Autora: Bruna Tavares.
Beta-Reader: Annie Brissow.




Prólogo
‘Afundei a caneta de ponta fina na folha da agenda inúmeras vezes. Um dia alguém aprende a querer. No outro. Bem. No outro aprende a dar valor nas pequenas coisas que se havia deixado passar despercebido, sabe lá, por quanto tempo.
Aquelas malditas lágrimas continuavam caindo pelo meu rosto. Janelas incessantes do MSN piscando e a minha única vontade era de vomitar o meu próprio estômago. Arrancá-lo com as mãos. Qualquer coisa que o tirasse de dentro de mim seria justo. Eu não estava mais suportando aquela reviravolta.
Nunca me disseram que namoros de internet davam certo, mas também nunca disseram que dava errado. Namoros. Como eu poderia considerá-lo o meu namorado sem nem ao menos ter visto pessoalmente?Não até a coragem bater a minha porta e eu conferir de perto quem é que fazia o meu coração bater tanto, tão descompassado, tão acelerado que chegava a doer. Principalmente quando o assunto era namoros reais.
Era ele. O dono do fake mais bonito, o meu melhor amigo. ’


Capítulo. 01
Era madrugada de quinta-feira. Feriado. Nos conhecíamos há algum tempo. E de um jeito um pouco, diferente.
Nos tínhamos, mas não tínhamos, e eu não estou disposta a falar sobre isso. Não agora. Desculpa.
Mais uma brincadeira idiota, mais uma tentativa absurda de tentar levar alguns conhecimentos mais a fundo do que eu já tinha. Sim. Esse era meu objetivo. Conhecê-lo cada vez mais. Saber cada vez mais coisas.
Era um mistério tudo. Na verdade, era confuso demais pra ser entendido.
Ele mexia comigo de formas absurdas e eu necessitava de mais. Sempre mais. Muito, nunca foi o suficiente pra mim.
- Só me diz mais uma coisa antes de irmos dormir? – Pedi, sem jeito.
- Fala.
- Você me quer? – Prendi os olhos com o medo de qualquer que fosse a resposta.
- Quero.
Meu estômago se revirou em milhões de piruetas, meu coração pretendia sair pela boca e eu imagino que meu sorriso nunca tenha sido tão espontâneo e idiota como foi àquela noite.
Eram 6:15 da manhã. No chuveiro a água caia pela minha pele tensa, me fazendo gemer baixo.
Estava frio, chovendo, mas meu sangue fervia, pulsava, me fazia sentir cada vez mais calor.
Me enrolei na toalha e em questão de minutos estava devidamente vestida com o pijama de inverno, enrolada no edredom e sentada no sofá, comendo algumas porcarias que encontrei no armário da cozinha.
Já estava claro, na verdade, muito claro. Então, não restava mais nada a fazer se não ir para a cama, aproveitar o dia. Eu sabia que não nos veríamos hoje, maldito 12 de junho.
Essa data eu prefiro esquecer. Não pretendo mais comemora-la. De fato, não irei. Não a partir desse ano. E maldito seja quem falar sobre tal dia comigo, ou perto de mim.
Mas, ainda restava a certeza de que no sábado seria meu, sim, dia 13 seria o meu dia.
Antes que pensem. Não somos amantes. Não. Mas também, isso não importa.
Sábado à noite e lá estávamos nós dois de novo. Era bom tê-lo ali comigo. Mesmo que seja indiretamente. Mesmo que eu não possa vê-lo ou toca-lo.
Foi uma madrugada boa, sim, foi. Nos divertimos como não fazíamos a tempo.
O único fato desagradável foi que se por inocência, ou não, me mandaram algo dizendo o quão ‘foda’ havia sido a sua noite anterior. Certo. Pra alguém. Nitidamente ‘gostando’ como eu estava, saber do que eu soube, não foi legal. Primeira apunhalada do dia.
O que acontece em ‘Neverland’, geralmente fica em ‘Neverland’. Pelo menos assim que era pra ser.
Agora, se você quer correr o risco de cair nas graças de ‘Wonderland’ e ver no que dá, precisa ter cuidado, ou não.
- Eu não acho certo isso que estamos fazendo, . – pareceu sério, convicto.
- E você fala como se eu achasse? – Nesse momento, meu peito se debulhou, estômago revirou e senti lágrimas infernais lavarem todo o meu rosto. - Você me quer tanto quanto eu te quero. Isso é justo?
- Não é justo. Eu gosto da . De verdade. Melhor a gente não pensar mais nisso.
Senti um tom frio em cada palavra cuspida por aquela janela lilás na tela do computador.
Tudo que eu sentia de bom foi prensado e jogado fora em questão de, quarenta e duas horas.
- Eu não quero isso. – Tentei me manter firme. - Mas vai ter que ser assim. Vamos esquecer isso. Por favor.
Eu já não enxergava mais nada. Não sei se pelo sol que já batia na janela e refletia no monitor, ou se as lágrimas já eram tantas que me impediam de tudo.
Fiquei algum tempo sem dizer nada, o que o incomodou.
- Vai me deixar falando sozinho?
- Er. Não. Só não sei o que te dizer. Desculpa. – Suspirei e apertei meus olhos com força.
Estava tarde, então decidimos ir descançar a cabeça. Pensar no que havia acontecido.
Me desconectei o mais rápido que pude e tentei ir dormir. Comi, tomei banho e me afundei na cama.
Doía. Doía muito. Mas eu não sabia se a dor maior era por saber que pra ele tudo havia sido perfeito, ou se eu não estava disposta a abrir mão do que eu realmente estava sentindo.

Capítulo. 02
Durante algum tempo passei com a dorzinha amarga do desprezo na cabeça.
Não era fácil você gostar de alguém que não gostava de você. Ou não quisesse gostar, ou seilá. Era difícil conviver com isso o quão absurdo e idiota ele fosse.
Mas como eu sempre disse, eu o tinha. De uma forma diferente. Fora do comum, mas ele era meu e isso me contentava.
Eu tinha as minhas amigas, claro, a elas conto tudo. Talvez, nem tudo e nem a todas. Tem as que são apenas conselheiras e têm as que são ‘pau pra toda obra’.
- , isso não é justo. – Sussurrei baixo ao telefone, sentindo minha pele corar de raiva.
- Não é justo. Mas é como tem que ser. – Ela tentava me consolar. E quanto mais tentava, mais errado dava.
- O que eu vou precisar fazer? Me diz? – Peguei uma almofada e atirei contra a porta com toda a violência que me foi permitida.
- Você? Esquecer – Ela disse baixo, a fim que eu não ouvisse.
- Eu não vou fazer isso. Eu vou fazer diferente. – Suspirei – Sabe aquela historinha idiota de que nada dura pra sempre? Vou acreditar nela. – Me virei de bruços na cama e permiti que rolassem todas e quaisquer lágrimas que ainda me faltavam.
- Como assim? – sussurrou.
- Eu vou esperar cara. Eu vou dar o meu tempo. Eu não posso fazer nada quanto a isso mesmo. – Chutei meu edredom pra fora da cama, me joguei junto a ele no chão. – Uma hora ou outra alguma coisa vai mudar. Escuta o que eu to te dizendo.
Desligamos o telefone, eu ainda sentia uma grande ponta de raiva. Só quem já teve uma rejeição sabe do que eu to falando. Mas como eu disse, aos pouco tudo se ajeita. E a minha raiva, ela nem existia mais.
Sorri baixo e fiquei brincando com o meu cachorro de pelúcia no chão.

Quem tem pressa como extremamente cru. Minha mãe já dizia isso, mas eu nunca havia levado tão a sério.
Nunca fui do tipo que aceitava fácil as coisas, e não seria agora que as coisas seriam assim.
Eu não comi frio, ótimo, agora quem sabe um prato quente não estava me esperando? Ou não! E ah. Eu estava disposta a qualquer coisa. Não teria nada a perder. Na verdade, só a ganhar. Mais um fora, no máximo. E pra quem já tinha um, mais um faria diferença. Aliás. Muita diferença.
Comprei minhas passagens, fiz reserva no hotel e esperei que chegasse o dia.
Deixei apenas uma mensagem offline no MSN.

says:
Ro, Ro. Não sei se te importa. Mas. Chego por aí amanhã. Voo 8471, 10h30. Lindo (L’
...

Se ele leu? Não sei! Se não se importou? Também não sei. Mas não comentou nada. O que aumentou mais ainda a minha tensão diante de tudo isso.
E é. Quem diria que essas seriam às três horas mais longas de toda a minha vida?
Abaixei os óculos de sol, peguei os fones do I-Pod e desencanei para todo o resto que deixei pra trás.
Eu esperava, no fundo eu esperava que ele fosse. Mas algo me dizia que eu era idiota demais por estar pensando nisso tudo. Agindo dessa forma. É só um garoto. Será que é pra tanto?
Parece uma frase que ouvi um dia ‘Como vou saber se eu não tentar?’. É. Alguém precisava fazer alguma coisa. Então. Que fosse eu.
O avião pousou violentamente me fazendo grudar na poltrona. Tirei o I-Pod dos ouvidos e sorri.
Desci correndo do avião, o mais rápido que pude. O saguão. Aquele saguão.
Aquele era um local conhecido por mim. Não familiar, pois só havia estado lá uma vez, mas eu lembro bem como era. Um barulho forte de aviões pousando e decolando.
Minhas mãos suavam e minhas pernas tremiam. Talvez fosse por ser a primeira vez de tudo isso. Meu coração estava a ponto de sair pela boca quando senti algo se aproximando e duas mãos tampando os meus olhos.
Naquele instante pensei que eu fosse desabar, mas permaneci na mesma posição estática e trêmula de antes. Mas agora, com a certeza que meu coração já estava na garganta e o chão aos meus pés uma poça d'água, de tanto que minhas mãos suavam.
Devagar as mãos que estavam em meus olhos já estavam em meus ombros me virando para frente de si. Um rosto que eu já havia visto antes, um sorriso melhor do que eu já estava acostumada a ver.
Oi - Uma voz baixa, ecoou sussurrada por ali e eu não pude deixar de sorrir.
Balancei a minha cabeça como se eu não estivesse realmente passando por aquilo, sorrindo, retribui ao comprimento.
As mãos que seguravam meus ombros, levemente foi se passando pelo meu pescoço, chegando à nuca, aonde alguns fios dos meus cabelos eram presos entre os dedos.
Uma leve puxada aproximou nossos dois corpos que ainda estavam tão distantes.
Passei meus braços envolta daquele corpo e senti um cheiro incrivelmente perfeito me intoxicando completamente.
Não é o cheiro que eu tanto imaginei, mas posso afirmar que chegava a ser melhor.
Afundei minha cabeça em seus ombros, sentindo o gesto ser recíproco.
Dois corpos inteiramente colados. Dois rostos incrivelmente juntos. Podia sentir aquela respiração falha e rouca ao pé do meu ouvido. Um carinho leve na minha nuca me fazendo arrepiar a cada segundo e meu coração prestes a explodir.
- Ta nervosa, garota. – Ele riu, me encarando.
- Eu não pensei que você viesse. – Sorri envergonhada.
- É. Eu não viria mesmo não. – Ele balançou a cabeça. – Mas eu vim.
- Legal. – Sorri – Bom te ver.
Sem jeito, fiquei olhando as coisas em minha volta. Minhas pernas ainda tremiam e aquele nervoso evidente chamava a atenção de qualquer um.
- Ta com fome? – Ele me chacoalhou meu corpo de um lado pro outro.
- Eu tô. E você?
- Também. – Ele riu e me puxou pelas mãos. – Então vamos comer.
Eu comecei a rir da situação. Os fatos eram mais engraçados do que eu imaginava.
- Mas você nem sabe o que eu quero comer. – Ergui a sombrancelha e sorri falsamente.
- Não tem problemas. Eu escolho o que comer. – Ele continuava me puxando.
Ele tava atrevido. Muito atrevido. E se eu dissesse que não gostava, mentiria. Porque era realmente do jeitinho que eu queria que fosse.
-Então. O que você vai fazer hoje à noite? – Sorri, enrolando macarrão no garfo.
- Ainda não sei de nada? Por? – Ele me encarou com um ‘arzinho’ suspeito.
- Só pra saber. – Sorri e continuei comendo.
- Você ta em que hotel, ? – Ele riu baixo, apertando meu braço.
- Não sei o nome. Só o endereço. – Gemi baixo de dor – Foi meu pai quem reservou. – Dei com os ombros.
- Que legal isso. Mas é uma burra mesmo. – Ele riu e me apertou de novo.
- Acho que você gostou de me apertar, . – O repreendi. – Não me solta. Que chiclete que você é. – Dei a língua.
- É que você é fofa. Dá pra beliscar. – Ele riu e continuou apertando.
- Você também é. Tá? – Sorri e comecei a apertá-lo também.
- Ai. Isso dói garota. – Ele segurou o braço com força e eu ri.
- Fez dodói? Que dózinha, feio. – Ri baixo e passei minha mão de leve pelo teu braço.
A brincadeira idiota se arrastou durante toda a hora do almoço. Eu não entendia o porquê disso tudo, mas era legal e eu estava mesmo gostando.
- Você é maluca. Não entendi ainda por que você ta aqui. – Ele sorriu.
- Esqueceu que as coisas sempre dependeram de mim? – Sorri. – Se eu não fizesse nada, você não faria.
- Quando eu digo que você é retardada. – Ele balançou a cabeça negativamente.
- Isso é um problema pra você? - Mordi meu lábio em repreensão.
- Claro que não, garota. – Ele ia se levantando e me esperou.
- Acho ótimo. – Sorri, o acompanhando.
- Mas espera. – Parei o encarei. – Não tem nada do que eu possa me arrepender, né?
- Não. – Ele riu e me puxou novamente. – Agora vem que eu vou te levar pro seu hotel que você nem sabe o nome. Burra, burra.
Ficamos rindo por algum tempo de alguma bobeira que havíamos dito. Na verdade, ríamos de tudo.
Se eu me conhecesse como conheço, diria que eu era a pessoa mais idiota e estranha do mundo. Mas eu não me sentia assim. Pelo contrário, ele me fazia tão bem, que parecia que nos conhecíamos assim há anos. E pelo visto, ele parecia sentir o mesmo.
Entramos no carro, eu disse o endereço do hotel e ele me levou.
- Fica pronta às 21h. – Ele riu quando me entregou a mochila.
- Vou ficar pronta às 19h. Melhor – Sorri e recebi um beijo na bochecha.
Peguei a mala de mão e a mochila e fiz o check-in. Peguei a chave e então subi pro meu quarto.
- Ah. Brincadeira. – Sorri quando dei uma olhada no quarto que meu pai havia reservado.
Acho que ele sempre ficava nesse hotel quando vinha pra cá. Na verdade, ele só deve ter vindo umas duas vezes, mas a recomendação foi boa.
Era relativamente grande. Tinha uma cama grande e um banheiro também grande. Uma poltroninha reclinável à beira da janela, perto da cama. Uma mesinha e um criado-mudo. Ah! Frigobar recheado de chocolate e televisão de plasma de 42’. Mesmo se tivesse dado tudo errado, eu iria me divertir pra caramba, do mesmo jeito.

Capítulo. 03
Só queria entender como alguém consegue viver no pé do purgatório, nunca estive em um lugar tão quente em toda a minha vida. Me joguei na cama depois do banho, apenas com a blusa um pouco acima da barriga.
Eu me abanava de todas as formas e o calor parecia aumentar. Até a pocilga do ar condicionado se conspirou contra mim.
Puxei meu celular que estava jogado ali perto e olhei a hora. Hum. 18h30. Ainda teria meia-hora pra secar o cabelo e descer.
Aquela bermuda jeans, rasteirinha e blusinha branca seriam de bom uso. Calor! Calor! Calor! Amaldiçoei amargamente.
Prendi o cabelo no rabo-de-cavalo e me olhei no espelho do banheiro. Virei pra um lado, depois pro outro.Olhei no relógio, 18h50. Dei o toque final e desci.
Ainda dentro do elevador, mandei uma mensagem pro celular dele;

says:
‘espero que já tenha chegado. Calor demais pra ficar esperando. Hm* (L)’

Cheguei então na recepção e ele estava ali, de costas pra porta de vidro.
Fiquei alguns minutos parada por ali, esperando que ele terminasse de digitar as teclas do celular, quando senti o meu vibrando no bolso de trás.

says:
‘Cala a boca e não reclama. Vem logo. Chata <3’

Cheguei devagar por trás e passei a ponta dos dedos pela região da espinha cervical, causando-o arrepio.
- Ow! Não faz isso! – Ele se virou pra mim, rindo.
- Nossa. Quase te matei, né? – Fiquei o encarando.
sorriu, me puxou pro abraço e beijou a minha bochecha.
- Isso é bom. – Ele riu, pegando de leve pelos meus cabelos, sentindo o cheiro de shampoo que ainda exalava. Isso é, talvez ele não tenha sentido o ‘elemento x’.
- É? Gostou? – Sorri – Falei que era bom. – Encostei meu pulso no nariz e sorri.
- Mas é muito chata e se acha. – Ele me puxou pela mão – Vamos.
Entramos no carro e saímos. Se eu já havia reclamado do calor, reclamei de novo.
- Eu to me sentindo um pingüim no Havaí – Suspirei.
- Por que, ? – Ele riu baixo.
- Porque eu não tô acostumada com esse calor. – Me abanei. – Não dá. Calor demais.
- É. Você deve ser acostumada com o frio, neve. – Ele ainda prestava atenção no trânsito. – E um dia você vai me levar pro Sul com você. Não vai?
- Te levar pro sul? Passar frio lá? Ô. Claro que levo. – Gargalhei baixo.
- Não poo, me levar pra praia. – Ele gargalhou.
- Praia? Claro. Te afogo no mar. – Continuei rindo, sem graça.
- Me afoga? Garota malvada.
Ele parou o carro e saímos. Soltei e amarrei novamente o cabelo, deixando a nuca à mostra.
- Aonde vamos, garoto?
- Para de ser chata e vem comigo. – Ele me pegou pelas mãos, entrelaçando nossos dedos e fomos andando até chegar a um beco pouco iluminado.
Não. Ele só poderia estar brincando com a minha cara. Ele não seria tão idiota de tentar fazer alguma brincadeira de mal gosto a essas horas.
– Não precisa ter medo, é só uma rua que a gente vai atravessar. – Rindo da minha cara, me puxou por aquela ruazinha, que dava exatamente para um quintal enorme, aonde tinha uma escada que te levava a uma varanda. Ou melhor, a um lugar que parecia uma lanchonete, restaurante, tanto faz.
Respirei aliviada por alguns instantes. Sim. Eu realmente senti uma tensão muito grande ao passar por aquele lugar estranho e desconhecido, ao lado do próprio desconhecido.
Gargalhando da minha cara de assustada e das minhas mãos trêmulas e suadas, ele me abraçou forte, prendendo minha cabeça na altura do seu peito. Pude senti-lo encostar o nariz em meus cabelos e suspirar levemente.
Meus quarenta e cinco minutos de banho haviam feito algum efeito.
Ele me tirou do transe, e então chegamos ao lugar. Um lugar bonito, por sinal. Bem iluminado, boa aparência.
Sentamos numa mesa e ficamos nos olhando por alguns instantes.
- Você realmente sentiu medo de vir até aqui? – Ele riu baixo, tirando uma leve mecha de franja dos meus olhos.
- Não gosto de lugares escuros. Eu tenho medo. – Assumi timidamente, escondendo o rosto e sorrindo em seguida. – Ao menos que seja um escuro bom. Antes que você comece a julgar que tenho medo do monstro do armário, por exemplo. – Dei com os ombros e sorri.
- Você é doida garota. – Ele riu, me dando um leve soquinho no braço, me fazendo gemer.
- Poxa. Não faz isso. Dói – Passei minhas mãos por onde ele tinha batido, e quando senti suas mãos se aproximando das minhas, retribui com um tapa. – E não encosta em mim. – Falei em um tom sério, porém de deboche.
Ele puxou a cadeira pra próxima da minha, e passou os braços pelos meus ombros. Fechei os olhos e apoiei minha cabeça nos seus ombros. Ao mesmo instante, suas mãos começaram a percorrer todo o meu braço, me acariciando.
- A galera ta chegando. – Ele sussurrou, me fazendo assustar, corar, perder a noção do que poderia acontecer.
Gaguejei por alguns instantes.
- Q,Q,quem ta chegando? – Me afastei rápido, me ajeitando na cadeira, fazendo-o rir.
- Relaxa– Ele se levantou, indo até os amigos dele e dizendo algo baixo. Algo que não consegui entender o que era.
Senti uma vergonha imensa me dominando quando os olhares se depositaram em mim. Ele disse o nome de todos que ali estavam, me apresentando pelo nome, e logo em seguida como ‘a minha garota do sul’.
Corei de vez e de novo desejei que o chão se abrisse.
Soltei um sorriso assim que ele se sentou novamente ao meu lado.
- Não faz isso comigo porque eu tenho vergonha. – Falei baixo, afundando meu rosto nos seus ombros. – Não gosto dessas coisas.
– Para de ser boba - Ele riu da minha cara.
Observei novamente todos os seus amigos. Alguns acompanhados e outros não.
A irmã dele estava com o namorado e uma amiga, que de longe eu já sabia quem era.
Não sei se ela sabia quem eu era, mas não parava de me encarar, me deixando desajeitada com toda a situação.
- Garota, você vai virar uma elefante de tanta Coca-Cola. –Ele pegou na minha mão e riu. – Além das celulites, estrias.
Eu ri com o comentário idiota dele.
- E você pode parando de beber porque eu pretendo chegar viva naquele hotel. – sorri, colocando o copo dele sobre a mesa.
- Você trouxe a sua habilitação, ? – Ele me encarou sério, dando um leve sorrisinho no canto dos lábios.
- Claro que eu trouxe. Por que? Vai deixar eu dirigir o seu carro? – Arqueei a sombrancelha e soltei um sorriso aberto.
- Nunca. – puxou seu copo e tomou um gole grande da bebida.
Mais uma vez fiquei observando o movimento. Mais uma vez eu vi que eu ainda estava sendo encarada.
- Ta bem estranho tudo isso. – Peguei a palma da sua mão e comecei a fazer o contorno das linhas que ela tinha.
- Não fica pensando nisso. Sério. A ainda é minha amiga. Só amiga. – Ele beijou meu rosto e me abraçou.
Suspirei nervosa. Mas não nervosa de raiva, mas sabe aquele nervoso de nervoso? Inexplicável. Então.
Não demorou muito, os garotos começaram com alguma brincadeira ou conversa idiota e vieram perto de nós dois. Aos poucos fui abrindo um pouco mais a boca e socializando com os amigos dele.
O celular vibrou em cima da mesa e fui para o canto atender, mas sem tirar os olhos da mesa.
Desliguei o telefone e voltei ao lado dele.
- Mamãe. – Sorri dando nos ombros.
- Mamãe? – Ele debochou.
- Ah! Qual é? Vai falar que a sua mãe também não se preocupa com você?
- Não. – Ele continuou debochando.
As músicas começaram a ficar melhores, mais animadas. Até McFLY tocou.
- Lies, lies, lies. – Sorri.
- Porra! Credo! Isso é velho. – Ele riu. – Só lembro de uma. Falling in love.
- É. Conheço essa também.
- Jura que você conhece? Não sabia!
- Lies, lies, lies! – Gargalhei e mordi sua bochecha.
Quando o mordi, senti dois olhares voltarem pra mim rapidamente. Foi à gota d’água.
- Eu vou embora. Vou chamar um... – Ele me interrompeu enquanto eu levantava da mesa.
- O que aconteceu? Espera que eu te levo. – Ele me puxou novamente pra cadeira.
- Eu não to mais afim de ficar aqui. Sério. Não to mais me sentindo bem. – Sussurrei ao pé do seu ouvido. – Eu quero ir embora. Desculpa.
- Então espera aqui um pouco.
Ele levantou e foi até a sua irmã. Disse alguma coisa e voltou pra mesa.
- Vem chata. – Ele sorriu me pegando nas mãos.
Entrelaçamos os nossos dedos e então saímos.
- Desculpa mesmo por isso. – Falei baixo.
- Ta tudo bem. Eu sei que você sempre teve ciúmes dela. – Ele debochou e me deu um beijo na bochecha.
Entramos no carro e saímos.
- Você quer ir pra outro lugar ou quer ir pro hotel? – Ele pegou nas minhas mãos.
- Eu não sei. Você quem sabe. – Sorri.
Ele parou o carro num lugar bonito. E dava pra ver o hotel que eu fiquei ao fundo.
Soltei o cinto de segurança, abri a porta e me encostei na porta, esperando que ele saísse. se aproximou e beijou meu rosto, pegou na minha mão e fomos nos aproximando da calçada. Logo, me sentei numa mureta e esperei que ele se aproximasse.
Apoiei as mãos atrás do meu corpo e inclinei pra trás.
Fiquei o encarando por algum tempo e sorri.
- Fala alguma coisa? – Falei nervosa.
- Você é linda. – Ele sorriu e se sentou ao meu lado.
- Alguma coisa que eu não saiba. – Sorri abertamente.
- Você é muito chata. – Ele bateu no meu braço, me fazendo gemer de dor.
- Disso eu também sei. - Sorri, retribuindo ao tapa.
Encostei minha cabeça no seu ombro e fiquei sentindo aquele cheiro que impregnava meu nariz de uma forma incrivelmente absurda.
Seus dedos começaram a percorrer todo o meu rosto, lábios, queixo. Suas mãos subiram e desceram pelos meus abraços, até entrelaçarem nossos dedos.
- Eu já disse que tua voz é foda? – Ele sorriu, me encarando.
- Sabia que esse seu tipo de sedução barata é pedofilia? – Abri um sorriso largo.
- Sedução barata, ? De onde você tira essas coisas? – Ele começou a mexer na barra da minha blusinha.
- Não sei. – Dei com os ombros e sorri. – E o que você acha de tirar suas mãozinhas daí? – Sorri, apertando suas mãos com força. – Você é muito assanhado.
- Como você diz isso de mim? – Ele abriu a boca e soltou uma voz de desaprovação. - Tira sua mão de mim. – Sorri de canto.
- Não. – Ele desceu com as mãos pra lateral das minhas coxas.
- Para de ser safado! Que coisa! – Me afastei um pouco, rindo.
- Você provoca e depois cai fora. Menina chata. – Ele me puxou novamente. - Eu provoco? Aonde isso? Ta doido? – Me afastei novamente.
- Você fica tocando meus pontos fracos . Olha isso. – Ele riu apontando pro meu corpo. – Olha isso também. – Ele pegou meu pescoço e sentiu o meu cheiro. – Você quer me matar. – Ele me puxou novamente e me apertou forte contra o seu corpo e eu não pude evitar gargalhar.
- Fica comigo essa noite? – Sussurrei aproximando meus lábios do seu ouvido. – Por favor. – Apoiei minhas mãos na sua nuca e rocei de leve meus lábios pela sua orelha.
- Não. – Ele respondeu segurando a risada e me afrouxando do abraço em seguida. – Não precisa pedir de novo. – Agora ele me encarou e sorriu.
se levantou, me puxando junto com ele. Grudou os nossos corpos e me abraçou forte. Passou os braços pelos meus ombros, apoiou o queixo na minha cabeça e a beijou em seguida, me puxando pro carro.
Fomos todo o caminho sem muita conversa, uma troca de olhares de vez em quando, mas nada mais do que isso.
Entramos pela portaria lateral, passando somente pela recepção e entrando no elevador.
Senti suas mãos se aproximando da minha cintura, e indecentemente meu celular vibrando no bolso de trás do shorts. O encarei e sorri.
-Você não precisa atender. – Ele sorriu, quase segurando minhas mãos.
- Mas eu quero. – Sorri, mostrando a língua.
Abri o flip do celular e encarei a foto. Balancei a cabeça e sorri.
- Alô. – Falei num tom sério.
- Alô? Como assim alô? To tentando falar com você a noite toda. Te mandei mil sms, e-mail. To no MSN há horas e nada de você. – gritava comigo do outro lado da linha e eu não pude evitar rir, acabando com o ar sério que pretendia manter.
- Ta. Uma pergunta por vez. – Saímos do elevador, e ele me puxava por uma das mãos para o quarto, e a outra eu segurava o celular no ouvido. – O que você quer saber, exatamente?
- Ele foi te encontrar? Tipo. Ele recebeu sua mensagem? Ah! Pára de drama e me fala logo por que eu to curiosa.
- Você ta curiosa amor? Por quê? – perguntou onde estava a chave. Eu a tirei de dentro do meu bolso e entreguei a ele. Entramos no quarto, joguei a minha mochila em cima da cama e me sentei naquela poltrona reclinável da janela. Ergui minhas pernas sobre a poltrona, abraçando os meus joelhos.
Fiz sinal para ele se sentar, e ele sentou bem na minha frente.
-Por quê? Como assim por quê? Não me enrola menina. Fala logo. – Notava-se de longe o desespero e a curiosidade dela.
Olhei pra ele, que agora fuçava na minha mochila arrancando tudo de dentro. I-Pod, maquiagem, escovas de cabelo.
- Ta. Eu vou falar. Mas se você gritar eu desligo e sumo de vez. Certo? – Hm. É. Tem alguém aqui na minha frente agora, mexendo no meu I-Pod – Sorri. – Mas ele nem é lá essas coisas não. É muito chato, mala e sem educação. – Gargalhei, levando uma beliscada no braço, me fazendo soltar um grito baixo de dor.
- O que foi esse grito? – Ela riu, me fazendo rir junto.
- Esse insuportável que me beliscou. – Gemi e mostrei a língua pra ele.
- Nossa. Quanto amor vocês dois.
Parei e pensei por alguns instantes no que ela havia dito. Amor? De onde ela tirou isso?
- Amor? Tem certeza que é amor? Eu to quase jogando essa praga da janela. – Gargalhei, ficando séria em seguida. [ou pelo menos tentando]. – Olha. Eu vou desligar, ta? – Mordi meu lábio e sorri. – Quando eu voltar pra casa eu te ligo. – Sorri e voltei a encará-lo.
- Ta bom. Mas toma cuidado aí vocês dois. E manda um beijo pra ele. – riu, me fazendo gargalhar.
- Tchau. – Desliguei o telefone e o joguei sobre a cama.
Permaneci na mesma posição, mas agora eu já o encarava. Não sei o que tanto ele mexia. Só sei que o I-Pod já estava conectado nas caixinhas de som, que por algum motivo estavam dentro da mala, mas agora, colocados em cima da mesa.
- Que tanto você fuça? – O encarei com curiosidade.
- Não sei o que tanto eu fuço. Mas eu fuço. E você é chata. – E ele permanecia mexendo.
- Você pega minhas coisas na minha mochila e ainda fica me chamando de chata? – Bufei. Me levantei e fui até o banheiro. – E para de mexer nas minhas coisas. – Sorri e fechei a porta.
Coloquei a nécessaire e meu pijama em cima da pia. Soltei o meu cabelo e passei o pente nele, prendendo-o novamente.
Vesti meu pijama e escovei os dentes. Me encarei por alguns instantes antes de voltar para o quarto.
Quando abri a porta, no mesmo instante ele parou o que estava fazendo e me encarou de cima abaixo.
- O que você ta fazendo, garota?
- Pretendo dormir. – Segurei a risada. – Por quê?
- Dormir? Como assim, dormir? – abriu a boca, e os olhos, e ficou me encarando.
Assim ó. Subi em cima da cama, tirando o edredom e entrando embaixo dele. Afundei minha cabeça naquele travesseiro maravilhoso de plumas e o olhei, gargalhando.
- Você me pede pra ficar com você, e você vai dormir? – Ele me olhava confuso.
- Eu deixo você deitar do meu lado se quiser. – Sorri e bati minha mão no travesseiro ao lado.
- Mas é sério que você vai dormir? – Ele ainda me encarava.
- Se você não deitar aqui comigo, é. – Sorri e novamente bati no travesseiro.
- Então fecha os olhos. – Ele me olhou rindo. – Não quero que você me veja.
- Por que não? Para de ser idiota menino. Deita aqui logo. – Me segurei pra não cair na risada, admito.
Ele tirou os tênis, jogando-os longe, fazendo o mesmo com a bermuda jeans, e se enfiou rapidamente embaixo do edredom.
- Não encosta um dedo em mim. – Ele apontou o dedo no meu nariz, me fazendo rir. – Sua chata.
- Então ta. Irritante. – Me afastei dele. Colocando um outro travesseiro separando nós dois.
Me virei de costas e puxei mais edredom para o meu lado.
- Que garota insolente! Pára com isso! – Ele gritou, puxando o edredom com toda força, jogando-o todo no chão, me deixando descoberta.
- Filho da mãe! – Gritei. Levantando o meu corpo, ficando sentada.
- O que você disse? – Ele subiu pra cima de mim, apoiando seus braços ao lado da minha cabeça, deixando seu rosto próximo ao meu.
- Palerma! – Sussurrei.
- Insuportável! – Ele revidou, agora passando uma de suas pernas por cima de mim.
- Gordo! – Virei meu rosto, afim de que nossos olhares se descruzassem.
- Criança chata e mimada! E olha pra mim. – Ele apoiou uma das mãos no meu queixo, puxando novamente meu rosto.
Passei a encará-lo por cima de mim. Passei minhas mãos por seus braços e beijei seu queixo, seguido de uma leve mordida.
- Grosso – Sussurrei.
Ele apoiou suas duas mãos no meu rosto, aproximando, esfregou nossos narizes.
- Mimada – Ele sussurrou e em seguida me deu um selinho.
Esse selinho se transformou em outro selinho, e mais um, e mais um de novo.
Assim que os lábios dele tocaram os meus pela última vez, senti uma nova força surgir de dentro de mim, uma voracidade incontrolável. Imediatamente agarrei os cabelos de sua nuca, dando fortes mordidas em seus ombros. Suas mãos desenharam o contorno das laterais de meu corpo, fazendo-o soltar o ar pesadamente em aprovação. Nossas mãos se prendiam em alguma parte dos nossos próprios corpos, intensificando cada vez mais nosso beijo desesperado.
Ele se curvou um pouco e segurou a parte de trás de minhas coxas, puxando-as para que envolvessem sua cintura. Me sentei em seu colo. Agarrei seu pescoço e o mordi.
- Você é maluca garota, maluca. – ele murmurou ao pé do meu ouvido, mordendo o lóbulo enquanto puxava meu cabelo com um pouco de força. Minhas mãos agarravam e bagunçavam os cabelos dele, e minha respiração era quase nula.
- Agora não é hora pra reclamar. Shiu. – sussurrei, com o pouco de fôlego que me restava, e ele voltou a me beijar sorrindo, satisfeito. Àquela altura, com as mãos dele provocando formigamentos instantâneos em minha pele assim que me tocava, eu nem me lembrava mais do significado da palavra distância. Desse eu já tinha me desfeito há muito tempo, só não tinha coragem suficiente de admitir.

Encará-lo nos olhos agora seria a última coisa que eu desejaria na vida. Por mais que eu me sentisse confortável naquele estado, e principalmente, ao seu lado, a situação ainda era nova pra mim.
- O que foi? Han? – Ele prendeu meu cabelo sobre seus dedos, massageando-os.
- Não foi nada. Por que seria? – Respondi sem encará-lo.
- Por que ficou quietinha agora. Ta com vergonha? – Ele riu e puxou meu rosto, a fim de me olhar nos olhos.
- Vergonha? Por que eu teria vergonha? E ainda mais de você? – Chutei as palavras, escondendo meu nervosismo.
- Porque você me ama. – Ele soltou uma risadinha, passando os dedos pelo meu rosto em seguida, me fazendo corar completamente.
- Não fale o que não sabe. – Suspirei e o encarei.
- Eu sei sim. É isso! – Ele riu, ainda passando os dedos pelo meu rosto. – Você veio até aqui a toa então?
- Vim. – Abri um sorriso completamente falso. – Aliás. Não vim. Vim porque eu quis. Sabe. Dinheiro sobrando. Não tinha o que fazer. – Sorri novamente mostrando completamente os dentes. Dando com os ombros.
- Sua fresca. – Ele beijou a minha testa, e agora, sorri com vontade, deitando no seu peito, ouvindo o barulho do teu coração que batia calmamente.
- Por que um maldito fake fez isso com a gente? – Perguntei num tom baixo.
- Isso o que, ?
- Isso. Se não fosse por ele, eu não teria te conhecido. E não estaria aqui agora.
- É. Seu destino é ficar comigo. Se conforme. – Ele caçoou.
- Você é o carma. Praga. Coisa ruim. – Belisquei sua barriga.
- Eu sou tudo isso? – Ele ergueu o tom de voz e rio.
- É. Mas eu não ligo. – Suspirei. – Esses dias eu tava pensando. É besteira. Sério. Mas eu tava pensando se estar com você seria tão bom de verdade como era estar lá.
- E é? – Ele riu.
- Não sei sabe. – Ri baixo – Você se apaixonou depois de ter visto uma tatuagem escondida. Lembra? – Escondi o rosto e gargalhei baixo.
- Caralho! Verdade. – Ele inclinou um pouco o corpo na minha direção. – E eu nem vi se você também tinha.
- Tenho! – Gargalhei. – E ta bem ali. – Ergui meu pé e o mostrei.
- Po. Que maneiro. – Ele se levantou e ficou olhando para o meu pé.
- Ai. Para de olhar. Não gosto. – Escondi meu pé embaixo do lençol.
- É legal. Seu pé é maneiro.
- Pé maneiro? – O encarei gargalhando. – Não gosto de pés. Mãos são mais legais.
- Eu gosto de um pé bonito, ficar olhando. É legal. – Ele puxou meu pé e ficou mexendo nos meus dedos.
- Isso é péssimo. – Gargalhei e deitei novamente.
- Acho que sua grande felicidade sempre foi me dar foras. Não é? – Sorri.
- O que você quer dizer com isso? – me olhou rindo.
- Eu quero dizer que você sempre gostou de me dar foras. Fala e desfala, faz e desfaz. Quer e depois não quer mais. Inventa desculpas. – Suspirei. – To pronta pra mais um. Vai em frente. – Sorri e abri meus braços.
- Chata. Chata. Chata. Chata. – Ele me puxou forte e me abraçou.
- Vai me livrar desse? – Sorri o encarando.
- Vou te livrar desse. – Ele prendeu nossos corpos e começou a acariciar meus braços.

Capítulo. 04
Espaço sempre foi uma coisa que eu necessitei, e quando senti um peso sob meu corpo, em pleno sábado, ao 12h45min. Não fiquei feliz, de fato. Eu pretendia afastar aquele corpo acima do meu com um empurrão, ou um chute, algo assim, mas quando vi o que estava acontecendo, não tive coragem.
ainda estava do mesmo jeito, com a boca semi-aberta. A cabeça totalmente aconchegada no travesseiro e um leve sorriso nos lábios.
Acompanhei o ritmo da sua respiração. Os movimentos do seu tórax no ‘sobe e desce’, o ronco baixo. Inevitável não sorrir.
Me levantei com cuidado e fui até o banheiro. Escovei os cabelos e os dentes, então me sentei na poltrona extremamente confortável ao lado da cama e perto da janela.
Eu não conseguia mais evitar sorrir com aquela cena. Ele estava extremamente tentador e me arrancava os piores sorrisos.
Me deitei ao seu lado, e devagar fui passando o polegar sobre seu rosto e lábios. Apoiei minha boca de leve na sua orelha e sussurrei um bom dia, que foi extremamente em vão.
- Acorda preguiça. – Sussurrei um pouco mais alto. Novamente em vão.
Gargalhei baixo e então não vi outra saída para acordá-lo se não fosse à base da covardia.
Devagar, comecei passar meus dedos pela lateral do seu corpo. Ele disse algo incompreensível e mudou de lado. Gargalhei novamente.
Sem escrúpulo, afundei meus cinco dedos abertos, sacrificando aquele corpo que tinha à minha frente. Sua primeira reação foi um grito de susto, seguido de um xingamento e logo depois ele estava por cima de mim, retribuindo o que eu havia feito alguns instantes atrás.
- Você é muito preguiçoso. – Rapidamente me soltei dos seus braços, gargalhando.
- Mas hoje é sábado. E é covardia me acordar assim. – Ele reclamou se sentando na cama.
- Fiquei morrendo de dó, mas não quis mais ficar sozinha. – Fiz uma cara de dó, inclinando a cabeça pro lado.
- . – Ele riu, se aproximando de mim e me roubando um selinho. - Você é mais maluca que eu imaginava. – Me segurou pelos cabelos, passando seu rosto no meu. E eu não evitava sorrir.
Beijei sua orelha, escorregando os lábios para o pescoço e ombros em seguida.
- – Resmunguei - Eu não quero ir embora. – Fiz um bico e um sorriso leve, porém transparecendo uma leve tristeza em seguida.
- Não fica triste. – Ele me abraçou forte e beijou o topo da minha cabeça.
- Você não precisa ir pra casa, também? – O olhei e ele ascentiu com a cabeça. – Péssimo. – Afundei minha cabeça no travesseiro, jogando meu corpo pro lado e o encarando. – Te vejo hoje, ou amanhã antes de ir embora?
- Você quer? – Ele tirou uns fios de franja dos meus olhos.
- Quero. – Sorri.
- Então eu te ligo à tarde. – Ele sorriu e me deu um selinho. Levantou, pegou suas roupas jogadas no chão e foi ao banheiro.
Até de costas ele era perfeitinho, maldito seja. Injusto. Crueldade.
Fiquei olhando-o entrar no banheiro, enquanto fuçava alguma coisa no celular. Trinta ligações perdidas da minha mãe, mais umas quarenta da . Meu dia seria bom.
Ele saiu rápido do banheiro vestido e devidamente cheiroso. Veio até mim na beirada da cama e me abraçou, me dando um beijo em seguida.
Levei-o até a porta e esperei o elevador. Ficamos com as mãos dadas até o mesmo parar completamente no meu andar e ele sumir na minha vista.
Fechei a porta do quarto, e como quem entra de um transe, coloquei as duas mãos na boca, abafando o grito e comecei a rir sozinha.
Coisas demais para apenas 24h. O que mais me esperava?
Eu esperava um banho e uma roupa limpa, antes de qualquer coisa.
A água do chuveiro era incrivelmente mágica. Sabe aquele banho bom que você estava necessitando há algum tempo? Então.
Não pude evitar sorrir quando me lembrei dele. O jeito, o cheiro, o sorriso. Tudo o que aconteceu ontem. Tudo o que não deveria ter acontecido ontem. Ele mexendo nas minhas coisas e até mesmo o jeito que ele dorme. Suspirei meio alto e comecei a rir sozinha.
Saí do banheiro com a toalha enrolada no corpo, meus cabelos já estavam amarrados. Em questão de minutos me troquei e definitivamente. Logo eu me sentia nova pessoa.
Peguei meu notebook e fui atrás de informações sobre o que eu havia perdido.
Na verdade, nem perdi muita coisa. Só mensagens intermináveis no MSN, e algumas um tanto quanto curiosas no orkut. Não me importei, e também não respondi nenhuma.
Suspenses faziam bem o meu tipo.
Puxei os fones do meu I-Pod e deitei novamente. Essa vida de quem não faz nada é boa, e eu estava gostando.
Ouvi o toque chato do celular em algum canto. Eu não lembrava ao certo aonde eu tinha jogado ele na noite anterior, então tive que procurá-lo através do som.
Acabei encontrando-o embaixo da cama, com uns três travesseiros em cima.
Não poderia ser diferente.
- Alô.
- Certo. Agora você não escapa. Conta tudo. – Aquela voz ardida da do outro lado da linha pipocava em meus ouvidos. A voz da curiosidade.
- Bom dia, amor. Eu tive uma noite ótima. Não tomei café ainda, só ban... - Eu ia dizendo até se interrompida.
- Eu to falando sério. Quero detalhes de tudo.
Não pude evitar cair na gargalhada com toda essa situação.
- Eu não deveria dizer nada na verdade, mas. – Cruzei as pernas em cima da cama e deitei com a barriga pra cima, encarando o teto – Mas é que foi tudo tão bonitinho que eu não quero mais voltar pra casa. – Mordi minha boca.
- O garoto é bom assim então? – Ela praticamente gritava.
- Não! – Disse um pouco alto. – Não é só isso. É que tipo. Ah! Você sabe, poxa. – Suspirei.
- Você gosta dele. Hm. – Aquele tom de deboche que eu odiava.
- Não gosto nada. – Peguei uma almofada e taquei com força, atingindo a porta do banheiro. – Ele é só... Como eu posso dizer.... Ahn... Fofo?. – Gargalhei.
- Cara. Eu queria ser uma mosca pra ver tudo isso. Porra! Nunca mais faz isso comigo. Próxima vez você m... – Ela ia falando e eu a interrompi.
- Não vai ter próxima vez. Certo? – Suspirei.
- Como não? Não tá bom? Se ta bom, tem que ter de novo.
- Não é assim que as coisas funcionam. Foi só uma noite. – Suspirei encarando a cortina que era levemente balançada pelo vento. – Foi uma noite ótima. Pode ser que hoje também seja. Mas amanhã tudo isso acaba. Não sei como vai ser. – Mordi minha boca, e novamente uma onda de tristeza tomou conta de mim.
- Não pensa assim, . Desculpa ter dito qualquer coisa. Então aproveita hoje. Depois conversamos. Eu te amo, e se cuida. E ah! Não esquece a camisinha. - Começamos a rir juntas, então desliguei o telefone.
Me virei de bruços na cama, coloquei o travesseiro por cima da cabeça e fiquei pensando no quão bom estava sendo tudo isso. E no fim que isso levaria. O cheiro dele no travesseiro me invadiu por completo, sorri, não evitando dormir. Ou ainda havia dúvidas?

Capítulo. 05
Perder a noção de tempo, lugar, era comigo mesma. Dormi tanto que perdi a noção da hora e acordei com o barulho da campainha do quarto.
Tirei o travesseiro da minha cabeça, ajeitei a minha roupa. Bocejando e descalça fui até a porta.
- Aonde você vai assim? – falou rindo, me medindo de cima abaixo.
- Assim como? – Me olhei, só então me dei conta do meu estado. – Seilá, eu tava dormindo. – Fiquei com vergonha e comecei a rir. – Mas se você quiser entrar.
Sai da porta, dando passagem para que ele entrasse.
- Ta gata com essa cara de sono. – Ele riu e me abraçou.
- Vai. Fala. O que você tá fazendo o que aqui? – Tentei arrumar meu cabelo num rabo-de-cavalo.
- Eu que pergunto. Ta fazendo o que assim? Pensei que você fosse estar pronta hora que eu chegasse. – Ele sorriu, me soltando.
- Mas você me disse que ligaria, garoto. Você acha que tenho bola de cristal pra saber hora que você vai aparecer?
Ele começou a rir da minha cara. Mas não era uma risada, era gargalhada.
- Eu te liguei. Você não lembra? - Neguei com a cabeça. – Você não tem problemas de sonambulismo, né? – Ele começou a rir mais alto.
- Às vezes. – Escondi o rosto com as duas mãos e caímos numa gargalhada uníssona. – Isso foi péssimo. – Sorri, correndo para o banheiro. – Você espera um pouco? – Coloquei a cabeça pra fora e sorri. – Prometo que não demoro.
Na verdade, não demorei tanto quanto o normal. Fui o mais rápido que pude.
Abri a porta do banheiro e ele estava deitado na cama, agora fuçando no meu notebook que ainda tava ligado.
- Você é sempre assim. Curioso? – Sorri, enquanto tirava alguma roupa de dentro da mala.
- E você é sempre fresca, chata, que demora duas horas num banho? – Ele olhou pra mim por cima, e voltou novamente sua atenção ao notebook.
- Eu não demorei. – Bufei e fui pro banheiro me vestir.
Vesti a roupa que eu tinha separado momentos antes e joguei a toalha molhada no chão.
Soltei a toalha que prendia meus cabelos, sacudi-os de leve e então fui terminar de me arrumar, voltando pro banheiro.
- Garota. Vai logo nesse banheiro. Para de ser chata. – Ele reclamava em tom de deboche e eu não podia evitar rir.
- Se você tivesse me ligado antes. – Sorri.
Sai do banheiro e fui até a cama, ao lado dele. Ele mexia em intermináveis pastas e arquivos.
- Como você achou isso? – O encarei, sorrindo de leve.
Ele havia encontrado a pasta com os nossos vídeos feitos no ‘movie maker’. Fotos e palavras melosas de amor.
Eu não conseguia me desfazer de nada. Mas também não conseguia mais ver, sentia saudades.
- Seilá. Mas achei. Maneiro isso. – Ele sorriu.
- Tem saudades, é? – O encarei por alguns instantes.
- Saudades? Não! Mas que é foda. É. – Ele continuava abrindo os vídeos e assistindo-os.
Me sentei na cadeira, esperando-o decidir o que faríamos, quando o seu celular começou a tocar. – Atende. – Apontei para o aparelho que estava em cima da cama.
Ele olhou no visor e não fez uma cara muito agradável. Talvez eu já imaginasse quem seria. Ou não.
- Eu não preciso atender. – Ele disse baixo.
- Atende logo. – Ergui um pouco o tom da minha voz. Talvez eu já estivesse ficando realmente nervosa.
Ele levantou e foi para mais perto da janela e conversou baixo, para que eu não pudesse ouvir a conversa. E foi realmente o que aconteceu. Apenas percebia o quão monossilábica e incomoda aquilo estava sendo.
Ele desligou e voltou a se sentar na cama.
- Desculpa. Não era nada de importante. – Mas ele demonstrava nervosismo, num tom de voz diferente.
- Estraguei tua noite, han? Pode ir. Não tem problema. – Sorri forçadamente.
- . O que você vai fazer? – Ele me encarou.
- Eu não sei. Talvez comer. Talvez ir andar um pouco por ai. Talvez ver filme. Talvez ficar no computador, ouvir música, arrumar a minha bagunça. – Dei com os ombros. – Seilá o que eu vou fazer. Mas você não precisa ficar comigo. Se não quiser.
Ele ficou algum tempo pensando enquanto eu mexia no meu celular, respondendo ao sms que tinha acabado de chegar.

says:
Ele ta na minha frente. Sinceramente? Acho que a acabou de ligar. Er. Depois a gente se fala ¬¬ xx

- Vai. Você escolhe. O que quer fazer? – Ele sorriu.
- Ficar com você. – Soltei as palavras rapidamente, num tom quase desesperado.
- Então ta certo. Ta com fome? – Ele encarava.
- Bastante. –Sorri.
Ele olhou o frigobar do quarto, viu que não tinha nada de interessante, então, ligou na recepção e pediu algumas porcarias. E isso incluía hambúrguer, refrigerante, sorvete e pipoca.
- Pronto. Agora você escolhe o filme.
- Obrigada. – Sorri.
Passei os canais da TV a cabo, parando em alguma coisa que me chamou a atenção e me fez soltar um grito praticamente histérico.
- É. É isso. Gossip Girl.
- Ah, não. Você não vai me fazer assistir isso? – Ele tentou tirar o controle-remoto da minha mão. Em vão.
- Claro que eu vou. Dá pra prestar atenção? É Gossip Girl. – Dei um sorriso largo. – Esse capítulo é meio velho, mas não me importo. – Dei com os ombros, encostando minhas costas na cabeceira da cama, estendendo as minhas pernas.
- Para com isso e me dá esse controle. – Ele tomou o controle-remoto das minhas mãos e escolheu o canal.
Ele parou em algum filme idiota que passava. Filmes de comédia não eram bem o meu tipo. Mas ele ria. Ele realmente ria de uma forma assustadora, ridícula. E eu acabava rindo da sua risada.
- Você tem algum problema? – O encarei, enchendo as mãos de pipoca e enfiando tudo na boca de uma vez só.
- Não. – Ele gargalhava, olhando pra minha cara. – Por quê?
- Porque parece que tem. – O encarei séria, falando com a boca cheia.
- Você é insuportável. – Ele enfiou refrigerante goela abaixo numa velocidade incrível.
- Você é um idiota. – Enchi minhas mãos de pipoca e taquei nele, que ficou me olhando sério.
- Você ta de brincadeira com a minha cara, ? – Ele me encarou com um sorriso fraco nos lábios.
- Eu? Eu não! Por que eu estaria? – Disfarçadamente coloquei minha mão no pote de sorvete e esfreguei na sua cara.
- Porra garota! Você é uma chata. – Ele pegou o pote inteiro de sorvete e virou sobre minha cabeça.
- Puxei o edredom sobre a minha cabeça coberta de sorvete e cai na gargalhada. Eu sabia que meus gritos estavam extremamente histéricos.
Ele foi até os pés da cama e me puxou pra baixo.
- Para com isso! Para com isso! – Eu gritava enquanto ele começava a fazer cócegas nos meus pés. – Isso é tortura! Não vale! – Eu gargalhava muito alto e ele sorria vendo meu sofrimento.
- Foi você quem pediu. Ficou me provocando. Agora agüenta.
Meu corpo foi ficando mole, minha respiração falha.
- Pelo amor de Deus. Pára! – Supliquei com a voz baixa.
Ele parou sua tortura e sentou nos pés da cama, ainda me olhando e sorrindo.
- Você ta muito nojenta com esse cabelo cheio de sorvete. – Ele deu um sorriso largo.
- E você me deseja mesmo assim! – O provoquei segurando a gargalhada.
- Não mesmo. Você ta porca!
Sorri e me levantei rapidamente da cama e corri pro banheiro.
Apenas prendi o cabelo direito e sai.
- Vem comigo. – O puxei pelas mãos pra fora do quarto.
- O que? Aonde você vai assim? Mal vestida, suja, nojenta e porca? – Ele arregalou os olhos e eu tentei manter a minha seriedade.
- Te levar pra passear. – Sorri.
- Você ta é doida! – Ele gritou me segurando pelos braços. – Você ta horrível, nojenta.
- Você não vem comigo? Então eu vou sozinha. – Gargalhei entrando no elevador.
Não demorou muito, ele segurou a porta e entrou junto comigo.
- Amanhã você vai embora e eu nunca mais vou ver a sua cara. Espero nunca mais ter que pisar nesse hotel. Ta ouvindo, sua chata? – Ele me segurou forte pelas mãos.
Paramos no sexto andar, quando um casal entrou no elevador. Fomos medidos da cabeça aos pés. Nos entreolhamos e começamos a rir. Era uma situação engraçada.
- É simpatia. – deu com os ombros, me cutucando.
- Simpatia pra que? – Aquela mulher muito bem vestida me encarou espantada.
- Simpatia pra ela deixar de ser idiota. – Ele riu, dando um tapinha em meus braços.
- É. – Gargalhei assentindo com a cabeça.
- Agora a gente tem que ir. – Ainda gargalhando, o puxei pelo braço e saímos correndo.
Passamos rapidamente pelo salão principal, e em seguida pela recepção e fomos pra rua.
- Eu não acredito que você ta fazendo isso comigo, . – Ele ria alto, me fazendo rir também.
Ajeitei minhas meias nos pés e então saímos pela avenida. Ali sim estava bem movimentado.
segurava firme em minhas mãos, e andávamos rindo enquanto os carros passavam e buzinavam para nós dois.
Também, não era nada comum ver dois idiotas cobertos de sorvete e pipoca, despenteados, mal vestidos, andando numa avenida em plena onze horas da noite num sábado.
Soltei nossas mãos, o fiz abaixar e subi nas suas costas.
- Ah não! Agora você ta abusando, garota chata. – Ele resmungou, segurando nas minhas pernas.
- Não reclama. – Sorri, prendendo minhas pernas na sua cintura.
- Você tem noção do que ta fazendo? E esconde essa bunda ai. Não quero ver você mostrando seu cofre pra ninguém não.
- Ta com ciúmes? – Sussurrei baixinho no teu ouvido, debochando.
- Não. Só que você ta horrível demais, e ainda fica mostrando o que não deve. – Ele realmente estava com um tom sério na voz.
Encostei minha cabeça no seu pescoço e passei a língua de leve, pegando um pouco do sorvete que estava grudado na sua pele.
Um carro passou buzinando e gritando alguma coisa que eu não entendi o que. Mas fez com que ele ficasse puto com a situação.
- Desce. É melhor. – Ele me colocou no chão, segurou minhas mãos e então fizemos o caminho de volta pro hotel.
- Deve ser difícil pra você, né? – Abaixei a cabeça e suspirei.
- O que? – Ele me olhou sério.
- Aceitar o fato de que eu realmente gosto de você, e sua cabeça não estar em mim. – Soltei nossas mãos e sai andando um pouco mais a frente.
Eu não sabia por que eu havia dito aquilo. Eu só queria fazer valer à pena.
Ele veio atrás de mim, me puxou pela cintura e me encarou.
- Você sabe como eu sou. – Ele me olhava firmemente nos olhos.
- E eu não te culpo por nada. – Aumentei um pouco o tom da minha voz.
Novamente passou outro carro e disse outra coisa inaudível e eu não me importei mais uma vez.
Ele segurou meu rosto com força e novamente me beijou.
Eu não sabia o que acontecia ali, mas retribui.
Prendi minhas mãos entre os cabelos da tua nuca, puxando-o. Mordi teu lábio inferior e me senti presa a uma parede em seguida.
- Aqui não. – Sussurrei, separando rapidamente os nossos corpos.
Eu tremia da cabeça aos pés. Uma onda de adrenalina percorria as minhas veias e eu sentia o meu sangue ferver dentro de mim. Mais uma vez eu tinha errado, e eu sabia disso.
Corremos para o hotel. Agora, numa tentativa idiota de apostar corrida. Isso tava ficando cada vez mais ridículo.
Passamos correndo pela recepção, salão principal, e ofegantes e extremamente cansados entramos no elevador.
Encostei minhas costas na parede fria de aço e escorreguei meu corpo até o chão, esticando minhas pernas.
- Isso cansa. Muito. – Gemi e coloquei minhas mãos na barriga, puxando um pouco de ar que me faltava.
- Culpa sua. Sua maluca idiota. – Ele riu, estendendo as mãos para que eu levantasse. – Vem. Chegamos.
Segurei firme suas duas mãos, impulsionei meu corpo e me levantei.
- Eu preciso de um banho. – Falei, mexendo nos meus cabelos que estavam duros feito pedra. – E você também, porque ta fedendo. – Alarguei meu sorriso.
- Cara. Hoje você tirou o dia pra me encher o saco, heim ? – Ele riu e abriu a porta do quarto.
Entramos rapidamente, afim de não sermos vistos por algum hóspede no corredor.

Ele se sentou ao meu lado na cama, e então nos abraçamos fortemente. Apoiei minha cabeça no seu ombro e aproveitei aquele cheiro.
Nos afastamos, então ficamos nos olhando por alguns instantes.
- Obrigada. Ta bom? Por tudo. – Sorri, acariciando suas mãos.
- De nada. – Ele sorriu e me abraçou de novo. – E não chora, garota. – Ele secou aquela lágrima idiota que escorreu dos meus olhos.
Olhei para o relógio, 3h52 da madrugada. Ainda com a cabeça em seu ombro, não queria me desfazer daquilo.
- Você não vai hoje de novo? – Sussurrei.
- Pra casa? – Ele perguntou me encarando.
- É. Você não dormiu lá ontem e... – Suspirei – E, deixa pra lá.
- Você acha que eu não vou ficar com você hoje? – Ele sorriu enquanto mexia nos meus cabelos.
- Vai? – Sorri abertamente.
- Claro! – Ele me abraçou forte. – Mas sem comida na cara! – Gargalhamos juntos.
Nos ajeitamos na cama, apoiei a cabeça no teu colo, então ficamos assistindo alguma série que passava na tv. Pedi o controle-remoto para que eu visse o que passava.
Canal 89, Maxiprime, SKY. Nos olhamos e caímos numa gargalhada absurda.
- Deixa aí baixinha. Deixa aí. – Ele me cutucou gargalhando.
- Não! Isso é nojento. Para com isso. - Gargalhando, coloquei um travesseiro na minha cara. – Tira desse canal, seu nojento.
- Para com isso sua chata, olha que maneiro.
Tirei o travesseiro do rosto e apoiei minha cabeça novamente no seu colo. O encarei e novamente caímos na gargalhada.
- Cara. Olha que mina gata. – Ele colocou a mão na boca e riu.
- Bem bom ele han? Olha aquilo. – O provoquei, rindo, não tirando os olhos do filme. - Olha lá e aprende baixinha. Ó. Ó. – Ele me cutucava rindo.
- Tira sua mão de mim. Ah! Você é muito nojento. – me virei de bruços, ainda com a cabeça no seu colo. – Ah! E ainda fica nesse estado! – Sai da cama correndo ao sentir que aquele filme pornô nojento estava mexendo com o psicológico do meu garoto.
- Desculpa amor! – Ele falou entre as gargalhadas, ficando sem graça. – Volta aqui. – Ele estendeu os braços.
- Eu? Você ta é louco né? – Gargalhei. – E essa cama é minha. Se quiser dormir aqui, vai dormir no chão. – Me aproximei rápido da cama, peguei um travesseiro e joguei no chão. – Aqui ó. Bem aqui. – Eu já não agüentava mais o peso do meu corpo de tanto que eu ria.
- Caralho! Caralho! Mil vezes caralho! – Ele estava com os olhos vidrados naquela cena nojenta daquele filme nojento. – Olha como ela mete! Caralho garota! – Ele ria e olhava pra mim.
- Agora chega. Parou. – Desliguei a televisão com a mão e taquei uma almofada nele. – Para de ser nojento. Para. Eu te odeio. Você não presta! – Ergui o tom da voz, ficando seriamente irritada.
- . Você não ta puta de verdade. Né? – Ele se levantou e veio na minha direção. - Eu to. – Falei baixo, abaixando a cabeça.
- Desculpa. Desculpas – Ele me pegou em seus braços e me abraçou forte. – Eu só tava brincando.
- Não faz mais isso. É feio. – Belisquei sua barriga, nos afastei e deitei na cama.
Ele veio e se deitou ao meu lado em seguida. Apagamos as luzes e ficamos juntos, sem fazer nada, apenas aproveitando tempo que ainda nos restava juntos.

Acordei com o barulhinho chato do despertador do meu celular; 10h30m. Demorei a abrir os olhos. O sono pesava devido à noite anterior. Mas infelizmente era preciso.
Levantei e fui até o banheiro. Tomei um banho para me despertar e já fiquei arrumada para ir embora.
Ele ainda continuava dormindo. E eu gostaria de estar ao lado dele.
Em silêncio, comecei a arrumar as minhas coisas.
Juntei as roupas numa mala, logo fui até meu notebook; Ali, naquela pasta recém criada na desktop as fotos mais engraçadas de nós dois. Eu não consegui evitar um sorriso alto.
Desliguei-o e o guardei na mochila.
Malas arrumadas, agora era hora de acordá-lo.
- Ei. Criatura. – O cutuquei baixinho. – Acorda. – Beijei sua nuca.
Ele abriu os olhos devagar e se levantou assustado.
- Que horas são? Você ta atrasada? – Ele se sentou rapidamente na cama.
- Não. Ta tudo bem. – Sorri, encarando-o.
- . Olha. Você é uma maluca. Sabe disso, né? – Ele pegou minha mão.
- Sei. – Sorri. – E Bom dia pra você também. – Me deitei ao seu lado, apoiando minha cabeça no seu colo.
- E eu gostei pra caralho disso. Mesmo. – Ele mexeu nos meus cabelos e eu me arrepiei inteira.
Eu não sabia se ria, ou se desmoronava em lágrimas em cima dele.
Senti uma dor insuportável quando vi que faltava menos de duas horas para o meu vôo sair.
Ele se levantou e foi ao banheiro, voltando rapidamente.
Ficamos nos encarando e logo estávamos um nos braços do outro.
Ele segurou meus cabelos da nuca com tanta vontade que gemi de dor. Seu lábios depositaram mordidas e chupadas sobre os meus e eu retribuía da melhor maneira que pude. Suas mãos aos poucos foram soltando meus cabelos, escorregando sobre meus braços, costas e logo em seguida estavam na minha cintura, juntando nossos corpos.
Ergui um pouco meus pés e percorri seu pescoço com meus lábios. Eu precisava sentir novamente o gosto daquela pele. Eu precisava nunca mais me esquecer daquilo.
Em instantes fomos nos afastando com leves selinhos, e apenas nos olhamos.
- Nunca fui boa com despedidas. – Enxuguei meus olhos.
- Não fala assim. – Ele ria, me apertando fortemente.
- Você me leva pro aeroporto? – Perguntei baixo, entre soluços.
- Claro. Vamos indo então? – Ele se afastou, pegou minhas malas e minhas mãos.
Fechei a conta do hotel. Agora sim minha ficha estava caindo. A minha hora estava chegando.
Eu não sei se o veria de novo. Não sei se ouviria a tua voz insuportável falando ‘baixinha, chata, nojenta, porquinha, ronc’... Até aquele ‘amor’ e tudo aquilo que por mais que eu odiasse, amava.
Saímos rápido a caminho do aeroporto.
Coloquei meus óculos de sol, afim de tentar esconder as minhas lágrimas. Eu estava com medo de que nunca mais nos falássemos. Medo de ter sido só mais uma e que nada mudou na sua vida depois disso.
Chegamos correndo e já entramos. Talvez eu estivesse atrasada demais.
Fiquei algum tempo o encarando e suspirei.
- Obrigada, ta? – Esfreguei nossos narizes. – Você não me deixou sozinha aqui. E isso foi legal.
- Baixinha, baixinha. – Ele me apertou forte. – Eu fiquei feliz quando vi sua mensagem. De verdade. E você é foda, garota.
- Não diz isso.
O abracei mais forte, encostando a minha cabeça em seu ombro. Suas mãos percorriam as minhas costas, apertando-as levemente.
- Acho bom você ir, senão vai perder o voo. – Ele nos afastou de leve e me deu um selinho demorado.
- Droga. – Olhei pro painel, e realmente, estava na hora. – Er. . Obrigada. De novo. – Dei mais um selinho nele. – E ah. Tem alguma coisa no seu bolso. Tchau.
Sem olhar pra trás entrei correndo. Parei em algum canto e peguei ar. Chorar é uma desgraça. Não. Não. Eu não estava mais completa.

“We could've fallen in love”
Ps; ainda te quero.’

Epílogo:
Única coisa que ainda me restava dizer depois de um final de semana como esse, era que talvez teria valido a pena ter tomado tantos foras que nem tomei.
Aquele bilhete no bolso dele deveria ter feito algum efeito. Teria de fazer.
Eu esperava vê-lo de novo.
Fim!


Nota da beta: Qualquer erro na fiction, seja ele de português ou de script, mande um e-mail para annieb.ffadd@hotmail.com :D
beijos :* annie xx