
Black Tie Holiday
Autora: Bah Freitas
Beta: Sweet Caroline
Prólogo
Encostei-me no parapeito da sacada e olhei as luzes da cidade. Inevitavelmente, minha vida passou como flashes em minha cabeça. Nunca poderia imaginar que algum dia poderia me sentir tão doce e verdadeiramente amada por alguém. Um amor que não cobra nada, simplesmente se dá.
Nem mesmo o amor de meus pais ou o carinho daqueles a quem chamo amigos jamais tivera um efeito tão imensurável sobre mim, quanto ao que ele demonstrava sentir. Ninguém nunca me mudara tanto quanto ele havia feito. Acho que ao menos uma vez na vida, tenho idéia do que é a verdadeira felicidade. Sinto com todo o meu coração que nunca deixaria nada, nem ninguém estar entre nós; pelo simples fato de acreditar que isso duraria pra sempre. Nós seríamos pra sempre.
Não pude evitar fechar os olhos e sorrir ao sentir suas mãos geladas encostando levemente em minha cintura e fazendo um lento caminho por minha pele até minha barriga; causando um choque térmico que me arrepiou completamente. Senti mais uma vez seu perfume embriagante - o que havia se tornado um dos meus maiores vícios - quando os seus lábios tocaram delicadamente minha nuca e seu corpo se aproximou do meu, acabando com qualquer distância entre nós. Como isso não poderia ser pra sempre?
01
Olhei para o espelho e me conferi mais uma vez. Já estava atrasada para a festa beneficente que Sarah Bealcout estava oferecendo no Pallace, um dos salões de festa mais caros de Londres.
Eu sempre soube que esta festa seria apenas mais uma jogada de marketing e falsa solidariedade que uma das mulheres mais poderosas do Reino Unido estava oferecendo, para mascarar uma pose de senhora bondosa que se importa com os sem-teto. Mas com certeza era apenas uma desesperada tática de atrair mais uma vez os holofotes da mídia. Todos os convidados foram meticulosamente escolhidos: cineastas, artistas e somente pessoas de alto poder aquisitivo que possuem alguma influência na sociedade. Sarah era uma das melhores amigas de minha mãe, logo, eu não poderia deixar de ir.
Minha mãe era a sucessora da gerência da Charpentier, uma linha mundialmente famosa de maquiagem, junto a meu pai - quem Tomava a maioria das decisões por ela. Por viverem ocupados com as várias reuniões de negócios pelo planeta e divulgações dos produtos, eles nunca foram o que se pode chamar de pais presentes. Desde pequena sempre nos víamos somente aos feriados. Isso quando ainda morávamos na França, onde, por ser menor de idade, eu vivia com a minha avó. Cresci sem a presença deles e sempre que estavam por perto, me arrastavam para reuniões sociais e festinhas que as madames egocêntricas da High Society realizavam.
Quando fiz dezoito anos, cansei de morar em Paris com minha avó e me mudei para a Inglaterra, em busca de um lugar em que finalmente me sentisse completa. Como se eu pertencesse a ele. Mas mesmo em outro país e morando sozinha numa cobertura que aluguei em um dos edifícios de um bairro nobre, minha mãe continuou me obrigando a participar dos eventos sociais. Dizia ela que era bom para o renome da empresa os outros saberem que a família Charpentier era socialmente ativa. Com o tempo, acabei me acostumando com os holofotes, paparazis e aparições em jornais e revistas. Automaticamente, virei um tipo de socialite... Mas até que eu gosto disso. Na maioria das vezes...
Três anos se passaram desde que vim para a Inglaterra. Ainda moro sozinha, mas companhia é o que nunca me faltou, porque sempre tive muitos amigos. Admito que muitos eram falsos, que só estavam comigo para tentar ganhar um pouco de popularidade por associação. As únicas amigas que eu tinha certeza de sua lealdade eram , e Ivy Gibson. Estavam comigo desde que cheguei de mudança sozinha nessa enorme e desconhecida cidade. São aquelas pessoas a quem eu confiaria minha vida. E também são as melhores companhias para as festas chatas.
Qualquer mulher no mundo daria de tudo pra ter uma vida de glamour, festas, bebedeiras, fama e cartão de crédito quase ilimitado. Isso sem contar estar na lista das 100 solteiras mais cobiçadas da Europa, segundo uma pesquisa feita pela revista sensacionalista Top of the Pops. Mas com o tempo, você percebe que tudo aquilo cansa. Você não agüenta mais tanto tédio e pessoas falsas puxando seu saco por um pouco de reconhecimento. Sem contar que é realmente entediante ser obrigada a sair sempre impecavelmente arrumada em publico. Se eu fosse clicada em um dia ruim e aparecesse igual àquelas americanas famosas em clínicas de reabilitação, minha mãe provavelmente enfartaria.
Apesar de estar solteira no momento, nunca estive realmente sozinha, se você me entende. Já fiquei com vários famosos e até namorei alguns, mas nunca me prendi a ninguém. Acho que ainda não encontrei aquele que me fizesse sentir as tais borboletas no estômago, suar frio, fazer com que meu coração batesse igual à uma bomba preste a explodir... Essas coisas bregas que sempre vemos nos filmes. Brendon Sullivan foi meu ultimo namorado, com quem terminei três meses atrás. O filho da mãe estava saindo comigo e dizendo estar apaixonado por mim ao mesmo tempo em que dormia com Giselle Levi, uma das minhas ex-platinadas-de-farmácia-melhores-amigas. Bem que me avisou que ela era uma vadia! Ingênua fui eu que não acreditei e ainda a defendia das acusações de .
Calcei meus sapatos peep toe vermelhos com uma fita que amarrava para trás e ajeitei meu vestido branco com rosas vermelhas e decotado, no meu corpo. Eu me apaixonei pelo vestido desde a primeira vez que o vi na vitrine. Ele tinha um tule por baixo, que ficava uma pontinha pra fora quando você veste, e uma fita grossa na cintura do mesmo tecido de cetim, que amarrava atrás.
Passei a tarde inteira na Claire Marie, meu salão de beleza preferido, e paguei uma nota preta apenas por um penteado e uma maquiagem. Mas valeu a pena. Meus cabelos estavam completamente jogados pro lado e ondulado nas pontas. A maquiagem estava simples, mas sofisticada. É, estava perfeito! Passei um pouco do meu perfume preferido Amor, Amor by Cacharrel, peguei minha bolsinha vermelha de mão, coloquei um casaco branco de pele sintética, para me proteger do nevoso inverno inglês, e segui em direção à limusine, que já me esperava na porta do edifício.
Mal desci da limusine e os flashes começaram a me cegar. Parei por alguns segundos no meio do tapete vermelho de entrada, fiz uma pose para os fotógrafos e rapidamente rumei em direção à porta. Como dizia minha amiga : O melhor a se fazer é parar e deixar eles te clicarem uma ou duas vezes; assim, pelo menos, você não sai mal nas fotos e nem passa por antipática diante das câmeras.
Dois homens de terno preto e incrivelmente altos me pararam na portaria.
- Boa noite, senhorita, poderia apresentar o convite, por gentileza?
- Ai, meu Deus, eu esqueci! - Disse com a mão na testa, após vasculhar minha bolsa em busca do convite e constatar que ele realmente não estava lá. - Mas não teria alguma lista de convidados? Meu nome com certeza está nela.
- Só um momento... - Disse o mais magro deles. O homem pegou uma prancheta que estava em uma mesinha próxima à parede e a olhou indiferentemente. Nunca entendo as caras que os seguranças fazem. Parece que eles olham pra você como uma espécie de penetra; tentam de tudo pra fazer você sentir medo de seu nome não estar na lista e passe a vergonha de ter de voltar pra casa com o rabo entre as pernas.
- Ah, sim! Bem vinda, senhorita Charpentier! - Ele disse, abrindo passagem pra mim com um sorrisinho amarelo no rosto. Segurançazinho abusado!
- Merci. - Dei um sorriso levemente antipático em retorno e entrei no prédio.
Havia um corredor enorme antes do salão principal. Olhei para cima e vi vários lustres de cristal pequenos e um acabamento perfeito de gesso nas bordas do teto. Nas paredes, havia um papel de parede dourando com preto que eu particularmente adorei. E no chão estava aquele mesmo tapete vermelho que havia do lado de fora.
- Boa noite, senhorita, há algo que eu poderia lhe providenciar por enquanto? - Perguntou um tipo de promoter engravatado que estava logo à frente do salão principal.
- Oui, s'il vous plaît. - Falei com um sorrisinho simpático no rosto. - Poderia checar se , ou Ivy Gibson já chegaram, por favor?
- Absolutamente...
Ele chamou o homem vestido com um terno preto de risca de giz, que estava um pouco mais à frente.
- George, poderia checar para a senhorita se , ou Ivy Gibson já estão aqui? - O outro homem olhou outra daquelas pranchetas igual à dos seguranças do lado de fora com aquela mesma cara impassível.
- As senhoritas e Gibson já estão aqui. - Disse George, fechando a prancheta com um estalo.
- Obrigada pela informação! Bonsoir messieurs! - Acenei para ambos e entrei na festa.
Se eu já havia gostado da decoração do corredor de entrada, estava deslumbrada com o salão principal. O teto era decorado com detalhes em gesso, alguns anjos pintados como se estivessem em um céu de ouro maciço e bem no centro havia um enorme lustre de cristal. Nem consigo estipular um preço para aquele lustre! Nas paredes havia daquele mesmo papel de parede preto e dourado e algumas pilastras. Tinha esculturas de mármore em vários lugares e muitas mesas com comidas e bebidas decoradas com balões de corações vermelhos em lugares estratégicos - decoração meio que clichê demais para o dia dos namorados. Particularmente, eu adorei a cascata de champagne do centro, era enorme! Não sei como aquelas taças ficavam enpilhadas de forma que não caiam uma sobre as outras. Imagino o estrago que faria se tudo viesse abaixo.
- ! - Ouvi um grito histérico atrás de mim e nem precisei me virar pra saber que era... Ivy e ! Não há como não reconhecer a voz delas.
- Ei, meninas! - Abracei a cada uma. - Estava procurando por vocês. Há quanto tempo chegaram?
- Sei lá, mais ou menos uma hora... Não faz muito tempo. - Respondeu Ivy dando de ombros e pegando um Martini da bandeja, que um garçom passando pela gente segurava.
- Hum, eu acabei de chegar... Ainda bem que logo encontrei vocês! - Falei aliviada pegando outro Martini da bandeja do garçom gostoso. - Ninguém merece ficar criando raízes sozinha aqui.
- E a ? Você viu ela, ? - Perguntou , olhando para os lados, procurando por .
- Não... Acho estranho ela não ter chegado ainda. Ela sempre foi a que mais gostava dessas festas espalhafatosas. - Respondi, também olhando para os lados, procurando por nossa amiga desaparecida.
- Gente, olha a Leona Davis ali! - Gritou de um jeito nada discreto. - O que ela está fazendo aqui?! - Perguntou incrédula.
- Que eu saiba ela não se importa com causas sociais... - Falei, dando de ombros e balançando levemente meu Martini.
- Lógico que essa oxigenada não se importa! - Concluiu Ivy, rolando os olhos e enrolando os cabelos ruivos com o dedo. - A única coisa que importa pra ela é estar na mídia, querida!
- Aff! Eu odeio essas pessoas que se fingem de santas caridosas só pra aparecer... - Murmurei, olhando pra minhas amigas. - Eu acho que ela ganharia muito mais se saísse bêbada e sem calcinha de novo por aí, ao invés de pagar de solidária numa festa beneficente de uma das velhinhas amigas da minha mãe.
Nós três rimos disfarçadamente e viramos a cara ao mesmo tempo que a garota percebeu que estávamos falando dela.
- Disfarça! - Cantarolou Ivy enquanto controlava a risada. - Gente, olha ali: a finalmente chegou. - Todas olhamos pra entrada do salão, onde nossa amiga pródiga estava conversando com o promoter.
Ficamos paradas esperando se aproximar. estava linda. Poucas vezes a vi tão arrumada quanto hoje. Ela estava calçando um sapato preto com um salto enorme, uma meia calça de renda florida e um vestido tomara que caia de tule também preto.
- , pensamos que você nem vinha mais! - Disse, enquanto a abraçava. e Ivy também a cumprimentaram em seguida.
- Eu também pensei que não ia chegar aqui hoje! - Falou pegando uma taça de vinho de outro garçom, que passou por nós. - A limusine pegou um engarrafamento enorme na Oxford Street!
- Hm... Não passei por lá. - Murmurei, bebericando minha bebida que já estava chegando ao fim.
- Nem eu... - Comentou Ivy. - O Jeofrey passou pela Marylebone Road, que por acaso estava anormalmente vazia.
- Esses saltos estão me matando! - Reclamei - Vamos procurar algum lugar pra sentar?
- Ótima idéia! Já estou cansada de ficar em pé. - Disse , aliviada.
Logo, avistamos uma mesa vazia perto da sacada, que era uma grade área aberta com vista para a cidade, e fomos nos sentar.
Ficamos nos consumindo pelo tédio no mínimo umas três horas. Meus pais já haviam chegado e estavam sentados numa mesa com a anfitriã da festa, que só sabia comentar do quanto gastou com toda a ornamentação. estava bebendo sua quarta taça de vinho, o que explicava o fato de ela estar mais pra lá do que pra cá. Ivy saiu um pouco de perto de nós pra fazer companhia a Chance, o namorado dela que havia chegado de uma viagem ao País de Gales, e estava com a mesma cara de tédio que eu. Nós duas preferimos comer ao invés de beber. Na maioria das vezes, pelo menos - ao contrário da nossa amiguinha bêbada .
- ! Não acredito que você vai beber mais ainda, esse vai ser o quinto copo! - Murmurou baixinho , quando pegou outra taça de uma bandeja.
- Ai, ! Eu tô bem. Sério... Você sabe que eu sou forte com bebida. - Respondeu rolando os olhos. Mas era como estivesse escrito “bêbada” na testa dela.
- Sei... - Murmurou ironicamente. - Você vai continuar bebendo e provavelmente dar algum vexame. Como daquela vez que você ficou tão mal, que pegou um dos seguranças no fim da inauguração da Harveys Nickols! Você vai acabar percebendo que... - À essa altura eu já nem prestava mais atenção no sermão que estava passando em . Meu olhar vagava por aí, observando cada uma das pessoas presentes. Percebi alguns rostos famosos. A maioria eram aqueles que estavam envolvidos nas últimas grandes polêmicas. Ninguém que valesse a pena conhecer... Ou não!
Passou mais um garçom segurando uma bandeja de Martinis. Peguei minha terceira taça da noite e voltei meu olhar para o salão. Foi aí que percebi que alguém estava me observando à direita da nossa mesa. Quando nossos olhares se cruzaram, ele mordeu o lábio inferior e olhou rapidamente para o lado, fingindo estar em uma conversa superinteressante com um dos amigos sentados com ele. Como eu não o havia percebido antes?! Aquele homem conseguiu prender minha atenção... Ele era incrivelmente lindo e eu tinha uma leve impressão de já o ter visto em algum lugar, só não me lembava onde. Continuei encarando por algum tempo até que ele voltou a olhar pra mim. Estava tão dispersa, tentando lembrar onde tinha o visto, que nem percebi que estávamos olhando fixamente um para outro. Quando dei por mim, instintivamente abaixei o olhar e poderia jurar que estava corada. Olhei de relance disfarçadamente e o vi dando uma risadinha tão fofa que me deu vontade de ir lá e apertar as bochechas dele. Quem seria esse homem com olhos tão hipnotizantes?
Ficamos trocando olhares por um bom tempo, uma vez ou outra ele sorria quando nossos olhos se cruzavam. Eu devia estar incrivelmente vermelha, mas sempre retribuía. Havia alguma coisa nele que me puxava, como se ele fosse uma espécie de imã e eu precisasse desesperadamente chegar mais perto. Outro cara de uns 38 anos no máximo chegou perto dele e dos amigos dizendo algo que eu não consegui distinguir. Todos da mesa concordaram com o que ele disse, largaram suas taças e se levantaram. Ah não! Não! Ele estava indo embora e eu ainda nem sabia seu nome! Eu precisava ficar mais algum tempo com ele! À medida que eles se afastavam, me levantei repentinamente da mesa e fiquei em pé observando eles cruzarem a porta de saída, ignorando os olhares confusos de e . Antes de passar pela porta, ele olhou para trás e nossos olhos se cruzaram pela última vez, o que me fez estremecer e lentamente voltar a sentar na cadeira.
- O que houve, ? - Perguntou , estalando os dedos na minha frente me tirando do meu transe momentâneo.
- O que você disse? - Voltei à realidade, piscando os olhos várias vezes. - O que disse, ?
- Você levantou de repente, ! Viu alguém conhecido? - Perguntou , dando uma olhada ao redor, procurando o suposto “alguém”.
- Não... Não! Eu só... - Balbuciei, tentando achar as palavras certas. - Eu vi alguém que achei que conhecia...
- Ah, tá... - disse dando de ombros e voltando a conversar com .
O tédio agora havia dobrado. Perdi um homem muito gato que vi pela primeira vez, - talvez a última - não sei nem o nome dele e agora começou a tocar aquelas músicas que todos os vovôs do mundo inteiro apreciam.
Não demoramos muito para ir embora; quando Ivy apareceu falando que estava indo embora com Chance, todas resolvemos ir para casa também. Que bela maneira de se passar o dia dos namorados, : mais uma vez sozinha e entediada.
02
O sol e a brisa gélida da manhã invadiram a janela do quarto, batendo diretamente em meu rosto. Grunhi em reprovação, me virando para o outro lado para tentar me proteger da luz intensa. Enrolei-me mais ainda em meu cobertor ao sentir mais uma vez o vento frio do fim de inverno. Estreitei os olhos e olhei para o relógio encima do criado mudo. Hm... quatro horas da tarde. Normal para um horário que eu acordo. Mas também era esperado que, levando em conta que ontem fui para a cama pela manhã - 5 e meia da madrugada, sendo mais exata -, eu acordasse tão tarde. Cheguei tão exausta da festa de ontem que nem tive o trabalho de tirar a maquiagem, me joguei em cima da cama, logo dormindo de vestido e salto alto mesmo. Aninhei-me novamente entre as cobertas e cobri a cabeça com um travesseiro tentando dormir mais um pouco. Nem cinco minutos se passaram quando fui interrompida pelo toque do meu celular. Sentei relutante em minha cama king size e procurei pelo telefone, tateando em volta do colchão. O toque estava vindo debaixo do travesseiro, então enfiei a mão por baixo deste e o tirei de lá já abrindo o flip do aparelho. Já podia até adivinhar quem seria...
- Querida! Como é difícil falar com você! - Mamãe disse com a voz estridente e levemente irritada do outro lado da linha.
- Oi, mãe... - Suspirei com a voz embargada e esfregando a mão em punho nos olhos. - Você é incrivelmente tão previsível!
- Eu previsível?! Você que é previsível, ! Aposto que bebeu igual um gambá ontem na festa dos Bealcout, ficou de agarramento com um pé rapado qualquer por aí e estava dormindo até agora! Você não esta com alguém no quarto, está, querida? - Sua voz se tornou um sussurro.
- Não, mãe! - Balancei a cabeça, tentando acreditar que minha mãe não tinha me perguntado isso. - E eu não bebi ontem. - Não muito, pelo menos...
- Nossa! E além de ter sido totalmente anti-social por não ter nem cumprimentado seus pais, ou Sarah e Geofrey, ainda sai solteira. Mais uma vez! E isso porque era dia dos namorados. Você tem tomar um jeito na vida, querida.
- Ai, mãe! Até parece que eu tenho que me desesperar pra arrumar um homem... - Rolei os olhos. Odiava quando minha mãe insista com esse assunto. Ela era meio que neurótica com os meus relacionamentos.
- Mas, querida! Os milionários de hoje em dia estão em busca das meninas mais novas. Você precisa ser esperta e agarrar logo algum! O mercado masculino está em crise, !
- Mãe! Eu só tenho 21 anos, eu não estou velha. - Eu não estou mesmo! Odeio pensar que os anos estão passando. Bem que dizem que depois dos 18 a vida voa diante dos seus olhos... - E eu não preciso me desesperar pra arrumar um homem, mãe. E quem disse que eu estou querendo algum nesse exato momento?!
- , querida, você é jovem, bonita e deve aproveitar a melhor época da sua vida. - Ela se calou por alguns segundos, parecendo pensar em alguma coisa. - Já sei! Eu preciso te apresentar o filho mais velho da Sue. Ele fez direito em Cambridge e...
- Mãe, não! Nós não estamos tendo essa conversa e eu não quero que você continue me empurrando para os filhos almofadinhas das suas amigas. Já foi demasiado constrangedor das outras vezes que tentou fazer isso.
- Okay, mas só não se esqueça que você não viverá nessa mordomia para sempre, mocinha. Você bem sabe que a economia mundial está em crise e os negócios da fábrica já não vão tão bem quanto antigamente... Só pense no seu futuro! - Cuspiu com um tom de voz mais alto e ríspido que o normal. - Mas o que eu realmente queria falar, é que achei algo que vai mudar a sua vida. - Agora sua voz voltou ao tom animado de sempre.
Lá vem minha mãe com as idéias dela... Da última vez que me veio com algo para “mudar minha vida” ela disse que rapel era a nova moda e me mandou por duas semanas para a Nova Zelândia, onde fiquei escalando montanhas enormes o dia inteiro, embaixo de um sol escaldante. Tudo que consegui foram câimbras pelo corpo, cinco picadas de abelha, duas semanas sem dormir e um braço quebrado. Mas pelo menos fiquei com um bronzeado legal...
- Lá vem você de novo. - Bufei e me joguei na cama.
- Vamos pintar o cabelo. Isso! Já não agüento mais ver você com esse cabelo cor de burro quando foge.
- Eu não quero pintar o cabelo. - Reclamei, pegando uma mecha dos meus fios sedosos e procurando algum defeito na coloração.
- Mas querida, é pelo seu bem. Você vai ficar linda. Semana passada a Rachel, nossa ex-vizinha, fez mechas loiras ultra claras no cabelo, você não imagina o quanto ela está mudada. Disse ela que as pessoas passaram a olhá-la de um jeito totalmente diferente.
Claro! O que alguém iria pensar de uma senhora de 48 anos com o cabelo cor de areia andando pela rua?
- Eu gostei tanto que até marquei um horário pra nós duas na Pabblo’s hoje, ás 17 horas. Você tem uma hora para levantar dessa cama e se arrumar decentemente.
- Mãe, eu não vou pintar o cabelo! Eu gosto da cor dele! - Rolei os olhos, batendo nervosamente os dedos nos joelhos. Por que ela não desliga logo e pára de fingir que se importa tanto comigo?
- Querida você vai se sentir totalmente nova. Que cor você vai pintar? Eu estava pensando em pintar o meu com algumas mechas alaranjadas e...
Por Deus! Uma coisa que ninguém merece é quando minha mãe inventa alguma coisa. Ela nunca desiste, chega a ser irritante.
- Mãe, mãe, chega! Eu tenho que desligar. O leite tá fervendo lá na cozinha.
- Mas, filha, você não tem uma empregada para cozinhar pra...
- Tchau, mãe. - Cantarolei e desliguei o telefone. Aff! Bufei e olhei ao redor do quarto. Ainda estava arrumado do mesmo jeito que Consuelo havia deixado desde a última vez que veio dar uma faxina. Olhei para o espelho que ocupava metade da parede em frente à cama e constatei que eu estava um lixo. Meu cabelo parecia ter criado vida própria da noite pro dia, o vestido caríssimo estava completamente amassado, meu rosto estava todo borrado com as manchas avermelhadas do batom pela boca e os olhos com manchas pretas ao redor, dando a impressão que eu parecia um panda.
Precisava urgentemente de um banho. Entrei no banheiro da suíte e comecei a tirar os grampos do cabelo... Preciso arrumar algo para fazer hoje à tarde. Talvez vá fazer compras com alguma das meninas, ao shopping ou simplesmente passe a tarde toda enfurnada em casa vendo algum filme no home teather. Nada diferente da minha rotina normal.
Tomei um banho, lavei o cabelo e vesti alguma roupa quente. Preciso comer alguma coisa, estou com tanta fome que poderia comer uns cinco Woopers do Burger King. Decidido, vou ao Burger King!
Os dias se foram mais rápido que o normal e eu nem me dei conta disso. Passei a maior parte deles fazendo compras no shopping, no apartamento de alguma amiga conversando sobre coisas banais, enfurnada em um salão de beleza ou criando mofo em casa mesmo. Minha mãe realmente havia feito luzes alaranjadas naquele dia, mas depois que papai disse que ela parecia uma abelha gigante, acabou desistindo e repintando o cabelo da cor original. Eu já imaginava. Os planos de estilo de vida dela, na maioria das vezes, fracassavam. Ela costumava achar que mudar a cor do cabelo ou começar a fazer algo que você não é habituada, poderia mudar o que você é. Provavelmente ela anda estressada por trabalhar demais... Naquele mesmo dia depois da festa beneficente, ela e papai viajaram novamente para Califórnia afim de resolver alguns problemas da nova campanha publicitária. Já percebi que não vou vê-los até o próximo feriado. Como sempre.
Na sexta feira, e eu passamos o dia inteiro no loft da , aproveitando que ambas estavam de folga do emprego na editora. Ficamos o tempo todo conversando bobagens e planejando nossa roupa para o Brunch que uma gravadora estava oferecendo no domingo de manhã. Não sei porque, mas como sempre, fomos convidadas. Acho que a Ivy tinha contato com algum dos músicos. Ah, não importa... O evento seria no próprio prédio da gravadora e eu fico imaginando se teria algum tipo de salão de festa ou pelo menos um espaço grande pra caber os convidados.
Para ser sincera, essa festa nem estava passando pela minha cabeça. O convite chegou segunda-feira passada, mas desde então eu nem pensei mais sobre isso. Foi só hoje que as meninas me lembraram que seria daqui a dois dias. Mas a única coisa que passou insistentemente por minha cabeça durante o mês inteiro foram os olhos daquele homem da festa no Pallace. Eu nem sabia o nome dele para poder pesquisar! Atualmente o Google e um nome ajudam tanto a nossa vida... Eu não daria mais de 25 anos pra ele. Ele não parecia velho... Ele parecia... aquele tipo de garotões de Boybands sabe?
- ! - Levei um susto quando estalou os dedos na minha frente, tirando-me do meu devaneio interno. - Você tem andando muito estranha de uns tempos pra cá! Estou começando a ficar preocupada com você.
- É mesmo, . Você vem estado muito avoada. A gente fala com você e parece que nem está escutando. - Retrucou , largando a revista de fofoca que estava folheando em cima da cama e cruzando os braços sobre o peito. - Nós te conhecemos o suficiente pra saber que tem alguma coisa te perturbando. É algum homem que você não contou pra gente, ?
Às vezes eu odeio o fato de minhas amigas me conhecerem tão bem a ponto de saberem até o que passa por minha cabeça.
- Erm... É. Mais ou menos isso... - Murmurei, mordendo o lábio inferior e me sentando na cama perto delas. - Sabe, desde aquele dia da festa no Pallace teve um cara que me chamou a atenção...
- Mas isso já faz séculos, . - Riu , rolando os olhos. - E você nem nos contou nada ainda.
- Mas como eu poderia contar pra vocês se eu nem ao menos sei o nome dele! Mas alguma coisa me diz que ele é famoso ou eu já o vi em algum lugar...
- Hm... Quem será a próxima celebridade da vez, ? - rebateu, levantando uma sobrancelha com um sorrisinho divertido.
- Ah... bem que eu queria saber e...
- A gente tá na revista! - me interrompeu, gritando e balançando a revista freneticamente. - Estamos na coluna social! Na coluna social!
- Sério, ? - Perguntei com sarcasmo. Já estava acostumada a sair nas colunas sociais de revistas e jornais. E elas também... - O que inventaram da gente dessa vez? - Perguntei, me espichando para ver a página também.
- Dessa vez nada... É só uma foto sua e outra com nós quatro. São as fotos da festa beneficente... Olha o título: “Evento beneficente em prole dos desabrigados de Londres de Sarah Bealcout reuniu a presença de vários famosos”.
- Não…
- Que foi, ? Você saiu bem, como sempre, na foto! - Disse , olhando pra mim confusa.
- Não! Não é isso! - Falei com a mão na boca, mal podendo conter minha cara espantada. - É ele! É ele!
- Ãn? - continuou não entendendo. - Ele quem, ?
- O cara que eu falei pra vocês, ! - Disse, tomando o jornal da mãos dela e apontando pra foto em que ele aparecia com os outros três amigos.
- O quê?! Ele? - deu uma risadinha incrédula. - Você não sabe quem eles são, ?
- Não... Mas eu sabia que o conhecia de algum lugar! Eu sabia que ele era famoso!
- Que eu saiba, muito famoso, ! - Disse batendo as mãos nas coxas e me fitando com a expressão óbvia. - Nunca ouviu falar em McFly não?
- Eu... eu acho que já! Oh! São eles?! É ele?! - Me exaltei mais uma vez batendo a mão na foto.
- São... dãã! E esse tal do cara misterioso que você falou é só o ! - Falou , rolando os olhos e batendo a mão em punho na testa repetidas vezes.
- Hm... ... - Então era o nome dele... Eu definitivamente precisaria saber mais sobre isso. É nesses momentos que compreendo como um nome realmente pode ser útil de hoje em dia!
- E, acreditem, eles fazem parte da gravadora que está oferecendo o Brunch de domingo... - Falou , pegando um pedaço do chocolate que estava sobre o criado mudo.
- É mesmo... Eles são da equipe dos donos da gravadora. - Falou pegando também um quadradinho de chocolate.
Como eu amo minhas amigas! Tudo está tão certo agora! Eu vou ao Brunch, agarro o bonitão e tudo termina bem!
- , ele com certeza vai estar lá! - Disse , batendo palminhas - É sua chance de dar o bote.
- É mesmo, . Gente, imagina você saindo com o ! Que lindo. - Disse , apertando minhas bochechas. - Vocês iam ficar tão fofos juntos!
Okay. Eu nunca estive tão ansiosa pra uma festa desde que soube que ele seria um dos anfitriões. Eu preciso estar linda! Eu preciso planejar tudo! Tentei absorver as ultimas informações por algum tempo, antes de retomar o fôlego para falar de novo.
- Mas... e se ele for daqueles caras idiotas que só comem aquelas loiras-siliconadas-americanas-sem-cérebro e nem olhar pra mim? - Bufei, pegando também um pedaço de chocolate.
- Só mesmo o cara sendo gay pra dispensar você...
- Vai saber, . - Dei de ombros. - Beleza é algo muito subjetivo. Só depende dos olhos da pessoa...
- É, . Mas se os olhos dele te acharem sem graça, ele definitivamente precisa de óculos. - Riu .
Só minhas melhores amigas mesmo pra me animarem quando eu começo com as minhas encanações.
O resto do dia passou não tão rápido quanto os últimos e quando eram oito horas da noite, as meninas inventaram de ir ao Chez Bruce - o bistrô que ficava na rua do prédio da - encontrar Ivy para contar as novidades. Eu gostava muito daquele lugar. Era muito lindo o ambiente. Tinha algumas mesinhas que me lembravam as dos bistrôs de Paris. Eu me sentia de volta à França aqui. Algumas luminárias ficavam suspensas em fios e uma bandinha sempre tocava ao fundo na área interna. A única iluminação eram as velas das mesas. O que dava um clima muito romântico ao lugar.
Encontramos Ivy e eu nem precisei falar nada, porque e se empolgaram contando sobra a nossa nova “descoberta”.
- O quê?! Vocês tão falando do ?
Elas balançaram a cabeça afirmativamente.
- O , amigo de banda do ?
Elas continuaram concordando.
- Você conhece, Ivy? - Perguntei curiosa.
- Bem... conheço. - Disse, batendo nervosamente os dedos contra a mesa de madeira. - Um deles já foi meu ex-namorado... - Murmurou.
- Quem? ? - Torci meus dedos por baixo da mesa com esperança que este não tivesse sido .
- É. - Disse baixinho e misturando seu suco com o canudo.
Suspirei aliviada discretamente.
- E por que vocês terminaram? - Indagou curiosa.
- Não acredito que ainda não contei pra vocês essa história! - Disse Ivy abrindo e fechando a boca várias vezes com a testa enrugada. - Foi uma das épocas que mais marcaram a minha vida...
- Pois não contou, senhorita Gibson! E vai tratar de contar... - Falou , se recostando na cadeira, como que se preparando pra uma longa conversa.
- Bem, foi tudo mais ou menos assim: há uns quatro anos atrás eu passei uma temporada de férias na Irlanda. Vocês sabem, férias de inverno, dia de Saint Patrick, Irlanda, bebida liberada o dia inteiro... Eu sinceramente não sei o porquê da Inglaterra não ter o dia de São Patrick como um feriado nacional...
- Mas é um feriado nacional... - Comentei.
- É? - Ivy perguntou ainda com a testa franzida.
- Que eu saiba é feriado em toda a Grã Bretanha... Ou seja, é aqui também.
- Então porque não comemoramos como os Irlandeses e enchemos a cara o máximo que pudermos? - Se exaltou batendo o punho em cima da mesa, o que chamou a atenção de todos a nossa volta.
- Não sei, acho que os britânicos não devem ligar muito. - Dei de ombros. - Mas continue contando, não tente fugir do assunto.
- Tudo bem... - Rolou os olhos. - Na primeira noite em um daqueles bares irlandeses, eu e o ... acabamos nos conhecendo. Foi aí que tudo começou. Eu conheci os amigos dele e tal... Mas nosso relacionamento não durou mais do que seis meses. - Seu rosto agora se fechou em uma máscara indiferente. - Ele vivia viajando por causa da banda e eu não aceitava isso.
- Oh. - Compreendi. Mas pelo que eu conheço Ivy, posso ver no brilho de seus olhos por trás da fingida indiferença quando fala dele o quanto ela ainda sente algo por .
- Mas nós ainda somos amigos. - Disse, curvando os ombros pra frente para apoiar os cotovelos em cima da mesa, olhando para o próprio suco. - Ele e os garotos estavam na minha festa de aniversário no fim do ano passado. Vocês deviam se lembrar deles...
Foi nesse exato momento que me lembrei de onde tinha visto o . Tenho quase certeza que deve ter sido nesta festa no fim do ano passado, mas eu ainda estava com o Brendon naquela época e, pra variar, provavelmente muito bêbada para me lembrar de qualquer um que visse naquele dia.
03
Odeio esse estress pré-festa-superimportante!
Bem... não é exatamente uma festa... é só um Brunch. Só vai ter pessoas tomando chá, conversando sobre qualquer barbaridade, comendo bolinhos e reclamando dos garçons. Mas mesmo assim estou tão nervosa que minhas unhas devem ter, no mínimo, perdido metade comprimento habitual de tanto que as roí.
Finalmente depois de ter passado o dia de ontem inteiro no salão e planejando o que vestir hoje de manhã, a hora chegou. E algo me diz que eu deveria mudar de roupa pela décima vez! Até parece que eu não quero cooperar comigo mesma! Logo hoje! Nenhum vestido parece de acordo com a ocasião e os acessórios não querem combinar com nada.
Ontem minhas amigas escolheram um vestido azul de cetim Chanel divino para mim, mas hoje, logo após acordar, eu o experimentei e achei que seria formal demais para a ocasião.
Experimentei até um tubinho vermelho de paetês que mamãe me dera em meu último aniversário, mas desisti da idéia na mesma hora ao constatar que parecia mais uma vedete de boteco barato.
Doze vestidos depois, achei um que não ficou tão ruim. Era bastante alegre e leve, de modo que ia bem com uma manhã de Domingo. Calcei os sapatos, que peguei emprestado com há seis meses atrás - mas nunca devolvi - e estava perfeito. Cabelos levemente ondulados e soltos nas costas, com uma maquiagem leve. Muito bom!
A campainha tocou enquanto ainda borrifava um pouco de perfume nos pulsos. Eram as meninas, tinha certeza. Estava esperando por elas para irmos todas juntas na limusine da Ivy.
Peguei minha bolsinha de mão pêssego, com um laço na frente, e tranquei a porta do apartamento, logo dirigindo-me ao elevador. Ao chegar à portaria cumprimentei John, o porteiro, e entrei no veículo preto que estava à minha espera rente ao meio fio.
- , você tá muito gata. Amei o vestido! - Disse Ivy, piscando um olho de brincadeira para mim.
- Obrigada, meu bem! - Sorri para Ivy. - Ei, ! Ei, ! - Cumprimentei minhas amigas com um beijinho do rosto.
- Todas vocês também estão muito gatas! Se eu fosse homem, pegaria vocês. - Fiz uma cara sexy, enrolando uma mecha de cabelo com os dedos.
Ivy e riram do meu comentário, mas os olhos de se voltaram automaticamente para o que eu estava calçando.
- , eu conheço esses sapatos! - Falou , olhando pra meus pés com uma carranca. Mas eu sabia que ela não estava zangada de verdade. Deu uma risadinha e mandei um beijinho no ar pra .
- Seus sapatos me amam, ! Não conseguem ficar longe de mim. Eles precisam de mim!
- Sei. - Rolou os olhos. - Mas eles também me amam. E precisam ficar comigo também! - Disse, enquanto fingia que ia arrancar os sapatos de meus pés.
O caminho de ida não foi muito longo. Em quinze minutos já estávamos na portaria da gravadora. Percebi a quantidade de fotógrafos que estava do lado de fora, pelos flashes e a gritaria sem motivo aparente. A limusine estacionou e o chofer abriu a porta para nós quatro. Ivy foi a primeira a descer, logo seguida de mim, e . A antiga e tão conhecida cena dos flashes disparando freneticamente em nossa direção se repetiu mais uma vez. Fizemos o de sempre: uma ou duas poses de todas juntas e partimos em direção ao portão de entrada sem nem olhar para trás.
Fomos recebidas por dois seguranças simpáticos, que checaram nossos nomes na lista de convidados e nem fizeram aquela cara de condenação que os outros costumam fazer. Gostei deles!
O longo corredor de entrada levava à grande sala da recepção, e uma moça vestida com um terninho cinza nos cumprimentou, indicando a direção onde estava sendo realizado o evento.
O Brunch foi organizado na cobertura do prédio que, superando minhas expectativas, era um lugar enorme. Já haviam muitas pessoas conversando pelos cantos e se servindo na grande mesa onde estava o bufet. A decoração era bem moderna, nada daquele classicismo todo que sou acostumada a ver.
- Ivy, que bom ver você! - Um homem de uns vinte e poucos anos veio cumprimentar Gibson. Suponho que seja o . Hm... ele é muito gato!
- ! - Sorriu Ivy, enquanto lhe dava um abraço apertado, balançando-o de um lado para o outro. - Você está tão diferente... Cortou o cabelo?
- É... estava grande demais e eu resolvi cortar. Você reparou... - Disse com um sorrisinho no rosto, olhando fixamente para Ivy por alguns segundos.
pigarreou, tirando do transe em que estava, já que ele balançou a cabeça suavemente e sorriu pra nós três que percebemos estar segurando um verdadeiro candelabro.
- Então... Erm... Essas são as suas amigas?
- Ah. É... Essa é a , Charpentier e . - Falou Ivy ligeiramente vermelha, mordendo o lábio inferior e apontando respectivamente para nós.
- Muito prazer, O’Malley. A Ivy sempre fala muito de vocês. - Ele disse cumprimentando cada uma com dois beijinhos no rosto. - Finalmente nos conhecemos!
- Realmente! Ela costuma falar muito de você também. - Falou , fazendo Ivy ficar mais vermelha ainda e olhar hostilmente de relance para ela.
- Vocês se conhecem desde quando? - Perguntou a enquanto pegávamos uma taça com algo que parecia ser ponche, da bandeja de um garçom que passava por ali.
- Ah... já faz algum tempo... - Riu , olhando para Ivy, que tomava freneticamente o ponche sem nem mesmo dar uma pausa para respirar. - Na verdade, somos amigos há mais ou menos uns três anos...
- É... Faz um bom tempo. - Comentei assentindo para garoto.
- Ela por acaso já contou alguma de nossas velhas histórias pra vocês?
- Velhas histórias?! Que velhas histórias, dona Gibson? - Exclamou , olhando pra Ivy com ambas as sombracelhas erguidas e a boca entreaberta. A cara que sempre faz quando espera por uma boa fofoca.
- Casos passados, gente. - Disse Ivy tentando desconversar. - Coisas passadas.
- O quê?! Vai dizer que elas não sabem daquela história do bar na Irlanda? - Riu , fazendo Gibson olhar pra ele rispidamente.
- Não! - Rimos. Ivy parecia que a qualquer momento daria um pane de tão vermelha que estava.
realmente parecia um cara muito legal. Morremos de rir de algumas das histórias de Ivy que ele contou aos detalhes para nós. Às vezes o passado das minhas amigas me assusta! Eu não sabia que minha amiga era conhecida como Lady Radish no colegial por causa de seu cabelo naturalmente ruivo e que no dia que ela e se conheceram, estava tão bêbada num bar irlandês, que saiu gritando para todo mundo que largaria tudo para se tornar uma streaper. Isso quando o próprio - que era um completo estranho naquela época - a levou para casa antes dela começara tirar a roupa para todos os velhos bêbados do bar. Minha amiga me assusta. Eu acho que pelo menos agora ela criou um pouco de juízo. Ou não.
Ficamos um bom tempo conversando com , até que mais um dos meninos da banda, suponho, chegou pra se apresentar.
- Meninas, esse é o . - Disse dando tapinhas nos ombros do amigo.
- Ei! - Disse acenando com um sorriso no rosto. Ai meu Deus, outro cara gato!
- Ei, tudo bem? - inclinou-se para cumprimentá-lo. - Meu nome é . Mas pode me chamar de . - Sorriu.
- Lindo nome, . - Disse com um sorriso que, se eu conheço bem minha amiga, fez com que ela perdesse o fôlego.
- . Mas todos me chamam de . - disse cumprimentando também. Não tão esbaforidamente quanto .
- Ei, . - respondeu . - E você deve ser Charpentier, certo?
- É. Sou eu. - Sorri simpática. - Mas como você sabe meu nome? - Arqueei uma das sombracelhas.
- Ah, eu já ouvi falar de você. - Disse dando de ombros e eu assenti meio sem jeito.
O grupinho começou uma conversa animada, mas na maioria das vezes eu só comentava algumas monossílabas ou estava voando completamente no assunto. Não estava prestando muita atenção no que eles estavam falando. Minha atenção estava voltada pra outra coisa. Ou melhor, para outra pessoa. Onde será que ele estava? Ainda não o encontrara desde que chegamos.
- Gente, com licença, eu vou pegar algo pra comer. Alguém me acompanha? - Perguntei já andando um pouco à frente.
- Pode ir, ... A gente vai estar logo ali naquela mesa. - Disse , apontando pra uma mesa num canto perto a grande sacada iluminada.
Andei por entre as pessoas que pareciam ter dobrado de quantidade desde que cheguei. Haviam vários rostos conhecidos, entre eles colegas dos meus pais - que cumprimentei só por educação - e algumas amigas, que parei para dizer aquelas velhas frases que todos dizem, mas nunca cumprem: “Oi, há quanto tempo!”, “E as novidades?” e, como é de lei, “Apareça lá em casa um dia desses...”, mas ninguém nunca se incomoda de aparecer.
Parei em frente à enorme mesa do bufet e peguei um pratinho branco de porcelana. “Hm... prataria fina!”, pensei enquanto analisava os detalhes minuciosamente esculpidos das bordas.
- Algo de errado com o prato? - Perguntou alguém atrás de mim, fazendo-me tomar um susto tão grande que o prato foi ao chão e se partindo em vários pedaços.
- Ai, como eu sou desastrada! - Resmunguei abaixando rapidamente para catar os cacos. - Mas também foi culpa sua! Você não deveria ter me assustado. Vê se isso é coisa que se faça... - Já ia explodindo com a pobre pessoa que havia me assustado, quando olhei pra cima e vi quem era. Era ele!
- Ei, ei, calma! Só estava brincando com você! - Respondeu dando uma risadinha e se ajoelhando em minha frente para ajudar a juntar os pequeninos fragmentos brancos.
- Ah, me desculpe. Eu não vi que era o anfitrião da festa... - Murmurei encabulada, colocando uma mecha do cabelo para trás da orelha e olhando para meus sapatos. - Mas você não pode me culpar por ter quebrado o prato! Foi culpa sua também.
- Ah! Não precisa se desculpar... - Disse ele passando a mão pelo cabelo. Meu bom Deus, como ele é cheiroso! E ainda por cima é muito mais lindo pessoalmente. Eu não sei como eu consegui sentir o cheiro dele, porque acho que minha respiração parou no mesmo momento que vi quem estava falando comigo. - E quem disse que eu sou o anfitrião da festa? - Perguntou com os lábios numa linha suave, inclinada para o lado.
- Ah... É da gravadora, não é? E a gravadora não é sua?
- Mas não significa que é só minha. Eu não sou o único proprietário. - Respirou fundo, fazendo com que seu peito e ombros subissem e descessem. - Tem outras pessoas envolvidas também... Meus empresários e amigos de banda.
- Sei, eu acho que já conheci seus amigos. - Olhei em direção a e , que estavam sentados e conversando animadamente com Ivy, e .
- É, eles são umas figuras. - Disse ele com um sorrisinho animado. - E você? Eu ainda não te conheço... mas acho que já te vi em algum lugar... - Ele se pôs de pé novamente e eu o acompanhei, ajeitando a barra do vestido.
- Charpentier. Mas pode me chamar de . - Disse rapidamente, dando-lhe a mão numa atitude impensada. Ele contrariando minhas expectativas de somente a segurar e balançar firmemente, a pegou delicadamente e beijou o dorso. Ai que fofo! Um homem que ainda beija a mão de uma mulher...
- Muito prazer, . Meu nome é . Pode me chamar de . - Disse divertido piscando um olho para mim.
- Ah! - Ri dele. - Prazer, , tem certeza que já nos encontramos antes? - Perguntei, fingindo não saber do que ele estava falando.
- Não sei... Talvez em alguma outra ocasião? - Perguntou. - Talvez há algumas semanas atrás?
- Ah! Deve ser... - Sorri. Mas é lógico que eu não havia esquecido! Fiquei com isso na cabeça por muito tempo. Mas ele não precisava saber deste detalhe... - Eu acho que me lembro de ter visto você em uma festa... mas você ficou por pouco tempo...
- É que eu não sou muito chegado a festas black tie, sabe? - Se explicou.
- Sei, eu também não. - Peguei um copo e me servi com um pouco do suco de uva que estava sobre a grande mesa central.
- Sério? - Perguntou, pegando um copo e se servindo também. - Mas as socialites não deveriam adorar uma festa? Afinal, não é isso que vocês mais fazem?
- Ah... Eu amo festas. É claro que amo... Iria à alguma todo o dia se fosse possível, mas eu odeio festas de gala. É tudo tão...
- Chato? - Indagou, colocando um pouco de açúcar no próprio suco e mexendo com uma colherzinha.
- Isso. - Sorri de lado.
- Mas se você não gosta, por que continua indo?
- Mamãe. - Rolei os olhos e ele riu do meu comentário. - Ela praticamente me obriga. Diz que é bom pros negócios ter uma família sociável e que eu vou criar raízes se ficar morgando no meu apartamento o dia todo. - Tudo bem, eu não precisava ter dito isto!
- E com o que sua mãe trabalha? - Perguntou-me com certa curiosidade no olhar.
- Ela é gerente geral da Charpentier. Conhece?
- A marca de cosméticos?
- Sim. A gerência vem passando pelas gerações da minha família há muitos anos.
- Hm... Então você é um tipo de herdeira?
- Ah... Não me vejo como uma herdeira. - Eu realmente não me imagino assim. Mas também não imagino outra coisa que seria.
- Mas é tipo uma! - Disse, servindo-se de mais suco e pegando um croissant de chocolate em uma das bandejas. - Seu sotaque é engraçado...
- Sério?! - perguntei incrédula - Minhas amigas disseram que diminuiu muito desde que vim pra cá...
- Você não é britânica, é?
- Não, francesa. Minha família toda é da França. - Disse enquanto pegava uma tacinha e andava até o meio da mesa, onde estavam os sorvetes.
- Legal, francesa... Percebe-se pelo seu sobrenome... E há quanto tempo você está em Londres?
- Moro aqui há mais ou menos três anos. - Respondi, virando-me para ele. Os olhos dele realmente eram hipnotizastes. Quando olhei no fundo deles naquele exato momento, parecia que eu mergulhava em sua imensidão luminosa e conseguia enxergar a alma de . É, eu podia enxergar a alma dele só por olhar dentro de seus olhos. Nenhum outro homem teve a mesma influência que ele mostrava ter sobre mim apenas pela primeira vez que nos falamos. - E o que você...
- Dude! O Fletch tá chamando a gente! - Alguém me interrompeu. - Tem uma entrevista daqui a pouco e ele quer todo mundo lá em três minutos! - Provavelmente era um dos amigos de banda dele que eu ainda não havia conhecido.
- Já estou indo, . - resmungou olhando feio disfarçadamente para . Pareceu que ele não quis que eu percebesse, mas eu percebi. Bom sinal.
lançou-me um sorriso sem graça e saiu de perto em direção à porta principal do salão.
- Bem... É, parece que eu sou obrigado a comparecer nessa entrevista... - passou as mãos pelos cabelos com uma expressão desapontada.
- Tudo bem. Faz parte do seu trabalho. - Olhei para minhas unhas - Bom... Foi um prazer conhecer você!
- O prazer foi todo meu, ! - Ele inclinou-se e beijou minha bochecha, o que provavelmente me deixou corada. foi andando em frente acompanhado por e eu já estava me virando quando o ouvi dizer de longe:
- Quando vamos nos ver de novo? - Perguntou com um sorriso estampado no rosto.
- Talvez logo! - Foi a única coisa que consegui dizer. Ele deu um sorriso maior ainda e foi embora.
Talvez logo. Por que eu tinha que dizer isso? Eu podia muito bem ter dado meu telefone ou marcado alguma coisa... mas não! A sempre tem que estragar tudo.
Deixei o resto do meu sorvete em cima do que parecia ser um balcão de taças sujas e andei por entre as pessoas até encontrar , Ivy e sozinhas comendo um prato enorme de bolinhos com recheio de chocolate. Sentei-me junto a elas e comecei a comer também. Ainda estava morrendo de fome, então preferi me concentrar em comer a contar sobre o que aconteceu há pouco. Ainda mais porque não é um local apropriado, já que provavelmente elas vão fazer um escândalo e se o ver que eu fui correndo contar da nossa conversa pra minhas amiguinhas, como sempre dizia minha mãe: “Ele vai fugir de você igual o diabo foge da cruz” e eu, definitivamente, não pretendo espantá-lo...
Comemos o resto dos bolinhos e pouco tempo depois resolvemos ir embora. Marcamos de passar a tarde em minha casa vendo algum filme alugado da Blockbuster. Tudo que eu preciso: Um filme romântico bem meloso, cobertores, quatro amigas solteironas - bem, tirando a excluída da Ivy que tem o Chance - e uma caixa de bombons. Ah, como eu amo a minha vida!
Continua...
N.A - Sem muita coisa pra falar dessa vez... Passei a semana inteira trancafiada dentro do cursinho e nem tive tempo de escrever, só de revisar este capítulo aos poucos. As idéias estão se acumulando em minha cabeça e parece que o tempo não quer cooperar comigo!
Não disse que logo, logo ele apareceria? Não esquentem que as coisas começam a acontecer a partir de agora! XX
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Outras fics minhas:
Sweet Dreams (McFly - Short Fic/Finalizadas)
A Garota do Casaco Vermelho (McFly - Short Fic /Finalizadas)