continuamos nossa conversa no intervalo, senhorita. – Começou a caminhar e rolou os olhos antes de entrar com .
entrou também em sua sala e foi diretamente para seu lugar, tentando evitar um possível encontro, e provável briga, com Jonathan. Aproximou-se de e e percebeu que os amigos riam de alguma coisa, provavelmente da calcinha da professora que sempre ficava à mostra.
- Apareceu finalmente, né?- falou, sorrindo para o amigo, enquanto ele se sentava e pegava seu material.
- Pois é, dude, sumiu ontem e deixou sua gata com o nerd. Que coisa feia. – falou enquanto amassava uma folha de seu caderno para jogar na cabeça de alguém depois.
- Eu tava fazendo coisa melhor. – sorriu safado e começou a balançar uma caneta entre o indicador e o dedo médio.
- Dude, sai dessa vida. Prostitutas não são mais tão legais, elas têm doenças... – falou fazendo cara de nojo e soltou uma gargalhada.
- Idiota. – jogou a caneta no amigo e acertou no meio de sua testa. – Eu tava com a . – Sorriu vitorioso e parou de rir e deixou cair seu queixo.
- Vocês se pegaram?
- Não... A gente TÀ se pegando. – Levantou as sobrancelhas duas vezes e tentou abrir mais ainda seu sorriso.
- Mais um bobo apaixonado pro grupo. – rolou os olhos. – Eu to ficando sem companhia pra farra. – Jogou a bolinha de papel pra frente e acertou em uma nerd que usava aparelho extra-bucal.
- Acho que a gente vai ter que arrumar a pra ele. – riu e fingiu vomitar.
- Daquela menina eu quero distância. Vocês viram o que ela fez comigo no jogo?
- Com você e comigo. – Completou . – É melhor manter distância mesmo. Você pode ser a próxima vítima. – Disse para e ele sacudiu a cabeça negativamente.
- O deu motivo pra ela fazer aquilo e você foi apenas o azarado que teve que pagar junto. – Disse calmamente.
- Ela ainda me paga. – fez cara de quem planeja algo realmente ruim, apesar de não ter nada em mente, mas seus pensamentos foram interrompidos pela voz estridente da professora gritando.
- Alison, me entrega esse bilhete agora.
- Não... Mas... – Alison tentava se justificar e toda a sala parou para prestar atenção.
- Me entrega. – Insistiu a professora, pegando o papel da mão da garota. – Isso vai para a coordenação. – Disse nervosa e o guardou em sua bolsa.
- Se ferrou. – riu baixo juntamente com os outros garotos.
- Com licença... – Sra. Parson interrompeu naquele momento, batendo à porta, que estava entreaberta. – Posso tomar um minutinho da sua aula? – Perguntou à outra professora e ela concordou. – Bom dia a todos.
- Bom dia. – Os alunos responderam em coro.
- Eu gostaria de saber se algum de vocês sabe tocar algum instrumento musical... – Disse simpática e notou a mão de três garotos levantada no fundo da sala. – Vocês podem vir aqui no corredor para conversarmos? – Pediu, saindo da sala, e agradeceu com um sorriso à outra professora.
Os três a seguiram sem dizer nada.
– Bom, garotos, eu estava pensando em acrescentar música ao nosso teatro... Essa foi a primeira sala em que eu passei, ainda tenho que ver nas outras e então decido o que fazer. – A mulher pegou um bloco de papel e uma caneta.
- Olha, nós já tentamos tocar uma vez juntos. Inclusive com o da outra turma. – disse coçando a cabeça. – Acho que daria certo.
- Mas eu já vou estar na cortina e ele no som... – interferiu.
- A gente pode dar um jeito nisso. – Sra. Parson sorriu e começou a ter idéias. - Me digam o que cada um toca e depois que eu passar nas outras salas eu digo o que decidi.
Os garotos disseram calmamente e ela anotou o que cada um falava, ainda com um sorriso no rosto.
– Muito bem, mas não espalhem, pois será mais legal se a música for surpresa. – Pediu educadamente e os garotos concordaram, antes de retornarem à aula.
A última sala em que Sra. Parson passou foi a de . Já estava quase na hora do intervalo e os alunos conversavam alto. A mulher quase teve que gritar para ser notada ali.
- Bom dia! – Falou alto pela terceira vez. – Vocês podem me dar um minutinho de atenção? – Pediu quase gritando e, finalmente, todos se calaram e a olharam. - Obrigada. – Sorriu e continuou. – Eu gostaria de saber se alguém aqui sabe tocar algum instrumento musical. – Falou e passou o olhar pela sala, vendo que algumas garotas levantavam a mão animadamente.
olhou para trás e viu que estava de cabeça baixa, então levantou sua mão e chamou a atenção da professora.
- Sra. Parson! O também sabe... – Falou, se lembrando de alguns momentos do ano passado em que ele tocara violão para ela, e apontou para o garoto, que levantou a cabeça rapidamente e franziu a testa.
- Por favor, me sigam todos vocês. – A mulher saiu e os alunos a seguiram.
se levantou um pouco confuso e encarou , como se pedisse uma explicação, mas ela apenas fez sinal para que ele seguisse a professora.
Do lado de fora, Sra. Parson explicou novamente suas intenções e anotou o que queria. Quando todos já voltavam à sala, ela se lembrou de perguntar-lhes outra coisa.
- Ah. – Falou rapidamente e eles a olharam. – Algum de vocês canta bem?
- Acho que eu canto... – coçou a cabeça e ela agradeceu.
Assim que o sinal tocou, , , e saíram conversando sobre o que iam fazer na noite depois do teatro.
- A gente podia combinar com todas as turmas de fazer uma festa. – sugeriu enquanto parava na porta da sala.
- Não acho uma boa idéia... – franziu a testa e sacudiu a cabeça.
- , deixa de besteiras. Você nunca mais vai curtir festas na sua vida? – perguntou a olhando nos olhos.
- Pretendo. – Respondeu ainda com a testa franzida e rolou os olhos.
- A gente faz uma festa e não te convida. – brincou e pôs a língua pra fora. Depois, abraçou , que começou a dar tapas no braço da amiga.
- Sai daqui. – Falou tentando se soltar. – Vai agarrar meu primo. – Riu, apontando para a sala do garoto e percebeu que ficava séria enquanto olhava para lá.
- Ele já ta ocupado. – Cruzou os braços e olhou para o mesmo lugar que ela, onde conversava com Alison.
- Ah, ele só ta conversando com ela. – falou calmamente, assim que viu do que se tratava.
- Eu sei, mas eu não confio nela e ele sabe disso. – mordeu o canto da boca. – Fora que ele a ignorava. Agora que a gente fica junto ele volta a falar com ela?
- Alison, eu tenho que ir. – tentou passar pela menina, mas ela segurou o braço dele.
- Espera! Não foi por isso que eu vim falar com você. – Disse, se referindo às besteiras que estava falando com ele anteriormente.
- Então fala logo, porque estão me esperando. – olhou para e viu que ela virava o rosto após seus olhos se encontrarem.
- Ok. Bom, você viu que a professora pegou meu bilhete e disse que ia entregar pra coordenação, né? – Alison perguntou, parecendo nervosa, enquanto enrolava uma mecha de cabelo com o dedo indicador. – Se ela fizer isso mesmo eu me ferro. Eu to meio que em condicional – fez sinal de aspas com os dedos – aqui na escola.
- E o que eu tenho a ver com isso? – perguntou, arqueando uma sobrancelha.
- Eu pensei que você podia me ajudar a sumir com o papel. – Falou calmamente e ele franziu a testa. – Ora, você já fez tanto isso... – Deu um pequeno sorriso e o garoto coçou a cabeça.
- Vou ver o que eu posso fazer. – Disse secamente e ela pulou em seu pescoço o abraçando. olhou para , que semicerrou os olhos e saiu andando com as garotas em direção ao pátio.
- Obrigada, querido. – Alison disse, sorrindo, assim que o soltou.
- De nada. Agora, me da licença que estão me esperando. – Repetiu e saiu andando para tentar alcançar as meninas. No meio do caminho viu , e parados conversando. – , me faz um favor? – Perguntou dando dois tapas no ombro do garoto.
- Fala, dude.
- Pega o bilhete que a professora tomou da Alison e some com ele pra mim? – Falou rapidamente e concordou, parecendo indiferente. – Valeu. A gente se vê no pátio, galera. – Sorriu e continuou a caminhar atrás das garotas enquanto ia para a sala dos professores.
- Garotas, me esperem... – disse com voz sedutora, enquanto se aproximava. As quatro olharam para trás e pararam quando o viram ali.
- Resolveu lanchar com a gente, primo? – sorriu e ele retribuiu o sorriso após dar um beijo estalado na bochecha de .
- Pra falar a verdade eu já enjoei de olhar para a cara daqueles manés. – disse brincando enquanto os cinco voltavam a caminhar.
- Quem não enjoa, né? – rolou os olhos e pôs a língua pra fora.
- Era brincadeira. Eles não são tão chatos assim. – riu e deu um peteleco na cabeça da garota. Em seguida olhou para e viu que ela encarava o chão. – Ta com raiva porque a Alison veio falar comigo? – Perguntou baixo e mordeu o canto da boca.
- Não... – respondeu, também com a voz baixa, e balançou a cabeça negativamente. – Só não gosto dela, mas não importa se vocês conversam ou deixam de conversar. – Deu de ombros e franziu a testa.
- Ok. – Deu outro beijo na bochecha da menina e depois olhou para . – Pode me fazer um favor?
- Eu? – Ela perguntou, estranhando.
- É... – Disse tentando pensar em algo que pudesse levá-la até a sala dos professores. Ele queria colocá-la frente a frente com em um lugar que só estivessem os dois. – A Sra. Parson pediu que eu pegasse uns papéis na sala dos professores, mas eu me esqueci. Já que ela é mais simpática com você, eu pensei que você poderia entregá-los sem que ela reclamasse. – Falou rapidamente assim que a idéia apareceu em sua cabeça.
- E onde estão esses papéis? – perguntou, rolando os olhos. Só pensara em aceitar porque sabia que queria passar mais tempo com o garoto.
- Na segunda gaveta do armário dela, que fica destrancada.
concordou e deu meia-volta para ir a caminho da sala dos professores.
- Será que ela vai ficar nervosa por eu não ter avisado que o deve estar lá também? – sorriu e as três garotas o olharam com os olhos arregalados.
- Se eu fosse aquela gorda nojenta, onde eu enfiaria o bilhete? – falava sozinho dentro da sala vazia enquanto procurava as coisas da mulher. – Não, não lá. – Fez cara de nojo e pegou um papel. – Achei! – Fez uma voz estranha e começou a sacudir o bilhete no ar. – Agora vamos ler o que as gatinhas conversavam. – Desdobrou o papel e o leu.
“Menina, você não vai acreditar no que eu achei lá em casa ontem... A fita com a gravação da festa de fim de ano, lembra? To pensando em dar um showzinho no pátio da escola, o que você acha? Muita gente vai ficar com raiva, mas acho que o meu ia gostar de relembrar os bons tempos... ”
Assim que terminou de ler, abriu a boca. Ele definitivamente tinha que mostrar aquele bilhete aos amigos. Arrumou tudo que havia bagunçado, mas antes que pudesse sair, ouviu barulhos no corredor e correu para trás de um armário. Sem saber o que fazer com o bilhete e com medo de que o pegassem de volta, ele enfiou o papel na boca e se manteve em silêncio. Ouviu alguns passos e um barulho no armário.
- Merda! – Uma voz bastante conhecida ecoou pela sala vazia. franziu a testa e saiu de onde estava, assustando a garota.
- Não grita. – Falou com um pouco de dificuldade, por causa do papel, e rapidamente pôs a mão em frente à boca da menina, abafando o som que saía de lá.
- Caramba. – falou enquanto empurrava a mão dele – O que você ta fazendo aqui, ? – Cruzou os braços e o garoto tirou o papel da boca.
- Vim buscar isso e não me pergunte o que é, porque não é da sua conta. – Respondeu grosseiramente.
- E quem falou que eu queria saber? – arqueou as sobrancelhas e se afastou do armário. – O me paga, ele disse que essa coisa ia estar destrancada. – Deu um tapa na gaveta e cruzou os braços.
- Foi ele que te mandou aqui? – perguntou, semicerrando os olhos, e deixou cair seu queixo.
franziu a testa e então se deu conta do que estava acontecendo.
- Não acredito que ele armou isso! – Exclamou, dando um tapa em sua própria testa.
- E você caiu porque é retardada. – O menino riu e se dirigiu em direção à porta.
- Como se você pudesse falar alguma coisa...
- Vai ficar aí? – preferiu não continuar com nenhum tipo de discussão e apagou a luz da sala, esperando que ela saísse antes de fechar a porta.
Os dois caminharam calados pelo corredor, pois nenhum se atrevia a começar uma conversa. apenas olhava para o papel babado na mão de , em uma tentativa frustrada de ler o que havia ali.
- Nem vem! – O menino disse rápido assim que percebeu o que ela tentava fazer e puxou sua mão para perto do peito. – Já disse que não vou te contar.
- E eu já disse que não quero saber. – deu de ombros. – Aliás, nem sei por que eu ainda to andando ao seu lado... – Apressou o passo para tentar chegar ao pátio antes que o intervalo acabasse.
apenas olhou a garota caminhando. Ela era realmente bonita, não podia negar, mas definitivamente garotas frescas não eram atrativas para ele. E, segundo o garoto, e seu grupinho ganhavam de qualquer outra menina do colégio nesse quesito.
Assim que a menina desapareceu de suas vistas, rasgou o papel, ainda molhado, e jogou fora. Não queria que algum disciplinário o visse com a prova do crime nas mãos. Logo, foi até o pátio também e encontrou os outros três garotos, que conversavam animadamente com um grupo de meninas do segundo ano.
- ! – Uma loira e peituda exclamou, assim que ele se aproximou, e o abraçou forte, fazendo o garoto esquecer o bilhete e até mesmo a armação de .
- Então, garotos, vocês vão nos dar ingressos para a peça de vocês, certo? – Outra garota loira perguntou, enquanto jogava seus lisos cabelos para trás do ombro.
- Claro, gata. - disse sorrindo e passou um braço pelo ombro dela, assim como estava com a primeira.
- Qual é a peça? – A mais feinha do grupo perguntou. Ela tinha cabelos ruivos crespos e aparelho nos dentes.
- Romeu e Julieta. – respondeu simpático e ela sorriu.
- Ano que vem serei a Julieta. – Uma terceira loira que estava lá disse convicta e encarou . – Pena que vocês já terão saído e nenhum poderá ser meu Romeu...
- Talvez eu repita de ano, amor... – sorriu e se soltou das duas outras garotas para abraçá-la. Todos os garotos começaram a rir e logo em seguida o sinal tocou.
- Ai, como eu odeio essa garota. – disse nervosa assim que passou por Alison, antes de entrar em sua sala.
- Deixa ela, . – sorriu e deu um leve tapa no ombro da amiga. – Você viu que o a ignorou e é você quem está com ele agora, não é? – Falou e deu um pequeno sorriso, enquanto as duas entravam na sala e seguiam para seus respectivos lugares, já que o professor de Sociologia já se encontrava ali.
- Bom dia. – O homem calvo e das sobrancelhas grossas tentava fazer-se notar ali. – Vamos fazer silêncio, pessoal. Hoje teremos muito trabalho e quanto antes começarmos, melhor. – Falou indo até o quadro e escrevendo algumas orientações no lugar. – Teremos três etapas nesse trabalho de auto-conhecimento. Primeiramente, sortearei duplas para que vocês possam escrever o que pensam sobre seu colega. – O professor apontava para o lugar onde havia escrito aquilo, enquanto dizia. – Depois, faremos uma troca dos papéis para que vocês possam ver como as outras pessoas te enxergam e conhecer alguns defeitos que às vezes passam despercebidos. E, finalmente, cada um escreverá sobre as mudanças que deseja realizar em sua vida. Combinado? É coisa bem simples, só para não desperdiçarmos essa aula. – Terminou a explicação e foi até sua mesa onde havia uma pequena caixa. Enquanto isso, os alunos discutiam sobre o trabalho e suas expectativas para as duplas.
O professor começou o sorteio e alguns já comemoravam por terem saído com amigos, enquanto as quatro garotas torciam para que pudessem sair juntas. Mas, assim que o professor chamou o nome de , seu sorriso se desvaneceu ao ver que saíra com um dos mais retardados da sala. e também foram escolhidas junto a pessoas não muito legais, enquanto apenas permanecia em seu lugar com a cabeça abaixada.
- . – O professor chamou, assim que retirou o papel da caixa, e ela o olhou apreensiva. – Sua dupla é... – Escolheu outro e a garota sentiu o coração acelerar ao ver escrito ali o nome que, inconscientemente, tanto desejava. – O rapazinho .
abriu um imenso sorriso ao ser chamado e rapidamente foi sentar-se ao lado da garota, que já havia abaixado a cabeça novamente.
- Acredita em destino? – perguntou, enquanto os dois recebiam do professor duas folhas em branco, e ela voltou a levantar a cabeça.
- Acredito em perseguição. – sorriu para o garoto e pegou seu papel. – Engraçado como você sempre aparece no meu caminho...
- Desculpa te desapontar, . Eu sei que você queria pensar que eu te sigo. – pegou uma caneta rosa da bolsinha da menina. – Mas nós moramos no mesmo bairro, quase na mesma rua, pra ser mais preciso. Freqüentamos a mesma escola, na mesma sala. E, além de tudo, você é prima de um dos meus melhores amigos. Seria praticamente impossível a gente não se encontrar. – O garoto argumentou e, ao terminar, deu um beijo na bochecha da garota, fazendo com que ela sorrisse, mesmo contra sua vontade, em resposta ao frio que sentiu em sua barriga.
Pra dizer a verdade, já havia se cansado de ficar daquela maneira com um simples toque de . E tê-lo sempre tão perto não deixava que a garota lutasse contra seus sentimentos.
- Acho que vou precisar de duas folhas... Seus defeitos não vão caber em uma só. – O garoto disse em tom de brincadeira.
- Digo o mesmo. – Retrucou, também brincando. – Pelo menos não podemos por nomes impróprios aqui, o que reduz meu trabalho pela metade. – deu língua e sorriu involuntariamente. Sim, ela causava o mesmo efeito nele.
Os dois então se calaram e começaram a fazer o trabalho. escrevia algumas coisas e tentava ler, já que não conseguia passar para o papel tudo o que pensava naquele momento.
Ficaram assim por um bom tempo até que o garoto sentiu seu celular vibrar em seu bolso. Enquanto pegava o aparelho, virou a folha acabando com as tentativas da garota, que apenas conseguiu ler um “curiosa” e fez bico.
- Quem é... – semicerrou os olhos, enquanto tentava se lembrar de quem era a dona do nome que estava no seu visor. – Ah, sim, a menina do bar!
- Ela não estuda, não? – rolou os olhos.
- Ela faz faculdade, à noite. – respondeu e sorriu ao ver a cara que a garota fez ao saber que a outra era mais velha. – Eu tenho que atender... – Tentou pensar em uma maneira enquanto recebia outra chamada.
- Você não pode, está em aula. – cruzou os braços e então sentiu que ele se abaixava em direção ao seu colo e ficava com o nariz quase tocando sua coxa, de uma maneira que a estava deixando bastante sem-graça. - O que você...
- Oi? – atendeu, deixando sem ação.
- Sai daqui, garoto. – reclamou, tentando levantar a cabeça dele.
- Shiu... – pediu silêncio, tampando o microfone do celular, e ela abriu a boca, mas não saiu mais nenhum som. – Eu sei... Me desculpa... Claro, sem problemas... Então ta certo... Beijão, linda. – se despediu e encerrou a ligação bem na hora em que o professor se aproximava.
- O que vocês estão fazendo? – Perguntou seriamente e se levantou.
Ouviram o resto da sala falar “hum” em tom uníssono e pôs as mãos no rosto, envergonhada.
- Eu só tava pegando minha caneta. – O garoto respondeu sério e mostrou a caneta rosa que estava em sua mão.
O professor assentiu com a cabeça e mandou seguirem com o trabalho.
- Seu idiota! – reclamou com assim que o homem se afastou.
- Deixa de besteira, . Você sabe que esse povo zoa qualquer coisa. – rolou os olhos e desvirou a folha. Ela pôde ver, então, escrita do lado direito, a palavra “linda” e sorriu. O garoto percebeu e tampou esse pedaço, depois a olhou sério. – Vai fazer o trabalho, não quero perder ponto por sua culpa.
- Eu vou – também ficou séria –, mas da próxima vez que for atender alguma piranha, pelo menos pede licença... Aliás, não terá próxima vez. – Pegou sua bolsa e a colocou em seu colo, enquanto sorria de lado.
- Ela não é piranha. E isso que você está sentindo agora é ciúmes ou inveja? Eu preciso escrever aqui nos seus defeitos. – Posicionou a caneta no papel e a olhou nos olhos.
- É nojo, de você! – pegou uma caneta azul e começou a escrever compulsivamente em seu papel, tomando cuidado para que ele também não conseguisse ler.
Após um tempo sem nenhuma discussão, brincadeira ou ironia, obedeceram à ordem do professor e passaram para a segunda etapa. jogou sua folha nas mãos de e tentou pegar a que ele escrevia, mas o garoto a segurou com força.
- Me dá logo. – Disse séria e ele riu, mandando pra ela um beijo no ar, em seguida.
- Eu canto bem? – Abriu um enorme sorriso assim que viu o que estava escrito e ela rolou os olhos.
- Me entrega a folha, . Nós vamos perder ponto se demorarmos mais. – Pediu pacientemente.
- Não, eu tenho que mudar algumas coisas. A única qualidade que você escreveu foi que eu canto bem. Não é justo, eu coloquei mais de uma pra você. – falava enquanto lia, na parte de defeitos, palavras como “irritante”, “mentiroso”, “trapaceiro”, “chato”, “retardado” etc.
- Não tem nada injusto aqui, o professor pediu que disséssemos a verdade. – respondeu e conseguiu arrancar a folha das mãos do garoto. - Linda... Sorriso bonito... – A garota sorriu ao ler o que havia ali. – Realmente tem mais que uma qualidade, tem duas. – Rolou os olhos e deu de ombros.
- Começa a ler logo seus defeitos senão não dá tempo de terminar. Já são muitos e até você conseguir entender tudo... Aliás, o que você escreveu não tem nada a ver comigo. – Falou com a cara emburrada, mas ela não respondeu, pois estava concentrada em ler, com os olhos semicerrados, as coisas negativas sobre ela.
Chorona, fútil, infantil, reclamona, perdedora, teimosa, medrosa, descerebrada, entre outras, eram algumas das palavras que havia escrito. Ele não estava completamente errado, mas exagerara apenas para poder rir das caras que ela faria. E fez.
- Eu não sou essas coisas. – cruzou os braços assim que terminou. – O professor mandou falar a verdade.
- Eu escrevi a verdade, do mesmo jeito que você. – fingiu um sorriso.
- Que eu saiba o perdedor é você. Não se esqueça que eu ganhei o combinado do parque de diversões. – sorriu se sentindo a pessoa mais esperta do mundo por ter se lembrado.
- Não mesmo, você ganharia se ele estivesse no banheiro. Eu ganhei. – O garoto arqueou as sobrancelhas e sorriu também.
- Ganhou porcaria nenhuma! A gente combinou que se fosse armação sua eu teria direito de cobrar em dobro. – Falou nervosa e um pouco alto.
- A gente não combinou nada, você disse. – manteve o tom de voz baixo e paciente.
- Ok. Vou ter que colocar na sua folha que agora você é ‘despalavrado’. – A garota falou pegando novamente sua caneta e ficou a olhando com a testa franzida e a sobrancelha direita arqueada. – Que foi? – Perguntou nervosa, o encarando.
- Des... O que? – Perguntou, segurando uma risada.
- Despalavrado, sem palavra, não interessa! – Gritou e escreveu na folha enquanto ele começava a rir descaradamente.
- Vocês dois aí. – O professor chamou a atenção. – Está tudo bem?
- Está. – respondeu tentando recuperar o fôlego. – Desculpa.
- Não, não está bem. Ele é muito chato. – falou como se tivesse dez anos de idade e todos da sala começaram a rir.
- Muito bem... Chega. – O professor pediu batendo a mão na mesa para pedir silêncio. – Passem para a última etapa agora.
Todos obedeceram e gesticulou com os lábios um “eu ganhei” para .
- Escreve aí nas mudanças que você quer fazer: quero ganhar do . – O garoto falou ainda vermelho de rir, imitando, de uma maneira horrível, a voz da menina.
- Não, eu vou escrever que quero passar o resto da minha vida sem olhar pra você. – Começou a escrever o que acabara de dizer no verso da folha.
- E eu vou escrever que quero que você se apaixone por mim, apesar de não ser muito difícil. Vamos ver quem ganha novamente. – fez o mesmo e ela semicerrou os olhos.
- Isso nunca vai acontecer, . – Falou, sentindo seu coração apertar. Pra que diabos ele queria aquilo?
- Já aconteceu uma vez...
- E cometer o mesmo erro seria burrice! – falou nervosa e o sinal tocou, livrando os dois daquela discussão falsa e sem futuro.
O professor passou recolhendo as folhas e o garoto voltou para seu lugar sem dizer mais nada.
As duas aulas seguintes passaram devagar e às vezes tinha a impressão de que o relógio havia parado. Quando finalmente faltava menos de dez minutos para serem liberados, ela recebeu um bilhete e rolou os olhos ao reconhecer aquela letra.
“Esqueci de falar... Vou sair com a menina do bar essa noite. Quer chamar alguém pra sairmos de casais? .”
pressionou seus dentes com força e teve vontade de rasgar o papel, mas mudou de idéia e resolveu fazer uma surpresa ao garoto.
“Com certeza. Adorei a idéia! Vou chamar o John... Ótimo jeito de pedir desculpa, não acha? Beijinhos, .”
não conseguiu esconder a cara de surpresa ao ler o bilhete, o que fez sorrir de longe. Ele esperava que ela rejeitasse o convite e ainda o xingasse, mas aquela resposta era realmente algo inédito.
“Pensando bem... Acho que ela vai preferir algo mais particular, se é que você me entende. Deixa as desculpas pra outro dia. .”
sorriu ao terminar de ler, ela havia conseguido exatamente o efeito que queria.
“Ta com medo de não agüentar me ver com ele? Relaxa, , eu não gosto de demonstrações públicas... Mas você tem razão, algo mais particular é melhor. Acho que os pais dele ainda estão viajando... .”
Pronto, ela havia conseguido deixá-lo nervoso. Antes mesmo que o sinal tocasse, se levantou e foi até o lugar onde se sentava, apoiou uma mão em sua mesa e a outra na mesa de trás e abaixou seu corpo para falar ao seu ouvido.
- Ok. Eu te devo duas coisas da aposta, mas eu só faço se você não sair mais com ele. – cochichou e ela mordeu o lábio inferior tentando esconder um sorriso.
- , o que esta fazendo? Vai se sentar. – A professora de História falou com os braços cruzados.
- Espera, é coisa séria e o sinal já vai tocar. – respondeu sem olhar para a mulher e coincidentemente o sinal soou naquele instante.
- Sem chantagens, . Você vai ter que me pagar de qualquer forma. – respondeu tranqüila enquanto guardava seus materiais.
- Te devo três então. Isso não era combinado... Eu faço uma a mais pra você não ir. – Falou olhando-a nos olhos e tirou a mão do menino de sua mesa para poder sair.
- Por que esse medo de que eu vá? – Riu e se levantou. – Mas eu aceito. Pra dizer a verdade, eu não tava muito a fim de sair hoje...
sorriu e concordou com a cabeça, depois voltou a seu lugar para buscar suas coisas.
- Espera! Eu já quero te mandar fazer uma coisa. – gritou e ele a olhou. – Você tem que me trazer um trevo de quatro folhas ainda hoje... De verdade.
- O que? – não acreditou no que estava ouvindo. – Onde eu vou achar isso? Pra que essa besteira, ? Vai ser impossível.
- Eu sei. – sorriu e saiu da sala juntamente com suas amigas, que não entendiam nada.
Na verdade sua intenção era fazer com que passasse o dia procurando e deixasse de ir a seu encontro, além de, é claro, passar o dia inteiro pensando nela.
O relógio da sala da casa de mostrava que faltavam quinze minutos para meia-noite.
E se ele não chegasse a tempo? E se tivesse optado por ignorar o acordo e ir ao encontro? O que ela faria para castigá-lo por ser tão... “Despalavrado”?
O celular de vibrou em sua mão e ela leu a mensagem que havia acabado de receber.
“Estou na porta, vem buscar seu trevo. ”
- Ele conseguiu... – Murmurou a garota enquanto desligava a TV e caminhava para fora, de pijamas.
Assim que abriu a porta, o avistou, com os braços cruzados, encostado no capô do carro de seu pai. Caminhou até lá, também de braços cruzados, e o menino sorriu enquanto tirava de seu bolso um pequeno trevo.
- Você conseguiu... – Falou com um pequeno sorriso e ele assentiu com a cabeça.
- Não vou dizer que foi fácil, mas foi até uma boa idéia. Eu aproveitei e pedi a ela pra me ajudar. – apontou com o polegar para o lado do carona do carro e só então percebeu que a garota do bar estava ali, retocando seu batom, e seu sorriso se desfez. – Foi uma tarde realmente agradável, procurar trevos no campo... Obrigado. – Deu um beijo na testa da menina e ela não conseguiu dizer nada. Seu plano havia falhado, completamente. – Agora eu tenho que ir... Vamos aproveitar enquanto as amigas dela não chegam ao apartamento. – Piscou um olho e abriu a porta. – Boa noite. – Logo, entrou no carro e deu partida, deixando uma muda e boquiaberta para trás.
Capítulo X
“AMA — Bem; fizestes uma escolha muito simples; não sabeis escolher homem. Romeu... Não, ele não! Conquanto ele tenha o rosto mais bonito do que não importa quem for, suas pernas levam vantagem sobre as de todos os homens. Quanto às mãos, pés e o corpo, muito embora nada se tenha a dizer, estão acima de qualquer confronto. Não é a flor da cortesia; mas, posso asseverar-vos, é manso como um cordeiro. Prossegui nesse caminho, menina e continuai servindo a Deus. Como! já jantaram por aqui?
JULIETA — Não, não; mas isso tudo eu já sabia. E sobre o casamento, que disse ele?”
- Merda, ! Tira essa luz do meu olho. – gritou de cima do palco, colocando a mão em frente aos olhos. Não havia acordado de bom humor naquele dia e parecia querer piorar a situação.
- , abaixa um pouco a luz. E , fica calma. – Sra. Parson por sua vez, estava extremamente tranqüila e falava com uma voz calma e doce. – Falta uma semana, meninos, temos que estar com os ensaios perfeitos. Concentrem-se.
- Se ele saísse melhoraria bastante. – murmurou para que só ela escutasse.
- Disse algo, minha querida?
- Não, Sra. Parson. Só estava recordando a minha fala. – Respondeu ainda sem paciência e o ensaio continuou.
Não demorou muito para que o sinal tocasse e seguissem todos para suas salas. não esperou ninguém, nem mesmo , para acompanhá-la, pois queria refletir durante o caminho. Ela realmente não estava bem, as imagens de com aquela garota não saíam de sua mente e pensar no que provavelmente aconteceu quando ele saiu de sua casa, fazia seu coração bater ainda mais apertado em seu peito.
Infelizmente, o dia estava apenas começando e se com menos de duas horas acordada ela já se sentia daquela forma, mais tarde estaria desejando nunca ter saído de casa.
- Já está pronto. – Ouviu uma menina cochichar para Alison. – Vamos aproveitar que a aula de Educação Física é pra todo o terceiro ano e a professora não veio, aí nós mostramos... – Alison então sorriu e piscou um olho para a garota. Em seguida, olhou para e deu uma pequena risada. ignorou a garota, assim como sempre fizera, e entrou na sala, onde suas amigas já se encontravam.
- ! – exclamou ao vê-la e correu para abraçá-la. – Conta pra gente se o conseguiu o trevinho...
- É! A gente tava pensando no castigo, caso ele não tenha achado. – completou, esfregando as mãos e fazendo sua melhor cara de vilã.
- Ele conseguiu. – respondeu desanimada. – A namorada dele o ajudou a procurar. – Colocou seus materiais na carteira atrás de e evitou olhar para as amigas.
- Namorada? – franziu a testa.
- A garota do bar, . – respondeu, abaixando a cabeça, e depois se sentou. – Eles não estão namorando, mas estão juntos. Que sejam felizes, não me importa mais. – Deu de ombros e, em seguida, o professor entrou na sala, interrompendo a conversa que realmente queria evitar...
O resto da manhã se seguiu sem nenhum acontecimento interessante. estivera cabisbaixa durante todas as aulas e suas amigas evitaram conversar muito com ela, sabendo que qualquer coisa podia deixá-la ainda mais pra baixo.
Quando o último horário começou, os alunos foram avisados de que a professora de Educação Física não havia ido à escola naquele dia e eles teriam que esperar no pátio até que os portões se abrissem, para serem liberados.
seguiu suas amigas até uma arquibancada, onde se sentaram e ficaram esperando, enquanto começavam qualquer assunto.
- Oh, droga! – exclamou e deu um tapa em sua testa assim que viu um telão no pátio da escola, ao chegar acompanhado de seus amigos.
- O que houve, ? – perguntou, parando ao seu lado e apoiando uma mão no ombro do menino.
olhou por todo o lugar e avistou e as outras três garotas sentadas em uma arquibancada.
- , se sua prima ainda tem trauma daquela festa do ano passado, acho melhor você tirá-la daqui. – Disse para o amigo e todos os outros o olharam, sem entender. – Eu li o bilhete da Alison, ela vai mostrar uma fita que gravou aquele dia.
Assim que terminou de dizer, abriu a boca e olhou para sua prima, que estava com a cabeça abaixada, apoiada nos joelhos. também a olhou e engoliu em seco ao ver Alison pegar um microfone e entrar na frente da tela.
- Er... Bom dia, gente. – A garota começou a falar e todos a olharam.
- O que essa piranha tá fazendo? – perguntou intrigada e levantou o rosto.
- Como nós estamos no último ano, eu pensei em fazermos uma retrospectiva do nosso Ensino Médio. – Deu um sorriso e a maioria das pessoas comemorou. – Se vocês tiverem mais alguma coisa, traga pra nós. Hoje nós vamos com a despedida do segundo ano. – Terminou de falar, sendo aplaudida, e deu “play” no vídeo, antes de se sentar em qualquer lugar para que também pudesse assistir.
sentiu sua pressão abaixar ao ouvir aquilo e , e a olharam preocupadas.
“‘Acho bom registrarmos tudo’. O rosto de Alison aparecia na imagem, juntamente com o de outra loira. ‘Essa festa promete’. A garota ria, aparentemente não estando mais sóbria. ‘Vamos dar uma voltinha’... Logo, a imagem se desviava do rosto das duas e mostrava uma porta, que era aberta em seguida. Vários jovens podiam ser vistos no lugar, ao som de uma música eletrônica. Garotas bêbadas, garotos fumando, casais se agarrando e muita gente em todos os cantos eram parte do cenário.”
- Ferrou pra você, dude! – , que estava de braços cruzados, olhou para assim que o amigo apareceu na tela.
“‘Vem cá, ’. Alison voltava a filmar seu rosto e dessa vez se juntara ao garoto, que parecia mais bêbado que ela. ‘Vamos mostrar pra esse povo o que é um beijo de verdade’... Ela então mordeu o lábio inferior do garoto e os dois começaram a se beijar. Outra pessoa tomou a câmera das mãos de Alison, já que ela começara a filmar o chão e gravou o casal se agarrando de longe.”
assistia tentando manter a calma. Não era a primeira vez que via aquilo, mas agora que estava com ele, era diferente. Se segurou para não sair correndo e ir arrancar os cabelos tingidos de Alison e evitou olhar para do outro lado do pátio.
, por sua vez, suava frio ao assistir ao que passava ali. Estava com medo do que poderia aparecer.
“Enquanto filmavam algumas meninas dançando, ao fundo, conversava com Richard, que saía de perto fazendo sinal para o garoto esperar e logo voltava com uma cartela nas mãos. Em seguida, dava um comprimido a e saía do local, antes da câmera ser desviada para outro lugar.”
- Vocês viram? – perguntou nervoso. Ele também suava frio, pois um erro que cometera ali lhe custara a confiança de quem ele amava. – Dá pra ver o Richard me entregando aquela coisa.
- É... nós vimos. – concordou, boquiaberto. Ele não havia ido à festa, pois viajara na época, e estava assustado com o comportamento das pessoas.
- Espero que ela tenha visto também. – respondeu e respirou fundo, tentando se acalmar.
Mais alguns minutos de fita se passaram mostrando tombos, beijos, bundas, peitos, homens sem camisa, garotas com saias que não tampavam nada etc.
estava se tranqüilizando, pois sabia que não haveria mais muito espaço na fita e torcia para que acabasse logo, antes que o queria esconder aparecesse para todos. Mas nem sempre o que se quer é o que acontece.
“‘Caraca, olha a !’ Alison, que já havia recuperado a câmera, falava rindo e apontava para a garota que dançava em cima de uma mesa apenas de calcinha, enquanto vários garotos bêbados, alguns até drogados, passavam a mão por seu corpo, puxando-a para mais perto e quase a derrubando.”
assistia a tudo estática. Não se lembrava do que havia acontecido, não sabia o quanto aquilo havia sido ridículo. A única coisa que tinha em sua mente era a entregando um comprimido e como acordara mais tarde, mas nunca imaginou que descobriria o restante juntamente com todos do terceiro ano, em uma aula de Educação Física
“‘Ahhh’... Alison falava rindo, assim que se aproximava rapidamente e tentava fazer descer da mesa. ‘Alguém tira o dali? Ele vai acabar com a graça’. Continuou filmando enquanto o garoto a tirava de lá, apesar de que a menina tentava resistir. Em seguida, era possível ver de longe a colocando no chão e tirando sua blusa para vestir nela.”
As lágrimas escorriam descontroladamente no rosto de e ela já não conseguia coordenar nenhuma parte de seu corpo. Estava estática, pálida, gelada.
também sentia seu coração apertar. Aquela noite havia sido muito pesada e relembrá-la não o fazia se sentir bem. Mas, por outro lado, pelo menos agora saberia de toda a verdade, mesmo contra sua vontade.
Mais um pedaço de fita foi passado e, dessa vez, outra pessoa foi o alvo da câmera de Alison.
- , aquela não é você? – apontou para um casal se beijando nos degraus de uma escada.
- Não. – respondeu secamente e fechou os olhos, como se caso ela não visse, a imagem desapareceria dali.
- É você sim... – insistiu. – É você e o...
- ? – indagou de olhos arregalados, do outro lado do pátio, e os outros dois garotos encararam o amigo.
- Eu tava bêbado, dude. Não faz isso comigo. – coçou a cabeça e fez cara de nojo.
- Como a gente pôde ser tão tapado de não ter visto isso e nem ter desconfiado depois? – questionou a todos e eles sacudiram a cabeça negativamente.
“Algumas horas de festa já haviam se passado, pois agora a imagem era da casa se esvaziando. Algumas pessoas dormiam encostadas em qualquer lugar e outras bebiam os restos que havia nas garrafas.
‘Vou procurar a louca só de calcinha. Isso aqui já tá ficando chato’.Alison falou rindo para alguma menina. ‘Ela e o sumiram... Só espero que não estejam usando minha cama’. Filmou seu próprio rosto e fez cara de nojo. ‘Rich, viu a e o por ai?’Perguntou a seu irmão e ele apontou para uma porta. ‘Ai, meu quarto!’”
Todos começaram a rir e a fazer sons insinuantes ao ouvir o que ela havia gravado. sentiu seu mundo começar a cair. Aquilo que ela sempre quis esconder, que não contara nem para sua melhor amiga, estava prestes a ser revelado. Quis sair correndo dali, mas suas pernas estavam fracas e teve certeza que cairia no primeiro passo.
“Alison abriu a porta devagar e abriu os olhos e olhou para a câmera. estava dormindo com a blusa dele, a cabeça apoiada em seu peito e uma de suas pernas sobre a dele. Alison deu zoom na bunda da garota, que estava apenas de calcinha, e pousou sua mão sobre o lugar para tampar.”
Todos os garotos começaram a falar alto. Alguns comemoravam pela imagem, outros reclamavam por ter tampado e outros chamavam o garoto de safado, garanhão etc.
“‘Sai!’ sussurrava para Alison enquanto ela ria. ‘Shiii... Vai pra lá, eu vou acordá-la pra irmos embora’. Gesticulou com a mão que estava livre, pedindo que ela se apressasse. ‘Vocês podiam ter usado outro lugar que não fosse minha cama’... Alison reclamou enquanto caminhava de costas para sair de lá. mostrou o dedo do meio para ela e, enfim, a fita acabou.”
Todos os alunos começaram a bater palmas, gritar e rir. Para eles aquilo havia sido bem divertido, mas para oito pessoas ali presentes, não tivera graça nenhuma.
Assim que a tela ficou preta, olhou para do outro lado do pátio com os olhos doendo e cheios de lágrimas. O garoto correspondeu ao olhar sem saber o que fazer e viu que ela se levantava, respirava fundo e começava a caminhar rapidamente e sozinha.
- Vai lá, dude. – falou ao perceber o que estava acontecendo. – É a sua chance.
olhou para , esperando uma confirmação e ele assentiu com a cabeça. Logo, o garoto começou a correr para não perdê-la de vista.
- ! – Chamou assim que se aproximou. – Espera...
- Sai, ! Eu não quero falar com você. – disse, ainda de costas, com uma voz estranha por estar segurando seu choro. – Eu não preciso de mais um pra rir da minha cara. Muito menos o causador disso tudo.
- Rir? , é óbvio que eu não vou rir de você. Eu só quero esclarecer de uma vez por todas essa história. – Se aproximou mais e a segurou de leve no braço.
- Eu já entendi, não precisa se explicar. – passava as mãos no rosto para tentar enxugar as lágrimas, mas era inútil porque elas insistiam em cair.
- Olha pra mim. – pediu com a voz calma. – Olha pra mim, . – Insistiu e a garota se virou, ainda com a cabeça baixa. – Como a gente chegou nessa situação? A gente se dava tão bem... Olha como estamos agora. Tudo por causa de uma noite. – As palavras começaram a fluir na mente do garoto, finalmente sentia que conseguiria dizer o que desejava.
- Como você queria que estivéssemos? – o olhou, gritando. – Você me drogou e se aproveitou de mim. Eu queria você, . Eu queria ter feito aquilo com você, mas eu queria estar consciente dos meus atos. – Começou a cuspir as palavras que estiveram presas em sua garganta por tanto tempo e ele apenas franziu a testa. – Você não me respeitou... Eu... eu tenho nojo de você. – Tentou abaixar seu rosto novamente, mas o garoto o segurou com as duas mãos.
- Do que você está falando? – Perguntou ainda com um tom de voz baixo. tirou as mãos dele de seu rosto e se afastou.
- Você sabe! Não se faça de idiota. – Passou novamente as mãos em suas bochechas e fungou. Tentava parar de chorar, pois não queria parecer uma garotinha indefesa.
- Não, eu não sei. Você viu ali na fita que foi o Richard que me entregou o comprimido, não viu?
- Eu não tô falando disso.
- Então de que...
- Você sabe.
- Não, eu não sei! – gritou e o olhou assustada. – Desculpa, eu só... só não sei mesmo do que você está falando. – Respirou fundo e ela abriu a boca e semicerrou os olhos.
- Eu tô falando sobre o que aconteceu naquele quarto. – Fez uma pausa e ele pareceu ainda mais confuso. – Sobre o que rolou depois que você me levou pra lá.
- Espera. – sorriu nervoso. – Você não tá achando que a gente... Tá? – Dessa vez foi quem franziu a testa e ele deu uma gargalhada nervosa. – , como eu poderia?
- Isso não tem graça! – Gritou. – O que você tá querendo dizer?
- Que não aconteceu nada. Eu não acredito que você pensou que tivesse rolado alguma coisa... – passou as mãos fortemente e devagar em seu próprio rosto.
parou por um momento e tentou encaixar todas as idéias em sua cabeça. Pensou em tudo que se lembrava e no que vira naquela fita. E, finalmente, percebeu o grande mal entendido.
- O que você queria que eu pensasse? Eu tomo um remédio – fez sinal de aspas com as mãos - que você me dá e logo depois acordo com sua blusa, deitada em uma cama do seu lado, com sua mão na minha bunda, marcas na minha perna e nem idéia do que havia acontecido... – Começou a falar compulsivamente. – Eu não tinha consciência de nada. Eu me assustei ao ver a gente daquele jeito e as únicas lembranças que eu tinha me levavam a acreditar que você tinha se aproveitado de mim. Daí eu me dei conta que o que você havia me dado não era um simples remédio. E você queria que eu pensasse o quê? Que você tinha me drogado só pra dormir do meu lado? Aquilo doeu demais, . Você era o garoto por quem eu estava apaixonada e pensar no que parecia ter acontecido te transformava num monstro pra mim... – engasgou no choro e percebeu que os olhos de também estavam marejados.
- Agora tudo faz sentido... – disse quase em um sussurro. – É por isso que você ficou com tanta raiva de mim, mesmo sabendo que eu não tinha culpa. – Tentou engolir o nó que estava em sua garganta. – Se eu pudesse voltar ao tempo, com certeza eu mudaria aquela noite. Se eu soubesse que o Richard me entregaria outra coisa... Aquele...
- Por que ele faria isso?
- Por que ele faria, não. Por que ele fez isso! – corrigiu a frase. – Mas isso eu não posso te responder, pois ainda não descobri.
- Você é mesmo um idiota. – sacudiu a cabeça negativamente. – E ainda começou a me tratar mal depois daquilo tudo...
- Você não foi a única a ficar confusa, . Eu também tenho o direito de não entender coisas mal-resolvidas. – cruzou os braços.
- Coitado. Foi tão difícil pra você, né? – Riu irônica.
- Foi! Foi sim. E se eu te disser que não entendi sua atitude? Que achei que era tudo um teatrinho pra chamar atenção e ganhar mais popularidade na escola? Que quando te procurava pra conversar e você me repugnava, eu pensava que havia sido apenas um figurante da sua grande peça?
- O quê? – gritou. – Eu não acredito que ainda sou obrigada a ouvir isso.
- E eu sou obrigado a ouvir que fiquei com a imagem de um filho da puta estuprador? – a encarou nos olhos, com as veias de seu pescoço tão rígidas que pareciam que fossem estourar a qualquer momento.
- Então, por que começou a me tratar bem de novo depois de um tempo? – indagou com um tom de voz baixo novamente, para tentar amenizar a situação.
- Eu descobri que o Richard traficava e logo me dei conta do remédio - também fez sinal de aspas com as mãos – que ele havia me entregado. Mesmo assim, eu continuava a acreditar que você tinha feito escândalo à toa, mas um dia desses o veio conversar comigo e me contou seu ponto de vista. Foi aí que eu percebi que o erro havia começado por mim. – também falava com o tom de voz baixo agora. – Eu comecei a te procurar pra esclarecer, mas você nunca queria. – abriu a boca para dizer algo, mas ele fez sinal com a mão para que ela não o fizesse. – Agora eu sei porque você evitava esse assunto... Deve ter sido difícil. – Mordeu o canto da boca e ela concordou.
- Eu... eu preciso de um tempo sozinha. Por favor, me deixa pensar um pouco.
- , olha, eu não fiz nada. Como eu poderia se eu sou... – A olhou nos olhos e um imenso calafrio percorreu-lhe o corpo. – Se eu era apaixonado por você? Em momento algum eu quis te fazer mal, eu só tava querendo te proteger. – Segurou nas mãos da garota e ela assentiu com a cabeça.
- Eu sei. Mas me deixa sozinha, por favor.
olhou para cima e tentou respirar calmamente, apesar de seu coração bater muito forte. Ficou assim por um momento e depois balançou a cabeça positivamente. Em seguida, soltou-se dela, se virou e foi embora.
observou cada passo do garoto enquanto todas as palavras ditas por ele rodavam em volta de sua cabeça e ela recuperava a força em suas pernas para conseguir caminhar novamente.
Capítulo XI
“ROMEU — Eis teu ouro, veneno mais nocivo para as almas dos homens, que mais crimes tem cometido neste mundo sujo, do que essas pobres drogas misturadas que não podes vender. Dei-te veneno; não tu a mim(...)”
Seis meses atrás...
- Já está pronta, ? – perguntou, enquanto abria devagar a porta do quarto da garota e a encontrava se olhando em um grande espelho, trajando um vestido preto apertado, tomara-que-caia.
- Atrevido! E se eu estivesse nua? – questionou rindo, ao vê-lo entrar no cômodo.
- Seria melhor ainda... – brincou, rindo também, e caminhou até a cama da garota, onde se sentou depois. – Você tá linda! Desse jeito eu vou sentir muito ciúmes...
- Obrigada, querido, mas não reclame, senão eu finjo que não te conheço lá na festa, ok? – A garota respondeu, terminando de se maquiar, e piscou um olho para ele através de seu reflexo no espelho.
- Você não conseguiria nem se tentasse muito. – afirmou, abrindo um sorriso provocante de lado. Em seguida, se levantou e caminhou até parar atrás dela. – Vamos ver o quanto você agüenta. – Deu um beijo de leve no pescoço de , fazendo sua pele se arrepiar, e depois se afastou para atender o celular da garota, que chamava alto no quarto. – Alô?
- Ei, larga meu celular! – reclamou, tentando não pensar na provocação anterior do garoto, e recebeu um pedido de silêncio em resposta.
- É o namorado dela, quem gostaria?
- ! – Ela gritou, rindo, e foi até ele para tentar recuperar seu aparelho.
- Ela não te disse? Pois é, nós namoramos há um ano... – continuava falando, fingindo que não notava ao seu lado, até que ela conseguiu pegar seu celular de volta.
- Alô? – Atendeu, ainda rindo, e se afastou do garoto. – Me desculpa, era só o brincando... Não, é claro que a gente não namora... Vou sim, já estou terminando de me arrumar. – começou a responder as perguntas do garoto que a ligara e sentiu algo estranho se formar em seu peito.
- Eu vou te esperar lá embaixo... – Falou devagar e logo saiu do quarto ao ver que abanava a mão para ele, sem ao menos tê-lo ouvido.
- Prima, você está muito gata! – exclamou alto ao ver . O garoto já estava bastante embriagado e ria, acompanhado de algumas garotas. – Quem olhar pra minha prima hoje, vai apanhar!
- , me diz o que você tomou, porque eu também quero um desses. – comentou rindo, enquanto entrava na sala da casa de Alison, acompanhada por .
- Isso serve pra você também. Já vi como tá olhando pra ela. – continuou a falar, dessa vez se dirigindo ao amigo, que apenas rolou os olhos.
desviou sua atenção das coisas que o primo dizia, para observar a multidão que já se aglomerava onde ela estava. Todos bebiam e dançavam no ritmo de uma música eletrônica que o DJ havia colocado, e o ambiente estava bastante animado. Não demorou muito para que a garota reconhecesse suas três melhores amigas. , e dançavam acompanhadas por garotos lindos e sustentavam seus copos de, provavelmente, algo misturado a vodka nas mãos.
Enquanto se perdia no meio de algumas garotas que o cercavam, se aproximou das amigas.
- Essa festa promete, hein? – Comentou rindo, com a voz um pouco mais alta, para que suas amigas a escutassem, já que a música que tocava naquele momento não as deixava ouvir mais nada.
- , você vai arrasar nesse vestido! – gritou, apontando para a amiga.
- Vamos beber! – gritou também e as quatro seguiram até onde estava armado o bar, deixando os garotos para trás.
- Eu quero ficar louca hoje. – comentou, um pouco mais baixo dessa vez, pois ali era possível conversar normalmente. – O que você me recomenda? – Perguntou ao barman.
- Posso preparar Kriptonita pra você. Conhece? – O rapaz perguntou sorrindo e continuou a falar antes que ela respondesse. – É uma mistura de vodka, licor de menta e soda. Gostoso e poderoso. Quer?
concordou, também sorrindo, e ficou observando ele fazer a mistura na sua frente. Não demorou muito para que o rapaz a entregasse um copo com um líquido verde fluorescente para ela.
- Te garanto que umas boas doses desse, te deixa doida... Quando quiser mais, é só voltar aqui.
ampliou mais o seu sorriso e piscou um olho para ele, antes de pegar seu copo e tomar um gole da bebida.
- Tem um garoto ali que não tira os olhos de você. – cochichou no ouvido de , rindo um pouco.
- Onde? – A garota perguntou, mordendo de leve a beirada de seu copo e analisando todo o ambiente.
- Canto esquerdo da sala... Loiro, de olhos verdes. – deu a descrição e rapidamente os olhos de se encontraram com os brilhantes faróis verdes do garoto.
- Uau! – Ela riu, voltando a olhar para o balcão e depositando ali seu copo.
- Se eu fosse você, iria lá. Não é a primeira vez que vejo esse garoto te encarando, você era a principal atração dele na hora dos intervalos, na escola... – disse, se intrometendo na conversa.
- E por que eu nunca soube disso? – perguntou levemente boquiaberta.
- , não faça isso. Eu já ouvi muito por aí que ele se envolve com drogas. – comentou, pegando alguma bebida da mão do barman.
- Ai, assim, definitivamente, não rola. – fez uma careta de desgosto e olhou novamente para o garoto. – Que pena... Beleza desperdiçada. – E então pegou seu copo e seguiu para outro lugar com suas amigas.
caminhava um pouco perdido pelo local, vez ou outra parava para cumprimentar algumas garotas, mas ainda não havia conseguido localizar seus amigos ou, pelo menos, o bar. Sabia que já devia estar com suas amigas e não tinha ânimo para acompanhá-las com seus papos - segundo ele – fúteis e, portanto, se via sozinho, caminhando com um pensamento insistindo em permanecer em sua mente.
- ! – Gritou, levantando uma mão, ao reencontrar o garoto, que também caminhava sozinho. – Dude, até que enfim te achei, preciso conversar com você.
- . – se aproximou e o cumprimentou. – Conversar comigo? Tem que ser agora? Estamos no meio de uma festa!
- Eu gostaria que fosse agora, sim... É rápido. – Insistiu e concordou, o levando até o bar.
- Um Cuba Libre pra mim. – pediu ao barman, se sentando no banquinho que havia em frente ao balcão e fazendo sinal para que se sentasse ao lado.
- Um pra mim também. – o acompanhou.
- Quer falar sobre o que? – questionou, querendo conversar logo e voltar para onde todos se divertiam.
- Sobre a ... Digamos que, eu meio que quebrei algumas regras. – O garoto começou a falar um pouco desajeitado, e o amigo o encarou com uma sobrancelha arqueada. – Eu não sei se ela te contou, ou você já percebeu, mas de vez em quando a gente se pega. Não fazemos nada demais, só zoamos um pouco mesmo. – Fez uma pausa para pegar sua bebida com o barman e, pela expressão que levava no rosto, percebeu que o amigo nunca soubera do que ele acabara de contar. – Bom, meu ponto com essa conversa agora, é te dizer que durante essas nossas “pegações”, eu me dei conta de que meu sentimento por ela mudou. Eu me apaixonei pela , dude. – tomou um gole de sua bebida e, em seguida, ficou observando vagamente o copo do garoto que estava ao lado de , enquanto esperava uma resposta.
- Certo. Você então pega a minha prima só pra zoar e agora vem me contar que se apaixonou?
- É, mas eu me apaixonei mesmo. Estou pensando em abrir o jogo com ela essa noite e, se tudo der certo, eu a peço em namoro. Foi por isso que quis conversar com você primeiro, achei que seria legal, já que você é meu melhor amigo... e primo dela.
- , sendo sincero, eu não te acho o cara mais correto pra . Nós dois sabemos que sua fama de pegador não é à toa... Mas se é verdade o que você está dizendo, se ela se sente bem com você e se ela concordar, por que eu barraria o namoro de vocês? – disse, dando de ombros e tomando um gole de sua bebida, enquanto sorria amplamente.
- Valeu, cara! Eu sabia que você entenderia. – Falou dando dois leves tapas no ombro do amigo e os dois se levantaram para ir aonde o pessoal dançava.
- , se eu fosse você, parava com isso. – chamou atenção da amiga, tirando um copo de vodka pura de suas mãos. – Você já bebeu todos os copos que te ofereceram no caminho do bar até aqui.
- Me deixa, ! Eu disse que queria ficar louca hoje, não disse? – respondeu, embolando um pouco a língua, e sentiu alguém segurando sua mão, ao passar ao lado do sofá.
- , a mais gata da escola, desfilando assim na minha frente? – Um rapaz moreno, com olhos castanho-esverdeados, cabelos castanhos lisos e um sorriso maravilhoso, falou.
- Me desculpe, você é o... – semicerrou os olhos, tentando se lembrar dele, enquanto fazia sinal para suas amigas seguirem em frente.
- Christopher, da sala ao lado da sua. – O garoto respondeu, se levantando para cumprimentá-la.
- Ah, claro, eu me lembro! – sorriu, enquanto o cumprimentava com os habituais três beijos na bochecha, apesar de mal conseguir enxergar onde estava a bochecha do garoto.
- Então... Ouvi você dizer que hoje quer se divertir. Será que posso dar uma ajudinha? – Christopher propôs com uma cara sexy e ela mordeu o lábio inferior.
- Vamos ver do que você é capaz.
Então, o garoto puxou o rosto de para mais perto do seu e a beijou, de uma maneira quase agressiva. Ele enfiou uma mão nos cabelos da garota e os puxou de leve e, em resposta, ela o empurrou de volta para o sofá e se sentou em seu colo, voltando a beijá-lo.
- A não deveria estar bebendo assim, amanhã ela não vai se lembrar de nada disso. – comentou com e , e elas concordaram, assustadas com o estado da amiga.
- Vocês viram minha prima por aí? – perguntou, assim que se aproximou das garotas, ignorando a presença de ali. Mas elas não precisaram responder, já que logo o cutucou e apontou para se amassando no sofá com Christopher.
semicerrou os olhos e sacudiu negativamente a cabeça, reprovando completamente a atitude da prima, enquanto sentia seu coração se apertar.
- Ela quer chamar atenção. Vamos pra outro lugar, dude, deixe que ela faça esse papel ridículo sozinha. – Disse, se dirigindo a , e saiu caminhando para outro cômodo, mas o garoto ainda demorou um pouco a segui-lo.
Um bom tempo se passou em seguida. Depois de Christopher, beijara outros dois garotos que achara bonitos e bebera ainda mais, ignorando os pedidos de suas amigas e seguindo seu desejo de curtir a última festa de seu segundo ano colegial, apesar de que, naquele momento, mal conseguia pensar em seu próprio nome.
Bastante cambaleante e sem conseguir controlar suas próprias ações, pegou um copo de vodka que um barman a oferecera, mas antes mesmo de chegar ao seu final, sentiu algo se embrulhar em seu estômago. E antes que tudo voltasse ali mesmo, correu para o banheiro mais próximo.
estava encostado sozinho em uma parede. Estava preocupado com , mas não queria ir a seu encontro e correr o risco de encontrá-la com outro cara. Limitou-se, então, a observar o ambiente em que estava, enquanto beijava Alison e ela os filmava.
respirou fundo e fechou os olhos, se sentindo completamente inseguro em relação ao que desejava dizer a naquela noite. O mais provável era que ela só o enxergava como amigo e riria de sua cara quando ele dissesse que estava apaixonado.
Voltou a abrir os olhos, se sentindo derrotado, e foi aí que viu passar correndo, com uma mão tampando sua boca. Sem pensar em mais nada, a seguiu e chegou a tempo de vê-la caindo com o rosto dentro do vaso sanitário, enquanto começava a vomitar.
- , o que houve? – perguntou aflito e a segurou pelos ombros.
A garota não respondeu e continuou a vomitar, enquanto alguns curiosos paravam na porta para observar a cena. segurou os cabelos de com uma mão e pôs a outra na testa dela, para evitar que ela se machucasse de qualquer forma.
- Alguém pode trazer água, por favor? – O garoto pediu nervoso, e viu que uma menina saía para buscar.
Pouco tempo depois, ela voltou com um copo d’água e fez com que o bebesse, apesar de que ela o vomitou todo em seguida.
- Tá melhorando, ? Eu não gosto de te ver assim... – O garoto sussurrou e notou que ela empurrava o vaso e se afastava.
Como estava ajoelhado atrás dela, a puxou para mais perto de si e a abraçou pelo pescoço, enquanto tirava alguns fios de cabelos de sua testa suada.
- Me ajuda... – sussurrou, se sentindo fraca, e a segurou mais firme entre seus braços, enquanto dava um beijinho em sua cabeça.
- Eu vou procurar algo pra te dar, ok? – Sussurrou e sentiu ela apertar seu braço. – Não se preocupe, eu não demoro. Por favor, alguém fica de olho nela pra mim? – Pediu às pessoas que ainda estavam na porta e encostou sentada em uma parede, antes de se levantar e sair dali.
caminhou pela casa de Alison em busca de alguém conhecido, mas, naquele momento, parecia que todos haviam desaparecido do lugar. Seguiu em direção à cozinha e acabou se esbarrando com Richard pelo caminho.
- Richard, a tá mal. Tá bêbada, vomitando muito... Sabe o que eu posso dar pra ela melhorar? – Questionou aflito.
- Pô, , deve ter alguma coisa por aqui... Espera aí, eu vou procurar e já trago pra você.
Ao terminar de dizer, Richard entrou na cozinha e se encostou na parede mais próxima, passando as mãos nervosamente pelos cabelos. Ele não suportava ver mal, de forma alguma.
Richard demorou um pouco a voltar e quando se aproximou de , parecia um pouco ressabiado, mas nem notou e logo o questionou sobre o que ele havia ido buscar.
- Aqui. Dê esse comprimido a ela. – Richard instruiu, depositando um comprimido branco pequeno na palma da mão de .
- Tem certeza? O que é isso?
- Só um remedinho. Dude, a gente dá festas aqui em casa quase todo final de semana. Já estamos acostumados com esse povo que bebe mais do que agüenta, confia em mim. – Afirmou e deu um pequeno sorriso ao garoto, antes de ir para a sala.
ficou um pouco inseguro, mas também já havia bebido um pouco e não conseguia julgar direito suas idéias, então, acreditou que era o melhor a se fazer.
Retornou ao banheiro, onde encontrou vomitando mais uma vez e, após ajudá-la a lavar seu rosto, fez com que ela seguisse as instruções de Richard, dizendo que ela se sentiria melhor.
Os dois ficaram cerca de vinte minutos sentados no chão do banheiro, esperando que ela melhorasse. , aos poucos, foi recobrando força e então ajudou a garota a se levantar e, com o braço dela passado por seu pescoço, os dois caminharam até a sala.
- Uau, tá tudo ficando colorido... – comentou rindo, enquanto se aproximava do sofá, mas sua voz soou tão fraca que a música alta que tocava no local a abafou e apenas ela mesma pode ouvir o que dissera.
a sentou no sofá, enquanto suas amigas se aproximavam preocupadas e ninguém notou que alterava seu comportamento.
- Fiquem com ela. Eu vou procurar o pra avisar que vamos embora. – O garoto disse à e e, em seguida, saiu em busca do amigo.
andou por quase todo o local, até que encontrou bebendo, rodeado de garotas. Sem se aproximar, fez sinal para que fosse até ele e recebeu a palma da mão do amigo - pedindo que esperasse - como resposta.
Continuou observando, enquanto esperava impacientemente e rolou os olhos ao ver beijando uma das garotas que o acompanhavam, antes de vir ao encontro dele.
- O que foi? – perguntou sorrindo, sem notar o quanto o amigo estava tenso.
- É a . Ela bebeu muito e agora tá mal. Eu vim só te avisar que estamos indo embora.
- Onde ela está? – indagou, mudando rapidamente seu humor.
- No sofá da sala. Eu deixei as meninas cuidando dela... – começou a dizer, mas foi interrompido por , que se aproximava falando desesperadamente.
- , a pirou! Tá super estranha e nós tentamos impedir, mas os caras começaram a apoiar e não conseguimos segurá-la e...
- O que houve? – perguntou assustado e ela parou de falar e respirou fundo.
- Acho melhor você ir lá.
Imediatamente, saiu em direção ao lugar em que havia deixado . tentou segui-lo, mas foi impedido por algumas garotas que o seguraram ali e acabou ficando, confiando que faria o que precisasse.
Quando conseguiu chegar à sala, arregalou os olhos ao ver o que tentara dizer: dançava em cima de uma mesa, trajando apenas sua calcinha, e ria muito, enquanto alguns rapazes passavam a mão por seu corpo e a puxavam de um lado para o outro.
O que se seguiu foi muito rápido. Em segundos, já se encontrava ao lado da mesa e, sem dizer nada, segurava a garota pelas pernas e a jogava por cima de seu ombro esquerdo, enquanto ela esperneava e dava alguns socos em suas costas, pedindo que a soltasse. Em meio a algumas vaias e reclamações, a levou até um corredor mais afastado, sem notar que, de longe, Alison filmava tudo.
- O que você tá fazendo? – gritou, logo após colocá-la de pé no chão, entre ele e a parede, segurando-a forte pelos ombros.
- Me solta, garoto! Me deixa curtir a festa... – pediu, com a testa franzida e com dificuldade de falar.
- Curtir a festa? Isso é curtir a festa? – continuou gritando, segurando agora o rosto da garota, para tentar olhar em seus olhos. – Você me pede ajuda porque tá mal e agora age assim?
- Você é chato, eu só queria curtir... – continuou a falar, com sua voz mole, e ele se afastou um pouco para tirar sua própria camisa.
- Veste isso! E não reclama porque eu tô cuidando de você. – ainda estava com o tom de voz alterado, mas não gritava mais.
Entregou sua camisa à e ajudou ela a se vestir. Em seguida, abriu a primeira porta que estava ao seu alcance e entrou naquele quarto com a garota. Assim que fechou a porta, notou que se aproximava dele e, antes que ele pensasse em alguma coisa, ela o beijou. Com uma resposta quase automática, o garoto a empurrou de leve e então sentiu que ela desabotoava sua calça.
- O que você tá fazendo? , pára com isso... - pediu baixo, tentando segurar as mãos da garota.
- Eu quero fazer sexo com você, . – Ela disse, ainda sem conseguir pronunciar bem as palavras e começou a beijar o pescoço dele.
- Ok, – sussurrou, sentindo suas calças descerem por suas pernas e, finalmente, conseguindo segurar os braços de – mas agora não.
- Vem, deita aqui comigo. – A garota pediu rindo e se jogou na cama que havia ao lado deles, enquanto puxava consigo, fazendo com que ele caísse um pouco sem jeito ali.
- , pára... Eu vou te levar pra casa. – Ele pediu, tentando permanecer sério e voltando a ficar muito preocupado. Porém, quando tentava se levantar, ouviu reclamar.
- Eu só queria que você ficasse um pouco comigo. Só pra gente conversar sobre... sobre... sobre a galáxia. Isso é pedir demais? – Ela fez cara de choro e puxou , ainda só de cuecas, pra perto dela. – Vamos falar de Vênus.
respirou fundo e pensou sobre o que deveria fazer. Ele queria levá-la pra casa, mas talvez fosse melhor mantê-la entretida em um papo banal do que vê-la no estado em que estava anteriormente. Então, se ajeitou na cama e a abraçou.
- Vamos falar sobre Vênus... – Concordou, e ela apoiou sua cabeça no peito do garoto, entrelaçando suas pernas nas dele.
- Cadê a ? – perguntou às amigas, com a língua embolada e um copo de vodka na mão. e se encontravam quase totalmente sóbrias, principalmente depois do susto que levaram com , mas não podia dizer o mesmo.
- O tá cuidando dela. – respondeu com a voz vaga.
- Agora tô tranqüila. – disse, colocando uma mão sobre o peito. – Vou procurar os dois... – E nem esperou nenhuma resposta para sair andando pelo local.
caminhou sozinha por alguns segundos, até que, já sentindo suas pernas muito pesadas, resolveu sentar-se ao lado de alguém que estava na escada, com a cabeça abaixada, apoiada nos joelhos.
- Opa! – exclamou rindo, quase caindo ao se sentar. – Você tá bem? – Perguntou, dando um tapa no ombro da pessoa ao seu lado.
estava sentindo tudo girar em sua cabeça e ao receber o tapa, resolvera olhar para a garota, mas mal conseguiu enxergá-la.
- Oh, é você! – exclamou, ao reconhecê-lo, com um tom de indiferença na voz. – Bebeu muito? – Questionou e viu assentir fortemente com a cabeça. – Eu também...
O garoto permaneceu olhando para ela, tentando focalizar sua visão, enquanto também o encarava despercebidamente. Os dois ficaram assim por um longo tempo, até que ela segurou forte em seu pescoço e o puxou para perto, colando seus lábios nos dele. se assustou um pouco com a atitude da garota, mas acabou gostando e aprofundou o beijo. Não conseguiam pensar em nada, mal sentiam seus próprios lábios, mas demoraram a se desgrudarem. E, quando o fizeram, se sentiram completamente desajeitados.
- Er... Acho melhor eu ir. – falou baixo e concordou. – Esquece isso, tá? – E logo se retirou do local, sem saber ao certo o que tinha acontecido ali.
Após uma longa conversa sobre cada planeta da Via Láctea e qual eles visitariam primeiro, acabou adormecendo sobre o peito de , que preferiu não acordá-la. O garoto ficou por um bom momento olhando para o teto, pensando em tudo que havia acontecido naquela noite, mas logo o sono também o venceu.
Cerca de quatro horas mais tarde, a música foi desligada e o tumulto de vozes se dissipou quase por completo, indicando que a festa havia chegado ao seu fim. dormia um sono leve e, por isso, acordou ao ouvir que alguém abria a porta do quarto onde estava.
Era Alison e sua câmera. A garota entrou no quarto, filmando o estado em que se encontrava, e, ao ver que ela dava zoom na bunda da garota, pousou sua mão sobre o lugar, para tampar.
- Sai! – sussurrou para Alison e a garota começou a rir. – Shiii... Vai pra lá, eu vou acordá-la pra irmos embora. – Ele pediu, gesticulando a mão que tava livre, pedindo que ela se apressasse e não fizesse mais barulhos.
- Vocês podiam ter usado outro lugar que não fosse minha cama. – Alison reclamou, enquanto caminhava de costas para sair de lá e mostrou seu dedo do meio para ela.
- ... – chamou em um sussurro, assim que Alison fechou a porta. – Acorda, , a festa já acabou. – Insistiu, passando sua mão livre pelo braço dela e notou que a garota tentava abrir os olhos.
ouvia a voz de muito longe e sua cabeça estava pesada. Tentou abrir os olhos algumas vezes, mas suas pálpebras pareciam trancadas e só após muitas tentativas, pôde sentir uma luz intensa atacar suas pupilas, fazendo com que ela fechasse os olhos novamente. A voz de ainda soava, ficando cada vez mais próxima, e, aos poucos, ela foi notando que recobrava o controle de seu corpo.
Sentindo a garganta completamente seca e ardendo bastante, ela voltou a abrir os olhos. Observou cada mínimo detalhe que estava em seu campo de visão e como os braços de estavam apertados ao seu redor, enquanto uma das mãos do garoto repousava sobre sua bunda.
... tentou forçar sua memória. Não conseguia se lembrar de como havia ido parar ali. Tentou se lembrar de toda a festa, mas sua mente estava negra.
Depositando um pouco de força em seus braços, ela tentou se levantar e obteve ajuda do garoto, que a olhava apreensivo e falava mais algumas coisas, as quais ela não conseguiu decifrar. então se sentou na cama e fez o mesmo.
Ela voltou a observar, estava em um quarto, do qual também não se lembrava. Olhou as paredes ao seu redor e, em seguida, olhou para seu próprio corpo. Lembrava de ter saído de casa com seu vestido preto, mas ao invés dele, trajava a blusa de e sua calcinha. Assustada, olhou para o corpo do garoto e viu que ele estava apenas de cuecas.
“O que aconteceu?”, pensou. Sua garganta ainda ardia bastante e sua memória permanecia vazia, mas alguns ‘flashes’ começavam a invadir sua mente.
- , você tá se sentindo bem? – Ouviu perguntar ansioso ao seu lado e aquela voz fez com que mais algumas cenas voltassem à sua memória.
então se lembrou de quando colocara um pequeno comprimido em sua boca e dissera que era para ela se sentir bem. Em seguida, veio à sua mente a imagem do garoto a levando para dentro daquele quarto, embora essa lembrança estivesse bastante confusa. E, por último, de como acordara ali há tão pouco tempo.
A cabeça da garota dava voltas e, enquanto ela observava como suas pernas apresentavam marcas avermelhadas – que ela julgou serem de mãos -, uma última lembrança percorreu sua mente: quando ela dissera a que queria fazer sexo com ele, enquanto tirava as calças do garoto.
arregalou os olhos ao se dar conta do que possível e provavelmente havia acontecido. Um pânico enorme invadiu seu corpo e ela abriu a boca algumas vezes, mas não foi capaz de dizer nada.
- Vem, . Vamos vestir nossas roupas e ir embora. O pessoal já deve estar preocupado, já que nós sumimos há tanto tempo. – disse baixo, enquanto percebia o quanto ela estava assustada.
- O que você fez? – sussurrou, tentando arregalar ainda mais seus olhos, e levou uma mão à sua garganta, ao notar como ela ardia ainda mais quando a garota falava. – Por que você tá aqui? Por que assim?
- Foi você que pediu... – respondeu, inocentemente confuso, enquanto franzia sua testa e notava que ela se afastava.
estava se sentindo perdida, não conseguia acreditar no que havia acontecido, mas tudo a indicava que era verdade: ela havia acabado de perder sua virgindade, enquanto não tinha consciência do que fazia. E não havia se importado com aquele detalhe.
Assustada e até com um pouco de medo, ela se afastou do garoto na cama, até que conseguiu se por de pé no chão. rapidamente fez o mesmo e tentou se aproximar, mas ela o impediu.
- Sai de perto de mim! Não toca em mim! - Gritou desesperada, ignorando o ardor de sua garganta.
- Fica calma, . Por que você tá assim? Isso é uma coisa comum... – tentou acalmá-la. Ele acreditava que ela estava assustada por ter ficado tão bêbada, ou tão fora de si, e que provavelmente estava pensando nas besteiras que cometera. – Não precisa ficar com vergonha, eu pensei que era a pessoa na qual você mais confiasse e por isso te trouxe aqui e...
- Cala a boca! – Ela gritou novamente, sentindo sua garganta se queimar. não percebia que suas palavras surtiam efeito contrário na mente confusa da garota. – Você é um monstro!
estranhou aquela atitude e franziu a testa ao ouvir o que ela dizia. Por acaso ele havia agido errado em algum momento?
- ...
- Não me chame assim! Você é um monstro, . Como você pôde... – Ela não conseguiu dizer mais nada. Sentindo seus olhos arderem em lágrimas, se desviou das mãos de , que tentou segurá-la, e saiu correndo dali, enquanto trancava aquilo no fundo de sua mente.
Seis meses depois...
- , o que houve, minha filha? – A mãe da garota perguntou, assim que a viu entrar em casa com a cara vermelha de tanto chorar.
- Nada, mãe, só tô com um pouco de cólica. – Respondeu, enquanto deixava sua bolsa na mesa e se jogava de barriga para baixo, no sofá.
- Quer tomar remédio, meu anjo? – A mulher perguntou docemente, se aproximando da filha.
- Não, já tomei. – disse com a voz abafada, pois estava com a cara enfiada em uma almofada.
- Está bem. Vai passar... – Fez carinho nos cabelos da menina, que levantou a cabeça e a olhou intrigada. Sua mãe havia realmente acreditado, ou estava fazendo aquilo porque percebera que ela estava mal e não queria falar? – A blusa do tá limpa. Quer que eu entregue pra sua tia? – Perguntou, indo até a mesa e pegando a camiseta que estava dobrada ali.
- Não! – falou rapidamente e se levantou. – Pode deixar que eu mesma entrego pra ele, mãe. – Pegou a blusa e começou a subir a escada para ir até seu quarto.
- E onde estão seus pijamas que estavam sujos?
- Por aí... Quando achar, eu te entrego. – falou alto, chegando ao segundo andar.
Caminhou até seu quarto, entrou e trancou a porta. Olhou para a blusa de que estava em suas mãos e riu ao ver que era exatamente a mesma que ele colocara nela no dia da festa. Depois se jogou na cama abraçada à blusa e acabou adormecendo em meio a algumas lágrimas confusas.
Acordou horas depois com fortes batidas na porta. Tentou abrir os olhos, mas sentia suas pálpebras muito pesadas. Ouviu a chamando, mas não tinha certeza se estava sonhando ou se ele estava realmente ali. Continuou quieta por um momento até que a voz mais fina de a despertou por completo.
- Espera. – disse baixo, mas em uma altura suficiente para que eles a ouvissem, enquanto se levantava e ia até a porta. – O que vocês querem? – Perguntou assim que abriu e viu o casal parado de mãos dadas.
- Viemos te ver. – respondeu e se soltou de para abraçar a amiga. – Ficamos preocupados e pensamos que você podia querer conversar com seus melhores amigos.
- Na verdade... – começou a falar com cara de desânimo e a interrompeu.
- Foi idéia dela. – Apontou para , que rolou os olhos. Tinha medo dos momentos de mau-humor da prima. – Mas eu também me preocupei, pequena. – Puxou a garota para perto e beijou o topo de sua cabeça.
- Eu sei. – respondeu, ainda com a voz baixa, e voltou para sua cama, sentando-se de modo que tampasse a blusa de .
- , olha... – começou a falar e olhou para . Os dois caminharam juntos até a cama e sentaram cada um de um lado da garota. – Eu sei que tudo isso é ruim e que você tava tentando esquecer, mas, pensa bem, já passou. Amanhã ninguém lembra mais disso. E do que você poderia se envergonhar? Eles já sabiam, o que não fez com que eles te fizessem se sentir mal. – Olhava carinhosamente para a amiga enquanto media as palavras que podia dizer.
- É, dude. Não liga pra aquela fita idiota. – se pronunciou também. – Na verdade, ela até ajudou. Pelo menos agora você pôde ver o Richard entregando o negócio pro . Você não tem mais motivos pra desconfiar. – Bateu de leve seu dedo indicador na ponta do nariz da prima e ela sorriu.
- Tá tudo bem, gente. Eu entendo a preocupação de vocês, mas eu estou realmente bem.
- Assim? – estranhou a calma da garota. – Achei que você fosse ficar mal... Não querendo que você fique, é claro.
- Eu sei... – riu um pouco. – Mas na verdade é tudo uma história muito complicada. – Voltou a ficar séria e encarou o chão. – Houve um grande mal-entendido naquela festa, maior do que vocês acham que sabem... Como eu não me lembrava do que havia acontecido, eu pensei que o tivesse se aproveitado de mim. – Franziu a testa. – E eu nunca quis falar disso com ninguém, porque eu tinha vergonha e medo de que me julgassem... Como eu ia dizer que tinha perdido minha virgindade enquanto estava drogada e nem sequer me lembrava de como havia sido? – Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas novamente e parou de falar.
e ficaram boquiabertos. Eles nunca souberam desse lado da história.
- Mas vocês realmente fizeram? – perguntou quando percebeu que da boca de não sairia nada e todos ficariam em um silêncio constrangedor.
- Não. – respondeu rapidamente e levantou a cabeça. – Segundo ele, não.
- E de onde você tirou isso?
- , eu acordei com a blusa do garoto, deitada com ele e não me lembrando de nada que havia acontecido. Sem contar as marcas, o lugar onde ele estava com a mão no momento em que eu abri meus olhos e as poucas lembranças que eu tinha de certas coisas que havia feito e dito. – Mordeu o canto da boca. – Foi vendo aquela fita que eu entendi o porquê de estar naquela situação e me senti uma idiota por ter agido daquela forma com ele depois, sendo que sua única intenção era me proteger...
- E a gente jurando que você tinha raiva por causa do ecstasy... – falou, finalmente voltando a si.
- Bom, também... Eu não achava lógica em ele ter me drogado sem-querer e depois se aproveitado de mim. Achei que fosse armação. – Fez um som estranho com a boca. – Agora que eu sei a verdade, já não me importa. Agora eu sei que a culpa não foi dele. – Deu de ombros e respirou fundo.
- Mas, , você podia ter me dito isso antes... – falou com a testa franzida e balançou a cabeça negativamente.
- Eu não queria repetir aquilo nem pra mim mesma. Já bastavam meus pesadelos toda noite. – balançava as pernas nervosamente enquanto falava. – Não era falta de confiança, era por me sentir mal mesmo... Um dia eu ia acabar contando, só não me sentia preparada para encarar uma conversa sobre isso ainda.
- Mas ele nunca te esclareceu isso? – arqueou uma sobrancelha.
- Tentou... Mas eu nunca quis ouvir. Como eu disse, eu evitava esse assunto ao máximo. A gente brigava ainda mais, porque sempre que ele começava a falar, eu fugia. – Franziu a boca.
- E como você não procurou saber se isso realmente havia acontecido? , você podia ter procurado um médico. – falava, ainda um pouco assustada.
- E como você acha que eu me sentiria se ele dissesse que realmente eu não era mais virgem? Eu sairia de uma dúvida, com um pouco de esperança de não ter acontecido, para uma total certeza. Fora que eu queria esquecer aquilo, eu tava desesperada... Talvez depois, quando eu me sentisse mais tranqüila, eu faria algum exame. Não sei... – Deu de ombros, com a testa franzida.
- Mas e agora? Vocês já conversaram sobre isso? Digo, você e o ... – perguntou ao se lembrar que o amigo havia ido atrás dela assim que a fita acabou de ser passada.
- Aham, já tá tudo esclarecido. Eu só pedi um tempo pra pensar...
- E você acha que vocês ainda ficam juntos? – coçou a cabeça.
- Não sei, isso eu quero ver com o tempo. Agora chega de perguntas, porque eu tô parecendo uma presa sendo interrogada. – Disse enquanto se levantava e ia até o meio do quarto.
- Ninguém mandou deixar de falar por muito tempo. Agora tem que recuperar a conversa perdida. – disse sorrindo.
- ... – chamou e as duas garotas o olharam. Ele segurava a blusa de nas mãos. – Essa é a blusa que a tia disse que era minha e tava com você? – Franziu a testa e o olhou sem graça. – É do .
- Eu sei, – sussurrou – fala baixo! Eu disse que era sua pra ela não me encher de perguntas. – Pegou a blusa das mãos do menino. – Ele me emprestou no dia que me encontrou na casa do Jonathan. – Falou, vendo o primo fechar a cara e demonstrar que havia entendido. – E é até bom você ter vindo aqui... Entrega a ele pra mim? Eu não pretendo ir à escola por um tempo. – Finalizou, devolvendo a blusa a .
- Mas, ... – começou a questionar, porém foi interrompida pela amiga.
- Também não é tão fácil assim. Eu fiz um papel ridículo lá e muita gente vai querer me lembrar disso... Deixa a poeira abaixar um pouco.
- Ah, mas pode ter certeza que você não vai ser o único assunto de amanhã. Aquela garota mexeu com muita gente e eu acho que ela vai acabar recebendo o que eu nunca tive coragem de dar, mas morro de vontade. – disse com um sorriso no rosto.
- É... Mas a maioria das pessoas está do lado dela. – deu de ombros.
- Enquanto a notícia não chegar ao ouvido do diretor...
- E você acha que chega?
- Não sei... mas deveria. – emburrou e olhou para , que também não achava certo o que ela fizera, mas preferia não aumentar a raiva das garotas. Vai saber o que elas poderiam resolver fazer... – E você viu o lance da e do ? – Perguntou, um pouco mais alto, pois acabara de se lembrar.
- Não... Nem prestei atenção. Na verdade eu não tava conseguindo raciocinar sobre nada naquele momento. O que houve? – mordeu o lábio inferior e encarou a amiga, que começava a rir.
- Eu diria pra você perguntar a ela, mas como sei que ela vai negar, eu mesma te digo. – riu e olhou para , que segurava um sorriso.
- Você tinha que ver a cara dele quando passou a cena. – não conseguiu se conter e também começou a rir.
- Dá pra me dizer o que houve? – cruzou os braços e olhou para os dois.
- Aquela festa não foi de tudo ruim... Pelo menos dois de nós aproveitaram. – falou e logo se levantou. – Eles se agarraram... No meio da escada!
- O quê? – gritou e arregalou os olhos. – Os dois? Juntos? Se beijando? Sem gritos? Sem tapas?
- Os dois... – falou enquanto sacudia a cabeça. – Inacreditável! E a gente nem se deu conta.
- Como eles esconderam isso tão bem? Como puderam esconder da gente? – franziu a testa e os dois a encaram. – Tudo bem, eu também escondi. Mas era algo mais sério...
- De qualquer jeito, amanhã tudo vai ter que ser esclarecido. – deu de ombros enquanto puxava pela mão para ele se levantar também.
- Vocês acham que o diretor vai castigar a Alison? – coçou o queixo e se levantou.
- Vamos esperar pra ver, né? – abraçou o garoto por trás. – Você vai perder a resolução do problema, já que não vai à aula...
- Mas sua mãe vai deixar você faltar, pequena? – perguntou bagunçando o cabelo da garota.
- Pode deixar que eu me viro com ela. – Piscou um olho para o primo e sorriu.
- Tá certo... – O garoto jogou a blusa sobre seu ombro esquerdo e puxou para seu lado. – Eu e a vamos dar uma volta, quer vir?
- Não, vou ficar aqui mesmo, – sorriu – mas obrigada pelo convite... E pela visita.
- Tem certeza? Vai ficar com a depressão de Shakespeare de novo? – franziu a testa e olhou com cara de piedade para a garota..
- Vou... Shakespeare é um cara bacana. – fez joinha com a mão e os amigos riram.
- Então nós vamos... – entrelaçou seus dedos aos de . – Fica bem.
- Vou ficar. – continuou sorrindo e recebeu mais um abraço de e outro beijo de no topo de sua cabeça.
Assim que o casal saiu, ela voltou para sua cama, porém agora se sentia diferente. Estava mais leve, liberta do que a atormentara por todos esses meses. Finalmente tudo começava a caminhar para seu lugar e a antiga , a garota que preferia sorrisos a lágrimas, começava a encontrar seu caminho de volta.
Capítulo XII
(NA: coloquem essa música pra carregar The End e baixem essa (não deu pra colocar no youtube por causa dos direitos autorais) Juliet e quando o principal anunciar a canção, dê “play”!))
“ROMEU —... Ó tu, piloto desesperado! lança de um só golpe contra a rocha escarpada teu barquinho tão cansado da viagem trabalhosa. Eis para meu amor. (Bebe.) Ó boticário veraz e honesto! tua droga é rápida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida. (Morre.).”
abriu os olhos rapidamente, com o coração disparado. Faltava apenas um dia para o teatro e acabara de ter um pesadelo. Romeu, que na verdade era , estava morrendo em frente aos seus olhos e ela não podia fazer nada para impedir. Era dia de voltar à escola e seu despertador, que tocava alto, não a deixara esquecer isso. Quando, finalmente, conseguiu se levantar da cama e desligá-lo, a garota foi em direção ao banheiro para lavar o rosto. Assustou ao se olhar no espelho e ver uma garota amarela no reflexo. Mais de uma semana trancada em casa, fingindo estar constipada não fazia bem a ninguém.
Durante todo o tempo em que estivera em casa, o único contato que manteve foi com seu primo, que fazia questão de visitá-la sempre, e com suas amigas por telefone. Ficara sabendo que o diretor havia ignorado a história da fita, alegando que a intenção de Alison era boa. “Ela só queria fazê-los relembrar um bom momento de confraternização”, foi a frase usada para justificar a ausência de punição para a garota, o que deixara muitos alunos revoltados e com várias idéias de novas confraternizações na escola. A respeito de e , eles seguiam jurando que estavam bêbados demais para saber o que estavam fazendo naquela festa. E e seguiam com seu namoro-não-assumido, apesar das implicâncias de Alison. Essa última, muitos diziam que já havia recebido ameaças de apanhar no final da aula de vários grupos por causa da tal fita.
se arrumou sentindo um frio na barriga ao pensar que veria de novo. Não sabia como reagir, nem como ele reagiria. Mas estava decidida a ser uma garota forte, independente do que acontecesse.
Chegou à escola sentindo o coração quase lhe saltar pela boca e sua respiração começar a falhar. Caminhou devagar pelos corredores, enquanto rezava para não tropeçar com alguém indesejável no meio do caminho. Estava se sentindo estranha ao pensar em tudo que já havia acontecido naquela escola. E agora que sentia a velha de volta, pensar nas coisas que havia feito e dito durante seu “período negro”, trazia sensações ruins para ela. Não costumava ser tão amarga como fora desde o começo desse ano.
- Calma, . – Falou baixo para si mesma, numa tentativa de se tranqüilizar e sumir com seus pensamentos. – Vai dar tudo certo daqui pra frente.
Abriu a porta do auditório e correu o olhar rapidamente por todo ambiente, antes de ser notada ali. Em cima do palco, uma garota ensaiava em seu lugar juntamente com Jonathan. Nas primeiras filas, estavam todos os outros atores. Atrás da cortina, provavelmente, estava . E a Sra. Parson permanecia de pé em frente ao palco, como de costume. Evitou olhar apenas para a sala de som, pois estava com medo. Medo de seus próprios sentimentos. E , que fora o primeiro a notá-la ali, sentiu suas mãos começarem a tremer e sua respiração se descompassar.
- ! – A professora exclamou assim que a viu, fazendo todos desviarem sua atenção para a garota. – Que bom que você veio... – Foi caminhando rapidamente em sua direção, enquanto ajeitava os óculos no rosto. – Sua mãe nos disse que você estava passando mal. Ficamos com medo de você não melhorar a tempo... – Passou o braço por cima do ombro da menina e a encaminhou até o palco.
- Pois é... Mas eu já melhorei. E passei todo esse tempo ensaiando em casa. – Olhou para Jonathan e ele parecia segurar um sorriso. Pensou em talvez conversar com ele depois do ensaio, mas mudou de idéia ao notar que já tinha coisas demais para resolver naquele dia.
- Que bom. Agora poderemos retornar aos nossos ensaios corretamente. – Sra. Parson sorria bastante. – É bom te ter de volta. – E ela realmente parecia estar contente com isso. – Vamos seguir! – Falou alto, empolgada, e foi para seu lugar de costume enquanto todos riam.
agradeceu mentalmente por haver luzes fortes em seus olhos e não poder enxergar nada além do palco, ou seria capaz de esquecer tudo e começar a dizer bobagens assim que visse . Sem enxergá-lo era mais fácil de fingir que ele simplesmente não estava ali.
Assim como dissera à professora, ela realmente havia ensaiado muito durante seu período de falsa doença em casa e esse ensaio rendeu muito mais do que os últimos. Até Jonathan parecia estar mais tranqüilo, o que fez ter certeza que essas mini-férias tiradas por conta própria haviam sido uma ótima idéia.
Como faltava apenas um dia para a apresentação, os alunos que participavam haviam sido dispensados das aulas e com isso puderam repassar toda a peça, várias e várias vezes, até que sentissem que tudo estava perfeito.
O estômago de todos que estavam ali já reclamava, indicando que a hora do almoço chegara e, com ela, a hora de ir pra casa também.
A Sra. Parson dispensou a todos e pediu que eles repousassem e cuidassem de tudo que fosse preciso para o dia seguinte. E assim, pouco a pouco, o auditório se esvaziava.
foi caminhando em direção à porta, tentando se manter calma. Tinha que dizer algo, não podia simplesmente ignorar que ele estava ali. Olhou para a sala de som, através do vidro, e viu o garoto abaixado, mexendo em alguns cabos.
- ! – Sra. Parson gritou, assustando , que ia chamá-lo naquele instante.
O menino se levantou e então seus olhos se encontraram com os da garota. Ficaram um tempo se encarando antes que ele sorrisse e passasse por ela.
- ! – A mulher continuou gritando e foi para cima do palco.
ficou parada por um instante, ainda tentando se recuperar do choque que havia levado com o encontro de seus olhos. Olhou então para o palco e viu a professora conversando com os dois. Esperou um pouco, mas logo viu que entrava pro camarim. Ponderou se esperaria mais ou não, mas pensou que aquilo poderia demorar demais e decidiu voltar para casa. Apesar de ter passado muito tempo lá, seu quarto ainda continuava sendo seu ninho acolhedor.
Quando saía do auditório, encontrou e vindo em sua direção.
- ?! – perguntou surpreso. – Que bom que você voltou... Já tinha até esquecido de como era o seu rosto. – Abraçou a menina, que estava sorrindo, e os abraçou também.
- É... Já tava mofando no meu quarto. Achei que era hora de dar as caras por aqui de novo. – Respondeu assim que os garotos a soltaram. – E vocês? Tão fazendo o quê aqui? A aula não já acabou? – Franziu a testa.
- Já... A gente ta indo ens... – começou a dizer, mas tampou sua boca antes que ele terminasse.
- A Sra. Parson só nos pediu um favor. – sorriu e a garota preferiu ignorar aquela cena.
- Ok... Então nos vemos amanhã, certo? – Piscou para cada um e eles sorriram.
- Pode ter certeza. – respondeu e continuou a caminhar em direção ao auditório. apenas sacudiu a cabeça e o seguiu.
Já estava a noite e, assim como nos dias anteriores, estava em seu quarto olhando para o teto e pensando em algo para fazer para passar o tempo. Se lembrou, então, que sempre que se sentia daquela forma acabava ligando para e ele dava um jeito de levantar seu astral. Desceu as escadas, pegou o telefone e resolveu retomar os velhos hábitos.
- Alô? – Sra. atendeu.
- Tia, o tá aí? – Perguntou simpática, enquanto mordia uma bolacha que acabara de pegar e se jogava no sofá da sala. Seus pais haviam saído e ficar sozinha em casa era ainda mais entediante.
- Está sim, querida. Só um momento. – A mulher chamou e o entregou o telefone. – Sua prima... – Falou baixo assim que pôs o aparelho nas mãos do menino.
- Fala, pequena! – atendeu entusiasmado, provavelmente por haver acabado de ganhar de alguém no vídeo-game.
- Você tá ocupado? – franziu a testa e ouviu risadas do outro lado da linha.
- Não. Os moleques que estão aqui em casa... – riu também. – Porra, dudes! Vocês parecem garotinhas. – Gritou para os meninos e ela notou que eles provavelmente estavam um pouco mais “alegres” que o normal.
- Se quiser eu ligo depois... – A menina falava com o telefone longe do ouvido, devido à gritaria.
- Não, não precisa. – falou ainda rindo, enquanto se afastava dos garotos.
- O tá aí? – Perguntou mordendo o lábio inferior.
- Tá. Quer falar com ele? – Perguntou alto e deu um tapa em sua própria testa.
- Não. E fala baixo, não é pra ele ouvir... – Disse com a voz baixa, como se fizesse alguma diferença.
- Ele não sabe que estamos falando dele. – arqueou uma sobrancelha.
- Mas dá pra perceber. Ele pode estar bêbado, mas não é burro. – Disse séria e rolou os olhos. - Você entregou a blusa aquele dia?
- Ah, entreguei. - riu. – Ele ficou cheirando aquele pedaço de pano um tempão... – Falou um pouco embolado e franziu a testa. – Qual é? É verdade! – Disse, se dirigindo a , e pode ouvir ao fundo o garoto respondendo algo como “mas ela não precisava saber”.
- Pra quê ele cheirou a blusa? – A garota perguntou um pouco confusa.
- Sei lá. – deu de ombros como se a prima pudesse vê-lo. - Ele é doente... Disse que tinha deixado a blusa com você pra ficar seu cheiro nela, mas que você tinha falado que ia lavar e ele não queria sentir cheiro de sabão.
- Sério? – A garota perguntou baixo.
- O quê?
- Que ele deixou a blusa comigo pra ficar meu cheiro nela? – Deu um pequeno sorriso.
- É, foi o que ele disse. Mas parece que você lavou tão mal que seu cheiro acabou ficando lá do mesmo jeito... – falou rindo e ficou em silêncio por um momento.
- É que eu tive que esconder ela no meio das minhas coisas, deve ter pegado cheiro de novo. – Mentiu. Ela não ia confessar ao primo que havia dormido abraçada à blusa de , até porque provavelmente ele contaria ao amigo depois que desligasse o telefone.
- Sei... Confessa logo que você não sabe lavar roupa.
- Foi minha mãe que lavou. – respondeu pacientemente.
- É... a tia sabe. – O garoto coçou a cabeça.
Os dois ficaram em silêncio por um momento e resolveu aproveitar que não dava conta de nada que estava falando para saber o que se passava na cabeça daqueles garotos.
- O que vocês tão fazendo ai? Digo, além de beber e jogar vídeo-game. – Perguntou com indiferença.
- Sei lá, estamos conversando aqui também. Você não tem idéia do quanto esses garotos falam quando estão bêbados. – falou rindo e todos reclamaram dizendo que ele também falava demais.
- Ah, sei. E vocês não citaram meu nome nenhuma vez ai não, né? – continuou com o tom de voz indiferente, enquanto, na verdade, morria de curiosidade a respeito da resposta do primo.
- O não pára de falar de você, prima. O tempo todo ele diz que você é... – foi dizendo até que arrancou o telefone da mão do garoto e desligou.
franziu a testa assustada e esperou um pouco para ver se o primo retornava a ligação, mas ele não o fez. Ela não sabia se deveria ligar de novo e, na verdade, já começava a se sentir cansada, então resolveu deixar para continuar a conversa depois, afinal, o dia seguinte seria muito longo e cansativo e ela precisava dormir para estar com sua energia renovada.
acordou cedo, apesar de ser sábado, para ir à escola ensaiar e finalizar os preparativos para a peça.
Havia sonhado durante a noite inteira com o teatro, mas ao invés de Jonathan, era que subia no palco como seu Romeu. Porém, ele não morria no final, apenas se levantava vagarosamente do lugar onde caíra deitado e a segurava firme. Depois beijava seus lábios docemente e deixava em uma de suas mãos um comprimido. então começava a gritar e o sonho acabava aí.
Enquanto se arrumava, a garota decidia se deveria conversar com ele. Tinha medo do que podia acontecer depois, se eles voltariam a se dar bem ou se perceberiam que qualquer coisa que havia entre eles havia se desgastado. Também tinha medo de que, caso algo desse errado, atrapalhasse seu desempenho no palco. Decidiu, portanto, deixar as coisas acontecerem naturalmente e, de preferência, após a peça.
Ao chegar à escola, se sentia mais nervosa do que nunca. Não sabia se era pelo fato de que era o dia da apresentação e milhares de pais viriam vê-la ser uma perfeita Julieta, ou se era pelo simples fato de ter que passar o dia inteiro ao lado de .
Pessoas passavam correndo pelos corredores com escadas, cartazes, panos e outras coisas para a decoração. olhava tudo curiosa, mais tarde aquela escola se tornaria palco de um triste e famoso romance.
Abriu a porta do auditório e viu Sra. Parson em cima do palco, a mulher dava orientações aos alunos responsáveis por montar o cenário. Olhou em volta e pode ver Jonathan, sentado na terceira fila ouvindo seu mp4, viu os figurantes espalhados pelo auditório, viu garotas carregando o figurino, mas não viu quem ela esperava ver. Buscou com os olhos pela sala de som, mas estava vazia. Depois procurou e também não o encontrou. Franziu a testa e resolveu ir falar com a professora, provavelmente eles só haviam se atrasado.
- Bom dia, Sra. Parson. – Falou simpática assim que se aproximou.
- Bom dia, Julieta. – A professora sorriu. – Animada para a apresentação?
- Animadíssima. – tentou ser o mais convincente possível. A garota amava teatro e se pudesse passava sua vida em cima de um palco, mas ultimamente estava com muita coisa pra pensar e não conseguia se concentrar em quase nada.
- Que bom, então só vou terminar de dar as orientações a esses alunos e nós procuraremos outra sala para que você e Jonathan possam ensaiar. Tem que estar tudo perfeito hoje, não se esqueça disso. – Sra. Parson disse seriamente enquanto consertava os óculos no nariz e virava-se para olhar o que algumas alunas faziam na parede.
- Não vou me esquecer. – mordeu o lábio inferior e olhou para a porta do auditório. Estava esperando o momento em que ela se abrisse e aparecesse com seus cabelos bagunçados e seu andar maroto.
Esperou, esperou, esperou.
- Muito bem, vamos lá. – Sra. Parson pousou a mão sobre o ombro direito da garota.
- O não vem? – perguntou quase que inconscientemente. – Er... O também não tá aqui.
- Eles virão mais tarde. – Sorriu. - Jonathan! – Chamou o garoto, mas não obteve resposta, pois ele ainda ouvia música. – O chame pra mim, por favor. – Pediu à e a garota sacudiu a cabeça positivamente.
- Jonathan? – se aproximou do menino, que se assustou ao vê-la ali. Não havia se dado conta de que ela chegara. – A professora tá chamando pra gente ensaiar. – Disse assim que ele desligou o mp4 e tirou os fones do ouvido.
- Tá bom. – Jonathan se levantou e acompanhou as duas que já caminhavam para a porta do auditório.
Após algumas horas de ensaio, Sra. Parson os liberou para poder ensaiar também com os outros alunos e finalizar a decoração do lugar. deu graças a Deus, já estava se sentindo claustrofóbica dentro da sala onde estavam.
A garota foi para casa, já que agora só teria que voltar seis e meia da tarde, pois o teatro começaria às sete e meia.
Passou o dia descansando. Pensou em ligar para e perguntar por que eles não haviam ido ao ensaio da manhã, mas se lembrou do último telefonema que dera para ele e entendeu que, provavelmente, eles estavam de ressaca.
- Onde está a ? – Sra. Parson gritava no camarim, que estava lotado de alunos se arrumando.
- Cheguei professora. – disse abrindo a porta do lugar.
- Graças a Deus, achei que não viesse mais... – A mulher passou o dorso da mão direita na testa suada, obviamente estava muito nervosa.
- Ainda são seis e vinte. Fica tranqüila. – respondeu calmamente, enquanto pegava seu figurino das mãos de uma das responsáveis por ele. – Obrigada. – Sorriu para a garota, que sorriu de volta.
- E o Jonathan, alguém sabe dele? – Continuou a professora, ignorando o pedido de calma de , mas não obteve resposta.
Mais uma vez, passou os olhos pelos alunos ali presentes e não encontrou , então começou a se preocupar. E se ele não aparecesse a tempo? E se tivesse acontecido algo ruim?
Entrou para o trocador e começou a vestir o primeiro vestido que usaria. Estava distraída tentando subir o zíper das costas, quando ouviu uma voz. Era ele, tinha certeza.
- Como tá tudo, galera? – estava com um tom de voz alegre, o que fez com que sorrisse de dentro de onde estava.
- , , e ! Já estava me preocupando. – Sra. Parson disse sorrindo.
- Por quê, ‘fessora’? – abraçou a mulher, quase a sufocando.
- Achei que não viessem a tempo... – Respondeu assim que conseguiu se soltar dos braços do garoto. – Por falar nisso, algum de vocês viu o Jonathan por aí? – A mulher perguntou e reparou que rolava os olhos.
- Não, por quê? – se pronunciou, notando a preocupação da professora.
- Ele ainda não apareceu. Nós combinamos às seis e meia e já são seis e quarenta. – Passou novamente o dorso da mão sobre a testa.
- Fica tranqüila, ele virá. – deu dois tapinhas de leve no ombro da mulher.
- Assim espero! – Ela exclamou e saiu andando em direção a outro grupo de alunos que chegavam.
- ! – gritou de dentro do trocador e os quatro garotos olharam naquela direção.
- ? – O menino perguntou indeciso.
- Vem me ajudar aqui, eu tô no primeiro trocador. – A garota continuou gritando e olhou para com uma cara safada.
- Nem pensar. – respondeu rindo e foi até onde estava.
ouviu o garoto dizer um “uau!” assim que abriu a porta do lugar onde ela estava. o havia chamado para ajudá-la com o zíper das costas, nunca conseguia fechá-lo sozinha.
- Porra, . Eu não sei mexer com essas coisas. – O menino falou alto assim que terminou de puxar o zíper e ela pediu ajuda para trançar o cabelo.
- Então sai daqui. – respondeu nervosa e expulsou o menino para fora do trocador.
- De nada pelo zíper. Mal agradecida! – gritou pelo lado de fora e rolou os olhos. Sempre ficava nervosa quando não conseguia se arrumar direito.
Alguns minutos depois, a garota conseguiu sair pronta de dentro do trocador. Estava com um vestido vinho de veludo que descia solto depois da cintura, com decote quadrado no busto e ombros fofinhos, seguidos por uma manga comprida, quase como uma segunda pele. Detalhes em preto e dourado enfeitavam o vestido que era comprido até os pés. Havia feito uma trança em seus cabelos e um enfeite também dourado cobria-lhe o topo da cabeça e depois descia por entre a trança.
não pode evitar que seu queixo caísse assim que viu . Um arrepio percorreu todo seu corpo e teve que piscar várias vezes para garantir que estava enxergando bem. Nunca havia visto a garota tão bonita quanto estava agora, pelo menos não nos últimos meses.
também sentiu seu estômago se revirar ao vê-lo olhando para ela daquela forma. trajava um smoking preto e uma gravata borboleta. Seus cabelos estavam arrumados com gel e seus olhos pareciam brilhar mais que o normal. Involuntariamente a garota sorriu e ele retribuiu o sorriso.
, e estavam vestidos da mesma forma o que fez com que estranhasse um pouco.
- Oh meu Deus! Já são sete horas. – Sra. Parson andava de um lado para o outro. – Onde está aquele menino? - Olhou para todos que estavam lá.
- O Jonathan ainda não chegou? – perguntou com uma sobrancelha arqueada.
- Não, não chegou. – A mulher tentava não gritar, pois alguns pais já começavam a chegar e ela não queria que ninguém ouvisse escândalos vindos do camarim.
- O Jonathan não tá aqui? – se intrometeu boquiaberta. A professora balançou a cabeça negativamente e depois deu um pequeno sorriso ao ver como ela estava linda. – Eu vou tentar ligar pra ele... - Falou nervosa e foi até sua bolsa pegar o celular. Tentou ligar várias vezes, mas não obteve resposta.
- Eu não deveria ter dado o papel principal a ele... Se eu soubesse que ele não viria... – A mulher já quase chorava de nervoso e a abraçou novamente.
- Não tinha como a senhora saber. Fica calma, nós vamos dar um jeito. – O garoto falou tentando tranqüilizá-la.
estava em silêncio. Algumas idéias passavam por sua cabeça, mas não sabia se daria certo.
- Precisamos de um substituto urgente. Alguém sabe as falas do Romeu? – Sra. Parson perguntou, mas ninguém respondeu. – Oh, está tudo acabado. – A mulher se abanou como se estivesse se sentindo mal e , que ainda estava com o braço na cintura da mulher, a segurou mais forte.
Esperaram por mais alguns minutos, mas Jonathan não apareceu, nem atendeu ao telefone.
O auditório já estava lotado e Sra. Parson não sabia mais o que fazer. Decidiu que se vestiria de Romeu e atuaria no lugar do garoto. Era sua única saída.
Sete e trinta e dois o teatro começou, não adiantaria mais esperar e uma coisa que a professora priorizava era pontualidade.
estava encostada em uma parede do camarim, com o olhar baixo, pensando no que poderia ter acontecido a Jonathan, enquanto os figurantes encenavam a briga de Sansão e Gregório em cima do palco. Depois se trancou em um trocador, pois começara a se sentir tonta. Isso sempre acontecia quando ela estava prestes a se apresentar para várias pessoas e sabia que o melhor a fazer era ficar quieta em algum lugar.
Algumas cenas se passaram e se aproximava o momento em que deveria subir ao palco. A garota já estava imaginando como seria horrível ter que fazer uma cena romântica com a Sra. Parson, ainda mais na frente de todas aquelas pessoas.
- , tá ai? – Uma garota perguntou, batendo na porta do trocador.
- Tô. – respondeu desanimada.
- Tá na sua hora... – A garota continuou e saiu do lugar.
- Estou indo. – Sorriu, respirou fundo e subiu no palco juntamente com outros alunos. Estava no momento do baile de máscaras e levava na mão esquerda sua máscara veneziana dourada, com a pena da cor do vestido.
Tentou olhar para a sala de som, mas as luzes que estavam acesas sobre ela a impediam de enxergar qualquer coisa que estava fora do palco.
Respirou fundo mais uma vez e começou a interpretar.
- Cavalheiros, bem-vindos. As senhoras que não sofrerem no dedão de calos hão de dançar convosco. Olá, senhoras! Qual de vós há de agora recusar-se a dar uma voltinha? A que mimosa se mostrar por demais, faço uma aposta em como terá calos. Como! Agora ficamos juntos? Sede aqui bem-vindos, meus senhores! Já vi também os dias em que punha uma máscara e sabia cochichar uma ou duas palavrinhas nuns ouvidos bonitos. E agradavam! Mas já lá vai o tempo... Tudo passa. Sois bem-vindos, senhores. Vinde, músicos! Tocai logo! Licença! Abri caminho... Com licença! Meninas, ligeireza! – O garoto que interpretava o senhor Capuleto o fazia com bastante convicção. Uma música começou a ser tocada e os figurantes, além de , começaram a dançar. - Mais luz, marotos! Arrastai as mesas e apagai esse fogo, que está muito quente aqui dentro. Ah! Essas brincadeiras inesperadas chegam sempre a tempo. Sim, sentai-vos, sentai-vos, caro primo Capuleto; nós dois já não estamos na idade de dançar. Há quanto tempo deixamos de pôr máscara?
- Trinta anos, pela Virgem; trinta anos. – Outro menino, que interpretava o primo do senhor Capuleto, respondeu.
- Como, primo! Não, não faz tanto tempo; é muita coisa. Foi desde o casamento de Lucêncio. Venha quando quiser o Pentecostes, serão vinte e cinco anos... Nós, de máscara...
- Muito mais! Muito mais! O filho dele, senhor, tem mais idade; tem trinta anos.
- Que dizeis! Pois se esse filho dele há uns dois anos maior não era ainda!
Os dois garotos interpretavam a discussão e, do outro lado do palco, Romeu entrava acompanhado de um criado.
- Que dama é aquela que enriquece o braço daquele cavalheiro? – Romeu perguntou e sentiu seu coração subir-lhe à garganta quando percebeu que quem interpretava não era Sra. Parson. Permaneceu estática por um momento, enquanto ele dizia suas falas calmamente. Tentou olhar, novamente em vão, para a sala de som e depois encarou aqueles olhos brilhantes que olhavam em sua direção.
- Desconheço-a, meu senhor. – O garoto que interpretava o criado o respondeu.
- Oh! Ela ensina a tocha a ser luzente. Dir-se-ia que da face está pendente da noite, tal qual jóia mui preciosa da orelha de uma etíope mimosa. Bela demais para o uso, muito cara para a vida terrena. Como clara pomba ao lado de gralhas tagarelas, anda no meio das demais donzelas. Vou procurá-la, ao terminar a dança porque a esta rude mão possa dar ânsia de tocar nela e, assim, ficar bendita. Meu coração, até hoje, teve a dita de conhecer o amor? Oh! Que simpleza! Nunca soube até agora o que é beleza.
dizia aquelas palavras com convicção. Era muito mais fácil dizê-las quando significavam a mais pura verdade. , por sua vez, ainda estava confusa, não sabia como ele estava ali e como ela não havia percebido desde que a peça começara.
Todos estavam muito envolvidos com seus personagens, de modo que acreditou por um momento estar vivendo tudo aquilo, assim como Julieta, e sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo ao se lembrar de como terminava a história.
- A paciência e o furor, equilibrados, inativos, me deixam com seus brados. Vou sair; mas o intruso que hoje é mel, será amanhã o mais amargo fel. - O rapaz que interpretava Tebaldo declarou e saiu do palco em seguida.
- Se minha mão profana o relicário em remissão aceito a penitência: meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência. – interpretou, encarando e ela sentiu sua respiração falhar. Era o momento em que ela teria que contracenar com o garoto.
Olhar para aqueles olhos brilhantes tão perto dela fez com que ela se esquecesse das falas por um momento. Ela então fechou os olhos, respirou fundo mais uma vez, e tudo voltou à sua mente.
- Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Nas mãos dos santos pega o paladino. Esse é o beijo mais santo e conveniente.
- Os santos e os devotos não têm boca? – rebateu, segurando um sorriso.
- Sim, peregrino, só para orações.
- Deixai, então, ó santa! Que esta boca mostre o caminho certo aos corações.
- Sem se mexer, o santo exalta o voto. – falou com a voz um pouco trêmula. O diálogo havia fluído perfeitamente até ali, mas ela sabia o que viria em seguida e isso a deixava nervosa. Suas mãos começaram a tremer. Aquelas palavras pareciam muito reais.
- Então fica quietinha: eis o devoto. – fez uma pausa, enquanto encarava os lábios rosados de . - Em tua boca me limpo dos pecados.
Lentamente, segurou em seu rosto e encostou seus lábios nos dela, deixando-a imóvel. Com Jonathan, ela ensaiara sempre um beijo na bochecha, de modo que parecesse real, mas deveria saber que não se contentaria com aquilo.
Depois que o beijo se desfez, os dois permaneceram se encarando por um tempo. tentou dizer algo, mas viu sua mente em branco e isso a apavorou. notou logo o que havia acontecido e, sorrindo, improvisou para a garota.
- Dizes que agora meus pecados passaram para seus lábios. E eu direi... – Ele ampliou mais seu sorriso. - Pecados meus? Oh! Quero-os retornados. Devolves-mos.
- Beijais tal qual os sábios.
conseguiu se recuperar e disse sua próxima fala sem ter certeza se estava correta ou se era o que ela desejava dizer naquele momento, já que concordava plenamente com aquela frase.
O público estava empolgado, as cenas pareciam muito reais e o entrosamento dos atores deixava tudo ainda mais bonito.
A aluna que interpretava a Ama de Julieta se aproximou dos dois e começou a dizer suas falas, mas ainda demorou um momento para voltar a si e continuar a interpretar como se não estivesse ali.
Depois de mais algumas falas, saiu do palco. Ao pisar novamente no camarim, ela não pode acreditar no que estava acontecendo. Voltou a escorar-se em uma das paredes, enquanto alunos corriam de um lado para o outro. Aproveitou que ainda estava no palco para trocar-se rapidamente. Queria conversar com ele antes que os dois tivessem que voltar a interpretar.
entrou no camarim pouco tempo depois, procurou com o olhar e começou a se trocar ali mesmo, na frente de todos.
A garota saiu de onde havia entrado e se assustou ao encontrá-lo só de boxers.
- ... – Falou colocando a mão na frente dos olhos e se virando para o outro lado. – Me explica o que tá acontecendo.
- Eu tô interpretando o Romeu. – O garoto deu de ombros. – Pode olhar. Já tô de calças. – Falou tranquilamente e se virou novamente, parando o olhar por um momento no peitoral descoberto de .
- Eu... eu percebi. – Piscou algumas vezes. – Eu quero saber...
- Esqueceu que eu assistia a todos os ensaios? – A interrompeu e colocou a segunda blusa do figurino. – E eu meio que... imaginava em casa como seria interpretar o Romeu com você. Então acabei decorando... – Falou rapidamente e se abaixou para amarrar o cadarço de sua bota que havia desamarrado.
- Ah... – procurava algo para dizer. Estava acontecendo tudo muito rápido e o cérebro dela não conseguia acompanhar. – E quem tá na sala de som? – Franziu a testa.
- A Sra. Parson. Acho que ela mais do que ninguém sabe a hora certa de acender as luzes. – se levantou novamente e sorriu.
tentou retribuir o sorriso, mas sentiu alguém a empurrando para o palco.
- Tá na vez de vocês, parem de conversa. – Um figurante disse assim que os outros alunos saíram do palco.
- Tenta não esquecer as falas dessa vez. – disse rindo e piscou para . Ela apenas concordou com a cabeça enquanto entrava no palco.
- Só ri das cicatrizes quem ferida nunca sofreu no corpo. – entrou interpretando, enquanto aparecia em uma janela improvisada e o encarava. - Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? Surge formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que, como serva, és mais formosa que ela. Deixa, pois, de servi-la; ela é invejosa. Somente os tolos usam sua túnica de vestal, verde e doente; joga-a fora. Eis minha dama. Oh, sim! É o meu amor. Se ela soubesse disso! Ela fala; contudo, não diz nada. Que importa? Com o olhar está falando. Vou responder-lhe. Não; sou muito ousado; não se dirige a mim: duas estrelas do céu, as mais formosas, tendo tido qualquer ocupação, aos olhos dela pediram que brilhassem nas esferas, até que elas voltassem. Que se dera se ficassem lá no alto os olhos dela, e na sua cabeça os dois luzeiros? Suas faces nitentes deixariam corridas as estrelas, como o dia faz com a luz das candeias, e seus olhos tamanha luz no céu espalhariam, que os pássaros, despertos, cantariam. Vede como ela apóia o rosto à mão. Ah! Se eu fosse uma luva dessa mão, para poder tocar naquela face!
- Ai de mim! – exclamou, com um sorriso no rosto e assim a cena se seguiu.
O tempo passou rápido depois disso. Várias trocas de roupa. Várias entradas e saídas do palco. Vários minutos de uma linda história de amor.
esquecera as falas em alguns momentos, mas conseguira improvisar. Era um ator nato, embora nunca houvesse percebido isso.
Aos poucos, a cena final se aproximava e tentava se manter concentrada como estivera até então. Estava deitada, pois já representava o momento em que Julieta dormia sob efeito de um remédio que simulava sua morte, e Romeu chegava ao local.
- Matriz da morte. Detestável maxila, que estás cheia da mais cara partícula da terra: assim te forço os maxilares podres – dizia, enquanto se aproximava dela - e te obrigo a aceitar mais alimento.
- Este é o Montecchio altivo, que banido foi por ter morto o primo de Julieta, por cuja dor a morrer veio aquela criatura incomparável. Ei-lo agora que vem para fazer nesses cadáveres alguma vilania oprobriosa. Vou prendê-lo. Interrompe teu maldito trabalho, vil Montecchio! Como! É crível que a vingança vá além da própria morte? Estás preso, banido desprezível. Obedece e me segue; morrer deves. – Esbravejou o menino que interpretava Páris, se aproximando de Romeu.
- Devo morrer, é fato; foi para isso que vim aqui. Mancebo generoso, tentar não queiras um desesperado. Foge daqui e deixa-me; reflete nestes mortos e que eles te amedrontem. Suplico-te, mancebo, não me faças arcar com o peso de mais um pecado, pois aqui vim contra mim próprio armado. Não fiques; vai-te e dize no porvir que foi um louco que te fez fugir.
- Importância não dou a teu pedido e prendo-te por seres criminoso.
- Queres me provocar? Então defende-te. – interpretou, desafiador, e fingiu uma luta com o garoto que contracenava com ele. Era impressionante a veracidade que eles davam à cena.
- Batem-se, oh Deus! Vou já chamar a guarda. – Um terceiro garoto, que interpretava o Pajem, dizia enquanto saía do palco.
- Estou morto! – O menino que interpretava Páris diz, caído no chão. - Se fores compassivo, abre a tumba e me deita com Julieta. – E, em seguida, interpreta sua morte.
- Em verdade o farei. Porém vejamos estas feições: o nobre conde Páris, parente de Mercúcio! Vou depor-te num túmulo glorioso. Túmulo? Não, mancebo assassinado; uma lanterna, pois Julieta se acha deitada aí e sua formosura faz desta abóbada uma sala régia, transbordante de luz. Repousa, morto, por um morto enterrado. Quantas vezes, no ponto de morrer, ledos se mostram os homens? É o clarão da despedida, dizem quantos o doente estão velando. Oh! Poderei chamar clarão a esta hora? Ó meu amor! Querida esposa! A morte que sugou todo o mel de teu doce hálito poder não teve em tua formosura. – dizia emocionado, se ajoelhando ao lado de , que permanecia imóvel no chão do palco. - Não; conquistada ainda não foste; a insígnia da beleza em teus lábios e nas faces ainda está carmesim, não tendo feito progresso o pálido pendão da morte. Tebaldo, jazes num lençol de sangue? Oh! Que maior favor fazer-te posso do que com esta mesma mão que a tua mocidade cortou, destruir, agora, também, a do que foi teu inimigo? Primo, perdoa-me. Ah! Querida esposa, por que ainda és tão formosa? Pensar devo que a morte insubstancial se apaixonasse de ti e que esse monstro magro e horrível para amante nas trevas te conserve? Com medo disso, ficarei contigo, sem nunca mais deixar os aposentos da tenebrosa noite; aqui desejo permanecer, com os vermes, teus serventes. Aqui, sim, aqui mesmo fixar quero meu eterno repouso, e desta carne lassa do mundo sacudir o jugo das estrelas funestas. Olhos, vede mais uma vez; é a última. Um abraço permiti-vos também, ó braços! – Ele então segura pelos ombros e a puxa para perto de seu corpo, dando-lhe um abraço. Em seguida, encosta de leve seus lábios nos dela, tentando se manter concentrado o suficiente para não esquecer o resto da fala, e a deixa deitada no chão novamente. - Lábios, que sois a porta do hálito, com um beijo legítimo selai este contrato sempiterno com a morte exorbitante. Vem, condutor amargo! Vem, meu guia de gosto repugnante! Ó tu, piloto desesperado! Lança de um só golpe contra a rocha escarpada teu barquinho tão cansado da viagem trabalhosa. – interpretava de maneira bastante convincente e emocionante. Enquanto continuava a dizer suas falas, ele retirou de seu bolso um pequeno elixir e o destampou. - Eis para meu amor. – Bebeu a água que estava ali, simbolizando o veneno. - Ó boticário veraz e honesto! Tua droga é rápida. Deste modo, com um beijo, deixo a vida.
deixou seu corpo cair no chão, Romeu estava morto.
Pelo outro lado do palco, um aluno que interpretava frei Lourenço entra com uma lanterna e nesse momento se levanta, interpretando Julieta se despertando de seu profundo sono.
- Ó meu bom frade, onde está meu senhor? Sei muito bem onde eu devia estar, onde me encontro. Mas onde está Romeu? – Ela perguntou e logo ouviu um barulho, produzido por uns alunos de dentro do camarim.
- Ouço bulha. Saí, senhora, desse ninho de morte, de contágio e sono contrário à natureza. Uma potência por demais forte para que a vençamos frustrou nossos intentos. Vem, bem logo! Teu marido em teu seio se acha morto; Páris também. Vem logo; vou levar-te para um convento de piedosas freiras. Não percas tempo com perguntas; vamos; a guarda está chegando. Vem, bondosa Julieta; não me atrevo a esperar mais.
olha ao seu redor e vê deitado ao seu lado. Com a testa fortemente franzida, ela força seus olhos para que se encham d’água.
- Vai, que eu daqui não sairei jamais. – Disse, notando que o outro garoto saía do palco. - Que vejo aqui? Um copo bem fechado na mão de meu amor? Certo: veneno foi seu fim prematuro. Oh! Que sovina! Bebeste tudo, sem que me deixasses uma só gota amiga, para alivio. Vou beijar esses lábios; é possível que algum veneno ainda se ache neles, para me dar alento e dar a morte. – disse, respirando fundo e depois volta a encostar seus lábios nos de , tentando ser o mais breve possível. - Teus lábios estão quentes.
Do outro lado do palco, mais dois garotos entram.
- Vamos, guia-me, rapaz; qual é o caminho?- Perguntou o guarda.
olhou para a direção em que eles estavam, parecendo assustada e logo puxou uma espada de plástico que estava presa no cinto que usava.
- Ouço barulho. Preciso andar depressa. Oh! Sê bem-vindo, punhal! Tua bainha é aqui. Repousa aí bem quieto e deixa-me morrer. – Ao terminar de dizer, a garota finge enfiar a espada em seu peito, interpretando uma expressão de dor, e deixa seu corpo cair por cima da barriga de , permanecendo assim até que as cortinas se fechassem.
A platéia aplaudira de pé. A apresentação havia sido perfeita. Extremamente real e emotiva.
ainda estava deitada sobre o corpo de , sentindo a respiração ofegante do garoto. Se sentia confortável ali e sua vontade era parar o tempo. Mas tempo era o que não tinha naquele momento.
O garoto se levantou rapidamente, assim que as cortinas terminaram de se fechar, fazendo se assustar e se levantar também. Ele correu até o camarim e começou a trocar-se mais uma vez. Agora vestia seu smoking novamente enquanto saía devagar do palco, estranhando a reação dele.
- , – chamou assim que a garota chegou ao camarim – me ajuda com essa gravata? – Pediu com uma cara confusa e sorriu, começando a caminhar em sua direção.
- Gravatas borboletas não são meu forte, . Mas vou fazer meu melhor. – Disse enquanto tentava colocar a gravata nele.
- Tenho certeza que vai sair perfeito. – O garoto sorriu e começou a abotoar os punhos do paletó.
- Será que eu posso saber pra que isso tudo? – perguntou com um sorriso vitorioso no rosto por ter conseguido colocar a gravata direito. Em seguida, viu , e subirem no palco e as cortinas se abrirem novamente.
- Surpresinha final da Sra. Parson. Nós vamos tocar. – disse se olhando no espelho e terminando de se ajeitar. – Obrigado. – Apontou para a gravata e a garota apenas sacudiu a cabeça positivamente.
- Que legal. – sorriu um pouco abobalhada ao vê-lo vindo em sua direção. – Acho melhor você ir... já tão te esperando no palco. – Mordeu o lábio inferior e se aproximou de seu ouvido.
- A surpresa na verdade é pra você... Presta atenção lá. – Sussurrou e piscou um olho para ela. Depois deu um beijo em sua testa e saiu do camarim.
A garota fechou os olhos, tentando guardar todas aquelas sensações pra sempre, e em seguida virou-se para o palco, onde se aproximava do microfone central.
- Boa noite! – O garoto falou com a voz séria. – A Sra. Parson, nossa grande professora de teatro, reservou uma surpresa para essa noite. – Abriu um grande sorriso e algumas garotas que estavam na primeira fila começaram a se abanar descaradamente. – Nós iremos tocar uma música para finalizar a peça com chave de ouro. Vamos tocar uma composição nossa que diz muito sobre algumas sensações apresentadas pelo mestre Shakespeare. Obrigado. – Mostrou a língua, rindo, ao ouvir os aplausos, e olhou para os garotos esperando uma confirmação para anunciar a canção. Todos concordaram e ele pigarreou antes de falar. – Com vocês, “The End”.
Ao terminar de falar, correu para sua posição, se ajeitando com seu instrumento musical e os quatro começaram a tocar.
Kicking off is the hardest part
(Começar é a parte mais difícil)
Nothing's certain at the start
(Nada é certo no início)
Letting go, so something can begin
(Deixando acontecer, então alguma coisa pode começar)
Figure out how to get our life
(Descobrindo como viver nossas vidas)
Leave tomorrow, live tonight
(Deixe o amanhã, viva esta noite)
Gotta throw, throw your heart right in
(Terá de lançar, lançar seu coração)
Cause we all fall down
(Porque todos nós caímos)
Everybody knows the end
(Todo mundo conhece o fim)
When the curtain hits the floor
(Quando as cortinas atingem o chão)
And everybody knows the end
(E todos conhecem o fim)
Don't wanna get there wishing that you given more
(Não queira chegar lá desejando ter aproveitado mais)
It's not over, till it's over
(Não é o fim, ainda não é o fim)
So how do we begin?
(Então como vamos começar?)
When everybody knows the end
(Quando todos conhecem o fim)
Os olhos de se encheram de lágrimas. Sabia que aquela música relatava a história de Romeu e Julieta, mas ultimamente se sentia tão ligada à personagem, que a canção parecia ser cantada para ela. E a maneira como se desempenhava em cima do palco a deixava orgulhosa e a lembrava dos bons velhos tempos.
I need to live with nothing to fix
(Eu preciso viver sem nada para consertar)
Don't tell me what’s gonna happen next
(Não me diga o que irá acontecer a seguir)
I'm alright, I like the way this feels
(Eu estou bem, eu gosto de me sentir assim)
Leave behind all the things I miss
(Deixo para trás todas as coisas que perdi)
Next stop isn’t where you think it is
(Próxima parada não é onde você pensa que seja)
Cause tonight, I'm riding off the rails
(Porque hoje à noite, estou guiando para fora dos trilhos)
Cause we all fall down
(Porque todos nós caímos)
Everybody knows the end
(Todo mundo conhece o fim)
When the curtain hits the floor
(Quando as cortinas atingem o chão)
And everybody knows the end
(E todos conhecem o fim)
Don't wanna get there wishing that you given more
(Não queira chegar lá desejando ter aproveitado mais)
It's not over, till it's over
(Não é o fim, ainda não é o fim)
So how do we begin?
(Então como vamos começar?)
Yeah everybody knows the end
(Yeah, todos conhecem o fim)
Is where you hope you never say
(É onde você espera nunca dizer)
"I could’ve done it better"
("Eu poderia ter feito melhor")
And I'm gonna keep accounts
(E eu estarei mantendo as contas)
And throw away what doesn't really matter
(E jogarei fora o que realmente não importa)
And I wanna die
(E eu quero morrer)
On the highest high
(No lugar mais alto)
It's not over
(Não é o fim)
Till it's over
(Ainda não é o fim)
I wanna stay here forever
(Eu quero ficar aqui para sempre)
Um enorme calafrio percorreu o corpo da garota, que do camarim assistia à apresentação, atônita. Lágrimas quentes escorriam em seu rosto e ela tentava apenas se manter de pé.
Cause we all fall down
(Porque todos nós caímos)
Everybody knows the end
(Todo mundo conhece o fim)
When the curtain hits the floor
(Quando as cortinas atingem o chão)
And everybody knows the end
(E todos conhecem o fim)
Don't wanna get there wishing that you given more
(Não queira chegar lá desejando ter aproveitado mais)
It's not over, till it's over
(Não é o fim, ainda não é o fim)
So how do we begin?
(Então como vamos começar?)
When everybody knows the end
(Quando todos conhecem o fim)
Everybody knows the end
(Todos conhecem o fim)
Everybody knows the end
(Todos conhecem o fim)
Todos os garotos pareciam entregar toda a sua alma àquela canção. Ela era verdadeira, escrita diretamente do coração.
Ao final, todos aplaudiam fortemente e Sra. Parson se sentia orgulhosa de ter feita a escolha certa.
já se recompunha e tentava enxugar suas lágrimas sem terminar de atrapalhar a maquiagem. Não sabia se aquela música havia sido feita para ela, mas sem dúvida havia conseguido tocar em seu coração.
Após as últimas notas, voltou ao microfone. Esperou alguns segundos até que os aplausos terminassem e, com um enorme sorriso no rosto, retomou a palavra.
- Bom, agora eu vou aproveitar o espaço para outra apresentação. Essa música na verdade é de alguns amigos nossos e apresenta uma intertextualidade – falou pausadamente e piscou um olho, mostrando que prestava a atenção nas aulas de Literatura – entre a peça e certo romance de dois adolescentes meio confusos. – Riu e olhou para o camarim, onde arregalava os olhos. – E pra dizer a verdade, essa surpresa não tem a ver com a Sra. Parson. É de mim para a garota que eu amo. , essa é pra você! Com vocês... “Juliet”!
Essa sim era para . havia acabado de dizer. Não apenas com palavras, mas também com aquele olhar. Aquele que ela conhecia. O olhar de seu ex-apenas-melhor-amigo e atual-também-grande-amor.
Ela não podia acreditar no que ele estava fazendo. havia acabado de se declarar a ela, na frente de toda a escola, numa noite mais do que perfeita.
Hey, Juliet
(Ei, Julieta)
Hey I've been watching you
(Ei, eu tenho observado você)
Every little thing you do
(Cada pequena coisa que você faz)
Every time I see you dance
(Toda vez que eu a vejo dançar)
In my homeroom class, makes my heart beat fast
(Na minha frente, faz meu coração bater rapidamente)
I've tried to page you twice
(Eu tentei a chamar duas vezes)
But I see you roll your eyes
(Mas eu te vejo rolando os olhos)
Wish I could make it real
(Queria poder tornar isso real)
But your lips are sealed, that ain't no big deal
(Mas seus lábios são lacrados, e não consigo muita coisa)
Os quatro garotos começaram a tocar e eles, sem dúvida, eram super carismáticos em cima do palco. Aos poucos, todo o auditório se animou.
'Cause I know you really want me
(Porque eu sei que você realmente me quer)
I hear your friends talk about me
(Eu ouço suas amigas falarem de mim)
So why you trying to do without me?
(Então por que você está tentando sem mim?)
When you got me
(Quando você me tem)
Where you want me
(Onde você me quer)
Hey Juliet
(Ei, Julieta)
I think you're fine
(Eu acho que você está bem)
You really blow my mind
(Você realmente assombra minha mente)
Maybe someday, you and me can run away
(Talvez algum dia, você e eu possamos fugir)
I just want you to know
(Eu só quero que você saiba)
I wanna be your Romeo
(Eu quero ser seu Romeu)
Hey Juliet
(Ei Julieta)
Girl you got me on my knees
(Menina, você me tem de joelhos)
Begging please, baby please
(Implorando, por favor, querida, por favor)
Got my best DJ on the radio waves saying
(Tenho meu melhor DJ nas estações de radio dizendo)
Hey, Juliet, why do you do him this way?
(Ei, Julieta, por que você faz assim com ele?)
Too far to turn around
(Tarde demais pra voltar atrás)
So I'm gonna stand my ground
(Então eu vou ficando no meu canto)
Gimme just a little bit of hope
(Só me dê um pouco de esperança)
With a smile or a glance, gimme one more chance
(Com um sorriso ou um relance, me dê mais uma chance)
Os alunos presentes na platéia estavam de pé, dançando alegremente e se divertindo de verdade com aquela canção. ria e também dançava dentro do camarim, pois sem dúvida, aquilo contava exatamente sua história. Ela se sentia alegre e aliviada, já que tudo estava resolvido, só lhe restava rir dos grandes mal-entendidos.
'Cause I know you really want me
(Porque eu sei que você realmente me quer)
I hear your friends talk about me
(Eu ouço suas amigas falarem de mim)
So why you trying to do without me
(Então porque você está tentando sem mim?)
When you got me
(Quando você me tem)
Where you want me
(Onde você me quer)
Hey Juliet
(Ei, Julieta)
I think you're fine
(Eu acho que você está bem)
You really blow my mind
(Você realmente assombra minha mente)
Maybe someday, you and me can run away
(Talvez algum dia, você e eu possamos fugir)
I just want you to know
(Eu só quero que você saiba)
I wanna be your Romeo
(Eu quero ser seu Romeu)
Hey Juliet
(Ei Julieta)
se divertia cada vez mais no camarim. Estava adorando aquela noite e morria de vontade da apresentação acabar para poder pular no pescoço de e dizer que estava tudo bem. Ela seria a Julieta e ele o Romeu pra sempre.
I know you really want me
(Eu sei que você realmente me quer)
I hear your friends talk about me
(Eu ouço suas amigas falarem de mim)
So why you trying to do without me
(Então porque você está tentando sem mim?)
When you got me
(Quando você me tem)
Where you want me
(Onde você me quer)
You don't have to say forever
(Você não tem que dizer sempre)
For us to hang together
(Que nós não podemos ficar juntos)
So hear me when I say
(Então me escute quando eu digo)
Hey Juliet (3x)
(Ei, Julieta) (3x)
I think you're fine
(Eu acho que você está bem)
You really blow my mind
(Você realmente assombra minha mente)
Maybe someday, you and me can run away
(Talvez algum dia, você e eu possamos fugir)
I just want you to know
(Eu só quero que você saiba)
I wanna be your Romeo
(Eu quero ser seu Romeu)
Hey Juliet
(Ei Julieta)
Hey Juliet
(Ei, Julieta)
I think you're fine
(Eu acho que você está bem)
You really blow my mind
(Você realmente assombra minha mente)
Maybe someday, you and me can run away
(Talvez algum dia, você e eu possamos fugir)
I just want you to know
(Eu só quero que você saiba)
I wanna be your Romeo
(Eu quero ser seu Romeu)
Hey Juliet
(Ei Julieta)
cantava empolgado e durante a música, olhara diversas vezes para o camarim, fazendo várias caretas para a garota e até mesmo interpretando o que a música dizia.
Assim que a última nota da música foi tocada, aplaudiu emocionada e sem despregar os olhos do garoto que tanto amava, enquanto ele agradecia ao público. Ela estava eufórica, mal podia esperar retornar ao camarim para abraçá-lo e dizer que aquilo havia sido perfeito, que ela o amava e queria estar com ele, independente do que acontecesse dali em diante.
Ela estava sozinha no camarim, pois os outros atores já haviam saído dali para assistirem à apresentação dos garotos, e sorria ao observá-los agradecer o público, que os aplaudia fervorosamente.
Enquanto ninguém retornava ao camarim, ouviu alguém chamar seu nome, mas ignorou. A voz era rouca e vinha de trás da garota, mas por achar estar sozinha, ela pensou que fosse algo de sua cabeça... Até que a chamaram de novo.
se virou e o que viu fez sua expressão de alegria se transformar em uma de espanto bruscamente. Jonathan estava parado atrás dela, encostado em uma parede, completamente machucado. Um corte profundo em sua testa fazia escorrer sangue por seu rosto, assim como também saía um pouco de seu nariz, e seu olho direito estava inchado. Ele parecia respirar com dificuldade e sua blusa, antes branca, estava suja de sangue e marcas de chutes.
- John... Jonathan?! – perguntou assustada, sem saber o que fazer.
- Me ajuda. – O garoto pediu com um murmúrio. – Me ajuda, .
- Meu Deus! O que houve, Jonathan? O que aconteceu? – Perguntou afobada, se aproximando dele.
- Eles me pegaram... Vão me matar. Me tira daqui, , me ajuda. Vão me matar!
- Como assim? John, o que eu faço?
- Me ajuda a sair daqui, me esconde. Eu não posso ficar aqui.
Jonathan pedia com muita dificuldade e engoliu em seco, sem saber o que era certo a se fazer naquele momento.
- Por favor, . Eu nunca te pedi nada, e nem pediria se não fosse realmente necessário, mas é minha vida em risco, eu vou morrer!
A garota sentiu sua cabeça dar voltas. Queria esperar , aquele era o momento dos dois, mas não podia negar ajuda a Jonathan, seu coração não era frio a esse ponto. Além de que, ele nunca negara nada quando ela o procurara, mesmo que fosse apenas por não ter mais o que fazer.
Ela lançou um olhar ao palco e viu que Sra. Parson estava lá, entre os quatro garotos, dizendo algo ao público. Maldito momento! Seria mais fácil se já estivesse ali... Mas ele entenderia mais tarde. Ele tinha que entender.
- Vem comigo. – Ela disse, ainda incerta sobre isso, e segurou no antebraço de Jonathan para ajudá-lo a se movimentar para fora dali.
estava em cima do palco, inquieto, esperando Sra. Parson finalizar seus elogios e agradecimentos. Ele olhou para o camarim, assim como fizera durante toda a apresentação, mas, dessa vez, o que viu fez seu coração doer profundamente. Não era possível, não podia estar indo embora com Jonathan. Mesmo com todos os seus esforços, ele estava perdendo sua garota mais uma vez. Talvez ele já a tivesse perdido pra sempre.
NA: Então chegamos ao tão esperado fim. Antes que vocês me matem, taquem pedras, crucifixem, queimem etc. me deixem explicar esse final! Eu sei que muita gente vai ficar nervosa por não ter ficado com o principal, mas, pensem, se tudo tivesse acabado bem, não teria como haver uma segunda parte, não é? E como eu adoooro vocês, eu atendi seus pedidos e to escrevendo a continuação da primeira parte de ‘Hey, Juliet!’!! Me dêem um desconto então, o final foi triste, mas a segunda parte promete muuuuuuuuuuuuuuuuuita coisa boa, podem confiar em mim!!
Eu queria agradecer de coração por todo o carinho, os elogios, as críticas e todos os comentários que vocês deixaram aqui. É muito, muito bom saber que vocês gostaram da minha fic!
Gostaria de agradecer também a todas as betas que já pegaram ‘Hey, Juliet!’ (Bárbara, Estela, Mariana e Carol, muito obrigada pela ajuda!) e agradecer ao Danny, minhas amigas (Bah, Mah e Lis), o McFLY e o Jonathan (?) pela inspiração.
Finalizando, espero que vocês tenham paciência de esperar um pouquinho pela segunda parte e que sigam fiéis a ‘Hey, Juliet!’, hahahahaha!
Adoro, adoro, adoro vocês e to muito triste de não ter mais 1596 capítulos pra postar, mas logo, logo a gente se vê por aqui de novo!
Antes de terminar, vou deixar aqui o link pra vocês conferirem a entrevista que eu dei ao site “All About Fics”, falando sobre ‘Hey, Juliet!’ e meus próximos projetos. Entrevista.
Um graaaaaande beijo no coração de todas vocês! x
Lih~NG // Twitter // Formspring.me // Email
N/B: A Lih é uma graça, não é? Enfim, eu gostaria de dizer que eu estou muito ansiosa para a segunda parte e, principalmente, para saber as reações de vocês quando a isso. O fim de maneira (dejávu) alguma me decepcionou, só me deixou mais ansiosa ainda. E eu queria agradecer à dona Lih por ter me escolhido como a 1234ª (brincadeira) beta. Enfim, fiquei com vontade de reler Romeu e Julieta. )^: Ah, e a minha parte favorida desse capítulo, só para constar, é quando eles estão encenando. *-* Eu atorei, me lembrou Shakespeare Apaixonado, porque eles encenam com tanto amor, que nem chega a ser uma encenação. Né? Né?