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Por: Alice Mesquita
Beta-Reader: Carol Silver

Prólogo:

Antes que comeces a ler, quero informar-te que esta é uma história grande, porém pequena. Cheia de acontecimentos inesperados, apesar das poucas páginas. Uma história de alegrias, dificuldade, mas acima de tudo, uma história de amor.

Capítulo Primeiro.

06 de abril de 1944


Entrei no salão de dança mais badalado (e único) da cidade. Eram oito horas da noite e o baile começaria em meia hora. Olhei para os lados e pude avistar diversas senhoritas, de vários lados e cantos da cidade. De vários jeitos e desjeitos. Andei até o balcão do bar, sentei-me num banco alto de madeira e comecei a observar as pessoas. Até que sentou-se ao meu lado. Ele já estava um pouco bêbado àquela altura. Tomei duas doses de Tequila e fiquei observando as pessoas dançarem. O baile havia começado e eu estava criando coragem para me levantar daquele banco.
Olhei dançando de forma estranha com três garotas ao mesmo tempo. Ri da cena e decidi que era a hora de voltar para casa. Paguei as bebidas e me levantei do banco. Mas enquanto caminhava para o local da saída, pude avistar uma bela garota, sentada ao lado de uma pilastra de madeira. Vestia uma saia enfeitada e sapatos preto e branco muito arrumados. Não dançava como as outras. Apenas observava sorrindo ou rindo às vezes. Hesitei um pouco, mas decidi ir até lá e chamá-la para dançar.
- Boa noite! – Falei sorrindo, enquanto me sentava ao seu lado.
- Boa. – Falou me olhando de lado.
- Meu nome é , prazer em conhecê-la. A senhorita gostaria de dançar? – Perguntei olhando seus pés batendo ao chão de acordo com o ritmo da música.
- Não, obrigada. – Falou séria.
- Você parece empolgada com a canção.
- Mas não quero dançar com você. – Respondeu. Claro, sua beleza lhe permitia escolher com quem queria dançar.

***
Um rapaz se aproximou de mim aquela noite, como outros vários já haviam feito. O olhei de lado, já pensando no que falar diante de uma cantada péssima, como as várias que havia recebido. Mas diferente dos outros, ele foi direto ao ponto, me chamando direto para dançar, em vez de ficar elogiando meus olhos, sorriso ou penteado. Recusei, claro.
- Por que você prefere ficar aí sozinha à dançar comigo? – Perguntou-me persistente.
- Já ouviu aquele ditado “antes só do que mal acompanhada”?
- Já, por isso mesmo persisto com minha pergunta. Por que recusar uma boa companhia?
- Você é sempre tão convencido assim? – Perguntei o olhando, nos olhos.
- Não, mas costumo ser persistente e ir atrás do que quero. – Falou me olhando.
- Uma dança. – Falei levantando-me e deixando minha mão livre para ele segurar.
- A senhorita que manda. – Falou se levantando e me levando até a pista dança.
Começamos a dançar no ritmo lento da música que tocava, mas depois ele fez algum sinal para um amigo dele que estava na banda, e a música ficou animada, mudando seu ritmo costumeiro. O olhei com olhar reprovativo e ele apenas sorriu para mim, me fazendo rir. Ele dançava incrivelmente bem. Por mais que eu usasse passos que fariam qualquer outro passar vergonha diante de uma boa dançarina, ele conseguia me acompanhar em todos. Sua dificuldade era visível, mas seu esforço em manter a pose também. As músicas foram mudando, e nós continuamos dançando. Ele segurava minha mão e me jogava para frente, me puxava, mexíamos os pés no mesmo ritmo, rodopiava, me levantava no alto e todos aplaudiam. Viramos a sensação da noite. Até que a banda voltou a tocar lento. Sinal de que com mais duas músicas o baile terminaria.
- O que foi aquilo? – Perguntou-me , enquanto saíamos do salão, rindo juntas.
- O que? – Falei a olhando, rindo.
- Você nunca dançou assim no salão, sempre diz que sua dança é profissional demais para os garotos que só querem curtir uma noite.
- Eu sei. Mas esse era diferente. – Falei sorrindo, enquanto me lembrava da noite.
- Então esse tem alguma chance com a inconquistável ? – Perguntou-me.
- Oras, eu não sou inconquistável. Esses garotos que não sabem como conquistar uma dama. – Falei encenando, e ela apenas riu.
Entramos no carro de Gustav, seu namorado. Uma Mercedes. Seu pai era dono de uma rica fábrica da região. era tida como a garota mais sortuda da cidade, pois namorava o melhor partido. Sabe como é cidade de interior, todos sabem de tudo. E muitas sentem inveja de tudo.

***
09 de Novembro de 1944

Depois daquele sábado no baile, eu nunca deixava de ir. Agradeci ao por me chamar aquela noite. Sem isso, não teria conhecido . Nas terças e sábados seguintes, continuávamos a dançar juntos. Mas ela apenas dançava. Nunca aceitou uma bebida ou algum convite meu para sairmos depois do baile ou durante a semana. Aquela dificuldade me instigava cada vez mais a continuar. E a querer consegui-la para mim.
- Tem certeza que não quer ir ao parque amanhã? Vai uma turma de amigos, inclusive sua amiga vai. – Falei tomando refrigerante, enquanto ela pagava por sua água.
- Não sei, acho que estarei ocupada, tentando conseguir um bom estágio.
- Você todo dia tenta conseguir esse estágio? – Perguntei sarcástico.
- E qual o problema? – Perguntou como se não me devesse explicações dos foras que estaria me dando.
- Nenhum. Isso só prova que você é uma péssima dançarina. Afinal, ninguém te quer como estagiária. – Falei e depois olhei sorrindo para ela. Peguei minha jaqueta e saí do salão, voltando para casa. Enquanto ela me olhava saindo, sem acreditar no que escutara e via.
Na quarta passei o dia ajudando meu pai a preparar os pães que seriam vendidos a noite. Depois de muito bater massa e trabalhar junto à fornalha, fui dispensado e peguei minha bicicleta para tomar banho e me arrumar logo, para conseguir chegar ao parque na hora marcada.

***
10 de Novembro de 1944

Coloquei minha saia verde com detalhes em branco, feitos por minha mãe. Minha sapatilha branca, e uma blusa branca. Prendi o cabelo num rabo de cavalo e amarrei com uma fita verde cintilante. Olhei-me no espelho e sorri para mim mesma. Estava bem arrumada. Preparada para ver e mostrá-lo quem ele estava chamando de má dançarina.
Chegamos ao parque na Mercedes do Gustav. , e já estavam na entrada, nos esperando. Saí do carro indo direto abraçar a , e acenei para os outros dois. me olhou sorrindo, como se soubesse que eu iria. O pior que ele estava certo. O olhei com desdém e fui andar de braços dados com as meninas.
O parque era novo na cidade, então todos os brinquedos ainda estavam com uma bela pintura. Cores fortes e vivas. A roda-gigante, a montanha-russa, o carrossel, dentre tantos outros brinquedos, juntamente com a iluminação e os vendedores de pipoca e algodão doce, criavam a magia do local.
e Gustav desapareceram de junto de nós. Enquanto e ficavam correndo de um lado para o outro, indo nos brinquedos de maior velocidade. Os quais eu tinha um pouco de medo, por não conhecê-los muito bem. Então ficamos andando eu e , um ao lado do outro, mas sem dizer uma só palavra.
- Conseguiu o estágio? – Perguntou-me finalmente.
- Não fui tentar, esqueceu que estou aqui? – Perguntei o olhando, sorrindo sínica.
- É mesmo... Falei com a senhora Lory, dona da academia de dança, ela disse que poderia marcar uma entrevista com você. – Falou enquanto caminhávamos.
- Deixe de ser mentiroso. – Falei o olhando irritada, odiava quando mentiam para mim.
- Eu não estou mentindo!
- É quase impossível conseguir falar com a senhora Lory, e muito menos você, que nem dançarino é. – Falei o encarando, enquanto ele apenas ria.
- A senhora Lory é minha madrinha, não sabia?
- Sua... madrinha? – Perguntei abaixando o tom da voz. – Oh! Me desculpe! – Falei abaixando a cabeça. Estágio na academia de dança era o que eu mais queria.
- Tudo bem, sem problemas. Quer ir à roda gigante? – Perguntou olhando para a imensa roda que girava, mas não saia andando por aí.

***
Entramos na roda gigante e assim que começou a girar, ela segurou forte em minha mão. Parecia assustada com tudo aquilo, e logo depois revelou-me que tinha medo de altura, não pude evitar rir.
- Era só falar que tinha medo de altura, não teríamos subido. – Falei ainda rindo.
- Fiquei com medo que você risse de mim, mas não adiantou muito já que estás o fazendo agora. – Falou com os olhos fechados, ainda apertando forte minha mão.
- Desculpe. – Falei parando de rir, mas com muita vontade de continuar. – Olha, pode abrir agora, a vista daqui de cima é ótima! E ela vai ficar um tempo parada.
- Não, não abrirei! – Falou birrenta.
- Nossa! Dá para ver a academia de dança daqui!
- Onde? – Perguntou abrindo os olhos e procurando.
- Ali, veja! – Falei apontando.
- Onde? Não enxergo! – Falou me olhando aflita, me fazendo observá-la por mais tempo do que queria. - O que houve ? – Perguntou me olhando. Ela estava tão linda quanto todas as outras vezes que nos encontramos. Sempre perfumada e bem arrumada. As luzes colocadas na roda gigante faziam seus olhos brilharem, e a vista da cidade atrás dela, a fazia se destacar no meio de tantas miúdas casas lá embaixo, a deixando muito mais atraente e encantadora. Não sabia se era o momento certo, mas nunca fui de muitas palavras para dizer o que queria. Sempre vou direto ao ponto. Hesitei por um instante, mas depois passei minha mão livre (a qual ela não estava apertando) em sua face, a fazendo corar, e me olhar tímida, como se já soubesse o que aconteceria ali. Sorri para ela, que abaixou a cabeça, ainda corada. Levantei sua cabeça enquanto aproximava-me de seu rosto, e finalmente fechei os olhos e selei nossos lábios.

***
Não conseguia acreditar como ele estava agindo naturalmente mesmo depois de termos nos beijado. Ele caminhava normalmente ao meu lado, sorrindo e comentando como era difícil trabalhar na padaria de seu pai, e que não gostaria de passar a vida toda naquela cidadezinha do interior. Eu daria um doce para que ele segurasse em minhas mãos, mas ele não pareceu perceber isso.
- Quer algodão doce? – Perguntou olhando-me.
- Quem? Eu? – Falei ainda aturdida.
- Sim, tem mais alguém aqui conosco? – Perguntou zombeteiro.
- Não, claro que não. – Falei com desdém. – Quero sim, um verde.
- Verde? Mas aqui só vende rosa. – Falou me olhando, sem entender.
- Tanto faz, ouvi falar que também vendiam algodão verde no parque ou perto do parque, não lembro... – Falei pensativa.
- Acho que não é no parque, aqui só vejo dos rosas.
- Quero algodão doce verde, você tem dez minutos para trazer-me.
- E o que eu ganho com isso, a senhorita pode me dizer? – Perguntou-me audaz.
- Minha gratidão já não basta? – Falei inocente. Ele me olhou parecendo gostar do desafio.
- Me espere em frente à barraca de tiro ao alvo! – Falou e saiu correndo, em busca de meu algodão doce verde.

***
Corri o parque inteiro e não achei os benditos algodões verdes. Olhei para o relógio e ainda me sobravam cinco minutos. Dava tempo de ver se tinham na bodega perto do parque. Corri até lá e pude avistar um carrinho de algodão doce saindo. O alcancei e pedi que me desse um verde. O vendedor hesitou um pouco, dizendo que seu horário já tinha terminado, então tive de inventar que minha mulher estava grávida, e desejando algodão doce verde. Primeiramente ele olhou-me de modo estranho, como se eu fosse muito novo para ser pai, mas logo depois fez o algodão e me entregou, agradeci e saí correndo rapidamente até a barraca de tiro ao alvo. Ela não estava lá. Comecei a andar depressa pelo parque, até que a avistei olhando bichos de pelúcias. Cheguei ao seu lado, ainda ofegante, e mostrei o algodão doce.
- Não quero mais. – Falou virando-se de costas para mim.
- Como? – Perguntei ofegante, sem acreditar.
- Se passaram onze minutos. – Falou mostrando-me as horas no relógio.
- Eu cheguei no horário, no local combinado, mas você não estava lá. – Falei ainda ofegando.
- Em nenhum momento falei que estaria. E olha como esse algodão doce está feio!
- Claro! Eu tive que vir correndo! – Falei a olhando com os olhos arregalados.
- Pode comer, estou sem fome mesmo. – Falou sorrindo.
- Tem certeza que não quer? – Falei tirando um pedaço com a mão e colocando na boca. - Sim, tenho. – Respondeu decidida.
- Você deveria provar. – Falei tirando um grande pedaço e passando em sua boca.
- Or! Or! O que é isso? – Perguntou-me fazendo cara de nojo e passando a mão pela boca, limpando-a, enquanto eu não conseguia parar de rir de sua cara.

***
Ele continuava rindo e comentando da minha cara de nojo enquanto caminhávamos pelo parque. Eu continuava irritada. Ninguém nunca ousou e pensei que não ousaria fazer algo assim comigo. Será que ele não sabia que estava saindo com uma das garotas mais cobiçadas da cidade? Puff, aquilo me irritava.
- Quer um ursinho? – Perguntou-me, olhando com receio.
- Você não seria capaz de pegar um. – Falei séria.
- Duvida?
- Duvido.
Então fomos até a barraca de tiro ao alvo, que dava de pequenos a grandes ursos. Ele comprou sete balas, e disse que eram suficientes para ganhar o maior daqueles ursos para mim. Ri com desdém, enquanto o via atirar. E que mira. Ele acertou todas, e eu não pude deixar de ficar boquiaberta. Ganhou o maior urso daqueles, e ainda um pirulito gigante. Quem pareceu não gostar muito foi o dono da barraca, ele proibiu de jogar lá mais uma vez. “Enquanto você estiver vivo, não pise aqui seu trapaceiro!” Lembro até hoje de suas palavras, então saímos correndo de mãos dadas, com medo. Mas rindo ao mesmo tempo.
- Aqui está seu urso! – Falou ofegante, enquanto soltávamos as mãos.
- Obrigada! Quase custa nossa vida! – falei rindo. – Você estava trapaceando?
- Claro que não! Eu e meu pai costumamos caçar nas temporadas de inverno, então, minha mira é ótima! – Falou se exibindo.
- Bom saber... podemos sair por aí em todas as barracas de tiro ao alvo da cidade e conquistar vários prêmios! – Falei sorridente.
- Como se a cidade tivesse muitas... acho que fora essa, deve ter mais duas. – Falou rindo.
- Então sairemos da cidade! Viajaremos o mundo atrás de barracas de tiro ao alvo! – Falei girando de braços abertos.
- Juntos? – Perguntou me olhando.
- Sim! Eu, você, meu marido e sua mulher, o que achas? – Perguntei sorrindo.
- Perfeito! Então só precisaremos de duas passagens! – Falou me olhando.
- Como se eu fosse casar com você... Mas esse plano de viajar o mundo é magnífico! Ganharei diversos ursinhos de pelúcia, e colocarei o nome mais comum da cidade em cada um que ganhar!
- Sabe o que isso parece?
- O que? – Perguntei o olhando, parando de sonhar.
- O fantástico mundo de Bobby! – Falou rindo.
- Ora pois, pois! Mas Bobby não é um garoto? – Perguntei rindo.
- É sim. Mas sua imaginação é tão fértil quanto a dele.
- Não acho, sou tão realista! – Falei sorrindo.
- Muito. – Falou me olhando.

***

23 de Janeiro de 1945

Depois do dia no parque, ela passou a sempre comprar pão na padaria de meu pai, e sempre nos horários que eu estava trabalhando. Sempre parávamos para conversar, enquanto os clientes ficavam dependendo somente de meu pai para servi-los. Havia explicado ao meu velho que encontrara a mãe de meus filhos, ele apenas disse que eu era louco, como minha mãe, que havia morrido em meu parto. Meu pai não gostava muito de falar nela. Sempre acabava chorando. Lembrando de como ela tirava a mecha do cabelo que embaçava sua visão, como andava quando estava feliz, irritada ou ansiosa, seus passos sempre mudavam de acordo com seu humor, segundo ele, era fácil identificar. Contava-me como era cuidadosa com a organização das prateleiras da padaria, e sobre seus planos, de montar uma bodega logo que tivessem mais dinheiro. Todos perdidos diante de meu nascimento, e conseqüentemente, sua morte. Às vezes imaginava que seria melhor não ter nascido. E quando criança, como sempre fui “levado”, as vezes ouvia comentários de que “aquele moleque levado não deveria ter nascido! O amor de seus pais era o mais belo e já visto nesta cidade! Levou a vida de sua mãe e só trouxe desordem com ele!”. Com o tempo, passei a aprender a ignorar esses comentários, e me esforçar para manter meu pai feliz e sadio. Enquanto ele se preocupava da mesma forma comigo.
- Preparada para o teste? – Perguntei enquanto a levava em minha bicicleta até a academia de dança.
- Sim, sim! Treinei bastante esses dias! – Falou sorrindo, enquanto o vento bagunçava seus cabelos presos cuidadosamente.
- Então passará! Você é a melhor dançarina que conheço!
- Sério? – Perguntou-me nervosa e ansiosa ao mesmo tempo.
- Claro. E eu seria louco ou capaz de mentir para você? – Falei rindo.
- Espero que não. – Falou ainda nervosa.

***

02 de março de 1946

Era noite de lua cheia, e o teatro estava lotado. Seria minha primeira apresentação de dança, e principalmente, como melhor aluna da senhora Lory. Estava tão nervosa que minhas mãos suavam, enquanto as meninas diziam que eu já tinha ensaiado milhões de vezes, e que conseguiria. estava trabalhando como costureira, e havia feito minha roupa. Estava comigo para me dar apoio moral e ajudar-me a me vestir. Pedi para que ela visse se já havia aparecido, mas ela estava demorando a chegar.
- Ele veio! – Falou me abraçando por trás.
- Sério? Onde está? Muito longe ou muito perto? – Perguntei ansiosa.
- Está na terceira fileira, com um buquê de rosas vermelhas e brancas em mãos.
- Tem alguém ao seu lado? Seu pai veio?
- Sim. Veio seu pai, , que apareceu mostrando seu anel de noivado dado pelo , e Gustav sentou ao lado deles também. – Respondeu sorrindo, terminando de ajeitar meu cabelo.
- Não acredito! e noivos? Finalmente em? – Falei sorrindo de alegria e ansiedade ao mesmo tempo.
- Pois é. Espero que o Gustav não demore muito! Já estamos namorando a três anos! – Falou emburrada.
- Calma , ele é um rapaz ocupado. – Falei a consolando.
- E você e o ? Quando noivarão?
- Eu e ? Oras, oras! Não seja tão ansiosa! Estamos namorando a apenas um ano e quatro meses!
- Vocês demoraram tanto para começar a namorar... Você é tão birrenta! – Falou me dando um tapinha.
- Não é culpa minha se ele só me irritava! – Falei rindo.
- Ora da apresentação! Todas em seus lugares garotas! – Gritou a senhora Lory, enquanto batia palmas para nos apressarmos. Olhei ansiosa para , que retirou-se para sentar ao lado de Gustav. Respirei fundo e então as cortinas abriram.

***
- Você esteve magnífica todo o tempo! – Falei a rodopiando no ar.
- Você acha? – Olhou-me sorrindo.
- Claro que sim! Gostou das rosas?
- Adorei! São lindas! – Falou abraçando-me enquanto a colava no chão.
- Vamos comemorar! – Gritou aproximando-se de nós.
- Quero ir ao melhor restaurante da cidade! – Gritou , levantando os braços.
- Tenho que voltar para casa hoje. – Falei a olhando. Hesitante.
- Deixe de piadas! Você falou que hoje a noite era minha!
- Eu sei. Mas preciso ir. – Falei sério, ela pareceu perceber que não era brincadeira.
- Não acredito ! É sempre isso! Você nunca pode estar comigo! – Falou irritada, afastando-se de mim.
- Eu me esforço para estar ao seu lado! Sempre venho visitar minha madrinha, e você sabe que é para poder te ver! – Falei segurando sua mão.
- Mas nunca fica muito! Sempre apressado para ir trabalhar! Sempre apressado para fazer coisas diversas que nunca sei o que são!
- Já falei que são coisas minhas. Assim como você tem sua vida, eu tenho a minha. – Falei tentando acalmá-la.
- Esse é o problema! Eu tenho minha vida, você tem a sua, não temos a NOSSA vida! Que casal sobrevive a isso? – Perguntou-me enquanto puxava sua mão, tirando-a da minha, e seus olhos enchiam de lágrimas, enquanto ela prendia o choro. Fiz sinal de que iria abraçá-la. Mas ela afastou. Aquilo me matava por dentro. A cada discussão nossa, uma parte de mim ia embora. Olhei para meu pai, esquentando as mãos, mesmo estando de casaco e a noite não estando tão fria.
- Sinto muito. – Falei a olhando, enquanto uma lágrima escorria em sua face. Por mais que aquilo me machucasse, ver meu pai morrendo aos poucos me feria ainda mais.
- Se for assim, não dá para continuar. – Falou com firmeza.
- Não posso lhe garantir que mudará. – Falei a olhando, sério.
- Então não me procure mais. – Falou e saiu correndo para o carro do Gustav, onde todos estavam esperando nossa discussão acabar.
Nossas brigas estavam ficando freqüentes, desde que descobri a doença de meu pai, me empenhava para mantê-lo vivo e sadio. Morávamos no interior, e lá não tinha bons médicos, apesar da ótima faculdade de medicina. Muitos se formavam e iam trabalhar na cidade, e muitos vinham da cidade para estudar lá, e depois voltar para a cidade. Não sei ao certo como meu pai contraiu a doença, e quanto tempo fazia, afinal, disseram que ela se mostrava aos poucos, e infelizmente, a de meu pai já estava num estágio muito grave. Ele não me avisou antes que estava cuspindo sangue, só descobri quando vi seu travesseiro sujo. Se alguém na cidade descobrisse que ele estava com tuberculose, provavelmente nossa padaria iria falir, ninguém mais se aproxi dele, dentre tantas outras coisas vindas com o preconceito, ainda maior em cidades do interior, pouco instruídas sobre doenças, e muito preconceituosas com tais.
Assim que descobri a doença de meu pai, procurei pesquisar mais sobre ela, suas formas de transmissão e tudo o mais. Não conseguia deixá-lo mais fazer muita coisa, com medo de que sua doença piorasse cada vez mais. O repouso era obrigatório, apesar dele não querer sair da padaria. Só aceitou depois que lhe expliquei que a padaria poderia falir, caso alguém o visse tossindo tanto, e ainda mais, com sangue. Passei a estudar nos horários que não trabalhava na padaria. Passei no vestibular para medicina e havia começado o curso. Queria ser capaz de conhecer muito, e assim, talvez, poder ajudar meu pai. sempre reclamava que nunca tinha muito tempo para vê-la, mas era inevitável. E havia prometido a meu pai que não contaria para ninguém de sua doença. Ninguém mesmo.

***

Capítulo Segundo.

23 de maio de 1945

Era noite de sábado, e estávamos dançando no salão de dança de sempre. se tornara impecável em seus passes de dança. Ele me dizia que estava treinando, para poder me acompanhar agora que eu era uma aluna da academia de dança.
Estava o esperando trazer as bebidas, sentada num banco ao lado de uma pilastra de madeira. Ele parou em minha frente, segurando dois copos de tequila, e ficou olhando-me.
- O que foi? – Perguntei o olhando.
- Nada, só queria apreciar um pouco. – Falou aproximando-se e entregando-me a bebida.
- Que cantada horrível... – Falei bebendo um pouco.
- Estou falando sério. – Falou virando o copo. – Quer ser minha garota? – Perguntou olhando-me nos olhos.
- Como? – Perguntei surpresa com a proposta repentina.
- Quer ser minha namorada? – Perguntou sorrindo. Seu belos olhos azuis brilhavam como nunca antes. Meu coração palpitava, enquanto eu o olhava sorrindo, sem conseguir fazer com que palavra alguma saísse de minha boca. - Ótimo! – Falou ele roubando-me um beijo demorado.
- Você sabe se iria aceitar? – Perguntei sorrindo, surpresa.
- Claro que ia! – Respondeu me puxando para dançar, enquanto tirava o copo de minha mão e colocava no banco.
Dançamos o restante da noite. Inclusive as duas últimas músicas lentas, que avisam que era hora de ir. Nosso grupo de amigos, que estavam todos já namorando, pagaram um brinde em nossa homenagem, dizendo que só o para conseguir roubar meu coração e que só eu para conseguir mantê-lo no eixo. Foi uma das noites mais felizes de minha vida.

***

12 de Junho de 1945

Tínhamos marcado de nos encontrar na praça da cidade. Para irmos juntos até o circo que estaria lá durante uma semana inteira. Terminei de arrumar as coisas em casa, enquanto meu pai fechava a padaria. Peguei a bicicleta e fui a seu encontro. Ela estava linda. Como sempre.
- Você acha que veremos a mulher barbada? – Perguntou-me sorridente.
- Claro! Se não tiver mulher barbada, peço meu dinheiro de volta! – falei sério.
- Isso mesmo! E obrigaremos eles a fazerem uma mágica para que alguma mulher da platéia fique com barbas! – Falou rindo.
- Contanto que não seja você, to pagando para ver! – Falei segurando sua mão, enquanto caminhávamos até a bilheteria.
- E se eu ficasse barbada? Já pensou? Você ainda me a? – Perguntou-me curiosa.
- Talvez... se você fizesse a barba diariamente... – Falei pensativo, enquanto recebia um tapa.
- Pois terei barba, e não a farei, será tão grande que terei de lavar com duas caixas de sabão em pó! – Falou rindo. – Ainda namoraria comigo? – Perguntou me testando.
- Claro Bobby, claro! – Falei rindo.
- Onw! Esse nome é de garoto! – Falou fingindo aborrecimento.
- Mas é o que você viraria com barbas! Ora, pois, pois! – Falei imitando sotaque português.
- Não, seria uma mulher barbada, preciso de um nome mais feminino. – Falou estufando o peito.
- Que tal... Bobbie?
- Bobbie? Mas é muito parecido com Bobby...
- Essa é a intenção... – Falei a olhando de lado.
- Ah sim! Eu sabia! – Falou rindo, enquanto caminhávamos abraçados até a arquibancada onde todos estavam sentados.
Nesse dia ela falou mais loucuras do que o normal. Sua imaginação estava em alta temporada. Haha. Então desde esse dia a apelidei de Bobbie, e só a chamava assim. Ela gostou do apelido, pois a lembrava de nossa noite juntos no circo, vendo coisas que nenhum de nós dois conhecíamos. Animais ferozes e pessoas que conseguiam fazer coisas incríveis! Então, desde esse dia, sempre a chamava de Bobbie, só a chamava pelo nome quando estava irritado com ela.

***

25 de Julho de 1947

- Você só consegue pensar em você, ! – falou irritado. Estava me chamando pelo nome, sabia que era um mau sinal.
- Já falei que estou pensando em nós! Você prometeu que nunca mais pensaríamos individualmente, mas sim em nós!
- O que você quer que eu faça? Estou me empenhando para terminar a faculdade, medicina não é algo fácil! Meu pai já está muito velho para trabalhar na padaria, estou tendo que confiar nos funcionários que coloquei lá! Preciso falar com os fornecedores de trigo, minha vida está uma bagunça!
- E por isso acha que pode ficar anos comigo e não me pedir em casamento? – Falei irritada.
- Eu já falei que vamos nos casar! Você é a mulher que quero para ser mãe de meus filhos! Tente me entender! - Falou sentando-se no banco da praça, enquanto apoiava os cotovelos nas pernas e enfiava a cabeça entre as mãos.
- Eu tento! Mas você sabe como são as pessoas! Hoje faz dois anos e seis meses que estamos juntos! As pessoas não param de comentar!
- Você se importa com os comentários dela ou comigo? – Falou levantando a cabeça para me olhar. – Sua amiga mesmo! A ! Demorou três anos para casar! Alguém falou?
- Sim, falaram e muito! Mas ela foi forte para agüentar os comentários. Mas eu não sou! Você sabe! Odeio o jeito que me olham na rua! Dizendo que você está me enganando! Que fui tão crítica para escolher um namorado e agora este está me fazendo de tola!
- ! Espere as coisas se acalmarem! Não tenho só você em minha vida! Preciso cuidar de minhas coisas também!
- Você sempre pensando no singular, e eu sempre tentando pensar no plural. Como vamos viver assim? Preciso de alguém que também se preocupe comigo, que tenha mais tempo para ficar ao meu lado... – Falei sem conseguir prender as lágrimas que insistiam em cair.
- Você está querendo terminar de novo? É isso? – Perguntou se levantando e me olhando nos olhos.
- Já terminamos tanto... eu não sei mais o que fazer...
- Eu me esforçarei, prometo. – Falou se aproximando de mim, enxugando meu rosto com suas mãos.
- Desculpa. Eu tento te entender, mas você não me explica. Minhas notas na academia de dança até caíram. Ando tão preocupada com você. Não sei o que está passando, mas anda sempre tão ocupado. Me diga o que é, assim posso lhe ajudar. – Falei tentando parar de chorar, mas sem sucesso.
- Já falei que não posso lhe dizer, Bobbie – Falou abraçando-me. – Mas já está no fim. Mais alguns meses e tudo voltará ao normal. Precisarei apenas me dedicar à faculdade. Prometo.
- Como está seu pai? Faz tempo que não o vejo... muito tempo.
- Está bem. Quer visitá-lo?
- Ele não está ocupado ou em depressão ainda? – Perguntei levantando o rosto para o olhar.
- Não. – Respondeu sorrindo. – Ele está se recuperando, disse que quer lhe ver, também sente saudades.
- Então, quando posso ir lá?
- Amanhã mesmo.
- Então tá. Agora preciso ir para casa, está ficando tarde.
- Eu te levo. – Falou segurando minha mão.
Subimos em sua bicicleta e fomos até minha casa. Ele me pediu desculpas, por não estar me dando a devida atenção, e eu pedi desculpas pelas tantas vezes que já havia brigado com ele. Vimos que não tinha ninguém na rua, e então nos beijamos, em despedida. Estava subindo uma pequena escada que levava à porta de minha casa, quando ele me puxou pela mão.
- Oi? – Perguntei o olhando, vendo-o se ajoelhar na escada e sorrir com o canto da boca para mim.
- Quer se casar comigo? – Perguntou me olhando.
- Eu te amo. – Falei com os olhos cheios de lágrimas e o abraçando forte assim que se levantou. Nos beijamos novamente e então ele entrou em minha casa. Para pedir minha mão a meu pai. Ele parecia nervoso com tudo aquilo, afinal, não foi um pedido planejado e com tempo para ensaios. Mas meu pai concordou, apesar de ter dito que não poderíamos passar mais de dois anos noivos, para as pessoas não comentarem. Ele concordou e eu também. Abrimos um vinho antigo, guardado para ocasiões especiais. E tomamos todos em família. levou um pouco numa pequena garrafa, para poder entregar a seu pai.

***

09 de Julho de 1948

O sol estava forte, mas a construção não poderia parar. Com as férias na faculdade, havia decidido acelerar a construção de nossa casa, para então podermos nos casar. e Gustav estavam me ajudando, junto com outros amigos. Claro que antes de entrar de férias, já havia pago alguns pedreiros para começar a construção. O terreno fora doado pelo meu pai. Era o terreno que ele e minha mãe haviam comprado para a construção da bodega. Mas meu pai nunca quis construir, já que era um sonho dos dois, um sonho plural, conjunto, e segundo ele, não poderia ser realizado sem uma das partes.
- Amor! O almoço já está pronto! Chame os rapazes! – Gritou Bobbie para mim, que estava pendurado no telhado da casa. Quer dizer, futuro telhado.
- Já estamos indo!
- Venha logo se não a comida esfria!
- Como está meu filho? – Perguntou Gustav, aparecendo ao meu lado no telhado.
- Está muito bem! Chutando a barriga da como nunca! Ela até sentou para descansar! – Respondeu rindo.
E assim continuamos durante todas as nossas férias. E depois os pedreiros continuaram, eu e Bobbie escolhemos as tintas para a casa, onde os móveis ficariam, e então estava tudo pronto dentro de um ano e seis meses. Inclusive a data do casamento já havia sido marcada. Roupas compradas e convites feitos. Meu pai já havia se curado da tuberculose, e voltara a trabalhar na padaria, mas agora, não mais junto à fornalha, somente no caixa. Conversar com as pessoas lhe fazia bem.

***

25 de maio de 1949

Apesar da casa não estar ainda com todos os móveis completos, tínhamos a cozinha, o quarto e o banheiro, além de alguns poucos móveis na sala. Mas não agüentávamos mais esperar. Era o dia de nosso casamento e eu estava incrivelmente ansiosa. Mais ainda do que em minha primeira apresentação no teatro da cidade. e estavam comigo em meu quarto, me ajudando a me arrumar. Enquanto todos os convidados estavam me esperando na igreja. Talvez o único tão ansioso quanto eu e , era meu pai, que não parava de bater na porta de meu quarto, perguntando se já estava pronta.
Cheguei à porta da igreja e entrelacei meu braço ao de meu pai. A marcha nupcial começou a tocar, e todos olharam para trás para me ver entrar.

***
Ela estava radiante. Seus olhos e sorriso brilhavam mais que o céu cheio de estrelas, visto de fora da igreja. Ela me olhava, e eu a olhava. Sorrindo como um idiota. Enquanto meu coração acelerava, e a cada passo seu, sentia a certeza de que ela era a mulher que eu queria passar o resto da vida, aumentar. Olhei para o lado, e me olhou me parabenizando. Podia não ser o casamento mais luxuoso, nem o mais comentado pela cidade, até mesmo talvez nem o mais esperado, mesmo com tantos comentários e dúvidas se iríamos mesmo nos casar, mas com certeza, eu não queria nenhum casamento que não fosse aquele. Com nenhuma outra garota que não fosse a minha, minha querida Bobbie.
- Aceito. – Falei a olhando e sorrindo.
- Aceito. – Falou me olhando sorrindo.
- Os noivos podem se beijar. – Falou o padre.
- Eu te amo. – Falei a olhando.
- Eu te amo. – Falou me olhando enquanto uma lágrima de felicidade escorria por sua face. Então me aproximei e dei-lhe um beijo na testa.
– Eu te amo querida, eu te amo Bobbie. – Sussurrei para ela e a levantei um pouco, então a beijei. Todos aplaudiram. Era nosso dia. Sim, o plural. O dia que mesmo que o singular brigasse para reaparecer, eu jamais deixaria que o plural saísse de nossas vidas.

***
- Vá mais devagar! Não quero morrer no dia de nosso casamento! – Falei rindo.
- Claro que não morreremos! Não morro antes da lua de mel! – Falou me olhando e rindo.
- Olhe para a pista! Você está muito amostrado com esse conversível!
- Nunca pensei que fosse dirigir um carro tão bom! – Falou rindo.
- Temos que agradecer ao Gustav por ter nos emprestado seu carro mais novo para ficarmos durante a lua de mel!
- Temos sim querida, temos. – Falou dirigindo com mais cuidado.
- Onde vamos? – Perguntei.
- Como?
- Não quero ir direto ao hotel. Vamos para na ponte que leva à outra cidade. A vista de lá é linda! Com tantas árvores e o rio limpo passando embaixo! – Falei sorrindo, lembrando de meus passeios quando criança.
- Então iremos parar na ponte. Te colocarei na lataria do carro, como nos filmes que vemos. – Falou sorrindo.
- E me fará juras de amor? – Falei o olhando, risonha.
- Talvez, talvez... você sabe que não gosto de jurar ou prometer nada.
- Eu sei... mas nem de amor?
- Já falei que te amo, por que tenho de prometer algo? – Perguntou distraído.
- Verdade. – Falei, evitando alguma briguinha besta no dia de nosso casamento.

***
[N/a: Que tal colocar a música na qual a fic foi um pouco baseada para carregar? Mas só escute quando a mesma começar. Dear Bobbie - Yellowcard]

Capítulo Terceiro.

Entramos no quarto do hotel. Eu a carregava nos braços, enquanto ríamos juntos, das besteiras que vínhamos falando durante o caminho. O local era lindo, e muito luxuoso. Presente do Gustav, , e . Sempre bons amigos, nunca nos deixava na mão. Entrei com o pé direito, como ela havia me pedido. Fechei a porta do quarto com os pés, e sem soltá-la, virei a chave, trancando. Caminhei até a cama e a deitei com cuidado.
Seu jeito meigo e ao mesmo tempo birrenta e sapeca de ser, me encantava a cada dia mais. Era ela, e nenhuma outra. Passamos nossa primeira noite de casados naquela cama, naquele hotel. Juntos. Unidos. Um plural que poderia ser confundido como um singular, agora que éramos um. Mas pensávamos sempre na alegria em conjunto.
Acordei antes que ela. Então a vi enrolada no lençol branco, ao meu lado na cama. Fiquei a admirando, dormindo. Enquanto acariciava seus braços. Ela então se mexeu na cama, abriu os olhos e virou-se para meu lado.
- Bom dia amor... – Falou ainda sonolenta.
- Bom dia querida. – Falei a olhando. – Quer tomar café agora? – Perguntei.
- Não. Quero ficar mais tempo com você aqui. Nessa cama, só eu e você. – Me olhou sorrindo sapeca.
- Que fogo! Chamem os bombeiros! – Falei um pouco mais alto, a fazendo corar e tapar minha boca com um beijo.
- Seu louco!
- Louco por você. – Falei rindo enquanto me deitava a seu lado.

***

Passamos a manhã no quarto, e à tarde fomos conhecer as maravilhas do hotel que estávamos hospedados. sabia andar à cavalo, então aproveitou os do hotel para matar sua saudade e vontade. Caminhamos junto, de mãos dadas, conhecendo os diversos lugares do hotel. Até encontramos um rio com uma pequena cachoeira. Então decidimos tomar banho, mesmo sem ter levado uma roupa de banho para o local.
- Está tão fria! – Falei esquentando as mãos.
- Claro, Bobbie! É cachoeira, não terma! – Falou rindo.
- Seu besta! – Falei jogando água nele. Enquanto era envolvida por seus braços.
- Me xingando em nossa lua de meeel? Mulheeer! Respeite seu marido! – Falou fazendo voz braba e nós dois rimos.
- Será que vamos ficar assim para sempre? – Perguntei o olhando.
- Eu pretendo voltar para o quarto hoje, e você? – Falou sério e depois sorriu zombeteiro.
- Você sabe do que estou falando. – Falei rindo enquanto selava nossos lábios.

***
Já era tarde da noite, e estávamos apenas enrolados em um lençol. Ela estava em cima de meu tórax, com a cabeça levantada para poder me olhar, enquanto eu acariciava suas costas.
- Gostaria de ficar assim com você, sem brigas, pelo resto de nossas vidas. – Falou me olhando.
- Dizem que brigas são inevitáveis...
- Eu sei...
- Então podemos ficar assim, pelo resto de nossas vidas, mesmo que briguemos um pouco. – Falei sorrindo, então ela sorriu para mim.
- Menino ou menina?
- Tanto faz, sendo parecido com você. Porque se puxar ao pai vai ser feio viu!
- Feio... queria eu que todos os feios do mundo fossem como você! – Falou me olhando, sorridente.
- Assim vou ficar convencido...
- Eu deixo. Só por uma noite. – Falou rindo. – E quando eu estiver velha?
- O que tem?
- Você ainda vai me amar, mesmo meu corpo tendo mudado tanto?
- Sempre. Afinal, o meu também terá mudado.
- E se eu ficar muito feia?
- Eu fico míope.
- E quando eu estiver triste?
- Eu viro um palhaço.
- E se eu ficar uma chata? – Falou rindo.
- Você já é chata, Bobbie. Mas eu te faço cócegas. – Falei a olhando.
- E... se eu ficar gorda? – Falou arregalando os olhos e inchando as bochechas.
- Eu quebro todos os espelhos da casa.
- Então... você sempre ficará comigo, me amando? – Perguntou-me sorrindo.
- Se você estiver do meu lado quando cada dia começar, eu vou me apaixonar por você outra vez. – Falei e então a virei para a cama, a beijando. – Sem mais perguntas?
- Sem mais. – Respondeu sorrindo e voltando a me beijar.

***
06 de Agosto de 1955.

Era noite chuvosa, anunciando o dia que eu havia tido. Estava exausta, com os pés doloridos de tanto dançar, ensinando crianças na academia de dança. O jantar havia queimado, e a bomba que levava a água até o chuveiro havia quebrado. Estava esperando chegar com o resultado do exame. Aguardava ansiosa. Até que a porta bateu forte. Era ele anunciando sua chegada. Estava molhado devido a chuva. Tirou o casaco e sentou-se no sofá com os papeis do exame. Os dois envelopes ainda fechados. Sentei ao seu lado, ansiosa.

***
- A culpa não é sua querida! – Falava do outro lado da porta do banheiro, enquanto escutava seu choro.
- Eu sou uma inútil! Nem para lhe dar um filho eu sirvo! – Gritava ainda chorando.
- Querida, nós podemos adotar um... – Falei tentando a acalmar.
- Não! Eu quero TER um filho! Quero poder lhe dar um filho de meu ventre!
- Querida, nós já vimos que não é possível, não adianta perdemos tempo chorando por isso. Isso irá te causar rugas, em?
- Saia daqui ! Saia! – Gritou chutando a porta do banheiro.
Sentei-me encostando na porta. Ouvindo seu choro, o que me feria por dentro, fazendo-me chorar baixo. Por mais que aquilo fosse difícil para mim, sabia que era ainda mais difícil para ela. Criamos muitas expectativas em nossos futuros filhos. Na construção da casa até fizemos dois quartos a mais para poder colocá-los. Eu não sabia como confortá-la, afinal, eu mesmo precisava ser confortado.
- já tem dois filhos... – Falou chorando, abrindo a porta do banheiro, ao amanhecer do dia.
- Eu só preciso de você. – Falei levantando-me.
- Queria aumentar nosso plural. – Falou enquanto ainda desciam lágrimas em sua face. Eu apenas a abracei.
- Tudo ficará bem. Se não quiser adotar, veremos o que fazer depois.
- Não existe modo de termos um?
- Seria muito arriscado.
- Eu não me importo! – Falou me olhando.
- Mas eu sim.
- Eu preciso, como mulher, te dar um filho, ! – Falou séria.
- Minha mãe já morreu para me ter! Eu não vou perder mais uma mulher em minha vida! – Falei firme e sério. Aquilo doía em mim. Cada vez que pensava que ela poderia ter morrido se tivesse engravidado durante nossas tentativas de ter um bebê.
- Eu ficarei velha, você ficará velho, não teremos ninguém para cuidar de nós... – Falou chorando, enquanto me abraçava forte e afundava seu rosto em meu ombro.
- Teremos um ao outro. – Falei colocando um fim na conversa. Então sentamos no sofá e ficamos abraçados, chorando juntos e confortando um ao outro durante um longo tempo, até que nós dois adormecemos.

***
07 de Março de 1962.

Tínhamos reservado o dia para pintar a casa. havia comprado móveis para poder criar sua biblioteca em um dos quartos vagos, e o outro estava ocupado por seu pai, que agora, mais velho, morava conosco. Eu estava ganhando bem como professora de dança, e ele mais ainda como médico. Pessoas de outras cidades vinham para o interior para se consultar com ele. Eu já havia perguntado, mas ele não queria mudar para a cidade grande, para a metrópole. Disse que não faria como os outros médicos, daria saúde e hospitalidade digna aos habitantes daquela região.
e estavam morando na cidade, mas nos feriados vinham nos visitar. Gustav continuava com a fábrica do pai, herdada por ele, logo, ele e ainda moravam na cidade. Numa casa até bem próxima à nossa. Apesar de algumas mudanças na cidade, algumas coisas continuavam a mesma. Apenas sentia falta do salão de dança no bar, que devido à pouca movimentação, estava quase fechando. Mas eu, , Gustav e nunca deixávamos de ir dançar nos sábados, para dar um apoio ao dono.
- Bobbie! A sala é dessa cor mesmo? – Perguntou-me enquanto passava o pincel na tinta.
- Não amor! Essa é para nosso quarto! – Respondi correndo até ele.
- E agora? Acho melhor começarmos pelo quarto! – Respondeu pensativo.
- É só lavar o pincel, senhor esperteza... – Falei o olhando, batendo um pé no chão.
- Claro, senhorita sabe-tudo! – Falou rindo, enquanto me puxava para um beijo.
- Minha roupa! – Falei puxando o vestido, agora sujo de tinta.
- Desculpa! – Falou rindo. – Olha aí, mudei seu visual! Não precisa mais de um vestido novo!
- Mudou é? – Falei pegando um pincel e passando na tinta.
- Não... Bobbie, você não... Ah! – Gritou quando passei o pincel em seu braço.
- É assim é? – Falou me olhando, mostrando seu pincel como arma.
- Só descontei, nem vem. – Falei rindo.
- Hã? Hã? – Falou usando o pincel como uma espada, enquanto eu caminhava para trás.
- ... – Falei séria.
- Fuja ou será morta! – Gritou e começou a correr atrás de mim, enquanto eu corria pela casa.
No fim do dia, não só a casa, mas nós dois estávamos pintados, e de diferentes cores. Nos sentamos no chão do quarto e ficamos abraçados, eu encostava minha cabeça em seu peitoral, enquanto admirávamos nossa obra de arte.
- Acho que poderemos ganhar o próximo prêmio de melhores artistas plásticos! – Falou rindo.
- Amor, como pintor, você é um ótimo médico! – Falei rindo junto.
- E você uma ótima dançarina. – Falou beijando minha testa.
- Eu não preciso de mais nada além de você.
- Eu também não Bobbie, também não.

***
09 de Setembro de 1992.

Cheguei em casa sem fazer barulho. Estava cansado, então fui direto sentar em minha cadeira, numa boa posição, que dava para ver a tevê e a Bobbie cozinhando. Ela havia se aposentado da academia de dança. Fazia duas semanas. Sua aposentadoria foi uma desculpa, pois os novos coordenadores só queriam professoras novas. Mesmo que a Bobbie fosse competente, queriam se livrar logo dela. Como sentiu não mais ser bem vinda, decidiu aposentar-se.
Tirei os sapatos, cansado. Ouvi um som de conversa vindo da cozinha. Então caminhei devagar até a entrada, e parei. Ela estava no telefone, provavelmente com a .
- Eu me sinto tão inútil. Você é minha amiga, diga a verdade! Eu estou velha, feia! Já tenho cabelos brancos! Aposentei-me mais cedo só para prevenir uma demissão. Sou um fracasso... sei... muito... Não tem amor que sobreviva a isso, ! Nem ao menos um filho eu pude lhe dar! Não estamos mais como antes! Ele chega cansado do trabalho, jantamos e vamos dormir. Eu sei que ele tenta conversar comigo, mas acho que é por obrigação. Tem tanta gente mais bonita para ele se interessar! Aquela secretária do consultório dele mesmo! Jovem e bonita! Garanto que adoraria pegar um velho médico rico! ... sei... entendo... não falei, nem vou falar... Você sabe, não consigo mais conversar com ele, tenho medo que ele peça o divórcio. Eu o amo tanto!
E então aquilo foi o suficiente, não agüentaria ouvir mais. Não agüentaria ver minha mulher entrando em depressão, sem ao menos conseguir me contar o que estava passando em sua cabecinha cheia de imaginações férteis.
Sentei em meu birô, na biblioteca, peguei um papel, uma caneta, e então escrevi uma carta. Tomei banho, vesti meu pijama. Ela pareceu não ter percebido que eu já estava em casa. Assistia tevê. Deitei-me e coloquei a carta dentro de um envelope, no lado da cama em que ela dormia. Então acabei dormindo, devido ao cansaço do dia.

***
Esperei chegar o máximo que pude. Os pensamentos de que ele poderia estar me traindo não saíam de minha cabeça. Tentei manter-me firme, para não chorar. Tentei lembrar dos conselhos da . Guardei o jantar na geladeira e subi para o quarto. Assustei-me quando o vi deitado, dormindo. Sorri para o nada. Coloquei a camisola, mas quando fui deitar, havia uma carta em cima da cama. Endereçada dele para mim. Acendi o abajur ao lado de minha cama, coloquei os óculos e comecei a ler.

[N/a: Hora de dar play na música *-* E pra quem não perceber, a voz rouca e frágil que aparece algumas vezes na música, é do seu love já velhinho <3 ]

Dear Bobbie,
(Querida Bobbie,)
Do you remember when you were young and very pretty?
(Você lembra quando você era jovem e muito bonita?)
I do, I remember pleated skirts, black and white sattle shoes.
(Sim, eu lembro das saias enfeitadas, sapatos preto e branco.)
Do you remember dancing that night?
(Você se lembra de dançar aquela noite?)
I do, I still think of you when we dance, although we cant jitterbug as we did then.
(Eu ainda penso em você quando dançamos, embora nós não podermos mais dançar tão bem como antes)

Do you remember when
(Você lembra quando)
How long has it been?
(Quanto tempo já faz?)
1945 you opened my blue eyes
(1945, você abriu meus olhos azuis)
To see a whole new life
(Para ver uma vida toda nova)

Do you remember when
(Você lembra quando)
I told you this that night,
(Eu te disse isso aquela noite)
That if you're by my side
(Que se você estiver do meu lado)
When everyday begins
(Quando cada dia começar)
I'll fall for you again
(Eu vou me apaixonar por você outra vez)
I made a promise when
(Eu fiz uma promessa quando)
I told you this that night
(Eu te disse isso aquela noite)

I'll be fine
(Eu vou ficar bem)
'Cause When I die, then I die loving you
(Porque quando eu morrer, então eu vou morrer amando você)
It's alright, I'll be fine
(Está tudo certo, Eu vou ficar bem)
When I die then I die loving you
(Porque quando eu morrer, então eu vou morrer amando você)
Loving you, loving you
(Amando você, Amando você)

Do you remember the times we would give up on each other
(Você lembra as vezes que nós desistíamos um do outro)
and get back together, then we finally was married in 1949.
(Voltávamos a ficar juntos? Então a gente finalmente se casou em 1949)
We drove the yellow convertible all night long.
(Nós dirigimos o conversível amarelo a noite inteira.)
Do you remember? I do.
(Você lembra? Eu lembro.)

Life has led us here
(A vida nos conduziu até aqui)
Together all these years
(Juntos todos esses anos)
This house that we have made
(Essa casa que construímos)
Holds twenty-thousand days
(Segura vinte mil dias)

And memories we've saved
(E as memórias que guardamos)
Since life has lead us here
(Desde que a vida nos conduziu até aqui)

I'll be fine
(Eu vou ficar bem)
'Cause When I die, then I die loving you
(Porque quando eu morrer, então eu vou morrer amando você)
It's alright, I'll be fine
(Está tudo certo, Eu vou ficar bem)
When I die then I die loving you
(Porque quando eu morrer, então eu vou morrer amando você)
Loving you, loving you
(Amando você, Amando você)


I'm coming home to you
(Estou voltando para casa por você)
Stepping off my shoes
(Tirando meus sapatos)
Resting in my chair
(Descansando em minha cadeira)
See you standing there
(Vejo você lá em pé)
The silver in your hair
(O cinza em seu cabelo)

I'm coming home to you
(Estou voltando para casa por você)
When I lay tonight, when I close my eyes
(Essa noite quando eu deitar, quando eu fechar meus olhos)
I know the sun will rise
(Eu sei o sol vai nascer)
Here or the next life
(Aqui e na proxima vida)
As long as you're still mine, then its alright
(Enquanto você for minha, então está tudo certo)

I'll be fine
(Eu vou ficar bem)
'Cause When I die, then I die loving you
(Porque quando eu morrer, então eu vou morrer amando você)
It's alright, I'll be fine
(Está tudo certo, Eu vou ficar bem)
When I die then I die loving you
(Porque quando eu morrer, então eu vou morrer amando você)
Loving you, loving you
(Amando você, Amando você)

You have gray hair now but you're a beautiful women
(Você tem cabelos grisalhos agora mas é ainda uma mulher linda)
and the years have been good to both of us.
(E os anos tem sido bons para nós dois.)
We walk slow now, but we still have each other.
(Nós agora caminhamos devagar, mas ainda temos um ao outro.)
The glue of love is still bonding us together.
(E a cola do amor está ainda nos mntendo unidos.)
Love is what I remember.
(É disso que eu me lembro,)
Do you remember?
(você se lembra?)

Dobrei o papel da carta enquanto não conseguia evitar que as lágrimas caíssem. Olhei para o lado e vi o homem de minha vida dormindo, cansado após um longo dia de trabalho. Guardei a carta em minha gaveta, enquanto enxugava as lágrimas que insistiam em descer. Desliguei a luz do abajur e deitei-me ao seu lado, o abraçando e apoiando minha cabeça em seu peitoral.

***
Eu apenas sorri. Era ela o que eu queria, desde o começo. Só ela.

Fim.


N/a: Ooooi gente! E aí? Gostaram da fic? Eu adoro essa música, a letra dela simplesmente me emociona/me faz chorar. Então não podia deixar de fazer uma fic sobre ela. Espero não ter estragado ;-;

Explicações: Pra quem notou um erro de datas, sim, o desenho “O fantástico mundo de Bobby” não é nem em sonho da época que se passa a história, mas foi a única forma que achei de enfiar o apelido fixo na fic. Se vocês me perdoarem eu fico feliz *--*

Agradecimentos:
Quero agradecer aqui aos meus amigos que me apóiam como projeto de escritora <3
A Kakis que fez a capa da fic pra mim, porque eu sou inútil nesse tipo de coisa <3
Ao yellowcard por ter feito uma música tão linda <3
As pessoas que comentaram/estão comentando (espero que alguém comente neh’-‘)
E a minha beta diva luxo que é um arraso de rapidez e de entusiasmar ^^ <3

Pra quem ainda não leu, dá uma olhadinha na minha outra fic *-* Três Garotos para uma Garota! <3 Estilos diferentes, mas feita com carinho do mesmo jeito. EH

N/b: Own Alice nem precisa me agradecer! *-*
Foi um prazer betar essa sua fic liiinda demais! *-*
Amei mesmo! *__*
E todo mundo comentando viu?!
Qualquer erro, por favor: cah.teague@gmail.com
xx