Beating Heart Baby
Ali


Capítulo 1;

Algo novo tinha acontecido naquela manhã.
Não havia sido seu despertador que, como todos os dias, tocou as 8:15 da manhã com alguma música brega da radio 1.
Também não havia sido seu café da manhã, que como todos os dias, tinha sido composto por torradas com geléia de damasco e leite.
Também não tinha sido suas roupas. Não eram nem novas nem velhas, eram apenas as suas roupas.
Também não tinha sido a caminhada de quinze minutos até a escola que ela realizava em vinte e cinco por ser devagar pelas manhãs.
Por fim, não tinha sido sua escola, que continuava aquela mesma prisão imensa e cheia de presidiários barulhentos.
No entanto, a novidade estava na sala de aula.
Ela não prestou atenção à aula de matemática (não que ela geralmente prestasse). Havia algo novo para se prestar atenção. Algo mais interessante.
Do outro lado da sala estava sentado esse aluno novo que vestia calças largas e pólo listrada de azul escuro e branco.
Tão igual a todos e tão diferente de todos.
A classe fingia ignorar a presença da novidade, mas ela sentia no ar a curiosidade da turma, inclusive dela mesma.
Ela não entendia o porquê de todo aquele interesse que ela sentia.
Ele era novidade? Sim.
Ele era bonito? Sim, em excesso.
Ele sabia como pentear um cabelo? Sim.
Ele sabia como se vestir? Também.
Mas assim como ele, vários outros também sabiam.
Seus olhos não saíam daquele garoto calado e deslocado, que ainda nem tinha notado sua existência porque ainda estava assustado demais com tantas novidades.
O sinal tocou. Ela tirou o lápis da boca, o olhar malicioso do rosto e a mochila do chão.
Torceu para que ela e o cara novo tivessem a mesma aula do próximo período e saiu da sala perseguindo ele com o olhar no meio daquele formigueiro que se formava no corredor.
Ouviu seu nome e virou-se automaticamente, perdendo sua mais nova distração de vista.
- ! – Ela ouviu um Chris gritar enquanto acenava com os braços a poucos metros dela.
Chris: ex-namorado; eterno rolo; a pessoa que ela mais amava no mundo; a pessoa que mais a amava no mundo; seu melhor amigo. E sim, alguém mais bonito que o resto do mundo.
Ele era pouco mais alto que ela; forte e encorpado no ponto certo; cabelo castanho claro e curto; olhos azuis e um casaco Zoo York preto.
- Chris! – Ela acenou e andou contra o fluxo de ferozes alunos até o garoto.
Cumprimentaram-se.
Chris sorria mais do que o normal. Seus olhos claros brilhavam mais que o normal. Sua hiperatividade estava mais hiperativa que o normal.
Ela sorriu. Sabia o que ele tinha conseguido.
- É o que eu estou pensando? – perguntou já sorrindo também. Ele apenas sorriu com mais força e balançou a cabeça. – Ah! – Ela exclamou antes de pular no colo de Chris para um abraço de comemoração.
Chris tinha uma obsessão há algumas semanas: dormir com a professora de psicologia, Angie.
ainda não sabia se o que ele sentia pela professora era algo sério ou apenas mais uma vontade; o que sabia era que estava feliz por ele.
- Depois você vai ter que me contar tudo! – Ela falou antes de soltá-lo e de ser levada pela maré de blusões da Gap até a sala de aula de psicologia.
Chris não precisaria contar nada a ela.
Angie, a tão desejada professora de psicologia, estava sentada em sua mesa com um sorriso que rasgava sua face, mas lhe caía super bem. Ela até parecia mais bonita. Não que não fosse. Ela era o membro mais novo do quadro de funcionários da escola e era facilmente confundida por uma aluna com franja e cabelos castanho claros, olhos azuis e meio esbugalhados.
Chris era bonito demais para ela, mas não sabia se quem pensava isso era uma totalmente neutra ou uma ex-namorada e melhor amiga do cara em questão.
Ela quase se esquecera do aluno novo. Só lembrou-se dele ao notar sua ausência.
Eles não teriam aula de psicologia juntos.
Na verdade, eles também não teriam história ou inglês juntos, já que ela passou o resto da manhã sem vê-lo.
O sinal da última aula antes do almoço soou, saiu da sala e a primeira coisa que viu, foi o garoto novo. Seu armário era em frente à sala de inglês.
Que sorte a dela.
Caminhou até ele, tomando cuidado para que ele não a visse e recostou-se no armário ao lado do dele, fazendo com que a porta aberta escondesse seu rosto.
- Oi, menino novo! – Ela falou assim que ele fechou a porta com força. Ele se assustou.
- Oi, menina velha! – Ele falou depois de recuperado e incerto sobre sua reação.
Ambos sorriram. Ele grato por ter recebido a atenção de alguém naquele ambiente inóspito que é uma escola; ela grata por ele não ter se assustado com sua ousadia e cara de pau.
- Queria te chamar para almoçar comigo e com os meus amigos... – Ele a analisava, mas ela sabia que estava bem, não havia com o que se preocupar, já que seu cabelo estava preso por um rabo de cavalo, os cílios estavam espessos pelo rímel Bourjois e o corpo estava em seu peso ideal graças as aulas de pilates que sua mãe a tinha obrigado a fazer. – Juro que nós não mordemos. – Ela completou.
Seus olhos os deixavam tontos; o movimento e o barulho excessivo ao redor os deixavam tontos. Eles se causavam tontura.
Ela gostava daquilo.
- Só se você prometer que vocês não mordem mesmo. – Ele falou encostado no armário, com apenas uma das sobrancelhas levantadas. Delicioso, na opinião de .
Depois de o assegurar que ninguém o morderia, os dois caminharam lado a lado pelo corredor até o refeitório do colégio.
- Meu nome é , aliás. – Ela falou e lhe ofereceu a mão.
- . – Ela a apertou e sentiu seu corpo todo aquecer, formigar, aquecer, formigar...
- O que você veio fazer aqui nesse fim de mundo chamado Coventry High? – Ela perguntou ironizando o fato de seu colégio estar na zona mais movimentada da cidade.
- Eu acabei de me mudar para Londres, sou de Bristol. Vim para cá para tentar alguma coisa com a minha banda.
Logo ela se deu conta de que estava lidando com o que ela gostava de chamar de “pacote completo”: bonito, talentoso, bem humorado e doce.
- Vocês estão morando juntos? – Ele fez que sim com a cabeça. – Só meninos? – Repetiu o movimento e ela imaginou o pardieiro que não devia ser a casa deles. Sua cabeça fez um movimento reprovador automático e soltou uma risada.
- Não é tão ruim quanto você imagina...
- Duvido!
Ele arregalou os olhos.
- É, na verdade é tão ruim quanto você imagina, se não for pior. – Ele sorriu colocando as mãos no bolso. – Mas é divertido e não tem pai nem mãe por perto então a gente pode fazer basicamente tudo.
Ó o rock and roll lyfestyle.
- O que você toca? – tinha uma certa fascinação pelo mundo da música, apesar de ser apenas uma fã e não saber nem como tocar caixinha de fósforos.
- . – respondeu com os olhos brilhando. Ele levava aquilo a sério. Ela achava aquilo fascinante.
- Legal. E onde está o resto da sua banda? – Ela perguntou observando como ele andava com as mãos no bolso e olhava para tudo curioso. Só não mais curioso do que ela, que estava praticamente interrogando o garoto novo. – Você é a única pessoa nova que eu vi aqui hoje. – completou.
Ele deu uma risada.
- Devem estar dormindo ainda, eles já terminaram a escola e só se focam na música agora.
Ela deu uma risada.
- Ou seja, festa todos os dias? – Ela perguntou e ele confirmou com a cabeça com uma cara infeliz de quem queria se dedicar apenas a música também.
Quem poderia culpá-lo?
É o rock and roll lifestyle.
O refeitório parecia mais o local de refeições de um hospício do que de um centro de ensino, mas ela já estava acostumada com aquilo. O cheiro enjoativo de milhares de salsichas enlatadas parecia mais forte do que tudo.
Na ponta esquerda do salão ela avistou a mesa onde ela comia desde sempre. Seus amigos já estavam lá, discutindo qualquer coisa super importante como em qual casa eles se reuniriam para ficarem bêbados até a morte no próximo final de semana.
Ela se sentou em seu lugar habitual, em frente a Tony e April; ao lado de Chris. sentou-se ao seu lado.
- Todo mundo... – Ela falou com o olhar curioso de seus amigos sobre ela e sobre o “intruso”. – Esse é o , ele é novo. – Ela respirou e sorriu. – , esses são Chris, April e Tony!
April: melhor amiga de desde as fraldas; cabelos escuros e cacheados que só deixavam seus olhos mais azuis. Ela sorriu encantadora como sempre para .
tinha uma pequena preocupação de se interessar mais em sua amiga pacote completo versão feminina do que nela.
Mas Tony era o namorado de April. Não que isso fizesse muita diferença para ele que já tinha dormido com metade da escola. Sua namorada estava apaixonada demais para se importar. Ele era o “alpha dog” daquele lugar. Todos queriam ser ele, todos queriam estar com ele e festa só era festa se ele estava lá. O tipo de cara que sempre se dá bem, independente do que tenta fazer. Era convencido, egoísta e egocêntrico. Não prestava, mas era seu amigo.
Ele olhou para de cima a baixo, estudando o quanto esse novo cara poderia prejudicá-lo em sua posição no grupo. Tony julgou-o inofensivo ou então foi com a sua cara, já que seus olhos azuis gelados pareceram quase simpáticos quando sua boca pequena e naturalmente avermelhada falou algo como “ E ai, cara?” antes que ele passasse a mão pelo seu cabelo fino e preto.
A união da hiperatividade, da felicidade e da simpatia de Chris fizeram com que ele começasse a falar sem parar com , deixando uma até meio zonza no meio de tudo aquilo. Eles falavam sobre o Guiness Book ou qualquer coisa parecida.
O almoço passou rápido como uma canção do início da carreira do Green Day, e mesmo assim, conseguiu se entrosar com aquelas quatro pessoas que já estavam entrosadas há anos.
estava feliz; sua companhia era agradável; ele era um presentinho aos olhos e tudo o que ela queria era saber tudo sobre ele. Mas achava melhor ir com calma para ele não achá-la uma patética desesperada.
- Que aula você tem agora, ? – Tony perguntou a ele e olhou para seu amigo já sabendo o que ele pretendia.
tirou um papel de seu bolso e conferiu seu horário.
- Cálculo...Falando nisso, alguém sabe aonde é a sala de cálculo?
- Também tenho cálculo agora, eu te levo lá. – April falou levantando-se da cadeira.
- Shiu, April! – Tony falou com toda a sua sutileza. – Escuta, , as vezes a gente vai para o último andar da escola para relaxar depois do almoço... – Tony tinha uma característica própria que achava o máximo: ele falava com os olhos. E seus olhos falavam a : “Foda-se a aula.”
April virou os olhos; e um brilho passou pelos de .
- Acho melhor não. – Ele respondeu sem aquele brilho cheio de adrenalina de antes. – É meu primeiro dia e eu vou tentar causar uma boa impressão.
sorriu e só parou de sorrir quando pensou no quanto idiota ele deveria estar parecendo. Durante toda a sua vida ela conviveu com pessoas irresponsáveis e foi irresponsável. A preocupação de fez com que ela se encantasse mais ainda com ele.
Tony o olhou com seu característico olhar de descaso. Ele provavelmente nem fazia mais de propósito, era automático.
- Beleza. – Falou. – Mas se mudar de idéia é só subir todas as escadas de incêndio. – Ele completou.
Os cinco saíram do refeitório e sentiu alguém tocar seu braço. Era e ela sorriu.
- Queria te agradecer. – Ele falou com seu olhar angelical.
- Agradecer o quê? – perguntou já no corredor. Estava vazio, a não ser por eles; todos já estavam em suas salas.
- Por ter sido a primeira pessoa a ter sido legal comigo!
Antes que ela pudesse pensar em qualquer resposta que não fosse um simples “de nada”, sumiu corredor acima com April e Tony a puxou em direção as escadas de incêndio.
- Tony! – Ela exclamou tentando acompanhar o ritmo acelerado que o amigo subia as escadas. – Quem disse que eu queria cabular aula?
- Seu histórico. – Ele respondeu empurrando as pesadas portas e fazendo a claridade machucar seus olhos. – Você sempre cabula aula.
Ela só pode rir e pensar que aula de biologia não era tão importante assim e que não faria mal nenhum dar uma relaxada antes da próxima aula.
e Tony sentaram-se apoiados na caixa d’água. Ele apoiou a cabeça em seu ombro e ela passou a mão por seus cabelos como se ele fosse um garotinho de 3 anos. Olhou para o céu; claro e nublado ao mesmo tempo. Fechou os olhos e só os abriu ao ouvir a voz de Tony.
- Você gosta do cara novo.
- Está tão na cara assim? – Perguntou um pouco envergonhada e fez uma careta.
- Está. – Ele se acomodou de forma que conseguisse olhar em seus olhos.
- Bosta.
- Torce para ele não ter ficado a fim da April. – Ele falou apenas para atormentá-la e conseguiu. Sabia que April era uma espécie de utopia real para os homens. Se é que aquilo existia.
- Vai se foder, Tony! Você é o cara mais perturbado que eu já conheci! Você está falando da sua namorada...
Ele apenas sorriu e mexeu as sobrancelhas como quem fala: “Sou perturbado, mas o mundo me ama.”
- O fato dela ser minha namorada não muda nada. – Ele falou e colocou a mão no pescoço de , acariciando-o e olhando para ela como se ela fosse um apetitoso bolo de chocolate.
Tony era incorrigível e se perguntava porquê era amiga dele. Aquela não era a primeira vez que ele tentava ficar com uma das suas melhores amigas, que por um acaso, também era a melhor amiga de sua namorada.
Nada que causaria muitos problemas, como se pode notar.
Ela colocou a mão na perna dele e se aproximou o bastante para que ele fechasse os olhos e ouvisse:
- Você não presta, Tony.
Ela adorava ser uma das únicas pessoas que não fazia exatamente o que Tony queria. Quem sabe aquilo levaria um pouco de realidade a sua vida onde todos o idolatram.
levantou-se e andou até o esconderijo: uma velha caixa de papelão onde eles mantinham cigarros, bebidas e qualquer coisa que pudesse ser útil naquele telhado. Nada lícito, é claro.
- Você ainda vai mudar de idéia, ! – Ouviu Tony falar enquanto tirava cigarros, isqueiro e uma garrafa de whisky barato pela metade da caixa.
Sentou-se novamente ao lado do amigo e lhe entregou a garrafa enquanto lutava para que o isqueiro vagabundo acendesse o cigarro.
- Por quê o Chris não veio? – Ela perguntou assim que conseguiu sua primeira tragada.
- Tinha aula de psicologia. – Tony falou da maneira mais pervertida que alguém poderia falar uma palavra comprida como “psicologia”.
Os dois riram e ele passou a garrafa para ela.
O líquido ardia enquanto passava por sua garganta e ela sentiu-se tonta na mesma hora. Whisky era forte demais para ela. E ela sabia disso desde sempre.
Tony riu da cara dela, que tomou outro gole que pareceu menos forte do que o primeiro e deitou sua cabeça no colo dele. Tony pegou o cigarro de sua mão e ela fechou os olhos, protegendo-os da claridade que os atingia diretamente agora.
- Por que você faz isso, Tony? – Ela perguntou a pergunta que já havia sido perguntada tantas outras vezes.
- O que, ?
Ele lhe devolveu o cigarro.
- Trair tanto a April.
Silêncio. Ouviu ele virar um generoso gole.
- Não sei.
A mesma resposta de sempre.
E ela sabia que ele não estava mentindo, era, simplesmente, quem ele era.
- Você ama ela? – Ela insistiu, ou melhor dizendo, a pequena concentração de whisky em seu sangue insistiu.
Para a sorte de Tony, os dois ouviram o sinal. Um barulho que mesmo longe ainda soava extremamente irritante.
Levantaram-se e guardaram as coisas no esconderijo. Seus olhares se cruzaram e teve a impressão de ter visto uma certa culpa nos olhos geralmente frios de Tony.
Provavelmente era impressão.
Ela achou melhor não insistir naquele assunto, afinal, não era da conta dela.
Se nem a chifrada em pessoa se importava, por que ela deveria se importar?
- Esquece, não é da minha conta. – Falou quando eles entravam na escada.
Tony deu um sorriso grato que não combinava com ele e os dois chegaram no último lance de escadas, quando ouviram barulhos um tanto quanto estranhos.
Tony deu uma gargalhada e viu uma professora de psicologia entre a porta da escada e Chris. Os dois pareciam insaciáveis. Ela riu também, mas sua risada os delatou. O casal se separou rapidamente e uma Angie saiu de lá batendo a porta desconcertada.
- Desculpa, Chris! – Ela falou ainda rindo. A imagem de Chris e uma professora era hilária na opinião dela.
Ele apenas sorriu e saiu correndo, provavelmente para avisar Angie que ela não corria riscos de ser delatada por ou Anthony Hoult.

Capítulo 2;

Sua última aula do dia, francês, passou voando graças a parcial falta de sobriedade de . Ela sabia que a professora falava qualquer coisa sobre o subjuntivo e ela quase tentou prestar atenção, mas chegou a conclusão que já sabia o essencial em francês: os palavrões.
Não há melhor língua para se praguejar do que o francês.
Ela ainda pensava em quando juntou suas coisa em sua mochila e saiu pelo corredor. Ela queria vê-lo de novo, ela queria falar com ele de novo, ela queria estar perto dele de novo.
Balançou a própria cabeça, preocupada com rumo que as coisas estavam tomando quando ouviu seu nome.
- Oi, ! – Ela falou parada em frente a porta da sala e obstruindo a passagem da manada. – Como foram as sua últimas aulas? – Perguntou sendo cuspida da onde estava.
- Chatas. E as suas? – Perguntou enquanto andavam até a porta rumo àquele curto período de liberdade que só duraria até as 9 horas da manhã seguinte.
- Biologia foi muito proveitoso.
Ele riu; ela gostou de vê-lo rir. Era algo novo para ela.
- O que vocês ficaram fazendo lá em cima?
O céu agora estava ridiculamente azul e o calor a fazia lembrar-se da viagem que fizera à Florida. estreitou seus olhos devido a claridade e reparou como eles ficavam mais claros e mais brilhantes no sol.
- Só conversando. – Ela achou que não pegaria bem informá-lo sobre o whisky vagabundo. Ele mal a conhecia; pensaria que era uma alcoólatra porra loca. Ela era apenas alternativa e amava eufemismo. – Você devia aparecer lá qualquer hora.
- Eu vou sim. – Ele respondeu e ela teve aquela sensação deliciosamente desesperadora de que ele não tirava os olhos dela. Ela só não podia cair. Com sua sorte ela cairia, ela sempre se metia nas situações mais embaraçosas nos momentos menos oportunos. – Aonde nós estamos indo? – Ele perguntou ainda com aquele olhar e teve a impressão que poderia levá-lo para onde quisesse.
Um sorriso malicioso surgiu em seus lábios e ela agradeceu por estar mais interessado em sua bunda naquela hora.
- Para o parque aqui em frente. – Ela respondeu parando na faixa de pedestres e esperando que um batalhão de táxis e carrinhos amalucados passassem. – Nós sempre vamos para lá depois da aula.
Aquilo não era exatamente um parque; era mais um jardim. Ninguém sabia se tinha nome ou não; só sabiam que ali ficava uma estátua de alguém que morreu na Segunda Guerra Mundial; por isso, simplesmente chamavam o lugar de “o parque em frente a escola”.
- Ah tá. – Talvez ela estivesse sentindo um certo desapontamento em sua voz. Ele era tímido e apressado ao mesmo tempo. precisava de mais tempo para entendê-lo bem; para ter certeza de onde estava pisando. Ainda estava cedo demais.
Entrar em um parque num dia quente como aquele era uma sensação única. A temperatura baixava vários graus, tornando-se algo suportável para o DNA britânico e o excesso de vegetação trazia sombra para todos, ainda permitindo que você visse o bonito céu claro.
Os dois suspiraram ao mesmo tempo e avistaram Chris, Tony e April sentados no meio do gramado verde.
- Estávamos nos perguntando onde vocês tinham se metido. – Tony falou maliciosamente ao vê-los se aproximar.
o olhou com o melhor olhar “cala a boca, seu puto” que ela pode arrumar e todos deram risinhos disfarçados.
- Acabou de tocar o sinal, queria que eu viesse correndo, Tony? – Ela perguntou antes de se jogar no chão. Sentiu-se exausta de uma hora para a outra.
sentou-se ao seu lado.
- É claro, eu sinto sua falta.
- Você é cheio de merda, Tony. – Chris tirou as palavras da boca de .
- Obrigada, Chris.
Ele balançou a cabeça e ela viu aquele sorriso satisfeito dele. Por que será?
Tony virou os olhos e acendeu um cigarro.
- Estava falando com o , não com você, , muito menos com você, Chris. – Ele os olhou com raiva e foi correspondido, até que os três caíram na risada, contagiando também e April.
- Apesar de não parecer, nós nos damos muito bem, viu, ? – achou melhor fazer aquele comentário tosco só para o cara não achar ela e seus amigos totais retardados.
- Eu estou vendo. – Ele respondeu olhando para eles como se eles fossem algum tipo de malucos hilários.
Eles podiam ser malucos, mas na maior parte do tempo eram apenas mais quatro adolescentes tentando sobreviver ao colegial.
Não há nada de hilário em sobreviver ao colegial.
April, Tony e engataram qualquer conversa sobre qualquer coisa que não ouvia, já que Chris contava a ela sobre Angie. Ele estava nas nuvens por ter comido uma professora.
Isso que ela chamava de objetivo de vida.
Isso que dá ser a melhor amiga do seu ex.
- Ela ficou muito nervosa depois que a gente apareceu? – perguntou prestando plena atenção em Chris, a não ser pelas olhadas de canto de olho em , pelas vezes que tentou ouvir sobre o que ele conversava e pelas vezes que imaginou se ele era do tipo que preferia gato ou cachorro.
Chris deu uma gargalhada.
- Nervosa? – Ele levantou as sobrancelhas adoravelmente. – “O que nós vamos fazer em relação a e ao Anthony, Chris?” – Ele a imitou e quase pode visualizar a cena. Riu. – Tive que levar ela para o almoxarifado. – Ele fez uma cara pervertida tão profissional quanto a de Tony.
- Chris! – exclamou pois se lembrava muito bem porque o almocharifado era o lugar favorito do Chris em toda a escola. Experiência própria. – Você anda impossível!
- Não sei. – Ele respondeu abraçando as próprias pernas e fazendo cara de culpado.
- Você está gostando mesmo dela, né?
Chris não respondeu; apenas virou sua atenção para April.
- Na minha casa não pode ser, minha mãe só viaja semana que vem. – Ele falou a April, que deveria ter perguntado se a festa poderia ser em sua casa essa semana. Ou qualquer coisa do gênero.
Era óbvio que não estava preparado para admitir que gostava da professora. Ela também não estaria se estivesse de rolo com um professor.
Eca. Seus professores eram absolutamente abomináveis.
- !!!!! – April fez sua voz de criança que pede Mc Lanche Feliz. já riu porque sabia o que aconteceria. – Pode ser na sua casa de novo?
Fazia semanas que as festas estavam sendo em sua casa, já que todos os pais pareciam ter enjoado de viajar.
- Pooode. – Ela respondeu fingindo odiar aquelas festas cujas expectativas os faziam sobreviver até o final de semana. Se não fossem pelas festas eles todos já teriam virado vegetais.
Sua casa estava sempre liberada para festas, já que seus país estavam estudando ruínas Maias de Machu Pichu, a milhares de quilômetros de distância. Sua casa virara uma mistura de balada com pub com hotel.
- Leva os seus amigos e quem mais você quiser, . – Ela falou encarando-o nos olhos pela primeira vez desde que começara a conversar com Chris. Esperava que ele entendesse o que estava subentendido: “Se você tiver uma namorada, não precisa levá-la, aquela biscate”
Mas ele não tinha. Era o que ela achava. Era o que ela pensava.
- Eles nunca perdem uma festa. Pode deixar! A gente vai! – Ele falou animado e voltou a imaginar se ele gostava de gato ou cachorro.
Provavelmente, os gatos eram seus preferidos, já que eles dão menos trabalho; ele mora numa casa com mais não sabia quantos garotos, o que eles menos queriam era trabalho. Mas talvez ele fosse fã dos cachorros, já que era doce como um. Ela achou meio estranho compará-lo a um cão, mas logo voltou aos seus raciocínios.
Se bem que, gatos soltam pêlo e por isso podem dar até mais trabalho do que um cachorro que não solta; e há cachorros absolutamente mal humorados e chatos e gatos meigos.
- ! – A voz de Tony a trouxe de volta a realidade.
- Oi! – Ela respondeu sorridente. Todos riam dela. Sentiu suas bochechas corarem. – Que foi?
- Onde você estava com a cabeça? – perguntou.
- No meu cachorro. – Não era uma mentira total. Já que ela estava pensando em cachorros e gatos.
Sim, ela era o tipo que preferia cães, mas também se derretia por gatos.
- Nós somos tão entediantes assim, ? – April perguntou.
- Claro que não. – Tentou contornar a situação. Ela tinha certeza que pensava que ela cheirava tóxicos. – Estou pensando que preciso comprar ração.
- Continuando... – Tony falou impaciente. Ele provavelmente não daria a mínima se todos os cães do mundo evaporassem.– Sexta ou sábado?
- O quê?
- A festa ! A festa! – Ele respondeu grosseiramente.
- Ah desculpa! Não sabia que eu tinha que ler sua mente, Anthony. – Ela tentou usar o mesmo tom que ele tinha usado.
- Sei muito bem o que eu leria na sua. – Ele a provocou.
respirou fundo e deu o seu meio sorriso “eu não dou a mínima” que tinha aprendido com o próprio Tony.
- Sexta, e sábado também se sobrar bebida.
Chris soltou uma de suas gargalhadas escandalosas; todos o encararam.
- Desculpa, mas nunca vi sobrar bebida em festa nenhuma que a gente dá.
Ele meio que tinha razão, mas eles arrumariam algum programa para sábado.
Só saíram dali quando começou a escurecer e a soprar um vento gelado. April foi a primeira a se levantar porque, segundo ela, o vento fazia seu cabelo ficar armado. Na opinião de , ele continuava lindo como sempre. Seus amigos a acompanharam e cada um andou em direção de sua própria casa: Tony e April para um lado; Chris para o outro e para um terceiro lado. Assim que sempre tinha sido, mas logo descobriu que teria companhia para voltar para casa dali em diante.
- Você está me seguindo, ? – Ela perguntou ao reparar sua presença alguns metros para trás.
- Droga, não era para você me descobrir! – Ele entrou na brincadeira; os dois riram juntos.
- Onde você mora? – Ela perguntou reparando em como o cabelo dele se encontrava perfeitamente com o seu pescoço.
- Belmont Hill.
- Eu também!
Ó destino, como ele podia ser legal de vez em quando.
Os dois sorriram da mesma maneira, pensando a mesma coisa.
Entraram na Belmont Hill e seguiram em frente conforme o sol recuava. O céu tinha aquela engraçada coloração entre o rosa e o laranja.
- Qual é a história entre você e o Chris? – perguntou e surpreendeu .
- Como assim?
Ele mexia nas alças da mochila e a olhava meio envergonhado. Parecia que tinha medo do que ouviria. Ela tinha medo de responder o que deveria; tinha medo do que ele estava pensando.
- Quer dizer... – Ele olhou para o outro lado. – Fica muito na cara que vocês não são só bons amigos... – Milhares perguntas passavam na cabeça de e aquilo provavelmente transpareceu pela sua cara. tentou se explicar melhor. – Vocês parecem perfeitos juntos.
ficou calada. Abriu sua boca para falar qualquer coisa e depois a fechou. Aquilo não era bom. Como ela poderia ter qualquer coisa com um garoto que achava que ela era perfeita ao lado de outro?
Ela coçou a cabeça torcendo para que aquilo a fizesse voltar ao seu perfeito estado mental.
- Eu não acho que nós somos perfeitos juntos. – Seus lábios soltaram por falta de outra coisa para falar. Ela só tinha que deixar bem claro que não queria o Chris. Pelo menos não naquele momento. – Ele a olhou desconfiado. – Nós namoramos por um tempo. – Ela completou, já que aquilo seria inevitável.
balançou a cabeça para se auto parabenizar por estar certo.
- Quanto tempo vocês ficaram juntos?
- Dois anos. – Os olhos de se arregalaram. – Mas nós terminamos já faz mais de um... – ia perguntar qualquer coisa, mas ela o interrompeu. – Por que você acha que nós somos perfeitos juntos?
Aquilo tinha ficado em sua cabeça. Ela e Chris eram muito amigos. Eram amigos antes do namoro, durante o namoro e depois do namoro. Ele tinha sido seu primeiro namorado sério; sua primeira vez... eles tinham muita história juntos. Tinham aquela relação que todos os outros invejavam. Eram o casal perfeito, assim como tinha dito. E foram o casal perfeito até a época em que os dois perceberam que estavam entediados, que queriam mais. O relacionamento tinha acabado, assim como a paixão; tinha restado apenas a amizade e aquele amor fraternal. Eles tiveram suas recaídas e eram seus estepes oficiais, já que havia dias que a paixão voltava a tona.
Mas aquele não era um daqueles dias. Ela só conseguia pensar em .
- Não sei! – Ele balançou os ombros. – Simplesmente são.
- Ele é só meu amigo. – Ela colocou uma ênfase tão exagerada em “só” que riu.
fechou os olhos por alguns segundos, envergonhada e confusa.
- Bom. – Ele falou com um sorriso charmoso de canto de boca e diminuiu o passo. – Eu paro aqui. – Ele apontou com a cabeça a casa igual a todas as outras da rua, a não ser pelo jardim mal cuidado, o furgão velho estacionado e os engradados de cerveja na porta. A típica casa de início de banda; o típico pardieiro que ela imaginava. Ela amou.
- Vocês também dão bastante festas pelo jeito, né? – Ela apontou os engradados.
- Só demos uma até agora! A gente chegou semana passada. – Cachorros; ela não sabia o porquê, mas tinha certeza que ele gostava mais dos cachorros. – Você já está convidada para a próxima festa e eu não aceito recusas!
- Eu nunca recuso festas! – Ela levantou as duas mãos como se não tivesse escolha, a não ser se encontrar com ele em uma festa, quando ambos estariam bêbados e gostosos.
- Bom, eu vou entrar... – Ele mostrou sua casa e ela teve impressão de que ele não queria entrar; ela não queria que ele entrasse.
- Ah claro, já tá tarde. – Ela olhou em volta, a rua estava praticamente escura.
- Você ainda tem que andar muito? – Ele perguntou preocupado e ela o achou fofo.
- Um quarteirão.
- Você mora perto mesmo! – Ela concordou com a cabeça, ainda feliz por essa coincidência. – Eu vou indo porque eu ainda tenho que ensaiar hoje.
aproximou-se e beijou sua bochecha; ela formigou pedindo mais.
Ela apenas acenou para ele e andou alguns metros em direção a sua casa, sentindo aquele sorriso idiota que tinha virado uma constante em seu rosto desde aquela manhã.
Mas ela não podia ir. Não ainda. O sorriso sumiu e ela mordeu o próprio lábio pensando no que ia fazer. Ela precisava. Parou de andar e virou-se para ver ; ele ainda a observava caminhar e ficou sem graça quando ela percebeu aquilo. A menina sorriu de novo.
- ! – gritou para que ele a ouvisse. Ele prestou atenção nela. – Você prefere gato ou cachorro?
estranhou a pergunta, mas respondeu numa voz engraçada e desconfiada:
- Cachorro, por quê?
deu um pulinho retardado, mas que não podia ser contido e voltou para o seu caminho.

Capítulo 3;

O resto da semana se arrastou naquela repetição contínua de rotina, excetuando , que fazia tudo que sempre fora tão normal ter uma graça a mais. A cada dia eles ficavam um pouco mais próximos e descobriam coisas um do outro.
A atração física era incontestável e tinha certeza que seria confirmada sexta a noite.
Certeza.
Naquele dia ela saiu do parque acompanhada por e April que iria ajudá-la a esconder todos os enfeites e coisas quebráveis de sua casa. Ela provavelmente não os colocaria no lugar novamente, já que as festas ficavam cada vez mais freqüentes e selvagens.
- O que você vai usar? – April perguntou assim que se despediu em frente a sua casa.
- Não sei, ainda não pensei. – Mentira. Já tinha pensado em sua roupa dias atrás. Tudo teria que dar certo e se a roupa desse certo já seria um bom começo.
- Óbvio que você pensou, você vai pegar o essa noite! – April falou com sua voz esganiçada e lhe deu um tapa enquanto se assegurava que o garoto não tinha escutado nada. Claro que não tinha, já que ele já estava dentro de sua casa. A muitos metros e uma porta de distância.
- April!
- Quê? – Ela perguntou virando os olhos. – Ah, , tá na cara que vocês vão ficar!
Ela gostou de escutar aquilo de outra pessoa que não fosse ela mesma. Tornava tudo mais real, e não apenas um fruto de sua imaginação ilimitada.
- Eu sei, mas não precisa berrar para a rua inteira! – Ela falou brava e depois sorriu. – Você acha mesmo? – Perguntou só para confirmar com uma voz bem mais doce.
A amiga sorriu e balançou a cabeça.
- Eu vou usar meu vestido preto por cima de uma skinny e algum sapato.
- Sabia que você já tinha programado cada detalhe. – April a conhecia bem demais. – Qual sapato você vai usar? Porque eu sei que você já escolheu também e só está fazendo doce.
Amizades com mais de dez anos de duração são uma invasão de privacidade.
- O scarpin vermelho. – Ela respondeu já abrindo a porta de casa. Nell, sua estabanada cocker começou a latir e a pular nela, como fazia todas as vezes que ela ou qualquer outra pessoa botava os pés na casa. – Nell, puta que pariu!
“Puta que pariu” era praticamente o segundo nome de Nell; assim como “porra de cachorro que roeu o fio da internet”. Nell conseguia ser mais hiperativa do que Chris; tinha a impressão de que a cadela já tinha bebido tantos restos de cerveja e sabe-se lá mais o que durante as festas que tinha ficado daquele jeito.
- Não fala assim dela, tadinha. – April falou agradando Nell e recebendo litros de baba como retribuição. olhou séria para a amiga. – Que foi?
- Você fala assim, mas deixou ela sem comida por dois dias quando eu fui para Edimburgo.
April jogou os ombros.
- Ela estava gordinha mesmo.
As duas tiraram qualquer coisa que fosse quebrável ou de valor do caminho e trancaram no armário dos pais de . Ela realmente não podia arcar com outra restauração do vaso da fertilidade da Nefertite que tinha ido parar dentro da privada.
Impressionante como pessoas bêbadas se sentem atraídas por coisas raras e/ou caras.
Quando já passava das dez da noite e já tinha colocado quase todo o álcool da casa para gelar, a garota subiu para seu quarto e lá encontrou April revirando seu armário.
- Que porra você está fazendo? – Perguntou reparando que tinha mais roupa em cima da cama do que no armário.
- Procurando alguma roupa para eu vestir que não me faça parecer uma jeca. – Ela virou-se para a amiga e apontou para ela mesma; num vestido preto de corte legal que, é claro, caía perfeitamente em seu corpo.
- Você está brincando, né? – April ia começar a responder, mas não deixou. – Esquece! Pega o que você quiser, eu vou tomar banho.
Fechou a porta do banheiro atrás de si e deu pequenos pulinhos e palmas mudas. Estava se comportando como uma criança, mas estava ansiosa. Não que ela estivesse esperando há muito tempo, fazia apenas alguns dias, mas aquilo não saía de sua cabeça; ele não saía de sua cabeça.
Entrou de baixo do chuveiro fingindo que não estava nervosa do jeito que estava, fingindo que estava relaxando e que aquela era apenas mais uma noite.
Mas a quem ela queria enganar?
Queria mais é que o tempo passasse rápido e ele chegasse rápido. Tudo rápido. E assim fora seu banho. Ela não tinha saco para um banho relaxante; esse seria apenas um banho higienizante.
O vapor tinha tomado o banheiro e ela mal via o espelho a sua frente, mal respirava porque sentia que o vapor tinha expulsado todo o ar do lugar; mal escutava porque a música e a gritaria no andar de baixo já estavam insanos. Enrolou-se na toalha felpuda com estampa dos padrinhos mágicos e abriu a porta.
Levou um susto ao ver que não era mais April quem estava lá, mas sim Chris.
- Chris! Você quer me matar de susto? – Perguntou ao vê-lo sentado na escrivaninha mexendo no computador.
- ! – Ele deu um pulo da cadeira e ela percebeu no mesmo segundo que ele estava com o seu humor party on: estava elétrico e sabia bem o porquê.
Analgésicos, anti-alérgicos... Chris sugava qualquer tipo de pílula ou comprimido que o tirasse de seu estado mental normal. Era tão hiperativo por causa desses remédios que com o tempo, tornaram-se parte dele. Em dias de festa, os remédios do dia a dia não faziam o efeito que ele desejava, então ele tomava ainda mais.
Aquilo não era mais estranho ou condenável, era simplesmente o Chris que ela conhecia e amava; e as pílulas eram parte dele.
Ele aproximou-se e a olhou com aquele olhar que ela conhecia há anos. Seu amigo não estava mais ali. Chris colocou uma de suas mãos e sua cintura e a outra em seu pescoço ainda úmido.
Aquele não era dia de ser estepe.
- Chris, o que você está fazendo? – Perguntou e ele a encarou curioso. Ela nunca perguntava nada, apenas correspondia.
- Como assim? – Ele pegou e seu queixo e beijou seus lábios.
Era bom beijá-lo. Mas não! Ela não queria ele!
- Chris... – Ela falou pacientemente. – E a Angie?
O menino olhou para o outro lado, claramente desapontado. sentiu sua testa se enrugar ao vê-lo daquele jeito.
- Ela... Ela terminou comigo, se é que nós tínhamos alguma coisa juntos. – Ele respondeu sentando na cama e batendo as mãos nas próprias pernas que não paravam de se mexer.
- Ah, Chris. – Ela sentou-se ao lado dele e segurou seu braço. Não sabia o que falar.
- Não, tudo bem, de verdade. – Ele respondeu olhando para ela e piscando mais do que o normal.
Não estava tudo bem.
- Bosta, Chris! O que você tomou?
Ele a olhou assustado, praticamente ofendido.
- Só o de sempre!
- Certeza? – Ela estava acostumada, mas sabia que aquilo era perigoso.
Ele fez que sim com a cabeça e se aproximou vagarosamente.
“Vagarosamente”: essa era uma palavra que geralmente não estava na mesma frase que a palavra “Chris”.
Geralmente, já que quando os dois estavam juntos, apenas os dois, ele parecia desacelerar.
sentiu a boca dele em seu pescoço e por um segundo esqueceu de . Apenas por um segundo.
- Chris, hoje não dá. – Ela falou levantando-se e dirigindo-se até seu guarda-roupa em busca do seu vestido. Aquilo era bom porque ela ficava longe de Chris e de costas para ele. Não queria vê-lo daquele jeito sem poder alegrá-lo.
- Por quê? – Ele perguntou enquanto xingava April mentalmente por ter desarrumado a bagunça arrumada que eram suas roupas. virou-se para responder, mas Chris mesmo respondeu. – Ah, já sei! , né? – Ele perguntou sem demonstrar nenhum sentimento do tipo: ciúme, tristeza, raiva; ele parecia feliz. – Desculpa, eu tinha esquecido dele. – Ele coçou a cabeça.
amava que ele fosse seu melhor amigo acima de tudo.
-É. – Aquilo estava humilhante. – Tem alguém nessa cidade que não sabe que eu estou a fim do ? – Perguntou e Chris riu escandalosamente.
Ela reparou que ele estava com aquele pavoroso scarf laranja, que ela tinha igual preto. Preto era bom; laranja, não. Além disso, uma calça jeans larga com Mad Rats e uma camiseta branca e lisa. O pior era que até com o terrível scarf, ele ficava bonito.
- Acho que não, . Vocês dois estavam bem... – Ele olhou para o teto, pensando; fazendo uma cara tipicamente Chris. – explícitos! – Ele completou e riu balançando a cabeça envergonhada.
Ele se levantou e caminhou até ela.
- Desculpa, tá? – Ele beijou sua testa e a abraçou apertado. retribuiu. – Às vezes eu esqueço que você não é só minha.
Chris a soltou e saiu do quarto em silêncio, deixando o que parecia um rugido de música e vozes entrarem.
A menina tentou tirar Chris da cabeça e se arrumou. Uma última olhada no espelho antes de sair do quarto fez com que ela se sentisse satisfeita e confiante. Ela sabia que dá próxima vez que passasse por aquele espelho tudo estaria acabado. Ou melhor dizendo, começado.
Já no corredor ela encontrou alguém caído, babando no carpete. Ainda bem que ela não encanava mais com essas coisas. Já que, alguém já tinha derrubado algum líquido suspeito na escada, “alguéns” estavam fazendo sabe-se lá o que no quarto dos pais dela e o andar debaixo já estava igualzinho a uma mini balada.
Num canto da sala, Luke, um amigo deles que era dj tinha montado sua pick up, além disso, tinha instalado luzes divertidas por toda a sala. Os móveis já tinham sido mudados de lugar e a casa estava lotada de pessoas que ela conhecia de vista mas não fazia idéia de quem eram.
Ela vasculhou o lugar com os olhos atrás de alguma face conhecida, bem, uma em especial, na verdade.
Achou Chris em um dos sofás se agarrando com uma loira gostosa e já se sentiu melhor, pelo menos não teria que se preocupar com ele; April estava dançando no maior estilo diva, chamando todas as atenções e arrasando ao som de algum remix de Franz Ferdinand.
Alguém a cumprimentou; ela foi direto para a cozinha atrás de bebida. Encontrou o lugar vazio e estranhou, já que o lugar onde ficam as bebidas nunca é vazio.
- Procurando alguma coisa? – Ouviu Tony perguntar atrás dela. De onde ele tinha surgido, ela não sabia.
- Álcool.
Ele estava parado na porta que dava para os jardins dos fundos fumando um baseado.
- A gente levou lá para a sala para ficar mais fácil. – Ele lhe estendeu uma garrafa quase cheia de Jack Daniels.
- Esse não é o whisky do meu pai, é, Tony? – Ela perguntou mas já sabia que era. Ele sorriu tentando conquistá-la. – Que porra, Tony! – Berrou antes de voltar para a sala atrás do isopor.
Tirou uma latinha de Carlsberg e deu um grande gole.
- Ele vai aparecer, não precisa ficar nervosinha. – Tony surgiu ao seu lado. Ela o olhou meio irada, já que agora além da restauração do vaso egípcio ela ia ter que comprar uma garrafa de Jack Daniels. Adeus, tranqüilidade financeira. – E se ele não aparecer... – Ele apontou para ele mesmo e ela lhe mostrou o dedo.
Não entendia como alguém podia ser tão canalha e ainda ter amigos.
No entanto, realmente estava demorando para chegar. Ela saiu na rua e tentou avistar a casa dele; era perto, mas nem tanto. Viu a cara irada dos vizinhos da frente espionando-a pela janela e simplesmente lhes mandou um tchau.
Ficou lá até sua latinha acabar, obrigando-a a voltar para dentro. Precisava de algo mais forte.
- Tony! – Ela o cutucou enquanto ele e April praticamente se comiam no sofá. – Cadê o Jack?
Algumas pessoas pegam intimidade com o álcool.
Tony levantou apenas uma sobrancelha se achando superior.
- No armário de panelas.
voltou para a cozinha deserta e escura e pegou o que agora era uma garrafa de Jack Daniels pela metade. Olhou para o microondas e viu as horas, já passava das duas e aquele puto provavelmente não apareceria mais.
Virou a bebida até sentir sua garganta arder e seus olhos marejarem. Foi para a sala com seu melhor amigo Jack com a resolução de se divertir. The Church of Hot Addiction tocava mais alto do que tudo e ela pensava em Gabe Saporta. Fechava os olhos e deixava que a Jack e a música a controlassem. Ela não precisava de algum, só precisava de Jack e Gabe.
Jack acabou e seu melhor amigo mudou de nome; ele se chamava Johnny agora e ela adorava o fato que ele continuava caminhando. E aparecia nas festas.
Começou a dançar com alguém que se esfregava nela; não sabia quem era: podia ser Tony ou Chris ou aquele garoto de sua classe de geografia. Ela não se importava.
April lhe entregou um baseado enquanto tocava Hushpuppies e seu corpo ficou leve, sua alma ficou leve. Aquela felicidade incontrolável tomou conta de seu corpo enquanto ela e seus melhores amigos dançavam e cantavam Beating Heart Baby.
Os minutos ficavam mais longos; as horas mais curtas.
Perdeu Johnny e andou até o armário perto da porta, onde achava que tinha outra garrafa. Ela não achou a outra garrafa, porque tinha trancado ela no armário de seus pais algumas horas antes, mas achou outra coisa.
- ! – Ela exclamou e o abraçou. Ele estava lindo, mais lindo do que ela se lembrava; estava de azul. Atrás dele estavam três garotos lindos que vestiam roupas lindas. Ele a apresentou a eles, mas ela o ignorou; o pegou pelo braço e subiu as escadas.
- , o que você está fazendo? – perguntou algumas vezes mas ela não respondeu, não ouviu ou prestou atenção.
Abriu a porta de seu quarto e encontrou Tony e alguém que ela esperasse ser April se comendo lá; foi para o quarto dos seus pais onde aquele mesmo casal continuava. Estava ficando puta; era a casa dela! Ela tinha direito de usar a casa dela, mas não, estranhos usavam a casa dela. Sua última esperança, o quarto de hóspedes, escancarou a porta e achou uma suruba lá dentro.
Gritou alguns palavrões.
Olhou para a porta do banheiro; estava aberto; estava vazio. Não pensou duas vezes.
Arrastou um confuso e animado lá para dentro, fechou a porta e o beijou. O beijou como ela queria há dias; sentiu o calor de sua língua na sua; o calor de suas mãos por todo o seu corpo e teria sentido mais se não estivesse bêbada e drogada.
Passou a mão por de baixo de sua camiseta e tentou tirá-la; não conseguia respirar; não queria se afastar para respirar, portanto, não queria respirar; beijá-lo era melhor.
Puxou-o pelo colarinho até a banheira.
Quem não tem cão, caça com gato; nesse caso, cama e banheira.
O plástico duro de que a banheira era feita a machucava e ela não se importava porque ela sentia o perfume de , ela sentia o calor de e ela se sentia feliz. Mas ela também se sentia cansada e de uma hora para outra, não sentiu mais nada.

Capítulo 4;

acordou com a horrível sensação de não se lembrar de ter ido para a cama na noite anterior. Abriu os olhos devagar; estava em seu quarto; April e se espremiam na cama com ela.
: tinha uma vaga lembrança envolvendo e o banheiro. Sorriu.
O céu estava avermelhado do lado de fora e uma luz pálida que lhe dava sono entrava pelas janelas de vidro.
Não sabia se estava amanhecendo ou anoitecendo. Sua noção de tempo era quem mais sofria após uma noite de festa.
Levantou-se tomando cuidado para não acordar ninguém e reparando que estava apenas de calcinha e sutiã, assim como April, e , que estava apenas com umas boxers verdes ou azuis. Sua capacidade de distinguir cores também estava afetada.
Era impressionante como todos sempre acabavam seminus após as festas.
Só ao se levantar viu Tony desmaiado no chão, com a cabeça apoiada em sua ovelhinha de pelúcia. Usando apenas boxers, é claro.
Todo o barulho da noite anterior tinha se convertido nesse silêncio que chegava a fazer cócegas.
Um garoto dormia no corredor com a barriga para cima. Pelo o que ela se lembrava, esse era um dos amigos de . Ela não podia confirmar nada, no entanto.
Nell estava no meio da escada, também desmaiada. Aquela cadela, coitadinha.
Nos sofás da sala estavam Chris (agarrado numa garota ruiva), o que provavelmente eram os outros dois amigos de e mais uma garota loira.
Uma poltrona estava virada de ponta cabeça; a cristaleira, lotada de latinhas de cerveja, assim como todas as superfícies lisas do cômodo e havia um balde perto da janela. Tinha até medo de descobrir o que tinha lá dentro.
Ela chegava a rir ao imaginar a reação de seus pais àquela cena. Eles a matariam, a ressuscitariam para matá-la outras vezes e depois e levariam para o Peru com eles e lá, ela realmente morreria, uma morte lenta e dolorosa.
Caminhou até a cozinha com o estômago roncando; ele parecia ter vida própria e, principalmente, boca própria.
Maldita larica.
Abriu a geladeira e tirou de lá um resto de comida chinesa de dois dias atrás. Comeu franco ao cury gelado, já que seu cérebro parecia ser algo não pertencente ao resto do seu corpo e não se lembrou dessa brilhante invenção chamada microondas. Só o usou para descobrir que passava das seis da tarde.
Levou a comida para a varanda e sentou-se nos degraus que a separavam do jardim. Havia uma cadeira no meio do canteiro.
Tentava lembrar-se do que tinha acontecido na noite anterior enquanto saboreava o seu cury extra spicy . Ela tinha uma pequena noção, mas queria ter certeza. Esperava que não tivesse se humilhado. Realmente esperava.
Seu coração pulou e ela colocou a mão no peito ao ver sentado ao seu lado. Da onde ele tinha surgido?
- ! Você está ai faz quanto tempo?
Ele sorriu dentro de sua camisa linda e ela se deu conta que ainda usava nada mais do que sua calcinha com estampa de ovelhinhas e seu sutiã vermelho.
Ela era uma fã das ovelhas.
Sentiu-se corar e tentou se esconder com os braços da melhor maneira possível.
- Algum tempo. – Ele reparou seu constrangimento e a olhou maliciosamente antes de tirar a própria camiseta e a própria calça.
sentia sua bochecha queimar e ela queimava mais a cada movimento dele que ela tentava não encarar, apesar de ser impossível.
- O que você está fazendo? - Perguntou olhando para o arbustinho seco e sem vida no lado oposto.
Ela precisava chamar um jardineiro.
- Pronto, estamos quites. – olhou para ele que tinha um sorriso doce na face. – Você não é mais a única seminua.
Ele era inteiro doce.
E pervertido também.
Era melhor do que ela imaginava.
A tática do menino deu certo, já que ela deixou de se incomodar com as roupas, ou a ausência delas. Outra coisa passou a incomodá-la.
- Hum... – Não sabia por onde começar. – Noite passada...
Ele a olhava com cara de quem sabia aonde ela queria chegar, mas que gostava de vê-la se virar para se explicar.
Sádico.
- Noite passada... – Ele fez menção para que ela continuasse.
teve que rir.
- Eu não sei bem o que aconteceu. – Admitiu.
- Eu imaginei que você não fosse se lembrar de nada mesmo.
- Não! Eu lembro de alguma coisa!
- Lembra?
Ela fez que sim com a cabeça e um sorriso malicioso surgiu em sua boca.
- Lembro de você, lembro do banheiro, lembro da banheira... – Ele correspondia o olhar. – E não lembro de mais nada. – Riu e abraçou as próprias pernas, olhando para as unhas vermelhas de seus pés. Ficara tímida de uma hora para a outra.
- Bem, depois que você desmaiou na banheira... – Ele começou a falar e ela afundou a cabeça nos braços. Estava pronta para ouvir alguma coisa totalmente embaraçosa. – Eu te carreguei até o quarto, que por sorte estava vazio, tirei a sua roupa... – levantou a cabeça rapidamente e o encarou. corou. – Eu tive que tirar a sua roupa porque tinha um resto de água na banheira e a gente tinha se molhado um pouco. – Ela balançou a cabeça mostrando compreensão. Mordeu os lábios. Queria tanto ter estado lúcida naquela hora. – Só isso! – Ele levantou os braços. – Juro que não tirei nenhum proveito de você!
- Eu não ficaria brava se você me contasse que tinha se aproveitado um pouquinho de mim.
O álcool ainda não tinha saído totalmente de seu sistema. Era a única explicação. Ele ia pensar que ela era uma vagabunda.
- Assim você me obriga a confessar. – Ele falou sério. – O que eu mais queria era que você estivesse acordada. – Ele que olhava para os próprios pés naquela hora. Ela reparou que havia estampas de árvores de natal em suas boxers.
Ele era adorável.
Um barulho na sala chamou suas atenções e se levantou rapidamente.
- Espera aí! – Ele falou antes de sumir pela porta.
Voltou todo esbaforido segundos depois e jogou alguma coisa em ; ela reparou que era o vestido que ela usava na noite anterior e aquela horrorosa bota vermelha de April que mais parecia uma galocha.
- Que é isso? – Perguntou achando que o garoto tinha adquirido esquizofrenia nos últimos trinta segundos.
- Se veste, vamos sair daqui. – Ele falou enquanto vestia suas roupas.
- Por quê?
Ele parecia um cara tão normal, mas era óbvio que era um desregulado.
- Quero você só para mim! – Ele falou docemente e ela esqueceu que o achava um maluco. – Vamos, o pessoal está acordando!
Ela colocou o vestido e a galocha e reparou que se fosse encontrada numa esquina ganharia o suficiente para comprar centenas de vasos da fertilidade.
Havia um motivo para ela ter colocado o vestido por cima de uma calça noite passada.
- Eu não posso usar isso, ! – Ela falou enquanto ele a pegava pela mão e a puxava para o corredor ao lado da casa, que os levaria até a rua. – Eu estou parecendo a Britney Spears!
- Para isso acontecer, você teria que ser careca. – Ele respondeu assim que eles alcançavam a rua que já estava escura.
- Mas isso é muito curto! – reclamou tentando puxar a peça de roupa para baixo. Nem com todo o seu esforço ele chegava ao meio de suas coxas.
- Eu não me incomodo. – O garoto respondeu encarando suas pernas.
- ! – Ela o repreendeu envergonhada.
- Desculpe, não me contive.
Ele a olhou afetuosamente e entrelaçou suas mãos.
- Para onde você está me levando? – A menina perguntou enquanto sentia o agradável calor da mão de na sua.
- Para falar a verdade, não sei. Só estou seguindo o fluxo.
Ela se contentou com aquela resposta, já que o fluxo os levava até o parque em frente a escola.
Seus pais sempre a proibiram de ir a parques a noite; assim como qualquer guia turístico faria, mas não sentiu nem um pingo de insegurança ao entrar em um parque escuro com . Ainda havia algumas crianças brincando com seus cães enquanto suas mães entediantes e entediadas falavam mal do primeiro ministro ou de Victoria Beckham.
A luz que vinha da cabana de lanches na outra extremidade do jardim e dos postes ao longo da rua do lado de fora deixava o lugar com o clima romântico e não assustador.
Talvez fosse romântico porque ele estava com ela.
Naturalmente, como que num acordo subentendido, os dois acharam uma árvore suficientemente grande e escondida onde apoiou suas costas e passou seus braços pelo pescoço de ; ele segurou seus quadris e os aproximou mais; seus lábios se tocaram levemente, apenas aguçando seu desejo e fazendo-os aproveitar cada fração do momento; suas bocas se abriram e suas línguas se encontraram; devagar eles foram conhecendo essa nova faceta um do outro, que na noite anterior tinha sido apenas apresentada a eles.
Quando finalmente se cansaram, deslizaram seus corpos para o gramado fofo e deitaram-se abraçados. O pensamento de ir além passara pela cabeça dos dois, mas a sensação de que eles mereciam mais do que uma “rapidinha” atrás de uma árvore os deteve.
Aquilo era especial.
sentia a grama pinicar suas pernas nuas, mas não ligava; deitou sua cabeça no peito de e a sentia movimentar-se conforme a respiração dele; sentia seus batimentos cardíacos num compasso perfeito e seu calor a lembrava que ela estava viva.
- Por que a gente demorou tanto? – Ele perguntou e a menina achou engraçado ouvir sua voz através de seu peito, mas não entendeu o que ele queria falar.
- O quê?
- Para ficarmos juntos.
Ela riu.
- Na verdade a gente não demorou muito, foram só alguns dias.
- Quatro. – Ele completou. – Mas a gente deveria ter começado na segunda!
- Acredite, eu queria. – Ela ergueu a cabeça e beijou seu queixo pois não alcançava sua boca.
- Acredite, eu também queria.
fez com que suas bocas se alcançassem e os beijos se reiniciassem conforme iam ficando cada vez mais saborosos. Ela sentiu a mão dele em sua perna o que a encorajou a passar uma de suas mãos por debaixo de sua camisa. Ele se arrepiou e a aproximou mais, até o ponto, que aos poucos, os dois desaceleraram e se afastaram.
Eles mereciam mais.
Esse era outro acordo subentendido.
Ela gostava de ter coisas subentendidas; ele gostava de ter coisas subentendidas.
Tudo ficava tão mais fácil.

Capítulo 5;

O domingo passou como um domingo de verdade deve ser: algo melancólico e preguiçoso.
Acordou tarde com alguma música do Bloc Party tocando alto no andar de baixo. Por milagre, seu quarto estava vazio. Toda vez que o pessoal passava a noite lá alguém amanhecia em sua cama ou então no chão, bêbados demais para chegar em casa. Apesar de já passar do meio dia, o ambiente estava escuro porque ela tinha se lembrado de fechar as cortinas na noite anterior.
Espreguiçou-se e sentiu-se satisfeita. Tinha conseguido o que queria e agora só lhe restava esperar as conseqüências, que ela tinha certeza, iria gostar.
Vestiu suas boxers de margaridas e uma camiseta do Nine Inch Nails que costumava ser de Chris.
Desceu as escadas apenas um pouco desapontada por saber que não veria naquele dia e teria que esperar a eternidade de algumas horas até as aulas da manhã seguinte.
Ele tinha que ensaiar com a banda e era algo aparentemente inadiável.
- So fucking useless! – Chris, Tony e April cantavam se achando o próprio Kele Okereke.
Tony e Chris brincavam de air guitar enquanto April fazia coreografias hilárias com uma vassoura. Eles estavam limpando toda a bagunça restante da festa e tinha que reconhecer que sua sala estava habitável e ela não tinha movido uma palha.
- Play it cool, boy. – Cantaram os quatro juntos enquanto a música terminava.
- Bom dia, . – Chris falou beijando sua testa.
April e Tony estavam ocupados demais dançando Banquet e apenas acenaram para ela.
- Nossa, vocês já limparam praticamente tudo! – Ela exclamou com vontade de apertá-los como filhotes. – Obrigada.
- Que isso, ... – Chris respondeu carregando baldes, vassouras e rodos para a lavanderia. Ela o seguiu, mas parou na cozinha onde pegou um pacote de cookies de chocolate para comer. – Olha o seu sorriso! – Chris observou voltando à cozinha. Ela apenas conseguiu sorrir mais, agora com a boca toda suja de cookies. – O que a gente vai fazer hoje?
- Nem sei, o que você quer fazer?
– Nada, preciso descansar. – Ele respondeu sentando-se na cadeira da mesa.
- Muita ação na festa, né? – perguntou durante o seu quinto cookie.
Chris fez uma cara pervertida e riu.
- Pode se dizer que sim.
- Você é um promíscuo, Chris. – lembrou-se das diversas garotas diferentes com quem tinha visto Chris na noite anterior.
- Eu sei, eu sou a vagabunda do grupo. – Ele fez uma cara de Paris Hilton.
- Não, esse é o Tony.
- Hum, tem razão.
Alguém bateu à porta e viu Tony abri-la e receber quatro caixas de pizza.
- Vocês pediram pizza? – Ela perguntou surpresa largando os cookies na cozinha e indo até a comida.
- Não, é o jornal. – Tony respondeu ironicamente colocando as caixas em cima da mesa de centro.
- Vai à merda, Tony. – Ela o ignorou abrindo a caixa de pizza que cabia a ela e a April. Os meninos comiam uma pizza e meia cada, elas juntas comiam uma. – Se eu soubesse eu não teria me afogado em cookies.
- Ignora ele. – April virou os olhos.
- Pode deixar.
- Vamos jogar poker! – Chris apareceu com seu baralho e suas fichinhas e antes mesmo de terminada as pizzas, eles já estavam naquele prazer culposo que era o jogo.
Isso quase fez se esquecer que preferia estar em outro lugar, com outra pessoa. Odiava ser esse tipo de garota que perde a cabeça e troca os amigos por um cara.
Tony só blefava. Blefava tanto ao ponto de você sempre saber quando ele tinha um jogo e conseguir quebrar suas pernas parando de apostar; Chris não tinha paciência para o blefe e às vezes, não tinha paciência nem para esperar virar as cartas antes de sair do jogo, perambulava pela sala mudando a música conforme seu humor; April e eram as únicas que jogavam como pessoas normais e por isso estavam sempre ganhando dos garotos, coisa que nenhum deles parecia reconhecer.
As horas voam quando se está jogando e no que pareceu minutos para a , o céu do lado de fora ficou escuro e as luzes dos carros passaram a ser vistas. Ela finalmente tinha se distraído e mantido sua cabeça naquele cômodo e não na casa a alguns metros de distância.
Mas queria que o dia seguinte chegasse logo; queria ir para a escola!
Aquilo era novo.
- Onde está o , ? – Tony perguntou enquanto esperava que um 7 aparecesse na mesa.
Nem que ela quisesse poderia não pensar nele.
- Cala a boca, Tony! Você está matando o espírito do jogo! – levava o jogo meio a sério.
Chris era o dealer e depois que todos apostaram, virou a última carta da mesa. Não era um 7.
praguejou mentalmente.
Ela blefou e apostou alto; cinco fichas valendo cem. Tony e Chris arregalaram os olhos; April que já estava fora do jogo olhou para suas cartas.
- Pára de matar o espírito do jogo! – Gritou brava com a curiosidade da amiga. – Então, vocês vão apostar ou vão ser esses maricas que vocês são? – Ela os olhou desafiadoramente.
- Eu vou ser marica! – Chris respondeu largando suas cartas na mesa.
Tony estava mal humorado, já que como era o pior jogador, não tinha fichas o suficiente.
- Ui acho que eu ganhei! – Ela comemorou se esforçando para irritar Tony. Mostrou suas cartas na mesa, quase foi agredida e depois puxou todas aquelas fichas. - Eu sou tão rica!
Tony se levantou e trouxe uma garrafa daquele vinho rosa australiano que eles andavam tão viciados ultimamente.
- Ele tinha que ensaiar com a banda. – Ela finalmente respondeu à pergunta de Tony.
- De domingo? – April perguntou enquanto Chris se concentrava com o abridor e a rolha.
- É. - A quem ela queria enganar? Ela queria ver ele, ela queria estar com ele. – Acho que é porque eles não ensaiaram nada ontem.
Banda idiota. Ela pensava e depois se arrependia por estar parecendo uma garotinha controladora e carente.
- Os amigos dele só faltaram beber álcool de limpeza. – Tony comentou.
- Eles eram tão bonitos. – April falou apenas para , mas fez os dois garotos fazerem cara de nojo.
- Eram, né? – concordou com a amiga. Mal se recordava dos meninos na sexta feira, mas na dia anterior, os “reapresentou” depois que os dois voltaram de seu pequeno passeio. Cada um tinha o seu jeitinho especial para conquistar a simpatia das pessoas: Tom era o doce; o brincalhão e o naturalmente charmoso. – Eles vão ser o tipo de banda que atrai groupies.
- Não sei porquê vocês falam tanto deles. – Tony falou enciumado. As duas meninas riram. – Vocês tem eu e o Chris aqui. – Ele deu fortes tapas nas costas do amigo. – Nós somos bem mais bonitos que eles.
- Mais legais também. – Chris completou.
Eles meio que tinham razão, já que eram tão insanamente bonitos quanto os outros e elas os amavam porque eram seus amigos/namorados há anos. Elas não deixariam eles saberem disso, no entanto.
- Bem, April, eu já peguei um McFly. – falou a amiga. – Ainda tem três para você escolher e eu escolheria o .
- Strippoker! - Tony arrumou um jeito de mudar de assunto, já que ele podia dormir com a cidade toda e April não.
Os olhos de Chris brilharam.
- Nem fodendo, Tony. – April respondeu.
- Eu topo! – concordou animada.
- Ficou maluca, ? – April perguntou indignada enquanto se levantava e entrava no lavabo, provavelmente tendo uma de suas crises em que ela fica de saco cheio de tudo.
- Topa mesmo, ? – Tony perguntou já embaralhando as cartas.
- Topo.
- Sem a April nem tem graça! – Chris falou mais para si mesmo e recebeu um olhar perverso de Tony. – Ah! Você não me interessa e a eu já conheço! – Ele se explicou.
- Todo mundo aqui se conhece, Chris, a gente está sempre acordando juntos usando só roupa de baixo. – Tony apontou algo que era verdade, mas que pela boca dele soou terrivelmente gay.
riu e deu um longo gole no vinho rosa e docinho.
Como sempre, os garotos esqueceram o quanto jogavam mal e em quinze minutos, April já estava tirando fotos de um Chris e um Tony desanimados e mal humorados trajando apenas boxers.
Certo, Chris nunca estava desanimado.
Quanto a , estava tentando vestir as calças largas dos dois garotos ao mesmo tempo. Ela conseguiria morar ali dentro e já estava vestindo a camiseta de Chris e a blusa polo de Tony.
- Vocês são muito trouxas! - Ela os provocava. – Sempre perdem e ainda insistem em jogar strippoker!
- Foi só sorte, ! – Chris falou de dentro de suas boxers azuis clarinhas.
- Sorte, sei. – Ela virou os olhos metida demais com a sua vitória. Não que tivesse sido algo muito memorável já que os outros dois eram realmente péssimos jogadores. – Não é hoje que você tira a minha roupa, Tony. – Ela provocou o amigo.
Seu passatempo favorito era provocá-lo. Ela achava extremamente divertido.
The Enemy começou a tocar muito alto quando alguém bateu na porta. Com esforço, se locomoveu até a porta arrastando todo aquele guarda roupa com ela e quase perdeu tudo quando deu um saltinho ridículo ao ver pelo vidro ao lado da porta.
- Hei! – Ele falou ao vê-la e encarou suas roupas. – O que você está fazendo? – Perguntou fazendo uma carinha curiosa e com medo de que a garota que ele estava beijando tivesse problemas com bebida.
- Strippoker! – Ela o abraçou e sentiu as pernas amolecerem com seu perfume.
- Você não sabe o quanto me faz feliz não ver o Tony usando suas roupas! – falou rindo e a fez rir também.
fechou a porta atrás de si e se juntou a do lado de fora da casa, sem ligar que os transeuntes encaravam a garota vestida como uma palhaça.
Provavelmente tivera uma infância problemática, eles pensariam.
- Achei que não fosse te ver hoje. – Ela falou sentando-se em um dos degraus de entrada
- Eu também. – completou sentando-se ao seu lado e pegando em sua mão. – Mas eu não agüentei! – Ele falou timidamente.
- Eu também não estava agüentando. – Brincou com os dedos dele. – Ainda bem que eu tinha esses idiotas... – Apontou o lado de dentro, da onde saía um som alto de guitarras, com a cabeça. - para me distrair.
Ela estava a ponto de desmaiar de felicidade por ele estar ali, por ele ter sentido a sua falta, por ele ser tão perfeito.
beijou sua cabeça e a aproximou para um beijo que era tão bom como ela se lembrava e como ela tinha imaginado durante todo o dia. Era como se todas as complicadas variantes do mundo se reduzissem a apenas ela e ele; aos seus corpos e àquele sentimento novo que sentiam e fazia cócegas em suas barrigas.
- O que você fez hoje? – perguntou assim que os dois se separaram.
- Dormi e joguei poker. – Ela respondeu enquanto sentia as mãos de passarem pelas pontas de seu cabelo. Ele parecia se divertir brincando com elas.
- Dia produtivo!
- Demais! – arrumou um jeito de deitar sua cabeça no colo dele. – Como foi o ensaio?
- Foi bom! A gente conseguiu escrever uma música nova. – Ele brincava de passar os dedos levemente pelo rosto dela agora.
fechou os olhos.
- Como chama a música?
- I Wanna Hold You.
- E fala sobre o quê? – Ela sentia-se calma, relaxada e protegida de uma hora para a outra. Podia cair no sono mesmo.
- Sobre um cara que faria qualquer coisa pela garota e que, mais do que tudo, precisa abraçá-la.
- Me parece um bom tema para uma música. – Ela comentou e abriu os olhos encontrando um que a encarava como se quisesse entrar dentro de seus pensamentos. Ela sentiu seu coração acelerar.
- O que foi?
- Nada, só estou pensando como é bom finalmente poder te abraçar.
Antes que pudesse responder qualquer coisa, a porta se abriu fazendo um estardalhaço assim como os três que saíam por ela. Ela e se levantaram.
- , a gente precisa da nossa roupa! – Chris falou sem embaraço algum por estar de boxers na rua, sendo seguido por April e Tony. – Oi, !
- Ah, claro. – Ela respondeu ainda abalada.
Não sabia se tinha entendido certo, mas talvez tivesse escrito uma música para ela.
tirou as roupas dos meninos e lhes entregou, voltando as suas boxers e a camiseta Nine Inch Nails.
- A gente já vai, . – April falou agarrando-se ao seu pescoço. – Oi , tchau, ! – April deu dois beijinhos nas bochechas de enquanto Tony e Chris se vestiam.
Tony beijou a amiga na bochecha e falou no pé de seu ouvido:
- Na próxima vez, você vai tirar a roupa.
- Aprende a jogar então, Tony! - Ela mostrou a língua.
Ele sorriu sinceramente. Era nessas horas que se lembrava de que Tony não era apenas um ser frio e canalha; era também seu amigo e um cara como qualquer outro.
Os três se despediram e se afastaram falando muito alto. Se algum dia você quiser encontrá-los é só seguir o barulho.
- Hum... – murmurou. – Acho que eu também vou.
- Hum... Tudo bem. – Algo a mandava convidá-lo para entrar e algo que ela odiava a mandava se despedir.
acariciou sua testa e ela afundou-se em seu peito, sentindo o garoto abraçá-la, sentindo que faria qualquer coisa por ele, que derreteria as calotas polares e as assistiria inundar o mundo por ele.
Beijaram-se sem vontade alguma de se despedir; era como uma bomba de nêutrons explodindo.
Ele deu um último selinho na menina e afastou-se, andando de costas e ainda a encarando.
- Você é uma perfect drug, sabia? – Ele falou com um sorriso charmoso, deixando-a confusa. Ela só entendeu quando antes de se virar, apontou para sua camiseta.
É claro, Perfect Drug do Nine Inch Nails.

“My blood wants to say hello to you
My feelings want to get inside of you
My soul is so afraid to realize
Every little word is a lack of me
And I want you...”

Ela não podia deixar de ter um pensamento similar; ele era a droga perfeita.

Capítulo 6;

terminava de se ensaboar quando ouviu a música tema de Pokemon, o toque do seu celular, tocar no outro cômodo.
Ignorou. Quem quer que fosse poderia ligar dali a dez minutos ou então deixar um recado. No entanto, segundos depois que a músiquinha parou, ela começou de novo.
A garota reclamou palavras incompreensíveis até para ela mesma e embrulhou-se na toalha.
Essa era a parte ruim de se morar sozinha.
- Que é? – Ela atendeu rudemente ao ver o nome de Chris na tela.
O que ele queria que não poderia espera nem um minutos?
- ! – Ele berrou do outro lado da linha o que apenas fez com que ela ficasse mais brava pelo seu cabelo inundado e pela espuma que restava nele e a pinicava. – Você tem que vir para cá! – Ela ouviu música e gritaria do outro lado da linha. – Festa! – Ele soltou e deu uma gargalhada.
Já devia ter fumado até o sofá da casa dele.
Ela lembrou-se que a mãe de Chris estava para sair de viagem. Isso é basicamente igual a festa em qualquer lugar do mundo.
Qualquer.
- Mas é quarta-feira, Chris!
- E daí? – Ele estava certo, e daí? – Bom, vem logo... – Chris parecia estar fazendo um esforço tremendo para conciliar a sua já iniciada festa com o telefonema. – Só falta você, o e os amigos dele. Vem!
- Estou chegando!
Não era ela quem iria discutir com Chris enquanto ele estava naquele estado.
Desligou o telefone esquecendo do quanto puta estava por ter interrompido seu banho e já pensando em sua roupa.
Ela não via fora da escola desde a última sexta. Ele andava ocupadíssimo com a banda, fazendo shows em pubs decadentes e correndo atrás de produtores.
Enfim, ela precisava estar bonita, não podia estar com aquela aparência escolar, diária e maçante.
Voltou para o chuveiro e lá ficou até sentir-se perfeitamente limpa e dopada pelo vapor da água quente. Se ela não precisasse tanto de uma festa, iria direto para sua cama, dormir até quando seu corpo aderisse ao colchão e tivessem que chamar os bombeiros para retirá-la de lá.
Colocou The Killers para tocar assim que saiu do banho, enrugada como Mrs. Pleydell, sua professora de redação que deveria estar num museu e não numa escola.
Precisava de algo dançante e The Killers sempre a fazia dançar.
Abriu seu guarda roupa e praticamente pescou as peças, já que April havia desarrumado tudo semanas atrás.
Colocou tights pretas, saia xadrez (estilo Burberry, já que o colegial tinha se tornado peça de sex shop graças àqueles pervertidos), camiseta cinza e vintage dos Rolling Stones, jaqueta marrom e bota sem salto também marrom.
Fechou a casa e caminhou os poucos metros que a separavam da casa de . Sabia que ele adoraria a surpresa, e principalmente, adoraria uma festa de quarta-feira e uma perfeita desculpa para faltar na aula do dia seguinte.
Era mais responsável que ela no quesito estudos, mas todos precisam de uma folga de vez em quando.
Reparou no quanto sentia a falta dele e achou aquilo tudo uma loucura por várias razões, mas duas eram as principais: eles se conheciam há pouco tempo e ela o tinha visto naquela manhã, mas tinha sido na escola, e beijo no meio de um corredor com dois mil adolescentes barulhentos não é beijo.
Não que ela não tivesse aproveitado cada segundo.
Bateu na porta da casa mais suja e bagunçada da rua, com o carro mais sujo e bagunçado da rua estacionado em frente e em poucos segundos um garoto atraente com roupas estilosas abriu a porta.
Não era , era , o engraçado.
- Oi, ! – Ele a cumprimentou simpático, mas ao invés de convidá-la para entrar, juntou-se a ela no lado de fora e fechou a porta atrás de si.
- Oi, . – Respondeu confusa com a atitude do garoto.
- Hum... – Ele percebeu sua reação. – Está muito bagunçado, é a semana do fazer a limpeza e ele é um porco imprestável! – fez cara de nojo. – Você não quer ver como está aqui dentro.
Ela se deu por convencida, imaginando como a casa não estaria após uma semana sem faxina.
Era melhor nem pensar.
- O está ai? – Perguntou tirando a imagem do chiqueiro da cabeça e lembrando-se do que a trazia .
- Está sim, quer que eu chame ele?
Hum, seria bom, já que ela estava ali.
- Chama sim, e já aproveito e aviso você, tem festa na casa do Chris agora mesmo, é para todos vocês irem.
Os olhos de brilharam e ele deu um sorriso cativante. O típico cara impossível de não se gostar.
- Nós vamos! E agora eu vou chamar o ! - Falou todo feliz antes de se esgueirar de volta para dentro, fechando a porta na cara dela.
Músicos podem ser tão temperamentais.
sentou-se no degrau de entrada encarando as próprias unhas que precisavam visitar uma manicure e esperou por que apareceu poucos minutos depois.
Estava com a sua bermuda cinza com listras e uma camiseta azul clara com estampa engraçada toda amassada. Sua cara e seu cabelo também pareciam amassados. Ele parecia inteiro amassado.
Ela queria dar uns amassos nele, mas isso não vem ao caso.
- Hei! – Ela se levantou e beijou sua boca.
- Adorei essa surpresa! – sorriu e passou a mão pelos cabelos ainda úmidos da menina.
- Que bom, porque eu tenho outra! - fez uma fofa cara curiosa e aproveitou para fazer ainda mais mistério. – Festa na casa do Chris! Vamos? – Ela completou após alguns segundos.
- Agora? – Ele arregalou os olhos e ela confirmou. – Não posso agora. – Respondeu parecendo chateado. – Estou escrevendo uma música com o .
A garota sentiu toda a animação deixar seu corpo e ser substituída por algo simplesmente gelado que ela não sabia bem o que era, mas não gostava.
- Vocês não podem fazer isso outra hora?
- Não. – Ele respondeu com a expressão triste e passou os dedos por sua bochecha.
- Vocês não podem escrever a música na festa? – Ela tentou brincar para enganar a ele e a si mesma quanto a sua decepção.
- Acho que não. – Ele riu e pousou as mãos em sua cintura. – Mas eu vou mais tarde, assim que terminar, tudo bem?
Nem tudo estava perdido.
- Tudo bem! – respondeu já mais animada.
Um trocado e perfumado abriu a porta assustando o casal.
- Vamos, ? – Ele a chamou já caminhando até o furgão. – Eu te dou carona na bosta motorizada!
“Bosta motorizada”: era assim que eles carinhosamente chamavam o furgão.
pensava que “bosta enferrujada” seria melhor.
- Vamos! – Ela respondeu mas não se moveu.
As mãos de estavam nas suas costas e as dela no peito dele. O garoto aproximou sua cabeça a dela, encostando suas testas. Ela o admirou fechar os olhos e sentiu sua respiração. Trocaram um rápido beijo, já que parecia apressado.
- Não demora muito! – Ela pediu antes de entrar na bosta motorizada.
não parava de rir e falar dos assuntos mais aleatórios e sem sentido. Desde a cerveja indiana que ele tinha experimentado outro dia até uma pinta que ele tinha nas costas.
Ele a fazia rir também.
- E você? – perguntou. – Não escreve música?
Ele a olhou confuso, mas após um segundo exclamou um “ah” de entendimento.
- Escrevo sim, mas eles me proibiram hoje. – riu. – O falou que eu só estava atrapalhando e eles iam procurar um substituto para mim. – Ele fez uma cara engraçada e sorriu.
- O está escrevendo também? Achei que só o e o estivessem escrevendo. – Ela comentou assim que estacionou em frente a casa de Chris.
O garoto respondeu qualquer coisa que ela não escutou enquanto os dois desembarcava, em frente a casa mais suja e bagunçada da cidade.
A casa de Chris que nunca fora arrumada, mas sempre fora “passável”, parecia uma convenção de junkies.
- Nossa, você conhece essa gente? – perguntou meio em choque enquanto os dois pulavam dois corpos largados no chão e entravam nesse lugar fedendo a erva e a cerveja com alguma música eletrônica francesa tocando no mesmo ritmo das luzes instaladas pela sala.
- Não.
- E eu que achava que a festa na sua casa já tinha sido uma loucura.
Pegou na mão do menino e o puxou pela sala, procurando alguma face conhecida, alguma explicação e proteção contra aquela gente.
Ela não fazia idéia do que Chris estava aprontando, só esperava que o amigo não arrumasse problemas.
Chegaram à cozinha e lá encontraram April, Tony e mais algumas caras conhecidas do colégio. Aquele ambiente estava bem menos selvagem que o anterior.
- O que está acontecendo aqui? – perguntou meio pasma aos amigos.
- É simples... – Tony falou com uma latinha de Fosters na mão. – A mãe do Chris viaja e deixa mil libras com o Chris. – Tony enfatizou o nome do amigo, mas já tinha entendido tudo depois de “mil libras”. – Ele resolveu fazer uma pequena reunião, comprou 700 latas de cerveja, um equipamento novo de som e atraiu todos os viciados da cidade para cá. Essa última parte eu realmente não sei como ele conseguiu, provavelmente deve ter ficado amigo de algum traficante.
Aquilo podia ser possível, já que Chris já conhecia a maioria dos traficantes da região e era a pessoa mais sociável do país.
teve que rir porque ela sempre ria das besteiras que Chris fazia.
- E cadê ele? – perguntou enquanto April se encarregava de embebedar ela e , entregando-lhes duas das 700 latas de cerveja.
Tony virou indicando os jardins dos fundos com cara de tédio. Chris girava ao redor de si mesmo, assim como um bando de dopados, no meio do gramado. Tinham instalado caixas de som ali fora também e a música era tão alta quanto do lado de dentro.
- Deixa eu adivinhar, maconha, pílulas e cerveja?
- Isso ai. - April respondeu agarrando-se em Tony.
abriu sua cerveja e foi até o lado de fora.
- Hei, Chris! – Gritou.
- ! – Ele falou alto com os braços abertos ao vê-la. – Que bom que você chegou! Você demorou tanto!
Ele a abraçou e no mesmo segundo ela reparou que ele tinha exagerado em tudo. Fez com que ele se sentasse em uma das espreguiçadeiras e sentou-se ao seu lado, apesar de todos os protestos do amigo. Ele parecia querer tudo ao mesmo tempo, mesmo não sabendo o que queria. Seus olhos estavam excessivamente vermelhos e inchados.
- Que história é essa de chamar esse bando de junkies para a festa, Chris?
- Junkies? – Ele franziu a testa. – Que junkies? – Ele estava pior do que quando eles foram para Amsterdã.
- Os que estão transformando a sua sala num porão dos anos 70!
- Ah! – Ele abriu a boca. – São gente boa! Só gostam de curtir um pouco! Jasmine! – Chris gritou para uma garota que saía da cozinha seguida por um bando de gente. – Que bom que você chegou! Você demorou tanto!
riu já sabendo que no dia seguinte teria que estar ali para ajudá-lo com os estragos causados pela festa, tanto nele quanto na casa.
Esperava que nada fosse roubado e que não houvesse nenhum tipo de assassinato ou crime muito grave.
A garota voltou para a cozinha onde encontrou os amigos fumando numa rodinha. já estava conversando com uma bonita garota de cabelos cacheados que até onde podia ver, estaria na cama com ele dali a alguns minutos.
Não necessariamente na cama, na verdade.
Sentou-se ao lado de Tony e de um garoto loiro de olhos azuis e feições angelicais. Seu amigo lhe passou o baseado, mas ela dispensou e entregou direto para o garoto angelical.
Não sentia vontade de ficar louca. Tinha planos melhores para aquela noite, mas eles ainda não poderiam ser realizados.
Aceitou o copo com whisky e qualquer coisa que April lhe entregou, já que apesar de não querer ficar louca, ela precisava relaxar. Sempre ficava nervosa quando algo grande estava prestes a acontecer.
Ela queria que algo grande acontecesse, e quando ela queria alguma coisa, ela conseguia.
Bem, na maioria das vezes, pelo menos.
Conversava sobre qualquer assunto comum com April quando , e entraram pela porta da cozinha com expressões assustadas e engraçadas no rosto.
- Quem são esses amigos do Chris? – perguntou dando um selindo em e sentando-se entre ela e April.
- Ninguém sabe. – respondeu sentindo o cheiro de banho recente dele, aquela mistura de desodorante, sabonete e perfume.
Agora ele vestia calças jeans e uma camiseta vermelha escrito Coca Cola, ou melhor, death.
e a cumprimentaram e se juntaram ao grupo, que logo se desfez, já que o garoto angelical estava em plena bad trip; um pessoal da escola conversava sobre um pessoal da escola; Tony e April discutiam por qualquer motivo idiota; , e se ocupavam garantindo uma garota e e não tiravam as mãos e as bocas um do outro.
Só tiraram quando abriu uma latinha de cerveja, que provavelmente tinha sido arremessada no chão por algum infame, e ela agiu como um chafariz bem em cima da cheirosa camiseta vermelha de .
- Puta que pariu! – Ela xingou levantando-se rápido para tentar conter os estragos. também se levantou, estava fedendo a cerveja agora. – Desculpa, . – falou tentando limpá-lo com um pano de prato que surgira em sua mão.
- Tudo bem, , relaxa. – Ele respondeu parecendo não ter ligado para o incidente.
- Vamos lá em cima pegar uma camiseta do Chris. – Ela falou puxando-o pela mão.
Saíram da cozinha e passaram por aquele hospício que tinha se transformado a sala de estar da Sra. Miles. subiu aquelas escadas que eram tão familiares quanto as escadas da sua própria casa. Os quadros embolorados com gravuras de um velho Greenwich, o carpete rosa.
O andar de cima estava intacto, os junkies deviam estar tão chapados que não se deram conta da existência desses calmos cômodos a alguns metros deles.
caminhou até a última porta do corredor que escondia um quarto com cheiro de maconha e desodorante masculino. Uma luminária com uma gosma roxa flutuando dentro dela iluminava precariamente o quarto que tinha uma cama com um edredon vermelho amarrotado por cima, uma escrivaninha com um lap top Mac e aquários apoiados. Muitos aquários. Chris não gostava apenas de pílulas e outros entorpecentes, ele também amava seus peixes, que eram os mais loucos pois ele jogava restos de baseado nos aquários.
Aqueles peixinhos dourados tinham histórias para contar.
entrou no banheiro e passou água na própria camiseta enquanto pescava roupas novamente. Seu armário era impecável perto do de Chris. Tirou de lá essa camiseta branca dos Maccabees e a levou até o banheiro.
fazia tudo errado e estava se molhando mais do que se limpando.
Automaticamente, fechou a torneira e tirou a camiseta do garoto que entendeu errado sua intenção de limpar a peça de roupa.
Aquele pequeno mal entendido poderia ser proveitoso.
aproximou-se da menina, prendendo-a entre suas pernas e a pia. Ela deixou a camiseta cair no chão e entrelaçou as pernas em sua cintura enquanto suas mãos pressionavam sua cintura e suas línguas se pressionavam.
Ela sempre conseguia o que queria.
As mãos de tiraram sua jaqueta e depois passearam por dentro de sua camiseta, as suas passeavam pelo seu peito e desciam até seu cinto. Ele a carregou até a cama fofa com o cheiro de Chris e aquilo incomodou a garota, mas ela tentou ignorar aquelas lembranças.
tirou sua blusa e beijou sua barriga até chegar ao seu pescoço, dando-lhe agradáveis calafrios.
- Eu quero muito isso. – Ele falou baixinho perto de seu ouvido.
- Eu também.
O cinto e a calça de foram rapidamente retirados; as mãos dele tentavam abrir o zíper da saia, que só saiu quando mesma a tirou. puxou suas tights e ela pensou que elas poderiam rasgar e nem ligou.
Ele tinha acabado de abrir seu sutiã quando a porta se abriu deixando luz e barulho entrar. Os dois se cobriram rapidamente, vendo Tony e uma garota que não era April entrarem se beijando famintamente.
- Tony! – gritou mais chocada com o fato dele ser cara de pau ao ponto de trair a namorada com a mesma na casa do que com o fato de ter sido interrompida naquele momento supostamente perfeito.
Ele largou a garota que usava essa roupa de vadia rica e nem ao menos pareceu preocupado por ter sido pego.
- Desculpe, não sabia que estava ocupado. – Falou antes de sair.
ficou boquiaberta por alguns segundos, mas embrulhou-se no lençol laranja da cama de Chris e saiu atrás do menino em busca de satisfações.
O corredor estava lotado de gente e ela viu Tony e a menina se agarrando no fim dele.
- Dá licença. – Ela falou afastando Tony da morena.
- Que foi? Ficou com ciúmes? – Ele a provocou.
- Tony! A April está lá embaixo! – Ela falou ignorando a última pergunta. Tony não respondeu nada, apenas olhou para o nada. – Por que você tem que fazer isso? – Ela sentia-se irada. E poderia dar um murro em sua cara se suas mãos não estivessem ocupadas prendendo o lençol ao seu corpo. – Por que você tem que pegar todas as meninas que você vê pela frente? Se você precisa disso, por que você não termina com ela?
- Eu não termino com ela porque ela me ama e não consegue viver sem mim e eu pego todas as meninas que passam pela minha frente porque a que eu realmente quero pegar está na minha frente, mas eu não posso pegar!
- Você só me quer porque eu sou sua melhor amiga e melhor amiga da sua namorada, Tony! Assim você pode manter a sua fama de quem consegue qualquer uma!
- É por isso mesmo, mas também é porque você é gostosa.
Ele a secou de cima a baixo e depois desceu as escadas com as mãos nos bolsos a procura de uma nova garota para comer.
Tony não prestava, não prestava mesmo. Ela não se conformava.
Voltou para o quarto e bateu a porta. estava sentado na cama, esperando por ela e o que ela mais queria era estar querendo ele como estava há alguns minutos atrás, mas o ocorrido com Tony tinha tirado sua cabeça do lugar.
- O Tony é um filho da puta! – Ela desabafou e deitou-se ao lado do menino.
- Eu sei. – segurou sua mão e depois beijou seus lábios levemente antes de se levantar e começar a se vestir.
Ela nem sempre conseguia tudo o que queria.

Capítulo 7;

acordou ainda embrulhada no lençóis laranjas, mas deitada ao lado de Chris. Ele não acordaria tão cedo.
Vestiu suas roupas e caminhou até o banheiro, mas saiu de lá rapidamente ao ver um cara que ela nunca tinha visto na vida dormindo na banheira.
Passou pelo corredor já consertando os primeiros estragos: quadros, garrafas e latas no chão. Pendurou os quadros nas paredes e juntou o lixo, levando-o para baixo.
Uma parte do corrimão estava quebrada e e pareciam tentar colá-la sabe-se lá com que tipo de cola. Ela não tinha conhecimento de cola nenhuma que colasse um desastre daqueles.
- Bom dia! – Ela falou chamando a atenção dos garotos.
sorriu feliz e largou segurando a cola e os restos de madeira para lhe dar um beijo.
- Bom dia! – respondeu beijando-a mais uma vez e fitando-a como se fosse a primeira vez.
- Está bom, ! Você já deu bom dia para ela, vem me ajudar! – reclamou quase colando ele mesmo a escada. – Bom dia, ! – Ele falou num tom bem mais doce.
- Bom dia, ! – Ela respondeu ainda sem tirar os olhos dos de .
Era como se só o que ela soubesse fazer fosse encarar aqueles olhos.
voltou a ajudar o amigo e se juntou a April, e na outra sala. Eles tentavam limpar uma parede que tinha sido pichada.
Pois é.
Eles esfregavam a parede que costumava ser branca com esfregões e esponjas, mas só o que conseguiam era espalhar mais a sujeira.
- Como deixaram isso acontecer?
- O Chris falou que era arte. – April respondeu largando seu esfregão e sentando-se no chão. Parecia exausta.
tentava olhar a “obra de arte” por todos os ângulos possíveis, mas de maneira alguma imaginava aquele “fuck” numa letra distorcida arte.
- Faz quanto tempo que vocês estão tentando tirar isso?
- Acho que uma hora. – respondeu enquanto limpava e dançava com os fones do ipod nos ouvidos.
- O que mais tem de quebrado?
- Além do ar? – April perguntou já sem paciência para nada. respirou fundo e sentiu aquele cheiro de maconha misturado com cheiro de gente. Horrível. – Derrubaram várias coisas no sofá... – Ela apontou um sofá bege com manchas marrons. – O Chris se pendurou no lustre... – olhou para onde costumava ficar o lustre, mas só viu seus restos no chão. – Acho que só, o resto é só sujeira mesmo.
arrumou um saco de lixo e começou a recolher todo tipo de lixo que havia na sala. Era muito. Em pouco tempo o saco estava transbordando. Carregou-o até a lixeira no jardim atrás da casa, dando de cara com Tony consertando as espreguiçadeiras da mãe de Chris.
Desviou seu olhar pois não tinha vontade de falar com ele e nem mesmo vê-lo.
- . – Ele largou tudo e se levantou quando ela já voltava para dentro. – A gente pode conversar? – Ela fechou os olhos e colocou a mão na cabeça.
Era melhor resolver aquilo logo.
- Que foi, Tony? – Perguntou cruzando os braços e fechando a cara.
- Eu queria me desculpar por ontem. – Até quando pedia desculpas ele era arrogante. – Eu não estava sóbrio e não devia ter te falado aquelas coisas. – O garoto olhou para o lado. – Porque mais importante do que a vontade que eu tenho de te agarrar é ter você como amiga.
não conseguiu conter a risada, já que o sempre confiante Tony parecia extremamente desconfortável.
- Esquece essa história de agarrar, tudo bem? – Ela perguntou juntando suas mãos. – Eu ou qualquer outra garota que não seja a sua namorada.
Ele balançou a cabeça afirmativamente, mas tinha a impressão de que Tony não mudaria nunca.
- Quer me ajudar? – Ele perguntou apontando para as espreguiçadeiras de madeira desmontadas.
- Claro.
Depois que eles deixaram a casa de Chris mais habitável, expulsaram o cara da banheira e cada um foi para sua casa. Estavam todos exaustos por causa da festa e dos trabalhos forçados de restauração.
tinha ido embora mais cedo ainda porque precisava levar um cd demo para uma gravadora no centro da cidade.
abriu a porta de sua casa sentindo-se mal e culpada porque tinha esquecido de alimentar Nell no dia anterior. A cadela veio correndo até ela, como sempre.
- Desculpa, Nell! – Ela falou acariciando a cocker e correu para a cozinha atribuindo porções extras de ração ao prato amarelo de Nell.
Tomou um pavoroso iogurte de nozes que ela jogou no lixo antes da metade por ser absolutamente nojento.
Quem tinha comprado aquela merda?
Subiu as escadas com o corpo cansado e dolorido e antes mesmo que pudesse pensar sobre os últimos acontecimentos, encontrou sua cama e apagou.
O sol ainda estava forte quando acordou ouvindo o barulho de alguém batendo na porta. Espreguiçou-se com preguiça (por mais redundante que isso possa soar) torcendo para que o barulho fosse apenas um sonho ou então a televisão.
Não era nenhum dos dois.
Viu Chris pelo vidro da porta.
- Oi! – Ela falou feliz ao abrir a porta e encontrá-lo acordado e não dopado. Reparou que ele usava sua imensa mochila comprada para uma eventual viagem como mochileiro pela América Central. Tinha uma cara péssima. – Está tudo bem, Chris?
- Posso passar um tempo aqui na sua casa? – Ele perguntou e ela se deu conta de que ele estava totalmente diferente do Chris que ela conhecia.
Estava sóbrio, limpo, talvez com um pouco de ressaca.
- Claro. – Ela falou abrindo espaço para que ele entrasse e imaginado se sua mãe tinha chegado de surpresa e ficado brava demais por causa da nova decoração da parede da sala. Junto com o lustre e o corrimão, era o que eles não tinham conseguido consertar.
Chris soltou a mochila no chão e reparou nas garrafas lotadas de peixes em suas abas.
Ele sentou-se no sofá e apoiou o rosto nas mãos.
sentou-se na mesinha de centro, ficando em frente ao menino. Não sabia o que fazer. Não sabia como agir com um Chris que não estava absolutamente alegre ou chapado.
- Eu não fui totalmente honesto com vocês. – Ele falou olhando-a nos olhos. Seu cabelo estava penteado para o lado e não para cima, como normalmente. pegou nas mãos dele. – A minha mãe não foi viajar, ela foi embora.
- Como assim? Ela foi embora? Para onde ela foi?
- Não sei. – Ele parecia perturbado. – Acordei ontem e achei o dinheiro dentro de um envelope que simplesmente dizia que ela voltava daqui a algumas semanas, mas depois eu fui até o quarto dela e estava tudo vazio. Gavetas, armários... tudo.
abraçou o amigo sem acreditar que a mãe dele pudesse ter feito aquilo.
Ela sempre teve seus problemas, principalmente com a bebida, e nunca tinha sido a melhor das mães; não ligava muito para o fato de seu filho ter se transformado em um dependente de pílulas para esquecer sua ausência durante toda a sua vida.
- O que você vai fazer agora? – Ela estava aflita. Aflita porque Chris estava sozinho no mundo. – Sem pai, sem mãe.
Ela falou sem pensar e se arrependeu na mesma hora. Chris não precisava de ninguém para lembrá-lo daquilo.
Os pais de estavam no Peru, mas ela falava com eles diariamente e sabia que se algo desse errado, poderia recorrer a eles. Chris estava numa situação totalmente diferente.
- Desculpa.
- Eu tenho pai. - Os olhos de se arregalaram. Desde que ela conhecia Chris, ela sabia que era apenas ele e sua mãe. Seu pai nunca tinha sido citado, nem nenhum outro membro da família. – Ele foi embora quando a minha mãe começou a beber.
Ela abraçou Chris que estava prestes a desabar em sua frente.
- Você sabe onde ele está?
- Ele mora perto de Canary Wharf.
- Então a gente tem que ir falar com ele.
- Não acho que seja uma boa idéia. – Ele piscou e olhou para o chão. – Bom, eu só queria sair de casa por alguns tempos.
ajudou Chris a se instalar no quarto de hóspedes, arrumando aquários improvisados com refratários de cozinha para os peixes e pendurando um pôster dos Maccabees na parede acima da cama dele. Ela até lhe deu uma de suas ovelhinhas de pelúcia, como uma espécie de presente de boas vindas.
Ele estava quieto, não só por não estar falando mais do que monossílabos, mas também por que seu corpo estava quieto. Toda a agitação e energia de sobra que ele sempre teve tinham sumido. não sabia se era por causa da partida de sua mãe, da ausência de drogas ou uma mistura dos dois.
Uma hora depois eles estavam em frente a essa casa com o jardim impecável, a pintura impecável, numa rua impecável.
Era a casa do pai de Chris.
- Acho que a gente deveria ir embora. – Chris falou apreensivo, suas mãos estavam no bolso e seus pés balançavam seu corpo para frente e para trás.
tocou a campainha ignorando o amigo. Os dois sabiam que precisavam tentar.
Uma mulher loira de meia idade abriu a porta com um pano de prato na mão. A primeira pessoa que viu foi e não a reconheceu, mas depois seus olhos pousaram em Chris.
- Own, Chris! – Ela se surpreendeu, mas parecia feliz. Aquilo era um bom começo. – Que surpresa!
Chris olhava para o chão; parecia mais problemático do que nunca.
- Oi! – estendeu sua mão a mulher. – Eu sou , amiga do Chris!
- Prazer, eu sou Katherine, madrasta do Chris.
- Meu pai está ai? – Chris finalmente falou.
- Ele está no trabalho, mas deve chegar logo. Vocês não querem entrar?
- Não, a gente volta mais tarde.
- Tudo bem, a gente espera! – falou já entrando na casa e puxando Chris pela mão.
Katherine os levou até uma sala decorada com móveis clássicos que poderia fazer parte de um livro da Agath