Algo novo tinha acontecido naquela manhã.
Não havia sido seu despertador que, como todos os dias, tocou as 8:15
da manhã com alguma música brega da radio 1.
Também não havia sido seu café da manhã, que como
todos os dias, tinha sido composto por torradas com geléia de damasco
e leite.
Também não tinha sido suas roupas. Não eram nem novas nem
velhas, eram apenas as suas roupas.
Também não tinha sido a caminhada de quinze minutos até
a escola que ela realizava em vinte e cinco por ser devagar pelas manhãs.
Por fim, não tinha sido sua escola, que continuava aquela mesma prisão
imensa e cheia de presidiários barulhentos.
No entanto, a novidade estava na sala de aula.
Ela não prestou atenção à aula de matemática
(não que ela geralmente prestasse). Havia algo novo para se prestar atenção.
Algo mais interessante.
Do outro lado da sala estava sentado esse aluno novo que vestia calças
largas e pólo listrada de azul escuro e branco.
Tão igual a todos e tão diferente de todos.
A classe fingia ignorar a presença da novidade, mas ela sentia no ar
a curiosidade da turma, inclusive dela mesma.
Ela não entendia o porquê de todo aquele interesse que ela sentia.
Ele era novidade? Sim.
Ele era bonito? Sim, em excesso.
Ele sabia como pentear um cabelo? Sim.
Ele sabia como se vestir? Também.
Mas assim como ele, vários outros também sabiam.
Seus olhos não saíam daquele garoto calado e deslocado, que ainda
nem tinha notado sua existência porque ainda estava assustado demais com
tantas novidades.
O sinal tocou. Ela tirou o lápis da boca, o olhar malicioso do rosto
e a mochila do chão.
Torceu para que ela e o cara novo tivessem a mesma aula do próximo período
e saiu da sala perseguindo ele com o olhar no meio daquele formigueiro que se
formava no corredor.
Ouviu seu nome e virou-se automaticamente, perdendo sua mais nova distração
de vista.
- ! – Ela ouviu um Chris gritar enquanto acenava com os braços
a poucos metros dela.
Chris: ex-namorado; eterno rolo; a pessoa que ela mais amava no mundo; a pessoa
que mais a amava no mundo; seu melhor amigo. E sim, alguém mais bonito
que o resto do mundo.
Ele era pouco mais alto que ela; forte e encorpado no ponto certo; cabelo castanho
claro e curto; olhos azuis e um casaco Zoo York preto.
- Chris! – Ela acenou e andou contra o fluxo de ferozes alunos até
o garoto.
Cumprimentaram-se.
Chris sorria mais do que o normal. Seus olhos claros brilhavam mais que o normal.
Sua hiperatividade estava mais hiperativa que o normal.
Ela sorriu. Sabia o que ele tinha conseguido.
- É o que eu estou pensando? – perguntou já sorrindo
também. Ele apenas sorriu com mais força e balançou a cabeça.
– Ah! – Ela exclamou antes de pular no colo de Chris para um abraço
de comemoração.
Chris tinha uma obsessão há algumas semanas: dormir com a professora
de psicologia, Angie.
ainda não sabia se o que ele sentia pela professora era algo sério
ou apenas mais uma vontade; o que sabia era que estava feliz por ele.
- Depois você vai ter que me contar tudo! – Ela falou antes de soltá-lo
e de ser levada pela maré de blusões da Gap até a sala
de aula de psicologia.
Chris não precisaria contar nada a ela.
Angie, a tão desejada professora de psicologia, estava sentada em sua
mesa com um sorriso que rasgava sua face, mas lhe caía super bem. Ela
até parecia mais bonita. Não que não fosse. Ela era o membro
mais novo do quadro de funcionários da escola e era facilmente confundida
por uma aluna com franja e cabelos castanho claros, olhos azuis e meio esbugalhados.
Chris era bonito demais para ela, mas não sabia se quem pensava isso
era uma totalmente neutra ou uma ex-namorada e melhor amiga do cara
em questão.
Ela quase se esquecera do aluno novo. Só lembrou-se dele ao notar sua
ausência.
Eles não teriam aula de psicologia juntos.
Na verdade, eles também não teriam história ou inglês
juntos, já que ela passou o resto da manhã sem vê-lo.
O sinal da última aula antes do almoço soou, saiu da sala
e a primeira coisa que viu, foi o garoto novo. Seu armário era em frente
à sala de inglês.
Que sorte a dela.
Caminhou até ele, tomando cuidado para que ele não a visse e recostou-se
no armário ao lado do dele, fazendo com que a porta aberta escondesse
seu rosto.
- Oi, menino novo! – Ela falou assim que ele fechou a porta com força.
Ele se assustou.
- Oi, menina velha! – Ele falou depois de recuperado e incerto sobre sua
reação.
Ambos sorriram. Ele grato por ter recebido a atenção de alguém
naquele ambiente inóspito que é uma escola; ela grata por ele
não ter se assustado com sua ousadia e cara de pau.
- Queria te chamar para almoçar comigo e com os meus amigos... –
Ele a analisava, mas ela sabia que estava bem, não havia com o que se
preocupar, já que seu cabelo estava preso por um rabo de cavalo, os cílios
estavam espessos pelo rímel Bourjois e o corpo estava em seu peso ideal
graças as aulas de pilates que sua mãe a tinha obrigado a fazer.
– Juro que nós não mordemos. – Ela completou.
Seus olhos os deixavam tontos; o movimento e o barulho excessivo ao redor os
deixavam tontos. Eles se causavam tontura.
Ela gostava daquilo.
- Só se você prometer que vocês não mordem mesmo.
– Ele falou encostado no armário, com apenas uma das sobrancelhas
levantadas. Delicioso, na opinião de .
Depois de o assegurar que ninguém o morderia, os dois caminharam lado
a lado pelo corredor até o refeitório do colégio.
- Meu nome é , aliás. – Ela falou e lhe ofereceu a
mão.
- . – Ela a apertou e sentiu seu corpo todo aquecer, formigar, aquecer,
formigar...
- O que você veio fazer aqui nesse fim de mundo chamado Coventry High?
– Ela perguntou ironizando o fato de seu colégio estar na zona
mais movimentada da cidade.
- Eu acabei de me mudar para Londres, sou de Bristol. Vim para cá para
tentar alguma coisa com a minha banda.
Logo ela se deu conta de que estava lidando com o que ela gostava de chamar
de “pacote completo”: bonito, talentoso, bem humorado e doce.
- Vocês estão morando juntos? – Ele fez que sim com a cabeça.
– Só meninos? – Repetiu o movimento e ela imaginou o pardieiro
que não devia ser a casa deles. Sua cabeça fez um movimento reprovador
automático e soltou uma risada.
- Não é tão ruim quanto você imagina...
- Duvido!
Ele arregalou os olhos.
- É, na verdade é tão ruim quanto você imagina, se
não for pior. – Ele sorriu colocando as mãos no bolso. –
Mas é divertido e não tem pai nem mãe por perto então
a gente pode fazer basicamente tudo.
Ó o rock and roll lyfestyle.
- O que você toca? – tinha uma certa fascinação
pelo mundo da música, apesar de ser apenas uma fã e não
saber nem como tocar caixinha de fósforos.
- . – respondeu com os olhos brilhando. Ele levava aquilo
a sério. Ela achava aquilo fascinante.
- Legal. E onde está o resto da sua banda? – Ela perguntou observando
como ele andava com as mãos no bolso e olhava para tudo curioso. Só
não mais curioso do que ela, que estava praticamente interrogando o garoto
novo. – Você é a única pessoa nova que eu vi aqui
hoje. – completou.
Ele deu uma risada.
- Devem estar dormindo ainda, eles já terminaram a escola e só
se focam na música agora.
Ela deu uma risada.
- Ou seja, festa todos os dias? – Ela perguntou e ele confirmou com a
cabeça com uma cara infeliz de quem queria se dedicar apenas a música
também.
Quem poderia culpá-lo?
É o rock and roll lifestyle.
O refeitório parecia mais o local de refeições de um hospício
do que de um centro de ensino, mas ela já estava acostumada com aquilo.
O cheiro enjoativo de milhares de salsichas enlatadas parecia mais forte do
que tudo.
Na ponta esquerda do salão ela avistou a mesa onde ela comia desde sempre.
Seus amigos já estavam lá, discutindo qualquer coisa super importante
como em qual casa eles se reuniriam para ficarem bêbados até a
morte no próximo final de semana.
Ela se sentou em seu lugar habitual, em frente a Tony e April; ao lado de Chris.
sentou-se ao seu lado.
- Todo mundo... – Ela falou com o olhar curioso de seus amigos sobre ela
e sobre o “intruso”. – Esse é o , ele é
novo. – Ela respirou e sorriu. – , esses são Chris,
April e Tony!
April: melhor amiga de desde as fraldas; cabelos escuros e cacheados que
só deixavam seus olhos mais azuis. Ela sorriu encantadora como sempre
para .
tinha uma pequena preocupação de se interessar mais
em sua amiga pacote completo versão feminina do que nela.
Mas Tony era o namorado de April. Não que isso fizesse muita diferença
para ele que já tinha dormido com metade da escola. Sua namorada estava
apaixonada demais para se importar. Ele era o “alpha dog” daquele
lugar. Todos queriam ser ele, todos queriam estar com ele e festa só
era festa se ele estava lá. O tipo de cara que sempre se dá bem,
independente do que tenta fazer. Era convencido, egoísta e egocêntrico.
Não prestava, mas era seu amigo.
Ele olhou para de cima a baixo, estudando o quanto esse novo cara poderia
prejudicá-lo em sua posição no grupo. Tony julgou-o inofensivo
ou então foi com a sua cara, já que seus olhos azuis gelados pareceram
quase simpáticos quando sua boca pequena e naturalmente avermelhada falou
algo como “ E ai, cara?” antes que ele passasse a mão pelo
seu cabelo fino e preto.
A união da hiperatividade, da felicidade e da simpatia de Chris fizeram
com que ele começasse a falar sem parar com , deixando uma
até meio zonza no meio de tudo aquilo. Eles falavam sobre o Guiness Book
ou qualquer coisa parecida.
O almoço passou rápido como uma canção do início
da carreira do Green Day, e mesmo assim, conseguiu se entrosar com aquelas
quatro pessoas que já estavam entrosadas há anos.
estava feliz; sua companhia era agradável; ele era um presentinho
aos olhos e tudo o que ela queria era saber tudo sobre ele. Mas achava melhor
ir com calma para ele não achá-la uma patética desesperada.
- Que aula você tem agora, ? – Tony perguntou a ele e
olhou para seu amigo já sabendo o que ele pretendia.
tirou um papel de seu bolso e conferiu seu horário.
- Cálculo...Falando nisso, alguém sabe aonde é a sala de
cálculo?
- Também tenho cálculo agora, eu te levo lá. – April
falou levantando-se da cadeira.
- Shiu, April! – Tony falou com toda a sua sutileza. – Escuta, ,
as vezes a gente vai para o último andar da escola para relaxar depois
do almoço... – Tony tinha uma característica própria
que achava o máximo: ele falava com os olhos. E seus olhos falavam
a : “Foda-se a aula.”
April virou os olhos; e um brilho passou pelos de .
- Acho melhor não. – Ele respondeu sem aquele brilho cheio de adrenalina
de antes. – É meu primeiro dia e eu vou tentar causar uma boa impressão.
sorriu e só parou de sorrir quando pensou no quanto idiota ele
deveria estar parecendo. Durante toda a sua vida ela conviveu com pessoas irresponsáveis
e foi irresponsável. A preocupação de fez com que
ela se encantasse mais ainda com ele.
Tony o olhou com seu característico olhar de descaso. Ele provavelmente
nem fazia mais de propósito, era automático.
- Beleza. – Falou. – Mas se mudar de idéia é só
subir todas as escadas de incêndio. – Ele completou.
Os cinco saíram do refeitório e sentiu alguém tocar
seu braço. Era e ela sorriu.
- Queria te agradecer. – Ele falou com seu olhar angelical.
- Agradecer o quê? – perguntou já no corredor. Estava
vazio, a não ser por eles; todos já estavam em suas salas.
- Por ter sido a primeira pessoa a ter sido legal comigo!
Antes que ela pudesse pensar em qualquer resposta que não fosse um simples
“de nada”, sumiu corredor acima com April e Tony a puxou
em direção as escadas de incêndio.
- Tony! – Ela exclamou tentando acompanhar o ritmo acelerado que o amigo
subia as escadas. – Quem disse que eu queria cabular aula?
- Seu histórico. – Ele respondeu empurrando as pesadas portas e
fazendo a claridade machucar seus olhos. – Você sempre cabula aula.
Ela só pode rir e pensar que aula de biologia não era tão
importante assim e que não faria mal nenhum dar uma relaxada antes da
próxima aula.
e Tony sentaram-se apoiados na caixa d’água. Ele apoiou a cabeça
em seu ombro e ela passou a mão por seus cabelos como se ele fosse um
garotinho de 3 anos. Olhou para o céu; claro e nublado ao mesmo tempo.
Fechou os olhos e só os abriu ao ouvir a voz de Tony.
- Você gosta do cara novo.
- Está tão na cara assim? – Perguntou um pouco envergonhada
e fez uma careta.
- Está. – Ele se acomodou de forma que conseguisse olhar em seus
olhos.
- Bosta.
- Torce para ele não ter ficado a fim da April. – Ele falou apenas
para atormentá-la e conseguiu. Sabia que April era uma espécie
de utopia real para os homens. Se é que aquilo existia.
- Vai se foder, Tony! Você é o cara mais perturbado que eu já
conheci! Você está falando da sua namorada...
Ele apenas sorriu e mexeu as sobrancelhas como quem fala: “Sou perturbado,
mas o mundo me ama.”
- O fato dela ser minha namorada não muda nada. – Ele falou e colocou
a mão no pescoço de , acariciando-o e olhando para ela como
se ela fosse um apetitoso bolo de chocolate.
Tony era incorrigível e se perguntava porquê era amiga dele.
Aquela não era a primeira vez que ele tentava ficar com uma das suas
melhores amigas, que por um acaso, também era a melhor amiga de sua namorada.
Nada que causaria muitos problemas, como se pode notar.
Ela colocou a mão na perna dele e se aproximou o bastante para que ele
fechasse os olhos e ouvisse:
- Você não presta, Tony.
Ela adorava ser uma das únicas pessoas que não fazia exatamente
o que Tony queria. Quem sabe aquilo levaria um pouco de realidade a sua vida
onde todos o idolatram.
levantou-se e andou até o esconderijo: uma velha caixa de papelão
onde eles mantinham cigarros, bebidas e qualquer coisa que pudesse ser útil
naquele telhado. Nada lícito, é claro.
- Você ainda vai mudar de idéia, ! – Ouviu Tony falar
enquanto tirava cigarros, isqueiro e uma garrafa de whisky barato pela metade
da caixa.
Sentou-se novamente ao lado do amigo e lhe entregou a garrafa enquanto lutava
para que o isqueiro vagabundo acendesse o cigarro.
- Por quê o Chris não veio? – Ela perguntou assim que conseguiu
sua primeira tragada.
- Tinha aula de psicologia. – Tony falou da maneira mais pervertida que
alguém poderia falar uma palavra comprida como “psicologia”.
Os dois riram e ele passou a garrafa para ela.
O líquido ardia enquanto passava por sua garganta e ela sentiu-se tonta
na mesma hora. Whisky era forte demais para ela. E ela sabia disso desde sempre.
Tony riu da cara dela, que tomou outro gole que pareceu menos forte do que o
primeiro e deitou sua cabeça no colo dele. Tony pegou o cigarro de sua
mão e ela fechou os olhos, protegendo-os da claridade que os atingia
diretamente agora.
- Por que você faz isso, Tony? – Ela perguntou a pergunta que já
havia sido perguntada tantas outras vezes.
- O que, ?
Ele lhe devolveu o cigarro.
- Trair tanto a April.
Silêncio. Ouviu ele virar um generoso gole.
- Não sei.
A mesma resposta de sempre.
E ela sabia que ele não estava mentindo, era, simplesmente, quem ele
era.
- Você ama ela? – Ela insistiu, ou melhor dizendo, a pequena concentração
de whisky em seu sangue insistiu.
Para a sorte de Tony, os dois ouviram o sinal. Um barulho que mesmo longe ainda
soava extremamente irritante.
Levantaram-se e guardaram as coisas no esconderijo. Seus olhares se cruzaram
e teve a impressão de ter visto uma certa culpa nos olhos geralmente
frios de Tony.
Provavelmente era impressão.
Ela achou melhor não insistir naquele assunto, afinal, não era
da conta dela.
Se nem a chifrada em pessoa se importava, por que ela deveria se importar?
- Esquece, não é da minha conta. – Falou quando eles entravam
na escada.
Tony deu um sorriso grato que não combinava com ele e os dois chegaram
no último lance de escadas, quando ouviram barulhos um tanto quanto estranhos.
Tony deu uma gargalhada e viu uma professora de psicologia entre a porta
da escada e Chris. Os dois pareciam insaciáveis. Ela riu também,
mas sua risada os delatou. O casal se separou rapidamente e uma Angie saiu de
lá batendo a porta desconcertada.
- Desculpa, Chris! – Ela falou ainda rindo. A imagem de Chris e uma professora
era hilária na opinião dela.
Ele apenas sorriu e saiu correndo, provavelmente para avisar Angie que ela não
corria riscos de ser delatada por ou Anthony Hoult.
Capítulo 2;
Sua última aula do dia, francês, passou voando graças a
parcial falta de sobriedade de
. Ela sabia que a professora falava qualquer coisa sobre o subjuntivo e ela
quase tentou prestar atenção, mas chegou a conclusão que
já sabia o essencial em francês: os palavrões.
Não há melhor língua para se praguejar do que o francês.
Ela ainda pensava em
quando juntou suas coisa em sua mochila e saiu pelo corredor. Ela queria vê-lo
de novo, ela queria falar com ele de novo, ela queria estar perto dele de novo.
Balançou a própria cabeça, preocupada com rumo que as coisas
estavam tomando quando ouviu seu nome.
- Oi,
! – Ela falou parada em frente a porta da sala e obstruindo a passagem
da manada. – Como foram as sua últimas aulas? – Perguntou
sendo cuspida da onde estava.
- Chatas. E as suas? – Perguntou enquanto andavam até a porta rumo
àquele curto período de liberdade que só duraria até
as 9 horas da manhã seguinte.
- Biologia foi muito proveitoso.
Ele riu; ela gostou de vê-lo rir. Era algo novo para ela.
- O que vocês ficaram fazendo lá em cima?
O céu agora estava ridiculamente azul e o calor a fazia lembrar-se da
viagem que fizera à Florida.
estreitou seus olhos devido a claridade e
reparou como eles ficavam mais claros e mais brilhantes no sol.
- Só conversando. – Ela achou que não pegaria bem informá-lo
sobre o whisky vagabundo. Ele mal a conhecia; pensaria que era uma alcoólatra
porra loca. Ela era apenas alternativa e amava eufemismo. – Você
devia aparecer lá qualquer hora.
- Eu vou sim. – Ele respondeu e ela teve aquela sensação
deliciosamente desesperadora de que ele não tirava os olhos dela. Ela
só não podia cair. Com sua sorte ela cairia, ela sempre se metia
nas situações mais embaraçosas nos momentos menos oportunos.
– Aonde nós estamos indo? – Ele perguntou ainda com aquele
olhar e
teve a impressão que poderia levá-lo para onde quisesse.
Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios e ela agradeceu por
estar mais interessado em sua bunda naquela hora.
- Para o parque aqui em frente. – Ela respondeu parando na faixa de pedestres
e esperando que um batalhão de táxis e carrinhos amalucados passassem.
– Nós sempre vamos para lá depois da aula.
Aquilo não era exatamente um parque; era mais um jardim. Ninguém
sabia se tinha nome ou não; só sabiam que ali ficava uma estátua
de alguém que morreu na Segunda Guerra Mundial; por isso, simplesmente
chamavam o lugar de “o parque em frente a escola”.
- Ah tá. – Talvez ela estivesse sentindo um certo desapontamento
em sua voz. Ele era tímido e apressado ao mesmo tempo.
precisava de mais tempo para entendê-lo bem; para ter certeza de onde
estava pisando. Ainda estava cedo demais.
Entrar em um parque num dia quente como aquele era uma sensação
única. A temperatura baixava vários graus, tornando-se algo suportável
para o DNA britânico e o excesso de vegetação trazia sombra
para todos, ainda permitindo que você visse o bonito céu claro.
Os dois suspiraram ao mesmo tempo e avistaram Chris, Tony e April sentados no
meio do gramado verde.
- Estávamos nos perguntando onde vocês tinham se metido. –
Tony falou maliciosamente ao vê-los se aproximar.
o olhou com o melhor olhar “cala a boca, seu puto” que ela pode
arrumar e todos deram risinhos disfarçados.
- Acabou de tocar o sinal, queria que eu viesse correndo, Tony? – Ela
perguntou antes de se jogar no chão. Sentiu-se exausta de uma hora para
a outra.
sentou-se ao seu lado.
- É claro, eu sinto sua falta.
- Você é cheio de merda, Tony. – Chris tirou as palavras
da boca de
.
- Obrigada, Chris.
Ele balançou a cabeça e ela viu aquele sorriso satisfeito dele.
Por que será?
Tony virou os olhos e acendeu um cigarro.
- Estava falando com o
, não com você,
, muito menos com você, Chris. – Ele os olhou com raiva e foi correspondido,
até que os três caíram na risada, contagiando também
e April.
- Apesar de não parecer, nós nos damos muito bem, viu,
? –
achou melhor fazer aquele comentário tosco só para o cara não
achar ela e seus amigos totais retardados.
- Eu estou vendo. – Ele respondeu olhando para eles como se eles fossem
algum tipo de malucos hilários.
Eles podiam ser malucos, mas na maior parte do tempo eram apenas mais quatro
adolescentes tentando sobreviver ao colegial.
Não há nada de hilário em sobreviver ao colegial.
April, Tony e
engataram qualquer conversa sobre qualquer coisa que
não ouvia, já que Chris contava a ela sobre Angie. Ele estava
nas nuvens por ter comido uma professora.
Isso que ela chamava de objetivo de vida.
Isso que dá ser a melhor amiga do seu ex.
- Ela ficou muito nervosa depois que a gente apareceu? –
perguntou prestando plena atenção em Chris, a não ser pelas
olhadas de canto de olho em
, pelas vezes que tentou ouvir sobre o que ele conversava e pelas vezes que
imaginou se ele era do tipo que preferia gato ou cachorro.
Chris deu uma gargalhada.
- Nervosa? – Ele levantou as sobrancelhas adoravelmente. – “O
que nós vamos fazer em relação a
e ao Anthony, Chris?” – Ele a imitou e
quase pode visualizar a cena. Riu. – Tive que levar ela para o almoxarifado.
– Ele fez uma cara pervertida tão profissional quanto a de Tony.
- Chris! –
exclamou pois se lembrava muito bem porque o almocharifado era o lugar favorito
do Chris em toda a escola. Experiência própria. – Você
anda impossível!
- Não sei. – Ele respondeu abraçando as próprias
pernas e fazendo cara de culpado.
- Você está gostando mesmo dela, né?
Chris não respondeu; apenas virou sua atenção para April.
- Na minha casa não pode ser, minha mãe só viaja semana
que vem. – Ele falou a April, que deveria ter perguntado se a festa poderia
ser em sua casa essa semana. Ou qualquer coisa do gênero.
Era óbvio que não estava preparado para admitir que gostava da
professora. Ela também não estaria se estivesse de rolo com um
professor.
Eca. Seus professores eram absolutamente abomináveis.
-
!!!!! – April fez sua voz de criança que pede Mc Lanche Feliz.
já riu porque sabia o que aconteceria. – Pode ser na sua casa de
novo?
Fazia semanas que as festas estavam sendo em sua casa, já que todos os
pais pareciam ter enjoado de viajar.
- Pooode. – Ela respondeu fingindo odiar aquelas festas cujas expectativas
os faziam sobreviver até o final de semana. Se não fossem pelas
festas eles todos já teriam virado vegetais.
Sua casa estava sempre liberada para festas, já que seus país
estavam estudando ruínas Maias de Machu Pichu, a milhares de quilômetros
de distância. Sua casa virara uma mistura de balada com pub com hotel.
- Leva os seus amigos e quem mais você quiser,
. – Ela falou encarando-o nos olhos pela primeira vez desde que começara
a conversar com Chris. Esperava que ele entendesse o que estava subentendido:
“Se você tiver uma namorada, não precisa levá-la,
aquela biscate”
Mas ele não tinha. Era o que ela achava. Era o que ela pensava.
- Eles nunca perdem uma festa. Pode deixar! A gente vai! – Ele falou animado
e
voltou a imaginar se ele gostava de gato ou cachorro.
Provavelmente, os gatos eram seus preferidos, já que eles dão
menos trabalho; ele mora numa casa com mais não sabia quantos garotos,
o que eles menos queriam era trabalho. Mas talvez ele fosse fã dos cachorros,
já que era doce como um. Ela achou meio estranho compará-lo a
um cão, mas logo voltou aos seus raciocínios.
Se bem que, gatos soltam pêlo e por isso podem dar até mais trabalho
do que um cachorro que não solta; e há cachorros absolutamente
mal humorados e chatos e gatos meigos.
-
! – A voz de Tony a trouxe de volta a realidade.
- Oi! – Ela respondeu sorridente. Todos riam dela. Sentiu suas bochechas
corarem. – Que foi?
- Onde você estava com a cabeça? –
perguntou.
- No meu cachorro. – Não era uma mentira total. Já que ela
estava pensando em cachorros e gatos.
Sim, ela era o tipo que preferia cães, mas também se derretia
por gatos.
- Nós somos tão entediantes assim,
? – April perguntou.
- Claro que não. – Tentou contornar a situação. Ela
tinha certeza que
pensava que ela cheirava tóxicos. – Estou pensando que preciso
comprar ração.
- Continuando... – Tony falou impaciente. Ele provavelmente não
daria a mínima se todos os cães do mundo evaporassem.– Sexta
ou sábado?
- O quê?
- A festa
! A festa! – Ele respondeu grosseiramente.
- Ah desculpa! Não sabia que eu tinha que ler sua mente, Anthony. –
Ela tentou usar o mesmo tom que ele tinha usado.
- Sei muito bem o que eu leria na sua. – Ele a provocou.
respirou fundo e deu o seu meio sorriso “eu não dou a mínima”
que tinha aprendido com o próprio Tony.
- Sexta, e sábado também se sobrar bebida.
Chris soltou uma de suas gargalhadas escandalosas; todos o encararam.
- Desculpa, mas nunca vi sobrar bebida em festa nenhuma que a gente dá.
Ele meio que tinha razão, mas eles arrumariam algum programa para sábado.
Só saíram dali quando começou a escurecer e a soprar um
vento gelado. April foi a primeira a se levantar porque, segundo ela, o vento
fazia seu cabelo ficar armado. Na opinião de
, ele continuava lindo como sempre. Seus amigos a acompanharam e cada um andou
em direção de sua própria casa: Tony e April para um lado;
Chris para o outro e
para um terceiro lado. Assim que sempre tinha sido, mas
logo descobriu que teria companhia para voltar para casa dali em diante.
- Você está me seguindo,
? – Ela perguntou ao reparar sua presença alguns metros para trás.
- Droga, não era para você me descobrir! – Ele entrou na
brincadeira; os dois riram juntos.
- Onde você mora? – Ela perguntou reparando em como o cabelo dele
se encontrava perfeitamente com o seu pescoço.
- Belmont Hill.
- Eu também!
Ó destino, como ele podia ser legal de vez em quando.
Os dois sorriram da mesma maneira, pensando a mesma coisa.
Entraram na Belmont Hill e seguiram em frente conforme o sol recuava. O céu
tinha aquela engraçada coloração entre o rosa e o laranja.
- Qual é a história entre você e o Chris? –
perguntou e surpreendeu
.
- Como assim?
Ele mexia nas alças da mochila e a olhava meio envergonhado. Parecia
que tinha medo do que ouviria. Ela tinha medo de responder o que deveria; tinha
medo do que ele estava pensando.
- Quer dizer... – Ele olhou para o outro lado. – Fica muito na cara
que vocês não são só bons amigos... – Milhares
perguntas passavam na cabeça de
e aquilo provavelmente transpareceu pela sua cara.
tentou se explicar melhor. – Vocês parecem perfeitos juntos.
ficou calada. Abriu sua boca para falar qualquer coisa e depois a fechou. Aquilo
não era bom. Como ela poderia ter qualquer coisa com um garoto que achava
que ela era perfeita ao lado de outro?
Ela coçou a cabeça torcendo para que aquilo a fizesse voltar ao
seu perfeito estado mental.
- Eu não acho que nós somos perfeitos juntos. – Seus lábios
soltaram por falta de outra coisa para falar. Ela só tinha que deixar
bem claro que não queria o Chris. Pelo menos não naquele momento.
– Ele a olhou desconfiado. – Nós namoramos por um tempo.
– Ela completou, já que aquilo seria inevitável.
balançou a cabeça para se auto parabenizar por estar certo.
- Quanto tempo vocês ficaram juntos?
- Dois anos. – Os olhos de
se arregalaram. – Mas nós terminamos já faz mais de um...
–
ia perguntar qualquer coisa, mas ela o interrompeu. – Por que você
acha que nós somos perfeitos juntos?
Aquilo tinha ficado em sua cabeça. Ela e Chris eram muito amigos. Eram
amigos antes do namoro, durante o namoro e depois do namoro. Ele tinha sido
seu primeiro namorado sério; sua primeira vez... eles tinham muita história
juntos. Tinham aquela relação que todos os outros invejavam. Eram
o casal perfeito, assim como
tinha dito. E foram o casal perfeito até a época em que os dois
perceberam que estavam entediados, que queriam mais. O relacionamento tinha
acabado, assim como a paixão; tinha restado apenas a amizade e aquele
amor fraternal. Eles tiveram suas recaídas e eram seus estepes oficiais,
já que havia dias que a paixão voltava a tona.
Mas aquele não era um daqueles dias. Ela só conseguia pensar em
.
- Não sei! – Ele balançou os ombros. – Simplesmente
são.
- Ele é só meu amigo. – Ela colocou uma ênfase tão
exagerada em “só” que
riu.
fechou os olhos por alguns segundos, envergonhada e confusa.
- Bom. – Ele falou com um sorriso charmoso de canto de boca e diminuiu
o passo. – Eu paro aqui. – Ele apontou com a cabeça a casa
igual a todas as outras da rua, a não ser pelo jardim mal cuidado, o
furgão velho estacionado e os engradados de cerveja na porta. A típica
casa de início de banda; o típico pardieiro que ela imaginava.
Ela amou.
- Vocês também dão bastante festas pelo jeito, né?
– Ela apontou os engradados.
- Só demos uma até agora! A gente chegou semana passada. –
Cachorros; ela não sabia o porquê, mas tinha certeza que ele gostava
mais dos cachorros. – Você já está convidada para
a próxima festa e eu não aceito recusas!
- Eu nunca recuso festas! – Ela levantou as duas mãos como se não
tivesse escolha, a não ser se encontrar com ele em uma festa, quando
ambos estariam bêbados e gostosos.
- Bom, eu vou entrar... – Ele mostrou sua casa e ela teve impressão
de que ele não queria entrar; ela não queria que ele entrasse.
- Ah claro, já tá tarde. – Ela olhou em volta, a rua estava
praticamente escura.
- Você ainda tem que andar muito? – Ele perguntou preocupado e ela
o achou fofo.
- Um quarteirão.
- Você mora perto mesmo! – Ela concordou com a cabeça, ainda
feliz por essa coincidência. – Eu vou indo porque eu ainda tenho
que ensaiar hoje.
aproximou-se e beijou sua bochecha; ela formigou pedindo mais.
Ela apenas acenou para ele e andou alguns metros em direção a
sua casa, sentindo aquele sorriso idiota que tinha virado uma constante em seu
rosto desde aquela manhã.
Mas ela não podia ir. Não ainda. O sorriso sumiu e ela mordeu
o próprio lábio pensando no que ia fazer. Ela precisava. Parou
de andar e virou-se para ver
; ele ainda a observava caminhar e ficou sem graça quando ela percebeu
aquilo. A menina sorriu de novo.
-
! –
gritou para que ele a ouvisse. Ele prestou atenção nela. –
Você prefere gato ou cachorro?
estranhou a pergunta, mas respondeu numa voz engraçada e desconfiada:
- Cachorro, por quê?
deu um pulinho retardado, mas que não podia ser contido e voltou para
o seu caminho.
Capítulo 3;
O resto da semana se arrastou naquela repetição contínua
de rotina, excetuando , que fazia tudo que sempre fora tão normal
ter uma graça a mais. A cada dia eles ficavam um pouco mais próximos
e descobriam coisas um do outro.
A atração física era incontestável e tinha certeza
que seria confirmada sexta a noite.
Certeza.
Naquele dia ela saiu do parque acompanhada por e April que iria ajudá-la
a esconder todos os enfeites e coisas quebráveis de sua casa. Ela provavelmente
não os colocaria no lugar novamente, já que as festas ficavam cada
vez mais freqüentes e selvagens.
- O que você vai usar? – April perguntou assim que se despediu
em frente a sua casa.
- Não sei, ainda não pensei. – Mentira. Já tinha pensado
em sua roupa dias atrás. Tudo teria que dar certo e se a roupa desse certo
já seria um bom começo.
- Óbvio que você pensou, você vai pegar o essa noite!
– April falou com sua voz esganiçada e lhe deu um tapa enquanto
se assegurava que o garoto não tinha escutado nada. Claro que não
tinha, já que ele já estava dentro de sua casa. A muitos metros
e uma porta de distância.
- April!
- Quê? – Ela perguntou virando os olhos. – Ah, , tá
na cara que vocês vão ficar!
Ela gostou de escutar aquilo de outra pessoa que não fosse ela mesma. Tornava
tudo mais real, e não apenas um fruto de sua imaginação ilimitada.
- Eu sei, mas não precisa berrar para a rua inteira! – Ela falou
brava e depois sorriu. – Você acha mesmo? – Perguntou só
para confirmar com uma voz bem mais doce.
A amiga sorriu e balançou a cabeça.
- Eu vou usar meu vestido preto por cima de uma skinny e algum sapato.
- Sabia que você já tinha programado cada detalhe. – April
a conhecia bem demais. – Qual sapato você vai usar? Porque eu sei
que você já escolheu também e só está fazendo
doce.
Amizades com mais de dez anos de duração são uma invasão
de privacidade.
- O scarpin vermelho. – Ela respondeu já abrindo a porta de casa.
Nell, sua estabanada cocker começou a latir e a pular nela, como fazia
todas as vezes que ela ou qualquer outra pessoa botava os pés na casa.
– Nell, puta que pariu!
“Puta que pariu” era praticamente o segundo nome de Nell; assim como
“porra de cachorro que roeu o fio da internet”. Nell conseguia ser
mais hiperativa do que Chris; tinha a impressão de que a cadela já
tinha bebido tantos restos de cerveja e sabe-se lá mais o que durante as
festas que tinha ficado daquele jeito.
- Não fala assim dela, tadinha. – April falou agradando Nell e recebendo
litros de baba como retribuição. olhou séria para a amiga.
– Que foi?
- Você fala assim, mas deixou ela sem comida por dois dias quando eu fui
para Edimburgo.
April jogou os ombros.
- Ela estava gordinha mesmo.
As duas tiraram qualquer coisa que fosse quebrável ou de valor do caminho
e trancaram no armário dos pais de
. Ela realmente não podia arcar com outra restauração do
vaso da fertilidade da Nefertite que tinha ido parar dentro da privada.
Impressionante como pessoas bêbadas se sentem atraídas por coisas
raras e/ou caras.
Quando já passava das dez da noite e já tinha colocado quase
todo o álcool da casa para gelar, a garota subiu para seu quarto e lá
encontrou April revirando seu armário.
- Que porra você está fazendo? – Perguntou reparando que tinha
mais roupa em cima da cama do que no armário.
- Procurando alguma roupa para eu vestir que não me faça parecer
uma jeca. – Ela virou-se para a amiga e apontou para ela mesma; num vestido
preto de corte legal que, é claro, caía perfeitamente em seu corpo.
- Você está brincando, né? – April ia começar
a responder, mas não deixou. – Esquece! Pega o que você
quiser, eu vou tomar banho.
Fechou a porta do banheiro atrás de si e deu pequenos pulinhos e palmas
mudas. Estava se comportando como uma criança, mas estava ansiosa. Não
que ela estivesse esperando há muito tempo, fazia apenas alguns dias, mas
aquilo não saía de sua cabeça; ele não saía
de sua cabeça.
Entrou de baixo do chuveiro fingindo que não estava nervosa do jeito que
estava, fingindo que estava relaxando e que aquela era apenas mais uma noite.
Mas a quem ela queria enganar?
Queria mais é que o tempo passasse rápido e ele chegasse rápido.
Tudo rápido. E assim fora seu banho. Ela não tinha saco para um
banho relaxante; esse seria apenas um banho higienizante.
O vapor tinha tomado o banheiro e ela mal via o espelho a sua frente, mal respirava
porque sentia que o vapor tinha expulsado todo o ar do lugar; mal escutava porque
a música e a gritaria no andar de baixo já estavam insanos. Enrolou-se
na toalha felpuda com estampa dos padrinhos mágicos e abriu a porta.
Levou um susto ao ver que não era mais April quem estava lá, mas
sim Chris.
- Chris! Você quer me matar de susto? – Perguntou ao vê-lo sentado
na escrivaninha mexendo no computador.
- ! – Ele deu um pulo da cadeira e ela percebeu no mesmo segundo que
ele estava com o seu humor party on: estava elétrico e sabia bem o
porquê.
Analgésicos, anti-alérgicos... Chris sugava qualquer tipo de pílula
ou comprimido que o tirasse de seu estado mental normal. Era tão hiperativo
por causa desses remédios que com o tempo, tornaram-se parte dele. Em dias
de festa, os remédios do dia a dia não faziam o efeito que ele desejava,
então ele tomava ainda mais.
Aquilo não era mais estranho ou condenável, era simplesmente o Chris
que ela conhecia e amava; e as pílulas eram parte dele.
Ele aproximou-se e a olhou com aquele olhar que ela conhecia há anos. Seu
amigo não estava mais ali. Chris colocou uma de suas mãos e sua
cintura e a outra em seu pescoço ainda úmido.
Aquele não era dia de ser estepe.
- Chris, o que você está fazendo? – Perguntou e ele a encarou
curioso. Ela nunca perguntava nada, apenas correspondia.
- Como assim? – Ele pegou e seu queixo e beijou seus lábios.
Era bom beijá-lo. Mas não! Ela não queria ele!
- Chris... – Ela falou pacientemente. – E a Angie?
O menino olhou para o outro lado, claramente desapontado. sentiu sua testa
se enrugar ao vê-lo daquele jeito.
- Ela... Ela terminou comigo, se é que nós tínhamos alguma
coisa juntos. – Ele respondeu sentando na cama e batendo as mãos
nas próprias pernas que não paravam de se mexer.
- Ah, Chris. – Ela sentou-se ao lado dele e segurou seu braço. Não
sabia o que falar.
- Não, tudo bem, de verdade. – Ele respondeu olhando para ela e piscando
mais do que o normal.
Não estava tudo bem.
- Bosta, Chris! O que você tomou?
Ele a olhou assustado, praticamente ofendido.
- Só o de sempre!
- Certeza? – Ela estava acostumada, mas sabia que aquilo era perigoso.
Ele fez que sim com a cabeça e se aproximou vagarosamente.
“Vagarosamente”: essa era uma palavra que geralmente não estava
na mesma frase que a palavra “Chris”.
Geralmente, já que quando os dois estavam juntos, apenas os dois, ele parecia
desacelerar.
sentiu a boca dele em seu pescoço e por um segundo esqueceu de .
Apenas por um segundo.
- Chris, hoje não dá. – Ela falou levantando-se e dirigindo-se
até seu guarda-roupa em busca do seu vestido. Aquilo era bom porque ela
ficava longe de Chris e de costas para ele. Não queria vê-lo daquele
jeito sem poder alegrá-lo.
- Por quê? – Ele perguntou enquanto xingava April mentalmente
por ter desarrumado a bagunça arrumada que eram suas roupas. virou-se
para responder, mas Chris mesmo respondeu. – Ah, já sei! ,
né? – Ele perguntou sem demonstrar nenhum sentimento do tipo: ciúme,
tristeza, raiva; ele parecia feliz. – Desculpa, eu tinha esquecido dele.
– Ele coçou a cabeça.
amava que ele fosse seu melhor amigo acima de tudo.
-É. – Aquilo estava humilhante. – Tem alguém nessa cidade
que não sabe que eu estou a fim do
? – Perguntou e Chris riu
escandalosamente.
Ela reparou que ele estava com aquele pavoroso scarf laranja, que ela tinha igual
preto. Preto era bom; laranja, não. Além disso, uma calça
jeans larga com Mad Rats e uma camiseta branca e lisa. O pior era que até
com o terrível scarf, ele ficava bonito.
- Acho que não, . Vocês dois estavam bem... – Ele olhou
para o teto, pensando; fazendo uma cara tipicamente Chris. – explícitos!
– Ele completou e riu balançando a cabeça envergonhada.
Ele se levantou e caminhou até ela.
- Desculpa, tá? – Ele beijou sua testa e a abraçou apertado.
retribuiu. – Às vezes eu esqueço que você não
é só minha.
Chris a soltou e saiu do quarto em silêncio, deixando o que parecia um rugido
de música e vozes entrarem.
A menina tentou tirar Chris da cabeça e se arrumou. Uma última olhada
no espelho antes de sair do quarto fez com que ela se sentisse satisfeita e confiante.
Ela sabia que dá próxima vez que passasse por aquele espelho tudo
estaria acabado. Ou melhor dizendo, começado.
Já no corredor ela encontrou alguém caído, babando no carpete.
Ainda bem que ela não encanava mais com essas coisas. Já que, alguém
já tinha derrubado algum líquido suspeito na escada, “alguéns”
estavam fazendo sabe-se lá o que no quarto dos pais dela e o andar debaixo
já estava igualzinho a uma mini balada.
Num canto da sala, Luke, um amigo deles que era dj tinha montado sua pick up,
além disso, tinha instalado luzes divertidas por toda a sala. Os móveis
já tinham sido mudados de lugar e a casa estava lotada de pessoas que ela
conhecia de vista mas não fazia idéia de quem eram.
Ela vasculhou o lugar com os olhos atrás de alguma face conhecida, bem,
uma em especial, na verdade.
Achou Chris em um dos sofás se agarrando com uma loira gostosa e já
se sentiu melhor, pelo menos não teria que se preocupar com ele; April
estava dançando no maior estilo diva, chamando todas as atenções
e arrasando ao som de algum remix de Franz Ferdinand.
Alguém a cumprimentou; ela foi direto para a cozinha atrás de bebida.
Encontrou o lugar vazio e estranhou, já que o lugar onde ficam as bebidas
nunca é vazio.
- Procurando alguma coisa? – Ouviu Tony perguntar atrás dela. De
onde ele tinha surgido, ela não sabia.
- Álcool.
Ele estava parado na porta que dava para os jardins dos fundos fumando um baseado.
- A gente levou lá para a sala para ficar mais fácil. – Ele
lhe estendeu uma garrafa quase cheia de Jack Daniels.
- Esse não é o whisky do meu pai, é, Tony? – Ela perguntou
mas já sabia que era. Ele sorriu tentando conquistá-la. –
Que porra, Tony! – Berrou antes de voltar para a sala atrás do isopor.
Tirou uma latinha de Carlsberg e deu um grande gole.
- Ele vai aparecer, não precisa ficar nervosinha. – Tony surgiu ao
seu lado. Ela o olhou meio irada, já que agora além da restauração
do vaso egípcio ela ia ter que comprar uma garrafa de Jack Daniels. Adeus,
tranqüilidade financeira. – E se ele não aparecer... –
Ele apontou para ele mesmo e ela lhe mostrou o dedo.
Não entendia como alguém podia ser tão canalha e ainda ter
amigos.
No entanto, realmente estava demorando para chegar. Ela saiu na rua e tentou
avistar a casa dele; era perto, mas nem tanto. Viu a cara irada dos vizinhos da
frente espionando-a pela janela e simplesmente lhes mandou um tchau.
Ficou lá até sua latinha acabar, obrigando-a a voltar para dentro.
Precisava de algo mais forte.
- Tony! – Ela o cutucou enquanto ele e April praticamente se comiam no sofá.
– Cadê o Jack?
Algumas pessoas pegam intimidade com o álcool.
Tony levantou apenas uma sobrancelha se achando superior.
- No armário de panelas.
voltou para a cozinha deserta e escura e pegou o que agora era uma garrafa
de Jack Daniels pela metade. Olhou para o microondas e viu as horas, já
passava das duas e aquele puto provavelmente não apareceria mais.
Virou a bebida até sentir sua garganta arder e seus olhos marejarem. Foi
para a sala com seu melhor amigo Jack com a resolução de se divertir.
The Church of Hot Addiction tocava mais alto do que tudo e ela pensava em Gabe
Saporta. Fechava os olhos e deixava que a Jack e a música a controlassem.
Ela não precisava de algum, só precisava de Jack e Gabe.
Jack acabou e seu melhor amigo mudou de nome; ele se chamava Johnny agora e ela
adorava o fato que ele continuava caminhando. E aparecia nas festas.
Começou a dançar com alguém que se esfregava nela; não
sabia quem era: podia ser Tony ou Chris ou aquele garoto de sua classe de geografia.
Ela não se importava.
April lhe entregou um baseado enquanto tocava Hushpuppies e seu corpo ficou leve,
sua alma ficou leve. Aquela felicidade incontrolável tomou conta de seu
corpo enquanto ela e seus melhores amigos dançavam e cantavam Beating Heart
Baby.
Os minutos ficavam mais longos; as horas mais curtas.
Perdeu Johnny e andou até o armário perto da porta, onde achava
que tinha outra garrafa. Ela não achou a outra garrafa, porque tinha trancado
ela no armário de seus pais algumas horas antes, mas achou outra coisa.
- ! – Ela exclamou e o abraçou. Ele estava lindo, mais lindo
do que ela se lembrava; estava de azul. Atrás dele estavam três garotos
lindos que vestiam roupas lindas. Ele a apresentou a eles, mas ela o ignorou;
o pegou pelo braço e subiu as escadas.
- , o que você está fazendo? – perguntou algumas
vezes mas ela não respondeu, não ouviu ou prestou atenção.
Abriu a porta de seu quarto e encontrou Tony e alguém que ela esperasse
ser April se comendo lá; foi para o quarto dos seus pais onde aquele mesmo
casal continuava. Estava ficando puta; era a casa dela! Ela tinha direito de usar
a casa dela, mas não, estranhos usavam a casa dela. Sua última esperança,
o quarto de hóspedes, escancarou a porta e achou uma suruba lá dentro.
Gritou alguns palavrões.
Olhou para a porta do banheiro; estava aberto; estava vazio. Não pensou
duas vezes.
Arrastou um confuso e animado lá para dentro, fechou a porta e o
beijou. O beijou como ela queria há dias; sentiu o calor de sua língua
na sua; o calor de suas mãos por todo o seu corpo e teria sentido mais
se não estivesse bêbada e drogada.
Passou a mão por de baixo de sua camiseta e tentou tirá-la; não
conseguia respirar; não queria se afastar para respirar, portanto, não
queria respirar; beijá-lo era melhor.
Puxou-o pelo colarinho até a banheira.
Quem não tem cão, caça com gato; nesse caso, cama e banheira.
O plástico duro de que a banheira era feita a machucava e ela não
se importava porque ela sentia o perfume de , ela sentia o calor de
e ela se sentia feliz. Mas ela também se sentia cansada e de uma hora para
outra, não sentiu mais nada.
Capítulo 4;
acordou com a horrível sensação de não se lembrar
de ter ido para a cama na noite anterior. Abriu os olhos devagar; estava em seu
quarto; April e se espremiam na cama com ela.
: tinha uma vaga lembrança envolvendo e o banheiro. Sorriu.
O céu estava avermelhado do lado de fora e uma luz pálida que lhe
dava sono entrava pelas janelas de vidro.
Não sabia se estava amanhecendo ou anoitecendo. Sua noção
de tempo era quem mais sofria após uma noite de festa.
Levantou-se tomando cuidado para não acordar ninguém e reparando
que estava apenas de calcinha e sutiã, assim como April, e , que
estava apenas com umas boxers verdes ou azuis. Sua capacidade de distinguir cores
também estava afetada.
Era impressionante como todos sempre acabavam seminus após as festas.
Só ao se levantar viu Tony desmaiado no chão, com a cabeça
apoiada em sua ovelhinha de pelúcia. Usando apenas boxers, é claro.
Todo o barulho da noite anterior tinha se convertido nesse silêncio que
chegava a fazer cócegas.
Um garoto dormia no corredor com a barriga para cima. Pelo o que ela se lembrava,
esse era um dos amigos de . Ela não podia confirmar nada, no entanto.
Nell estava no meio da escada, também desmaiada. Aquela cadela, coitadinha.
Nos sofás da sala estavam Chris (agarrado numa garota ruiva), o que provavelmente
eram os outros dois amigos de e mais uma garota loira.
Uma poltrona estava virada de ponta cabeça; a cristaleira, lotada de latinhas
de cerveja, assim como todas as superfícies lisas do cômodo e havia
um balde perto da janela. Tinha até medo de descobrir o que tinha lá
dentro.
Ela chegava a rir ao imaginar a reação de seus pais àquela
cena. Eles a matariam, a ressuscitariam para matá-la outras vezes e depois
e levariam para o Peru com eles e lá, ela realmente morreria, uma morte
lenta e dolorosa.
Caminhou até a cozinha com o estômago roncando; ele parecia ter vida
própria e, principalmente, boca própria.
Maldita larica.
Abriu a geladeira e tirou de lá um resto de comida chinesa de dois dias
atrás. Comeu franco ao cury gelado, já que seu cérebro parecia
ser algo não pertencente ao resto do seu corpo e não se lembrou
dessa brilhante invenção chamada microondas. Só o usou para
descobrir que passava das seis da tarde.
Levou a comida para a varanda e sentou-se nos degraus que a separavam do jardim.
Havia uma cadeira no meio do canteiro.
Tentava lembrar-se do que tinha acontecido na noite anterior enquanto saboreava
o seu cury extra spicy . Ela tinha uma pequena noção, mas queria
ter certeza. Esperava que não tivesse se humilhado. Realmente esperava.
Seu coração pulou e ela colocou a mão no peito ao ver
sentado ao seu lado. Da onde ele tinha surgido?
- ! Você está ai faz quanto tempo?
Ele sorriu dentro de sua camisa linda e ela se deu conta que ainda usava nada
mais do que sua calcinha com estampa de ovelhinhas e seu sutiã vermelho.
Ela era uma fã das ovelhas.
Sentiu-se corar e tentou se esconder com os braços da melhor maneira possível.
- Algum tempo. – Ele reparou seu constrangimento e a olhou maliciosamente
antes de tirar a própria camiseta e a própria calça.
sentia sua bochecha queimar e ela queimava mais a cada movimento dele que
ela tentava não encarar, apesar de ser impossível.
- O que você está fazendo? - Perguntou olhando para o arbustinho
seco e sem vida no lado oposto.
Ela precisava chamar um jardineiro.
- Pronto, estamos quites. –
olhou para ele que tinha um sorriso doce na face. – Você não
é mais a única seminua.
Ele era inteiro doce.
E pervertido também.
Era melhor do que ela imaginava.
A tática do menino deu certo, já que ela deixou de se incomodar
com as roupas, ou a ausência delas. Outra coisa passou a incomodá-la.
- Hum... – Não sabia por onde começar. – Noite passada...
Ele a olhava com cara de quem sabia aonde ela queria chegar, mas que gostava de
vê-la se virar para se explicar.
Sádico.
- Noite passada... – Ele fez menção para que ela continuasse.
teve que rir.
- Eu não sei bem o que aconteceu. – Admitiu.
- Eu imaginei que você não fosse se lembrar de nada mesmo.
- Não! Eu lembro de alguma coisa!
- Lembra?
Ela fez que sim com a cabeça e um sorriso malicioso surgiu em sua boca.
- Lembro de você, lembro do banheiro, lembro da banheira... – Ele
correspondia o olhar. – E não lembro de mais nada. – Riu e
abraçou as próprias pernas, olhando para as unhas vermelhas de seus
pés. Ficara tímida de uma hora para a outra.
- Bem, depois que você desmaiou na banheira... – Ele começou
a falar e ela afundou a cabeça nos braços. Estava pronta para ouvir
alguma coisa totalmente embaraçosa. – Eu te carreguei até
o quarto, que por sorte estava vazio, tirei a sua roupa... – levantou
a cabeça rapidamente e o encarou. corou. – Eu tive que tirar
a sua roupa porque tinha um resto de água na banheira e a gente tinha se
molhado um pouco. – Ela balançou a cabeça mostrando compreensão.
Mordeu os lábios. Queria tanto ter estado lúcida naquela hora. –
Só isso! – Ele levantou os braços. – Juro que não
tirei nenhum proveito de você!
- Eu não ficaria brava se você me contasse que tinha se aproveitado
um pouquinho de mim.
O álcool ainda não tinha saído totalmente de seu sistema.
Era a única explicação. Ele ia pensar que ela era uma vagabunda.
- Assim você me obriga a confessar. – Ele falou sério. –
O que eu mais queria era que você estivesse acordada. – Ele que olhava
para os próprios pés naquela hora. Ela reparou que havia estampas
de árvores de natal em suas boxers.
Ele era adorável.
Um barulho na sala chamou suas atenções e se levantou rapidamente.
- Espera aí! – Ele falou antes de sumir pela porta.
Voltou todo esbaforido segundos depois e jogou alguma coisa em ; ela reparou
que era o vestido que ela usava na noite anterior e aquela horrorosa bota vermelha
de April que mais parecia uma galocha.
- Que é isso? – Perguntou achando que o garoto tinha adquirido esquizofrenia
nos últimos trinta segundos.
- Se veste, vamos sair daqui. – Ele falou enquanto vestia suas roupas.
- Por quê?
Ele parecia um cara tão normal, mas era óbvio que era um desregulado.
- Quero você só para mim! – Ele falou docemente e ela esqueceu
que o achava um maluco. – Vamos, o pessoal está acordando!
Ela colocou o vestido e a galocha e reparou que se fosse encontrada numa esquina
ganharia o suficiente para comprar centenas de vasos da fertilidade.
Havia um motivo para ela ter colocado o vestido por cima de uma calça noite
passada.
- Eu não posso usar isso, ! – Ela falou enquanto ele a pegava
pela mão e a puxava para o corredor ao lado da casa, que os levaria até
a rua. – Eu estou parecendo a Britney Spears!
- Para isso acontecer, você teria que ser careca. – Ele respondeu
assim que eles alcançavam a rua que já estava escura.
- Mas isso é muito curto! – reclamou tentando puxar a peça
de roupa para baixo. Nem com todo o seu esforço ele chegava ao meio de
suas coxas.
- Eu não me incomodo. – O garoto respondeu encarando suas pernas.
- ! – Ela o repreendeu envergonhada.
- Desculpe, não me contive.
Ele a olhou afetuosamente e entrelaçou suas mãos.
- Para onde você está me levando? – A menina perguntou enquanto
sentia o agradável calor da mão de na sua.
- Para falar a verdade, não sei. Só estou seguindo o fluxo.
Ela se contentou com aquela resposta, já que o fluxo os levava até
o parque em frente a escola.
Seus pais sempre a proibiram de ir a parques a noite; assim como qualquer guia
turístico faria, mas
não sentiu nem um pingo de insegurança
ao entrar em um parque escuro com . Ainda havia algumas crianças
brincando com seus cães enquanto suas mães entediantes e entediadas
falavam mal do primeiro ministro ou de Victoria Beckham.
A luz que vinha da cabana de lanches na outra extremidade do jardim e dos postes
ao longo da rua do lado de fora deixava o lugar com o clima romântico e
não assustador.
Talvez fosse romântico porque ele estava com ela.
Naturalmente, como que num acordo subentendido, os dois acharam uma árvore
suficientemente grande e escondida onde apoiou suas costas e passou seus
braços pelo pescoço de ; ele segurou seus quadris e os aproximou
mais; seus lábios se tocaram levemente, apenas aguçando seu desejo
e fazendo-os aproveitar cada fração do momento; suas bocas se abriram
e suas línguas se encontraram; devagar eles foram conhecendo essa nova
faceta um do outro, que na noite anterior tinha sido apenas apresentada a eles.
Quando finalmente se cansaram, deslizaram seus corpos para o gramado fofo e deitaram-se
abraçados. O pensamento de ir além passara pela cabeça dos
dois, mas a sensação de que eles mereciam mais do que uma “rapidinha”
atrás de uma árvore os deteve.
Aquilo era especial.
sentia a grama pinicar suas pernas nuas, mas não ligava; deitou sua
cabeça no peito de e a sentia movimentar-se conforme a respiração
dele; sentia seus batimentos cardíacos num compasso perfeito e seu calor
a lembrava que ela estava viva.
- Por que a gente demorou tanto? – Ele perguntou e a menina achou engraçado
ouvir sua voz através de seu peito, mas não entendeu o que ele queria
falar.
- O quê?
- Para ficarmos juntos.
Ela riu.
- Na verdade a gente não demorou muito, foram só alguns dias.
- Quatro. – Ele completou. – Mas a gente deveria ter começado
na segunda!
- Acredite, eu queria. – Ela ergueu a cabeça e beijou seu queixo
pois não alcançava sua boca.
- Acredite, eu também queria.
fez com que suas bocas se alcançassem e os beijos se reiniciassem
conforme iam ficando cada vez mais saborosos. Ela sentiu a mão dele em
sua perna o que a encorajou a passar uma de suas mãos por debaixo de sua
camisa. Ele se arrepiou e a aproximou mais, até o ponto, que aos poucos,
os dois desaceleraram e se afastaram.
Eles mereciam mais.
Esse era outro acordo subentendido.
Ela gostava de ter coisas subentendidas; ele gostava de ter coisas subentendidas.
Tudo ficava tão mais fácil.
Capítulo 5;
O domingo passou como um domingo de verdade deve ser: algo melancólico
e preguiçoso.
Acordou tarde com alguma música do Bloc Party tocando alto no andar de
baixo. Por milagre, seu quarto estava vazio. Toda vez que o pessoal passava
a noite lá alguém amanhecia em sua cama ou então no chão,
bêbados demais para chegar em casa. Apesar de já passar do meio
dia, o ambiente estava escuro porque ela tinha se lembrado de fechar as cortinas
na noite anterior.
Espreguiçou-se e sentiu-se satisfeita. Tinha conseguido o que queria
e agora só lhe restava esperar as conseqüências, que ela tinha
certeza, iria gostar.
Vestiu suas boxers de margaridas e uma camiseta do Nine Inch Nails que costumava
ser de Chris.
Desceu as escadas apenas um pouco desapontada por saber que não veria
naquele dia e teria que esperar a eternidade de algumas horas até
as aulas da manhã seguinte.
Ele tinha que ensaiar com a banda e era algo aparentemente inadiável.
- So fucking useless! – Chris, Tony e April cantavam se achando o próprio
Kele Okereke.
Tony e Chris brincavam de air guitar enquanto April fazia coreografias hilárias
com uma vassoura. Eles estavam limpando toda a bagunça restante da festa
e tinha que reconhecer que sua sala estava habitável e ela não
tinha movido uma palha.
- Play it cool, boy. – Cantaram os quatro juntos enquanto a música
terminava.
- Bom dia, . – Chris falou beijando sua testa.
April e Tony estavam ocupados demais dançando Banquet e apenas acenaram
para ela.
- Nossa, vocês já limparam praticamente tudo! – Ela exclamou
com vontade de apertá-los como filhotes. – Obrigada.
- Que isso, ... – Chris respondeu carregando baldes, vassouras e rodos
para a lavanderia. Ela o seguiu, mas parou na cozinha onde pegou um pacote de
cookies de chocolate para comer. – Olha o seu sorriso! – Chris observou
voltando à cozinha. Ela apenas conseguiu sorrir mais, agora com a boca
toda suja de cookies. – O que a gente vai fazer hoje?
- Nem sei, o que você quer fazer?
– Nada, preciso descansar. – Ele respondeu sentando-se na cadeira
da mesa.
- Muita ação na festa, né? – perguntou durante
o seu quinto cookie.
Chris fez uma cara pervertida e riu.
- Pode se dizer que sim.
- Você é um promíscuo, Chris. – lembrou-se das
diversas garotas diferentes com quem tinha visto Chris na noite anterior.
- Eu sei, eu sou a vagabunda do grupo. – Ele fez uma cara de Paris Hilton.
- Não, esse é o Tony.
- Hum, tem razão.
Alguém bateu à porta e viu Tony abri-la e receber quatro caixas
de pizza.
- Vocês pediram pizza? – Ela perguntou surpresa largando os cookies
na cozinha e indo até a comida.
- Não, é o jornal. – Tony respondeu ironicamente colocando
as caixas em cima da mesa de centro.
- Vai à merda, Tony. – Ela o ignorou abrindo a caixa de pizza que
cabia a ela e a April. Os meninos comiam uma pizza e meia cada, elas juntas
comiam uma. – Se eu soubesse eu não teria me afogado em cookies.
- Ignora ele. – April virou os olhos.
- Pode deixar.
- Vamos jogar poker! – Chris apareceu com seu baralho e suas fichinhas
e antes mesmo de terminada as pizzas, eles já estavam naquele prazer
culposo que era o jogo.
Isso quase fez se esquecer que preferia estar em outro lugar, com outra
pessoa. Odiava ser esse tipo de garota que perde a cabeça e troca os
amigos por um cara.
Tony só blefava. Blefava tanto ao ponto de você sempre saber quando
ele tinha um jogo e conseguir quebrar suas pernas parando de apostar; Chris não
tinha paciência para o blefe e às vezes, não tinha paciência
nem para esperar virar as cartas antes de sair do jogo, perambulava pela sala
mudando a música conforme seu humor; April e
eram as únicas que jogavam como pessoas normais e por isso estavam sempre
ganhando dos garotos, coisa que nenhum deles parecia reconhecer.
As horas voam quando se está jogando e no que pareceu minutos para a
, o céu do lado de fora ficou escuro e as luzes dos carros passaram
a ser vistas. Ela finalmente tinha se distraído e mantido sua cabeça
naquele cômodo e não na casa a alguns metros de distância.
Mas queria que o dia seguinte chegasse logo; queria ir para a escola!
Aquilo era novo.
- Onde está o , ? – Tony perguntou enquanto esperava
que um 7 aparecesse na mesa.
Nem que ela quisesse poderia não pensar nele.
- Cala a boca, Tony! Você está matando o espírito do jogo!
– levava o jogo meio a sério.
Chris era o dealer e depois que todos apostaram, virou a última carta
da mesa. Não era um 7.
praguejou mentalmente.
Ela blefou e apostou alto; cinco fichas valendo cem. Tony e Chris arregalaram
os olhos; April que já estava fora do jogo olhou para suas cartas.
- Pára de matar o espírito do jogo! – Gritou brava com a
curiosidade da amiga. – Então, vocês vão apostar ou
vão ser esses maricas que vocês são? – Ela os olhou
desafiadoramente.
- Eu vou ser marica! – Chris respondeu largando suas cartas na mesa.
Tony estava mal humorado, já que como era o pior jogador, não
tinha fichas o suficiente.
- Ui acho que eu ganhei! – Ela comemorou se esforçando para irritar
Tony. Mostrou suas cartas na mesa, quase foi agredida e depois puxou todas aquelas
fichas. - Eu sou tão rica!
Tony se levantou e trouxe uma garrafa daquele vinho rosa australiano que eles
andavam tão viciados ultimamente.
- Ele tinha que ensaiar com a banda. – Ela finalmente respondeu à
pergunta de Tony.
- De domingo? – April perguntou enquanto Chris se concentrava com o abridor
e a rolha.
- É. - A quem ela queria enganar? Ela queria ver ele, ela queria estar
com ele. – Acho que é porque eles não ensaiaram nada ontem.
Banda idiota. Ela pensava e depois se arrependia por estar parecendo uma garotinha
controladora e carente.
- Os amigos dele só faltaram beber álcool de limpeza. –
Tony comentou.
- Eles eram tão bonitos. – April falou apenas para , mas fez
os dois garotos fazerem cara de nojo.
- Eram, né? – concordou com a amiga. Mal se recordava dos meninos
na sexta feira, mas na dia anterior, os “reapresentou” depois
que os dois voltaram de seu pequeno passeio. Cada um tinha o seu jeitinho especial
para conquistar a simpatia das pessoas: Tom era o doce; o brincalhão
e o naturalmente charmoso. – Eles vão ser o tipo de banda
que atrai groupies.
- Não sei porquê vocês falam tanto deles. – Tony falou
enciumado. As duas meninas riram. – Vocês tem eu e o Chris aqui.
– Ele deu fortes tapas nas costas do amigo. – Nós somos bem
mais bonitos que eles.
- Mais legais também. – Chris completou.
Eles meio que tinham razão, já que eram tão insanamente
bonitos quanto os outros e elas os amavam porque eram seus amigos/namorados
há anos. Elas não deixariam eles saberem disso, no entanto.
- Bem, April, eu já peguei um McFly. – falou a amiga. –
Ainda tem três para você escolher e eu escolheria o .
- Strippoker! - Tony arrumou um jeito de mudar de assunto, já que ele
podia dormir com a cidade toda e April não.
Os olhos de Chris brilharam.
- Nem fodendo, Tony. – April respondeu.
- Eu topo! – concordou animada.
- Ficou maluca, ? – April perguntou indignada enquanto se levantava
e entrava no lavabo, provavelmente tendo uma de suas crises em que ela fica
de saco cheio de tudo.
- Topa mesmo, ? – Tony perguntou já embaralhando as cartas.
- Topo.
- Sem a April nem tem graça! – Chris falou mais para si mesmo e
recebeu um olhar perverso de Tony. – Ah! Você não me interessa
e a eu já conheço! – Ele se explicou.
- Todo mundo aqui se conhece, Chris, a gente está sempre acordando juntos
usando só roupa de baixo. – Tony apontou algo que era verdade,
mas que pela boca dele soou terrivelmente gay.
riu e deu um longo gole no vinho rosa e docinho.
Como sempre, os garotos esqueceram o quanto jogavam mal e em quinze minutos,
April já estava tirando fotos de um Chris e um Tony desanimados e mal
humorados trajando apenas boxers.
Certo, Chris nunca estava desanimado.
Quanto a
, estava tentando vestir as calças largas dos dois garotos ao mesmo tempo.
Ela conseguiria morar ali dentro e já estava vestindo a camiseta de Chris
e a blusa polo de Tony.
- Vocês são muito trouxas! - Ela os provocava. – Sempre perdem
e ainda insistem em jogar strippoker!
- Foi só sorte, ! – Chris falou de dentro de suas boxers azuis
clarinhas.
- Sorte, sei. – Ela virou os olhos metida demais com a sua vitória.
Não que tivesse sido algo muito memorável já que os outros
dois eram realmente péssimos jogadores. – Não é hoje
que você tira a minha roupa, Tony. – Ela provocou o amigo.
Seu passatempo favorito era provocá-lo. Ela achava extremamente divertido.
The Enemy começou a tocar muito alto quando alguém bateu na porta.
Com esforço, se locomoveu até a porta arrastando todo aquele
guarda roupa com ela e quase perdeu tudo quando deu um saltinho ridículo
ao ver pelo vidro ao lado da porta.
- Hei! – Ele falou ao vê-la e encarou suas roupas. – O que
você está fazendo? – Perguntou fazendo uma carinha curiosa
e com medo de que a garota que ele estava beijando tivesse problemas com bebida.
- Strippoker! – Ela o abraçou e sentiu as pernas amolecerem com
seu perfume.
- Você não sabe o quanto me faz feliz não ver o Tony usando
suas roupas! – falou rindo e a fez rir também.
fechou a porta atrás de si e se juntou a do lado de fora da
casa, sem ligar que os transeuntes encaravam a garota vestida como uma palhaça.
Provavelmente tivera uma infância problemática, eles pensariam.
- Achei que não fosse te ver hoje. – Ela falou sentando-se em um
dos degraus de entrada
- Eu também. – completou sentando-se ao seu lado e pegando
em sua mão. – Mas eu não agüentei! – Ele falou
timidamente.
- Eu também não estava agüentando. – Brincou com os
dedos dele. – Ainda bem que eu tinha esses idiotas... – Apontou
o lado de dentro, da onde saía um som alto de guitarras, com a cabeça.
- para me distrair.
Ela estava a ponto de desmaiar de felicidade por ele estar ali, por ele ter sentido
a sua falta, por ele ser tão perfeito.
beijou sua cabeça e a aproximou para um beijo que era tão bom como
ela se lembrava e como ela tinha imaginado durante todo o dia. Era como se todas
as complicadas variantes do mundo se reduzissem a apenas ela e ele; aos seus corpos
e àquele sentimento novo que sentiam e fazia cócegas em suas barrigas.
- O que você fez hoje? – perguntou assim que os dois se separaram.
- Dormi e joguei poker. – Ela respondeu enquanto sentia as mãos
de passarem pelas pontas de seu cabelo. Ele parecia se divertir brincando
com elas.
- Dia produtivo!
- Demais! – arrumou um jeito de deitar sua cabeça no colo dele.
– Como foi o ensaio?
- Foi bom! A gente conseguiu escrever uma música nova. – Ele brincava
de passar os dedos levemente pelo rosto dela agora.
fechou os olhos.
- Como chama a música?
- I Wanna Hold You.
- E fala sobre o quê? – Ela sentia-se calma, relaxada e protegida
de uma hora para a outra. Podia cair no sono mesmo.
- Sobre um cara que faria qualquer coisa pela garota e que, mais do que tudo,
precisa abraçá-la.
- Me parece um bom tema para uma música. – Ela comentou e abriu
os olhos encontrando um que a encarava como se quisesse entrar dentro
de seus pensamentos. Ela sentiu seu coração acelerar.
- O que foi?
- Nada, só estou pensando como é bom finalmente poder te abraçar.
Antes que pudesse responder qualquer coisa, a porta se abriu fazendo um
estardalhaço assim como os três que saíam por ela. Ela e
se levantaram.
- , a gente precisa da nossa roupa! – Chris falou sem embaraço
algum por estar de boxers na rua, sendo seguido por April e Tony. – Oi,
!
- Ah, claro. – Ela respondeu ainda abalada.
Não sabia se tinha entendido certo, mas talvez tivesse escrito
uma música para ela.
tirou as roupas dos meninos e lhes entregou, voltando as suas boxers e
a camiseta Nine Inch Nails.
- A gente já vai, . – April falou agarrando-se ao seu pescoço.
– Oi , tchau, ! – April deu dois beijinhos nas bochechas
de enquanto Tony e Chris se vestiam.
Tony beijou a amiga na bochecha e falou no pé de seu ouvido:
- Na próxima vez, você vai tirar a roupa.
- Aprende a jogar então, Tony! - Ela mostrou a língua.
Ele sorriu sinceramente. Era nessas horas que se lembrava de que Tony não
era apenas um ser frio e canalha; era também seu amigo e um cara como
qualquer outro.
Os três se despediram e se afastaram falando muito alto. Se algum dia
você quiser encontrá-los é só seguir o barulho.
- Hum... – murmurou. – Acho que eu também vou.
- Hum... Tudo bem. – Algo a mandava convidá-lo para entrar e algo
que ela odiava a mandava se despedir.
acariciou sua testa e ela afundou-se em seu peito, sentindo o garoto
abraçá-la, sentindo que faria qualquer coisa por ele, que derreteria
as calotas polares e as assistiria inundar o mundo por ele.
Beijaram-se sem vontade alguma de se despedir; era como uma bomba de nêutrons
explodindo.
Ele deu um último selinho na menina e afastou-se, andando de costas e
ainda a encarando.
- Você é uma perfect drug, sabia? – Ele falou com um sorriso
charmoso, deixando-a confusa. Ela só entendeu quando antes de se virar,
apontou para sua camiseta.
É claro, Perfect Drug do Nine Inch Nails.
“My blood wants to say hello to you
My feelings want to get inside of you
My soul is so afraid to realize
Every little word is a lack of me
And I want you...”
Ela não podia deixar de ter um pensamento similar; ele era a droga perfeita.
Capítulo 6;