Dancing on the Kitchen Tiles
Autora: LadyJolie
Beta-Reader: Annie Brissow
Eu estava cansado, nervoso e muito estressado. É, esse não era um de meus melhores dias. O trânsito estava uma droga, eu estava a mais de meia hora de casa e não conseguia nem mesmo sair do escritório com o carro. O dia, por sinal, estava lindo. O sol ainda estava no céu, enquanto o barulho dos carros, quase parados nas ruas, ecoava em minha cabeça como um despertador. Apertei as mãos no volante até minhas juntas ficarem brancas. A rádio tocava uma música lenta, a letra era bonita, e tinha uma boa melodia também, mas aquela hora não era adequada para a mesma. Apertei impacientemente o botão do rádio, a fim de encontrar alguma coisa que estivesse no meu estado de espírito. Por fim, achei uma rádio qualquer, que tocava a mísica mais barulhenta que tinha ouvido na vida.
“Enemy, take a one good look at me.
Inimigo, dê uma boa olhada para mim
Eradicate what you'll always be
Extermine o que você sempre sera
Your tainted flesh, polluted soul through a mirror I behold.
Sua carne suja, alma poluída através de um espelho eu contemplo
Throw a punch, shards bleed on the floor
Dando um soco, cacos sangrando no chão
Tearing me apart but I don't care anymore.
Me rasgando em pedaços mas eu não me importo mais
Should I regret or ask myself ARE YOU DEAD YET?
Eu deveria lastimar ou me perguntar VOCÊ JÁ ESTÁ MORTO?”
Por um momento, me distraí com isso, ouvindo atentamente a mensagem que o cantor queria passar. Não sei ao certo se entendi, mas aquela música me deu medo. Não estou brincando, fiquei com medo. E aquela música me deixou com mais raiva do que eu já estava.
Apertei a buzina, paciente e impacientemente ao mesmo tempo, se é que isso é possível. E então, quando a música acabou, outra muito mais lenta começou. Falando, nada mais, nada menos, que de amor. Mas eu conhecia aquela música. Um segundo depois eu já não estava mais dentro de meu carro, na entrada do escritório. Eu estava na cozinha, em minha antiga casa na grande em Manhattan. Era um dia quente e ensolarado.
Os primeiros raios de sol entravam pela janela, iluminando o ambiente. Eu estava encostado na beirada da porta, tinha acabado de levantar e ainda usava minhas roupas de baixo. Era domingo, e ambos não trabalhávamos. Ela estava ali, á centímetros de mim, usando apenas uma camisa qualquer minha, abotoada de qualquer jeito e não inteiramente. Seus cabelos estavam bagunçados, ela parecia ter dormido pelo chão. Ri, eu sabia que não era verdade. O sol tocava sua pele clara, dando a ela um tom alaranjado. Ela sorria enquanto preparava o café da manhã. Era a garota mais linda que eu já tinha visto. E eu a amava, eu a amava de verdade. O rádio estava ligado, tocando uma música qualquer. Ela dançava pelos azulejos da cozinha, como se não houvesse mais ninguém presente. Enquanto ia colocando a comida em cima da mesa, ia beliscando e rodopiando. Ela parecia satisfeita. Eu sorria abobalhado, junto com ela, quando escorreguei o braço e o bati no armário da sala ao lado, que estava posto bem ao lado da porta. Fiquei com uma dó imensa por tê-la interrompido em seu momento. Ela olhou na minha direção, seu sorriso havia desaparecido, mas não demorou nem um segundo para reaparecer. Ela caminhou até mim e envolveu meu pescoço com seus braços, cantarolando baixinho, perto de meu ouvido:
Yesterday you asked me something I thought you knew
Ontem você me perguntou algo que pensei que você soubesse
So I told you with a smile, it’s all about you
Então eu te respondi com um sorriso, é tudo sobre você
Then you whispered in my ear and you told me too
Quando você sussurrou no meu ouvido e disse também
Said you'd make my life worthwhile, “it's all about you”
Disse “você faz minha vida fazer a pena”, É tudo sobre você
Ela acompanhava a música, e nós íamos dançando pela cozinha, enquanto eu tentava, também, acompanhá-la.
And I would answer all of your wishes
E se você me pedisse qualquer um de seus desejos
If you asked me to
Eu realizaria
But if you deny me one of your kisses
Mais se você me negasse um de seus beijos
Don't know what I do
Eu não sei o que eu faria
So hold me close and say three words like you used to do
Então abrace-me forte e diga três palavras como você costumava fazer
Dancing on the kitchen tiles, it's all about you, yeah!
Dançando nos azulejos da cozinha, é tudo sobre você!
E nós ficamos ali, rodopiando por alguns minutos, que não foram suficientes para mim. Então ela me parou, olhando diretamente nos meus olhos, como se soubesse exatamente o que eu estava pensando. Sorriu meigamente e sussurrou: “É tudo sobre você!”.
Uma buzina vinda de trás de mim me acordou de meu transe. A rua já estava se movimentando normalmente. Pisei no acelerador. Por Deus, quanto tempo fazia? Quanto tempo desde a última vez que eu vi aqueles olhos ? Pisei no acelerador, mas não estava indo para casa.
Outra música começou a tocar, fazendo-me arrepiar dos pés a cabeça, abrindo em meu peito, um buraco enorme. Eu me sentia vazio e totalmente só.
Home is where the heart is,
Lar é onde o seu coração está
It's where we started,
É onde nós começamos
Where we belong.
Onde pertencemos
O sol se punha lentamente enquanto eu ia saindo da cidade com certa urgência. Eu precisava fazer isso, aliás, deveria ter feito há muito tempo. Mesmo sem saber o que iria encontrar, mesmo com medo do que pudesse encontrar, eu dirigia o mais rápido possível.
Pouco tempo depois os primeiros prédios já podiam ser vistos. Senti um alívio quase que imediato, mas eu ainda precisava correr. “Tomara que ela não tenha se mudado” Eu sussurrava pra mim mesmo, fazendo figas com todos os dedos possíveis.
Estacionei o carro na entrada do prédio, nem ligando para a placa de “Não Estacione”.
Parei na portaria, gritando internamente para que o homem velho e feio que estava sentado lendo um jornal todo amassado me atendesse, enquanto, o que eu realmente estava fazendo era batucar os dedos no balcão, abrindo e fechando a boca várias vezes pra tentar dizer algo, mas nada saía.
Um minuto - muito longo, por sinal - depois, o homem baixou o jornal e ergueu seus olhos na minha direção.
- Posso ajudá-lo? - Perguntou, entediado.
- Ah, claro. Eu queria saber... Eu queria saber se a Senhora , ainda mora neste prédio. - Disse, calmamente, feliz por minha voz não ter me traído.
O homem fez uma careta estranha, acho que pensando se deveria ou não responder.
- Sim, ela ainda está por aqui. Mas, quem é o Senhor? - Ele perguntou, desconfiado. Ela e suas regras, pensei. Ela deve ter dado algumas restrições ao porteiro, do tipo “Não deixe um homem qualquer entrar na minha casa sem me avisar”.
- Ah, bem, sou um velho amigo dela. Eu a avisei que viria visitá-la este fim de semana, mas cheguei dois dias antes e, resolvi vir vê-la. - Sorri, tentando transparecer confiança no que falava. Ele continuava me encarando. Por fim, pegou o telefone e começou a discar.
- Vou ver se ela pode atendê-lo agora, Senhor...? - Ele disse me olhando.
- ! - Disse, meio exaltado. – Mas... Bem, eu queria fazer-lhe uma surpresa, se o senhor não se importa. Posso lhe garantir que não estou mentindo, eu a conheço há muito tempo e, bem... Ajude-me senhor. - Disse, olhando suplicante. Ergui um buque de rosas amarelas que comprei a caminho.
O homem colocou o telefone de volta no gancho, dando de ombros.
- Que seja. - Disse, entregando-me uma chave. Eu realmente não acredito que ele caiu nessa. E se eu fosse um assassino? Pensava enquanto apertava o botão do elevador. Mas nada disso importava agora.
O nervosismo estava aumentando. O que ela faria quando me visse? O que ela diria? Aposto que ela me expulsaria de sua casa a tapas, na verdade, tenho certeza. Mas eu precisava vê-la.
Sétimo andar, apartamento 35. Demorei-me alguns segundos encarando a porta. Ainda dava tempo se eu quisesse desistir, voltar pra minha casa, tomar um longo banho e dormir demasiadamente. Dei um longo suspiro antes de abrir a porta silenciosamente.
A música ecoava pela casa, vinda da cozinha, imagino. Eu me demorei em cada detalhe da sala, procurando por alguma mudança, mas não encontrei nada. A única mudança eram três portas-retratos encima da mesinha de canto. Fotos de uma época em que eu não estive com ela, mais ainda assim ela parecia feliz. O último porta-retrato estava afastado, atrás do vaso de flores. Uma foto minha e dela, só uma única foto, meio escondida nas nossas incertezas. Ouvi um barulho vindo de dentro da cozinha. Deixei o buque encima da mesa, ao lado da fotografia.
A enorme porta branca da varanda estava escancarada, e lá estava ela, os últimos raios de sol que passavam pela porta tocavam sua pele clara, dando-a um tom alaranjado. Assim como naquele dia. Ela dançava pelos azulejos da cozinha, totalmente feliz. Exatamente como naquele dia. Seus longos cabelos estavam presos num rabo de cavalo, formando um único cacho. Usava um vestido azul marinho, que marcava sua cintura. Seu vestido a acompanhava enquanto ela rodopiava na ponta dos pés. Seu sorriso era tão ingênuo, tão sincero. E então eu percebi que nada mais importava se eu não pudesse tê-la comigo. Comecei a questionar, porque nós havíamos nos separado?
A brisa gélida de final de tarde tocava seu cabelo e vestido, esvoaçando-os. Ela ria sozinha, colocando o café na mesa e cantarolando uma melodia conhecida.
Yesterday you asked me something I thought you knew
Ontem você me perguntou algo que pensei que você soubesse
So I told you with a smile, it’s all about you
Então eu te respondi com um sorriso, é tudo sobre você
Then you whispered in my ear and you told me too
Quando você sussurrou no meu ouvido e disse também
Said you'd make my life worthwhile, “it's all about you”
Disse “você faz minha vida fazer a pena”, É tudo sobre você
Seus movimentos delicados e graciosos me hipnotizavam, ela parecia uma boneca, pisando com todo o cuidado do mundo nos azulejos. Me perdi em seus lábios cheios por alguns segundos, passando depois para seus dentes, nariz, olhos, orelhas, pescoço... Deus! Ela é perfeita!
Nem notei quando me encostei na beirada da porta, fazendo a madeira ranger abafadamente. Seus olhos acompanharam o rangido, em um misto de surpresa, medo e ansiedade, assim que notou que eu estava ali.
Eu sorri nervosamente, indo até ela. Envolvi sua cintura com meus braços, obrigando-a a pousar suas mãos em meu pescoço. Não foi necessário dizer absolutamente nada. O silêncio era explicativo. Nós nos comunicávamos com olhares, pois eu sabia que ela entendia exatamente o que se passava em minha mente, agora. Um pedido de desculpas, uma lembrança e uma declaração, sem nem ao menos dizer uma única palavra. A pouca iluminação da cozinha não era mais problema quando ela finalmente abriu aquele sorriso perfeito para mim. Tudo ficou tão claro como a água e, por um momento, pensei que eu só vivesse por aquele sorriso. As primeiras marcas que esses anos lhe deram já podiam ser vistas. Ao lado de seus lindos olhos, pequenas rugas se formavam, ainda que não mudassem em nada na sua beleza, isso me fez pensar em quanto tempo eu sobrevivi sem ver aqueles olhos. Eu não me sentia mais só, e aquele buraco em meu peito já não existia.
And I would answer all of your wishes
E se você me pedisse qualquer um de seus desejos
If you asked me to
Eu realizaria
But if you deny me one of your kisses
Mais se você me negasse um de seus beijos
Don't know what I do
Eu não sei o que eu faria
So hold me close and say three words like you used to do
Então abrace-me forte e diga três palavras como você costumava fazer
Dancing on the kitchen tiles, it's all about you, yeah!
Dançando nos azulejos da cozinha, é tudo sobre você!
Continuamos rodopiando, até que a música terminasse, ainda em silêncio. Suas mãos continuavam firmes em meus ombros, como se estivesse com medo de que eu fosse embora de novo, abraçando-me vez ou outra.
Seus lindos olhos prendiam meu olhar, e sua boca parecia tão convidativa. A lua já estava no céu e era ela quem iluminava as feições de minha amada. Sussurrei, por fim:
- É tudo sobre você!
FIM!
Nota da beta: Owwnt *-* que linda! Amei.
Qualquer erro na fiction mande um e-mail para annieb.ffadd@hotmail.com
BEIJOS :* annie (L)