BIOLOGICAL
Autor: Natashia Kitamura
Beta-Reader: Any
1.
Desde pequena tudo o que eu sempre imaginei foi quem seria o meu príncipe
encantado. Claro, para mim, Henry Richards era simplesmente o melhor pretendente
para mim. Claro que isso era quando eu tinha apenas 8 anos.
Não me recordo muito bem da minha vida antes disso. Não que valesse a pena
lembrar, já que em toda a minha vida eu morei no mesmo lugar que outras
crianças que, assim como eu, não tinham pais.
Não tenho vergonha de dizer que sou órfã, quem deveria ter vergonha são meus
pais, que me abandonaram. Porém mesmo sabendo que eles me deixaram, não consigo
sentir um pingo de raiva de qualquer um dos dois. Mesmo estando sozinha e sendo
sempre taxada de esquisita pelos meus colegas, mesmo nenhum casal querendo me
adotar - não que eu fizesse muito esforço para ser adotada -, mesmo que eu
ficasse triste quando via alguma família feliz com seus filhos biológicos... Não
passava pela minha cabeça que meus pais queriam me deixar sozinha. Talvez
eles não tivessem outra opção.
Sei que devo ser a única órfã no mundo que ama os pais mesmo sem conhecê-los.
Mas essa sou eu.
2.
Tudo começou a ficar mais complicado quando eu completei meus 16 anos. Toda
garota debuta com 16 anos e o orfanato onde eu vivia, as freiras nos mandavam
para escolas normais - estaduais - como qualquer outra criança, nos fazendo
conviver com pessoas que tinham pais.
Flashback
- O que você comprou pro seu pai, Julie? - ouvia Blake perguntar para nossa
amiga.
Vejo Marie lhe mandar um olhar feio e então olhar para mim, fazendo com que
Blake colocasse as duas mãos na boca, escondendo-as de mim.
- Desculpe. - murmura com a voz abafada.
Abro meu sorriso carinhoso e balanço a cabeça:
- Não precisam se preocupar comigo, está tudo bem.
As três se entreolham receosas e lentamente voltaram ao assunto.
Fim Flashback
Tecnicamente eu sabia que elas andavam comigo porque tinham dó de mim, afinal,
os rumores rondavam a escola. Era óbvio que o assunto favorito dos alunos eram
as pessoas sem pais. Mas eu era ainda mais atiçada. Além de eu ser órfã, eu era
um tanto quanto anti social e calada, o que fazia todos pensar que eu desprovia
de alguma doença genérica. Mito e fofocas, claro.
Fora assim durante todo o meu período escolar. Até que eu completei meus 18 anos
há dois meses. Dezoito é uma idade muito legal, na minha opinião. No orfanato,
as madres não gostavam de nos deixar sair sozinhos depois de um determinado
horário, então ou saíamos com responsáveis ou com alguém maior de idade. Os
maiores ou entravam na faculdade e moravam no campus e a partir daí seguiam suas
vidas sozinhos ou então preferiam continuar no orfanato e esperar por algum
casal que quisesse filhos já grandes. Raridade, juro. Desde que comecei a
pesquisar sobre adoções, apenas uma garota de 19 anos fora adotada.
Para a não surpresa das freiras, eu não queria ser adotada. Queria meus pais.
Meu pai. Minha mãe. De sangue. Furtei alguns dados cadastrais na sala da madre
superiora e demorei dois meses para descobrir o "paradeiro" do meu pai. Minha
mãe havia simplesmente sumido do mundo, mas nada que uma pergunta ao papai não
desfaça este mistério.
E aqui estou eu. Parada em frente à uma casa até que normal. Grande. Olho a
caixa de correio:
Caixa do , se for contas, dê a volta.
Olho o papel. Suspiro. Era ali.
3.
Sigo rapidamente até a porta de entrada e toco a campainha. Coloco o papel
dentro do casaco cinza do uniforme. Ajeito a boina do conjunto na cabeça e
esfrego as mãos dentro das luvas de couro de segunda mão dadas pela escola para
os órfãos e em seguida as protejo no bolso.
Olho para o lado a fim de ver se havia alguma movimentação da casa e molho os
lábios que rapidamente se secavam com o frio que fazia. Aperto-os e resolvo
tocar a campainha mais uma vez.
- Já vou! - ouço de dentro da casa. Balanço minha perna direita. Isso era sinal
de que eu estava nervosa. Eu sempre balanço a perna quando estava nervosa com
algo. É como se fosse um tique em pé.
Olho mais uma vez para o lado e suspiro, soltando a fumaça branca da minha boca.
Um leve vento, porém congelante, corta meu rosto, jogando meus cabelos para ele,
me fazendo tirar a mão direita do bolso e o levando até minhas madeixas.
Não evito pensar em como seria ele, não fisicamente, isso eu já sabia. Afinal,
é famoso. Daquela banda que todo mundo gosta, menos eu.
Nunca fui tão chegada assim em música, o que sempre foi motivo para falarem ainda mais de
mim. Quem não gosta de música afinal? Eu não tanto.
Ouço o barulho da porta ser destrancada e o tal do
aparecer por trás dela, me olhando levemente surpreso. O tal do meu pai me olhando levemente
surpreso.
4.
- Não quero comprar cookies, obrigado. - ele torna a fechar a porta, mas eu
rapidamente digo:
- Não vim para vender cookies. Nem nada.
Ele volta a abrir a porta e então me olha com uma sobrancelha levantada:
- Uma fã?
Nego com a cabeça.
- Hm. Não consigo imaginar algum outro motivo de vê-la parada em minha porta.
Não deveria estar no colégio? - olha meu uniforme.
- Na verdade, acabei de sair dele. - ele nada diz, respiro fundo. Sentia meu
coração bater aceleradamente, as borboletas de meu estômago despertarem e
voarem sem parar em forma circular. Era melhor que eu fosse direto ao assunto. -
Hm... Eu sou sua filha.
Ficamos em silêncio por um longo tempo. Ele me olhava com a mesma expressão, até
mudar o peso do corpo para a outra perna e olhar para o céu e então voltar a me
encarar:
- Como é que é?
Para facilitar o raciocínio dele e evitar que fechasse a porta na minha cara
quando eu tentasse explicar, retiro o papel do meu bolso e lhe entrego. Ele o
pega ainda olhando para mim desconfiado e então desvia o olhar para o que estava
em mãos. Vejo-o ler de acordo com que sua íris ia de um lado para o outro em seu
globo ocular.
- Isso é uma brincadeira? Algum programa? - ele coloca a cabeça para fora da
casa à procura de alguma câmera escondida, mas eu nego com a cabeça. - De onde
você surgiu?
- Orfanato Peace. Pelo menos fora lá que eu morei desde que me conheço por
gente.
- Isso só pode ser brincadeira. - ele murmura. - Olha só, eu não tenho filha. Eu
sou solteiro e nunca me casei.
- E nunca transou?
Ele arregala os olhos e abre a boca pasmo:
- Eu não vou ter este tipo de conversa com uma garota da sua idade.
- Certo, então podemos fazer um teste? Por favor. - junto as mãos em forma de
suplico e ele tenta dizer algo, mas rapidamente o corto. - Olha, pelo menos com
ele eu tenho certeza de que você não é meu pai e eu desisto de achar ele, ok?
O vejo olhar para o papel e então para mim novamente.
- Acho que não posso te ajudar, sinto muito. - e me devolve a folha.
Deixo meus ombros caírem e então abaixo a cabeça, encarando o chão. Aperto os
lábios e pego a folha que ele estendera para mim. O vento passa novamente por
nós e eu mais uma vez retiro os cabelos que vinham em meu rosto dele.
- O que é isso? - ele aponta para um ponto no dorso do meu pescoço.
- Como?
- Posso? - ele aponta para o local e eu levanto os ombros, ele se aproxima e
afasta meu casaco e a gola de minha camisa social azul clara. O vejo então se
afastar boquiaberto. O olho confusa e aguardo ele dizer que faria o teste de
DNA.
5.
Positivo. Dera positivo. Obviamente ele recebera a notícia antes de mim, já que
eu estava no colégio fazendo minha prova final e ele... Bom, ele não deveria
estar fazendo nada, pois fora pegar o resultado e encontrou comigo na saída da
escola.
Eu ouvia as meninas irem até ele e pedir por fotos e autógrafos em seus
cadernos. Fiquei parada numa boa distância o observando sorrir e ser simpático
com elas. Demorou cerca de dez minutos para ele vir até mim com as mãos no bolso
de seu casaco.
- Vamos dar uma volta?
Concordo com a cabeça e seguimos para o carro dele. E que carro! Durante toda a
viagem ficamos calados, até ele me entregar o envelope com o resultado e eu ver
o positivo gravado ali. Em negrito. Nada falei. Voltei a folha para
dentro do envelope e me manti calada até pararmos no Franz e nos sentarmos num
lugar mais privado. O vejo colocar as duas mãos sobre a mesa e cruzar seus
dedos.
- Então... - ele começa. Fico calada com minhas mãos em cima de minhas pernas. -
Como você descobriu?
Levanto os ombros. Olho para o lado. De repente toda a coragem que eu havia
juntado durante anos se fora, me deixando sozinha com minha insegurança.
- Eu... Eu vi nos meus registros e perguntei algumas coisas para algumas pessoas
e acabei de alguma forma chegando em você.
O olho de relance e o vejo me encarar atentamente, como se quisesse achar algo
por trás de mim.
- E... Você sabe quem é sua mãe?
- Você não sabe? - pergunto surpresa. Claro, o que mais eu podia esperar de um
superstar que mal sabia que tinha uma filha?
O vejo despencar e ser pego de surpresa com a minha resposta-pergunta e se
manter calado, provavelmente pensando que resposta era melhor para essa questão.
Até que então ele suspira derrotado:
- Vamos ser sinceros, tudo bem? - concordo com a cabeça. - Eu nunca fui uma
pessoa de relacionamentos. Então pesarosamente, eu não sei quem é sua mãe.
Concordo com a cabeça.
- O que você faz? - ele tenta mudar de assunto, o que não adiantou muito.
Levanto os ombros:
- Estudo.
- E o que pretende fazer depois disso?
- Continuar estudando. Preciso fazer uma faculdade.
- Sim, sim, claro. - ele passa a mão pelos cabelos. Nos mantemos calados. Fico o
encarando, esperando que ele quisesse, não sei, fortalecer nossos "laços
familiares", mas aparentemente meu pai é tão lerdo quanto eu sou. - Onde mora?
- Num orfanato na zona leste.
- Zona leste? - ele levanta as sobrancelhas. Concordo com a cabeça. - E... Você
não vai sair de lá?
- Para onde eu iria?
Ele suspira e passa a mão na nuca murmurando coisas que eu não consegui ouvir.
- Desculpe, não entendi.
- Não, não. Não foi nada. - ele levanta a cabeça rapidamente. - Hm... Bom. Eu
sou seu pai. Então eu tenho que ter uma certa responsabilidade por você.
Nada digo. Claro que isso não era cem por cento verdade, já que eu tenho 18
anos. Mas eu não queria mais ficar no orfanato. Eu queria ficar com meu pai.
- Você... Gostaria... - ele mexe a mão e eu não me movo. - Você sabe, de morar
comigo e tudo mais?
- Como uma família de verdade?
Ele não parecia ter uma resposta para isso.
- Sim. Uma família de verdade.
6.
- Que tal uma calça? - ele olha para o lado da loja onde haviam diversas
prateleiras com vários modelos de jeans.
- Mas eu gostei dessa saia... - olho para baixo, analisando a peça em meu corpo.
- Nada contra. - ele diz rapidamente. Levanto o olhar para ele e ele encarava
minhas pernas. - , você está fazendo de novo.
- Desculpe. - ele desvia o olhar. - Estou imaginando outros homens fazendo o que
eu faço com você.
Sinto minhas bochechas queimarem rapidamente, provavelmente mostrando a
vermelhidão nelas.
- Tudo bem. - eu me viro e volto para o provador, onde coloco minha calça de
volta.
- , está fazendo novamente. - murmuro quando comprávamos uma calça. De
tecido. Ele encarava minhas costas e então bufa, balançando a cabeça e passando
a mão no rosto.
- É espontâneo, juro que não há malícia.
- Certo. - digo com as mãos na cintura. - Então...?
Ele se endireita e me olha surpreso.
- O quê?
- O que acha? Você queria uma calça, não é? Como estou?
- Bom... - o vejo passar a mão na nuca sem graça. - Não há algo menos apertado?
- Não está apertado.
- Certo.
Nos mantemos calados.
- , se você não gostou pode falar.
- Eu não gostei.
Ele foi direto de mais. Abro a boca e então a fecho, voltando para dentro do
provador e saindo com a minha roupa normal.
- Acho melhor comprarmos meia calças. Para usar debaixo dos shorts e saias.
- Ótimo, ótimo. Boa ideia. - ele se levanta rapidamente com as mãos no bolso e
caminhamos para fora da loja novamente sem sacolas nas mãos.
- Viajar o mundo é legal. - murmurava do meu lado, enquanto estavamos
deitados no jardim de casa à noite. Ele disse que gostava de olhar para o céu
quando ele estava bem estrelado, porque o fazia filosofar e pensar sobre a vida.
Ele tinha razão. Não que eu tivesse muito o que pensar sobre a vida, mas pelo
menos agora eu sabia que meu futuro estaria bem melhor. - Você não enjoa da
vida.
Me mantenho calada. O sinto se mexer e quando olho para o lado, ele está me
encarando.
- Hey... - ele sussurra e eu presto atenção. - Faria mal se... Hm... Você... Sei
lá, me chamasse de pai?
Arregalo os olhos. Isso era algo que eu nunca pensei que fosse ouvir. Quero
dizer, nunca imaginei que ele tivesse vontade de ser chamado de pai, já que
deixou claro que nunca pensou em ser em um.
- Eu sei que soa esquisito. - ele volta a encarar o céu. - Acontece que desde
que vi o resultado daquele teste, me pego imaginando como seria.
Fico olhando para ele, até o ver virar o rosto para mim.
- Então?
- Claro... Pai. - sorrio e o vejo abrir a boca surpreso e então fechá-la
sorrindo. Me encara por mais alguns segundos e então volta a encarar o céu. Com
o mesmo sorriso. O mesmo sorriso que o meu.
- Eu vou ser o pai que nunca imaginara ter. - ouço de repente e o olho surpresa.
- Eu prometo filha.
Fim!
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