Another Life.
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Por: Mylla Martiniano.
Beta-Reader: Jules

Capítulo 01.

Aeroporto Tegel - Berlim, Alemanha.
Uma voz feminina anunciou que o meu vôo e de John iria partir. Fomos até o portão de embarque cinco. Despedi-me de todos, demorando em especial em Jennifer, minha melhor amiga, que agora, chorava como um bebê, e Sam, que me apertava contra si a todo o segundo. Ele não queria que eu fosse e eu não queria ir.
- Não se esquece de mim, Sam. - Eu pedi, quando ele segurou meu rosto em suas mãos. Sentindo as lágrimas brotarem dos meus olhos e deixei que elas saíssem.
- Eu não vou esquecer, eu prometo. - E então ele me beijou. Me beijou como nunca. Um beijo de despedida. Um beijo de adeus.
Enquanto a funcionária do aeroporto verificava os meus documentos, olhei para trás, dando uma última olhada nas pessoas que me amavam, e John colocou a mão nas minhas costas, me encorajando a entrar no corredor que nos levaria para o avião.
Eu não pude mais vê-los. Meu coração se partiu.

FlashBack – Uma semana atrás.

– O que houve, Sam? O que aconteceu com você? – Perguntei, vendo Sam com uma cara horrível, branco feito papel. Uma mescla de medo, horror e.. Pena. Ele ficou olhando para mim sem dizer nada. Pude ver que seu peito subia e descia rapidamente. Aquilo me assustou.
- Você não viu o noticiário das oito? Não está sabendo de nada? – Perguntou receoso, ainda olhando fixamente pra mim.
- Claro que não Sam! – Falei como se fosse uma coisa óbvia. - Eu acabei de acordar. – Não estava entendendo nada do que ele estava falando. Por que ele não me contava logo o que tinha acontecido?
- , a sua mãe. – Ele disse com a voz carregada, totalmente diferente da sua voz carinhosa. - Ela sofreu um acidente.
- Minha mãe? – A mensagem demorou a processar, estava confusa. Eu tinha escutado bem? – Onde ela está?
Ele não respondeu. Ficou olhando pra mim como antes. E uma angústia no meu peito surgiu com uma força abrupta. Meu coração acelerou, e o desespero começou a crescer dentro de mim.
- Sam.. – Comecei, tentando ficar calma. – O que aconteceu com a minha mãe? Onde ela está?
- Ela.. – Ele respirou fundo, olhando para outra coisa em vez de mim. – Houve um acidente de estrada para o aeroporto de Dublin. Vários carros bateram e o da sua mãe foi um deles e acabou não sobrevivendo.
Eu não podia acreditar no que Sam estava dizendo. Era mentira! Minha mãe num acidente de carro? De repente, foi como se o chão se abrisse sob meus pés, e eu fosse engolida por um buraco negro sem ter onde me segurar. Meu peito doía, meu coração estava mais acelerado do que um dia eu podia imaginar que fosse possível. Fiquei paralisada, olhando para Sam a minha frente. Ele estava receoso, esperando uma reação minha, mas a única coisa que eu consegui fazer foi começar a chorar desesperadamente. Grossas lágrimas desciam para minhas bochechas, pela minha boca, deixando um gosto de água salgada nela. Minhas pernas ficaram bambas, frágeis, como se eu não tivesse ossos para sustentá-las. Eu sabia que elas não agüentariam muito tempo e quando me dei conta, estava no chão, tremendo compulsivamente. A dor no meu peito estava aumentando de uma forma assustadora, me corroendo por dentro, tomando cada parte do meu corpo, entranhando pela minha pele. Meus batimentos cardíacos estavam acelerados, descompassados, era como se o meu coração fosse parar a qualquer momento. Depois de algum tempo, pude sentir a respiração de Sam do meu ouvido. Ele estava sentando ao meu lado, me abraçando de lado com certa força, com o rosto perto do meu, dizendo palavras que eu não conseguia entender. Minha audição não estava boa, meu tato e o resto dos meus outros sentidos também não. Mas eu não poderia prestar atenção em mais nada.
Eu estava sozinha agora.
As lágrimas desciam com mais força e em mais quantidade a cada segundo, a cada instante que eu me lembrava que não teria mais minha mãe comigo.
Uma tristeza tão grande, tão profunda se apoderou de mim, que eu pensei que nunca mais fosse ser feliz. Quando me deu por conta, estava chorando aos berros, e Sam, sem saber o que fazer, continuava me abraçando, me consolando, mas nada daquilo faria diferença agora porque nunca mais eu iria ver minha mãe. De repente aquela sensação que eu senti o dia inteiro fazia algum sentido pra mim como se fosse uma intuição e percebi que a última vez em que eu havia visto a minha mãe, nós estávamos conversando no meu quarto, dias antes, sobre nossa viagem de férias de natal. Nós nunca mais faríamos planos de viagens ou de qualquer outra coisa. Nunca mais riríamos juntas, contaríamos coisas uma pra outra. Nunca mais o cheiro do seu café de manhã antes de ir pro colégio invadiria minhas narinas, nunca mais sentiria o seu perfume ou seu abraço de consolo.
O nosso laço inquebrável que eu pensei que existisse, não estava mais ali. Ele tinha se partido em milhões de pedacinhos e estavam espalhados pelo ar, invisíveis.
Senti ódio. Ódio de todas as pessoas, das envolvidas no acidente ou não. Ódio de mim por não ter tempo de me despedir dela, de dizer o quanto a amava, o quanto ela era importante de mim. Isso só fez meus gritos ficarem mais e mais altos, minhas lágrimas mais grossas, mais pesadas e mais dolorosas. Senti-me sufocada com aquela dor que não cessava, não parava de aumentar, apertando meu coração de uma forma esmagadora.
Meu peito doía a ponto de eu querer arrancar meu coração. Angústia, medo, tristeza, desespero, ódio.. Tudo junto num só corpo. No meu corpo. Fechei meus olhos com força na intenção de fingir que tudo era mentira, abraçando minhas pernas, querendo que aquela dor passasse, mas eu sabia que ela passaria nunca. Ela só aumentava e aumentava, tomando conta de todas as partes do meu corpo. Eu queria que aquilo parasse, que tudo fosse uma brincadeira horrível que Sam tinha feito.
Parei de gritar. Não porque não tinha mais vontade, mas sim porque não havia mais forças. Meu corpo foi sendo erguido por mais braços além do de Sam e quando vi, Jennifer estava me segurando. Ela e Sam me carregavam com certa dificuldade porque meu peso todo estava nos braços deles. Eu estava paralisada a tal ponto que não sentia nenhum dos meus membros.
Fui colocada no sofá, eles se entreolharam na minha frente, conversando baixinho, enquanto eu voltava a abraças minhas pernas. As lágrimas continuavam descendo sem pedir permissão, sem aviso prévio. Minha cabeça girava como se eu tivesse acabado de sair de uma daquelas xícaras de parques de diversão, senti uma náusea muito forte, uma louca vontade de vomitar, mas não tinha nem forças para tentar colocar algo para fora.
Entrei em um estado de choque desesperador.
- .. – Jennifer se ajoelhou na minha frente, acariciando meu braço. – Precisamos falar com o seu pai. – Ergui meus olhos nublados de lágrimas, tentando entender o que ela queria dizer com aquilo. – Você sabe onde podemos encontrar o número dele?
- Na gaveta da estante. – Respondi com a voz fraca. Fraca demais.
Sabia que minha mãe guardava um caderno com todos os números dos meus amigos, clientes e é claro, de John. Jennifer discava os números enquanto Sam sentava ao meu lado, me abraçando como antes.
- Vai ficar tudo bem, - Ele beijou minha testa, colocando minha cabeça em seu ombro.
Eu duvidava muito que isso fosse acontecer, mas não respondi nada. Deixei me levar pelo seu consolo.
Olhei de soslaio para Jennifer e vi que ela estava ao telefone falando freneticamente com alguém. Podia ser John, mas eu não pensei muito sobre isso.
- Ele vai pegar o primeiro vôo e vai vir o mais rápido que puder. – Ela avisou, sentado do meu outro lado.
Sabia que ela e Sam trocavam olhares. Estavam com pena de mim, odiei-os por isso. Não queria que sentissem pena de mim, porra!
Sam levantou, dizendo que teria que ir em casa e mas que voltaria logo. Jennifer continuou sentada, segurando minha mão.
Meu choro foi diminuindo gradativamente, só restando os soluços fortes e altos, e minha respiração ainda acelerada, também foi diminuindo. Fechei os olhos, descansando minha cabeça numa almofada qualquer. Jennifer sentava, olhava para mim com um olhar tão estranho que mal a reconheci.
Não era pena, nem tristeza. Era frieza, pura e simples frieza.
A porta de entrada foi fechada e Sam apareceu no hall, chamando Jennifer.
Fiquei perdida em pensamentos, alheia a todos ao meu redor. Meus olhos estavam abertos, mas era como se não estivessem.
Sam voltou e nem me dei conta de quanto tempo ele estivera fora. Ele deu um sorriso fraco para mim, sentando no espaço vazio, fazendo carinho na minha cabeça. Não dissemos nada. Não havia nada para ser dito.
Jennifer voltou trazendo uma caneca, entregando-a a mim, dizendo que me faria bem. Os meus sentidos estavam de volta e eu pude sentir um gosto estranho na bebida, mas continuei entornando-a para dentro. Depois de colocar a caneca em cima de mesinha de centro, me ajeitei no sofá, e Sam saiu para me deixar deitar direito. Alguns minutos depois meus olhos começaram a ficarem pesados, me obrigando a fechá-los. Eu estava cansada demais para lutar para deixá-los apertos. Minha cabeça ficou pensada e por fim, adormeci.

Fim do FlashBack

- Você vai gostar de York, é um lugar lindo. - John comentou quando nos acomodamos nas cadeiras quinze e dezesseis. – Eu sinto muito, . Sinto muito. - Ele colocou a mão em cima da minha brevemente, mas eu não relutei aquele toque. Mantive meus olhos fixos lá fora, ainda chorando.
Eu não estava feliz com isso e não fazia questão nenhuma de esconder. A ideia de morar com ele e sua família não me agradava, mas o que eu podia fazer? E mesmo que eu não queira admitir, eu precisava dele. John era meu pai e responsável pelo meu bem estar, mesmo que depois de tanto tempo. E ainda tinha a história dos calmantes. John me dopava por todos os dias desde que chegara e eu ainda me pergunto se era para evitar que eu assistisse os preparativos para o enterro ou se apenas me dopava por medo de que eu pudesse fazer alguma coisa.

FlashBack dois dias atrás.

A cabeça de John preencheu minha visão. Deveria estar frio, pois ele segurava o mesmo casaco grosso preto de quando chegara. Parou perto do armário, encostando-se nele, me encarando. Suspirou algumas vezes, passando a mão nos cabelos, como eu fazia quando estava preocupada, nervosa, ansiosa ou tudo junto. Irônico pensar na nossa semelhança não só fisicamente.
- Você está bem, ? – Foi tudo o que ele disse, ou melhor, perguntou. Não gostava do fato dele me chamar pelo apelido, só as pessoas íntimas me chamavam assim, mas deixei pra lá.
- Não. – Eu respondi francamente, desviando meus olhos para as paredes do meu quarto. Elas pareceriam ridículas com aquele tom alegre e feliz. Elas deveriam estar pretas.
- Precisamos conversar, você e eu, – Ele dizia enquanto voltava a mexer nos cabelos. – sobre como as coisas vão ser agora.
- O que quer dizer? – Perguntei aumentando o meu tom de voz, encarando-o. Parecia que uma pedra de gelo estava descendo pela minha garganta e caindo com estrépito no meu estômago.
- Você sabe o que eu quero dizer. - John falou num tom calmo e cauteloso. Totalmente diferente do meu. - Você não pode ficar sozinha aqui e eu não posso vir pra cá pra ficar com você, então, você vai voltar comigo...
Eu levantei abruptamente, ficando de pé, com os olhos semicerrados.
- Você só pode estar louco por pensar uma coisa dessas. - Cruzei os braços como uma criança faz quando é contrariada, mas que se foda! Naquele momento eu não ligava por estar parecendo infantil.
- ... – Ele voltou a falar em tom de quem vai começar a fazer uma concessão.
- Não! – O interrompi, protestando, quase batendo o pé. – Não! Não vou com você! Eu tenho uma vida aqui, tenho meus amigos, e além do mais, está é minha CASA!
- Não , não é mais. – Ele balançou a cabeça pra mim, falando o meu nome como se estivesse explicando uma coisa muito difícil a um retardado. – Você não vai ficar aqui sozinha, você vai pra minha casa, porque você é minha filha.
- Você deixou de ser meu pai desde que largou a minha mãe há dez anos e voltou para a Inglaterra para se casar com outra mulher! – Berrei, e eu acho que isso não deve ter machucado o bastante os sentimentos dele, se é que ele tinha algum sentimento por mim. John apenas balançou a cabeça, em sinal de negação.
- Você sabe muito bem que eu não larguei a sua mãe, apenas voltei para o meu país e lá conheci outra pessoa. Mas não vamos discutir isso, não nesse momento. - Ele soltou um suspiro longo antes de continuar. - O fato , é que você vai pra Inglaterra comigo. Já consegui uma transferência de colégio pra você e Helen já está providenciando o seu quarto.
Eu abri a minha boca para protestar mais uma vez, mas nenhum som saiu dela. Eu estava chocada, a raiva borbulhando na minha corrente sanguínea como a mesma velocidade de um carro de fórmula um. Minha vontade era pular na garganta daquele desgraçado, e apertá-la com toda a minha força até que seu o último estoque de oxigênio acabasse.
- Você não fez isso... – Foi tudo o que eu consegui dizer quando minha voz voltou. – Eu não acredito que você fez isso...
- ... – Ele começou de novo, e novamente o interrompi. Não ia desistir sem lutar.
- Você fez tudo nas minhas costas, você me dopou e brincou com a minha vida como se eu fosse uma boneca!
- Nosso vôo parte segunda de manhã. – John anunciou como se não fosse uma bobagem tudo aquilo. Como se ele estivesse apenas dizendo o dia que sairíamos para viajar com a família.
- Não vou a lugar nenhum com você. – O desafiei, voltando a estreitar meus olhos.
- Eu sou seu pai, você querendo ou não, e vou exercer o meu direito como tal. Não posso e não vou deixar você a cuidados dos outros. Segunda pegaremos um avião para Londres e não há nada que possa fazer pra mudar isso, já foi decidido! - Ele falou de uma vez só, sem parar nem para respirar, despejando tudo em cima de mim ainda com seu tom irritantemente calmo.
E agora? O que eu iria fazer? Eu o odiava a cada segundo que nos fitávamos. John estava lá, calmo, agora longe do meu armário, segurando o casaco, com seus olhos me perfurando, me desafiando a dizer que não iria com ele, me desafiando a não ir com ele. E foi aí que eu explodi. Eu achei que não seria capaz, mas lá estavam as lágrimas que pareciam ter secado. Lá estavam elas descendo sem parar, mas eu não estava triste, eu estava me rasgando de raiva e John sabia que era dele. Ele sabia que as minhas lágrimas eram de ódio e não de tristeza, dei um último berro, batendo a porta do meu quarto com força. Desci as escadas, derrubando tudo que aparecia na minha frente. Precisava descontar toda aquela raiva que estava contendo desde que soube a morte da minha mãe. Todos aqueles sentimentos ruins afloraram dentro de mim, e eu não vi mais nada diante dos meus olhos. Quando me dei conta, estava na sala, pegando o abajur favorito da minha mãe, jogando-o contra a parede, gritando de fúria. A próxima coisa que foi meu escape de raiva foi um vazo de flores do campo, ao que teve o mesmo destino do abajur; a parede. Eu estava pouco me importando com o que estava fazendo, eu só queria quebrar tudo, gritar e chorar. Escutei passos vindos da escada, e John apareceu diante de mim, mas não ousou entrar na sala e tentar me impedir. Apenas assistia enquanto eu estava tendo minha crise histérica. Eu berrei mais uma vez, procurando como uma leoa procura sua caça, mais algum objeto que eu pudesse quebrar e logo vi a mesinha de centro. Bati com toda a minha força contra a mesa, tendo sorte por nenhum caco de vidro me cortar. E mesmo que isso acontecesse, eu duvido que pudesse sentir. Nenhuma dor poderia ser comparada com a dor gigantesca que estava despedaçando o meu coração. Eu não queria ir! Não queria deixar Sam, Jennifer, nem muito menos a minha vida para trás. Eu precisava deles, por que John não entendia isso? Eu estava revoltada porque minha mãe havia morrido e havia me deixado com aquele homem horrível.
Minha raiva não passou, e quando vi, estava atacando a estante de livros, tirando as prateleiras do lugar, quebrando os objetos dali, abrindo os livros e rasgando-os sem pensar duas vezes. Rasguei até mesmo os meus prediletos, sem remorso algum. Tinha completa e absoluta certeza que não era uma cena agradável de ver, mas eu continuei destruindo cada parte da sala que conseguia que minhas mãos eram capazes de tocar. Meus olhos baixaram para uma foto, que agora se encontrava com o porta-retrato quebrado, meu e da minha mãe que havíamos tirado nas férias do ano passado na capital, em Berlim. Ver aquilo foi como se minha mãe estivesse morta na minha frente. Tudo estava acabado, e eu estava desesperada. E então, eu caí de joelhos no chão, sem gritos ou mais ataques loucos. Apenas chorava, chorava e chorava, sem saber o que fazer diante da realidade que se opunha para mim sem nenhum pouco de delicadeza. Senti braços em volta de mim, mas dessa vez não era Sam, pois logo eu escutei John me pedindo desculpas, em tom quase tão desesperado quanto eu me encontrava. Eu não iria desculpá-lo. Nunca.

Fim do FlashBack

Desembarcamos no aeroporto londrino de Heathrow, e John ligou para alguém enquanto eu ia numa loja comprar chocolate para ver se melhorava o meu humor. E funcionou. John mal me viu chegar e já começou a me bombardear de informações sobre a "nova família". Primeiro de tudo: eu tinha uma irmã de nove anos chamada Emma. Dá pra acreditar nisso? E então ele falou sobre , o tal cara com quem Jennifer falou pelo telefone quando o avisou sobre tudo. Ele tinha dezessete anos, e para o meu alívio ou não, John me contou que , ou , para os íntimos, não era meu irmão de sangue. Era na verdade filho do outro casamento de Helen, sua atual esposa. Bom, pelo menos isso. Já basta ter uma irmã, não precisava de mais um! Nem entendi porque ele continuava a me contar tudo aquilo, afinal eu só vou terminar o colégio esse ano e voltar para Kassel. Sim, esse era o plano. Eu vou me formar e voltar para a minha casa de verdade, ao lado dos meus amigos.
Continuamos andando para a entrada do aeroporto, empurrando nossas bagagens, enquanto John me contava que ele tem uma empresa de engenharia e Helen é fotógrafa numa agência de modelos famosíssima. O que me fez pensar que ambos tinham muito dinheiro.
- Ali está ela. – John apontou para algum ponto do aeroporto.
De repente, uma mulher de cabelos castanhos claros e lisos até os ombros, acenou para nós. Logo reparei na sua bolsa azul clara da Chanel e as sapatinhas claras, deixando aparecer sua estatura média. Magra, mas não aquela coisa magricela, a mulher mais parecia uma modelo ou uma daquelas atrizes coroas de Hollywood com um rosto bem conservado. A melhor palavra para defini-la era chique. Mas não com a aparência arrogante, na verdade ela parecia ser bem simpática com um sorriso enorme estampado no rosto quando chegamos mais perto.
- Seja bem vinda, , - Ela tirou os óculos de sol, deixando um belo par de olhos a mostra. Me abraçou e deu um beijo na minha bochecha, me pegando totalmente de surpresa. Ela era muito mais linda de perto e seu sorriso bem sincero, deu pra sacar. - Acho que você já ouviu falar de mim, sou a Helen. Como foi a viagem de vocês?
- Tranquila. - respondi sem graça, dando um sorriso fechado.
- Foi ótima, querida. - John lhe deu um beijo na boca e eu olhei para o lado, fingindo olhar para outro lugar. - Por que não veio com você?
- Ele teve treino hoje. - Helen passou o braço pelos meus ombros, me levando para fora do aeroporto com John atrás de nós. - Acho que quando chegarmos ele já vai estar em casa.
- E Emma? Ela já chegou da casa da Mia? - John perguntou, enquanto andávamos a procura do carro de Helen.
- Não, deve chegar amanhã de manhã. – Ouvi um barulho do alarme sendo desativado e procurei pelo carro, um Toyota Prius. Logo me veio à cabeça que Helen devia ser uma pessoa que preserva o meio ambiente.
Ajudei John e Helen a colocarem as bagagens dentro da mala e partimos. Eu atrás, olhando a cidade, Helen dirigindo e John no carona.

Capítulo 02.

Duas horas depois de tédio total, e de ver muitos campos bem verdes, cheios de ovelhas, vacas e todos aqueles animais, Helen anunciou que estávamos chegando. A primeira visão que tive de York foi a muralha que cerca toda a cidade, uma placa perto de portão dizia que tinha o nome de Micklegate. Helen me contou que era o portão mais importante da cidade, pois ligava York a Londres. Num momento de imaginação, pensei nos reis, rainhas e outras figuras importantes passando por ali. Não muito tempo depois, tive a primeira visão de York, quero dizer, da cidade mesmo, e eu fiquei sem fôlego. A cidade era realmente linda, John não exagerou em dizer, ainda mais com o sol se pondo, uma bela visão. Inconscientemente, coloquei a cabeça para fora da janela, para ver melhor. Passamos pelo rio enorme que banha a cidade, que Helen me disse ser chamado de Ouse. Vi diversos barcos oferecendo passeios turísticos pela cidade e como se John lesse minha mente, avisou que me levaria para um passeio qualquer dia desses. Fiquei animada. Algumas pessoas andavam de bicicleta, outras a pé, e durante todo o caminho, eu vi mais de dez pubs. Passamos por outro rio chamado Skeldergate Bridge, e depois de uns cinco minutos, entramos numa rua residencial sombreada, cheia de antigas casas, outras modernas. Viramos e paramos em frente a uma casa bem moderna de dois andares em cor bege e telhado marrom, e um jardim enorme com um pequeno lago logo perto com várias vitórias régias flutuando sobre ele. Árvores ao redor da casa dão impressão de ser um lugar bem calmo, distante de tudo. No instante em que coloquei meus olhos naquela casa, senti uma paz. Uma sensação boa, que não sentia desde... Que o inferno começou.
- É linda, não é? - Helen perguntou quando viu que eu continuava a babar pela casa mesmo depois de alguns minutos.
- É sim.. - Concordei, olhando ao redor, vendo as outras casas. Nenhuma era tão encantadora quanto essa.
- Seu pai quem projetou. - Ela pegou minha mão, virando a palma dela para cima e me entregando um molho de chaves. - Entre e conheça um pouco enquanto eu ajudo a descarregar as coisas.
Logo que entrei, me senti numa daquelas casas de filme. O hall exibia uma escada larga, de madeira, que levava para o segundo andar, mas o que me atraiu mesmo foi a porta dupla de madeira. Sem hesitar, abri os dois lados, me deparando com uma sala de estar luxuosíssima toda em pêssego, com o teto branco, uma lareira bem moderna e bonita num canto, um sofá grande no meio da sala em formado de L aparentando ser bem macio com algumas almofadas coloridas jogadas neles e mais duas poltronas da mesma cor, em frente a uma estante planejada bem grande na cor tabaco, que suportava uma TV de LCD tão grande quando o móvel, na parte de baixo havia dois aparelhos de DVD, outro de Blue-Ray e as caixas do home theater espalhadas por ali. Mais em frente ficava uma porta de correr de vidro que ia do teto ao chão, levando para a parte de fora da casa, mostrando uma piscina gigantesca.
Escutei uma música vinda do segundo andar e saí da sala, fechando a porta atrás de mim, antes de subir. Exatamente cinco portas espalhadas pelo corredor tomavam a minha visão. Mal coloquei os pés no patamar, e uma das portas foi aberta.
E aí foi que eu o vi.
Eu fiquei atônita, paralisada. Ele devia ser da mesma idade que eu, senão alguns meses mais velho, e estava com uma toalha branca ao redor da cintura, descalço, com os cabelos molhados e bagunçados, deixando cair algumas gotas de água no seu peito nu - e diga-se se passagem, bem definido - e ombros. Sua barriga era tanquinho, daquele estilo barrinha de chocolate, sabe? Eu fiquei babando mesmo e não teve como evitar aquela sacada, nem mesmo me lembrei que Sam existia. Na verdade Sam nem chegava aos pés dele e olha que Sam era um dos garotos mais gatos da escola! Ele não me viu de imediato porque sua atenção estava voltada para o Iphone em sua mão, mas não por muito tempo. Não sei dizer se foi por acaso, ou porque sentiu que estava sendo observado - O que eu não duvido que tenha acontecido muitas vezes na vida - Ele me encarou claramente surpreso, e parou. Estávamos alguns passos um do outro, e eu pude ver que ele tinha os olhos mais lindos, mais claros, cintilantes e intensos que eu já vi na vida. Talvez iguais aos da Helen, só que com outro tipo de brilho.
Ele me olhou de cima abaixo, demorando um pouco com os olhos no meu busto que estava um pouco exposto com a camisa com os botões apertos, e voltou a me olhar fixamente nos olhos.
E então ele sorriu.
Um sorriso maroto, daqueles bem sacanas mesmo, e não sei por que, meu coração acelerou drasticamente, deu cambalhotas e falhou miseravelmente. Não sei como, mas minhas bochechas não ficaram vermelhas, graças a Deus, mas eu posso dizer que fiquei toda arrepiada.
- Ei, você deve ser a famosa . - Ele falou, passando uma mão pelo cabelo, chegando mais perto de mim e eu me vi sem saber o que dizer ou fazer. Seu sotaque inglês preencheu os meus ouvidos como uma música. Juro que poderia ouvir sua voz gostosa e sexy o dia inteiro. - Eu sou o
- Oi.. - Falei o mais rápido possível com medo da minha voz parecer trêmula. A cada instante que ele me olhava, um novo arrepio percorria meu corpo dos pés a cabeça.
- ! - A voz de Helen nos fez desviar nossos olhares. Ela vinha segurando uma mala e subia as escadas. - Isso é maneira de receber a ?
- Desculpe, mãe.. - Ele passou a mão novamente nos cabelos. - Mas de qualquer forma eu já conheci a moça chorosa. – Ele disse olhando pra mim, com um sorrisinho.
Oi? Esqueça que ele era um tremendo gato, ok? Como assim moça chorosa? Ele tem problemas mentais é? Não se diz isso! Ele estava me sacaneando, estava na cara! Ele ainda falava isso com aquele sorriso de lado. Que pilantra! Helen lançou um olhar zangado pra ele e eu estreitei meus olhos. Desde o momento que John disse "você tem um meio-irmão" eu já senti que algo nada bom vinha por aí, e não é que eu estava certa? O cara estava me zoando e não tinha nem dez minutos que nos conhecemos! E o pior de tudo, era que por mais que a vontade de acertar a cara dele fosse grande, ele continuava sendo gostoso.
- ! - Helen disse, usando um tom que até o momento ela não usou.
- Ei, só estou brincando! – disse sorrindo pra ela e voltou a olhar pra mim. – Tudo bem com você ?
É. Ele estava realmente me zoando.
- Tudo. – Eu respondi da forma mais zangada e azeda possível, desviando meus olhos do rosto angelical dele.
- Aquele ali é o quarto da Emma. - Helen apontou para uma porta fechada do outro lado do corredor. - E aquele é o meu e do seu pai. - Ela apontou para outra porta perto do quarto da Emma. - Os outros são de hóspedes. - Depois se virou para . - Já que você está aqui, que tal colocar uma roupa e ajudar o John com as malas enquanto eu mostro o quarto da pra ela?
- Tudo bem. - revirou os olhos. Helen foi seguindo o corredor, passando pela porta que tinha saído há poucos minutos atrás e parou na porta ao lado. Quando fiz menção de segui-la, escutei a voz de sussurrando pra mim:
- Assim você me decepciona, Princesa.
Princesa? PRINCESA? Mané Princesa! Eu tenho cara de donzela por acaso? Tenho cara de que tenho uma fada madrinha com uma varinha mágica pronta para realizar os meus desejos? Eu abri a minha boca pra mandá-lo ir para num lugar nada simpático, mas quando me dei conta, já não estava mais perto de mim e sim prestes a entrar no seu quarto e fechar a porta.
E agora eu volto a perguntar: Qual era o problema desse cara? Eu não fiz nada pra ele, eu nem o conhecia direito e ele já estava todo arrogante pro meu lado. É realmente uma injustiça que Deus faça os lindos e gostosos serem esses pilantras que ficam sacaneando a gente! Princesa? Quem é Princesa aqui? Eu é que não sou!
Deixei isso pra lá e fui até onde Helen estava me esperando.
Eu tive vontade de dar um grito quando abri a porta. Grande, o quarto tinha a parede da frente quase sendo tomada por inteira por uma janela daquelas que a gente consegue sentar e ficar olhando a rua, com uma cortina meio transparente num tom de lilás, pra combinar com a parede cor de uva, e nas outras paredes um tom de lavanda bem claro e delicado. Próxima a janela, ficava a mesa do computador todo equipado e um aparelho de som tão moderno quanto o resto da casa e uma dessas cadeiras de escritório com rodinhas. Encostada na parede que liga ao quarto do , havia uma cama de casal com uma colcha grossa lilás e branca, com muitos travesseiros, acompanhada por dois criados mudos. Na frente da cama ficavam uma porta dupla e bem ao lado outra normal, todas na mesma cor tabaco que os móveis.
- Aquela porta dupla te leva para o closet. - Ela apontou para a porta - E essa. - Ela apontou a porta ao lado. - É o seu banheiro. As toalhas estão dentro de um armário perto do chuveiro, caso você queira tomar um banho. E aí, gostou?
- Nossa, Helen, é lindo! – Falei, finalmente entrando no quarto. Não tinha reparado que havia um pufe cor de uva com mais algumas almofadas jogadas no chão de tábua corrida. Quando me virei para a parede da porta, dei de cara com uma televisão de plasma. - Mas não precisava disso tudo...
- Bom, eu tive bastante ajuda da Emma. - Helen deu de ombros. - Ela disse que você ia gostar, e não estava errada. Bom, vou pedir ao que suba com as suas malas e depois vou providenciar o jantar. - Obrigada, mas não precisa se incomodar comigo.
- , não é incômodo nenhum. Eu quero que você se sinta em casa. - Quando fiz menção de falar, ela continuou. - Não quero substituir sua mãe, apenas quero ser sua amiga. Mais uma vez, seja bem vinda. - Ela me deu um beijo na bochecha e fechou a porta quando saiu.
Fui até a porta dupla, abrindo-a, dando de cara com um closet espaçoso, bem iluminado e totalmente vazio, com um espelho tomando uma parede inteira. Sem dúvidas minhas roupas não tomavam nem metade dele, mas mesmo assim gostei. Sentei num dos bufes jogados no meio do cômodo e fiquei observando o quarto daquele ângulo por algum tempo que não sei dizer ao certo.
Minha mente voou de volta a Alemanha, para a minha cidade.. O que Jennifer poderia estar fazendo? E Sam? Será que ele estava no treino? Eu daria tudo para ser uma mosquinha e voar de volta até lá. Eu não pensei na minha mãe. Não queria chorar agora, não enquanto todos estavam acordados, podendo escutar meus soluços. Mas antes que aquela pontada pudesse ficar latenjando em mim, senti a presença de mais alguém, e apareceu, sorrindo.
- Suas malas estão aqui. - Ele depositou duas pesadas malas perto da cama, e ficou me encarando do lado de fora do closet, com as mãos dentro da calça jeans que vestia agora. A blusa pólo preta realçava ainda mais os seus lindos olhos. - John pediu pra eu te perguntar se você quer ajuda com elas.
- Não, eu estou bem, obrigada. – Sai do closet, e puxei a primeira mala pra perto de mim, para tirar uma muda de roupa limpa. Eu achei que ele estivesse indo embora, mas ele continuou parado, me estudando, com se eu fosse chorar a qualquer momento.
- Escute – colocou a mão no meu ombro, apertando-o delicadamente, sem aquele jeito debochado de antes. – Eu sei que agora está doendo e não vou mentir pra você, ainda vai doer por um bom tempo e você ainda vai se pegar chorando a noite. Sei como é. Eu não tenho pai. - Ele parou, respirou fundo e continuou. - A dor vai ficar mais fraca com o tempo. Não digo que vai sumir, mas vai ficar mais fácil de encará-la, de senti-la. Então, de todo jeito, você vai melhorar. – ele terminou com um sorriso.
Eu me virei para ele, e sorri também. Eu tive muita vontade de abraçá-lo naquele momento. Tudo aquilo que ele disse.. Foi a melhor coisa que alguém havia me dito até agora. E foi mesmo, porque ele não mentiu pra mim. foi sincero comigo. Ele não me deu tapinhas nas costas e disse que as coisas iam ficar bem. Ele sabia que não era verdade, pelo menos não agora. Pelo menos por um tempo.
Eu me segurei demais dessa vez. Por mais que ele tenha falado tudo aquilo para me ajudar, eu não queria chorar na sua frente. Não queria ver seus olhos cheios de pena.
- Obrigada, . - Gaguejei.
- Disponha – Ele disse, parecendo um pouco envergonhado. – Mas, por favor, não me chama de , ok? está ótimo!
- Tudo bem, . - Quando eu disse seu apelido, o sorriso dele pareceu se alargar mais.
- Vou deixar você tomar banho agora, e depois desça para jantar. - Ele tirou a mão que estava no meu ombro, e quase pedi para que ele me tocasse de novo. - Bom banho, Princesa.
E eu ri. Eu não fiquei irritada por ele me chamar de Princesa dessa vez, por que de repente eu me toquei do por que ele estar tentando me irritar a toda hora.
Ele queria me distrair. Queria que eu não pensasse no que esta fazendo o meu coração sangrar e isso ajudou, isso me ajudou muito. Por alguns momentos meu coração não estava sangrando, ele estava ocupado demais sentindo raiva do meu suposto meio-irmão. Eu estava bem ocupada ficando totalmente fula da minha vida com ele pelos apelidos e sorrisos zombeteiros pra me lembrar do que tinha me machucado, pra me lembrar do que eu tinha deixado pra trás e como eu sentia falta daquilo tudo. Então eu sabia, não era tão ruim quando eu achei que fosse e talvez eu não estivesse tão ferrada quanto eu achei que estaria. E com certeza não me senti culpada por dar uma sacana na bunda deliciosa dele, antes da porta ser fechada.


Capítulo 03.

Mesmo sabendo que os raios solares estavam invadindo o meu quarto através das cortinas, mesmo sabendo que já era dia, eu não queira abrir meus olhos. Estava exausta demais para fazer isso porque passei a noite anterior chorando, depois que terminei o jantar. Helen, John e haviam sido muito receptivos comigo, mesmo que o último citado tenha tirado mais um pouco com a minha cara - Isso já está se tornando um hábito - Depois do jantar, eu subi, negando o convite insistente de John para assistir Senhor dos Anéis - me contou aos sussurros, que John ama a saga e adora fazer sessões com a família para assistir os três filmes. - E então eu voltei ao meu quarto, ficando sozinha, deitada na minha nova cama, imaginando o que Jennifer estaria fazendo naquele momento, ou o que Sam estava fazendo. Será que eles estavam sentindo minha falta tanto quanto eu sentia a deles? E então eu deixei que as lágrimas que eu reprimi o dia inteiro, viessem à tona, sem tentar contê-las. Na verdade eu nem me atrevi a fazer isso. Apenas me entreguei à tristeza que se apoderou do meu coração. Por que as coisas tinham que acabar desse jeito? As coisas nunca mais seriam as mesmas, mesmo que eu voltasse para Kassel. A saudade aumentou de uma forma tão abrupta ao lembrar que a minha vida era tão diferente há semanas atrás.. Saudade de escutar a Jennifer contando as novas fofocas da escola ou apenas falando sobre aqueles assuntos bobos como o vestido que ela comprou para a tal festa. Saudade do meu namorado, de ouvi-lo dizer que me ama, mesmo que eu nunca diga o mesmo simplesmente porque não sinto o mesmo. Saudade de receber um abraço dele ou apenas de sentir que estava sendo observada por daquele jeito malicioso, e principalmente, saudada da minha mãe. Só de lembrar que ela nunca mais estaria comigo nem para me dar um simples esporro, a dor parecia aumentar de uma forma horrível e esmagadora. Merda, nem um esporro!
E então foi essa a minha noite. Entre o macio edredom branco e lilás, chorando silenciosamente até adormecer com o rosto molhado, inchado e vermelho.
Já estava acordada há alguns minutos quando escutei a porta do meu quarto sendo aberta, mas ainda assim, continuei com os olhos fechados. Talvez fosse uma empregada para pegar a toalha que eu usei ontem, ou sei lá. Mas mesmo depois de algum tempo, não houve o barulho da porta sendo fechada, anunciando que o meu visitante já não se encontrava mais aqui. Aos poucos, abri meus olhos, vendo uma menina me encarando com os mesmos olhos que os meus e do John. Os cabelos da mesma cor dos do Danny, e o rosto parecido com o meu. Na verdade, ela parecia até um pouco comigo quando eu era pequena. Ela era a coisa mais lindinha e fofa que eu já vi na vida! Não devia ter mais de um metro e quarenta de altura e estava usando uma saia pregueada xadrez, num tom de verde oliva e uma blusa social branca de mangas longas, com o emblema da escola. E então eu me dei conta que a figura que se encontrava parada me observando de um jeito curioso, sentada no meu bufe cor de uva, era nada mais, nada menos que a Emma.
- Bom dia. - Ela falou, abrindo um sorriso fofo e totalmente inocente. - Eu sou a Emma, sua irmã.
Eu demorei um pouco para processar aquilo, afinal de contas, eu não estava acostumada a ter uma irmã. Sentei na cama, bocejando.
- Eu sei. - Eu sorri também, batendo num lugar vazio da cama. - Por que você não se senta aqui, Emma?
- Você é linda, . tem razão. – Ela sentou perto de mim, com os olhos brilhantes, cheios de curiosidade.
Eu levantei uma sobrancelha, achando aquilo meio estranho. disse que eu sou linda? WTF?
- Ele disse pra você que eu sou linda? - Perguntei, ainda não acreditando.
- Não. - Ela balançou a cabeça, e olhou para a porta. – Ele estava falando com o no celular hoje de manhã e eu escutei. Mas não conta pra minha mãe, tá? Ela odeia quando eu escuto a conversa dos outros, mas não teve como não escutar. Aquele idiota ficou falando alto na sala.
- Tudo bem, Emma, eu não vou contar. - Sorri de novo, achando engraçado uma criança de nove anos chamando de idiota. Parecia que ela era mais esperta do que a maioria das garotas da sua idade. Mas.. Então realmente havia dito que eu sou linda. Não que eu ligue para isso, mas bem, é um elogio, não é? Mesmo que tenha sido indiretamente. - Você também é linda, sabia? Parece comigo quando eu tinha sua idade, só que numa versão mais bonita.
- Obrigada. – Ela desceu da cama, e apontou para o banheiro. – Vai lavar o rosto, todo mundo está te esperando para tomar o café.
Eu quase recusei e inventei uma desculpa, mas não consegui, por algum motivo. Levantei, fui até o banheiro lavar o rosto, constatando a cara horrível que me encontrava. Eu não parecia nenhum pouco linda naquele momento. Definitivamente não.
Coloquei um roupão para cobrir minha camisola curta e calcei minhas pantufas de joaninha com direito a antenas. Emma me deu a mão e descemos juntas, em silêncio. Do hall já dava para escutar as vozes de John e Helen, conversando sobre algum assunto que eu consegui entender.
- Ela já disse que quer nossa presença esse ano lá e não adianta fazer uma comemoração aqui, de qualquer maneira. Ela já convidou a família toda. – Helen disse para John, enquanto se servia mais de café. Todos estavam sentados numa mesa redonda de granizo preto. estava alheio, comendo cereal e tomando suco. – Bom dia! – Ela olhou para nós e sorriu. – Venham tomar café.
olhou para mim e depois para as minhas pantufas, balançando a cabeça. Algo me dizia que ele iria usar isso contra mim na próxima piadinha.
- Bom dia, meninas. – John abaixou o jornal, e Emma foi até ele, dando lhe um beijo na bochecha e saiu, indo até a sala.
Eu não fiz nada, só fiquei parada na porta da cozinha, vendo aquela cena tão família e me senti uma invasora. Talvez tivesse sido má ideia descer. Olhei para a cozinha com os móveis todos em preto e branco, e quase sai correndo escada acima.
- Você não vai tomar café, ? – John falou comigo, e eu olhei para ele, meio sem jeito. Todos na cozinha me observavam.
- Ei Risadinha, – se pronunciou quando sentei na sua frente e me servi de cereal como ele. – Minha nossa! Você está horrível! Sua noite foi tão ruim assim?
Agora ele tinha mudado o apelido? E que papo é esse de Risadinha? Eu sou o Bozo agora e esqueceram de me avisar!
Eu estreitei meus olhos e fiz um "Haha" pra ele, sarcasticamente, pra mostrar que a piada dele não teve a mínima graça. Então, em meu socorro, Emma apareceu novamente da cozinha, trazendo uma mochila rosa de carrinho.
- Pare de encher o saco da minha irmã, ! – Ela deu um tapa no braço nele, e duvido que tenha doido, mas mesmo assim fiquei feliz em ver Emma me defendendo.
Os olhos de se estreitaram do mesmo jeito que os meus haviam se estreitado quando ele disse que eu estava horrível.
- Ah sua traidorazinha... – falou com falsa indignação.
Mas Emma não deu atenção a ele, ela veio até mim sorrindo, e confirmando a teoria dela ser mais inteligente do que a maior parte das garotas de sua idade, e sentou ao meu lado para tomar café.
- Não liga pra esse estúpido, . - Ela lançou um olhar feio para , colocando leite na sua caneca. - Ele adora encher o saco de todo mundo.
- Isso está realmente tocante.. – olhou debochadamente pra nós duas. Eu posso até dizer que ele era especialista em quebrar climas. – Já são melhores amigas.
- Ah, cala a boca! - Emma revirou os olhos. E a impressão que eu tive foi que ela quase mandou um dedo do meio pra ele, só não fez isso porque Helen e John estavam perto. Definitivamente ela herdou o meu temperamento.
- Bom pessoal, eu vou indo. – John se levantou, terminando de tomar seu café e depois se dirigiu a Helen. – Você vai comigo, querida?
- Vou sim. – Ela se levantou, dando um beijo no topo da minha cabeça, depois em Emma e depois em . – , não esqueça que a Emma sai mais tarde hoje por causa do ensaio para o recital, entendeu? Não vai se esquecer de buscá-la dessa vez! Só voltamos na hora do jantar. Tenham um ótimo dia.
- Até mais tarde. – John fez o mesmo que Helen, mas apenas em Emma. No ele apenas bagunçou os cabelos e para mim, lançou um olhar de despedida e saiu atrás de Helen.
- Ei, vocês não vão para a escola, não? – Uma mulher rechonchuda, com cara de boazinha, com os cabelos começando a ficar grisalhos presos num coque e vestindo uma roupa da empregada azul escura e branca entrou na cozinha por uma porta que eu nem reparei que tinha.
- Bom dia, Molly. – acenou para ela e levantou para levar seu pires para a pia.
- Molly, olha a minha irmã ! – Emma apontou para mim e a tal de Molly sorriu. – , a Molly é nossa cozinheira e cuida de mim quando ninguém está em casa.
- Ah, bom dia. – Tentei ser simpática, e sorri.
- Vamos logo, Emma, ou então a dona Molly aqui vai contar para a mamãe que eu te levei atrasada para escola. – deu um beijo em Molly e eu percebi que ela não era uma simples cozinheira/babá nas horas vagas.
- Tchau . – Emma me deu um beijo e um abraço apertado. – Nós podemos jogar vídeo game quando eu voltar, que tal?
- Acho uma ótima idéia. – Falei animada, vendo Emma dar um beijo em Molly e sair, arrastando sua mochila rosa cozinha a fora.
- Tchau . – se despediu de longe, segurando a chave de um carro na mão e jogando uma mochila preta no ombro. De repente me perguntei qual era o carro dele.
- Tchau . Bom dia pra vocês. – Me despedi, já achando péssima a ideia de ter concordado com John em só ir para a escola daqui a dois dias.
Na verdade foi Helen quem sugeriu ontem, durante o jantar, dizendo que eu deveria me acostumar com o fuso horário primeiro, e arrumar minhas coisas e tudo mais.. Eu só concordei porque queria subir o mais rápido possível. Mas agora eu não tinha nada para fazer, a não ser dormir.
- E então, , o que você quer fazer hoje? – Molly limpou as mãos molhadas num pano de prato e sentou na cadeira onde estava há minutos atrás.
- Bom, eu não sei, exatamente.. – Dei de ombros, empurrando a língua contra a minha bochecha por dentro da boca. – Não tenho nada pra fazer.
- Que bom, eu também não. – Ela sorriu amigavelmente – Por que você não sobe, toma um banho quente enquanto eu termino de ajeitar a mesa do café e me espera no seu quarto para desfazermos as suas malas? Com certeza a maioria está intocada.
- Me parece uma boa ideia. – Não, não parecia nada. Eu só não tinha nada pra fazer e bem, Molly estava sendo simpática e seus olhos meigos acabaram me convencendo.
Poucos minutos depois que eu saí do banho, Molly bateu na porta do meu quarto. Fiquei pensando se ela não tinha nada pra fazer mesmo ou apenas queria me deixar minha mente ocupada, como tentava me chamando de Princesa/Risadinha. Só que a diferença foi que ela não me colocou apelidinhos ridículos e ficou tirando uma com a minha cara. De qualquer forma, Molly foi muito carinhosa e amigável. Ela parecia aquelas vovós super modernas e sem um cheiro estranho que todo mundo sonha em ter. Até mesmo me contou um pouco sobre a sua vida, durante o resto da manhã, enquanto desfazíamos minhas malas e colocávamos tudo organizado no closet. O resumo: Molly era escocesa e se mudou para York quando dia a minha idade e aqui, conheceu seu ex-marido com quem teve dois filhos, agora já crescidos. Antes de se separarem, ela era dona de casa, mas como depois precisou de dinheiro, começou a trabalhar como cozinheira. Acabou parando aqui quando Emma nasceu. E pelo que deu pra confirmar meu pensamento mais cedo, ela era quase uma integrante da família. Ela me contou também que já cansou de dar umas palmadas na bunda do quando ele era menor, o que me fez rir imaginando a cena.
Molly até mesmo me prometeu que me ensinaria a cozinhar uma típica comida escocesa, quando eu quisesse! Isso me fez gostar mais dela.
Depois disso, mudando de assunto várias vezes. Ela não me perguntou sobre a minha vida antiga - Quem lê pensa até que eu tenho um passado negro - E eu de certa maneira, agradeci. Na verdade, não houve nenhum tipo de silêncio constrangedor com a Molly. Ela foi totalmente falante e alegre e adorou os meus CDs. Ela disse que eu tenho um gosto bem eclético pra música depois de ver minha coleção de CDs do Muse e Elton John. Disse até que traria a sua coleção do Phil Collins pra eu ouvir.
Fizemos uma pausa para o almoço e depois voltamos a mexer nas malas. Eu não pensei que fôssemos demorar tanto, mas quando me dei conta, já eram quase duas da tarde. Foi bem legal. Ocupou realmente a minha cabeça.
Quando ajeitei meu par de sapatos preferidos, e Molly estava prestes descer para preparar o lanche, ouvimos a porta da sala sendo fechada e passos apressados escada acima.
- ! ! Ufa, cheguei. - Emma apareceu na porta do closet, ainda segurando sua bolsa rosa. - Podemos jogar agora?
- Primeiro a mocinha vai tomar um banho, trocar de roupa e lanchar, depois eu deixo vocês jogarem até o jantar ficar pronto. - Molly empurrou Emma delicadamente para fora do meu quarto.
- Você está perdida. Vai ter que jogar com a Emma até morrer ou por sorte, seu pulso quebrar. - entrou quando fechei a porta do closet atrás de mim e me preparava para descansar um pouco na cama. Ele estava com uma coleira na mão e a mochila na outra. - Vem, vou te apresentar ao Jack enquanto a Emma toma banho.
- Quem é Jack? - Questionei, mas me levantei e o segui até o primeiro andar.
- O John não te falou? Eu tenho um cachorro. Um labrador. Você não o viu porque ele estava no adestramento, mas pelo que eu já vi, não adiantou muito. A Molly não o deixa ficar por muito tempo aqui dentro, porque bem.. Digamos que ele não seja um cachorro muito comportado.
- Então ele é igualzinho ao dono. - debochei e fez uma careta.
Passamos pela cozinha, e senti um cheirinho delicioso do fogão. sentiu o mesmo, já que foi direto pra lá, mas antes que pudesse levantar a tampa da panela, Molly apareceu e o mandou para fora.
Eu até esqueci de ver como era aquela parte da casa, e dei de cara com um quintal enorme, uma piscina gigantesca, com várias espreguiçadeiras de madeira, e duas mesas com guarda-sol. Algumas árvores ficavam um pouco mais atrás, e até dava pra ver uma casinha de cachorro bastante grande, perto de uma delas. De repente, um labrador da cor chocolate apareceu, correndo na minha direção, com a língua pra fora como se eu fosse um pedaço de carne bem suculento, mas antes que o cachorro pulasse em mim, se meteu na frente e o segurou.
- Calma amigão! - O cachorro era enorme, quase do tamanho de um homem. coçou atrás da orelha dele e depois o soltou. - Essa aqui é a , a nova moradora da casa.
Eu levantei a sobrancelha vendo aquela cena. O cachorro estava prestando atenção no que o dizia e depois olhou para mim, como se estivesse me avaliando. Confesso, ele era lindo. Seu pêlo era brilhante, bem cuidado e ele ainda tinha um cheiro ótimo! Não é nenhuma mentira quando dizem que o cachorro é a cara do dono. Jack era igualzinho ao . Os mesmos brilhos nos olhos, o mesmo jeito brincalhão. Até baba como o .
Brincadeira.
- Ele gostou de você. - comentou, fazendo Jack chegar mais perto de mim. - Vem, chega mais perto.
- Como você sabe? - Agachei na altura do cachorro e cocei a orelha como fez. Ele fechou os olhos, cheio de charme.
- Olha como ele está por você.. Está de quatro, literalmente! - agachou-se ao meu lado, também fazendo carinho no Jack.
O cachorro abriu os olhos, e se jogou na grama, para que eu fizesse carinho na sua barriga.
- Eu também gostei dele, não é Jack? - Esfreguei minha mão na barriga lisinha e macia dele.
- Parece que você conquista as pessoas facilmente, Risadinha. - disse olhando nos meus olhos de um jeito estranho e eu fiquei sem saber o que dizer. Apenas sorri e continuei acariciando o Jack.
- Então você já conheceu o Jack! - Emma apareceu vestindo um vestido azul bebê que realçava ainda mais os seus olhos e os cabelos presos num rabo-de-cavalo, fazendo minha atenção ficar voltada para ela agora. - Ele é lindo, não é?
- É sim. - Concordei, ficando de pé. ainda manteve seus olhos em mim, mas eu não ousei voltar a olhá-lo. - Bom, estão vamos jogar?
- Vaaaaamos! - Emma bateu palmas e saiu correndo para dentro.

Emma escolheu jogar Guitar Hero. Eu era péssima nesse jogo, então eu perdi todas as rodadas que jogamos antes de John e Helen chegarem para jantar, à noite. Não foi tão chato quanto deu a entender que seria. É claro que eu não pretendia passar todas as minhas tardes jogando, mas alguns dias não fazia mal nenhum, não é? Além do mais, a companhia da Emma era ótima, acredite. Depois de reclamar pela vigésima primeira vez o quão eu era ruim, ela me prometeu que eu aprenderia a jogar direitinho até o fim de semana e quem sabe vencê-la. Enquanto jogávamos, Emma passou o relatório completo do . Nem sei explicar como tal assunto surgiu, apenas quando me dei conta, ela já estava falando dele, me contando que aquele pentelho já foi suspenso quatro vezes junto com mais três amigos só esse ano e advertido cinco. Deu pra sacar que ele não era nenhum santo né? Aí vão mais algumas bombas: Ele colocou fogo num dos armários da escola, botou taxinha na cadeira do professor de física, jogou um livro/club social no ventilador, levou cup noodles pra fazer na sala, jogou o livro pela janela e acertou o carro novinho do diretor, quebrou o nariz de um colega de classe, tirou a roupa e correu nu depois de ganhar o campeonato de futebol no segundo ano.. Quer mais? O cara era o demônio em pessoa! Ele e os amigos, né. E eu que pensei que ele fosse todo certinho.. Que nada, só tinha cara. E ainda devia ser um mulherengo brabo com aquela carinha toda lindinha. Agora me explica isso: Como uma pessoa inteligente, que tira notas boas, consegue fazer tanta merda? Depois Emma começou a contar algumas coisas boas.. era atleta, capitão do time de futebol da escola, na verdade. E até já ganhou algumas taças. Eu quase questionei o porquê dele ainda não ter sido expulso por causa de tantas advertências e suspensões. Bom, pelo menos graça ao treinamento ele tinha um corpo ótimo! - É, eu não esqueci que ele era gostoso. E bota gostoso nisso! - Ah, mas tirando tooodas às merdas, ele até que era responsável - tirando, é claro, o fato de ele ter feito a Emma esperar por três horas na porta do colégio, quando na verdade, ele estava na casa de um dos amigos. - Ou seja, ele só era responsável quando lembra/quer/pode. Então pra quem achou que ele era o Sr. Perfeição, se ferrou bonito! Ahá, ele não era apenas um simples suposto-irmão-irritante-gostoso. era um suposto-irmão-irritante-gostoso-que-vivia-fazendo-merda!
Finalmente a Emma cansou, e nós duas ficamos deitadas no tapete pelfudo e rosa do quarto dela, enquanto eu olhava para a coleção completa de Barbies que ocupa uma estante inteira. A garota tinha todas as Barbies! To-das. O meu sonho era ter essa coleção, quando era pequena, é claro.

A comida da Molly estava realmente deliciosa. Ela tinha feito carne assada e batata frita para o jantar, e só estávamos os barulhos dos talheres. Talvez por educação ou pela fome, ninguém abriu a boca por algum tempo. Até que John quebrou o silêncio e me perguntou, meio hesitante, se eu queria ir para a escola no dia seguinte. Eu aceitei, é claro. Não para agradá-lo, nem nada, mas é que como as minhas malas já estavam desfeitas, não havia mais nada para ser arrumado. Ou seja, eu ficaria sem fazer absolutamente sem fazer nada o dia inteiro, entregue ao tédio e as lembranças.. Mesmo que Molly entrasse no meu quarto e tentasse puxar assunto, como certamente ela faria.
Ele pareceu feliz quando eu concordei, e como se estivessem esperando que essa pergunta fosse feita, todos resolveram falar sobre seu dia.
Depois do jantar voltei para o meu quarto e deitei na cama, sem ter nada para fazer. Então me veio a ideia mais óbvia do mundo. Eu tinha um computador todo equipado só pra mim, por que não usá-lo? A coisa era tão moderna que eu nem precisei conectar a internet. Entrei no Live Messenger, procurando que nem uma louca o bonequinho verde de Sam, Jennifer ou qualquer outra pessoa que poderia me dar notícias sobre o que estava se passando em Kassel.
Fiquei um tanto frustrada quando não vi nenhum dos dois disponíveis na minha lista de contatos. Mas então eu vi o bonequinho da Megan verde. Logo que eu mudei meus status para on-line uma janela se abriu bem na minha frente.
Megan diz: , como você demorou! ANDA, ME CONTE TUDO SOBRE A INGLATERRA! - Ela digitou em um segundo.
diz: Não há muito que contar, Megan. Eu nem vi nada ainda, nem sai de casa.
' Megan diz: Oh, minha nossa! Mas os ingleses são lindos, não são? E o sotaque deles?
diz: Sim, alguns são. - E eu me lembrei de nesse momento. Mas vamos combinar, ele era uma referência e tanto. - Hm, você viu o Sam ou a Jen por aqui?
' Megan diz: Bem, na verdade não. Não tenho encontrado com eles, a não ser na escola. - Ela mandou a mensagem e depois emendou mais uma. - Como foi a despedida?
diz: Foi como uma despedida... – Eu disse simplesmente.
' Megan diz: Poxa, , que pena! De ter sido horrível quando vocês terminaram. Quero dizer, um ano de namoro né? Vocês eram tão perfeitos!
diz: Nós não terminamos, Megan! - Digitei imediatamente. De onde ela tirou uma ideia tão absurda?
' Megan diz: Não? – ela perguntou, tão rápido quanto eu.
diz: É claro que não, Megan! Por que terminaríamos? – digitei calmamente. É óbvio, não é? Afinal ele estava em Kassel, Alemanha. E eu estava em York, Inglaterra. Mas não. Nós não terminamos!
' Megan diz: Bem.. Eu não sei, só achei que vocês fossem terminar. – Ela me mandou e antes que eu pudesse digitar uma resposta Megan emendou – Você sabe o que dizem de namoros à distância.
Eu respirei fundo. Respirar faz bem quando a gente começa a pensar em coisas ruins. Tipo o meu caso, pensar no fim do meu namoro por causa da distância. Isso estava fora de cogitação, eu tinha certeza.
diz: Bom, é o que dizem. Mas será diferente nesse caso. Eu e Sam somos diferentes. E a Alemanha nem fica tão distante assim! O avião não demora tanto. Eu não moro do outro lado do mundo! – mandei, satisfeita pelo meu texto coerente.
' Megan diz: Bom, se você está dizendo..
É, eu estava dizendo mesmo. Porque era isso que iria acontecer. E Sam poderia vir aqui, John mesmo me disse. E eu também poderia visitá-lo! Eu só precisava fazer John concordar em me deixar ir sozinha.
Depois disso Megan começou a fazer outro interrogatório. Eu respondia prontamente, mas pulando é claro a citação sobre de "meu suposto-irmão-gostoso" e então outra janela do Messenger subiu na minha tela. Meu coração deu um pulo, e meus lábios se curvaram num sorriso.
' @Sam diz: Como você está se sentindo amor? - Ele disse daquela forma carinhosa. Eu quase dei um grito de tão empolgada. É idiota, eu sei, mas eu me senti mais leve, mais aliviada.
' @ diz: Estou morrendo de saudade, Sam, você nem pode imaginar!
' @Sam diz: Também estou sentindo sua falta. - Ele digitou e depois emendou mais uma frase. - Como estão às coisas por aí? Como está John?
E eu contei tudo, como fiz com Megan. Contei sobre todo mundo, sobre a casa, a cidade.. E conforme eu contava as novidades, lágrimas começaram a ameaçar a molhar os meus olhos. Eu pensei seriamente em pegar minhas malas e voar direto para o meu namorado. Deus, como eu estava com saudade! Ficamos horas e horas conversando, e minhas lágrimas continuavam descendo sem parar, mas de felicidade. Agora eu me sentia realmente aliviada por ver Sam sendo tão fofo comigo. Ele disse que precisava dormir e eu, relutante, me despedi. Não foi aos beijos e aos choros quando nos despedimos pessoalmente, mas ainda sim foi triste. Mas ele prometeu que me ligaria amanhã, o que me relaxou um pouco. Então ele se desligou, e quando vi a hora no relógio da barra de ferramentas, já passava da meia-noite. Resolvi desligar o computador também, afinal de contas, daqui a algumas horas eu estaria indo para a escola.
Liguei o meu novo aparelho de som, e coloquei meu CD do The Fray, deixando tocar Never Say Never, enquanto tomava banho no chuveiro de ferro do meu banheiro. Peguei um edredom branco dentro do armário e abri um pouco a enorme janela. Estava frio, mas eu queria sentir o vento gelado. Não me importava. Dei uma espiadela nas luzes das casas ali perto, e até mais além. Do outro lado havia algumas montanhas, e se estivesse sol, daria para ver o campo bem verde que eu vi no caminho pra cá. E depois olhei para o Jack lá em baixo, no jardim. Aquele também não se importava com o frio. Estava deitado na grama, de barriga para cima. Inclinei-me um pouco no peitoril e respirei profundamente o ar puro. Pelo canto do olho, eu percebi que também havia deixado sua janela aberta e de lá dava pra ouvir uma música baixinha, tão lenta quanto a minha. Eu não sei o porquê, mas sorri. Talvez por ser uma estranha coincidência.
Voltei para o quarto, mas deixando uma fresta da janela ainda aberta. Apaguei as luzes, deixando apenas um abajur aceso, por causa do meu medo de escuro. Sim, eu nunca superei, e daí?
Afundei-me na cama confortável, sentindo a maciez do edredom e dos milhões de travesseiros ao meu redor. Mas em vez do sono chegar com todo aquele conforto, a única coisa que veio foi o pensamento na minha mãe. E então eu comecei a chorar. Chorar muito, de verdade. Mais do que eu chorei quando estava falando com Sam.
Minha fronha ficou molhada, assim como uma parte do meu edredom. Revirei-me diversas vezes na cama, tentando tirar aqueles pensamentos ruins da minha cabeça, mas eles não foram embora. Eles queriam me torturar, e assim estavam fazendo. A dor veio mais forte do que nunca, e eu me contorci, querendo gritar. Mais forte do que no dia da morte dela, mais forte do que no enterro dela e mais forte do que na minha despedida.
Eu pedi inconscientemente que estivesse do meu lado, enchendo o meu saco, me chamando de Risadinha. Talvez assim eu não sentisse dor. Talvez assim eu não sentisse aquela coisa horrível no meu peito. Aquele bolo na minha garganta.
Meu coração estava sangrando de novo.
Por um momento, eu pedi para morrer e parar de sentir tudo.
Não seria nenhuma surpresa que todos tivessem me ouvido chorar naquela noite. Não foi baixo. Eu não chorei silenciosamente como na noite anterior. E então eu me lembrei, tarde demais, de que a janela estava aberta e a de também. E torci para que ele já estivesse num dono profundo, impedindo-o de me ouvir chorar. Assim como Emma, John e Helen.

Capítulo 04.

Estremeci ao sentir a brisa gélida vinda da janela atingir o meu corpo. Maldita seja essa mania horrível de ficar me descobrindo a noite. Puxei o edredom, me cobrindo por inteira e me afoguei entre meus travesseiros, agarrando um como se fosse um ursinho de pelúcia daqueles bem grandes e fofos. Eu sempre gostei de dormir agarrada a um travesseiro, e esse era tão macio que eu poderia ficar agarrada a ele o dia inteiro. Levantei um pouco a cabeça em direção a janela, vendo que já era dia e voltei a afundar minha cabeça no travesseiro, rezando para que todos se esquecessem de mim e não viessem me chamar para levantar. Logo que esse pensamento veio na minha cabeça, ouvi uma batida na porta.
- Bom dia . – Emma entrou, como se soubesse a minha intenção e nem esperou que eu respondesse. Eu levantei um pouco a cabeça, e vi que ela ainda vestia a camisola rosa da Barbie de meia manga, que cobria quase todo o seu corpinho. – Hora de levantar.
- Ah, não. – Soltei um muxoxo, sonolenta, voltando a enterrar a cabeça no travesseiro, querendo que ela sumisse e me deixasse dormir por mais cinco horas. – Ainda é cedo demais.
- Anda sua preguiçosa. – Ela pulou na minha cama, bem em cima de mim, me fazendo acordar completamente. Satisfeita, ela saiu e foi até a janela, abrindo totalmente a janela, deixando a claridade entrar. – Levanta logo! Não vou voltar aqui para te chamar.
E saiu batendo a porta.
Vai dizer que ela não pareceu uma mãe falando daquele jeito? Só faltou colocar a mão na cintura e dizer “Se você não fizer o que eu estou mandando, não vai naquela festa sábado, mocinha”. Que menina mandona, hein. Adorei isso.
Relutante, sentei na cama e me espreguicei. Fui até a estante para desligar o som que eu deixara ligando ontem à noite e me encaminhei para o banheiro. Tomei um banho quente um tanto quando demorado e sequei o meu cabelo, deixando o mais natural possível, e o enfeitei com um headband preto. Passei um pouco de maquiagem no rosto, carregando um pouco mais no blush, querendo deixá-lo mais nítido do que o normal, disfarçando a cara horrível que eu estava. Tirando o fato do meu rosto não estar inchado como ontem, ele não tinha muita diferença. Eu ainda estava com uma cara péssima e não queria que ninguém tomasse um susto comigo logo no primeiro dia de aula.
Fui até o closet e peguei a roupa mais simples que eu achei: Uma calça jeans skinny escura, uma blusa branca de alça um pouco larguinha e mais comprida daquelas que estão se usando bastante e é claro, meu All Star branco de couro. Peguei um casaco, juntei meu fichário, estojo, celular, óculos de sol e todas aquelas coisas que mulheres carregam e coloquei numa maxibolsa verde clara.
Só estavam Emma, e Molly quando cheguei na cozinha. Os dois primeiros estavam sentados na bancada branca com cadeiras pretas, comendo cereal. desviou seus olhos do seu jornal, onde fazia palavras cruzadas e olhou de cima a baixo pra mim.
- Ei, resolveu descer é? Pensei que ficaríamos o dia inteiro te esperando. – Ele disse com aquele sorriso de deboche que já estava começando a me irritar. - Mas pelo menos valeu à pena, você não está tão ruim hoje.
- Dá pra deixar minha irmã em paz, ? – Emma deu um tapa nele como ontem, mas dessa vez deu forte e riu. Depois ela virou-se pra mim sorrindo. – Você está linda, . Adorei a sua bolsa. Os caras da escola vão babar em você.
- Você é uma fofa, Emma. Obrigada por me defender desse troglodita. – Dei um beijo na bochecha dela e sentei ao seu lado.
- Eu não vou mais encher o saco da Risadinha então. – falou voltando sua atenção para o jornal.
- Não enche, ! – Revirei os olhos, e voltou a me encarar, estranhando por eu tê-lo chamado pelo sobrenome. Fez uma careta e eu apenas ignorei, voltando para Molly que ainda não tinha falado nada. – Onde estão John e Helen?
- Saíram mais cedo, e avisaram para vocês não os esperarem para o jantar. Vão a um jantar de negócios do seu pai.
- Hm. – Murmurei, ocupando minha boca com um pedaço de torrada com geléia.
Molly perguntou o que gostaríamos de comer no jantar, e Emma bateu na mesa dizendo que queria batata frita. resmungou dizendo que ele precisava ter uma dieta saudável para não engordar e não ter o treinador no pé dele. Depois de uma pequena “discussão” entre eles dois, Molly decidiu que ela mesma iria escolher o jantar. Nos despedimos dela, com direito a beijo na bochecha e tudo, e fomos até o carro do , pelo qual eu babei muito antes de entrar. O cara já era gato, ter um carro daqueles era maldade demais, não? Mal entrei no carro, e senti o perfume do tomando conta do ar, me deixando meio lerda. Não que eu não tivesse sentido antes, mas agora ele estava bem ao meu lado, no banco do motorista, e então eu pude sentir mais de perto. Uma mistura de loção masculina com alguma coisa que eu não saberia explicar, mas realmente gostosa. Daqueles que a gente sente e não esquece mais sabe? Aquele tipo de cheiro que se entranha em você e deixa seus pulmões complemente tomados, sufocados, viciados. Eu quase me pendurei no pescoço dele para sentir mais, por um súbito momento eu me vi grudada nele, dando uma cheirada bonita no seu pescoço. Mas esses pensamentos foram afastados assim que paramos em frente ao Headington School, uma escola só para meninas. Eu nem tinha me dado conta de como fomos parar ali, tal era a minha atenção ao cheiro delicioso do .
Emma deu um beijo em mim e depois em , antes de descer e se meter num grupo de umas cinco meninas da mesma idade. Uma delas olhou para dentro do carro e deu um tchauzinho para o , com aquele olhar de apaixonada e todas que estavam com ela, olharam e fizeram o mesmo. Ele deu um tchau em resposta, e eu revirei os olhos. Eu realmente não estava acreditando que aquele bando de pirralhas estavam caidinhas por ele. Mas pensando bem, elas eram garotas de nove anos e não entendiam nada, ou seja, é bem fácil de apaixonar por um idiota como ele.
- Ué, a gente não vai pra escola? - Perguntei quando ele virou a esquina, saindo da rua principal.
- Vamos sim, Risadinha. Mas eu vou dar carona a um amigo, algum problema? - Ele olhou pra mim através do óculos de sol. Eu agradeci pelos seus olhos estarem escondidos através das lentes.
- Não. - Respondi, aumentando o volume do rádio para me distrair. Eu me senti incomodada porque ainda continuava a me olhar, com um sorrisinho de lado. - Algum problema, ?
- Vai ficar me chamando de agora? - Brevemente, ele voltou para frente para checar a rua, voltando a sua atenção pra mim depois.
- E se eu for chamar? Há algum problema nisso? - O encarei também, querendo bater de frente. – Você fica inventando apelidinhos estúpidos e eu não reclamo, reclamo?
- Eu realmente não me importo. - Ele desviou para a rua de novo e eu fiz o mesmo, olhando para a janela ao meu lado. - Na verdade soa bastante sexy por causa do seu sotaque.
Eu apenas me limitei a revirar os olhos, prestando atenção na música que tocava no rádio. Continuamos em silêncio até ele virar novamente e entrarmos numa rua residencial, tão rica quanto à da casa de John e Helen.
- Aí está ele. - falou, apontando com a cabeça para um garoto sentado na calçada, em frente a uma casa branca com detalhes azuis.
Ele era lindo. Estava com os olhos fechados e batia as mãos na perna, acompanhando o ritmo da música que saia dos fones do seu iPod. O volume era tão alto dava para escutar de longe. Eu ri com a cena. O garoto estava totalmente alheio as coisas ao seu redor, razão pela qual não escutou a buzina do carro de .
- ! - Ele chamou pela terceira vez e jogou uma bolinha de papel que encontrou pelo carro. abriu os olhos e sorriu de um jeito sapeca. - Vamos logo, estamos atrasados!
- Calma cara, pra que tanta pressa? - pegou sua mochila e sentou no banco de trás. acelerou o carro, e apoiou os braços nos bancos da frente, me olhando pelo espelho retrovisor. - Ei, você deve ser a . Eu sou o , o cara mais irresistível da cidade. – Ele sorriu, dando uma piscadela pra mim e bufou divertido. – Mas pode me chamar apenas de .
- Então quer dizer que você já ouviu falar de mim, ? - Olhei para ele pelo espelho, depois para , que pareceu meio sem graça e ri, internamente. É claro que eu não me esqueci o comentário que Emma fez sobre ter escutado a conversa dos dois no telefone. A intenção foi deixar sem jeito e eu consegui. - Espero que tenha sido algo bom.
- É, pode ser. - Vi sorrindo pra mim pelo espelho e depois assentir, apontando pro .
- , - chamou com uma voz de aborrecido. E eu tive certeza que ele só chamou o pelo sobrenome porque viu o que ele tinha feito. - os outros vão querer carona também?
- Não. foi mais cedo para encontrar com a Cassie e o foi com ele. – deu uma cutucada na cabeça dele. – Acelera isso, eu não quero chegar atrasado.
St. Olave's School era uma escola gigantesca. Não era nem comparada a minha escola antiga, que também não era nada pequena. St. Olave's School mais parecia uma faculdade do que uma escola, na verdade. Eram quatro prédios; A, B, a secretaria, que não era muito grande e o ginásio. O prédio A era o principal, onde tinha aulas de história, física, matemática.. O prédio B era o prédio com salas somente voltadas para o esporte e música. Ou seja, tinha a sala de Judô, Karatê, Balé, do coral, etc. Do lado do ginásio ficava uma piscina olímpica. E bem na frente dos quatro prédios, ficava o estacionamento livre e grandão, onde tinha deixado o seu humilde Land Rover com outros carros igualmente humildes.
Passamos pela secretaria para pegar minha grade de aulas, meus livros novos e a senha do meu armário. O tempo inteiro eu fiquei no meio entre e , que cumprimentavam algumas pessoas com acenos ou piadinhas. Eles mais pareciam meus guarda-costas do que qualquer coisa. Vi de soslaio que algumas pessoas olhavam para nós, outras apenas comentavam e ainda tinham aquelas que faziam as duas coisas ao mesmo tempo. Eu me senti totalmente tímida com aquela atenção. Talvez fosse por causa dos meninos, ou talvez porque eu fosse um rosto novo no meio de tanta gente. Quando finalmente passamos pela porta do prédio A, segurou a minha mão, e eu o olhei confusa, estranhando aquela atitude repentina.
- O que está fazendo? - Baixei meus olhos para nossos dedos entrelaçados como se fôssemos um casal. A mão dele era linda. Quente, gordinha, grande e macia.
- Nada. - Ele respondeu sério, mas não olhou para mim e nem soltou a minha mão. Os olhos dele, que agora já não estavam mais protegidos pelo óculos, iam a todos os cantos do corredor, encarando as pessoas. - Apenas fique perto de mim.
- , dá pra me explicar o que é isso? - Sussurrei para o garoto ao meu lado, querendo saber o que estava acontecendo já que não me contava.
- Não é nada. - Ele falou, mas também não me olhou como . Sorriu para alguém que eu não vi quem era, pois ainda estava com os olhos no rosto dele. - Tá vai, depois eu te explico.
Virei para frente, rolando os olhos e vi que mais pessoas nos observavam. Não na mesma quantidade do estacionamento, era ainda maior. Eu soltei um suspiro, me sentindo nervosa por causa daquela situação e apertou minha mão, querendo me tranqüilizar.
- Ei, caras! - Ouvi a voz de um garoto atrás de mim, quando eu estava guardando os livros que não eram necessários nas próximas aulas. - Pensei que vocês não fossem chegar hoje.
- Tivemos que passar para levar a na secretaria. - disse e eu me virei, depois de fechar o armário. Não era apenas um garoto e sim dois. Lindos e ambos estavam sorrindo. De repente eu me perguntei se todos os caras da cidade eram lindos como os quatro.
- Ei, então você é a nova integrante da turma da bagunça? - Um deles me perguntou e deu um tapa na cabeça nele. - Que é?
- Não difame a gente antes do tempo, cara. - Ele colocou a mão no meu ombro. - , esses são e .
- Ela é filha do John. - Danny se meteu na conversa de supetão. Não houve aquela expressão de "Ah sim, entendi" no rosto deles. Estava na cara que eles já sabiam.
- Foi um prazer conhecer vocês meninos, mas eu preciso ir pra aula. - Falei quando o sinal tocou. - Vocês sabem onde fica a minha sala?
- Vem, eu levo você. - pegou a minha mão e dirigiu a palavra para os outros. - Encontro com vocês na sala.
De novo foi aquela coisa de gente olhando para nós, mas dessa vez eu não me senti intimidade pelos olhares curiosos. Eu me senti.. Bem. Na verdade, me senti ótima. Mas eu não deveria. Eu estava de mãos dadas com um cara que não era meu namorado e nem me incomodei nem um pouco com isso.
- Pronto. - largou a minha mão quando paramos em frente a sala 305, no terceiro andar, onde alguns alunos entravam. - Acho que aí dentro você vai estar protegida.
- Do que você está falando, ? - Agora ele teria que me explicar! - Por que você e estavam agindo como se estivesse me protegendo de alguma coisa?
- Não é nada demais, . - Ele colocou as mãos nos bolsos da calça. - É que as pessoas daqui são venenosas demais, e você é novata, não conhece ninguém. - Eu sorri fraco com a preocupação dele, e ao mesmo tempo fiquei irritada por ele me tratar como criança.
- Não precisa fazer isso, . Eu não sou nenhuma criança. - Achei que meu tom saiu um tanto quanto arrogante e emendei com um sorriso. - Sério, não precisa ficar cuidando de mim. As pessoas daqui não são diferentes do meu antigo colégio. Mas eu agradeço pela preocupação, mesmo que ela seja desnecessária.
- Como acha que não, mas com o tempo, vai ver que são sim. - Ele deu de ombros. - Eu vou pra aula agora. Minha sala fica no segundo andar e não posso me atrasar. Passo aqui na hora do intervalo.
- Não precisa, . - Falei paciente, não entendendo o motivo da insistência. - Não precisa mesmo.
- Tchau, . - Danny sorriu de lado, como se eu não tivesse negado a proteção dele, me deixando um tanto irritada. - Nos vemos depois. - Ele se afastou e eu continuei no mesmo lugar, vendo-o sumir de vista quando desceu a escada.
Droga, ele tinha me irritado, de novo!
Eu continuei pensando em . Quero dizer, continuei pensado naquela maneira inegável que ele tinha de me irritar. Como ele conseguia isso? Eu fiquei pensando, pensando e pensando. Ele não era uma má pessoa. Na verdade no primeiro dia que nos conhecemos, ele havia sido bem legal comigo dizendo todas aquelas coisas sobre eu estar triste. Eu fiquei grata por isso. Mas ao mesmo tempo em que ele ajudava, ele irritava também! Qual era do apelido Princesa? E do “Risadinha”? Por que ele tinha posto aquele apelido ridículo em mim? Risadinha.. Não tinha sentido algum, assim como o “Princesa” também não. E daí que os apelidos não tivessem significados claros? Eu ainda ficava irritada. E aquele jeito arrogante? E o sorrisinho debochado? Oras.. O pior é que ele ficava ainda mais lindo. Sem contar com aquele jeito totalmente bipolar. Uma hora ele estava me irritando, outra hora ele estava querendo me proteger.. Eu tenho que admitir, me senti protegida por ele enquanto andávamos pelos corredores da escola. Me senti bem ao lado dele, me senti bem por tê-lo me tocando, transmitindo o calor do seu corpo para o meu. E o cheiro dele? Meu Deus, que cheiro delicioso! Eu ainda conseguia senti-lo tão claramente como se estivesse aqui, meu ao meu lado..
Por que você está pensando nisso, ?
Droga, eu não deveria estar pensando naquilo. Mas eu estava. E não tinha como não pensar.
Era algo mais forte do que eu, mais forte do que a resistência que eu tentava impor.
- Sra. ? - Ouvi a voz calma, mas num tom alto do professor Evans. Ele, assim como toda a turma, olhava para mim. Provavelmente ele tinha feito alguma pergunta que eu, entre meus pensamentos, não escutara.
- Sim, professor? - Me endireitei na carteira querendo demonstrar atenção.
- Eu estava olhando a sua ficha que me entregaram hoje de manhã já que é aluna nova. Nunca tivemos uma Alemã aqui. Qual parte do país a Sra. é? - Ele estava sentado na mesa, com uma pasta da mão aberta, que provavelmente era a minha ficha. Usava uma armação redonda, seus cabelos loiros escuros estavam num corte baixo, lhe dando uma aparência culta. De certa forma ele era bonito com o corpo magro.
- Sou de Kassel, uma cidade situada no norte do estado de Hessen, no centro da Alemanha. - Respondi prontamente vendo que as pessoas ainda estavam prestando atenção e mim. Parecia até que elas não estavam respirando tal era a atenção.
- Ah sim, já ouvi falar. Lá é um lugar muito bonito. - Ele sorriu, fechou a pasta e levantou indo para trás da sua mesa. - Bom pessoal, agora vamos a Literatura. Todo mundo abrindo a página 65, por favor. - Ele escreveu “Romantismo” na lousa, virou para a turma e começou a explicar a matéria. - A superioridade da natureza e instinto sobre civilização foi pregada por Jean Jacques Rousseau e sua mensagem foi adotada por quase todos os poetas Europeus..
Eu ainda sentia os olhos da turma gravados em mim quando a aula de Literatura terminou. E na aula de Matemática também, e na aula de Geografia. Qual era o problema com essa gente, hein? Nunca viram uma estrangeira? O meu sotaque era bem diferente sim, mas eu não falava mal inglês, era praticamente fluente.
Já estava me sentindo mal com aquilo, e tentei ao máximo fingir que não era comigo. Foi possível até que a aula de Francês terminar e o sinal tocar indicando o intervalo. Guardei as minhas coisas e quando estava perto da porta, um garoto bem alto e magro surgiu na minha frente, gritando a salvação Nazista. Eu não sabia onde enfiar minha cara, e ao mesmo tempo fiquei morrendo de raiva daquele idiota. Minha vontade foi de meter um chute entre as pernas dele.
- Seu acéfalo, você sabia que se fizer isso na Alemanha, pode ser preso? - Uma garota ruiva parou ao meu lado, falando com o garoto. Ele não falou mais nada, arregalou os olhos, parecendo bastante intimidado. Deu de ombros e saiu da sala. A menina virou para mim e estendeu a mão. - Oi! Meu nome é Elizabeth Tallis, mas todo mundo me chama de Lizzie. - Linda, com um ar nerd. Mas nerd estilosa, que só existem em filmes pré-adolescentes. Os cabelos eram num tom vermelho alaranjado muito bonito e chamativo, lisos e escorridos um pouco abaixo dos ombros daqueles que muitas garotas que usam chapinha sonham em ter. Sardenta, o branco típico inglês, com olhos castanhos bem claros por trás de um óculos numa armação quadrada e bem moderna. Eu não entendi, até aquele momento, o porquê do garoto se sentir intimidado por ela.
- Ah, oi! - Aceitei o aperto de mão, me surpreendendo por ela ter sido a única simpática comigo ali. - Eu sou a , como você já sabe.
- Sei. Todo mundo sabe sobre você, . - Ela sorriu de um jeito simpático, ajeitando seu óculos e acrescentou quando eu não entendi o que ela queria dizer. – A nossa escola é grande, mas as fofocas correm rápidas, além do mais, você é a irmã do .
- Não. - Eu a corrigi um tanto impaciente e talvez até rude. - Eu não sou irmã dele. A mãe dele que é casada com o John, meu pai. - A última palavra havia saído com certa dificuldade. - Mas como você sabe sobre o meu quase parentesco com o ?
- Eu sou amiga dele. - Ela enlaçou um braço no meu como se fôssemos amigas íntimas, me pegando de surpresa. - Vem, vamos para o intervalo. Vou te apresentar as minhas amigas.
- Mas.. - Eu ia falar, mas a frase morreu quando saímos da sala.
estava encostado contra a parede da sala com e como havia me prometido que estaria. Os dois últimos nos viram primeiro e lançou um sorriso largo em direção a Elizabeth. cutucou que logo se afastou da parede e me encarou risonho.
- Ora, ora, o que temos aqui! - Elizabeth puxou meu braço, chegando mais perto deles, dirigindo a palavra para . - Estávamos falando de você. - De mim? - O ar risonho dele se transformou num sorriso de verdade e ele voltou a olhar para mim, como se pedisse para eu responder. - Vocês estavam falando o quanto eu sou lindo, não é?
- Corta essa, ! - Elizabeth riu, largando o meu braço, e foi dar um beijo na bochecha dos três. Reparei que ficou um tanto quanto vermelho quando ela o beijou. Êpa! – Deixa de ser convencido. Só por isso eu não vou mais te contar o que era.
- Eu não queria saber mesmo. - Ele deu de ombros, querendo demonstrar que não ligava.
- Vamos logo comer, estou morrendo de fome. - Elizabeth agarrou o meu braço de novo, me fazendo andar na frente dos meninos com ela. – Ei! - Ela virou apenas a cabeça para trás. - Cadê as meninas?
- Cassie está com o , como sempre. – Ouvi uma voz atrás de mim que não era nem de e nem de , o que eu constatei que seria de . Eu ainda não tinha escutado sua voz. - E a sua outra amiga, eu não sei. Deve estar com algum babaca daqueles que ela sai. - Senti um tom de mágoa e desprezo na última frase e fiz uma nota mental para saber o motivo.
- Tchau meninos. - Elizabeth disse a eles quando chegamos ao pátio, enquanto me puxava para o lado oposto. - Vemos vocês depois.
- Mas eu pensei que fôssemos ficar com eles. - Eu falei olhando para trás, vendo que eles se distanciavam cada vez mais de nós e sentavam numa mesa vazia no centro do pátio.
- Geralmente isso acontece, mas não hoje. - Ela parecia procurar alguém enquanto me explicava. – Quero te apresentar as minhas amigas, tem problema?
- Não, claro que não. - E realmente não tinha. O problema é que as pessoas ainda me olhavam e faziam comentários.
- Ahá, finalmente encontrei vocês. - Elizabeth apontou para duas meninas sentadas numa mesa perto da cantina. Uma era morena, olhos verdes, cabelos lisos até o meio das costas. A outra tinha um ar bem descontraído, digamos sonhadora. Os cabelos eram num loiro bem claro, cacheados e cortados acima do ombro e olhos castanhos escuros. Ambas eram lindas também, assim como Elizabeth. - Ué, disse que estava com vocês.
- Ele foi na cantina comprar um suco pra mim. - A loira disse sorrindo em direção a cantina e depois olhou para mim. - Ah, você deve ser a , né? Eu sou a Cassie, e ela. - Cassie apontou para a morena. - É a Katie.
- Senta aí, . - Katie indicou uma cadeira vazia para mim. - E então, como você se sente sendo a nova sensação da escola?
- Meio estranha. - Confessei olhando para as três garotas. - Não estou acostumada com tantas pessoas me olhando.
- Vejamos.. - Elizabeth começou a enumerar com os dedos. - 1. Você é bem atraente, 2. É novata, 3. É de outro país, não podemos esquecer isso, e por último e mais importante, chegou com e ainda andou de mãos dadas com ele. Sabe quantas garotas sonham com isso?
- Muitas, acredite em mim. - Cassie respondeu antes que eu abrisse a boca e novamente deu um sorriso, esticando os braços para alguém atrás de mim. - Obrigada, meu amor. - Ela pegou o suco da mão do .
- Eu vou lá ficar com os caras agora. - Ele deu um beijo em Cassie e se afastou. - Tchau meninas.
- Tchau. - Dissemos em juntas.
- Eu não sabia que é tão famoso por aqui. - E não sabia mesmo. Só porque ele era lindo e gostoso não significava ser popular, certo?
- Todos eles são. - Katie apontou para a mesa deles e vi que eles já não estavam mais sozinhos. Garotas e garotas os cercavam. - Eles fazem parte do time de futebol, e bem, você pode ver que são os mais gatos daqui.
- É, mas o é totalmente meu. - Cassie falou num tom enciumado. - Ninguém coloca a mão no meu bebê.
- Na verdade, - Katie continuou como se não tivesse escutado o comentário de Cassie. - eles são populares não só por causa do futebol, mas porque vivem fazendo merda e todo mundo acha graça.
- Disso eu sei. - Falei confiante, me sentindo bem por estar ali com elas. – Sei das coisas que o aprontou.
- Duvido que você saiba metade. Eles vivem aprontando! mesmo não pôde sair comigo o mês passado inteiro porque estava de castigo! Ele e soltaram barbadinho cheiroso bem no meio da aula de física. Foi horrível! - Cassie fez uma careta engraçada. - E eu fiquei fula da vida com ele!
- E depois ficaram aos beijos, como sempre. - Elizabeth fez bico e começou a distribuir beijos para o ar, fazendo todas nós rirem.
- Ah, não! – Katie revirou os olhos e todas olharam na direção que ela apontou. Um grupinho de líderes de torcida com uniformes curtíssimos da cor do colégio, azul e branco, tinha acabo de sentar-se à mesa deles. – Tá vendo aquela loira ali? – Katie apontou discretamente para uma loira de cabelos compridos e eu murmurei um “Uhum”. – Ela é a Lisa Richards. Capitã das líderes e vive dando em cima do . Eles já saíram algumas vezes, mas ele nunca quis assumir um relacionamento sério. Foi histórico o dia em que ele disse que não queria mais sair com ela.
- E aquela outra loira de cabelo curto é a Gemma Morgan. Ela é totalmente apaixonada pelo , mas como o , nunca assumiu nada. – Elizabeth praticamente cuspiu a frase e eu levantei uma sobrancelha pelo seu tom. - São todas patéticas, umas putas.
- Olhem só como a Harris dá em cima do ! – Katie falou de um jeito que pareceu que ela ia voar no pescoço da terceira loira, que tinha acabado de dar um beijo na bochecha de . – Eu ainda vou matar essa garota! Nós olhamos para ela, logo Katie se recompôs do seu estado de raiva. Eu não entendi nada, ou melhor, eu estava começando a entender, mais ou menos o que rolava entre elas e os meninos.
- Eu não sei como vocês duas se abalam tanto com elas. Não existe uma alma boa e inocente ali e eles sabem disso. – Cassie sentenciou, jogando a mão para espantar uma mosca imaginária.
- Dá pra ver. – Compartilhei do desprezo delas. Vi que a da Richards estava mexendo no cabelo de , mas ele logo retirou a mão dela, olhando na direção da minha mesa e nossos olhares se cruzaram, mas eu desviei o mais rápido possível e voltei minha atenção para as meninas. – Mas vamos meninas, vocês ainda têm muitas coisas para me contar sobre essa escola.
- Estou adorando essa garota, Lizzie! – Cassie sorrindo para mim.
Continuamos conversando até o final do intervalo. As meninas eram ótimas, divertidas e conversaram comigo como se eu já fizesse parte do grupo delas. Eu me senti muito bem com isso. Contei a elas sobre Sam, Jennifer e um pouco sobre a minha escola antiga. Não senti vontade de chorar. Estranhamente as lágrimas não ameaçaram descer e eu agradeci por isso. Também soube um pouco de cada uma. Cassie acabou soltando sobre o namoro de Katie e e em como eles era loucos um pelo outro, mas viviam brigando, acarretando inda e vindas durante quase um ano juntos. Não fazia mais de duas semanas que eles tinham terminado. Katie soltou um gritinho, jogando um olhar mortal para Cassie. A loira riu, e pediu desculpas. Katie me explicou que não tinha problemas em saber sobre , mas ela não gostava de tocar no assunto. Eu percebi, com os olhares furtivos que ela lançava para a mesa do outro lado, o quanto ainda gostava dele.
Eu acabei me desviando mentalmente da conversa, pensando em como eu ficaria arrasada se meu namoro não desse certo com o dela.
Elizabeth contou sobre o seu namorado mais velho, mas não entrou em muitos detalhes. Por parecer ser uma pessoa bem discreta, não achei estranho o fato de ela contar por alto sobre o namoro. Já Cassie, abriu a boca e contou tudo que poderia contar sobre . Eu ria da sua maneira alegre e apaixonada, dizendo contando o ele era romântico mesmo depois de um ano e meio juntos.
Mesmo tendo conhecido todas em menos de um dia, eu já conseguia definir a personalidade de cada uma: Elizabeth era a garota inteligente, além de linda e era bem centrada, eu já conseguia entender o porquê do menino magrelo sentir certo medo dela. Homens sentem medo de mulheres bonitas, inteligentes então.. Já Katie era a mais séria, e em tudo que falava, parecia ter um tom irônico, mesmo que não fosse de propósito. Seu jeito igualmente centrado de Elizabeth, poderia dar medo aos homens, só ela quebrava isso com uma expressão doce no rosto. Cassie era a mais diferente. Seus olhos brilhavam como de uma criança, e ela era tão doce quanto açúcar. Meiga, fofa, delicada, exagerada, maluca, sonhadora. Essa era a Cassie.
Infelizmente as duas últimas não eram da minha sala e sim da dos meninos, mas logo Katie me contou que teríamos algumas aulas juntas.
Eu praticamente arrastei Elizabeth até a sala quando o sinal tocou, não querendo dar oportunidade de ir até a minha mesa para me levar para a sala como se eu fosse uma criança do maternal. E ele também parecia bem ocupado desviando das quinhentas mãos da Richards, que insistia em ficar sentada ao seu lado, assim como o resto do seu grupinho. Mas assim que a aula terminou, lá estava ele me esperando do lado de fora da sala. Eu não abri a boca, apenas passei direto. Elizabeth e ele vinham conversando atrás de mim e logo , , , Cassie e Katie se juntaram.
- Ih, o Carl já chegou! – Elizabeth apontou para um Audi TT Roadster que estava em frente à escola. – Tchau gente, falo com vocês depois!
Ela entrou no carro e seu um selinho no motorista. Ele era lindo, mas bem mais velho com uns trinta anos mais ou menos e cabelos pretos. Não dava para ver a cor dos seus olhos por causa da distância, mas eu sabia que eram azuis, pois Elizabeth tinha, finalmente, me contado sobre seu namorado enquanto esperávamos o professor de História chegar. Eles estavam namorando há dois meses e ela não ligava para a diferença de idade. Parecia bem segura de si enquanto falava.
- Aquele pedófilo. – resmungou mal humorado enquanto vimos o carro acelerar. – O que ele estava fazendo aqui? Eu ainda vou acabar com a festinha do Barât.
- Ele é namorado dela, . – Katie falou cautelosa. – Você precisa se acostumar com isso.
- Vamos, cara. – deu um tapa no ombro dele querendo confortá-lo. – Eu ainda preciso passar para pegar a Emma.
Deixamos na porta da casa dele depois que passamos no colégio de Emma. Ele foi o caminho todo com uma cara emburrada e me senti chateada por aquela situação. Ele parecia uma pessoa legal, e eu não gostei de vê-lo daquele jeito. Quase contei sobre a forma com que Elizabeth tinha falado dele e da Morgan, mas preferi ficar quieta. Eu ainda era uma novata ali e não ia me meter, não por enquanto.
Emma nem me deixou terminar meu sanduíche quando chegamos e logo me arrastou para o seu quarto para jogarmos mais algumas rodadas de Guitar Hero. Pelo menos eu não estava trancada no quarto estudando Francês.
Eu estava quase ganhando quando entrou no quarto sem nem ao menos pedir permissão.
- Telefone pra você! – Ele falou mal humorado antes de atirar o telefone sem fio na minha direção. Totalmente sem educação e extremamente grosso, ele saiu batendo a porta com força sem nem ao menos esperar um agradecimento, que com certeza não viria por causa dessa atitude. Eu e Emma nos olhamos sem entender nada. Ela indicou o telefone, que por alguns segundos, eu tinha esquecido.
- Alô? - Perguntei ainda trocando olhares confusos com ela.
- , meu amor. - Ouvi a voz de Sam do outro lado da linha e praticamente grudei o máximo que eu pude no telefone. Já até tinha esquecido a grosseria de . - Sam! Você ligou! - Falei feliz vendo que Emma me lançava um olhar questionador. A verdade é que eu tinha esquecido que Sam me ligaria, mas ele não precisava saber disso. - Como estão as coisas aí?
- Bem chatas sem você aqui. - Ele respondeu todo meigo. – E aí?
- Ah, está tudo bem. – Emma ainda me lançava aquele olhar de “Com quem você está falando?”, mas eu ignorei.
- Quem atendeu ao telefone? – Ele perguntou, mudando seu jeito para um tanto áspero.
- Ah, foi o . Eu te falei dele, lembra? O filho da minha madrasta... – Falei naturalmente, tentando puxar a memória dele.
- Lembro. – Sam falou e depois hesitou um pouco. – Ele ficou me perguntando quem eu era e o que queria falar com você.
- Deixa isso pra lá. – Cortei o assunto. Não queria que Sam tivesse uma birra com . Não seria legal quando ele viesse me visitar e além do mais, eu tinha plena certeza que quebraria Sam em dois caso eles brigassem. – Vamos, me conta como estão às coisas por aí. Como está Jen?
- Acho melhor você mesma perguntar. – Eu ouvi um barulho do outro lado da linha antes dele continuar. – Ela está aqui.
Eu fiquei tão feliz quando ele disse aquilo que nem perguntei por que Jennifer estava ali, bem no meio da tarde.
- Jennifer? – Perguntei ouvindo novamente o barulho e deduzindo que Sam tinha passado o telefone para ela.
- ! – Ela chiou animada.
- Nossa, Jen! Parece que não nos falamos há anos! – Sentei na cama de Emma e vi que ela já tinha desistido de acompanhar a conversa e estava com sua atenção de volta ao vídeo game. – Como você está?
- Estou ótima! – Ela respondeu e logo emendou. – Vamos, me conte o que tem acontecido aí.
Então eu contei tudo sobre York, exatamente como tinha feito para Megan. Contei sobre a casa enorme, sobre meu quarto novo, sobre como a cidade era linda, sobre Helen e até mesmo sobre John. Depois falei sobre a escola e que já tinha feito amizades. Jennifer deu um chilique básico dizendo que eu iria abandoná-la, mas eu logo tratei de acalmar a fera. Contei sobre e sobre Emma. Nessa hora a própria citada deu um pause no jogo e prestou atenção no que eu falava. Jennifer me disse que nada tinha mudado desde que eu tinha ido embora e preferia me ouvir contando. Logo voltei a falar com Sam. Passamos quase a tarde inteira conversando, matando a saudade de ouvirmos a voz um do outro, até que ele precisou desligar para ir ao treino de futebol. Mal desliguei o telefone e Emma praticamente me mandou contar tudo sobre Sam. E eu contei. Não só dele, mas de Jennifer e dos meus outros amigos. E aí foram horas conversando, contando as coisas que todos nós costumávamos fazer nos finais de semana, dos lugares onde freqüentávamos. Eu praticamente contei a minha vida inteira para ela. O Engraçado foi que durante a conversa, Emma parecia ter a mesma idade que a minha. Ou talvez eu fosse imatura demais, mas o fato é que ela era a única que me conhecia de verdade até aquele momento. Emma e eu acabamos, durante a conversa, desenvolvendo um laço de cumplicidade forte, de irmãs mesmo. Parecia que nos conhecíamos há anos. Ela até mesmo me contou sobre um menino que ela gostava da escola chamado Nicholas e me pediu para que eu ensinasse a ela a fazer uma maquiagem básica para ir pra escola mais bonita. Eu achei isso tão lindo que quase deu um abraço forte nela.
Helen e John não foram ao jantar de negócios. Ele tinha sido cancelado porque um dos empresários que assinaria o contrato com a construtora não pode comparecer. Então depois do jantar eu ajudei Helen a tirar a mesa enquanto John ia para o seu escritório que ficava em algum lugar da casa, subia com uma carranca do tamanho do mundo e Emma dava comida ao Jack. Aquele cachorro era um guloso! Ficou olhando para mim durante o jantar inteiro e eu quase fui até o quintal lhe dar um pedaço da minha carne.
Quando terminamos de ajeitar tudo, subi correndo para o meu quarto e entrei no MSN, mas nem Jennifer e nem Sam estava online. Eu fiquei totalmente frustrada e resolvi colocar alguns trabalhos em dia, mesmo não precisando, enquanto escutava Julian Casablancas.
Olhei para o relógio quando terminei e marcava quase meia-noite. Fui até o banheiro, tomei um banho quente, coloquei minha camisola branca com estampa do Bob Esponja e deitei na cama. Eu não estava com o mínimo de sono, mas precisava descansar para o dia seguinte. Mas o no sono não veio. Fiquei deitada por algum tempo e acabei lembrando do sorvete caseiro de chocolate que Molly tinha feito para a sobremesa. Não resisti e levantei, colocando minhas pantufas e levando uma coberta comigo por causa do frio. Desci o mais cautelosamente possível para que ninguém escutasse e não acendi a luz quando entrei na cozinha. Enchi uma taça com o sorvete e sentei na bancada, me deliciando com o doce. Houve um barulho lá fora, mas eu não dei bola, pensando ser o Jack. Quando eu já estava voltando para o hall, escutei o barulho de novo e fui até a porta de vidro que levava para o quintal, vendo . Ele estava sentado com os pés dentro da piscina, usando apenas uma calça de moletom escura, não se importando que ela estivesse molhada, olhando para Jack, que estava deitado ao seu lado, enquanto fazia carinho na enorme cabeça do cachorro. Estava acontecendo alguma coisa ali, Jack parecia sentir isso e estava, de alguma forma, confortando Danny, dizendo silenciosamente que ele estava ali, apoiando-o. Era uma cena linda. Parecia um daqueles filmes que passa na sessão da tarde, em que o cachorro e o dono são melhores amigos acima de tudo.
Abri a porta e levantou a cabeça. Sorri fraco pra ele, mas ele não sorriu de volta. Ainda estava com uma expressão dura no rosto. Mal humorada. Fui até ele, e o imitei, colocando os pés dentro da piscina, tirando minhas pantufas antes. Ficamos em silêncio por algum tempo, olhando para frente, escutando apenas nossas respirações e o barulho da rua. Eu sentia meu coração acelerar, e minhas pernas tremerem um pouco, e comecei a movimentá-las dentro da água, querendo disfarçar. Eu estava nervosa e nem sabia o motivo.
- O que aconteceu, ? – Quebrei o silêncio, sabendo que ele não iria fazê-lo. Minha voz saiu um tanto fraca, mas eu continuei. – Por que você está assim?
- Não é nada. – Ele respondeu depois de um tempo.
- Me conta. – Insisti. Eu não estava gostando de vê-lo daquele jeito estranho. Até sentia falta da sua implicância. – Você ficou assim de uma hora pra outra, me conta o que aconteceu. Alguém fez alguma coisa pra você?
- Não exatamente. – Ele parou de fazer carinho em Jack e repousou os braços nas coxas, fazendo um dos seus braços roçarem nos meus levemente.
- Hm. Então foi alguma coisa que alguém te falou? – Ele estava quase cedendo, eu pensei. Era questão de tempo.
- Não. – Ele disse simplesmente. A resposta me desanimou e eu bufei. Ele não estava cedendo porra nenhuma! – Pare de tentar adivinhar.
- Mas eu quero te ajudar. – Disse decidida.
- Eu não preciso da sua ajuda, . – Ele falou num tom grosseiro. – Não se meta!
- Você é um grosso, . – Rebati irritada. – Você é um puto de um grosseiro, entendeu? Eu estava querendo ajudar, mas você, com essa arroganciazinha toda é burro demais para entender isso!
Eu estava prestes a levantar e voltar para o meu quarto, mas antes que eu me erguesse, segurou o meu braço.
- Desculpe. – Ele pediu, ainda segurando o meu braço e olhando pra mim. Os olhos dele estavam ainda mais , se é que possível, por causa da iluminação que vinha da piscina. Eu respirei fundo, tentando acalmar meu coração que começava a acelerar por causa da intensidade que me fitava. – Você não tem culpa de nada.
- Vai me contar o que aconteceu, então? – Perguntei, voltando a um tom calmo, não querendo brigar.
- Não sei se devo. – Ele soltou o meu braço, bufando e voltou a olhar para frente, observando a escuridão de um certo ponto do jardim. – Eu não posso.
- Então tudo bem. – Concordei, mas apenas porque tinha visto a expressão dele suavizar. Quase voltando ao ar descontraído que ele tinha.
- Você não me contou que tem um namorado. – Ele comentou tentando parecer natural, mas eu notei que seu tom era quase acusador.
Eu fiquei sem resposta por alguns segundos, pensando na drástica mudança de assunto. O que Sam tinha a ver com a cara emburrada dele? Nada. Com certeza queria deixar o assunto que o estava irritado, de lado. Ele só estava tentando me conhecer, pensei. Nós éramos quase parentes, não havia nada de mal nisso. - Você não me perguntou. – Dei de ombros, fazendo uma careta óbvia.
- Há quanto tempo vocês estão juntos? – Ele perguntou um tanto curioso e eu, de certa forma, me senti incomodada.
- Nove meses, mas juntando o nosso tempo de rolo, um ano. – Falei o mais breve possível, querendo que aquele assunto fosse encerrado. Segundos atrás eu pensava que era natural saber sobre Sam, mas agora não. Eu não estava gostando de conversar sobre isso com ele. – Que horas são?
- E você o ama? – ignorou totalmente a minha tentativa de mudar de assunto, e eu bufei frustrada por isso.
- Que papo é esse? Por que você está me perguntando isso? – Eu não queria responder por dois motivos. 1) Eu não queria mais tocar naquele assunto com ele e 2) Eu sabia perfeitamente qual era a resposta. Não, eu não amava Sam. O sentimento que eu tinha por ele era bem diferente de amor. Era como... Não sei exatamente. Não era amor, mas era algo forte. Algo que me fazia ficar alegre quando estava ao seu lado. Algo que me fazia sorrir e ficar leve. Eu me sentia desejada o tempo inteiro e gostava disso.
- Ei, desculpa. – colocou as mãos para cima, como se encerrasse o assunto. – Não vamos mais falar disso, se você não quiser.
Eu não voltei a falar e ele também não. Ficamos ali, sentados, olhando para o nada, envolvidos com nossos próprios pensamentos. Eu voltei a mexer meus pés dentro da água e olhava meu reflexo, sentindo a brisa fria da noite batendo no meu rosto, afagando meus cabelos.. Tudo estava calmo demais. Como se ele não estivesse ali, o momento em que tinha entrado no meu quarto, e tinha dito toda aquela coisa de que eu melhoraria com o tempo, veio na minha cabeça. Eu tinha ficado relaxada com seu gesto. Mal nos conhecíamos e ele tinha, de certo modo, me confortado. Eu ainda sentia a ferida doer muito, mas eu sabia que ele tinha razão. Em algum momento da minha vida, eu olharia para trás e me lembraria da minha mãe apenas com lembranças boas de tudo que vivemos, sentiria saudade, mas aprenderia a viver com ela.
Toquei-me que eu não era a única a pensar ali. Eu quis saber o que ele estava pensando. Eu quase me matei de curiosidade.
- O que você está pensando? - Ele perguntou baixinho, como se estivesse tão curioso quanto eu.
- Me lembrei daquele dia em que você me falou que tudo, aos poucos, melhoraria. - Levantei a cabeça, olhando-o e ele fez o mesmo.
- E as coisas melhoraram? - virou o corpo, ficando de frente pra mim, com apenas uma perna dentro da piscina. Uma das suas mãos foi para o meu rosto, tirando uma mecha de cabelo e eu virei para olhá-lo. - Você se sente melhor?
- Eu não sei. - Respondi sincera, deixando tudo o que estava sentindo, escapar pela minha boca facilmente. - Às vezes parece que sim, eu esqueço o que aconteceu, mas então eu fico sozinha e me lembro de tudo.. Eu sinto muita saudade da minha mãe, . Saudade da minha vida, dos meus amigos. Muitas vezes eu me sinto sozinha.
- Mas você não está sozinha. - Ele tocou meu rosto de repente, e acariciou minha bochecha. Seu calor passava para o meu como se fosse eletricidade, fazendo meu coração dar pequenos solavancos. Aproximou seu rosto do meu, enquanto deslizando suavemente seus dedos pela minha pele. – Você pode contar comigo.
- Por que é tão fácil falar com você sobre isso? Não devia ser. - Perguntei mais para mim mesma do que para ele, espantada com a facilidade que falei. Não era comum eu contar tudo aquilo para um estranho. Mas Danny era um estranho? Eu tinha sérias dúvidas sobre isso. Recuei um pouco, afastando nossos rostos, mas continuei olhando fixamente para os olhos dele. Ele nem aparentar o mau humor de antes. Lá estava sua bipolaridade. - Eu não agradeci antes, mas quero que você saiba que eu gostei muito das coisas que você me disse. Pode não parecer, mas me ajudou. Mas do mesmo jeito que você quer que eu conte com você, quero que você faça o mesmo.
Ele soltou uma risada nasalada, abaixando a cabeça brevemente e voltou a me olhar.
- Sabe, - Ele disse baixinho, ignorando meu último comentário e baixou sua mão quente e macia do meu rosto para a minha mão mais próxima. – Eu escutei você chorar noite passada. - Eu arregalei os olhos, ficando totalmente tensa com aquela revelação, e sentiu, pois apertou levemente minha mão. - Desculpe por isso, mas foi inevitável. Sei que não está sendo fácil, então não ache que é vergonha chorar na frente dos outros. Eu já percebi que você faz isso, naquele dia mesmo, que nos conhecemos, percebi que você estava se segurando para não chorar na minha frente. Fraqueza não é uma coisa ruim, . Nos mostra o quanto somos humanos, e que podemos sentir. - Ele dizia tudo olhando nos meus olhos, e eu não conseguia quebrar o contato deles. Não havia sequer uma sombra de pena em suas íris e brilhantes. – E essa dor que você sente é a vida. A confusão e o medo estão ai para te mostrar que em algum lugar há algo melhor, ou pelo menos, que vá fazer a dor amenizar. Entende o que eu quero dizer?
- Sim. - Assenti, sorrindo fraco. - Obrigada pela força que você está me dando.
- Ei, vocês dois! - Ouvimos a voz de Emma e olhamos para cima. Ela estava na janela do seu quarto, segurando Dylan, seu ursinho de pelúcia e vestindo sua camisola. - O que estão fazendo aí?
- Nada, pentelha. - disse, sorrindo de um jeito fofo. - E o que você está fazendo acordada a essa hora?
- Escutei vozes. - Emma bocejou e coçou os olhos. - Bom, eu vou dormir. Boa noite para vocês. – Fechou a janela e apagou as luzes.
- Acho melhor irmos dormir também. - Soltei a mão de e levantei, esperando que ele fizesse o mesmo, mas ele continuou sentado, me olhando de baixo. - Você não vai levantar?
- Vou ficar mais um pouco. Preciso pensar em algumas coisas. - Ele voltou a sua posição inicial, e Jack, que estava com os olhos fechados, reabriu-os quando Danny acariciou sua cabeça.
- Então tá. Boa noite, . - Apertei a coberta mais contra meu corpo. Não estava mais ventando, mas eu sentia um frio.
Fechei a porta da cozinha, ainda o vendo lá fora. Ele me encarava e aos poucos, um sorriso fechado se formou em seu lindo rosto, que agora, se encontrava como antes, leve e encantador.

Capítulo 05.

Escrevia freneticamente no celular. Estava mandando uma mensagem para Sam, enquanto os outros andavam um pouco mais a minha frente, conversando. Eu escutava suas vozes, mas não conseguia entender qual era o assunto. Estava concentrada demais nas palavras que meus dedos digitavam. A todo o momento, escrevia e apagava a mensagem. Não sabia como escrevê-la sem cobranças ou parecendo rude. Eu sabia que Sam estava treinando para as finais do campeonato de Kassel, mas ele não havia dado notícias há alguns dias, ou seriam semanas? Talvez sim. Eu realmente não estava prestando atenção nisso. Sim, eu estava com saudades do meu namorado, tinha muitas saudades de escutar sua voz. Sempre quando eu ligava para sua casa, ele estava treinando ou quando ligava para o seu celular, chamava e chamava, mas ninguém atendia e não tinha retorno. Estava ficando preocupada já. Será que tinha acontecido alguma coisa? Decidi-me por uma mensagem simples e sem delongas:

Sam, está tudo bem? Você não tem dado notícias, estou preocupada! Quando ler essa mensagem, me ligue, precisamos conversar. Saudades, beijos

Não, eu não pretendia terminar com ele. Eu pretendia visitá-lo. Já haviam se passado três semanas desde a minha chegada a York. E como eu disse antes, estava com saudade de Sam, dos meus amigos, minha cidade, Jennifer e.. Da minha casa. Talvez fosse má ideia visitá-los assim tão recentemente. Talvez me fizesse mal. Eu já não chorava mais todas as noites. Poderia, finalmente, estar começando a aceitar as coisas. Aceitar tudo o que aconteceu comigo nos últimos tempos. E vê-los, poderia me fazer reviver tudo. Mas o que eu iria fazer? Eu precisava vê-los. Precisava ter certeza que as coisas estavam como sempre estiveram. Então poderia não ser tão má ideia assim. Eu só precisava convencer John a me deixar ir sozinha, porque eu não o queria mais andando pra lá e pra cá comigo. Todo mundo precisa de privacidade e eu não sou diferente. Um final de semana, que tal? Semana que vem não está tão longe, hoje já é sexta. Eu poderia comprar as passagens na segunda e viajar sexta e voltar no domingo depois do almoço, chegaria aqui antes do entardecer. Não era um plano perfeito? É claro que era! Só precisava convencer John a isso. E algo me dizia que Helen e Emma iriam me ajudar.
Olhei para o aviso de “mensagem enviada” no meu celular, rezando para que Sam lesse a mensagem logo e o fechei, colocando-o dentro do bolso da calça. Apertei o passo para chegar mais perto do pessoal, em tempo de escutar a voz de
- Minha cabeça vai explodir! – Ele reclamou, colocando a mão sob a cabeça, fazendo uma falsa careta de dor. – Nunca pensei que poderia acontecer um estupro mental comigo.
- , você é tão idiota. – Lizzie revirou os olhos, andando ao meu lado, como se estivesse irritada, mas eu percebi que era pura fachada.
- Não é todo mundo que é inteligente como você, Tallis. – Todos nós rimos quando ele pronunciou o sobrenome dela.
Era engraçada a relação deles. Lizzie – eu e as meninas já tínhamos quebrado aquela barreira de apenas nos chamar pelo primeiro nome. - vivia criticando , não perdia uma oportunidade. Mas eu sabia muito bem que era porque queria esconder a atração que tinha por ele. Eu já tinha percebido seus olhares para ele, quando não estava olhando, é claro. E quando fazia menção de dizer algo, ela logo cortava e dizia que era pura imaginação minha. Uhum, tá.
De certo modo, eu entendi o lado dela, afinal, ainda estava com Carl. Só que a relação deles era estranha. Ela quase nunca falava dele, só quando estava perto, aí sim, abria a boca e não fechava mais. Ou talvez fosse impressão minha. Talvez eu gostasse tanto de , que torcia para que ela lhe desse uma chance. As meninas também percebiam as mesmas coisas que eu, e estavam na torcida, mas como se fosse surda, Lizzie ignorava tudo o que dizíamos. Se fingia de indiferente, mudava de assunto, nos xingava – sim, já estávamos ao ponto dos xingamentos. – e até mesmo nos batia! Ainda era cedo para definir o que ela sentia por , mas de uma coisa eu tinha certeza, a presença dele não passava em vão.
Já ele, era completamente diferente. Não fazia nenhuma questão de esconder que era doido por ela. Sorria, elogiava, tentava tocá-la.. E dura como uma rocha, Lizzie não demonstrava nada. Mas de qualquer maneira, era engraçada a forma como ele a abordava em certas situações. Certo dia durante a aula de artes – que era um das que todos tínhamos juntos. – Lizzie estava terminando sua aquarela, quando de repente – ok, não tão repetente assim, todos sabíamos o que ele ia fazer.
surgiu por trás e sussurrou em seu ouvido alguma coisa que até agora eu não sei porque Lizzie ficou tão puta que não quis mais tocar no assunto. Ela quase teve um treco e acabou borrando a tinta azul bem em cima da pintura. Não preciso dizer que ela quase o matou, né? teve que desviar de não um e nem dois, mas cinco potinhos de tinta, o que rendeu a turma muitas risadas.
- Vêm meninas, vamos ficar aqui. – Cassie apontou para uma parte da arquibancada vazia. – Boa sorte, meninos. – Ela se inclinou para frente para dar um beijo rápido em antes de sentar.
Lá estávamos nós quatro mais uma vez, acompanhando o treino do futebol deles, pela terceira vez só essa semana. O jogo para a classificação para o campeonato da cidade era amanhã e eles estavam treinando como animais. Então Cassie teve a ideia de vê-los durante os treinos, na parte da tarde, depois da aula, já que o jogo seria em outra cidade e nenhuma de nós poderia ir para apoiá-los. Eu não poderia negar que a oportunidade de ver sem camisa fosse uma coisa muito difícil. É claro que tinha plena certeza de que eu tinha um namorado, mas olhar não arranca pedaço, né? Quero dizer, depende do seu ponto de vista, pois sabia que se não desviasse os olhos de depois de olhá-lo por algum tempo, certamente sairia sim um pedaço.
Deus, , pare de ficar pensando essas coisas!
Mas ele é tão gostoso, não tinha como não pensar. São os hormônios!
Foda-se os hormônios, você tem um namorado!
Mas ele não sabe que eu estou olhando pro e tenho certeza que Sam também olha para meninas gostosas, é normal.
Você não pensa em só como um cara gostoso!
Ih, quem te disse?
, eu sou sua consciência, sabia? Sei tudo o que você pensa.
Então agora eu tenho um grilo tipo o do Pinóquio? Legal.
Não seja irônica, não distorça o que eu estou dizendo!
Olha, você está enxergando chifre na cabeça de cavalo. Eu tenho pensado em sim, mas porque ele tem sido legal comigo desde que eu cheguei. Não posso ficar grata por isso?
Gratidão não é a mesma coisa que desejo.
Pelo amor de Deus, eu não o desejo! Ele é apenas um cara gostoso que está sendo muito legal comigo, não há problema nisso. Isso se chama atração física se você não sabe.
Você gosta quando ele implica com você, gosta quando ele te olha de cima abaixo, gosta de ouvir o som da gargalhada dele, gosta do modo como ele chama seu apelido, e além do mais, você é viciada no perfume dele. Admita, você se sente atraída por ele.
Ok, eu admito, mas e daí? Ele é atraente, o que posso fazer?
Ele é seu irmão
Claro que não! Só porque John casou com Helen, não quer dizer que ele seja meu irmão ou algo derivado disso. apenas é filho da minha madrasta e conseqüentemente mora na mesma casa que eu! Mas isso não nos faz ser parentes! Que consciência chata do caralho!
- ! Estou falando com você, sua imbecil. – Katie me chamou num tom mais alto, cutucando meu braço, como se estivesse me chamando há algum tempo.
- O que foi, Katie? – Perguntei tentando disfarçar o meu mau humor, pois aquele papo com minha consciência tinha acabado comigo. Mesmo que a minha voz saísse falsamente natural, eu não conseguia desmanchar a expressão estampada do meu rosto indicando o contrário.
- Estava falando que os únicos que ficam bem com o uniforme são os meninos, não acha? – Ela disse no plural, mas estava na cara que ela queria dizer “”. Seus olhos não mentiam enquanto o olhava correndo pra lá e pra cá pelo campo.
- VAI MEU AMOR, FAZ UM GOL! – Cassie gritou para , jogando as mãos pro alto, encorajando-o. Ele sorriu para ela, mandando um beijo no ar.
- É, ficam sim. – Concordei, pegando minha bolsa para ver se Sam tinha me respondido. Eu sabia que não tinha, mas eu precisava arranjar algo para me distrair. Não dava pra ficar babando no o tempo inteiro.. Não assim na cara de pau pelo menos.
Porra, por que Sam não me respondia?
- Hm, eles vão mudar de time agora. - Lizzie disse e vi que os quarto junto com mais alguns outros jogadores tiravam a camisa azul e colocavam a vermelha, como se fossem adversários. Olhei para o campo, vendo tirar sua camisa. Mesmo de longe eu conseguia ver suas entradinhas definidas e depois todo o seu tronco. Ele virou, mostrando suas costas largas e brancas. Puta merda, como um homem pode ter um corpo tão lindo e gostoso? Não é aquela coisa musculosa e bruta. É apenas definido, com tudo na medida certa, até mesmo um pouco delicado.
Reprimi um suspiro, olhando para o lado, tentando me concentrar em outra coisa, mas era impossível. Ainda mais sabendo o que eu estava perdendo. Não consegui me segurar e voltei a olhar para o campo.
Diferente de Cassie, nenhuma de nós poderia fazer algum comentário sobre eles. Katie negava que ainda nutria alguma coisa por Dougie – só que todo mundo sabia que era mentira. – Lizzie, bem, Lizzie como eu já havia dito, olhava para o na frente de todos com o olhar indiferente, mas o percebi que na segunda vez que eles trocaram de camisa, ela fechou as mãos e puxou o ar. Eu quase ri com a cena, mas não poderia. Meu estado não estava diferente.
É claro que se eu fizesse algum comentário, ele não sairia dali, disso eu tinha certeza, só que bem.. Eu não ia deixar que elas me encarassem surpresas por ter falado do físico maravilhoso do Danny.
- Fecha a boca, . – Lizzie falou baixinho para que só eu pudesse escutar. Virei meu rosto para olhá-la e vi um sorriso de entendimento nos lábios. – Ou a baba vai escorrer e todo mundo vai ver.
- Você está louca. – Neguei tentando ser convincente, rezando para que ela estivesse certa. – Eu não estou babando por ninguém, ao contrário de você. – E indiquei discretamente com a cabeça.
- Eu? – Ela uniu as sobrancelhas e me encarou, desmanchando o sorriso. Eu já sabia o que aquilo representava: Ela estava nervosa porque eu a tinha pego no flagra e sabia o que se passava na sua cabeça. – Quem está louca aqui é você.
- Tudo bem então. – Dei de ombros. Eu sabia que estava certa, oras. – Você finge que me engana e eu finjo que acredito.
- Ai, que seja! – Lizzie revirou os olhos fingindo impaciência, voltando ao tom natural da voz. – Que horas que o treino termina?
- Já devem estar terminando, disse que o treinador só queria observar os passes deles. – Cassie respondeu, não desgrudando os olhos do namorado.
- Eu não posso mais esperar, o Carl deve chegar daqui a pouco e ele não gosta de atrasos. – Lizzie pegou a bolsa e o fichário, levantou-se dando um beijo em cada uma de nós. – Não esqueçam, vejo vocês amanhã à tarde! E desejem boa sorte aos garotos.
- Ô, avisa pro seu irmão não ficar andando sem camisa perto de mim! – Katie aumentou a voz, vendo que os meninos se aproximavam.
- Deixa de ser implicante. – Cassie lhe deu um empurrão fraco. – Depois fica reclamando que o dá em cima de outras.
- Mas ele dá mesmo. – Katie disse irritada, lançando um olhar do mesmo jeito para algum ponto do campo. – Ai, não acredito que essas garotas estão aqui! Será que a Harris e suas amiguinhas não tem mais nada pra fazer? O time de basquete não treina aqui!
- Controle-se, mantenha a classe. – Pedi, controlando a mim mesma. – Não vamos dar ibope para elas, além do mais, os meninos estão vindo pra cá enquanto elas estão do outro lado.
- Por que você acha que elas estão ali? É o vestiário deles! – Katie ficou vermelha e eu cheguei a acreditar que ela fosse explodir. – Deus, elas não desistem!
Cassie lhe deu mais um empurrão, levantando para falar com . subiu a arquibancada correndo com uma toalha de rosto jogado ao redor do pescoço e sentou ao meu lado. Mesmo suado ele ainda tinha um perfume muito bom, me deixando com vontade de cheirá-lo loucamente.
- Meu lindo! – Cassie deu um estalinho em , apertando suas bochechas. – E aí, estão preparados?
- Claro, depois de tantos dias treinando feitos loucos! Até meu cérebro dói. – passou uma toalha que estava em suas mãos no rosto, limpando o suor e se sentou num banco abaixo de Katie. – Katie, faz uma massagem em mim?
- Ahn.. Tá bom. – Ela fez uma cara de que gostou, segurando um sorriso e começou a massageá-lo.
Cadê toda aquela raivinha, hein?
- Cadê a Lizzie? – olhou para os lados como se ela fosse surgir do nada. – Por que ela não esperou?
- Ela ia encontrar com o Carl. – Respondi e o semblante cansado, mas sorridente de sumiu instantaneamente e eu emendei tentando amenizar a situação. – Mas ela desejou boa sorte pra vocês.
- Olha, que legal da parte dela, não é? – Falou sarcástico. - Eu não entendo porque o pedófilo do Barât nunca chega perto da gente.
- Deve ser porque você já deixou bem claro que não gosta dele e é doido pra ficar com a Lizzie. – falou o óbvio, dando um sorrisinho debochado. – Ele está se defendendo.
- Eu não gosto mesmo e não faço questão de esconder. – fez bico, virando o corpo na direção do vestiário. – Enfim, estou morto e preciso descansar. Não vai ser fácil acordar às seis e meia se eu continuar no estado que estou. Encontro com vocês amanhã. Tchau meninas. – Ele nos deu um beijo na bochecha. – Torçam pela gente, ok?
- Tchau , – Apertei as bochechas dele fazendo-o rir e depois lhe dei um beijo no local. – até segunda e boa sorte!
Ficamos sentados por um tempo conversando, rindo. De vez enquanto eu olhava para o vestiário tentando ver alguma das líderes, mas nada. Elas pareciam ter se mancado. Finalmente, eu devo dizer, porque não agüentava mais aqueles olhares vulgares e nada discretos que a Richards lançava para o o tempo inteiro. Ela parecia que ia engoli-lo a qualquer hora como se ele fosse um chocolate delicioso. Não que ele não seja gostoso, ou qualquer coisa do tipo. E não que eu ligue pela forma que ela olhava pra ele, não tinha nada a ver com isso, mas era meio incomodo. Meio não, totalmente! No outro dia estávamos eu e ele conversando no intervalo e ela se meteu entre nós, me excluindo e começou a puxar papo com ele. É claro que eu não deixei barato e tratei de cutucá-la e mandá-la sair da minha frente da forma mais controlada possível. Ela me olhou dizendo com um sorrisinho sem graça “Não precisa ter ciúmes do seu irmãozinho, ”. Irmãozinho? Quantas vezes eu preciso dizer que não é meu irmão? Além disso, que me irritava profundamente, eu odiava quando ela fala comigo daquele jeito cínico. E ela falava sempre. Era quase de lei fazer uma piadinha comigo quando eu passava. Eu tinha uma enorme vontade de socá-la até deixar aqueles olhinhos roxos, enquanto gritava “Lisa Richards, você é uma puta!”, mas me controlava porque ainda era novata e não queria confusões pro meu lado. Não iria tomar uma suspensão ou uma advertência por causa dela e ficar de castigo, sem internet e telefone. Como eu iria falar com Jennifer e Sam? Então me fazia de “pessoa passiva”, digamos assim. Só que o dia em que ela me pegar má humorada, HAHAHAHAHA, coitada.. Mal sabe que eu quebrei o nariz de uma garota no sétimo ano do meu antigo colégio.
Demoramos mais do que pretendíamos e chegamos em casa já no entardecer. Não passamos na escola da Emma porque ela iria ficar o final de semana na casa de uma amiga, o que me deixou com ciúmes. Eu realmente estava me apegando a ela.
Fiquei pensando em como conversaria com John. Pensando nas palavras certas para tentar convencê-lo de que eu poderia sim viajar sozinha até a Alemanha. Eu não poderia esperar Emma chegar em casa para me ajudar com isso. Tinha que fazer hoje mesmo.
Quando virou a esquina, vimos um caminhão em frente a casa. Entramos, passando pela sala que estava com as portas escancaradas, olhamos para o cômodo, vendo Helen dar instruções a dois homens uniformizados e extremamente fortes.
- Ah, acho que não, vocês podem colocar do outro lado? Acho que vai ficar melhor naquele ângulo. – Ela pediu, apontando para o lugar vazio perto da lareira. Não reparou que eu e estávamos ali e continuou falando com os homens, que pareciam não ter gostado da sugestão dela. – Hm, acho que está bom. O tapete vai ficar lindo! – Ela falou consigo mesma, quase batendo as mãos de felicidade como Emma fazia. – Vocês já podem pegá-lo no caminhão.
- Mãe, o que você está fazendo? – perguntou entrando na sala com uma sobrancelha levantada enquanto os homens passavam por nós.
- Finalmente vocês chegaram. – Helen cruzou os braços fazendo uma cara de mãe preocupada. – Onde estavam?
- Eu estava treinando e a ficou assistindo. Mas afinal de contas, qual é a da mudança da arrumação da sala?
- Meu tapete chegou! – Helen sorriu e olhou pela janela para ver o que os dois caras estavam fazendo. – E eu estava pedindo a aqueles homens para mudarem um pouco os móveis. – Virou-se para mim. – , John queria falar com você. Ele está no escritório.
- Ah, tudo bem. - Saí da sala em tempo de ver os homens voltar com um enorme tapete com uma mistura de azul e bege de fibras naturais. Eu adorava esse jeito que a Helen tinha de se preocupar com o meio ambiente.
Passei pela cozinha antes de procurar John. Não porque queria alguma coisa de lá, mas sim porque já me acostumei em falar com a Molly assim que chego da escola. Entrei na cozinha, não me surpreendendo com o cheiro de dar água na boca que vinha do fogão.
- Que cheiro bom! – Falei atrás de Molly vendo o que ela mexia na panela. O cheiro estava bem mais forte. – O que temos para o jantar?
- Peixe com batata assada. – Molly empinou sua bunda de propósito, me fazendo chegar pra trás. – E pra sobremesa temos Cranachan, um doce escocês.
- Eu vou acabar engordando com essas comidas maravilhosas que você faz, Molly. – Falei já me adiantando para a geladeira para ver o doce. – Pena que a Emma não está aqui para comer comigo. - Fechei a porta da geladeira, dando de cara com Molly me observando. - O que foi? – Perguntei achando a forma como ela me olhava estranho. Parecia que estava pensando em algo e tinha chegado à conclusão de que estava certa.
- Nada. – Ela deu de ombros sorrindo, voltando a mexer na panela. – Vai logo falar com o seu pai, ele quer conversar com você.
Levantei o cenho, continuando a andar em direção ao escritório onde John provavelmente estava revendo alguns projetos. Até Molly sabia que ele queria conversar comigo? Ei, o que está acontecendo aqui? O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa errada? Eu juro que não comi o último pedaço de bolo de chocolate! Talvez um pedaço dele, mas o resto foi tudo a Emma!
Respirei fundo antes de bater na porta. Minha relação com John ainda não estava estabilizada. Na verdade ele era a única pessoa com quem eu raramente conversava. Eu ainda tinha certa raiva e o seu jeito carinhoso e calmo só faziam a situação piorar. É claro que ele tentava inverter esse papel, mas eu não queria. Eu não deixaria dez anos passarem despercebidos só porque agora estava morando com ele. Nos falávamos como se estivéssemos pisando em ovos, essa era a verdade.
Eu ainda podia ouvir o choro da minha mãe todas as noites.
Bati fracamente rezando para que ele não escutasse, mas logo em seguida ouvi um “entre” abafado do outro lado. Girei a maçaneta, vendo John sentado numa cadeira preta giratória em espalmar alto atrás de uma mesa em madeira grande da cor tabaco onde continha um computador moderno e duas poltronas pretas a sua frente. Olhou para mim, desviando de uma planta civil.
- Helen disse que você queria falar comigo. – Fechei a porta, e fiquei em pé em frente a ele, apertando meu fichário contra meu peito, ansiosa para saber o que ele queria e tentando criar coragem para falar sobre a viagem.
- Você não quer se sentar? – Ele indicou uma poltrona, mas eu neguei com a cabeça. – Tudo bem, vou ser breve.
John passou a mão no cabelo, indicando que ele estava tão ansioso quanto eu. Vi que ele tentava controlar sua respiração, tentando se mostrar calmo.
- Eu andei observando você desde que chegou.. – Ele começou, me fitando com seus olhos incrivelmente iguais ao meus. Não era só na voz que John transmitia tranqüilidade. Todo o seu jeito era assim, mas não fazia efeito em mim. – Estou sabendo que você fez amizades no colégio com as amigas do . Elas são ótimas garotas.
- É, são. – Eu não estava entendendo todo aquele papo. Aonde ele queria chegar com tudo isso? - Me receberam muito bem desde o começo.
- Fico feliz com isso. – Ele sorriu, encostando-se no espalmar da cadeira. – Fico feliz que você esteja gostando de morar aqui.
Hm.. É, eu não poderia mentir e dizer que não era verdade. Eu estava mesmo. Era meio complexo porque parecia que eu estava vivendo era em outra vida, outro mundo paralela a minha antiga. Não existia a melhor opção, pois as duas estavam ótimas. De certa forma, eu me sentia em casa morando aqui. Poderia ser por causa do jeito carinhoso e Molly e Helen, ou por ter criado uma afinidade grande com Emma, Lizzie, Katie e Cassie. Não esquecendo os meninos, é claro. Eu gostava de todos. O grande problema era a saudade que eu tinha dos meus amigos antigos. Da minha cidade. Eu ainda tinha um vínculo com Kassel e seus habitantes.
John não voltou a falar. Estava esperando que eu confirmasse o que tinha dito, mas eu estava pensando na viagem. Isso , essa era a hora. Eu tinha uma chance de falar numa boa com ele. O clima não estava tão estranho com das outras vezes. Não estava relaxante como geralmente pai e filha tem, mas era alguma coisa, não era? Todas as ideias que eu tinha dito de como começar essa conversa estavam muito embaralhadas na minha cabeça. Não vi nenhuma muito convincente, teria que improvisar.
- Já que tocamos no assunto, eu queria saber.. – Comecei, procurando as palavras certas. – Eu quero viajar até Kassel na semana que vem. Estava pensando em ir na sexta e voltar no domingo.
- Eu já imaginava que você falaria isso em algum momento, – Ele juntou as pontas dos dedos de uma mão com a outra, colocando-as em cima da mesa, inclinando-se para frente um pouco. Certo, ele queria jogar uma bomba em cima de mim, sentia isso. – mas acho melhor você não ir, não sozinha. Principalmente agora que as coisas estão começando a se ajeitar.
- Por que não? Não há nada demais nisso e eu estou com saudade do Sam, da Jen. Eu não vou fugir ou qualquer coisa do tipo. - Calma , calma. Era a única coisa que eu pensava. Não vai se exaltar logo agora.
- Eu não disse que você fugiria. Eu só não acho uma boa ideia, . Você ainda está se adaptando, está mais envolvida com as coisas, fazendo amizades, não anda mais alheia as coisas ao seu redor como antes. Se você for agora para Kassel, talvez volte a ficar triste como antes.
- Eu vou ficar triste se não for lá! – Falei num tom bem mais alto do que o normal, trincando meus dentes.
Fudeu, . Fu-deu!
- Tudo bem, não vou impedir que você vá, mas então eu irei também. – Ele não se abalou nenhum pouco com o meu tom. Lá estava sua tranqüilidade que me irritava. Como ele conseguia essa proeza?
- O QUE? – Gritei, jogado agressivamente meu fichário na cadeira a minha frente. A raiva começava a borbulhar em minhas veias numa velocidade incrível e eu não conseguia mais controlá-la. – Eu tenho dezessete anos, sei cuidar de mim! Não preciso de ninguém atrás de mim como uma babá, principalmente você.
- Ou eu vou, ou nada feito. – John cruzou os braços me olhando desafiadoramente, deixando claro que não estava brincando. Ele provavelmente ficou puto com a minha última frase, pois seu tom calmo estava vacilando. – Eu vou deixa você viajar sozinha.
- Você está fazendo isso de propósito! Sabe muito bem que não quero que você vá e está tentando me impedir de ir. – Semicerrei os olhos, cruzando meus braços também. Assim eu não teria o impulso de jogar no chão, os objetos em cima da mesa. – Você está muito enganado! Vou para Kassel sozinha e você não pode fazer nada sobre isso.
- Eu tenho sido muito paciente com você, . Entendo que as coisas não estão sendo fáceis, mas você não pode falar comigo do jeito que acha certo. Não pode contar decisões desse tipo sozinha. – Ele levantou, colocando as mãos em cima da mesa para deixar tudo mais claro. – Eu já falei, ou vou com você ou você não vai.
- VOCÊ NÃO VAI ME IMPEDIR, EU VOU SIM E VOU SEM VOCÊ! – Gritei de novo, tendo certeza de todos da casa escutavam. Eu tinha vontade de subir em cima daquela mesa e esganá-lo até ouvir seu último suspiro de vida. Precisava machucá-lo como ele estava fazendo comigo. – VOCÊ ESTÁ TENTANDO DESTRUIR A MINHA VIDA COM FEZ COM A DA MINHA MÃE, MAS NÃO VAI CONSEGUIR!
- NÃO SE ATREVA A FALAR COMIGO DESSE JEITO! VOCÊ NÃO SABE DO QUE ESTÁ FALANDO, NÃO SABE O QUE ACONTECEU! – John gritou como um louco, deixando o rosto vermelho púrpura, fugindo totalmente daquele jeito tranqüilo de antes. Ele deu um soco na mesa, reprimindo, em vão, sua raiva. Lá estava à fera guardada dentro dele e eu, de certa forma, fiquei com medo. Era um John completamente diferente. Não duvidaria que ele me desse um tapa a qualquer momento.
- EU ODEIO VOCÊ, ODEIO! – Gritei mais alto que ele, apontando em sua direção. Ótimo, estávamos fazendo um campeonato de quem gritava mais alto. – ODEIO O FATO DE VOCÊ SER MEU PAI, ODEIO O FATO DE NÃO TER ESCOLHA DE ONDE VIVER! ODEIO O FATO DE TER QUE MORAR AQUI!
- Meu Deus, o que está acontecendo aqui? – Helen entrou desesperada dentro do escritório, sem nem se dar ao trabalho de bater na porta antes. – John, , o que vocês estão fazendo? Pelo amor de Deus.. – Ela veio até mim, me puxando pelo braço com delicadeza, eu a abracei com força e Helen fez o mesmo. – Calma, , vai ficar tudo bem.
- Não, não vai. – Fechei meus olhos, só agora sentindo meu rosto muito molhado. A raiva que eu estava sentindo era tão grande que não tinha reparado que estava chorando e tremendo muito. – Eu não quero mais ficar aqui, quero ir embora. Não quero mais olhar para a cara desse homem que se diz meu pai.
- , eu.. – John tentou falar, mas Helen o impediu.
- É melhor você subir e tomar um banho. – Ela me soltou aos poucos, me fazendo encará-la. Helen estava com o cenho franzinho. Seu semblante era de confusão e preocupação. – Me deixe conversar com pouco com o seu pai.
Não relutei. Peguei meu fichário jogado na cadeira, ajeitei a bolsa no meu ombro e enxuguei as lágrimas antes de sair do escritório. Eu sabia que outras mais desceriam e molhariam o meu rosto de novo, mas isso não me fez deixar de secá-las. Respirei fundo, enquanto subia as escadas e entrava no meu quarto, fechando a maldita porta com muita força.
Puta merda, o que eu iria fazer? Aquele desgraçado estava querendo me irritar, só podia ser! Qual era o problema deu viajar sozinha até Kassel, me diz? Eu não iria fugir! Não que essa ideia não fosse realmente tentadora, mas eu não ia arranjar mais encrenca pro meu lado. Como eu disse antes, eu estava tentando ser uma pessoa passiva. Estava controlando o meu lado explosivo, será que John não via isso? Custava alguma coisa ele me deixar viajar? Custava? Aquele papinho todo de “estou preocupado de que você volte a ficar triste como antes..” não me convencia. Não mesmo. Ele só estava concordando de eu ir com ele porque sabia que eu nunca aceitaria isso. Estava estampado na minha cara, não precisava ser nenhum gênio para saber. Minhas lágrimas ainda desciam e eu ainda podia sentir o tremelique pelo meu corpo. Eu estava dias sem chorar, mas é claro que John achou isso muito tempo e revolveu me infernizar. Ele tinha que me ver chorando, devia ser um prazer pra ele. Aquele filho da puta..
- Posso falar com você? – perguntou, metendo a cabeça dentro do meu quarto e eu reparei que ele estava com aquele tom irritado, com a boca numa linha fina e sinuosa. Antes que eu falasse alguma coisa, ele tratou de entrar e fechar a porta atrás de si. Colocou as mãos no bolso me olhando impacientemente. – , será que você não pode facilitar as coisas pro John?
- Facilitar o que, ? – Perguntei no mesmo tom, levantando uma sobrancelha, deixando que mais lágrimas descessem pelo meu rosto em ter o trabalho de impedi-las. – O que você quer que eu facilite pra ele? Quer que eu esqueça os meus amigos de infância? Quer que eu do meu namorado? Da minha casa, da minha vida na Alemanha? Eu não vou esquecer nunca. Eles ainda são importantes pra mim e não importa o que você, John ou sei lá mais quem diga, isso não vai mudar. Eu só quero vê-los, é pedir demais?
- Ele não está impedindo que você vá, ele só não quer que você vá sozinha. Está preocupado. – gesticulava com as mãos, apontando para mim, como se me acusasse de um crime horrível.
Ele não faria com o que eu me sentisse culpada, não mesmo.
- E você quer que eu vá com quem? Com o Jack? Legal, eu levo o Jack comigo então! – Meu tom de voz voltou a aumentar, informando minha elevada irritação com todo aquele papo. Eu já estava irritada, por que ele tinha que vir aqui me perturbar ainda mais? Aquela conversa não iria sair tão amigável.
- Por que você não deixa de ser egoísta, garota? Não vê o que o John está fazendo por você? É tão burra assim para não enxergar isso? Fica aí se lamentando, mas em nenhum momento pensou o que ele está passando com isso tudo!
- Oh, pobre John! – Debochei, dando um sorrisinho sem humor, enquanto ficava na sua frente, querendo reprimir a vontade de gritar na sua cara. – Deve ser realmente difícil ter que ficar com a filha que você abandonou há dez anos! Desculpa aí, , mas eu não escolhi vir pra cá!
- Não escolheu, mas também não precisa ser esse poço de estupidez o tempo inteiro com ele. Você não sabe de nada, . Acha que conhece o John, mas não sabe de absolutamente nada sobre ele. Não sabe o pai maravilhoso que ele é.
- Por que você está me enchendo com isso tudo? Não vê que não vai mudar minha opinião? – Qual era a dele? Por que ele estava tentando me convencer? – Você não sabe o que eu passei, não sabe o que eu e minha mãe sofremos quando ele foi embora. Ele nem ao menos me deu uma explicação. Agora vem você, - O cutuquei com força no peito. – vem aqui para me encher a porra do saco, falando o quanto John é bonzinho..
- Eu tenho meus motivos para pensar desse jeito. – segurou minha mão que o cutucava, afastando-a e depois soltou. Fechou os olhos e quando os abriu, vi que eles estavam brilhantes, como se ele tivesse prestes a chorar também. - Ele me criou, é como meu pai legítimo. Me ensinou tudo o que eu sei, só quero que você dê uma chance a ele.
- Isso não vai acontecer, sinto muito por você. Além do mais, acho que ele já está bem grandinho para ter alguém como você para defendê-lo. – Me afastei por completo, andando em direção ao banheiro em passos largos ao mesmo tempo em que fechava a porta com força. Me trancando, escorando na porta, agarrando os meus joelhos, deixando que as lágrimas de raiva descessem sem que ninguém as vissem.
Ouvi a porta do meu quarto sendo fechada indicando que tinha ido embora, me deixando finalmente sozinha. Deixando que o meu choro de raiva acontecesse sem interrupções.

Capítulo 06.

Abri meus olhos de relance, vendo os fracos raios invadirem o meu quarto. Eles ainda não tinham alcançado a minha cama, era cedo, indiciando que não devia ser mais do que oito horas.
Não era a primeira vez que eu acordara naquela manhã, me fazendo bufar frustrada por isso. Pouco mais cedo tinha escutado saindo do quarto ao lado, arrastando sua mala e depois a voz de Helen no corredor, dando os típicos conselhos que as mães dão quando seus filhos saem.
Eu não saí do quarto depois da minha discussão com ele ontem. Na verdade eu demorei bastante para sair até mesmo do banheiro. O tempo em que fiquei enfurnada lá poderia assustar qualquer pessoa pensando que eu tivesse me afogado na banheira, mas eu nem sequer cheguei a tirar minhas roupas. Eu demorei porque estava chorando. Chorando como uma criança birrenta. Um choro de raiva, diferente dos meus choros passados. Essa era uma das minhas características. Sempre que eu fico com raiva de alguma coisa ou alguém, eu choro demasiadamente, até que tudo esteja bem. Mas mesmo depois de tomar o final da tarde e um pouco da noite deixando que as lágrimas descessem, eu ainda queria esganar John.
Eu queria ter levantado quando estava saindo. Queria ter lhe desejado sorte no jogo e ver um daqueles seus sorrisos lindo no rosto. Mas não fiz isso. Deixei de fazer por medo, por lembrar-se da nossa discussão, por pensar que ele anda estaria bravo.
Eu não estava. Não com ele. Entendia seu ponto de vista, afinal John era praticamente seu pai, sua única referencia masculina. Mas eu também tinha a minha opinião e não iria mudá-lo tão facilmente. Mesmo depois de tanto tempo, eu ainda me lembro de John indo embora. Lembro dos seus olhos , vermelhos, olhando para mim, querendo me dizer algo e do choro escandaloso da minha mãe em algum canto da cozinha. Eu não olhava pra ela naquele momento. Prestava atenção em cada movimento de John. Não entendi de imediato o que estava acontecendo ali. Eu só tinha 7 anos, era muito nova. E então ele saiu carregando duas malas pesadas. Ele estava deixando a mim e a minha mãe, eu sabia disso. Estava voltando para o seu país de sotaque bonito e engraçado. John estava me castigando e eu nem sabia o motivo. Deixando claro que não me amava mais, que eu já não era sua garotinha.
Ele não voltou como imaginei que faria, me deixando com ódio. Queria esquecê-lo, deixá-lo de lado como ele fizera comigo. Prometi a mim mesma que cuidaria de tudo e faria minha mãe parar de chorar a noite, quando ia dormir e cumpri minha promessa.
Ele deu notícias alguns dias depois de partir, mas eu já não me considerava mais sua filha. Todas as noites mamãe chorava e acordava com os olhos inchados, ar cansado e desmotivado. Isso durou por oito longos meses e eu tive que agüentar firmemente. Você imagina o que eu passei? Oposto que não. Ninguém sabe até acontecer na sua casa.
Isso me fez evitar ao máximo não citar o seu nome e até mesmo lembrar que ele existia. John, por diversas vezes, tentou se encontrar comigo, se manter presente, mas eu neguei. Nos primeiros anos, ele sempre ligava nas datas comemorativas, principalmente no meu aniversário, o dia ao qual ele ligava mais de uma vez, mas claro, sem sucesso. Eu realmente não sentia a necessidade de manter contato com ele e aos poucos, acho que John foi entendendo e parou de ligar. Passou a apenas a cumprir com suas obrigações de pai, como pagar pensão bem gorda.
Mamãe não apoiava a minha ideia de ignorá-lo, dizia que não existia mais amor entre eles, mas que eu continuava sendo filha de ambos. Ela dizia que ele não me esquecera, mas ela estava errada. Ele não era mais meu pai, não era mais meu herói. Ele tinha ido embora, não tinha? Não tinha nos deixado pra trás sem nem me dizer um adeus? Então por que queria manter algum vinculo comigo? A verdade é que eu não gostava de pensar ou falar sobre esse assunto porque me fazia sentir toda a rejeição de anos atrás. Nem mesmo o psicólogo conseguiu com três anos de tratamento.
Virei-me encarando o teto, já completamente acordada. O sol já adentrava quase metade do meu quarto, chegando a minha cama. Há pouco tempo eu estava pensando em e agora tudo tinha se direcionado da John. Quando tempo tinha se passado com todos aqueles pensamentos?
Um choramingo abafado chegou aos meus ouvidos. Era Jack. Aquele safado com certeza conseguiu driblar a super segurança de Molly e estava chorando no corredor, querendo entrar no meu quarto. Esperei que ele chorasse mais um pouco, não por não gostar dele, mas por falta de preguiça de levantar da minha cama quentinha e fofa. Quando ele começou a arranhar a porta, tratei de levantar e abrir a porta. No mesmo instante o choro cessou, sendo substituído por uma animação típica com direito a abano de rabo.
- Entra, seu brutamonte. – Cocei sua cabeça, dando passagem para ele. Olhei para os lados apenas para ter certeza de que Molly não tinha visto e fechei a porta. – Ah não Jack, a minha cama não! – Resmunguei por vê-lo em cima da minha cama, se esfregando na roupa de cama limpa, mas parei no mesmo instante quando ele ficou quietinho com a cabeça apoiada nas patas da frente, me encarando pidão, implorando para que não o tirasse de lá. – Tá bom, mas não suje nada.
Peguei o meu celular no criado mudo para ver se Sam tinha me respondido.
Nada.
A frustração e a preocupação já estavam sendo tomadas pela raiva. Mas que merda, qual era o problema, hein? Antes de jogar o aparelho na cama, vi a hora. Eram quase meio dia e eu tratei de tomar banho e me arrumar para sair. Era para eu me encontrar com as meninas na casa de Lizzie às 14 horas, mas eu não via mal em chegar mais cedo. Até porque eu não tinha nada para fazer em casa mesmo. Era sábado e John estava em casa, isso já resume tudo.
Em falar em sábado, eu passaria a minha tarde inteira estudando. Sim, estudando. Pelo menos esse era o objetivo, mas algo me dizia que isso não iria durar por muito tempo graças a Katie. Tomei um banho morno rápido e fui até o closet, vestindo uma blusa de meia manga com listras grossas em preto e branco, um short jeans escuro curto com a barrada sobrada, um All Star preto e uma bolsa grande preta para colocar meu material escolar. Quando fui pegar meu celular, pensei bem se deveria ir tão cedo e escrevi uma mensagem para Lizzie:

Google, tem problema se eu for mais cedo? Briguei com o John e não queria ficar em casa. Beijos

Pensando que ela fosse demorar, sentei na cama e comecei a fazer cafuné na cabeçorra de Jack, que soltou um barulho pelo meu carinho. Ele era um fofo mesmo, igualzinho ao. Eu sorri fraco lembrando a noite em que os peguei brincando altas horas da noite do jardim, graças ao latinho escandaloso de Jack porque queria seu brinquedo de volta. Eu fiquei um bom tempo os vendo brincar, até que olhou para cima sentindo a presença de alguém e me viu, me deixando um tanto encabulada com o sorriso fechado que se curvou em seus belos lábios. Senti-me sufocada momentaneamente e meu coração acelerou de tal maneira que eu nem gosto de lembrar porque além de ser uma coisa estranha demais, eu pareço voltar no tempo e sinto tudo de novo. Mas foi gostoso sentir aquilo, devo admitir.
O celular apitou na minha outra mão e esperançosamente eu imaginei que fosse Sam, e adivinha? Era Lizzie.

Ei, gatinha, pode vir sim! As meninas já estão aqui. Beijos

Desci com Jack em meu encalço. Ambos tomando o maior cuidado para que Molly não nos visse... Só que conforme eu fui descendo, me lembrei que nos finais de semana nem Molly e nem os outros empregados não trabalhavam. Lancei um olhar de que o tinha pegado na mentira.
- Você me enganou só dessa vez, seu safado. – Falei chegado ao hall e Jack me olhou como se estivesse sem graça e sumiu, indo a diante enquanto eu virava.
Passei na cozinha para pegar algo para comer, dando de cara com Helen de costas para mim procurando alguma coisa num dos armários de baixo. Ela estava usando uma roupa mais simples do que o habitual, com um avental azul comprido.
- Helen, tô indo na casa da Lizzie, volto mais tarde. - Falei indo até a fruteira e pegando uma maçã. Ela se virou brevemente para mim.
- , será que você pode esperar um pouco para conversarmos?
- Desculpe, não dá. As meninas estão me esperando e eu já estou bem atrasada. Tchau. – Oras, que mentira ! Me adiantei saindo da cozinha antes que Helen falasse mais alguma coisa. Eu sabia muito sobre o que ela queria conversar e eu não estava nem um pouco a fim de esquentar minha cabeça antes do almoço. Passei como um foguete pela porta da sala que estava aberta e saia uma música animada do Elton John, querendo evitar o outro John.
Caminhei até o final da rua, encontrando um ponto de ônibus. A viagem não durou mais do que 10 minutos já que ainda era na parte privilegiada da cidade e desci, entrando numa rua residencial com muitas árvores, bem parecida com a casa onde eu morava. Parei em frente à porta de uma casa rosa bebê com janelas e portas brancas. Toquei a campainha, e segundos depois, George, irmão super gato da Lizzie abriu as portas, usando apenas uma calça jeans.
- Ei, ! Você parece cada dia mais linda, hein. – Ele sorriu encantadoramente para mim, descendo os olhos para as minhas pernas discretamente. – Entra aí, as garotas estão lá em cima. - Obrigada. – Agradeci, sorrindo de volta e subi as escadas, ainda sentindo que ele me olhava.
George era bem alto com um corpo magro, mas chamativo, olhos acinzentados, pele branca como papel e o charme de homens típico de homem novo. Eu o adorava. Desde o momento em que nos conhecemos, nos demos muito bem, só que ele sempre me dava um olhar como se dissesse alguma coisa. Não era só pra mim, eram para todas as garotas. Katie era uma delas. Ah, eles já tinham ficado algumas vezes antes dela se envolver com . George era mais velho que eu e as meninas uns 3 anos. Não que eu fosse uma pessoa ligada à idade, só que bem... Ele já estava na faculdade, e isso era meio intimidador. Eu me achava um tanto imatura para me envolver com uma pessoa como ele. Mas ainda assim George era bem gostoso. Não tanto quanto outra pessoa aí, mas ainda era atraente.
Bati na porta de Lizzie, escutando uns gritinhos lá de dentro que provavelmente vinham de Cassie e um “Entra” de Katie.
- Qual é a da gritaria? – Perguntei assim que abri a porta e fechei a mesma, entrando no quarto, dando de cara as três sentadas no carpete, amontoadas, lendo alguma coisa no laptop de Lizzie.
- Meu Deus, você não vai acreditar, ! – Cassie disse toda serelepe, apontando para o computador. – O Muse vai se apresentar em Londres mês que vem! Acabamos de ver no site deles.
- Sério? – Fui até elas, deixando minha bolsa em cima da cama. – Que dia? Nós temos que ir! – Eu adorava Muse! Matthew Bellamy me deixava um tanto quanto viajando na sua voz maravilhosamente gostosa e rouca.
- Dia 15, cai num sábado. Será que o John vai deixar você ir? – Lizzie perguntou fazendo uma careta por ter tocado o nome dele sabendo do que tinha acontecido.
15 era meu número da sorte, estranho, né?
- Eu não sei, tomara que sim. – Dei de ombros, pegando o laptop só pra mim para ver mais sobre o show. – Aqui tá falando que o Razorlight vai abrir o show! Eu realmente preciso ir.
- Todas nós precisamos! – Katie falou, pegando um caderno e uma caneta. – Vou fazer uma lista da quantia que vamos precisar.
- A gente podia chamar os meninos, né? – Cassie sugeriu e eu e Katie olhamos para ela. – Ué, qual o problema? Eles gostam das bandas também.
- Não acho má ideia. – Lizzie se pronunciou com aquele ar de sabichona. – Acho até mesmo mais fácil pra gente. Principalmente pra você, . John não vai implicar se o for junto.
- É, pensando bem, vocês estão certas. – Brandon, o gatinho alaranjado de Lizzie veio até mim, se esfregando na minha perna pedindo carinho. – Oi pra você também. – Falei fazendo carinho em baixo do seu pescoço peludo. Ele ronronou, fechando os olhos.
- E então, você vai nos contar qual foi a da briga com o John? – Lizzie perguntou de uma vez só, sem enrolar, deixando aquele lado discreto totalmente de fora. – Anda, conta logo. Qual foi do drama?
Então eu narrei a pequena história sobre a briga de ontem. Não iria demorar mais do que cinco minutos, exceto porque eu precisei contar sobre a falta de notícias de Sam. Não que elas não soubessem um pouco sobre nosso contato, mas eu não quis contar antes sobre o seu sumiço. Parecia tornar as coisas mais preocupantes.
- Hm... – Lizzie murmurou fazendo sua típica cara de nerd que sabe a resposta, mas não sabe se deve passar a diante ou não. – Então ele sumiu e você pretende ir vê-lo?
- Foi o que eu acabei de dizer, Google. – Falei o apelido que eu tinha colocado nela alguns dias atrás depois da aula de História ao qual Lizzie respondeu todas as perguntas prontamente. É, ela parecia um Google ambulante.
- Não me chama de Google! Você sabe que eu não gosto. – Ralhou comigo, semicerrando os olhos. – Me sinto um dicionário de todas as coisas. Não sou nerd, ok?
- É sim. – Cassie concordou mexendo a cabeça, mas logo parou quando viu o olhar mortal da outra e abriu um sorriso fofo que só ela tinha. – Mas você é a nerd/Google mais linda do mundo não é, meninas?
- Ai, vocês parecem o falando assim... – Lizzie revirou os olhos, mexendo no laptop que ainda estava no meu colo e continuou a falar antes que fizéssemos algum comentário a respeito. – Voltando ao assunto, por que você não aceita logo essa coisa do John ir? É mais fácil.
- Eu também acho, . Acho que John está certo em ficar com medo. – Cassie deu apoio sobre o assunto “John” pela primeira vez desde que eu a conheci, o que me deixou um tanto boquiaberta. Não que ela não me ouvisse, Cassie só compartilhava da mesma ideia que . As outras também, mas elas entendiam o que eu dizia, às vezes. Esse momento não era o caso pelo que eu podia ver. – Quero dizer, quando conhecemos você, você não estava muito bem e nós entendemos o motivo, mas... Olha, não é que querendo colocar coisas na sua cabeça, mas, bem, o Sam sumiu há quanto tempo, né? Já vai fazer um mês que você está aqui e pelo que você já nos contou, vocês tiveram poucos contatos durante esse tempo.
- Mas ele respondia as minhas mensagens... – Tentei amenizar as coisas e peguei o meu celular para mostrar a elas as mensagens recebidas e enviadas. – Só não respondeu minhas três últimas.
- Nós não o conhecemos para saber o que está acontecendo, mas... – Lizzie foi falando, até sua voz morrer e o silêncio tomar conta do quarto.
- Mas...? – Eu tentei incentivá-la, só que a única coisa que consegui foi uma careta bizarra e vê-la dando os ombros. – Ok, ok, o que vocês estão querendo me dizer? Que o Sam tem outra?
- É, é exatamente isso. – Katie finalmente abriu boca, dando sua opinião, saindo de trás do caderno em que fazia as anotações dos gastos do show. Todas nós olhamos para ela, e eu senti alguma coisa estranha com suas palavras. – O que foi, gente? Eu só estou dizendo a verdade, abrindo os olhos da minha amiga, - Eu sorri toda boba quando ela disse a palavra “amiga”. Não que nós quatro não fôssemos, só que era a primeira vez em que escutava aquela palavra em meio a uma frase. – diferente de vocês duas aí. – Terminou apontando para Lizzie e Cassie.
- Curta e grossa como sempre. – Lizzie alfinetou, sorrindo sem nenhum humor. – Você não presta mesmo, Katie! Estamos tentando fazê-la entender o que está acontecendo, não acusando o Sam. Talvez nem seja isso.
- Você sabe que é. Ela sabe que é. Todo mundo sabe o que é, qual o problema em admitir?
- Eu acho melhor a gente mudar de assunto. – Cassie interrompeu antes que as outras duas começassem uma discussão das feias. – Você já acabou tudo, não acabou, Katie? – Ela apontou para o caderno cheio de coisas escritas. – Ótimo, eu fico com isso para mostrar aos meninos depois.
- Ok, a gente pode mudar o rumo da conversa para ... – Katie mordeu o lábio inferior, deixando a frase no ar como se significasse alguma coisa.
- Não acho que nós temos que conversar sobre ele. – Desviei meus olhos das minhas amigas e voltei a mexer em Brandon que agora dormia ao meu lado.
- Claro que temos. – Lizzie falou num tom mais alto como se o que Katie disse lhe despertasse alguma coisa naquele cérebro grande e mirabolante, me fazendo olhá-la. – O é importante também.
- Ai, gente, o que vocês querem conversar sobre ele? Só foi uma discussãozinha. – Eu disse isso tentando convencer a mim mesma, mas dentro de mim alguma coisa mostrava que eu não estava tendo sucesso sobre isso. – Vocês acham que o está puto comigo?
- Olha, , o assunto “pai” com o ele é uma coisa bem delicada, não vou mentir pra você. – Cassie falou fazendo uma cara que eu não consegui entender. – O John é muito importante pra ele, você já deve ter entendido isso, né? – Confirmei com a cabeça. – Então... deve ter ficado muito puto com o que aconteceu entre vocês. Não puto com você, sabe, mas puto com toda a situação que vocês estão.
- Ele apenas ficou com raiva nada hora, mas já deve ter passado. - Lizzie pôs uma mão no meu ombro e sorriu. – Além do que, vocês podem conversar quando ele voltar, amanhã de tarde.
- Pensei que eles voltassem de manhã.
- Eles voltam, mas vão direto pra casa do dormir e só depois vão pra casa. É uma tradição boba. – Katie revirou os olhos. – Particularmente eu acho que eles se comem lá.
- Ah, cala a boca, Katherine! – Cassie lhe jogou uma almofada bem na cara e todas nós rimos, exceto o alvo, é claro. – não come ninguém, ele é todo meu.
- Vaca! – Katie resmungou quando se recuperou, pegando o mesmo travesseiro que foi tacado nela e jogou em volta, só que acabou acertando em Lizzie que ria sem parar. – Ops... Desculpe.
Mas era tarde demais. Lizzie revidou em Katie e logo eu fui acertada também, só não sei dizer por quem já que eu ria escandalosamente. O resultado foi que eu quase deixei o laptop cair no chão e Brandon saiu de perto de nós rapidamente miando antes que ele fosse acertado também. Ficamos nessa guerra de travesseiro até a mãe de Lizzie bater na porta e nos chamar para o almoço. Quando fomos nos olhar, caímos na gargalhada pelo nosso estado: Cabelos totalmente bagunçados, rostos vermelhos de tanto rir e de serem acertados, respiração ofegante e é claro, exaustas.
George estava na mesa também, o que deixou Katie um tanto quanto animadinha com direito a várias reviradas de olhos de mim e das meninas, Lizzie até acrescentava umas bufadas. Eu poderia apostar meu par de sapatos favorito que ela só estava dando bola para ele porque George era mais velho e poderia fazer um ciúme significativo em . Só que estava na cara que por mais que George fosse gato e interessante, quem ela queria mesmo era o . Eu realmente não entendia a cabeça deles dois. Se eles se gostam tanto, por que não ficam juntos e param com essas coisas de fazer ciúmes um no outro?
Depois do almoço nós voltamos lá pra cima, menos Katie, que ficou jogando video game com o George, e estudamos um pouco de Francês, que Lizzie insistia em teimar com a minha pronuncia mesmo eu dizendo que não precisava aprender aquela língua chata, e depois um pouco de História, minha matéria favorita. Quando terminamos eu e Lizzie ficamos deitadas no carpete macio, com os pés na cama, tentando escolher qual de todos os pôsteres de The Killers, Franz Ferdinand, The Strokes, MGTM, e outras bandas que de decoravam todas as paredes do seu quarto, era o mais bonito. Em vão, é claro. Cassie ficou na cama, mexendo em seu Facebook e Twitter procurando alguma coisa interessante para fazer, cantarolando baixinho uma música que tinha posto para tocar no Itunes.
O celular de Lizzie tocou e ela se levantou rapidamente para pegá-lo em cima da escrivaninha, soltando um suspiro antes de atender.
- Ei, Carl. – Ela falou um tanto desanimada, voltando a sentar do chão perto de mim. – Tô sim, por quê? – Houve uma pausa ao que eu conclui que Carl deveria estar falando alguma coisa. – Calmae aê, vou falar com elas. – Ela tapou o telefone, dirigindo a palavra agora para mim e para Cassie. – Meninas, vocês querem ir ao Starbucks?
- Por mim tudo bem. - Falei e Cassie concordou comigo.
- Ok, vai preparando o meu Mocha Café, hein. – Lizzie disse antes de desligar o celular.
Descemos e fomos chamar Katie. George ficou implicando com Lizzie porque ela ia se encontrar com Carl – É, além de , George também não era muito com a cara do namorado da irmã – Mas depois de um bate boca bem rápido entre eles em que até mesmo o nome de foi citado por George dizendo que ele era muito melhor, estávamos dentro do Volvo S80 2010 de Lizzie, com a mesma resmungando que o irmão não tinha nada a ver com a vida dela.
Chegamos bem rápido e logo que estamos demos de cara com Carl. Seus olhos azuis brilharam quando encontraram com o de Lizzie. Ela sorriu fraco indo até ele. - Lizzie, vai fazendo os pedidos enquanto nós vamos nos sentar ali. – Falei apontando para uma mesa de canto que ficava bem em frente à janela onde costumávamos nos sentar. É, ter uma amiga que tem um namorado que é dono de uma filial do Starbucks te dá muitos pontos como conseguir o lugar que você quiser ou ter seu pedido mais rápido.
Sentamos e ficamos esperando ela voltar, mas demorou um pouco. Ela e Carl pareciam estar se desentendendo atrás do balcão. Isso não era nada bom. Eu e as meninas estávamos morrendo de fome, mas antes que alguma de nós levantasse, ela voltou com uma cara nada boa, trazendo o meu Café Mocha com dois Muffins de chocolate, Caramel Macchiato com Cookie com gotas de chocolate de Cassie, Frappuccino blended beverage de baunilha com bolo de nozes e cobertura de chocolate de Katie e é claro, seu Café Mocha com pão de queijo.
- Ele é tão irritante! – Ela praticamente jogou a bandeja com os pedidos em cima da mesa, nos assustando. – Acreditam que ele deu tipi porque eu falei sobre o show?
- Nós percebemos que vocês estavam discutindo, mas não pensamos que fosse sobre isso. – Katie pegou sua bebida e comida. – Deixa ele pra lá, vamos comer.
Carl não parou de lançar olhares para a Lizzie enquanto comíamos e acabou que ela foi até ele conversar depois que terminou seu lanche.
Cassie teve a ideia de ligar para os meninos antes de eles entrarem em campo, às 18 horas. Ligou para o celular do , colocando no viva voz para que todas pudéssemos ouvi-los. Claro que primeiro eles tiveram um momento in Love. Katie fingiu não gostar, mas logo que ouviu a voz de mandando beijo um sorriso de orelha a orelha tomou conta do seu rosto, parecia até o palhaço bozo. Mas quem tremeu ao ouvir a voz de fui eu. Parecia que ele estava ali na mesa conosco, conversando e rindo. Talvez pelo remorso que eu sentia de ter brigado com ele, talvez por querer pedir desculpas, ou até mesmo por capricho, eu o queria aqui, bem ao meu lado. Eu não entendia essa necessidade de tê-lo comigo o tempo inteiro, não queria explicar a mim mesma, eu apenas... Queria e ponto final.
- Todo mundo tá aí? – Ele perguntou, deixando que todas nós percebêssemos seu receio. Será que ele queria saber indiretamente se eu estava ali? Ele queria perguntar algo que eu não poderia escutar?
- Uhum. – Cassie respondeu sorrindo pra mim, fazendo uma cara de “nós falamos que ele não está mais puto” – A Lizzie também está aqui, mas ocupada com o Carl. – Cassie morder a língua quando terminou de dizer. Aposto que ela se segurou para não contar que eles estavam discutindo, e não namorando. Ouvimos um “ah” do outro lado da linha e eu soube logo de cara que era o .
- Fala com o ele, ! – Katie sussurrou, me cutucado. – Pergunta alguma coisa ou então apenas deseje boa sorte.
- Não! – Sussurrei de volta, negando veemente com a cabeça. – Eu não posso, ele ainda está bravo comigo!
- Não tá nada, deixa de ser teimosa. – Ela retrucou voltando a me cutucar, mas agora com mais força. – Você tá com medo, é?
Não tive tempo de dizer nada, apenas mostrei minha língua, antes que falasse com a voz melosa:
- Amor, vamos vou ter que desligar, o treinador está nos chamando. Mas quando terminamos o jogo eu te ligo, ok? Estou com saudade.
- Wow bebê, tudo bem. – Cassie fez um bico engraçado como se estivesse em sua frente. – Boa sorte pra vocês. Eu te amo.
- Eu também te amo. – Antes de desligar, ouvimos os meninos gritando, mandando beijo e dizendo que iriam trazer a taça para nós.
- Ai, meu lindo é um fofo, né? – Cassie falou naquele jeito sonhador e guardou o celular. – Hm, que cara é essa? – Ela perguntou para Lizzie que se sentou do meu lado com uma cara pior do que estava quando levantou.
- Ai, nada. Já paguei tudo, podemos ir embora?
Elas me deixaram em casa depois de muita insistência para que eu dormisse na casa de Lizzie. Dei a desculpa de que não tinha uma muda de roupa limpa, mesmo sabendo que elas poderiam me emprestar uma. O dia nem tinha sido cansativo, mas eu me sentia extremamente exausta. Além do que, morrendo de saudade de Emma.
- , é você? – Era Helen, e sua voz vinha da cozinha. Algo me dizia que ela ficou por lá o dia inteiro.
- Sou. – Respondi tirando a chave da fechadura, caminhando lentamente até onde Helen se encontrava. Eu estava certa, ela tinha passado o dia todo lá. A cozinha estava uma bagunça, o balcão todo cheio de farinha e cascas de ovos, várias bacias, colheres, copos sujos. – Nossa, um furacão passou por aqui?
- Engraçadinha. – Ela riu debochadamente, tirando um tabuleiro de dentro do forno e colocando-o em cima da mesa, o único lugar limpo e vazio. – Fiquei fazendo alguns doces. Quer cookies de chocolate?
- Não, obrigada. Eu e as meninas comemos no Starbucks. – Apontei para a minha barriga como se ela pudesse ver o quão estava cheia. – Emma ainda não chegou?
- John foi buscá-la agora pouco, eles devem demorar. – Ela me deu um olhar significativo e eu senti que não ia mais poder fugir da conversa que ela queria ter comigo de manhã. – Você pode se sentar aqui? Queria bater um papo com você.
- Eu tô cansada. Queria tomar um banho e descansar.
- Eu juro que não vou demorar. – Helen pegou um prato grande dentro do armário para colocar os cookies, enquanto eu sentava na cadeira com a bolsa no colo.
- Tudo bem, pode falar. – Suspirei já imaginando se ela me daria uma bronca ou não. Estranhamente eu não me vi puta da vida se ela me fizesse isso. Eu gostava de Helen. Eu sentia que ela realmente gostava de mim e queria meu bem, mas ao mesmo tempo não queria tomar o lugar da minha mãe. Ela apenas queria ser minha amiga.
- Eu sei da discussão entre você e ontem... – Ela ponderou as palavras, colocando distraidamente os biscoitos no prato. – Ele não me disse o que era, mas eu aposto a minha vida de que foi sobre o John.
- Olha Helen, eu quer... – Tentei intervir antes que ela começasse um discurso sobre como John era um bom pai.
- Eu não vou falar sobre o John. – Ela me cortou, parecendo ler meus pensamentos. – Eu não sou ninguém para querer mudar a sua cabeça. Entendo a falta de confiança que você tem nele, e acredite, o próprio John também entende. Eu quero conversar sobre o .
- ? – Fiz uma careta confusa. O que Helen poderia querer conversar comigo sobre ele? – Não estou entendendo.
Helen soltou uma risada nasalada antes de continuar e se sentou na cadeira em frente a minha.
- O não conheceu o pai, não sabia o que era uma figura paterna até os 7 anos, que foi quando eu conheci seu pai, quando ele voltou pra cá. – Eu fiquei calada, prestando atenção atentamente no que ela dizia, mas eu tive vontade de levantar e dizer “e a partir do dia que ele foi embora, eu também passei a não saber”, mas fiquei calada. Soaria muito egoísta, e a verdade é que era. – Quando eu e John resolvemos nos casar, já era muito apegado a ele. John foi o herói dele desde que se conheceram. Ele sempre tratou como um filho. Ia as apresentações do judô e depois quando ele saiu, John passou a ir nos jogos de futebol. – Eu sentia meus olhos arderem enquanto ela falava, mas eu as reprimi. Eu também queria aquilo quando era pequena. Queria que John fosse às minhas apresentações, mesmo que eu não tivesse nenhuma. Mas eu não fiquei com raiva de por isso, eu senti inveja dele. – Eles criaram um laço muito forte, você tinha que ver quando Emma nasceu. – Helen riu lembrando. – beliscava a irmã por ciúmes, dizia que John dava mais atenção a ela e que não jogava mais basquete com ele, só que era pura bobagem. – Helen fez uma pausa, olhando fixamente nos meus olhos com os seus terrivelmente que me lembravam tanto o seu filho e eu pude ver que eles estavam marejados. – O que eu estou querendo dizer, , é que não importa o que você ou qualquer outra pessoa diga sobre John, vira bicho, ele não admite que falem mal do homem que me ajudou a criá-lo, entende? Então eu queria te pedir um favor que eu sei que é difícil, mas que eu queria que você fizesse. Por favor, não discuta mais com o sobre o John, se ele for ao seu quarto como ontem, ignore-o, mande sair. Meu filho fica muito perturbado. Eu não queria te contar, mas ontem ele foi dormir chorando. Se você fizesse isso por mim, eu agradeceria muito.
A comida no meu estômago deu uma reviravolta quando eu escutei que havia chorado. Eu estava pouco me importando com a minha diferença com John agora. Eu tinha feito chorar, indiretamente, mas tinha. Aquilo só me fez meu remorso piorar. Não era minha intenção, não mesmo. Eu não queria fazer uma pessoa que estava me ajudando desde eu pus os pés nessa casa, a chorar. É claro que todo mundo ali me apoiava, mas era o que mais estava ao meu lado, me fazendo rir com os apelidos estúpidos e esquecer a dor da perda da minha mãe, do afastamento dos meus amigos. Ele estava ali comigo o tempo inteiro, como eu tive coragem de fazer isso? Feri-lo desse jeito?
- Pode deixar, Helen. Eu vou evitar esse assunto perto dele. – Falei com convicção, dando um sorriso para reforçar mais ainda as minhas palavras.
- Obrigada. – Ela sorriu de volta, limpando o pouco de lágrimas que saiam dos seus olhos com uma mão e a outra apertando a minha. – Eu gosto muito de você, querida.
- Eu também gosto. Você tem sido maravilhosa comigo desde que eu cheguei aqui. Você, Emma, Molly e . Não foi minha intenção feri-lo.
- Eu sei e ele também sabe. – Ela levantou, abrindo os braços pra mim. – Eu posso te dar um abraço?
- Pode. – Meu sorriso se alargou, e eu deixei que os braços de Helen me envolvessem um abraço amigável. – Obrigada por ser minha amiga.
Nós estávamos tão absortas em nossa conversa que nem escutamos a porta sendo aberta.
- Mamãe, você fez cookies! – Emma surgiu com um sorriso sapeca com John atrás, carregando uma mochila rosa. – Ei, por que vocês estão se abraçando?
- Não é nada, Emma. – Eu falei indo até ela, abrindo meus braços como Helen tinha feito comigo. – Por que você não me dá um abraço? Eu estou morrendo de saudade, sabia?
- Eu sei, faço falta nas pessoas, sabe... Eu também, tô, cabeçuda. – Ela se jogou nos meus braços, rindo. – A gente podia jogar Guitar Hero enquanto comemos biscoitos, né?
- Ok, vamos logo. – a coloquei no chão, segurando a mão dela, enquanto a minha vazia pegava o prato de biscoitos para subir. – Mas eu vou ganhar dessa vez.

Capítulo 07.

A única coisa que eu vi quando abri meus olhos pela manhã, foi um par de olhos . Era Emma. Ela me sacudiu e eu ainda morrendo de sono, fechei e reabri os olhos para me focalizar melhor, mas ela já não estava mais no quarto. Não demorou muito para que ela voltasse me chamando de preguiçosa e puxando meu edredom, deixando minha pele exposta ao ar frio. Helen subiu para ajudá-la a me tirar, vulgo arrancar, da cama. Enfiaram-me dentro do chuveiro com água pelando e depois me deram leite com café e duas fatias de pão de forma com manteiga. Não estava acreditando que em pleno domingo, eu estava de pé antes do meio dia. Em menos de meia hora eu estava sentada no banco de carona de Helen, usando a primeira roupa que achei jogada pelo closet desarrumado.
Iríamos ao shopping fazer compras, mas eu não queria. Meu desejo era voltar para a minha cama quentinha e dormir por pelo menos três dias.
Emma foi tagarelando atrás, dizendo que eu precisava de roupas novas e que minhas unhas estavam pavorosas, mas eu sabia que ela só estava implicando comigo porque tinha ganhado dela no Guitar Hero. É, eu estava ficando boa naquilo.
Ela e Helen me fizeram experimentar tantas peças de roupa, que já na terceira loja, eu não poderia dizer quantas vezes tinha me trocado. Estava sendo bom ter um tempinho só com elas.
Fomos até o carro para guardar todas as minhas compras e voltamos, para que Emma fizesse as dela.
- Ah, não gostei desse, mamãe. – Ela fez uma careta para um vestido listrado que eu particularmente tinha achado uma graça nela. – Pede para a vendedora aquela jaqueta rosa?
Helen saiu da parte dos provadores indo até a frente onde ficavam as araras, enquanto Emma experimentava outro vestido.
- Hm... Você acha que o Nicholas vai gostar desse? – Ela perguntou se olhando no espelho, analisando meticulosamente cada detalhe.
- Eu acho que sim. – Respondi andando até ela. O vestido tinha ficado ótimo em seu corpo. Nada chamativo para uma menina da sua idade, mas destacava os pontos certos. – Mas Emma, você usa uniforme para ir para a escola, por que ele veria esse vestido?
- A festa da Tyra vai ser semana que vem, eu quero estar linda quando nos conhecermos. – Ela disse aleatoriamente, não notando o que estava falando, ainda analisando a peça de roupa.
- Mas eu pensei que vocês já se conhecessem da escola... – E então eu me toquei de que ela estudava num colégio só para meninas, como ela poderia conhecê-lo? Como eu tinha sido burra para não ter notado aquilo? Juntei as sobrancelhas, cruzando os braços na altura do peito. – Emma... – Ela me olhou pelo espelho com os olhos arregalados notando que eu a tinha pego na mentira. – Você me disse que conheceu o Nicholas na escola, só que você estuda num colégio só para meninas. Como pode me explicar isso?
- Então, ... – Ela se virou para mim, dando um sorrisinho de “puta merda, você me pegou”. – Eu não disse que o conheço da escola, apenas que gosto dele e que queria que você me ajudasse a ir mais bonita pra aula.
- E o que você acha que eu pensaria? E que ele surgiu do nada? Que fica aparatando¹ no maior estilo Harry Potter? Você aproveitou a minha distração, isso não é justo!
- Eu não posso fazer nada se você é... Como posso dizer isso? Ah, desligada. – Eu vi pela sua expressão que ela queria dizer “burra”, mas por eu ser mais alta, mais velha e saber seu segredinho, aquilo a intimidou. Na época em que ela me contou eu nem me dei conta de nada e agora tudo se montava direitinho na minha cabeça.
- Desembucha logo antes que a sua mãe chegue.
- Ok. – Emma assumiu uma postura séria e eu quase pensei que a criança ali era eu. – Lembra da Amy? Então, ela tem um irmão que estuda no mesmo colégio que o Nicholas, no South York High School, sabe, e bem... – A voz dela foi ficando baixa, até acabar num sussurro. – Eu e Amy costumamos ir até lá depois da aula para espiá-los pelo muro, antes de você e chegar.
- EMMA! – Ralhei com ela, descruzando os braços e colocando as mãos na cintura. – Eu não acredito que você vai até lá pra olhar um garoto que nem sabe que você existe! Quantos anos esse ele tem?
- Dez. Ah, , vai dizer que você nunca espiou um garoto?
- Emma, é perigoso você andar sozinha por aí. Imagina se acontece alguma coisa com você?
- Você está preocupada comigo, ? – Ela perguntou com um semblante esperto nada comum para sua idade. Por que eu fui ter uma irmãzinha tão madura? É claro que eu estava preocupada!
- Desculpe a demora, filha. A vendedora demorou a achar o seu número. – Helen apareceu carregando uma jaqueta rosa bem transada, nem parecia ser infantil. – O que vocês estão conversando?
- Nada. – Olhei de soslaio para Emma, que parecia apreensiva com o que eu poderia dizer. – Nada demais.
Helen não notou os olhares entre mim e Emma. Não que eles fossem assassinos, mas eram bastante significativos, como se ela implorasse para que eu não dissesse nada. É claro que eu não iria dedurá-la e nem pretendia fazer chantagem. Eu apenas estava preocupada. Minha irmãzinha gostava de um menino um ano mais velho que nem sabia sobre seus sentimentos e ela ainda se arriscava para ficar babando de longe. Saímos de lá com algumas compras e nem tocamos mais no assunto.
- Mãe, tá faltando uma coisa, não acha? – Emma sugeriu, olhando para a mãe com aquele olhar de que está pensando em aprontar, de repente, eu fiquei com medo do que ela estava pensando.
- Hm... – Helen sorriu para ela e olhou de relance para mim, deixando meu medo mais elevado. – Acho que estou entendendo o que você está querendo, Emma.
Antes que eu pudesse abrir a boca para dizer algo, Emma, a delicadeza em pessoa, me deu um empurrão para o lado e eu quase me estabaquei dentro de um salão de beleza muito chique. A sorte é que a porta era com sensor de presença, ou eu teria ficado esmagada contra o vidro diante da elite de York. Um homem moreno muito bonito e extremamente gay, usando um uniforme preto dos pés a cabeça parou diante de nós, rindo para as minhas acompanhantes. Os três se cumprimentaram como velhos amigos... Digo, os olhos de Emma brilhavam quando ela disse “É ela” e apontou pra mim.
Uma coisa que eu realmente amava em mim eram minhas unhas. Eu adorava pintá-las de todas as cores e sempre as mantinham grandes. Nada “estrela pornô”, mas eram consideravelmente grandes e quadradas. Então quando saímos do salão, elas estavam roxas, lindas e cintilantes. As dos pés estavam num tom claro porque eu odiava destaque nos meus pés, apesar deles serem pequenos e delicados. Meus cabelos receberam um tratamento de hidratação profunda e as pontas foram levemente cortadas. Emma e Helen também fizeram as unhas, a primeira usou um tom de rosa Pink, enquanto a segunda ficou com um esmalte vermelho berrante que contrastava com seu tom de pele pálido. Eu pintaria as minhas naquela cor da próxima vez.
A manhã passou tão rápida que eu nem me toquei, quando entramos no carro, que já eram 13h30. Enquanto passávamos pelas ruas, me dei conta de que estava tão alheia com aquele momento com elas, que nem me lembrei de . Não me lembrei de como estava me sentindo mal pelo nosso desentendimento, depois do que Helen me disse. Mas eu não pensei muito sobre isso, já que meu celular começou a tocar dentro da minha bolsa. Assim que o abri, o nome de Sam estava na aparecendo na tela, me fazendo sorrir.
- Sam! Não acredito que você está me ligando! - Falei ainda sorrindo.
- Meu amor, que saudade de escutar sua voz. – Eu não estava acreditando que ele estava do outro lado da linha. Sua voz estava carinhosa como sempre. – Desculpe pelo sumiço, meu celular quebrou e eu não parava em casa por causa dos treinos. Sinto muito.
- Tudo bem, não tem problema, o importante é que você ligou. - Eu continuei falando, esquecendo toda a conversa com as meninas no dia anterior. Era bobagem, Sam ainda me amava, não estava com outra. – Mas e então, como estão as coisas? E o futebol? Ganharam? E Jennifer? Ela também sumiu.
- Eu não tenho visto da Jen, mas acho que ela está bem. – Ele falou incerto, mas seu tom ficou animado quando continuou. – Mas sobre o futebol, está tudo indo muito bem! Ganhamos as semifinais daqui, estamos indo para a estadual agora! Você precisava ver o gol que eu fiz contra o Wiesbaden! O Kieran Barten ficou puto e começou a chorar como um bebê depois que vencemos o timinho de merda dele.
- Isso é ótimo! – Pensei que contar para ele sobre a viagem, mas como não ainda as coisas entre mim e John não estavam bem, e eu nem tinha certeza se iria ou não viajar, resolvi apenas avisar sobre a minha intenção. – Eu estou querendo ir até aí ver você e o pessoal. Estou com tanta saudade.
Helen se mexeu ao meu lado, inquieta.
- Sério? Quando? – Sam perguntou alarmado, aumentando a voz um pouco para ter certeza de que escutara bem. – Eu não posso acreditar! Me diga, quando você vem? Preciso organizar as coisas.
- Eu ainda não sei. – Mordi o lábio inferior, querendo ter uma data em mente, mas era impossível. – Vou tentar ir o mais breve possível. Preciso conversar com John, e minhas provas vão começar daqui a alguns dias, mas quando tudo estiver certo, eu te aviso, ok?
- Por favor, não se esqueça de me avisar, eu preciso saber. Você não imagina a saudade que eu estou de você, . Do seu cheiro, da sua boca... – Graças a Deus a ligação não estava no viva voz, ou eu ficaria muito encabulada se Helen ou Emma escutassem o que Sam dizia. – Precisamos conversar sobre aquele assunto, não acha?
Eu engoli em seco. Sabia do assunto ao qual ele estava falando. Minha virgindade. Antes de tudo acontecer, eu estava pensando se não seria hora de transar já que estava há tanto tempo com Sam. Eu confiava nele. Ele sempre estava ao meu lado, era meu melhor amigo. Eu não o amava, mas não podia negar que ficava excitada com as coisas que ele falava no meu ouvido ou quando nos amassávamos no banco de trás do seu carro. Talvez depois, eu começasse a amá-lo. Eu suspeitava seriamente se a falta de amor recíproco não era ligada ao fato do trauma entre no casamento dos meus pais.
- É, eu também acho. – Respondi brevemente, olhando para fora do carro querendo que a minha voz não mostrasse a minha insegurança.
- Ótimo! – Sam falou e eu pude apostar que ele sorria. – Preciso desligar agora, se não meu pai vai me matar por causa da conta.
- Tudo bem. Beijos, Sam. Manda um beijo para todo mundo, em especial para aquela desmiolada da minha melhor amiga.
- Pode deixar. Eu amo você.
Desliguei o celular e voltei a colocá-lo dentro da bolsa. Eu percebi que Helen me olhava de soslaio.
Chegamos em casa e John estava na cozinha, pegando os pratos para colocar na mesa. Fiquei surpresa por saber que ele cozinhava, mas Emma me disse depois do almoço que ele não fazia nada, e sim comprava a comida num restaurante da cidade. Não tinha do que reclamar, a comida estava deliciosa, nada comparada a de Molly, é claro. Nem eu e nem ele trocamos uma palavra sequer. Eu ainda estava com raiva e não fazia questão de esconder. Depois do almoço Emma me ajudou a tirar todas as roupas das sacolas e a organizá-las no closet. Ela continuou me contando um pouco sobre o tal Nicholas, e me jurou que não iria mais ao colégio dele para vê-lo, não sem me avisar primeiro. Quando terminamos tudo, ela foi para o quarto e eu fiquei lendo a Vogue do mês. Já era tarde quando ouvi o barulho do carro do chegando. Meu coração acelerou rapidamente e minhas mãos apertaram tanto a revista que ela acabou amassando, me fazendo jogá-la do outro lado da cama e sair correndo para o topo da escada. Mas antes de colocar os pés no degrau, eu lembrei de que nós estávamos brigados e recuei, voltando ao meu quarto, sentando na cama, esperando que a porta da frente fosse aberta e a voz dele invadisse meus ouvidos. Não demorou muito para que isso acontecesse, e eu sorri quando escutei Jack latindo feito um louco no jardim e depois na entrada. Emma desceu, gritando feliz da mesma maneira que eu queria fazer, e finalmente pude ouvi-lo conversando com Helen e John. Conforme os segundos foram passando, minha ansiedade aumentava, até que ele subiu, parando diante da minha porta, me olhando com seus brilhantes olhos . Um sorriso torto surgiu em seus lábios e de repente, percebi que estava segurando a respiração o tempo todo que nos olhamos. Fui soltando o ar aos poucos, enquanto ele entrava e sentava ao meu lado, ainda sorrindo.
- E aí, como você tá? – Perguntou descontraído, empurrando meu ombro levemente com o dele, como se nada tivesse acontecido.
Eu fiquei meio travada. Não me passou pela cabeça que ele agiria daquela forma comigo, daquela maneira tão... Normal. Não sem conversarmos primeiro sobre o que tinha acontecido. Não antes de pedir desculpas.
- O gato comeu a sua língua, ? – me olhou divertido, com aquela expressão debochada típica dele.
- Não... – Sorri sem graça, abaixando a cabeça, me sentindo uma idiota. – O gato não comeu a minha língua. – Ainda com as mãos abaixadas, olhei para as mãos dele vazias. - Cadê o troféu do campeonato? Pensei que o capitão ficasse com ele.
- É, e fica. Mas eu não sou o capitão que tem ele. Nós perdemos. – Levantei a cabeça, encarando-o com os olhos arregalados. fez uma carinha triste de cachorro sem dono e eu pensei o quanto ele ficava lindo.
- Eu não acredito nisso. Por quanto?
- 2x1. – A voz dele ficou ligeiramente grave e seu rosto começou a ficar vermelho em certos pontos, o que eu deduzi que fosse por causa da irritação. Não tirava sua revolta, o time trabalhou muito. - Eu ainda estou puto por ter perdido. Quero dizer, o Aaron errou a porra do pênalti! Não acredito que ele perdeu aquela merda!
- Calma, . – Coloquei a mão no ombro dele, chegando com o rosto um pouco mais perto do dele, sem intenção de nada, apenas acalmá-lo. – Vocês vão ganhar da próxima vez. Eu sei o quanto vocês trabalharam duro, mas veja pelo lado bom, vocês viram o que fizeram de errado e agora não vão fazer mais. Por exemplo, deixar o Aaron bater o pênalti.
virou o rosto, me encarando sério e as pontas dos nossos narizes se roçaram levemente, quase imperceptivelmente, mas não pra mim. Tive a sensação de que um elevador descontrolado no meu peito despencava para a boca do meu estômago numa velocidade absurda, sem nada ou ninguém para pará-lo. Era uma sensação gostosa, que fez meus pêlos se arrepiaram ao encarar seus olhos. Fiquei perdida por um tempo olhando para eles, admirando-os. Eram tão lindos e cintilantes. Eu não conseguia imaginá-los decepcionados ou com vestígios de choro. Não conseguia entrar na minha cabeça que eu havia os deixado vermelhos. A vontade de me aproximar mais dele era tão tentadora quanto uma panela cheia de brigadeiro. Arrisquei baixar os meus olhos, encarando os lábios dele. Lindos e pareciam ser tão macios, tão envolventes. Apostaria minha perna direita de que beijava maravilhosamente bem.
, você não pode ficar mais pensando nisso. Você tem o Sam. Eu sei, eu sei, não precisa encher o saco, ok?
Deus, o que estava acontecendo comigo? Minha consciência tinha razão. Como eu estava pensando em beijar um cara que nem era o meu namorado? Sam ainda existia na minha vida, apesar de tudo. Certa maneira, eu gostava dele. Ele esteve ao meu lado em quase todos os momentos da minha vida até hoje. Ele merecia minha consideração e meu respeito. O que estava fazendo comigo?
- ? – Sabe quando você olha fixamente para uma pessoa e só vê que a maneira que você a encara não é tão educada depois de um tempo? Eu estava tão perdida, ainda dando uma sacada nada discreta na boca de , que só me toquei de que ele falava comigo quando vi seus lábios deliciosos se mexendo... – Você ouviu o que eu falei?
- Hm? Ouvi? – Balancei a cabeça, fechando e abrindo os olhos para me focalizar melhor. Que patético. – Ouvi? Claro que ouvi, . Por que não ouviria?
- Não sei. – Ele falou com um sorrisinho de “eu sei para onde você estava olhando” nos lábios. – Você parecia um tanto... Perdida.
- Claro que ouvi. – Dei um sorriso amarelo para ver se melhorava a situação, mas duvido muito que tenha funcionado.
- Legal. – Ele levantou da cama, bagunçando os cabelos. – Então eu te espero no carro. Vê se não demora.
- O q... – Eu tentei falar, mas já tinha saído do quarto.
Ótimo! Belo plano de fingir que entendeu o que ele disse. Agora ele estava me esperando lá em baixo e eu nem fazia ideia do que íamos fazer ou aonde íamos.
Bufei pela minha burrice e peguei apenas meu celular caso de alguém me ligar. Vi que todos, menos , estavam sentados no sofá, vendo algum filme. Provavelmente Senhor dos Anéis. John não fazia uma sessão dos três filmes há mais de duas semanas, o que era considerado bem estranho. Nem me dei ao trabalho de avisá-los sobre a minha saída. Provavelmente eles sabiam.
Sentei no banco de carona do carro, que estava parado com o motor ligado em frente a casa, esperando que falasse alguma coisa que servisse de pista para indicar aonde íamos. Mas ele nem abriu o bico. Fomos o caminho todo em silêncio, sem nem mesmo o rádio ligado. Ambos estávamos perdidos em nossos próprios pensamentos, olhando para a rua, e eu, de vez enquanto, fingindo olhar para o outro lado, observava o perfil de . Ele mantinha o cenho um pouco enrugado, mostrando atenção, enquanto uma mão guiava o volante e a outra se mantinha na marcha. Seria babação demais da minha parte, dizer que ele ficava lindo dirigindo daquela maneira tão compenetrada?
Quando comecei a reconhecer as ruas, – Não que isso fosse muito difícil, veja bem, York não é uma cidade que podemos chamar de enorme, apesar dos séculos da sua existência. – pensei que estávamos indo para a casa de . Então eu pensei que fôssemos encontrar com o resto do pessoal, mas logo esse pensamento foi extinto quando acelerou, mudando de marcha e virou a rua para subir uma ladeira de terra. Depois de alguns minutos tudo que eu via era verde, verde, verde... Tive a menção de comentar alguma coisa, mas fiquei com medo de falar merda e dar mais do que nada cara de que eu não fazia à mínima ideia de onde estávamos indo. O carro continuou a subir, virando em curvas em alguns momentos, enquanto eu olhava para trás e a cidade sumia diante dos meus olhos.
- Nós já estamos chegando. – disse quando viu que eu não estava entendo mais nada.
Não demorou muito, o carro vez mais uma curva, subindo mais uma rampinha e parou perto de uma árvore, saindo do carro. Eu continuei no mesmo lugar, olhando para os lados, não vendo da além de mato da minha volta.
- Ei, sai do carro, quero te mostrar uma coisa. – Ele veio até o lado do carona, abrindo a porta e me puxando para fora. – É logo ali na frente, não dá para levar o carro.
- , eu e a natureza não somos melhores amigas, sabe... – Disse enquanto ele continuava a me levar para mais fundo do mato. Logo ficaria noite e eu não estava nenhum pouco a fim de ficar perdida. – Onde você está me lev...
A pergunta ficou presa na minha garganta quando passamos por algumas árvores, diante de uma área plana. Era tudo muito verde como no caminho, mas ao mesmo tempo era tão diferente, tão mais bonito, tão mais calmo. O sol banhava cada centímetro daquele lugar, iluminando tudo sem nem ao menos ter intenção. Havia um chalé abandonado do lado direito, perto de algumas árvores. A minha frente, estava uma parte que seria, anos atrás, a parte de uma torre mal acabada, agora destruída, voltada para a cidade, só sobrando à frente com direito a aquelas janelas sem vidro típicas dos tempos medievais. Andei até a construção, me esquecendo completamente de ou qualquer coisa ao meu redor. Eu estava deslumbrada por aquele lugar. Parecia que eu estava dentro de uma história ou um cenário cinematográfico perfeitamente esquematizado. Cheguei até uma das janelas, olhando para a cidade lá em baixo. Ela parecia uma maquete de tão distante e tão pequena que estava. As pessoas pareciam formigas andando de um lado para o outro a pé ou de carro. A luz solar batia em meu rosto, mas eu me esforcei para olhar todo o local, gravar tudo na minha mente.
- Eu sempre venho aqui quando estou estressado ou preciso pensar. – Eu me assustei ligeiramente ao ouvir a voz de perto. Meu deslumbramento era tão grande que nem percebi que ele estava ao meu lado, olhando para a cidade como eu, com as mãos nos bolsos da calça jeans. – É o meu lugar favorito da cidade.
- Espero que você não se incomode se ele se tornar o meu também. – Virei meu rosto para olhá-lo de perfil, vendo um sorriso brotar em seu rosto satisfeito com o que eu disse. – É tão lindo que mal consigo acreditar que seja verdade.
- Eu descobri esse lugar sozinho quando tinha doze anos. – Ele virou, me encarando também, os olhos límpidos brilhando por causa da intensidade da luz, me deixando sem fôlego e encantada. Era tão tentador chegar mais perto, parecia tão certo. – Você é a primeira pessoa que eu trouxe aqui. Nem mesmo o sabe desse lugar.
Então é nessa hora que eu me desmancho e viro líquido de ? Merda, por que o estava fazendo isso? Por que ele precisa dizer essas coisas? Me olhar desse jeito? E ainda com os lábios curvados num sorriso fechado e tão, tão, tão perfeito? Eu já estava me sentindo confusa demais com todas as coisas que ele me fazia sentir, não era preciso mais uma dose para me lembrar.
Acho que ele percebeu o efeito que tudo aquilo estava causando em mim, pois não disse mais nada e foi para o outro lado, sentando num muro, colocando os pés para fora da construção, olhando a cidade, às mãos sobre as coxas displicentemente, a coluna levemente curvada... Droga, lá estava eu o admirando mais uma vez como uma completa idiota.
Fiz o mesmo, me sentando ao seu lado na mesma maneira, os olhos fixos a minha frente. O sol já estava deixando a cidade, se ponto a oeste, fazendo com que o frio começasse a dominar aquele local. Eu estremeci quando uma brisa gélida tocou minha pele, e suspirei arrependida por não ter pego um casaco antes de sair.
- ? – O chamei, querendo quebrar aquele silêncio de minutos, que mais pareciam horas. Não era incomodo ficar ao lado dele daquela maneira, mas era muito melhor quando escutava sua voz. Além do mais, eu queria pedir desculpas. Eu realmente precisava tirar aquele peso de mim.
Em resposta ele olhou para mim, e eu o amaldiçoei por isso, perdendo todo o rumo da linha de pensamentos. Por que suas íris tinham que ficar tão mais claras diante da luz? Seus olhos me deram a sensação de que poderiam atravessar todas as barreiras da minha mente e descobrirem o que estava se passando entre meus pensamentos naquele momento.
- Eu queria te pedir desculpas por todas aquelas coisas horríveis que eu te falei na sexta, eu fui egoísta em só pensar nas coisas que eu estava sentindo... Nas coisas que eu sinto, ainda. Eu entendo na boa sua opinião sobre o John. – Ele arqueou uma sobrancelha, fazendo uma careta de que não estava acreditando em mim. – Ei, , não me olhe com essa cara, tá? Estou sendo sincera!
- É meio bizarro escutar você dizendo isso. – Ele falou como se aquilo fosse óbvio, mas não era! Eu estava falando a verdade, vocês sabem disso. - Eu aceito sua desculpa, se você aceitar a minha.
- Desculpa aceita. – Sorri sincera, dando de ombros. – Então estamos bem agora? Hm, legal então. – Ele concordou com a cabeça, voltando a olhar para frente e eu fiz o mesmo. Só faltava um pouquinho para o sol ir embora de vez.
- Foi por isso que você não me desejou boa sorte? Por que brigamos? – Ele perguntou de repente, como se algo estivesse estalado em sua mente.
- Foi. Katie me disse para falar com você, mas eu pensei que você não fosse querer ou algo do tipo. – Respondi, mas ao mesmo tempo fiquei com medo do que saia da minha boca. Era tão estranho me ouvir dizendo que estava preocupada com a opinião dele. Não deveria ser assim.
- Uma puta bobagem, ! Eu queria! – Ele riu, vendo graça em alguma coisa que eu não entendi. - É claro que eu queria que você falasse comigo.
- Deve ser por isso que vocês não ganharam então. – Brinquei e ficou sério instantaneamente. Legal, tocar no assunto do jogo ainda o deixava nervoso. – Ahn, desculpa, não quis fazer piadinha... Quero dizer, eu queria sim, mas não na intenção de ofender.
- Relaxa. – Ele pareceu entender e voltou a relaxar a expressão facial.
- Hm, qual é a daquele chalé ali do lado?
- Eu não sei, mas já dormi algumas vezes ali.
- Não acredito. – Falei surpresa com a coragem dele. Dormir num lugar daquele? Não que eu fosse fresca. O problema é o perigo. Mesmo com ele me dizendo que ninguém iria ali, corria o risco de algo acontecer. – Você é maluco!
- Não sou nada. Tem alguns moveis velhos lá, quer ver?
- Tudo bem. – Levantei, limpando minha calça jeans na parte da bunda e o acompanhei. tirou uma única chave do bolso, destrancando a porta, me dando passagem para entrar. – Nossa!
A casa era pequena com quatro janelas sem cortina e o piso de cimento, mas não era mal cuidada. Não havia uma sequer camada de pó nos poucos móveis dali e eu curiosamente me perguntei se cuidava da limpeza. Havia uma cama de casal de ferro no meio, com o colchão claramente novo. Um armário pequeno de duas portas ficava do lado da cama, um sofá de três lugares velho perto da porta, sendo acompanhado por uma lareira pequena, uma mesa quadrada com três cadeiras de madeira desgastadas igualmente velhas num canto perto da pia “moderna”.
- Quando você pretende se mudar pra cá? – Perguntei andando até o meio do chalé. Havia cheiro de mofo, mas nada que fosse sufocante.
- Não precisa insultar o meu lugar, ok? – Ele falou fingindo estar ofendido.
- Bem, ele não é ruim. Posso até arriscar dizendo que é aconchegante. – Sentei na cama, experimentando o colchão. – Você trocou o colchão é?
- Claro! Você acha que eu dormiria naquele sofá ali? – apontou para o sofá, sentando ao meu lado. – Eu não quero ter problemas de coluna.
- Você é mais esperto do que eu pensava.
- Eu sou . – Ele falou todo convencido, estufando o peito. – É claro que sou esperto. Faço coisas que ninguém mais imagina.
- Haha. – Debochei, olhando para o lado fingindo tédio com a sua última frase. Ela me pareceu muito no duplo sentido. – Isso tudo por causa de colchão. Não seja tão metido.
- Um dia eu deixo você experimentar o meu colchão - A voz dele misturada com o sotaque inglês engraçado e sexy ao mesmo tempo soou tão perto de mim e tão de repente, me fazendo fechar os meus olhos por alguns segundos, sentindo meus pêlos da nuca se arrepiaram instantaneamente até chegar ao meu baixo ventre... Deus, , se controle! - Ai eu durmo no sofá, por você.
Ele realmente gostava de frases no duplo sentido ou era apenas impressão minha?
- Ah, claro. – Levantei tão depressa da cama que até me surpreendi, imaginando se era minha consciência chata que me mandava ficar longe dele ou se uma mola tinha escapado da proteção e espetara a minha bunda.
Não, não era a mola. Eu mesma fiz questão te tirar essa dúvida quando me virei para a cama, encontrando um surpreso. Provavelmente na cabeça dele estava se passando a pergunta “essa menina é louca?”. Eu sabia disso porque era exatamente o que eu mesma me perguntava.
- , a gente pode ir embora? Está ficando tarde e eu não avisei para ninguém que nos vínhamos aqui.
“Tá falando sério?” era o que estava escrito no rosto dele. Eu juro, eu estava conseguindo entender todas as suas expressões. Não sou nenhum Edward Cullen da vida, até porque eu não sou muito chegada a crepúsculo.
- Ahn... Ok, vamos. – Ele concordou e eu fui na frente, esperando por ele do lado de fora. O céu estava estrelado... Eu amava olhá-lo à noite, então fiquei meio perdida perto da construção destruída, contando de forma burra e patética, quantas estrelas eu conseguia encontrar espalhadas pelo vasto plano escuro.
O barulho da porta sendo fechada com força por causa da fechadura velha me despertou da minha contagem e comecei a andar em direção as árvores que me levaria em direção ao carro, sentindo os olhos de cravados em mim, ou na minha bunda, talvez. A última opção era a que eu mais gostava, digamos assim.
desativou o alarme e destrancou as portas automaticamente. Sentei no banco do carona, esperando por ele, que vinha andando em passos lentos. Não entendi direito quando ele parou de repente, fazendo um sinal de negação com a cabeça para mim e voltou a andar mais rápido. Também não perguntei o que aconteceu quando ele sentou ao meu lado e colocou a chave na ignição e riu sozinho.
Viemos conversando sobre coisas aleatórias, até que eu comentei com sobre o planejamento das meninas de irem ao show em Londres no mês que vem e ele me disse que já sabia e gostava da ideia. Claro, Cassie já havia comentado com , sem dúvidas.
Chegamos em casa bem na hora do lanche. Helen tinha feito mais uma rodada de cookies de chocolate e Emma se deliciava com todos que conseguia comer. Entramos na cozinha bem na hora em que ela tentava colocar dois cookies enormes dentro da boca.
- Você vai se engasgar, Emma. – Helen avisou, abrindo a geladeira e pegando uma garrafa de coca-cola.
- Ei, me devolve meu cookie! – Emma chiou, esticando os bracinhos para pegar o biscoito da mão de . – Você é um idiota!
- E você é uma pirralha baixinha. – Ele debochou, colocando o último pedaço na boca.
- Não seja implicante com ela. – Eu falei dando o empurrando para que eu pudesse dar um beijo em Emma.
- Finalmente vocês chegaram. – John apareceu sorrindo, segurando algo que eu não identifiquei no momento. – Precisava mesmo conversar com vocês.
Eu olhei para , esperando a bomba que seria jogada sobre nós. Mas ao contrário de mim, ele pareceu bem tranquilo enquanto esperava John continuar.
- Então, , eu e Helen conversamos nesse tempinho que você e saíram... – John continuou, chegando mais perto de mim, balançando o que segurava quase na minha cara, mas eu não tirei meus olhos dos seus. – Desde sexta estou pensando no seu pedido e bem, concordei com a ideia de você ir a Kassel.
- Sério? – Perguntei não acreditando no que ele havia dito e olhei bem no fundo dos olhos dele para me certificar de que não era uma piada. Só então me toquei que em duas mãos, havia duas passagens de avião. Ele não ia comigo de jeito nenhum!
- Sim. – Ele sorriu mais alargamente, me entregando as passagens. – E você vai ter um acompanhante.
Baixei meus olhos, abrindo a primeira passagem com o meu nome, o que me deixou um pouco tranquila. E então eu abri a outra passagem, fazendo meu estômago dar cambalhota lendo o nome do...
- ? – encarei John, incrédula. - Você só pode estar brincando comigo. Ele não vai comigo!

Aparatando¹: Derivado de Aparatar. Nada mais é do que a capacidade de desaparecer em um lugar e parecer em outro quase que instantaneamente. Nos livros de Harry Potter, é sempre acompanhado de um Craque, descrito como causador de sensações desagradáveis, como falta de ar, puxão pelo umbigo, entre outros.

Capítulo 08.

Eu estava tão eufórica que não consegui prestar atenção em nenhuma das aulas que tive de manhã, na sexta-feira. Eram 17h30 quando saímos de casa para irmos ao aeroporto.
estava mal humorado. E bufava constantemente ao meu lado, no carro, deixando claro para todos a sua má vontade em fazer aquilo, quase dizendo “Olha , estou fazendo isso porque fui obrigado, entendeu? Não pense que estou me divertindo.”
Não que eu esteja, de qualquer maneira.
Quando John me deu as malditas (ou benditas, dependendo do lado que você vê as coisas) passagens, fez uma cara de perplexidade que me deixou sem graça. Não era confortável para ele, mas também não era para mim. Mas o que eu poderia fazer quanto a isso? Ou eu concordava, ou não iria. É claro que ele não abriu a boca para protestar, mas era nítido de que não queria ir. Talvez por querer me ajudar (ainda mais) com tudo que estava acontecendo, talvez pelo olhar que a mãe lhe lançou ou até mesmo por não ter coragem de recusar, agora estávamos indo juntos até Kassel.
Ao contrário dele, Emma estava empolgadíssima, entre nós dois, cantando alguma música nova da Miley Cyrus que tocava no rádio enquanto John e Helen conversavam sobre alguma coisa que eu não fazia questão de prestar atenção.
A cada quilômetro eu me sentia menos a vontade com aquela situação. Se a vontade de rever meus amigos e meu namorado não fosse tão grande, com certeza eu voltaria atrás.
Foram às duas horas mais tediosas, mais desconfortáveis e mais demoradas da minha vida. Sem dúvida.
Quase chorei de felicidade e alívio quando chegamos em Heathrow. Depois de colocar as malas no carrinho, fomos fazer o check in e esperar pelo voo, com todo o resto da família acompanhando. Ainda iria demorar alguns minutos para que pudéssemos ir para o avião.
sentou num banco afastado de Helen e John, enfiando as mãos dentro do casaco de moletom azul quadriculado, cobrindo a cabeça com o capuz, enquanto ouvia Kings Of Leon no último volume para que ninguém enchesse seu saco.
Estava sendo um verdadeiro babaca. Sim, um babaca atraente, mas ainda sim um babaca.
Eu o olhava de longe, dentro de uma lojinha de souvenir, esperando Emma olhar todos aqueles cartãozinhos de aniversário, dia dos namorados e mais todas as comemorações que podem existir. Pode soar um tanto quanto idiota da minha visão, mas daquele ângulo, ele não parecia apenas puto. Sua expressão também era de uma frustração sem tamanho.
- Tchau , volta logo para gente poder jogar mais. - Emma me deu um beijo e um abraço forte diante da fila do portão de embarque.
- São só dois dias, Emma. Eu volto logo, prometo. – dei um beijo na testa dela. – Além do mais, existe celular pra que?
- Não é a mesma coisa. – ela disse fazendo bico. Por incrível que pareça, ela já estava fazendo falta.
- , não se esqueça do carro alugado. É da mesma empresa da agência. – John disse entregando um papel para ele ao qual eu deduzi ser o recibo do aluguel do automóvel.
- Não se esqueçam de ligar quando chegarem ou eu vou enlouquecer sem notícias. – Helen recomendou como uma mãe coruja dando um beijo em nós dois.
- Acho melhor a gente ir logo. – disse se afastando da mãe, virando antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa. Ele foi até a fila de embarque e eu suspirei chateada, dando tchau aos outros, ajeitando a pequena mochila que estava apoiada em um ombro, para acompanhá-lo.
Logo estávamos dentro do avião, sentados nas poltronas um ao lado do outro, em silêncio. Eu olhava para fora, avistando a pista de decolagem, enquanto voltava ao seu mundinho que se resumia aos fones de ouvido e música alta. Se eu estivesse num dos meus momentos surtados, os fones seriam tirados com brutalidade dos seus ouvidos e eu diria umas poucas e boas, diante dos passageiros e as aeromoças. Só que havia um risco nisso tudo. Eles poderiam me achar louca e me colocar para fora do avião.
Eu queria chegar o mais depressa em Kassel para que não pudéssemos ficar tão próximos de uma maneira tão constrangedora e incômoda.
Uma das aeromoças deu as devidas recomendações e colocamos nossos cintos de segurança. Ouvindo os motores em funcionamento e a movimentação do avião, deixei que meus pensamentos voassem na velocidade da luz, até Sam, Jennifer e meus outros amigos. Fiquei imaginando a cara de surpresa deles quando me vissem. Nenhum deles fazia ideia de que eu estava indo lá. Eu tentei me conter durante a semana toda com Sam e Jennifer – ela finalmente apareceu pedindo desculpas e me contando que estava passando um tempo na casa da avó doente, o que já estava acontecendo a um bom tempo, antes mesmo de eu me mudar para Inglaterra. – para não contar a eles. Eu sempre fui péssima em guardar surpresas, mas dessa vez aguentei firme e não deslizei um minuto sequer, mesmo quando a euforia de vê-los começou a me dominar nos últimos dias, quando minha mala já estava pronta num canto do meu quarto e as passagens devidamente guardadas.
se mexeu ao meu lado, ao que eu percebi, evitando roçar nossos braços, ainda ouvindo música no último volume. Já começava a ficar furiosa com a atitude dele. Se ele não quisesse vir, por que estava aqui afinal de contas? Eu estava agradecida por ele ter concordado, mas se era pra ficar com essa de “não vou falar com você” era melhor eu ter dito outra briga feia com John do que ter que ficar aturando isso. estava igualzinho a uma criança birrenta, com direito a bico e tudo. Resolvi me desligar disso e não deixar que o mau humor dele me atingisse, não agora que faltava tão pouco para rever minha cidade. Peguei o meu iPod dentro da bolsa, deixando tocar aleatoriamente, voltando a pensar nas pessoas de antes e na conversa que eu teria que ter com Sam, nas coisas que eu queria fazer quando chegasse, como visitar minha mãe, no lugar onde eu não queria pensar no momento.
O ar saia e entrava em meus pulmões com tanto alívio quando andei com até a entrada do aeroporto depois de pegar nossas malas, que parecia que eu não respirava há muito tempo. E de certa maneira era verdade. Olhei ao redor querendo gravar aquela cena. Eu finalmente estava em Kassel. Não pude conter um sorriso nervoso e ao mesmo tempo feliz, mesmo quando o ar gélido da noite bateu em meu rosto, arrepiando minha pele e levantando algumas mechas do meu cabelo, me fazendo apertar o casaco grosso mais contra meu corpo. Era incrível como eu estava com saudade de tudo e todos. Ansiosa para rever cada detalhe. Meu sorriso se alargou ainda mais quando duas mulheres passaram por nós, falando alemão. Minha língua nativa. Há tanto tempo que não falava alemão, nem mesmo com Jennifer ou Sam, que também tinham um inglês fluente. Era tão estranho isso, porque eu já estava habituada a falar em inglês e nem tinha me tocado.
Ao contrário de mim, não sabia falar nada em alemão e eu mesma tive que me virar para encontrar nosso carro alugado e mostrar o recibo de aluguel. Ele não gostou, ainda mais quando teve que me pedir para fazer isso.
Já era bem tarde quando tomamos o caminho para Kassel, o que indicava que provavelmente chegaríamos depois das 22h, se o trânsito ajudasse. E não ajudou, é claro. Ficamos presos num engarrafamento quilométrico, agonizante e silencioso dentro do carro, tirando o fato do rádio estar tocando uma música lenta e gostosa, o que nada tinha a ver com o momento. bufava de segundo em segundo, passando as mãos pelo cabelo, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. Só depois de quarenta minutos conseguimos tomar a última entrada para a cidade. As ruas estavam quase desertas, o que era bem comum àquela hora da noite, onde o relógio marcava 00h30min. Estávamos na avenida principal e meu estômago roncou em sinal de que precisava de alimento.
- Podemos parar no McDonalds ali na frente? – pedi baixinho olhando para frente.
Ele não respondeu, como já era de se esperar. Cheguei a pensar que ele não tivesse escutado ou simplesmente resolveu ignorar meu pedido, mas logo virou no estacionamento da lanchonete. Desci na frente, fazendo o mesmo no aeroporto: Olhando ao redor. Ali era o lugar onde eu e o pessoal costumávamos comer antes de ir para algum lugar ou quando estávamos voltando, já que ficava aberto até as 5h da manhã. Por um momento cogitei a hipótese de encontrar alguém, só que provavelmente estavam reunidos em alguma festa ou na casa da alguém. Eu teria ido à casa de Sam ou Jennifer depois de comer se não fosse tão tarde, mesmo para uma sexta-feira, ou melhor, a madrugada de um sábado.
Meu estômago reclamou de novo e minha boca ficou cheia d’ água quando senti o cheiro de hambúrguer e batata frita. entrou atrás de mim com a mesma cara de faminto. Não era novidade a lanchonete estar cheia, ela ficava o dia inteiro assim, eu só queria que naquele momento não estivesse ou eu morreria de fome.
- Você vai querer o que? – ele perguntou seco, olhando para o cardápio pendurado na parede.
- A promoção do McChicken com suco de pêssego. – respondi, procurando por algum rosto conhecido.
- Quem você está procurando? – indagou como se me acusasse de alguma coisa. Eu respirei fundo para não mandá-lo se fuder.
- Nada. Só quero ir ao banheiro.
- Então vai logo, vou fazer nossos pedidos pra viagem. Aqui está muito cheio e eu estou cansado.
Me afastei revirando os olhos, imaginando como ele faria os pedidos se não iria entender bulhufas do que o atendente falasse, mas enfim, ele que se virasse. Definitivamente quando quer ser irritante, ele consegue e muito!
Não vi ninguém no caminho, não que desse para achar alguém ali. Parecia que todo mundo resolvera ir lanchar àquela hora da noite. Lavei o meu rosto, tentando espantar o ar de cansada e arrumei o meu cabelo, o prendendo num nó frouxo. Meu celular apitou na bolsa avisando duas novas mensagens:

! Já chegou? Eu e as meninas queremos saber como foi com o Sam. Ah, antes que eu esqueça, temos novidades sobre o show! Parece que o Franz Ferdinand também vai se apresentar, só que no dia 14, sexta.”

Depois abri a segunda:

“Odeio essa merda de caracteres! Enfim, poderíamos ir também né? Passamos o fim de semana em Londres, você ainda não conhece a cidade mesmo. e que sugeriram, não acho uma má ideia. Lizzie xxx.”

Era uma ideia a se pensar e muito boa, na verdade. Saí do banheiro enquanto respondia a Lizzie, não prestando atenção nas pessoas ao redor. De repente, topei com alguém e quase cai no chão com a força que nos esbarramos.
- Ei, cuidado! – reclamei antes de olhar para a pessoa. Sorri alargamente assim que eu vi quem era. – Mike! Nossa, não pensei que fosse encontrar com você aqui!
- Muito menos eu. – ele sorriu nervoso, olhando para os lados disfarçadamente, mas não tanto. – Quando você chegou? Já encontrou com alguém? Veio sozinha?
- Calma, uma pergunta da cada vez. – ri achando cômica a maneira nervosa dele. – Cheguei hoje. Vim com o , filho da minha madrasta e não, não encontrei com ninguém. Não avisei que vinha, quis fazer surpresa. O pessoal tá aqui com você? – perguntei olhando para os lados, sendo acompanhada por Mike. Ele estava estranhamente nervoso.
- Não, estou sozinho. Vim fazer um lanche e só.
Olhei para ele totalmente incrédula. Quem vai ao McDonalds depois da meia noite comer sozinho? Um nerd que não têm amigos, só se for. E nem era o caso do Mike.
Antes mesmo que eu abrisse a boca, ouvi vozes conhecidas num canto perto de nós, chamando por Mike. Eu me inclinei para o lado já que ele tapava minha visão e vi uma mesa de canto com o pessoal da escola, vulgo, meus amigos.
- Mike, vem logo pra cá! – era Megan. Reconheceria aquela voz fina mesmo se não a escutasse por anos. – O que você está fazendo parado aí sozinho?
É claro que ninguém estava me vendo, só eu conseguia vê-los. Mike era bem mais alto e mais forte do que eu, afinal ele era do time de futebol junto com Sam. Megan estava sentada na ponta, já com sua atenção voltada novamente para a mesa então ela não poderia ver que eu me estiquei mais para ver o resto. Jennifer também estava ali! Ela estava de costas para mim e de frente para Megan. Eu logo a reconheci pela risada alta e pelo seu chapéu favorito. Mike ficou olhando para mim e para o pessoal com uma cara estranha, como se tivesse dúvidas do que fazer.
- Você não disse que estava sozinho? – meu sorriso vacilou um pouco estranhando aquela maneira que ele agia. Mike não era assim, de ficar mentindo e além do mais, por que ele mentira sobre uma coisa tão boba como essa?
- É que... , espera! – Mike tentou segurar meu braço, mas eu já tinha passado por ele e ia em direção a mesa.
Megan olhou para mim assim que comecei a me aproximar da mesa. Ela ficou paralisada como uma estátua, os olhos arregalados e talvez nem respirasse. Eu sorria de orelha a orelha quanto mais me aproximava. Jennifer conversava com alguém do seu lado, até que eu notei que era Sam. Parei de andar, quando já estava quase em frente à mesa, no instante que percebi uma coisa.
Não tive uma reação imediata, além de parar de andar. Eu estava só chocada, só olhando incrédula para a cena a minha frente.
Minhas pernas travaram, ficaram pregadas no chão e do mesmo modo que meu sorriso surgiu, ele foi embora. Meus olhos se arregalaram e eu senti um peso enorme nos meus ombros, me empurrando para baixo, para eu cair e ficar no chão, até o choque passar.
Jennifer se inclinou para Sam, para beijá-lo na boca, iniciando um amasso em público como de um casal apaixonado, bem na frente das pessoas que eu julgava serem minhas amigas. Todos sabiam o tempo todo da traição. E todos cooperaram, todos ficaram em silêncio, todos me traíram também.
Eu não senti meus olhos arderem com lágrimas. Eu senti só raiva pulsando em mim, corroendo minhas entranhas. Minha garganta se fechou e um enorme bolo cresceu ali. Meu coração disparou forte e rancoroso. Eu tremia mais que vara verde e tentei engolir o monte da saliva e não consegui. Tentei me mexer, totalmente em vão. Não conseguia sentir minhas pernas.
- ! - Megan gritou, parecendo ter recuperado a voz.
Um silêncio estranho pairou na lanchonete. As pessoas olhavam pra Megan como se ela fosse louca. Eu senti que vomitaria ali mesmo. Sam e Jennifer se desgrudaram. Eles olharam para Megan, esperando que ela fosse rir dizendo que era uma piada, mas quando eles viram o olhar dela, assustado, na minha direção, eles rapidamente o seguiram. Jennifer empalideceu, Sam tremeu nas bases como um garoto medroso que foi pego pelos pais fazendo coisa errada.
Dei um passo para trás. Eu iria fugir. Eu estava mais assustada do que eles. A ficha havia caído e eu estava com medo da verdade, com medo de ver que todos os anos ao lado deles não passavam de uma mentira. Não dei mais do que um passo para trás, pois senti minhas costas baterem em alguém. Automaticamente eu me virei, dando de cara com segurando nosso lanche. Tentei me desviar dele, para começar minha fuga, mas ele segurou o meu braço, não com força, não pra machucar. Foi mais só pra me dizer que eu deveria ficar. Eu olhei pro rosto dele, com a minha boca levemente aberta, num mudo questionamento. Por que eu deveria ficar? A expressão no seu rosto era de raiva. Vi seus belos olhos escurecerem e seu maxilar ficar travado, como se ele fosse gritar a qualquer momento.
Sam foi o primeiro a se levantar, chamando minha atenção. Ele olhava pra mim horrorizado e totalmente confuso. Depois Megan se pôs de pé e fungou, como se estivesse a ponto de chorar, daquela forma sempre extremista dela. Mas aquilo não me convenceria. Não mais. Jennifer continuou sentada, estranhamente pálida, me encarando. Sua expressão era de extrema satisfação, com direito a um sorrisinho de lado, da forma mais sarcástica possível. Eu queria socá-la.
Tudo havia parado. Todos olhavam para nós. As pessoas não faziam seus pedidos, os atendentes não enchiam as bandejas com os lanches, nem mesmo as crianças gritavam uma com as outras, ou jogavam comida nos pais. Ninguém ousava falar, comer ou se mover. Aquilo era atenção desnecessária. Eu queria ir embora e encontrar um buraco bem fundo pra me enterrar. Eu tentei mais uma vez dar um passo pra trás, eu ainda tinha meus olhos arregalados pregados em cada rosto traidor, mas novamente eu fui impedida por .
Sam vinha em minha direção e eu me perguntei o que ele estava fazendo. Apavorei-me com a hipótese dele ficar mais próximo a mim do que eu gostaria. Estava tão enojada. Cada vez que eu imaginava que ele tinha o gosto de Jennifer na boca, eu sentia meu estômago revirar e meu enjoo piorar.
Percebendo o que Sam estava fazendo, Jennifer resolveu se levantar também. Ela o seguiu meio hesitante, Megan se mexeu imediatamente ao seu lado, como se fosse testemunhar a inocência dela pra mim.
- Fiquem longe de mim! – rosnei para todos eles, principalmente para Sam.
Ele parou no mesmo instante e todos fizeram o mesmo como um bando de seguidores.
- ... – ele disse devagar, cauteloso, sua voz era suave, naquele tom que ele sempre me tratava, o que me fez ter náuseas novamente. – Vamos conversar.
Eu dei mais um passo para trás, esperando que me impedisse de retroceder novamente, mas não havia ninguém atrás de mim. Ele se moveu tão rápido que eu não fui capaz de vê-lo, eu nem fui capaz de senti-lo. largou o saco do lanche no chão e avançou para Sam, o pegando pela gola da blusa vermelha.
- Então você quer conversar? – perguntou autoritário. Eu tremi ao som da sua voz grave. Não parecia que ele queria conversar. – Eu e você, lá fora!
Mike se mobilizou, indo para perto de Sam e lhe lançou um olhar que faria até mesmo Hitler se borrar nas calças.
- É melhor você ficar aqui dentro, babaca! – ele rosnou para Mike – Você não vai querer se machucar.
Eu vi lançar outro olhar para as garotas, como se as desafiasse a fazer algo parecido com o que Mike fez. Ninguém disse nada. Ninguém nem respirou nessa hora. Antes mesmo que pudesse arrastar Sam para o lado de fora, eu me meti entre eles.
- Não, ! - segurei seu braço, um tanto desesperada com que ele pudesse fazer. - Vamos embora, por favor.
Ele me olhou confuso, não acreditando no que eu acabara de dizer. A maioria das pessoas adoraria ver seu namorado traidor apanhando até morrer e eu não era diferente. Eu queria ver Sam sangrar até a morte. Queria vê-lo agonizando no meio fio, pedindo socorro, sem ninguém para ajudá-lo. Mas ao mesmo tempo não queria que sujasse suas mãos com ele. Sam era tão repugnante que nem um soco era merecedor. Desprezo, indiferença era a melhor forma.
Eu arrastei em direção ao estacionamento. Minha sorte é que a distância não era grande, ou não conseguiria aguentar puxá-lo por muito tempo. Ele fazia questão de colocar seu peso para me impedir de puxá-lo mais. Queria ficar o mais longe possível de todos, mas ele não estava com tanta pressa assim. Eu não duvidava que caso o largasse, ele voltaria para a lanchonete para continuar o que eu havia impedido.
- , espera, por favor! – Sam gritou atrás de nós. tentou fincar os pés no chão para me parar de uma vez, mas uma força sobrenatural me fez ter mais pique para continuar andando. – ! – Sam me chamou de novo. Pude perceber que a cada passo ele ficava mais perto. Já não era o suficiente me humilhar publicamente com minha ex melhor amiga, ele ainda teimava em ir atrás de mim.
- , me larga. – pediu com a voz controlada. – É a única coisa que eu te peço. Me deixe socar esse cara.
Não foi necessário responder, ele já sabia a resposta.
Meti a mão dentro do bolso do casaco dele onde estava a chave do carro e destravei as portas, o empurrando para o lado do motorista.
- Por favor, . – Sam pediu com a voz falha. Seu peito descia e subia com rapidez, indicando que havia corrido para me alcançar.
Não me virei pelo seu pedido, mas sim pela ousadia de pronunciar o meu apelido. Como ele era tão petulante a essa ponto? Fechei os meus olhos querendo reprimir minha raiva. Obviamente foi em vão. Depois de alguns segundos vi que Jennifer e os outros estavam atrás dele, alguns passos mais longe.
- Nunca mais me chame como se fossemos íntimos, Samuel. – frisei seu nome para que ele percebesse o quão séria era minha frase. - Eu não sou mais nada sua!
- Você está nervosa, por favor, vamos conversar. – ele voltou a andar na minha direção. do outro lado se moveu inquieto.
- Você quer conversar sobre o que? Sobre como me chifrou com a pessoa que se dizia ser minha melhor amiga durante anos? Sobre como você me fez acreditar que realmente gostava de mim? Ou sobre como não só vocês, mas todos os nossos amigos sabiam de tudo e me esconderam na maior cara de pau? Vocês me apunhalaram pelas costas no momento em que eu mais preciso de vocês!
- Eu... Eu... – ele tentou dizer, mas era frouxo de mais para continuar porque sabia que tudo o que eu dizia era verdade. Alguns clientes do Mcdonalds fizeram questão de ir para onde estávamos para saber qual seria o desfecho da história.
- Não sabe o que dizer, não é? Já era para eu saber que você nunca gostou de mim. Só queria me levar para cama, tirar minha virgindade! Seria tão divertido ficar contando como foi para os seus amigos, não é? E sabe o que é mais engraçado? Eu vim aqui porque havia tomado a decisão de transar com você! – eu gritava a plenos pulmões. Eu mesma estava me expondo e nem me importei que qualquer pessoa pudesse escutar. Naquele momento eu não sentia vergonha nenhuma em dizer aquilo, só queria gritar e dizer todas as coisas que rondavam minha cabeça. – Mas você tinha que ficar justo com a Jennifer! Há quanto tempo isso acontece, hein? Vocês já treparam? Porque se você não sabe, o que eu acho bem difícil se tratando dela, Jennifer não é mais virgem há muito tempo!
Todos estavam chocados com as minhas palavras, principalmente os causadores daquela situação. Eu geralmente era uma pessoa que só explodia quando estava à beira de surtar.
- Quem você pensa que é? – Jennifer latiu (é, latiu! É o que as cachorras fazem, não é?), andando na minha direção, chegando bem perto, o suficiente para que eu pudesse lhe tocar.
- Quem você pensa que é? – retruquei a pergunta num tom superior.
- Você não gosta dele realmente! – ela falou como se aquilo fosse um motivo para amenizar as coisas.
Eu sorri. A válvula de ódio estava mais aberta. Acho que eu estava mais perigosa agora e minha língua mais afiada.
- Do que você está rindo? – ela gritou descontrolada – Você não o merece, nunca mereceu! Ele sempre foi demais pra você! Ninguém podia ver antes, ele não podia ver... Só eu via, mas agora todo mundo vê que você nunca gostou dele, você não se importa se ele se machucar! Você sempre teve tudo, sempre! Um pai rico, uma mãe maravilhosa, um namorado apaixonado! Todos estavam sempre ao seu redor, era sempre você! E eu era condenada a ser a sua melhor amiga, a ficar na sua sombra, nas arquibancadas, assistindo você ganhar tudo. Assistindo você ganhá-lo, tê-lo só pra você, fazendo tudo o que você quer...
- Você sabe o quão louca está soando? – eu conseguindo controlar minha raiva, me senti ótima por não demonstrada nada além de indiferença. Em comparação aos gritos de Jennifer era quase como se eu sussurrasse.
- Louca? – ela questionou indignada. – Louca, eu? Só por que estou dizendo a verdade?
- Não. Mas talvez seja por que você, sua vagabunda de quinta categoria, você, que eu considerava uma irmã, estava beijando o meu namorado?
- Irmã? Há, você nunca me considerou uma irmã! – ela falou com um riso incrédulo, rancoroso e sarcástico. – Você me considerava apenas como alguém em quem você tinha que esfregar a sua perfeição! Você vivia para me humilhar e me mostrar que era muito melhor do que eu! Você estava sempre me mostrando como era feliz e sortuda por ter as coisas que deviam ser minhas! Mas você quebrou feio a sua cara... Porque nada era realmente seu! Eu ganhei! Eu peguei pra mim o que eu queria e você foi feita de trouxa todo esse tempo! – ela terminou dando uma daquelas gargalhadas doentias.
Aquilo foi realmente a gota d’água pra mim. Eu não podia acreditar que Jennifer era aquela pessoa falsa, mesquinha e invejosa que estava na minha frente. Eu imaginei todos os motivos pra ela me trair. Eu a imaginei profundamente apaixonada por Sam, mas agora eu via que a questão não era que ela gostava dele. A questão era que ele era meu. A questão era que ela queria o que era meu, ela queria ter tudo o que me pertencia apenas por prazer. Eu tive mais nojo dela do que tudo. A raiva cresceu de tal maneira que a válvula estourou dentro de mim, minha visão ficou branca e no mesmo instante puxei meu braço para trás com toda força que pude, mirando meu punho direito bem nas fuças dela.
Ouviu-se um estalo, em que cartilagem nasal de Jennifer se quebrou sob o meu punho. Ouvi os gritos de Megan e as exclamações de Sam sendo acompanhados de Mike e mais algumas pessoas. Jennifer foi para trás por causa da força do meu soco, ela cambaleou alguns passos com as mãos no nariz, que agora sangrava, até cair no chão desajeitadamente como um saco de bosta. Todos olhavam para mim chocados, mas eles sabiam que eu era capaz daquilo. Já havia feito anos atrás.
Não era o bastante para mim. Eu rezava intimamente para que ela tivesse quebrado outra parte do corpo na queda. O nariz já estava garantido.
Jennifer não se mexeu. Parecia estar desmaiada, ou apenas atordoada. Megan se adiantou, para checar se o resto estava inteiro.
Alguns assovios e palmas eram direcionados a mim da porta da lanchonete. Ouvi alguns me incentivando a avançar em Sam, a continuar a bater naqueles traidores sujos. Eu ouvi outros soarem tão escandalizados quanto Megan.
- Isso, – proferi com o máximo de desdém que consegui colocar na frase, assim que Jennifer conseguiu focalizar seu olhar em mim. – é por você ter me traído de todas as formas possíveis, sua piranha!
Eu dei as costas a ela. Eu dei as costas a todos, me virando para . Ele estava sorrindo. Não duvidei que ele pudesse gargalhar tal ponto que era seu semblante divertido, o que me fez sorrir um pouco também. Eu havia descontado a raiva e ele claramente havia gostado disso. Acho que gostado era pouco. Quem sabe amado se encaixaria melhor. Eu confesso, não estava longe disso. Dei um último lugar para Jennifer ainda caída e para um Sam ainda imóvel. Desejei que aquelas cobras queimassem para que eu pudesse ouvir os guinchos deles enquanto assavam. Até mesmo realizei os sons na minha cabeça.
- Vamos embora, . – pedi assim que ele se sentou ao meu lado e ligou o carro, acelerando com direito a pneus cantando. Não ousei olhar para trás.
- Você vai mesmo ficar bem? – ele me perguntou, me avaliando com um olhar preocupado, não se importando em prestar atenção na rua. Haviam poucos carros circulando àquela hora. – Você está pálida, tremendo...
- Acho que vou me recuperar, só preciso de um tempo. – respondi, olhando para minhas próprias mãos sob minhas coxas. – Acho que no fim das contas eu me desliguei desse lugar. Você não vai mais precisar viajar comigo contrariado.
- Você não existe... – ele riu sem humor, voltando sua atenção para frente. - Tem algum hotel onde possamos ficar?
- Podemos ir para a minha casa. - falei antes mesmo de raciocinar o que estava dizendo.
Eu estava tão exultante com a ideia de rever Sam e Jennifer antes que nem pensei em como reagiria ao entrar de novo na minha casa. Na casa onde eu e minha mãe fomos tão felizes e tão completas. Também não imaginei que a torrente de lembranças fossem de repente trazer lágrimas aos meus olhos. Eu as escondi. Eu as administrei com cuidado. Foi mais fácil depois que as duas primeiras saíram. Eu as limpei rapidamente com as mangas do meu casaco enquanto vasculhava a mochila em busca das chaves. pareceu não perceber, ou foi cavalheiro o bastante para fingir não ver, contando sobre como conseguiu fazer os pedidos no McDonalds com a ajuda de um cara que estava atrás dele na fila. Eu me controlei, sentindo apenas uma ardência nos olhos e uma urgência em sair daquele carro. Guiei para a casa, descendo do carro para abrir a porta da garagem vazia. O carro da minha mãe havia sido destruído durante o engavetamento em Dublin.
Abri o pequeno portão de madeira em frente a casa e atravessei pelo caminho de pedra o pequeno jardim pelo qual minha mãe se orgulhava. As rosas não estavam mais bem cuidadas, a grama não estava aparada. O jardim dela estava descuidado, ele estava morrendo. Ela odiava quando isso acontecia, quando não tinha tempo para cuidar das suas plantas.
Parei quando cheguei a porta. Minha mão estava trêmula, eu escutava o tilintar das chaves, roçando uma na outra. Como uma última forma de me acalmar definitivamente, respirei fundo e soltei o ar devagar. Girei a chave vagarosamente, abrindo a porta da frente com um estalo. Eu suspirei e levei minha mão à maçaneta, esperando ouvir um ranger da porta como naqueles filmes de terror. Eu imaginava que minha casa estaria com cheiro de mofo e o piso cheio de poeira, mas estava tudo razoável. Havia se passado um mês e meio, mesmo que para mim tenha parecido uma eternidade. Eu acendi a luz da sala, vendo que tudo estava impecavelmente do mesmo jeito antes de eu ir para York com John. O abajur quebrado do outro lado do cômodo, o vaso de flores com as próprias mortas, a estante com as prateleiras jogadas no chão, os livros rasgados... Até mesmo o porta-retrato estava no mesmo lugar onde eu o havia quebrado. Por alguns segundos, foi como se eu estivesse vivendo aqueles dias novamente. Senti que meu passado estava perdido entre mentiras e meu futuro era o mais incerto que alguém poderia ter. Olhei ao redor com a maior lentidão possível e só não desabei no chão porque ouvi a buzina do lado de fora da casa. Sacudi a cabeça, jogando a minha mochila no sofá. Abri a gaveta da mesinha em que ficava o telefone para pegar o controle para o portão elétrico da garagem.
Esperei do lado de fora colocar o carro com cuidado dentro da garagem para depois chamá-lo para entrar. Ele observava cada detalhe da casa com mínimo detalhe, provavelmente notando o quão tudo era feminino, afinal de contas, apenas duas mulheres moravam ali.
- Tudo é tão delicado... - ele disse baixinho, indo até a sala comigo, colocando sua mochila em cima do sofá ao lado da minha. - Sua mãe tinha um ótimo gosto.
- É, ela era ótima com essas coisas. - disse com um sorriso amargo. Novamente olhei para os móveis que tinham sobrado. Nada naquela casa era mais a mesma coisa e nada mais seria. Era horrível pensar daquele jeito.
andava pela sala, olhando os cacos de vidro espalhados pelo chão.
- O que aconteceu? - ele me olhou com as sobrancelhas levantadas.
- Foi num ataque de fúria, quando John me disse que eu teria que ir embora com ele. - desviei meus olhos para as escadas, envergonhada. - Desculpe pelo que aconteceu no Mcdonalds. Acabou que nós não temos nada para comer.
- Não tem problema. Nem estou com tanta fome. - mentiu. - Você que deve estar.
- Não se preocupe comigo. - cruzei os braços querendo me proteger de algo invisível e desconhecido. Estava começando a ficar com medo de algo que não sabia o que era.
Um silêncio tomou conta de tudo. Meus olhos ainda fixos na escada, com os seus presos em mim com tanta intensidade que era impossível de ser ignorada. Ele estava me avaliando. Avaliando meu próximo passo, crente de que eu sentaria no chão e choraria.
- Eu vou dormir. - avisei pegando a minha mochila, só para então olhar para ele. - Tem um quarto de hospedes lá em cima, perto da escada. O banheiro fica ao lado, caso você queira tomar banho. - ele assentiu. - Boa noite.
Subi o mais depressa possível, escancarando a porta do meu quarto. Tudo estava como na parte de baixo: intocado. Meu lençol ainda era o mesmo verde com desenhos, meus ursinhos ainda estavam jogados pelo chão, alguns sapatos e roupas que não fiz questão de colocar nas malas também. Não me preocupei em arrumar nada, nem mesmo as coisas em cima da cama. Apenas as joguei no chão, troquei de roupa, colocando um baby doll de algodão, tendo as que estavam no meu corpo o mesmo destino que as outras coisas: o chão. Deitei-me, ligando o abajur por causa do meu medo infantil e esperei para que o sono viesse, mas a única coisa que veio foram às cenas passadas recentemente. Aos poucos, tudo foi se encaixando como um quebra-cabeça. Engraçado como a vida nos prega peças e nos fazem ver as coisas de outra maneira. Antes, eu não enxergava nada entre Sam e Jennifer, só que olhando bem, as coisas entre eles fluíam naturalmente. Dois mentirosos, cretinos e filhos da puta, ou seja, eram perfeitos um para o outro. Uma pena que eles não terem sido sinceros o suficiente para me contar. Agora a confiança não existia, era tarde demais.
A inveja de Jennifer e a falta de respeito de Sam tinham acabado com qualquer relação que poderíamos ter no futuro. Eu estava com raiva sim, mas não por eles terem ficado juntos. Estava com raiva por eles terem me enganado por tanto tempo bem na minha cara e não tiveram a consideração de me contar a verdade.
Eu tive consideração por Sam quando me sentia atraída por . Por que ele não poderia ter a mesma coisa por mim?
Há quanto tempo eles estavam juntos? Moravam perto, o que facilitava as coisas. Os treinos frequentes de futebol eram apenas fachada, aposto. Os sumiços deles, a forma como Jennifer evitava falar das coisas que estavam acontecendo na cidade, Megan falando sobre o meu término sem sentido com Sam... Eu podia imaginá-los rindo e se beijando enquanto ele escrevia que sentia saudades de mim no MSN. Eu conseguia entender agora o grande interesse de Jennifer em trazer John o mais rápido possível. É claro que ela sabia que ele me levaria embora e estava louquinha para que isso acontecesse logo.
Tudo para que eles pudessem se comer a vontade, bem debaixo do meu nariz. Até que ponto as pessoas que eu pensava serem meus amigos, sabiam? Será que a escola toda sabia também? Os pais de Sam sabiam? Não era possível que ninguém mais sabia além daquele grupinho fechado. A conclusão me acertou em cheio, como aquele soco que eu havia dado em Jennifer: Todos sabiam, todos. Exceto eu, é claro. Não é mentira que dizem que corno é o último a saber. No meu caso, a corna. Eu devia ter um calho enorme na cabeça. Katie tinha razão. Entretanto nada daquilo estava me atingindo de verdade. Jennifer teve razão ao dizer que eu realmente não gostava de Sam. Mas ele sabia desde o começo, todos sabiam, tudo estava as claras.
Até aquele momento eu nem me dei conta de que estava apenas com ele pelo simples fato de me sentir amada, ser desejada, ter alguém com quem dividir as coisas, além da minha mãe e da minha melhor amiga. Éramos nós três desde o começo, e quando eu e ele resolvemos ficar juntos, Sam continuou sendo meu melhor amigo. O sentimento fraternal não mudou e eu, boba, achei que fosse o suficiente. Mas não era, não para ele.
Fui errada em ficar com ele durante esse tempo, mas no fim de tudo, nunca menti dizendo que era apaixonada. O fato que havia me domado foi que eles dois estavam me traindo. Duas pessoas que eu confiava de olhos fechados, não apenas por serem próximos a mim, mas por conhecê-los desde pequenos e achar que conhecia suas índoles. Fui tão inocente. Uma presa fácil para Jennifer que calculava a melhor forma de me trair, enquanto Sam deixava as coisas acontecerem como se nada estivesse fora do lugar. Qual dos dois foi mais filha da puta?
Encolhi-me, me sentindo extremamente cansada. A mão que usei para socar Jennifer doía e meus olhos teimavam em continuar pregados como se eu fosse uma coruja. Algo faltava para que eu pudesse descansar.
Ouvi a porta do banheiro sendo aberta e depois alguns passos vacilantes pelo chão. tentou passar pelo meu quarto sem fazer barulho.
- ? - o chamei levantando um pouco o tronco, me apoiando em um braço, para que ele pudesse me ver melhor. Ele apareceu na porta usando uma regata branca colada que marcava todos os seus músculos maravilhosamente desenhados, e uma calça quadriculada larga de moletom. Seus cabelos estavam um pouco úmidos e os pés descalços. Uma toalha estava em torno do seu pescoço e sua mão segurava sua antiga muda de roupa.
- Eu te acordei? - ele foi entrando vagarosamente no quarto, um tanto tímido. O rastro de sabonete e loção masculina foi invadindo cada canto do meu quarto conforme ele foi caminhando.
- Não. - balancei a cabeça, me sentando por completo, respirando fundo para que aquele cheiro delicioso me dominasse. - Na verdade eu não estou com sono.
- Muitas coisas aconteceram hoje, você ainda está absorvendo as informações. - ele parecia que não sabia o que fazer, o que era bem estranho se tratando dele, e resolveu ficar parado em frente a cama, enquanto me olhava.
- Hm, você vai dar uma de Lizzie agora? - perguntei sorrindo. Bati num lugar vago na cama, convidando-o silenciosamente para sentar. - Eu queria te agradecer por você ter me defendido hoje. Mais uma vez você esteve do meu lado numa situação bem complicada.
- Talvez eu seja seu super herói. - ele brincou, sorrindo fraco e ficando sério em segundos. - Eu lamento pelas coisas que você viu e ouviu.
- Foi melhor assim. Eu não amo Sam, Jennifer tem razão sobre isso. - dei de ombros, procurando algum vestígio de pena em seus olhos ou rosto, mas nada foi encontrado. não me achava fraca, eu sabia. Não tinha pena de mim, não me achava uma coitada quando cheguei em York, e não me achava uma coitada agora, apenas me confortava quando era preciso. Todos precisam de algo para se apoiar, e ele era o meu apoio em tempo integral. Eu, internamente, agradecia aos céus por tê-lo. E ainda mais por ele não estar mais carrancudo.
- Ele foi um canalha. Eu teria quebrado a cara dele, deixá-lo sangrando na sarjeta, o verdadeiro lugar dele. - vi seus olhos ficarem escuros novamente, até perderem o brilho natural, doce, suas mãos se fecharam em punhos, apertando as roupas que segurava. - Eu o teria matado, . Me deu tanto ódio, tanto...
- Já passou. - conclui, ficando espantada com a importância que estava dando para aquilo. Nem eu, que fui a mais humilhada na história, estava assim. - Sam é passado para mim, . Todos dessa cidade são.
- Pelo menos você quebrou a cara da piranha. - eu sorri com maldade. Ele conseguiu de novo. me fez sorrir um pouco. Sempre conseguia, mesmo contra minha vontade.
- A ideia foi toda dela. – disse inocente – Mas eu consegui fazê-la ficar atordoada por alguns segundos.
- Foi divertido ver uma princesinha delicada como você bater naquela daquele jeito. Parecia até profissional.
- Eu já fui suspensa quando estava no sétimo ano por socar uma menina. - minha confissão o fez abrir a boca. - Não me olhe desse jeito, não sou uma pessoa violenta, só quando necessário.
- Você foi corajosa dizendo todas aquelas coisas no estacionamento. - ele não disse o que, mas a palavra "virgindade" estava entre parênteses. Instantaneamente eu me senti tão envergonhada que não dúvido nada que meu rosto tenha ficado mais vermelho que tomate. Ainda bem que o quarto estava pouco iluminado. - Poucas meninas fariam o que você fez. Encarar tudo de frente, dizer tudo... A maioria sairia correndo, chorando e se trancaria no quarto.
- Eu tive vontade de fazer tudo isso, não sou diferente das outras garotas. De primeira eu quis sair correndo sim, me esconder, mas você me impediu. E sobre as coisas que você e metade de Kassel escutaram... Nossa, naquele momento eu não estava pensando o que saia da minha boca. Eu sei que algumas coisas foram bem desnecessárias, mas eu precisava dizer, não aguentaria ficar com um nó na garganta. Agora estou morrendo de vergonha.
- Na hora da raiva falamos coisas sem pensar. Você não tem que ter vergonha de nada.
- Eu quero ir embora. – juntei minhas pernas, passando os braços ao redor delas, numa demonstração de clara fragilidade. A qualquer momento eu choraria. – Quero ir pra casa.
Eu e ele nos olhamos significadamente por causa da minha última frase. Ela foi proferida com tanta naturalidade que eu mesma me espantei. York agora era meu lugar. Tornou-se sem nem eu perceber. Agora eu tinha uma vida, tinha uma família e amigos lá. Eu não pertencia mais a Kassel. Não depois de uma perda insubstituível e descobrir uma traição dupla.
- Eu vou deixar você dormir agora. – se levantou quando percebeu que eu não falaria mais nada. – Amanhã vou ligar para o John para ver se ele consegue mudar o dia da nossa volta.
Ele foi andando em direção a porta, num súbito momento, eu me vi sozinha. E eu não queria aquilo. Não agora. Não de novo. Eu sabia que no momento em que sumisse, meus olhos se tornariam cachoeiras, sendo afogada pelas lembranças da minha mãe, que até aquele momento, estavam esquecidas por causa dos últimos acontecimentos. Logo eu me lembraria que depois de tudo, ela não estava mais comigo. Ela não me acolheria em um abraço carinhoso e não me diria palavras reconfortantes. Não xingaria Jennifer e muito menos Sam. Não me prometeria que eu encontraria um príncipe encantando, mesmo sabendo que eu não acredito mais nisso. Não impedi minha voz de sair chamando por mais uma vez. Ele foi tão rápido que em poucos segundos estava sentado na cama novamente. Seus olhos estavam assustados e desesperados, observando as lágrimas grossas e pesadas, uma atrás da outra, molharem minhas bochechas.
- Do que você precisa? – ele me perguntou urgentemente, num tom angustiado. Por breves segundos, eu acreditei que ele fosse chorar comigo.
- Apenas que você fique comigo. – eu sussurrei suplicante, com a voz pastosa e irreconhecível. Se houvesse uma terceira no quarto, poderia jurar que não era eu que falava. – Por favor, eu não quero ficar sozinha. Estou com medo.
Ele confirmou com a cabeça, colocando a toalha e todo o resto em cima da poltrona perto da cama. Eu rapidamente me ajeitei do outro lado da cama, dando espaço para ele deitar. Meu corpo todo tremeu quando sentiu, mesmo que estivéssemos usando roupas, o contato com o dele pro debaixo da coberta. Nos mexemos, ficando de lado para nos encararmos sérios. Ele estava lindo como sempre. Uma beleza que mais nenhum outro homem tinha aos meus olhos. As lágrimas ainda desciam, agora molhavam minha fronha.
- Tudo vai ficar bem, . Eu estou aqui e não vou sair até você mandar. – ele passou a mão sobre minha bochecha, limpando o vestígio do caminho salgado. Senti-me tão protegida e tão segura com as palavras dele que não consegui reprimir um sorriso. Em momentos como esse, eu me perguntava se existia mesmo ou era apenas fruto da minha imaginação carente.
surtia um efeito estranho e bom em mim, isso já estava mais do que comprovado. Um efeito que eu ainda estava começando a compreender.
- Vem cá, vem. - ele me puxou para mais perto de si, e aproveitando isso, me aninhei, de forma desajeitada, na região entre seu ombro e pescoço. Ele passou um dos braços por debaixo da minha nuca, enquanto o outro envolvia minha cintura, me acolhendo por inteira, como se seus braços e corpo fossem uma barreira de proteção.
E de certa forma eram. Era tão gostoso ficar com ele daquele jeito. Tão perto... Seus abraços ao meu redor me davam uma clara e absurda convicção de que nada poderia me ferir. Minha proteção estava acionada.
- Você tem cheiro de chocolate. – ele disse baixinho, quase num sussurro, como se estivesse falando consigo mesmo. Se não estivéssemos tão perto, não conseguiria escutá-lo.
- Você tem cheiro floral amadeirado de bergamota, limão, cedro, noz moscada, almíscar e sândalo. – disse no mesmo tom com a voz fraca. Ele riu com a minha observação tão detalhada.
Coloquei uma mão sobre seu peito, o sentindo subir e descer com mais rapidez do que o normal, encostando meu nariz e boca em seu pescoço, aspirando aquele cheiro maravilhoso de pós-banho e loção que ele carregava o tempo inteiro, até meus pulmões ficarem totalmente tomados e minhas narinas arderem em agradecimento. Tremi novamente, fechando os olhos, apertando-o contra mim, puxando um pouco sua camisa, desejando que ele nunca me soltasse. Lá estava meu porto seguro e de jeito nenhum eu o largaria. Tive vontade de beijar sua pele. Era tão macia e quente. Extremamente convidativa para qualquer pessoa do sexo feminino, talvez até masculino.
me apertou com a mesma intensidade junto a si e suspirou no meu cabelo. O alívio estava vindo. Uma sensação de entorpecimento me rondava. Era disso que eu precisava desde o começo: Dele. A solução para os meus problemas. A minha proteção absoluta. De alguma forma, eu não sentia mais medo. Tudo estava esquecido naquele momento. Éramos apenas eu e ele.
- If you ever feel like letting go I won't let you fall¹…- ele cantarolou baixinho, com a boca roçando levemente na minha testa, antes me beijá-la carinhosamente. - You're never gonna be alone, I'll hold you 'till the hurt is gone².
Aquelas palavras me reconfortaram com uma força devastadora. Meus olhos deixaram escapar algumas lágrimas, agora de felicidade,e e me sentir feliz era o que eu mais precisava.

- Mesmo que você pense em desistir, não vou deixá-la cair¹
- Você nunca vai estar sozinha, vou te abraçar até a dor passar²
(Nickelback - Never gonna be alone)

Capítulo 09.

Não estava chovendo como sempre acontece em cenas tristes da TV. O céu estava ensolarado, e mesmo não querendo admitir, bonito. Bem bonito, mesmo com a temperatura baixa. O sol estava lá, radiante, oponente, mas não aquecia nada, não a mim pelo menos. Sua imagem já não me transmitia mais calor algum. Suspirei pesadamente, sendo envolvida pelos braços de Sam, como ele costumava fazer todos os dias quando caminhávamos a pequena distância do seu carro e o prédio da escola. Eu apreciei aquilo como se fosse a última vez que estivéssemos juntos, mas eu esperava que não.
Nós caminhamos na direção onde já havia algumas pessoas, sempre com passos lentos, em um profundo silêncio.
O padre dizia algumas coisas, mas eu não entendia, parecia que ele falava numa língua completamente diferente da minha, como japonês. A única coisa que eu conseguia entender naquele momento eram os braços de Sam em volta de mim, firmes, deixando claro que ele estava ao meu lado.
Havia muita gente conhecida também, e de certo modo, aquilo me reconfortou. Parecia que eu não era a única a sentir uma perda ali. É claro que nenhuma daquelas pessoas tinha o laço forte que eu mantive com a minha mãe todos esses anos, mas as pessoas realmente estavam tristes.
Um bolo se formou na minha garganta, e uma sensação de mal estar tomou meu corpo. Minhas lágrimas desciam silenciosamente carregadas de sentimentos desagradáveis. Em todo aquele ritual, mantive os olhos fixos no caixão fechado de minha mãe. Por mais que eu quisesse, eu não conseguia aceitar. Como isso era possível? Dias atrás minha mãe estava comigo, rindo, se divertindo... E agora só havia lembranças de nós duas. Era doloroso de mais imaginar como seria meu futuro sem ela. Quem me daria conselhos sobre garotos? Quem iria cantar Beatles comigo no carro enquanto vamos passear? Quem me daria um beijo na testa ou um abraço de urso, dizendo que tudo ficaria bem no final? Quem afastaria meus medos? Quem ficaria na platéia tirando fotos, chorando orgulhosa de mim por que estava me formando?
Vieram lembranças de brigas, que hoje a meu ver, foram idiotas e desnecessárias, que tomavam o tempo que me restava ao eu lado.
- Adeus, mamãe. - soprei, sentindo meu coração sendo esmagado com aquelas palavras. – Eu te amo muito.
Queria na verdade gritar, observando quando o caixão começou a ser baixado lentamente e flores foram jogadas nele e em sua cova.
Meu corpo todo estava em uma dor absurda, e era tão grande, latejava tanto, que nem respirar direito eu conseguia, quanto mais fazer algum tipo de esforço. Fechei os olhos, deixando as grossas lágrimas escaparem deles, deixando que minha tristeza fosse embora. Queria apagar aquela cena da minha mente.
Eu acordei daquele mesmo jeito angustiado que as pessoas despertam dos pesadelos. Ofegante, assustada, o coração martelando dentro do peito, gelada e suando frio. Minha testa e nuca estavam encharcadas.
Nunca havia sonhado com aquele dia, achei que ele estivesse perdido, mas conclui que ele estava bem mais presente do que deveria. Foi tão real... Eu realmente achei que estivesse revivendo tudo aquilo.
Com um suspiro de alívio, desviei meu rosto da luz da manhã nublada, virando para o outro lado, dando de cara com . Seu rosto estava a centímetros do meu, sua boca entreaberta deixava um jato de ar quente bater na minha bochecha, seu nariz que antes quase roçava nela, agora fazia o mesmo com o meu nariz. Eu estava deitada de barriga pra cima, enquanto ele ainda matinha seu braço transpassado pelo meu corpo. Estava tão quentinho e o seu cheiro floral amadeirado ainda estava forte como ontem... Será que eu estava agarrada a ele o suficiente pra ter um pouco da sua essência em mim?
Lentamente me virei, ficando de frente, observando o movimento de seu peito, subindo e descendo com a respiração lenta. Quando eu fiz isso ele respirou fundo e por um momento fiquei totalmente rígida. Imaginei qual seria a minha cara se ele acordasse naquele momento, com nossos rostos do jeito que estavam, mas ele só me puxou mais pra perto, se ajeitando e me agarrando mais como se eu fosse um travesseiro. Sorri fraco, aliviada e boba por estar num momento tão íntimo com ele. Nós nunca tínhamos ficado tão perto e eu nunca me senti tão encantada por alguém.
Num impulso, fiz uma coisa que eu tive vontade de fazer desde a primeira vez que eu o vi. Ainda muito incerta, levantei a minha mão direita e passei pelo seu cabelo, bem devagar para não acordá-lo; Macio, sempre desajeitado, dando a impressão de que acabara de sair de um vendaval. Tirei algumas mechas de sua testa e analisei a sua expressão. Era suave, calma. Não era como de um bebê, mas tinha um "quê" de sapeca. Aposto que eu não ficava tão bonita assim enquanto dormia.
Da forma mais suave possível, desenhei com a ponta dos meus dedos sua testa, nariz, boca... Parei na última, desenhando mais detalhadamente. Por alguns segundos, fiquei hipnotizada olhando para os seus lábios macios, rosados, me dando vontade de beijá-los e depois mordê-los. Eu queria tanto saber como era ser beijada por ele.
Apenas quando suspirou novamente foi que eu “acordei”. Ele não podia me pegar daquele jeito. O que eu diria? “Estou te admirando enquanto você dorme, não liga pra baba escorrendo não”? Seria tão constrangedor.
Contra minha vontade, fiz um tremendo esforço para sair dali. O braço ao meu redor não me apertava com força, mas era o suficiente para manter meu corpo perto do seu. Por mais que fosse tentador de mais, tirei o braço dele de cima de mim o mais devagar possível e me afastei suavemente. Quando eu já estava livre do abraço, sentei na cama, olhando para ele. Lutei com todas as forças pra não voltar pra lá e me aninhar de novo.
Detive-me antes de alcançar o batente da porta. Meus olhos se direcionaram para a porta entreaberta da frente. Era o quarto da minha mãe. Gelei dos pés à cabeça, sentindo um calafrio percorrer pelo meu corpo. Eu poderia recuar, mas não queria. Meu cérebro trabalhava a mil por hora e meu coração choramingava pedindo para que eu não entrasse li. Não ouvi o último, e teimosa, empurrei a porta sem força para que ela abrisse totalmente. Podia ser apenas ilusão e saudade, mas eu sentia o cheiro da minha mãe em cada canto daquele cômodo. O quarto estava como todo o resto da casa. Se não fosse pela cortina meio fechada, deixando um pouco de luz entrar, tudo estaria num completo breu. Havia roupas espalhadas pela cama, sapatos pelo chão... Sua bolsa favorita estava em cima da pequena poltrona, perto da janela. Sorri fraco, lembrando de uma das coisas que mais tínhamos em comum; A desorganização. Fisicamente eu parecia muito com John, mas a personalidade era igual à dela.
Acho que poderia ter evitado estar ali, mas me amaldiçoaria se não o fizesse.
Enquanto caminhava, passei a mão por cima das coisas dela, por cima de cada coisinha que ela havia tocado. Sentei-me na cama, olhando tudo ao redor com calma... Eu sentia a presença dela ali. Podia jurar que a qualquer momento ela entraria no quarto, enrolada na toalha e me dizendo para sair de cima das suas coisas. Isso não aconteceria nunca mais. Era perturbador e agonizante pensar nisso.
Entrei no closet escuro, enfiando meu rosto em meio às roupas que estavam lá, absorvendo todo o perfume que ainda restava. Eu tinha tanto medo de esquecer o cheiro da minha mãe. Eu tinha medo de esquecer o timbre de sua voz e o som da sua risada, medo de me esquecer dela e de como ela era uma pessoa maravilhosa.
A dor no meu peito voltou a apertá-lo esmagadoramente e eu fechei os olhos. A imagem do rosto da minha mãe surgiu perante à mim, fazendo a dor piorar mil vezes.
Só me dei conta de que estava chorando quando funguei. Não havia ninguém ali pra presenciar o meu choro, então eu me senti confortável em expulsar um pouco das lágrimas que estavam dentro de mim. Admito, por mais que isso fira grandemente o meu orgulho, também chorei pelas coisas que vi no Mcdonalds. Chorei por ter sido ingênua o bastante pra ter sido enganada por duas das pessoas de quem eu mais gostava... Chorei porque finalmente havia compreendido que todos de quem eu havia gostado estavam agora mortos pra mim.
Eu estava mais emocionalmente abalada do que eu estive quando presenciei tudo. Tudo dentro de mim se juntou, toda a tristeza pela traição que eu deveria ter sentido naquela hora e não senti, veio com tudo pra cima de mim. Na hora em que eu percebi as coisas. Eu só conseguia sentir ódio deles, por terem me feito de boba e por terem traído toda a confiança que eu depositava neles. Mas agora, mais calma e menos raivosa, eu sentia toda a dor da traição misturada com a dor da perda da minha mãe.
Meu Deus, eu estava tão cansada, tão desesperada, tão cheia daquele aperto que não parava de crescer, que mal conseguia respirar. Mais do que nunca, eu queria minha mãe comigo e quando eu me lembrava que isso não era possível, meu choro aumentava, a dor aumentava, o cansado daquilo tudo aumentava... Tudo ficava tão ruim, tão terrivelmente doloroso... As lágrimas desciam com uma facilidade assustadora. A qualquer momento eu seria afogada por elas.
Arranquei uma blusa do cabide, abraçando-a com toda a força que me era concebida e não percebi que eu estava chorando aos berros. Cada fungada era mais alta que a outra. Meu choro chegou a tal ponto que eu fui tomava por soluços sem fim. Não vi quando sai do escuro, só me dei conta que não estava mais lá quando me vi sentada no chão de taco, com as costas encostadas na cama, de frente para as portas do closet, com a blusa ainda nas mãos. Apoiei minha testa nos joelhos, me encolhendo o máximo que podia como uma criança medrosa e indefesa, desejando com todas as minhas forças que aquilo não passasse de um pesadelo para que eu logo acordasse e visse que nada era real.
Senti um toque leve na minha mão e aos poucos ele foi atingindo todo o meu antebraço. Eu sabia que era que estava me tocando. Não era por causa do seu cheiro, não era por saber que nós dois estávamos em casa. Era por saber que ele me acolheria. Só ele.
- Vai ficar tudo bem, eu estou aqui. – ele garantiu, beijando o topo da minha cabeça. Levantei a cabeça, deixando escapar mais alguns rastros salgados, vendo agachado na minha frente, sorrindo. Um sorriso fechado, sincero e lindo. Seus olhos estavam marejados, mas não achei que ele fosse chorar. E como sempre, não havia pena.
Apertei meus olhos quando mais lágrimas ameaçaram cair, larguei a blusa, me atirando em seu pescoço, o envolvendo com toda a força que tinha, enterrando meu rosto no seu ombro, fazendo perder um pouco o equilíbrio. Precisava de mais uma dose da minha proteção.
Ele fez o mesmo, envolvendo o meu corpo em seus braços aconchegantes com a mesma intensidade que eu envolvia o seu.
E então eu me dei conta de que era a primeira vez que nos abraçamos de verdade e também que era a primeira vez que eu era abraçada de verdade em tanto tempo.
Não digo que me recuperei rápido da minha crise. Eu ainda fiquei um bom tempo apertando , soluçando contra seu corpo quente e macio. Ele, paciente como sempre nesses momentos, esperou até que meu choro diminuísse, enquanto murmurava uma música que eu não conhecia, mas era lenta, como uma canção de ninar, descendo e subindo a mão pelas minhas costas enquanto a outra continuava me abraçando, tentando me tranquilizar, com algum sucesso. Não nos largamos quando fiquei quieta. Continuamos compartilhando o calor um do outro, ouvindo a respiração calma dele e a minha um tanto acelerada. Abraçada a ele, eu sentia seu coração batendo tão forte como o meu. Tão vivo como nunca. A dor foi dando espaço ao nervosismo conhecido e a tranquilidade esperada desde o começo.
- Você é forte. - ele disse baixinho assim que meu ataque de choro passou de vez, ainda deslizando sua mão gordinha e grande pelas minhas costas. – Me agarra com uma vontade que eu fico até lisonjeado. A sorte é que eu sou mais forte que você ou então seria esmagado.
Sorri sem humor contra seu ombro por causa do comentário sem sentido. Ele estava fazendo de novo; Estava me distraindo. Eu me senti mil vezes mais leve. Talvez pela descarga emocional que tive há alguns segundos, talvez porquê ele estava comigo. Como mágica, o clima pesado foi se dissipando.
Eu o larguei devagar, voltando à posição de antes, com as costas na cama e de cabeça baixa, limpei um pouco os vestígios de choro com as costas das mãos. ficou de perna de chinês, me observando.
- Você me deixou dormindo sozinho, isso não é legal, sabe... – ele disse de um jeito divertido, quase zombeteiro. – Não faça mais isso, eu tenho medo.
- Dá próxima vez não saio de perto de você então. – falei imitando seu tom, com pouco sucesso.
- Isso é bom. Não quero mesmo que você saia de perto de mim. – meu corpo inteiro amoleceu e gritou ao mesmo tempo quando ele disse isso, e minha única reação foi continuar de cabeça baixa, rezando para que não percebesse minhas bochechas vermelhas. – Olha pra mim.
Ele colocou a mão no meu queixo, levantando meu rosto com cuidado. Ele estava com uma expressão séria, mais próximo do que o recomendado e seus olhos estavam astutos como de um gato, esquadrinhando todos os detalhes que meu rosto permitia, vagando entre meus olhos e minha boca. Lentamente, a mão foi descendo até meu maxilar, fazendo o caminho até atrás da minha orelha enquanto o dedão fazia círculos minha bochecha. Tive que reprimir um gemido quando todos os pêlos do meu corpo de arrepiaram com o toque e meus olhos penderam a se fechar. Era como se um campo magnético de atração fizesse com que nossos rostos se aproximassem sem que pudéssemos perceber ou evitar, até que finalmente as pontas dos nossos narizes se tocaram quase imperceptivelmente, roçando um no outro, numa ternura jamais vivida por mim até então. A única coisa que eu podia ver era minha própria imagem refletida em suas íris e brilhantes. Meu coração parou, minha respiração diminuiu e fui obrigada a entreabrir a boca para conseguir puxar mais ar, chamando, sem querer, a atenção de para ela.
Desde quando meu corpo e minha mente tinham reações tão intensas e estranhas quando eu encontrava com o olhar dele?
- ... – tentei me afastar lutando contra a minha vontade louca e insana de beijá-lo de uma vez só. A resposta que tive foi à mão dele escorregando pela minha nuca, pressionando a região contra si para que eu não me mexesse um centímetro sequer.
- Não se afaste. – ele pediu gentilmente negando com a cabeça, soprando seu hálito fresco de pasta de dente em mim. – Não agora quando estou tão perto.
O quarto, de repente, pareceu quente e pequeno.
Ele beijou minhas lágrimas até secá-las de vez, cheio de ternura e atenção, arrastando sua boca até o canto da minha, depositando um beijo demorado ali. No mesmo instante minhas pernas, moles como gelatina, se abriram e esticaram, passando pelas dele, apoiando minhas coxas nas suas. Minhas mãos agarraram a regata dele, quase rasgando o pano. Meus dedos formigavam para tocá-lo sem nenhuma barreira que me impedisse de ver seu tronco. Meus olhos semi abertos visualizaram um sorriso satisfeito antes de se fecharem, para apenas poder sentir sua boca chocando-se contra a minha. Ele lambeu meus lábios com a maior lerdeza que conseguia, pedindo passagem para que sua língua tocasse a minha, me fazendo tremer por dentro e por fora quando começamos com um beijo devagar, provando um pouco do outro, até que nossas línguas criaram vida própria, aumentando a intensidade do beijo para mais urgente, mais faminta, explorando todos os cantos possíveis das nossas bocas.
Era muito melhor do que eu imaginava ou do que você pode imaginar. Seus lábios tinham uma textura incrivelmente macia, eram quentes, deliciosos... Era um encaixe perfeito.
envolveu minha cintura com uma mão enquanto a outra descia da minha nuca, passando pelo lado do meu corpo, quase tocando meu seio direito, chegando até minha coxa desnuda, apertando com força, deslizando até o meu joelho e voltando ao início. Cada vez que ele fazia isso, sua mão puxava mais e mais meu short pra cima, desnudando ainda mais minha perna, indo até a parte de trás, apertando, chegando ao comecinho da minha bunda, apertando, deslizando até o joelho, voltando à coxa, fazendo pressão com o dedão na parte interna, deslizando, apertando, apertando, explorando... Suas mãos descobriam meus pontos fracos que nem eu conhecia. Quando me dei conta, estava quase sentada no seu colo, as pernas totalmente abertas num mudo convite... Sentia-me tonta, mole, leve e feliz... Uma felicidade gritante e estranha que preenchia todas as células do meu corpo, tirando qualquer sensação de tristeza de antes.
Inclinei-me um pouco para trás, envolvendo o pescoço dele, puxando os cabelos curtos da sua nuca, sentindo um frio tão forte no baixo vente quando o ouvi gemer contra a minha boca e não consegui reprimir um. Ele colocou uma mão nas minhas costas, por dentro da minha blusinha fina de algodão, apoiando o peso que eu fazia para trás, dedilhado minha coluna de cima abaixo. Mordi seu lábio inferior e depois o chupei, empurrando minha língua com força contra a sua, diminuindo e voltando a aumentar a intensidade do beijo. correspondeu com a melhor desenvoltura possível, e me mordeu também. Subi um pouco a barra da sua blusa, tocando-o com as pontas dos dedos, arranhando levemente seus quadradinhos muito bem desenhados e duros, enlouquecida com cada gemido reprimido que ele tentava manter na garganta, sendo apertada com mais vontade a cada segundo. Ele ameaçou fazer o mesmo, mas desistiu, invertendo a atenção da mão para brincar com o elástico do meu short, me fazendo suspirar, imaginando se ele faria menção de tirá-lo. Eu queria que ele me tocasse mais. Eu queria mais contato com ele. Isso me assustou um pouco, porque eu nunca senti uma vontade tão forte por aquilo, era como se eu necessitasse.
- Não... – resmunguei quando ele recuou de repente, parecendo despertar. Nossas bocas se separaram fazendo o típico barulho de beijo.
- Não, . Isso é errado. – ele disse um tanto seco, se desvencilhando dos meus braços. Eu os recolhi, os colocando sobre minhas coxas. tentou tirar minhas pernas também para poder se levantar, mas eu não deixei e segurei seus pulsos.
- Você disse que não queria que eu me afastasse, mas está fazendo exatamente isso agora.
- Eu liguei pro John quando acordei. – ele mudou de assunto, olhando para um ponto qualquer atrás da minha cabeça. – Ele disse que vai tentar mudar o nosso horário para a noite ou talvez para amanhã bem cedo e vai ligar avisando.
- Você... Tudo bem. – suspirei, desanimada pela deixa que deu de que não falaria sobre o que tinha acontecido há pouco. Recolhi as pernas, ficando de chinês também e abaixei a cabeça, achando minhas mãos muito interessantes naquele momento.
Era impressão minha ou eu estava sendo rejeitada?
Um silêncio incômodo se instalou entre nós e de maneira nenhuma eu ousei levantar o olhar. Como aquilo tinha acontecido?
- Bom, vou procurar algum lugar onde eu possa comprar comida. Não demoro. – ele se levantou, saindo do quarto a passos largos.
Continuei sentada olhando pro chão escutando a frase “Não, . Isso é errado.” gritando na minha cabeça. Qual era o problema? Tentei entender o motivo certo para sua atitude tão carinhosa e depois se transformando em uma tão seca, querendo evitar uma coisa que ele mesmo se propôs a fazer, a dar o primeiro passo.
Eu estava tão desorientada de tudo que não enxergava um erro nessa história? Se eu e ele queríamos, por que errado? Era gritante pra mim que aquilo não era erro algum.
O que estava acontecendo conosco?
E desde quando eu ficava tão preocupada com assuntos relacionados ao ?
O que estava acontecendo comigo?
Será que tudo estava relacionado ao fim dramático do meu namoro com Sam? Eu estava descarregando tudo na minha relação com ? Eu estava confundindo as coisas? A atração que eu sentia por ele era tão forte assim?
Tantas perguntas e nenhuma resposta. Frustrante.
Eu precisava seriamente reavaliar a minha vida.
Irritada de mais, entrei no banheiro e liguei a ducha, deixando a água esquentar enquanto ia até o quarto para pegar uma calça jeans preta e uma blusa bege grossa de frio bem largona e confortável. O banho quente me fez relaxar, consequentemente minha irritação já estava abaixo de 1% quando terminei. Quando já estava terminando de secar o cabelo, a campainha tocou. Revirei os olhos já xingando mentalmente por ter esquecido as chaves.
Diminui o passo na escada só pra sacanear quando a campainha tocou mais duas vezes seguidas. Ele estava com pressa, é? Quando percebeu que eu não iria atendê-lo tão cedo, resolveu largar o dedo na merda da campainha, deixando aquele sonzinho irritante preencher toda a casa.
- Anda, , eu sei que você está aí dentro! – parei antes de alcançar a maçaneta. Não era a voz de . Puta merda, o que Sam estava fazendo parado na minha porta? Eu não estava acreditando naquilo. – Eu sei que você tá aí dentro.
- O que você pensa que está fazendo aqui? – perguntei do outro lado da porta. – Sai daqui!
- Sair? - ele perguntou da maneira infantil.
- É, sair oras! Do verbo, desaparece, some, escafeda-se daqui, vaza, vá para o raio que o parta. Não conhece?
- Preciso falar com você. – Sam disse tocando a campainha novamente. – Abre a porta, vamos conversar.
- Não vou abrir a porta, não tenho nada pra falar com você! - falei cruzando os braços. – Cai fora!
- Por favor, . – ele pediu com a voz meiga como se aquilo fosse me fazer abrir a porta. - Preciso te explicar as coisas, você entendeu tudo errado...
Tive que conter uma gargalhada sem humor diante daquilo.
- Você só pode tá brincando comigo, Samuel. As coisas estão bem claras pra mim, não sou tão burra quanto pareço.
- Não, . Não é o que você está pensando...
- Não vou abri, já falei. Vai ficar esperando o dia inteiro. - falei, rezando para aquilo o fizesse ir embora.
- Se for preciso, vou ficar mesmo. – ele falou convicto. As pessoas só arranjam ideias de serem decididas nas situações mais inconvenientes, já percebeu?
- Tudo bem, eu vou ter que chamar a polícia então. – ameacei com a voz mil vezes mais decidida do que a dele. Era só o que me faltava ter que chamar a polícia para ter que tirar meu ex-namorado da minha porta.
- Abre logo essa porta, !
- Já falei que não vou abrir! Vai embora!
Mal terminei de dizer e Sam bateu na porta. As batidas foram substituídas por socos que eu não duvidei que fosse colocar a porta abaixo dali a algum tempo. Bufei me sentindo cansada por ter que aturar aquilo. Por que ele estava aqui? Agora ele já podia fazer o que quiser sem ter mais que mentir pra mim. Já podia engolir Jennifer em público. Mas não, essa mula tinha que estar bem aqui, esmurrando a minha porta logo cedo, enchendo ainda mais o meu saco e minha paciência que já não estava tão boa. Me amaldiçoei por não ter deixado socá-lo como pretendia ontem, dessa maneira Sam estaria deitado na cama dolorido de mais para vir até aqui impor sua presença. Cadê o nessas horas mais propícias?
- Já falei pra você ir embora, que droga!
- Eu paro assim que você abrir. – ele chantageou, agora revezando entre socos e toques na campainha. - Ou então vou bater na sua porta até derrubá-la.
- Eu vou chamar a polícia, Sam, não estou brincando! Não tenho mais nada pra falar com você, entenda isso!
O soco foi mais forte dessa vez. Francamente! Eu queria que o telefone estivesse funcionando para que eu pudesse chamar a polícia mesmo. Nunca reclamei tanto pelo meu celular estar tão longe de mim. Minha irritação já estava alcançando um grau muito mais elevado do que o normal e em consequência, bati o pé e soltei um grito, socando a porta do meu lado. Eu não queria fazer aquilo, mas antes que a porta fosse posta abaixo, eu a abri com uma cara muito feia. Fechei a porta atrás de mim para que Sam não tivesse a oportunidade de entrar.
- O que você quer?
Ele sorriu pra mim, mostrando 64 dentes que não sei de onde surgiram, como se eu tivesse aberto a porta só porquê o amo de mais e estava louca pra ver o rosto dele. Patético.
- Você nasceu idiota assim ou foi de aperfeiçoando com o tempo? - perguntei seca.
O sorriso dele morreu e ele balançou a cabeça negativamente pra mim.
- Eu sabia que você ia abrir. – ele me encarou seriamente, mas com vestígios do sorriso mongol voltando ao seu rosto.
- Não se ache importante, eu não abri por você. - apoiei meu peso numa perna só, mostrando meu tédio em vê-lo. - Só quero que você vá embora!
Sam me olhou assustado, espantando com o meu jeito ignorante. Ele nunca tinha presenciado uma daquele jeito.
- Eu só queria te explicar as coisas. – ele teve a cara-de-pau de dizer – Talvez eu pudesse entrar, a gente pode sentar e tomar café...
- Você é retardado mental? – perguntei incrédula, quase rindo. Definitivamente ele estava muito doente da cabeça pra achar que depois do que eu vi ontem nós iríamos tomar café juntos. – Você não vai colocar seus pés na minha casa, você vai mover essa sua bunda pra fora da minha calçada!
- Tudo bem. – ele encolheu os ombros parecendo estar caindo em si. – Eu te digo aqui mesmo.
- Seja rápido. - cruzei os braços, olhando para a rua pra ver algum sinal de .
- Eu não estou mais com a Jennifer.
- E o que isso muda na minha vida? - perguntei azeda, passando meus olhos brevemente pelo rosto dele. Sam fechou a cara, não esperando aquela atitude. Eu no lugar dele já estaria esperando, mas como ele é retardado mental...
- Estou falando sério. – ele se recompôs, respirando fundo para continuar. – Ela nunca significou nem a metade do que você significa pra mim.
- Isso continua não mudando em nada na minha vida.
- Não, você não entende. – ele tentou de novo – Eu te amo.
Não conseguindo reprimir a uma risada escandalosa que poderia acordar os vizinhos. Eu não estava acreditando que ele realmente iria me convencer de que me amava depois de fazer uma coisa tão baixa como beijar minha ex-melhor amiga.
- Não Sam, você não me ama. Na verdade nem acredito que amor exista mesmo, e se existisse provavelmente essa pessoa que ama não trairia a outra...
- Eu realmente te amo. – ele disse como se eu não tivesse dito nada – E eu realmente preciso de você...
- Não, você não precisa... – contrapus já cansada daquele lenga, lenga dele. – Se você precisasse mesmo, teria me ligado todos os dias em que estive fora. Se precisasse, você não seria impedido de ir me ver por causa dos treinos idiota, o que eu acredito que sejam desculpas para você e a Jennifer se encontrarem, afinal você nunca treinou tanto! Você não sabe quantas vezes eu chorei de saudade daqui porque você não estava do outro lado da linha para se preocupar com isso. Você nem mesmo respondia minhas mensagens! Eu que fui uma idiota em não ter visto o tipo de homem que você é.
Ele não disse nada, apenas ficou me olhando com cara de peixe morto.
- E – continuei vendo que ele não falaria mais nada. – se você realmente precisasse de mim, você não teria ficado com a Jennifer todo esse tempo.
O sentimento que eu tinha por Sam estava enterrado, havia se perdido entre as lembranças que eu teria dele, mesmo que fizesse o máximo para apagá-las. Eu estava oca. Não existia mais lugar pra ele na minha vida. Isso era a coisa certa. Só ele não enxergava isso... Ou não queria.
- A Jennifer foi só... – ele começou, mas eu sabia que ele não terminaria. Sam não tinha uma resposta para o que a Jennifer era, mas eu tinha.
- Ela foi mais uma garota com quem você transou, o que eu não duvido nada que tenham outras quando eu ainda estava aqui. Admita que você só namorava comigo porque sabe que eu sou virgem e estava doido pra contar a nossa primeira vez para os seus amiguinhos bombados do futebol que são tão retardados quanto você.
- Claro que não...
- Eu não quero mais te ouvir – o interrompi antes que mais baboseiras saíssem daquela boca. – Se você me conhecesse mesmo saberia que eu não tolero mentiras, muito menos traição. Você está perdendo o seu tempo vindo aqui e ainda por cima está me fazendo perder o meu também!
Faíscas queimaram nos olhos dele.
- E o que é que você tem pra fazer de tão importante aí dentro? – ele perguntou em tom possessivo, quase irritado, enquanto apontava com a cabeça para a porta.
- Isso realmente não é da sua conta. – respondi com desdém. – Vá embora, não temos mais nada para conversar.
- Aquele seu amigo dormiu ai? – ele esticou o pescoço para a janela da sala, tentando ver se estava ali.
- Não, não. – falei sarcástica – Ele provavelmente dormiu dentro do carro, na garagem... O que você acha?
- Então você está com ele? – ele perguntou todo nervosinho e eu tive que rir da cara dele.
- Você não tem mais nada a ver com a minha vida... – meu tom era falsamente compreensivo.
- , isso quer dizer que está com ele? – ele arregalou os olhos, irritado e apavorado ao mesmo tempo – E o trouxe pra cidade pra esfregá-lo nas minhas fuças?
Eu fiz uma careta e bufei. O que ele estava tentando fazer? Virar a mesa do jogo pro meu lado?
- Se for isso , você não tem nenhum direito de me censurar por ontem... – eu reconheci um tom esperança na voz dele. A única coisa plausível a se fazer naquele momento era rir, rir e rir... Sam pareceu confuso, quase desnorteado com minha atitude.
- Eu vou perdoar você... – ele falou – E então poderemos ficar juntos de novo.
Eu parei de rir no mesmo instante, já achando que estava na hora de acabar com aquela conversa.
- e eu não temos nada um com o outro... – a lembrança do beijo surgiu, mas não deixei que aquilo me abalasse. tinha deixado claro, com sua atitude e palavras, que aquilo havia sido apenas um beijo, um erro para nós dois. – E mesmo que tivéssemos isso não mudaria o fato de que você estava me traindo com minha ex-melhor amiga. Aliás, se eu tivesse alguma coisa com ele, você provavelmente nem veria mais a minha cara. Eu não iria vir até aqui e fingiria que estávamos bem, eu iria terminar com você pra poder começar algo com outra pessoa. Você é tão podre que acha que todas as pessoas são podres como você, acha que todos agem do mesmo jeito canalha que você agiu comigo.
Por alguns instantes achei que minhas palavras haviam o magoado de vez. Esperava que depois disso ele finalmente fosse embora, mas quando pisquei, ele ainda estava lá, com os olhos brilhando pra mim.
- Eu quero que você vá embora agora Sam. – eu continuei quando ele permaneceu em silêncio - Eu não quero mais te ver, você consegue entender isso? Eu quero que você suma, que você morra!
- Você não está falando sério... – ele negou com a cabeça, como se além de estar tentando me convencer, estava tentando se convencer também. – , você me ama também, eu sei disso. O que nós temos é muito bonito pra você jogar no lixo dessa maneira.
Eu quase bati o pé no chão, de novo, de tanta raiva. Puta merda, o cara não sacava que eu não queria mais nada com ele!
- Primeiro: eu não te amo, eu nunca te disse isso e não sei por que razão você acha que eu disse... – cuspi as palavras bem na cara dele sem pena nenhuma. - E em segundo lugar, quem jogou as coisas no lixo foi você, não eu. Eu não estava engolindo o seu melhor amigo ontem à noite no McDonalds.
- Eu já disse que a Jennifer não significa nada pra mim... – ele falou, como se aquilo fosse fazer alguma diferença. – É você que eu amo... É você que é importante.
- Você não está melhorando as coisas. Entenda de uma vez por todas, eu não quero saber o que ela é/era pra você, eu não quero saber o que ela é ou vai ser, eu quero que vocês se explodam juntos!
Eu me virei pra entrar e bater a porta na cara dele, mas eu não cheguei a entrar. Sam me puxou pelo braço, me virando de volta pra ele. Olhei para além dele e vi parando o carro em frente à casa.
- É melhor me soltar. – me controlei para não gritar, sentindo repulsa de ser tocada por ele.
- Não até que você entenda. – ele me encarou duramente, segurando meu braço com força quanto tentei puxá-lo.
- Você está me machucando! - tentei bater nele com a outra mão, mas ela também foi presa. Sam até aquele momento não percebeu que estava ali.
- Você só pode estar de sacanagem com a minha cara. - disse batendo a porta do carro, quase rindo, mas com cara de poucos amigos, passando pelo portão de madeira carregando algumas sacolas de supermercado. - Não posso sair alguns minutos e você já está enchendo o saco dela?
Sam virou, fazendo cara de desprezo.
- Isso não é da sua conta!
- Acho que é sim. – rosnou já com o maxilar travado e os olhos escuros passando por Sam, colocando as compras perto da porta. Meu coração cambaleou com o olhar fulminante dele. - É melhor você soltar logo o braço dela!
Eu puxei meu braço novamente, mas Sam não soltou.
- Por que você não vai lá pra dentro enquanto eu converso com a minha namorada?
- Puta merda, o que você quer aqui? Um olho roxo de brinde? – não estava nem um pouco feliz. Ele ficou vermelho, muito vermelho. Seus olhos pareciam que iriam saltar das órbitas quando pegou meu outro braço e me puxou, com a distração de Sam na discussão, me colocando atrás de si. - Eu mandei você soltar, babaca!
Sam foi pra cima dele e eu, muito nervosa com tudo, me enfiei entre eles, sem pensar direito no que estava fazendo.
- Sam, vai embora, por favor. Já falamos tudo o que precisávamos. – supliquei, fazendo a maior cara de desespero, enquanto o empurrava. Ele não deu mais do que dois passos e fincou os pés no chão.
rapidamente pegou meu braço e, novamente, me colocou atrás dele.
- É melhor você entrar . – ele avisou sem olhar pra mim com a voz rouca, sem nenhuma doçura e sim carregada de frieza com uma atitude mandona. Eu estava sendo personagem secundário ali enquanto os outros dois trocavam olhares mortais que poderiam até acarretar numa 3ª guerra mundial.
- Eu vou entrar, – concordei, pegando a mão dele, tentando puxá-lo para a porta. – assim que você entrar comigo.
, pela primeira vez desde que chegara, virou a cabeça pra trás pra me olhar e revirou os olhos.
- Entre Risadinha, você não quer quebrar as unhas.
Ele não deveria ter me chamado de Risadinha na frente de Sam. Aliás, ele não devia me chamar de Risadinha de jeito nenhum e na frente de ninguém. mais do que ninguém sabe que não vão ser as minhas unhas que eu vou quebrar numa briga.
- Ah, valeu, . - zombei, largando a mão dele, dando um passo pra frente em desafio.
- Entra. – ele disse de novo, me encarando. A discussão agora era entre eu e ele. Sam agora era o secundário.
- Já falei que entro depois de você.
- Por que você é tão irritante? – ele perguntou exasperado, arregalando os olhos pra mim – Por que não pode ser como as outras garotas e ficar só assistindo?
- Por que não preciso que você me defenda. – empinei o nariz numa atitude superior. – Não preciso de você!
Coisa errada a se dizer. Eu sabia que ele ia arrumar um jeito de jogar na minha cara, eu só não achei que seria tão cedo. Eu só não achei que ele jogaria numa hora dessas!
- Você não disse isso ontem à noite no seu quarto... – ele riu maliciosamente pra mim.
Eu prendi a respiração enquanto sentia minhas bochechas queimarem. Era golpe baixo!. Sam olhou aturdido pra mim e depois para . Suas feições a cada milésimo de segundo mudavam avaliando se o que disse era verdade.
- Seu insuportável! – gritei, totalmente vermelha.
- De novo... – disse, alargando o sorriso – Ontem você não me achou insuportável... E pelo que me lembro, hoje mais cedo também não.
- O que ele quer dizer, ? – Sam perguntou furioso. – É verdade então?
- Não é da sua conta! – disse com raiva por ter nos interrompido logo quando ele parecia estar tomando as rédeas da história.
- Eu odeio você! – eu sibilei para ele. levantou uma sobrancelha e sibilou a mesma coisa com um sorriso muito safado.
- Não dê chiliques e entre. – ele disse entediadamente, como se eu fosse uma criancinha de cinco anos rolando pelo chão do supermercado porque não ganhei a boneca que queria.
- , eu quero uma explicação agora! - Sam gritou, querendo atenção. - Vamos logo pode explicando tudo direit...
Ele não teve tempo de terminar e eu nem tive tempo de abrir a boca. Nem minha cara de deboche conseguiu fazer direito, ela logo ficou num misto de prazer, espanto e incredulidade quando revirou os olhos e bufou, antes de fazer seu punho acertar o olho direito de Sam. Ele gritou sentindo a dor latejar e colocou a mão no local, cambaleando para trás surpreso, mas não chegou a cair.
- Nossa você é um porre mesmo! - disse para Sam enquanto me pagava pelas pernas, me colocando, sem nenhuma dificuldade, sobre seu ombro como se eu fosse um saco de batatas. Coisa de macho mesmo.
- Me solta agora, ! - gritei, levantando a cabeça e dando socos em suas costas.
riu e me colocou no chão do hall assim que entramos. Eu desconfiei de que ele sairia e me trancaria enquanto ele e Sam brigavam do lado de fora. Antes que Sam entrasse ou que ele saísse, eu corri para a porta e a fechei, cruzando os braços e me encostando nela, olhando duramente para ele.
- O que há de errado com você? – ele me perguntou incrédulo. Eu suspirei entendendo perfeitamente a minha atitude de querer protegê-lo, como se Sam tivesse alguma chance de socá-lo. Não era apenas cuidado, era... Eu ainda podia mentir pra ele e pra mim mesma.
- Não vou aparecer em York com você todo quebrado por minha causa! Não quero ouvir um sermão dos seus pais!
Ele riu gostosamente de mim com direito a olhinhos se fechando como os dos japoneses. Sam voltou a bater na porta do outro lado.
- , você é louca, e você sabe que é. - ele disse se recuperando do ataque de riso. - Isso não tem a mínima importância...
Eu coloquei a chave entre meus seios por dentro da blusa para que ele não tentasse roubá-la de mim.
- Não vou abrir. – disse com firmeza e me afastei da porta, começando a andar de um lado para o outro. - Você deixou as compras na porta, né?
- É, não deu tempo de pegar. - ele sentou no segundo degrau da escada, me observando.
- Ótimo, . Agora vamos ficar sem tomar café. - cruzei os braços na altura do peito, parando para olhá-lo também. - Estou morrendo de fome.
- E você acha que eu não estou?
Sam esmurrou a porta mais uma vez e gritou meu nome. Eu gritei de volta um sonoro "Vai para o inferno!" e não dei mais atenção, enquanto sibilava "teimosa!" pra mim.
- Tive uma ideia, mas preciso de você me ajude. - falei indo até a janela da sala e voltando ao hall. - Você vai até a parte de trás, finge que vai sair, distraindo o Sam, enquanto eu abro a porta e pego as compras correndo, ok?
- Você é tão espertinha, . - ele riu, divertindo-se com o meu plano. - A chave está na porta?
- Sim, mas - logo adiantei vendo a carinha de felicidade dele. - nada de sair para socá-lo de novo, ! Isso é sério. Não quero brigas na minha porta.
- Você é uma estraga prazeres, sabia? Deveria aprender a curtir mais a vida.
- Faz logo o que eu falei e para de reclamar, ou daqui a pouco vou desmaiar sem comida.
- Aposto que não, você tem muito estoque de gordura no corpo.
- Vai logo! - ele saiu em direção à cozinha quando ameacei lhe bater. Quando não estava mais sob sua vista, olhei para o meu próprio corpo, checando se seu comentário tinha algum fundamento, mesmo sabendo que era só pra implicar.
Quando escutei a chave girando na fechadura nos fundos, me adiantei, fazendo o mesmo na porta de frente. Antes de abrir verifiquei, pelo olho-mágico, se Sam estava ainda na entrada, mas pelo jeito meu plano tinha dado certo. Abri a porta vagarosamente e peguei as compras, colocando-as com cuidado dentro de casa. Ouvi um grito vindo dos fundos e logo Sam apareceu correndo com alguns cortes no braço. Mas antes que ele chegasse muito perto, fechei a porta na sua cara.
- , abre logo! - ele continuou gritando e gritando, esmurrando a porta.
apareceu rindo, limpando as mãos num pano de prato.
- O que você fez com ele? - peguei as sacolas, indo para a cozinha com ele em meu encalço.
- Digamos que ele teve um papo com os espinhos das rosas da sua mãe. - ele respondeu rindo lembrando-se de alguma tramóia que teria feito.
- Você quer preparar o café, ou eu preparo? - coloquei as sacolas em cima da bancada, tirando tudo para ver o que tinha.
- Você. Quero ver seus dotes culinários. - sentou na cadeira, colocando os braços em cima da mesa. - John retornou a ligação enquanto eu estava fazendo compras e disse que conseguiu mudar o nosso horário para hoje, de madrugada.
Mais gritos e socos foram ouvidos do lado de fora.
- Ele vai ficar ai o dia inteiro, . - disse como se aquilo me convencesse a deixá-lo sair.
- Mas nós não. – lhe dei um sorriso irônico antes de virar para preparar os ovos. - Por que você não arruma alguma coisa pra fazer ao invés de ficar choramingando como um bebê por que não pode sair de casa para brincar?
- Não. Eu acho muito mais interessante ficar olhando pra você. - eu fiquei petrificada por alguns segundos, mesmo sabendo que aquela frase poderia não ter o significado que eu tanto queria. Talvez tivesse mesmo já que não disse mais nada enquanto eu terminava de preparar o café. Comemos num silêncio absurdo, exceto pelos murros que Sam ainda dava na porta, em que eu percebi que a tensão pós-beijo no quarto da minha mãe tinha voltado.
- Chega! - disse de repente, quase jogando a minha caneca de chocolate quente dentro da pia, depois que as batucadas e os gritos de Sam não cessaram. - Onde está seu celular?
- Bolso da calça. – me olhou desconfiado – Por quê?
- A linha daqui foi cortada e o Sam não vai embora de jeito nenhum. – respondi esticando a mão para ele – Acho que vou ter que chamar a polícia.
levantou as sobrancelhas, tentando ver se eu estava ou não brincando. Finalmente ele pôs o aparelho na minha mão, sorrindo.
- Bom dia, - falei quando atenderam. - gostaria de pedir uma ajuda. Tem um louco esmurrando a minha porta há horas e eu estou com muito medo do que ele possa fazer. Já falei para ele ir embora, mas não adianta. Acho que ele está drogado. - fiz uma pausa enquanto a atendente registrava a ligação e pedia o meu endereço. - Ok, obrigada. - desliguei e devolvi o celular. me olhava como se eu fosse o diabo em pessoa. - O que foi?
- Você é terrível! – ele disse com um misto de espanto e divertimento em seu tom.
- Ah, eu sei. - sorri, fazendo a melhor cara de inocente.
Não demorou muito e a sirene do carro da polícia foi ouvida na rua, fazendo as batidas na porta cessarem imediatamente. Eu nem me dei ao trabalho de descer e nem fui olhar pela janela. Continuei arrumando o resto das roupas e coisas que gostaria de levar para York, quanto ao estava na sala olhando a coleção de filmes, escolhendo os melhores para assistirmos até dar o horário de ir embora. Só quando a campainha tocou que eu fui ver o que era.
Eram dois policiais. Um deles estava conversando com Sam do outro lado do portão, enquanto o mais bonito estava diante de mim, segurando um bloco de anotações. Eu suspirei aliviada quando olhei pra ele, não pela beleza, mas sim para fazer um teatrinho pra ele achar que eu estava mesmo assustada.
- Foi a senhorita quem nos ligou? – o policial perguntou com os olhos escondidos por detrás do óculos escuro.
- Sim, senhor. – respondi, sentindo atrás de mim.
- Pode me dizer aonde estão seus pais? – o policial voltou a perguntar pra mim, mas levantando um pouco a cabeça, olhando para .
- York, Inglaterra. Eu e meu irmão - tive vontade de cuspir no “irmão”, mas consegui aguentar firme. - viemos visitar alguns amigos meus.
- Hm... - o policial murmurou, anotando algo no bloquinho.
- Mas – continuei, lançando um olhar para o bloco dele – estamos indo embora, depois do susto desse louco querendo derrubar a nossa porta.
- Ele insiste que conhece a senhorita. – ele disse me encarando.
- Bom, de certa maneira é verdade, – concordei, achando melhor não mentir – mas ele ainda me parece drogado, sabe...
- Certo. – o policial fechou o bloquinho e guardou a caneta – Nós vamos levá-lo para a delegacia e chamar os pais dele.
- Obrigada. – disse sorrindo de um jeito que considerei bem convincente. O policial abaixou um pouco os óculos, revelando seus olhos.
- Estamos à disposição. – ele piscou pra mim com um olho só e virou, indo até o parceiro e Sam que já estava dentro da viatura.
Eu me virei depois de fechar a porta e encontrei os olhos de me avaliando.
- Você é realmente terrível!
- Só com quem merece. - suspirei, reprimindo um pulinho de alegrinha pela minha atitude. - Me sinto vingada!
Escolhemos quatro filmes. Enquanto colocava o primeiro no DVD e arrumava a bagunça na sala, eu fui até a cozinha preparar dois potes de pipoca, já que eu não gostava da minha com manteiga. Assim que sentei no sofá grande e ele se ajeitou no outro menor, voltamos ao silêncio já conhecido. Isso era incrivelmente bizarro. Veja, numa hora estamos rindo como se fôssemos velhos amigos, na outra estamos sem graça nos tratando cordialmente. Isso parecia piorar as coisas, já que tudo isso aconteceu por causa do beijo e, consequentemente, eu voltava a pensar naquilo a toda hora; Volta e meia a droga da lembrança da boca dele grudada na minha tirava toda a minha atenção e quando percebi, já estávamos no 3º filme. parecia bem entretido, ao contrário de mim, olhando para a TV, colocando pipoca por pipoca dentro da boca, mastigando vagarosamente.
Esperei até o filme acabar e joguei uma desculpa de que iria tomar um banho e que voltaria logo. Coloquei a mesma calça jeans, trocando de blusa de meia manga, deixando num canto do meu quarto, um casaquinho e um par de botas sem salto para pôr para ir embora. Enquanto terminava de me arrumar, me perguntei o que John diria quando chegássemos bem antes do combinado e não sei se teria estômago para verbalizar tudo que eu vi. Talvez tivesse contato a ele... Talvez não. Ele iria querer uma explicação, afinal. Não me imaginei mentindo pra ele. Eu nem era uma mentirosa criativa pra inventar uma desculpa boa... Pensando melhor, eu não devia nada a ele. Eu não iria dizer nada, simplesmente chegaria em casa, subiria para o meu quarto, colocaria Strokes no último volume e afundaria na minha banheira por horas a fio ou só até meus dedos enrugarem.
Antes de descer com todas as minhas coisas, repeti aquele mesmo ritual de manhã e dei uma última passada do quarto da minha mãe. Cobri todas as superfícies que consegui alcançar com as pontas dos meus dedos. Tocando, sentindo, guardando tudo dentro de mim. Eu não achava que veria aquele lugar novamente. Talvez aquele quarto fosse a única coisa capaz de me fazer vir, mas não tinha muita certeza se o mesmo motivo seria forte o suficiente pra me trazer de volta. Aproveitei tudo que pude das últimas coisas. Me despedi verdadeiramente da minha mãe, do jeito que eu deveria ter feito e não fiz. Antes de chegar à porta eu me lembrei de uma coisa meio que vital; Eu precisava de algo dela para levar comigo, algo que me impedisse de voltar naquele lugar de novo. Fui até o closet, tentando escolher uma roupa. Todas eram especiais, mas nenhuma me fazia lembrar tanto dela como sua jaqueta de couro cor de chocolate, contendo ainda seu cheiro doce. Depois fui até uma gaveta escondida e peguei sua caixinha de joias. Em vez de chorar com as lembranças, eu sorri contente com as minhas escolhas, enfiando tudo dentro da mochila.
Quando cheguei à sala, estava olhando a fotografia que antes estava jogada no chão junto com porta-retrato.
- Já acabou o outro filme? - perguntei me aproximando. Ele olhou para trás e sorriu pra mim.
- Odeio assistir filme sozinho, você demorou muito. Cheguei a pensar que tivesse se afogado do chuveiro. - ele zombou, enquanto eu chegava perto para olhar a foto também.
Não dei atenção para o que ele dissera. Estava com os olhos vidrados na fotografia... Eu estava entrando na adolescência, e ao contrário do que acontece na maioria, foi uma fase em que eu e minha mãe ficamos ainda mais unidas, compartilhando segredos e medos que antes, não foram revelados pela minha pouca maturidade. Foi uma época realmente maravilhosa para nós. Uma época que eu lembraria para sempre. Peguei a foto, guardando-a dentro da mochila, sentindo pontadas no meu coração, sentindo os olhos começarem a arder.
- Seus olhos... – disse em voz baixa, observando meticulosamente meu rosto.
Eu pisquei. Não era possível que eu estivesse chorando de novo... O encarei, sem ter percebido realmente que a distância entre nós era bem curta.
- O que têm eles? – perguntei tonta.
Ele me deu um sorriso doce.
- Não são exatamente seus olhos, – ele explicou me observando atentamente – é o seu olhar. Sempre achei que fosse igual ao do John por causa da cor dos seus olhos, mas não, você tem o olhar da sua mãe.
Eu pisquei de novo, desnorteada.
- Gosto do seu olhar. - ele concluiu para si próprio como se eu não estivesse ali. - Acompanha perfeitamente a cor dos seus olhos.
Meu coração nem batia mais, ele dava solavancos violentos no meu peito. Obriguei-me a desviar os olhos dos dele, sem nenhum sucesso, e balancei a cabeça pra poder desanuviar as ideias.
- Está me cantando? Porque realmente não vai colar sabe... – soltei sem pensar.
Estava acontecendo de novo? Aquele encantamento estava começando a me dominar novamente? parecia tão tonto quanto eu. Tão hipnotizado como eu. Mas ele com certeza se recuperou muito mais rápido, tomou a maior distância possível de mim e foi totalmente rude.
- Não estou te cantando, sua arrogantezinha metida. – ele soltou com um sorriso frio, a língua afiadíssima. – Estava só elogiando, o mundo não gira ao seu redor, sabia?
Eu me limitei a lhe lançar um olhar gelado e fui retirar os últimos aparelhos elétricos da tomada, enquanto ele pegava as nossas mochilas e colocava no porta-malas, parecendo carrancudo. Dando um último olhar para toda a casa, apaguei todas as luzes, fechei todas as janelas e tranquei a porta. Quando cheguei perto do carro, não se virou para me olhar. Ele ainda parecia chateado com seus olhos por detrás dos óculos Ray-Ban preto, não me deixando ver a expressão deles. Abri a porta e me sentei no banco, fazendo a maior cara de magoada e furiosa que consegui encontrar.
Nós fomos o caminho inteiro ouvindo músicas depressivas. Era só eu soltar o cinto de segurança, abrir a porta do carro e me jogar! Esse é o tipo de música que faz as pessoas deprimidas cortar os pulsos, ou darem um tiro nos miolos. No meu caso, se jogar de um carro em movimento – e leia-se que o carro estava em um movimento totalmente rápido – já que dirige como um louco.
- O que vai dizer ao John? – ele perguntou de repente, quebrando o silêncio, quando já estávamos no final da estrada para Berlim. Eu posso dizer que me assustei com o tom de voz dele, ainda era meio grosseiro.
- Nada. - respondi sem encará-lo. – Por que deveria?
- Ele é seu pai. - ele argumentou com os olhos grudados na rua à frente. – E eu não contei nada. Só disse que precisávamos ir embora. Além do que, ele vai querer saber o que aconteceu para chegarmos um dia antes do previsto.
- Conte a ele então. – disse, soltando o ar, esperando que aquela resposta resolvesse tudo.
- O que quer que eu conte? – insistiu, ainda sem me olhar.
Eu suspirei.
- Qualquer coisa! - falei, agora o fitando – Não me importo se ele souber de tudo, só não quero falar no assunto, está bem?
Ele concordou, e não voltou a me perguntar mais nada. Aquele silêncio deprimente baixou novamente ao som de "Start Over" de One Night Only.
Eu me vi num momento nostálgico quando entrei no aeroporto. Só que ao contrário do anterior, agora eu não tinha mais meu namorado ou minha melhor amiga chorando por eu estar indo embora.
Finalmente eu estava livre da minha vida antiga e não havia dúvidas que nenhuma das pessoas que fizeram parte dela, com exceção da minha mãe, não fariam falta.
Eu estava me exorcizando do meu passado e fazendo um novo futuro. Por mais que fosse um final, era um novo começo. E com esse pensamento, caminhei para o corredor onde me levaria ao avião, de volta à York.
Eu estava deixando Kassel de vez, sem choro, sem melodrama, sem remorso. E com certeza, não voltaria tão cedo.

Capítulo 10.

Uma das piores consequências de quando você é feita de trouxa é saber que aquilo estava na sua cara de forma gritante e depois ser obrigada a ter que encarar as pessoas. Esse era o meu problema. Eu não queria encarar ninguém. Não queria verbalizar a humilhação pela qual passei. Já me sentia mal de mais para ver o olhar das pessoas em cima de mim. Pena é um dos piores, senão o pior sentimento que uma pessoa pode sentir por você. A pena é como uma esmola que te dão. Não é como um consolo e muito menos como apoio. É como uma doença que se espalha e contamina as pessoas ao seu redor, fazendo-as te verem de uma forma fraca e incapaz. E eu tinha horror a me sentir assim.
No domingo de manhã, quando cheguei em casa, passei direto por todos, ignorando as chamadas e perguntas que eram direcionadas à mim. Tranquei-me no quarto, e novamente, ignorei os pedidos de John para abrir a porta. Nem mesmo Emma conseguiu me persuadir com seu melhor jeitinho doce forjado. Fiquei o dia inteiro deitada na cama lendo, ouvindo música, desfazendo minha mochila. Não chorei. Eu só queria ficar sozinha. Muita coisa havia acontecido no final de semana e eu precisava de um tempo só pra mim, pensar, raciocinar, colocar as ideias nos eixos, as vírgulas nos lugares certos e finalmente tentar entender o que estava acontecendo comigo em relação ao e se aquele beijo era algo que pudesse ser significativo. Não pensei muito, porque cada vez que eu pensava na forma como nos beijamos e no jeito como ele se afastou, uma pontada no peito era sentida. Ao mesmo tempo em que um sorriso queria brotar dos meus lábios, um pensamento só vinha na minha cabeça “Você foi rejeitada. Ele mesmo disse que foi um erro.”
No final de tudo cheguei à conclusão de que estava confundindo as coisas. foi tão bom comigo desde o momento em que cheguei aqui, que essa gratidão estava sendo confundida e eu acabei me deixando levar. Um cara atraente disposto a ajudar sempre, um momento delicado e uma garota emocionalmente abalada... Qual seria o resultado? Desastroso, como foi o caso. Decidi que deixaria pra lá. Já estava feito e ficaria no passado. Logo tudo estaria esquecido.
O problema, no meu ponto de vista, é que ainda não estávamos nos falando. Ou melhor, ele não estava falando comigo. Por algum motivo que eu não entendia.
Adormeci, cedo de mais, com roupa e tudo em cima da colcha, agarrada a um dos travesseiros fofos já com a intenção de não acordar cedo de manhã.
Molly tentou arrancar algo quando desci para tomar café quando todos já estavam fora de casa, mas eu ainda não queria tocar no assunto. Eu não me importava que as pessoas soubessem, só não queria que eu tivesse que contar. Aquilo era um assunto encerrado pra mim. Tão morto quanto minha mãe estava.
Corri o mais rápido que minhas pernas permitiam quando desci do ônibus em direção a entrada do colégio. O segundo tempo já tinha começado há 10 minutos e o Sr. Baker não iria gostar nenhum pouco de me ver atrapalhando um dos seus excitantes (só para ele e para Lizzie) exercícios de Geometria Plana. Não havia uma alma penada quando entrei correndo no prédio. A da escola em direção ao meu armário para pegar meu livro de Geografia que ocupava dois tempos antes do intervalo. Ou melhor, tentar pegar. Aquela merda de cadeado não ajudava e eu tive que dar algumas batidas para que a porta destravasse.
- Armário filho da puta! - xinguei ofegante pela correria, socando o objeto da minha indignação. Eu sempre me embolo com ele e hoje não seria diferente, para minha sorte. - Anda, abre seu maldito!
- Você está batendo da forma errada, deixa que eu te ajudo. - ouvi uma voz masculina desconhecida atrás de mim e logo depois uma mão surgiu onde eu tinha socado. Em duas batidas à porta destravou como um passe de mágica. - Pronto.
- O seu armário também é assim? - perguntei enquanto me virava depois de achar o livro de Geografia, e encarei a pessoa que tinha me ajudado.
- Não, mas isso acontece nos filmes. O mocinho sempre sabe como ajudar.
Em todo o tempo estudando ali, nunca vi nem sequer sombra dele. Alto, olhos azuis claríssimos sendo ressaltados pelo cabelo preto liso bagunçado, que dava a impressão de que tinha acabado de acordar, mas ainda assim tinha bastante estilo e charme. O nariz fino assim como os lábios... Uma beleza delicada, claramente britânica.
- Obrigada. – agradeci ao que se passaram alguns segundos nos olhando.
- Que isso, estou aqui para ajudar. - ele sorriu mostrando dentes invejáveis quando seus olhos cruzaram com os meus. - Sou Peter Bradley.
- . - sorri de volta, ajeitando a bolsa no meu ombro, já me preparando para marchar até sala de aula. - Desculpe se estou sendo indelicada, Peter, mas é que eu já estou muito atrasada e meu professor de matemática é um saco...
- Ah, claro, tudo bem. Eu estava indo para a minha sala também. - ele deu alguns passos para trás, permitindo que eu passasse.
Não dei mais do que três passados quando me lembrei de que ele poderia estar tão perdido quanto eu fiquei um dia naquele colégio.
- Precisa de ajuda para achar sua sala? - perguntei virando para Peter que continuava no mesmo lugar, me observando.
Ele abriu a boca para responder, mas pareceu pensar melhor e voltou a fechá-la abrindo outro sorriso, enquanto me avaliava dos pés a cabeça. Por um momento, achei que ele estivesse flertando comigo.
- Na verdade sim. Você pode me ajudar? - ele veio calmamente até mim.
- Hm... - olhei para o relógio no meu pulso vendo que mais 10 minutos haviam se passado. Eu não morreria se perdesse uma aula sobre o Teorema do Ângulo externo. – Claro. Qual é a sua sala?
- 308. - ele pegou um papel no bolso da calça e me mostrou a grade de aulas. - Você também é do terceiro ano?
- Sou. A sua sala fica no final do corredor do meu andar. Vem, eu te levo até lá.
Durante o caminho Peter me contou que estava na cidade há pouco tempo, voltando dos EUA onde morou por três anos. Notando e elogiando o meu sotaque diferente, ele perguntou de onde eu era, e acabei contando, com um enorme corte nos detalhes, que tinha me mudado da Alemanha.
- Acho que você consegue daqui. - disse quando paramos diante da porta da minha sala. - É só seguir até o final que você vai encontrar sua sala.
- Obrigada, . - ele deu mais um dos seus sorrisos como tinha feito no caminho até ali e novamente, eu tive a sensação de flerte no ar. - Você foi bem prestativa.
- Obrigada você por me salvar de assistir o Sr. Barker ter orgasmos achando medidas de um ângulo. - apontei para a porta, ouvindo a voz do professor dentro da sala. - Infelizmente você também terá aula com ele ainda hoje.
- Ele é tão ruim assim?
- Você não prestou atenção no papo dos orgasmos? - perguntei já com a mão na maçaneta, fazendo cara de sofrida. - Nos vemos no intervalo.
De primeira achei que todos estivessem olhando pra mim, mas não, logo toda a atenção da turma e até mesmo do professor se focou na pessoa que estava na porta. Houve um coro de “eu não acredito” de quase todos os alunos e eu olhei, sem entender nada, para Peter que continuava no mesmo lugar. Foi a cena mais estranha da minha vida.
- Peter Bradley? – o Sr. Barker perguntou incrédulo, ajeitando o próprio óculos para ter certeza do que estava vendo.
- Em carne e osso. – Peter sorriu como se ninguém ali estivesse quase tendo um ataque cardíaco por sua causa. Como se fosse ele estivesse gostando de toda aquela atenção.
O Sr. Barker só se tocou na cara patética que estava fazendo quando Peter lhe deu um tchauzinho, lançando um último olhar para mim antes de sumir de vista. Eu fechei a porta e a primeira pessoa pela qual procurei foi Lizzie, mas ela estava concentrada em alguma coisa a mais. Os olhos fixos no caderno na típica mania de quando estava resolvendo uma questão dificílima. Nem mesmo quando sentei na fileira ao lado, sua atenção foi desviada.
- O que ele está fazendo aqui? – a escutei perguntar retoricamente olhando para o próprio caderno com uma expressão desconfiada, virando a cabeça para mim um pouco depois. - Desde quando, como e aonde você o conheceu?
Seu tom era um tanto quanto... Alarmado.
- Por que tudo isso, Lizzie?
Eu olhei para ela sem saber direito o que estava acontecendo. De certa forma ninguém ali sabia exatamente o que aquilo significava. De um lado eu que não compreendia o alvoroço que surgiu tão repente em volta da figura de Peter e do outro, Lizzie e o resto dos estudantes, que ficaram espantados com “a volta de Peter Bradley”. - Isso não vai certo. Não deu da primeira vez e não vai ser agora que vai dar. – ela cochichou, fingindo olhar para as anotações que o professor fazia no quadro.
- Do que você está falando? – perguntei, ignorando alguns olhares espantados e fuziladores ao meu redor, especialmente vindo da parte feminina da sala.
O professor virou na hora, não dando tempo para que ela me respondesse. Houve mais cochichos durante os poucos minutos que restava da aula, mas não vindo de nós. Uma menina atrás de mim disse que “agora é que o circo vai pegar fogo” não me dando nenhuma brecha de entendimento. Quando a aula terminou os cochichos se tornaram conversas paralelas e até algumas pessoas saíram para fofocar sobre a novidade. Eu tentei trocar algumas palavras com Lizzie, mas ela ainda estava pensativa demais. Parecia uma retardada, essa era a verdade. De fato, não só ela. Fiz menção de ir até a sala das meninas tal ponto era minha curiosidade, mas quando levantei o professor de Geografia chegou e claro, já por dentro de tudo, mas não mencionou nada.
Lizzie só pareceu se recuperar do “choque” no final do segundo tempo e voltou a responder prontamente as perguntas feitas pelo Sr. Carter enquanto eu pensava em algo que pudesse esclarecer qual era o problema de todo mundo. Mandei uma mensagem para o celular de Katie e depois para Cassie, mas nenhuma delas me respondeu. Definitivamente era um complô contra mim.
Lizzie saiu desembestada para o corredor quando o sinal do intervalo tocou, me pegando desprevenida, já que a intenção era encurralá-la antes que ela conseguisse dar dois passos mais do que o necessário. A encontrei no canto do corredor, perto da escada, conversando com Cassie e Katie, que estavam tão afoitas quanto ela.
- Imagina a merda que vai ser agora? – Cassie perguntou para as duas antes de me ver chegando e abrir um sorriso enorme, os olhos brilhando como sempre. – , vem cá! Já tá sabendo das novidades?
- Não, a Lizzie não me contou nada. – disse impaciente assim que cheguei perto delas.
- Você não contou ainda? – Katie perguntou pra Lizzie.
- Não deu tempo. – a outra revirou os olhos para Katie. – Vamos conversar sobre isso numa mesa enquanto eu como.
Sentamos na mesa de sempre, que ficava perto da cantina onde Lizzie e Cassie poderiam devorar todos os salgadinhos no estoque e ao mesmo tempo poderíamos ver os meninos da mesa deles. estava sentado na mesa conversando com com uma cara nada boa.
- Pronto, agora podem começar ou vocês vão continuar com o momento gordice? – ironizei vendo dois potes de pão de queijo serem postos bem na minha frente.
- Eu tô com a boca cheia. – Cassie fez bico escondendo seu pote de Katie que tentava roubar um pão de queijo.
- Peter Bradley era de outra escola do outro lado da cidade, a Pocklington School, onde era capitão do time. – Lizzie começou falando num tom um pouco baixo enquanto eu e o resto das meninas escutávamos atentamente. - Ele namorou por um tempo uma menina chamada Millie Murphy, e quando terminaram, o saiu com ela.
- Então isso tudo é por que o saiu com uma ex do Peter? – perguntei já achando toda aquela atenção exagerada.
- Não, . Isso não tem nada a ver com ela. Me escuta, eu ainda não terminei! – ela levantou a mão para que eu me calasse quando abri a boca. – Desde aquela época o já era capitão. Um não ia com a cara do outro, mas não por causa da Millie e sim porque ambos são competitivos e não queriam perder. Era uma briga dentro do campo e fora dele. Por vezes eles quase brigaram em festas, jogando piadinhas e tudo mais... Ainda mais quando o time do Peter ganhava. Ele fazia questão de irritar o e o resto dos meninos também, bem coisa de adversário, sabe?
- Coisa de criança, isso sim!
- Ambos os times foram para a final, toda a cidade estava lá, - ela continuou ignorando o meu comentário. - e bem no meio do jogo, que nós estávamos ganhando, o soltou uma piadinha para o Bradley, que acabou devolvendo.
- adora tirar uma com a cara dos outros. Qual foi a piadinha imbecil?
- Disse que o Bradley perdia tudo pra ele, até a namorada. – Katie se segurou para não rir, mas não teve sucesso, recebendo uma careta de Lizzie. – Vamos, isso não deixa de ser verdade, deixa?
- Você adora colocar lenha de fogueira! – ela rebateu.
- Lizzie, continue, por favor? – pedi antes que Katie respondesse.
- Enfim, - Lizzie respirou fundo. - até aquele momento quase ninguém sabia, incluindo o próprio Bradley, que ainda era apaixonado pela garota. Depois disso, os dois se atracaram enquanto o jogo rolava! Os meninos tentaram separar, mas acabou que a briga só aumentou, todos os jogadores caíram na porrada. Foi horrível, você não tem noção! O jogo foi suspenso e todo mundo foi arrastado para fora, o pessoal da arquibancada vaiou, ficou com um olho roxo, a camisa toda rasgada, o nariz sangrando, quebrou a mão socando um cara, abriu a sobrancelha e ficou com um olho roxo também, quebrou um braço, ficou todo esfolado e uma marca na bochecha que até hoje não sabemos o que foi... Isso tudo sem contar com o resto do time, né? A polícia teve que separar todo mundo e foram levados para a delegacia. Prestaram queixa, ameaçaram ter processo... Resumindo, foi como se uma bomba tivesse explodido em York, jogando merda pra tudo quanto é lado. Os pais do Bradley o mandaram para morar nos EUA e depois foram também e o acabou suspenso do time por uns tempos... Foi complicado para ele voltar a ser o capitão.
- Então foi por isso que todo mundo ficou tão chocado...
- É. Imagina a confusão que vai ser daqui pra frente com os dois estudando na mesma escola? Não vai dar certo. Não sei nem como ele conseguiu se matricular aqui. – Cassie falou triste, olhando para dentro do seu pote para ter certeza de que não havia sobrado mais nenhum pão de queijo para contar história.
- Mas o Peter parece ser um cara legal, ele foi tão simpático comigo. – tentei convencê-las. - Além do mais, não acho que as coisas possam acabar como antes, já se passou tanto tempo...
- Eu não sei, não confiaria muito nisso. ainda fica puto quando tocamos no assunto. – Lizzie apontou para a mesa dos meninos. – Em relação ao Peter, não posso julgá-lo. Nunca trocamos mais do que três palavras...
- Shiu, os meninos estão chegando. – Katie avisou pouco antes de abraçar Cassie por trás.
- Oi, meninas! – nos cumprimentou bem mais humorado do que o normal. – E ai, , tudo bem?
- Tudo sim. – balancei a cabeça afirmativamente recebendo um beijo na bochecha dele. – E pelo visto com você também. Posso saber qual é o motivo de tanta felicidade?
- Ele conheceu uma garota sábado. – piscou pra mim, apontando discretamente para Lizzie, que se mostrou inquieta ao meu lado. – Está todo apaixonadinho!
- Não exagere, . – sorriu convencido. – Ela é bem legal, , vocês vão se conhecer qualquer dia desses.
- Vou ficar esperando então. – pisquei pra ele, quase caindo na gargalhada com a cara carrancuda que Lizzie assumira.
- Mas então, ... – ela aumentou o tom de voz, tentando parecer indiferente. Parecer. - Agora me conte tudo que aconteceu em Kassel, aposto que as coisas estavam ótimas para você não ter tempo de me responder.
- Não foi tão bom quanto você está pensando... – olhei significadamente para antes de baixar os olhos. – Eu acho que vou ao banheiro, já volto.
Senti os olhos dele, assim como dos meus amigos, em mim quando levantei. Era óbvio que todos entenderam que algo nada bom tinha acontecido.
- Pode contar a eles por mim? – sussurrei quando passei por ele. Seus olhos procuraram pelos meus, mas não ousei encará-lo. Eu havia descoberto que era muito mais fácil pensar com clareza perto dele sem olhá-lo diretamente.
Ele confirmou com a cabeça.
- Não precisa editar nada. Só não diga na minha frente. – disse antes de me afastar.
Não sei bem o jeito como ele contou a todo mundo sobre as coisas que presenciou em Kassel. Só sei que quando retornei todos estavam com os olhos baixos e ninguém ousou tocar no assunto do fim de semana novamente. ficou falando até o final do intervalo, sobre a festa de aniversário da cidade.
As outras aulas não se arrastaram como pensei que aconteceria. Quando vi, já estava com Lizzie, ainda carrancuda, e as outras ao meu lado, indo em direção ao estacionamento. logo se juntou a nós, me surpreendendo pelo avanço que ele e Katie fizeram no tempo em que fiquei fora. Já dava para perceber que logo voltariam a namorar.
- ! – olhei para o lado procurando quem me chamava e dei de cara com Peter, sozinho, encostado no carro logo a minha frente. Parecia até que estava me esperando.
- Hm, vocês podem ir, eu vou ter que esperar o e o mesmo...
De soslaio vi rolar os olhos, diminuindo o passo para me acompanhar.
- Vamos, ! – Katie o puxou pelo braço. – Você vai dar uma carona pra mim hoje. – ela sorriu pra mim e Lizzie tentou fazer o mesmo. - Tchau, !
Fui em direção ao carro de Peter, recebendo um sorriso bem receptivo.
- Você não me contou que é amiga do . – ele poderia ter disfarçado o nojo que tinha ao pronunciar o sobrenome de , mas seu tom não mentia.
- E você não me contou que já arranjou confusão com os meus amigos. – o sorriso dele vacilou um pouco com a minha brincadeira. – Principalmente com o .
- Já contaram meus podres, é?
- Não, só contaram os fatos. Não se preocupe, a pessoa que me contou foi imparcial. – olhei atentamente para o rosto dele para ver sua reação com o que falaria em seguida. – Além do mais, eu saberia de qualquer forma já que eu e ele moramos na mesma casa.
A cara de Peter se contorceu, me fazendo rir.
- Eu sabia que você faria essa cara!
- Eu não acredito que você e ele moram de baixo do mesmo teto. Você é tão, tão...
- Tão?
- Tão educada. – ele falou espontaneamente. – Vocês não parecem ser parentes.
- E não somos! – exclamei mais do que o necessário. – Quero dizer, meu pai é casado com a mãe dele, e temos a Emma que é nossa irmã, mas isso não nos faz ser parentes, faz?
- Não completamente. – ele deu de ombros. – Mas eu não quero falar sobre ele... Te chamei aqui por outro motivo.
Ele se desencostou do carro assumindo uma postura mais ereta, os olhos brilhando.
- E qual seria ele então?
- Você já deve tá sabendo da festa da cidade – ele coçou a nuca parecendo sem jeito. – e eu fiquei pensando se você quer ir comigo.
- Ir com você? – por um momento fiquei sem saber o que dizer.
- Isso parece tão horrível assim?
- Não, claro que não, Peter! – qual mulher em sã consciência acharia horrível ser chamada pra sair com um homem daquele? – É que eu não tenho certeza se quero ir.
- Vamos, é legal. Tem desfile da polícia, algodão doce, maçã do amor, aquelas barraquinhas toscas de tiro ao alvo... Eu posso até ganhar um ursinho gigante pra você. Eu sei que tô meio por fora das coisas que acontecem aqui, mas acho que ainda tem tudo isso. Além do mais, você foi legal comigo hoje mais cedo e eu quero agradecer.
- Você não precisa fazer isso, eu...
- Não é sacrifício nenhum. – ele pegou a minha mão com cuidado. – Vamos?
- Bom, eu...
- ? – me assustei com a voz de atrás de mim. Ele estava com uma cara séria, o maxilar travado como quando discutiu com Sam. estava ao seu lado, sem saber como agir assim como eu. Por algum motivo eu quis me enfiar dentro de um buraco vendo os olhos de ambos de direcionaram para a mão que Peter segurava. – Vamos embora!
Eu quis mandá-lo se fuder, mas percebi que ele já estava muito irritado.
- Já estou indo. – disse baixinho, escondendo a minha irritação por seu jeito mandão.
Ele não se moveu.
- Estou esperando. – avisou impaciente.
- Estou falando com ela, não tá vendo? – Peter largou a minha mão, se intrometendo, também assumindo um jeito mandão.
- Eu já disse que estou indo, . – respirei fundo. A última coisa que eu queria é que eles brigassem novamente. - Me esperem no carro!
- Vamos, . A já vem. – deu um tampinha no ombro do amigo, sibilando um “Não demora”, recebendo um sinal positivo da minha parte.
Ele puxou que o acompanhou claramente contrariado.
- Eu preciso ir, Peter. está irritado e não estamos nos falando direito. Não quero mais confusão.
- Eu sei muito bem porque ele está irritado... – ele pareceu perdido enquanto pensava em algo, olhando para o Land Rover de . Antes que eu perguntasse do que estava falando, ele voltou seus olhos para mim e sorriu. – Você vai comigo a festa?
- Contanto que não seja uma desculpa para irritar o .
- Claro que não, . – ele balançou a cabeça, ofendido. – está longe de ser o motivo.
- Então tudo bem, eu vou com você.
- Ótimo! – ele assumiu uma postura boba. – Combinamos o horário depois então. Tchau.
- Tchau. – sorri antes de começar a caminhar.
e calaram a boca assim que abri a porta e sentei no banco do carona. Ninguém ousou abrir a boca. Eu estava irritada pela maneira que agiu e não deixei de esconder isso. No meio do caminho Molly ligou para o meu celular avisando que não era para irmos pegar Emma porque ela iria direto pra casa de uma amiga.
- Tudo bem, vamos parar com isso. - disse de repente, lançando olhares muito suspeitos pra gente pelo retrovisor do carro. - Vamos lá, me contem o que está acontecendo. Vocês estão muito estranhos um com o outro.
Eu engoli em seco. É, não estávamos brigando, estávamos nos evitando, pelo menos ele estava me evitando. A pergunta é: Por que estava fazendo isso?
fingiu que nem ouviu a pergunta e eu olhei pela janela, para o tráfego de segunda de York.
- Não vão mesmo? – insistiu, depois do nosso silêncio.
- Não aconteceu nada, cara. - disse seco. - Você já me perguntou isso no colégio, no estacionamento e agora!
Ele olhou de mim para e dele para mim. O olhar de suspeita de novo.
- Se não me contarem eu vou tirar minhas próprias conclusões sabe... – ele continuou – Vou achar que é pior do que realmente é.
Ele continuou com os olhares de suspeita sobre nós. Eu podia perceber que nunca iria ceder com aquilo, ele provavelmente já estava acostumado a lidar com a chantagem barata do amigo, mas ao mesmo tempo, os nós de seus dedos estavam brancos de tanta força que ele usava pra segurar o volante. Por um instante eu devaneei sobre como aquele volante estava sofrendo com os dedos fortes de os apertando daquele jeito.
- Ok... – desistiu, fechando a cara. - Vocês que se resolvam então!
O silêncio continuou até descer e depois no caminho para casa, e só pra implicar, bati com toda a minha força a porta quando desci, tendo um resmungo como resposta.
Passei o resto da tarde trancada no quarto, ouvindo algumas músicas novas enquanto fazia os deveres do dia. Do outro lado da porta, a casa estava um silêncio só. Nem passos eram ouvidos no corredor ou na escada. Parecia até que eu estava sozinha. Quando terminei tudo, sentei na minha janela olhando, desligada de tudo ao meu redor, como se estivesse em piloto automático, a vizinhança até o sol se por, lembrando do dia que em que me levou no seu lugar especial. Eu queria tanto ir lá novamente. Acabei cochilando com a cabeça encostada numa coluna, só acordando com o céu totalmente escuro, ouvindo alguém tentar entrar no meu quarto, e quando a pessoa viu que estava trancada, as batidas começaram. Não levantei para abrir, cheia de preguiça, esperando que a pessoa pensasse que eu estava morta ou tomando banho, e desistisse.
Soltei um gemido baixo quando as batidas não cessaram, ouvindo a voz de Emma.
- ? – ela bateu um pouco mais forte. – Você já acordou?
Ela tentou virar a maçaneta de novo. Eu queria mandá-la ir embora, mas ela não tinha culpa dos meus problemas. Talvez Emma só estivesse preocupada comigo, por ter chegado mais cedo da minha viagem e pelo modo como agi ontem, não que ela já não soubesse de tudo o que aconteceu. Pelo pouco que eu já conhecia da minha irmãzinha e seu gênio, dava pra saber que, se Emma não bombardeou todos com perguntas, provavelmente ficou escondida no topo da escada escutando toda a conversa que teve com Helen e John. O que eu agradeceria muito, já que não precisaria lhe contar nada.
Depois de colocar pensamentos e ordem e uma noite bem dormida na minha cama, eu entendi que aquilo era uma coisa que eu queria apagar da minha vida. Passar uma borracha, como se nunca tivesse acontecido, como se minha vida estivesse começando agora, em York, com a minha nova família. E pensando nisso, talvez tivesse sido melhor se eu tivesse me desligado de tudo e todos quando minha vida deu uma volta de 180º. Eu só estava esperando qual seria a próxima notícia que me abalaria novamente e quem faria parte dela.
- Anda, eu sei que você tá aí dentro me ouvindo.
Eu sabia que ela não sairia dali enquanto não falasse cara a cara comigo. Acendi a luz principal do quarto, destrancando a porta.
- Oi! – ela sorriu assim que me viu. – Por que trancou?
Dei espaço para que ela entrasse e no mesmo instante, Emma estava empoleirada na beirada da minha cama, enquanto eu voltava a fechar a porta.
- Pra você não me acordar. – deitei na cama, me estirando por completo só deixando livre o espacinho que já era ocupado pelo corpinho dela.
- Você está melhor? – ela perguntou meio insegura, olhando para mim.
- Acho que estou melhor do que ontem... - dei um sorrisinho triste.
- me disse que você quebrou o nariz da sua amiga piranha... – ela sorriu maldosa enquanto fazia essa observação excitadamente.
Eu virei meio incrédula para fitá-la melhor, não acreditando que teria lhe dito algo assim e não acreditando que a palavra “piranha” tivesse saído da boca daquela graciosa criança de 9 anos.
- Bom, – ela começou, vendo o meu olhar – ele não usou essas palavras... Ele também não me contou a história toda, se é isso que preocupa você. Ele só me disse que você quebrou o nariz de uma garota quando me pegou ouvindo no topo da escada... Mamãe e papai não gostaram, mas eu escutei de qualquer maneira.
- Que bom, seria um fardo eu ter que contar tudo. - ela pareceu meio desapontada pelas minhas palavras, mas ainda assim sorriu largamente. - Vou tomar uma ducha pra jantar, você me espera?
- Claro! – ela deitou na minha cama quando levantei, pegando o controle do som e colocando "No You Girl" do Franz Ferdinand pra tocar.
Eu entrei no banheiro e abri a porta do box, enquanto girava a válvula do meu chuveirão de ferro e deixava a água quente cair no piso branco. A água chegava a deixar a minha pele vermelha, mas eu não me importava. Já estava praticamente dormente quando a voz de Emma me puxou novamente para a realidade.
- No, you girls never know how you make a boy feel... - ela cantou toda empolgada do outro lado. - How you make a boy feel? How you make a boy...
Eu sorri, enrolando o meu cabelo numa toalha e coloquei meu roupão, junto com as pantufas de joaninhas, saindo do banheiro.
- Sometimes I say stupid things that I think, well, I mean, I... Sometimes I think the stupidest things... - ela cantava e dançava em cima da minha cama fazendo o controle do som de microfone.
- Because I never wonder of how the girl feels... Oh, how the girl feels... - a imitei fazendo uma voz fina, dançando pelo quarto usando a escova de cabelo que estava nas mãos. - No, you boys never care, oh, no, you boys will never care...
- Eu amo essa música! – Emma disse ofegante, voltando a sentar na cama com uma criança comportada enquanto outra música começava a tocar. – Dá vontade de dançar o tempo inteiro.
- Aham, – concordei entrando no closet para pegar um vestido simples de alcinha. Eu sabia que Emma me animaria mais, meu astral parecia muito melhor do que antes. – ela é muito animada.
- Hm, ... – ela me chamou baixinho, me esperando sentar ao seu lado, penteando o cabelo, para continuar. - Você vai passar o natal com a gente agora, não é?
- Sim, Emma. - disse incerta. Eu não havia pensado no natal nem mesmo antes de ir a York. - Mas ainda é cedo para pensar nisso, não acha?
- Eu sei, só queria ter certeza. - ela fez uma carinha fofa, toda feliz com hipótese de passarmos o natal juntas pela primeira vez. - Você vai adorar conhecer a família, principalmente a tia Abigail!
- Família? - meu estômago deu uma reviravolta quando imaginei uma casa lotada de pessoas me olhando como se eu fosse um ser de outro mundo. Eu estava visualizando que passaria pela mesma sensação do primeiro dia de aula. - Onde vocês costumam passar o natal?
- Ah, cada ano passamos na casa de alguém sabe? Ano passado foi nas montanhas. até me ensinou a esquiar... - ela contou como se fosse uma pessoa super vivida. - Pelo que mamãe disse acho que vai ser na casa da tia Abigail, na França. Devemos esquiar por lá também.
- Eu não sei esquiar. - ela me olhou chocada, me fazendo sentir como um grande bicho do mato. - Eu nunca tentei...
- Você morava na Alemanha e nunca esquiou? - ela perguntou inocentemente, se arrependendo depois de ter tocado na borda da minha ferida.
É claro que algo na minha expressão a fez perder seu ar de curiosidade. Ela parecia culpada. Sim, eu senti um pouco de angústia com a menção do meu país, mas também não queria que Emma conversasse comigo como se estivesse pisando em ovos. Além de , ela era a única espontânea o suficiente naquela casa para não ficar me olhando com pena, e eu não queria perder isso. Eu forcei um sorriso tentando amenizar as coisas.
- Tudo bem, Emma. – eu passei a mão na cabecinha dela, mexendo em suas trancinhas. – Não precisa conversar comigo como se estivesse andando num campo minado. Podemos falar sobre qualquer coisa, ok?
- Eu sei... – ela fez uma careta e nem assim conseguiu ficar feia. – Mas isso machuca você.
- Machuca. – assenti tristonha – Mas eu aguento.
- Sei que sim. – ela falou com uma maturidade invejável. Ela tinha mesmo 9 anos? – Mas não quero ver você triste.
Eu abracei a minha irmã. Provavelmente pela primeira vez desde que cheguei aqui. Emma se preocupava comigo, mesmo sendo tão pequena, mesmo que ela devesse se preocupar apenas com suas Barbies ou a lição de casa. Ela estava longe de ser uma menininha rica e fútil, interessada apenas nas coisas que lhe convém. De repente eu me dei conta de que tinha Emma e aquilo era muito mais do que suficiente, talvez fosse até mais do que eu merecia. Talvez eu devesse abrir bem os meus olhos e não ficar lamentando sobre o que perdi e sim o que ganhei com tudo que aconteceu comigo nesse período.
Emma deu tapinhas desajeitados nas minhas costas, provavelmente constrangida e surpresa com a minha atitude.
- Não se preocupe. – disse com a voz embargada, um tanto emocionada, quando a soltei. – As coisas vão ficar bem. Só preciso de um tempinho, entende? Mas não precisa medir suas palavras comigo.
Emma assentiu e eu me surpreendi por de repente parecer tão otimista sem ter uma ajudinha de . Eu não falei da boca pra fora, falei de verdade. Claro que não iria parar de doer da noite para o dia. A sensação da perda da minha mãe diminuiria, mas sempre estaria comigo. A da traição ainda era recente, mas como tudo na vida, iria passar, seria esquecido. Eu sou forte o bastante para isso.
- Será que dá pra vocês diminuírem esse som? Tem alguém aqui tentando ver TV! - entrou daquele jeito arrogante e irritadinho no meu quarto, sem, como sempre, bater na porta.
- Ah, você ainda não melhorou essa cara, ? - Emma foi até ele querendo enfrentá-lo com sua baixa estatura. - Você anda muito chato!
- Cala a boca, Emma. - ele disse impaciente. - Eu só quero que vocês diminuam o volume.
- Você não precisava entrar desse jeito... - desliguei o rádio, apontando para o controle. – Pronto. Satisfeito?
- Pessoal, chegamos! - ouvi a voz de Helen no hall.
- Vou descer. O clima aqui tá pesado. - Emma disse irritada, nos deixando sozinhos. Eu e ele nos encaramos sérios, como se estivéssemos competindo para quem estava fazendo a cara mais fechada e feia. Não cedi, mas fui andando calmamente, encostando no outro batente da porta, de frente pra ele. Percebi que se encostou mais, grudando seu corpo na madeira para que nossos corpos não se tocassem.
- perguntou no carro, mas você não respondeu então eu quero saber. - disse olhando bem no fundo dos olhos dele. parecia ansioso, e ao mesmo tempo profundamente irritado. - O que está acontecendo, ? Por que você está me tratando desse jeito?
- Por que todo mundo acha que tem algo acontecendo comigo? - ele perguntou em tom de voz vacilante, os olhos enigmático, cobertos por uma camada de proteção para que não me deixasse ver nada além da cor. - Eu não tenho problema algum, .
- É por causa do nosso beijo? - perguntei sem pensar, a lembrança do nosso momento íntimo fluindo diante dos meus olhos. pareceu estar vivenciando a mesma coisa que eu, mas novamente não consegui entender o que passava com ele. Seus olhos foram baixados para que eu não pudesse ver mais nada.
Eu queria que ele me encarasse. Queria que ele me dissesse o que estava acontecendo porque de fato, eu não era tão forte quanto ele, eu não tinha tanta resistência a não falar com ele. A não tocar, acidentalmente, nele. A grande verdade disso tudo é que eu gostava de estar com ele. Eu gostava de conversar com ele, gostava do jeito como ele se preocupava comigo, do jeito como sorria pra mim com os olhos brilhando mais que diamantes. Eu gostava dele mais do que queria admitir. Sentia que não conseguiria ficar naquela guerrinha por muito mais tempo.
- Não, claro que não. - ele respirou fundo, enfiando as mãos dentro do bolso da calça por não saber o que fazer com elas. - Eu já disse que aquilo foi um erro.
- É, eu sei, - disse com a voz baixa sentindo aquela vontade no peito. Meus olhos queimaram um pouco, mas depois de algumas piscadas eles voltaram ao normal. - você disse. Mas parece que isso está incomodando você de alguma forma.
- Não é nada disso, . Acredite em mim. Só estou um pouco estressado, mas logo vai passar.
- Tudo bem então, vamos deixar tudo pra lá, ok? Esquecer... - outra pontada. Eu precisava sair dali o mais rápido possível. - Não quero mais brigar ou ficar num clima ruim com você.
- Eu também não. - ele disse inquieto. - Desculpa, ok?
- Tudo bem, . - dei de ombros, dando um sorriso fechado e sem graça. - Eu vou descer agora, vou ajudar Emma e Helen com o jantar, não demora.
Olhos dele estavam gravados nas minhas costas quando passei, descendo as escadas. Meu coração martelava dentro do peito com a possibilidade de voltarmos a ser como antes, com ele implicando, sendo meu amigo, e ao mesmo tempo, martelava por saber que não passaria disso.

Capítulo 11.

Emma entrou silenciosamente no quarto usando uma saia verde clara soltinha até um pouco acima dos joelhos, o cabelo liso preso num rabo-de-cabelo e nos pés um par de sapatos boneca de saltinho combinando com meias brancas abaixo do joelho. Parecia uma boneca francesa vintage.
Ela sentou na minha cama sem dizer uma única palavra, olhando para o meu reflexo no espelho do banheiro enquanto eu passava mais uma camada de rímel e colocava meu cabelo para frente com o propósito de fazer uma trança de lado.
- Você tá tão quietinha hoje. – comentei depois de um tempo, vendo pelo espelho uma careta. – O que aconteceu?
- Estou um pouco nervosa. O Nicholas vai estar lá também. – ela respondeu com a voz desanimada.
- E isso é ruim? Você tá tão linda. – dei mais alguns retoques na trança, deixando-a um pouco mais frouxa com alguns fios soltinhos para fica bem natural, antes de sair do banheiro em direção ao closet.
- Isso é péssimo! O vai ficar atrás de mim igual a cão de guarda e já deixou isso bem claro. – ela choramingou indignada enquanto eu vestia uma saia de cintura alta e um top. – Minha vida social vai ser destruída e eu não posso impedir!
- Ele não vai fazer nada, Emma. Eu não vou deixar. – abotoei uma blusa transparente por cima do top. – Até porque o pessoal vai estar lá e ele vai se esquecer de você.
- Tomara, você tem sorte dele não pegar no seu pé.
Ela estava certa. não voltou mais a pegar no meu pé depois da conversa que tivemos dias atrás. As coisas voltaram a ser como antes. Ele voltou a brincar comigo, a sorrir e a me fazer sorrir também. Voltou a ser doce, meu amigo.
A troca de olhares ficou constante. Passei a sentir meus movimentos observados milimetricamente o tempo inteiro.
Mas por outro lado, eu nunca conseguia decifrar o que estava se passando na sua cabeça. Às vezes parecia estar a ponto de explodir de tanta raiva que seus olhos transmitiam quando me olhava, sem que ela fosse mostrada em nenhum dos seus atos, e no segundo seguinte, parecia que iria sorrir daquele jeito babante dele, prestes a dizer algo doce, que pudesse me deixar sem fala. A única coisa que ainda estava diferente entre nós era que, apesar de nos fitarmos constantemente, ele continuava me evitando. Não voltamos a ter mais nenhum típico de contato físico por mais de alguns segundos.
E eu, de certa forma, lamentava por isso.
- , você ainda tá aí? – a voz de Emma fora do closet me fez voltar à realidade em que eu me flagrei parada prestes a terminar de colocar o sapato.
- Tô sim, Emma. – levantei rápido do puff, dando uma última checada no cordão de pérolas brancas, colocando um cardigã mais comprido. – Tô escutando tudo.
- É, tô vendo. – ela resmungou. – Vou lá embaixo porque a mamãe tá me chamando pra ajudar com os salgados.
- Tudo bem. – quando sai do closet Emma já não estava mais no quarto.
O meu celular em cima da cama começou a tocar, aparecendo o nome de Lizzie no display.
- Oi! – disse equilibrando o celular entre a bochecha e o ombro dando uma última verificada no espelho.
- Tá pronta?
- Tô sim. As meninas vão com a gente?
- Não. Elas vão com seus respectivos machos. Me espera na porta que eu já tô chegando.
Joguei o celular na bolsinha, descendo as escadas até a cozinha, encontrando Helen e Emma cobrindo algumas comidas, enquanto estava encostado na bancada, comendo uma maçã.
- , você poderia levar um dos bolos com você? Acho que não vai dar no carro. - Helen pediu apontando para o prato já coberto em cima da mesa.
Eu assenti com a cabeça.
- Você não vai com a gente? - me olhou de cima a baixo, sem nenhuma descrição, enquanto me questionava surpreso quase engasgando com um pedaço da maçã.
- Não, não, vou de carona – fiz o mesmo, reprimindo um suspiro, achando muito sexy a escolha da camisa xadrez por cima de uma camiseta branca com uma calça jeans de lavagem clara. – Lizzie vai passar aqui.
- Ah... Com a Lizzie – ele soltou parecendo aliviado. – Só vocês duas?
- Por que tá interrogando minha irmã, ? - Emma cruzou os bracinhos. - Não tá bom você encher o meu saco, tem que ser fazer o mesmo com ela?
- Você é muito pentelha. - ele disse dando uma mastigada raivosamente. - Não pense que vou esquecer você!
Emma soltou um gritinho indignado, cerrando os olhos enquanto marchava para o quintal, fazendo rir.
- Deixe sua irmã em paz, . - Helen advertiu o filho.
- Só estou brincando, mãe. - ele piscou pra mim ainda sorrindo. - Ela fica igualzinha a quando está irritada.
- Muito engraçado. - ironizei, escutando a buzina do carro de Lizzie.
Fui até a mesa, pegando o prato com o bolo enquanto Helen ia comigo até o hall para abrir a porta, acenando para Lizzie que deu a volta no carro para me ajudar.
Fomos ouvindo um CD com músicas aleatórias enquanto ela me contava que por pouco sua mãe não pegou uma das ficantes de George andando apenas de calcinha e sutiã pelo segundo andar da sua casa.
- Eu só o escutei falando “anda, anda, minha mãe chegou!” – ela contou, recuperando o fôlego depois que um ataque de risadas que tivemos. – Com certeza essa nunca mais vai olhar pra cara do George.
- Pelo menos essa foi mais rápida, né? – me controlei para não gargalhar mais imaginando a cena da menina saindo seminua pela janela. – A última não teve tanta sorte.
- Você sabe que minha mãe, como psicóloga, não acha saudável toda essa promiscuidade, já o papai acha que é super normal, afinal ele é homem.
- É, mas o seu pai mora em outra cidade então é a sua mãe quem precisa ficar no controle, é como a minha mãe... – eu parei de falar por alguns segundos, absorvendo o poder das minhas palavras. Lizzie entendeu o que estava acontecendo, pois logo o carro ficou silencioso, exceto pelo rádio e o motor. Eu olhei para o lado de fora, dando um sorriso sem humor. Não queria ficar triste logo hoje. – Quero dizer, era. Minha mãe que mantinha o controle lá em casa.
- Vamos falar sobre outra coisa, ok? – Lizzie sugeriu de uma forma forçada, querendo quebrar aqueles poucos segundos de tensão. – Parece que Katie e finalmente de entenderam.
- É, Cassie me disse pelo MSN que eles saíram ontem a noite... Espero que tenha dado tudo certo. Já não aguentava mais os ataques de ciúmes que eles têm um do outro. Em falar nisso, você faltou a nossa conferência.
Ela bufou e aposto que também revirou os olhos antes de sentenciar com a voz indiferente:
- Carl e eu brigamos pelo telefone. Ficamos a noite inteira discutindo.
- Por quê?
- Por que ele é um babaca! – ela disse irritada, quase socando o volante. – Você sabe que eu não ligo dele sair com os amigos, mas quando eu digo que vou sair com vocês, ele enche o meu saco! Aí quando eu disse isso, fudeu né, ele me chamou de criança, mimada da mamãe... Quer impor coisas como se fosse meu pai! Ele me irrita com essa mania de querer mandar em mim! Sinceramente, eu tô ficando cansada disso. São sempre briguinhas por motivos ridículos. Eu não sirvo pra fica aguentando esse tipo de coisa... Ainda sou muito nova!
- Por que você ainda está com ele então?
- Eu sei que é um pensamento egoísta, mas às vezes é bom ter um cara que realmente goste de você mais do que você gosta dele, e eu sei que o Carl é essa pessoa. – ela olhou pra mim brevemente antes de acelerar quando o sinal abriu, mas mesmo assim eu pude detectar uma sombra de tristeza passando por eles.
- Vocês são tão diferentes, pensam de maneira diferente. E nesse caso, não acho que os opostos se atraem. – eu sabia que não era aquilo que ela gostaria de ouvir, mas mesmo assim continuei. - Eu gosto dele, só que não acho que ele seja o cara certo pra você. Você sabe quem eu acho que seja.
Eu realmente não achava Carl fosse uma má pessoa, eu sabia o quanto ele gostava de Lizzie. Só que me incomodava à forma como ele conduzia seu namoro com ela. Ele sempre estava criticando algo ou ficava irritado quando as coisas não eram como ele queria.
- Você tem sua opinião e eu tenho a minha. – ela disse um tanto quanto grosseira. – Esquece o que eu falei, as coisas vão se ajeitar como sempre acontece e, por favor, vamos mudar de assunto agora está bem?
Era fato que iríamos brigar se eu insistisse porque isso já acorrera outras vezes, então fiz o que ela pediu e começamos a conversar coisas aleatórias da semana, mesmo que dentro de mim, as coisas não estivessem de acordo com o que ela estava fazendo consigo mesma. Lizzie se tornou minha melhor amiga e eu não queria vê-la sofrendo. Uma das coisas que aprendi com a minha mãe é que você pode aconselhar e tentar ajudar uma amiga ou um amigo, mas não pode abrigá-la a fazer o que você quer. Às vezes as pessoas precisam sentir na pele o erro que estão cometendo, por mais que as pessoas que estão a sua volta evitem isso. No final de tudo, eu não poderia me meter mais. A decisão era dela.
Chegamos em North Yorkshire Moors, um dos grandes e mais bonitos parques da cidade. A planície com um verde vivo estava cercada por mesas de piquenique com direito a bancos extensos de madeira para que as pessoas pudessem sentar para comer ou apenas jogar conversa fora. Fiquei maravilhada com a forma em que aquele campo lindo se tornara mais deslumbrante e colorido com o capricho dos enfeites e faixas penduradas em algumas árvores com diversos dizeres, entre eles: "2.000 anos ainda é pouco" e "York é a cidade mais linda do mundo!”. É incrível que York, que está se transformando numa das cidades mais promissoras da Inglaterra, ainda tem lugares como aquele em que você pode deitar no meio da tarde e ler um livro sem nem ao menos se lembrar que alguns poucos quilômetros existe fumaça que sai de fábricas ou dos canos de escape dos carros ajudando no aumento da camada de ozônio.
Havia também milhares de barraquinhas de joguinhos como tiro ao alvo, pescaria, uma mini pista de golfe e outra de boliche, entre outros, comidas típicas e variadas exalando diferentes cheiros, mas de dar água na boca, e artesanato, espalhadas um pouco mais a frente, formando um corredor que se enchia cada vez mais por crianças correndo pra lá e pra cá, fazendo fila no escorrega e em dois pula-pulas grandes em formato de castelo, enquanto por todo local era possível escutar Alright do Supergrass. Era uma imagem não tão desconhecida por mim, mas igualmente diferente. O mais legal, e talvez o mais bizarro de tudo, eram algumas pessoas se arriscavam a circular com roupas medievais, com as mulheres usando aqueles vestidos ricos em detalhes que vemos em filmes do estilo e homens parecendo verdadeiros príncipes imponentes.
Era evidente e contagiante a forma como as pessoas estavam se divertindo ali.
Estacionamos perto de um carro que eu reconheci ser de e Lizzie deu a volta para segurar o prato de bolo para que eu pudesse sair e ajeitar minha saia.
Cumprimentamos alguns conhecidos enquanto procurávamos a barraca em que Molly estaria, sem nenhum sinal de nossos amigos.
- Ali, . - Lizzie apontou por entre as pessoas para algum ponto a nossa frente. - Acho que é a Molly que estava conversando com aquele cara.
- É o Ben, o filho mais velho dela. - disse sorrindo, desviando minha atenção para uma mulher que usava um vestido medieval de veludo azul marinho que passou por nós. - Isso é tão foda!
- É, é bem bonito sim, mas já estou acostumada. - Lizzie falou sem se dar ao trabalhado de dar uma boa olhada no vestido como eu. - Todo ano tem algum maluco que se veste assim.
- Já te disse que você anda muito rabugenta? - perguntei pouco antes de chegarmos perto de Molly que sorriu ao nos ver. Lizzie revirou os olhos com o meu comentário.
- Olá, meninas. - ela nos cumprimentou sorrindo, pegando o prato das minhas mãos. - Vocês estão lindas.
- Você não está diferente, hein. - Lizzie deu lhe mandou uma piscadela. - Está pensando em arrumar algum namorado hoje?
- Talvez Elizabeth, talvez... - brincou pegando o prato das minhas mãos. - Obrigada, querida. Helen já está vindo com o resto?
- Já. – confirmei, admirando a quantidade de comidas diferentes que ela havia preparado. – Ah, você fez brigadeiro!
- Claro que fiz. – ela apontou para uma bandeja com chocolate derretido em taças de plástico coloridas. – E ainda tem mais no trailer.
- E leva o que? – Lizzie olhou desconfiada, quebrando a nossa regra de nunca perguntar nada a Molly que fosse relacionado à culinária. Seus doces ou qualquer outro tipo de comida eram deliciosos, mas às vezes não tínhamos coragem de perguntar quais eram seus ingredientes, caso ela falasse “perna de galinha” ou “olho de peixe”, o que não era o caso dessa vez.
- Leite condensado e chocolate em pó.
- É muito bom, Lizzie, você precisa provar – falei salivando.
- Você ainda vai precisar da gente?
- Não, não, podem ir. - Molly abanou as mãos para nós. - Ben vai me ajudar enquanto Helen não chega. Ele só foi ao trailer dele pegar algumas coisas, mas já volta, não se preocupem.
- Então vamos voltar depois para comer um pouco de cada comida. - Lizzie falou agarrando o meu braço, me afastando da barraca.
Nós andamos vagarosamente pelas pessoas, não só pela quantidade delas, mas sim porque olhávamos todas as barracas que conseguíamos com o maior cuidado. Na maioria das vezes eu tive que parar para tocar nos objetos de arte, ou nas belíssimas bijuterias, além de comer Bakewell, um bolo coberto com geléia, amêndoas e sorvete.
- Que moça cheirosa. - virei para encontrar falando no ouvido de Lizzie quando estávamos paradas esperando nossas limonadas.
- Seu idiota. - ela disse sem o menor desdém na voz, virando-se de frente pra ele. - Pensei que você tivesse arranjado outra garota para encher o saco.
- E eu arranjei, - ele retrucou debochadamente enquanto eu assistia tudo de camarote, quase as gargalhadas. - mas ela, infelizmente, foi ao banheiro.
- Isso é apenas uma desculpa que ela usou para ficar distante de você.
- Nem todo mundo é mal amada com você, Elizabeth. - falou dando um sorriso amarelo. – Eu sei agradar muito bem as mulheres, você mais do que ninguém deveria saber disso.
Eu olhei para ambos, sem entender o que aquela frase do queria dizer.
- Cala essa boca, seu retardado! – ela disse exasperada, prestes a tacar seu copo de limonada nele.
- Oi pra você também, ! – me intrometi pegando o copo antes de um fim trágico para a bebida e para .
- Oi, . - ele se esticou entre eu e Lizzie, ignorando-a miseravelmente, para me dar um beijo na bochecha. - Vejo que só você acordou de bom humor hoje.
- Meu dia estava maravilhoso até encontrar com você. – Lizzie alfinetou, desviando-se dele para voltar a andar.
Encontramos , e Katie conversando em uma das mesas, com a última agarrada ao pescoço de , parecendo que iria explodir de felicidade por estarem se entendendo novamente. Logo Cassie se juntou a nós, se destacando com um vestido medieval rosa bebê e branco com alguns detalhes em dourado.
Katie nos avisou, enquanto os meninos estavam entretidos falando sobre a final do campeonato inglês, que os ingressos para os shows do Franz Ferdinand e os do dia seguinte, Muse com abertura do Razorlight já tinham sido comprados pela internet, e chegariam pelo correio uma semana antes. Só faltava reservar nosso quartos em algum hotel para nosso tão ansioso final de semana em Londres.
- Não consigo imaginar qual vai ser a melhor parte. – Lizzie disse empolgada. – Os shows ou a gente saindo pela cidade!
- Carl já respondeu se vai ou não? – perguntei percebendo que continuava falando com os meninos, mas sua atenção estava na nossa conversa.
- Não sei... – ela deu de ombros. – Ainda não voltei a tocar do assunto. Mas de qualquer maneira vai ser ótimo!
- Meu pai nem pode imaginar que o e eu vamos ficar no mesmo quarto. - Katie revirou os olhos. – Acho que ele teria um treco.
- Eu aposto que sim. – se intrometeu, sorrindo maliciosamente para a namorada. – Ele não gostaria de imaginar as coisas que fazemos quando estamos sozinhos.
- ! – Katie lhe deu um tapa, com as bochechas vermelhas.
Todos nós rimos, inclusive ela.
- Ah, pelo amor de Deus! - Lizzie resmungou baixinho olhando para um ponto atrás da minha cabeça.
- O q... - antes que eu visse do que ela falava, uma menina de cabelos ruivos encaracolados sentou em nossa mesa sem nem ao menos pedir, dando um beijo discreto em .
- Oi gente! - ela nos saudou alegremente enquanto se sentava ao lado dele, demonstrando ser uma pessoa extremamente calma e doce. - Demorei, amor?
- Claro que não. - sorriu de volta. - Lola, - ele me indicou com a cabeça. - essa é a que eu e estávamos falando no outro dia.
Desde quando e conversam sobre mim?
- Prazer, Lola. - sorri da melhor forma simpática possível, sentindo Lizzie me metralhar com seus olhos.
- Finalmente estou te conhecendo. – ela sorriu de volta.
Eu e o resto das meninas, exceto Lizzie, puxamos papo com Lola. Sabíamos o quanto ela deveria estar desconfortável estando em um grupo novo, ainda mais com uma pessoa a encarando sem fazer nenhuma questão de esconder seu desejo de vê-la desaparecendo. Por duas vezes cutuquei Lizzie por debaixo da mesa, mas ela me ignorou completamente, como se eu fosse a errada da história. Eu desconfiava, ou melhor, sabia o porquê dela estar daquele jeito, só não entendia o motivo de tal, já que a situação estava desse jeito porque ela mesma não tomava uma atitude.
Não demorou muito e a mesa esvaziou. e foram pegar mais limonada e e Lola saíram sem dar nenhuma explicação, me fazendo deduzir que foram se amassar atrás de alguma árvore.
- Se você não gosta dela, tudo bem, mas não a faça se sentir desconfortável perto da gente, não é legal. - disse suavemente, concluindo meu longo sermão de amiga pentelha para tentar fazer Lizzie que Lola não tinha culpa das suas diferenças com .
- Você geralmente não julga as pessoas sem conhecê-las, Elizabeth Tallis. - Cassie acrescentou, querendo relembrar o seu bom senso.
- Ela também não gosta de mim, vocês viram! – ela argumentou como se fosse uma criança explicando o porquê de ter batido no coleguinha de classe. – Além do mais, eu tenho coisas muito mais importantes para me importar do que com esse tipo de coisa.
- Tipo com o seu namorado pentelho que reclama de tudo que você faz? Porque ele também nunca está satisfeito com nada... – Katie retrucou daquele jeito desembestado de falar o que pensava. Cassie e eu trocamos olhares já percebendo discussão no ar. - Sinceramente, não sei por que você fica com esse mau humor todo com eles estão perto, afinal, você mesma que não quis dar uma chance ao . Tem uma hora que a gente cansa de ficar correndo atrás de quem não nos quer!
- Você não sabe de nada, Katherine! Ele finge que gosta de mim, entendeu? Bem diferente do Carl! – Lizzie falou raivosa, levantando - Vai se fuder com sua opinião! Ou melhor, vão vocês três! – e saiu em disparada para longe de nós.
- O que ela quis dizer com “ele finge que gosta de mim”? – Cassie arqueou as sobrancelhas olhando para Katie e para mim. – Por que fingiria uma coisa dessas?
- Não faço a mínima ideia. - disse distraída com o meu celular tocando, vendo o nome de Peter na chamada. - Pensei que você não viesse mais.
Katie e Cassie trocaram olhares curiosos.
- Desculpe , meus pais me prenderam em casa, - ele se desculpou de um jeito carinhoso. – te explico melhor quando a gente se encontrar. Onde você está?
- Eu tô numa mesa perto da barraca de cachorro quente. – ignorei as tentativas feitas por elas para saber quem falava comigo. - E você? -
- Estou sentado num banquinho embaixo de uma árvore, é um tanto afastado da festa, mas dá pra ver tudo daqui. Você pode vir cá?
- Já estou indo. – desliguei, pegando minha bolsa. – Vou encontrar com o Peter, vejo vocês depois.
- , espera! – eu virei para Cassie. – O que a gente diz pro se ele perguntar por você?
- Diz a verdade, ué. Eu já disse a ele que não vou me meter nessa briguinha infantil.
Helen estava na barraca com Molly quando passei para pegar alguns dos seus salgadinhos estranhos e igualmente deliciosos antes de procurar Peter. Ela me disse que John ajudava no churrasco junto com seus amigos, enquanto estava com Emma no escorrega, cumprindo sua promessa que vigiá-la. Eu cheguei a vê-los quando atravessei uma multidão de crianças correndo uma atrás da outra e apressei o passo para que o meu caminho não fosse interrompido caso ele me visse.
Não foi difícil de achar o lugar onde Peter estava. De fato era bem afastado de onde as pessoas estavam, mas ainda dava para escutar a música e a gritaria. Ele não me viu de primeira, pois estava escutando música, mas assim que levantou a cabeça, me deu um sorriso lindo com seus dentes perfeitos, me chamando para sentar perto dele.
- Oi! - ele tirou os fones de ouvido, me dando um beijo na bochecha assim que me ajeitei ao seu lado, lhe empurrando o prato de salgados. - Você está linda! E trouxe comida!
- Você também não está nada mal... - fiz uma falsa careta de superior o vendo fazer também uma falsa de choque - Ok, você está perfeito.
- Perfeição é meu segundo nome. - ele riu convencido, comendo uma coxinha e eu lhe dei um belo tapa no ombro – Aí, ! - ele massageou o lugar que eu havia batido. - Você tem uma mão pesada.
- Não seja um marica.
- Estou longe disso, mocinha. - Peter colocou as pernas uma de cada lado do banco, deixando o prato de lado, chegando mais perto. - Fiquei com medo de não te ver hoje.
- Eu disse que viria, não disse?
- Mas não quis que eu fosse te buscar em casa. - ele falou magoado, pegando minha mão, virando a palma para cima, fazendo um carinho por ali. - Aposto que nem suas amigas sabem que você está aqui.
- É claro que elas sabem, Peter! Não fale como se elas não gostassem de você...
- E elas não gostam mesmo. - ele interrompeu.
- Elas só não te conhecem como eu. Não sabem como você é legal, - sorri da maneira mais sincera que consegui. - mas vão conhecer. Você é meu amigo agora, não é? - ele assentiu sorrindo também. - E você sabe por que eu pedi para nos encontrarmos aqui. Ninguém lá em casa, além do , sabe que eu e você somos amigos. Não quero que o John fique me pedindo explicações e além do mais, o seu passado com a minha família não é dos melhores.
- É, eu sei. – ele concordou dando uma risada nasalada. – Mas eu quero muito mudar isso. - os dedos dele se entrelaçaram vagarosamente nos meus como se ele estivesse apreciando isso. Não pude deixar de comparar sua mão fria com a quente do . - Quero conhecer seu pai, . Quero tirar essa má impressão que sua família tem de mim. Quero poder conhecer você melhor.
Eu baixei meus olhos, evitando encarar Peter para que ele não percebesse o quão sem graça fiquei.
- Você já tá conhecendo.
- Não tanto quando o parece conhecer. - ele refletiu me pegando de surpresa com isso. - Vocês são muito próximos.
- Ele me ajudou e ainda me ajuda muito com toda a situação da minha mãe, da mudança... Temos uma ligação. - eu me senti estranha dizendo aquilo em voz alta, ainda mais sabendo que outra pessoa estava ouvindo. Sabendo de uma coisa que estava na cara, mas que eu não tinha admitido ainda. Mas, contudo, não era uma estranheza ruim. Era ótimo saber que apesar das nossas brigas e diferenças, havia algo que me ligaria a para sempre, além da parte familiar. Ele se tornara meu melhor amigo. Havia cumplicidade entre nós.
- Espero que essa ligação não atrapalhe a nossa.
- A gente podia fazer alguma coisa, né? - mudei drasticamente de assunto. Eu já começava a entender as intenções de Peter, mas mesmo assim não queria me afastar. Ele estava se tornando um bom amigo e quem sabe, no futuro, poderíamos ter alguma coisa. Mas não agora, minha cabeça e meus sentimentos estavam em conflito. - Não quero ficar o dia inteiro sentada aqui.
- Eu não me importaria. - ele insistiu de um jeito que eu quase não pude recusar - Ficar sozinho com você o dia inteiro com esse solzinho maravilhoso, conversando, ouvindo música... O que você acha?
Eu rolei os olhos, divertida, levantando para puxá-lo.
- Vamos, logo! Quero me divertir um pouco pra variar.
Foi difícil escolher em qual barraca eu queria brincar primeiro, mas a última palavra foi de Peter. Ele dissera que a de tiro ao alvo era mais divertida e me desafiou para vermos quem fazia mais pontos. Ele teria ganhado, mas o cara ao nosso lado conseguiu derrubar mais patos do que meus olhos conseguiam acompanhar, o que fez Peter receber um pirulito como “prêmio de consolação” e eu, obviadamente, não ganhei nada.
- Pra que ele me deu isso? – ele perguntou rabugento, olhando para o doce como se ele fosse a coisa mais nojenta do mundo, me entregando em seguida. – Era melhor não dar nada! Minha vontade é devolver e mandá-lo enfiar no rabo!
O empurrei para longe da barraca antes que ele fizesse isso.
- Segundo lugar não é tão ruim assim! - ele me lançou um olhar de incredulidade. – Mas é verdade! Aquele cara é um assino de patinhos, ao contrário de você, que teve piedade deles.
- Deixa pra lá. – ele disse quando paramos numa barraca de refrigerante. - Sua amiga não parece estar se entendendo com aquele cara.
Eu olhei para o lado, vendo Lizzie claramente tendo uma discussão com Carl. Eles pareciam que iriam se atracar a qualquer momento. Nunca os tinha visto daquele jeito. Ela o empurrou quando ele tentou se aproximar mais, e virou para andar, mas Carl agarrou seu braço, começando a arrastá-la para o outro lado, atraindo olhares desaprovadores de algumas pessoas que estavam perto, principalmente de mim. O que aconteceu em seguida foi rápido demais. Num minuto ela tentava se desvencilhar da mão dele e no outro apareceu andando em direção a eles como um louco, com atrás dele, gritando. Eu corri de encontro a eles, deixando Peter e a minha latinha de coca-cola para trás.
- Larga ela, Barât! Larga agora! – disse aos berros, atraindo mais atenção.
- Cuida da sua vida, ! – Carl se virou, ainda segurando Lizzie, que agora gritava insultos para o namorado.
- , calma, por favor. – ouvi pedir quando os alcancei.
- Larga ela! – ele fuzilou Carl com os olhos, a poucos passos do casal. – Não estou brincando.
- , por favor, vá embora. – foi Lizzie que pediu dessa vez. – Eu e Carl só estamos conversando.
- Não é o que parece. – ele disse avançando alguns passos, fazendo Dougie lhe acompanhar caso acontecesse algo. – Seu namorado anda implorando por um olho roxo há muito tempo!
- Você ainda não se mancou que ela não quer nada com você? – Carl provocou, levantando o braço de Lizzie como se ela fosse algum tipo de troféu. – Ela é minha!
apareceu tão rápido que pareceu brotar do chão, andando a passos largos em direção aos meninos. Olhei para o lado, nervosa, procurando desesperadamente por Katie e Cassie, não encontrando nenhum sinal.
- Vocês vão arranjar uma confusão logo aqui? – ele apontou para as pessoas ao redor. – Anda Carl, larga ela. Mais tarde, quando estiverem de cabeça fria, vocês conversam.
- Não. Nós vamos conversar agora! – ele disse raivoso, apertando ainda mais o braço de Lizzie, fazendo-a soltar um gritinho.
- Me larga, Carl! – ela pediu. – Eu não quero conversar com você!
- Porra, larga ela! – gritou descontrolado, avançando mais alguns passos, parecendo que iria voar em Carl.
- , calma. – se enfiou na frente dele, colocando uma mão no seu peito para pará-lo. – Estão todos olhando, inclusive a Lola.
- Estou pouco me fudendo! Não vou deixar que ele a machuque! – ele lançou brevemente um olhar para Lola que observava a cena de longe, triste.
Fui até eles vendo aquela situação demorar mais do que o necessário, ficando ao lado de .
- Carl, deixa de ser criança, escuta o que o tá dizendo. – falei tentando parecer calma. – Isso está fugindo do controle.
- Cala a boca, . Estou cansado de você se metendo no meu namoro! – ele disse ríspido.
- Com quem você pensa que está falando? – semicerrou os olhos. Eu logo segurei sua mão.
- Você não. – disse baixinho. – Já estamos tendo confusão demais.
- Pra mim chega! Acabou, Carl! Definitivamente! – Lizzie puxou seu braço com força, finalmente conseguindo se soltar de Carl que ficou chocado com sua atitude.
Ela correu para onde estávamos se jogando nos braços de , surpreendendo a todos, menos a ele, que correspondeu o abraço na mesma hora, dando um beijo no topo da cabeça dela.
- Ótimo! Fique com ele então. – Carl olhou para o casal cheio de desprezo, parecendo que explodiria. – Eu também não quero mais ficar com você!
Ele cuspiu no chão, virando para ir embora, mas deu de cara com John, que assistia a cena.
- Eu não quero mais que você se aproxime dela, entendeu? Muito menos da minha filha. – John disse com a voz controlada, com sua indestrutível expressão serena. – Eu não quero ter problemas com você, Barât.
Carl soltou um resmungo e se afastou de vez. John veio até nós, observando com um sorriso discreto, Lizzie que agora chorava, e , ainda abraçados.
- Vocês estão bem? – ele perguntou no plural, mas olhando pra mim.
- Não foi nada, John. – deu de ombros, já tranquilo. – Ele não fez nada com Lizzie.
- Eu não vou deixar ele te machucar. – apertou mais Lizzie contra o corpo, beijando novamente o topo da sua cabeça, tentando acalmá-la.
- Eu sei. – ela disse, soltando um soluço, com a voz abafada por causa da posição que estava.
- Por que vocês não vão tomar alguma coisa? – sugeri fazendo um carinho no topo da cabeça sua cabeça, sentindo raiva por vê-la daquele jeito tão frágil.
- Você quer? – perguntou para Lizzie que assentiu. – Vem, vamos procurar as meninas.
Eles foram acompanhados por . John se despediu, dizendo que era pra chamá-lo caso precisássemos de ajuda. Eu e ainda ficamos conversando, tentando entender qual teria sido a causa daquela briga, mas chegamos à conclusão que poderia ser qualquer coisa. Lizzie e Carl já não andavam bem desde que me mudei, e as coisas de lá pra cá só tinham piorado.
- Pelo menos de uma coisa nós temos certeza: tem o caminho livre. – ele disse, olhando para longe, fechando a cara. – Esse cara não tem mais nada pra fazer?
Eu olhei para o mesmo ponto, vendo Peter nos observando com a latinha de coca-cola ainda em mãos.
- Ele está me esperando. – acenei, avisando que já ia.
- Você estava com ele? – perguntou, mas mais parecia que estava me acusando de algum crime horrível.
- É, algum problema? – respondi arqueando uma sobrancelha. – Peter é meu amigo, , você esqueceu?
- Infelizmente não. – ele continuou a encarar Peter. - Ele é como todos os caras que você odeia, . É como Sam.
- Eu duvido muito - sorri amarelo, dando de ombros. Não deixaria que a opinião pessoal de influenciasse na minha amizade. - Enfim, te vejo depois.
Peter me entregou a latinha já um pouco quente e logo tratei de tirá-lo dali, sem olhar para trás, sabendo que ainda éramos observados. A última coisa que eu queria era que houvesse outra briga entre eles, ainda mais numa festa onde todos, ou quase todos, os moradores da cidade se encontravam.
Consegui trocar o refrigerante por outro mais gelado e depois fomos procurar por Lizzie, que estava cercada de cuidados de , mesmo não precisando mais. Ela contou que Carl ficou daquela maneira quando dissera que os ingressos para os shows já estavam comprados e que não importava se ele iria ou não. Ela, em nenhum momento, enquanto contava - ou depois dele – mostrava ter se arrependido do final do seu namoro. Minha amiga parecia aliviada, acima de tudo.

Capítulo 12.

Eu e Peter ainda ficamos mais algum tempo com Lizzie e , e só quando começaram as apresentações de peças escolares é que fomos almoçar. Pegamos nossos pratos e sentamos no mesmo lugar onde nos encontramos enquanto eu ria das histórias que ele contou sobre suas aventuras em Manhattan.
Peter era incrível. Tudo nele era natural. E seu olhar era completamente diferente de , quando era direcionado a mim. Eu poderia conhecer Peter há poucos dias, mas quando eu olhava em seus olhos, conseguia saber ou pelo menos ter um palpite do que ele queria me dizer. Já ... Ele me evitava, recuava, pedia desculpas, era doce, fofo, engraçado, me fazia ter vontade de observá-lo por horas a fio por motivos diversos. Não existia uma pessoa no mundo depois da minha mãe, que eu gostasse mais de conversar senão ele. era tudo e mais um pouco. Ele mexia comigo de uma forma única e inquestionável. Era meu porto seguro. Nossa relação foi crescendo de grão em grão, se transformando numa coisa que nós mesmos não entendíamos... Ou não queríamos entender. Mas, acima de tudo, ele me deixava em choque, nervosa e com o coração na garganta, prestes a sair pela boca. me confundia de uma maneira que eu não conseguia me achar sozinha, só quando ele estava perto.
Seria covardia e errado da minha parte querer compará-los, mas como evitar quando suas personalidades estavam expostas tão claramente pra mim? Não era como se eu tivesse que escolher, porque no final, eu não estava sendo disputada. E nem queria ser. Contudo, era meio que inevitável quando era rude comigo. Por que ele fazia isso sem nem que eu fizesse nada para merecer? Às vezes eu desejava que ele fosse como Peter. Em outras eu me achava ridícula por querer uma coisa como essa. Eu gostava de por quem ele era, não queria que ele fosse como mais ninguém.
Todos nós somos diferentes, por que ele não seria?
Eu era uma contradição ambulante.
Olhei para Peter que estava de cabeça baixa entretido com seu iPod, procurando alguma música.
- Escuta. – ele me de um dos fones. – Eu adoro essa música.
Não demorou muito para que eu soubesse que era Can't Stand Me Now dos The Libertines. Eu também adorava aquela música. Cantamos essa e mais outras do mesmo álbum, até o celular de Peter tocar, interrompendo nossa conversa animadíssima sobre histórias da banda.
- Tudo bem, mãe. Já tô indo. – ele disse entediado. – Tchau.
- Vai ter que ir embora? – entreguei o fone assim que ele desligou.
- É, meu pai tá dizendo que não fiquei com eles o dia todo... Sabe como é, acabamos de voltar e ele quer que eu me reaproxime das pessoas, dos amigos dele... Mas a gente pode se ver depois do desfile da polícia, tem problema?
- Não, não. – disse enquanto ele me dava à mão para ajudar a me levantar. - Eu também preciso ficar um pouco com a minha irmã.
- Então eu te dou um toque.
Por todo o lugar que eu procurei por Emma, mas só consegui achar suas amigas. Rumei para a barraca de Molly, para comer alguns doces. Ela e Helen estavam bebendo vinho e rindo quando me aproximei risonha por vê-las daquele jeito “animado”.
- , meu amor, onde você estava? – Helen perguntou passando o braço por cima dos meus ombros. – Todos nós estávamos procurando por você.
- Eu estava com um amigo. – eu a abracei de volta, rindo.
- Estou triste porque você ainda não comeu nenhum dos meus doces – Molly me deu um dos potes coloridos, com chocolate. – Nem mesmo o brigadeiro.
O chocolate ainda estava quente quando o provei. Não consegui deixar de fechar os olhos com uma coisa tão gostosa. Foi amor a primeira vista desde que Molly fizera numa das tardes em que eu e Emma jogávamos Guitar Hero.
- Você poderia pegar mais salgados no trailer? – Helen perguntou para mim. – Está tudo dentro do freezer, é só esquentar no micro-ondas.
Assenti e deixei minha bolsa com elas, levando a taça comigo, passando por entre algumas barracas mais próximas, em direção ao outro lado do parque, onde os trailers ficavam. O local aparentava estar vazio e não me surpreendi ao encontrar o trailer de Ben vazio e totalmente bagunçado com vários potes e embalagens de comidas espalhados em cima da pia. Era bem apertado, mas tirando isso, era um ótimo lar para um homem solteiro.
Tirei os salgados congelados da bandeja de isopor, os colocando num prato, dentro do micro-ondas, ajustando o tempo para 14 minutos. Encostei-me do lado oposto, fazendo uma contagem junto com a do aparelho, comendo distraída o pouco que ainda restava do brigadeiro.
- Pensei que você estivesse com seu melhor amigo. – ouvi a voz de acabando com o silêncio ali, e virei o rosto, encontrando com ele fechando a porta atrás de si, subindo a escada.
Vi um sorrisinho debochado e fofo em seus lábios quando nossos olhares se cruzaram e eu percebi que ele não estava irritado.
- Não me provoque, seu chatinho. – o segui com o olhar, me espremendo contra a pia para deixar que ele passasse, esbarrando em mim, quase me levanto junto por causa do pouco espaço.
Ele abriu a geladeira, tirando quatro garrafas de Heineken, colocando uma a uma em cima da mesa planejada.
- Não sabia que você estava roubando bebidas, .
- Seu humor é invejável, sabia? – ele disse sarcasticamente abrindo uma das garrafas, dando a entender que passaria novamente por mim, mas ao invés disso parou na minha frente, com nossos corpos a poucos centímetros de distância.
Ele tomou um grande gole da cerveja enquanto me olhava de cima a baixo com um brilho intenso e diferente nas íris , quase como se planejasse algo muito errado. Seu cheiro maravilhoso de floral amadeirado começou a dominar meu olfato, me fazendo reunir todo o esforço para meu autocontrole não ir parar no ralo.
- Gostei do que fez com o seu cabelo. – observou, curvando os lábios num sorriso irresistível, mostrando seus dentes brancos.
Eu não saberia dizer se ele sentia o mesmo, era evidente para mim que havia uma tensão entre nós. Não era algo ruim. Era apenas... Instigante. E eu não me importava nenhum pouco com isso.
Sorri, comendo mais um pouco do chocolate, me sentindo como um animal indefeso encurralado sob o olhar de um predador, prestes a ser pego de forma brutal e impiedosa.
- Você tá comendo aquele doce que a Molly sempre faz pra você e pra Emma? – ele perguntou sedutoramente, ainda fitando com atenção o caminho que a colher fazia até a minha boca.
Eu confirmei com a cabeça, não conseguindo quebrar o contato com seus olhos, que me chamavam, me provocavam, me induziam a fazer algo.
E então , você não vai fazer algo a respeito?
- Isso parece ser bem gostoso falou pausadamente, usando um tom de voz baixo e provocativo, tomando um último gole na bebida, deixando-a de lado, se inclinando na minha direção. – Posso provar?
Balancei a cabeça em afirmação quase imperceptivelmente, bem devagar, sentindo meu corpo ficar ainda mais tenso com nossa proximidade, fraquejando miseravelmente quando com um frio forte me atingiu em cheio no baixo ventre.
Excitação.
Eu estava ficando excitada só pela forma dele me olhar!
recusou, afastando minha mão, pegando a colher e a taça, colocando ambos em cima da pia.
- Você não quer? – perguntei confusa, me esforçando ao máximo para não gaguejar como uma idiota por estar surpresa com sua atitude tão firme em relação a mim pela primeira vez em dias.
- Existe uma maneira muito melhor para provar, não acha? – ele colou seu corpo no meu, apoiando as mãos na pia, me deixando encurralada de um jeito que mesmo que eu quisesse, não conseguiria sair.
Nossos rostos estavam tão próximos que ficamos vesgos. O hálito de cerveja bateu em meu rosto, me deixando meio sonsa.
O encarei e pensei que iria me afogar nas profundezas de sua íris , a intensidade de seu olhar, o desejo refletido nelas, fazendo meu corpo pegar fogo. Sua boca tão perto da minha, entreaberta, como um pedido silencioso para que eu a provasse, suas mãos em minha cintura me prensando contra seu corpo.
- Alguém pode entrar, . – disse fazendo a melhor cara de inocente possível com o intuito de ver até onde ele iria com aquilo tudo, colocando uma mão em seu peito, para pará-lo antes que nossas bocas se encostassem, sentindo seu coração tão inquieto quanto o meu.
afastou um pouco nossos rostos, me estudando com uma expressão divertida, os olhos faiscando, querendo me mostrar o que ele pretendia.
- Não se preocupe com isso, eu tranquei a porta. Ninguém vai nos interromper, a não ser que você queria. – ele disse simplesmente, como se fosse a coisa mais natural a se falar naquele momento, pegando a minha mão, entrelaçando nossos dedos. – Você se incomoda se eu ficar tão próximo a você?
Tudo rodava. A respiração pesada e difícil, a boca seca, ansiando por mais aproximação, o corpo queimando, desejando um toque... Nunca tinha sentindo tanto desejo em minha vida.
- Não... – respondi, olhando de um jeito bobo para nossas mãos unidas, antes de voltar a fitá-lo, me derretendo por dentro. – Nenhum pouco.
O micro-ondas apitou, mas não me atrevi a me mexer.
- Vejo que estamos de acordo então. – disse acariciando devagar meu rosto com a outra mão, grudando sua boca na minha num selinho demorado, encaixando perfeitamente seus lábios entre os meus, movimentando-os com lerdeza, capturando bem de leve o gosto do chocolate. – Hmmm, - ele murmurou contra minha boca, me dando mais um selinho. - isso é gostoso, mas ainda não provei o suficiente.
- Então por que você não tenta de novo? – provoquei com um sorriso encapetado.
- Você não deveria me olhar e nem sorrir desse jeito quando estamos muito próximos, sabia? – ele mordeu o próprio lábio inferior, desejoso.
- Por que, ? – dei mais um sorriso, revezando a atenção para seus olhos e lábios. – Você não se garante?
- Me garanto muito bem, , esse é o problema. Ou melhor, o seu problema. – o ouvi dizer poucos segundos antes de fechar os olhos.
O som da nossa risada pôde ser ouvido antes de nos chocarmos boca contra boca. Meu corpo tremeu e pegou fogo quando a língua gelada e macia de tocou a minha quente, transmitindo sensações térmicas, misturando os sabores do chocolate e da cerveja. Quando pensei que ele fosse se afastar, nossas mãos se soltaram instantaneamente para que pudéssemos nos tocar, e logo as minhas percorreram pelos seus braços e ombros, envolvendo seu pescoço, o trazendo mais junto a mim, tomando a iniciativa de aprofundar o beijo, mordendo levemente o lábio inferior dele, transformando o beijo em mais urgente e faminto, enquanto ele me pressionada mais contra a pia fria, apertando a minha cintura e quadril com força, embrenhando suas mãos por dentro do meu cardigã sem pudor nenhum, me deixando trêmula e mole ao senti-lo dedilhar minha pele exposta ao seu carinho gostoso e lento, causando arrepios fortes em mim.
Sorrimos durante o beijo quando arranhei vagarosamente a lateral do seu corpo por de baixo da regata, indo até a região da sua nuca, o arrepiando, puxando e brincando de bagunçar seu cabelo sedoso, sentindo suas mãos vagando pelo meu corpo por de baixo da roupa, subindo, chegando ao começo do meu top, ameaçando uma carícia num seio, para depois descer, tocando de baixo pra cima em minhas pernas, apertando-as com vigor, subindo um pouco a minha saia.
explorava meu corpo, assim como eu fazia com o dele.
Nessa hora eu já não tinha mais controle sobre minha libido que já estava explodindo como um vulcão em erupção, meu sangue circulava como larva por dentro das minhas veias, e sem pensar duas vezes, empurrei sua camisa xadrez pelos seus ombros, tendo ajuda de para tirá-la, jogando-a em algum lugar dali, o deixando apenas com sua regata branca. rapidamente voltou a me agarrar, sendo mais agressivo dessa vez, levantando uma das minhas pernas, subindo ainda mais a minha saia, quase me fazendo perder o equilíbrio se não fossem seus braços para me apoiar. Pôs minha coxa na altura do seu quadril, me grudando contra si, me fazendo arfar e lamuriar contra sua ereção evidente. Minha mão ansiosa foi até sua bunda durinha, e a outra se juntou a sua em minha coxa, com nossas línguas se enroscavam numa briga para saber quem beijava com mais vontade e fome, nos devorando deliciosamente como animais insaciáveis, deixando o gosto de doce e álcool perpetuarem. Eu nunca tinha sido beijada daquela maneira. De uma forma tão desesperada, insana, como se fôssemos amantes que não se veem há muito tempo.
Apertamos-nos contra o outro como se nossos corpos fossem se difundir a qualquer momento e me vi no paraíso quando os movimentos da sua pélvis contra a minha começaram de uma maneira precisa e ritmada. O meu grau de moleza era tão alto que a perna que apoiava o meu peso fraquejou e quase me vi no chão, sendo amparada por , ouvindo uma risada convencida. Não pude conter um gemido baixo escapar, descobrindo o quanto minha intimidade estava sensível a cada movimento, e imaginando como seria se nossos sexos finalmente se encontrassem. Só então percebi que além da tremedeira, da sensibilidade e das pernas fracas, meu fôlego também já estava precário, antes que eu pudesse fazer algo sobre isso, parou de me beijar e afastou a minha trança (ou o que restava dela), para poder se apoderar do meu pescoço da mesma forma desesperada, me mordendo e chupando lentamente, puxando com os dentes o nódulo da minha orelha, me fazendo arfar descontroladamente com a cabeça pendendo para trás e olhos fechados, cravando minhas unhas em sua nuca, tamanho efeito sobre mim.
Minha nuca não era a única parte do meu corpo que estava úmida.
Aquilo estava me assustando, era como se eu tivesse sendo preenchida por ele, por todo um carinho reprimindo dentro de si.
Tentei me concentrar em puxar que o ar entrasse novamente em meus pulmões, sendo quase impossível com a sua língua e dentes na minha pele.
Os movimentos pararam e minha perna foi solta, me deixando extremamente indignada, e sem que eu percebesse como, conseguiu abrir os botões que restavam do meu cardigã, fazendo com que ele tivesse o mesmo final da sua camisa, até que eu ficasse apenas com a blusa fina e o top. Subi a barra da sua blusa, tirando de uma vez só com a sua cooperação, não conseguindo reprimir a vontade de abrir os olhos para ver seu corpo másculo daquela forma por meu mérito. Deslumbrei seus ombros, peito e barriga, e o abracei, sorrindo sozinha como uma idiota, mordendo meu próprio lábio por causa das milhares de perversões que eu almejava fazer com aquele corpo maravilhoso todinho pra mim.
Eu estava tão quente que se jogasse água em mim, ela iria evaporar no mesmo instante, como acontece em chapas de hambúrguer.
Meus dedos festejaram como crianças quando puderam tocar em seu abdômen, que se contraiu com minhas unhas arranhando pontos estratégicos, até a barra da sua calça jeans, abrindo o botão e descendo o zíper. Mordi meu próprio lábio novamente encontrando com um par de olhos sedutores e provocativos me fitando atentamente, antes de voltar a me beijar sensualmente com sua língua experiente, logo diminuindo o ritmo, sussurrando meu nome quando coloquei a mão por dentro da calça, acariciando seu membro, sentindo seu tamanho e rigidez, a cada pulsada violenta aos meus toques.
Eu queria ir mais longe e não estava me importando em demonstrar.
Ele sussurrou meu nome de novo e de novo e de novo, sugando minha língua, dando mordidas no meu lábio, soltando gemidos roucos, como se implorasse para mais, me estimulando a provocá-lo, percorrendo minha mão por toda a sua extensão, enquanto eu distribuía beijos molhados por seu queixo e maxilar, chegando até o pomo-de-adão, descobrindo mais um dos seus pontos fracos quando suspirou e me apertou sem ter noção da sua força.
Antes que eu conseguisse tocá-lo verdadeiramente ele segurou minha mão bruscamente, colocando-a de volta ao pescoço, puxando meu cabelo e mordendo meu lábio repetidas vezes, o deixando dormente e depois sugou a minha língua com tanta força que chegou a doer.
Corpo com corpo, mãos com corpo, língua com pele, língua com língua, mãos apertando, descobrindo, procurando, arfadas e gemidos, calor, muito calor. Desejo, desespero, urgência.
Eu e ele.
- Acho melhor pararmos com isso – ele suspirou, de repente, com os olhos fechados e a testa franzida, como se estivesse fazendo um grande sacrifício. E tudo isso se confirmou quando suas íris me encararam.
- ...
- O seu beijo é tão bom – ele me interrompeu, voltando a fechar brevemente os olhos, esfregando seus lábios nos meus, ponderando suas próximas palavras. – É viciante... E está se tornando o meu maior vício, isso não pode acontecer de jeito nenhum.
- Então por que... Por que você deixou tudo isso acontecer novamente? – perguntei baixinho com a boca seca, revezando meus olhos entre os que me encaravam, e sua boca vermelha em consequência dos nossos beijos. Algo me dizia que a minha não estava diferente.
- Por que eu quis, - ele sorriu marotamente, me dando um beijo no canto da boca, mordendo meu lábio de leve. – por que eu posso...
Foi como um estalo. Meu cérebro processou essa última frase tão rapidamente que me deixou um pouco tonta. tentou me beijar novamente, mas fui mais rápida o empurrando mesmo sabendo que a distância entre nós não seria muita.
Por que ele pode?
- Então é isso? – perguntei chocada com as suas palavras, aumentando meu tom de voz com Danny ainda atordoado com a minha reação agressiva. – Então foi por isso que você beijou? Simplesmente por que pode?
- Não, não é nada disso , você entendeu errado o que eu disse... Eu...
- Tem certeza que eu entendi errado? Por que agora vai ser diferente? Você não vai mais me evitar como fez durante essas semanas? Não vai mais ser um poço de estupidez comigo? Porque é isso que você tem feito desde que a gente se beijou pela primeira vez e eu nem sei o motivo! E agora você chega todo carinhoso como se as coisas entre nós não andassem estranhas, e ainda por cima diz que me beijou porque pode como se eu fosse uma qualquer!
- Você não me deixa explicar! – ele disse aumentando a voz também, tentando me acalmar.
- Você vai dizer o motivo disso tudo? Ótimo, estamos chegando em algum lugar finalmente. – cruzei os braços, decidida a ouvir o que ele tinha a dizer.
- , eu... – ele abaixou a cabeça, respirando fundo enquanto travava uma batalha interna, enquanto se decidia se eu deveria ou não saber tudo que ele estava sentindo em relação a nós. Minutos se passaram, mas pra mim foram como séculos. Meu coração acelerou drasticamente, mas tentei me conter. Eu não queria que desconfiasse o quanto eu estava ansiosa, ou o quanto uma esperança crescia dentro de mim querendo ouvi-lo dizer que eu era tão especial pra ele, quanto ele era pra mim. – Você não entende... – ele finalmente disse ainda com a cabeça baixa. – Eu não posso dizer o motivo porque simplesmente ele não existe.
- Era tudo o que eu precisava ouvir. – senti meu coração ser esmagado pelas minhas próprias mãos, junto com a esperança perdida. Meus olhos queimavam.
Eu precisava urgentemente estar o mais longe possível de .
Virei-me, evitando encostá-lo com qualquer parte do meu corpo quando me movi em direção à porta, mas antes que conseguisse me afastar muito, segurou o meu pulso. Eu parei, olhando para sua mão que me segurava quando ele começou a deslizar o dedão sobre as costas dela.
- Você tem algo pra me dizer? – voltei a olhar pra frente, tentando parecer decidida enquanto seus olhos estavam fixos no meu perfil e os meus gritavam para que eu piscasse e as lágrimas pudessem sair.
Ele quis entrelaçar nossas mãos, mas eu não deixei.
- Você tem ou não?
- Não. – pela minha visão periférica, o vi balançar a cabeça enquanto sua voz respondia minha pergunta num tom baixo e fraco.
- Foi o que eu imaginei. – engoli em seco, olhando para cima já sentindo que não conseguiria mais segurar meu choro. – Agora você pode largar a minha mão?
Ele soltou, mas antes roçou mais um pouco seus dedos em mim como se soubesse como tudo aquilo estava mexendo comigo. Sai dali o mais rápido possível antes que mais alguma coisa me impedisse de sair daquele trailer.
Corri em direção a festa, ouvindo gritos de comemoração. Minhas pernas avisavam que eu precisava diminuir o passo, e a contra gosto, acatei ao aviso, encostando-me em uma árvore. Respirei fundo, procurando desesperadamente algo que fizesse meu peito parar de doer, que acabasse com uma angustia crescente. Fechei os olhos, mas logo me arrependi, porque a única coisa que eu conseguia ver eram os olhos de perto dos meus. Coloquei as mãos no rosto para não gritar da raiva que começava a surgir. As lágrimas não apareceram, para meu espanto, mas ainda sim eu queria chorar.
Meu coração parecia que iria sair pela boca a qualquer momento e eu precisava me acalmar antes de encontrar alguém. Meu peito doía, minha mente estava confusa.
Por que eu estava daquele jeito?
- , o que aconteceu? – abri os olhos, vendo Peter se aproximar com as sobrancelhas levantadas em sinal de preocupação. – Você está pálida.
- Eu... - olhei para os lados, alarmada. Ninguém poderia nos ver dali. – Eu estou bem. Ótima, não poderia estar melhor!
- É claro que aconteceu algo, você está tremendo e parece assustada! – fui fitada com desconfiança. – Sem contar que parece que saiu de um vendaval, sua roupa está toda amassada.
- Não foi nada. Eu estava distraída e acabei caindo – sorri forçado, querendo parecer convincente. – Não há nada preocupante nisso.
Peter me estudou, fazendo uma careta estranha, pensando se deveria ou não acreditar em mim. Por fim ele devolveu o sorriso tão forçado quanto o meu.
- Você perdeu o desfile da polícia.
Por quanto tempo eu fiquei no trailer?
- É, infelizmente... – disse num falso desanimo. Ouvi passos perto de nós e meu alarme soou, imaginando que fosse . – Vem, - o puxei pelo braço. - vamos voltar pra festa.
- , você tem certeza que não aconteceu nada?
- Não, não... Vamos jogar naquela barraca dos patinhos? Talvez você consiga acertar mais dessa vez!
- Para com isso! – ele me parou e me pôs na sua frente, segurando meus braços. – Vai, me conta logo, você está me deixando preocupado. Alguém fez alguma coisa com você? – ele me olhou de cima abaixo. – Onde está o seu casaco?
Em algum lugar do trailer do Ben, era o que eu deveria responder.
- Isso é algum tipo de interrogatório? – ele arregalou os olhos, ofendido. – Desculpe Peter, mas de boa, já falei que não aconteceu nada, então por que você continua insistindo?
- Você está arisca. Parece que está fugindo de alguma coisa ou de alguém. – ele suspirou, cansado. – , você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
- Se fosse algo importante, eu te contaria. – menti descaradamente. Aquilo era importante. – Eu só não estou me sentindo muito bem.
- Tudo bem, vamos voltar então. – ele sorriu, passando o braço pelos meus ombros. Eu não me incomodei, e apoiei a minha cabeça em seu ombro, o abraçando pela cintura, voltando a caminhar. – Você vai querer mesmo ir à barraca dos patos?
- Bom, a gente pode ir à outra barraca, se você quiser. – olhei para cima, rindo por já me sentir menos nervosa.
- Acho que vou aceitar sua sugestão.
Sentei num banquinho depois de Peter insistir para que eu fosse com ele devolver a chave do trailer do amigo do seu pai, antes de fazermos qualquer coisa, mas eu recusei. Preferi ficar esperando, porque assim como a minha família, a dele também não sabia sobre a nossa amizade. Apesar de estar mais calma, eu não iria aguentar calada ser encarada com olhares tortos e reprovadores. Meu nível de irritação ainda estava ultrapassado.
Ele voltou pouco tempo depois, sugerindo que fôssemos até a pista de boliche. Não demorou muito para que eu pudesse mostrá-lo todo o meu maravilhoso desempenho em fazer strikes.
- Olha quem temos por aqui... – virei o rosto depois de fazer mais um strike. Lisa Richards se aproximava tomando milk-shake, usando um decote enorme, parecendo a Pamela Anderson em SOS Malibu, com a diferença das raízes negras crescendo no topo da cabeça, com suas fiéis súditas, Gemma Morgan e Kirsty Harris logo atrás. – Você está saindo com ela, Bradley?
Revirei os olhos, já inquieta com a presença dela.
- Por que não? é uma ótima garota. Ela não é lunática e fútil como outras que temos na cidade – Peter piscou pra mim sugestivamente, respondendo da forma menos grosseira possível.
Lisa, com seu cérebro muito desenvolvido, não entendeu a ironia, e sorriu. Gemma lhe disse algo no ouvido, que a fez abrir ainda mais o seu sorriso de piranha, avaliando o que a amiga dissera.
- Até que enfim você largou o osso, não é? – ela se dirigiu a mim, percebendo que com Peter ela não teria sucesso em irritar. A voz fina como de uma gralha, o jeitinho de puta acompanhando perfeitamente. Como alguém conseguia se relacionar com uma pessoa assim?
Eu sabia exatamente o que ela queria dizer e não daria esse gostinho de me mostrar irritada. Respirei fundo, e peguei uma bola, ficando em posição. Obviamente aquele joguinho de me tirar do sério não acabaria tão cedo e Lisa se postou ao meu lado, tomando seu milk-shake, fazendo barulho com o canudo toda vez que sugava a bebida.
- Você está me atrapalhando. – falei num tom falso de calma, apertando a bola com força com as duas mãos. Se ela não fosse tão dura, provavelmente já estaria amassada.
- Ah, desculpe. – disse, mas não saiu de perto de mim. Esperou até que eu ficasse em posição para jogar a bola e me empurrou de propósito para o lado. A bola invadiu a pista ao lado, até atingir a outra, fazendo o cara do lado reclamar.
Estreitei meus olhos, e num movimento rápido, dei um tapa no copo dela, que caiu, derramando milk-shake em seu par de sapatos.
- Sua desgraçada! – ela reclamou histericamente, olhando para o estrago que eu fizera. – Você tem noção de que são sapatos italianos novos?
Era isso que eu precisava para me acalmar de vez: bater em alguém.
- , não dê bola pra ela. – Peter se apressou pegando no meu pulso, apenas para que eu não voasse em Lisa. Com a maior gentileza, me soltei dele e coloquei o dedo na cara de Lisa.
- Não há nada que me impeça de te bater hoje, sua puta com cérebro de ervilha! – disse entre os dentes. Não havia mais porque me preocupar em não arranjar confusão, já que não tinha mais contato com ninguém fora da cidade.
Peter se meteu entre nós, me empurrando, pedindo calma.
- Puta? – ela repetiu chocada. E eu não entendi o motivo. Ela já deveria estar acostumada a se chamada assim. – Você que não desgruda do por um minuto e eu que sou puta?
- Eu não dou em cima de ninguém! – gritei me desvencilhando de Peter, avançando nela. - E mesmo se desse, a culpa não é minha se ele não quer mais te comer!
Ela soltou um gritinho, ameaçando avançar em mim, mas um cara desconhecido e bem forte como um armário, a segurou pela cintura. Gemma e Kirsty arregalaram os olhos e taparam a boca, escandalizadas.
- Me larga agora! – ela mandou, empinando o nariz.
Eu queria mandá-la cala a boca. Irritar um cara daqueles não era algo inteligente.
Mas bem, estamos falando de Lisa Richards.
- Estou tentando jogar boliche e vocês não estão deixando, o que está realmente me irritando! – ele falou com a voz fina demais em comparação com todo o seu tamanho. – Vocês não vão querer me ver irritado de verdade!
- Não, não... Já estávamos saindo, não é? – Peter disse, sibilando um “olha o tamanho dele” pra mim. Eu confirmei com a cabeça. – Está vendo? Eu e ela já vamos embora.
Lisa e o resto da sua escória ficaram lá, gritando com o cara, enquanto eu e Peter saímos dali de fininho, e quando já estávamos relativamente afastados, tivemos um ataque de riso.
- Eu pagaria para aquele cara bater nela! – falei ainda rindo.
- Eu aposto que sim! – ele gargalhou descontrolavelmente, colocando a mão na barriga.
- Por que você está rindo tanto?
- Da voz do cara! – ele entre mais uma gargalhada, Peter afinou a voz. – “Vocês não vão querer me ver irritado de verdade”, porra! Ele parece àqueles caras que ainda moram com a mãe e comem mingau de manhã!
Minha barriga se contraiu e doeu de tanto rir e meus olhos se encheram de lágrimas, enquanto eu imaginava o cara usando um babador.
- Tô passando mal! – falei, colocando a mão na barriga, sem fôlego. – Minha barriga vai explodir!
- A minha também! – ele encostou-se a uma árvore, puxando o ar.
Nossos risos foram diminuindo, mas foi só nos encararmos por poucos segundos, e Peter voltar a imitar a voz fina, que voltamos a gargalhar como loucos, com direito a ombros se mexendo e olhos lagrimejando. As pessoas nos olhavam como se estivéssemos bêbados.
- Minha barriga tá doendo muito, a cerveja está toda remexida. – reclamei fazendo uma careta, depois que finalmente conseguimos controlar nosso ataque.
- Os músculos da minha boca também estão doendo. – ele massageando a boca com a mão, fazendo um beicinho muito fofo por sinal. – Acho que nunca ri com tanta vontade por tanto tempo!
Dei um sorriso, descobrindo que os músculos da minha boca também doíam, mas não foi isso que me fez desmanchá-lo, e sim a pessoa que estava na minha frente. e estavam tomando cerveja e conversando a poucos passos. Ou melhor, apenas falava distraído, já que mantinha os olhos fixos em mim e em Peter, com uma expressão clara de repulsa. Quando nossos olhares se cruzaram, foi como se eu estivesse novamente no trailer com ele. O seu cheiro me dominou, e senti um calor tão forte que poderia apostar que gotas de suor escorriam do meu rosto e meu estômago se embrulhou, me lembrando da dor na barriga. Não aguentei sustentar o olhar e o desviei, fazendo com que Peter olhasse para trás.
- Você não gosta quando ele nos vê juntos, não é? – ele perguntou magoado.
- Não é nada disso, Peter, é que... – suspirei. Não queria ter que falar com ele sobre isso. - Não gosto da forma como ele olha pra gente.
- Ele tem ciúmes de você.
Eu meio que travei em responder. Peter não era a primeira pessoa a me dizer isso. Katie e Lizzie também insistiram nessa hipótese, mas eu achava um tremendo absurdo e continuava achando. Ele não tinha ciúmes de mim, só não queria que alguém, próximo a ele, tivesse algum tipo de relacionamento com Peter. Era um capricho, como daqueles quando você está na 4ª série e briga com um colega de classe, e não quer que mais ninguém fale com ele.
poderia ter muitas qualidades, mas também era insuportável, arrogante e principalmente, mimado, quando queria. Eu mais do que ninguém já conhecia esse lado.
- Vamos sair daqui – pedi, depois de ter a confirmação de que ele ainda nos encarava.
- Pra onde você que ir? – Peter pegou na minha mão, tapando a visão que tinha de mim. Nossos dedos se entrelaçaram de uma maneira que julguei errada, mas não disse nada. Peter só queria ajudar.
- Qualquer lugar que seja longe dessa festa. Ela já deu o que tinha que dar. Não me importo pra onde, só quero ir embora.
- Essa foi a melhor coisa que você me disse hoje. – ele sorriu tão verdadeiramente pra mim, que se não fosse pela situação, pela reação do meu corpo e mente a presença, mesmo que relativamente distante de , eu poderia sorrir daquela maneira. – Tenho carta branca para te levar aonde eu quiser!
- Se eu puder sugerir algo, sugiro um lugar que dê para beber.
- Abriu um pub novo, acho que você vai gostar dele. Tem música ao vivo! – ele disse animado. – Você avisa que vai sair e eu te espero no meu carro, ok?
- Não vou avisar ninguém. Vamos sair à francesa. Não quero ter que dar explicações...
- Não vai pegar nem seu celular?
- Eu não vou atender se ligarem. – dei de ombros. – Então não vai servir muito, né.
- Vamos logo então.
ainda estava no mesmo lugar quando Peter se moveu, me puxando para irmos até seu carro. Ele me pedia desculpas com o olhar. Até arrisco a dizer que ele me dizia para não ir. Mas eu não me importava. Não facilitaria para ele dessa vez. Nossas divergências chegaram a um ponto em que eu não podia e nem queria dar o braço a torcer. Ele fazia as burradas e eu é que deveria me redimir? Fingir que nada tinha acontecido entre nós? Que nada estava acontecendo? Não , não dessa vez.

Capítulo 13.

Katie se jogou no banco, colocando a bolsa em cima da mesa, tirando alguma coisa de dentro dela.
Não deu pra evitar, quando vi, o grito já estava saindo pelas minhas cordas vocais.
Dava para ver pela minha visão periférica que os alunos das mesas ao redor me olhavam nada contentes com o meu escândalo repentino, mas era inevitável. Ainda mais com Katie balançando de um lado para o outro exatamente oito ingressos recém tirados do correio diante dos meus olhos. Dos meus, de Lizzie e Cassie. Lizzie, por alguns segundos, ficou atônita enquanto Cassie gargalhava e eu voltava a dar alguns ataques de alegrias, agora tentando ser mais contida. Quando pensei que o efeito da surpresa já havia passado (e eu já estava quase voltando ao meu estado normal), Lizzie bateu na mesa com as duas mãos e gritou. Nós rimos, espalhando os ingressos pela mesa, verificando se havia alguma possibilidade dos nomes estarem errados.
- Vamos sair daqui ou eu vou enlouquecer - um garoto da mesa quase colada a nossa resmungou para dois amigos. Os últimos concordaram e pegaram seus lanches, indo para outra parte do pátio.
Fiz a minha melhor cara blasé, revirando os olhos, ignorando qualquer comentário que pudesse estragar minha alegria. Esperei semanas pra poder comemorar e não deixaria que atrapalhassem o meu momento.
Tudo já estava esquematizado: O hotel já estava reservado com um quarto com dois quartos, , , e Katie ficaram encarregados de fazer nossa rota de lugares de pubs e boates que iríamos, e mesmo assim eu não acreditava que iria passar um final de semana com meus amigos em Londres. Só eu e eles!
John não criou nenhum empecilho, mas senti que ele ficara receoso mesmo sabendo que também iria e poderia ficar de olho em mim (como se ele já não ficasse) como um guarda-costas. Para ele, eu ainda era a mesma de 1 mês e meio atrás, mas John estava enganado. Eu amadureci. Não tinha outra escolha. Precisei aprender a lidar, aos trancos e barrancos, com a dor, com a perda e com a decepção. Eu ainda era a mesma só que com algumas feriadas, algumas tão profundas que voltavam a sangrar sempre eu estava sozinha, outras já estavam quase inteiramente cicatrizadas.
De qualquer maneira eu estava contente e pequenos detalhes como esse eram apenas... Detalhes, afinal. Eu iria curtir e era isso que importava.
Eu precisava me divertir.
A última semana estava tendo um ar tão pesado e sufocante que me deixava cansada. Eu sentia que meu corpo estava precisando de férias. Meu corpo, meu coração, minha mente... Que era ocupada por duas coisas que me perseguiam sempre: A saudade imensa, gigantesca, gritante e desesperada da minha mãe que sempre latejava a cada segundo e meus sérios problemas de convivência com . A todo o momento eu tentava impedir que minha mente tomasse algum desses rumos.
Eu não queria mais ficar triste. Estava esgotada disso. Tão esgotada quanto uma pessoa pode ficar. Esgotada de chorar no meio da noite pela minha mãe e mais esgotada ainda de ficar mexida com as atitudes de , fossem elas direta ou indiretamente ligadas a mim. Ele, que eu pensei que fosse ser o meu principal refúgio, a minha proteção, estava se tornando um problema com uma dimensão maior do que eu conseguia evitar. Eu me sentia impotente diante disso. O controle não estava mais em minhas mãos. Os meus sentimentos não me obedeciam mais. Nem mesmo quando eu os implorava para me deixarem descansar por algumas horas.
Eu me lembrei daquela pergunta retórica feita há algumas semanas...
Qual seria a própria notícia que abalaria o meu emocional? Quem faria parte dela? A resposta veio clara e certeira: .
- Terra chamando ! Algum contato? – Katie estalou os dedos na frente do meu rosto. Eu olhei para ela e depois para as outras, tirando o canudo da boca, já que o meu refrigerante tinha acabado e eu nem percebi por causa da distração com meus pensamentos. – No que você estava pensando?
- Aposto que ela estava pensando no Peter. – Cassie piscou freneticamente, fazendo cara de apaixonada.
- Só tô um pouco cansada, fiquei a noite toda estudando... – desconversei, evitando encarar Lizzie e seu olhar perspicaz. Ela saberia que eu estava mentindo. – Do que vocês estavam falando mesmo?
- Estamos checando as coisas para sábado – a mesma respondeu e só então eu notei que ela estava escrevendo em um pedaço de folha rasgada. – Vendo se todos da lista foram convidados, se a quantidade de bebidas está ok, essas coisas...
Oh sim, o aniversário de Katie estava chegando. Eu só ouvia as histórias sobre as grandes e inesquecíveis festas dela, e em como todo mundo puxava seu saco só para ter o nome na lista. Em poucos dias eu faria parte de mais uma sem nenhum esforço.
- Seus pais ainda vão estar viajando? – perguntei a futura aniversariante.
- Sim, mas não vai ter problemas, eles já sabem – Katie deu um dos seus sorrisos maliciosos antes de continuar. – Até porque a festa vai estar muito melhor sem eles por lá.
- Hm... – pensei, procurando encontrar as melhores palavras. – Katie, você acha que eu posso chamar o Peter?
Ela trocou olhares com Lizzie e Cassie pedindo ajuda. Eu sabia que ela ficaria sem saber o que fazer, não era sua culpa, mas eu precisava perguntar, não havia nada demais nisso. Nenhuma delas compartilhava mais a birra com Peter, mas também não queriam discutir com os meninos por causa de uma coisa tão banal. Peter não era amigo delas, era meu.
- Eu não sei, . – ela disse receosa. – Não acho uma boa ideia.
- Não, chama sim! – Lizzie disse balançando a cabeça afirmativamente. – A festa é da Katie e ela não tem nada contra o Peter, então não vejo qual o problema. Se os meninos não gostarem, eles que saiam.
- Eu acho melhor n...
- Chama sim. – Katie me interrompeu. – Eu falo com alguns dos amigos do Peter, e falo com o próprio também, então por que não? Essa briguinha boba tem que acabar alguma hora.
Eu concordei e no mesmo instante o sinal avisando o término do intervalo soou. Katie guardou os ingressos dentro da bolsa e foi se encontrar com e o resto dos meninos que já estavam no portão nos esperando. Lizzie e Cassie foram logo atrás. Eu demorei mais um pouco porque estava esperando Peter que vinha na minha direção com seu grupo de amigos. Todos me cumprimentaram quando passaram por mim, mas o único a parar foi ele, que sorriu antes de me dar um beijo na bochecha para depois começarmos a andar em direção aos prédios.
- Você está diferente hoje, mas não sei explicar o por quê. – ele me mediu colocando a mão no queixo, fazendo uma falsa cara de desconfiando. – Vai me contar?
- Eu ia fazer você tentar adivinhar, mas não vou aguentar esperar! – sorri, quase dando pulinhos de empolgação. – Os ingressos para os shows chegaram!
- Que ótimo, ! – ele disse fazendo esforço para acompanhar a minha animação. – Pena que eu não fui convidado...
- Ah Peter, você sabe que não é bem assim, vai. – o empurrei de leve com o ombro para descontrair. - Eu e o pessoal combinamos tudo antes de você chegar à cidade, além do mais, você e os meninos não se dão bem.
Nós paramos em frente ao prédio B. Alguns alunos ainda conversavam do lado de fora.
- Eu sei, estou apenas brincando com você – Peter me olhou daquele jeito intenso dele através dos seus globos azuis.
- Eu sei – soltei uma risada nasalada e mordi o lábio inferior inconscientemente. – Eu fico aqui, vou ter aula de artes agora.
- E eu vou indo para o outro prédio. – ele deu alguns passos na minha direção, me dando mais um beijo na bochecha, dessa vez mais demorado do que o primeiro e em seguida sussurrou. – Te vejo depois.
Continuei parada até vê-lo sumir. Agora seria a parte em que eu suspiro, dou um sorriso de apaixonada e subo as escadas até a sala toda feliz por ter um cara tão foda e divertido como o Peter ao meu lado. Mas não era assim que eu me sentia em relação a ele. Em certos momentos eu podia até ficar mexida com algumas atitudes ou coisas que ele falava, mas eram sentimentos momentâneos. Eu não era boba, sabia as intenções dele para comigo, mas enquanto ele não explicitasse nada, eu fingiria que não era nada perceptível. Eu queria mesmo ser amiga de Peter e não era pra provocar ninguém.
Assim que empurrei a porta transparente e pus meus pés para dentro do prédio, visualizei a silhueta de encostado na parede perto da escada. Ele estava sozinho com as mãos no bolso da calça jeans e matinha os olhos em mim enquanto eu andava até o meu armário para pegar meus pincéis. Eu achei que tropeçaria nos meus próprios pés com tanta atenção.
Quando fechei o armário, ele ainda estava lá, sério, pensativo, com os olhos fixos nos meus movimentos. Em dias melhores eu passaria por ele e lhe daria um sorriso. Ele retribuiria e subiríamos juntos até a sala. Mas não hoje. Eu o vi entreabrir a boca como se fosse falar alguma coisa, mas não ouvi nada. Nenhum som, nenhum resmungo. E então eu passei direto, como se ele fosse um desconhecido. Como se eu não estivesse me sentindo mal por estar fazendo aquilo. Como se ele não mexesse comigo mesmo quando estávamos naquela situação de não nos falarmos. Como se eu não quisesse dizer para ficarmos bem, para novamente, esquecermos sobre nossos beijos.
O orgulho às vezes pode ser uma merda, mas o amor-próprio é bem diferente disso.
Ele continuou parado enquanto eu subia de dois em dois degraus para ser mais rápida. Entrei na sala depressa aproveitando que a professora estava de costas escrevendo no quadro, passando as instruções para reproduzirmos o trabalho do semestre. Meu cavalete era ao lado do de Lizzie.
- Eu quero saber o que está acontecendo, . – ela exigiu daquele tom mandão tão Elizabeth.
Eu permaneci quieta, fingindo prestar atenção na professora que agora falava e não no que ela havia dito.
- Você sabe que eu posso ser persuasiva quando quero. – Lizzie cochichou, trazendo seu cavalete para mais perto do meu. – Eu sou sua amiga, quero saber o que está acontecendo com você.
A porta foi aberta, tirando por alguns segundos um pouco a atenção dela e de quase todos da turma. passou por nós de cabeça baixa, dirigindo-se até a parte de trás onde estavam os outros. Lizzie olhou de mim para ele e levantou apenas uma sobrancelha fazendo a expressão de que estava começando a entender algo.
- É alguma coisa com o , não é? Vai , me conta!
- Não é nada, Lizzie, é sério. – fingi mexer nos pincéis. Não dava para encará-la sem me denunciar. Elizabeth é a última pessoa da face da terra que você poderia enganar e isso era péssimo pra mim nesse momento. – Eu e estamos bem.
- Não é o que parece. – ela revidou – Vocês não se falam desde o festival da cidade e isso tem dias!
- Nos falamos sim, ok – me defendi nada confiante, diminuindo o tom de voz não tendo certeza do que falava.
- Falam o essencial, mas não conversam. Antes vocês praticamente se excluíam da gente no intervalo porque conversavam sem parar. – ela bufou irritada e bateu na minha mão que ainda mexia nos pincéis, fazendo alguns caírem no chão. – E para de fingir que tá mexendo nessas merdas! Estou tentando estabelecer uma conversa aqui, sabia? Se você não quiser me contar, tudo bem, o problema é seu, mas não venha dizer que não há algo acontecendo aqui, não deboche da minha inteligência.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Aquele silêncio de choque e receio que se cria depois que alguém te diz algo que é verdade, mas que não te agrada. Lizzie sabia que eu estava escondendo algo, mas como? Como ela poderia me conhecer tão bem a esse ponto em menos de dois meses? Eu era tão transparente com meus sentimentos? Mais alguém já havia notado?
- É tão confuso que nem eu consigo me achar direito no meio disso tudo, quanto mais explicar pra você – soprei derrotada.
Eu precisava conversar com alguém sobre isso. Por que ficar negando se ela já desconfiava? Não queria mais guardar tantos pensamentos e perguntas pra mim. Era preciso compartilhar, saber a opinião de fora e Lizzie sem dúvida nenhuma era a mais apta pra isso.
- Então nós vamos arrumar essa confusão juntas depois – ela me assegurou com um sorriso discreto.
Eu assenti com a cabeça esboçando um sorriso também.
- Agora presta atenção no que você tá fazendo, seu desenho tá horrível! – ela disse apontando para a minha tela.

Não importa de qual escola, cidade, país ou continente você é, a hora da saída é sempre um caos. Eu, Katie e Lizzie nos esprememos entre os alunos e professores nos corredores, procurando, literalmente, a luz no fim do túnel enquanto a última nos contava sobre as fracassadas ligações, mensagens, e-mails e recados no facebook de Carl para tentar reatar o namoro. Lizzie rejeitava qualquer tipo de aproximação e eu não fazia questão de esconder que concordava com sua atitude. Estava mais do que na cara que ela só estava esperando algo relativamente grave acontecer para poder de livrar de Carl. Eu só achei que isso tudo faria ela e ficarem mais unidos, mas isso não aconteceu como eu previa. Só o humor de que melhorou 100%, o que o fez parar de querer irritar tanto Lizzie.
A confusão continuava. Um monte de gente querendo sair ao mesmo tempo, um monte de alunos parados com suas mochilas nas costas e conversando, mas eu e as meninas conseguimos passar por toda aquela algazarra com vida.
- Não é que a vaca veio hoje, meninas - ouvi uma voz conhecida atrás de mim e parei no mesmo instante. Foi só me virar e ver o ar de satisfeita que Lisa Richards fez para saber que aquilo era realmente pra mim.
A Pâmela Anderson oxigenada exibia um sorriso debochado no rosto maquiado demais para o dia, apontando pra mim para que suas amigas e todos que passassem soubessem quem era a tal vaca. Antagônico ao modo como ela falara, eu proferi as palavras num tom mais calmo e monótono possível: - Sou tão vaca quanto à vadia da sua mãe, Lisa Richards!
Posso até ter dito de maneira calma e desinteressadamente, mas foi suficientemente alto pra despertar a curiosidade das pessoas ao redor. Lisa ficou meio aturdida com a minha resposta, abrindo a boca lentamente como uma retardada mental. Eu vi chegando por trás dela com o cenho franzido, como se quisesse saber o que estava acontecendo, e estavam com ele e não muito longe dali eu pude ver o Peter virando a cabeça pra saber o porquê de uma rodinha ter se formado no meio do estacionamento.
- Como é? – Lisa perguntou com a voz tremendo levemente enquanto saltava do capô da Ferrari vermelha em que estava sentada. Ela parecia incapaz de acreditar que eu havia tido coragem de dizer àquilo pra ela.
- Oh, desculpe. Eu esqueci que você é retardada demais pra entender o que eu te digo – eu falei com calma e uma falsa inocência – Então eu te ajudo. Deixa-me falar mais claramente pra você entender: Sou-tão-vaca-quanto-a-vagabunda-que-te-pôs-no-mundo!
Lizzie apertou o meu braço, nervosa, e Katie quase soltou um orgasmo ao meu lado. A maior parte da multidão começou a rir. Eu ouvi vários ‘Uhhh’ e em seguida Lisa estava lívida caminhando como uma louca pra cima de mim.
- , não cai na provocação dela – Lizzie gemeu ao meu lado.
- É Princesinha , não caia na minha provocação! – Lisa zombou – Afinal de contas, o vem aqui proteger você, não é?
Estava muito fácil. Lisa estava dando sua cara à tapa muito facilmente. Ela provavelmente achava que eu não arregaria na frente da escola inteira. E eu posso dizer que não iria arregar mesmo. Eu não era tão burra assim, ela queria me ferrar de alguma maneira e eu não iria dar o gostinho de cair na dela assim tão fácil. Quando vi outra rodinha em volta de nós, andei em direção a ela e parei na sua frente, cutucando seu peito:
- Não tenho medo de você, Richards! Estou avisando pra não mexer comigo!
E virei para continuar meu caminho até o carro de , mas Lisa foi mais rápida me pegando pelas costas. Pra ser mais exata, pelos cabelos.
Eu ouvi gritos, mas não foram meus. Foi como com Jennifer, tudo ficou branco e vermelho. Eu só conseguia sentir raiva e a necessidade de extravasá-la. As provocações de Lisa não eram de hoje, aquilo foi só a estopim pra todo o resto. Agi por instinto. Quando ela me puxou, eu automaticamente virei e fechei a minha mão em um punho, acertando em cheio em seu olho. Lisa uivou de dor e eu também pelo puxão forte que ela tinha me dado.
- Não toque no meu cabelo, sua desgraçada! – eu gritei, mais pra disfarçar o meu grito por causa do puxão do que qualquer outra coisa.
Lisa, que posso dizer não esperava levar um soco no olho, levantou a cabeça lívida, a mão ainda sobre o olho, e gritou quase à beira de um colapso: - Que tipo de garota é você?
- Do tipo que bate pra machucar! – eu gritei de volta, avançando nela e em seguida lhe dei um tapa na cara, fazendo meus cinco dedos ficarem bem marcados em sua pele leite.
Lisa ficou louca sentindo seu rosto latejar e jogou o corpo dela contra o meu, me empurrando. Nós duas caímos no chão do estacionamento e ninguém chegava para nos separar. Pude ouvir os gritinhos dos alunos, uns excitados, outros horrorizados. Eu continuei a bater nela e a chutá-la de qualquer jeito no chão. Por um momento ínfimo consegui me levantar e dar alguns chutes nela com mais força, mas ela logo tratou um jeito de me dar uma rasteira, me fazendo cair novamente no chão. Levei alguns tapas no rosto e a agarrei pelo cabelo, fazendo-a uivar de dor.
Estávamos, literalmente, nos engalfinhando no chão.
Era uma cena ridícula, eu tinha plena consciência disso. Contudo eu não conseguia sair dali. Eu só queria continuar. Quando eu finalmente consegui dominá-la no chão e segurá-la pelos cabelos de novo, gritei:
- Eu avisei pra não mexer comigo! – em seguida bati com toda a força que ainda tinha me sobrado a cabeça dela no chão. Então de novo, eu levantei a cabeça dela e meti com toda a força no chão. O nariz dela começou a jogar sangue.
Eu iria bater a cabeça dela mais uma vez no chão se um par de braços fortes não tivesse me segurado acima do chão como se eu fosse uma sacola de compras. Lisa não estava tão machucada quanto eu achava, porque assim que fui tirada de cima dela a garota levantou com tudo e se não a tivesse segurado também, ela provavelmente estaria em cima de mim. Me contorci e gritei pra pessoa me largar, esbravejando palavrões.
- Fique quieta! – gritou no meu ouvindo praticamente estourando meus tímpanos, me apertando forte contra si.
Lisa deu uma cotovelada forte em , o deixando sem ar e então ela veio diretamente pra mim, virou de costas, pra me proteger e Lisa trombou com ele. rapidamente se adiantou para segurá-la, dando mais tempo para se recuperar.
Meu estômago afundou quando vi a diretora surgir entre o tumulto dos alunos com o rosto vermelho. Instantaneamente eu parei de me contorcer e gritar, não fazendo me colocar no chão e nem afrouxar o aperto em volta de mim.
- Você conseguiu! – ele falou no meu ouvido, agora sem gritar – Está ferrada!
O local caiu num silêncio mortal enquanto a diretora parou diante de nós com seu terninho preto e salto agulha nos olhando como se fosse nos queimar com algum tipo de visão de raio laser.
- Quero as duas na diretoria agora! – ela gritou apontando pra mim e depois para a Lisa.
me soltou e me colocou no chão e assim que pisei, cambaleei e teria caído se ele não tivesse me segurado de novo. Respirei fundo, forçando ao meu corpo a se recuperar rápido. Sem sucesso, cambaleei de novo e me pegou no colo, me levanto para a diretoria.
Foi humilhante.
carregou Lisa, que havia feito o maior drama na frente da diretora, soltando gemidos, apontando para um enorme roxo em volta do olho acompanhado de algumas escoriações pelo resto do rosto.
Katie, Lizzie e nos acompanharam até a secretaria. De lá, só eu e Lisa entramos na sala da direção. A diretoria soltou alguns resmungos e nos mandou sentar. Eu nem cheguei a abrir a minha boca pra dizer alguma coisa e Lisa já estava berrando coisas ininteligíveis. A professora levantou a mão, pedindo silêncio enquanto se sentava em sua cadeira atrás da mesa.
Ficamos por lá por pelo menos duas horas. A diretora passou o maior sermão e depois nos pediu para contar o que havia acontecido. Lisa era uma chorona. Ficou o tempo todo choramingando e dizendo que eu havia batido nela sem motivo.
Na minha vez eu fui a mais sincera e lúcida que pude, falando calmamente.
Antes de nos liberar, ela avisou que ligaria para os nossos pais e nos deu uma semana de detenção.
Encontrei com , , Lizzie, Katie e sentados na secretaria em silêncio. Todos levantaram juntos, Lizzie veio com os olhos chocados, Katie sorrindo e não parecia nada feliz. e me abraçaram de lado, sussurrando que eu havia me saído muito bem na briga e que estavam orgulhosos de mim, enquanto andávamos até o estacionamento, que agora se encontrava vazio. Eles se despediram de mim, me deixando sozinha com , não antes de Lizzie fazer um telefone com as mãos, sibilando "te ligo depois".
- Você tá bem? - ele perguntou preocupado, me olhando dos pés a cabeça.
- Acho que sim - respondi baixo, avaliando o estrago da minha roupa. Minha blusa azul estava numa mistura de sangue de Lisa Richards e sujeira e minha calça estava rasgada no joelho.
- Ótimo porque eu e você vamos ter uma conversa! - mudou seu tom, falando como se fosse meu pai, quando paramos em frente ao seu carro. – Vamos pra casa.
- E se eu não for com você? – disse erguendo meu queixo. - Você não é meu pai!
Engoli em seco por causa do olhar que ele me lançou.
não me respondeu. Ele simplesmente agarrou o meu braço, abriu a porta do Land Rover com um clique e me jogou contra o bando do carona. Ele bateu a porta com força e eu olhei pro lugar onde ele havia agarrado meu braço. Estava queimando. As marcas dos dedos dele estavam ali.
- Não pense nisso! - ele rosnou, lançando um olhar realmente zangado quando viu pelo vidro que eu tencionava a sair do carro.
Não me mexi mais. E realmente não estava louca ao ponto de enfrentá-lo. não estava irritado ou puto. Ele estava nervoso de um jeito que eu não tinha o visto estar. Eu o encarei zangada também, enquanto ele dava a volta no carro segurando sua mochila e a chave do carro. enfiou a chave no contato, mas não ligou o carro. Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo algumas vezes e olhou pra mim.
- Eu falei que as pessoas daqui não são como da sua escola antiga! Eu te avisei, , te avisei porque conheço exatamente como Lisa é! Agora você está com detenção e ainda por cima participou de uma cena realmente ridícula!
- Se você sabe como ela é, sabe exatamente ao ponto que pode chegar suas provocações! - exclamei indignada por ele não estar no meu lado. - Não tenho sangue de barata!
- Você a socou! - ele disse pausadamente.
- Você não reclamou quando eu bati na Jennifer!
- Era diferente! - ele bufou, agarrando o volante - Você acha que pode sair socando todo mundo que te provoca ou diz algo que não te agrada?
- Talvez, você quer entrar pra lista pra ver?
soltou um berro frustrado e socou o volante, olhando para o lado. Meus olhos queimaram, minha visão ficou embaçada, um nó se formou na minha garganta. Não deu pra segurar, quando vi, já estava chorando. Chorei baixinho, limpando minhas lágrimas com rapidez para que não percebesse o que estava acontecendo comigo.
- Você não devia ter aceitado a provocação - ele finalmente disse ainda olhando para o lado de fora.
- Eu não sou fraca, ! - falei com a voz embargada, colocando as mãos no rosto. - Não sou fraca!
tirou as mãos do meu rosto e me olhou. Seus perfeitos olhos me perfuraram como lâminas afiadas. Ele estava me lendo através deles. Descobrindo o que eu estava sentindo. Eu vi a irritação dele se esvair.
Sua mão cariciou a minha bochecha, limpando qualquer vestígio de fraqueza. Fechei os meus olhos e os reabri lentamente, sentindo minha pele queimar em prazer pelo seu toque carinhoso.
- Não , você não é fraca. Só toma atitudes idiotas de vez em quando! – ele disse calmamente, recolhendo a mão para ligar o carro – Reze para John chegar em casa só irritado porque se ele estiver realmente mau humorado, você está ferrada.
Estávamos saindo do estacionamento quando Peter surgiu, se colocando na frente do carro, atrapalhando a passagem. buzinou, dizendo para ele sair, mas ao invés disso, Peter continuou parado, pedindo para falar comigo.
- Não, ! Depois vocês conversam - segurou, sem nenhuma força, o meu braço quando coloquei a mão na maçaneta. - Vamos pra casa agora.
- Tudo bem, , eu vou falar rápido com ele.
eu nem me mexi direito e Peter bateu no capô do carro, me chamando.
- Ei seu escroto, não bata no meu carro! - bateu no volante. Ele e Peter trocaram olhares ameaçadores.
- Calma! - falei para Peter - Já tô saindo!
- Não, você vai ficar, vamos embora agora! - ameaçou arrancar com o carro mesmo com Peter diante de nós. Eu segurei suas mãos, as tirando do volante. Ele me olhou não entendo o que eu queria.
- Já tivemos confusões demais por um dia - calculei minhas palavras para não irritá-lo mais.
- , sai do carro, preciso conversar com você - Peter pediu vindo para o meu lado.
- Ela vai embora comigo! - apertou um botão do lado da sua porta, trancando automaticamente as portas.
- ! - o repreendi - Pode destravando as portas!
- Não! Esse cara precisa aprender a não mexer com o que é meu!
Com o que é seu?
- Com o que é seu? - eu perguntei perplexa, unindo as sobrancelhas. - Desde quando eu sou sua, ? Me diz, porque nem eu percebi que me tornei sua propriedade!
piscou os olhos freneticamente, aturdido, enquanto me fitava. Depois ficou vermelho, abrindo e fechando a boca como se fosse falar.
- Anda, destrave as portas, eu vou sair! - falei quando ele não esboçou mais nenhuma reação.
Rapidamente ele fez o que eu pedi.
- Ótimo, sai do carro! Fique com ele! - ele pronunciou as palavras carregadas de desprezo quando eu abri a porta para sair.
Não respondi. Bati a porta e foi só me afastar um pouco que arrancou mesmo com o carro, cantando pneus pela saída.
- Ele tá bem nervosinho hoje hein - Peter comentou rindo.
Revirei os olhos demonstrando impaciência.
- Não comece.
- Tudo bem – ele piscou com um olho, me puxando com delicadeza, estudando os machucados que eu provavelmente tinha no rosto. – Você está bem?
- O que você acha? Eu bati em Lisa Richards! Estou ótima! – sorri, fazendo uma careta de dor quando ele tocou numa parte perto do meu lábio. – Ai!
- Desculpe – ele sorriu mais uma vez, subindo o olhar dos meus lábios até meus olhos – Você soca muito bem. Lembre-me de nunca brigarmos.
Sorri, me desvencilhando com cuidado das mãos de Peter. Ele sustentou o sorriso, mas vi pela sua expressão que ele não havia gostado.
- Você não chegou a almoçar. Vamos comer e aproveitar que você ainda não está oficialmente de castigo. Depois eu te deixo em casa.
- Vamos o mais depressa possível! - concordei já ouvindo as reclamações do meu estômago. -Com toda essa confusão eu não tive tempo de comer.
Fomos no carro de Peter até a uma lanchonete que ficava a cinco quarteirões da minha casa. Sentamos em uma mesa perto de uma grande janela e comemos grandes hamburgueses com dois potes de batata frita e tomamos sundaes com cobertura de chocolate. Conversamos e rimos a tarde inteira, falamos de música e filmes. Peter ainda começou a me dar umas dicas de como dar socos mais eficazes (nada que já não tivesse me falado antes) até que acabamos falando sobre o meu passado. Ele já sabia superficialmente sobre o que tinha acontecido, mas agora ele era um amigo, eu não precisava mais esconder. Contei até mesmo sobre a cena com Jennifer e Sam. Ele me ouvia atentamente, perguntando quando não entendia algo, fazendo observações - algumas que eu mesma já tinha feito sozinha.
- E desde então você e ele não tiveram nenhum contanto? – ele se referiu a John enquanto enfiava uma batata frita na boca.
- Ele tentou, mas eu não quis... Quer dizer, o cara me abandonou do nada, como se eu e minha mãe fôssemos brinquedos que ele estava cansado de brincar. Foi um choque chegar em casa e ver meu pai indo embora e minha mãe chorando sem parar. Eu só tinha sete anos, Peter.
- Você nunca pensou que pode ter acontecido alguma coisa que fez seu pai fazer isso? Porque você mesma acabou de dizer que ele nunca mostrou que estava insatisfeito com alguma coisa.
Eu olhei confusa para ele, sentindo a sementinha da dúvida e incerteza sendo implantada no meu cérebro. Eu nunca havia pensando realmente que poderia ter algum motivo por detrás disso.
- Não, nunca pensei nisso... - disse tentando soar alguma verdade, mas só consegui parecer afetada e mais confusa. - A minha mãe teria me contado... Não acha?
- Eu não sei, . Talvez ela quisesse esconder algo de você por te achar muito nova para saber. – ele deu de ombros. – Ou não. Eu só acho que tem alguma coisa estranha aí...
Eu olhei para o meu sundae quase no fim, pensando nessa hipótese. Eu conservei uma raiva tão grande de John durante todos esses anos que não pensei exatamente o que o levou a fazer isso. De certo modo, eu fui egoísta por pensar apenas e mim e em minha mãe e nunca ter procurado saber o lado dele. Eu me senti mal.
- ? – Peter me chamou, abanando a mão na frente do meu rosto. – Você está bem?
- Sim. – sorri amarelo. – Só estava pensando.
- Acho que fiz merda, né? - ele fez uma careta - Não deveria ter falado nada, desculpa.
- Não, Peter. Foi ótimo conversar com você sobre isso.
Quando escureceu Peter me deixou na esquina da minha rua. Fui caminhando com passos lentos em direção a casa, pensando no que conversamos na lanchonete. Aquilo não parava de martelar na minha cabeça. Será que realmente existia mais algum detalhe nessa história que eu não sabia?
Meu estômago afundou pela segunda vez quando vi o Toyota Prius prata de Helen e a BMW preta de John estacionados do lado de fora da garagem. Eu imaginei ambos sentados no sofá com as caras emburradas, esperando para dar o maior esporro da minha vida, mas quando entrei a cena foi totalmente diferente. A casa parecia vazia. Estava silenciosa. Muito silenciosa. Fui até a sala e não encontrei ninguém. A cozinha também estava vazia. Foi então que eu ouvi vozes vindas do escritório de John. Caminhei até lá, encontrando de costas pra mim, ouvindo a conversa por uma brecha que a porta encostada permitia. Ele estava tão concentrado no que fazia que se sobressaltou quando falei:
- Ouvindo a conversa dos outros, ?
Ele me olhou assustado e se afastou da porta como se ela fosse algo muito nojento.
- Eu não estava escutando a conversa de ninguém - ele negou desconsertado e nervoso, despertando a minha curiosidade para saber que assunto tão importante ele tinha escutado para deixá-lo assim.
Não tive tempo de responder, pois a porta foi escancarada revelando um John irritado.
- Onde você se meteu? - ele perguntou quase voando em mim. Não parecia nem de longe ser um homem calmo.
- Fui almoçar, ué. - respondi debochada.
- Não me responda desse jeito, ! - ele disse exasperado, os olhos arregalados. - Eu não acredito que você saiu mesmo sabendo que eu lhe castigaria pelo que aconteceu hoje!
- John, se acalme - Helen apareceu atrás dele, tocando em seu ombro. Ela me olhou com carinho e não zangada como eu achei que faria e me deu um sorriso meigo antes de continuar - Vem , entre e vamos conversar.
John se afastou para me dar espaço para entrar. Ele bufou encostado na mesa com Helen em pé ao seu lado, comigo e em pé, um ao lado do outro. Em algum momento ele roçou sua mão na minha e sussurrou "eu tô aqui se você precisar", me deixando relaxada.
- Eu realmente não entendo o que está acontecendo com você... - John voltou a dizer agora com sua voz normalmente calma depois de um breve período de silêncio. - Eu tento, mas não entendo. Quando eu acho que você vai melhorar, você vai e apronta uma! O que você quer de mim, ?
- Eu só quero que você pare de se meter na minha vida como se fizesse parte dela! - o desafiei só para irritá-lo. Eu queria vê-lo esbravejando como antes. Queria que ele explodisse de raiva! De repente eu senti minha mão envolvida pela de .
- ... - Helen se intrometeu como sempre fazia quando eu e John começávamos a trocar farpas um com o outro. Ela sabia qual rumo aquela "conversa" iria tomar. - Por que você não sobe e toma um banho? Depois vocês conversam.
- Não Helen, ela fica aqui. Nós vamos conversar agora! - John me lançou um olhar duro através dos seus olhos , cruzando os braços na altura do peito. - tem que aprender a enfrentar as coisas. - eu percebi um duplo sentindo nas suas palavras – Você quer chamar a minha atenção, não é? Está agindo como uma criança mimada!
- Se eu sou uma criança mimada pode ter certeza que não foi graças a você! - dei um passo pra frente o encarando com superioridade. - Você perdeu essa fase!
- Meça suas palavras comigo! Eu não sou um dos seus colegas de escola! - ele se desencostou da mesa, vindo pra cima de mim. Helen logo se adiantou, o segurando pelo braço.
- Claro que não, eles merecem muito mais respeito meu do que você! - gritei.
Se não fosse por Helen, John teria voado em mim nessa hora.
- Sobe! - ele mandou com a voz trêmula. - Sobe agora! Agora vai ser assim, enquanto você agir como uma criança, vai ser tratada como tal!
- Você deve estar se achando muito pai agora, não é? – perguntei sarcástica, as lágrimas de raiva brotando em meus olhos e quando apertou mais a minha mão eu a sacudi e me soltei dele.
- Sobe, ! – John repetiu, fechando os olhos e respirando fundo.
- Você não é mais meu pai! – rugi – Você perdeu esse cargo quando se mandou!
- Não estamos falando disso! – John se descontrolou e gritou comigo. – Sobe agora e fique por lá!
- Você acha que pode entrar e sair da minha vida, brincar de fazer papel de pai, mas você não pode John! Não pode! - berrei com toda a força que eu consegui. As lágrimas explodindo nos meus olhos e rolando pelo meu rosto. segurou o meu braço, tentando me afastar de John que agora estava bem próximo.
- John, por favor, se controla! - Helen fez o mesmo com ele, agora suplicando desesperada como se previsse o que aconteceria caso ela não se metesse.
- Você me afastou, ! – John gritou de volta como se pedisse desculpas, como se suplicasse. – Você não quis me ver! Você me tirou da sua vida!
- Por acaso você acha que eu deveria simplesmente agir como se você não estivesse abandonando a mim e a minha mãe?
- ... – advertiu, apertando ainda mais a minha mão, me direcionando para fora do escritório.
- Não estamos falando disso... Você não entende – os olhos de John escureceram. Seus olhos perderam totalmente o brilho. Não havia mais nada refletido neles, nem mesmo raiva. Nós dois não estávamos mais ouvindo e Helen. John e eu estávamos finalmente vomitando nossas mágoas.
- Falamos apenas do que você quer não é? Você é o pai agora, está no controle!
Eu sabia que John estava no limite e mesmo assim não quis parar. Eu queria magoá-lo tanto quando fui magoada no passado.
- Está abusando, ! – ele voltou a gritar, deixando claro o meu pensamento.
- O que você vai fazer? – rosnei já não tendo mais garganta para gritar. – Qual vai ser o castigo? Ele vai ser por quebrar a cara daquela piranha ou por não te querer como pai?
Eu não me lembrava se John até aquele dia, tinha levantado a mão para me bater. Mas isso já não importava porque ele o fez. John bateu em mim. Uma bofetada, bem dada e estalada. Meu rosto virou com brutalidade e o lugar atingido latejou na mesma hora como se estivesse sido marcado em brasa. Helen gritou sobressaltada pelo eco do tapa, se pondo entre nós rapidamente, empurrando John para trás. ficou na minha frente para me proteger e me abraçou gentilmente enquanto eu ficava imóvel com a mão no rosto. Olhei pra John por cima do ombro de vendo que ele tinha uma mistura de culpa e assombro no rosto.
- Nem isso faz de você meu pai – falei baixo, mas o suficiente para todos escutarem. – Você nunca vai ter o meu respeito!
- Chega! - foi a vez de Helen gritar - Não quero mais ouvir nada! , leve a para o quarto dela!
Eu deixei que fizesse isso. Ele me pegou pelo braço e me arrastou escada a cima até o meu quarto. Abriu a porta e entrou comigo, me ajudando a sentar na minha cama arrumada.
- Você vai ficar bem? – ele perguntou com os olhos me estudando atentamente, tirando o cabelo que estava grudado no meu rosto por causa das lágrimas.
Eu balancei a cabeça negativamente e solucei, liberando mais lágrimas.
- Você podia ter evitado isso... – ele disse compreensivo – Não devia ter gritado com ele e nem dito tudo aquilo... Foi cruel, você exagerou...
- Por favor... – eu disse tapando os meus ouvidos.
- Eu queria poder arrancar essa dor que você tem - a voz de saiu melancólica e preocupada. - Odeio te ver triste, me sinto impotente.
Ficamos nos olhando por um longo período. me olhava com intensidade, mas com seus sentimentos escondidos por um escudo invisível, como ele sempre fazia. Ele sorriu de lado daquele jeito galanteador dele e se aproximou devagar, avaliando se deveria ou não continuar.
E então me abraçou.
Seus braços me envolveram daquele jeito protetor que eu amava. Eu senti seu peito contra o meu, me deixando maravilhada, cheia de saudade daquela aproximação, seu cheiro amadeirado me envolveu, tranquilizando ao mesmo tempo em que me deixou zonza. Enterrei meu rosto em seu pescoço, aspirando ainda mais àquela essência tão perturbadoramente gostosa. A única coisa que eu queria era que continuasse me apertando contra si. Ele agarrou o meu cabelo, pondo sua mão na minha nuca, apertando com força enquanto suspirava no meu ouvido, me arrepiando violentamente. Eu me tornei gelatina nessa hora e arfei, agarrando sua blusa. beijou abaixo do meu ouvido, sussurrando algo incompreensível. Ele depositou um beijo simples no meu pescoço, mas o bastante para me ascender da raiz dos cabelos até o dedinho do pé. Ele foi beijando e beijando, mantendo o controle de acesso ao meu pescoço, até que seus dentes se fecharam carinhosamente na minha pele algumas vezes. pôs seus olhos na altura dos meus, esfregando nossos narizes em um beijo de esquimó e mordeu meu lábio inferior. Suas íris transbordavam necessidade e desejo. Nossos lábios se encostaram com gentileza e ternura. Naquele momento não havia lugar para urgência e fome. Eu precisava de carinho e calma e era isso que me daria.
Brincamos com os lábios um do outro, dando selinhos estalados e demorados até que finalmente a língua de pediu passagem para tocar na minha. Eu dei o acesso e fiz o mesmo com a boca dele. Não houve choque ou surpresa. Eu já conhecia . Conhecia seu gosto, poderia não conhecer todos os seus pontos fracos, mas sabia o suficiente até o momento. Nossas línguas se enroscaram como grandes e devotas cúmplices. Ele grudou seu peito inteiramente no meu, me deixando sentir seu coração acelerado e só então eu notei que o meu estava no mesmo estado. Minhas mãos bagunçaram seu cabelo, se perdendo entre os fios macios e sedosos, fazendo-o soltar gemidos baixinhos. Suas mãos vagaram pela minha cintura por dentro da blusa, eu respirava com dificuldade, mas ainda assim deixei que ele me tocasse, ele pôs as mãos para fora, subindo pelo meu tronco, até tocar em um seio. Eu não afastei e nem reclamei daquela ousadia. Eu queria que ele continuasse e foi assim que ele fez, envolvendo meu seio com sua mão grande, apertando apenas para sentir o tamanho e eriçando o bico.
Eu me sentia febril.
Minha mão tocou em sua coxa, indo até quase a virilha com a intenção de provocá-lo, fazendo empurrar sua língua contra a minha com força e sua mão invadir sem permissão a minha blusa se fechando no seio coberto pelo sutiã, que outrora já fora tocado. quase perdeu o rumo do beijo quando me ouviu lamuriar quando o seu dedão e o indicador pressionaram o meu mamilo. Arfei e gemi contra sua boca, deliciada com aquele carinho indevido pedindo por mais através do beijo, subindo e descendo os apertos em sua coxa. Por alguns minutos eu fiquei imaginando o quanto ele poderia estar excitado.
E então eu me toquei. Eu estava cedendo de novo.
Não, ! Não! Eu me afastei bruscamente, empurrando , que me olhou confuso. Eu vi em seus olhos a mesma confusão que em outros momentos estavam nos meus. Rapidamente ele tratou de tirar suas mãos de mim.
- Sai, - mandei, fechando os olhos. Olhar para ele estava me matando de todas as formas possíveis. – Me deixa sozinha.
- Mas... – ele suplicou.
- Por favor! - recolhi minhas pernas, afundando meu rosto nos meus joelhos com medo de que meus olhos abrissem sem minha permissão. – Sai!
Um frio descomunal passou pelo meu corpo quando percebi a parte em que estava sentado desafundar sem seu peso. Ele levantou em silêncio, dirigindo-se para a porta. Pude ouvi-la abrir, mas não houve nenhum ruído que demonstrasse que ela fora fechada. Apertei fortemente meus olhos contra meus joelhos e fiz o mesmo com meus braços em volta das pernas. Eu só queria um pouco de paz. Eu precisava disso.
- Eu só quero que as coisas fiquem bem – a voz de pronunciou as palavras com cuidado, quebrando o silêncio do cômodo antes de finalmente a porta bater.
Eu me joguei contra os travesseiros e gritei. Gritei muito. Gritei até a garganta arder implorando que eu parasse. Gritei até ficar rouca. Gritei com toda a força, com toda raiva, mágoa e ressentimento que brotava de mim.
Eu continuei gritando por um bom tempo.
Os soluços simplesmente não paravam. As lágrimas simplesmente não tinham fim.
Eu estava mais machucada por dentro do que por fora.

Capítulo 14.

Atenção: Algumas músicas serão citadas ao decorrer do capítulo, mas somente duas serão as principais! Coloque Stutter - Maroon 5 para tocar quando a primeira letra aparecer. E depois Slow Dancing in a Burning Room - John Mayer quando a segunda aparecer.

Observei meu reflexo no espelho virando de um lado para o outro procurando algo que pudesse estar errado, mas ao invés disso, me senti muito satisfeita com o resultado do tecido do vestido que aderira as curvas do meu corpo, sobressaltando os lugares certos sem me deixar parecendo uma prostituta. Depois de concluir que não havia nada de errado com a roupa, fiz o mesmo com o coque frouxo que Lizzie havia passado horas fazendo em mim. Aproximei mais o meu rosto, verificando se os arranhões por causa da briga com Lisa estavam bem disfarçados. Graças a Helen eles não haviam infeccionado. Por último passei mais uma camada de rímel para destacar ainda mais os meus olhos que estavam bem marcados com a sombra preta esfumaçada, concluindo a maquiagem com um batom nude para não chamar tanta atenção.
- Lizzie, 'tô te esperando lá embaixo, vê se não demora! – disse diante da porta fechada do banheiro antes de pegar minha bolsa-carteira preta e sair do quarto sem esperar uma resposta.
Sentei no sofá ao lado de George que estava assistindo The Big Bang Theory. No instante em que sentei, ele virou o rosto, me encarando boquiaberto.
- Ah, como eu gostaria de ir a essa festa! – ele disse com uma falsa cara triste – Pena que já tenho compromisso!
O compromisso de George se resumia a um par de pernas femininas sem calcinha na sua cama, de preferência.
- Sai! – ri o empurrando quando ele chegou mais perto para me cheirar. Eu sabia que George só estava brincando, mas também não iria abusar. – Deixa de ser bobo!
- Só não te ataco porque você é minha irmãzinha postiça. – ele disse com um sorriso sacana.
- Você não a ataca porque sabe que é a última coisa que vai fazer na vida antes do John te quebrar em dois e o terminar de dividir os pedaços para pendurar nos postes da cidade – Lizzie apareceu diante de nós usando uma saia justa e curta de cintura alta, uma blusa tomara-que-caia com decote de coração de oncinha, o cabelo ruivo e chamativo bem escovado jogado para o lado deixando a impressão de uma falsa franja e uma maquiagem tão forte quanto a minha nos olhos, com lentes de contato ao invés de óculos. Ela foi até a TV e a desligou, nos encarando com as mãos na cintura.
- Então maninho, como estou?
- Indecente! – George fez uma cara de bravo olhando o tamanho da saia da irmã. – Você não vai com essa roupa, Elizabeth! Seus peitos estão quase pulando pra fora!
Irmãos ciumentos e seus exageros...
- Como você é dramático, George Tallis! – ela revirou os olhos impaciente, mas sustentando um sorriso. – Olha, a mamãe só vai chegar na segunda, mas eu não quero ver roupas da sua amiguinha espalhadas pela casa ou então eu mesma me encarrego de jogar tudo no lixo! Não queremos outra seminua no nosso telhado. Agora vamos, , Cassie já me ligou umas 500 vezes!
- E que horas as senhoritas vão chegar? – George se virou, nos olhando com dificuldade por causa da posição.
- Não temos hora, querido. – Lizzie respondeu mandando um beijo no ar para ele. – Use camisinha!
Ela pegou a chave no aparador do corredor e logo já estávamos indo em direção a casa de Katie. Tínhamos passado a tarde inteira na casa dela ajudado com a decoração e guardando os objetos quebráveis enquanto os meninos estavam encarregados com as bebidas e em ajudar o DJ a montar todos os equipamentos. Só voltamos à noitinha para nos arrumar. Foi graças a essa agitação toda que eu consegui “escapar” de contar a Lizzie tudo o que estava acontecendo entre eu e . Não que eu tivesse mudado de ideia, mas compartilhar aquilo com uma terceira pessoa transformaria tudo em real, mais do que já era, porque enquanto as coisas ficavam entre eu e ele, tudo não passaria de alguns momentos, algumas fraquezas que sentimos um pelo outro. Era como se a partir do momento que eu contasse, apareceria um alerta gritando “É , de fato você está se envolvendo com o seu meio-irmão”.
Eu estava com uma bomba-relógio prestes a explodir e não fazia ideia de qual era fio certo para desligá-la.
E se Lizzie achasse que eu estava louca? Por mais que eu não queira aceitar tal vínculo, eu e somos parentes de certo modo, compartilhamos o sangue da mesma irmã. Era assim que éramos visto pelas pessoas, e era assim que seríamos vistos até o final.
Senti um súbito aperto forte no peito, um aperto que quase me deixou sem ar. Uma sensação horrível que eu não conseguia explicar da onde vinha, ou o porquê e sempre aparecia da mesma forma nos últimos dias. Sobressaltei-me no banco, assustando um pouco Lizzie que me fitou com os olhos arregalados.
Do mesmo jeito que o aperto veio, ele foi embora. Infelizmente, a sensação não.
- Você quer que eu bata o carro? – Lizzie perguntou alterada ainda sob o efeito do susto.
- Desculpa, estava pensando numa coisa. – encostei a cabeça no vidro fechado por causa do frio, me sentindo uma completa idiota.
- E posso saber o que foi que você pensou? – havia mais do que curiosidade na voz dela. Ela praticamente dizia “Eu sei que você está pensando em algo relacionado ao ”.
- É Lizzie, é nele que eu tava pensando... – falei sem me preocupar em dizer o nome de quem eu pensava, Lizzie sabia muito bem a quem eu estava me referindo. – Eu prometi que vou te contar, não prometi? Mas não agora, por favor. Hoje eu quero me divertir.
Ficamos num silêncio tranquilo apenas escutando Johnny Borrell e sua voz maravilhosa cantando America. Eu fechei os olhos, e mesmo assim, conseguia sentir que Lizzie se segurava para não insistir no assunto, mesmo sabendo que estava quase no meu limite.
- Emma te ligou hoje, né? – por fim ela resolveu mudar de assunto, tomando um caminho mais seguro para estabelecer uma conversa comigo. Por isso que eu digo, Lizzie era muito, muito esperta. Reabri os olhos, vendo de soslaio ela me encarando, esperando uma resposta. Por fim balancei a cabeça afirmativamente. – Eles voltam que horas?
- Amanhã cedo, só não sei o horário... – dei de ombros, deixando meus olhos vagarem pelos borrões de pessoas e bares que ficavam pra trás ao nível que o carro tomava, ficando mais acelerado. – Talvez antes de eu voltar pra casa. Estou com saudade dela.
- Emma é um docinho mesmo, quem me dera que George fosse mais parecido com ela.
- Você queria que seu irmão usasse vestidos rodados?
- Não né. Só queria que ele fosse mais carinhoso comigo. – Lizzie dizia, mas não havia ressentimento na voz – Queria um irmão menos ciumento.
Dei de ombros novamente, olhando as pessoas passeando despreocupadas na direção de um pub que parecia bastante cheio. Provavelmente era novo.
- Você... E como vão as coisas com o John? – ela pigarreou me despertando da minha pequena distração – Você falou com ele também?
A sensação foi embora... E no lugar dela o aperto voltou.
Por que eu estava daquele jeito? Por que essas sensações ruins não me deixavam em paz?
- Não! – disse ignorando o que estava sentindo – Não nos falamos desde que aquele merda e irritantemente calmo me bateu! Aquele filho da puta cretino...
O clima em casa estava pesado nos dias decorrentes a minha briga com John. Se o nosso relacionamento já era difícil, depois daquele dia, ele desmoronou completamente. Não sobrou nada. Não da minha parte! E eu deixava isso bem claro. Eu não olhava pra cara dele nem se ele cantasse "Your Song" vestido de Pato Donald como o Elton John, assim como ele não falava comigo. No jantar era assim: eu entrava muda e saia calada. A não ser quando Helen puxava assunto ou Emma contasse alguma coisa sobre a escola. Eu não ignoraria as duas pessoas que estavam me ajudando.
Pobre Emma, não sabia o pai de merda que tinha... Ela não sabia o que tinha acontecido porque não estava em casa no dia fatídico, mas era esperta para entender que era algo grave. Não sei dizer se ou Helen contaram a ela, só sei que Emma não me perturbava para contar nada.
A verdade é que era um milagre eu estar indo a festa da Katie. Um milagre chamado Helen. Foi por seu intermédio que John concordou que eu poderia ficar na casa de Lizzie no final de semana enquanto a família - Emma, ele e Helen - fazia uma viagem tradicional até a Escócia para visitar alguns parentes.
Meu castigo só seria depois da minha volta a Londres por causa dos shows.
- Vocês precisam conversar, . – Lizzie me olhou pelo canto dos olhos como se aquilo fosse uma mãe zelosa avisando algo muito importante. Fiz menção de falar, mas ela continuou, me impedindo. – Eu sei o que você vai dizer, mas você precisa parar com essa sua birrinha e encarar logo as coisas. Você sabe que mais cedo ou mais tarde vai ter que conversar com John sobre essa relação bizarra de pai e filha que vocês têm... E então você poder saber se ele está ou não escondendo algo sobre o casamento com a sua mãe.
- Tomara que essa conversa seja bem tarde, quando eu tiver uns 30 anos e não morar mais com ele. – rebati malcriada. – Eu já não tenho tanta dúvida assim sobre o casamento deles... Eu não quero o nome da minha mãe naquela boca suja!
- Sabe o que é mais escroto nisso tudo? – ela perguntou parando no sinal e o cara do carro do lado começou a fazer “psiu” pra ela, que ignorou fazendo uma cara de “Eu chutaria as bolas dele sem pensar duas vezes”.
- O que?
- Você odeia o John, mas adora a Helen, que é sua madrasta!
- E daí? Ela é legal! Se não fosse por ela, eu nem estaria aqui! E eu sei que eles só se conheceram quando ele voltou pra cá, minha mãe mesma me contou.
- Vai se foder! – Lizzie acelerou depois de mandar o dedo do meio para o cara que insistia em chamar sua atenção. Depois que nos afastamos o suficiente, ela continuou – Eu sei Helen é legal, mas mesmo assim é meio estranho, não acha?
- Não, na verdade não. – falei só pra contrariar. - Você diz isso porque seu pai não é um babaca como o John.
Lizzie bufou e aumentou o volume do rádio que agora tocava 11th Dimension do Julian Casablancas. Não demorou muito mais do que dez minutos para chegarmos ao nosso destino.
Estacionamentos quase em frente à garagem que já estava ocupada pelo Kia Sorento prata de e pela Land Rover preta de , que estava atrás, impedindo que o carro de desse a marcha à ré.
A casa toda estava iluminada na parte externa enquanto só eram vistas pela janela algumas luzes coloridas vagando pela parte interna. Mesmo a dois quarteirões de distância era possível ouvir Nobody Lost, Nobody Found do Cut Copy tal era volume do som, dando a impressão de que o chão tremia a cada passo que eu dava em direção à entrada. Suspeitei que não demoraria até termos algum vizinho reclamando ou chamando a polícia, afinal já eram 22:30h – relativamente tarde mesmo sendo um sábado e a maioria das pessoas não precisasse acordar cedo no dia seguinte. - ou talvez eles já estivessem acostumados com a barulheira toda vez que Katie dava uma festa.
A porta estava aberta e havia algumas pessoas conhecidas paradas na varanda. Umas conversando, outras se amassando.
- Finalmente! – saudou mais alegre do que o normal, segurando uma Heineken, assim que colocamos os pés dentro da casa. Ele nos olhou de cima abaixo, alargando o sorriso ainda mais. – Uau! Eu tenho as amigas mais gatas do mundo! Vocês não foram presas no caminho por excesso de beleza?
Rimos e lhe dei um tapa fraco no braço. Lizzie se pendurou no braço dele, apertando sua bochecha.
- Onde as meninas estão? – perguntei observando as pessoas indo e vindo pelos cômodos, subindo e descendo a escada, com dificuldade por causa da lotação.
- Katie está chupando a língua do em algum canto da sala. – ele apontou com a mão que segurava a garrafa para um cômodo mais próximo – Cassie está no banheiro ajudando Bridget Hubley do segundo ano.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntei surpresa. Ainda era cedo para ter alguém passando mal, não era?
Ele balançou a cabeça negativamente dizendo de um jeito esperto:
- Nada que já não aconteça nas festas da Katie!
Lizzie e eu nos afastamos de avisando, aos berros, que iríamos procurar os outros, o deixando com dois garotos que tinham as aulas extra-curriculares conosco.
Fomos espremidas e emburradas diversas vezes por causa do mínimo espaço que existia para que pudéssemos transitar pela casa. As pessoas dançavam em qualquer lugar, dificultando a passagem. O calor era infernal. Não havia 1 hora que eu estava ali e já estava me sentindo abafada.
Fui levada pela “corrente” de empurra-empurra para o outro lado, e acabei me perdendo de Lizzie, não tendo ajuda da baixa iluminação que tomava toda a casa. Era impossível me juntar a ela novamente no momento. Entrei na cozinha, o único cômodo completamente iluminado, mas não encontrei nenhum rosto conhecido. Ou pelo menos nenhum rosto que me interessava. Havia algumas pessoas sentadas no balão, conversando e bebendo, me fazendo perceber que a minha garganta estava completamente seca.
Talvez com bebida a sensação ruim e o calor vão embora, pensei.
Resolvi pegar uma Heineken antes de voltar para o mar de convidados com o intuito de procurar os meus amigos, e a abri com a ajuda de um pano de prato, o jogando de qualquer forma de volta a pia, sentindo a cerveja refrescar a minha garganta instantaneamente, me fazendo fechar os olhos já me sentindo melhor, entornando o líquido novamente sem esperar por muito tempo. Olhei para a garrafa vendo que ela já estava no final.
Ignorei o fato da minha pouca tolerância alcoólica, e tomei os últimos goles já pensando na próxima garrafa. Eu já estava me sentindo melhor, mas não ao ponto da angústia e o aperto desaparecerem. E o calor, ah, eu ainda estava com muito calor. Estava derretendo, isso sim!
Abri mais uma Heineken passando os olhos pela cozinha enquanto deixava a segunda cerveja ultrapassar a metade da garrafa e pude perceber que um moreno alto e muito bonito que estava encostado num balcão do outro lado, me encarava sorrindo.
- ! – Katie entrou acompanhada de Lizzie e Cassie, desviando minha atenção para elas.
Ela usava um vestido tomara-que-caia justo e curto cheio de paetês azuis, cinzas e vermelhos que faziam a bandeira do Reino Unido, o cabelo preso num rabo-de-cavalo alto e de lado que era sustentado por um enorme laço com um azul do mesmo tom do vestido, sapatos abotinados cinza com algumas franjinhas discretas e nos olhos uma sombra também azul esfumaçada com uma preta, aprofundando-os. Katie estava realmente linda.
- O que foi? – ela olhou para a própria roupa quando me viu rindo. – Tem alguma coisa errada?
- Não! Você está linda, só achei a roupa diferente.
- Minha cara, não é? – ela colocou a mão na cintura, fazendo um biquinho de convencida. – Cassie que me ajudou a escolher.
- Eu tenho um ótimo sendo de estilo – Cassie me abraçou de lado, rindo. Ela usava um vestido dourado bem curto e justo de manguinha com um zíper - que estava fechado até o colo - até o umbigo, um cinto preto e sandálias pretas com um salto enorme que nunca na vida eu conseguiria me equilibrar. A roupa era a cara de Cassie: chamativa e estilosa. – E você também não está nada mal, hein! Deixa o ver esses peitos e essas pernas de fora! Ele vai ter um ataque!
Troquei breves olhares com Lizzie carregados de significados.
- Aposto que ele não vai ficar com ciúmes pelo parentesco... – Katie jogou a frase no ar, maliciosa, piscando pra mim. – Não é?
Eu pisquei algumas vezes e não disse nada, sorrindo sem graça.
- Bom, se ele vai ou não, não interessa. – Lizzie quebrou o clima me puxando pelo braço, chamando as outras – Vamos dançar um pouco. Como diria a minha mãe: preciso balançar o esqueleto.
- Espera! Espera! – Cassie balançou as mãos toda serelepe com um sorriso do tamanho do mundo – Vamos tomar um shot de tequila! – ela apontou pra o grupo do cara que antes estava sorrindo pra mim. – Vaaaaamos, por favor!
- É claro! – eu, Lizzie e Katie concordamos abrindo sorrisos iguais ao de Cassie. Parecíamos ter descoberto a fonte de juventude.
Tequila, baby!
Fuck yeah!
- Vamos lá, meninos, vamos abrindo espaço! – Katie ia dizendo abanando as mãos para a rodinha de garotos se afastarem para que pudéssemos participar. – Também temos direito de ficar de porre, né?
- Claro Katie, você pode tudo – um cara disse sorrindo para ela já parecendo um tanto alto. Ele era bem forte e careca, com os olhos negros. – Todo mundo vai nessa rodada?
- Sim, todo mundo! – Lizzie confirmou lambendo os lábios. Eu praticamente fiz a mesma coisa quando vi os copinhos serem cheios com bebida e um deles parar na minha mão. Coloquei sal na mão e segurei ansiosa o limão, me preparando para a ardência do líquido.
- Todos prontos? – Outro cara da roda checou se todos estavam abastecidos de tequila. – Ok! Vou contar até três e todo mundo canta e entorna de uma vez só! 1, 2, 3 e JÁ!
- ARRIBA, ABAJO, AL CENTRO, ADENTRO! – gritamos pouco antes de misturarmos tudo e colocarmos pra dentro.
Ardeu. E como ardeu. Eu fechei os olhos, apertando-os, fazendo uma careta quando a tequila descia pela minha garganta, arranhando-a até atingir o meu estômago, me arrepiando. Quando os reabri, eles estavam lacrimejando um pouco e eu sorri com a sensação. Lizzie continuava com os olhos fechados, Cassie e Katie já estavam se preparando para a segunda rodada.
Bebi com vontade. Meus olhos lacrimejaram de novo, e eu não me importei se minha maquiagem estava borrada. Logo o efeito do álcool começaria a fazer efeito.
- Pronto, acho que já estamos ficando de pileque, podemos ir. – Katie sentenciou empurrando uma garrafa de cerveja para da uma de nós.
Enfiamo-nos entre as pessoas para conseguir chegar à sala. Vi pelo caminho amigos de Peter, que acenaram para mim, gritando que ele estava me procurando.
Depois de quase me perder de novo, vi , , e conversando perto do DJ e da pista de dança improvisada no meio da sala. O ambiente, assim como o resto da casa, estava escuro, exceto pelas luzes coloridas que batiam no globo espelhado gigante pendurado no meio do cômodo, deixando tudo meio psicodélico e convidativo para uma festa. Nas paredes havia discos vinis velhos de diversos artistas, dando um toque mais descontraído. Atravessei, com as meninas em meu encalço, a multidão de pessoas que dançavam Skeleton Boy do Friendly Fires, indo de encontro aos meninos que nos receberam com sorrisos engraçados no rosto. Todos bebiam bebidas variadas, e já se mostrava tontinho.
- Nos deram perdido né? – ele brincou, agarrando Cassie pela cintura, lhe dando um beijo indiscreto no pescoço.
- Por que eu daria perdido no homem mais gato da festa? – ela riu também, dando uma mordida na sua bochecha e o agarrando também, começando a sessão amasso em público na parede mais próxima.
abraçou Katie por trás, balançando o corpo dela num ritmo desengonçado de propósito. Os dois estavam tão felizes que nem pareciam ter tido uma briga no dia anterior por causa do jeito ciumento de Katie.
Não que ela estivesse errada, vejamos, é um cara bem gato, simpático e talvez seja o mais inocente entre os quatro, em relação às intenções verdadeiras com que as meninas se aproximam dele. Qualquer namorada teria ciúmes, não?
Ri para os casais apaixonados e passei meus olhos por , que estava ao lado de Lizzie, que estava ao meu lado. Ele sibilou um “oi” pra mim, dando uma golada no seu licor de menta, me encarando como se me despisse com os olhos conforme eles subiam e desciam pelo meu corpo. Ele deu um sorriso de lado bem sacana conectando nossos olhares, e eu desviei os olhos para reprimir a vontade de corresponder àquele sorriso. Tomei uma golada considerável na cerveja, tentando não pensar no maldito calor que voltava a sentir.
Aparentemente as coisas entre nós estavam bem.
Só aparentemente, que fique bem claro.
Ele nem estava lindo usando uma calça jeans escura, uma blusa cinza de gola V com uma estampa que não dava para ver direito por causa da jaqueta de couro preta arregaçada até metade do braço, Vans preto, cinza e branco de cano alto e de quebra com o cabelo todo arrepiadinho.
Não estava! Entendeu?
- Acho que é a melhor festa, Katie! – Lizzie comentou dando uns passos de dança esquisitos, parecendo mais pulinhos do que outra coisa. - E a ideia para os discos foi bem legal, .
Ela piscou pra mim e riu, apontando discretamente para que também dava uns passos estranhos, fingindo que não estava olhando pra ela, mas era impossível não perceber. Ele tinha um sorriso todo idiota no rosto e eu mordi a língua para não falar uma gracinha que os deixasse sem graça.
- Valeu, Lizzie. Eu vi num filme uma vez... - agradeci, mexendo nos fios soltos da nuca, disfarçando a sensação de queimação na pele por ainda estar sob os olhares intensos de .
Droga, por que ele não fala nada? Por que tem ficar me olhando desse jeito?
- Katie, que tal a gente pegar mais bebida? – sugeriu mordendo o próprio lábio, e a rebocou para fora da sala, saindo pela porta que dava para outra parte da varanda, que dava para os fundos da casa, sem nem esperar que ela respondesse.
- Pegar mais uma bebida... – repetiu malicioso, fazendo uma cara de sabichão, dando uma golada na cerveja. - Sei! Ele quer é pegar em outra coisa...
Lizzie riu e deu um tapa fraco no braço dele, balançando a cabeça negativamente.
- Você não presta, ! Nunca vai prestar! – ela disse brincalhona, ainda rindo, mas por trás de um tom acusador – Nunca. - frisou, lhe lançando um olhar esquisito.
engasgou com sua bebida e fugiu do olhar dela. Eu fiquei sem entender, olhando de um para o outro. Lizzie deu de ombros, terminando sua bebida e colocando a garrafa em uma mesinha já ocupada por muitas garrafas e copos.
- Ai, preciso dançar essa música! – Lizzie deu um gritinho, me puxando de repente quando começou a tocar as primeiras batidas de You Only Live Once dos Strokes, uma das nossas músicas preferidas.
Eu deixei minha garrafa vazia em cima da mesinha e deixei que Lizzie me guiasse até quase o meio da pista. Foi apenas nos acomodarmos mais entre as pessoas que eu relaxei e comecei a balançar o quadril de um lado para o outro, sendo acompanhada por Lizzie em passos improvisados.
- SHH-SHH-SHH... I CAN'T SEE THE SUNSHINEEE!! – eu e Lizzie cantamos o refrão aos berros uma olhando pra outra - I'LL BE WAITING FOR YOU BABY, 'CAUSE I'M THOUGH!
- Sit me downs, shut me up. – cantei sozinha, balançando a cabeça, já começando a sentir aquela tonteira em resposta aos dois shots de tequila e três garrafas de cerveja.
- I'll calm down and I'll get along with you. – Lizzie continuou, sorrindo pra mim.
Eu fechei os olhos, ouvindo a música recomeçar, deixando que meus movimentos não fossem calculados. Eu só queria dançar.
A música acabou, mas eu continuei me movimentando e balançando a cabeça como uma louca ao som de Are You Gonna Be My Girl? do JET, achando a playlist do DJ maravilhosa. Estava tão entretida em me divertir que só fui me dar conta que Lizzie tinha se afastado quando ela já estava de volta, gritando. Eu olhei meio desorientada, para o lado em que ouvia meu nome, vendo Peter caminhando, com dificuldade, em minha direção, sorrindo. Ele olhou para trás, parecendo falar com alguém e depois disso não ouvi mais Lizzie me chamando. Só quando Peter estava bem perto foi que eu vi que ela estava o tempo inteiro com ele, só que atrás.
- Peter! – sorri, o chamando num tom mais alto do que o normal por causa da mistura de som e bebida, e num impulso o abracei. Ele apertou com força a minha cintura e me deu um beijo mais pro canto da boca do que pra bochecha. Só não sabia se era de propósito ou apenas acidentalmente. – Estava perdido? Seus amigos disseram que você tava me procurando!
Quando nos separamos, vi o quanto estiloso ele estava com uma blusa de manga comprida branca, uma calça jeans preta e botas pretas discretas. Os cabelos jogados pro lado de maneira desajeitada, cobrindo um pouco seus olhos azuis. Se outro homem estivesse usando aquela combinação, pareceria estranho e até meio brega, mas Peter, desde que o conheci, sempre foi muito estiloso e seguro das suas roupas. Eu adorava o estilo dele. Tudo muito Peter Bradley.
- Eles disseram, é? – ele perguntou constrangido, passando a mão pelos cabelos depois que tirou as mãos de mim. – É, eu tava mesmo... A sorte é que encontrei Lizzie na cozinha.
- Você tinha que ver a cara dele quando me viu! - ela me empurrou um copo de plástico cheio e deu outro pra Peter, ficando apenas com um para si. Eu olhei o conteúdo e não consegui identificar o que era.
- Que isso? – perguntei achando esquisita a cor, mas já entornando a bebida goela abaixo. Era uma mistura forte, muito forte mesmo. Quase tão forte quanto tequila.
- Vodca com energético. – ela me respondeu, tomando também, quase uma vez só.
Peter até que dançava bem para um homem, acompanhando a mim e Lizzie em Just Do It do Copacabana Club na versão remix. Ele dançava um pouco com cada uma, nos rodando entre risadas escandalosas que soltávamos. Meu corpo começava realmente a denunciar os sinais da quantidade de álcool no sangue. A tonteira emitia sinais de que eu deveria parar, mas eu ignorei, tomando mais um ou dois copos de alguma bebida que Lizzie empurrava pra mim durante suas viagens até a cozinha. O nível de álcool no meu cérebro já começava a fazer efeito, e eu já nem sentia a ardência do líquido na garganta, parecia que estava bebendo água. As luzes coloridas foram substituídas por duas brancas que ficavam piscando sem parar, deixando tudo muito lento, piorando a minha tonteira... Eu ri quando quase cai, sendo amparada por Peter.
Em algum momento eu pensei em ter visto perto de nós, me olhando, me estudando, mas quando pisquei para ter certeza de que não era o álcool que estava me fazendo ver coisas, ele já não estava lá.
- Ai, tá muito calor aqui! Vou sentar um pouco lá fora. – Lizzie avisou, passando a mão na testa para tirar o excesso de suor da região.
Eu ia segui-la, também sentindo muito calor, mas antes de da algum passo, Peter segurou meu pulso.
- Fica aqui – pediu, com uma expressão muito apertável.
- Eu tô com calor – disse, me abanando inutilmente e limpando o suor da minha testa. Bendita a ideia de fazer um coque.
- Vamos então mais pra ponta da pista, vem – ele segurou a minha mão, me levando para perto da porta da varanda, onde entrava um ventinho refrescante. – Melhor?
- Sim... – respondi fraco, fechando e abrindo os olhos, por causa da sala que rodava diante deles. Eu não estava simplesmente bêbada. Eu estava muito bêbada. A sensação quando eu fechava os olhos era muito boa, parecia que eu estava voando... A sala ainda girava, eu girava junto com ela... Estava leve, bem, bem leve... Meus lábios estavam dormentes e eu não conseguia raciocinar direito. Nunca, em todas as minhas bebedeiras, eu havia chegado a esse ponto, sentindo tudo de uma vez só.
- , você tá bem? – Peter perguntou entortando a boca. Eu assenti, sorrindo debilmente. As luzes coloridas haviam voltado e brincavam pelo rosto dele. Muito bonito, pensei. – Quer dançar? – eu concordei, sendo envolvida pelos seus braços quando Scar Tissue do Red Hot Chilli Peppers começou a tocar. – Acho melhor você não beber mais, tá muito tontinha. – ele sussurrou próximo ao meu ouvido, me guiando como se eu fosse uma retardada. – Se ficar muito tonta ou enjoada, a gente para, ok?
- Eu tô bem... Peter... – disse com a voz afetada, me sentindo andar sob nuvens conforme dávamos passos lentos por causa do álcool. Sensação boa! De jeito nenhum que eu iria parar de beber!
- Eu gosto de você, . – ele beijou minha testa, voltando à posição anterior depois. Eu não respondi por que não consegui entender o que ele queria dizer com aquela frase. Era mais legal não pensar. Eu estava cansada de pensar... Hoje era um dia apenas para seguir meus instintos, fazer o que me desse na telha. As consequências que fossem resolvidas outro dia.
Passamos a música toda abraçados, com Peter cantando. De certeza maneira era bom ficar daquele jeito com ele, mas eu não conseguia relaxar. Meus olhos, ou o pouco deles que eu conseguia manter abertos, vagavam pela sala e pelo pouco do quintal que era possível ver daquele ângulo. Meus olhos procurando por ele. Onde estava? Por que havia sumido? Com quem estava? Por que ele não tinha falado comigo? Será que estava se agarrando com alguma garota num canto escuro? Senti raiva com esse pensamento. Senti ciúmes. Eu não queria que ele ficasse com ninguém, mesmo que não tivéssemos nada.
As coisas entre nós eram tão complexas e confusas. Numa hora ele me queria, na outra ele me ignorava. Dizia doces, depois coisas estúpidas que me deixavam com raiva. Mas apesar de tudo, nunca me deixava na mão. Mesmo brigados, ele nunca deixou de me consolar. Minha última briga com John confirmou isso. Era como se nossos desentendimentos fossem superados sem a mínima importância. Talvez pelo fato de realmente serem sem importância.
Eu o queria por perto sempre. Sempre. E sentia que ele queria o mesmo.
Fechei os olhos, fingindo que era ali na pista de dança, abraçado comigo, dançando juntinho e apertei Peter contra mim. Tive a resposta positiva no mesmo instante, com ele me apertando também, me fazendo sorrir. Danny estava me abraçando!
Senti aquela vontade de chorar, mas não de tristeza... Não só disso pelo menos. Era mais uma vontade de chorar de saudade, sabe como é? Saudade de tê-lo pertinho de mim. Apertei meus olhos, desejando que voltássemos ao meu quarto em Kassel, onde dormimos abraçadinhos, nos sentindo de uma maneira que nunca pudemos nos sentir de novo. Cheiro, pele, carinho, aconchego, coração com coração. Nossos amassos eram coisa de pele, de carne, de fogo, coisa física. Bons demais, mas não era sentimental. Não havia romance, não por inteiro. Estávamos muito afoitos para deixar que o clima de romance nos dominasse. Estávamos necessitados um pelo outro. Eu queria saber o quão romântico poderia ser.
Merda, beber me deixa mais manteiga derretida do que eu já sou.
- Você tá muito linda hoje. – a voz de Peter me trouxe a realidade, me atingindo em cheio. A uma realidade dura e cruel em que eu fui atirada sem dó, nem piedade e ainda estava aprendendo a lidar. – Não que você não seja linda sempre, mas hoje tá mais... Mulher.
- Você é sempre tão gentil comigo. – disse sem graça.
Ele se separou de mim, sorrindo, quando a música acabou. Um sorriso todo iluminado, que me fez sorrir junto. Ele acariciou o meu rosto e me deu mais um beijo na bochecha, agora da maneira certa.
Balancei a cabeça, dissipando aquela melancolia como fumaça. Não era hora, dia e nem lugar para ficar choramingando e procurando respostas para os meus problemas. Um garoto passou por nós e eu arranquei o copo que estava na sua mão, com a bebida no finalzinho. Ele arregalou os olhos e riu, continuando o seu caminho. Bebi o resto que tinha e joguei o copo de plástico no chão, ainda com uma sede desesperadora. Peter disse que pegaria mais e eu continuei na pisca, dançando. Olhei para o lado e vi Katie dançando com , parecendo bem animados. Cassie e Lizzie também estavam perto deles, dançando, bem altas. Ótimo, eu não era a única de pileque do grupo! Quando me viram, acenaram me chamando para me juntar a elas.
- , minha linda! – Cassie me puxou toda empolgada quando me aproximei. Quase que nós duas caímos de cara no chão por causa da soma de salto alto e bebida. – Tava com o Peter, é, safadinha? Vai pegar?
- Ai Cassie... – revirei os olhos, divertida, me desvencilhando dela.
- A gente viu tudo, tá? – Lizzie disse maliciosa. – Ele tá doido pra te dar um beijo!
Nós gargalhamos e eu nem sei direito o por quê.
- Vocês sabem com quem o tá? – perguntei tentando soar natural, não funcionando muito com Lizzie. É claro que não iria funcionar com ela! Só eu pra achar uma coisa dessas.
- Ele tava aqui com a gente, - Cassie respondeu confirmando que eu não estava louca por achar que estava me observando. – Mas depois ele disse que ia lá pra fora ficar com uns garotos do segundo ano e não voltou mais. Acho que e estão com eles.
- Hm... – murmurei abaixando a cabeça para que elas não vissem o meu sorriso de alívio. Ele só estava com os amigos, sem nenhuma biscate atrás.
- Por quê? – Cassie questionou com uma sobrancelha levemente levantada. Eu engoli em seco, morrendo de medo de ela desconfiar de alguma coisa. – Tá com ciúmes, é?
- Ciúmes? – repeti debochada. – De onde você tirou isso, Cassie? Eu só perguntei por que não o vejo desde que eu e Lizzie chegamos. Estranhei, só isso.
- Você pode até não tê-lo visto, mas o tempo que ele ficou aqui com a gente, não desgrudou os olhos de você... E do Peter, é claro. Acho até que ele ficou mordendo de ciúmes. – com ciúmes de mim? Que piada! Cassie com certeza não tinha noção do que estava falando. Orgulho ferido até poderia ser, afinal eu era amiga do cara que ele mais odiava. – E de qualquer maneira, vocês dois são estranhos. Ficam brigando a toa por coisas idiotas... O já era caladão, depois que você chegou com esses seus enormes olhos e esses peitos, então...
- Eu não tenho culpa do ser estranho. – me defendi, ignorando a parte dos peitos. Lizzie permaneceu calada, olhando de mim para Cassie e por algum motivo, senti que ela dava razão à outra.
- AI, MEU DEUS! – Cassie se sobressaltou colocando as mãos no próprio rosto quando começou a tocar Toxic da Britney Spears. – VENHAM, VAMOS DANÇAR!
Ah, Britney e Beyoncé eram quase divindades para Cassie. Lady Gaga? Puf, fichinha perto das outras, na opinião da minha amiga.
A parte que eu mais gostava das músicas em festas eram quando tocavam as antigas. Cassie puxou Lizzie e eu para a pista de dança, que por incrível que pareça, estava mais vazia, deixando que pudéssemos ver todos que estavam nela. Katie apareceu aos gritos, segurando um copo, e se juntou a nós. Começamos a fazer movimentos exagerados, mas muito sensuais, subindo e descendo, deixando nossas roupas ainda mais curtas. Cassie e Lizzie se juntaram, se roçando uma na outra enquanto cantavam. Fiz o mesmo com Katie, percebendo de soslaio, que alguns garotos nos olhavam. Ri, rebolando mais e mostrei discretamente a Katie. Ela piscou pra mim, e me virou. Fomos descendo até o chão da forma mais sincronizada que o álcool deixava. Ignorei a tontura que as luzes me faziam ter, me virando novamente pra Katie, dando de cara com , e nos encarando, boquiabertos. O primeiro piscou pra mim, se aproximando de Katie, encaixando seu corpo atrás do dela, falando alguma coisa em seu ouvido que a faz rir. Os outros dois ficaram no mesmo lugar, nos observando. Não duvidei que os olhos de pudessem saltar a qualquer momento com tanta intensidade que ele os mantinha em Lizzie. Fiquei entre ela e Cassie até a música acabar e começar outra também da Britney, Hold It Against Me. Estava suada e ofegante quando a segunda terminou, meus pés doíam, mas eu continuei a dançar como nunca tinha feito na vida. Eu estava me divertindo!
Só parei para ir até a cozinha pegar mais uma cerveja, mas acabei mesmo foi tomando mais uma dose de tequila, que desceu sem nenhuma dificuldade. Esbarrei em Peter, que estava segurando duas Heineken.
- ! Eu tava te procurando! – ele me ofereceu uma e eu aceitei de bom grado. – Desculpe por ter te deixado sozinha, eu fiquei meio perdido e acabei encontrando um vizinho antigo, tentei me livrar dele, mas ele ficou me prendendo falando sobre a faculdade...
- Não tem problema, Peter! Eu tava com as meninas mesmo. – e nem me lembrei de você, eu deveria emendar. – Vem, vamos dançar!
- De novo? – ele sorriu, chocado. – Isso tudo é pique ou a bebida?
- Digamos que seja uma mistura dos dois! – disse dando uma piscadela.
Voltamos para a sala, mais precisamente para a pista. , Katie, , Lizzie, e Cassie ainda estavam lá, suados e se agarrando. Isso mesmo, e Lizzie estavam dançando juntos, agarradinhos mesmo, quase se beijando. Por alguns instantes eu fiquei olhando para eles, embasbacada e quis dar um pulinho de alegria. Contive-me para não atrapalhar e rumei com Peter para perto da porta da varanda. Dali eu poderia ver o mais novo casal do pedaço e ainda manter uma distância média caso aparecesse.
Peter logo ficou animadinho quando as primeiras notas de Stutter do Maroon 5 começaram a tocar e pegou nossas garrafas, as colocando em um canto perto do sofá.

I really, I really, Whoa
Eu realmente, eu realmente Ooooohhh
I really need to know
Eu realmente preciso saber
I really, I really, Whoa
Eu realmente, eu realmente Ooooohhh
Or else, you gotta let me go, oh I really, I really
Ou você precisa me deixar ir. Eu realmente, eu realmente

A música e as doses, numa combinação só, já voltavam a fazer o efeito em mim, e me vi dançando da forma mais sensual com Peter. Deixei-me levar pela música, mexendo o quadril de forma tentadora.

This time I really need to do things right. The shivers that you give me keep me freezing all night
Desta vez eu realmente preciso fazer as coisas direito. Você me arrepia e me mantém estremecido a noite
You make me shudder
Você me arrepia
I cant believe it, I'm not myself. Suddenly I'm thinking about no one else
Eu não posso acreditar, não sou eu mesmo. De repente eu estou pensando em ninguém mais
You make me shudder
Você me arrepia

Peter estava ficando louco com a forma que eu estava dançando, podia vê-lo mordendo o lábio, sua mão apertava com muito entusiasmo minha cintura, e seus olhos estavam brilhando. Dava pra sentir o desejo dele atravessando o meu corpo.

I really, I really need to know or else you gotta let me go
Eu realmente, eu realmente preciso saber ou você precisa me deixar ir
You're just a fantasy girl. It's an impossible world all I want is to be with you always
Você é apenas uma garota fantasia em sete partes do mundo. Tudo o que eu quero é estar sempre com você
I give you everything, pay some attention to me, all I want is just you and me always
Vou te dar tudo, dê um pouco de atenção para mim, tudo o que eu quero é você e eu sempre

Fui me soltando mais ainda, se é que isso era possível, dei as costas para Peter e comecei a rebolar. As luzes brancas voltaram fazendo com que eu me sentisse lenta. Aumentei mais o ritmo dos meus movimentos, descendo e subindo. Joguei uma mão para trás, segurando a nuca de Peter, o trazendo mais para perto.

Give me affection I need your perfection. You feel so good you make me stutter, stutter
Me dê carinho, preciso de sua perfeição. Você se sente tão bem, você me faz gaguejar, gaguejar
If I could touch you I would never let go, now you got me screaming and I can not shut up
Se eu pudesse tocá-la, eu nunca a deixaria ir. Agora você me faz gritar e eu não posso calar a boca
Now I'm lying on the bedroom floor, barely even speaking and I can not get up
Agora eu estou deitado no chão do quarto, mal conseguindo falar e não conseguindo levantar
I really, I really, I really need to know or else you gotta let me go, oh
Eu realmente preciso saber ou você tem que me deixar ir

Ele segurou com uma das mãos minha cintura enquanto com a outra passava pelo meu quadril, apertando. Olhei pra frente e me deparei com me fitando profundamente, encostado na porta da varanda, com um olhar de predador. O mesmo olhar do trailer. Isso me inchou, me deixou com muito tesão.
Há quanto tempo ele estaria ali, me observando, me analisando daquele jeito?

You're just a fantasy girl. It's an impossible world all I want is to be with you always
Você é apenas uma garota fantasia em sete partes do mundo. Tudo o que eu quero é estar sempre com você
I give you everything, pay some attention to me, all I want is just you and me always
Vou te dar tudo, dê um pouco de atenção para mim, tudo o que eu quero é você e eu sempre

Peter respirava na minha nuca e sorri maliciosamente para , que não deixava de me olhar um segundo se quer. Ele fechou as mãos em punho quando viu Peter segurando a minha cintura, chegando mais perto do meu ouvindo para cantar a música.

I really, stutter, I really, stutter, stutter...
Eu realmente, gaguejar, eu realmente, gaguejar, gaguejar
You knock me down, I can’t get up, I'm stuck. Gotta stop shakin me up
( Você me derrubar, eu não consigo me levantar, eu estou preso. Tenho que parar de tremer
I can’t eat, can’t sleep, can’t think, sinking under. I'm sinking under
Eu não consigo comer, não consigo dormir, não consigo pensar, estou afundando. Eu estou afundando

Juntei o corpo mais ainda no do moreno atrás de mim e pus a rebolar, sensual e lentamente, sem deixar de fitar o par de olhos que me devorava sem nenhuma discr