
Capítulo 11.
Emma entrou silenciosamente no quarto usando uma saia verde clara soltinha até um pouco acima dos joelhos, o cabelo liso preso num rabo-de-cabelo e nos pés um par de sapatos boneca de saltinho combinando com meias brancas abaixo do joelho. Parecia uma boneca francesa vintage.
Ela sentou na minha cama sem dizer uma única palavra, olhando para o meu reflexo no espelho do banheiro enquanto eu passava mais uma camada de rímel e colocava meu cabelo para frente com o propósito de fazer uma trança de lado.
- Você tá tão quietinha hoje. – comentei depois de um tempo, vendo pelo espelho uma careta. – O que aconteceu?
- Estou um pouco nervosa. O Nicholas vai estar lá também. – ela respondeu com a voz desanimada.
- E isso é ruim? Você tá tão linda. – dei mais alguns retoques na trança, deixando-a um pouco mais frouxa com alguns fios soltinhos para fica bem natural, antes de sair do banheiro em direção ao closet.
- Isso é péssimo! O vai ficar atrás de mim igual a cão de guarda e já deixou isso bem claro. – ela choramingou indignada enquanto eu vestia uma saia de cintura alta e um top. – Minha vida social vai ser destruída e eu não posso impedir!
- Ele não vai fazer nada, Emma. Eu não vou deixar. – abotoei uma blusa transparente por cima do top. – Até porque o pessoal vai estar lá e ele vai se esquecer de você.
- Tomara, você tem sorte dele não pegar no seu pé.
Ela estava certa. não voltou mais a pegar no meu pé depois da conversa que tivemos dias atrás. As coisas voltaram a ser como antes. Ele voltou a brincar comigo, a sorrir e a me fazer sorrir também. Voltou a ser doce, meu amigo.
A troca de olhares ficou constante. Passei a sentir meus movimentos observados milimetricamente o tempo inteiro.
Mas por outro lado, eu nunca conseguia decifrar o que estava se passando na sua cabeça. Às vezes parecia estar a ponto de explodir de tanta raiva que seus olhos transmitiam quando me olhava, sem que ela fosse mostrada em nenhum dos seus atos, e no segundo seguinte, parecia que iria sorrir daquele jeito babante dele, prestes a dizer algo doce, que pudesse me deixar sem fala. A única coisa que ainda estava diferente entre nós era que, apesar de nos fitarmos constantemente, ele continuava me evitando. Não voltamos a ter mais nenhum típico de contato físico por mais de alguns segundos.
E eu, de certa forma, lamentava por isso.
- , você ainda tá aí? – a voz de Emma fora do closet me fez voltar à realidade em que eu me flagrei parada prestes a terminar de colocar o sapato.
- Tô sim, Emma. – levantei rápido do puff, dando uma última checada no cordão de pérolas brancas, colocando um cardigã mais comprido. – Tô escutando tudo.
- É, tô vendo. – ela resmungou. – Vou lá embaixo porque a mamãe tá me chamando pra ajudar com os salgados.
- Tudo bem. – quando sai do closet Emma já não estava mais no quarto.
O meu celular em cima da cama começou a tocar, aparecendo o nome de Lizzie no display.
- Oi! – disse equilibrando o celular entre a bochecha e o ombro dando uma última verificada no espelho.
- Tá pronta?
- Tô sim. As meninas vão com a gente?
- Não. Elas vão com seus respectivos machos. Me espera na porta que eu já tô chegando.
Joguei o celular na bolsinha, descendo as escadas até a cozinha, encontrando Helen e Emma cobrindo algumas comidas, enquanto estava encostado na bancada, comendo uma maçã.
- , você poderia levar um dos bolos com você? Acho que não vai dar no carro. - Helen pediu apontando para o prato já coberto em cima da mesa.
Eu assenti com a cabeça.
- Você não vai com a gente? - me olhou de cima a baixo, sem nenhuma descrição, enquanto me questionava surpreso quase engasgando com um pedaço da maçã.
- Não, não, vou de carona – fiz o mesmo, reprimindo um suspiro, achando muito sexy a escolha da camisa xadrez por cima de uma camiseta branca com uma calça jeans de lavagem clara. – Lizzie vai passar aqui.
- Ah... Com a Lizzie – ele soltou parecendo aliviado. – Só vocês duas?
- Por que tá interrogando minha irmã, ? - Emma cruzou os bracinhos. - Não tá bom você encher o meu saco, tem que ser fazer o mesmo com ela?
- Você é muito pentelha. - ele disse dando uma mastigada raivosamente. - Não pense que vou esquecer você!
Emma soltou um gritinho indignado, cerrando os olhos enquanto marchava para o quintal, fazendo rir.
- Deixe sua irmã em paz, . - Helen advertiu o filho.
- Só estou brincando, mãe. - ele piscou pra mim ainda sorrindo. - Ela fica igualzinha a quando está irritada.
- Muito engraçado. - ironizei, escutando a buzina do carro de Lizzie.
Fui até a mesa, pegando o prato com o bolo enquanto Helen ia comigo até o hall para abrir a porta, acenando para Lizzie que deu a volta no carro para me ajudar.
Fomos ouvindo um CD com músicas aleatórias enquanto ela me contava que por pouco sua mãe não pegou uma das ficantes de George andando apenas de calcinha e sutiã pelo segundo andar da sua casa.
- Eu só o escutei falando “anda, anda, minha mãe chegou!” – ela contou, recuperando o fôlego depois que um ataque de risadas que tivemos. – Com certeza essa nunca mais vai olhar pra cara do George.
- Pelo menos essa foi mais rápida, né? – me controlei para não gargalhar mais imaginando a cena da menina saindo seminua pela janela. – A última não teve tanta sorte.
- Você sabe que minha mãe, como psicóloga, não acha saudável toda essa promiscuidade, já o papai acha que é super normal, afinal ele é homem.
- É, mas o seu pai mora em outra cidade então é a sua mãe quem precisa ficar no controle, é como a minha mãe... – eu parei de falar por alguns segundos, absorvendo o poder das minhas palavras. Lizzie entendeu o que estava acontecendo, pois logo o carro ficou silencioso, exceto pelo rádio e o motor. Eu olhei para o lado de fora, dando um sorriso sem humor. Não queria ficar triste logo hoje. – Quero dizer, era. Minha mãe que mantinha o controle lá em casa.
- Vamos falar sobre outra coisa, ok? – Lizzie sugeriu de uma forma forçada, querendo quebrar aqueles poucos segundos de tensão. – Parece que Katie e finalmente de entenderam.
- É, Cassie me disse pelo MSN que eles saíram ontem a noite... Espero que tenha dado tudo certo. Já não aguentava mais os ataques de ciúmes que eles têm um do outro. Em falar nisso, você faltou a nossa conferência.
Ela bufou e aposto que também revirou os olhos antes de sentenciar com a voz indiferente:
- Carl e eu brigamos pelo telefone. Ficamos a noite inteira discutindo.
- Por quê?
- Por que ele é um babaca! – ela disse irritada, quase socando o volante. – Você sabe que eu não ligo dele sair com os amigos, mas quando eu digo que vou sair com vocês, ele enche o meu saco! Aí quando eu disse isso, fudeu né, ele me chamou de criança, mimada da mamãe... Quer impor coisas como se fosse meu pai! Ele me irrita com essa mania de querer mandar em mim! Sinceramente, eu tô ficando cansada disso. São sempre briguinhas por motivos ridículos. Eu não sirvo pra fica aguentando esse tipo de coisa... Ainda sou muito nova!
- Por que você ainda está com ele então?
- Eu sei que é um pensamento egoísta, mas às vezes é bom ter um cara que realmente goste de você mais do que você gosta dele, e eu sei que o Carl é essa pessoa. – ela olhou pra mim brevemente antes de acelerar quando o sinal abriu, mas mesmo assim eu pude detectar uma sombra de tristeza passando por eles.
- Vocês são tão diferentes, pensam de maneira diferente. E nesse caso, não acho que os opostos se atraem. – eu sabia que não era aquilo que ela gostaria de ouvir, mas mesmo assim continuei. - Eu gosto dele, só que não acho que ele seja o cara certo pra você. Você sabe quem eu acho que seja.
Eu realmente não achava Carl fosse uma má pessoa, eu sabia o quanto ele gostava de Lizzie. Só que me incomodava à forma como ele conduzia seu namoro com ela. Ele sempre estava criticando algo ou ficava irritado quando as coisas não eram como ele queria.
- Você tem sua opinião e eu tenho a minha. – ela disse um tanto quanto grosseira. – Esquece o que eu falei, as coisas vão se ajeitar como sempre acontece e, por favor, vamos mudar de assunto agora está bem?
Era fato que iríamos brigar se eu insistisse porque isso já acorrera outras vezes, então fiz o que ela pediu e começamos a conversar coisas aleatórias da semana, mesmo que dentro de mim, as coisas não estivessem de acordo com o que ela estava fazendo consigo mesma. Lizzie se tornou minha melhor amiga e eu não queria vê-la sofrendo. Uma das coisas que aprendi com a minha mãe é que você pode aconselhar e tentar ajudar uma amiga ou um amigo, mas não pode abrigá-la a fazer o que você quer. Às vezes as pessoas precisam sentir na pele o erro que estão cometendo, por mais que as pessoas que estão a sua volta evitem isso. No final de tudo, eu não poderia me meter mais. A decisão era dela.
Chegamos em North Yorkshire Moors, um dos grandes e mais bonitos parques da cidade. A planície com um verde vivo estava cercada por mesas de piquenique com direito a bancos extensos de madeira para que as pessoas pudessem sentar para comer ou apenas jogar conversa fora. Fiquei maravilhada com a forma em que aquele campo lindo se tornara mais deslumbrante e colorido com o capricho dos enfeites e faixas penduradas em algumas árvores com diversos dizeres, entre eles: "2.000 anos ainda é pouco" e "York é a cidade mais linda do mundo!”. É incrível que York, que está se transformando numa das cidades mais promissoras da Inglaterra, ainda tem lugares como aquele em que você pode deitar no meio da tarde e ler um livro sem nem ao menos se lembrar que alguns poucos quilômetros existe fumaça que sai de fábricas ou dos canos de escape dos carros ajudando no aumento da camada de ozônio.
Havia também milhares de barraquinhas de joguinhos como tiro ao alvo, pescaria, uma mini pista de golfe e outra de boliche, entre outros, comidas típicas e variadas exalando diferentes cheiros, mas de dar água na boca, e artesanato, espalhadas um pouco mais a frente, formando um corredor que se enchia cada vez mais por crianças correndo pra lá e pra cá, fazendo fila no escorrega e em dois pula-pulas grandes em formato de castelo, enquanto por todo local era possível escutar Alright do Supergrass. Era uma imagem não tão desconhecida por mim, mas igualmente diferente. O mais legal, e talvez o mais bizarro de tudo, eram algumas pessoas se arriscavam a circular com roupas medievais, com as mulheres usando aqueles vestidos ricos em detalhes que vemos em filmes do estilo e homens parecendo verdadeiros príncipes imponentes.
Era evidente e contagiante a forma como as pessoas estavam se divertindo ali.
Estacionamos perto de um carro que eu reconheci ser de e Lizzie deu a volta para segurar o prato de bolo para que eu pudesse sair e ajeitar minha saia.
Cumprimentamos alguns conhecidos enquanto procurávamos a barraca em que Molly estaria, sem nenhum sinal de nossos amigos.
- Ali, . - Lizzie apontou por entre as pessoas para algum ponto a nossa frente. - Acho que é a Molly que estava conversando com aquele cara.
- É o Ben, o filho mais velho dela. - disse sorrindo, desviando minha atenção para uma mulher que usava um vestido medieval de veludo azul marinho que passou por nós. - Isso é tão foda!
- É, é bem bonito sim, mas já estou acostumada. - Lizzie falou sem se dar ao trabalhado de dar uma boa olhada no vestido como eu. - Todo ano tem algum maluco que se veste assim.
- Já te disse que você anda muito rabugenta? - perguntei pouco antes de chegarmos perto de Molly que sorriu ao nos ver. Lizzie revirou os olhos com o meu comentário.
- Olá, meninas. - ela nos cumprimentou sorrindo, pegando o prato das minhas mãos. - Vocês estão lindas.
- Você não está diferente, hein. - Lizzie deu lhe mandou uma piscadela. - Está pensando em arrumar algum namorado hoje?
- Talvez Elizabeth, talvez... - brincou pegando o prato das minhas mãos. - Obrigada, querida. Helen já está vindo com o resto?
- Já. – confirmei, admirando a quantidade de comidas diferentes que ela havia preparado. – Ah, você fez brigadeiro!
- Claro que fiz. – ela apontou para uma bandeja com chocolate derretido em taças de plástico coloridas. – E ainda tem mais no trailer.
- E leva o que? – Lizzie olhou desconfiada, quebrando a nossa regra de nunca perguntar nada a Molly que fosse relacionado à culinária. Seus doces ou qualquer outro tipo de comida eram deliciosos, mas às vezes não tínhamos coragem de perguntar quais eram seus ingredientes, caso ela falasse “perna de galinha” ou “olho de peixe”, o que não era o caso dessa vez.
- Leite condensado e chocolate em pó.
- É muito bom, Lizzie, você precisa provar – falei salivando.
- Você ainda vai precisar da gente?
- Não, não, podem ir. - Molly abanou as mãos para nós. - Ben vai me ajudar enquanto Helen não chega. Ele só foi ao trailer dele pegar algumas coisas, mas já volta, não se preocupem.
- Então vamos voltar depois para comer um pouco de cada comida. - Lizzie falou agarrando o meu braço, me afastando da barraca.
Nós andamos vagarosamente pelas pessoas, não só pela quantidade delas, mas sim porque olhávamos todas as barracas que conseguíamos com o maior cuidado. Na maioria das vezes eu tive que parar para tocar nos objetos de arte, ou nas belíssimas bijuterias, além de comer Bakewell, um bolo coberto com geléia, amêndoas e sorvete.
- Que moça cheirosa. - virei para encontrar falando no ouvido de Lizzie quando estávamos paradas esperando nossas limonadas.
- Seu idiota. - ela disse sem o menor desdém na voz, virando-se de frente pra ele. - Pensei que você tivesse arranjado outra garota para encher o saco.
- E eu arranjei, - ele retrucou debochadamente enquanto eu assistia tudo de camarote, quase as gargalhadas. - mas ela, infelizmente, foi ao banheiro.
- Isso é apenas uma desculpa que ela usou para ficar distante de você.
- Nem todo mundo é mal amada com você, Elizabeth. - falou dando um sorriso amarelo. – Eu sei agradar muito bem as mulheres, você mais do que ninguém deveria saber disso.
Eu olhei para ambos, sem entender o que aquela frase do queria dizer.
- Cala essa boca, seu retardado! – ela disse exasperada, prestes a tacar seu copo de limonada nele.
- Oi pra você também, ! – me intrometi pegando o copo antes de um fim trágico para a bebida e para .
- Oi, . - ele se esticou entre eu e Lizzie, ignorando-a miseravelmente, para me dar um beijo na bochecha. - Vejo que só você acordou de bom humor hoje.
- Meu dia estava maravilhoso até encontrar com você. – Lizzie alfinetou, desviando-se dele para voltar a andar.
Encontramos , e Katie conversando em uma das mesas, com a última agarrada ao pescoço de , parecendo que iria explodir de felicidade por estarem se entendendo novamente. Logo Cassie se juntou a nós, se destacando com um vestido medieval rosa bebê e branco com alguns detalhes em dourado.
Katie nos avisou, enquanto os meninos estavam entretidos falando sobre a final do campeonato inglês, que os ingressos para os shows do Franz Ferdinand e os do dia seguinte, Muse com abertura do Razorlight já tinham sido comprados pela internet, e chegariam pelo correio uma semana antes. Só faltava reservar nosso quartos em algum hotel para nosso tão ansioso final de semana em Londres.
- Não consigo imaginar qual vai ser a melhor parte. – Lizzie disse empolgada. – Os shows ou a gente saindo pela cidade!
- Carl já respondeu se vai ou não? – perguntei percebendo que continuava falando com os meninos, mas sua atenção estava na nossa conversa.
- Não sei... – ela deu de ombros. – Ainda não voltei a tocar do assunto. Mas de qualquer maneira vai ser ótimo!
- Meu pai nem pode imaginar que o e eu vamos ficar no mesmo quarto. - Katie revirou os olhos. – Acho que ele teria um treco.
- Eu aposto que sim. – se intrometeu, sorrindo maliciosamente para a namorada. – Ele não gostaria de imaginar as coisas que fazemos quando estamos sozinhos.
- ! – Katie lhe deu um tapa, com as bochechas vermelhas.
Todos nós rimos, inclusive ela.
- Ah, pelo amor de Deus! - Lizzie resmungou baixinho olhando para um ponto atrás da minha cabeça.
- O q... - antes que eu visse do que ela falava, uma menina de cabelos ruivos encaracolados sentou em nossa mesa sem nem ao menos pedir, dando um beijo discreto em .
- Oi gente! - ela nos saudou alegremente enquanto se sentava ao lado dele, demonstrando ser uma pessoa extremamente calma e doce. - Demorei, amor?
- Claro que não. - sorriu de volta. - Lola, - ele me indicou com a cabeça. - essa é a que eu e estávamos falando no outro dia.
Desde quando e conversam sobre mim?
- Prazer, Lola. - sorri da melhor forma simpática possível, sentindo Lizzie me metralhar com seus olhos.
- Finalmente estou te conhecendo. – ela sorriu de volta.
Eu e o resto das meninas, exceto Lizzie, puxamos papo com Lola. Sabíamos o quanto ela deveria estar desconfortável estando em um grupo novo, ainda mais com uma pessoa a encarando sem fazer nenhuma questão de esconder seu desejo de vê-la desaparecendo. Por duas vezes cutuquei Lizzie por debaixo da mesa, mas ela me ignorou completamente, como se eu fosse a errada da história. Eu desconfiava, ou melhor, sabia o porquê dela estar daquele jeito, só não entendia o motivo de tal, já que a situação estava desse jeito porque ela mesma não tomava uma atitude.
Não demorou muito e a mesa esvaziou. e foram pegar mais limonada e e Lola saíram sem dar nenhuma explicação, me fazendo deduzir que foram se amassar atrás de alguma árvore.
- Se você não gosta dela, tudo bem, mas não a faça se sentir desconfortável perto da gente, não é legal. - disse suavemente, concluindo meu longo sermão de amiga pentelha para tentar fazer Lizzie que Lola não tinha culpa das suas diferenças com .
- Você geralmente não julga as pessoas sem conhecê-las, Elizabeth Tallis. - Cassie acrescentou, querendo relembrar o seu bom senso.
- Ela também não gosta de mim, vocês viram! – ela argumentou como se fosse uma criança explicando o porquê de ter batido no coleguinha de classe. – Além do mais, eu tenho coisas muito mais importantes para me importar do que com esse tipo de coisa.
- Tipo com o seu namorado pentelho que reclama de tudo que você faz? Porque ele também nunca está satisfeito com nada... – Katie retrucou daquele jeito desembestado de falar o que pensava. Cassie e eu trocamos olhares já percebendo discussão no ar. - Sinceramente, não sei por que você fica com esse mau humor todo com eles estão perto, afinal, você mesma que não quis dar uma chance ao . Tem uma hora que a gente cansa de ficar correndo atrás de quem não nos quer!
- Você não sabe de nada, Katherine! Ele finge que gosta de mim, entendeu? Bem diferente do Carl! – Lizzie falou raivosa, levantando - Vai se fuder com sua opinião! Ou melhor, vão vocês três! – e saiu em disparada para longe de nós.
- O que ela quis dizer com “ele finge que gosta de mim”? – Cassie arqueou as sobrancelhas olhando para Katie e para mim. – Por que fingiria uma coisa dessas?
- Não faço a mínima ideia. - disse distraída com o meu celular tocando, vendo o nome de Peter na chamada. - Pensei que você não viesse mais.
Katie e Cassie trocaram olhares curiosos.
- Desculpe , meus pais me prenderam em casa, - ele se desculpou de um jeito carinhoso. – te explico melhor quando a gente se encontrar. Onde você está?
- Eu tô numa mesa perto da barraca de cachorro quente. – ignorei as tentativas feitas por elas para saber quem falava comigo. - E você? -
- Estou sentado num banquinho embaixo de uma árvore, é um tanto afastado da festa, mas dá pra ver tudo daqui. Você pode vir cá?
- Já estou indo. – desliguei, pegando minha bolsa. – Vou encontrar com o Peter, vejo vocês depois.
- , espera! – eu virei para Cassie. – O que a gente diz pro se ele perguntar por você?
- Diz a verdade, ué. Eu já disse a ele que não vou me meter nessa briguinha infantil.
Helen estava na barraca com Molly quando passei para pegar alguns dos seus salgadinhos estranhos e igualmente deliciosos antes de procurar Peter. Ela me disse que John ajudava no churrasco junto com seus amigos, enquanto estava com Emma no escorrega, cumprindo sua promessa que vigiá-la. Eu cheguei a vê-los quando atravessei uma multidão de crianças correndo uma atrás da outra e apressei o passo para que o meu caminho não fosse interrompido caso ele me visse.
Não foi difícil de achar o lugar onde Peter estava. De fato era bem afastado de onde as pessoas estavam, mas ainda dava para escutar a música e a gritaria. Ele não me viu de primeira, pois estava escutando música, mas assim que levantou a cabeça, me deu um sorriso lindo com seus dentes perfeitos, me chamando para sentar perto dele.
- Oi! - ele tirou os fones de ouvido, me dando um beijo na bochecha assim que me ajeitei ao seu lado, lhe empurrando o prato de salgados. - Você está linda! E trouxe comida!
- Você também não está nada mal... - fiz uma falsa careta de superior o vendo fazer também uma falsa de choque - Ok, você está perfeito.
- Perfeição é meu segundo nome. - ele riu convencido, comendo uma coxinha e eu lhe dei um belo tapa no ombro – Aí, ! - ele massageou o lugar que eu havia batido. - Você tem uma mão pesada.
- Não seja um marica.
- Estou longe disso, mocinha. - Peter colocou as pernas uma de cada lado do banco, deixando o prato de lado, chegando mais perto. - Fiquei com medo de não te ver hoje.
- Eu disse que viria, não disse?
- Mas não quis que eu fosse te buscar em casa. - ele falou magoado, pegando minha mão, virando a palma para cima, fazendo um carinho por ali. - Aposto que nem suas amigas sabem que você está aqui.
- É claro que elas sabem, Peter! Não fale como se elas não gostassem de você...
- E elas não gostam mesmo. - ele interrompeu.
- Elas só não te conhecem como eu. Não sabem como você é legal, - sorri da maneira mais sincera que consegui. - mas vão conhecer. Você é meu amigo agora, não é? - ele assentiu sorrindo também. - E você sabe por que eu pedi para nos encontrarmos aqui. Ninguém lá em casa, além do , sabe que eu e você somos amigos. Não quero que o John fique me pedindo explicações e além do mais, o seu passado com a minha família não é dos melhores.
- É, eu sei. – ele concordou dando uma risada nasalada. – Mas eu quero muito mudar isso. - os dedos dele se entrelaçaram vagarosamente nos meus como se ele estivesse apreciando isso. Não pude deixar de comparar sua mão fria com a quente do . - Quero conhecer seu pai, . Quero tirar essa má impressão que sua família tem de mim. Quero poder conhecer você melhor.
Eu baixei meus olhos, evitando encarar Peter para que ele não percebesse o quão sem graça fiquei.
- Você já tá conhecendo.
- Não tanto quando o parece conhecer. - ele refletiu me pegando de surpresa com isso. - Vocês são muito próximos.
- Ele me ajudou e ainda me ajuda muito com toda a situação da minha mãe, da mudança... Temos uma ligação. - eu me senti estranha dizendo aquilo em voz alta, ainda mais sabendo que outra pessoa estava ouvindo. Sabendo de uma coisa que estava na cara, mas que eu não tinha admitido ainda. Mas, contudo, não era uma estranheza ruim. Era ótimo saber que apesar das nossas brigas e diferenças, havia algo que me ligaria a para sempre, além da parte familiar. Ele se tornara meu melhor amigo. Havia cumplicidade entre nós.
- Espero que essa ligação não atrapalhe a nossa.
- A gente podia fazer alguma coisa, né? - mudei drasticamente de assunto. Eu já começava a entender as intenções de Peter, mas mesmo assim não queria me afastar. Ele estava se tornando um bom amigo e quem sabe, no futuro, poderíamos ter alguma coisa. Mas não agora, minha cabeça e meus sentimentos estavam em conflito. - Não quero ficar o dia inteiro sentada aqui.
- Eu não me importaria. - ele insistiu de um jeito que eu quase não pude recusar - Ficar sozinho com você o dia inteiro com esse solzinho maravilhoso, conversando, ouvindo música... O que você acha?
Eu rolei os olhos, divertida, levantando para puxá-lo.
- Vamos, logo! Quero me divertir um pouco pra variar.
Foi difícil escolher em qual barraca eu queria brincar primeiro, mas a última palavra foi de Peter. Ele dissera que a de tiro ao alvo era mais divertida e me desafiou para vermos quem fazia mais pontos. Ele teria ganhado, mas o cara ao nosso lado conseguiu derrubar mais patos do que meus olhos conseguiam acompanhar, o que fez Peter receber um pirulito como “prêmio de consolação” e eu, obviadamente, não ganhei nada.
- Pra que ele me deu isso? – ele perguntou rabugento, olhando para o doce como se ele fosse a coisa mais nojenta do mundo, me entregando em seguida. – Era melhor não dar nada! Minha vontade é devolver e mandá-lo enfiar no rabo!
O empurrei para longe da barraca antes que ele fizesse isso.
- Segundo lugar não é tão ruim assim! - ele me lançou um olhar de incredulidade. – Mas é verdade! Aquele cara é um assino de patinhos, ao contrário de você, que teve piedade deles.
- Deixa pra lá. – ele disse quando paramos numa barraca de refrigerante. - Sua amiga não parece estar se entendendo com aquele cara.
Eu olhei para o lado, vendo Lizzie claramente tendo uma discussão com Carl. Eles pareciam que iriam se atracar a qualquer momento. Nunca os tinha visto daquele jeito. Ela o empurrou quando ele tentou se aproximar mais, e virou para andar, mas Carl agarrou seu braço, começando a arrastá-la para o outro lado, atraindo olhares desaprovadores de algumas pessoas que estavam perto, principalmente de mim. O que aconteceu em seguida foi rápido demais. Num minuto ela tentava se desvencilhar da mão dele e no outro apareceu andando em direção a eles como um louco, com atrás dele, gritando. Eu corri de encontro a eles, deixando Peter e a minha latinha de coca-cola para trás.
- Larga ela, Barât! Larga agora! – disse aos berros, atraindo mais atenção.
- Cuida da sua vida, ! – Carl se virou, ainda segurando Lizzie, que agora gritava insultos para o namorado.
- , calma, por favor. – ouvi pedir quando os alcancei.
- Larga ela! – ele fuzilou Carl com os olhos, a poucos passos do casal. – Não estou brincando.
- , por favor, vá embora. – foi Lizzie que pediu dessa vez. – Eu e Carl só estamos conversando.
- Não é o que parece. – ele disse avançando alguns passos, fazendo Dougie lhe acompanhar caso acontecesse algo. – Seu namorado anda implorando por um olho roxo há muito tempo!
- Você ainda não se mancou que ela não quer nada com você? – Carl provocou, levantando o braço de Lizzie como se ela fosse algum tipo de troféu. – Ela é minha!
apareceu tão rápido que pareceu brotar do chão, andando a passos largos em direção aos meninos. Olhei para o lado, nervosa, procurando desesperadamente por Katie e Cassie, não encontrando nenhum sinal.
- Vocês vão arranjar uma confusão logo aqui? – ele apontou para as pessoas ao redor. – Anda Carl, larga ela. Mais tarde, quando estiverem de cabeça fria, vocês conversam.
- Não. Nós vamos conversar agora! – ele disse raivoso, apertando ainda mais o braço de Lizzie, fazendo-a soltar um gritinho.
- Me larga, Carl! – ela pediu. – Eu não quero conversar com você!
- Porra, larga ela! – gritou descontrolado, avançando mais alguns passos, parecendo que iria voar em Carl.
- , calma. – se enfiou na frente dele, colocando uma mão no seu peito para pará-lo. – Estão todos olhando, inclusive a Lola.
- Estou pouco me fudendo! Não vou deixar que ele a machuque! – ele lançou brevemente um olhar para Lola que observava a cena de longe, triste.
Fui até eles vendo aquela situação demorar mais do que o necessário, ficando ao lado de .
- Carl, deixa de ser criança, escuta o que o tá dizendo. – falei tentando parecer calma. – Isso está fugindo do controle.
- Cala a boca, . Estou cansado de você se metendo no meu namoro! – ele disse ríspido.
- Com quem você pensa que está falando? – semicerrou os olhos. Eu logo segurei sua mão.
- Você não. – disse baixinho. – Já estamos tendo confusão demais.
- Pra mim chega! Acabou, Carl! Definitivamente! – Lizzie puxou seu braço com força, finalmente conseguindo se soltar de Carl que ficou chocado com sua atitude.
Ela correu para onde estávamos se jogando nos braços de , surpreendendo a todos, menos a ele, que correspondeu o abraço na mesma hora, dando um beijo no topo da cabeça dela.
- Ótimo! Fique com ele então. – Carl olhou para o casal cheio de desprezo, parecendo que explodiria. – Eu também não quero mais ficar com você!
Ele cuspiu no chão, virando para ir embora, mas deu de cara com John, que assistia a cena.
- Eu não quero mais que você se aproxime dela, entendeu? Muito menos da minha filha. – John disse com a voz controlada, com sua indestrutível expressão serena. – Eu não quero ter problemas com você, Barât.
Carl soltou um resmungo e se afastou de vez. John veio até nós, observando com um sorriso discreto, Lizzie que agora chorava, e , ainda abraçados.
- Vocês estão bem? – ele perguntou no plural, mas olhando pra mim.
- Não foi nada, John. – deu de ombros, já tranquilo. – Ele não fez nada com Lizzie.
- Eu não vou deixar ele te machucar. – apertou mais Lizzie contra o corpo, beijando novamente o topo da sua cabeça, tentando acalmá-la.
- Eu sei. – ela disse, soltando um soluço, com a voz abafada por causa da posição que estava.
- Por que vocês não vão tomar alguma coisa? – sugeri fazendo um carinho no topo da cabeça sua cabeça, sentindo raiva por vê-la daquele jeito tão frágil.
- Você quer? – perguntou para Lizzie que assentiu. – Vem, vamos procurar as meninas.
Eles foram acompanhados por . John se despediu, dizendo que era pra chamá-lo caso precisássemos de ajuda. Eu e ainda ficamos conversando, tentando entender qual teria sido a causa daquela briga, mas chegamos à conclusão que poderia ser qualquer coisa. Lizzie e Carl já não andavam bem desde que me mudei, e as coisas de lá pra cá só tinham piorado.
- Pelo menos de uma coisa nós temos certeza: tem o caminho livre. – ele disse, olhando para longe, fechando a cara. – Esse cara não tem mais nada pra fazer?
Eu olhei para o mesmo ponto, vendo Peter nos observando com a latinha de coca-cola ainda em mãos.
- Ele está me esperando. – acenei, avisando que já ia.
- Você estava com ele? – perguntou, mas mais parecia que estava me acusando de algum crime horrível.
- É, algum problema? – respondi arqueando uma sobrancelha. – Peter é meu amigo, , você esqueceu?
- Infelizmente não. – ele continuou a encarar Peter. - Ele é como todos os caras que você odeia, . É como Sam.
- Eu duvido muito - sorri amarelo, dando de ombros. Não deixaria que a opinião pessoal de influenciasse na minha amizade. - Enfim, te vejo depois.
Peter me entregou a latinha já um pouco quente e logo tratei de tirá-lo dali, sem olhar para trás, sabendo que ainda éramos observados. A última coisa que eu queria era que houvesse outra briga entre eles, ainda mais numa festa onde todos, ou quase todos, os moradores da cidade se encontravam.
Consegui trocar o refrigerante por outro mais gelado e depois fomos procurar por Lizzie, que estava cercada de cuidados de , mesmo não precisando mais. Ela contou que Carl ficou daquela maneira quando dissera que os ingressos para os shows já estavam comprados e que não importava se ele iria ou não. Ela, em nenhum momento, enquanto contava - ou depois dele – mostrava ter se arrependido do final do seu namoro. Minha amiga parecia aliviada, acima de tudo.
Capítulo 12.
Eu e Peter ainda ficamos mais algum tempo com Lizzie e , e só quando começaram as apresentações de peças escolares é que fomos almoçar. Pegamos nossos pratos e sentamos no mesmo lugar onde nos encontramos enquanto eu ria das histórias que ele contou sobre suas aventuras em Manhattan.
Peter era incrível. Tudo nele era natural. E seu olhar era completamente diferente de , quando era direcionado a mim. Eu poderia conhecer Peter há poucos dias, mas quando eu olhava em seus olhos, conseguia saber ou pelo menos ter um palpite do que ele queria me dizer. Já ... Ele me evitava, recuava, pedia desculpas, era doce, fofo, engraçado, me fazia ter vontade de observá-lo por horas a fio por motivos diversos. Não existia uma pessoa no mundo depois da minha mãe, que eu gostasse mais de conversar senão ele. era tudo e mais um pouco. Ele mexia comigo de uma forma única e inquestionável. Era meu porto seguro. Nossa relação foi crescendo de grão em grão, se transformando numa coisa que nós mesmos não entendíamos... Ou não queríamos entender. Mas, acima de tudo, ele me deixava em choque, nervosa e com o coração na garganta, prestes a sair pela boca. me confundia de uma maneira que eu não conseguia me achar sozinha, só quando ele estava perto.
Seria covardia e errado da minha parte querer compará-los, mas como evitar quando suas personalidades estavam expostas tão claramente pra mim? Não era como se eu tivesse que escolher, porque no final, eu não estava sendo disputada. E nem queria ser. Contudo, era meio que inevitável quando era rude comigo. Por que ele fazia isso sem nem que eu fizesse nada para merecer? Às vezes eu desejava que ele fosse como Peter. Em outras eu me achava ridícula por querer uma coisa como essa. Eu gostava de por quem ele era, não queria que ele fosse como mais ninguém.
Todos nós somos diferentes, por que ele não seria?
Eu era uma contradição ambulante.
Olhei para Peter que estava de cabeça baixa entretido com seu iPod, procurando alguma música.
- Escuta. – ele me de um dos fones. – Eu adoro essa música.
Não demorou muito para que eu soubesse que era Can't Stand Me Now dos The Libertines. Eu também adorava aquela música. Cantamos essa e mais outras do mesmo álbum, até o celular de Peter tocar, interrompendo nossa conversa animadíssima sobre histórias da banda.
- Tudo bem, mãe. Já tô indo. – ele disse entediado. – Tchau.
- Vai ter que ir embora? – entreguei o fone assim que ele desligou.
- É, meu pai tá dizendo que não fiquei com eles o dia todo... Sabe como é, acabamos de voltar e ele quer que eu me reaproxime das pessoas, dos amigos dele... Mas a gente pode se ver depois do desfile da polícia, tem problema?
- Não, não. – disse enquanto ele me dava à mão para ajudar a me levantar. - Eu também preciso ficar um pouco com a minha irmã.
- Então eu te dou um toque.
Por todo o lugar que eu procurei por Emma, mas só consegui achar suas amigas. Rumei para a barraca de Molly, para comer alguns doces. Ela e Helen estavam bebendo vinho e rindo quando me aproximei risonha por vê-las daquele jeito “animado”.
- , meu amor, onde você estava? – Helen perguntou passando o braço por cima dos meus ombros. – Todos nós estávamos procurando por você.
- Eu estava com um amigo. – eu a abracei de volta, rindo.
- Estou triste porque você ainda não comeu nenhum dos meus doces – Molly me deu um dos potes coloridos, com chocolate. – Nem mesmo o brigadeiro.
O chocolate ainda estava quente quando o provei. Não consegui deixar de fechar os olhos com uma coisa tão gostosa. Foi amor a primeira vista desde que Molly fizera numa das tardes em que eu e Emma jogávamos Guitar Hero.
- Você poderia pegar mais salgados no trailer? – Helen perguntou para mim. – Está tudo dentro do freezer, é só esquentar no micro-ondas.
Assenti e deixei minha bolsa com elas, levando a taça comigo, passando por entre algumas barracas mais próximas, em direção ao outro lado do parque, onde os trailers ficavam. O local aparentava estar vazio e não me surpreendi ao encontrar o trailer de Ben vazio e totalmente bagunçado com vários potes e embalagens de comidas espalhados em cima da pia. Era bem apertado, mas tirando isso, era um ótimo lar para um homem solteiro.
Tirei os salgados congelados da bandeja de isopor, os colocando num prato, dentro do micro-ondas, ajustando o tempo para 14 minutos. Encostei-me do lado oposto, fazendo uma contagem junto com a do aparelho, comendo distraída o pouco que ainda restava do brigadeiro.
- Pensei que você estivesse com seu melhor amigo. – ouvi a voz de acabando com o silêncio ali, e virei o rosto, encontrando com ele fechando a porta atrás de si, subindo a escada.
Vi um sorrisinho debochado e fofo em seus lábios quando nossos olhares se cruzaram e eu percebi que ele não estava irritado.
- Não me provoque, seu chatinho. – o segui com o olhar, me espremendo contra a pia para deixar que ele passasse, esbarrando em mim, quase me levanto junto por causa do pouco espaço.
Ele abriu a geladeira, tirando quatro garrafas de Heineken, colocando uma a uma em cima da mesa planejada.
- Não sabia que você estava roubando bebidas, .
- Seu humor é invejável, sabia? – ele disse sarcasticamente abrindo uma das garrafas, dando a entender que passaria novamente por mim, mas ao invés disso parou na minha frente, com nossos corpos a poucos centímetros de distância.
Ele tomou um grande gole da cerveja enquanto me olhava de cima a baixo com um brilho intenso e diferente nas íris , quase como se planejasse algo muito errado. Seu cheiro maravilhoso de floral amadeirado começou a dominar meu olfato, me fazendo reunir todo o esforço para meu autocontrole não ir parar no ralo.
- Gostei do que fez com o seu cabelo. – observou, curvando os lábios num sorriso irresistível, mostrando seus dentes brancos.
Eu não saberia dizer se ele sentia o mesmo, era evidente para mim que havia uma tensão entre nós. Não era algo ruim. Era apenas... Instigante. E eu não me importava nenhum pouco com isso.
Sorri, comendo mais um pouco do chocolate, me sentindo como um animal indefeso encurralado sob o olhar de um predador, prestes a ser pego de forma brutal e impiedosa.
- Você tá comendo aquele doce que a Molly sempre faz pra você e pra Emma? – ele perguntou sedutoramente, ainda fitando com atenção o caminho que a colher fazia até a minha boca.
Eu confirmei com a cabeça, não conseguindo quebrar o contato com seus olhos, que me chamavam, me provocavam, me induziam a fazer algo.
E então , você não vai fazer algo a respeito?
- Isso parece ser bem gostoso – falou pausadamente, usando um tom de voz baixo e provocativo, tomando um último gole na bebida, deixando-a de lado, se inclinando na minha direção. – Posso provar?
Balancei a cabeça em afirmação quase imperceptivelmente, bem devagar, sentindo meu corpo ficar ainda mais tenso com nossa proximidade, fraquejando miseravelmente quando com um frio forte me atingiu em cheio no baixo ventre.
Excitação.
Eu estava ficando excitada só pela forma dele me olhar!
recusou, afastando minha mão, pegando a colher e a taça, colocando ambos em cima da pia.
- Você não quer? – perguntei confusa, me esforçando ao máximo para não gaguejar como uma idiota por estar surpresa com sua atitude tão firme em relação a mim pela primeira vez em dias.
- Existe uma maneira muito melhor para provar, não acha? – ele colou seu corpo no meu, apoiando as mãos na pia, me deixando encurralada de um jeito que mesmo que eu quisesse, não conseguiria sair.
Nossos rostos estavam tão próximos que ficamos vesgos. O hálito de cerveja bateu em meu rosto, me deixando meio sonsa.
O encarei e pensei que iria me afogar nas profundezas de sua íris , a intensidade de seu olhar, o desejo refletido nelas, fazendo meu corpo pegar fogo. Sua boca tão perto da minha, entreaberta, como um pedido silencioso para que eu a provasse, suas mãos em minha cintura me prensando contra seu corpo.
- Alguém pode entrar, . – disse fazendo a melhor cara de inocente possível com o intuito de ver até onde ele iria com aquilo tudo, colocando uma mão em seu peito, para pará-lo antes que nossas bocas se encostassem, sentindo seu coração tão inquieto quanto o meu.
afastou um pouco nossos rostos, me estudando com uma expressão divertida, os olhos faiscando, querendo me mostrar o que ele pretendia.
- Não se preocupe com isso, eu tranquei a porta. Ninguém vai nos interromper, a não ser que você queria. – ele disse simplesmente, como se fosse a coisa mais natural a se falar naquele momento, pegando a minha mão, entrelaçando nossos dedos. – Você se incomoda se eu ficar tão próximo a você?
Tudo rodava. A respiração pesada e difícil, a boca seca, ansiando por mais aproximação, o corpo queimando, desejando um toque... Nunca tinha sentindo tanto desejo em minha vida.
- Não... – respondi, olhando de um jeito bobo para nossas mãos unidas, antes de voltar a fitá-lo, me derretendo por dentro. – Nenhum pouco.
O micro-ondas apitou, mas não me atrevi a me mexer.
- Vejo que estamos de acordo então. – disse acariciando devagar meu rosto com a outra mão, grudando sua boca na minha num selinho demorado, encaixando perfeitamente seus lábios entre os meus, movimentando-os com lerdeza, capturando bem de leve o gosto do chocolate. – Hmmm, - ele murmurou contra minha boca, me dando mais um selinho. - isso é gostoso, mas ainda não provei o suficiente.
- Então por que você não tenta de novo? – provoquei com um sorriso encapetado.
- Você não deveria me olhar e nem sorrir desse jeito quando estamos muito próximos, sabia? – ele mordeu o próprio lábio inferior, desejoso.
- Por que, ? – dei mais um sorriso, revezando a atenção para seus olhos e lábios. – Você não se garante?
- Me garanto muito bem, , esse é o problema. Ou melhor, o seu problema. – o ouvi dizer poucos segundos antes de fechar os olhos.
O som da nossa risada pôde ser ouvido antes de nos chocarmos boca contra boca. Meu corpo tremeu e pegou fogo quando a língua gelada e macia de tocou a minha quente, transmitindo sensações térmicas, misturando os sabores do chocolate e da cerveja. Quando pensei que ele fosse se afastar, nossas mãos se soltaram instantaneamente para que pudéssemos nos tocar, e logo as minhas percorreram pelos seus braços e ombros, envolvendo seu pescoço, o trazendo mais junto a mim, tomando a iniciativa de aprofundar o beijo, mordendo levemente o lábio inferior dele, transformando o beijo em mais urgente e faminto, enquanto ele me pressionada mais contra a pia fria, apertando a minha cintura e quadril com força, embrenhando suas mãos por dentro do meu cardigã sem pudor nenhum, me deixando trêmula e mole ao senti-lo dedilhar minha pele exposta ao seu carinho gostoso e lento, causando arrepios fortes em mim.
Sorrimos durante o beijo quando arranhei vagarosamente a lateral do seu corpo por de baixo da regata, indo até a região da sua nuca, o arrepiando, puxando e brincando de bagunçar seu cabelo sedoso, sentindo suas mãos vagando pelo meu corpo por de baixo da roupa, subindo, chegando ao começo do meu top, ameaçando uma carícia num seio, para depois descer, tocando de baixo pra cima em minhas pernas, apertando-as com vigor, subindo um pouco a minha saia.
explorava meu corpo, assim como eu fazia com o dele.
Nessa hora eu já não tinha mais controle sobre minha libido que já estava explodindo como um vulcão em erupção, meu sangue circulava como larva por dentro das minhas veias, e sem pensar duas vezes, empurrei sua camisa xadrez pelos seus ombros, tendo ajuda de para tirá-la, jogando-a em algum lugar dali, o deixando apenas com sua regata branca. rapidamente voltou a me agarrar, sendo mais agressivo dessa vez, levantando uma das minhas pernas, subindo ainda mais a minha saia, quase me fazendo perder o equilíbrio se não fossem seus braços para me apoiar. Pôs minha coxa na altura do seu quadril, me grudando contra si, me fazendo arfar e lamuriar contra sua ereção evidente. Minha mão ansiosa foi até sua bunda durinha, e a outra se juntou a sua em minha coxa, com nossas línguas se enroscavam numa briga para saber quem beijava com mais vontade e fome, nos devorando deliciosamente como animais insaciáveis, deixando o gosto de doce e álcool perpetuarem. Eu nunca tinha sido beijada daquela maneira. De uma forma tão desesperada, insana, como se fôssemos amantes que não se veem há muito tempo.
Apertamos-nos contra o outro como se nossos corpos fossem se difundir a qualquer momento e me vi no paraíso quando os movimentos da sua pélvis contra a minha começaram de uma maneira precisa e ritmada. O meu grau de moleza era tão alto que a perna que apoiava o meu peso fraquejou e quase me vi no chão, sendo amparada por , ouvindo uma risada convencida. Não pude conter um gemido baixo escapar, descobrindo o quanto minha intimidade estava sensível a cada movimento, e imaginando como seria se nossos sexos finalmente se encontrassem. Só então percebi que além da tremedeira, da sensibilidade e das pernas fracas, meu fôlego também já estava precário, antes que eu pudesse fazer algo sobre isso, parou de me beijar e afastou a minha trança (ou o que restava dela), para poder se apoderar do meu pescoço da mesma forma desesperada, me mordendo e chupando lentamente, puxando com os dentes o nódulo da minha orelha, me fazendo arfar descontroladamente com a cabeça pendendo para trás e olhos fechados, cravando minhas unhas em sua nuca, tamanho efeito sobre mim.
Minha nuca não era a única parte do meu corpo que estava úmida.
Aquilo estava me assustando, era como se eu tivesse sendo preenchida por ele, por todo um carinho reprimindo dentro de si.
Tentei me concentrar em puxar que o ar entrasse novamente em meus pulmões, sendo quase impossível com a sua língua e dentes na minha pele.
Os movimentos pararam e minha perna foi solta, me deixando extremamente indignada, e sem que eu percebesse como, conseguiu abrir os botões que restavam do meu cardigã, fazendo com que ele tivesse o mesmo final da sua camisa, até que eu ficasse apenas com a blusa fina e o top. Subi a barra da sua blusa, tirando de uma vez só com a sua cooperação, não conseguindo reprimir a vontade de abrir os olhos para ver seu corpo másculo daquela forma por meu mérito. Deslumbrei seus ombros, peito e barriga, e o abracei, sorrindo sozinha como uma idiota, mordendo meu próprio lábio por causa das milhares de perversões que eu almejava fazer com aquele corpo maravilhoso todinho pra mim.
Eu estava tão quente que se jogasse água em mim, ela iria evaporar no mesmo instante, como acontece em chapas de hambúrguer.
Meus dedos festejaram como crianças quando puderam tocar em seu abdômen, que se contraiu com minhas unhas arranhando pontos estratégicos, até a barra da sua calça jeans, abrindo o botão e descendo o zíper. Mordi meu próprio lábio novamente encontrando com um par de olhos sedutores e provocativos me fitando atentamente, antes de voltar a me beijar sensualmente com sua língua experiente, logo diminuindo o ritmo, sussurrando meu nome quando coloquei a mão por dentro da calça, acariciando seu membro, sentindo seu tamanho e rigidez, a cada pulsada violenta aos meus toques.
Eu queria ir mais longe e não estava me importando em demonstrar.
Ele sussurrou meu nome de novo e de novo e de novo, sugando minha língua, dando mordidas no meu lábio, soltando gemidos roucos, como se implorasse para mais, me estimulando a provocá-lo, percorrendo minha mão por toda a sua extensão, enquanto eu distribuía beijos molhados por seu queixo e maxilar, chegando até o pomo-de-adão, descobrindo mais um dos seus pontos fracos quando suspirou e me apertou sem ter noção da sua força.
Antes que eu conseguisse tocá-lo verdadeiramente ele segurou minha mão bruscamente, colocando-a de volta ao pescoço, puxando meu cabelo e mordendo meu lábio repetidas vezes, o deixando dormente e depois sugou a minha língua com tanta força que chegou a doer.
Corpo com corpo, mãos com corpo, língua com pele, língua com língua, mãos apertando, descobrindo, procurando, arfadas e gemidos, calor, muito calor. Desejo, desespero, urgência.
Eu e ele.
- Acho melhor pararmos com isso – ele suspirou, de repente, com os olhos fechados e a testa franzida, como se estivesse fazendo um grande sacrifício. E tudo isso se confirmou quando suas íris me encararam.
- ...
- O seu beijo é tão bom – ele me interrompeu, voltando a fechar brevemente os olhos, esfregando seus lábios nos meus, ponderando suas próximas palavras. – É viciante... E está se tornando o meu maior vício, isso não pode acontecer de jeito nenhum.
- Então por que... Por que você deixou tudo isso acontecer novamente? – perguntei baixinho com a boca seca, revezando meus olhos entre os que me encaravam, e sua boca vermelha em consequência dos nossos beijos. Algo me dizia que a minha não estava diferente.
- Por que eu quis, - ele sorriu marotamente, me dando um beijo no canto da boca, mordendo meu lábio de leve. – por que eu posso...
Foi como um estalo. Meu cérebro processou essa última frase tão rapidamente que me deixou um pouco tonta. tentou me beijar novamente, mas fui mais rápida o empurrando mesmo sabendo que a distância entre nós não seria muita.
Por que ele pode?
- Então é isso? – perguntei chocada com as suas palavras, aumentando meu tom de voz com Danny ainda atordoado com a minha reação agressiva. – Então foi por isso que você beijou? Simplesmente por que pode?
- Não, não é nada disso , você entendeu errado o que eu disse... Eu...
- Tem certeza que eu entendi errado? Por que agora vai ser diferente? Você não vai mais me evitar como fez durante essas semanas? Não vai mais ser um poço de estupidez comigo? Porque é isso que você tem feito desde que a gente se beijou pela primeira vez e eu nem sei o motivo! E agora você chega todo carinhoso como se as coisas entre nós não andassem estranhas, e ainda por cima diz que me beijou porque pode como se eu fosse uma qualquer!
- Você não me deixa explicar! – ele disse aumentando a voz também, tentando me acalmar.
- Você vai dizer o motivo disso tudo? Ótimo, estamos chegando em algum lugar finalmente. – cruzei os braços, decidida a ouvir o que ele tinha a dizer.
- , eu... – ele abaixou a cabeça, respirando fundo enquanto travava uma batalha interna, enquanto se decidia se eu deveria ou não saber tudo que ele estava sentindo em relação a nós. Minutos se passaram, mas pra mim foram como séculos. Meu coração acelerou drasticamente, mas tentei me conter. Eu não queria que desconfiasse o quanto eu estava ansiosa, ou o quanto uma esperança crescia dentro de mim querendo ouvi-lo dizer que eu era tão especial pra ele, quanto ele era pra mim. – Você não entende... – ele finalmente disse ainda com a cabeça baixa. – Eu não posso dizer o motivo porque simplesmente ele não existe.
- Era tudo o que eu precisava ouvir. – senti meu coração ser esmagado pelas minhas próprias mãos, junto com a esperança perdida. Meus olhos queimavam.
Eu precisava urgentemente estar o mais longe possível de .
Virei-me, evitando encostá-lo com qualquer parte do meu corpo quando me movi em direção à porta, mas antes que conseguisse me afastar muito, segurou o meu pulso. Eu parei, olhando para sua mão que me segurava quando ele começou a deslizar o dedão sobre as costas dela.
- Você tem algo pra me dizer? – voltei a olhar pra frente, tentando parecer decidida enquanto seus olhos estavam fixos no meu perfil e os meus gritavam para que eu piscasse e as lágrimas pudessem sair.
Ele quis entrelaçar nossas mãos, mas eu não deixei.
- Você tem ou não?
- Não. – pela minha visão periférica, o vi balançar a cabeça enquanto sua voz respondia minha pergunta num tom baixo e fraco.
- Foi o que eu imaginei. – engoli em seco, olhando para cima já sentindo que não conseguiria mais segurar meu choro. – Agora você pode largar a minha mão?
Ele soltou, mas antes roçou mais um pouco seus dedos em mim como se soubesse como tudo aquilo estava mexendo comigo. Sai dali o mais rápido possível antes que mais alguma coisa me impedisse de sair daquele trailer.
Corri em direção a festa, ouvindo gritos de comemoração. Minhas pernas avisavam que eu precisava diminuir o passo, e a contra gosto, acatei ao aviso, encostando-me em uma árvore. Respirei fundo, procurando desesperadamente algo que fizesse meu peito parar de doer, que acabasse com uma angustia crescente. Fechei os olhos, mas logo me arrependi, porque a única coisa que eu conseguia ver eram os olhos de perto dos meus. Coloquei as mãos no rosto para não gritar da raiva que começava a surgir. As lágrimas não apareceram, para meu espanto, mas ainda sim eu queria chorar.
Meu coração parecia que iria sair pela boca a qualquer momento e eu precisava me acalmar antes de encontrar alguém. Meu peito doía, minha mente estava confusa.
Por que eu estava daquele jeito?
- , o que aconteceu? – abri os olhos, vendo Peter se aproximar com as sobrancelhas levantadas em sinal de preocupação. – Você está pálida.
- Eu... - olhei para os lados, alarmada. Ninguém poderia nos ver dali. – Eu estou bem. Ótima, não poderia estar melhor!
- É claro que aconteceu algo, você está tremendo e parece assustada! – fui fitada com desconfiança. – Sem contar que parece que saiu de um vendaval, sua roupa está toda amassada.
- Não foi nada. Eu estava distraída e acabei caindo – sorri forçado, querendo parecer convincente. – Não há nada preocupante nisso.
Peter me estudou, fazendo uma careta estranha, pensando se deveria ou não acreditar em mim. Por fim ele devolveu o sorriso tão forçado quanto o meu.
- Você perdeu o desfile da polícia.
Por quanto tempo eu fiquei no trailer?
- É, infelizmente... – disse num falso desanimo. Ouvi passos perto de nós e meu alarme soou, imaginando que fosse . – Vem, - o puxei pelo braço. - vamos voltar pra festa.
- , você tem certeza que não aconteceu nada?
- Não, não... Vamos jogar naquela barraca dos patinhos? Talvez você consiga acertar mais dessa vez!
- Para com isso! – ele me parou e me pôs na sua frente, segurando meus braços. – Vai, me conta logo, você está me deixando preocupado. Alguém fez alguma coisa com você? – ele me olhou de cima abaixo. – Onde está o seu casaco?
Em algum lugar do trailer do Ben, era o que eu deveria responder.
- Isso é algum tipo de interrogatório? – ele arregalou os olhos, ofendido. – Desculpe Peter, mas de boa, já falei que não aconteceu nada, então por que você continua insistindo?
- Você está arisca. Parece que está fugindo de alguma coisa ou de alguém. – ele suspirou, cansado. – , você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
- Se fosse algo importante, eu te contaria. – menti descaradamente. Aquilo era importante. – Eu só não estou me sentindo muito bem.
- Tudo bem, vamos voltar então. – ele sorriu, passando o braço pelos meus ombros. Eu não me incomodei, e apoiei a minha cabeça em seu ombro, o abraçando pela cintura, voltando a caminhar. – Você vai querer mesmo ir à barraca dos patos?
- Bom, a gente pode ir à outra barraca, se você quiser. – olhei para cima, rindo por já me sentir menos nervosa.
- Acho que vou aceitar sua sugestão.
Sentei num banquinho depois de Peter insistir para que eu fosse com ele devolver a chave do trailer do amigo do seu pai, antes de fazermos qualquer coisa, mas eu recusei. Preferi ficar esperando, porque assim como a minha família, a dele também não sabia sobre a nossa amizade. Apesar de estar mais calma, eu não iria aguentar calada ser encarada com olhares tortos e reprovadores. Meu nível de irritação ainda estava ultrapassado.
Ele voltou pouco tempo depois, sugerindo que fôssemos até a pista de boliche. Não demorou muito para que eu pudesse mostrá-lo todo o meu maravilhoso desempenho em fazer strikes.
- Olha quem temos por aqui... – virei o rosto depois de fazer mais um strike. Lisa Richards se aproximava tomando milk-shake, usando um decote enorme, parecendo a Pamela Anderson em SOS Malibu, com a diferença das raízes negras crescendo no topo da cabeça, com suas fiéis súditas, Gemma Morgan e Kirsty Harris logo atrás. – Você está saindo com ela, Bradley?
Revirei os olhos, já inquieta com a presença dela.
- Por que não? é uma ótima garota. Ela não é lunática e fútil como outras que temos na cidade – Peter piscou pra mim sugestivamente, respondendo da forma menos grosseira possível.
Lisa, com seu cérebro muito desenvolvido, não entendeu a ironia, e sorriu. Gemma lhe disse algo no ouvido, que a fez abrir ainda mais o seu sorriso de piranha, avaliando o que a amiga dissera.
- Até que enfim você largou o osso, não é? – ela se dirigiu a mim, percebendo que com Peter ela não teria sucesso em irritar. A voz fina como de uma gralha, o jeitinho de puta acompanhando perfeitamente. Como alguém conseguia se relacionar com uma pessoa assim?
Eu sabia exatamente o que ela queria dizer e não daria esse gostinho de me mostrar irritada. Respirei fundo, e peguei uma bola, ficando em posição. Obviamente aquele joguinho de me tirar do sério não acabaria tão cedo e Lisa se postou ao meu lado, tomando seu milk-shake, fazendo barulho com o canudo toda vez que sugava a bebida.
- Você está me atrapalhando. – falei num tom falso de calma, apertando a bola com força com as duas mãos. Se ela não fosse tão dura, provavelmente já estaria amassada.
- Ah, desculpe. – disse, mas não saiu de perto de mim. Esperou até que eu ficasse em posição para jogar a bola e me empurrou de propósito para o lado. A bola invadiu a pista ao lado, até atingir a outra, fazendo o cara do lado reclamar.
Estreitei meus olhos, e num movimento rápido, dei um tapa no copo dela, que caiu, derramando milk-shake em seu par de sapatos.
- Sua desgraçada! – ela reclamou histericamente, olhando para o estrago que eu fizera. – Você tem noção de que são sapatos italianos novos?
Era isso que eu precisava para me acalmar de vez: bater em alguém.
- , não dê bola pra ela. – Peter se apressou pegando no meu pulso, apenas para que eu não voasse em Lisa. Com a maior gentileza, me soltei dele e coloquei o dedo na cara de Lisa.
- Não há nada que me impeça de te bater hoje, sua puta com cérebro de ervilha! – disse entre os dentes. Não havia mais porque me preocupar em não arranjar confusão, já que não tinha mais contato com ninguém fora da cidade.
Peter se meteu entre nós, me empurrando, pedindo calma.
- Puta? – ela repetiu chocada. E eu não entendi o motivo. Ela já deveria estar acostumada a se chamada assim. – Você que não desgruda do por um minuto e eu que sou puta?
- Eu não dou em cima de ninguém! – gritei me desvencilhando de Peter, avançando nela. - E mesmo se desse, a culpa não é minha se ele não quer mais te comer!
Ela soltou um gritinho, ameaçando avançar em mim, mas um cara desconhecido e bem forte como um armário, a segurou pela cintura. Gemma e Kirsty arregalaram os olhos e taparam a boca, escandalizadas.
- Me larga agora! – ela mandou, empinando o nariz.
Eu queria mandá-la cala a boca. Irritar um cara daqueles não era algo inteligente.
Mas bem, estamos falando de Lisa Richards.
- Estou tentando jogar boliche e vocês não estão deixando, o que está realmente me irritando! – ele falou com a voz fina demais em comparação com todo o seu tamanho. – Vocês não vão querer me ver irritado de verdade!
- Não, não... Já estávamos saindo, não é? – Peter disse, sibilando um “olha o tamanho dele” pra mim. Eu confirmei com a cabeça. – Está vendo? Eu e ela já vamos embora.
Lisa e o resto da sua escória ficaram lá, gritando com o cara, enquanto eu e Peter saímos dali de fininho, e quando já estávamos relativamente afastados, tivemos um ataque de riso.
- Eu pagaria para aquele cara bater nela! – falei ainda rindo.
- Eu aposto que sim! – ele gargalhou descontrolavelmente, colocando a mão na barriga.
- Por que você está rindo tanto?
- Da voz do cara! – ele entre mais uma gargalhada, Peter afinou a voz. – “Vocês não vão querer me ver irritado de verdade”, porra! Ele parece àqueles caras que ainda moram com a mãe e comem mingau de manhã!
Minha barriga se contraiu e doeu de tanto rir e meus olhos se encheram de lágrimas, enquanto eu imaginava o cara usando um babador.
- Tô passando mal! – falei, colocando a mão na barriga, sem fôlego. – Minha barriga vai explodir!
- A minha também! – ele encostou-se a uma árvore, puxando o ar.
Nossos risos foram diminuindo, mas foi só nos encararmos por poucos segundos, e Peter voltar a imitar a voz fina, que voltamos a gargalhar como loucos, com direito a ombros se mexendo e olhos lagrimejando. As pessoas nos olhavam como se estivéssemos bêbados.
- Minha barriga tá doendo muito, a cerveja está toda remexida. – reclamei fazendo uma careta, depois que finalmente conseguimos controlar nosso ataque.
- Os músculos da minha boca também estão doendo. – ele massageando a boca com a mão, fazendo um beicinho muito fofo por sinal. – Acho que nunca ri com tanta vontade por tanto tempo!
Dei um sorriso, descobrindo que os músculos da minha boca também doíam, mas não foi isso que me fez desmanchá-lo, e sim a pessoa que estava na minha frente. e estavam tomando cerveja e conversando a poucos passos. Ou melhor, apenas falava distraído, já que mantinha os olhos fixos em mim e em Peter, com uma expressão clara de repulsa. Quando nossos olhares se cruzaram, foi como se eu estivesse novamente no trailer com ele. O seu cheiro me dominou, e senti um calor tão forte que poderia apostar que gotas de suor escorriam do meu rosto e meu estômago se embrulhou, me lembrando da dor na barriga. Não aguentei sustentar o olhar e o desviei, fazendo com que Peter olhasse para trás.
- Você não gosta quando ele nos vê juntos, não é? – ele perguntou magoado.
- Não é nada disso, Peter, é que... – suspirei. Não queria ter que falar com ele sobre isso. - Não gosto da forma como ele olha pra gente.
- Ele tem ciúmes de você.
Eu meio que travei em responder. Peter não era a primeira pessoa a me dizer isso. Katie e Lizzie também insistiram nessa hipótese, mas eu achava um tremendo absurdo e continuava achando. Ele não tinha ciúmes de mim, só não queria que alguém, próximo a ele, tivesse algum tipo de relacionamento com Peter. Era um capricho, como daqueles quando você está na 4ª série e briga com um colega de classe, e não quer que mais ninguém fale com ele.
poderia ter muitas qualidades, mas também era insuportável, arrogante e principalmente, mimado, quando queria. Eu mais do que ninguém já conhecia esse lado.
- Vamos sair daqui – pedi, depois de ter a confirmação de que ele ainda nos encarava.
- Pra onde você que ir? – Peter pegou na minha mão, tapando a visão que tinha de mim. Nossos dedos se entrelaçaram de uma maneira que julguei errada, mas não disse nada. Peter só queria ajudar.
- Qualquer lugar que seja longe dessa festa. Ela já deu o que tinha que dar. Não me importo pra onde, só quero ir embora.
- Essa foi a melhor coisa que você me disse hoje. – ele sorriu tão verdadeiramente pra mim, que se não fosse pela situação, pela reação do meu corpo e mente a presença, mesmo que relativamente distante de , eu poderia sorrir daquela maneira. – Tenho carta branca para te levar aonde eu quiser!
- Se eu puder sugerir algo, sugiro um lugar que dê para beber.
- Abriu um pub novo, acho que você vai gostar dele. Tem música ao vivo! – ele disse animado. – Você avisa que vai sair e eu te espero no meu carro, ok?
- Não vou avisar ninguém. Vamos sair à francesa. Não quero ter que dar explicações...
- Não vai pegar nem seu celular?
- Eu não vou atender se ligarem. – dei de ombros. – Então não vai servir muito, né.
- Vamos logo então.
ainda estava no mesmo lugar quando Peter se moveu, me puxando para irmos até seu carro. Ele me pedia desculpas com o olhar. Até arrisco a dizer que ele me dizia para não ir. Mas eu não me importava. Não facilitaria para ele dessa vez. Nossas divergências chegaram a um ponto em que eu não podia e nem queria dar o braço a torcer. Ele fazia as burradas e eu é que deveria me redimir? Fingir que nada tinha acontecido entre nós? Que nada estava acontecendo?
Não , não dessa vez.
Capítulo 13.
Katie se jogou no banco, colocando a bolsa em cima da mesa, tirando alguma coisa de dentro dela.
Não deu pra evitar, quando vi, o grito já estava saindo pelas minhas cordas vocais.
Dava para ver pela minha visão periférica que os alunos das mesas ao redor me olhavam nada contentes com o meu escândalo repentino, mas era inevitável. Ainda mais com Katie balançando de um lado para o outro exatamente oito ingressos recém tirados do correio diante dos meus olhos. Dos meus, de Lizzie e Cassie. Lizzie, por alguns segundos, ficou atônita enquanto Cassie gargalhava e eu voltava a dar alguns ataques de alegrias, agora tentando ser mais contida. Quando pensei que o efeito da surpresa já havia passado (e eu já estava quase voltando ao meu estado normal), Lizzie bateu na mesa com as duas mãos e gritou. Nós rimos, espalhando os ingressos pela mesa, verificando se havia alguma possibilidade dos nomes estarem errados.
- Vamos sair daqui ou eu vou enlouquecer - um garoto da mesa quase colada a nossa resmungou para dois amigos. Os últimos concordaram e pegaram seus lanches, indo para outra parte do pátio.
Fiz a minha melhor cara blasé, revirando os olhos, ignorando qualquer comentário que pudesse estragar minha alegria. Esperei semanas pra poder comemorar e não deixaria que atrapalhassem o meu momento.
Tudo já estava esquematizado: O hotel já estava reservado com um quarto com dois quartos, , , e Katie ficaram encarregados de fazer nossa rota de lugares de pubs e boates que iríamos, e mesmo assim eu não acreditava que iria passar um final de semana com meus amigos em Londres. Só eu e eles!
John não criou nenhum empecilho, mas senti que ele ficara receoso mesmo sabendo que também iria e poderia ficar de olho em mim (como se ele já não ficasse) como um guarda-costas. Para ele, eu ainda era a mesma de 1 mês e meio atrás, mas John estava enganado. Eu amadureci. Não tinha outra escolha. Precisei aprender a lidar, aos trancos e barrancos, com a dor, com a perda e com a decepção. Eu ainda era a mesma só que com algumas feriadas, algumas tão profundas que voltavam a sangrar sempre eu estava sozinha, outras já estavam quase inteiramente cicatrizadas.
De qualquer maneira eu estava contente e pequenos detalhes como esse eram apenas... Detalhes, afinal. Eu iria curtir e era isso que importava.
Eu precisava me divertir.
A última semana estava tendo um ar tão pesado e sufocante que me deixava cansada. Eu sentia que meu corpo estava precisando de férias. Meu corpo, meu coração, minha mente... Que era ocupada por duas coisas que me perseguiam sempre: A saudade imensa, gigantesca, gritante e desesperada da minha mãe que sempre latejava a cada segundo e meus sérios problemas de convivência com . A todo o momento eu tentava impedir que minha mente tomasse algum desses rumos.
Eu não queria mais ficar triste. Estava esgotada disso. Tão esgotada quanto uma pessoa pode ficar. Esgotada de chorar no meio da noite pela minha mãe e mais esgotada ainda de ficar mexida com as atitudes de , fossem elas direta ou indiretamente ligadas a mim. Ele, que eu pensei que fosse ser o meu principal refúgio, a minha proteção, estava se tornando um problema com uma dimensão maior do que eu conseguia evitar. Eu me sentia impotente diante disso. O controle não estava mais em minhas mãos. Os meus sentimentos não me obedeciam mais. Nem mesmo quando eu os implorava para me deixarem descansar por algumas horas.
Eu me lembrei daquela pergunta retórica feita há algumas semanas...
Qual seria a própria notícia que abalaria o meu emocional? Quem faria parte dela?
A resposta veio clara e certeira: .
- Terra chamando ! Algum contato? – Katie estalou os dedos na frente do meu rosto. Eu olhei para ela e depois para as outras, tirando o canudo da boca, já que o meu refrigerante tinha acabado e eu nem percebi por causa da distração com meus pensamentos. – No que você estava pensando?
- Aposto que ela estava pensando no Peter. – Cassie piscou freneticamente, fazendo cara de apaixonada.
- Só tô um pouco cansada, fiquei a noite toda estudando... – desconversei, evitando encarar Lizzie e seu olhar perspicaz. Ela saberia que eu estava mentindo. – Do que vocês estavam falando mesmo?
- Estamos checando as coisas para sábado – a mesma respondeu e só então eu notei que ela estava escrevendo em um pedaço de folha rasgada. – Vendo se todos da lista foram convidados, se a quantidade de bebidas está ok, essas coisas...
Oh sim, o aniversário de Katie estava chegando. Eu só ouvia as histórias sobre as grandes e inesquecíveis festas dela, e em como todo mundo puxava seu saco só para ter o nome na lista. Em poucos dias eu faria parte de mais uma sem nenhum esforço.
- Seus pais ainda vão estar viajando? – perguntei a futura aniversariante.
- Sim, mas não vai ter problemas, eles já sabem – Katie deu um dos seus sorrisos maliciosos antes de continuar. – Até porque a festa vai estar muito melhor sem eles por lá.
- Hm... – pensei, procurando encontrar as melhores palavras. – Katie, você acha que eu posso chamar o Peter?
Ela trocou olhares com Lizzie e Cassie pedindo ajuda. Eu sabia que ela ficaria sem saber o que fazer, não era sua culpa, mas eu precisava perguntar, não havia nada demais nisso. Nenhuma delas compartilhava mais a birra com Peter, mas também não queriam discutir com os meninos por causa de uma coisa tão banal. Peter não era amigo delas, era meu.
- Eu não sei, . – ela disse receosa. – Não acho uma boa ideia.
- Não, chama sim! – Lizzie disse balançando a cabeça afirmativamente. – A festa é da Katie e ela não tem nada contra o Peter, então não vejo qual o problema. Se os meninos não gostarem, eles que saiam.
- Eu acho melhor n...
- Chama sim. – Katie me interrompeu. – Eu falo com alguns dos amigos do Peter, e falo com o próprio também, então por que não? Essa briguinha boba tem que acabar alguma hora.
Eu concordei e no mesmo instante o sinal avisando o término do intervalo soou. Katie guardou os ingressos dentro da bolsa e foi se encontrar com e o resto dos meninos que já estavam no portão nos esperando. Lizzie e Cassie foram logo atrás. Eu demorei mais um pouco porque estava esperando Peter que vinha na minha direção com seu grupo de amigos. Todos me cumprimentaram quando passaram por mim, mas o único a parar foi ele, que sorriu antes de me dar um beijo na bochecha para depois começarmos a andar em direção aos prédios.
- Você está diferente hoje, mas não sei explicar o por quê. – ele me mediu colocando a mão no queixo, fazendo uma falsa cara de desconfiando. – Vai me contar?
- Eu ia fazer você tentar adivinhar, mas não vou aguentar esperar! – sorri, quase dando pulinhos de empolgação. – Os ingressos para os shows chegaram!
- Que ótimo, ! – ele disse fazendo esforço para acompanhar a minha animação. – Pena que eu não fui convidado...
- Ah Peter, você sabe que não é bem assim, vai. – o empurrei de leve com o ombro para descontrair. - Eu e o pessoal combinamos tudo antes de você chegar à cidade, além do mais, você e os meninos não se dão bem.
Nós paramos em frente ao prédio B. Alguns alunos ainda conversavam do lado de fora.
- Eu sei, estou apenas brincando com você – Peter me olhou daquele jeito intenso dele através dos seus globos azuis.
- Eu sei – soltei uma risada nasalada e mordi o lábio inferior inconscientemente. – Eu fico aqui, vou ter aula de artes agora.
- E eu vou indo para o outro prédio. – ele deu alguns passos na minha direção, me dando mais um beijo na bochecha, dessa vez mais demorado do que o primeiro e em seguida sussurrou. – Te vejo depois.
Continuei parada até vê-lo sumir. Agora seria a parte em que eu suspiro, dou um sorriso de apaixonada e subo as escadas até a sala toda feliz por ter um cara tão foda e divertido como o Peter ao meu lado. Mas não era assim que eu me sentia em relação a ele. Em certos momentos eu podia até ficar mexida com algumas atitudes ou coisas que ele falava, mas eram sentimentos momentâneos. Eu não era boba, sabia as intenções dele para comigo, mas enquanto ele não explicitasse nada, eu fingiria que não era nada perceptível. Eu queria mesmo ser amiga de Peter e não era pra provocar ninguém.
Assim que empurrei a porta transparente e pus meus pés para dentro do prédio, visualizei a silhueta de encostado na parede perto da escada. Ele estava sozinho com as mãos no bolso da calça jeans e matinha os olhos em mim enquanto eu andava até o meu armário para pegar meus pincéis. Eu achei que tropeçaria nos meus próprios pés com tanta atenção.
Quando fechei o armário, ele ainda estava lá, sério, pensativo, com os olhos fixos nos meus movimentos. Em dias melhores eu passaria por ele e lhe daria um sorriso. Ele retribuiria e subiríamos juntos até a sala. Mas não hoje. Eu o vi entreabrir a boca como se fosse falar alguma coisa, mas não ouvi nada. Nenhum som, nenhum resmungo. E então eu passei direto, como se ele fosse um desconhecido. Como se eu não estivesse me sentindo mal por estar fazendo aquilo. Como se ele não mexesse comigo mesmo quando estávamos naquela situação de não nos falarmos. Como se eu não quisesse dizer para ficarmos bem, para novamente, esquecermos sobre nossos beijos.
O orgulho às vezes pode ser uma merda, mas o amor-próprio é bem diferente disso.
Ele continuou parado enquanto eu subia de dois em dois degraus para ser mais rápida. Entrei na sala depressa aproveitando que a professora estava de costas escrevendo no quadro, passando as instruções para reproduzirmos o trabalho do semestre. Meu cavalete era ao lado do de Lizzie.
- Eu quero saber o que está acontecendo, . – ela exigiu daquele tom mandão tão Elizabeth.
Eu permaneci quieta, fingindo prestar atenção na professora que agora falava e não no que ela havia dito.
- Você sabe que eu posso ser persuasiva quando quero. – Lizzie cochichou, trazendo seu cavalete para mais perto do meu. – Eu sou sua amiga, quero saber o que está acontecendo com você.
A porta foi aberta, tirando por alguns segundos um pouco a atenção dela e de quase todos da turma. passou por nós de cabeça baixa, dirigindo-se até a parte de trás onde estavam os outros. Lizzie olhou de mim para ele e levantou apenas uma sobrancelha fazendo a expressão de que estava começando a entender algo.
- É alguma coisa com o , não é? Vai , me conta!
- Não é nada, Lizzie, é sério. – fingi mexer nos pincéis. Não dava para encará-la sem me denunciar. Elizabeth é a última pessoa da face da terra que você poderia enganar e isso era péssimo pra mim nesse momento. – Eu e estamos bem.
- Não é o que parece. – ela revidou – Vocês não se falam desde o festival da cidade e isso tem dias!
- Nos falamos sim, ok – me defendi nada confiante, diminuindo o tom de voz não tendo certeza do que falava.
- Falam o essencial, mas não conversam. Antes vocês praticamente se excluíam da gente no intervalo porque conversavam sem parar. – ela bufou irritada e bateu na minha mão que ainda mexia nos pincéis, fazendo alguns caírem no chão. – E para de fingir que tá mexendo nessas merdas! Estou tentando estabelecer uma conversa aqui, sabia? Se você não quiser me contar, tudo bem, o problema é seu, mas não venha dizer que não há algo acontecendo aqui, não deboche da minha inteligência.
Ficamos em silêncio por alguns minutos. Aquele silêncio de choque e receio que se cria depois que alguém te diz algo que é verdade, mas que não te agrada. Lizzie sabia que eu estava escondendo algo, mas como? Como ela poderia me conhecer tão bem a esse ponto em menos de dois meses? Eu era tão transparente com meus sentimentos? Mais alguém já havia notado?
- É tão confuso que nem eu consigo me achar direito no meio disso tudo, quanto mais explicar pra você – soprei derrotada.
Eu precisava conversar com alguém sobre isso. Por que ficar negando se ela já desconfiava? Não queria mais guardar tantos pensamentos e perguntas pra mim. Era preciso compartilhar, saber a opinião de fora e Lizzie sem dúvida nenhuma era a mais apta pra isso.
- Então nós vamos arrumar essa confusão juntas depois – ela me assegurou com um sorriso discreto.
Eu assenti com a cabeça esboçando um sorriso também.
- Agora presta atenção no que você tá fazendo, seu desenho tá horrível! – ela disse apontando para a minha tela.
Não importa de qual escola, cidade, país ou continente você é, a hora da saída é sempre um caos. Eu, Katie e Lizzie nos esprememos entre os alunos e professores nos corredores, procurando, literalmente, a luz no fim do túnel enquanto a última nos contava sobre as fracassadas ligações, mensagens, e-mails e recados no facebook de Carl para tentar reatar o namoro. Lizzie rejeitava qualquer tipo de aproximação e eu não fazia questão de esconder que concordava com sua atitude. Estava mais do que na cara que ela só estava esperando algo relativamente grave acontecer para poder de livrar de Carl. Eu só achei que isso tudo faria ela e ficarem mais unidos, mas isso não aconteceu como eu previa. Só o humor de que melhorou 100%, o que o fez parar de querer irritar tanto Lizzie.
A confusão continuava. Um monte de gente querendo sair ao mesmo tempo, um monte de alunos parados com suas mochilas nas costas e conversando, mas eu e as meninas conseguimos passar por toda aquela algazarra com vida.
- Não é que a vaca veio hoje, meninas - ouvi uma voz conhecida atrás de mim e parei no mesmo instante. Foi só me virar e ver o ar de satisfeita que Lisa Richards fez para saber que aquilo era realmente pra mim.
A Pâmela Anderson oxigenada exibia um sorriso debochado no rosto maquiado demais para o dia, apontando pra mim para que suas amigas e todos que passassem soubessem quem era a tal vaca. Antagônico ao modo como ela falara, eu proferi as palavras num tom mais calmo e monótono possível:
- Sou tão vaca quanto à vadia da sua mãe, Lisa Richards!
Posso até ter dito de maneira calma e desinteressadamente, mas foi suficientemente alto pra despertar a curiosidade das pessoas ao redor. Lisa ficou meio aturdida com a minha resposta, abrindo a boca lentamente como uma retardada mental. Eu vi chegando por trás dela com o cenho franzido, como se quisesse saber o que estava acontecendo, e estavam com ele e não muito longe dali eu pude ver o Peter virando a cabeça pra saber o porquê de uma rodinha ter se formado no meio do estacionamento.
- Como é? – Lisa perguntou com a voz tremendo levemente enquanto saltava do capô da Ferrari vermelha em que estava sentada. Ela parecia incapaz de acreditar que eu havia tido coragem de dizer àquilo pra ela.
- Oh, desculpe. Eu esqueci que você é retardada demais pra entender o que eu te digo – eu falei com calma e uma falsa inocência – Então eu te ajudo. Deixa-me falar mais claramente pra você entender: Sou-tão-vaca-quanto-a-vagabunda-que-te-pôs-no-mundo!
Lizzie apertou o meu braço, nervosa, e Katie quase soltou um orgasmo ao meu lado. A maior parte da multidão começou a rir. Eu ouvi vários ‘Uhhh’ e em seguida Lisa estava lívida caminhando como uma louca pra cima de mim.
- , não cai na provocação dela – Lizzie gemeu ao meu lado.
- É Princesinha , não caia na minha provocação! – Lisa zombou – Afinal de contas, o vem aqui proteger você, não é?
Estava muito fácil. Lisa estava dando sua cara à tapa muito facilmente. Ela provavelmente achava que eu não arregaria na frente da escola inteira. E eu posso dizer que não iria arregar mesmo. Eu não era tão burra assim, ela queria me ferrar de alguma maneira e eu não iria dar o gostinho de cair na dela assim tão fácil. Quando vi outra rodinha em volta de nós, andei em direção a ela e parei na sua frente, cutucando seu peito:
- Não tenho medo de você, Richards! Estou avisando pra não mexer comigo!
E virei para continuar meu caminho até o carro de , mas Lisa foi mais rápida me pegando pelas costas. Pra ser mais exata, pelos cabelos.
Eu ouvi gritos, mas não foram meus. Foi como com Jennifer, tudo ficou branco e vermelho. Eu só conseguia sentir raiva e a necessidade de extravasá-la. As provocações de Lisa não eram de hoje, aquilo foi só a estopim pra todo o resto. Agi por instinto. Quando ela me puxou, eu automaticamente virei e fechei a minha mão em um punho, acertando em cheio em seu olho. Lisa uivou de dor e eu também pelo puxão forte que ela tinha me dado.
- Não toque no meu cabelo, sua desgraçada! – eu gritei, mais pra disfarçar o meu grito por causa do puxão do que qualquer outra coisa.
Lisa, que posso dizer não esperava levar um soco no olho, levantou a cabeça lívida, a mão ainda sobre o olho, e gritou quase à beira de um colapso:
- Que tipo de garota é você?
- Do tipo que bate pra machucar! – eu gritei de volta, avançando nela e em seguida lhe dei um tapa na cara, fazendo meus cinco dedos ficarem bem marcados em sua pele leite.
Lisa ficou louca sentindo seu rosto latejar e jogou o corpo dela contra o meu, me empurrando. Nós duas caímos no chão do estacionamento e ninguém chegava para nos separar. Pude ouvir os gritinhos dos alunos, uns excitados, outros horrorizados. Eu continuei a bater nela e a chutá-la de qualquer jeito no chão. Por um momento ínfimo consegui me levantar e dar alguns chutes nela com mais força, mas ela logo tratou um jeito de me dar uma rasteira, me fazendo cair novamente no chão. Levei alguns tapas no rosto e a agarrei pelo cabelo, fazendo-a uivar de dor.
Estávamos, literalmente, nos engalfinhando no chão.
Era uma cena ridícula, eu tinha plena consciência disso. Contudo eu não conseguia sair dali. Eu só queria continuar. Quando eu finalmente consegui dominá-la no chão e segurá-la pelos cabelos de novo, gritei:
- Eu avisei pra não mexer comigo! – em seguida bati com toda a força que ainda tinha me sobrado a cabeça dela no chão. Então de novo, eu levantei a cabeça dela e meti com toda a força no chão. O nariz dela começou a jogar sangue.
Eu iria bater a cabeça dela mais uma vez no chão se um par de braços fortes não tivesse me segurado acima do chão como se eu fosse uma sacola de compras. Lisa não estava tão machucada quanto eu achava, porque assim que fui tirada de cima dela a garota levantou com tudo e se não a tivesse segurado também, ela provavelmente estaria em cima de mim. Me contorci e gritei pra pessoa me largar, esbravejando palavrões.
- Fique quieta! – gritou no meu ouvindo praticamente estourando meus tímpanos, me apertando forte contra si.
Lisa deu uma cotovelada forte em , o deixando sem ar e então ela veio diretamente pra mim, virou de costas, pra me proteger e Lisa trombou com ele. rapidamente se adiantou para segurá-la, dando mais tempo para se recuperar.
Meu estômago afundou quando vi a diretora surgir entre o tumulto dos alunos com o rosto vermelho. Instantaneamente eu parei de me contorcer e gritar, não fazendo me colocar no chão e nem afrouxar o aperto em volta de mim.
- Você conseguiu! – ele falou no meu ouvido, agora sem gritar – Está ferrada!
O local caiu num silêncio mortal enquanto a diretora parou diante de nós com seu terninho preto e salto agulha nos olhando como se fosse nos queimar com algum tipo de visão de raio laser.
- Quero as duas na diretoria agora! – ela gritou apontando pra mim e depois para a Lisa.
me soltou e me colocou no chão e assim que pisei, cambaleei e teria caído se ele não tivesse me segurado de novo. Respirei fundo, forçando ao meu corpo a se recuperar rápido. Sem sucesso, cambaleei de novo e me pegou no colo, me levanto para a diretoria.
Foi humilhante.
carregou Lisa, que havia feito o maior drama na frente da diretora, soltando gemidos, apontando para um enorme roxo em volta do olho acompanhado de algumas escoriações pelo resto do rosto.
Katie, Lizzie e nos acompanharam até a secretaria. De lá, só eu e Lisa entramos na sala da direção. A diretoria soltou alguns resmungos e nos mandou sentar. Eu nem cheguei a abrir a minha boca pra dizer alguma coisa e Lisa já estava berrando coisas ininteligíveis. A professora levantou a mão, pedindo silêncio enquanto se sentava em sua cadeira atrás da mesa.
Ficamos por lá por pelo menos duas horas. A diretora passou o maior sermão e depois nos pediu para contar o que havia acontecido. Lisa era uma chorona. Ficou o tempo todo choramingando e dizendo que eu havia batido nela sem motivo.
Na minha vez eu fui a mais sincera e lúcida que pude, falando calmamente.
Antes de nos liberar, ela avisou que ligaria para os nossos pais e nos deu uma semana de detenção.
Encontrei com , , Lizzie, Katie e sentados na secretaria em silêncio. Todos levantaram juntos, Lizzie veio com os olhos chocados, Katie sorrindo e não parecia nada feliz. e me abraçaram de lado, sussurrando que eu havia me saído muito bem na briga e que estavam orgulhosos de mim, enquanto andávamos até o estacionamento, que agora se encontrava vazio. Eles se despediram de mim, me deixando sozinha com , não antes de Lizzie fazer um telefone com as mãos, sibilando "te ligo depois".
- Você tá bem? - ele perguntou preocupado, me olhando dos pés a cabeça.
- Acho que sim - respondi baixo, avaliando o estrago da minha roupa. Minha blusa azul estava numa mistura de sangue de Lisa Richards e sujeira e minha calça estava rasgada no joelho.
- Ótimo porque eu e você vamos ter uma conversa! - mudou seu tom, falando como se fosse meu pai, quando paramos em frente ao seu carro. – Vamos pra casa.
- E se eu não for com você? – disse erguendo meu queixo. - Você não é meu pai!
Engoli em seco por causa do olhar que ele me lançou.
não me respondeu. Ele simplesmente agarrou o meu braço, abriu a porta do Land Rover com um clique e me jogou contra o bando do carona. Ele bateu a porta com força e eu olhei pro lugar onde ele havia agarrado meu braço. Estava queimando. As marcas dos dedos dele estavam ali.
- Não pense nisso! - ele rosnou, lançando um olhar realmente zangado quando viu pelo vidro que eu tencionava a sair do carro.
Não me mexi mais. E realmente não estava louca ao ponto de enfrentá-lo. não estava irritado ou puto. Ele estava nervoso de um jeito que eu não tinha o visto estar. Eu o encarei zangada também, enquanto ele dava a volta no carro segurando sua mochila e a chave do carro. enfiou a chave no contato, mas não ligou o carro. Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo algumas vezes e olhou pra mim.
- Eu falei que as pessoas daqui não são como da sua escola antiga! Eu te avisei, , te avisei porque conheço exatamente como Lisa é! Agora você está com detenção e ainda por cima participou de uma cena realmente ridícula!
- Se você sabe como ela é, sabe exatamente ao ponto que pode chegar suas provocações! - exclamei indignada por ele não estar no meu lado. - Não tenho sangue de barata!
- Você a socou! - ele disse pausadamente.
- Você não reclamou quando eu bati na Jennifer!
- Era diferente! - ele bufou, agarrando o volante - Você acha que pode sair socando todo mundo que te provoca ou diz algo que não te agrada?
- Talvez, você quer entrar pra lista pra ver?
soltou um berro frustrado e socou o volante, olhando para o lado. Meus olhos queimaram, minha visão ficou embaçada, um nó se formou na minha garganta. Não deu pra segurar, quando vi, já estava chorando. Chorei baixinho, limpando minhas lágrimas com rapidez para que não percebesse o que estava acontecendo comigo.
- Você não devia ter aceitado a provocação - ele finalmente disse ainda olhando para o lado de fora.
- Eu não sou fraca, ! - falei com a voz embargada, colocando as mãos no rosto. - Não sou fraca!
tirou as mãos do meu rosto e me olhou. Seus perfeitos olhos me perfuraram como lâminas afiadas. Ele estava me lendo através deles. Descobrindo o que eu estava sentindo. Eu vi a irritação dele se esvair.
Sua mão cariciou a minha bochecha, limpando qualquer vestígio de fraqueza. Fechei os meus olhos e os reabri lentamente, sentindo minha pele queimar em prazer pelo seu toque carinhoso.
- Não , você não é fraca. Só toma atitudes idiotas de vez em quando! – ele disse calmamente, recolhendo a mão para ligar o carro – Reze para John chegar em casa só irritado porque se ele estiver realmente mau humorado, você está ferrada.
Estávamos saindo do estacionamento quando Peter surgiu, se colocando na frente do carro, atrapalhando a passagem. buzinou, dizendo para ele sair, mas ao invés disso, Peter continuou parado, pedindo para falar comigo.
- Não, ! Depois vocês conversam - segurou, sem nenhuma força, o meu braço quando coloquei a mão na maçaneta. - Vamos pra casa agora.
- Tudo bem, , eu vou falar rápido com ele.
eu nem me mexi direito e Peter bateu no capô do carro, me chamando.
- Ei seu escroto, não bata no meu carro! - bateu no volante. Ele e Peter trocaram olhares ameaçadores.
- Calma! - falei para Peter - Já tô saindo!
- Não, você vai ficar, vamos embora agora! - ameaçou arrancar com o carro mesmo com Peter diante de nós. Eu segurei suas mãos, as tirando do volante. Ele me olhou não entendo o que eu queria.
- Já tivemos confusões demais por um dia - calculei minhas palavras para não irritá-lo mais.
- , sai do carro, preciso conversar com você - Peter pediu vindo para o meu lado.
- Ela vai embora comigo! - apertou um botão do lado da sua porta, trancando automaticamente as portas.
- ! - o repreendi - Pode destravando as portas!
- Não! Esse cara precisa aprender a não mexer com o que é meu!
Com o que é seu?
- Com o que é seu? - eu perguntei perplexa, unindo as sobrancelhas. - Desde quando eu sou sua, ? Me diz, porque nem eu percebi que me tornei sua propriedade!
piscou os olhos freneticamente, aturdido, enquanto me fitava. Depois ficou vermelho, abrindo e fechando a boca como se fosse falar.
- Anda, destrave as portas, eu vou sair! - falei quando ele não esboçou mais nenhuma reação.
Rapidamente ele fez o que eu pedi.
- Ótimo, sai do carro! Fique com ele! - ele pronunciou as palavras carregadas de desprezo quando eu abri a porta para sair.
Não respondi. Bati a porta e foi só me afastar um pouco que arrancou mesmo com o carro, cantando pneus pela saída.
- Ele tá bem nervosinho hoje hein - Peter comentou rindo.
Revirei os olhos demonstrando impaciência.
- Não comece.
- Tudo bem – ele piscou com um olho, me puxando com delicadeza, estudando os machucados que eu provavelmente tinha no rosto. – Você está bem?
- O que você acha? Eu bati em Lisa Richards! Estou ótima! – sorri, fazendo uma careta de dor quando ele tocou numa parte perto do meu lábio. – Ai!
- Desculpe – ele sorriu mais uma vez, subindo o olhar dos meus lábios até meus olhos – Você soca muito bem. Lembre-me de nunca brigarmos.
Sorri, me desvencilhando com cuidado das mãos de Peter. Ele sustentou o sorriso, mas vi pela sua expressão que ele não havia gostado.
- Você não chegou a almoçar. Vamos comer e aproveitar que você ainda não está oficialmente de castigo. Depois eu te deixo em casa.
- Vamos o mais depressa possível! - concordei já ouvindo as reclamações do meu estômago. -Com toda essa confusão eu não tive tempo de comer.
Fomos no carro de Peter até a uma lanchonete que ficava a cinco quarteirões da minha casa. Sentamos em uma mesa perto de uma grande janela e comemos grandes hamburgueses com dois potes de batata frita e tomamos sundaes com cobertura de chocolate. Conversamos e rimos a tarde inteira, falamos de música e filmes. Peter ainda começou a me dar umas dicas de como dar socos mais eficazes (nada que já não tivesse me falado antes) até que acabamos falando sobre o meu passado. Ele já sabia superficialmente sobre o que tinha acontecido, mas agora ele era um amigo, eu não precisava mais esconder. Contei até mesmo sobre a cena com Jennifer e Sam. Ele me ouvia atentamente, perguntando quando não entendia algo, fazendo observações - algumas que eu mesma já tinha feito sozinha.
- E desde então você e ele não tiveram nenhum contanto? – ele se referiu a John enquanto enfiava uma batata frita na boca.
- Ele tentou, mas eu não quis... Quer dizer, o cara me abandonou do nada, como se eu e minha mãe fôssemos brinquedos que ele estava cansado de brincar. Foi um choque chegar em casa e ver meu pai indo embora e minha mãe chorando sem parar. Eu só tinha sete anos, Peter.
- Você nunca pensou que pode ter acontecido alguma coisa que fez seu pai fazer isso? Porque você mesma acabou de dizer que ele nunca mostrou que estava insatisfeito com alguma coisa.
Eu olhei confusa para ele, sentindo a sementinha da dúvida e incerteza sendo implantada no meu cérebro. Eu nunca havia pensando realmente que poderia ter algum motivo por detrás disso.
- Não, nunca pensei nisso... - disse tentando soar alguma verdade, mas só consegui parecer afetada e mais confusa. - A minha mãe teria me contado... Não acha?
- Eu não sei, . Talvez ela quisesse esconder algo de você por te achar muito nova para saber. – ele deu de ombros. – Ou não. Eu só acho que tem alguma coisa estranha aí...
Eu olhei para o meu sundae quase no fim, pensando nessa hipótese. Eu conservei uma raiva tão grande de John durante todos esses anos que não pensei exatamente o que o levou a fazer isso. De certo modo, eu fui egoísta por pensar apenas e mim e em minha mãe e nunca ter procurado saber o lado dele. Eu me senti mal.
- ? – Peter me chamou, abanando a mão na frente do meu rosto. – Você está bem?
- Sim. – sorri amarelo. – Só estava pensando.
- Acho que fiz merda, né? - ele fez uma careta - Não deveria ter falado nada, desculpa.
- Não, Peter. Foi ótimo conversar com você sobre isso.
Quando escureceu Peter me deixou na esquina da minha rua. Fui caminhando com passos lentos em direção a casa, pensando no que conversamos na lanchonete. Aquilo não parava de martelar na minha cabeça. Será que realmente existia mais algum detalhe nessa história que eu não sabia?
Meu estômago afundou pela segunda vez quando vi o Toyota Prius prata de Helen e a BMW preta de John estacionados do lado de fora da garagem. Eu imaginei ambos sentados no sofá com as caras emburradas, esperando para dar o maior esporro da minha vida, mas quando entrei a cena foi totalmente diferente. A casa parecia vazia. Estava silenciosa. Muito silenciosa. Fui até a sala e não encontrei ninguém. A cozinha também estava vazia. Foi então que eu ouvi vozes vindas do escritório de John. Caminhei até lá, encontrando de costas pra mim, ouvindo a conversa por uma brecha que a porta encostada permitia. Ele estava tão concentrado no que fazia que se sobressaltou quando falei:
- Ouvindo a conversa dos outros, ?
Ele me olhou assustado e se afastou da porta como se ela fosse algo muito nojento.
- Eu não estava escutando a conversa de ninguém - ele negou desconsertado e nervoso, despertando a minha curiosidade para saber que assunto tão importante ele tinha escutado para deixá-lo assim.
Não tive tempo de responder, pois a porta foi escancarada revelando um John irritado.
- Onde você se meteu? - ele perguntou quase voando em mim. Não parecia nem de longe ser um homem calmo.
- Fui almoçar, ué. - respondi debochada.
- Não me responda desse jeito, ! - ele disse exasperado, os olhos arregalados. - Eu não acredito que você saiu mesmo sabendo que eu lhe castigaria pelo que aconteceu hoje!
- John, se acalme - Helen apareceu atrás dele, tocando em seu ombro. Ela me olhou com carinho e não zangada como eu achei que faria e me deu um sorriso meigo antes de continuar - Vem , entre e vamos conversar.
John se afastou para me dar espaço para entrar. Ele bufou encostado na mesa com Helen em pé ao seu lado, comigo e em pé, um ao lado do outro. Em algum momento ele roçou sua mão na minha e sussurrou "eu tô aqui se você precisar", me deixando relaxada.
- Eu realmente não entendo o que está acontecendo com você... - John voltou a dizer agora com sua voz normalmente calma depois de um breve período de silêncio. - Eu tento, mas não entendo. Quando eu acho que você vai melhorar, você vai e apronta uma! O que você quer de mim, ?
- Eu só quero que você pare de se meter na minha vida como se fizesse parte dela! - o desafiei só para irritá-lo. Eu queria vê-lo esbravejando como antes. Queria que ele explodisse de raiva! De repente eu senti minha mão envolvida pela de .
- ... - Helen se intrometeu como sempre fazia quando eu e John começávamos a trocar farpas um com o outro. Ela sabia qual rumo aquela "conversa" iria tomar. - Por que você não sobe e toma um banho? Depois vocês conversam.
- Não Helen, ela fica aqui. Nós vamos conversar agora! - John me lançou um olhar duro através dos seus olhos , cruzando os braços na altura do peito. - tem que aprender a enfrentar as coisas. - eu percebi um duplo sentindo nas suas palavras – Você quer chamar a minha atenção, não é? Está agindo como uma criança mimada!
- Se eu sou uma criança mimada pode ter certeza que não foi graças a você! - dei um passo pra frente o encarando com superioridade. - Você perdeu essa fase!
- Meça suas palavras comigo! Eu não sou um dos seus colegas de escola! - ele se desencostou da mesa, vindo pra cima de mim. Helen logo se adiantou, o segurando pelo braço.
- Claro que não, eles merecem muito mais respeito meu do que você! - gritei.
Se não fosse por Helen, John teria voado em mim nessa hora.
- Sobe! - ele mandou com a voz trêmula. - Sobe agora! Agora vai ser assim, enquanto você agir como uma criança, vai ser tratada como tal!
- Você deve estar se achando muito pai agora, não é? – perguntei sarcástica, as lágrimas de raiva brotando em meus olhos e quando apertou mais a minha mão eu a sacudi e me soltei dele.
- Sobe, ! – John repetiu, fechando os olhos e respirando fundo.
- Você não é mais meu pai! – rugi – Você perdeu esse cargo quando se mandou!
- Não estamos falando disso! – John se descontrolou e gritou comigo. – Sobe agora e fique por lá!
- Você acha que pode entrar e sair da minha vida, brincar de fazer papel de pai, mas você não pode John! Não pode! - berrei com toda a força que eu consegui. As lágrimas explodindo nos meus olhos e rolando pelo meu rosto. segurou o meu braço, tentando me afastar de John que agora estava bem próximo.
- John, por favor, se controla! - Helen fez o mesmo com ele, agora suplicando desesperada como se previsse o que aconteceria caso ela não se metesse.
- Você me afastou, ! – John gritou de volta como se pedisse desculpas, como se suplicasse. – Você não quis me ver! Você me tirou da sua vida!
- Por acaso você acha que eu deveria simplesmente agir como se você não estivesse abandonando a mim e a minha mãe?
- ... – advertiu, apertando ainda mais a minha mão, me direcionando para fora do escritório.
- Não estamos falando disso... Você não entende – os olhos de John escureceram. Seus olhos perderam totalmente o brilho. Não havia mais nada refletido neles, nem mesmo raiva. Nós dois não estávamos mais ouvindo e Helen. John e eu estávamos finalmente vomitando nossas mágoas.
- Falamos apenas do que você quer não é? Você é o pai agora, está no controle!
Eu sabia que John estava no limite e mesmo assim não quis parar. Eu queria magoá-lo tanto quando fui magoada no passado.
- Está abusando, ! – ele voltou a gritar, deixando claro o meu pensamento.
- O que você vai fazer? – rosnei já não tendo mais garganta para gritar. – Qual vai ser o castigo? Ele vai ser por quebrar a cara daquela piranha ou por não te querer como pai?
Eu não me lembrava se John até aquele dia, tinha levantado a mão para me bater. Mas isso já não importava porque ele o fez. John bateu em mim. Uma bofetada, bem dada e estalada. Meu rosto virou com brutalidade e o lugar atingido latejou na mesma hora como se estivesse sido marcado em brasa. Helen gritou sobressaltada pelo eco do tapa, se pondo entre nós rapidamente, empurrando John para trás. ficou na minha frente para me proteger e me abraçou gentilmente enquanto eu ficava imóvel com a mão no rosto. Olhei pra John por cima do ombro de vendo que ele tinha uma mistura de culpa e assombro no rosto.
- Nem isso faz de você meu pai – falei baixo, mas o suficiente para todos escutarem. – Você nunca vai ter o meu respeito!
- Chega! - foi a vez de Helen gritar - Não quero mais ouvir nada! , leve a para o quarto dela!
Eu deixei que fizesse isso. Ele me pegou pelo braço e me arrastou escada a cima até o meu quarto. Abriu a porta e entrou comigo, me ajudando a sentar na minha cama arrumada.
- Você vai ficar bem? – ele perguntou com os olhos me estudando atentamente, tirando o cabelo que estava grudado no meu rosto por causa das lágrimas.
Eu balancei a cabeça negativamente e solucei, liberando mais lágrimas.
- Você podia ter evitado isso... – ele disse compreensivo – Não devia ter gritado com ele e nem dito tudo aquilo... Foi cruel, você exagerou...
- Por favor... – eu disse tapando os meus ouvidos.
- Eu queria poder arrancar essa dor que você tem - a voz de saiu melancólica e preocupada. - Odeio te ver triste, me sinto impotente.
Ficamos nos olhando por um longo período. me olhava com intensidade, mas com seus sentimentos escondidos por um escudo invisível, como ele sempre fazia. Ele sorriu de lado daquele jeito galanteador dele e se aproximou devagar, avaliando se deveria ou não continuar.
E então me abraçou.
Seus braços me envolveram daquele jeito protetor que eu amava. Eu senti seu peito contra o meu, me deixando maravilhada, cheia de saudade daquela aproximação, seu cheiro amadeirado me envolveu, tranquilizando ao mesmo tempo em que me deixou zonza. Enterrei meu rosto em seu pescoço, aspirando ainda mais àquela essência tão perturbadoramente gostosa. A única coisa que eu queria era que continuasse me apertando contra si. Ele agarrou o meu cabelo, pondo sua mão na minha nuca, apertando com força enquanto suspirava no meu ouvido, me arrepiando violentamente. Eu me tornei gelatina nessa hora e arfei, agarrando sua blusa. beijou abaixo do meu ouvido, sussurrando algo incompreensível. Ele depositou um beijo simples no meu pescoço, mas o bastante para me ascender da raiz dos cabelos até o dedinho do pé. Ele foi beijando e beijando, mantendo o controle de acesso ao meu pescoço, até que seus dentes se fecharam carinhosamente na minha pele algumas vezes. pôs seus olhos na altura dos meus, esfregando nossos narizes em um beijo de esquimó e mordeu meu lábio inferior. Suas íris transbordavam necessidade e desejo. Nossos lábios se encostaram com gentileza e ternura. Naquele momento não havia lugar para urgência e fome. Eu precisava de carinho e calma e era isso que me daria.
Brincamos com os lábios um do outro, dando selinhos estalados e demorados até que finalmente a língua de pediu passagem para tocar na minha. Eu dei o acesso e fiz o mesmo com a boca dele. Não houve choque ou surpresa. Eu já conhecia . Conhecia seu gosto, poderia não conhecer todos os seus pontos fracos, mas sabia o suficiente até o momento. Nossas línguas se enroscaram como grandes e devotas cúmplices. Ele grudou seu peito inteiramente no meu, me deixando sentir seu coração acelerado e só então eu notei que o meu estava no mesmo estado. Minhas mãos bagunçaram seu cabelo, se perdendo entre os fios macios e sedosos, fazendo-o soltar gemidos baixinhos. Suas mãos vagaram pela minha cintura por dentro da blusa, eu respirava com dificuldade, mas ainda assim deixei que ele me tocasse, ele pôs as mãos para fora, subindo pelo meu tronco, até tocar em um seio. Eu não afastei e nem reclamei daquela ousadia. Eu queria que ele continuasse e foi assim que ele fez, envolvendo meu seio com sua mão grande, apertando apenas para sentir o tamanho e eriçando o bico.
Eu me sentia febril.
Minha mão tocou em sua coxa, indo até quase a virilha com a intenção de provocá-lo, fazendo empurrar sua língua contra a minha com força e sua mão invadir sem permissão a minha blusa se fechando no seio coberto pelo sutiã, que outrora já fora tocado. quase perdeu o rumo do beijo quando me ouviu lamuriar quando o seu dedão e o indicador pressionaram o meu mamilo. Arfei e gemi contra sua boca, deliciada com aquele carinho indevido pedindo por mais através do beijo, subindo e descendo os apertos em sua coxa. Por alguns minutos eu fiquei imaginando o quanto ele poderia estar excitado.
E então eu me toquei. Eu estava cedendo de novo.
Não, ! Não!
Eu me afastei bruscamente, empurrando , que me olhou confuso. Eu vi em seus olhos a mesma confusão que em outros momentos estavam nos meus. Rapidamente ele tratou de tirar suas mãos de mim.
- Sai, - mandei, fechando os olhos. Olhar para ele estava me matando de todas as formas possíveis. – Me deixa sozinha.
- Mas... – ele suplicou.
- Por favor! - recolhi minhas pernas, afundando meu rosto nos meus joelhos com medo de que meus olhos abrissem sem minha permissão. – Sai!
Um frio descomunal passou pelo meu corpo quando percebi a parte em que estava sentado desafundar sem seu peso. Ele levantou em silêncio, dirigindo-se para a porta. Pude ouvi-la abrir, mas não houve nenhum ruído que demonstrasse que ela fora fechada. Apertei fortemente meus olhos contra meus joelhos e fiz o mesmo com meus braços em volta das pernas. Eu só queria um pouco de paz. Eu precisava disso.
- Eu só quero que as coisas fiquem bem – a voz de pronunciou as palavras com cuidado, quebrando o silêncio do cômodo antes de finalmente a porta bater.
Eu me joguei contra os travesseiros e gritei. Gritei muito. Gritei até a garganta arder implorando que eu parasse. Gritei até ficar rouca. Gritei com toda a força, com toda raiva, mágoa e ressentimento que brotava de mim.
Eu continuei gritando por um bom tempo.
Os soluços simplesmente não paravam. As lágrimas simplesmente não tinham fim.
Eu estava mais machucada por dentro do que por fora.
Capítulo 14.
Atenção: Algumas músicas serão citadas ao decorrer do capítulo, mas somente duas serão as principais! Coloque Stutter - Maroon 5 para tocar quando a primeira letra aparecer. E depois Slow Dancing in a Burning Room - John Mayer quando a segunda aparecer.
Observei meu reflexo no espelho virando de um lado para o outro procurando algo que pudesse estar errado, mas ao invés disso, me senti muito satisfeita com o resultado do tecido do vestido que aderira as curvas do meu corpo, sobressaltando os lugares certos sem me deixar parecendo uma prostituta. Depois de concluir que não havia nada de errado com a roupa, fiz o mesmo com o coque frouxo que Lizzie havia passado horas fazendo em mim. Aproximei mais o meu rosto, verificando se os arranhões por causa da briga com Lisa estavam bem disfarçados. Graças a Helen eles não haviam infeccionado. Por último passei mais uma camada de rímel para destacar ainda mais os meus olhos que estavam bem marcados com a sombra preta esfumaçada, concluindo a maquiagem com um batom nude para não chamar tanta atenção.
- Lizzie, 'tô te esperando lá embaixo, vê se não demora! – disse diante da porta fechada do banheiro antes de pegar minha bolsa-carteira preta e sair do quarto sem esperar uma resposta.
Sentei no sofá ao lado de George que estava assistindo The Big Bang Theory. No instante em que sentei, ele virou o rosto, me encarando boquiaberto.
- Ah, como eu gostaria de ir a essa festa! – ele disse com uma falsa cara triste – Pena que já tenho compromisso!
O compromisso de George se resumia a um par de pernas femininas sem calcinha na sua cama, de preferência.
- Sai! – ri o empurrando quando ele chegou mais perto para me cheirar. Eu sabia que George só estava brincando, mas também não iria abusar. – Deixa de ser bobo!
- Só não te ataco porque você é minha irmãzinha postiça. – ele disse com um sorriso sacana.
- Você não a ataca porque sabe que é a última coisa que vai fazer na vida antes do John te quebrar em dois e o terminar de dividir os pedaços para pendurar nos postes da cidade – Lizzie apareceu diante de nós usando uma saia justa e curta de cintura alta, uma blusa tomara-que-caia com decote de coração de oncinha, o cabelo ruivo e chamativo bem escovado jogado para o lado deixando a impressão de uma falsa franja e uma maquiagem tão forte quanto a minha nos olhos, com lentes de contato ao invés de óculos. Ela foi até a TV e a desligou, nos encarando com as mãos na cintura.
- Então maninho, como estou?
- Indecente! – George fez uma cara de bravo olhando o tamanho da saia da irmã. – Você não vai com essa roupa, Elizabeth! Seus peitos estão quase pulando pra fora!
Irmãos ciumentos e seus exageros...
- Como você é dramático, George Tallis! – ela revirou os olhos impaciente, mas sustentando um sorriso. – Olha, a mamãe só vai chegar na segunda, mas eu não quero ver roupas da sua amiguinha espalhadas pela casa ou então eu mesma me encarrego de jogar tudo no lixo! Não queremos outra seminua no nosso telhado. Agora vamos, , Cassie já me ligou umas 500 vezes!
- E que horas as senhoritas vão chegar? – George se virou, nos olhando com dificuldade por causa da posição.
- Não temos hora, querido. – Lizzie respondeu mandando um beijo no ar para ele. – Use camisinha!
Ela pegou a chave no aparador do corredor e logo já estávamos indo em direção a casa de Katie. Tínhamos passado a tarde inteira na casa dela ajudado com a decoração e guardando os objetos quebráveis enquanto os meninos estavam encarregados com as bebidas e em ajudar o DJ a montar todos os equipamentos. Só voltamos à noitinha para nos arrumar. Foi graças a essa agitação toda que eu consegui “escapar” de contar a Lizzie tudo o que estava acontecendo entre eu e . Não que eu tivesse mudado de ideia, mas compartilhar aquilo com uma terceira pessoa transformaria tudo em real, mais do que já era, porque enquanto as coisas ficavam entre eu e ele, tudo não passaria de alguns momentos, algumas fraquezas que sentimos um pelo outro. Era como se a partir do momento que eu contasse, apareceria um alerta gritando “É , de fato você está se envolvendo com o seu meio-irmão”.
Eu estava com uma bomba-relógio prestes a explodir e não fazia ideia de qual era fio certo para desligá-la.
E se Lizzie achasse que eu estava louca? Por mais que eu não queira aceitar tal vínculo, eu e somos parentes de certo modo, compartilhamos o sangue da mesma irmã. Era assim que éramos visto pelas pessoas, e era assim que seríamos vistos até o final.
Senti um súbito aperto forte no peito, um aperto que quase me deixou sem ar. Uma sensação horrível que eu não conseguia explicar da onde vinha, ou o porquê e sempre aparecia da mesma forma nos últimos dias. Sobressaltei-me no banco, assustando um pouco Lizzie que me fitou com os olhos arregalados.
Do mesmo jeito que o aperto veio, ele foi embora. Infelizmente, a sensação não.
- Você quer que eu bata o carro? – Lizzie perguntou alterada ainda sob o efeito do susto.
- Desculpa, estava pensando numa coisa. – encostei a cabeça no vidro fechado por causa do frio, me sentindo uma completa idiota.
- E posso saber o que foi que você pensou? – havia mais do que curiosidade na voz dela. Ela praticamente dizia “Eu sei que você está pensando em algo relacionado ao ”.
- É Lizzie, é nele que eu tava pensando... – falei sem me preocupar em dizer o nome de quem eu pensava, Lizzie sabia muito bem a quem eu estava me referindo. – Eu prometi que vou te contar, não prometi? Mas não agora, por favor. Hoje eu quero me divertir.
Ficamos num silêncio tranquilo apenas escutando Johnny Borrell e sua voz maravilhosa cantando America. Eu fechei os olhos, e mesmo assim, conseguia sentir que Lizzie se segurava para não insistir no assunto, mesmo sabendo que estava quase no meu limite.
- Emma te ligou hoje, né? – por fim ela resolveu mudar de assunto, tomando um caminho mais seguro para estabelecer uma conversa comigo. Por isso que eu digo, Lizzie era muito, muito esperta. Reabri os olhos, vendo de soslaio ela me encarando, esperando uma resposta. Por fim balancei a cabeça afirmativamente. – Eles voltam que horas?
- Amanhã cedo, só não sei o horário... – dei de ombros, deixando meus olhos vagarem pelos borrões de pessoas e bares que ficavam pra trás ao nível que o carro tomava, ficando mais acelerado. – Talvez antes de eu voltar pra casa. Estou com saudade dela.
- Emma é um docinho mesmo, quem me dera que George fosse mais parecido com ela.
- Você queria que seu irmão usasse vestidos rodados?
- Não né. Só queria que ele fosse mais carinhoso comigo. – Lizzie dizia, mas não havia ressentimento na voz – Queria um irmão menos ciumento.
Dei de ombros novamente, olhando as pessoas passeando despreocupadas na direção de um pub que parecia bastante cheio. Provavelmente era novo.
- Você... E como vão as coisas com o John? – ela pigarreou me despertando da minha pequena distração – Você falou com ele também?
A sensação foi embora... E no lugar dela o aperto voltou.
Por que eu estava daquele jeito? Por que essas sensações ruins não me deixavam em paz?
- Não! – disse ignorando o que estava sentindo – Não nos falamos desde que aquele merda e irritantemente calmo me bateu! Aquele filho da puta cretino...
O clima em casa estava pesado nos dias decorrentes a minha briga com John. Se o nosso relacionamento já era difícil, depois daquele dia, ele desmoronou completamente. Não sobrou nada. Não da minha parte! E eu deixava isso bem claro. Eu não olhava pra cara dele nem se ele cantasse "Your Song" vestido de Pato Donald como o Elton John, assim como ele não falava comigo. No jantar era assim: eu entrava muda e saia calada. A não ser quando Helen puxava assunto ou Emma contasse alguma coisa sobre a escola. Eu não ignoraria as duas pessoas que estavam me ajudando.
Pobre Emma, não sabia o pai de merda que tinha... Ela não sabia o que tinha acontecido porque não estava em casa no dia fatídico, mas era esperta para entender que era algo grave. Não sei dizer se ou Helen contaram a ela, só sei que Emma não me perturbava para contar nada.
A verdade é que era um milagre eu estar indo a festa da Katie. Um milagre chamado Helen. Foi por seu intermédio que John concordou que eu poderia ficar na casa de Lizzie no final de semana enquanto a família - Emma, ele e Helen - fazia uma viagem tradicional até a Escócia para visitar alguns parentes.
Meu castigo só seria depois da minha volta a Londres por causa dos shows.
- Vocês precisam conversar, . – Lizzie me olhou pelo canto dos olhos como se aquilo fosse uma mãe zelosa avisando algo muito importante. Fiz menção de falar, mas ela continuou, me impedindo. – Eu sei o que você vai dizer, mas você precisa parar com essa sua birrinha e encarar logo as coisas. Você sabe que mais cedo ou mais tarde vai ter que conversar com John sobre essa relação bizarra de pai e filha que vocês têm... E então você poder saber se ele está ou não escondendo algo sobre o casamento com a sua mãe.
- Tomara que essa conversa seja bem tarde, quando eu tiver uns 30 anos e não morar mais com ele. – rebati malcriada. – Eu já não tenho tanta dúvida assim sobre o casamento deles... Eu não quero o nome da minha mãe naquela boca suja!
- Sabe o que é mais escroto nisso tudo? – ela perguntou parando no sinal e o cara do carro do lado começou a fazer “psiu” pra ela, que ignorou fazendo uma cara de “Eu chutaria as bolas dele sem pensar duas vezes”.
- O que?
- Você odeia o John, mas adora a Helen, que é sua madrasta!
- E daí? Ela é legal! Se não fosse por ela, eu nem estaria aqui! E eu sei que eles só se conheceram quando ele voltou pra cá, minha mãe mesma me contou.
- Vai se foder! – Lizzie acelerou depois de mandar o dedo do meio para o cara que insistia em chamar sua atenção. Depois que nos afastamos o suficiente, ela continuou – Eu sei Helen é legal, mas mesmo assim é meio estranho, não acha?
- Não, na verdade não. – falei só pra contrariar. - Você diz isso porque seu pai não é um babaca como o John.
Lizzie bufou e aumentou o volume do rádio que agora tocava 11th Dimension do Julian Casablancas. Não demorou muito mais do que dez minutos para chegarmos ao nosso destino.
Estacionamentos quase em frente à garagem que já estava ocupada pelo Kia Sorento prata de e pela Land Rover preta de , que estava atrás, impedindo que o carro de desse a marcha à ré.
A casa toda estava iluminada na parte externa enquanto só eram vistas pela janela algumas luzes coloridas vagando pela parte interna. Mesmo a dois quarteirões de distância era possível ouvir Nobody Lost, Nobody Found do Cut Copy tal era volume do som, dando a impressão de que o chão tremia a cada passo que eu dava em direção à entrada. Suspeitei que não demoraria até termos algum vizinho reclamando ou chamando a polícia, afinal já eram 22:30h – relativamente tarde mesmo sendo um sábado e a maioria das pessoas não precisasse acordar cedo no dia seguinte. - ou talvez eles já estivessem acostumados com a barulheira toda vez que Katie dava uma festa.
A porta estava aberta e havia algumas pessoas conhecidas paradas na varanda. Umas conversando, outras se amassando.
- Finalmente! – saudou mais alegre do que o normal, segurando uma Heineken, assim que colocamos os pés dentro da casa. Ele nos olhou de cima abaixo, alargando o sorriso ainda mais. – Uau! Eu tenho as amigas mais gatas do mundo! Vocês não foram presas no caminho por excesso de beleza?
Rimos e lhe dei um tapa fraco no braço. Lizzie se pendurou no braço dele, apertando sua bochecha.
- Onde as meninas estão? – perguntei observando as pessoas indo e vindo pelos cômodos, subindo e descendo a escada, com dificuldade por causa da lotação.
- Katie está chupando a língua do em algum canto da sala. – ele apontou com a mão que segurava a garrafa para um cômodo mais próximo – Cassie está no banheiro ajudando Bridget Hubley do segundo ano.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntei surpresa. Ainda era cedo para ter alguém passando mal, não era?
Ele balançou a cabeça negativamente dizendo de um jeito esperto:
- Nada que já não aconteça nas festas da Katie!
Lizzie e eu nos afastamos de avisando, aos berros, que iríamos procurar os outros, o deixando com dois garotos que tinham as aulas extra-curriculares conosco.
Fomos espremidas e emburradas diversas vezes por causa do mínimo espaço que existia para que pudéssemos transitar pela casa. As pessoas dançavam em qualquer lugar, dificultando a passagem. O calor era infernal. Não havia 1 hora que eu estava ali e já estava me sentindo abafada.
Fui levada pela “corrente” de empurra-empurra para o outro lado, e acabei me perdendo de Lizzie, não tendo ajuda da baixa iluminação que tomava toda a casa. Era impossível me juntar a ela novamente no momento. Entrei na cozinha, o único cômodo completamente iluminado, mas não encontrei nenhum rosto conhecido. Ou pelo menos nenhum rosto que me interessava. Havia algumas pessoas sentadas no balão, conversando e bebendo, me fazendo perceber que a minha garganta estava completamente seca.
Talvez com bebida a sensação ruim e o calor vão embora, pensei.
Resolvi pegar uma Heineken antes de voltar para o mar de convidados com o intuito de procurar os meus amigos, e a abri com a ajuda de um pano de prato, o jogando de qualquer forma de volta a pia, sentindo a cerveja refrescar a minha garganta instantaneamente, me fazendo fechar os olhos já me sentindo melhor, entornando o líquido novamente sem esperar por muito tempo. Olhei para a garrafa vendo que ela já estava no final.
Ignorei o fato da minha pouca tolerância alcoólica, e tomei os últimos goles já pensando na próxima garrafa. Eu já estava me sentindo melhor, mas não ao ponto da angústia e o aperto desaparecerem. E o calor, ah, eu ainda estava com muito calor. Estava derretendo, isso sim!
Abri mais uma Heineken passando os olhos pela cozinha enquanto deixava a segunda cerveja ultrapassar a metade da garrafa e pude perceber que um moreno alto e muito bonito que estava encostado num balcão do outro lado, me encarava sorrindo.
- ! – Katie entrou acompanhada de Lizzie e Cassie, desviando minha atenção para elas.
Ela usava um vestido tomara-que-caia justo e curto cheio de paetês azuis, cinzas e vermelhos que faziam a bandeira do Reino Unido, o cabelo preso num rabo-de-cavalo alto e de lado que era sustentado por um enorme laço com um azul do mesmo tom do vestido, sapatos abotinados cinza com algumas franjinhas discretas e nos olhos uma sombra também azul esfumaçada com uma preta, aprofundando-os. Katie estava realmente linda.
- O que foi? – ela olhou para a própria roupa quando me viu rindo. – Tem alguma coisa errada?
- Não! Você está linda, só achei a roupa diferente.
- Minha cara, não é? – ela colocou a mão na cintura, fazendo um biquinho de convencida. – Cassie que me ajudou a escolher.
- Eu tenho um ótimo sendo de estilo – Cassie me abraçou de lado, rindo. Ela usava um vestido dourado bem curto e justo de manguinha com um zíper - que estava fechado até o colo - até o umbigo, um cinto preto e sandálias pretas com um salto enorme que nunca na vida eu conseguiria me equilibrar. A roupa era a cara de Cassie: chamativa e estilosa. – E você também não está nada mal, hein! Deixa o ver esses peitos e essas pernas de fora! Ele vai ter um ataque!
Troquei breves olhares com Lizzie carregados de significados.
- Aposto que ele não vai ficar com ciúmes pelo parentesco... – Katie jogou a frase no ar, maliciosa, piscando pra mim. – Não é?
Eu pisquei algumas vezes e não disse nada, sorrindo sem graça.
- Bom, se ele vai ou não, não interessa. – Lizzie quebrou o clima me puxando pelo braço, chamando as outras – Vamos dançar um pouco. Como diria a minha mãe: preciso balançar o esqueleto.
- Espera! Espera! – Cassie balançou as mãos toda serelepe com um sorriso do tamanho do mundo – Vamos tomar um shot de tequila! – ela apontou pra o grupo do cara que antes estava sorrindo pra mim. – Vaaaaamos, por favor!
- É claro! – eu, Lizzie e Katie concordamos abrindo sorrisos iguais ao de Cassie. Parecíamos ter descoberto a fonte de juventude.
Tequila, baby!
Fuck yeah!
- Vamos lá, meninos, vamos abrindo espaço! – Katie ia dizendo abanando as mãos para a rodinha de garotos se afastarem para que pudéssemos participar. – Também temos direito de ficar de porre, né?
- Claro Katie, você pode tudo – um cara disse sorrindo para ela já parecendo um tanto alto. Ele era bem forte e careca, com os olhos negros. – Todo mundo vai nessa rodada?
- Sim, todo mundo! – Lizzie confirmou lambendo os lábios. Eu praticamente fiz a mesma coisa quando vi os copinhos serem cheios com bebida e um deles parar na minha mão. Coloquei sal na mão e segurei ansiosa o limão, me preparando para a ardência do líquido.
- Todos prontos? – Outro cara da roda checou se todos estavam abastecidos de tequila. – Ok! Vou contar até três e todo mundo canta e entorna de uma vez só! 1, 2, 3 e JÁ!
- ARRIBA, ABAJO, AL CENTRO, ADENTRO! – gritamos pouco antes de misturarmos tudo e colocarmos pra dentro.
Ardeu. E como ardeu. Eu fechei os olhos, apertando-os, fazendo uma careta quando a tequila descia pela minha garganta, arranhando-a até atingir o meu estômago, me arrepiando. Quando os reabri, eles estavam lacrimejando um pouco e eu sorri com a sensação. Lizzie continuava com os olhos fechados, Cassie e Katie já estavam se preparando para a segunda rodada.
Bebi com vontade. Meus olhos lacrimejaram de novo, e eu não me importei se minha maquiagem estava borrada. Logo o efeito do álcool começaria a fazer efeito.
- Pronto, acho que já estamos ficando de pileque, podemos ir. – Katie sentenciou empurrando uma garrafa de cerveja para da uma de nós.
Enfiamo-nos entre as pessoas para conseguir chegar à sala. Vi pelo caminho amigos de Peter, que acenaram para mim, gritando que ele estava me procurando.
Depois de quase me perder de novo, vi , , e conversando perto do DJ e da pista de dança improvisada no meio da sala. O ambiente, assim como o resto da casa, estava escuro, exceto pelas luzes coloridas que batiam no globo espelhado gigante pendurado no meio do cômodo, deixando tudo meio psicodélico e convidativo para uma festa. Nas paredes havia discos vinis velhos de diversos artistas, dando um toque mais descontraído. Atravessei, com as meninas em meu encalço, a multidão de pessoas que dançavam Skeleton Boy do Friendly Fires, indo de encontro aos meninos que nos receberam com sorrisos engraçados no rosto. Todos bebiam bebidas variadas, e já se mostrava tontinho.
- Nos deram perdido né? – ele brincou, agarrando Cassie pela cintura, lhe dando um beijo indiscreto no pescoço.
- Por que eu daria perdido no homem mais gato da festa? – ela riu também, dando uma mordida na sua bochecha e o agarrando também, começando a sessão amasso em público na parede mais próxima.
abraçou Katie por trás, balançando o corpo dela num ritmo desengonçado de propósito. Os dois estavam tão felizes que nem pareciam ter tido uma briga no dia anterior por causa do jeito ciumento de Katie.
Não que ela estivesse errada, vejamos, é um cara bem gato, simpático e talvez seja o mais inocente entre os quatro, em relação às intenções verdadeiras com que as meninas se aproximam dele. Qualquer namorada teria ciúmes, não?
Ri para os casais apaixonados e passei meus olhos por , que estava ao lado de Lizzie, que estava ao meu lado. Ele sibilou um “oi” pra mim, dando uma golada no seu licor de menta, me encarando como se me despisse com os olhos conforme eles subiam e desciam pelo meu corpo. Ele deu um sorriso de lado bem sacana conectando nossos olhares, e eu desviei os olhos para reprimir a vontade de corresponder àquele sorriso. Tomei uma golada considerável na cerveja, tentando não pensar no maldito calor que voltava a sentir.
Aparentemente as coisas entre nós estavam bem.
Só aparentemente, que fique bem claro.
Ele nem estava lindo usando uma calça jeans escura, uma blusa cinza de gola V com uma estampa que não dava para ver direito por causa da jaqueta de couro preta arregaçada até metade do braço, Vans preto, cinza e branco de cano alto e de quebra com o cabelo todo arrepiadinho.
Não estava! Entendeu?
- Acho que é a melhor festa, Katie! – Lizzie comentou dando uns passos de dança esquisitos, parecendo mais pulinhos do que outra coisa. - E a ideia para os discos foi bem legal, .
Ela piscou pra mim e riu, apontando discretamente para que também dava uns passos estranhos, fingindo que não estava olhando pra ela, mas era impossível não perceber. Ele tinha um sorriso todo idiota no rosto e eu mordi a língua para não falar uma gracinha que os deixasse sem graça.
- Valeu, Lizzie. Eu vi num filme uma vez... - agradeci, mexendo nos fios soltos da nuca, disfarçando a sensação de queimação na pele por ainda estar sob os olhares intensos de .
Droga, por que ele não fala nada? Por que tem ficar me olhando desse jeito?
- Katie, que tal a gente pegar mais bebida? – sugeriu mordendo o próprio lábio, e a rebocou para fora da sala, saindo pela porta que dava para outra parte da varanda, que dava para os fundos da casa, sem nem esperar que ela respondesse.
- Pegar mais uma bebida... – repetiu malicioso, fazendo uma cara de sabichão, dando uma golada na cerveja. - Sei! Ele quer é pegar em outra coisa...
Lizzie riu e deu um tapa fraco no braço dele, balançando a cabeça negativamente.
- Você não presta, ! Nunca vai prestar! – ela disse brincalhona, ainda rindo, mas por trás de um tom acusador – Nunca. - frisou, lhe lançando um olhar esquisito.
engasgou com sua bebida e fugiu do olhar dela. Eu fiquei sem entender, olhando de um para o outro. Lizzie deu de ombros, terminando sua bebida e colocando a garrafa em uma mesinha já ocupada por muitas garrafas e copos.
- Ai, preciso dançar essa música! – Lizzie deu um gritinho, me puxando de repente quando começou a tocar as primeiras batidas de You Only Live Once dos Strokes, uma das nossas músicas preferidas.
Eu deixei minha garrafa vazia em cima da mesinha e deixei que Lizzie me guiasse até quase o meio da pista. Foi apenas nos acomodarmos mais entre as pessoas que eu relaxei e comecei a balançar o quadril de um lado para o outro, sendo acompanhada por Lizzie em passos improvisados.
- SHH-SHH-SHH... I CAN'T SEE THE SUNSHINEEE!! – eu e Lizzie cantamos o refrão aos berros uma olhando pra outra - I'LL BE WAITING FOR YOU BABY, 'CAUSE I'M THOUGH!
- Sit me downs, shut me up. – cantei sozinha, balançando a cabeça, já começando a sentir aquela tonteira em resposta aos dois shots de tequila e três garrafas de cerveja.
- I'll calm down and I'll get along with you. – Lizzie continuou, sorrindo pra mim.
Eu fechei os olhos, ouvindo a música recomeçar, deixando que meus movimentos não fossem calculados. Eu só queria dançar.
A música acabou, mas eu continuei me movimentando e balançando a cabeça como uma louca ao som de Are You Gonna Be My Girl? do JET, achando a playlist do DJ maravilhosa. Estava tão entretida em me divertir que só fui me dar conta que Lizzie tinha se afastado quando ela já estava de volta, gritando. Eu olhei meio desorientada, para o lado em que ouvia meu nome, vendo Peter caminhando, com dificuldade, em minha direção, sorrindo. Ele olhou para trás, parecendo falar com alguém e depois disso não ouvi mais Lizzie me chamando. Só quando Peter estava bem perto foi que eu vi que ela estava o tempo inteiro com ele, só que atrás.
- Peter! – sorri, o chamando num tom mais alto do que o normal por causa da mistura de som e bebida, e num impulso o abracei. Ele apertou com força a minha cintura e me deu um beijo mais pro canto da boca do que pra bochecha. Só não sabia se era de propósito ou apenas acidentalmente. – Estava perdido? Seus amigos disseram que você tava me procurando!
Quando nos separamos, vi o quanto estiloso ele estava com uma blusa de manga comprida branca, uma calça jeans preta e botas pretas discretas. Os cabelos jogados pro lado de maneira desajeitada, cobrindo um pouco seus olhos azuis. Se outro homem estivesse usando aquela combinação, pareceria estranho e até meio brega, mas Peter, desde que o conheci, sempre foi muito estiloso e seguro das suas roupas. Eu adorava o estilo dele. Tudo muito Peter Bradley.
- Eles disseram, é? – ele perguntou constrangido, passando a mão pelos cabelos depois que tirou as mãos de mim. – É, eu tava mesmo... A sorte é que encontrei Lizzie na cozinha.
- Você tinha que ver a cara dele quando me viu! - ela me empurrou um copo de plástico cheio e deu outro pra Peter, ficando apenas com um para si. Eu olhei o conteúdo e não consegui identificar o que era.
- Que isso? – perguntei achando esquisita a cor, mas já entornando a bebida goela abaixo. Era uma mistura forte, muito forte mesmo. Quase tão forte quanto tequila.
- Vodca com energético. – ela me respondeu, tomando também, quase uma vez só.
Peter até que dançava bem para um homem, acompanhando a mim e Lizzie em Just Do It do Copacabana Club na versão remix. Ele dançava um pouco com cada uma, nos rodando entre risadas escandalosas que soltávamos. Meu corpo começava realmente a denunciar os sinais da quantidade de álcool no sangue. A tonteira emitia sinais de que eu deveria parar, mas eu ignorei, tomando mais um ou dois copos de alguma bebida que Lizzie empurrava pra mim durante suas viagens até a cozinha. O nível de álcool no meu cérebro já começava a fazer efeito, e eu já nem sentia a ardência do líquido na garganta, parecia que estava bebendo água. As luzes coloridas foram substituídas por duas brancas que ficavam piscando sem parar, deixando tudo muito lento, piorando a minha tonteira... Eu ri quando quase cai, sendo amparada por Peter.
Em algum momento eu pensei em ter visto perto de nós, me olhando, me estudando, mas quando pisquei para ter certeza de que não era o álcool que estava me fazendo ver coisas, ele já não estava lá.
- Ai, tá muito calor aqui! Vou sentar um pouco lá fora. – Lizzie avisou, passando a mão na testa para tirar o excesso de suor da região.
Eu ia segui-la, também sentindo muito calor, mas antes de da algum passo, Peter segurou meu pulso.
- Fica aqui – pediu, com uma expressão muito apertável.
- Eu tô com calor – disse, me abanando inutilmente e limpando o suor da minha testa. Bendita a ideia de fazer um coque.
- Vamos então mais pra ponta da pista, vem – ele segurou a minha mão, me levando para perto da porta da varanda, onde entrava um ventinho refrescante. – Melhor?
- Sim... – respondi fraco, fechando e abrindo os olhos, por causa da sala que rodava diante deles. Eu não estava simplesmente bêbada. Eu estava muito bêbada. A sensação quando eu fechava os olhos era muito boa, parecia que eu estava voando... A sala ainda girava, eu girava junto com ela... Estava leve, bem, bem leve... Meus lábios estavam dormentes e eu não conseguia raciocinar direito. Nunca, em todas as minhas bebedeiras, eu havia chegado a esse ponto, sentindo tudo de uma vez só.
- , você tá bem? – Peter perguntou entortando a boca. Eu assenti, sorrindo debilmente. As luzes coloridas haviam voltado e brincavam pelo rosto dele. Muito bonito, pensei. – Quer dançar? – eu concordei, sendo envolvida pelos seus braços quando Scar Tissue do Red Hot Chilli Peppers começou a tocar. – Acho melhor você não beber mais, tá muito tontinha. – ele sussurrou próximo ao meu ouvido, me guiando como se eu fosse uma retardada. – Se ficar muito tonta ou enjoada, a gente para, ok?
- Eu tô bem... Peter... – disse com a voz afetada, me sentindo andar sob nuvens conforme dávamos passos lentos por causa do álcool. Sensação boa! De jeito nenhum que eu iria parar de beber!
- Eu gosto de você, . – ele beijou minha testa, voltando à posição anterior depois. Eu não respondi por que não consegui entender o que ele queria dizer com aquela frase. Era mais legal não pensar. Eu estava cansada de pensar... Hoje era um dia apenas para seguir meus instintos, fazer o que me desse na telha. As consequências que fossem resolvidas outro dia.
Passamos a música toda abraçados, com Peter cantando. De certeza maneira era bom ficar daquele jeito com ele, mas eu não conseguia relaxar. Meus olhos, ou o pouco deles que eu conseguia manter abertos, vagavam pela sala e pelo pouco do quintal que era possível ver daquele ângulo. Meus olhos procurando por ele. Onde estava? Por que havia sumido? Com quem estava? Por que ele não tinha falado comigo? Será que estava se agarrando com alguma garota num canto escuro? Senti raiva com esse pensamento. Senti ciúmes. Eu não queria que ele ficasse com ninguém, mesmo que não tivéssemos nada.
As coisas entre nós eram tão complexas e confusas. Numa hora ele me queria, na outra ele me ignorava. Dizia doces, depois coisas estúpidas que me deixavam com raiva. Mas apesar de tudo, nunca me deixava na mão. Mesmo brigados, ele nunca deixou de me consolar. Minha última briga com John confirmou isso. Era como se nossos desentendimentos fossem superados sem a mínima importância. Talvez pelo fato de realmente serem sem importância.
Eu o queria por perto sempre. Sempre. E sentia que ele queria o mesmo.
Fechei os olhos, fingindo que era ali na pista de dança, abraçado comigo, dançando juntinho e apertei Peter contra mim. Tive a resposta positiva no mesmo instante, com ele me apertando também, me fazendo sorrir. Danny estava me abraçando!
Senti aquela vontade de chorar, mas não de tristeza... Não só disso pelo menos. Era mais uma vontade de chorar de saudade, sabe como é? Saudade de tê-lo pertinho de mim. Apertei meus olhos, desejando que voltássemos ao meu quarto em Kassel, onde dormimos abraçadinhos, nos sentindo de uma maneira que nunca pudemos nos sentir de novo. Cheiro, pele, carinho, aconchego, coração com coração. Nossos amassos eram coisa de pele, de carne, de fogo, coisa física. Bons demais, mas não era sentimental. Não havia romance, não por inteiro. Estávamos muito afoitos para deixar que o clima de romance nos dominasse. Estávamos necessitados um pelo outro. Eu queria saber o quão romântico poderia ser.
Merda, beber me deixa mais manteiga derretida do que eu já sou.
- Você tá muito linda hoje. – a voz de Peter me trouxe a realidade, me atingindo em cheio. A uma realidade dura e cruel em que eu fui atirada sem dó, nem piedade e ainda estava aprendendo a lidar. – Não que você não seja linda sempre, mas hoje tá mais... Mulher.
- Você é sempre tão gentil comigo. – disse sem graça.
Ele se separou de mim, sorrindo, quando a música acabou. Um sorriso todo iluminado, que me fez sorrir junto. Ele acariciou o meu rosto e me deu mais um beijo na bochecha, agora da maneira certa.
Balancei a cabeça, dissipando aquela melancolia como fumaça. Não era hora, dia e nem lugar para ficar choramingando e procurando respostas para os meus problemas. Um garoto passou por nós e eu arranquei o copo que estava na sua mão, com a bebida no finalzinho. Ele arregalou os olhos e riu, continuando o seu caminho. Bebi o resto que tinha e joguei o copo de plástico no chão, ainda com uma sede desesperadora. Peter disse que pegaria mais e eu continuei na pisca, dançando. Olhei para o lado e vi Katie dançando com , parecendo bem animados. Cassie e Lizzie também estavam perto deles, dançando, bem altas. Ótimo, eu não era a única de pileque do grupo! Quando me viram, acenaram me chamando para me juntar a elas.
- , minha linda! – Cassie me puxou toda empolgada quando me aproximei. Quase que nós duas caímos de cara no chão por causa da soma de salto alto e bebida. – Tava com o Peter, é, safadinha? Vai pegar?
- Ai Cassie... – revirei os olhos, divertida, me desvencilhando dela.
- A gente viu tudo, tá? – Lizzie disse maliciosa. – Ele tá doido pra te dar um beijo!
Nós gargalhamos e eu nem sei direito o por quê.
- Vocês sabem com quem o tá? – perguntei tentando soar natural, não funcionando muito com Lizzie. É claro que não iria funcionar com ela! Só eu pra achar uma coisa dessas.
- Ele tava aqui com a gente, - Cassie respondeu confirmando que eu não estava louca por achar que estava me observando. – Mas depois ele disse que ia lá pra fora ficar com uns garotos do segundo ano e não voltou mais. Acho que e estão com eles.
- Hm... – murmurei abaixando a cabeça para que elas não vissem o meu sorriso de alívio. Ele só estava com os amigos, sem nenhuma biscate atrás.
- Por quê? – Cassie questionou com uma sobrancelha levemente levantada. Eu engoli em seco, morrendo de medo de ela desconfiar de alguma coisa. – Tá com ciúmes, é?
- Ciúmes? – repeti debochada. – De onde você tirou isso, Cassie? Eu só perguntei por que não o vejo desde que eu e Lizzie chegamos. Estranhei, só isso.
- Você pode até não tê-lo visto, mas o tempo que ele ficou aqui com a gente, não desgrudou os olhos de você... E do Peter, é claro. Acho até que ele ficou mordendo de ciúmes. – com ciúmes de mim? Que piada! Cassie com certeza não tinha noção do que estava falando. Orgulho ferido até poderia ser, afinal eu era amiga do cara que ele mais odiava. – E de qualquer maneira, vocês dois são estranhos. Ficam brigando a toa por coisas idiotas... O já era caladão, depois que você chegou com esses seus enormes olhos e esses peitos, então...
- Eu não tenho culpa do ser estranho. – me defendi, ignorando a parte dos peitos. Lizzie permaneceu calada, olhando de mim para Cassie e por algum motivo, senti que ela dava razão à outra.
- AI, MEU DEUS! – Cassie se sobressaltou colocando as mãos no próprio rosto quando começou a tocar Toxic da Britney Spears. – VENHAM, VAMOS DANÇAR!
Ah, Britney e Beyoncé eram quase divindades para Cassie. Lady Gaga? Puf, fichinha perto das outras, na opinião da minha amiga.
A parte que eu mais gostava das músicas em festas eram quando tocavam as antigas. Cassie puxou Lizzie e eu para a pista de dança, que por incrível que pareça, estava mais vazia, deixando que pudéssemos ver todos que estavam nela. Katie apareceu aos gritos, segurando um copo, e se juntou a nós. Começamos a fazer movimentos exagerados, mas muito sensuais, subindo e descendo, deixando nossas roupas ainda mais curtas. Cassie e Lizzie se juntaram, se roçando uma na outra enquanto cantavam. Fiz o mesmo com Katie, percebendo de soslaio, que alguns garotos nos olhavam. Ri, rebolando mais e mostrei discretamente a Katie. Ela piscou pra mim, e me virou. Fomos descendo até o chão da forma mais sincronizada que o álcool deixava. Ignorei a tontura que as luzes me faziam ter, me virando novamente pra Katie, dando de cara com , e nos encarando, boquiabertos. O primeiro piscou pra mim, se aproximando de Katie, encaixando seu corpo atrás do dela, falando alguma coisa em seu ouvido que a faz rir. Os outros dois ficaram no mesmo lugar, nos observando. Não duvidei que os olhos de pudessem saltar a qualquer momento com tanta intensidade que ele os mantinha em Lizzie. Fiquei entre ela e Cassie até a música acabar e começar outra também da Britney, Hold It Against Me. Estava suada e ofegante quando a segunda terminou, meus pés doíam, mas eu continuei a dançar como nunca tinha feito na vida. Eu estava me divertindo!
Só parei para ir até a cozinha pegar mais uma cerveja, mas acabei mesmo foi tomando mais uma dose de tequila, que desceu sem nenhuma dificuldade. Esbarrei em Peter, que estava segurando duas Heineken.
- ! Eu tava te procurando! – ele me ofereceu uma e eu aceitei de bom grado. – Desculpe por ter te deixado sozinha, eu fiquei meio perdido e acabei encontrando um vizinho antigo, tentei me livrar dele, mas ele ficou me prendendo falando sobre a faculdade...
- Não tem problema, Peter! Eu tava com as meninas mesmo. – e nem me lembrei de você, eu deveria emendar. – Vem, vamos dançar!
- De novo? – ele sorriu, chocado. – Isso tudo é pique ou a bebida?
- Digamos que seja uma mistura dos dois! – disse dando uma piscadela.
Voltamos para a sala, mais precisamente para a pista. , Katie, , Lizzie, e Cassie ainda estavam lá, suados e se agarrando. Isso mesmo, e Lizzie estavam dançando juntos, agarradinhos mesmo, quase se beijando. Por alguns instantes eu fiquei olhando para eles, embasbacada e quis dar um pulinho de alegria. Contive-me para não atrapalhar e rumei com Peter para perto da porta da varanda. Dali eu poderia ver o mais novo casal do pedaço e ainda manter uma distância média caso aparecesse.
Peter logo ficou animadinho quando as primeiras notas de Stutter do Maroon 5 começaram a tocar e pegou nossas garrafas, as colocando em um canto perto do sofá.
A música e as doses, numa combinação só, já voltavam a fazer o efeito em mim, e me vi dançando da forma mais sensual com Peter. Deixei-me levar pela música, mexendo o quadril de forma tentadora.
Peter estava ficando louco com a forma que eu estava dançando, podia vê-lo mordendo o lábio, sua mão apertava com muito entusiasmo minha cintura, e seus olhos estavam brilhando. Dava pra sentir o desejo dele atravessando o meu corpo.
Fui me soltando mais ainda, se é que isso era possível, dei as costas para Peter e comecei a rebolar. As luzes brancas voltaram fazendo com que eu me sentisse lenta. Aumentei mais o ritmo dos meus movimentos, descendo e subindo. Joguei uma mão para trás, segurando a nuca de Peter, o trazendo mais para perto.
Ele segurou com uma das mãos minha cintura enquanto com a outra passava pelo meu quadril, apertando. Olhei pra frente e me deparei com me fitando profundamente, encostado na porta da varanda, com um olhar de predador. O mesmo olhar do trailer. Isso me inchou, me deixou com muito tesão.
Há quanto tempo ele estaria ali, me observando, me analisando daquele jeito?
Peter respirava na minha nuca e sorri maliciosamente para , que não deixava de me olhar um segundo se quer. Ele fechou as mãos em punho quando viu Peter segurando a minha cintura, chegando mais perto do meu ouvindo para cantar a música.
Juntei o corpo mais ainda no do moreno atrás de mim e pus a rebolar, sensual e lentamente, sem deixar de fitar o par de olhos que me devorava sem nenhuma discr