Cante Uma Canção Para Nós
Por Mar
Betada por Andy Martins
Capítulo 01
Narrando
O céu estava nublado, as nuvens estavam bem escuras, parecia que ia chover. Mas eu não me importava com isso, não agora. Minha cabeça estava ocupada demais, graças às brigas entre os meus pais, que ficavam cada vez mais constantes. Eu sabia que se eles continuassem assim, as coisas não iriam acabar bem.
Era isso que eu temia.
Caminhava em passos calmos enquanto passeava com Fred, meu ferret de estimação. Meu pai havia me dado ele em meu aniversário. Fred era um pequeno filhote de ferret, sua pelagem era branca com algumas manchas cinza, e seus olhos eram castanhos bastante escuros.
Todos que estavam na rua andavam apressados, temendo que um temporal caísse enquanto ainda permaneciam na rua sem a proteção e o conforto de suas casas. Somente eu andava calmamente, com certeza era a única que preferia ficar na chuva do que em casa. Aliás, não tem como ter “proteção e conforto” em uma casa onde só se escuta a briga dos meus pais. De fato, era muito melhor caminhar com o Fred do que ter que ficar em casa tendo que escutar a briga dos dois, que era por qualquer – inútil e desnecessário – motivo.
Após longos minutos caminhando, uma gota caiu na ponta do meu nariz. “É melhor eu voltar logo” pensei. Aliás, continuar a caminhar na chuva não iria me fazer bem, sem contar que Fred ainda era um pequeno e frágil filhote, ele não poderia pegar uma chuva dessas que estava por vir.
Peguei Fred no colo, o coloquei dentro do meu casaco de moletom, ele começou a se mexer fazendo cócegas, e colocou a cabeça para fora do casaco, lambendo o meu queixo – causando mais cócegas ainda. Dei uma risada e corri para casa, antes que pegasse uma gripe.
Assim que entrei em casa, para o meu espanto, não escutei nenhuma briga. Na verdade, meus pais não estavam na sala e, se estivessem brigando, pelo menos não era aos berros – o que seria impossível vindo deles.
Abri o zíper do meu casaco e tirei Fred de lá, tirando a sua coleira e a colocando atrás da porta. Coloquei Fred em sua gaiola que ficava na sala e fui subindo para o meu quarto, quando percebi que a porta da cozinha estava aberta. Desci novamente os degraus e fui até a cozinha, onde estava meu pai bebendo um copo d’água.
- Cadê a mamãe? – Perguntei inocentemente, sem saber o que tinha se passado.
Ele deu o último gole em sua água e colocou o copo dentro da pia. Então ele finalmente me olhou. Em seu olhar eu vi tristeza e arrependimento. Ele parou, respirou fundo e veio até a minha direção, pegou em minha mão e respirou fundo novamente. Senti um aperto no coração. Parecia que eu já sabia o que ele responderia. Meus olhos se encheram de lágrimas e então eu escutei as palavras mais dolorosas que já escutei em toda minha vida.
- Sua mãe pediu o divórcio.
– Mas... Por... Por quê? – Eu disse baixo, enquanto a primeira de muitas lágrimas caiu dos meus olhos.
- Nós já estávamos brigando faz um tempo... E não dava pra continuar assim!
- O táxi já está lá fora. – Minha mãe apareceu na porta com os braços cruzados. Seu olhar, diferente do de papai, não demonstrava arrependimento, apenas que ela estava fazendo a coisa certa.
– Vamos, ?
- Nada disso, ela vai ficar comigo!
- Não! Ela irá comigo! – Meu pai disse segurando em minha mão com força.
– Nada disso! Você nem sabe lavar suas próprias cuecas, vai saber cuidar de uma criança?
– Claro que sei! Aliás, você não cuidou dela sozinha até agora, certo? – E então eles começaram outra briga, estavam um de frente para o outro, brigando e se insultando. Haviam se esquecido completamente que eu estava ali.
– HEY! EU ESTOU AQUI! JÁ NÃO BASTA VOCÊS ESTAREM SE SEPARANDO OU EU AINDA TENHO QUE ESCUTAR TUDO ISSO?
As lágrimas caíram cada vez mais e a única coisa que eu consegui fazer foi sair correndo. E por mais que estivesse chovendo, fui para rua. Não queria ficar ali para escutar a última briga deles.
Eu corri para qualquer lado e, quando me dei conta, já estava totalmente molhada. Era a única louca que estava na rua com uma chuva dessas.
Sentei-me no meio fio, coloquei meu rosto entre minhas pernas e chorei, apenas isso. Uma menina sentada no meio fio, enquanto estava sendo totalmente encharcada pela chuva, que chorava feito um bebê chorão era o que – provavelmente - qualquer pessoa pensaria a respeito da minha situação naquele momento.
Fiquei alguns minutos chorando assim e, quando pude perceber, não caíam mais gotas de chuva em minha cabeça, mas ainda escutava o barulho da chuva. Levantei a cabeça e percebi que havia um menino ao meu lado. Mais exatamente, , meu vizinho – com um guarda-chuva verde-limão, que estava nos cobrindo.
Ele sorriu e eu olhei pra ele com uma cara de “Você é doente?”, apesar de que seria bem mais fácil ele pensar isso de mim naquele momento.
– Você sabia que pode pegar um resfriado? – Ele me disse como se fosse uma mãe protetora.
– Como se eu ligasse pra isso. – Respondi sem dar bola pro que ele havia dito.
Por alguns segundos nós ficamos em silêncio apenas escutando o barulho da chuva. Eu ainda queria entender o motivo dele estar ali, de se preocupar.
- Por que você está assim? – Ele disse, quebrando aquele silêncio. Eu me virei para ele e olhei bem em seus olhos. Nunca tinha percebido o quanto eram intensos. Ao menos havia percebido que eram azuis num tom escuro. Percebi em seu olhar uma certa simpatia, algo que me fazia se sentir-me bem, me sentir confortável. Um olhar que demonstrava felicidade, tão distante do meu tão triste.
Ele se corrigiu, preocupando-se com as palavras ditas anteriormente, o que me fez dar um pequeno sorriso mentalmente.
– Meus pais se separaram e eu não queria que isso acontecesse. – Eu parei de olhá-lo e fitei meus pés, meus olhos se encheram de lágrimas novamente.
– Entendo... – Eu virei pra ele com um olhar de “Como?”. , o garoto da família mais perfeita do bairro, havia dito que me entendia?
- Eu não sei como , porque meus pais nunca pensaram em se separar, mas eu já sabia que seus pais haviam tendo discussões há algum tempo, mas quem sabe é o melhor a ser feito?!
– Sabe, eu só queria que eles fossem uma família, que nem nós éramos há anos. Uma família sempre junta, sem brigas, sem separações... Apenas uma família como outra qualquer. – Não pude evitar que as lágrimas caíssem de meus olhos, ele segurou meu rosto, fazendo-me olhar automaticamente para seus olhos, e enxugou as lágrimas com seu polegar, dando um leve sorriso.
– Hey! Você pode contar comigo a partir de agora, ok? Eu sei que eu nunca fui seu amigo, mas tudo tem um começo.
– E acho que a nossa amizade começa aqui. – Eu dei um sorriso fraco e ele abriu ainda mais o seu sorriso ao perceber isso – Obrigada, ! – Eu o abracei forte, e ele apenas retribuiu ao abraço.
Ficamos alguns minutos sentados no meio fio. Embaixo aquele guarda-chuva verde-limão, eu pude perceber naquele dia que era o melhor amigo que alguém poderia querer.
Capítulo 02
Se há dores tudo fica mais fácil, seu rosto silencia e faz parar
narrando
Passaram-se três anos, e é como se ainda não acreditasse. Ela era tudo pra mim, seus sorrisos, seu jeito tão maduro de ser, ela era a mulher perfeita pra mim, e ela tinha que ser sempre minha.
Sempre.
Se eu falasse que não sentia sua falta, estaria mentindo. Eu queria poder beijar seus lábios novamente, queria poder voltar no tempo e dizer "Aceito" mais uma vez. As memórias que eu tenho dela nunca serão apagadas.
Eu olhava para aquelas meninas com um sorriso bobo no rosto, eu sabia que com elas poderia contar por toda minha vida, que elas nunca iriam me abandonar. Aquelas três meninas me faziam a cada dia dar um sorriso maior.
Ás vezes me dá vontade de desistir, de esquecer o que é viver, só que eu olho para duas menininhas: Nicole, com o cabelo cheio de cachos dourados e bem pequena, pois tem apenas três anos. Ainda não sabe falar, apenas se comunica com a gente por risadas e gestos, o que me preocupa muito. Por ser muito nova, está sempre brincando, mas sempre brinca sozinha – no máximo com a família – pois ela é muito quieta e fechada. Bom, e isso me preocupa mais ainda; E Juliet, com seu enorme cabelo liso e castanho, está sempre querendo se maquiar e colocar salto alto. Ela tem sete anos e é bastante extrovertida. Até que vejo , minha melhor amiga, uma mulher bastante bonita, seus cabelos negros, longos e lisos – Na verdade seu cabelo é muito cacheado, tanto quanto o de Nicole, ou até mais, mas chapinha existe né –, contrastam com seus olhos numa tonalidade de castanho meio esverdeado bem claro e possui traços finos e delicados. Ela era realmente linda, e o melhor de tudo, ela foi a única mulher que realmente me fez sorrir após Joann ter partido.
Estava sentado em um banco do parque, enquanto brincava de “pega-pega” com as meninas, que soltavam risadas incrivelmente altas. Elas estavam realmente se divertindo, apesar do clima frio de inverno que estava em New York, duas semanas antes do Natal. Um sorriso formou-se em meu rosto novamente, era incrível. Somente elas tinham o incrível poder de me fazer sorrir daquela forma.
Nicole veio correndo até mim enquanto fugia de . Sua risada era alta, e esta olhava pra trás a cada segundo para ver se a alcançaria antes dela chegar até mim. Assim que ela se aproximou de mim, se jogou em meus braços me abraçando forte, o que foi suficiente para ela se sentir segura.
– E então, Nicole, não tem nada a declarar sobre como a tia é malvada? – Eu disse ainda a abraçando, e ela apenas sacudiu a cabeça negativamente. Eu dei um longo suspiro, meio despontado, mas não deixei de sorrir.
– Eu ouvi isso, ! – , que já se sentava ao meu lado no banco, estava meio ofegante. Aliás, correr atrás de duas criancinhas inquietas cansa, e muito. – A menina só vai falar... – Ela fez uma pequena pausa para respirar – Quando ela se sentir segura para isso... E ela sabe que a tia NÃO é malvada. – Nicole deu uma risadinha gostosa e saiu dos meus braços para abraçar , que sorriu instantaneamente ao receber o abraço da pequenina.
– Oh, minha filha me trocou por uma malvada? – Novamente Nicole deu uma risadinha, enquanto dava a língua pra mim.
– Hey, você não precisa do abraço da pequenina quando tem o meu! – Disse Juliet se juntando a nós e me abraçando forte. Retribui o abraço e, logo após, depositei um beijo no topo da sua cabeça. Dei mais um sorriso bobo, e pelo visto percebeu.
– Vejam,meninas, o pai de vocês está sorrindo, preciso registrar esse momento! – Elas riram e fingiu tirar fotos com uma máquina fotográfica imaginária.
– Vocês sabem que são os únicos motivos do meu sorriso, né?
– Sim, nós sabemos que somos importantes a tal ponto. – disse se gabando e fez com que todos nós ríssemos da cara de metida que ela havia acabado de fazer.
– Então, o que vamos fazer agora? Ir pra casa? – As três falaram em coro um “Aaah”.
– Nós queremos brincar mais um pouco, papai. – Disse Juliet com aquela carinha de “cão sem dono”. Nicole fez o mesmo após assentir com a cabeça e logo fez o mesmo. – Nem comecem a fazer essa cara, vocês sabem que eu não resisto!
– Por isso mesmo! – Disse com um sorriso sapeca.
– Então tá, vocês brincam mais alguns minutos e depois nós vamos para casa.
– EBA! – As três gritaram juntas e foram correndo brincar mais um pouco de “pega-pega”, causando novamente aqueles sorrisos bobos em meu rosto.
xxx
Já estava de noite, após a tarde toda no parque nós voltamos pra casa. Já havíamos jantado, já havia ido embora e estava na hora de colocar as meninas na cama.
Primeiro fui até o quarto de Nicole, a coloquei em seu berço, peguei o seu bichinho preferido e coloquei ao seu lado junto a sua chupeta, que ela logo pegou e colocou em sua boca. Liguei o abajur ao lado do berço e fiquei acariciando sua cabeça até ela dormir. Poucos minutos depois, ela já mantinha seus olhos fechados e então eu saí do quarto lentamente e fechei a porta.
Depois, fui ao quarto de Juliet. Essa já estava deitada em sua cama, esperando que eu viesse colocá-la para dormir e penteando o cabelo da sua boneca preferida com as mãos. Ela não desgruda dessa boneca. Fui até a cama dela, arrumei o cobertor e me sentei ao seu lado.
– Já escovou os dentes?
– Sim. – Ela disse sorrindo e mostrando a “janelinha” que havia em seus dentes quando sorria.
– Se divertiu bastante hoje?
– Muitão, você sabe que passar o dia no parque com a tia é muito divertido.
– Pois é, ela sabe nos fazer feliz mais do que ninguém. – Eu disse sorrindo.
– Papai...
– Oi, querida?!
– Me conta como foi o dia do seu casamento?
– De novo? – Eu ri pra mim mesmo. Naquela semana ela insistiu em escutar aquilo antes de dormir. Ela balançou a cabeça positivamente e se arrumou na cama me olhando com os olhos brilhando. Por mais que fosse a vigésima vez que eu contava pra ela – ou até mais – ela se mantinha atenta à história, como se não pudesse perder nenhum detalhe.
"Era de manhã, eu acordei com sua mãe entrando no nosso apartamento, eu fui até ela e a abracei..."
– Pai, me responde uma coisa.
– Diga.
– Vocês não moravam juntos? – Ela perguntou e eu concordei com a cabeça. – Então, por que ela havia chegado de manhã? – Eu pensei, não sabia ao certo se era legal falar pra ela o motivo.
– Bom, sua mãe queria uma festa de despedida de solteira.
– E o que é isso? – Naquela hora eu congelei. Claro que não contaria pra ela o que realmente era, mas ela me olhava tão interessada em saber, que eu tratei de inventar algo.
– Err... Uma... Despedida...De solteiro. – Ela me olhou como se isso já estivesse claro e eu tentei continuar – Bom, é como uma festa onde as pessoas se despedem do solteiro.
– Mas quando você se casa você vai embora?
– Não! Como dizer... É como se você mudasse sua vida de solteiro para casado, como se desse um adeus pra essa fase da vida.
– Mas, pai, qual é a diferença entre ser casado e solteiro? Você e a mamãe já moravam juntos antes de se casarem, né?
– A diferença? Hm... – Eu fiz cara de pensativo – Bom, quando você se casa tem filhos e você fica junto pra sempre da pessoa.
– Mas você e a mamãe se casaram e não ficaram juntos pra sempre. – Ela disse inocentemente e eu parei, olhei para a porta e fiquei a encarando. Não era fácil escutar isso, mas ela era pequena e não tinha noção do que tinha dito.
– É melhor você ir dormir, Juliet. – Eu disse calmo mencionando me levantar, mas ela segurou minha mão.
– Papai, eu disse algo errado? Desculpa, eu não queria... – Ela fez bico e ia chorar, eu me aproximei dela rapidamente e a abracei forte antes que ela começasse a chorar desesperadamente.
– Calma, fica calma! Tá tudo bem! Você não disse nada demais, ok? – Eu a olhei e ela assentiu com a cabeça ainda com bico. Eu beijei o topo da sua cabeça e fiquei a abraçando forte por alguns minutos enquanto ela se acalmava.
– Papai? – Ela me olhou cautelosamente e eu sorri lhe dando coragem para falar. – Como que a tia se sentiu quando você se casou?
– Normal. Por que? – Eu estranhei ela ter perguntado isso.
– Talvez ela não gostasse de ver você casando.
– Como assim?
– Ora, se você se casa seu tempo é todinho ocupado com sua esposa e não com sua melhor amiga, não é? – Eu olhei pra ela pensativo, quem sabe foi esse o motivo da ter ido morar uns tempos com seu pai quando eu me casei, e eu só ter me dado conta disso semanas depois?! E quando ela voltou, a gente mal se via também.
Eu não estava acreditando no que eu havia feito e que nunca tinha percebido. Durante meus anos de casado eu realmente havia me afastado da , me senti mal por isso. Ela nunca havia me abandonado, nem nos piores momentos da minha vida e eu simplesmente a ignorei por estar montando minha família.
– Juliet, – Eu beijei novamente o topo de sua cabeça e me levantei da cama. – Dorme bem, querida. Já está tarde e eu tenho que ir dormir também, ok? – Ela apenas sorriu levemente. Liguei o abajur, desliguei a luz e fui saindo do quarto. Vendo, antes de sair Juliet piscar pra mim, e então retribuí o ato sorrindo e logo fechando a porta.
N/B: Hello, fofas! Então, se houver algum erro, você podem me mandar um email, ok?
Beijos, Andy.