
Aquilo estava muito estranho. A primeira coisa que vi foi a claridade do céu cinzento; senti o ar frio bater em minha pele descoberta, mas o que realmente fez um arrepio avassalador correr por minha espinha foi à imagem de um garoto de costas.
Não, por favor, não.
- Estava te esperando, amor – sua voz cortou o vento.
Eu paralisei enquanto ele se virava para mim, revelando a única face que eu não queria ver nunca mais nesse mundo.
- Você não vai me dar um abraço de boas vindas? – Ele deu um passo em minha direção, me fazendo instintivamente dar um passo para trás. – Por que está com essa cara? Você não está feliz em me ver?
Eu soube a partir dali que minha vida voltaria a ser o mesmo inferno de antes, era como um pesadelo do qual eu não conseguia acordar – e não sabia se um dia conseguiria novamente. Mas seria eu capaz de lidar com tudo aquilo novamente? Eu teria de ser, e isso ia além de minha própria proteção, pois agora eu não estava mais sozinha.
Capítulo 1
Drive
Ótimo, está todo mundo me olhando. Aproveitem e tirem uma foto de uma vez. Escola nova, casa nova, cidade nova, país novo, continente novo! Mas não acaba aí. Vida nova, família nova.
Sempre gostei de me mudar de lugar e de escola, mas precisava exagerar? Mudar três vezes de estado não bastava, não? Eu tinha que mudar de continente? Certo, eu admito, eu estou amando esse lugar. Apesar de ser tudo muito diferente do Brasil, eu sempre fui apaixonada por Londres.
Continuei caminhando nervosa e com a cabeça abaixada pelo estacionamento com Lauren ao meu lado. Era na casa dela que eu estava hospedada por causa do intercâmbio. Eu não daria muito trabalho à família, eu acho. Afinal, passaríamos todos os dias da semana naquele colégio e somente os fins de semana em casa, o que era opcional. O termo de responsabilidade que cada responsável assinava determinava quantas vezes por semana podíamos sair fora do horário de aula. O meu determinava quatro.
- Onde vai ser o meu quarto? – Eu perguntei ansiosa à Lauren. As malas que eu carregava estavam pesadas, e todo mundo ainda me olhava como se eu fosse uma alienígena.
- Fica naquele prédio. – Ela respondeu e fez sinal com a cabeça, já que também carregava malas, apontando a frente.
Eu olhei e lá estavam quatro prédios de três andares cada, todos com acabamentos em tijolos. Ao nosso lado ficava a escola.
Entramos no segundo prédio, e finalmente eu senti o calor dos aquecedores fazendo carinho em minha pele. Esse frio de Londres me mata.
- Terceiro andar, quarto 209. – Ela leu no papelzinho todo amassado.
- Quem será que vai dividir o quarto comigo? – Eu perguntei ansiosa enquanto subíamos a escada. – E por que todo mundo fica me olhando desse jeito? – Que saco!
- Com alguma garota do terceiro ano, assim como você. – Ela respondeu. – E o que você esperava quando colocou cinco cores no seu cabelo, não chamar a atenção?
Eu não tinha pensado em chamar a atenção exatamente, como não consegui decidir qual cor colocar no cabelo, resolvi colocar as cinco mais legais.
- Tomará que ela seja legal. – Eu desejei, levemente ofegante por causa daquelas escadas que pareciam não acabar nunca.
- Se não for a Brooklie, você sobrevive. – Ela disse, tentando jogar os cabelos que caiam na cara para trás mexendo a cabeça. – Mas não espere grande coisa.
Uhú, como você é positiva amiga.
Finalmente, terceiro andar. As paredes do corredor eram vermelhas, quase vinho. As garotas por todos os lados se arrumavam, conversavam aos cochichos ou simplesmente passavam me encarando. Eu vou começar a ficar paranóica daqui a pouco desse jeito.
As aulas já haviam começado fazia uma semana, mas eu havia recebido minha aceitação em cima da hora, e meu visto demorou a sair. Fora que no Brasil eu estava no meio do bimestre, e agora eu teria que fazer ele de novo. Pelo menos a matéria seria diferente aqui. Mas que foi sacanagem me fazer ir seis meses em uma escola à toa, foi. Tinha chegado sábado, e passei o fim de semana na casa de Lauren. Lá até que era legal. E grande. Tomara que eles me adotem. Tá, parei. Ainda tenho mãe – graças a Deus, a um oceano e mais alguns quilômetros de distância -, longe o bastante pra não me importunar. Pena que minhas amigas tenham ficado por lá também.
-
. – Lauren me chamou. Eu me virei e notei que ela havia ficado para trás. – É aqui.
Voltei até onde ela estava e observei a porta com o número 209 gravado nela.
- Ela não vai abrir com a força do seu pensamento. – Disse Lauren impaciente. – E suas malas de chumbo estão pesadas.
Respirei fundo, deixando uma das malas no chão e abrindo a porta.
Não era exatamente isso o que eu esperava. O quarto era rosa, havia um frigobar branquinho, duas camas de solteiro separadas pelo espaço do criado mudo entre elas, um guarda-roupa, uma estante com uma TV, uma porta que só poderia dar para o banheiro, e a parede de frente para a porta tinha uma janela com uma escrivaninha embaixo.
Na cama mais próxima à porta, uma bonita garota de cabelos curtos castanho-dourados estava sentada calçando as meias três quartos pretas. Ela ergueu os olhos para mim, e me estudou por um momento. Sabe, as pessoas por aqui podiam disfarçar um pouco, seria legal.
- Oi. – Ela me cumprimentou simpática.
- Oi. – Cumprimentei de volta e larguei minhas malas ao pé da cama de madeira clara coberta por um edredom roxo. Larguei-me naquela cama sentindo meu corpo afundar confortavelmente.
- O que você acha que está fazendo? – Perguntou Lauren, largando as malas que carregava junto às minhas. – O sinal vai bater em cinco minutos! Coloca seu uniforme logo.
Eu olhei para ela de olhos arregalados e depois para as malas.
- Mas eu não tenho idéia de onde esteja! – Eu disse desesperada, sentando na cama de uma vez.
- Eu te ajudo a procurar. – Minha nova companheira de quarto ofereceu.
- Ótimo, ainda tenho que passar no meu quarto que fica no segundo andar, ok? – E dizendo isso, saiu.
Eu peguei uma mala e comecei a vasculhar, enquanto a garota vasculhava em outra. Como eu sempre deixo tudo pra última hora, minha mala estava uma completa bagunça. Mas pera aí, se a Lauren tinha pego o uniforme pra mim, ele tinha que estar por cima. Sai abrindo as malas restantes até finalmente encontrar.
- Encontrei! – Eu comuniquei a garota. – Valeu.
Entrei no banheiro e me troquei de qualquer jeito, passando uma escova no cabelo, e em seguida ouvi o sinal tocar. Provavelmente o sinal ficava por perto, porque o som era consideravelmente alto. Enfiei todo o material que vi pela frente na mochila, coloquei-a sobre os ombros e disparei para a porta. Fiquei confusa ao ver as garotas caminhando calmamente. Encontrei com Lauren no final da escadaria.
- Quais são seus horários? – Ela perguntou e eu a olhei confusa. Tinha me esquecido disso; no Brasil as aulas eram por turma, não por matéria. Merda.
- Acho que você tem que pegar na secretaria então. – Ela explicou ao notar minha cara. – Se formos rápido eu te mostro onde é.
Apressamos o passo, atravessamos o caminho que levava até a escola, subimos uma escadinha e entramos na escola. Logo perto da porta havia um escrito de “secretaria”, em cima de uma janela que dava para outro cômodo. Nossa Lauren, eu nunca teria achado esse lugar sozinha!
- Você é a aluna nova, certo? – Uma mulher com cabelos brancos misturados aos castanhos me olhou por cima dos óculos quadrados.
Não, sou um pavão disfarçado querida. Eu assenti silenciosamente com a cabeça.
- Antes de entregar seus livros e papéis - ela continuou -, o diretor gostaria de conhecê-la.
Uh, legal. Sala do diretor no primeiro dia, que animador.
Ela saiu da secretaria e eu a acompanhei por um corredor até a diretoria. Lauren me cutucou e me passou a boina que usava e um elástico de cabelo que tinha no pulso. “Acho melhor esconder as mechas” ela sussurrou pra mim. Enquanto a secretária avisava o diretor, foi o que eu fiz. Prendi meu cabelo pra cima e o escondi inteiro dentro da boina. Nossa, devo ter ficado gata viu.
- Tchau. – Ela sussurrou ao soar do sino. Era por isso que havia um sinal perto os dormitórios; um para nos avisar que era hora de sair de lá e o daqui para avisar que as aulas começariam imediatamente. Faz sentido.
A secretária me deu espaço e eu entrei na sala, sentindo a porta se fechar atrás de mim. Tenso. O diretor fez sinal para que eu me sentasse na cadeira defronte à ele na mesa. Ele aparentava uns quarenta e poucos anos, com feições duras.
- Boa tarde senhorita
. – Ele me cumprimentou formalmente. – Então, o que você achou das nossas instalações?
- Bom, eu acabei de chegar. – Eu disse, mexendo minhas mãos no colo. – Mas realmente gostei daqui. Obrigada pela vaga.
- É sempre bom termos a oportunidade de conviver com pessoas estrangeiras – ele disse. Valeu aí por me chamar de experimento -, e diferente de nós. – Então agora é ET? – Quer dizer que está se adaptando bem?
Qual parte do “eu acabei de chegar” esse cara não entendeu? E parece que todo mundo acha que o Brasil é puro mato, que somos todos Tarzan e Jane, ou mulatas que sambam.
Eu assenti com a cabeça e sorri, reprimindo meus pensamentos.
- Bom, eu não sei se você pretende fazer faculdade por aqui mesmo, mas acho que isso serve para qualquer universidade. – Ele continuou. – Temos atividades extracurriculares aqui, o que geralmente conta muito na aceitação das pessoas nas universidades. Dê uma olhada nas opções que temos aqui. – Ele me estendeu um papel. – Se você se interessar por alguma...
Eu comecei a ler as opções. Balé, futebol, basquete... Líderes de torcida. Gostei. Continuei a procurar algo mais que me interessasse. Conselho estudantil, parece importante.
- Acho que me interesso por duas. – Eu disse devolvendo o papel. – O grupo de líderes de torcida e do conselho estudantil.
- Ótimo! – Ele exclamou animado. – Converse com a chefe das líderes de torcida,
, e se informe dos horários. Para a próxima reunião do conselho, você será avisada. Preencha e depois deixe na secretaria. Boa aula!
- Obrigada. – Eu agradeci, peguei os formulários e fui embora. Passei na secretaria para pegar meus livros, horários e chaves.
Primeira aula: biologia. A secretária me levou até lá para justificar meu atraso. Respirei fundo e entrei. Havia uma carteira vazia próxima à janela, onde um garoto loiro estava ao lado. Todo mundo me encarava enquanto eu sentava. Isso tá começando a me irritar. Comecei a preencher os formulários vagarosamente pra me distrair. Eu não entendia nada que o professor falava mesmo. As regras eram basicamente as mesmas de qualquer escola, fora que os prédios eram trancados às onze horas automaticamente, e garotos pegos nos dormitórios femininos e vice-versa, estavam sujeitos a expulsão.
O sinal soou antes do que eu esperava. A segunda e terceira aula seriam de matemática. Liguei para Lauren e ela me falou onde ficava a sala. Os dois períodos foram consideravelmente rápidos também, e eu conseguia entender tudo; números eram mais fáceis que biologia pelo menos. Hora do intervalo.
- Você devia deixar alguns livros no armário. – Sugeriu o professor de matemática antes que eu deixasse a sala. – Sua mochila parece cheia.
Eu agradeci e sai da sala. Armários... Não tinha pensado nisso. Fui seguindo a multidão até achar os armários cinzas. O meu armário ficava no meio. Coloquei os livros ali empilhados e larguei a mochila junto. Voltei a seguir a multidão até achar Lauren. Já tínhamos tomado café-da-manhã, então depois de entregar os formulários na secretaria, ela me mostrou a escola. Tínhamos uma quadra coberta no lado de trás da escola, e atrás da quadra um longo gramado, de um dos lados havia uma cantina que ficava aberta praticamente o dia todo, no terceiro andar do prédio da escola só haviam mais armários e classes,e a biblioteca ficava no primeiro andar.
A aula depois do intervalo foi de biologia de novo. Comecei a acompanhar pelo livro e até que entendi umas coisas. Depois, geografia. Eu já disse que eu odeio geografia? Pois é, odeio. Eu até decoro na marra e no tédio, mas eu nunca consigo lembrar muita coisa depois de uma semana. Se eu já era péssima na geografia do país em que eu vivi e estudei sobre desde pequena, imagina aqui. Aquela aula se arrastou horrores, e quando eu estava quase dormindo, o sinal tocou.
Finalmente, almoço. Já estava parecendo que o Aslam estava rugindo dentro do meu estômago. Tá, as vezes eu sou dramática. Liguei para Lauren e ela me encontrou perto dos armários. Fomos para cantina, e eu não sabia exatamente o que fazer. Eu tenho uma certa insegurança com coisas novas, medo de errar, sei lá. Fui pegando mais ou menos o que ela pegava pra comer... Nenhum segredo. Algumas comidas daqui eram um pouquinho diferentes, e eu fiz uma careta me perguntando se aquilo era bom. Com certeza, pelo menos o brownie deveria ser bom. Sentamos na mesa onde o grupo de amigas da Lauren estava. Eu comi em silêncio, me sentindo totalmente deslocada com o assunto delas. Enquanto mordiscava meu brownie, comecei a observar as outras mesas do refeitório. As mesas pareciam conter cada uma um tipo de grupo, como as patricinhas, os nerds, os veteranos, as calouras, os skatistas, os noiados...
Fiquei observando as pessoas por ali até achar um rosto conhecido: a garota com quem eu dormiria essa noite. Tá, ficou estranho. A garota com quem eu dividiria o dormitório. A monotonia das conversas de Lauren com as amigas já estava me irritando, então eu murmurei um “te vejo mais tarde” e saí em direção à garota.
Ao lado dela na mesa estava sentada uma garota branquinha com sardas fraquinhas e cabelos pretos e dois garotos inegavelmente lindos, eu tenho que admitir, estavam sentados em frente à elas.
- Se importa? – Eu interrompi a conversa animada deles.
- Claro que não - a garota de cabelos curtos me deu espaço ao seu lado -, senta aí.
- Esse é o
– ela apontou para o garoto à sua frente, que sorriu -, essa é a
– ela apontou para a garota ao seu lado –, e esse é o
– ela apontou para o garoto de frente à
. – Ah! E eu sou a
.
-
. – Eu me apresentei sorrindo.
- E aí, tá gostando daqui? –
me perguntou.
- É, aqui é legal, mas ainda tá difícil acompanhar as aulas.
- Ah, com isso não precisa se preocupar, eu até hoje não consigo acompanhar. – Disse
e a gente caiu na risada.
- Você deve acostumar com o tempo, relaxa. – Incentivou
.
- Gostei do cabelo. –
me elogiou.
- É maneiro. – Disse
. – Quantas cores?
- Valeu. São cinco. – Eu murmurei sem graça.
- Suas mechas são muito fofas. –
disse e passou a mão pelo meu cabelo.
concordou com a cabeça. – Vamos povo?
- Vejo vocês em vinte minutos! – Disse
aos garotos antes de entrarmos no prédio feminino.
- Preciso de um banho. – Eu disse mexendo nas minhas roupas espalhadas em cima da cama. Eu tenho talento pra bagunçar roupas.
- Toma banho rápido então, se quizer descer com a gente. – Avisou
.
Legal, eles querem minha companhia.
- Ok. – Peguei um uniforme limpo, minha nécessaire e fui para o banheiro. Espaçoso o bastante e de azulejos brancos. Prendi meu cabelo em um coque alto e coloquei a touca por cima, tirei a roupa e entrei no boxe de vidro quase fume. Aquela água quente parecia tirar a tensão que passei durante a manhã.
Já praticamente pronta, me analisei no espelho de corpo inteiro ao lado da janela. Aquela saia xadrez preta e branca parecia ligeiramente curta demais pra quem passa o dia todo sentada; sapato de boneca com salto e meias até o joelho pretas; camiseta social branca três quartos, com uma gravata preta e o colete cinza com gola em “v” por cima, com o símbolo da escola. O uniforme era legal, apesar de eu ter que usar um shortinho preto por baixo da saia, só pra garantir. Eu penteei mais uma vez o cabelo, arrumando minha franja.
- Pronta? –
perguntou me fazendo desviar a atenção do espelho.
- Quase. – Eu disse, passando meu gloss ligeiramente vermelho nos lábios. – Agora sim.
Eu estava saindo do quarto quando dois vultos cortaram na minha frente. Observei o cabelo ruivo e liso – liso-chapinha, tava na cara – da garota mais alta e os cabelos negros e compridos da garota ao lado dela se distanciarem.
- Aff. – Reclamou
revirando os olhos. Eu olhei para ela sem entender. – Na boa, nunca se meta com essas duas putas. São a
e a Brooklie Patterson. Elas acham que mandam na escola.
- É, pelo jeito você não curte muito elas. – Eu disse rindo. – Mas está anotado.
Pelo menos agora eu sabia quem era a
, ou pelo menos conhecia as costas dela. Melhor nem ir falar com ela agora, se não acho que a
vai ter um troço.
- Gente, eu tenho um horário livre agora. – Informei enquanto caminhávamos até a escola. – Algum de vocês também tem?
Eles negaram com a cabeça. Legal, o que eu vou fazer um período inteira sozinha? Alguns raios de sol atravessavam as nuvens, talvez eu fique em algum lugar aqui fora, tomando um ar. Fomos até os armários e quando o sinal bateu, eu desci com o livro que estava lendo e o celular. Fiquei andando até chegar no gramado que ficava atrás quadra, onde achei um banco de madeira. Sentei ali e coloquei os fones de ouvido. Olhei em volta e tudo estava quieto. De repente aquela gravata apertada começou a me incomodar, então puxei o nó para baixo e abri três botões da minha camisa. Abri meu livro e mergulhei na história de “A mediadora”.
Capítulo 2
Can’t take my eyes of you
Eu senti uma forte pancada na cabeça e instintivamente levei a mão à cabeça, reclamando de dor. Olhei para o lado procurando a origem do objeto e vi uma bola de futebol caída no gramado. Tirei os fones de ouvido, me sentindo meio tonta por ter sido arrancada de perto de Jesse tão subitamente e ainda ter sido acertada por uma bola de futebol. Olha o tamanho desse lugar, e foram acertar logo a minha cabeça.
- Desculpa. – Ouvi uma voz grossa que me fez estremecer, olhei em direção à voz e me deparei com aquele ser vindo na minha direção. Eu fiquei sem reação com aquele par de olhos
me encarando. Acho que a bola bateu com muita força na minha cabeça e agora estou tendo uma alucinação. Ele se abaixou e pegou a bola. – Você é aquela garota nova brasileira? – Assenti com a cabeça, ainda meio perdida. – Prazer, eu sou
. Mas pode me chamar de
.
Ele sorriu e eu fiquei sem ar por alguns segundos.
-
. – Murmurei, tentando não gaguejar.
- Era só pegar a bola, não precisa prestar primeiros socorros. – Um garoto alto e tão bonito quanto o primeiro veio correndo em nossa direção. Ok, minhas alucinações estão indo longe demais. Acho que eu morri, fui pro paraíso e esqueceram de me avisar. Não sabia que anjos eram tão gostosos. Calei.
- Esse é o
. –
apresentou.
Perfeição acaba de trocar de nome:
e
.
- Vem logo jogar. –
reclamou puxando
.
- A gente se vê. – Gritou
enquanto corriam e sorriu.
Eles começaram a jogar futebol ali, junto com outros garotos. Há quanto tempo eles estavam ali? Eu nem tinha percebido eles chegarem. Eu nem tenho idéia de quanto tempo fiquei ali babando neles, fingindo ler meu livro quando alguém olhava. Deveriam ser todos terceiranistas, pelo que pareceu. Os outros garotos jogando com eles eram bonitos, mas aquele garoto,
, parecia tão...
O sinal tocou e eu quase pulei com o susto, saindo do meu transe. Fui apressada para os armários, com aquele garoto me deixando meio alienada ao que estava fazendo. Só percebi que estava andando sem rumo pelo corredor com a mochila nas costas quando vi aquele pecado em carne e osso e olhos
surgir na minha frente.
- Perdida? – Ele perguntou sorrindo, provavelmente se divertindo com a cara de babaca que eu deveria estar. Eu balancei afirmativamente a cabeça, mexendo nos cabelos nervosamente.
- Deixa eu ver seus horários. – Ele pediu e eu estendi o papel que estava no meu bolso para ele. – Ah, inglês. Por aqui. – Ele começou a andar, e eu tive que me esforçar para fazer minhas pernas me obedecerem. Caminhamos em silêncio e ele me deixou na porta da sala de inglês, depois saiu andando pelo corredor quase vazio agora, sem dizer mais nada.
estava sentada próxima à janela, e eu sentei na carteira atrás dela.
- E aí? Conseguiu achar alguma coisa pra fazer durante o horário vago? – Ela cochichou e eu confirmei com a cabeça, sorrindo bobamente. – O que você andou aprontando pra tá desse jeito?
- Ahn? – Eu balancei a cabeça, espantando
da minha mente. – Nada. Tava lendo.
Ela me estudou por um instante, até o professor chamar a atenção da classe e ela virou para frente. Durante a aula ela me ajudou sobre algumas coisas que eu não conseguia entender, mas pareceu esquecer sobre o horário vago. Somente quando estava saindo da sala, eu percebi que aquele amigo de
,
, estava na mesma aula que eu. Putz, ainda bem que eu não falei nada sobre eles!
- A sala de história é aqui. – Eu ouvi alguém falar, e vi
parado ao lado da porta de uma classe.
- Ah, valeu. – Eu disse entrando na sala e sendo seguida por ele. Ele sentou no fundo da classe, e eu em uma das primeiras carteiras. Quando a professora começou a escrever no quadro eu derrubei meu lápis. Peguei-o e notei que a ponta havia quebrado, e não encontrei nenhum apontador no meu estojo.
- Ahn, pode me emprestar o apontador? – Eu perguntei me virando para o garoto sentado atrás de mim. Involuntariamente olhei para o fundo da classe, e
sorriu para mim.
- Aqui. – O garoto estendeu o apontador para mim. Eu sorri timidamente para
antes de me virar de volta para frente.
-
? – Eu chamei. Ficar deitada na cama, assistindo TV, estava começando a me entediar profundamente. Ainda mais numa quarta-feira. E mais ainda numa quarta-feira em que eu vejo
atracado com uma garota em uma sala vazia. Durante a aula inteira de história eu preferi fingir que ele não existia, afinal, ele era só um garoto incrivelmente lindo que eu tinha conhecido há dois dias, não é?
- Fala logo. –
murmurou parecendo impaciente. Eu devo ter deixado ela no vácuo sem perceber.
- Vamos fazer alguma coisa pelo amor de Deus. – Eu supliquei.
- Vamos. – Ela concordou desligando a TV e pulando da cama. Vesti meu casaco branco por cima do uniforme, pegamos dinheiro, celular e descemos, depois de chamar
no quarto dela.
-
– ela vociferou no celular –, desce agora! Precisamos de você para sair! – Ela devia ter recebido outro “não” no telefone, porque ficou mais nervosa ainda. – Não, eu não posso simplesmente sair com elas! Já está ficando tarde para três garotas saírem sozinhas! – Ela mordeu o lábio enquanto escutava. – Então tá! – Ela desligou o celular com raiva. – Garotas, vamos subir. - Ela comunicou convicta. Eu arregalei os olhos pra ela.
- Tá louca? – Eu perguntei assustada. – Eu não posso me arriscar à ser expulsa por invadir o prédio dos garotos na primeira semana!
- Ah, qual é. – Ela disse rolando os olhos. – Vamos lá garotas. A Brooklie Patterson e a
– ela fez uma voz afetada ao dizer o nome das duas –, vivem aí em cima e nunca foram expulsas. Vamos logo, ninguém vai ver.
Eu olhei em volta, e só havia alguns alunos por ali, sem sinal de adultos. Achei que essa escola era rígida, que falta de vigilância meu Deus.
- Eu não vou. –
disse séria.
- Eu não vou buscar o
pra você. – Disse
se virando e indo em direção ao prédio deles.
- Tá, é só fingir que não estamos fazendo nada de errado e entrar de uma vez. – Eu disse indo atrás de
. Aquele fio de adrenalina no meu sangue por estar quebrando alguma regra era bom.
hesitou por um momento, mas acabou nos seguindo.
O primeiro andar do prédio era igual ao nosso, com as portas que davam para a cozinha, o salão de balé, a sala de academia, essas coisas. Subimos as escadas e atravessamos o corredor azul escuro, olhando rapidamente de porta em porta, até
entrar em uma delas gritando:
- Se formos expulsas por estarmos aqui, vou falar que você me chantageou e vou implantar maconha no seu quarto!
- E eu acabei de perder minha inocência vendo aqueles dois garotos semi-nus no outro quarto! – Declarou
, nos fazendo rir e
desmanchar sua cara de brava.
e
nos encaravam de olhos arregalados, eu notei que eles estavam segurando violões.
- O que vocês estão esperando? – Reclamou
cruzando os braços. – Vamos logo!
- Já disse que não tô a fim de sair. – Disse
.
Ela olhou sugestiva para
.
- Desculpa
, também tô sem saco. – Ele disse encarando o teto.
- Toca pra gente? – Eu pedi animada. Sentei no chão defronte as camas onde eles estavam sentados.
fez uma careta. – Ah, garotos, por favor? – Eu pedi imitando o gato de botas. Isso sempre convencia.
Ele rolou os olhos e cochichou alguma coisa com
, que concordou com ele. Eles começaram a tocar e cantar “Help”, dos Beatles.
- Êêê! – Comemorei. As meninas sentaram ao meu lado, e em pouco tempo estávamos acompanhando a música baixinho. Eles não somente tocavam e cantavam bem, eles eram incríveis.
- Já são dez horas, melhor irmos. – Informou
.
Capítulo 3
Say ok
Voltamos aos nossos dormitórios e eu aproveitei para fazer minha lição de química. Quando terminei de fazer, me espreguicei e procurei meu celular para ver as horas. Eu não o encontrei em lugar nenhum, e lembrei de ter filmado
e
cantando com ele.
- Que horas são
? – Eu perguntei levantando e colocando de novo o casaco por cima do uniforme.
- Quinze para as dez. – Ela informou. – E aonde você pensa que vai?
- Buscar meu celular. – Eu disse indo em direção à porta. – Minha mãe ficou de me ligar hoje.
Eu saí do quarto e me apressei pelo corredor antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Quinze minutos era tempo suficiente.
- O que você tá fazendo aqui? –
perguntou assustado por me ver ali quando abriu a porta do quarto.
- Não consegui ficar tanto tempo longe de você. – Eu brinquei e ele me deu passagem para entrar.
estava deitado embalado em um cobertor felpudo. –
, você tá parecendo uma bala. – Eu zoei ele que acompanhou meus passos com a testa franzida. Eu peguei o celular e mostrei a eles. – Melhor me apressar, faltam oito minutos. Até amanhã dudes. – Eu mandei beijos no ar e sai do quarto mexendo distraidamente no celular.
Eu esbarrei em alguém, e antes que pudesse sequer respirar, me senti puxada e meu corpo bateu com força contra a parede do corredor.
- Oi boneca. – A pessoa que me segurava sussurrou em meu ouvido e segurou meus pulsos. – Se estiver perdida, meu quarto é logo ali.
- Me solta. – Eu disse tentando manter a voz firme, mas ela já estava falhando, eu já era puro desespero.
- Ah, vamos lá boneca. – Ele prensou os lábios contra os meus, e eu comecei a chorar. – Vamos nos divertir.
- SO... – Eu tentei gritar com todo o fôlego que eu ainda tinha, mas ele tapou minha boca antes que eu pudesse continuar. Foi então que eu consegui ver o rosto dele. Ele estava furioso, tinha as feições encovadas e olhos extremamente pretos.
- Vai ficar de gracinha? – Ele disse e em seguida me arrastou até um dos quartos ali por perto, ainda tapando minha boca. Ele fechou a porta, começou a me agarrar e eu tentava me debater e gritar, mas não tinha mais ar em meus pulmões. Eu comecei a sufocar e a me sentir tonta. Minhas mãos, braços, rosto, tudo formigava. Eu não raciocinava mais direito, só tentava a qualquer custo gritar, sem muito sucesso. Eu senti as mãos dele percorrerem meu corpo e irem para debaixo da minha saia enquanto ele me beijava forçadamente. Eu mordi a língua dele e aproveitei quando ele se afastou o bastante, para eu conseguir gritar antes dele voltar a tapar minha boca.
Foi tudo rápido em seguida. Eu ouvi um estrondo e ele me soltou, deixando meu corpo cair no chão.
- Tira ela daqui. – Eu ouvi uma voz furiosa, e que eu sabia que conhecia, gritar. Em seguida alguém me pegou no colo e me levou para outro lugar.
- Não sai daqui. – Quem me carregava disse me deixando sentada no chão, e em seguida saiu dali. Eu abracei minhas pernas e continuei chorando sem parar, vendo tudo embaçado, tentando respirar à qualquer custo. Eu não sei quanto tempo havia passado até alguém acender a luz e me abraçar.
- Hey, hey, calma. – Eu ouvi aquela voz que conhecia dizer calmamente. Eu o abracei forte e escondi meu rosto na curva de seu pescoço. – Respira, isso. Eu estou aqui.
Foi então que eu reconheci a voz. Era
.
- Life is getting harder day by day. – Ele começou a cantar baixinho, fazendo carinho em meu cabelo. - And I don't know what to do or what to say, yeah
And my mind is growing weak, every step I take
It's uncontrollable, now they think I'm fake, yeah
'Cos I'm not alone
But I'm not alone
I'm not alone
And you’re not alone…
-Estou aqui com você pequena. – Ele sussurrou parando de cantar.
Eu já conseguia respirar e eu chorava menos agora. Tudo estava calmo novamente. Ele se afastou e me encarou com aqueles olhos
, me dando toda a paz que eu precisava. Passou a mão por minhas bochechas, limpando as lágrimas que ainda estavam ali.
- Vem, vamos limpar esse rosto lindo. – Ele sorriu e eu sorri de volta, cessando meu choro. Passei a mão por meus olhos, e foi então que percebi que um filete de sangue escorria do canto de sua boca.
- Meu Deus! – Eu disse desesperada. – Você está machucado!
- Hey, pequena. – Ele se levantou e estendeu a mão para me ajudar a levantar. – Calma, isso não é nada.
- Não mesmo. – E só então eu percebi que
estava deitado em uma das camas, e que nós estávamos em um dos dormitórios. –
simplesmente desmontou aquele cara!
Eu estremeci por lembrar dele.
me guiou até o banheiro e eu joguei água no meu rosto.
- Quer um calmante? – Ele ofereceu enquanto eu encarava minha imagem no espelho. Eu neguei com a cabeça e comecei a vasculhar as gavetas. Gel pra cabelo, sabonetes, camisinhas...
- O que você tá procurando? – Ele perguntou intrigado.
Eu não respondi, finalmente achando algodão.
- Tem mertiolate, água oxigenada, alguma coisa do tipo? – Eu perguntei e ele pegou em uma das gavetas água oxigenada e me entregou.
Eu olhei a embalagem. “Volume 10”, serve. Molhei o algodão com aquilo e me aproximei dele.
- O que você vai fazer? – Ele perguntou olhando o algodão em minha mão.
- Cuidar de você. – Eu disse limpando o filete de sangue do rosto dele.
- Não precisa se preocupar comigo. – Ele disse com uma careta.
Ignorei e peguei mais um punhado de algodão e molhei com água oxigenada novamente. Passei em cima do corte no canto da boca dele e ele se afastou um pouco reclamando baixinho de dor.
- Fica quieto,
. – Eu disse passando o algodão de leve novamente. Eu comecei a me sentir culpada pela dor dele. Era como se doesse em mim. – Obrigada por me salvar. – Eu agradeci sorrindo e tentando distrair ele.
- Por falar nisso. – Ele de repente fechou a cara. – O que você estava fazendo a essa hora aqui e com aquele cara?
- É verdade! – Eu me lembrei da hora e sai do banheiro rápido, indo em direção a porta.
- Aonde você pensa que vai? –
perguntou segurando meu pulso, e eu senti uma dor latejante.
- Embora. E
tá doendo!
Ele soltou meu pulso rapidamente e olhou-os. Eles estavam roxos. De repente eu fiquei com medo da cara que ele fez.
- Todas as portas já foram trancadas à essa hora. – Informou
.
- E agora? – Eu perguntei tentando pensar em como voltar ao meu dormitório.
- Você dorme aqui. –
disse com as sobrancelhas erguidas como se aquilo fosse óbvio.
- Pirou?
- Você não tem muitas opções. – Informou
.
Houve uma batida na porta.
me empurrou para trás dela antes de abrir.
- Cadê a
? – Eu ouvi a voz preocupada de
, e saí de trás da porta. – Você está bem? O que aconteceu? Desculpa, a gente devia ter te levado até lá embaixo...
- É, deviam. –
o cortou grossamente. Eu olhei torto para ele.
- Tá tudo bem
. – Eu murmurei olhando para o chão.
- Vem, você pode dormir lá com a gente. – Ofereceu
.
- Ela vai dormir aqui. – Sibilou
, a cara fechada para eles.
abriu a boca para protestar, mas eu o impedi.
- Eu vou dormir aqui. – Eu disse meio sem pensar, tentando evitar outra briga.
olhou confuso para mim, franzindo a testa. – Tá tudo ok.
- Certeza? –
perguntou.
- Tenho. – Eu afirmei e
bateu a porta na cara deles em seguida. – Não precisava ser tão grosso com os meus amigos! – Eu disse brava com
. Esvaziei uma sacola plástica que encontrei e fui em direção ao frigobar.
- Você tem noção do perigo que correu hoje? – Ele perguntou igualmente bravo.
- Mais do que você pensa. – Eu lancei um olhar furioso para ele. Ele ficou em silêncio e eu coloquei alguns cubos de gelo na sacola. Depois enrolei a sacola em um pano e voltei para perto dele.
- E o que você estava fazendo aqui? – Ele perguntou em um tom ainda um pouco bravo.
- Vim buscar meu celular no quarto do
e do
... – Eu respondi já impaciente com aquele assunto. - Eu e as meninas passamos a tarde lá. Aí quando eu tava indo embora aquele maluco me atacou.
- Você não deveria...
- Não enche o saco
. – Eu o interrompi e coloquei o gelo em cima do inchaço que estava se formando na lateral da boca dele. Ele me encarou e então sua expressão relaxou. Colocou uma de suas mãos por cima da minha que segurava o gelo.
- Obrigado. – Ele agradeceu e aqueles olhos
me hipnotizaram. Dei um beijo leve em sua outra bochecha e me afastei. Meu celular começou a tocar e só então eu percebi que não estava com ele.
, deitado na cama próxima à porta com um travesseiro na cabeça, levantou a mão com o celular nela.
- Oi mãe. – Eu atendi e fui para o banheiro, fechando a porta para ter mais privacidade.
A conversa durou apenas dez minutos, já que ligar do Brasil para Londres saia meio caro. Eu me animei quando ela disse que mandaria o dinheiro para eu comprar o laptop que eu tanto queria. Assim que ela desligou, eu liguei para
e contei por cima o que tinha acontecido.
Saí do banheiro e
estava deitado no chão assistindo TV, apenas com um cobertor e um travesseiro. Tadinho, eu estava dando trabalho a ele. A cama próxima a janela estava feita, esperando por mim.
- Eu posso dormir no chão. – Eu ofereci. Ele negou com a cabeça.
- Quer uma roupa pra dormir? – Ele ofereceu tirando o gelo da boca e indo até o guarda-roupa. É, dormir com o uniforme não seria exatamente confortável. – Que saco, acho que não devo ter nada do seu tamanho. – Ele reclamou vasculhando o guarda-roupa.
-
. – Eu chamei e ele me olhou, parando de vasculhar. – Tira a camisa? – Eu pedi e ele me olhou com uma expressão confusa. Eu encarei ele de volta e ele tirou a camisa. – Valeu. – Eu agradeci arrancando a camisa da mão dele e voltando para o banheiro.
Troquei meu uniforme pela blusa dele, apenas permanecendo com o shortinho por baixo da camisa, que cobria metade da minha coxa. Voltei ao quarto e ele me acompanhou com o olhar até eu me deitar e cobrir. Desligou a TV e a luz, deixando a escuridão tomar conta dali. Eu fechei os olhos e as lembranças do meu dia voltaram à minha mente. A imagem daquele garoto era vívida, fazendo com que eu me encolhesse e agarrasse o cobertor.
-
? – Eu chamei com a voz embargada. Senti uma lágrima escorrer até o travesseiro. Aquela sensação de pavor me dominando novamente.
- Calma. –
estava agachado ao lado da cama e começou a fazer carinho em meu cabelo. Eu comecei a chorar e ele se juntou à mim debaixo dos cobertores, me abraçando carinhosamente. – Eu estou aqui, e nada vai te acontecer mais. Eu te protejo. – Ele sussurrou em meu ouvido. – Eu prometo. – Ele deu um beijo em minha testa. Eu continuei chorando baixinho, mas seus braços me davam sensação de segurança, me acalmavam, até que eu adormeci.
Capítulo 4
Don’t talk
Eu acordei com uma luz branca batendo na minha cara e sumindo em seguida. Abri os olhos vagarosamente e
estava rindo com uma câmera na mão.
- Que gracinha. – Ele zoou e eu mostrei a língua.
ainda dormia profundamente e mantinha os braços me envolvendo.
- Melhor acordar o
. – Continuou
. – Ele gosta de acordar mais cedo pra tomar café fora. Aproveita e pede pra ele trazer alguma coisa pra mim. – E dizendo isso saiu do quarto.
Eu fiz carinho no cabelo de
enquanto ele dormia. Ele parecia tão tranquilo, tão lindo. Eu sorri ao ver um leve sorriso se formar no rosto dele. Dei um beijo em sua bochecha. “Hora de acordar,
” eu sussurrei.
- Bom dia, pequena. – Ele disse abrindo os olhos preguiçosamente.
Eu me espreguicei sentando na cama.
me puxou, me fazendo deitar de novo, e passou uma de suas pernas por cima das minhas.
- Vai tomar café comigo? – Ele pediu manhoso.
- Hum... Não sei... – Eu fiz cara de pensativa. Ele mordeu minha bochecha. – Ai
. – Eu disse rindo. – Seu violento. Eu vou. - Ele mordeu minha bochecha de novo. – E por que me mordeu agora? – Eu perguntei esfregando a mão na bochecha.
Ele simplesmente sorriu e se levantou. Garoto doido.
- Ahn, você não se importa de manter segredo sobre ontem, se importa? – Ele perguntou um pouco inseguro enquanto tomávamos café da manhã em uma Starbucks próxima à escola.
- Não. – Eu respondi dando de ombros. – Algum motivo especial? – Eu perguntei tentando parecer casual. Se ele disser que tem uma namorada, eu juro que me afogo nesse cappuccino. Ou me jogo da ponte de Londres e me afogo no Tamisa.
- Não, eu não tenho nenhuma namorada se é o que você está pensando. – Ele disse me deixando aliviada. Eu fui tão óbvia assim?
- Então...? – Eu perguntei tentando fazer com que ele continuasse.
- Só não fala, por favor. – Ele pediu. – Um dia eu te explico.
- Nem pros meus amigos?
- Já tem amigos é? – Ele perguntou e eu rolei os olhos. – Aquele tal do
e do
? De preferência não.
-
? – Eu perguntei e ele fez cara de dúvida. – A garota de cabelos curtos, minha amiga. Do meu dormitório.
- O menos possível. – E deu de ombros.
Eu hein, quanto suspense.
- De quem é aquela música que você cantou pra mim? – Eu resolvi mudar de assunto. – Eu não conhecia.
- É minha. – Ele disse olhando para algum ponto distante. Eu o olhei espantada. – Eu sei, ainda não é exatamente uma música, não está nem pronta...
- Ela é linda! – Eu o interrompi sorrindo. – Fora que você canta tão bem quanto o
.
- Não sabia que aquele loser sabia cantar. – Ele disse franzindo a testa.
-
para de implicar com o
. – Eu ralhei com ele.
Ele ficou quieto, provavelmente me poupando dos pensamentos dele sobre
e evitando uma discussão.
-
. – Eu chamei baixinho olhando para meu copo, mas sabia que ele me encarava. – Você acha... E se, eu, ahn, ver aquele garoto de novo, sabe?
- Hey, pequena. – Ele me chamou, mas eu continuei olhando meu copo, até ele colocar a mão em meu queixo e levantar minha cabeça para que eu o olhasse. – Não precisa se preocupar, você não vai mais ver ele.
- Como você pode ter tanta certeza? – Eu perguntei encarando aqueles olhos
.
- Eu cuido dele. – Disse sério. – E não quero mais que você pense nisso, ok? – Eu assenti silenciosamente com a cabeça. Uma lágrima teimosa desceu por minha bochecha, mas eu logo me recompus. – E também não quero mais saber de você andando sozinha por aí, muito menos nos dormitórios masculinos. Hora de ir.
Tínhamos a primeira aula juntos, mas ele simplesmente me ignorou desde o momento em que voltamos pra escola. Ele sentou com outro garoto na aula de química no laboratório, e eu vi
me chamando e apontando para a cadeira vazia ao seu lado.
- E aí, Five Colours? –
me cumprimentou alegre. Pelo jeito ele está tentando ser bonzinho e me fazer esquecer certas coisas.
- E aí
. – Eu sorri me sentando ao seu lado.
- Dormiu bem? – Ele perguntou e dessa vez eu notei que ele estava tentando ser casual, mas não tendo muito sucesso... Não, eu não dei pro
se é isso que você quer saber, palhaço.
- Dormi. – Respondi anotando o que o professor começava a passar no quadro. – O
é que deve estar todo quebrado, tadinho, dormiu no chão.
Pelo jeito dessa vez eu fui convincente, porque ele mudou de assunto.
Quando a terceira aula daquele dia acabou, matemática, eu finalmente consegui falar com a
. Os treinos começariam terça que vem. Ela não era tão ruim quanto
havia dito. Quero dizer, ela não me analisou nem mais, nem menos do que o resto da escola ainda fazia. Passei o intervalo com Lauren, tentando adiar meu encontro com
e
.
Mas a hora do almoço chegou e eu resolvi sentar com eles, já que a próxima aula seria com
.
- Será que a senhorita pode me explicar o que aconteceu ontem? – Ela exigiu assim que eu coloquei minha bandeja em cima da mesa.
- Será que a gente pode esquecer sobre ontem? – Eu pedi sentando.
Eles ficaram em silêncio até
puxar uma conversa. Ufa, mais fácil do que pensei.
Depois do almoço passei no meu quarto e encontrei um embrulho em cima da minha cama. Estranho. Eu abri o embrulho e haviam duas munhequeiras pretas e uma pomada. Eu peguei as munhequeiras e um bilhete caiu.
“Isso vai ajudar a sumir com o roxo. Se precisar de mim, me liga”.
Escrevi a mensagem “Obrigada ?” e enviei para o número escrito no bilhete.
Estava realmente começando a esquentar, então eu finalmente pude tirar o casaco que vestia desde ontem, e depois de tomar banho passei a pomada e coloquei as munhequeiras. Por que ele se preocupava assim comigo?
Na aula de química
não falou nada sobre a última noite, mas eu podia sentir que ela estava louca pra saber de tudo.
Aula de educação física. Eu troquei o uniforme pela roupa de ginástica da escola, mas fui barrada por uma garota ruiva e maquiada. E bonita, eu admito.
- Por que você tá vestindo o uniforme comum de ginástica oh Five Colours? – Eu encarei ela sem entender. Era a Brooklie, e agora eu tinha um novo apelido é?
- E não é o que eu deveria estar vestindo?
- Você não está querendo entrar para o grupo de líderes de torcida? – Ela tinha uma voz enjoada. Isso me lembrou
imitando ela.
- É.
- Então cadê seu uniforme de líder? Nós não vestimos a mesma coisa que elas. – Ela apontou para algumas meninas que passavam vestindo o uniforme de ginástica.
- Foi o que me deram. – Eu disse dando de ombros.
- Eu só vou entregar os uniformes semana que vem Brooklie. –
apareceu atrás dela.
- Você já não deveria ter entregue? – Ela perguntou um tanto desdenhosa.
- Não. – Ela respondeu ríspida.
Eu deixei as duas discutindo e saí de fininho. A professora nos fez ficar correndo em volta da quadra até eu quase morrer.
- Não se preocupe – disse
sentando ofegante ao meu lado na arquibancada -, costumamos usar a aula de educação física – ela fez uma pausa para respirar um instante – para treinar.
- Tomara que essa vaca quebre a perna e morra. – Praguejou Brooklie se largando ao lado de
.
- O que é que vocês três acham que estão fazendo sentadas? – A professora se esganiçou. Ela era grande e musculosa. Ela me assustava.
- Discutindo sobre nosso passos. – Mentiu Brooklie.
- Pois arranjem outro horário para discutir. – Ela esbravejou, e eu juro que vi cuspe voando. Eca. – QUERO TODO MUNDO CORRENDO.
- Não podemos treinar? – Tentou
.
- Aaah, então as mocinhas estão achando que vão poder ficar treinando passinhos na minha aula, não é? – Ela esganiçou.
- Sempre fizemos isso. – Disse Brooklie.
- Mas não vão fazer mais! – Ela exclamou fazendo uma cara furiosa. – E tratem de voltar a correr agora mesmo se não quiserem ser expulsas de novo!
Eu bufei e voltamos a correr.
- Mulher grossa. – Reclamou
indignada. – Até parece que não vamos mais treinar na educação física! Isso é totalmente absurdo!
- Vamos discutir melhor aquele lance da perna quebrada? – Sugeriu Brooklie.
- Com certeza. – Respondeu
convicta. – E nosso próximo professor terá que ser um homem, são bem mais fáceis de convencer.
- Se quiserem ajuda pra se livrar da mal-comida é só falar. – Eu ofereci e voltamos a correr em silêncio. Todo o oxigênio era precioso para não desmaiarmos.
- Puta que pariu, tô acabada. – Eu reclamei pra
, depois de sair do meu segundo banho em uma tarde.
- É, aquela professora de educação física é um saco. A última aula que tive com ela foi um inferno.
Eu deitei na cama e fiquei lá, estirada durante algum tempo.
- Five Colours? –
me chamou na porta do quarto.
lançou um olhar mortal para ela, que apenas ignorou. Eu fui para fora do quarto ver o que ela queria. – Você quer mesmo nos ajudar a expulsar aquela mulher-macho da escola?
- Quero. – Eu respondi. – Mas eu não quero arranjar problemas na escola, entende...
- Ok então, nós vamos te explicando no caminho o que você tem que fazer.
Encontramos com Brooklie na escadaria da escola, esperando por nós agarrada a
. Ele me olhou torto, não sei o porquê, quando saímos dali. Entramos na sala do diretor e fiz cara de triste.
- Ah, Srtª
, vejo que você encontrou boas companhias. – Ele disse sorrindo, então percebeu minha tristeza. – Mas, por que vocês estão aqui? Algum problema?
- Sr. Philips – começou Brooklie -, ela não queria vir aqui porque não queria problemas logo na primeira semana, mas nós a convencemos que seria o melhor a fazer.
- Por favor, sentem-se queridas. – Ele pediu apontando para as cadeiras à sua frente.
- Obrigada. – Agradeceu
.
- Continuem por favor.
- Acho melhor ela mesma contar. – Disse Brooklie fingindo estar apreensiva.
- Eu estava na aula de educação física – eu comecei a mentir e deixei que meus olhos começassem a lacrimejar -, e então aquela professora começou a implicar comigo.
Eu fiz uma pausa fingindo tomar coragem.
- Calma querida. – Incentivou
. – Conte à ele.
- Eu era a última no vestiário, e ela simplesmente chegou gritando comigo. – Eu comecei a chorar. – Disse que eu estava fazendo corpo mole a aula inteira, e quando eu tentei sair do vestiário, ela agarrou meus pulsos e começou a me sacudir!
- Nós ouvimos os gritos e voltamos para ver o que estava acontecendo. – Disse
enquanto eu me esforçava para aumentar o choro, e Brooklie me abraçou de lado.
- A professora começou a xingá-la de coisas horríveis. – Disse Brooklie. – E disse que brasileiras eram imprestáveis e burras, e foi piorando.
- E então nos viu e a soltou. – Continuou
. – Saiu dali como se nada tivesse acontecido.
- Meu Deus. – Disse o diretor de olhos arregalados. – Espero que você esteja bem querida!
Nessa hora eu usei o elemento surpresa com que nem as meninas contavam. Tirei as munhequeiras dos pulsos e mostrei ao diretor. Todos me olharam assustados.
- Monstra! – Exclamou Brooklie.
- Eu vou tomar providências agora mesmo! – O diretor bateu as mãos na mesa e se levantou. – Senhoritas, sugiro que voltem para seus dormitórios por enquanto. E Srtª
, peço desculpas pelos atos terríveis dessa professora. Eu lhe garanto que ela estará fora do corpo docente dessa escola ainda hoje. Espero que isso não a faça julgar mal os outros professores, nem a escola; e que continue conosco.
Eu assenti silenciosamente com a cabeça controlando o choro.
- Você é melhor do que eu pensava garota! – Elogiou Brooklie quando já estávamos no pátio.
- É você foi incrível! – Disse
. – Mas aonde você arranjou esses roxos nos pulsos?
Ferrou. O que eu falo agora?
- Foi em uma brincadeira que eu estava fazendo com meus amigos. – Eu comecei a falar o que vinha na cabeça. – Era um truque de mágica que eu aprendi no Brasil. Mas não deu muito certo, eu fiquei com a mão presa na caixa. – Eu dei de ombros.
- Então era essa a causa dessas munhequeiras. – Concluiu Brooklie. Nossa, como você é inteligente. – Engraçado, o
tem umas iguais. – Ela disse pensativa.
Eu olhei para meus pulsos, eram munhequeiras pretas, comuns o bastante pra que eu simplesmente tivesse iguais. Mas pera aí, como ela sabe o que o
tem ou deixa de ter?
-
? – Eu perguntei.
- Ah, você nem deve conhecer ele. – Disse ela dando de ombros. – Ele é amigo do meu namorado, aquele cara que tava comigo na escadaria.
Ela entendeu a pergunta de modo errado. Ainda bem.
- Aonde você foi com aquela vaca? – Perguntou
ríspida assim que eu entrei no quarto.
- Ajudá-las para termos mais tempo para treinar. – Eu respondi indo para o banheiro lavar o meu rosto.
- Treinar o que? – Ela perguntou confusa. – Se você me disser que entrou para o grupo de líderes de torcida eu juro que te deserdo!
- Qual é o problema? – Eu perguntei voltando pro quarto.
- Qual o problema? – Ela perguntou com a voz esganiçada. – Todas as líderes de torcida são metidas, são fáceis e...
- Não me interessa o que elas são ou deixam de ser. – Eu a cortei. – Eu não vou mudar só porque seguro pompons.
- Veremos. – Ela disse brava.
- Ah, qual é
, você também odiou a professora de educação física. – Eu disparei.
- O que isso tem a ver? O que vocês fizeram?
- Já disse, arranjamos mais tempo para treinar agora. – Eu coloquei meus fones de ouvido impedindo
de continuar a me encher o saco.
Foi aquela vaca da professora que gritou comigo primeiro, eu só estava dando o troco a ela.
Capítulo 5
S.O.S.
Depois daquilo,
ficou a sexta-feira inteira de cara virada pra mim. Assim que Lauren saiu da última aula, nós fomos para a casa dela e passamos o sábado todo procurando um laptop pra mim, e domingo foi um tédio: filme, comida e lição de casa. Mas tudo era um tédio por um único motivo:
não saía da minha mente. Isso estava me irritando, eu simplesmente não parava de pensar nele. Por que isso agora?
Nas duas aulas de matemática
resolveu sentar ao meu lado, expulsando a garota que estava ali antes. Eu tentava explicar as coisas pra ela, mas na maioria das vezes ela acabava por copiar minhas respostas.
- Aonde você vai? –
me perguntou quando eu estava indo em direção a mesa onde
e os outros estavam no refeitório.
- Ahn, sentar com o
, a
, o
...
- Aff. – Ela me cortou. – Você senta com a gente hoje, ok?
Eu fiquei totalmente sem graça quando passei e acenei para eles, e em seguida sentei na mesma mesa que ela, com a bandeja do almoço. Acho que agora a
nunca mais olha na minha cara.
Eu olhei para o meu lado e ali estava Brooklie e uma outra garota loirinha. Olhei à minha frente e lá estava um garoto moreno forte, ao seu lado
e...
. Meu estômago deu um solavanco quando meu olhar encontrou com o dele. Acho que eu vou ver meu café-da-manhã de novo.
- Five Colours, essa é Claire - Ela começou a apresentar -, Diego,
e
.
Eles sorriram e eu acenei.
me fuzilava com o olhar, apesar de sorrir.
- Já está tudo arranjado. – Comentou Brooklie animada. – Conseguimos um professor para substituir aquela mulher-macho.
- Graças a Deus. – Eu disse baixinho.
- Garotos, vocês tinham que ver essa garota atuando, ela é perfeita. – Continuou Brooklie animada.
- O que vocês andaram aprontando dessa vez? – Perguntou
, olhando para Brooklie.
- A professora de educação física estava tentando nos matar, aí nós cuidamos para que ela fosse expulsa.
- A Five Colours fingiu que a professora tinha agredido ela. – Contou
.
- É, mas o melhor foi o improviso – Continuou Brooklie. – Vocês têm que ver os roxos que ela arranjou nos pulsos, foi demais.
Será que alguém pode calar a boca dessas duas?
- E como você arranjou esses roxos? – Perguntou
. Eu juro que a qualquer momento iria sair laser dos olhos dele. Medo.
- Ela disse que tava fazendo um truque de mágica ou qualquer coisa assim – disse
-, e as mãos dela ficaram presas numa caixa.
- Foi horrível. – Eu comentei olhando pra ela. – Nunca mais tento fazer mágica de novo na vida.
relaxou um pouco e parou de tentar me matar com o olhar.
- Mas sabe, já está até sarando. – Eu disse olhando para o meu próprio braço. – Não dói mais, e a pomada que eu tô passando tá tirando o roxo.
Eu sorri silenciosamente para o meu prato enquanto elas começavam outro assunto e ergui meus olhos para
, vendo que ele sorria silenciosamente também.
- Eu nunca vou entender essas garotas. – Comentou
baixinho para
. – Só porque elas são loucas tentam nos enlouquecer junto.
riu.
- Talvez não loucas. – Eu disse olhando para
. – Só confusas. – Olhei para
que riu de novo.
Olhei em direção à mesa onde meus amigos estavam. Se
não estivesse aqui, eu iria para lá agora mesmo.
Eu peguei meu fichário e meu livro de geografia e caminhei para a biblioteca pra fazer um pequeno trabalho que o professor havia passado. Pequeno porque não era ele que iria ter que fazer. Alguém me puxou para dentro de uma sala vazia.
-
! – Eu dei um tapa no braço dele. Garoto estúpido, quase morri do coração. Meus olhos encontraram os seus e então eu percebi que o susto não foi nada comparado ao que os olhos dele faziam ao meu coraçãozinho.
- Posso saber o que a senhorita está fazendo junto com a Brooklie e a
? – Ele perguntou me encarando.
- Eu entrei pro grupo de líderes de torcida, e elas fazem parte. – Eu disse. – Aliás,
é a chefe das líderes. Nós nos demos bem, eu acho.
- E isso justifica você ser responsável pela expulsão de uma professora? – Ele perguntou ligeiramente bravo.
- Acho que ela prefere ser chamada de professor viu. – Eu comentei, tentando escapar da pergunta. Ele segurou o riso.
- Eu estudo com elas faz tempo.– Ele disse sério. - Quero que você tome cuidado com elas. Elas ferram até uma a outra se deixar, além de ter nos arrastado junto no terceiro ano.
- Terceiro ano? – Eu perguntei confusa. – Mas vocês estão no terceiro ano agora.
- Repetimos – Ele disse rolando os olhos. – Aliás, elas repetiram e como não conseguiram fazer nada para passar, fizeram que eu e o
bombássemos também.
- Uou. – Eu disse baixinho.
- E os pulsos, melhoraram? – Ele desviou o assunto e pegou cuidadosamente meus braços, tirando a munhequeira deles.
Agora o roxo estava bem mais claro em alguns pontos e, em outros já começava a amarelar.
Ele soltou meu braço e foi se sentar em cima da mesa do professor. Ficamos em silêncio por alguns minutos, até eu me aproximar dele devagar. Apoiei minhas mãos nas pernas abertas dele e sustentei seu olhar antes de encostar nossos lábios. Ele colocou a mão em minha nuca me fazendo arrepiar e pressionou nossos lábios. Ficamos assim durante alguns segundos, antes dele afastar nossos rostos. Ele pulou da mesa, e antes de abrir a porta, abriu a boca para falar alguma coisa, mas a fechou de novo e saiu dali me deixando totalmente confusa. Qual é o problema desse garoto?
Eu fui para a biblioteca começar meu trabalho de geografia, mas estava sendo difícil. A cada dois parágrafos que eu lia, eu tinha que reler um, porque no último eu estava distraída pensando em
.
Na aula de inglês eu sentei na carteira ao lado de
. Ela virou a cara ainda brava comigo. Eu passei a aula inteira tentando puxar conversa, até finalmente conseguir fazer com que ela falasse comigo direito.
Aula de história. Eu sentei na última carteira no canto da sala, abaixei a cabeça e fiquei assim até que eu ouvi
falar comigo.
- Ahn, me desculpa eu... – Ele começou, mas eu o cortei.
- Vê se não me enche o saco
. – Eu disse exasperada pra ele e abaixei a cabeça de novo.
Eu não iria deixar ele me dar um fora assim, ou dizer “somos apenas amigos”, ou seja lá o que ele fosse dizer, eu não queria escutar.
- Você tá bem? – Ele perguntou.
- Não preciso de ninguém se preocupando comigo. – Eu murmurei.
- O professor vai te chamar a atenção se você continuar assim. – Ele avisou.
- Problema é meu.
- Só estou tentando te ajudar.
- Você me ajudaria se sumisse da minha vida.
- Não tem mais carteiras vazias, vai ter que me suportar.
- Não dá, você é insuportável.
- Senhorita
, quer fazer o favor de acordar? – O professor me chamou e eu levantei a cabeça, sentindo meu rosto queimar ao perceber todos me olhando.
- Eu avisei. – Disse
.
- Blá, blá, blá... – Eu fiz uma voz afetada.
- Você é tão estúpida.
- Você é tão idiota.
- Formamos um belo casal então. – Ele disse e eu o olhei sem entender, rindo em seguida.
- Se um cara fugisse de uma garota quando fosse beijado, seria gay, sabia? – Eu comentei irônica.
- Aqui também seria. – Ele disse rindo.
- Ai Meu Deus! Você é gay! – Eu gritei e todo mundo me olhou de novo, eu abaixei minha cabeça morrendo de vergonha.
- Eu juro que te mato garota! – Ele sussurrou pra mim.
Depois de alguns minutos eu levantei a cabeça, ainda impressionada.
- Por que não me contou antes que era gay? – Eu perguntei para ele.
- Porque eu não sou. – Ele murmurou bravo, me fuzilando novamente com os olhos.
- Não? – Eu perguntei ainda em dúvida. Bem que ele era perfeito demais para ser de verdade.
- Não – Ele afirmou.
- Certeza?
Ele bufou e começou a copiar a matéria, me deixando totalmente no vácuo. Odeio esse garoto.
O sinal bateu, enquanto todos saíram da sala nós dois simplesmente tivemos que ficar ali pra terminar de copiar a matéria.
- É culpa sua que eu estou perdendo meu tempo aqui. – Eu disse observando o professor sair da sala.
- Eu não segurei suas mãos para você não escrever. – Ele disse ainda sem me olhar.
-
, vai embora.
- Não posso, tô copiando a matéria.
Eu bufei e fechei meu caderno.
- Depois eu arranjo a matéria com alguém. – Eu disse irritada. – Melhor do que ter que ficar aqui.
Ele fechou o caderno e saiu na minha frente, fechando a porta antes que eu pudesse passar.
- Qual é o seu problema garota? – Ele perguntou me encarando, encostado na porta.
- Você. – Eu disse sustentando o olhar.
Eu não sei como aconteceu, mas no segundo seguinte era eu quem estava encostada – leia-se: pressionada – contra aquela porta.
me beijava intensamente com as mãos em minha cintura e eu tentava eliminar qualquer espaço possível entre nós, o puxando pela camisa e apertando sua nuca. Era como se uma corrente elétrica passasse por minhas veias, ao invés de sangue. Ele mordeu meu lábio inferior, me fazendo soltar um gemido baixo e puxar seus cabelos. Ele desceu os beijos pelo meu pescoço, me fazendo ficar ofegante, enquanto tentava me concentrar em abrir os botões da camisa dele. Ele percebeu minhas intenções e começou a fazer o mesmo com minha blusa. Foi então que eu comecei a lembrar de quando fui agarrada, de quando aquele garoto me tocava... Aquilo me fez respirar acelerado, me deixando tonta. Eu o empurrei e saí daquela classe correndo para meu dormitório.
Eu não saí do meu quarto até que o sinal batesse às sete e meia da manhã, me mandando ir para a classe. Eu dei graças a Deus de não ter aula com
durante a terça-feira, crente que não teria que vê-lo. Eu já estava até sentada almoçando na mesa conversando animada com
, quando
me cutucou nas costas.
- Vem sentar com a gente quando terminar aí, ok? – Ela disse e foi para a mesa dela. Alguém lá em cima deveria estar rindo muito da minha cara, não é possível.
Eu terminei de almoçar e fui para a mesa onde
e os outros ainda estavam almoçando.
- E aí Five Colours. – Cumprimentou Brooklie. Eu me lembrei do que
tinha dito sobre ela. E falando nele, lá estava o motivo de eu não ter dormido direito durante todos estes dias, o motivo das minhas distrações.
- Senta aí. – Disse
, me dando espaço ao seu lado.
Eu sentei sentindo meu coração acelerar ao ver aqueles olhos
bem na minha frente, me olhando.
- Nós já acertamos os horários pra usar a quadra. – Informou Brooklie. – Os treinos começam hoje querida, às cinco horas. A propósito, você combinou muito bem com o uniforme.
Eu ainda estava com o uniforme que elas me entregaram na aula de educação física. Era um short preto curto e uma blusa babylook branca com traços pretos que deixava uma faixa da barriga aparecendo.
Eu olhei para
, que assentiu disfarçadamente com a cabeça, me fazendo sorrir envergonhada.
- Mas esse é o uniforme de educação física, sabe, do horário normal. – Explicou
. – Nós podemos ficar com ele pela escola ao invés do outro uniforme. Usamos um uniforme parecido nos treinos.
- E é claro que temos um modelo especial para os jogos. – Disse Brooklie com um sorriso convencido.
- Então tá né. – Eu disse baixinho.
- Garotas, vocês viram o que aquela garota estranha do segundo ano fez com o cabelo? – Perguntou Brooklie. E com isso começou a sessão fofoca. Realmente, elas tinham uma língua afiada para falar mal dos outros, mas até que era engraçado.
Alguém passou a mão por meus cabelos e bagunçou-os. Eu olhei para trás e
piscou pra mim enquanto caminhava. Eu ri arrumando meu cabelo.
- Galerê, tenho que ir. – Eu disse e saí correndo atrás de
e os outros.
Eu pulei nas costas de
, e ele segurou minhas pernas e me levou de cavalinho até a porta do nosso prédio.
-
, seu preguiçoso. – reclamou
. – Até daqui a pouco.
Ele tinha se recusado a levar
de cavalinho, disse que ela era muito pesada. Pesada eu não sei aonde, mas tudo bem, acho que se pedíssemos pra ele levar um gato ele iria reclamar que era pesado também.[n/a:depende do gato, se fosse o Garfield ele teria razão!!!]
Eu aproveitei nosso tempo livre para entrar na net um pouco, já que agora eu tinha meu laptop.
: SOS amigas! Tô ficando louquinha nesse lugar!
Mari: Achei que tivesse morrido já! Você não deu noticias!
Liz: Amiiiiiiiiiga que saudadeee!!! Conta tudo!
: É sério, eu tô pirando aqui! Me ajudeeem!!!
Mari: O que aconteceu?
Liz: Conheceu muitos gatinhos?
: Um garoto. Ele tá me atormentando!
Liz: Ele é bonito?
Mari: Te atormentando?
: Bonito? ELE É PERFEITO!
Liz: Então qual o problema? Já deu uns pegas nele?
: Eu não sei... Eu chego perto dele e... Parece que vou ter um ataque do coração, meu estômago embrulha, eu começo a tremer... Ele quase me mata galerê, é sério!
Mari: ELA TÁÁ APAIXONADA!!!!!
Liz: Own! *---*
: Não tô não! Eu só me pego pensando nele às vezes... Mas ele é bipolar, é sério!
Mari: Às vezes? Certeza amiga?
Liz: Bipolar? Boiei.
- Não consigo entender nada! – Reclamou
, me fazendo pular na cadeira. – É português?
- Sua curiosa! – Eu reclamei, fechando o laptop na mesma hora. – É, tava falando com minhas duas melhores amigas, lá do Brasil.
E de quem eu morro de saudades.
deu de ombros e se largou na cama.
Nós voltamos para escola e eu aproveitei os minutos restantes para copiar algumas coisas do trabalho dela de geografia, já que eu havia sido mentalmente impedida de conseguir fazê-lo inteiro. Pelo menos agora eu estava conseguindo entender melhor os professores. Quando estava mexendo na minha mochila pra pegar o material de química, um bilhete caiu do meu caderno.
“Filosofia, depois do seu treino”.
- O que é isso? – Perguntou
, tentando pegar o bilhete da minha mão.
- Nada – Eu respondi, amassando e jogando o bilhete de volta na mochila.
A dupla de química terminou e eu voltei correndo para o dormitório para tomar um banho rápido, mas não resisti a ligar o computador um pouco.
Mari: O que aconteceu, você saiu sem avisar! Mal educada!
Liz: Vai amiga, fala mais sobre o gatinho!
: Calma aí! Eu tenho treino agora, tenho cinco minutos!
Mari: Treino de que?
Liz: Então conta logo!
: Líder de torcida. Alguém me deixou um bilhete hoje escrito “Filosofia, depois do seu treino”. Eu não saquei muito bem...
Mari: Aula particular com alguém?
Liz: Líder de torcida??! Que massa!
: Não, não tenho aula com ninguém. É parece ser legal Liz!
Mari: Vocês aí não têm aula divida por salas e talz?
: Aham.
Mari: Então é “sala de filosofia”, não é?
: Não tinha pensado nisso... Vou dar uma checada! XD
Mari: Tá ficando lerda que nem a Liz!
Liz: Hey! Ainda tô aqui.
: Te amo lerdinha!
Mari: É, também te amo lerdinha!
Liz: Own *----* Amo vocês!
: Porra, já tô atrasada! Fui!
Fechei o laptop e saí em disparada para o ginásio. Entrei no vestiário e lá estavam as garotas se trocando.
- Aqui. –
jogou o uniforme pra mim e eu me troquei. A blusa era preta com listras brancas, a saia rodada preta com as pregas brancas por dentro e o short preto. Amarrei meu cabelo e fomos para a quadra.
Aquilo era diferente do que eu estava acostumada. Talvez porque eu não estivesse acostumada com nada disso de qualquer jeito. Fora que minha elasticidade não era das melhores. Mas até que não estava tão complicado assim. Era divertido.
O treino durou uma hora, depois peguei minha roupa e já estava saindo quando Brooklie me chamou.
- Nós vamos sair e beber daqui a pouco. Nada demorado, mas precisamos relaxar um pouco sabe. Quer vir?
- Desculpa Brooklie, talvez numa próxima. – Eu disse fazendo cara de cansada. – Eu estou muito cansada.
- Ok. – Disse ela, sorrindo franco.
Eu saí apressada pelos corredores, tentando me lembrar onde ficava a sala de filosofia. Mas pera aí, eu nem sei quem me mandou aquele bilhete. E se for um assassino? Do jeito que eu sou curiosa, eu nunca mais dormiria direito se não descobrisse. Fora que era só uma teoria que eu tivesse que ir à sala de filosofia. Eu finalmente encontrei a bendita sala, era a única com a porta encostada ao invés de fechada e trancada. Eu olhei para os dois lados desertos do corredor antes de entrar, já me preparando para gritar ou sair correndo. Ou os dois juntos. Empurrei a porta e nada aconteceu, me deixando mais tensa ainda, mas assim que entrei a porta bateu atrás de mim, me fazendo dar um pulo e soltar um gritinho.
Eu olhei para a porta e lá estava
atrás dela, rindo da minha cara.
- Você adora me assustar, não é
? – Eu reclamei emburrada. Mania chata desse garoto.
- É. – Ele afirmou ainda rindo. – Você fica tão engraçadinha quando leva um susto.
- Há-há. – Eu ironizei e dei língua.
- Suas munhequeiras combinaram com o uniforme. – Ele disse se aproximando.
- Eu sabia que você era gay mesmo! – Eu disse, levando as mãos a boca. Geralmente mulheres, ou garotos afeminados sabiam combinar roupas.
Ele rolou os olhos “Vai insistir nisso?”.
- Talvez. – Eu disse, mordendo o lábio e olhando para os dele, que agora me pareciam extremamente convidativos. Ele se aproximou até juntar nossos corpos e passou os lábios pelos meus, me provocando.
- E sabia que esse uniforme – ele sussurrou em meu ouvido, me fazendo arrepiar -, fica muito bem em você?
Ele passou as pontas dos dedos aonde terminava a minha saia. Ele passou os lábios novamente pelos meus, enquanto brincava com a barra da minha saia. Eu puxei seu lábio inferior de leve com meus dentes e deslizei minhas unhas por suas costas. Ele pediu passagem com a língua e eu abri minha boca, me permitindo sentir o gosto dele. Ele segurou minhas pernas e colocou-as em volta de sua cintura, me carregando até a superfície de alguma coisa, que eu suspeitei ser a mesa do professor. Ele acariciou a lateral do meu corpo, deixando suas mãos em minha cintura, depois descendo-as devagar. Eu distribuía beijos em seu pescoço enquanto arranhava levemente suas costas. Ele voltou a me beijar e começou a levantar minha camisa. Eu me separei dele apenas para tirá-la e quando voltamos a nos beijar sentia quase que uma ferocidade em seus beijos. De repente, eu não conseguia respirar mais direito. Ele percebeu que eu não estava correspondendo mais e me olhou preocupado.
- Você está bem? – Ele perguntou, e eu coloquei a mão em sua boca, pedindo silêncio. A pior coisa quando se passa mal é que sempre tem um idiota perguntando se você está bem.
Eu tentava puxar o ar, já me sentindo tonta pela falta de oxigênio. Ele levantou levemente minha cabeça pelo queixo, com uma das mãos, e com a outra segurou uma de minhas mãos, fazendo carinho nela. Aos poucos eu fui me acalmando e voltando a respirar novamente. Ele me deu um selinho e me abraçou.
- Dorme comigo hoje? – Ele pediu e eu me afastei para olhá-lo. – Relaxa, estou pedindo para você dormir comigo, só isso.
- Dormir, tipo, dormir? – Eu perguntei.
- É. – Ele disse e então um sorriso malicioso apareceu em seu rosto. – A não ser que você queira fazer alguma outra coisa também.
- Não seria perigoso eu dormir em um quarto com dois homens? – Eu perguntei. E diga-se de passagem, dois homens tão gostosos como ele e o
.
-
vai passar a noite com a Brooklie hoje. – Ele disse enquanto eu olhava para aqueles olhos tão intensos mesmo no escuro. – E você não confia em mim?
- Confio. – Eu disse sorrindo timidamente. – Mas hoje não.
- Que pena. – Ele disse e me deu um selinho.
Eu saí da sala e adentrei o corredor, sentindo um calafrio. Como a noite os aquecedores da escola eram desligados, aquele lugar estava gelado.
- Aonde você estava até agora? – Perguntou
enquanto eu atravessava o caminho até os dormitórios.
Eu abri a boca para inventar alguma coisa, mas Brooklie perguntou antes “Com quem você estava?”.
- Eu tava na biblioteca. – Eu disse rápido.
-
. – Eu ouvi alguém me chamar, eu olhei para trás e
me abraçou pela cintura. – Você deve estar congelando, vem.
- A gente se vê. – Eu disse sem graça e saí abraçada com
, deixando as duas de boca aberta atrás de mim.
- Vai, troca de roupa rápido. – Disse
, me deixando na porta do meu prédio. – Vamos comer alguma coisa.
É, parecia ser uma boa idéia. Eu me troquei e em dez minutos já estava lá embaixo de novo.
- Aonde vamos? – Eu perguntei enquanto caminhávamos portão afora.
- Algum fast-food ou restaurante. – Ele disse. – O que você prefere?
- Hoje eu quero fast-food. – Eu disse sorrindo igual a uma criança.
- Então ta. – Ele disse e beijou minha bochecha.
Capítulo 6
No Worries
- Dude, para de olhar pra trás e me ajuda aqui! – Eu exigi, vendo
virar a cabeça para trás pela milésima vez naquela aula. Ela sempre fazia isso, era irritante.
- Oi? – Ela perguntou meio confusa. Em que mundo essa garota vive?
- Eu não entendi isso aqui. – Eu apontei para o meu caderno. Enquanto ela me explicava, a peguei olhando rapidamente para trás novamente. Eu olhei para trás e me deparei com
. Certo, haviam várias outras pessoas ali, mas
era bem mais notável, fato.
- Eu acho o
bonito. – Eu disse distraída.
- Engraçadinha. – Reclamou
e eu a olhei sem entender.
- Qual o problema com ele?
- Além de que a Brooklie tomou posse e de que ele é um idiota, nenhum. – Ela disse com raiva.
- Eles são namorados. – Eu disse rolando os olhos. – E ele não me parece tão idiota.
- Namorados? Qual é! – Ela disse, copiando a matéria do quadro, enquanto a ponta de sua lapiseira quebrava algumas vezes. – Eles pegam geral, eles nem são namorados de verdade. É totalmente ridículo.
- Como assim? – Eu perguntei franzindo a testa. - É um relacionamento aberto?
- Deve ser. – Ela bufou. – Quer dizer, ela é ex-namorada do melhor amigo dele, isso já é bem estranho pra mim.
- Quem? – Eu perguntei, apertando uma de minhas mãos.
- Dã. – Ela zombou. – O
. Vai me dizer que sua amiguinha nunca contou?
- Namoraram? E o que aconteceu? Há quanto tempo? – Eu disparei sem conseguir me controlar.
- Ano passado. – Ela disse, apertando novamente a lapiseira cuja a ponta tinha quebrado. – Mas eu não sei muita coisa, eu comecei esse ano aqui também, lembra?
- Ahn, ok. – Eu murmurei, voltando a copiar a matéria silenciosamente.
Quer dizer que
e Brooklie namoravam, e agora ela “namorava”, ou seja lá o que fosse, com o
. E ela havia feito os dois repetirem de ano. Isso é estranho. As pessoas daqui são estranhas de qualquer jeito, mas eles superam. Será que era por isso que
me escondia, porque ele não queria que ela soubesse? Porque ele ainda gostava dela, mas ela estava com o melhor amigo dele?
Durante o almoço eu passei rápido pela mesa de Brooklie, preferi ficar com
e os outros. Eles me faziam sentir como se estivesse em casa.
-
. – Eu disse irritada. – Se você tacar mais alguma coisa em mim, juro que vou te fazer engolir!
Ele não parava de jogar mini bolinhas de papel em mim, e aquilo estava ficando chato. Ele esperou até que eu estivesse distraída e tacou mais uma, me desafiando. Eu peguei três bolinhas do chão e me levantei, dando a volta na mesa e comecei tentar enfiar a bolinha na boca dele, enquanto ele segurava meu braço.
- Eu não joguei! – Ele se defendia. – Foi o
, eu juro!
Eu fiz mais força, tentando enfiar a bolinha na boca dele, e ele teve que segurar meu pulso com mais força, me fazendo gritar de dor, e me soltando na mesma hora.
-
! – Ele exclamou desesperado e se levantou, me abraçando. – Foi sem querer, desculpa!
- Não foi sua culpa. – Eu disse baixinho. – Já tava machucado.
Ele se afastou e me encarou, com a testa franzida. Eu me aproximei e cochei em seu ouvido “Sabe, daquele dia lá no dormitório”. Ele me olhou fechando a cara. Eu levei um dedo a boca em pedido de silêncio. “Depois” eu murmurei voltando ao meu lugar na mesa.
- E você tá marcado, viu
. – Eu avisei apontando para a cara dele.
- As meninas estavam hoje falando na hora do almoço sobre você e o
. –
disse olhando sério para o quadro. Eu fiquei em silêncio para que ele continuasse. – Parece que vocês estavam juntos ontem à noite. – Ele continuou e eu percebi que ele estava tentando não rir.
- Que mais elas disseram? – Eu ri de leve.
- Que vocês eram um casal estranho, e que a cena na hora do almoço provou que vocês estavam juntos. - De repente sua expressão estava séria. –
não pareceu muito feliz em perder o admirador.
- Não sabia que
tinha alguma coisa com
. – Eu murmurei. Pelo jeito eu estava totalmente por fora dos romances do colégio.
- Não tem. – Ele respondeu. – Mas o
vive correndo atrás dela. É de dar dó um homem se comportar assim.
O sinal bateu e eu esperei até que todos saíssem, enrolando para guardar meu material.
fez menção de levantar e eu o puxei pela calça, fazendo-o sentar novamente. Eu me levantei e saí da sala, já que o professor ficaria ali, eu precisava de outro lugar para falar com ele.
- A sala de filosofia tá vazia hoje? – Eu perguntei indo para o andar de cima. Ele assentiu com a cabeça, me acompanhando silenciosamente. Para minha surpresa a sala estava trancada, mas pelo jeito não para a dele. Ele tomou minha frente e em dois minutos a porta estava aberta.
- Você arromba a porta? – Eu perguntei, fechando a porta atrás de nós.
- Na verdade eu tenho a cópia das chaves de algumas salas. – Ele disse dando de ombros. Eu franzi a testa. – Tá, eu roubei e copiei, satisfeita? Mas a chave dessa ficou no meu quarto, então sim, eu arrombei. O que tem de errado nisso?
Eu rolei os olhos e me sentei na mesa do professor. Ele se aproximou de mim e tentou me beijar, mas eu virei rosto.
- O que foi? – Ele perguntou, afastando o rosto.
- Eu não entendo por que temos que ficar sussurrando, por que você me esconde, por que não posso contar sobre nós para ninguém. – Ele continuou me olhando, como se pedisse para que eu continuasse. – Tudo bem, não temos nada, eu sei. Mas por que tanto segredo? O que tem de errado comigo?
- Não tem nada de errado com você. – Ele disse com a expressão séria. – Mas é melhor assim. Eu não sei se posso te contar ainda.
- É a Brooklie, não é? – Eu perguntei olhando em seus olhos.
- O que a Brooklie tem a ver? – Ele perguntou surpreso.
- Me diz você
. – Eu disse ríspida.
- Ela é só minha ex-namorada, o que isso teria a ver? – Ele perguntou, me encarando com a mesma intensidade.
Ficamos um momento em silêncio, até eu quebrá-lo “Você ainda gosta dela”.
- De onde você tirou esse absurdo?
- Do fato de que tudo que envolve eu e você ter que ser um segredo.
- Certo, ela até tem a ver com isso. – Ele desabafou. – Mas eu não gosto dela, de maneira alguma. Ela é que ainda gosta de mim, ou melhor, pelo que tenho visto, ela é praticamente obcecada por mim. E ela é uma das pessoas que eu tenho medo que te façam mal por isso.
- Mas pelo jeito vocês dois ainda andam juntos, não é meio estranho? – Eu perguntei, ponderando se acreditava nele ou não.
- Ela pega o
. – Ele disse, rolando os olhos. – Ela é que não desgruda da gente, não é minha culpa.
- Certo, porque a sua ex é maluca nós somos um segredo, então se resume a isso?
- Não. – Ele suspirou. – Não é só isso. Apesar da Brooklie ser perigosa, não é dela que eu tenho mais medo.
- Você não confia em mim o bastante pra me contar, não é mesmo? – Eu o olhei de um modo triste.
- Eu confio. – Ele disse. – Mas não quero te preocupar com isso agora. Só preciso que você confie em mim.
- Certo. – Eu disse finalmente e pulei da mesa. – Mas eu estou de olho em você mocinho. – Eu coloquei dois dedos em frente a meus olhos e depois os apontei para ele, sorrindo, e saí da sala.
-
. – Ele me chamou antes que eu chegasse na metade do corredor. Eu parei e esperei que ele me alcançasse. – Quer dar uma volta? – Ele sussurrou em meu ouvido, me fazendo arrepiar.
Os corredores estavam desertos, pois no terceiro andar haviam poucas salas, e todos os alunos estavam nelas. Eu pensei por um instante, e então o segui pela escola. Passamos despercebidos por todos, já que podíamos estar simplesmente em um horário vago. Matar a terceira aula de física que teria em um dia não me parecia uma má idéia, já que tinha perdido metade dela mesmo. Quando dei por mim, já estávamos no estacionamento. Eu observei a moto vermelha em minha frente.
- É sua? – Ele assentiu com a cabeça. – Mas você já pode dirigir?
- É claro. – Ele respondeu e eu montei na moto depois dele. Eu havia me esquecido que lá se podia tirar carteira mais cedo, e ele pelo jeito já tinha idade suficiente para isso. – Segura firme. – Ele avisou e eu o abracei pela cintura.
Ele acelerou a moto de uma vez, me fazendo segurar mais forte em sua cintura. O porteiro mal teve tempo de falar qualquer coisa e já estávamos longe. O vento fazia barulho e tudo passava rápido demais para que eu conseguisse distinguir muita coisa. Eu fechei meus olhos, com um pouco de medo. Devem ter se passado uns quinze minutos ou uma vida ali, até que ele diminui e parou. Se eu não tivesse prendido tão bem minha saia, Londres inteira teria visto meu short durante o trajeto. Eu desci da moto me sentindo meio tonta.
- Você é um perigo na direção. – Eu disse, vendo-o desmontar da moto. – E você por acaso não esqueceu os capacetes?
- É mesmo. – Ele levou uma mão à testa. – Mas agora já era. – E então deu de ombros.
- Onde vamos? – Eu perguntei olhando em volta. Estávamos no estacionamento aberto de algum outro lugar, e parecia ter bastante mato em volta.
- Dar uma volta no parque. – Ele disse com um sorriso infantil no rosto, que me fez sorrir também.
Ele segurou uma de minhas mãos, enquanto caminhávamos em direção ao parque e entrelaçou-as, me fazendo corar ligeiramente. Seguimos por um caminho de asfalto, onde pedestre e ciclistas tinham seus lugares demarcados. O caminho era ladeado por árvores, uma brisa batia em meu rosto, apesar de minha roupa curta demais para um lugar sem aquecedores me dar frio, aquela brisa era gostosa. À nossa direita, além de um longo gramado onde pessoas estavam sentadas ou até deitadas e crianças corriam, havia um grande lago.
Uma coisa vermelha a minha frente me assustou, até perceber que
estendia uma flor vermelha para mim. Eu sorri e a peguei, dando um beijo em sua bochecha.
- Aqui não há ninguém que nos veja. – Ele disse sorrindo. – Eu posso mostrar à todos o quanto a minha garota é linda.
Eu senti meu rosto esquentar e meu coração disparar ainda mais, além do que a presença dele já me causava. Eu fiquei nas pontas dos pés para beijá-lo, que correspondeu. Era um beijo calmo, carinhoso, mas que ainda assim disparava mais meu coração e fazia com que correntes elétricas tomassem o lugar do sangue no meu corpo. Ele parou de me beijar e mordeu forte minha bochecha. Eu reclamei de dor e ele saiu correndo, olhando pra trás e sorrindo. Eu saí correndo atrás dele, que foi em direção ao gramado. Por mais que eu fosse rápida na corrida, ele conseguia se desviar de mim por um triz. Em alguns minutos já estávamos cansados, não somente pela corrida, mas também porque ríamos que nem dois babacas. Ele finalmente deixou que eu o alcançasse, eu pulei e o derrubei no chão. Ele me puxou junto e eu caí por cima dele no gramado. Eu ia revidar a mordida, mas antes que conseguisse, ele me beijou, me fazendo esquecer qualquer outra coisa no mundo.
- Sabia que você é a garota mais linda desse mundo? – Ele disse, colocando uma mecha de cabelos atrás da minha orelha.
- Sabia que é feio mentir? – Eu disse, sentindo meu rosto queimar e dei um selinho nele.
- Mas eu não estou mentindo – Ele disse, e aqueles olhos me faziam sentir como se nada de ruim poderia acontecer no mundo. – Você é a garota mais linda do mundo.
Eu sorri sem graça sentindo meu rosto queimar mais ainda.
- E fica uma gracinha assim toda vermelhinha. – Ele sorriu abertamente.
- Eu não tô vermelha. – Eu protestei, cobrindo meu rosto com as mãos.
Eu escutei ele rir e então afastou minhas mãos do meu rosto e me beijou. O beijo começou calmo, então foi aumentando a intensidade. Ele rolou na grama trocando de lugar comigo e ficando por cima de mim.
-
, estamos no meio de um parque. – Eu disse ainda sem parar de beijá-lo, quando me dei conta de que minhas pernas involuntariamente levantavam enquanto ele estava deitado entre elas. – E sabe, eu tô de saia.
Só então ele considerou que estávamos em público.
- Quer comer alguma coisa? – Ele perguntou, se apoiando nos cotovelos e me observando.
Será que se eu responder “você” fica muito feio? Ok, se controla.
- Aham. – Eu respondi, passando a mão por seus cabelos.
Nós nos levantamos e limpamos a grama. Fomos até uma barraquinha de cachorro quente ali perto e só quando eu dei a primeira mordida foi que percebi que realmente estava com fome.
pegou o ketchup e desenhou uma carinha feliz no cachorro-quente dele, me fazendo rir. Eu desenhei um coração torto no meu, que fez até o dono da barraquinha rir. Depois de comidos e satisfeitos... Já sei, eu tenho a mente maliciosa e sei que ficou estranho, então, depois de termos comido, voltamos para a parte gramada e sentamos ali. Eu me recostei em
e ficamos ali observando o lago e as pessoas. Eu e
rimos alto quando uma criança caiu logo a frente, e uma outra tropeçou nela e caiu também.
- Para de rir, não seja malvado com as criancinhas. – Eu censurei, tentando conter minhas próprias risadas.
- Nem vem, você também riu dela. – Ele reclamou. – E eles nem se machucaram, já estão até correndo de novo.
Ficamos ali conversando e observando o pôr-do-sol. Aquele parque era simplesmente encantador, e as pessoas ali pareciam sempre felizes. O mesmo garoto que caiu, correu para perto de nós, e tocou em
enquanto gritava “Tá com ele!” e então saiu correndo de novo. Antes que eu entendesse,
saiu correndo atrás do grupo de crianças, não correndo tão rápido, apenas o suficiente para assustá-las. Eu ria enquanto ele corria atrás de uma menininha, e então a levantou no ar, a fazendo rir alto. “Tá com ela agora” ele gritou e colocou-a no chão de volta.
- Se você não fosse tão grande, nunca conseguiria te distinguir entre as outras crianças. – Eu disse rindo enquanto ele voltava a se sentar encostado na árvore.
Em pouco tempo as crianças já estavam indo embora com seus respectivos pais, enquanto o dia ia se tornando noite.
- Vocês formam um casal lindo. – A garotinha, que
havia erguido no ar, parou de mãos dadas com a mãe ao seu lado. Ela era loirinha, com cabelos compridinhos e uma franjinha. Eu tive vontade de apertar as bochechas dela e a encher de carinho.
- Pode falar, minha namorada é perfeita. – Eu olhei para trás e
estava com um sorriso convencido no rosto. – Só não sei se é mais bonita que você.
A menina deu uma risadinha e ficou vermelhinha, o que só me deu mais vontade ainda de brincar com ela.
- Pá você. – Ela disse e me entregou uma flor amarelinha. – Presente de casamento.
- Obrigada fofinha. – Eu agradeci, pegando a flor e a cheirando.
A menina e a mãe se afastaram.
- Não sabia que eu era sua namorada. – Eu disse, observando a flor em minhas mãos.
- Quer dizer que você está precisando aprender mais. – Ele disse e eu boiei por um instante. – Eu só traria uma pessoa muito especial até aqui. Você pode não ser minha namorada, ainda, mas temos algo mais especial que isso.
Então tá né.
- Agora vamos embora, já está ficando tarde, e já devem estar dando por nossa falta na escola. – Ele disse depois de alguns momentos de silêncio.
Capítulo 7
Daydream
-
! – Eu ouvi alguém me chamar quando estava saindo da escola, após passar no meu armário e pegar meu fichário. Eu olhei para o lado e
corria em minha direção.
- O que foi criatura? – Eu perguntei preocupada com a ansiedade dele.
- O que foi? Você simplesmente desapareceu sua louca! – Ele disse bravo. – Em um horário você estava lá e no outro não! Te procurei na enfermaria, te procurei em todos os lugares em ninguém sabia de você!
- Calma aí, nem minha mãe se preocupa tanto comigo. – Eu reclamei franzindo a testa. – Sabia que eu tenho celular querido?
- Sabia, mas você pareceu esquecer, porque não atendia! – Eu pensei por um instante nisso. Verdade, no caminho até o estacionamento havíamos largado nossas coisas nos armários, eu nem me toquei de pegar o celular. Era incrível se quer que eu lembrasse de respirar com
perto de mim.
estalou os dedos em frente ao meu rosto me tirando de minhas lembranças felizes.
- Em que mundo você vive garota? – Ele me perguntou.
Eu ri. “Foi a mesma coisa que perguntei a
hoje”. É, espera um pouco.
tá apaixonadinha! É isso!
- Daqui a pouco eu passo no seu quarto! – Eu disse e sai correndo para meu dormitório.
-
, você está apaixonada! – Eu disparei assim que entrei no quarto.
Ela enxugava os cabelos com uma toalha branca e arregalou os olhos para mim. Eu fechei a porta.
- Onde você estava mocinha? – Ela perguntou.
- Não adianta tentar mudar de assunto. – Eu a cortei. – Agora me conta, por quem você tá apaixonada?
- Saí dessa. – Ela disse, rolando os olhos e ligando a TV.
Eu tirei a TV da tomada, a fazendo reclamar.
- Pode desembuchar! – Eu intimei, balançando a tomada na minha mão.
- Você não me conta absolutamente nada de interessante que acontece com você, por que eu teria de ser diferente? – Ela perguntou brava.
É, isso era verdade. Não é que eu não confiasse nela. Analisando bem, ela e a
eram as únicas garotas em quem eu confiava nesse continente.
-
. – Ela disse baixinho. Eu a olhei de olhos arregalados, enquanto ela encarava o chão, parecendo totalmente desarmada.
Eu considerei várias coisas para dizer, mas ver ela assim era de cortar o coração. Peguei um pente e sentei ao seu lado na cama.
- Sabe, na verdade nem importa. – Ela disse enquanto eu passava o pente por seus cabelos. – Ele nem olha pra mim. – Ela deu de ombros, parecendo angustiada.
- Eu conheço alguém que poderia persuadi-lo. – Eu disse e ela se virou para me encarar. – Ele não te vê porque você não o fez vê-la.
- Eu não quero ficar com ele, ser só mais uma, entende?
- Não estou dizendo que esse alguém vá fazer a cabeça dele, só estou dizendo que possa dar um toque nele. – Eu disse a ela, passando o pente por sua franja. – Você é linda, isso é um fato. Fora que você é carinhosa, confiável, sabe conversar e é super inteligente. Qualquer homem ficaria caidinho por você se pudesse te conhecer melhor.
- Nossa, quer ser minha empresária? – Ela brincou sorrindo. – Mas entre eu e a Brooklie, duvido que ele iria preferir à mim. Quero dizer, olha só pra ela!
É nessas horas que eu tenho vontade de socar minhas melhores amigas.
- A Brooklie pode ser o que for, mas eu ela cansa. – Eu disse a encarando. – O
sabe que ela não presta. Ela é ex-namorada do melhor amigo dele, e tem uma voz enjoada. Até o
sabe que o
só está com ela pra passar o tempo e...
- Quando foi que o
apareceu na conversa? – Ela perguntou me olhando, e eu percebi que havia falado demais, sentindo meu rosto esquentar. – Sabe, parando pra pensar agora, eu também não vi o
hoje desde o último horário.
Ela estava de sobrancelhas erguidas para mim, com aquela expressão de “estou esperando você contar o que eu já sei”. Eu congelei por um instante, tentando buscar uma saída.
- Nossa, olha a hora! – Eu exclamei me levantando de um pulo e pegando meu fichário. – Fiquei de passar no quarto do
. – E saí do quarto correndo.
Eu já estava na metade da escada do prédio dos garotos quando encontrei com
.
- Achei que tivesse deixado claro que não queria a senhorita por aqui, muito menos sozinha. – Ele sussurrou. Dois garotos passaram por nós, e ele esperou que se afastassem para continuar. – Então, o que você está fazendo aqui? – Ele exigiu, cruzando os braços.
Eu o observei, e percebi o quanto ele parecia extremamente sexy daquele jeito.
- Vim pegar a matéria de física com o
. – Eu disse, mostrando o fichário a ele.
- Vocês não podiam fazer isso na biblioteca? – Ele perguntou franzindo o cenho.
- Ele também queria falar comigo. – Eu expliquei. – Ficou preocupado porque eu desapareci.
- Vocês não podiam fazer isso na biblioteca? – Ele repetiu a pergunta.
- No quarto dele temos mais liberdade e podemos conversar.
- Por isso mesmo. – Ele disse e eu o observei por um instante.
- Há, tá com ciúme do
! – Eu brinquei e ele pareceu desconcertado.
- E daí que eu não goste da idéia de você trancada em um quarto com ele? – Ele disse, olhando para um ponto qualquer. – Você também não gostaria se fosse a Brooklie, não é?
Eu fechei a cara para ele. Isso já era trapaça.
- É diferente,
é meu amigo. – Eu disse emburrada. – E provavelmente o
vai estar lá. Agora eu tenho que ir.
Eu olhei em volta e a escadaria estava vazia, apenas com barulhos e vozes ao longe. Dei um selinho nele e passei, continuando a subir as escadas.
Eu bati na porta e antes que
a abrisse, olhei para o corredor, e vi que
estava no topo das escadas. Esperando que eu entrasse, claro. Mandei um beijo no ar pra ele e
abriu a porta e me abraçou.
- O
não tá aqui? – Eu perguntei adentrando o quarto.
- Deve tá jantando no refeitório. – Ele disse dando de ombros.
- Me passa a matéria de física? – Eu pedi, abrindo meu fichário e colocando-o em cima da escrivaninha.
- Sabia que você ia pedir. - Ele pegou seu caderno dentro da mochila e me entregou. – E então, vai me contar sobre o fato de seus pulsos estarem machucados?
- Foi aquele garoto que me atacou. – Eu disse, copiando a matéria de seu caderno.
- Por que você não deu queixa dele?
- Porque eu poderia ser expulsa na primeira semana só por estar no prédio masculino.
- Mas se você não deu queixa, por que ele foi expulso? – Perguntou
e eu me virei para encará-lo.
- Expulso? – Eu perguntei sem entender.
- É o que parece, porque ele não está mais na escola, já tem até um garoto novo no lugar dele.
- Ainda bem que se livraram dele. – Eu disse, voltando a escrever.
disse que daria um jeito, então ele devia ter armado para expulsar o cara. Espero.
- É. – Concordou
. Ficamos algum tempo em silêncio, até ele perguntar: - Agora me fala, onde você esteve?
- Três aulas de física em um dia é estressante demais pra mim. – Eu disse, soltando um suspiro. – Fui dar uma volta.
Eu sorri com a minha explicação. Eu realmente tinha ido dar uma volta, só não preciso ficar dando detalhes do que faço ou deixo de fazer. Ele pareceu respeitar meu estresse com aulas de física, porque começamos a conversar sobre livros.
Cheguei no meu quarto e fui logo ligando o computador. Se aqui eram quase dez horas, no Brasil deveriam ser umas sete. Mal conectei e elas já vieram me atormentar. Tá, eu adoro elas me atormentando, segredo.
Mari: Hey amiga, vai ter uma festa aqui nesse fim de semana, vai bombar! Queria que você pudesse vir :(
Liz: Eu já até despistei meu peguete, só pra poder curtir \o/
: :( Saudade de festaaa!!! Liz, sua biscate.
Liz: =O
: Zuera amiga :) Queria ir!
Mari: Você ainda não disse como se chama o garoto! Desembucha mulher!
:
.
Liz: *----* Que nome fofo.
: Tira o olho! É MEEEU!!!
Mari: Mals ae então
Liz: Ok, só disse que o nome é fofo cara, que maldade comigo!
: Eu sei amor.
Mari: Ciúmes=ela tá mais apaixonada do que eu pensava.
Liz: E aí, o que você fez hoje?
Mari: Por aí não tem umas festas não amiga?
: Hoje... Fui para um parque com ele. Fomos de moto, e passamos a tarde lá, matei a aula de física :). Festas por aqui? Nem tinha pensado nisso.
Liz: *-----* Quer dizer que vocês tem um romance! Aí que tudo!!
Mari: Não tinha pensado nisso? O.o Garota, acorda, VOCÊ TÁ EM LONDRES SUA ANTA! E você nem tá aproveitando! Ah, se eu tivesse aí...!
: Verdade né! Pode deixar amigas, vou aproveitar esse fim de semana e vou pra alguma festa. Vamos nos divertir ao mesmo tempo :)
Mari: Se o fuso horário nos permitir.
Liz: Não estraga o momento Mari!
Mari: Tá, calei.
: Gente, melhor eu ir... Tô cansada e tenho que acordar cedo. E só pra eu saber, se aí era de manhã quando aqui era hora do almoço, como vocês estavam on?
Liz: Matamos aula =D
Mari: Uns garotos muito lindinhos nos chamaram e nós ficamos até tarde na rua, aí estávamos cansadas demais pra aula. Depois que você desconectou a Liz veio aqui em casa.
: Marginais! Bom, beijos & boa noite.
Liz: =*
Mari: Até amanhã.
Eu fechei o laptop e me troquei, me atirando na cama em seguida. Quando a porta do dormitório abriu e
entrou, eu fingi já estar dormindo, pra não ter que tocar no assunto “
” de novo. Ela deitou e se cobriu, e quando eu pensei que ela já tivesse pego no sono, ouvi sua voz invadir o silêncio e a escuridão “Você e o
estão ficando?”. Eu continuei em silêncio, na esperança de convencê-la do meu sono profundo.
- Eu sei que você tá acordada. – Ela disse e me jogou um travesseiro na cara.
- Aí! – Eu reclamei tacando o travesseiro de volta. – E se eu estivesse dormindo, você teria me acordado!
- E então, me fala sobre vocês dois. – Ela pediu e eu pude ver sua silhueta sentando na cama, e eu desisti e fiz o mesmo.
- Eu não sei explicar. – Eu comecei a contar. – Quer dizer, ele é super fofo quando está sozinho comigo... Mas ele não quer que eu conte sobre nós para ninguém. Quando você me falou da Brooklie, eu pensei que era por que ele ainda gostasse dela. Mas não é isso, e eu não consigo entender o porquê.
Ela ficou um momento em silêncio “Eu vou te ajudar a descobrir, pode deixar”.
Eu sorri porque sabia que ela também sorria “E eu vou te ajudar com o
”. Um silêncio esperançoso se instalou entre nós, e eu sentia a ansiedade crescendo dentro de mim. “Que acha de irmos a alguma festa esse fim de semana?”.
- Bem que eu queria poder. – Ela suspirou. – Mas minha mãe é meio... controladora.
Eu fiz uma careta. “E se você fingir que você vai dormir na casa de alguém?”.
- Você não entendeu. – Ela respondeu e eu senti a tristeza em sua voz. – Quando eu digo controladora, eu quero dizer realmente controladora. Eu tive que falsificar minha autorização pra poder sair quando eu quisesse, porque, se fosse por ela, eu sairia um dia por semana.
Isso sempre me assustava, o quanto as mães podem tentar prender seus filhos.
Acordei no dia seguinte com o som do meu despertador.
já estava se vestindo, e depois de lutar contra meu sono, foi o que fiz também. Eu ainda era obrigada a usar as munhequeiras, apesar de a mancha estar quase inteira amarela nos meus pulsos. Mas tudo bem, apesar de parecer ridículo, eu podia jurar que o perfume do
estava ali.
Eu fechei o armário com
logo atrás de mim, o corredor lotado de alunos, mas eu só consegui ver uma pessoa passando.
vinha com o uniforme masculino – calça preta, camisa social, gravata quadriculada como minha saia, o suéter cinza e o casaco com o emblema da escola –, caminhando sonolento. Eu não saberia como explicar, mas aquele uniforme ficava diferente nele, de um jeito totalmente sexy. Ele me fitou por um instante e sorriu de lado, me fazendo corar e olhar pra baixo sorrindo.
- Se isso é um segredo, por que você baba nele tão descaradamente? – Perguntou
, enquanto caminhávamos pelo corredor. Eu já tinha perdido
de vista, mas ainda o via em minha mente.
- Como assim? – Eu perguntei distraída, até começar a raciocinar de novo. – Hey, eu não faço isso!
- Só estou te avisando que sim, você faz. – Ela se virou de repente e entrou na sala pela qual passávamos. Eu me encaminhei até o laboratório de química, no terceiro andar, onde
já me esperava.
- Fala aí Five Colours! – Ele me cumprimentou, animado como sempre.
Eu sentei na cadeira ao seu lado e esquadrinhei a sala com o olhar até achar
, com o queixo apoiado na mão, quase dormindo.
- E aí. – Eu respondi, me voltando para frente.
- Bom dia classe. – O professor cumprimentou a todos. – Hoje nós vamos dissecar animaizinhos como sapos. Geralmente eu deixo isso para o final, mas esse ano...
- Prefiro dissecar um ser humano. – Eu reclamei baixo.
- Vamos dissecar a mãe dele pra ver se ele gosta. – Eisse
com raiva, me fazendo rir.
- Mas se vocês tiverem outra sugestão. – Disse o professor, parecendo nervoso com a reclamação da classe. – É só falar.
- Nós podíamos ir até algum parque e estudar as plantas. – Eu sugeri alto, fazendo todos me olharem.
- Muito esperto da sua parte, mas... – O professor disse.
- Ela está certa. – Defendeu uma garota na primeira carteira. – Nós estamos estudando sobre as plantas em química teórica, seria bom se pudéssemos fazer isso.
O professor pareceu considerar por um instante.
-Está certo então. – Disse ele finalmente. – Eu vou conversar com o outro professor e semana que vem nós vemos isso. Podemos ir estudando o que temos por aqui por hoje então.
Ele foi até o armário e nos entregou folhas secas e depois foi buscar folhas novas, nos mandando verificar uma série de coisas através do microscópio.
pareceu tão feliz com isso que se esforçou em me ajudar, se mostrando inteligente o suficiente para tirarmos uma alta nota.
Esperei até que as duas estivessem juntas, na aula de educação física, para falar sobre o fim de semana. Elas haviam conseguido remanejar todas as líderes de torcida para terem aula de educação física no mesmo horário, para podermos realmente treinar nesse horário, então o vestiário estava cheio de garotas que pareceram adorar a idéia de festa no fim de semana tanto quanto elas.
- Mas para onde nós vamos? – Perguntou
.
- Aí garotas. – Uma garota morena de cabelos até os ombros nos chamou. – Meu tio é dono de uma boate, ou seja lá o que for aquilo. Podemos ir para lá, não vamos precisar falsificar documento nem nada. Posso descolar entrada vip pra gente.
- Mas seus pais não ligam? – Eu perguntei um tanto preocupada.
- Não se eu for lá, porque eles pensam que meu tio me vigia. – Ela disse sorrindo.
- Ótimo, nós vamos. – Disse Brooklie levantando um pompom com a mão.
- Yeah. – Eu e
concordamos e levantamos os pompons juntas.
- Quem mais vai com a gente? – Perguntou Brooklie. Três garotas levantaram os pompons. – Então tá, coloca a gente na lista e passa o endereço. – Ela disse à garota, com um sorriso convencido. –
, você vai dormir lá em casa? –
fez que sim com a cabeça. – Five Colours, quer dormir lá também?
- Quero. – Eu respondi sorrindo. Aquilo prometia ser divertido.
me explicou que era quase uma tradição inglesa de que os filhos pudessem ter contato com o álcool desde cedo, bebendo o quanto quisessem, contanto que não envergonhassem a família ou vomitassem na frente de alguém, acreditando-se que assim não teriam o porquê beber escondido ou ser alcoólatras no futuro. Isso quer dizer que tínhamos sinal verde para o fim de semana.
Eu não me demorei a mandar uma mensagem para minha mãe avisando e a ligar para os pais de Lauren. Falando em Lauren, eu quase não a vi durante a semana.
Na sexta o tempo passou voando. Eu mal vi o
porque passei a maior parte do tempo livre na biblioteca, tentando adiantar todas as minhas lições e trabalhos. Eu estava voltando para a biblioteca, com apenas a conclusão de um dos meus trabalhos faltando, quando meu celular começou a tocar. O identificar de chamadas me avisando que era
.
- Oi. – Eu disse parando no corredor.
- Horário livre agora, certo? – Ele perguntou do outro lado da linha com aquela voz grossa, aveludada me fazendo sorrir.
- Certo. – Eu confirmei.
- Vamos fazer alguma coisa. – Ele pediu.
- Ok. – Eu concordei alegre. – Aonde te encontro?
- Passa no meu quarto, tô perto dele já.
- Ok. – Eu repeti e ele desligou o celular.
Eu deixei minhas coisas no armário e fui para o quarto dele. Por incrível que pareça, eu não sentia medo de ir para lá. Acho que os únicos caras de que eu não tinha medo de estar em um quarto trancada com eles era ele,
,
e talvez
. Talvez eu estivesse começando a superar certas coisas, isso é bom.
me esperava na porta, tomando conta do corredor. Ele me deu espaço e eu entrei, com ele fechando a porta atrás de mim. Ele se jogou na cama próxima a janela cruzando os braços atrás da cabeça.
- E então, o que você sugere? – Ele perguntou, me olhando. – Quer ir a algum lugar perto?
Eu não tinha mais raciocínio lógico. Seu perfume estava impregnado no quarto, atacando meus pulmões como um veneno. Eu olhei para ele, simplesmente despreocupado ali na cama, sem gravata, apenas com a camisa social com os primeiros botões abertos, colada ao corpo por causa dos braços esticados para trás da cabeça, com a parte da cueca aparecendo. Por que ele precisava me provocar desse jeito?
- Precisamos mesmo sair daqui? – Eu perguntei, sem me dar muita conta do que estava fazendo.
Não existia mais nada no mundo, nada que importasse. Eu deitei de bruços ao seu lado e me apoiei em seu peito para poder alcançar sua boca.
- Não. – Ele disse, levantando o rosto e me beijando.
Ele abaixou os braços para minha cintura, e o beijo foi se tornando mais intenso. Eu sentia meu coração acelerado tentando rasgar minha pele e sair. Respirar não era mais importante do que beijá-lo, com certeza não. Ele se apoiou nos cotovelos nos levantando calmamente, e quando me dei conta, ele estava com o corpo por cima do meu. Suas mãos passeavam por minha cintura e subiam pelas laterais. Eu comecei a desabotoar sua camisa sem parar de beijá-lo.
-
. – Ele disse se contendo e afastando minhas mãos de sua camisa. – Se você for começar a ter falta de ar outra vez, é melhor não exagerar.
- Desculpa. – Eu disse, tentando voltar a beijá-lo.
- Você bem que podia me contar o por quê disso. – Ele disse, me impedindo de beijá-lo. Não me tortura
!
- Não gosto de falar sobre isso. – Eu disse, tentando encerrar o assunto. – Só tenha um pouco de paciência comigo.
- É que não é tão fácil quanto parece simplesmente me segurar, entende. – Seus olhos
observavam minhas reações, então eu tentei conter uma careta. – Quero que você esqueça tudo de ruim que já te aconteceu, mas não comece o que não pode terminar.
Nossa
, assim você estraga sabia. Ele percebeu minha cara emburrada.
- Minha pequena. – Ele disse carinhosamente, acariciando meus cabelos. Ele me deu um selinho, mas eu o impedi que se afastasse, segurando em sua nuca.
O beijo voltou a ficar intenso rapidamente, quase com desespero. Eu envolvi uma de minhas pernas em torno de sua cintura, e ele passou a mão por ela. Eu voltei minha atenção novamente para os botões da camisa dele, conseguindo abrir todos e jogar a camisa dele longe. Eu deslizei minha mão por toda a extensão agora descoberta. Como ele conseguia ser tão gostoso meu Deus? Eu mordi seu lábio inferior, voltando a beijá-lo em seguida. Ele começou a abrir os botões da minha camisa, e de repente ele não estava mais lá. A falta de seu corpo quente sobre o meu, me fez sentir um pouco de frio e um certo vazio. Olhei para o lado e
estava na porta.
- Sabe dude, você podia bater. – Reclamou
, enfezado colocando a camisa de volta.
- Foi mal. – Ele passou a mão pelo cabelo, constrangido. – Quer que eu volte depois?
me olhou questionando.
- Não, tudo bem. – Eu disse fechando minha blusa, com o rosto queimando e totalmente envergonhada. – Eu tenho que arrumar minha mochila mesmo. Tchau
.
Eu dei um selinho nele, mas ele me segurou, pedindo passagem com a língua, concedida rapidamente. Eu estava lá feliz beijando
quando ouvi uma tosse forçada atrás de mim, me lembrando que
ainda estava ali. Se eu já não tivesse dito pra ficar, eu o expulsaria do próprio quarto. Finalizei o beijo com um selinho e me afastei rápido, saindo do quarto totalmente desconcertada.
- O que você tava fazendo aí? – Eu encontrei
, assim que saia do prédio masculino.
- Ahn... – Eu disse, tentando pensar em uma boa desculpa. – Vim te procurar antes de ir, só pra dizer tchau, sabe?
Ele sorriu. Deve ter pensado que a embolação era pela timidez. Tadinho,
era tão inocente. E isso era fofo nele.
- Tchau arco-íris do meu céu. – Ele disse me abraçando e rodando no ar.
Era nessas horas que eu ficava feliz de ter um short por baixo da saia, ou todo mundo teria conhecido minha calcinha naquele momento.
- Tchau bebê. – Eu fiz uma voz infantil e dei um beijo em sua bochecha assim que ele me colocou no chão.
Capítulo 8
Party up!
- Pronta? – Eu perguntei, parando na porta do quarto de Lauren com a mochila nas costas.
- Acho que sim. – Ela pegou uma mochila e colocou nas costas também.
Despediu de sua companheira de quarto e fomos para o estacionamento esperar os pais dela. Eu estava de calça jeans, das quais eu já estava sentindo falta nos últimos dias, então pude sentar no chão e cruzar as pernas.
Um conversível vermelho parou e Brooklie passou em minha frente, indo em direção a ele com
em sua cola.
- Por incrível que pareça, aquele é o pai dela. – Disse Lauren, que estava sentada ao meu lado com cara de tédio.
Eu olhei para o motorista. Ele era consideravelmente jovem e bonito. Parecia mais o irmão dela e não o pai.
- Toma cuidado quando estiver na casa dela. – Ela avisou. – O pai dela não é o cara mais confiável do mundo.
- Tal pai, tal filha, entendi. – Eu disse tentando não apresentar a surpresa em minha voz.
O resto daquele dia foi tranqüilo. Saímos para comer pizza em “família”, eu terminei meu dever com a ajuda de Lauren, tive tempo de continuar lendo “A mediadora” e fiquei até tarde na internet falando com Mari e Liz.
No sábado eu fui para a casa de Brooklie depois das cinco horas, e Rachel, a mãe de Lauren, fez questão de me levar até lá. Apesar de eu estar omitindo sobre a festa, ela bem que podia confiar mais em mim né! Mas tudo bem, antes de carro que de busão.
A casa era branca e enorme. Também, depois daquele carro lindo e reluzente na escola, o que eu podia esperar?
Rachel tocou a buzina e Brooklie apareceu seguida pelo pai na porta principal. Eu me despedi dela agradecendo a carona e fui ao encontro deles. Assim que o pai de Brooklie acenou, ela deu partida no carro e foi embora.
- Prazer em conhecê-lo senhor Patterson. – Eu o cumprimentei com a mão estendida.
- O prazer é todo meu. – Ele disse pegando minha mão e a beijando. – Mas pode me chamar de John.
- John. – Eu repeti com um sorriso simpático e a voz que eu sempre fazia quando falava com os pais de alguma amiga.
- Vamos. – Brooklie me puxou pela mão e me levou para dentro da casa.
- Oh! Você deve ser a nova amiga da Broo! – Uma mulher jovem, loira e bonita apareceu quando passamos pela sala. É, antes amiga do que inimiga pra ela. – Prazer, eu sou Claire.
- Muito prazer. – Eu dei um sorriso e acenei, ainda com minha voz de santinha.
- Mãe, leva alguma coisa pra gente comer lá em cima? – Brooklie pediu à Claire. Cara, os pais dela eram realmente jovens, medo.
Brooklie me puxou pela mão escada à cima. Passamos por um corredor e no meio dele entramos em um quarto grande e luxuoso, como o resto da casa.
estava lá dentro com um laptop no colo.
- Oi! – Ela sorriu simpática e eu fiz o mesmo.
Brooklie nos deixou lá e foi para algum outro lugar da casa.
- Como os pais dela são tão jovens? – Eu sussurrei, sentando ao lado de
na cama.
- Na verdade, eles são mais velhos do que parecem. – Ela sussurrou em resposta, sem tirar os olhos da tela do laptop. – Mas sabe como é, plásticas e cosméticos fazem milagres hoje em dia.
Eu ri e ouvi passos no corredor. Brooklie apareceu em seguida na porta do quarto.
- E então, você podia nos contar mais sobre esse namoro com o
. – Pediu Brooklie se largando no puff do mesmo tom rosa que a colcha de sua cama. - Eu ainda não acredito que você esteja com aquele loser.
- Eu não entendo essa implicância de vocês com ele. – Eu disse levantando as sobrancelhas.
- Ah, ele é bonito, vai Brooklie. – Defendeu
, mas eu via que ela tinha reunido coragem para isso.
- Mas continua sendo um loser. – Ela deu de ombros.
- Se você me dissesse que aquele garoto lá da escola, cheio de espinhas na cara e que fala que nem um retardado é um loser, eu entenderia. – Eu disse séria. – Mas eu simplesmente não entendo por que vocês implicam com Tom.
- Pensando bem, eu também não. – Disse
, deixando o computador de lado e encarando Brooklie.
- Ah, qual é garotas. – Ela disse depois de um instante. – Ele nem tem dinheiro direito, está naquela escola com uma meia-bolsa de estudos.
- E eu estou com uma bolsa de setenta por cento de desconto. – Eu disse a encarando duramente. – E como você deve imaginar, o dinheiro que minha mãe me manda acaba virando metade do valor com a troca de moeda.
- Então foi por isso que você fez tanta questão de eu não me aproximar dele? – Perguntou
indignada. – Quero dizer, o
não tinha tanta grana antes do pai dele morrer, e vocês namoravam.
Brooklie ficou calada.
-
pediu pra ficar com você? – Eu perguntei interessada.
- Ah, é... – Ela parecia constrangida.
- Relaxa, ele é só meu amigo. – Eu a encorajei.
- Bem... Pediu. – Ela disse ainda apreensiva. - Umas três vezes, eu acho.
Claire entrou no quarto trazendo uma bandeja com lanches, o que cortou nosso assunto.
- Vai querer que John leve vocês para a festa ou alguém vem buscá-las? – Perguntou ela simpática, e eu notei que ela tinha o mesmo tom de verde que Brooklie nos olhos.
- Papai. – Disse Brooklie simplesmente.
A mãe saiu do quarto e um silêncio inquietante tomou conta da atmosfera.
- Esse lugar parece legal. – Eu disse alto, tentando sobrepor a música alta quando entramos na espaçosa danceteria.
- Já estive em melhores. – Disse Brooklie seguindo na frente.
A batida da música ficava cada vez mais alta conforme nos aproximávamos da pista. As quatro garotas do vestiário, incluindo a sobrinha do dono do lugar, vieram ao nosso encontro.
- E aí garotas, se divertindo? – A sobrinha do dono perguntou entusiasmada.
- Ah, acabamos de chegar Anne. – Disse
alto.
- Então, o que estão esperando? Vamos comigo ali na bancada, pra eu apresentar vocês ao Ricky pra ele liberar bebidas pra vocês. – Anne tomou a frente e fomos até lá.
Uma das outras três garotas que estavam conosco, a mais baixinha, começou a dar em cima dele, deixando-o todo atrapalhado. Ele devia ter uns dezenove ou vinte anos no máximo, mas com certeza não fazia meu tipo.
Bebidas na mão, fomos para a pista. Definitivamente o som estava ensurdecedor, com sua batida ressoando dentro de meu peito. Metade da bebida em minha mão já dentro de mim e eu estava menos tímida e dançando tão ousada quanto as meninas que estavam junto.
Fui mais uma vez até o bar, com a menina que estava louca para voltar lá, e quando voltamos só havia sobrado uma garota do vestiário e
do nosso grupo.
- Cadê as outras? – Eu perguntei me aproximando para que ela pudesse me ouvir e entregando uma das bebidas a ela.
Ela deu de ombros e apontou para trás de mim. Eu olhei e lá estava Brooklie se acabando com um garoto. Eu ri e dei de ombros também, entendendo o que as outras também deveriam estar fazendo.
Cinco minutos depois, Brooklie estava limpando a boca com as costas da mão e dançando junto com a gente de novo.
- Oi gatinhas. – Um garoto loiro de olhos castanhos, com um rosto lindo e um corpo sedutor se aproximou de nós.
Brooklie deu um largo sorriso para ele e o olhou nem um pouco discreta.
- Eu já não te vi antes? – Ele perguntou se aproximando de mim para que eu escutasse.
- Não que eu lembre. – Respondi, tentando não manter mais proximidade do que a necessária.
- Ah, lembrei. – Ele disse e então seu tom se tornou diferente: - Nos meus sonhos.
Eu ri alto e balancei a cabeça em negação, ele não pode ter me dado essa cantada. Oh God!
- Se você quiser realizar meu sonho – ele se aproximou ousadamente de mim -, eu prometo realizar todos os seus desejos boneca.
Aquela última palavra despertou lembranças desesperadoras em mim, e de repente a mão dele em minha cintura parecia me queimar como se fosse o fogo do inferno.
- Se você não cair fora agora mesmo eu juro que me torno seu pior pesadelo. – Eu disse nervosa, empurrando a mão dele para longe de mim.
Ele se aproximou na tentativa de um beijo e eu escorreguei para o outro lado do círculo, ao lado de
. Ele pareceu se dar por vencido e se afastou, sumindo entre as pessoas.
- Por que você deu um fora em um cara tão gostoso? – perguntou
indignada.
Brooklie parecia impassível, sem motivo aparente.
- Não me agrada o bastante. – Eu disse dando de ombros e tomando um longo gole daquela bebida rosa. – Cadê a Brooklie? – Eu perguntei percebendo que ela não estava mais ali.
- Foi tentar seduzir o cara em quem você deu fora. – Divertiu-se
. Eu a olhei sem entender. – Despeito. Ela odeia não ser a que mais chama a atenção. Mas relaxa, eu sempre passo por isso.
- Não te incomoda?
Ela deu de ombros. Eu pensei por um instante se aquilo me incomodava, e cheguei a conclusão que não, até certo ponto. Quero dizer, isso era ridículo.
Duas garotas voltaram para junto de nós, e agora éramos em cinco.
Todas, incluindo
e a garota baixinha que já havia conseguido dar uns beijos rápidos no cara que servia as bebidas, iam e voltavam com algum garoto, mas eu só saia dali para me embebedar mais. Os garotos se aproximavam e eu simplesmente os afastava, sem motivo aparente.
Lá pelas três da manhã, ou seja lá que horas fossem, a bebida estava me deixando tonta, e eu fui em direção ao banheiro para jogar um pouco de água no rosto, mas alguém me barrou no caminho. Eu não podia reclamar, afinal esse alguém era alto, bonito e tinha uma ótima voz.
- Como uma garota tão linda pode estar tão sozinha? – Ele perguntou e eu me encostei na parede atrás de mim, sentindo que minhas pernas não estavam colaborando muito com minha tentativa de andar.
Olhei para o lado e a porta do banheiro estava próxima, mas a preguiça de ir até lá me dominava. E afinal, uma conversa com um garoto desses não me faria mal.
- Eu não sei. – Eu disse me sentindo muito confusa para conseguir formular uma resposta melhor.
Ele chegou mais perto, esticando os braços e apoiando as mãos na parede dos meus lados. Ele não disse mais nada, apenas se aproximou e me beijou. Para minha surpresa, eu estava correspondendo aos seus beijos com a mesma intensidade que ele me beijava, deixando seu corpo me prensar cada vez mais contra a parede. O calor que eu já sentia antes pareceu aumentar, e eu deixava minhas mãos passearem por debaixo de sua camisa.
-
? – Uma voz feminina enjoada chamou meu nome, e eu tentei empurrar o garoto até que ele parasse de me beijar.
Eu olhei e lá estava aquela garota ruiva, Brooklie. Eu senti meu estômago revirar fortemente e levei as mãos a boca. Saí correndo do jeito que pude e entrei no banheiro mais próximo. Um cheiro fétido entrou em minhas narinas, me fazendo vomitar no primeiro vaso sanitário que achei em minha frente.
-
, sua louca! –
se esganiçou atrás de mim.
Ela me puxou pelo braços e me tirou dali, e quando me dei conta estávamos em um banheiro quase idêntico, mas sem aquele cheiro tão forte. Mesmo assim, provavelmente pelos movimentos bruscos, eu senti meu estomago revirar perigosamente e entrei na primeira cabine que vi, me ajoelhando em frente ao vaso e vomitando novamente. Aquela queimação na minha garganta era horrível, e toda aquela tontura me fazia quase cair. Eu me larguei encostada na parede da cabine. Eu senti mãos puxando meu cabelo para trás e o prendendo de algum modo. Me virei e vi
ali.
- Pega água pra ela. – Eu a ouvi pedir para alguém. – Você tá legal? – Ela perguntou se virando para mim.
Eu balancei a cabeça afirmativamente, sem me tocar realmente do que estava fazendo. Ela me ajudou a levantar e me levou até a pia pra que eu lavasse meu rosto. Alguns minutos e uma menina, que eu sabia que conhecia, voltou com uma garrafinha de água, da qual eu bebi até onde pude.
- Vocês não precisam ir embora. – A menina disse. – Podemos deixá-la em uma sala que tem lá em cima, onde ela pode descansar um pouco.
- Na verdade, papai já está vindo nos buscar. – Eu ouvi Brooklie dizer. Olhei em volta e ela estava parada próxima a porta.
- É, já está na nossa hora. – Disse
. – Você acha que pode caminhar até lá? – Ela perguntou, se voltando para mim preocupada.
Eu afirmei com a cabeça.
- Então vamos, papai odeia esperar.
Capítulo 9
Your love is a lie
- Como foi o fim de semana? – Perguntou
abertamente para mim, Brooklie e
.
Eu dei de ombros. Não lembrava muita coisa mesmo. A não ser que a minha terrível dor de cabeça só durou duas horas no domingo, e que os pais de Brooklie pareceram nem ligar para o fato de que eu tivesse bebido tanto naquela festa. Mas também não perguntei nada a elas, com medo de ter passado algum vexame.
- Divertido. – Respondeu
feliz.
- Muito. – Concordou Brooklie.
- Eu não me lembro de muita coisa, na verdade. – Confessei vendo que
me olhava curiosa.
- Qual é, você não lembra daquele gato? – Perguntou Brooklie indignada.
Eu a olhei sem entender. Tudo o que eu lembrava eram em flashes depois de algum tempo em que aquele garoto loiro havia me cantado.
- Há! Eu achei que você não estivesse a fim de pegar ninguém, dava fora em todo mundo. – Contou
. Eu olhei para minha frente, onde
estava sentado, totalmente em silêncio.
– Mas parece que você descontou todos os pegas que você não deu nos outros naquele pedaço de mal-caminho. – Continuou Brooklie.
Eu abaixei meu olhar, envergonhada, começando a ter flashes sobre aquilo.
- A bebida não afetou seu bom gosto pelo menos. – Disse
com um sorriso.
- Mas afetou meu estômago com certeza. – Eu disse. - E acho que eu não tô muito a fim de lembrar. – Eu sussurrei no ouvido de
, mas Brooklie continuou:
-
, se você não estivesse tão mal, acho que vocês teriam se conhecido melhor ainda.
Ela riu de seu próprio comentário malicioso. Eu não sabia onde enfiar a cara.
- Você não ficou muito atrás, não é? – Eu disse em tom de brincadeira, mas com alguma coisa ruim fervendo dentro de mim. Ela se fez de desentendida. – Ah, qual é Broo, vai me dizer que não lembra dos... quantos mesmo
?
- Parei de contar depois do décimo. – Ela respondeu baixinho.
- É, por aí. – Eu continuei e ela estava de olhos arregalados para mim. – Vai me dizer que esqueceu de todos eles?
Ela ficou sem graça e eu vi de canto de olho a expressão furiosa de
, mas não me atrevia a olhar para
.
Comi metade do meu almoço contra a vontade, mas sabia que iria morrer de fome depois, se não comesse. Ainda sem olhar para
, fui para a mesa onde
e os outros estavam.
- Oi! – Um
sorridente me cumprimentou.
- Oi! – Eu cumprimentei de volta me sentando entre
e
.
Pelo menos meus amigos me mantinham calma, mas eu sentia a ansiedade e o medo crescendo em mim durante a aula de inglês, enquanto contava aos cochichos tudo para
.
- Cobra! – Sussurrou
indignada. – Você acha que a Brooklie sabe sobre você e o...?
- Não. – Eu respondi. – Mas ela falava como se fosse uma santa, como se não tivesse se quer olhado para alguém.
não pareceu nada feliz ao saber que o relacionamento estava tão aberto assim.
- Você acha que ele gosta dela? – Perguntou
insegura.
- Não. – Eu respondi com firmeza. – Ele gosta dela assim. – Eu fiz gestos desenhando as voltas do corpo de uma mulher no ar. Ela deu uma risadinha. – Mas você acha que o
tá bravo comigo? – Eu perguntei sentindo a angústia dentro de mim.
- Bom, se ele gosta realmente de você... Sim. – Ela respondeu e eu senti a angústia aumentar. – Você devia conversar com ele, explicar. Você estava tão bêbada que mal lembrava antes da Brooklie mencionar.
- Na verdade, eu ainda lembro pouco. – Eu sussurrei. – Mas eu sempre disse que bebida não justificava, entende?
- Bom, agora você viu que não é exatamente assim. – Ela disse e piscou para mim. – Você vai ver que...
- Será que eu posso ajudá-las? – Perguntou o professor rispidamente, nos assustando e cortando a conversa.
Por sorte nós estávamos sentadas a uma boa distância de
hoje, então ele não teria nos escutado.
Eu entrei na sala de história olhando para o chão, depois procurando qualquer lugar longe de
, mas o único lugar disponível era a cadeira ao lado dele. Isso só pode ser uma conspiração, não é possível. Eu não tive coragem de olhar diretamente para ele, nem quando sentei ao seu lado; sentindo meu coração bombeando sangue duas vezes mais que o necessário e meu estômago revirando de nervosismo.
Ou minha lapiseira quebrava a ponta do grafite ou eu escrevia alguma coisa errada e tinha que corrigir, resultado: última da sala. Mas parecia que alguém lá em cima não se satisfazia apenas me deixando por última da sala, tinham que me deixar com
.
- Sabe, achei que você fosse diferente. – Eu ouvi ele me dizer assim que o professor nos deixou lá, sozinhos.
Pelo canto do olho vi que ele já havia guardado o material dele. Então era isso, ele estava ali pra jogar na minha cara o quanto eu sou idiota e imprestável.
-
, eu não lembrava nem meu nome de tão bêbada. – Eu disse passando corretivo sobre outra rasura na folha.
- Isso não é desculpa
. – Ele disse e eu o olhei surpresa pelo uso do meu sobrenome.
- Eu nunca bebi tanto na minha vida. – Eu disse, desviando do olhar duro que ele me dava. – E eu sei que isso não é desculpa, mas eu juro que não sabia o que estava fazendo. Você nunca bebeu na vida? – Eu o olhei e ele ficou em silêncio. – Só... Me desculpe
. – Eu disse sinceramente.
Guardei meu material, sentindo algumas lágrimas passeando por meu rosto.
- Sabe, nós não temos, assim, oficialmente, nada. – Ele disse quando eu me levantei. – Mas você podia respeitar assim mesmo, seria bom.
Eu me virei para ele que se assustou ao me ver chorando.
- Eu nunca deixaria outro homem encostar em mim se eu soubesse o que estava fazendo. – Eu disse, sentindo uma dor rasgar meu peito.
- Já estava na hora mesmo de acabar com isso. – Ele disse dando de ombros. – Nós nunca poderíamos ficar juntos.
Aqueles olhos
só me transmitiam dor.
– Eu... Ah! Não interessa! – Eu gritei e sai correndo dali.
Eu passei as horas seguintes daquele dia na minha cama fazendo o que podia pra me distrair, mas a tristeza era mais forte. Meu celular tocou enquanto eu via um programa entediante de auditório, e eu atendi sem ver quem era.
- Oi. – Eu disse engolindo a vontade de chorar.
-
, o que você tem? – A voz preocupada de
perguntou.
- Nada. – Eu respondi sem emoção.
- Aham. – Ele concordou ironicamente. – E eu sou Papai Noel.
- Então o senhor pode desembuchando por que eu não ganhei o presente que eu queria quando tinha sete anos, ainda estou brava.
Ele riu do outro lado da linha.
- Nossa, você é rancorosa mocinha. – Ele disse, me fazendo rir. – Mas então bebê, eu estou com preguiça de ir até a biblioteca sozinho, vai comigo? – Ele pediu em uma voz meiga.
- O que você tem que fazer lá? – Eu perguntei antes de aceitar. Passar horas dentro de uma biblioteca agora não era uma idéia atraente.
- Só entregar uns dois livros e pegar outro. – Ele disse e eu sabia que ele sorria.
- Tá, eu vou.
- Te encontro em cinco minutos aí na frente então. – Ele disse e desligou.
- Eu achei que você não tava bem. –
disse me abraçando assim que sai do prédio feminino. – Mas pela sua cara de enterro, eu tenho certeza.
- Eu tô bem
. – Eu disse baixo, forçando um sorriso.
- Aham. – Ele concordou ironicamente de novo. – Agora me conta; o que houve?
- Não quero falar sobre isso, por favor. – Eu supliquei a ele, me mantendo abraçada.
Ele suspirou e me abraçou de lado, caminhando em direção à escola.
- Você sabe que eu estou aqui, não importa o que aconteça, não sabe? – Ele perguntou e eu vi sinceridade naqueles olhos
.
- Obrigada
. – Eu disse carinhosa e dei um beijo em sua bochecha.
- Quer assistir algum filme? – Ele perguntou com um sorriso maroto.
- Contanto que tenha muito sangue e nenhum romance, quero.
- Tá, eu vou ligar pro
e pedir pra ele trazer o filme. – Ele pegou o celular do bolso enquanto subíamos a pequena escadaria para entrar na escola. – Hey dude, pega um filme pra gente antes de voltar. – Eu observava o corredor e em seguida a escada dentro da escola, praticamente deserta aquela hora. – Mas você ainda vai demorar? Não, então tudo bem.
, a
tá com ele, pode ser no seu quarto? O meu tá uma bagunça...
?
Mas eu não estava mais prestando atenção. Estávamos no terceiro andar, já próximos à porta da biblioteca. Mas mais além, eu conseguia ver uma porta encostada ao invés de fechada, onde vozes e risadinhas chamaram minha atenção. E era a sala de filosofia. Meu coração disparou e eu prendi a respiração, me aproximando silenciosamente daquela sala. Empurrei a porta lentamente, torcendo para que não fizesse barulho. Consegui abrir o bastante para reconhecer o dono de uma das vozes. Pelo feixe de luz que vinha do corredor, eu conseguia reconhecer aquele cabelo, aquele corpo. Eu não consegui sair dali, parecia que o mundo estava explodindo e eu estava congelada no lugar, incapaz de fazer qualquer coisa para impedir. As lágrimas desciam e minha garganta queimava, junto com todo o resto do meu corpo, enquanto eu observava
e aquela garota praticamente se comendo ali.
Alguém me puxou pelo pulso para me tirar dali, e eu gritei de dor.
- Caramba
, ainda tá doendo! – Eu reclamei alto demais, me virando para ele.
Percebendo meu erro, saí andando rápido dali, querendo correr, mas sem forças para isso. Eu ouvi o som de uma porta batendo logo atrás de mim, mas continuei andando rápido. Eu peguei as duas munhequeiras em meus pulsos e as arranquei, jogando-as no chão, com repulsa a elas e qualquer coisa que me ligasse a ele.
- Você a machucou? – Eu pude ouvir a voz daquele canalha, e sabia que estava falando com
.
Eu me virei sentindo cada célula minha arder em ódio.
- NINGUÉM ME MACHUCA MAIS QUE VOCÊ, IDIOTA! – Eu gritei me virando para eles, agora vendo o rosto da garota que estava com ele, apesar da minha vista embaçada.
Me virei para meu caminho novamente e corri. Me dei conta na escada de que haviam passos atrás de mim, mas eu não ligava. Nada mais importa, só quero sair daqui.
-
! – Ele gritava, mas sua voz parecia me machucar mais ainda.
Eu corri pelo pátio o mais rápido que pude, sentindo minhas pernas fracas conforme o ar começava a me faltar. Eu adentrei o prédio feminino, mas antes que conseguisse alcançar as escadas,
me segurou pelo braço. Eu tentei me soltar, mas ele me puxou para a sala de dança vazia.
-
. – Ele me chamou novamente, preocupado.
- Sai de perto de mim! – Eu exigi, mas ele não se moveu.
- Para com isso. – Ele pediu, mas eu só conseguia sentir raiva dele.
- Eu te odeio, me solta! – Eu exigi, com as lágrimas cada vez mais rápidas percorrendo meu rosto.
- Não sei do que você está reclamando, agora você sabe como eu me senti! – Seu tom de voz mudou, de repente nervoso.
- O que? – Eu perguntei incrédula. – Você, você tá descontando, se vingando, é isso? – Ele ficou em silêncio, e eu observei sua cara fechada, sentindo nojo dele. – Você não presta mesmo. Você e a Brooklie se merecem.
Ele soltou meu braço e eu sai dali, indo o mais rápido que pude para meu quarto, sem olhar para trás, porque eu nunca mais queria ver ele em minha vida.
-
? – Eu ouvi alguém me chamar no quarto.
Eu havia me trancado no banheiro, eliminando pelos olhos toda a porcentagem de água de qual meu corpo era feito.
- Vai embora! – Eu gritei com a voz totalmente chorosa.
-
. – Eu percebi que a voz pertencia ao
. Ele forçou a maçaneta, mas a porta continuou fechada. – Abre a porta vai.
- Não. – Eu disse sentindo um vazio enorme em mim. – Vai embora.
- Eu não vou embora. – Ele disse firmemente. – Se você não quiser abrir, tudo bem, mas eu vou te esperar aqui fora.
Eu senti a porta em que estava encostada balançar, indicando que ele tinha sentado com as costas contra ela também.
Depois do que me pareceu um eternidade, eu consegui controlar meu choro, mas a dor dentro de mim só parecia crescer. E
ficou no quarto conversando comigo, me distraindo e me fazendo carinho até que eu adormecesse.
Durante o resto da semana eu o ignorei. Na hora do almoço eu inventava o que podia para não sentar com
e Brooklie; nas aulas que tinha com ele, sentava longe, e quando não tinha jeito, me mantinha quase na ponta da cadeira pra ficar o mais longe dele possível, como se o ar que ele respirasse se tornasse infectado. Aquilo estava me corroendo por dentro, mas não havia o que fazer. Era simples, eu tinha que esquecer. Acabou, pronto. Ele me odeia, eu odeio ele, nós nos odiamos. Me lembrei daquele dia no parque, peguei meu livro, “A mediadora”, no criado-mudo ao lado da cama, onde eu estava estirada agora, e dentro do livro estavam as duas flores que ganhei naquele dia.
- Você parece uma morta viva. – Reclamou
, me assustando. Eu fechei o livro e o coloquei de volta no criado-mudo. – Por que vocês não tentam se acertar, amiga? Você só tá piorando. E ele também, pelo que tenho visto.
Ela sentou na beira da minha cama e passou a mão por minha perna carinhosamente.
- Eu já disse que não quero saber dele. – Eu disse colocando o travesseiro sobre a cabeça.
Uma pontada de preocupação bateu em meu peito, me deixando inquieta.
-
, vamos? – Lauren me chamou e eu tirei o travesseiro da cabeça, criando coragem para levantar.
Eu peguei silenciosamente minha mochila e sai dali, louca pra ter um pouco de sossego mental, sem ninguém me olhando com dó.
levou um ponta pé por baixo da mesa quando perguntou o que eu tinha, mas eu fingi não ver.
parecia o mais preocupado comigo, mas não se atrevia a tocar no assunto, apenas ficava perto de mim, fazendo tudo o que podia.
Eu estava na cola de Lauren, atravessando o estacionamento, quando aquela moto veloz cortou a nossa frente. Eu olhei rápido o suficiente para perceber quem estava na moto vermelha.
- Meu Deus, aquele maluco quase atropelou vocês duas! – Disse Rachel, saindo do carro toda alvoroçada.
Sério titia, nem notei.
Entramos no carro sem responder. Lauren também não parecia estar com o humor muito bom. Rachel entrou em seguida, ligando o carro e saindo do colégio. Graças a Deus, longe dele finalmente.
Lauren, que estava sentada no banco da frente, ligou o rádio como sempre. Alguma música estava no finalzinho e logo começou a tocar outra, e ela aumentou o volume.
“Coming out of my cage
And I've been doin' just fine
Gotta gotta be down
Because I want it all
It started out with a kiss
How did it end up like this?
It was only a kiss
It was only a kiss”
Eu prestei atenção na letra e engoli em seco.
- Lauren, troca a rádio. – Eu pedi, sentindo a tristeza me invadir de novo.
- Tá de sacanagem né? – Ela perguntou se virando pra mim. – Eu amo essa música!
Ela começou a cantar junto. Mesmo sua voz desafinada não aliviava o impacto daquilo em mim.
“Now they're going to bed
And my stomach is sick
And it's all in my head
But she's touching his chest now
He takes off her dress now
Let me go
And I just can't look
It's killing me
And taking control…”
É, agora eu tenho certeza que ou alguém lá em cima me odeia, ou alguém lá embaixo invocou comigo. Sério, isso só pode ser perseguição. Por que não jogam logo um raio na minha cabeça e param de me atormentar de uma vez, hein?
Ao longe eu ouvi um barulho forte e olhei assustada para o céu cinzento e carregado.
- É, parece que a previsão para o fim de semana é de chuva. – Disse Rachel distraída com o trânsito.
Tá, esqueçam a idéia do raio, eu já entendi.
Lauren pareceu cansar da rádio, conectando seu Ipod ao som do carro.
- Pode ser Simple Plan? – Ela perguntou enquanto escolhia a música.
- Pode. – Eu concordei e me arrependi em seguida, quando começou a tocar “Welcome to my life”. – Passa. – Eu pedi, tentando parecer indiferente. – Melhor, coloca meu celular aí, tem Paramore. – Eu passei meu celular a ela e me senti melhor com aquelas músicas, apesar do vazio dentro de mim tentar me lembrar das coisas que as músicas anteriores me lembravam.
Capítulo 10
A little less sixteen candles a little more touch me
Aquele fim de semana foi chuvoso e tedioso como previsto. Pelo menos os céus compartilhavam de minha dor. Tá, isso me lembrou aqueles poemas góticos e depressivos.
Na segunda-feira, disse que não me agüentava mais me ver assim e
ameaçou de que se eu não melhorasse ele iria me socar. E eles tinham razão, sabe, pelo que me disse
parecia ter aproveitado bem o fim de semana. A vantagem de se falar da vida alheia de metade da escola com elas era que eu podia saber do sem que elas percebessem grande interesse. Não que eu estivesse interessada no que ele fazia ou deixava de fazer. Eu ia fazer o que meus amigos, que realmente se importavam comigo, queriam.
- Hoje é oficialmente um dia feliz. – eu disse a enquanto colocava as pretas até o joelho.
Era terça-feira e não havia sinais de chuva, apesar de que ainda eram sete e alguma coisa da manhã e não dava para enxergar o céu muito bem. Ainda estava frio, mas pelo menos não molharia mais meus sapatos hoje.
- Foi beber ontem e não me chamou? – ela perguntou fingindo estar séria e colocando as mãos na cintura.
- Nem.– respondi sorrindo.
- Então algum motivo especial para ser um dia feliz? – ela perguntou esperançosa.
- Sim. Porque eu quero que seja, então vai ser.
E só pra ajudar, eu não tenho nenhuma aula com o .
Minha manhã foi tranquila e o almoço alegre. Tudo como planejado. Os horários depois do almoço também foram assim. Consegui até terminar todos os exercícios a tempo. Tá, me ajudou um pouco, mas isso não vem ao caso.
- E aí meu Arco-Íris, ocupada hoje a tarde? – perguntou bagunçando meu cabelo.
- Seu chato! – eu reclamei arrumando meu cabelo. – Tenho treino, mas se você quiser, depois tô livre.
- Certo, passa lá no nosso quarto. – ele disse e saiu dali acenando.
Eu, e entramos no prédio feminino.
- , você fica meio sumida depois do horário. – eu comentei subindo as escadas.
- Ah, é que eu prefiro ficar no meu quarto. – ela disse dando de ombros.
- Uma garota caseira? Uau! – eu zuei ela.
Ela assentiu com a cabeça fazendo cara de santa.
- Caseira? Há-há! – disse parando na escada. – O vive lá com ela, por isso que ela não sai.
Eu a olhei de olhos arregalados.
- , achei que você era tão inocente. – eu disse sinceramente chocada.
- Mas ele é só meu amigo. – ela disse corando fortemente e olhando para o chão.
- A amizade de vocês é tão colorida quanto o cabelo da . – disse ironicamente. – Vai me dizer que vocês nunca ficaram?
- Meu cabelo virou festa hoje? – eu perguntei fazendo uma voz irritada.
- Às vezes. – respondeu . Eu a olhei sem entender. – O . – ela explicou. – Dormir no mesmo quarto que a tá te deixando lerda que nem ela.
- Hey! – ela reclamou fazendo bico.
- Vamos logo, ainda tenho que tomar banho. – eu disse empurrando escada acima e vindo atrás.
- Como foi o treino? – perguntou abrindo a porta do quarto.
- Aprendi um dos saltos. – eu disse com um sorriso de criança.
- O sumiu de novo. – ele disse e eu ri, imaginando onde ele devia estar.
continuou falando, mas uma garota saindo de um dos quartos me chamou a atenção. Era o quarto de , e aquele na porta olhando pra bunda dela era . A garota sorridente e com cara de piranha não era a mesma que eu havia visto há uma semana, mas o ódio que senti foi o mesmo. Sem pensar muito, enlacei meus braços em volta do pescoço de , que não entendeu muito bem o que eu estava fazendo, até encostar nossos lábios. Ele demorou um segundo, então aprofundou o beijo, passando as mãos em volta da minha cintura. Esperei até que o beijo esquentasse um pouco e o empurrei para dentro do quarto. Ele fechou a porta com violência, ainda sem parar de me beijar. Eu sorri pensando na cara de idiota com a qual deveria estar agora. Parei de beijar , que me olhou sem entender.
- O que foi? – ele perguntou. Pelo jeito ele não tinha se dado conta de que eu só queria provocar o . – Alguma coisa errada?
era fofo, nós éramos descompromissados e estava comendo metade da escola enquanto eu ficava chorando no meu quarto. Eu o empurrei fazendo-o cair na cama, e deitei junto com ele, voltando a beijá-lo.
Eu nunca havia pensado no desse jeito, mas isso mudava enquanto ele passeava as mãos por minhas costas e parecia tentado a descê-las até minha bunda.
Como Mari e Liz haviam me dito outro dia pela internet “Nada melhor do que um amor para esquecer o outro”.
Eu passeei com minhas mãos por seu corpo, mas não conseguia ter coragem para fazer passar daquilo. E ele parecia respeitar isso, apesar de estar claro o quanto ele me queria.
Alguém bateu na porta, mas nós ignoramos. Eu mordi o lábio inferior dele o fazendo soltar um gemido e voltei a beijá-lo.
As batidas na porta dessa vez foram mais fortes. fez menção de se levantar para atender, mas eu arranhei suas costas, como se fossem um castigo, e ele rolou na cama ficando por cima de mim, me beijando com mais firmeza que antes. Eu puxei a camisa dele pra cima em um pedido para que a tirasse, e ele parou de me beijar e a tirou, deixando-a cair ao lado da cama.
Novamente as batidas na porta. Antes que eu pudesse impedir, se levantou e foi abrir a porta. Um garoto magrela e de faces encovadas olhou assustado para o estado de sem camisa, com os cabelos bagunçados e ofegante.
- Ahn, eu queria falar com a garota. – ele disse envergonhado.
- Tem que ser agora? – perguntou com a voz em de decepção.
- Ahn. – eu vi o garoto dando uma olhadela para o lado. – Tem.
Eu me levantei e fui até a porta arrumando meu cabelo com as mãos.
- Pode me acompanhar? – ele me perguntou indicando o corredor.
- Não sozinha. – eu disse com medo. – , vai comigo? – eu pedi fazendo carinha de criança. - Pelo menos até sair do prédio.
Ele entrou no quarto e voltou vestindo a camisa. Caminhamos em silêncio, mas eu podia sentir a irritação de , mas tentei não deixar transparecer meu alívio com a chegada do garoto. Dei um selinho e sai do prédio masculino rápido, com o garoto ao meu lado.
- Queria te convidar para entrar no grupo de teatro. – ele disse olhando para o nada.
- Por quê? – eu perguntei sem entender.
- Me indicaram você. – ele parecia um pouco nervoso, provavelmente encabulado.
- Parece divertido. – eu disse sorrindo. – Quando?
Ele pareceu surpreso com a minha resposta, mas logo suas feições estavam neutras.
- Os ensaios são segunda e quarta, no auditório da escola, às cinco da tarde.
- Nem sabia que tínhamos um auditório.
- É no primeiro andar. – ele explicou.
- Certo, te vejo lá. – eu disse acenando e fui para o prédio feminino.
Tudo bem que eu não sabia de onde o garoto tinha surgido, mas pelo menos eu tive uma desculpa pra sair do quarto do . Eu estava delirando achando que podia ser alguém como o , ou o , sei lá. Tudo bem, sempre fui meio alienada mesmo.
Minha primeira aula tinha que ser de física, só pra me encorajar mais ainda a ir pra sala. Eu fui até a carteira vazia ao lado de olhando para o chão, na esperança de achar algum buraco para enfiar minha cara no caminho. Queria ter a opção de sentar o mais longe dele possível, mas ele iria ficar chateado. Queria que o Potter fosse real só pra que eu pudesse roubar a capa da invisibilidade dele.
- Bom dia Arco-Íris. – ele deu um beijo estalado na minha bochecha assim que eu me sentei.
- Bom dia bebê. – eu disse carinhosamente. – Mas são cinco cores, não sete.
- Eu estou contando com o rosado do seu rosto também.
- Mas ainda ficou faltando uma cor. – eu murmurei percebendo que eu deveria estar mesmo rosada.
- E então, o que aquele cara queria ontem? – ele mudou de assunto.
- Me convidar para entrar no grupo de teatro. – eu contei sorrindo.
Ele me analisou por um instante “É, até que é a sua cara”.
- O que você quer dizer com isso? – eu perguntei confusa.
olhou para a porta onde entrava um garoto com uma jaqueta preta com as mangas e costuras brancas, com dois grandes “W” em cada lado do zíper, na altura do peito.
- Ótimo, o time de futebol vai começar. – ele disse rolando os olhos.
- Futebol? Tipo, futebol mesmo? – eu perguntei empolgada.
- Você é uma líder de torcida e não sabe nem que jogos vai animar?
- Ah, nem prestei atenção nisso. – eu disse fazendo um gesto banal com a mão. – Mas eles jogam futebol que nem no Brasil?
Ele assentiu com a cabeça, e eu sabia que meus olhos brilhavam. Finalmente alguma coisa que me lembre do Brasil.
Durante as aulas de inglês eu contei a o que estava acontecendo, e ela me disse que eu devia levar o que fosse com adiante se eu gostasse dele.
- Aí está o problema . – eu disse enquanto íamos para o refeitório. – Isso foi inesperado pra mim, não sei se eu gosto dele desse jeito.
- Bom, vocês podem tentar pelo menos. – ela disse sorrindo. – Ou talvez ele deixe passar e pronto.
Durante o almoço até que foi bem normal. Quer dizer, nós andávamos abraçados como sempre fizemos, nada de novo.
A sétima aula chegou e senti o olhar de sobre mim, com uma raiva inexplicável naqueles olhos que me prenderam por um segundo, até eu me tocar e sentar longe dele. Olhei para trás e percebi que ele estava com o mesmo casaco que o garoto que eu havia visto nas aulas de física e igual a outros que vi na hora do intervalo. A voz do professor me assustou quando ele começou a explicar a matéria, e eu me virei para frente, percebendo o quão rápido meu coração batia. Tomara que ele quebre a perna enquanto jogar futebol.
Na terceira aula de física daquele dia eu me senti mal ao sentar do lado de , como se eu fosse culpada por alguma coisa. Mas apesar disso, ainda era divertido e fofo. Como eu não percebi antes o quanto ele era bonito?
Fiquei conversando com e no quarto até darem cinco horas, e eu fui para o auditório da escola. Até que não foi tão difícil assim achar.
Lá estava o garoto magricela e algumas pessoas que eu lembrava já ter visto pela escola. Todos pareceram surpresos em me ver ali.
- Posso ajudar? – perguntou uma garota de cabelos castanhos com luzes vermelhas.
- Ele me chamou. – eu disse apontando para o garoto-caniço.
Ela o olhou parecendo brava.
- Cheryl, eu... ah... – ele não conseguia se desenrolar.
- Se tem algum problema comigo é só falar. – eu disse com as sobrancelhas erguidas e as mãos na cintura.
- Claro que não. – um garoto alto com cabelos muito pretos se manifestou. – Nós só não estávamos a esperando.
Cheryl respirou fundo “Você quer entrar para o grupo, então?”.
- É por isso que estou aqui. – eu respondi.
- Que seja então. – ela disse com um um pouco azedo. – Vamos apresentar uma peça no Natal, e estávamos discutindo sobre qual história usar.
- Talvez um musical? – perguntou uma garota com cabelo loiro-escuro.
- Alguém aqui sabe catar? – Cheryl perguntou e somente a garota loira levantou a mão. – Ok, então, além da Mattie, alguém? - ninguém se manifestou, muito menos eu que tinha voz de taquara-rachada. - Alguém aqui sabe dançar pelo menos? – só uma garota alta levantou a mão. – Então não rola. Mais idéias?
- Comédia. – sugeriu um garoto baixinho.
Deveria haver umas trinta pessoas ali, e todos estavam sentados em roda em cima do palco. Eu aproveitei a distração para subir e me sentar ao lado do garoto que havia me defendido.
- É uma opção. – Cheryl disse. – Mais alguma sugestão?
- Conto de fadas. – eu sugeri.
- Que tipo de conto de fadas? – ela perguntou me olhando torto. Ela invocou comigo e eu ainda não saquei por que.
- Branca de Neve! – disse a garota alta empolgada.
- Não temos sete anões disponíveis. – cortou Cheryl.
- Não esse tipo, talvez alguma coisa mais inusitada. – eu continuei. – Alguma história que a maioria não conheça ainda.
- Eu conheço uma. – disse uma garota de cabelos loiro-brancos do outro lado da roda. – Fala sobre a princesa do inverno...
Ela nos contou a história sobre uma princesa que controlava o inverno, toda a sua neve, gelo e ventos. Durante todas as outras épocas do ano ela ficava isolada e solitária em seu castelo de gelo, esperando para reinar de novo quando sua época voltasse. Em um desses invernos um lindo príncipe se apaixonou por ela e eles viveram um lindo romance. Ele ficou desesperado quando o inverno acabou e ela mais uma vez foi trancada no castelo. Ele esperou durante todas as outras estações, até que ela voltasse. Ele tentou de tudo para não deixá-la ir quando o inverno acabou novamente, mas ela não podia fazer nada, eram leis vindas do universo. Ele correu o mundo inteiro, até encontrar uma forma de quebrar o feitiço. Mas para que ela saísse, ele teria que colocar outra princesa em seu lugar. Foi o que ele fez, superou todos seus medos, invadiu um castelo e seqüestrou outra princesa. Quando o primeiro dia de inverno chegou, ele quebrou o feitiço sobre sua amada, colocando a outra em seu lugar, apesar de se sentir sujo ao fazer isso. Os dois viveram felizes para sempre, mas a princesa colocada no lugar de sua amada, ficou lá, a espera de seu destino entre seus invernos.
- E como vamos arranjar gelo e neve? – perguntou Cheryl. Essa menina tá me deixando nervosa já.
- Algodão, espuma, essas paradas. – disse o garoto ao meu lado.
- E vidro. – sugeriu alguém.
- Ótimo. – Cheryl sorriu aprovando finalmente a idéia. – Vamos começar os testes na semana que vem. Será que você consegue essa história por escrito?
- Consigo. – a garota de cabelos loiro-brancos respondeu.
Uma mulher de cabelos castanhos com aparência de uns trinta e poucos anos chegou.
- Acho que já decidimos. – disse Cheryl feliz à mulher.
A mulher era nossa professora de teatro, e pareceu gostar de mim. O tempo ali passou rápido, e todas as coisas ruins deram um tempo da minha cabeça, até nosso horário acabar e quando saímos o time de futebol saía ao mesmo tempo. Lá estava, e entre eles, todos suados e conversando alto. Eles nem pareceram notar minha presença ali. Melhor assim, só de olhar para ele eu sentia repulsa.
Cheguei ao meu quarto e estava ali conversando com . Ela deu uma desculpa qualquer e saiu dali, nos deixando sozinhos.
- Ahn, você se importa se eu te deixar aqui um pouco? Preciso tomar banho.
- Tá, eu espero. – respondeu com um sorriso.
Tomei banho e ao mesmo tempo que queria enrolar, não queria deixá-lo sozinho lá.
- Tá cheirosa. – disse com um sorriso infantil me observando pentear o cabelo na frente do espelho do quarto.
Eu larguei o pente na escrivaninha e me encostei no peitoril da janela com o vidro fechado, observando o céu. desligou a TV e chegou atrás de mim, colocando as mãos em minha cintura. Ele afastou meus cabelos molhados do pescoço e começou a dar beijinhos nele. Eu senti meu corpo arrepiar, mas algum tipo de tristeza me incomodava enquanto eu observava o céu ao crepúsculo.
- – eu disse baixinho. Me virei para falar alguma coisa, mas ele me beijou delicadamente antes que eu pudesse.
Após um instante permiti o beijo, levando minhas mãos a sua nuca e cabelo. Ele envolveu minha cintura, nos aproximando. Ele me abaixou lentamente até a cama, deitando junto, mas mantendo o beijo calmo. Ele se deitou ao meu lado, partindo o beijo, e me observando. Ele pegou minha mãos e as entrelaçou. Eu dei um selinho nele, e ele sorriu.
Uma música repentina encheu o quarto, e eu me levantei procurando meu celular. Olhei no visor que indicava o nome de . Mas por que ele estaria me ligando? Minha vontade de atender era quase palpável de tão forte, mas eu olhei para , tranqüilo deitado em minha cama, e coloquei a chamada no silencioso. O celular apagou a luzinha em pouco tempo, e depois voltou a tocar.
- Peraí. – eu disse entrando no banheiro e fechando a porta.
Respirei fundo e atendi.
- ? – a voz de disse com um de nervosismo, mas não agressivo. A sensação de ele falando meu nome me causou um choque estranho.
- Oi. – eu disse baixinho, sentindo tristeza. Parecia que ele estava longe de mim, como se eu nunca mais fosse vê-lo. Todo o ódio que eu sentia por ele não era mais forte que esse horrível sentimento.
- Será que dá pra você parar de fazer isso na minha frente? – seu se tornou agressivo.
- Pirou? Não sei do que você tá falando. – eu disse de repente nervosa.
- Olha, não me interessa o que você faz ou deixa de fazer, mas que não seja na minha frente.
- Ainda não entendi.
- Não se faça de sonsa. Você precisa ficar se expondo na janela com aquele otário?
- Você está me espionando ? – eu perguntei brava.
- Sua janela é de frente a minha, vai me dizer que você nunca notou?
Eu sai do banheiro quase arrancando a porta e assustando . Olhei pela janela e lá estava , em uma das janelas do prédio da frente praticamente de frente a minha. Isso não é possível, como eu não notei isso antes? Apesar de estar a uma boa distância, eu conseguia discernir o nervoso em seu rosto.
- Não, nunca notei. – eu respondi quase gritando. – E eu não estou te forçando a me olhar. Para de tomar conta da minha vida, foi você quem quis sair dela. Eu te odeio, e espero que da próxima vez que eu te encontrar você esteja morto. Agora me deixa em paz! - Eu desliguei o celular com violência.
- , calma. – me olhava assustado se levantando da cama.
- Preciso ficar sozinha. – eu disse atravessando o quarto e saindo, sentindo cada nervo do meu corpo pulsar com ódio pelo .
Eu sai dali e fui para a escola praticamente vazia aquela hora. O único lugar aberto era a quadra, então entrei ali e deitei na arquibancada, aproveitando o silêncio e a escuridão para chorar e pensar melhor.
Ouvi passos ecoando pela quadra, e permaneci em silêncio, na esperança de que quem quer que fosse, fosse embora.
- Eu sei que você tá aqui. – eu ouvi a voz do , me fazendo quase pular.
Capítulo 11
The heart never lies
- Não, eu não estou – eu murmurei sentindo meu coração acelerar e meu estomago revirar.
- Você só sabe fugir – ele continuou me importunando.
- Vai embora – eu disse tentando parecer firme.
- Por que você ficou com aquele garoto? – ele perguntou e eu percebi que ele estava próximo.
- Porque você é broxa e eu te odeio – eu disse encarando a escuridão.
Ele sentou perto de onde meus pés estavam.
- É sério , por que estamos fazendo isso? – seu dessa vez estava diferente, parecia frágil.
- Vai embora – eu implorei sentindo uma lágrima teimosa escorrer por meu rosto.
- Eu não vou a nenhum lugar onde você não esteja – ele disse carinhoso.
- Eu não acredito no seu amor – eu disse sentindo como se meu coração estivesse sendo rasgado violentamente. – Pra mim tudo é uma mentira.
- Você não devia dizer uma coisa dessas – ele disse magoado.
- Quantas você comeu na última semana ?
Ele ficou quieto.
- Eu não posso mais confiar em você porque você nunca confiou totalmente em mim.
- Eu confiava e você ficou com aquele cara do mesmo jeito.
- Eu estava bêbeda, que saco! Mas você parecia bem são com aquelas garotas.
- Se eu confiasse em você de novo o que você faria.
- Nunca mais beberia na vida pra começar – eu respondi me sentando. – Mas eu não sei como confiar em você de novo.
- E como eu faço você confiar?
- Me conta por que você tem medo de nos assumir em público.
Ele respirou fundo.
- Eu não quero te preocupar.
Eu me levantei, mas ele me segurou.
- Espera, não vai. - Eu me sentei de novo. – Se eu te contar, você pode ficar com medo, e não querer me ver nunca mais...
Eu me aproximei e pressionei nossos lábios.
- Ou você pode não me contar e eu não vou querer te ver nunca mais também.
Ele respirou fundo mais uma vez.
- Ano passado, mataram meu pai – eu segurei em sua mão, e as entrelacei. – Meu pai estava envolvido com uns caras muito “barra-pesada”, mas o pior foi que ele traiu minha mãe. Traiu ela com a mulher de um desses caras – ele fez uma pausa. – Esses caras agora estão atrás de mim e da minha famí. Minha mãe se mudou de cidade e levou minha irmã, mas eu me recusei a sair daqui. Eu tenho medo de que eles peguem alguém de quem eu goste e façam alguma coisa. Eu não tenho certeza de até onde esse caras possam estar me vigiando, só sei que eu não quero arriscar você por nada nesse mundo. Eu apenas escutei e tentei assimilar em silêncio. Pensei em todas as possibilidades para mim, mas me afastar dele não era uma opção.
- Eu estou com você – eu disse firmemente.
- , se eles souberem de você...
- Eu sei me cuidar .
Ele riu de leve.
- Você tem certeza disso? De que quer ficar comigo?
- Absoluta.
Eu me aproximei encostando nossos lábios.
- Mas você também tem que me contar algumas coisas, sabia?
Eu me senti confusa “Tipo?”.
- Tipo por que você tem esses ataques.
Eu compreendi. Ele estava falando de quando eu começava com a falta de ar e todo resto. Dessa vez fui eu quem respirou fundo.
- Aquela noite – eu comecei. – Não... Não foi a primeira vez que um garoto... Aí , eu não quero falar disso! – eu implorei o abraçando e sentindo calafrios.
- Tudo bem, calma – ele disse carinhoso e passou a mão por meus cabelos. – Mas , você realmente tem certeza de que quer estar comigo, no meio dessa confusão? Esses caras são capazes de tudo.
Eu me afastei um pouco e puxei seu rosto pelo queixo para que ele me olhasse. Meus olhos haviam acostumado o suficiente com a escuridão para que eu o enxergasse seus olhos.
- Eu não vou fugir – eu disse firme. – E eu vou estar do seu lado pra tudo.
- Eu amo você – ele disse e eu senti meus olhos se molharem, meu coração tentando rasgar minha pele.
Ele pegou minha mão e a guiou até seu peito. Eu senti seu coração bater tão rápido quanto o meu. Eu não tinha palavras para dizer o que estava sentindo. Nada me afastaria dele novamente, nunca.
Eu juntei nossos lábios, e ele pediu passagem com a língua. Ninguém que nunca beijou por amor saberia o que eu sentia, como eram ter lava ao invés de sangue nas veias, sentir cada pedaço do seu corpo implorando pelo dele. Nossas línguas se encontraram, me permitindo sentir o gosto dele, me permitindo senti-lo. Ele me puxou e eu sentei no seu colo, com uma perna de cada lado do seu corpo. Suas mãos passeavam por minhas costas e me puxavam desesperadamente, como se ainda houvesse algum espaço entre nós para ser eliminado. Eu puxava seu cabelo com vontade, e o beijava com mais ainda.
Ele começou a abrir o zíper do meu casaco - exclusivo para as líderes de torcidas, mas que eu preferia usar depois das aulas – mas eu, contra minha própria vontade, segurei sua mão.
Ele interrompeu o beijo e deixou nossas testas coladas, me deixando sentir sua respiração forte em meu rosto “Eu vou ter que ter paciência com você, né pequena?”.
- Vai – eu respondi com um suspiro de infelicidade.
Ele me deu um selinho “Tudo bem, eu aguento”. Ele riu e me deu outro selinho.
Até a hora do almoço eu tive duas aulas com , e como eu já nem estava rindo a toa, nós quase fossemos expulsos por causa das gracinhas que ele fazia. Tá, minha risada alta também teve alguma culpa.
Eu estava caminhando com ele ao meu lado em direção ao refeitório quando meu celular tocou o alerta de mensagem.
“Hey, quer almoçar comigo? Vou estar te esperando com a moto ligada em dois minutos.”
Eu sorri. Guardei rapidamente o celular notando que o curioso do tentava ler a mensagem.
- Cadê a minha privacidade? – eu reclamei. – Você tá invadindo o meu espaço.
Eu dei um empurrãozinho nele.
- Eu não fiz nada! – ele se defendeu inutilmente.
Agora estávamos na frente da porta do refeitório, com um fluxo de alunos quase se empurrando.
- Nossa, o que tá acontecendo ali na frente? – perguntei fingindo grande curiosidade e apontando para frente.
- Onde? – eu ouvi ele perguntar quando eu já tinha me enfiado entre os alunos no fluxo contrário.
Sai apressada da escola e encontrei já sentado na reluzente moto vermelha segurando um capacete para mim. Eu o coloquei sem dizer nada e montei na moto, colocando o capacete.
- Esconde o cabelo – ele pediu.
Eu escondi meu cabelo dentro do capacete, prendi minha saia sob as pernas e assim que o abracei ele arrancou com a moto. Eu o abracei com mais força, gostando da sensação do vento e de tudo passando rápido, sem sentir medo, pelo simples fato de ele estar ali. Em cinco minutos ele diminui até parar dentro de um estacionamento. Eu tirei o capacete e o entreguei ao sair da moto.
Ele parou do lado da moto e me puxou pela cintura, me dando um beijo inesperado. Ele passou a língua por meus lábios, e eu os abri para poder sentir seu gosto, junto com a sensação de que meu coração queria rasgar minha pele. Ele mordeu meu lábio inferior de um modo delicado, me dando um selinho em seguida.
- É aqui na frente – ele disse saindo do estacionamento e entrelaçando nossas mãos.
Assim que saímos do estacionamento eu vi o restaurante. Grande e sutil, com pessoas conversando alegres enquanto comiam ou homens de terno discutindo alguma coisa.
- Quer sentar aqui fora ou lá dentro? – ele perguntou.
- Aqui fora – eu respondi sorrindo.
Apesar de estarmos ao ar livre, todas as mesas tinham uma espécie de guarda-sol, nos deixando na sombra. Eu pedi para que escolhesse, já que minha indecisão sempre era um ponto cruel para mim.
- Não é perigoso nos verem aqui? – eu perguntei olhando em volta.
- Eu espero que não – ele disse parecendo relaxado. – Tenho a impressão de ser seguido durante a noite, não a essa hora. E também eu corro demais para que alguém conseguisse nos seguir – ele sorriu convencido.
- É sério, você não tem medo de bater? – eu desaprovei.
- Nem, já acostumei querida – ele disse de um modo carinhoso.
- Ah! Lembrei de uma coisa! – eu disse de repente ansiosa e me sentando totalmente ereta. – Me ajuda em uma coisa, ? – eu o olhei em expectativa.
- O que eu não faço por você – ele disse rolando os olhos.
- Sabe a minha amiga, a ?
- A ? Aquela do seu dormitório?
- Ela mesma – eu disse sorrindo animada. – Quero juntar ela e o .
- Se tá de brincadeira né? – ele perguntou me olhando assustado.
- Aí , qual o problema? – eu fiz bico.
- O problema se chama Brooklie – ele disse sério. – E o tá usando o que você disse na mesa até hoje pra tentar afastar ela. Ela não está muito bem com você não viu.
- Aff – eu reclamei. – Eu cuido da Brooklie e você cuida do . E não me olhe desse jeito, se vocês têm medo dela, problema de vocês. Eu não tenho – Ele riu e eu o olhei feio. – Pra mim a única graça são dois marmanjos com medo de uma garota mimada.
- Você é tão inocente – ele disse sorrindo. – Você é linda.
- Como? – eu perguntei cruzando os braços, confusa.
- Você não vê maldade nos outros – ele disse com aqueles olhos em mim. – Você é doce, apesar de ser um pouco estressada.
O garçom nos serviu e se afastou em seguida.
- Eu não sou inocente desse jeito! – eu murmurei irritada. Depois de tudo o que eu passei um ser desse vem me dizer que eu sou inocente, há!, eu mereço!
- Apesar de tudo, você é – ele disse com um sorriso encantador. – Me diga, até onde você acha que ela iria pra conseguir o que quer?
- Ela é só uma garota mimada que acha que é dona do mundo - eu disse rolando os olhos.
- Bombar eu e o ou expulsar um professor usando você não é o máximo que ela sabe fazer – ele disse sério. – Não a subestime. Ela é tão suja quanto os caras que mataram meu pai – eu vi a dor em seus olhos por um instante.
Nós comíamos distraidamente enquanto conversávamos.
- Mesmo assim, já estar na hora de alguém enfrentar aquela garota – eu disse determinada.
- , você não vai mexer com ela. Estou falando sério. Quer arriscar ser mandada de volta para o Brasil? – Eu quase engasguei. – Então não se meta com ela.
- E se ela se cansasse do ? Ou achasse outra pessoa? – eu tentei depois de um minuto de silêncio.
- O é a pessoa mais próxima de mim a quem ela pode tentar fazer os ciuminhos inúteis dela – ele disse entediado.
- Então ela tem que se cansar de você – eu disse achando a solução. – Será que isso é possível? – eu pensei em voz alta.
Ele riu.
- Na verdade eu acho que é mais por despeito do que por gostar de mim - ele deu de ombros.
- Eu gosto de você – eu disse distraída e absorta em seus movimentos.
- Eu também gosto de você pequena – ele disse sorrindo, me despertando. – Por isso não quero te ver se metendo mais do que você já está nisso tudo.
Eu sorri. Certo , mas não custa tentar.
- Mas e a , ela é ruim desse jeito também? – eu perguntei, me lembrando da participação dela.
- Mais ou menos – ele disse mais tranqüilo. – Brooklie faz por maldade, faz por diversão. Digamos que seja o cérebro e Brooklie o coração das coisas que elas fazem. Mas não é igual a Brooklie, eu chego a achar que ela ainda tem uma alma, mas esconde ela. Antes de eu começar a sair com a Brooklie, era minha amiga e do . Ela não precisava de nada disso, estava sempre feliz e de bem com todo mundo.
- Brooklie deve ser descendente de um demônio – eu murmurei.
- Provável – ele disse rindo. – Mas eu não aguento mais falar dela. E então, o que você achou do teatro? – ele disse se divertindo.
- Como você sabe? – eu perguntei desconfiada.
- me contou – ele disse apressadamente.
- Mas eu não contei a . Eu não contei a ninguém ainda além do .
Ele se concentrou na comida, desviando o olhar para um ponto qualquer.
- – eu sibilei. – Confesse.
- Hum? – ele se fez de desentendido.
- Você mandou aquele garoto para o quarto do só pra nos atrapalhar? – eu disse irritada. – Isso foi ridículo !
- Só estava protegendo o que é meu – ele disse como se fosse inocente.
- E desde quando eu virei sua propriedade?
- Desde que meu coração virou a sua – ele disse. Isso foi ligeiramente gay, mas muito fofo.
- Você não parecia se lembrar disso enquanto pegava outras garotas – eu disse resistindo a me render.
- Só pra me frustrar, porque nenhuma delas se compara a você.
- Você é... – eu olhei para aqueles ofuscantes olhos .
- Seu – ele disse sorrindo vitorioso.
Eu parei de tentar protestar.
- Isso, só meu, e ninguém mais toca – eu disse decidida e encerrando o assunto.
- Onde você foi parar na hora do almoço? – perguntou sentando ao meu lado.
- Fui almoçar fora – eu disse pegando meu material dentro da mochila.
- Arruma seu cabelo, tá uma bagunça – ela alertou. Coloquei meu material sobre a mesa e penteei meu cabelo com os dedos. – Almoçou aonde? Eu odiaria comer sozinha, por que não nos chamou?
- Eu não estava sozinha – eu dei de ombros.
Ela me analisou por um instante “?”.
- Ahn... foi – eu tentei não sorrir, mas foi inevitável.
- Aaah! – ela exclamou empolgada, chamando a atenção da classe inteira. Suas bochechas rosaram. – Vocês voltaram e nem me contou nada! – ela sussurrou indignada assim quando as pessoas pararam de olhar.
- Você estava dormindo quando eu voltei ontem – dei um sorriso triste de lado.
- Hey querida, vamos para outra festa esse fim de semana, tá afim? – Brooklie me convidou enquanto trocava de blusa. O vestiário estava cheio.
- Ah, não sei – eu disse com um sorriso triste de lado enquanto prendia o cabelo. – Os pais da Lauren não iriam gostar muito, eu dormi na sua casa há duas semanas, entende?
Ir a outra festa não parecia uma opção muito legal quando eu ainda estava concertando as burradas da última.
- Você pode falar para eles que vai dormir aqui na escola – sugeriu .
- Não, de boa – eu disse. Peguei meus pom-pons e meu celular no armário e havia uma mensagem nele.
“Literatura”.
Eu sorri e fechei o armário. Minhas aulas já haviam acabado por hoje, e ele parecia saber disso. Não me dei ao trabalho de trocar de roupa, só sai antes que ou Brooklie me notassem. Subi as escadas com o som do sinal ecoando pelas paredes. Por que ele sempre escolhia as salas do terceiro andar? Acho que porque o corredor nunca estava cheio. Eu entrei na única sala sem luz e com a porta encostada, encontrando distraído olhando para a janela. Fechei a porta atrás de mim e ele me percebeu pelo barulho.
Caminhei até ele silenciosamente, e ele me deu um selinho e me abraçou.
- As meninas estavam planejando outra festa para esse fim de semana – ele disse calmo. – Elas te chamaram?
- Chamaram – eu disse sentindo aquele perfume me intoxicando. – Mas eu não vou.
- Tem alguma outra coisa mais importante pra fazer?
- Não – eu respondi sentindo as mãos passando por meus cabelos.
- Eu estava pensando em viajar para algum lugar... Passear de barco, mergulhar – eu seria capaz de dormir ali, em pé mesmo, com aquela voz deliciosamente calma e aquele carinho. – Faz tempo que não vejo o mar.
- Verdade – eu disse me lembrando de que não ia a uma praia há realmente muito tempo.
- Quer vir comigo? – ele perguntou e eu me afastei para olhá-lo.
- Seria maravilhoso – eu respondi com um sorriso tímido. – Mas não sei...
- Por favor, – ele pediu com aqueles olhos me namorando. – Vem comigo?
Os pais de Lauren seria o menos importante, pois eu poderia dizer que iria ficar na escola para estudar no fim de semana. A imagem de nós dois em um barco, olhando o horizonte, ou dentro da água, me pareceu irresistivelmente romântica.
- Só nós dois? – ele assentiu com a cabeça. – Ok.
Ele sorriu largamente e, segurando meu rosto com as duas mãos, me beijou.
- Que bom – ele disse parando de me beijar e encostando nossas testas. – Eu iria ficar chateado se você não quisesse ir.
Eu sorri. “, você tem que ir pra aula” eu alertei. “Você mata aula demais, não quero te ver repetir de novo”.
Ele riu “Mas aqui tá melhor”. Ele passou as mãos por minha cintura me puxando para mais perto, e voltando a me beijar quase agressivamente. Eu respondi ao beijo com a mesmo intensidade, deixando minhas mãos passearem por suas costas e nuca.
- , Arco-Íris da minha vida! – um saltitante pulou na minha frente, me pegou pela cintura me rodando no ar. Eu soltei um gritinho de susto.
- Que foi ? – eu perguntei quando ele me colocou no chão.
- Eu me inscrevi para um teste com uma nova banda! – ele sorriu como uma criança feliz.
- Aêe! – eu comemorei batendo palminhas.
- Eu tô super nervoso. Vai comigo? – ele pediu esperançoso.
- Claro querido! Quando?
- Amanhã - O sorriso em meu rosto se desfez, seguido pelo dele. – O que foi?
- Aí bebê, eu não posso – eu disse com o coração apertado.
- Ah, ahn, ok – ele gaguejou tristonho.
- Mas a deve poder – eu sugeri. – Ou a , ou o .
- Talvez a – ele disse com um sorriso de lado.
- Agora eu tenho que ir arrumar minhas coisas – eu disse me despedindo. – Mas prometo que te ligo, ok?
Ele concordou e eu fui para o meu dormitório. Arrumei minha mochila, dessa vez com roupas e mais coisas do que eu precisaria colocar se fosse um fim de semana normal. Guardei a mochila dentro do meu armário da escola e esperei até que Lauren terminasse a aula para avisá-la que “ficaria na escola”. Acompanhei-a até o estacionamento para falar com Rachel.
- Que pena, tinha feito lasanha – ela disse pela janela aberta do carro. - Se você tivesse me ligado, eu teria trago para você um pedaço.
- Tudo bem, Rachel – eu disse com um sorriso grato. – Qualquer coisa eu ligo pra algum restaurante e peço alguma coisa. De qualquer jeito, a cantina funciona no fim de semana. E quando minha mãe ligar, pode avisar que eu vou mandar um e-mail pra ela, por favor?
- Claro – ela concordou com um sorriso materno que me fez sentir culpada por estar mentindo para ela. – Juízo querida.
- Sempre – eu disse tentando ignorar minha consciência. – Tchau – eu me despedi dela e Lauren.
Rachel ligou o carro e partiu. Meu celular apitou no bolso detrás da calça e eu li a mensagem nele contida.
“Cinco minutos para você pegar suas coisas. Coloque um casaco, não quero que pegue essa friagem da moto”.
Eu corri para meu armário pegando minha mochila e depois corri para o meu quarto, para pegar um casaco, já que o agasalho que eu vestia era fininho. Sete minutos e eu estava no estacionamento, procurando silenciosamente por ele.
estava montado na moto vermelha, e estendeu um capacete para mim assim que eu me aproximei. Montei na moto e antes que ele partisse olhei para o lado e vi me encarando de longe. Me agarrei mais forte a assim que a moto entrou em movimento, sentindo um frio percorre minha espinha.
N/A: Primeiramente eu queria agradecer profundamente a vcs pelos comentários. Eu amo isso!
Sobre o que mudou na Dangerous: Eu passei tds que estavam no primeiro ano pro terceiro, pois apesar de ela ter esse toque infantil que eu aho uma gracinha, ela passa por muitas coisas dificeis no futuro, e eu acho que um pouco mais de idade seria o minimo de ajuda que eu poderia lhe dar. Ela está se tornando uma adulta aos poucos.
Ah, e a Lauren não eh minha irmã mais velha, agora ela é minha irmãzinha. Isso é uma pequena homenagem a minha irmã Marília. :) Pq eu me sinto assim com ela e a mãe, uma família de verdade, entende?
Acho que é isso... Continuem comentando! *--*
Bjones and Follow me: @thamihjones
Love ya!
N/B: Qualquer errinho, já sabem: lisiipaixao@gmail.com.
E ah! Não percam o próximo capítulo! hahaha