
Autora: Júlia Pina.
Beta-Reader: Annie Brissow
Capítulo 1
“Hippies de cabelos compridos, vestindo camisetas tie-dye coloridas, se debruçavam para fora dos carros e acenavam.” – Aconteceu em Woodstock/Elliot Tiber
O Sol quase não aparece no céu ainda, e eu já estou dentro do armário. Não porque acho que vou parar em Nárnia, essa minha fase já passou. Isso acontece de semana em semana, quando eu perco meu DVD preferido, “Coraline”. Eu sempre o carrego comigo, porque, desde o dia em que meu irmão colocou-o sem querer na minha mochila da escola, e eu tirei nove no teste de Francês (o que é um milagre), eu acho que ele é meu amuleto da sorte.
Sempre o perco – não só ele, muitas outras coisas também – porque na hora que minha mãe se ataca e fala “eu quero ver o chão desse quarto agora” e me lança aquele olhar que significa “vou te matar, literalmente, se você não arrumar seu quarto”, eu enfio tudo no armário que ela não sabe que existe (ele fica dentro do meu armário original). E agora eu tenho que procurar meu DVD num bando de blusas com cheiro de cachorro – apesar de nós não termos nenhum animal em casa, exceto meu irmão, Joaquim – e sanduíches velhos e podres de danoninho de chocolate, já que a nutella tinha acabado.
Meu quarto não é bagunçado. Ele é assim, porque tem que ser, eu gosto dessa arrumação desarrumada. Tipo livros em cima da minha mesa, dá um ar de “eu leio muito”, apesar de não ser mentira, desenhos do meu irmão, pôsteres de bandas, e CD’s colados na parede, da um ar de retrô e “eu não gosto da cor bege da parede do meu quarto”.
Quando minha mãe comprou essa casa, ela resolveu não pintar as paredes, já que havia gastado bastante dinheiro no jardim. Ela disse que ele iria ser sua prioridade, e ficou lindo mesmo.
“Sponge Bob Square Pants, Sponge Bob Square Pants…” meu celular tocou. Sim, esse, é meu toque.
- Alô? – eu disse com voz rouca. Ela é horrível no telefone, e eu nem sei falar “Alô” direito, eu embolo o “L”, sei lá.
- ! Preciso falar urgente com você, – sempre diz isso.
é minha melhor amiga, é a única que me entende direito, e é daquele tipo que liga pra você três da manha só pra dizer que sonhou que estava casada com Robert Pattinson. Ela disse que era um sinal e ficou repetindo um milhão de vezes:
Pattinson.
Augusto Pattinson, esse seria o nome do filho deles.
- Nem me dá mais “oi” né.
- Ai , você é tããão sei lá, sabe?
- Cara, você não pode esperar até a escola?
- Não, é muito urgente. Sabe o Mário?
- Aquele que te pegou atrás do armário? – dei um risinho, minha mãe diz isso toda hora, e agora eu não consigo ouvir esse nome sem dizer isso.
- Aff, você consegue ser mais brega do que minha mãe, que piada é essa! Nem minha avó fala mais assim. – é verdade, a avó de tenta nos imitar, e fica falando “cara, radical esse celula” sendo que nós não falamos assim – enfim, ele falou com Bob, que falou com a Luisa que me disse que ele queria ficar comigo! Acredita nisso?
- Que idiota! Ele deveria ter falado direto pra você – disse franzindo a testa e vestindo o uniforme.
- Mais ele vai falar comigo hoje, lá na escola.
- , você gosta dele? Você nunca falou uma palavra com ele. Não deve nem saber como é a voz dele.
- Ai você sempre é assim? Me deixa. Tá, eu não gosto dele mais quero ficar com ele, com o problema?
- Nenhum problema, mais eu nunca ficaria com alguém que eu não gostasse. Argh.
- Eu não sou você, ai ... Preciso desligar, a gente se vê na escola.
- Eu também, pare de falar “ai ” toda hora.
- Pare de ser criança.
- Argh – desliguei o telefone e fiquei pensando. Mario não é aquele menino que tira meleca e passa na parede?
é como todas as meninas. Só sabe ficar com garotos, e nem se quer conhece direito. Eu não sou assim, e nunca vou ser. E tenho orgulho disso.
Sempre penso que vou achar um garoto que tem tudo a ver comigo, super romântico, e nós vamos nos apaixonar, e vou dar o meu primeiro beijo nele em algum lugar lindo, talvez em um píer, no por do sol, ou então em alguma floresta igual a crepúsculo, ou...
- venha comer seu café da manhã, você não quer que suas panquecas esfriem, não é? – grita minha mãe pela porta. Droga, tenho que correr, as panquecas ficam borrachudas quando esfriam.
Coloquei meu all-star amarelo, peguei meu Ipod, minha mochila e nem escovei o cabelo. Na frente, ele ta meio confuso, e atrás liso. Ninguém vai perceber que não escovei. Enquanto descia pela escada, fui sentindo o cheiro das panquecas da minha mãe. Ela só faz em dias de prova, pra me dar sorte. Eu nunca disse pra ela, mais sempre que como essas panquecas, eu fico com dor de barriga.
Vou direto para o laptop, preciso ver uma entrevista do filme Lua Nova.
- Já vai ligar o computador há essa hora ? – disse meu pai um pouco chateado. Meu pai e minha mãe odeiam quando eu uso o laptop, mais eles não entendem que eu preciso usar. É urgente.
- Eu vou começar a estipular horário pra você entrar ein – disse minha mãe me olhando pelo canto do olho – você tem entrado muito.
- É algum namoradinho que você tem escondido de nós aí, é?
- Aah não tem nada a ver, fala sério, tooodo mundo entra no computador, e fica a hora que quiser, porque só eu que não posso?
- Porque você não é todo mundo - disse minha mãe, como sempre. Sério, ela não tem outra frase pra falar não? Estou enjoada dessa. “Você não é todo mundo”
- Na minha época não tinha nada disso, e eu me divertia muito mais do que você se diverte hoje em dia – ah claro, isso porque ele não gosta de crepúsculo, quero só ver se ele gostasse.
Imagina meu pai, todo barbudo, dizendo:
Oh Bella, hahaha.
Pedro Swan.
Pedro Stewart, hahahah.
Meu irmão de um aninho veio correndo da porta me abraçar. Aww que fofo.
- Vem cachorrinho, vem – disse assobiando como se ele fosse um pug.
Ele resmungou alguma coisa e foi correndo pra sala.
- Isso, corre dessa bobona aí – disse minha mãe saindo da cozinha.
Olhei para as panquecas, e elas estavam em forma de coração, com chantilly em volta e granulado colorido por cima.
Ooount.
Enquanto com uma mão eu passava o mel na panqueca, com a outra eu clicava no vídeo, eu perdi quando passou na TV. Um viva para o YouTube.
Vou no “Twitter” falar com meus fãs. Eu tenho vários fãs, que não são meus amigos.
Minha lista de followers:
34 followers.
33 following.
Ta, na verdade é só uma pessoa desconhecida. Mais de qualquer forma, ela lê o que eu escrevo. Como se fosse um fã, não é?
“Lua nova é perfeito, um dia ainda vou lamber o Taylor Lautner (:” escrevi no twitter.
- Cuidado aí, seu bichinho – digo enquanto Joaquim vem correndo quase caindo.
- Hmm – resmunga olhando pro laptop, a não, ele vai dar o bote.
- Isso aqui não pode, ouviu? Você não pode mexer nisso aqui – disse como se estivesse falando com um cachorro, afinal, ele é praticamente um.
- Não, não – grita o pequeno agarrando o laptop pela tela.
- Solta isso Joaquim! Mamãããe vem cá – grito tentando tirar-lo do laptop.
- Pára! Não pode! – não consigo segurar o riso e dou uma gargalhada, nisso ele começa a bater no teclado. Meu Deus, meu irmão está possuído. Minha mãe chega e começa a fazer carinho na cabeça dele como se nada estivesse acontecendo.
- Também não pode bater no teclado, ele vai quebrar e sua mão vai cair se você fizer isso – imito o tom de voz da minha mãe de quando ela briga comigo.
- ele é bebê, não adianta brigar com ele porque ainda não sabe das coisas – o pug canibal, quer dizer, infobal, vai pra perto de minha mãe e da uma risadinha, safado. Eu não aguento e dou uma mordida em sua barriga.
- Gordo sem vergonha. – ele da um sorriso que revela seus dois dentinhos separadinhos que tem em cima.
Volto a escrever e percebo que a tecla “a” e “e” estão faltando. Olho para o assassino e vejo as teclas em suas mãozinhas.
- Pô mamãe, ele arrancou duas teclas – digo pegando as teclas de sua mão.
- Foi sem querer, para de agir como uma criança – disse ela pegando Joaquim no colo – Agora vai pra escola, não quero mais ouvir reclamações da diretora que você tem chegado atrasada.
“Tchu gnt, tnho qu ir pr scol”, escrevi no twitter, mais sem as teclas “a” e “e”, não da pra entender nada.
Por mais que meu irmão faça besteiras, eu sempre apoio ele. Eu me sinto como se fosse a mãe dele. Só por dentro, porque nós não nos parecemos nada. Eu sou branquela igual a uma lagartixa, e meu irmão moreno.
Uma vez em uma festa do amiguinho dele, tinha uma menina muito chata de uns três anos. Ela tava empurrando todos os bebês, e empurrou o Joaquim. Eu fiquei só de olho. Depois de um tempo, ela chegou pra ele e falou:
- Seu feio e bobo, sai daqui – disse ela empurrando ele. Eu fiquei com tanta raiva que parti pra cima.
- Você que é feia, ele é lindo – eu disse colocando as mãos na cintura. Ela arregalou o olho, e me imitou.
- Você que é feia.
- Você é bobona – disse minha mãe, rindo.
- Sua criancinha – eu disse rindo também. A menininha levou a sério e gritou.
- Você que é criancinha!
- HAHA, eu? Criancinha? – eu disse rindo.
- Criancinha! Criancinha! – disse minha mãe implicando com ela, saindo de perto com o quindizinho, que não estava nem aí.
Quando estávamos indo embora, ela puxou meu vestido, e a babá do Joaquim falou de brincadeira:
- Não puxa o vestido dela porque eu sou a babá dela – logo depois de dizer isso, a menina encrenca foi embora emburrada.
Outra vez, um menino na piscina gritou pra ele:
- Aaai, você tem cor de cocô.
Por pouco que eu não afoguei aquele garoto na água.
Desliguei o laptop, e fui pegar o lixo reciclado para jogar no lixão do lado de fora de casa. Parece ser idiotice e “oi, quero ser politicamente correta”, mais não tem nada a ver. Eu gosto de reciclar, é legal. Gosto de gostar do mundo, sei lá, é meio legal se preocupar com essas coisas. Eu me sinto uma voluntária que salva vida de leões marinhos, apesar de não fazer nada relacionado a isso.
Mas o mais legal disso, é que é uma das características dos hippies. Eu me sinto um pouco uma hippie. Tirando o fato deles se drogarem e fazerem coisas em público. Eles gostam da natureza, da paz, dos livros, da música... E eu gosto do estilo deles.
Dei uma mordida no bumbum de Joaquim, e disse a minha mãe:
- Tchau John Boy.
- Tchau Mary Anne, não pise no tapete! – gritou ela.
- Tapete é feito para ser pisado!
- Não esse. – se fosse pela minha mãe, nós não sentaríamos na cadeira para não estragar o tecido dela, não deitaríamos no sofá para não amassar ele, e não usaríamos o vaso sanitário para não gastar muita água com as descargas.
- Daqui a pouco não vamos poder pisar no chão – disse meu pai, pegando a chave do carro.
Capítulo 2
Não é só a voz dela que parece com um esquilinho, percebo. Ela também tem cara de esquilinho. – Tamanho 42 não é gorda./Meg Cabot.
Enquanto o carro corria, eu fui percebendo o quanto meu bairro é lindo. Moro em um bairro bem afastado do centro, e da escola. Fica de frente pra praia nossa casinha, literalmente. Num certo ponto de nosso jardim, a grama começa a virar areia. Após passar um portão de madeira grande – meu pai construiu, para o caso de uma maré MUITO cheia invadir nossa casa, o que é bem impossível, pois a distancia é de uns bons metros – andamos um pouco e aí está o mar. E só temos uns quatro vizinhos.
Estudo no centro do Rio de Janeiro. Por isso minha mãe tem que me levar até o ponto de ônibus, pra eu pegar uns dois ônibus. Mais vale a pena viver longe do comércio, pois temos mais paz. Á tarde quando chego da escola, eu só fico ali, no quintal deitada na rede. Ouvindo os passarinhos cantarem. É um ótimo lugar para compor músicas. A grama verde, o céu azul e o mar espelhado me da inspiração para tocar algo.
Um dia, talvez, escreverei um livro só descrevendo meu quintal.
Minha irmã mais velha, Priscilla, mora em São Paulo. Ela sempre tenta convencer minha mãe de se mudar pra lá, mais todos nós odiamos cidade grande, muito mais cidade como São Paulo. Só fui uma vez, mais tenho uma vaga lembrança de carros buzinando, homens de terno caminhando debaixo daquele Sol quente com expressões preocupadas, muitos prédio e construções. Os prédios lá eram tão altos, que nem dava para ver o céu direito. E verde, não tinha quase nenhum. O pior é que quem mora lá, ama.
Eu não conseguiria sair dessa tranquilidade que temos aqui. Dou graças a Deus que meus pais também não conseguiriam.
Chegamos ao ponto e meu pai faz uma coisa que parece uma fala de comercial para dentes brancos. Sei exatamente o momento que ele vai me dar tchau. Meu pai para o carro, se ajeita no banco, olha para frente apertando os olhos como se estivesse procurando por algo. Estala o língua e vira o rosto para dizer:
- Tchau Mary Allen.
- Tchau John Boy. – eu digo após ele, e lhe dou um beijo na bochecha para correr pro ônibus.
Entrando no ônibus, pergunto como está à garganta de Luisa, a motorista. Ela estava com pus na garganta de tão inflada que estava.
Eu praticamente conheço todos os motoristas de ônibus dessa região. Todo dia pego um transporte diferente. Ás vezes, minha vizinha, , me leva para um ponto bem perto do centro, pois ela vai comprar pão numa padaria perto de minha escola.
Já perguntei a ela, porque ela não compra pão da padaria que temos em nossa rua, mais ela insiste em dizer que aquela padaria é muito especial para ela. Parece que tem um senhor que trabalha lá, que ela é apaixonada desde que era adolescente, e nunca teve coragem de chamar ele para sair. Por isso ela faz questão de ir lá todo dia, para esperar o convite dele.
Ás vezes eu tento dar umas dicas pra ela, mas... Quem sou eu para dar dicas sobre amor, não é? Nunca tive nenhum caso com nenhum menino. Mais acho estranho, o fato de que nunca ter saído com ele.
Ah, outro fato de ela não gostar de ter apelidos é que, o senhor da padaria a chama de , desde a primeira vez que eles se falaram. Depois daquele dia, ela passou a odiar apelidos.
O ônibus deslizava rapidamente pelo asfalto, não havia muitos carros na rua. Era muito cedo ainda. Nunca tenho pressa para chegar à escola. Posso chegar uma hora atrasada e não ligo muito, até porque, é legal tentar passar pelo inspetor sem que ele me anote na lista de atrasados. Me sinto uma espiã, se alguém me ver, enfiam uma faca em mim. Pena que hoje estou no horário.
Chegamos à porta da escola, e passei minha carteirinha na máquina. Não sei pra que é preciso fazer isso. Ninguém vai pensar em fugir da escola pra ir a outra. Se alguém fugir, vai para alguma lanchonete, não para outra escola. Além do mais, essa maquina está toda enferrujada.
Enquanto passava pela roleta, eu procurava . Ela sempre chegava cedo e ficava lendo sentada no chão. Eu adoro ler, mas nunca acordaria mais cedo só pra ler. Odeio acordar cedo.
me viu e guardou o livro.
- EI! ! – gritou se levantando para dar pulinhos. São assim todos os dias que chego à escola. Só ela pra me deixar animada ás sete da manhã.
Fui até o lugar onde ela estava sentada, e entre gritinhos e pulinhos ela falou:
- VOCE NÃO SABE! – gritou ela – AAAAAAAAAAH.
- O que? – eu estava pulando junto com ela, sem nem mesmo saber o porquê.
- Eu vou AAAAAAAH – ela respirou profundamente e continuou. – EU VOU PARA LOS ANGELES AAAAAAAAH!
- AAAAAAAAAAAH – comecei a gritar junto com ela.
- Não! Você não ouviu a melhor parte! Meu pai tem um amigo que trabalha em Hollywood, e eu vou poder ver alguns famosos, tipo ROBERT PATTINSON E KRISTEN STEWART!
- Ai meu deus! – dei um pulo muito alto, e juro, foi o mais alto da minha vida.
- Eu sei!
- Sua vaca, filma eles dizendo alguma coisa pra mim?
- Filmo!
- Quando você soube que ia?
- Sabe hoje de manhã quando eu estava falando no telefone com você? – assenti com a cabeça e ela continuou – então, meu pai falou que tinha uma noticia que eu e você íamos amar! Daí ele me contou. Muito legal, né.
- Legal? Isso é desumano! É mais que legal!
- AAAH – ela apertou minha mão e seu rosto estava vermelho, parecia que ela estava em trabalho de parto ali na minha frente – será aquele meu sonho era verdade? Será que o Robert Pattinson vai se apaixonar por mim e nós vamos nos casar?
- AAAAAAAAAAAH!
- AAAAAAAAAAAAH! – uma garota idiota nos imitou. Mas de um jeito muito mais irritante e bizarro.
Nós duas ficamos olhando para ela como se ela fosse um gnomo do Papai Noel. Ela é daquele tipo de garotas que fazem escova no cabelo toda semana. Acho isso ridículo, porque, todos sabem que o cabelo dela é encaracolado. Eu odeio ir ao salão de beleza, principalmente aqueles que te dão uma pulseirinha com um número, como se você fosse uma ovelha pronta para retirarem seu pelo para fazerem algodão. Por que ainda insiste em fazer escova pra ir para a escola? Ela sempre nos olha como se nós fossemos umas formiguinhas, insignificantes ao lado dela.
- Tchau miguxaaas – ela mandou um beijo na maior falsidade e foi embora. Dá vontade de dar um sacode nela pra ver se ela para de ser tão fingida assim.
- Deixa ela pra lá – me disse desviando o olhar para sua bolsa, e começou a revirá-la – Olhe o que eu trouxe!
Ela tirou da bolsa uma revista de signos, não uma normal, mas aquelas que em cada signo, tem o rosto de alguém famoso. Eu não acredito no que os signos dizem... Mais sempre leio.
- Abre, abre! Quem ta no meu signo?
- Calma – abriu a revista, procurou seu signo, e quando achou, arregalou os olhos e começou a rir.
- Me diz, quem é?
- Não... Melhor não.
- Deixa eu ver! – eu disse puxando a revista.
- Sério, não vê.
- Qual o problema? Não deve ser tão ruim assim. Quem é? Alguém do Cine, ou, sei lá, a Miley – dei uma risadinha, e quase rasguei a revista.
- Espera, vou ver o meu.
- Não! Deixa eu ver o seeeeu – falei igual a uma criancinha.
- AAAAH! – começou a rir – pelo menos o meu é... Menos pior do que o seu.
Peguei a revista e vi o signo dela.
Escorpião: Kevin Jonas.
AAAAAAAAAA não acredito. Hahaha, nós odiamos os Jonas Brothers, pelo jeito certinho deles. Comecei a rir e procurei o meu.
Leão: Joe Jonas.
- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! – dei um peteleco na foto e começamos a rir. Ri tanto que caí no chão. Não consigo ficar em pé quando estou rindo.
- Levanta! Você parece um cocô, aí toda mole no chão.
- Acho que estou mais pra vomito. – eu disse olhando para o céu.
- Vou ler meu signo, shh – ela tossiu e começou a ler – Família: Em casa seu ano promete ser bem gostoso. Noooosa – riu e continuou – Uma boa dose de diálogos com as pessoas da família ilustre um ano positivo para um entendimento... Ah claro, um bom entendimento. Cara isso é surreal. O meu próprio signo não tem nada a ver comigo. Vou ler o seu.
está num momento difícil em casa. Seus pais têm brigado sempre, e ela acha que vão se separar a qualquer momento. Por isso ela tem caído nas notas, e eu, estou caindo com as notas sem motivos.
- Lê o meu! A parte do amor.
- Este será um bom ano para o amor. Você andou desanimada, apenas sonhando com amores imposíveis, ídolos inatingíveis...
- Caraaca, continua vai.
- Espera... Agora aparecerá o Taylor Lautner de Crepúsculo e te levará...
- Mentira que ta escrito isso – peguei a revista dela. Por um segundo eu acreditei.
- Hihi – ela continuou a ler – Agora aparecerá alguém que vai atrair seu interesse e poderá cativar seu coração.
- Nooossa, cativar meu coração.
- Isso me lembra o teste do livro do Pequeno Príncipe, que eu não li, e coloquei “cativar” em todas as questões. “Ele cativou a raposa”.
- Pior eu, que confundi a palavra cativar com castrar. E coloquei “O Pequeno Príncipe castrou a raposa”.
O sinal tocou, e nós fomos rindo para a sala de aula.
**
Já no último tempo da aula, quando eu estava quase dormindo pelo fato de a) acordar mais cedo do que todos da sala , pois eu moro muito longe da escola b) dormi muito tarde ontem c) é aula de geografia e d) o professor ta ficando tão doido por causa da idade, que no meio da explicação, esquece o que estava falando e começa desde o começo, uma pessoa me cutucou e eu virei pra trás.
- Otávio mandou te entregar – sussurrou Jorge, me dando um bilhetinho todo amassado.
Estava escrito:
“eae quer ficar comigo lá no posto depois da aula?”
O quê?
Uma raiva subiu pela minha barriga (pois é muito estranho raiva pela barriga, mais aconteceu comigo naquela hora). Fiquei com vontade de rasgar o bilhete e começar a gritar “uoouooouoo” e bater no peito tipo o Tarzan, ou começar a chorar e enfiar esse bilhete no... Ouvido dele.
Como ele tem coragem de fazer isso? Me mandar um bilhete todo fajuto, dizendo pra gente ficar no posto de gasolina numa letra e linguagem horrorosa. Eu nunca ficaria com ele. Nunca. Não que ele seja feio, na verdade ele é lindo. Mais ele é o garoto mais galinha desse universo, todas as garotas ficam com ele, e ele só pensa em idiotices.
Na sala de aula, ele chega e abraça uma menina com más intenções, depois passa a mão em outra, e no fim aperta o bumbum de outra, ela bate nele rindo, e saem correndo sei lá pra onde.
Eu nunca ficaria com alguém assim. Ele sabe que eu não ficaria. Todos sabem. Eu sou a única garota da sala que ainda não teve um namorado, ou pelo menos tenha ficado com alguém.
Olhei pra cara dele, e ele estava lá. Sentado olhando para o quadro, que não tem nada escrito, como se nada estivesse acontecendo. Como se ele tivesse me mandado um bilhete dizendo “ei, me empresta seu caderno de geografia no final da aula?”
O que ele acha? Que eu realmente vou aceitar esse “convite” chulo?
- ? – Agora que percebi que o professor tinha parado de falar e estava olhando para o bilhete em minhas mãos.
- Oo-oi – eu gaguejei.
- O que a senhorita está segurando em suas mãos? É um bilhetinho?
- Hm... não. – menti. Tive de mentir.
- Posso ver? – droga, droga.
Não.
- Claro. – dei o bilhete a ele.
Por favor, não leia. Não leia. Argh.
- Muito interessante isso. Não quer compartilhar com todos da turma, já que não é um bilhetinho.
Pois é, ele leu, e sabe que vou odiar se ele ler em voz alta. Meu rosto mostra isso.
- Não precisa ler, não é nada demais.
- Então porque estava mandando bilhetes em minha aula? – sua voz estava mais grave, ele nunca usou essa voz antes. Isso porque ninguém nunca se moveu um centímetro enquanto ele fala.
- Olha, eu não estava mandando bilhetes, Otávio que me mandou. – foi só eu dizer que todos se viraram e olharam para ele. Obvio que ele estava me odiando naquele momento. Melhor assim.
- Não importa, ou você diz o que esta escrito aqui – ele aponta para o papel em suas mãos – ou vou ter que te levar para a diretora.
- Está bem. – bufei e falei. – Otávio me chamou para ir para o posto com ele depois da aula.
- Só ir ao posto? – interrogou o professor com um olho mais fechado do que o outro. Ah qual é? Ele ta de brincadeira comigo, né? Daqui a pouco vai me perguntar qual o xampu que eu uso.
- Ficar no posto. – a sala inteira fez “uuuh”. Argh.
- Aê ein – gritou alguém la atrás. Que saco.
A aula acabou e todo mundo saiu correndo. Umas meninas vieram correndo para minha mesa e me cercaram.
- Então, , vai pegar o Otávio hoje, né? – disse Raquel piscando um olho pra mim.
- Claro que não. – eu disse revirando os olhos.
- Claro que vai, você só está fazendo charme.
- Charme? Eu fazendo charme para o Otávio? – bufei e falei. – Fala sério, por favor.
- O que houve? – chegou . Ela não estava na sala quando o professor me fez dizer o que estava no bilhete.
- Otávio quer ficar com a . – falou .
- O que? ? – estava piscando rapidamente e inquieta. Ela acha que eu vou?
- Eu não vou ! Fica calma.
- Ai, ai, ela ta se fazendo de difícil gente. – Mariana disse revirando os olhos para as outras meninas.
- Obvio que não. Nem sei me fazer de difícil.
- Viram? Ela ta caidinha por ele! – gritou Raquel, apontando para mim.
- Noossa, eu amo ele. – falei sarcasticamente e puxei para fora daquela sala.
Eu andava rápido e com passos fortes, parecia que eu estava marchando, minhas sobrancelhas estavam franzidas, e eu estava muda. estava me acompanhando, e me puxou.
- , me conta direito essa história. – ela estava aflita querendo saber o que aconteceu.
Contei para ela do bilhete, e da parte que o professor me fez ler em voz alta o bilhete. Ela ficou chocada. Nunca, ninguém passou bilhetes em sua aula, por isso, ele nunca alterou o tom de sua voz.
- Eu sabia que você não ia aceitar. – falou . – Você não é assim. Eu te conheço. Mais se fosse eu, até que eu pensaria...
- Por favor, pare de falar nesse assunto. – interrompi ela.
- Se fosse o Taylor Lautner você aceitaria? – disse rindo.
- Eu nem pensaria. – começamos a rir.
Sentei num banco para amarrar os sapatos, deve ter sentado ao meu lado, senti um movimento ao meu lado, e quando virei para falar com levei um susto.
- Eeei – disse Jorge com o braço nos meus ombros. Pois é, não era .
- Ah, oi – eu sussurrei, e duvido que ele tenha escutado.
- É melhor você correr, Otávio já foi pro posto.
- Eu não vou. – eu disse com firmeza.
- Menina, você é muito chata.
- Não to nem aí para o que você pensa.
- Então, resolveu ir? – chegou Mariana com as outras meninas.
Eu não respondi, fiquei quieta. Porque eles não enfiam em suas cabeças que eu-não-vou.
- Ela não vai. – disse .
- Cara, você é o que? Lésbica? Porque não vai logo no posto e acaba com isso. – disse Jorge se levantando do banco.
- Ai, claro que não sou – eu disse com uma voz enjoada. – araca, qual o problema de não querer ir?
- Ela ama o Otávio – disse Raquel para Jorge, que estava indo embora, e resolveu dar meia volta.
- O que? – disse ele chocado.
- Eu não amo ele, nem gosto dele. Que ridículo.
- Você disse isso na sala de aula , agora não tem como retirar isso, todas nós ouvimos. – falou .
Que raiva dela, eu já fui melhor amiga dela, mas do nada, ela começou a andar com outras meninas, e nunca mais olhou para a minha cara.
- Eu fui sarcástica. Vocês são burras demais para entender.
- Ah é, então nos diga, porque você não quer ir? – retrucou ela.
- Porque eu acho isso uma... besteira. – eu estava com uma vontade imensa de chorar. – Eu não quero ir, não gosto dele, e... eu só quero ir para casa e dormir, eu estou cansada...
- Aaah, tadinha dela gente, ela é um bebê – provocou Mariana.
O quê Mariana estava fazendo? Ela é minha amiga! Tinha de estar me defendendo.
- Não sou. – um nó se apertou na minha garganta, e minha voz estava falhando. – Ele nem gosta de mim. Só quer me beijar. Ele vai me usar, isso sim. Isso é ridículo, só quer ficar comigo porque faz muito tempo que não fica com ninguém, porque ele não se beija sozinho, já que ele se acha tão lindo assim?
- Você é uma criança , me desculpe, mais é – falou com as mãos pro alto. – você só sabe ver filmes, ler livros, tocar violão, e nem toca bem.
- É, o toque do seu celular é do Bob Esponja – disse Raquel revirando os olhos.
- O único menino que você já beijou foi seu irmão, de um ano só. E foi sem querer que você me disse. – disse .
- Qual o problema, e se eu não for igual a vocês?
Meus olhos começaram a se encher de lágrimas, eu mexia o nariz para não começar a chorar.
- , querida, você não é diferente de nós. Você é diferente de todas as meninas do mundo. Até a sua amiga é diferente de você. – falou Mariana apontando para .
- Seu DVD preferido é um desenho animado, você vive sonhando que um príncipe romântico e charmoso vai te buscar em um cavalo rosa...
- Não , o cavalo era branco – eu a interrompi.
- Viu só, você é uma criança. Um bebê. – aumentou o som, e pessoas começaram a nos cercar.
- Pára com isso, ela não é, vocês que são piranhas. – disse em minha defesa.
- Você não pode falar nada, porque você ficou com o Mário hoje, pensa que eu não vi? – falou Raquel com as mãos na cintura.
Eu estava com a cabeça baixa, mexendo no chaveiro de minha mochila, e as lágrimas estavam quase pulando do meu rosto. A única coisa que eu queria era ir para casa.
- Você nunca vai namorar ninguém, porque você é uma criança, garotos não gostam de crianças, eles gostam de meninas maduras, e bonitas. Você nem tem corpo nenhum, é pequena, magra, mais não tem perna, peito e nem bunda. Acha que alguém vai te querer? – disse . Eu odeio ela, ela que é feia. É uma gorda, e vaca.
- Acho que... – tentei falar, mais de tão mal educada que ela é, me interrompeu.
- Você só vai ter um namorado quando tiver dezoito anos, e vai namorar um nerd, porque vocês vão ter tudo a ver. – ela continuou a me azucrinar. A essa altura, já haviam várias pessoas em nossa volta, e estavam fazendo “uuh” e “aai”.
- Cala a boca! – disse .
- Olha só que brega, all-star amarelo. Ninguém usa isso, só você.
- Pois é Mariana, você era minha amiga, né? Deixa eu ver, até ontem você era. – uma lágrima escorreu em meu rosto. – é nessas horas que a gente vê quem são nossas verdadeiras amigas. São aquelas que, numa hora fala uma coisa, e depois fala outra coisa? Acho que não.
- Quando eu menti? – Mariana falou apontando para si mesma.
- Meu tênis. Quando eu comprei, você disse que tinha amado, e até comprou um laranja, cadê ele? Não usa mais?
- Eu nunca gostei de tênis colorido.
Claro que ela gostava. Um dia nós compramos um all-star branco e pintamos ele de todas as cores, e até colamos recortes de revistas nele. Depois pintamos nossas unhas, uma de cada cor e pintamos a unha do meu irmão, sem minha mãe ver. Ele amou, e depois ficou pegando os esmaltes e me dando como se fosse para pintar de novo.
- Pois é, você não é verdadeira, não tem gosto por conta própria. Sempre precisa de alguém para imitar.
- Veja pelo lado bom , ela se veste muito melhor agora. – falou .
- Ela gosta das mesmas coisas que eu. Ela deve estar odiando esse penteado que vocês fizeram nela.
- Seu cabelo que é horrível, olha só, nem penteia ele. Ninguém gosta de cabelo bagunçado.
- Eu gosto, e o seu, que nem natural é. – eu falei puxando o cabelo dela.
- Não toque em mim, você ainda chama sua mãe de mamãe, aaah olha só gente que bebezinha.
- Não vejo nenhum problema nisso, minha mãe também chama a mãe dela de mamãe. Isso é uma forma carinhosa de se chamar a mãe, se você não tem amor pela sua, então o problema...
- Toda a sua família tem problema, agora sei de onde você puxou. Sua família é idiota igual você. – VACA.
- Cala a boca, você não fala assim da minha família, sua voz me irrita, sua vaca. – eu gritei, e empurrei ela com muita raiva, apesar de ter sido fraco meu empurrão. Mas se tacou no chão.
Silêncio total.
- Ai, aai. – ela começou a gritar. – Meu tornozelo, ela torceu meu tornozelo!
- Que falsa você, eu nem te empurrei com força. Você se jogou no chão. – eu disse franzindo a testa.
- Aaaai, ta doendo muito. – ela começou a chorar.
- Olha só o que você fez com ela. Satisfeita agora? – disse Jorge carregando ela no colo.
- Ela tem inveja da sua perna , só isso. – disse Raquel consolando a amiga.
Todos começaram a cochichar, e estão olhando feio para mim. Como se eu tivesse matado a garota. Ela é muito fresca, eu nem empurrei com força, e todos estão tratando ela como se fosse uma princesa.
Isso me deixa muito irritada. As lágrimas dos meus olhos começaram a descer.
- , para de chorar, seu rosto está vermelho. – sussurrou Jô para mim.
- Não consigo... – não conseguia parar de chorar, e minha voz não saia.
Todos começaram a me xingar, as amigas dela, pessoas que nem sabem o que aconteceu... a escola inteira me odeia agora.
Meu choro ficou pior e comecei a soluçar. Eu sou odiada pela escola inteira.
Quando algum aluno novo entrar, todos vão falar “ei, ta vendo aquela garota pálida ali? Então, não chega perto porque ela bate.” Vão começar a usar camisas debaixo do uniforme dizendo “eu odeio a Mendes”.
Socorro.
Peguei minha mochila que estava no banco, e corri para fora daquela escola. Enquanto eu tentava passar entra a multidão de gente que tinha se juntado á nossa volta, eu ouvia pessoas falando mal de mim.
- Isso bebezinha, vai embora chorar no colo da sua mamãe.
- O que você vai fazer quando chegar em casa? Ver cinderela pela décima vez?
- Aposto que ela beija mal, por isso que ninguém quer ela.
- Corre, senão vai perder o ônibus para o interior.
Eu estava chorando muito, e minha mão pressionava meu rosto pra ninguém ver o quanto vermelho que ele estava.
Peguei logo um ônibus e chorei pra valer, ninguém me conhecia naquele ônibus. Poderia chorar a vontade e ninguém ia saber o porquê, poderiam até pensar “ah coitadinha, deve ter tirado nota baixa”.
Isso mesmo, vou pegar um teste que colei no caderno e vou ficar olhando pra ele. Pra fingir que tirei nota baixa. Até porque, meu pai não precisa saber o que ouve na escola.
Realmente, não sei mais o que fazer. As meninas da minha sala não me entendem. O ponto de vista de diversão para elas é totalmente diferente do meu. Eu queria fugir. Ir para outra cidade.
Pelo menos tenho minha família. Meu irmão, Priscilla e . Eu posso viver só com eles. Quem precisa de namorado? Ou de amigas, no plural. Se for pra ter uma amiga que pareça um vegetal, é melhor não ter. Uma pessoa vegetal é que aquela que... você passa o recreio com ela, chama ela para ir pra sua casa, mas não tem assunto com ela. A única coisa que tem pra falar é sobre o tempo, ou da dificuldade que teve para fazer a prova de história da semana passada.
Encostei minha cabeça no vidro do ônibus, e fiquei pensando. Não preciso de uma vida social. Acho que vou começar a me isolar do mundo, e começar a escrever um livro, compor músicas, ou começar a cozinhar pra valer. Nunca mais vou sair de casa, e os pêlos de minhas axilas vão ficar imensos, iguais cipós que o Tarzan se balançava, já que não vou ao salão me depilar. Até que é uma boa idéia. Joaquim iria amar ter um cipó ambulante em casa.
Capítulo 3
Meu pai me deixou na porta de casa, e foi para o trabalho. Até que ele foi bem compreensível e não ficou perguntando sobre o que houve na escola, porque ele descobriu que meu teste era do bimestre passado. Eu entrei no carro, e me joguei no banco de trás e fiquei deitada segurando o teste para cima. E meu pai disse:
- Nota baixa de novo? – Ele disse olhando pelo retrovisor, eu nem respondi, ele pegou o teste da minha mão e falou. – Sabe que é do bimestre passado, não é?
- Sei. – respondi, e meu pai entendeu o recado. Não deu uma palavra no caminho inteiro.
Toquei a campainha e ouvi Joaquim. Minha mãe abriu a porta e voltou para o fogão, para continuar a cozinhar. Joaquim continuou na porta.
- Vem cá meu gostoso. – corri atrás dele, e ele fugiu para meu quarto.
Sentei na cadeira e fiquei olhando minha mãe. Todo dia ela faz o almoço, e o jantar. A comida dela é a melhor do mundo inteiro. Não falo isso só porque sou sua filha. Minhas amigas, e os amigos do meu pai também dizem isso.
Ela é muito talentosa. Quando não está cozinhando, ela trabalha no lado artístico dela. Faz pinturas, com pincel, com o dedo, com qualquer coisa, sempre saem lindos. Mamãe faz vasos de barro também. Em cima dos armários da cozinha, há diversas casinhas de passarinho que ela fez, e pintou. No cantinho tem umas deformadas que eu tentei fazer, e Joaquim pintou, com ajuda do meu pai, é claro.
Nossos gostos são os mesmo, a única coisa que nos separa, é que ela é minha mãe, tem seus problemas, e eu, a filha, só sabe reclamar e atrapalhar.
Ás vezes eu fico pensando, como será que minha mãe era na minha idade? Ela é bem parecida comigo. Mas não sei se era boba como eu.
Sim, eu sou muito boba.
- Mamãe, posso te perguntar uma coisa?
- Claro. – ela me olhou e continuou a mexer na panela.
- É uma pergunta meio estranha, sei lá. Mas, com quantos anos você teve o seu primeiro namorado?
Ela colocou a colher de pau na panela, jogou um tempero na comida, e virou-se para mim.
- Não sei, talvez com uns 15 anos.
- Eu tenho quinze anos. – falei meio constrangida.
- Você ta namorando? – ela abriu um sorrizinho, mas seus olhos eram de pena, tipo “minha filhinha está crescendo”. Pena que ela está errada.
- Não, não mamãe. – eu ri. – eu só queria saber.
Ela sorriu e pegou uma faca na gaveta para cortar o alho.
- E com quantos anos você deu o seu primeiro beijo?
Dessa vez, ela não se virou. Ficou quieta um pouco, sem mexer na panela, só olhando para o molho que estava borbulhando.
- Ah , eu não me lembro. Foi há muito tempo.
- Mas você deveria se lembrar do seu primeiro beijo, é uma coisa tão especial, com uma pessoa tão especial.
- Não foi um garoto tão especial assim. – ela secou as mãos no avental que ela mesma pintou, e tem minhas mãos e as de Joaquim pintadas nele.
- Como não? – eu arregalei os olhos.
- Depois conversamos, pegue o seu irmão e venha almoçar.
Não acredito nisso. Minha mãe beijou qualquer garoto. Ela nem se lembra dele. Como pode?
Chamei o Joaquim, e minha mãe deu comida para ele enquanto eu almoçava. Depois ele foi dormir e minha mãe puxou uma cadeira na cozinha e me chamou para conversar com ela.
- , o que eu quis dizer, é que você é... como posso dizer? – ela balançava as mãos procurando por uma palavra que não me magoaria.
- Iludida. – eu falei com uma voz seca.
- Não, não é isso. Mas você acha que tudo é um conto de fadas. Que vai achar um garoto perfeito, e vão se apaixonar, se casar e ter filhos.
- Eu não acho que tudo é um conto de fadas.
- Minha filha, eu só queria que você aproveitasse mais a sua idade. – ela colocou a mão em cima da minha.
Ah qual é? Agora ela quer que eu seja igual à e as outras meninas? Se eu fosse igual a elas, que saem de casa todo dia, e chega super tarde. Ela ia ficar louca.
- Às vezes eu acho que a culpa é minha, de você ser tão na sua. – ela disse. – Eu sempre te falei que você só deveria namorar quem você realmente gostasse. Mas você entendeu de um jeito diferente.
- A culpa não é sua, e eu não entendi diferente o que você quis dizer. Eu só sou assim, qual o problema? – o nó na minha garganta voltou e eu comecei a chorar. – Eu não quero namorar, não quero ter amigas falsas, não quero nada disso. Não vou mudar. – levantei da cadeira e corri para meu quarto.
Não quero mais ficar nessa casa. Não quer estudar mais nessa escola. Quero fugir.
Peguei meu gorro de aviador, que é de couro marrom e tem até um óculos todo velho na cabeça. Amo usar ele, eu me sinto uma participante do desenho Corrida Maluca. Tirei o uniforme e coloquei uma blusa verde musgo com um bonequinho da marca Kidrobot, que ele está todo quebrando, cheio de gesso, e está segurando uma plaquinha dizendo “No wars, please”. Vesti uma calça skinny preta rasgada e coloquei de volta o all-star amarelo.
Pretendo ir para , que é uma ilha pequenininha, que fica a uma distância bem pequena de meu jardim. Essa ilha não pertence a ninguém, por seu tamanho ser tão pequeno, ninguém se importa com ela. Então eu digo que ela é minha, e meu pai colocou o nome de , que quer dizer mais peace, por eu só ir lá quando estou irritada, e voltar tranquila. Ela fica no meio do mar, e com isso, eu uso meu botinho laranja para ir. Ele já vem com motor, mas eu prefiro remar. E eu não estou nem aí de não usar roupas adequadas como biquíni, camisas leves ou short. Vou de calça de tênis porque gosto de explorar a ilha, e quando eu escorrego na trilha, a calça não deixa que eu fique com o joelho todo ralado.
Coloquei o violão nas costas, e a palheta no bolso, junto com o Ipod. O bote é grande, e cabe tudo isso, mas duas pessoas. Sei disso porque e Mariana já foram comigo para a ilha, e o violão.
- Vou para . – eu disse a minha mãe e ela fez uma cara de cachorrinho que sabe que estou chateada.
Abri a porta de vidro dos fundos de casa, e saí pelo jardim. Olhei para o céu e o dia estava legal para ir a . É horrível quando está chovendo, porque o mar fica meio revoltado.
Passei pela grama vendo se as acerolas já tinham brotado para fora, mas nenhum sinal delas. Começou a chegar à areia e eu desci as escadas. Meus pais colocaram areia numa parte em que a grama acaba, para fingir que é a praia. Nossa casa fica numa parte elevada, para o mar, quando ficar com a maré cheia, não invadir nossa casa. Então eu pedi para fazerem escadinhas para o acesso ao mar.
Coloquei o violão no bote, e desamarrei a corda que o prendia em nossa escada. Peguei os remos e comecei a remar em direção a ilha.
O mar estava lindo nessa tarde, e o bote fazia meu barulho preferido, deslizando na água. O cheiro era maravilhoso também, o sal do mar, com a madeira do remo. Olhei para os lados, e nenhum sinal de vida no mar. Quer dizer, sobre o mar. Daqui só dava para ver minha casa, a casa de , e os outros vizinhos, que nunca estão em casa.
Eu estava no meio do caminho, e parei de remar. Fiquei ali, parada, ouvindo o barulho do bote, e os passarinhos de cantando. Não se ouve nada mais. Nenhuma reclamação de meu comportamento, nenhuma televisão dizendo notícias ruins, nenhum bebê chorando porque não quer comer, nada.
Quando se está no meio do mar, seus problemas somem.
Desaparecem.
É como se eu tivesse passado a minha vida toda sentada naquele bote, de olhos fechados. Na minha cabeça, o mar tem poderes. Assim como também tem.
Abri os olhos, e continuei a remar em frente.
Capítulo 4
Chegando à areia de , arrastei o bote mais pra dentro da ilha, para o mar não levar ele embora. Amarrei-o numa árvore e peguei meu violão. Olhei as caixas de correio como de costume, sei que parece irônico, mas às vezes me sinto naquele filme “A Casa do Lago”, que eu só fui entender um mês depois. São quatro caixas de correio de madeira, que eu e meu irmão pintamos. A maioria das minhas coisas é pintada por mim, como minha cama, armário, escrivaninha...
Sentei na areia, e peguei meu violão. Está quente demais para ficar aqui. Cheguei mas pra perto das árvores, onde faziam sombra. Olhei para trás e vi o resto da “floresta” da ilha. Eu nunca fui para aquele lado, pois minha mãe não deixa. Ela gosta quando eu fico desse lado, nem sei o porquê.
Minha mãe. Outra pessoa que não pensa como eu. E de pensar que eu a achava idêntica a mim.
Quer saber? Eu vou pro outro lado da ilha. Não vai ter nada estranho lá. Ninguém vem nessa ilha, ninguém mora aqui, e eu não vejo problema nenhuma de dar uma exploração pela ilha.
Eu sempre quis fazer isso. Peguei meu violão e entrei no meio das árvores. Era como uma florestinha mesmo. Passarinhos cantavam, e até ouvi algumas cigarras. Urgh, eu não gosto de cigarras. Há várias pedras grandes entre as árvores, e o chão não é mais areia. É como uma terra, ou até uma areia mais escura. É possível. Cheguei ao outro lado da ilha, e sentei na areia, cansada de tanto andar. Tirei meu chapéu de exploradora, acabei de decidir que vou usá-lo sempre que for explorar algum lugar novo, ajeitei o cabelo e o coloquei de novo. Esse lado de é muito mais lindo. Você não vê nada, além do horizonte. Ele é a única coisa que consigo ver, nos lados, e na minha frente. Do ponto que estou, eu me sinto numa ilha no meio do mar aberto, como se fosse uma náufraga, e não a alguns metros de casa.
É tão bom olhar para frente, e não ver nada. Só o mar, e uma linha, dividindo-o do céu. Parece que a terra acaba ali, naquele ponto. Como se no encontro do mar com o céu, há um grande vidro que ninguém passa dele.
Peguei meu violão para tocar sobre isso. Talvez eu faça uma música.
O mar e o céu, do outro lado de
São como...
Como o que? Não, não.
Com o violão nas costas, e o chapéu na cabeça.
Não, sabe, o chapéu fica no pé...
Ai ta ridícula minha letra.
Acho melhor eu achar um ritmo no violão, depois crio uma letra.
Baixo, baixo, cima, baixo, cima. Baixo, baixo, cima...
- Quá.
Ahm? O que foi isso?
Olhei em volta e não vi nada, voltei a tocar e violão e ouvi de novo.
- Quá, quá.
Levantei a cabeça rapidamente pelo susto. Quáquá? Um pato aqui? Meu olho passou por cada cantinho da ilha a procura de... algo. O que me dava medo. Eu não estava acostumada a ver ninguém nessa ilha.
Um filhote, muito lindo, pequenininho, de pato veio vindo em minha direção, e parece estar perdido. Estranho um pato, aqui em , que é uma ilha tão pequenininha, e no meio do mar. Como ele veio parar aqui? Nadando? Patos nadam no mar? Quando chegar em casa vou ver isso no Google. Realmente, muito estranho. Geralmente patos ficam em laguinhos de parques, onde os bebês dão pão para eles comerem, e não numa ilha.
É a mesma coisa que ver um pato na praia.
Ele me lembra o pintinho que eu tive quando tinha cinco anos, eu ganhei na escola no dia das crianças e meu pai olhou pra bichinho com uma cara de “caramba vamos ter que cuidar dessa coisa”. Até que um dia quando eu fui fechar a gaiola, eu fechei na perninha dele. Eu fiquei triste por algumas semanas, eu o amava, pensava até que ele era meu filho de verdade, achava que a cegonha tinha me dado já fui uma boa menina no ano todo.
Owwn, ele é tão... amarelinho.
- Ooown, vem cá seu lindinho. – eu disse com o mesmo tom de voz que falo com meu irmão. Se ele estivesse aqui, a cabeça do pato já estaria na boca dele – Você é muito fofo sabia?
Peguei-o com muita delicadeza e aninhei em minhas duas mãos.
- Cadê a sua mãe? Você não tem? E seus irmãozinhos?
- Quá – disse ele me olhando. Isso foi assustador.
- “Eu sou um pato sozinho, fique comigo”. – tentei fazer uma voz de pato para fingir que é ele que estava falando, mais pareceu mais uma ovelha ou um bezerro.
- Então, se você esta sozinho, eu fico com você. – dei um sorrisão pra ele.
Coloquei-o ao meu lado e falei.
- Você precisa de um nome. – coloquei o dedo em minha boca para pensar e continuei – que tal Jerry?
Ele continuou sentado na mesma posição de antes.
- Ou Wood? Cara, to sem criatividade para dar um nome para um pato. Pra cachorro é fácil, sempre tem os originais tipo, totó, lulu, lili, mel... mas pra pato? Não tenho a mínima idéia.
Ele me olhou como se eu fosse uma maluca. Não estou muito longe disso...
- Que tal Timy? Esse é legal. – disse a ele, e o pato ficou dando voltas como um cachorro corre atrás do próprio rabo.
Depois de dar um nome a ele, nós “brincamos” o dia inteiro. É uma experiência engraçado, você virar amiga de um pato. Ele parece um humano, nós brincamos de pique esconde, na verdade eu brinquei, porque quando eu me escondia, ele ficava agoniado e começava a gritar (na língua dos patos, ou seja, “qua qua”) e por isso eu tinha que reaparecer.
Demos uma volta inteira na ilha, e no final desmaiamos na areia de tão cansados que estávamos. Obviamente eu estava mais cansada, pois no meio do caminho eu fiquei com pena dele, e o carreguei em meu ombro, como um papagaio de pirata.
Estava entardecendo, o céu estava ficando meio laranja, um pouco rosa. O Sol estava se pondo, e o mar brilhava sob seu reflexo.
Ali estávamos, eu e Timy, sentados apreciando a vista. Pelo menos eu estava. Um vento quente e abafado, porém forte, passou por nós. Seus olhinhos fecharam, e ele pareceu suspirar. Um comportamento estranho para um pato.
- Sabe Timy, eu sempre quis achar um amor. Algum... menino que me amasse de verdade, e passasse um dia num lugar como esse. – olhei para Timy, e ele retribuiu o olhar – Sentada em algum parque, só nós dois e o pôr-do-sol. Depois de ter um dia, só rindo com ele. Esse é o meu maior desejo, e tenho certeza de que, se alguma fada madrinha aparecer, ou um poço dos desejos brotar no chão, esse será o meu pedido. Meu sonho é conhecer algum garoto romântico, que não fique comigo só porque queira me beijar, alguém que seja carinhoso comigo, engraçado... e tem que ser lindo claro. Mais só conheço meninos bobos. – dei um risinho, e percebi que Timy tinha se levantado.
Ele estava... alegre. Mexendo o rabinho e balançando a cabeça. Parece que ele quer me dizer algo. Será que ele é um príncipe que estava enfeitiçado esse tempo todo, e tudo que precisa é de um beijo para se libertar da maldição?
Haha, Até parece.
Timy ia até a beira do mar, e voltava, diversas vezes.
- O quê foi?
Ele estava agoniado. Será que queria me mostrar algo? Eu deveria segui-lo?
Timy veio até meu violão e tentou arrastá-lo. Claro que não conseguiu.
- Timy, o que é?
Ele veio até minha mão, e empurrou seu bico em minha mão, levantando-a, depois foi até minhas costas e fez a mesma coisa, mais eu não levantei. Com a derrota, ele pegou minha palheta com a boca, que estava entre meus dedos.
- Cuidado com isso, você vai engolir – arregalei os olhos e fiquei com minha mão perto de sua boca, para retirar a palheta a qualquer momento.
O pato saiu correndo em direção ao mar. Com a minha palheta dos Beatles!
- Ei, volta aqui! – levantei e corri atrás daquele pato doido. Apesar de eu ser outra doida por conversar e correr atrás de um pato.
- Sério Timy, me devolva a palheta. – me senti como se estivesse brigando com meu irmão Joaquim.
Por mais que ele seja pequenininho, ele corria muito. Ele é rápido. Ou eu sou lerda, até porque faz anos que eu não faço atividade física. Essa é uns dos fatos de eu não ter músculos nenhum, e ser tão pequena. E de não ter pernas grandes.
Parei de correr, pois, não havia saída. Timy já estava na beira do mar, e ele não iria entrar.
Entrou. Droga.
Claro que entrou, aliás, como ele chegaria nessa ilha se não fosse pelo mar? Ele veio voando do Sul? Haha, patos não são como pássaros.
Tive de entrar na água, e ela já estava ficando fria, o céu estava escurecendo aos poucos. Um pouco mais rápido do que o normal pra falar a verdade.
Estava difícil de locomover na água, pois minhas roupas ficaram muito pesadas, e a água do mar se revoltava contra o vento, fazendo carneirinhos na água.
Enquanto eu gritava:
- Não se atreva a ir mais longe, você vai perder minha palheta do John Lennon!
O problema é se ele engolir ela. Teria de ser feito uma cirurgia para tirar uma palheta de dentro daquela barriga minúscula dele. O que não é uma má idéia...
Ah não, eu realmente não ia perder minha palheta preferida, que minha mãe conseguiu com muito esforço. Não para um patinho.
Eu estava a centímetro do pato atrevido, quase encostando a ele, quando pisei em algo estranho na areia. Torci para que fosse uma concha, e não um caranguejo. Timy nadava com as patinhas, para longe de onde eu dava pé na areia, e de vez em quando olhava para trás, para me ver. Como se ele estivesse tendo certeza se eu o estava seguindo. De repente eu já estava movimentando os pés na água para não me afogar.
Consegui chegar perto do pato de novo, e, afundei na água para pegar impulso, e pulei para fora da água, me jogando em cima do pato e...
Ai.
O que é isso?
Quando me joguei sobre o pato, eu imaginei pegar ele, afundar na água, pra depois levantar e voltar para a ilha.
Mais o que aconteceu?
Caí na areia seca. Eu estava seca. Estava deitada de barriga para cima, minha cabeça doída, por um... Estranho impacto na areia. Mais o que aconteceu direito? Eu estava no mar, molhada, com Timy.
O pato. Onde ele está?
Sentei na areia, apalpei minhas pernas, e estavam totalmente secas. O céu não tinha escurecido totalmente, ainda estava levemente roxo. Olhei em minha volta procurando Timy, onde ele está?
Levantei e olhei para o mar. O mar estava calmo, paralisado. E sem o Timy.
Isso é muito estranho.
O pior de tudo, é que perdi minha palheta. O que vou dizer a minha mãe? Que um pato em pegou ela e foi pro mar, e num estante eu estava na areia, seca, e o pato tinha sumido? Claro que não.
Peguei o violão e resolvi voltar para casa. Atravessei todas aquelas árvores de novo, e fiquei olhando para a areia marrom virar branca. A outra parte de é tão legal, não sei como eu nunca fui. A partir de agora eu vou sempre para o outro lado.
Olhei para frente para ver minha casa.
Não era minha casa.
Ai meu deus, o que fizeram com ela? Não vejo o portão de madeira, nem a areia, muito menos o jardim.
Pulei no bote e fui remando rápido até minha casa. Um ladrão pode ter entrado e ter nos roubado. Meus braços começaram a doer, eu estou acostumada a remar devagar, quase parando. Quanto mais eu chegava mais perto, mais eu via que aquela não era minha casa.
Ah não. Nem a escadinha tinha mais. Onde está minha casa? Será que essa ilha se moveu? E essa é a casa de outra pessoa...
Cara, essa é a minha casa. Eu to igual a uma maluca aqui, mas, essa casa tem as mesmas paredes, e cor da minha. Mas de um jeito, muito diferente.
Cheguei bem perto e pensei em como subir ali. Não tinha a escada que meu pai fez. Peguei impulso no bote, e subi no terreno. Deixei meu Ipod no bote e saí correndo para a casa. Abri a porta dos fundos, que não é de vidro, como de costume, e entrei na casa.
É a minha casa.
Mas não é.
Os móveis são velhos, antigos. Mas não aquele antigo mofado e sujo, parece que essas coisas acabaram de ser retiradas da caixa. Tem um telefone, que o modelo é velho, e eu tenho em meu quarto, mas ele está todo sujo e velho. Esse aqui é verde claro, e está novinho.
- Mamãe? – gritei e fiquei quieta, sem respirar para ouvir sua voz.
- Filhota? Me chamou? – uma voz estranha saiu do andar de cima.
Filhota? Essa não é minha casa, e essa não é a voz da minha mãe.
Fui correndo até a porta e saí rápido da casa, antes que achem que vou roubá-los.
Olhei para frente e não vi nada. Nada. Geralmente, quando saio de casa, tem umas casas ao lado, e umas em frente. Tem bancos, uma padaria com um logotipo brilhante. Mas agora não vejo nada.
Só árvores. E essa casa.
Ai meu deus. Onde estou? Que lugar é esse?
- Oi? – uma voz surgiu atrás de mim e eu dei um grito. – Desculpe, te assustei?
- Ah meu deus. – coloquei a mão no coração, e ri. – é que eu estou um pouco assustada, só isso.
- Meu nome é . – ela disse me analisando da cabeça aos pés. Eu fiz o mesmo com ela.
Ela é bem estranha. Deve ter a minha idade e parece uma daquelas meninas de filme dos anos 80, que você vê com sua mãe e ela dá um ataque histérico dizendo “eu me vestia exatamente assim”. estava com uma blusa branca debaixo de uma calça legging azul e um tênis de corrida, com a meia lá em cima. Detalhe que a calça, vai até o umbigo. Seu cabelo é bem cheio, e está toda maquiada.
- Eu sou . – eu fiquei olhando para ela de boca aberta, e ela também estava com a mesma reação.
- Olha, porque você está vestida assim? – ela franziu o nariz. – sua calça está rasgada, quer que minha mãe costure? Ela é massa nisso...
- Não, a calça é assim mesmo. – dei um sorriso.
- Rasgada? – ela estava paralisada. – Chocante.
- É. – cocei a cabeça. – Sabe onde estamos?
- Não sei direito, mas acho que essa rua é a Náutico da pedra.
Ahm? Não pode ser. Essa é a minha rua. Mas isso aqui não se parece nada com ela.
- Sabe quem mora nessa casa? – apontei para a minha suposta casa.
- Eu! – ela sorriu. – não, na verdade, minha mãe acabou de comprá-la, mas nós não moramos aí. É só uma casa de “verão” – ela fez aspas com os dedos.
Estou perdida. Literalmente perdida. O que vou fazer agora? Estou sem casa. Não reconheço minha rua. Estou conversando com uma maluca. Isso tudo depois de passar a tarde o outro lado de ...
. Timy.
Será que aquele pato tem algo relacionado a isso? Bom, desde o começo eu já sabia que ele não era um pato comum. E depois que ele desapareceu, fiquei mais desconfiada ainda.
Ai meu deus, o que aquele pato fez comigo?
- Seus pais estão por aqui? – perguntou. O que eu iria falar?
- Eu estou perdida – sentei no meio fio da calçada.
- Onde você mora?
- Eu... – virei pra ela. – , que dia é hoje?
- Oito de março. – ela sentou ao meu lado.
- Que ano?
- Oras, que ano? Estamos em 1984. – ela revirou os olhos. – Onde mais estaríamos em 2000? – ela riu.
Droga. Que diabos eu faço em 1984? Porque estou aqui? Será que o pato me trouxe? É, eu aprendi uma lição. Nunca mais vou dar papo para um pato.
Só não entendo o motivo de aquele pato ter me trago para esse ano.
Pato safado.
- , você não me respondeu. Cadê seus pais? Onde você mora?
O que vou dizer? Não posso dizer a verdade, porque ela vai me levar para um laboratório de cientistas e eles vão me fazer de rato de laboratório, e vão testas remédios em mim e...
- Eu não sei. Acho que bati a cabeça em algum lugar, e perdi a memória. – passei a mão em minha cabeça, e fingi estar com dor.
- Ah, que horror. Eu nem imaginava... consegue enchergar direito? – ela mostrou dois dedos. – quando dedos têm aqui?
- Dois. – eu ri.
- Muito bem. – ela estava séria, como se fosse uma médica de verdade. – Agora, você consegue se lembrar do seu nome?
- , eu já te disse.
- Verdade... – ela colocou as mãos na cintura. – Você não se lembra aonde mora?
- Não. – fiz uma cara de desesperada, mas por dentro eu estava explodindo de rir.
- Mamãaaaaae. – ela virou o rosto pra trás. – Corre!
- Não precisa incomodar ela...
- O que? – uma voz veio da porta. – filhota, me chamou? – e eu ri.
Uma mulher de cabelo ruivo, cheio até os ombros, com um headband azul na testa. Com uma blusa verde limão, bem larga, e uma saia branca que ia até seu calcanhar. Uma sandália toda largada e velha, e para completar o visual hippie, estava com um óculos tipo os que John Lennon usava.
- Mãe, essa menina bateu a cabeça e não se lembra onde mora.
- Meu deus. – ela colocou a mão na boca, e seus olhos se arregalaram. – Você tem onde ficar?
- Er, na verdade não. – eu olhei para baixo.
- Então, querida, você vai ficar com a gente, não é filhota? – ela deu um sorriso de orelha a orelha, olhou para e depois para mim. – se você não se sentir ofendida...
- Nossa, claro que não. Eu agradeço muito. – sorri para ela. – Eu estou confusa, não tenho onde dormir, caraca, o que deu em vocês para serem tão boas comigo?
A mãe de Agélica entrou em seu carro, que parece aqueles de desenho animado, todo quadrado.
- Minha mãe é toda estranha. – ela fez uma careta e riu. – ela é hippie, se você não percebeu. E ama tudo e todos. Ela tem mania de pegar cachorro na rua e levar para casa. – ela riu e colocou as mãos para o alto. – não que eu esteja te chamando cachorra.
Dei uma gargalhada. Até porque, eu estava me vendo como uma cachorrinha toda magricela latindo no canto da rua.
- E vai ser legal ter você lá em casa, até você recuperar a memória. Vamos ser como irmãs, certo? – ela me deu um sorriso sincero, e levantou a mão para fazer um “bate aqui”.
- Coxinha! – fiz uma coxinha com a mão, e ela me olhou como se eu fosse um ET, depois riu.
- Você é estranha pacas. – nós rimos. – vamos para casa. – e entramos no carro, a caminho da cidade.
Capítulo 5
No caminho, fomos nos conhecendo melhor. Descobri que é da minha idade, e que sua mãe, se chama Ariel e é mesmo hippie.
- Ah eu adorava Woodstock. – ela suspirou.
- NÃO ACREDITO, VOCÊ FOI? – aumentei o tom de voz.
- Quem me dera. Eu queria ter ido, mas eu via pela televisão.
- Ah...
- Mais eu continuo me encontrando com uns amigos daquela época, e de vez em quando nós fazemos o nosso próprio Woodstock. – ela riu.
- Mamãe. – reclamou. – , você está bem? Sua cabeça ainda dói?
- Um pouco.
E assim eu fiquei, pensando no caminho todo, uma história para contar a elas. Pensei em dizer que fugi de casa por maus tratos, mas elas seriam capazes de chamar a polícia. Depois de andar pelo Rio de Janeiro todos, e quase não o reconhecer e achar que elas estão me raptando, eu pensei numa desculpa.
- Ai meu deus. – coloquei a mão na cabeça fingindo lembrar de algo.
- O que? Lembrou de alguma coisa? –
e Ariel falaram ao mesmo tempo.
- Acho que sim. – fechei os olhos, e segurei minha boca com os dentes para não rir. – eu lembrei.
- Fale querida. – Ariel disse calmamente.
- Eu estava fazendo um intercâmbio. É isso. Meus pais me mandaram sozinha para passar um tempo aqui no Brasil.
- Então você não é brasileira?
- Eu sou, mas moro no... – onde posso morar? Rápido, algum lugar bem longe daqui.
- Estados Unidos? Chile? – perguntou.
- Não.
- Canadá?
- Isso, moro no... Canadá. – dei um sorriso amarelo.
- Se você estava fazendo um a viagem, então, onde estão suas malas com roupas? – Ariel perguntou desconfiada.
Ai caramba. Não pensei nisso.
- Minhas malas? – olhei para o chão. – Roubaram.
- Minha nossa senhora – Ariel levou as mãos sobre a boca, de espanto.
- Pois é, por isso que eu estou sem nada.
- E quando você ia voltar? – perguntou.
- Não sei. Minha mãe não comprou passagem de volta, nós íamos nos comunicar por cel...
Droga. Eu ia dizer celular. Aqui não existe ainda. Nossa, que roubada que fui me meter.
- Comunicar pelo que?
- Por nada. Na verdade eu não me lembro essa parte ainda...
Depois elas me disseram para eu ficar quieta, refletindo, pra ver se a memória volta.
Chegamos em sua casa, e percebi o quão tarde já estava.
- Onde você iria estudar? – perguntou, abrindo a porta de casa.
Qual escola? Acho que vou dizer o nome da minha. Dizem que ela é bem antiga. Ela já deve existir.
- Na escola Proença das Batatas. – soltei um risinho. Sempre que digo o nome de minha escola eu rio. Não entendo esse nome. Proença das Batatas? Dizem que o nome da escola é esse porque a mulher do dono se chama Bárbara Proença e ela fazia umas batatas muito boas.
- Mentira? – ela arregalou os olhos. – essa é a minha escola também!
Nós pulamos de felicidade, até porque, é horrível entrar numa escola que você não conhece ninguém.
Entramos em sua casa, e eu ri. A casa de é muito engraçada. É toda colorida, e a sala tem um sofá azul, uma televisão de botões, o que deduzi que ainda não inventaram o controle remoto, há uma mesinha de centro em frente ao sofá, que há um telefone igual ao da outra casa. Esse era lilás, como o meu.
- Não repare , mais é tudo muito colorido pela minha mãe. Ela ama cores. – ela abriu a porta do quarto. – eu também amo.
Seu quarto era lindo. Parecido com o meu, mas sem objetos eletrônicos nenhum, a não ser pelo secado em sua estante. Seus móveis eram escuros, e seus formatos eram bem clássicos. Há vários pôsteres do Michael Jackson na parede, e uma pilha de LP’s no chão.
- Você gosta de Michael Jackson? – eu ri.
- Eu amo ele. Um dia vou me casar com ele. – ela pegou um LP em que Michael está deitado com uma roupa branca. Ele ainda era negro, e seus cabelos estavam encaracolados. – você não gosta dele não?
- Sei lá, eu gosto um pouquinho daquela “Black or White”. – Ela me olhou confusa.
- Mais essa música não é dele.
- É sim. – fiquei cantarolando para ver se ela reconhecia. Até que lembrei. Ele ainda está no começo da carreira. Não deve ter essa música ainda.
- Você está se confundindo com outra pessoa. – ela riu. – vamos dormir. Já está tarde. – ela pegou um colchonete que estava debaixo da cama, e colocou no meio de seu quarto. – Está tudo bem se você dormir aqui né?
- Claro, está ótimo. – o colchonete só tinha uns três centímetros de altura. O que não perece ser realmente muito confortável.
- O ventilador quebrou, e não temos ar condicionado porque minha mãe não gosta – revirou os olhos. – assim como não usamos condicionador no cabelo. – depois sussurrou. – eu tenho um pote pequeno dentro do armário, se precisar pode pegar.
Nos arrumamos para dormir, e como estava vindo um vento fresquinho pela janela, dormi assim que deitei na cama.
Capítulo 6
No dia seguinte acordei com um alarme idiota que parecia um elefante gritando no meu ouvido. Olhei em volta, e por uns segundos pensei “caramba que lugar é esse?”, até que vi os pôsteres do Michael Jackson, e tampei meu rosto com o travesseiro. Escutei dizer que ia tomar banho e me encontrava na cozinha.
Não movi nem um centímetro e entrei em outro sono, dei um sorrisinho por ter cinco minutos de sobra para dormir.
Acordei pela segunda vez, agora aos berros de perguntando porque eu ainda estava de camisola, e dizendo que íamos nos atrasar. Vesti a mesma roupa de ontem, o legal é que agora, não usamos uniforme, só depois que começaram a ser obrigatórios, e corri para o carro. Até ela dizer que íamos de bicicleta.
Fala sério, andar de bicicleta ás seis da manhã é duro.
Diferente de mim, mora muito perto da escola, e chegamos rápido, prendemos as bicicletas numa árvore e eu parei para olhar a escola. É igual a que eu estou acostumada a ir, mas não é tão limpa quanto essa. Ela está novinha, e não tem as palmeiras que o dono mandou plantar na entrada. Reconheço um porteiro, claro que, ele está beeem mais novo, e tem cabelo. Impressionante.
passou sua carteirinha na máquina, que está novinha também. E eu me lembrei de ter colocado minha carteirinha no bolso, passei pela máquina, como de costume, e naquele segundo esqueci que estava em 1984.
A máquina não cedeu para eu passar.
- Acho que essa máquina está quebrada. – eu disse.
- Não está não, passe de novo sua carteirinha. – o porteiro falou. Passei com cuidado, e a máquina continuou travada.
Olhei para a carteirinha e lembrei. É de 2010. Obvio que não vai passar nessa máquina. Como não imaginei antes? Sou tão burra assim? Agora vou ter que esconder essa carteirinha.
- Posso ver sua carteirinha? – o porteiro falou sério.
- Hm, eu, acabei de ver que esqueci em casa, essa carteirinha é do clube.
- Não entra sem carteirinha. – ele balançou a cabeça.
E agora?
- Mais eu estou matriculada aqui!
- Ela está sim! Deixe ela entrar. – falou.
- Desculpe, mais não posso deixar, são ordens. – o sinal tocou e os alunos começaram a entrar na escola.
- Olhe, estamos perdendo a aula. – eu falei.
- Faz assim, nós vamos para a aula, que no recreio, nós vamos à secretaria para ligaram a minha mãe. – o porteiro ficou pensativo.
- Tudo bem, mais vocês não saem até falarem com a diretora.
No final deu tudo bem. Ariel foi até a escola, e viu que eu não estava matriculada, e ela pensou que foi um erro da escola, e me matriculou de novo. Eu disse a ela que a pagaria de algum jeito e ela insistiu que não.
O dia na escola foi legal, na verdade, foi engraçado. Todas aquelas garotas com cabelos cheios, e a maioria estava com legging, blusa por dentro da calça, casacos gigantes que, realmente, não são o numero delas, all star. A maioria usa all star, mas tem uns que usam tênis de corrida. Vi meninos e meninas usando meia lá no alto. Não aquelas meias que são para ir até o joelho, e sim uma normal, só que eles esticam até a metade da perna.
As matérias são ensinadas de um método muito diferente do que estou acostumada. E na aula de Educação Física, o professor separou meninas e meninos. Um tempo as meninas jogavam, e os meninos ficavam na arquibancada, e vice-versa.
Nunca fui boa em esportes, muito menos basquete. Todos dizem “tamanho não é documento”, mas caraca, eu não acerto nenhuma cesta! Quando vou tacar, uma garota gorila se enfia na minha frente, bloqueando a bola.
O resto do dia foi normal, e quando a aula acabou, me apresentou a suas amigas.
- . – ela berrou para algum lugar. – vem conhecer a menina da amnésia.
Menina da amnésia?
- Que horror. – eu fiz uma cara de triste.
- Desculpe. – ela riu. – é que ama dar apelidos, e seu nome não tem como.
- Tem sim. – eu franzi a testa. – minhas amigas me chamam de .
- ? – ela riu. – que engraçado.
- Oi, menina da amnésia. - uma garota de cabelos pretos muito cheios, com uma calça skinny cinza, e um casaco do tamanho de um bonde.
- Não, agora é . – cutucou a garota.
- Você é a ?
- Sim. – ela deu um sorriso gigante e colocou seus livros no armário. – vocês vieram de bicicleta?
- Viemos. – e eu dissemos ao mesmo tempo.
- Então vamos andar até minha casa, e depois vamos pra lanchonete.
- Vamos! – ela sorriu. – Chama o pessoal pra apresentarmos a .
- . – se despediu de nós e saiu correndo.
Acabou que eu e andamos de bicicleta, e combinamos de encontrar , e outros amigos delas.
Pra mim, eu estava em outra cidade. As lojas não são as mesmas, e quando são, estão diferentes. É tudo muito engraçado, porque as pessoas se vestem de um jeito, que em 2010 é muito brega. E as gírias também são engraçadas.
Eu fico imaginando se vou encontrar minha mãe por aqui. Será que ela já conhecia meu pai?
Ah, não. É melhor eu não encontrar com ela, porque pode acontecer algo igual no filme “De volta para o futuro” que o personagem principal, Marty Mcfly, atrapalha o encontro dos pais, e é a maior confusão.
Acho melhor não encontrar com minha mãe.
Com a bicicleta, nós fomos para um lugar do bairro que eu não conheço. É cheio de flores, e tem um parquinho com crianças brincando, depois fomos para a praia, e o mar estava azul caribe.
Fomos em direção a sua casa, e vimos com uma garota e dois garotos. diminuiu a velocidade, encostou a bicicleta na parede, e eu continuei na bicicleta.
- , esse é Ben. – ela apontou para um garoto loiro e com o rosto bem vermelho do sol.
- A história começou quando um garoto esquisito pegou o ominitrix... – comecei a cantar a música do desenho Ben 10. – Ben deeeeeeeeez. – coloquei minhas mãos para o alto e todos começaram a rir de mim. O que houve?
Ah. Claro.
Eu sou tão burrinha. Vivo esquecendo que estou em 1984. Não existe Ben 10, meu Deus.
- Meu nome é Bento. – ele disse. – e todos me chamam de Ben, mas se quiser chamar de Ben 10...
- Não, eu só confundi com outra pessoa.
- , ele é meu namorado. – abraçou ele. – tira o olho.
Levantei as mãos para o alto e ri.
- Meu nome é Teresa. – uma menina com um vestidinho amarelo fosforescente, e com uma flor maior que o pé dela grudado em suas sandálias, acenou para mim.
- Oi. – acenei com a mão.
Saí da bicicleta e eu estava tentando equilibrá-la na parede da casa de , quando ela me puxou pelo braço, derrubando eu e a bicicleta no chão. O que me fez cair de frente para um all star vermelho.
- Levanta – me puxou para cima, e falou. – , esse é Dougie, ele é da nossa escola também, mas é um ano mais velho.
Olhei para o lado, e vi Dougie, o garoto do all star vermelho, ele tinha olhos castanhos, um cabelo loiro que parece nunca ter sido escovado, só que de um jeito legal. Identifiquei leves sardas em seu rosto. Dougie não é alto, quer dizer, não é nada alto. Aposto que e são maiores que ele. Menos eu. Sua pele era muito clara, ele não parece ser brasileiro, muito menos carioca. E segurava um capacete minúsculo rosa.
- Eu te vi lá na escola. – ele olhou minha roupa. – você tem muita coragem de usar isso. – meu deus, eles me acham super brega.
- Você nasceu aqui? – eu perguntei a ele e foi se juntar aos outros meninos. – Quer dizer... você não tem cara de brasileiro.
- É, eu nasci em Londres. Meu pai é inglês, por isso sou diferente. Você também não tem cara que mora por aqui. – Dougie falou numa voz baixa e percebi que era um pouco aguda, e não macia e veluda, que foi como imaginei.
Eu dei uma risada pelo nariz, que é bem estranha, eu pareço uma porca quando faço isso.
- Nasci aqui mesmo. Mas moro no Canadá. – disse logo antes que ele perguntasse em que rua eu morava.
- Que massa. – ele arregalou os olhos. – eu sempre quis morar lá. Como é?
Argh. Sinceramente eu não tenho a mínima idéia de como é o Canadá. Nunca fui lá. Devia ter dito que moro num lugar onde eu já tenha ido.
- Ah, lá é cheio de neve... e pessoas esquiando.
- As pessoas esquiam no meio da rua?
- Hum, claro. – droga, nem sei se é verdade. – tooodo mundo têm um esqui em casa. Tenho amigas que acordam e pulam da janela já com o esqui na mão. – Eu estava muito confusa, não sabia o que falar do lugar que eu supostamente deveria morar. A expressão de meu rosto mostrava isso. Dei um risinho para disfarçar.
- E você, mora onde? – perguntei a ele para o assunto Canadá ir embora.
- Numa rua aqui do lado, mas ninguém pega sol no meio da rua. – Dougie franziu a testa e depois riu.
É verdade, eu não pensei direito. Se nós precisamos de uma praia, ou piscina para pegar sol, os canadenses precisam de alguma montanha para esquiar. Eles não usam como transporte. Onde eu estava com a cabeça quando disse aquilo?
Dougie estava com um olhar divertido para mim. Ele deve ter percebido que falei besteira. Tirei o capacete que ainda estava em minha cabeça, e coloquei na cestinha da bicicleta, e quando fui levantar ela, tropecei no pedal e cai ralando minha mão na grama.
- Ai.
Dougie sentou ao meu lado, colocou o capacete rosa no chão e pegou uma de minhas mãos e começou tirar os fiapos de grama e terra que estavam nela. Pude ver que ele tinha sardas até nas mãos, não de um jeito meio dálmata, mais de um jeito fofo.
Estávamos muito perto, o suficiente para ver que seus olhos, na verdade eram verdes, e em volta da pupila, tinham bolinhas castanhas. Como se ele tivesse sardas até nos olhos. Sua testa estava franzida, mas o cantinho de sua boca estava levantado.
- Esse capacete é seu? – eu peguei o capacete rosa e ri. Obvio que não era dele. Eu acho...
- Sim, dizem que combina com meus olhos, você acha? – ele disse brincando.
- Não, combina com as sardas dos seus olhos. – eu ri.
- O que?
- Olha você tem pintinhas...
Eu estava apontando para seus olhos, e Dougie, que estava sorrindo, ficou sério. Não um sério malvado, era mais para um sério pensativo. Ele ficou me olhando por um tempo, sua boca abria ás vezes para falar algo, mais desistia e continuava a me fitar. Eu abaixei minha mão e ele disse:
- Eu sei que tenho. – ele disse lentamente – Mas ninguém nunca percebeu isso.
Meu rosto ficou todo vermelho. Por que eu tive de abrir a minha boca para falar sobra às pintinhas dele? Será que elas são algum tipo de doença que ele não gosta de tocar no assunto? Ou talvez, alguém tenha enfiado o dedo no olho dele, e ficou daquele jeito. Nunca mais brinco com meu irmão de enfiar o dedo no olho dele...
- Eu tenho desde que nasci. – ele olhou para mim. - E as únicas pessoas que sabem que tenho isso nos olhos, são meus irmãos e minha mãe.
- Seu pai não sabe? – eu tirei de fininho minha mão da mão dele. Comecei a ficar sem graça.
- Meu pai não mora com a gente. – ele arrancou um fiapo de grama e ficou picando em pedaços mínimos. – ele morreu quando Louise, que é minha irmã, nasceu. – ele olhou para o capacete e continuou. – ela é a verdadeira dona dessa coisa cor de rosa.
- Que horror, como que ele... morreu?
- Ah. – Dougie coçou a cabeça. – eu não costumo falar disso.
- Porque não?
- Na verdade, porque ninguém nunca perguntou. – ele me olhou e um jeito engraçado. – ninguém toca no assunto porque, quem tem algum familiar morto, geralmente não gosta de falar sobre isso. E você fala sem nem mesmo pensar. – ele riu.
Que isso. O que deu nele? Eu mal o conheço e ele já está falando que eu não penso pra falar. Quem ele pensa que é?
- Eu pensei sim. – cruzei os braços, virei de costas pra ele e amarrei meu all-star.
Ele suspirou. Não to nem aí, eu nem sou tão curiosa assim.
- Meu pai era roqueiro, tinha mania de beber antes dos shows, e num show, ele ficou tão animado, e bêbado, que ele começou a pular igual a um maluco, não viu que o palco tinha acabado, e caiu. – ele sussurrou em meu ouvido. Foi um sussurro quente, tão bom.
Fiquei na mesma posição, de olhos fechados, ele estava com o rosto no meu cabelo. O que ele estava fazendo?
- Você está cheirando meu cabelo? – Eu virei incrédula e dei uma gargalhada enorme.
- Ele tem cheiro de baunilha. – Dougie riu.
- É coco. – eu revirei os olhos. – Que engraçado esse negocio do seu pai ser roqueiro.
- Eu amava isso quando era criança. Eu sempre me gabei por ter um pai assim. E ele me ensinou a tocar vários instrumentos.
- Qual era o nome da banda dele?
- Poop's hope. – nós rimos.
- Sabe o nome da minha banda? – eu suspirei para segurar o riso. – Meu Joelho é Feio.
Ele riu e colocou a mão no meu joelho.
- É verdade? Porque eu não falo com pessoas que tem joelhos feios. – ele disse segurando o riso com o dente.
- Tudo bem, eu não preciso de amigos que tocam um piano de cem teclas.
- Na verdade são oitenta e oito. – ele me corrigiu.
- Ótimo – desafiei e me levantei. Peguei minha bicicleta e quando eu ia sentar nela pra ir para casa. Me lembrei que estou na casa de , e que ela está com os outros meninos conversando. Era melhor ficar aqui mesmo.
- Você não quer saber mais sobre meu pai? – Dougie se levantou e encostou-se na casa ao nosso lado. Assenti com a cabeça e ele continuou. – Ele nunca ficou muito em casa, porque sempre fazia turnês pelo mundo e era muito famoso. Mas quando estava em casa, era muito legal. Ele contava sobre as coisas que aconteciam no ônibus, as fãs loucas...
- Ele chegou a ver Louise?
- Sim, mas ele se foi quando ela ainda era bebê. Minha mãe ficou meio alterada, e começou a sair toda noite, acho que era pra tentar tirar meu pai da cabeça dela.
- Quantos anos sua irmã tem agora?
- Oito, e minha mãe apareceu grávida uns anos atrás, e teve o pequeno Júpiter, que tem dois aninhos. – ele deu um risinho.
- Júpiter? Que fofo. Eu também tenho um irmão, só que ele tem um ano. E o nome dele é Joaquim. – eu fiz uma cara de nojo.
- Não sabia que você tinha um irmão. – ele arregalou os olhos. – nossos irmãos podiam ser amigos.
- Caraca, é mesmo, eles podiam estudar na mesma escola e... – eu ia dizer que eles poderiam ser melhores amigos. Mas lembrei que eles nunca vão se conhecer. Joaquim está em 2010, e de qualquer forma, ele acha que moro no Canadá.
- . – ele me olhou com os olhos um pouco fechados. – Você não mora no Canadá não é?
- Shhh. – eu coloquei o dedo indicador na boca e, fiz uma cara de ratinho, puxando o nariz para cima, diminuindo o tamanho do meu olho, e mostrando os dentes. Algo que uma menina normal não faria. Uma menina normal faria “shh” de um modo sexy pra seduzir o Dougie. Claro que eu tenho intenções de seduzir ele. Só não sei como se faz isso.
Nunca li sobre isso em revistas, e o que tenho na minha cabeça sobre isso, é meio bizarro. Tipo olhar entre os cílios. Como as pessoas fazem isso? Não existe o ato de olhar entre os cílios. Eu fico meio vesga quando tento fazer isso.
- Eu soube disso por causa daquela desculpa que todos esquiam na rua. – ele bufou. – eu já fui em várias turnês com meu pai, e uma vez nós fomos para o Canadá. Era muito legal, principalmente quando eu ia escondido da minha mãe. Ela ficava maluca.
- Que irado. – eu abri a boca. – Deve ser muuuito legal ter um pai assim.
- Ei, não mude de assunto, onde você mora, se não é no Canadá? – ele perguntou rindo, e virou seu ouvido para mim, como se eu fosse contar uma fofoca.
Coloquei minha mão em volta de sua orelha e sussurrei:
- Nunca vai saber.
Ele abriu um sorriso gigante, que mostrava todos os seus dentes de cima. Eles eram brancos e pequenininhos. Combinavam com sua boca que era linda, bem vermelha, e a parte superior de seus lábios tinham um desenho de uma ondinha certinha. Ele tinha todos os traços de uma boca perfeita.
Percebi que minha boca estava aberta, e seu olhar estava fixo em mim. Fiquei morrendo de vergonha e fiquei encarando o chão, colocando meu cabelo atrás da orelha de segundo em segundo. Ai que vergonha.
Ah qual é! Como alguém pode ser tão lindo a ponto de eu querer me jogar em cima dele. Seu cabelo parece ser tão sedoso. Será que é cheiroso? Se eu chegasse um pouco mais perto, eu poderia cheirá-lo disfarçadamente.
Ai meu deus. Olha só o que eu to querendo fazer. Cheirar o cabelo do garoto. Isso é pensamento de macaca. Uma humana equilibrada iria pelo menos querer beijá-lo.
Mas eu também quero isso.
Olhei para o Dougie e ele estava rindo de mim. Não era uma gargalhada tipo “hahaha”, mas foi um risinho baixo. E ele estava olhando para mim como se estivesse achando alguma coisa engraçada.
Será que ele lê pensamentos? Tipo Edward Cullen, e ouviu tudo o que eu penso sobre ele? Que safado. E eu ainda o achei interessante, hum.
Mas essa coisa de ler mentes é impossível. Tenho que colocar isso na minha cabeça. Porque eu tenho que ficar achando que todos lêem minha mente? Acho que tenho lido livros demais, devo dar um tempo a eles.
De qualquer forma, vou testar a leitura mental de Dougie.
SOU DE 2010, SOU DE 2010, SOU DE 2010.
Cara, eu to parecendo um robô.
Fiquei pensando nessa frase, e nada mais, enquanto fitava Dougie. Ele olhava para o lado, rindo. Nem sei o que ele estava vendo, mas de repente ele arregalou os olhos e sussurrou:
- Caraca!
Ele levantou e saiu correndo para o meio fio da calçada, e pude ver o que ele estava vendo. Uma menininha de uns seis ou sete anos, com um rabo de cavalo pendurando seus cachinhos. Ela deve ser a irmã de Dougie, pois os dois têm sardas.
A menina estava caída no chão chorando, com uma ralada sangrenta no joelho e uma bicicleta rosa, bem fosforescente sobre ela. Me veio na cabeça que ela caiu, e Dougie se assustou por isso, e não pelo fato de ler mentes, e descobrir que sou de 2010.
Fui correndo até os dois e me ajoelhei junto à bicicleta.
- Calma, vou à lanchonete pegar gelo pra passar no seu machucado. – Dougie virou-se para mim e falou – essa é Louise.
- Oi. – acenei debilmente para ela, que nem percebeu minha presença.
- Nãaaao, eu não quero gelo! – ela soluçou. – Eu to horrível com um buraco no joelho.
O que é verdade, coitada. Quando ela caiu, praticamente todo seu joelho se arrastou pelo chão, tirando uma grande quantidade de pele.
- Mais tem que colocar gelo, pra pele nascer por cima do machucado. – Dougie explicou calmamente.
- Ou então nós podemos procurar pelo pedaço de pele que está faltando no seu joelho! – eu arregalei os olhos, e num sorriso levantei. – Deve estar em algum lugar, me mostre onde você caiu?
- Acho que foi ali. – Louise apontou para a rua rindo.
- Não estou achando. – falei enquanto andava pela rua com a cabeça para baixo como um avestruz.
- Se não encontrarmos terei de arrancar um pedaço de pele do meu joelho e doar a você, Luba. – Dougie riu e me chamou para sentar ao seu lado.
- Ta doendo muito. – choramingou Louise.
- Já vamos para casa, e lá você coloca um band-aid. – ele levantou. – Consegue levantar?
- Não. Eu quero um band-aid. – ela fez biquinho e dougie segurou o bico de Louise, para balançar sua cabeça. Eles começaram a rir e ela deu um peteleco no ombro de Dougie.
Foi aí que eu lembrei do band-aid da Hannah Montana que eu tinha colado em meu ombro antes de ir para . Puxei a manga de minha blusa para cima, e o tirei com cuidado, pois sabia que, depois de dois dias com ele, ia doer para tirá-lo.
Enquanto eu o puxava devagarzinho, percebi que Dougie tinha sentado no chão e Louise parado de chorar. Os dois me olhavam como se eu fosse uma doida comedora de fogo.
- Quer meu band-aid? – eu cortei o silêncio.
- Posso ver o desenho dele? – dei a Louise, que pareceu confusa enquanto lia o que estava escrito.
- Quem é Hannah Montana?
Pois é, esqueci desse pequeno detalhe. Estamos em 1980, a Hannah Montana nem nasceu ainda.
- Ela... – tossi e continuei. – Ela é minha irmã.
- Sua irmã? Você não me disse que tinha uma irmã. – Dougie indagnou.
- Ah, é que ela não mora mais comigo e com minha mãe, ela mora sozinha. E eu me esqueço de falar dela. Sei lá.
- E o que ela faz? Ela tem uma banda? – Louise apontou para o microfone na mão de Hannah Montana. O que devo dizer? Sim ela é muito famosa? Que bobeira.
- Sim, ela é muito famosa... – as palavras saíram por conta própria da minha boca. – Lá no Canadá. – Nem me preocupei em falar isso. Até porque eles não podem ir no Google e pesquisar, já que nem computador existe ainda. Um viva para a não-tecnologia avançada.
- Qual seu nome? – Louise, com o band-aid já no joelho, chegou mais perto de mim.
- .
- O meu é Louise, mas o Dougie me chama de Luba. Só ele pode me chamar assim, nem tente, porque não vou ouvir. – ela jogou o cabelo para trás.
- Sim senhora. – fiz uma voz grossa, e coloquei a mão na testa, tipo aqueles soldados fazendo “sentido”.
- E nada de dar em cima do meu irmão! – ela abraçou Dougie e continuou. – ele é só meu.
Todos começamos a rir, e Dougie beijou sua orelha.
- Um dia ainda me caso com você minha Luba.
- E eu serei a dama de honra. – levantei o dedo para cima.
- , quantos anos você tem?
- Tenho quinze.
Após falar isso, os dois arregalaram os olhos e falaram juntos.
- Uau.
- Você é pequenininha, igual à Dougie. – ela riu.
- E você é menor ainda. – ele balançou seus cachinhos.
- Você já beijou né? Aposto que já teve váarios namorados, que te deram jóias e... – Louise estava toda empolgada, e eu a interrompi.
- Na verdade...
- Louise, que... – Dougie ia falar quando uma voz me salvou.
- , nós vamos a lanchonete, você vai? – virei para e afirmei com a cabeça, depois olhei para Dougie e perguntei:
- Você vai?
- Eu não perderia aquele açaí por nada.
- Posso ir? – Louise levantou e ficou dando pulinhos.
- Não vai dar, mas volto cedo pra ver o filme com você. – ele deu um beijo na cabeça de Louise.
- Então ta... ei , quer vir pra minha casa com Dougie depois?
- Hm, claro.
Dougie abriu um sorriso largo.
- Então vamos comer o melhor açaí do mundo.
Que dia perfeito.
Conheci um garoto lindo, perfeito, e fofo. Vou comer o melhor açaí do mundo, e ainda vou pra casa desse menino depois!
Se um dia eu encontrar com aquele patinho de novo, eu lhe agradecerei pra sempre.
- Você já comeu açaí antes? – Dougie perguntou.
- Já, várias vezes, eu aaaamo açaí.
- Mas, onde você comeu? No Canadá não tem açaí. Nem aqui, só em Belém e nessa lanchonete, que a dona traz açaí de lá.
- Aah, pois é. Eu tomei lá em Belém.
*
Chegamos na lanchonete, e já estava numa mesa, com Ariel, e Ben.
Sentei em frente a Ariel, e Dougie puxou uma cadeira para o meu lado, e sorriu.
Ount.
- Oi. – eu acenei com a mão para todos, e estiquei meu braço para ver meu aceno.
- Soooph, conheceu Dougie né? – seu olhar para mim era meio “ele é muito gato”.
- Aham. – eu não sabia o que falar, peguei o cardápio e comecei a ler.
- Você não vai querer o açaí? – Dougie falou com uma voz baixa, olhando o cardápio.
- Ah, vou sim. Eu esqueci. – dei um tapa em minha testa.
- Garçonete! – cantarolou Ariel.
- Pois não. – ela estava vestida com uma blusa amarela justa por baixo da calça leggin vermelha. Um avental vermelho caía por cima do traje, em seus pés havia um tênis de corrida, e um boné com o logotipo da lanchonete a deixava com cara de cogumelo.
- Eu quero um açaí, com pó de guaraná, por favor. – Ariel fez seu pedido.
- Nós dois também queremos açaí. – Dougie falou, apontando pra mim e pra ele.
- Ah, você pode bater junto com banana? – ai meu deus, será que já inventaram o liquidificador?
- Claro. – a garçonete sorriu. Ufa, o liquidificador já existe.
- Eu vou querer um misto quente. – falou ainda olhando o cardápio.
- E eu um Milk shake de chocolate. – Ben lambeu os lábios enquanto falava.
- Muito bem, então, três açaís, um com pós guaraná, outro com banana, e outro sem nada. Um Milk shake e um misto quente. – a garçonete batia a caneta em seu bloquinho.
- Isso mesmo. – Ariel disse, e a garçonete saiu de nossa mesa. – Eu não tenho dormido direito essas noites. – Ela suspirou e continuou. – vocês dormiram bem meninas?
- Dormi como eu sempre durmo mãe. – revirou os olhos.
Não dormi bem pois estava um calor do cão e não tinha ar condicionado e o ventilador estava quebrado, e para completar um bicho preto gigante aparece no quarto, e ficou me fazendo de idiota.
Não pude responder isso, claro.
- É, eu também dormi bem.
- Mas você dormiu no sofá, querida.
- Ele é... bastante confortável.
- Ah que bom. – Ariel ajeitou seu óculos John Lennon rosa e continuou. - , aquela festa que você me contou num dia desses é esta semana não é?
- É mesmo, eu tinha me esquecido, com a vinda de .
- Que festa? – perguntei a ela.
- Fernando, que é da sala do Ben e do Dougie, ele vai fazer uma festa. Acho que você pode ir.
Dougie estava mexendo nos saquinhos de mostarda, e virou-se para mim.
- Não vai ser uma festa de aniversário, você poderia ir. – ele sorriu.
- , você vai a essa festa! Eu e angélica vamos fazer seu cabelo, suas unhas, e vamos comprar um vestido para você bem lindo pra você arrasar. – disse levantando a mão para eu fazer um “toca aqui”.
Ai meu deus.
- Tudo bem, mais eu posso escolher meu vestido?
- Não, nós vamos fazer você ficar bem sexy. – falou e começou a rir.
- Socorro. – eu afundei na cadeira.
- Aqui estão os açaís, e o Milkshake, o misto quente já vai chegar.
- Hmm. – Dougie fechou os olhos e lambeu os lábios.
- Como nós vamos saber qual é o com pó guaraná? – falei numa cara de desespero para a garçonete.
- Ah. – ela pareceu em dúvida. – É esse aqui.
Ela colocou o com pó guaraná em frente Ariel, e os dois outro para mim a para Dougie.
- E qual é o com banana?
- Esse – a garçonete colocou na minha frente.
- Prove . – Dougie já estava comendo o seu.
Peguei um pouco na colher, e coloquei na boca. Dougie disse que esse era o melhor açaí do mundo. Mas eu não achei. Senti um gosto meio amargo, e pegagoso na minha língua. Muito estranho. Deve ser porque o açaí ainda não é muito comum em 1980. Talvez eles não tenham colocado açúcar.
- Muito bom, mas o que eu comi em Belém é melhor.
- Uau, eu quero ir nesse lugar em Belém. – Dougie disse, já na metade do açaí. – É bom esse com banana?
Agora que ele falou, eu me toquei. Eu não senti gosto de banana. Comi mais uma colherada e fechei os olhos para procurar o gosto da banana, e achei um pouquinho, beeem de leve.
- É muito bom. – eu fiz sinal positivo com o polegar.
- Aqui está o misto quente, olhe, me desculpe sobre seu açaí, nós esquecemos de bater com banana, mas aqui está a banana picada para você colocar. – a garçonete estava segurando um potinho cheio de bananas.
Ou seja, não tem nenhuma banana no meu açaí.
- Muito bom esse seu açaí de banana não é? – Dougie riu e pegou um pedaço de banana do pote.
- Ei, larga minha banana.
- Hm, você não gosta quando eu pego na sua banana. – ele riu com a cabeça para trás, e eu empurrei sua cadeira.
Derramei as bananas no pote de açaí, e comi. A banana disfarçava o gosto amargo do açaí. Olhei para Dougie e ele já tinha acabado de comer. Meu deus.
- Uau, você ama mesmo açaí.
- Amo. Lá em casa tenho um estoque. – ele riu. – nós compramos aqui na lanchonete. Eles vendem num saquinho congelado. Mas tem que misturar com açúcar, porque vêm puro.
- Hm. – comecei a ficar enjoada desse açaí, com esse gosto amargo. – eu não agüento mais, quer o meu?
Dougie, sem falar nada, pegou meu pote e na primeira colherada fez uma careta.
- Eca. Que coisa horrível. – ele cuspiu num guardanapo. – Acho que seu açaí esta fora da validade.
- Deixa eu provar. – Ariel comeu uma colherada e começou rir.
- Que houve? – eu perguntei.
- Querida, esse é o açaí com pó de guaraná. – ela foi comendo outras colheradas. – bem que eu percebi que não estava me dando efeito.
- Urgh. – fiz uma cara de nojo. – por isso que eu tava achando o gosto estranho. Pensei que você fosse louco para amar isso. – eu ri para Dougie.
Quando acabamos de comer, eu e Dougie conversávamos quando me chamou.
- Vamos para casa , a também vai, nós vamos escolher uma roupa normal pra você usar amanha na escola.
- Eu ia na casa do Dougie, a irmã dele me chamou...
- Não, hoje você vai dormir com a gente. – puxou meu braço. – outro dia ela vai pra sua casa. – ela disse para Dougie.
- Tudo bem. – ele levantou as mãos. – Não quero disputá-la com vocês. – ele riu.
Capítulo 7
Fomos para a cada de , que ela disse para eu chamar de “minha casa”, já que estou sendo temporariamente sua irmã. é muito engraçada, ela ama dar apelidos. Só chama as pessoas por apelidos.
- Vão dormir cedo ein. – Ariel gritou da cozinha.
- Qual a sua cor preferida? – me perguntou.
- Sei lá, eu gosto de verde escuro, ou laranja. Por quê?
- Nós vamos escolher uma roupa bem bacana pra você usar na escola amanhã. – ela revirou os olhos. – eu ouvi vários comentários que você não sabia se vestir. Mas é obvio que você sabe.
Eu ri e sentei na cama. Elas cobriram todo o chão com roupas coloridas, calças verdes, laranjas, roxas, amarelas, blusas, jaquetas pretas, tudo com ombreira. E casacos gigantes.
- Experimenta essa casaco aqui. – me deu um casaco. Coloquei-o e pensei que ele fosse me engolir. Ele era muito quente, e grande, ficou como um vestido em mim.
- O tamanho está certo, mais não combina com a sua pele, não é SCRIPT>document.write(Angélica).? – conversava com .
- Acho que está quente demais pra usar esse casacão aqui. – procurei algo fresquinho naquele bolo de roupas que se formou. – Prefiro essa bermuda. – Peguei uma bermuda jeans, em que a cintura vai até o umbigo.
- Nem vi essa bermuda aí.
- E essa blusa aqui. - peguei uma blusa básica, num rosa claro.
Coloquei a blusa pra fora da calça, pra disfarçar a cintura alta, mas e insistiram em colocar para dentro.
- Tem certeza que não quer usar um a calça legging? – pegou uma legging verde, e eu fiz uma careta, depois ela pegou outra. – eu tenho preta também, se você preferir.
- Não. Estou bem com essa roupa. – passei a mão pela bermuda. – outro dia eu vou com legging.
Quando acabamos de arrumar todo o quarto, e separamos a roupa para o dia seguinte, já estava escuro lá fora. Fizemos um lanche, e nos preparamos para dormir. Eu não estava com nenhum sono, por causa do açaí com pó de guaraná que tomei. Fiquei deitada de olhos abertos, enquanto as outras duas já dormiam.
Fiquei pensando no dia que tinha passado. Fora bem legal. A escola, andar de bicicleta na rua, conhecer , Dougie. Dougie.
Dei um sorrisinho ao lembrar de nossa conversa. Ele é muito legal. E muito fofo com sua irmã. Queria ter ido a casa dele. Amanhã eu vou.
Minha barriga doeu um pouco. E não foi a mesma dor de ontem, quando ainda estava na escola, e recebi aquele bilhete idiota do Otávio. Agora foi uma dor de ansiedade. Quero muito que chegue amanhã.
Todas as conversas que tive hoje começaram a vir na minha memória. Pensei nas aulas, nas roupas. Em tudo. Eu estava quase caindo no sono, quando um zumbido irritante surgiu no meu ouvido.
Levantei meu tronco rápido da cama e abri os olhos. Não vi nada, e deitei de novo.
Outro zumbido no meu ouvido. Levantei de novo, e vi um bicho preto voando em cima de mim.
Levei um susto e pulei da cama, em silêncio para ninguém acordar. Era um inseto gigante. Parecia uma mosca, só que era muito grande. Talvez seja um besouro. Olhei em volta para ver algo como uma vassoura para mandar esse bicho pra fora pela janela.
Não achei nada, e de tão desesperada que eu estava, peguei o lençol mesmo e comecei a tacar naquele inseto pra ele ir embora. O safado ficou voando no teto, onde nem eu, nem o lençol alcançávamos.
A mosca vinha toda hora pra cima de mim, e eu corria dela. Ela ficou um tempão assim, me perseguindo.
Parece que ela está de palhaçada comigo. Talvez ela seja uma camerazinha, e tudo isso aqui é um reality show.
Comecei a suar muito. Correr de uma mosca não é moleza não. Ela voa rápido. E estou morrendo de sono, doida para dormir. Não durmo, de jeito nenhum, com essa mosca perto de mim. Tenho medo de, no meio da noite, eu ficar de boca aberta e a mosca pousar dentro da minha boca, e eu, sem querer, engolir ela. Urgh. Quando eu era pequena, eu vi um desenho em que uma mosca entrou dentro do ouvido de um homem, e ele virou um monstro.
Não que eu acredite nisso...
Essa mosca é muito burra, falando sério. Ela foi até a janela, quando foi embora, mas decidiu voltar. Ah qual é? Porque ela não vai embora? A janela está logo ali, toda aberta, esperando ela sair.
O sono me ganhou e eu decidi dormir na sala mesmo. Longe daquela mosca sem vergonha.
Peguei o travesseiro, com cuidado para a mosca não voar em cima de mim de novo, e joguei no sofá da sala. Voltei para o quarto para fechar a porta, só para garantir que a mosca não iria me perturbar na sala também, e ela estava lá, parada no mesmo lugar.
Nunca imaginei que eu fosse dormir na sala por causa de uma mosca. Uma mosca.
Me joguei no sofá, imaginando afundar nele e dar um suspiro longo e confortável, e dormir até o dia seguinte. O sofá é tão duro, que ele se arrastou para trás, o que fez com que os tacos do chão estalassem.
Enfiei a cara do travesseiro e fechei os olhos, tentando dormir.
Estou doida para ir a escola amanha. Deve ser por isso que não consigo dormir. Uma dor de ansiedade começou a se criar na minha barriga. Nossa, fazia muito tempo que eu não sentia essa ansiedade. A última vez foi na primeira vez ao dentista, e acordei meus pais ás cinco da manhã, dizendo que já estava na hora. Eles disseram que a consulta era ás nove da manha e eu fiquei vendo Tom e Jerry na TV até a hora de sair.
Eu sei, é bem estranho uma criança querer ir ao dentista. Mas aquela era a minha primeira vez, e eu descobri que ir ao dentista era doloroso depois de sair de lá com três obturações no dente.
Três. De uma vez só.
Eu comia bala Juquinha, e 7 belo todo dia.
De tão bobinha que eu era fiquei feliz da vida, porque quando estava na hora de ir embora, o dentista me deu um lápis verde que brilhava no escuro e eu voltei a gostar de dentistas.
Pena que hoje em dia eu não ganho mais lápis. Só ganho um cartão rosa claro com o logotipo do consultório. E mais uma obturação.
Quase caí nas ondas do sono, até que cocei meu pescoço e abri os olhos.
Não consigo dormir nesse calor.
Fui até a janela e coloquei a cabeça para fora. Um vento fresquinho passou por mim e eu fechei os olhos. Estou doida para dormir.
Mas não nesse calor.
Capítulo 8
- Será que é ela? – ouvi uma voz familiar.
- Deve ser. – percebi a voz de Ariel. – Esse colchonete é dela.
Abri os olhos e vi o edredom azul na minha cara. Por um minuto eu não entendi direito porque que eu estava toda coberta se estava tão quente.
Até que me lembrei da noite passada.
Ontem à noite. – madrugada na verdade. – eu trouxe o colchonete para o lado de fora da casa da Angélica e dormi aqui mesmo. Estava tão friozinho, tão bom. Ás cinco da manhã o Sol apareceu e ficou tudo claro, me cobri toda e voltei a dormir.
Ariel não tem jardim. Na verdade, há espaço para um, mas é coberto de tralhas.
- Tira o cobertor dela. – Angélica disse.
- Eu não, vai que algum maluco raptou a Sophia e colocou um cachorro morto no lugar dela? – Duda disse.
- Eca.
Achei melhor parar de fingir que estava dormindo e resolvi me mexer e levantar logo. Meu corpo todo ardeu, e eu coloquei minha cabeça para fora do cobertor.
O Sol estava muito forte e meus olhos doeram ao olhar para Angélica. Fechei os olhos e franzi o nariz.
- Ah meu deus. – Angélica gritou e Duda começou a rir.
- Você está roxa! – Duda gritou entre os risos.
Ah não.
- Como assim? – dei um pulo e olhei para meus braços. Eu não estou roxa, estou laranja.
- Você ta um camarão. – Duda apoiou sua mão em meu ombro.
- Ai, isso dói. – tirei a mão dela de cima de mim. Como eu posso estar laranja, ou roxa? Eu me cobri toda com o cobertor para não acontecer isso.
Cobertor vagabundo.
Entrei na casa, e me arrumei para ir à escola de novo. Inventei uma história para elas dizendo que fui dormir do lado de fora porque tenho mania de dormir olhando as estrelas. Dessa vez eu coloquei a roupa que nós escolhemos noite passada, e Ariel nos levou de carro.
Cheguei suando na sala de aula de tanto correr – e de subir aquelas escadas da morte. Fala sério, quatro lances de escada. Pra que isso?
O professor já estava sentado em sua cadeira e me deu um bilhete por atraso. Peguei o bilhete tranquila e quando voltei para a minha cadeira, senti os olhares de todos na sala me olhando com reprovação. Como se chegar atrasada realmente fosse uma grande coisa. “Oh”.
Coloquei o papel (isso mesmo, todos têm medo de um papel) numa gavetinha dentro da minha mesa e senti uma coisa dura. Peguei e vi que era uma bala.
7 Belo. Minha preferida.
Abri a bala, coloquei na minha boca e fechei os olhos.
Há quanto tempo que eu não como essa bala? Eu tinha esquecido o quanto que ela é boa. Faz uns três anos que não a como.
Nossa! Coitada da bala. Passei esse tempo todo ignorando ela, só comprando chiclete. Que traidora que eu sou. Sou, definitivamente, uma traidora de FrutiBelo.
Ops. 7 Belo.
Depois de dois tempos de Matemática, teve História e então... Educação Física.
O que acha que vou dizer? Que odeio essa aula e que vou fazer o máximo possível de não ir a essa aula? Nada disso. Eu amo Educação Física. O único problema é que eu sou ruim, em todos os jogos. Na verdade, horrível. Não sei por quê! Eu não consigo pegar a bola. Em handball, a bola é pequena demais, e em basquete, a bola é grande e pesada demais. A bola bate na minha mão e cai no chão. Não é minha culpa.
Colocamos o uniforme adequado e fomos para a quadra. Ela é coberta e a parede em volta dela é amarela. Tem uma arquibancada de quatro andares na parte direita, e tem uma cantina, do lado da arquibancada.
A turma é dividida em meninas e meninos, enquanto as meninas jogam, os meninos ficam na arquibancada e vice-versa. O que é muito estranho, porque eles realmente prestam atenção no jogo. Aqui ninguém tem Ipod para se distrair, pois ainda não foram inventados, obvio. Coitados.
Como eu esperava, fui a última a ser escolhida. A capitã do time estava em dúvida entre eu e uma menina muito, muito gordinha. Não consigo nem imaginar ela andando, ainda mais correndo.
- Eu escolho a Cristina. – a capitã falou e depois se virou para a menina escolhida e disse baixinho – vai pra defesa.
O jogo era basquete e, como todo jogo, eu fiquei pedindo a bola maior tempão e na única vez que me deram eu fui jogar para outra menina do meu time, só que a bola estava tão pesada que ela se mexeu dois centímetros e quando eu achava que ela ia cair no chão uma menina Gorila do outro time pegou e fez cesta.
Menina Gorila. Isso mesmo. São aquelas meninas que te empurram, te pisam e não estão nem aí. Quase te matam. Os rostos delas estão sempre vermelhos e o cabelo todo pra cima. É fácil reconhecer uma.
Desisti de jogar quando uma menina do meu time começou a me marcar. Fiquei parada no meio da quadra olhando a arquibancada.
Tinha mais gente do que o normal. Minha sala não tem tudo àquilo de menino. Aliás, tem até menina sentada lá. Vi Ben e depois uma cabecinha loira.
Por um momento meu coração começou a bater muito forte (ou parou de bater? Acho que foi os dois) e meus movimentos começaram a parecer falsos.
Concertei minha postura e minha mão ficou inquieta, procurando algo para fazer. Coloquei as mãos na cintura, depois levei a mão à boca e roí. Mexi nas pontas do meu cabelo e por fim, cruzei os braços. Que saco, porque eu tenho mãos? Ficar com o braço solto é tão estranho. Sem fazer nada.
Como não é um mistério grande, a cabecinha loira é Dougie. Ele estava de costas, conversando com outra cabecinha loira, que não é importante para mim.
Ele virou a cabeça e disse uma coisa a Ben, que estava em seu lado esquerdo. Seus olhos abaixaram para o chão, depois para a quadra, e por final, para mim. Sua boca parou de se mexer.
Apertou os olhos para ter certeza se era eu e então deu um sorrisão, enquanto um menino idiota o balançava.
Desviei o olhar e os movimentos falsos aumentaram. Percebi que estava parada no meio da quadra e que as meninas estão juntas, num bolo perto da cesta.
Olhei de canto de olho para a arquibancada e Dougie parece estar me olhando. Bom, sua cabeça está virada para a quadra, o que ele está olhando? A grade?
Movimentos falsos: ativo.
Que saco, odeio movimentos falsos. Sabe quando você sabe que tem alguém te olhando e você não quer parecer idiota? Ah, sei lá.
Andei até uma menina e falei numa voz muito estranha que nem parece minha.
- Victória, quanto está o jogo?
- Não sei. – ela estava olhando para a cesta. – e meu nome não é Victória. É Viviane.
Victória? De onde eu tirei esse nome?
Olhei rapidinho para a arquibancada para ver Dougie e ele não estava lá! Sumiu!
Ah, ele desceu as escadas. Não! Agora ele está mais perto ainda. Ele está me chamando?
Aproximei-me da grade quando ele fez um gesto de “vem cá” com as mãos. Ai meu deus, pela cara dele, ele vai se declarar pra mim!
- O que aconteceu com você? – seu rosto mudou quando eu cheguei perto e ele pode ver a cor da minha pele. Tchau, tchau declaração. – Você está muito vermelha.
- É, eu dormi do lado de fora.
- Elas te expulsaram?
- Não! Eu quis. – revirei os olhos. Pela cara de duvida dele, continuei. – Eu gosto de dormir olhando as estrelas.
Ele arregalou os olhos e se apoiou na grade.
- Louise ficou chateada porque você não foi lá em casa ontem.
- Ah, é. – coloquei a mão na cabeça. – Não deu pra ir mesmo.
- Eu sei. Dá pra ir hoje? – ele deu uma pausa e continuou. – Meus primos vão estar lá. Mas eles são legais, você vai gostar deles.
- Qual o nome...
- Antônio e Isabella.
- Ta, eu vou. – dei um sorrisinho.
- As três? – assenti com a cabeça e ele virou de costas para se sentar.
Finalmente vou para a casa do Dougie! Na verdade, eu vou mais é pra ver a Louise, ela que me quer lá. Nem sei se ele vai realmente me dar bola. Até porque os primos dele vão estar lá.
O bolo de meninas continuava naquela cesta. Elas não andam pela quadra não? Coitado do meu tim
e, ele é tão ruinzinho. Fui até a outra cesta e fiquei ali parada, com o olhar perdido.
Primos. Quantos anos eles devem ter? E essa Isabella aí? Será que o Dougie tem uma paixão louca por ela, mas não mostra a ninguém por serem primos.
Ah não. Não quero ir para a casa dele pra ficar vendo os dois dando olhares apaixonados. Não mesmo.
Limpei o suor de minha testa e fechei os olhos. Vou dizer a ele que não vai dar para ir, porquê...
Porque eu estou doente. Isso. Não, melhor ainda, vou dizer que eu tenho que passar um creme nas partes vermelhas do meu corpo, por causa do Sol, de trinta em trinta minutos.
Eu continuava de olhos fechados e a gritaria das meninas foi ficando mais perto. Abri os olhos para não ser pisoteada por alguma gorila.
- Pega menina. - virei o rosto para a menina que parecia estar falando comigo.
- Ahn?
A menina que falou comigo jogou a bola de basquete na minha cara. Na verdade, no meu nariz. Uma dor horrível começou a formigar no meu nariz e no canto da bochecha. Coloquei a mão no nariz e meu olho ficou cheio de lágrimas. Não porque eu queria chorar, elas estavam saindo sozinhas.
- Por que você não pegou a bola? A Tatiana fez cesta.
Alô, eu fui atacada por uma bola assassina gigante.
- Você está bem? – uma menina perguntou.
- Ela ta chorando. – outra menina disse e a professora veio me perguntar se eu estava bem.
- Não estou chorando. – todas as meninas ficaram muito perto, e eu comecei a ver manchas pretas. A quadra começou a girar e fiquei surda do nada. Ahn?
Capítulo 9
Meu corpo ficou pesado, e eu tentei me segurar na blusa de uma menina. Mas minha mão escorregou.
*
Acho que desmaiei. Quer dizer, obvio que desmaiei. Mas no segundo que abri os olhos e vi uma parede bege, lembrei do meu quarto e pensei que tinha voltado para minha casa, e que toda aquela maluquice foi só um sonho. Até que uma voz surgiu.
- Minha querida, você está acordada?
- Ahm? O que aconteceu? – me virei e olhei pela primeira vez a sala. Deve ser a enfermaria, pelo armário cheio de remédios, e potes com curativos e balas. Hm, balas.
- Jogaram uma bola de basquete para você, e bateu em seu rosto. Você desmaiou e te trouxeram.
- Há quanto tempo estou aqui?
- Só uma horinha mesmo. – a enfermeira estava preenchendo uns formulários. A enfermaria tem cheiro de alguma coisa estranha. Álcool, mertiolate, algo parecido. Porque toda enfermaria tem esse cheiro? Só deixa as pessoas mais tontas do que elas já estão. Enfermarias tinham que ter cheiro de chocolate.
- Estou com um pouco de sede. – apontei para minha garganta.
- Oh, vou buscar um copo de água para você. – ela pegou um copo plástico do armário e me deu. Tinha uma jarra de água do meu lado. – Seu nome é não é?
- É, e o seu?
- Gisele. – ela deu um sorriso simpático, e eu fui enchendo o copo de água. Ela olhou para a porta deu uma risadinha e balançou a cabeça. – Ah, – ela viu que eu estava olhando para ela com cara de interrogação e deu outro risinho. – é que tem um menino que vem toda hora aqui e... – ela balançou a mão no ar. – Esquece.
- Como assim? Quem é? – apoiei o copo na bancada.
- Aquele menino, loirinho...
- Dougie?
- Não. Não sei. – Gisele olhou para mim. – Você já está se sentindo melhor? Seu nariz parou de sangrar?
Passei a mão no nariz e senti um pouco de dor. Mas não sangrava mais.
- To bem já.
- Que bom, eu vou à sala da diretora entregar esses papéis e já volto. – Gisele pegou os papéis e saiu.
Fiquei pensando, quem é que ficou vindo aqui toda hora. Deve ter sido o Dougie. Mas... O Ben também é loiro.
Logo depois que Gisele saiu, ouvi uma batida na porta, e pensei que fosse Dougie.
- Dougie?
- Não, sou eu. – Ben entrou e fechou a porta.
- Ah, oi.
- Tá melhor? – ele chegou mais perto pra passar a mão na minha cabeça.
- É, sei lá. Acho que sim. – ri e tirei a mão dele da minha cabeça. O que ele ta fazendo aqui? Tá, ele é amigo da e namorado da , mas eu nunca falei com ele direito.
- Quando você desmaiou, eu saí correndo e te trouxe pra cá. – Ele olhou para o nada como se sentisse orgulhoso por isso. Ai, ai, coitado. – Você é muito leve, eu nem fiz tanto esforço assim. – Ele mostrou o braço. Aff.
Ah, ta bom, até parece.
Nossa, que garoto é ridículo, ele se acha.
- Pois é, né. – dei um sorriso amarelo e bebi um gole de água. No meu caso, o sorriso amarelo tem duplo sentido, porque, meus dentes não são naada branquinhos.
- Então, eu vou indo. – Ben andou até a porta, deu uma viradinha, ridícula, devo dizer. – Você não é de falar muito não, né? – ele piscou e foi embora.
Ai meu deus, eu não vi isso. Comecei a rir sozinha, quando a porta foi se abrindo devagar.
- Ben, eu queria ficar sozinha... – eu estava revirando os olhos quando Dougie entrou com uma cara de assustado, e depois sorriu.
- Pensei que você tivesse morrido, eu fiz cosquinha no seu pé, e você nem se mexeu.
- Eu desmaiei, – eu ri. – eu nunca desmaiei na minha vida, essa foi a primeira vez. Muito irado.
- A fica falando “chocante” e “incrível”. Não só ela, todas as meninas, e às vezes elas falam “chocrível”. É muito engraçado, eu me seguro muito pra não rir.
- Chocrível... Vou prestar mais atenção para ouvir elas.
- Com licença. – Gisele entrou, olhou para Dougie e falou. – Ah, você por aqui. – ela olhou para mim e sorriu. – , esse menino foi muito gentil, ele que te trouxe pra cá.
Dougie colocou a mão na nunca e ficou puxando o cabelo pra baixo. Meu coração começou a bater mais forte.
Droga, eu não gosto dessa sensação.
- Ué, o Ben veio aqui e disse que ele que me trouxe.
- Claro que não. – Dougie ficou sério. – Ele não ajudou em nada. Nem o gelo que eu pedi pra ele pegar, ele pegou.
Peraí, deixa eu raciocinar direitinho.
Dougie me pegou no colo. Dougie. Dougie me pegou no colo. Dougie me trouxe para a enfermaria. Dougie ficou chateado quando eu disse que o Ben que me trouxe. Dougie tem ciúmes. De mim! Dougie. Dougie. Droga.
Olhei para baixo para que ninguém visse que meu rosto pegava fogo de tão vermelho que estava. E vi meu joelho. Coitadinho, parece joelho de criança de três anos que tropeça no próprio pé e vive com o joelho arrebentado. Ah, é tão legal tirar a casquinha disso...
- Você caiu de joelhos, por isso está machucado. – a voz de Dougie apareceu muito perto e eu levei um susto, levantando a cabeça rapidamente...
E batendo no nariz de Dougie. Eu disse, ele estava perto demais.
- Ai, desculpa. – coloquei as duas mãos na boca. O que, agora eu quero matar o garoto?
- Calma, meu nariz não sangra como o seu. – ele deu um risinho. – Você devia ter visto, foi como uma cena de filme de terror. A bola bateu no seu rosto, fez um barulhão, você desmaiou, e seu nariz começou a jorrar sangue.
- Eca. – franzi o nariz.
- Você não está entendendo. Realmente jorrou muito sangue. O sangue ia escorrendo, e... Se eu não me engano... Acho que você engoliu um pouquinho de sangue.
- Nossa, eu me sinto muito melhor agora com essa sua historia.
- ! Pensa bem. Imagina um filme de terror que a menina é esfaqueada até a morte, mas não morre pelas facadas, e sim, engasgada com seu próprio sangue...
- Cala a boca! – peguei o travesseiro e joguei violentamente na cara de Dougie. E ele começou a dar altas gargalhadas.
- Quer uma bala? – ele tirou do bolso uma bala 7 belo e me deu.
- Valeu, mas alguém já me deu. – abri o papel e joguei a bala na boca. Olá balinha, de novo.
- Quem?
- Sei lá, estava debaixo da minha mesa. – olhei pra ele com cara de agente secreto. – Acha que envenenaram ela?
- Devo dizer que sim, agente 99. – ele disse rindo, mas tentando ficar sério.
- Agente 99? – dei uma gargalhada e continuei com a atuação. – Acha que devemos chamar o comando?
- Que comando Agente?
- O comando... – nossa, da onde eu tirei esse comando? – Estrelar.
- Acha que nos responderão?
- Talvez, mas se lembre agente 86, se acontecer alguma coisa comigo, você fica com a minha coleção de latinhas de coca-cola. E a de casa de passarinho também.
- Quem tem uma coleção de casa de passarinho? – ele riu.
- Eu! É muito legal pintar elas também. Você é muito sem cultura. – olhei para ele, que estava olhando para algum ponto invisível na parede. Fiquei olhando também. É tão legal ficar conversando com ele, é divertido. Mas acho que é um pouco melhor ficar sem falar nada. Só ouvindo o silêncio. Parece um pouco barulhento o silêncio. Como se duas mãos estivessem socando meu ouvido. Ah, ouvi um barulhinho. Dougie comendo outra bala.
- Você já teve cárie alguma vez?
- Não. – ele disse sem tirar os olhos do ponto inexistente.
Admiro muito ele por comer vinte balas por dia e nunca ter tido nenhuma carie. Meu dentista ia amá-lo.
- Ta fazendo o que ainda aqui? – não que a presença dele me incomodasse, mas sei lá...
- Matando aula. E também vim ver se você estava legal.
Depois de ficar olhando para o lugar inexistente na parede, e de conversar sobre coisas idiotas, que pra mim são super legais, Dougie me fitou com seus olhos (e pintinhas também).
- Sobre o Ben... – ele abriu a boca para falar algo, fechou, e falou. – Você gosta dele?
- O que? – bufei. – OBVIO que não. Eu nem conheço ele direito. Nunca tive uma conversa decente com ele.
- Como se você conversasse decentemente. – ele disse, um pouco mais feliz.
- Você entendeu.
- É só que... Ele é meio estranho. Com as meninas, claro. Ben é meu melhor amigo desde que eu era pequeno. E, às vezes força a barra com algumas garotas que não...
- Dougie, calma. Ele namora com a !
- Legal. – legal chocho. – Vou voltar para a aula.
Dougie se levantou para ir embora quando me lembrei de uma coisa.
- Ei! – gritei e ele se virou na porta. – Quantos anos têm seus primos?
- Cinco. Eles são gêmeos. – ele sorriu e eu sorri mais ainda.
Isabelle é uma criança. Uma criancinha. Porque fui ficar chateada? Eu sou ridícula. E se ela tivesse a minha idade? O que eu tenho a ver com isso?
Nada. Exatamente.
Peguei o gelo e coloquei mais um pouco no nariz, pro caso de eu morrer engasgada, como Dougie disse.
*
No final do dia, encontrei na porta da minha sala de aula. Ela nem soube o que aconteceu, e então eu expliquei a ela.
Quando achei que meu nariz já estivesse bom, levantei da caminha e fui para a sala de aula. Foi só eu abaixar a cabeça para pegar um caderno na minha mochila que comecei a sentir uma aguinha escorrendo. Pensei que fosse algo como um catarro. Sei lá, às vezes quando estou resfriada fica toda hora escorrendo. Mas quando passei minha mão no nariz, ela ficou toda vermelha. E eu tive de voltar para a enfermaria.
Assim, eu tive de ficar o resto do dia lá, tentando manter uma conversa com Gisele, o que não é fácil.
- Meu marido estava planejando me levar ao cinema, mas não tenho a mínima ideia de qual filme está em cartaz. Você tem visto algum filme bom? – disse Gisele, quando eu ainda estava na enfermaria. O único filme que estava na minha cabeça era De Volta Para o Futuro, e pelo que eu sei, lançou em 1985. Ou seja, ano que vem. - Mas eu não quero perder a novela, Partido Alto. Gente, como aquele José Mayer é bonito, hein. Casado, claro. Sabe quem é? Você vê novela? Sua mãe deve ver. Todas as minhas amigas vêem. – Gisele continuava a falar, e eu só ficava sorrindo. Caraca, José Mayer já ta vivo? E casado ainda por cima.
Quando fui autorizada a ir embora, corri para o corredor dos armários. Sei que esse corredor se chama assim, pois ouvi uma garotinha gritar para a outra.
- Aposto uma corrida até o corredor dos armários!
O número do meu armário é 1025, mas é impossível de achar. Tem um bando de gente em frente aos armários.
No meio daquelas pessoas, vi um pontinho reconhecível.
Sério, se o meu coração não parar de bater forte, eu estrangulo ele. Ouviu isso coração?
Eu até falaria com Dougie, se ele não estivesse cercado por garotas que, de tão empinadas, parecem querer que ele engula os peitos delas. Aff.
Só eu que estou percebendo ou elas estão meio que, pressionando ele no armário? Coitado. Mas afinal, ele deve gostar. Elas são bonitas, ele deve ter ficado com todas elas já. E elas são totalmente diferentes de mim.
Dougie estava com um meio sorriso o tempo todo. Até que me olhou e ficou meio sério. Não da pra explicar essa cara que ele fez, parecia um esquilo me olhando. Ele abriu um pouco mais os olhos e depois estalou o pescoço. O.k, se antes ele era um esquilo, agora é um avestruz.
Avestruzes estalam o pescoço?
10 – Yellow Submarine
Enfim, desviei o olhar e fui procurar meu armário. E foi quando encontrei .
- Ah tá. Corre, minha mãe ta esperando a gente pra ir na farmácia e comprar suas coisas.
Depois de ir à farmácia e comprar coisas como, escova de dente, escova de cabelo, shampoo de baunilha... Ariel me deixou em frente à casa de Dougie. queria ir também, mas sua mãe não deixou. Disse que se ela fosse, ela estaria se convidando. O que me fez lembrar que eu sempre me convido. Do tipo: “ei, posso dormir na sua casa hoje, daí amanhã a gente vai na loja de all star do lado da sua casa!”.
Parei em frente a porta de Dougie e olhei para a minha roupa. Nós tínhamos passado na casa da , e mudei de roupa. Coloquei a minha roupa de verdade.
A porta se abriu e Louise voou em cima de mim. Quando ela começou a gostar tanto assim de mim?
- !
- Er, oi. – eu disse entrando. – Sua mãe ta em casa?
- Não, só eu e Dougie. Vem ver meu quarto!
Ela pegou minha mão e saiu correndo. Entramos no quarto dela, mas nem pude olhar direito. Fui levada direto a um cantinho, onde tinha uma tigela de cereal, e dentro tinha água, areia, e um pontinho preto.
- Olha que lindo, é o meu girino. Ele se chama Amarelo.
- Amarelo?
- É, que um dia, a Belle, minha priminha, chegou em casa e disse que viu um girino amarelo, eu ri muito, daí eu dei o nome de Amarelo.
- Que irado. – olhei para o Amarelo, e ele estava nadando. – Onde você comprou?
- Eu não comprei. – ela revirou os olhos. – Eu pesquei ele! Naquela lagoa da Barrinha, sabe?
- Sei. Não sabia que lá tinha girino. – olhei direito para o Amarelo, e percebi que ele não era redondinho, com um rabinho atrás, como todo girino. Ele era mais como um filhotinho minúsculo de peixe.
Olhei em volta e percebi que o quarto de Louise é lindo, parece um quarto de bonequinha. Tem uma mesinha da altura do meu joelho com cadeirinhas de madeira e...
Não acredito! Ela tem um conjunto de chá da Alice com bules, xícaras, potinho de açúcar e...
- Aaaa, que perfeito. – gritei colocando a mão no coração. Ela tem rosquinhas e biscoitinhos em miniatura espalhados pela mesinha.
- Eu sei, eu amo essa coleção. – ela suspirou. – Tem mais. – Louise foi até uma gaveta e pegou uma caixa amarela.
Ela abriu e dentro tinha uma caixinha pequena rosa, e dentro haviam vários pacotinhos de chá.
- Eu nunca tomei chá. – disse Louise, mexendo nos saquinhos.
- Nem eu! – sorri para ela. – Ah, quer dizer, eu já tomei, quando era pequenininha, mas não me lembro do gosto.
- Vamos fazer! – ela deu um pulo. – Sabe fazer?
Claro que sei fazer, todos sabem. É só esquentar a água no fogão, depois coloca o quanto você quer na xícara, e depois coloca o saquinho de chá dentro da xícara. Só que eu não sei se é assim que se faz aqui.
- Não, vamos ver se Dougie sabe. – eu disse já abrindo a porta do quarto dela.
- Não! Ele não gosta quando eu entro, e ele está estudando.
- Tudo bem, eu bato na porta. – Louise entrou em seu quarto e eu bati duas vezes na porta de Dougie, e não ouvi nenhum movimento.
Abri a maçaneta devagarzinho. Por que ele não gosta que a Louise entre no quarto dele? Será que ele não está estudando? E se ele for um cientista doidão e está criando uma bomba que explode pessoas a mil quilômetros de distância. Ou pode estar pelado. Pior, com uma garota.
Hesitei por um momento e abri a porta, entrando em seu quarto. Procurei por Dougie e o achei sentado no chão, de roupa (ufa), encostado na cama, com as pernas esticadas. Ele estava de olhos fechados, ouvindo alguma música, bem baixinho, no toca-discos. Que lindo o tocador de discos. Eu sempre quis ver um, mas só vejo imagens no Google.
O quarto do Dougie é lindo! É muito parecido com o meu. Só que mais legal. É cheio de pôster na parede, e é obvio que não tem pôster de crepúsculo, e sim de bandas do tipo The Who, Beatles, Queen. Tem até um do Star Wars. Uma bandeira gigante do Reino Unido, ocupando a metade da parede. Um desenho todo rabiscado, colado na parede. A cor das paredes é azul escuro, porém, mal dá para vê-la, de tanta coisa pendurada.
Tem um piano todo velhinho, num canto, junto com outros instrumentos, como violão, baixo e guitarra. Uau, ele sabe tocar tudo isso?
Olhei para Dougie de novo. Eu queria dizer algo, ou gritar “Chegueeei”, mas ele está tão fofinho. Parece um... bebê. Não sei explicar. Um barulho estranho saiu involuntariamente de dentro de mim, e foi como um “aww”.
Dougie se assustou e deu um pulo. Foi aí que percebi que ele estava com uma calça de suspensórios. E é a primeira vez que eu acho alguém ficar legal nessa calça.
- Caraca. – ele passou a mão na cabeça, depois no cabelo, e parou na nunca. Porque ele sempre faz isso? Ele não sabe que isso tira o fôlego das pessoas? – Pensei que fosse Louise. Ela é a maior tagarela. – ele sentou na cama e fez sinal para eu sentar também. – Chegou há muito tempo?
- Mais ou menos, eu tava lá com a Louise vendo a coleção de chá dela. Por que ela não pode ver você ouvindo música?
- Porque ela iria contar pra minha mãe. – ele franziu o nariz. – E eu estou de castigo, sem poder ouvir música.
Uau, quando eu estou de castigo, a última coisa que minha mãe tira de mim é música.
- E o que você está ouvindo?
- Estava tocando Queen, mas acabei de mudar pra Beatles.
- Isso é Beatles? – eu jurava que fosse alguma música de relaxamento que as pessoas escutam na aula de ioga, ou algo parecido. Cadê a guitarra e as vozes?
- É, você nunca ouviu “Love You To?” – Ah agora sim eles começaram a cantar. Oh, olá John Lennon.
- Love Me Do?
- Não. – ele riu. – você já ouviu Beatles alguma vez?
- Claro pô! Eu amo eles. Que álbum é esse?
- Revolver. – Dougie começou a cantar a música junto com John.
- Hm, nunca ouvi falar. – cocei a cabeça. Outra música começou a tocar e eu também não conheço. Eu sou uma negação.
- A história da capa do álbum é engraçada. – ele pegou uma “caixa” fina, deve ser a caixa do LP. – Sabe que já existiu o quinto Beatle, né? – eu assenti e ele continuou. – Então, a mulher dele... quer dizer, ex-mulher - já que ele morreu – deixou o namorado para ficar com o Stuart. – quinto Beatle. E foi esse namorado dela, que fez o álbum Revolver.
- Legal. – não pareceu interessado esse meu legal, mas eu amei saber sobre aquilo. – Como você sabe disso tudo?
- Meu pai era amigo do John. – ele disse sorrindo.
- Não! – gritei e levantei. – Caraaaca, que sortudo. - Eu amo o John, se eu vivesse na época dele, eu me casaria com ele. Tudo bem, se ele não aceitasse, eu iria dizer que aceito um namoro triplo, com a estranha Yoko.
- Eu tenho uma foto deles aqui. – ele abriu uma gaveta e começou a procurar. – Aqui.
Na foto, estava John Lennon (gritinhos) com a língua para fora, um homem com o cabelo preso num rabo-de-cavalo vermelho, com uma barba preta cobrindo a metade do rosto, com a boca aberta como se estivesse gritando, segurando uma criancinha pequena no colo, com o cabelo loirinho, quase branco e a boca vermelhinha, suponho que seja Dougie. Que foto linda. Uma das mais bonitas que eu já vi em toda a minha vida. Claro que não tem uma resolução muito boa, mas da pra ver muito bem.
- Você. – eu apontei para o menininho loiro na foto.
- Pena que eu não me lembro de nada. – uma nova música começou a tocar. – acho que eu tinha um ano, ou dois.
– Eu conheço essa música! Qual o nome?
- “...who sailed to sea...” – apontei para o toca discos balançando minha mão. – Eu sei, eu conheço... – Dougie mexia a boca de acordo com a letra da música.
- “of submarines”... YELLOW SUBMARINE! – ufa, pelo menos uma música que eu conheça.
- Eu tinha medo dessa música quando eu era pequeno. – Dougie sentou no chão e trocou de LP. Se um dia alguém me perguntar, eu direi que tocador de discos, é uma coisa cheia de tralhas. – yellow submarine, yellow submarine. – ele cantou com uma voz rouca e... é, deu medo. Não sabia que ele tinha esse lado Exorcista. Acho melhor eu não chegar muito perto dele, ele pode querer tirar uma serra elétrica do bolso e arrancar a minha cabeça. Serras elétricas cabem no bolso? É, acho que não. Então estou segura. Ufa.
- Olha essa música, do Queen, consegue cantar? – esperei pela música e reconheci só pela batida. Eu cantava essa música toda noite com minha irmã
- “Another one bites the dust.”
- Como você consegue cantar? É impossivel falar another one – ele deu uma pausa - bites the dust. Eu enrolo os “S”.
- Faz assim, canta “Another one biste the dust”. É mais fácil, e o som fica igual.
Ele cantou e ficou certo.
- Gostei. – Dougie olhou para mim e levantou. Foi até uma estante com livros e pegou um caderninho preto. Anotou alguma coisa nele, e eu vi. Estava escrito:
Another one biste the dust. – .
Em cima disso, tinha outra coisa familiar:
Meu Joelho É Feio. – .
- Minha banda! – apontei para o nome. – Por que escreveu aí?
- Eu escrevo aqui as coisas engraçadas que acontecem comigo, porque ás vezes eu esqueço, e gosto de ficar relembrando. Fico rindo sozinho lendo esse caderno.
- Posso ler? – ele ficou pensando e então falou.
- Eu leio uma história pra você. – ele folheou e foi parar nas primeiras páginas. – Pepino. Esse é muito engraçado. Aconteceu com a Louise, quando ela era pequena. Nós estávamos num restaurante, aqui no Jardim Oceânico. Só que a nossa mesa era num espaço aberto, que dava pra ver a rua. Tinha uma cesta de vegetais do tipo cenoura, rabanete e pepinos. Do nada, minha mãe falou: “Louise, olha quem está naquele carro.” – ele riu mais ainda. – Só pra te explicar, a Louise tinha cinco anos. Então, quando ela olhou para o carro, viu minha tia e a Isabella e o Matheus. Eles eram pequeninhos, e Louise era viciada neles. E de tão feliz que ela ficou... – ele começou a dar gargalhadas.
- Pára de rir! Me conta. – eu sacudi ele.
- Ela... pegou o pepino da mesa, e tacou no carro.
No momento que ele disse isso, eu fiquei tentando imaginar a cena. Louise toda maluca tacando um pepino. E então eu comecei a rir. E ri muito.
- Por que ela tacou? – eu disse com a mão na barriga.
- Sei lá, de tanta felicidade? – ele parou de rir um pouco e falou. – Ah, e o pepino caiu no carro do lado.
- Cara, Dougie, o que leva uma pessoa a tacar um pepino num carro?
- Do que vocês estão rindo tanto? – chegou Louise com um cachecol amarelo no pescoço, e um gatinho branco no colo.
- Aww, que lindo! – Dougie pegou o gatinho no colo. Ele era tão pequeninho e branquinho. Parecia uma bolinha de algodão. Dougie sentou do meu lado e me deu o gatinho devagar. O gatinho era tão pequeno, fiquei com medo dele cair no chão e quebrar alguma coisa. Sua patinha agarrou na minha blusa, e ele ficou deitadinho em mim. Abracei ele e cheirei sua cabeça. Tinha cheiro de... gato. – Qual o nome?
- Linda. É uma menina. – disse Louise.
- Mas qual o nome dela?
- É Linda! O nome da gatinha é Linda! – eu assenti com a cabeça e ela continuou. – A gente achou ela na rua. Sozinha. E minha mãe deixou ela ficar aqui. Eu to ensinando a Linda a fazer xixi no jornal, mas ela não consegue entender. – ela revirou os olhos.
Dougie pegou a gatinha e colocou no cantinho da cama dele, onde tinham duas tigelinhas laranjas. Uma com água, e outra com ração. Ela enfiou o rosto na tigela e começou a comer muito rápido, derrubando tudo no chão. Dougie e eu olhamos para Louise, e ela falou, olhando para os pés.
- Esqueci ela dentro do banheiro com a porta fechada. – ela diminui a tom de voz. – Por duas horas. E tem xixi no banheiro.
- Ótimo. – disse Dougie com voz de tédio, se levantando e indo para o banheiro.
Fui atrás dele, e quando cheguei lá, dei de cara com um cocozinho no chão, em volta de uma poça de xixi.
- Olha o que a Louise fez. – ele sussurrou rindo.
Me apoiei na pia - que estava cheia de papéis espalhados - e derrubei uns no chão. Abaixei para pegar, mas a pontinha de um papel já tinha molhado no xixi da Linda.
- , cuidado. – Dougie disse, me ajudando a pegar os papéis do chão. – Isso é o projeto da minha mãe. Ela trabalha o dia inteiro nisso. Coitada, ela sempre tenta entregar para o dono da empresa dela, mas nunca consegue achar esse cara.
- Isso é tão importante assim?
- Cara, é importante pacas. Ela pode ser promovida se fizer o dono ler. Aroldo Magalhães é o nome dele.
Ainda bem que minha mãe não trabalha tanto assim. Dougie quase nem vê sua mãe. Tudo bem que meu pai trabalha bastante, mas qual é, ele me leva todo dia para a escola. Quer dizer, levava né, e Dougie nem tem pai. Por isso ele deve ser tão carinhoso com sua irmã.
Quando Dougie estava com o pano, terminando de limpar o xixi, a campainha tocou, e ele pediu para eu abrir a porta, pois devia ser sua mãe. Valéria.
Fui até a porta, e girei a tranca, mas quando fui abrir, percebi que eu tranquei mais ainda a porta. Girei mais algumas vezes, e enfim consegui abrir a porta.
Valéria, a mãe de Dougie, passou correndo, com Júpiter no colo.
- Que demora para abrir essa porta. – ela gritou. – Louise, guarde as cabeças das barbies que você tem penduradas na porta do banheiro, sua tia está chegando, e você sabe que sua priminha chora toda vez que vê. – ela virou, colocando Júpiter no chão, e falou num tom mais baixo. – Dougie, querido, você poderia... – e então ela me viu.
- Oi, er. Eu sou a , amiga do Dougie.
- Ah, oi . Tudo bom? Não repare na minha pressa. – ela desmanchou o coque de seu cabelo. – É que minha irmã vem aí, e precisamos arrumar a casa.
- Oi mãe. – Dougie chegou e a abraçou. – Essa é a , ela está fazendo intercambio.
- Intercambio? Que legal. – ela disse colocando os pratos na mesa. Júpiter, que estava brincando nos brinquedinhos, começou a escalar minha perna. – e de onde você é?
- Do Canadá. – disse Dougie rindo.
- Você vai almoçar aqui?
- Sim. – eu disse, meio que em duvida.
- E vai ficar para o jantar também. – disse Dougie sentando no sofá.
Na minha realidade (2010), eu iria pegar meu celular e ligar para o celular de , e dizer que iria dormir aqui. Mas o problema, é que AINDA NÃO EXISTEM CELULARES. Eu pensava que celular não faria falta na minha vida. Mas cara, celular é a coisa mais prática que existe. Tudo bem, pelo menos já existem telefones, mas e se o Dougie não tiver o número da casa da ? Ei, espere um pouco. Como será que eles saem?
Por exemplo, quando a gente fala “quando eu chegar ao cinema eu te ligo e a gente se encontra”. Isso nem deve existir aqui. Eles devem falar “fica me esperando em frente aquele poste que tem um panfleto de aula de dança. Não, o outro poste. Aquele que fica em frente a uma lanchonete...”
A campainha tocou de novo.
- Ah meu deus, agora é a Carla. Finjam que estão dormindo! – Dougie, que estava sentado no sofá, fechou os olhos e começou a roncar, Valéria, sentou na cadeira da mesa, e Louise, que estava andando pelo corredor nesse exato momento, com um pote de sorvete na mão, deixou a cabeça cair sobre o ombro, e começou a roncar também.
Eu, de tão desesperada que eu estava, me joguei no chão e fechei os olhos.
E então pensei. Quem vai abrir a porta?
- Pode entrar tia Carla. – disse Louise, com uma voz sombria. – Eu não estou acordada, eu estou sonâmbula. E todos estão dormindo.
- Ai ai, Valéria e suas brincadeiras. – Carla começou a rir, enquanto Matheus e Isabelle corriam pela sala fazendo um barulho estranho. Abri um pouquinho os olhos, e percebi que eles estavam imitando um avião. E então senti uma coisa estranha e nojenta. Júpiter tinha acabado e de enfiar o dedo cheio de baba dentro do meu ouvido.
11 – Casa na Árvore.
Já estávamos almoçando quando Carla me perguntou.
- Então , – disse Carla. Que por sinal, estava grávida. E não deixei de pensar... Que família grande. – onde você mora?
Quando eles chegaram, Valéria abraçou Carla, Dougie abraçou o Matheus, e Isabelle, agarrou a gatinha, Linda.
- No Canadá. – Eu já estava de saco cheio de dizer que morava no Canadá. E pelo visto, Dougie também. Ele me olhou, e então olhou para o prato.
- Que legal! Quando Dougie era pequeno, ele toda hora pedia para a Valéria para morar ou no Canadá, ou na Austrália. – Carla deu um sorriso gentil. – Em que cidade...
Pela minha sorte, Matheus derrubou a colher no chão e saiu correndo para algum quarto.
- O que aconteceu? – perguntou Dougie, indo atrás dele, e todos foram atrás deles.
Quer dizer, menos eu e Isabelle, pois ela estava fazendo uma trança no meu cabelo. E como ela quis que ficasse perfeita, eu tive de ficar parada igual a uma estátua.
Enfim ela acabou, e colocou uma xuxinha no final.
- Que linda. – ela disse com os olhinhos brilhando. – Você está muito mais bonita do que antes.
- Er. – eu dei um sorrisinho.
- É sério, você parece a Rapunzel. – no começo, eu pensei que ela estivesse só elogiando meu cabelo, mas agora percebi que ela estava um pouco séria. – Você é uma princesa?
- Não! – eu disse rindo.
- Qual é a sua princesa favorita?
- A pequena sereia. Não sei se ela é considerada princesa, já que ela não tem perna direito, mas...
- Ahm? Não existe nenhuma pequena sereia sua maluca. – ela disse se matando se rir. – Existe a Cinderela, Branca de neve, Bela Adormecida... A Alice é uma princesa? E a Wendy do Peter Pan?
- Hm, acho que não. Acho que são só essas quatro que você está falando.
Poxa, eu estava me achando super legal, conversando com a Belle – ela me pediu para a chamar assim – sobre princesas, e eu digo logo uma princesa que ainda não existe. -
- Vamos ver o que está acontecendo com o Matheus.
- Vamos, Rapunzel. – ela pegou minha mão e foi saltitando.
Fomos ao quarto de Dougie, da Louise, e da Valéria, e estavam todos vazios.
- Eles devem estar no jardim. – disse Belle.
Ela abriu uma porta no final do corredor que deu para o jardim. Eu nem sabia que tinha jardim aqui.
O chão era coberto de grama verdinha, tinha uma piscina perto do muro que divide as casas. Tem uma árvore gigante no meio do gramado, com uma coisa de madeira, que parece uma caixa gigante, coberta por um pano vermelho, em cima da árvore. E tinha uma escadinha, que ia direto para a caixa.
Além da caixa em cima da árvore, tem um balanço pendurado em seu galho, e um cano azul. Ahm? Aquilo parece mais um poste. Só que fininho.
Pensando bem, aquilo parece aquele troço de ferro, que sempre tem em parquinhos pra você descer. Eu nunca consigo descer nesses negócios, e quando consigo, eu me machuco. Acho que eu tenho um certo trauma disso.
Quando eu era pequena, tinha um negocio desse no parquinho da minha escola, e no recreio, as meninas ficavam fazendo competição de quem subia nele em menos tempo. Eu sempre perdia, porque nunca conseguia subir nele. E então eu dizia “Ei, isso não foi feito para ser escalado, foi feito para descer” e então como punição eu não podia participar do grupo delas. Por mim tudo bem, até porque, com elas escalando aquele ferro, o balanço ficava vazio, só me esperando.
- Vamos ver quem consegue subir no azulsão! – gritou Belle.
- Nããão! – eu segurei ela. – Eu não consigo.
- Nem eu. – ela disse sorrindo. – Mas a gente podia treinar, até conseguir.
Matheus estava sentado na escada da árvore, comendo o almoço, e conversando com Dougie. Sentei no pé da escada, perto deles.
- Oi. – eu abri a mão a balancei para o Matheus, como um tchauzinho.
- Matheus, fala com a , ela é diferente. Ela é legal, igual a gente.
Ah, que fofo. É muito legal ser diferente. Eu sempre tento ser diferente das pessoas, ás vezes acabo me dando mal, por dizerem que eu sou meio excluída, mas ás vezes é legal, como agora.
Matheus é o mais diferente da família do Dougie. Ele tem cabelo preto, porém tem os mesmo olhos claros de Belle, e sardinhas como Louise.
Júpiter é praticamente um mini Dougie. Tem a mesma cor do cabelo, mesma boca, nariz...
- Oi. – disse Matheus, fazendo o mesmo que eu. – Você gosta de super heróis?
Opa, de novo essa história de personagem. Já me dei mal com a história das princesas, não posso errar agora.
- Hm, claro. Eu adoro... er. Porque saiu correndo da mesa?
- Porque eu tenho que comer na mesa? – disse Matheus meio zangado comigo, como se fosse eu que inventei a mesa.
Uau, ele pensa e questiona bastante para um menino de cinco anos. Quando eu tinha essa idade eu pensava em... quer dizer, quando eu tinha essa idade eu nem pensava!
- Matheus ta com mania de comer em escadas. É um problema quando ele está no prédio em que mora. Ele e a tia Carla têm que ir sempre para a escada de incêndio nas refeições.
- Awwn, que fofinho. – eu ri – Toda criança tem uma mania engraçada. Quando eu era pequena, eu acordava umas três da manha só pra ver Tom e Jerry.
- Eu amo Tom e Jerry. – disse Matheus pensativo. E estou começando a achar que esse menino tem uns dez anos, no corpo de um menino de cinco.
- Quando eu era pequeno, eu ia pra escola de cueca. – disse Dougie.
- Por quê? Para ver quem tinha a cueca mais bonita? – eu disse rindo.
- Não! – disse Dougie, e Matheus saiu para... bom, eu não vi para onde ele foi. – Quem aposta em cuecas bonitas?
- Hm, quando eu era do Jardim II e do C.A., as meninas da minha sala ficavam todo dia vendo quem tinha a calcinha mais bonita.
- Ta. Essa é uma coisa bem estranha. – ele fez uma voz bem fininha. – “Oi... , a minha calcinha é rosa, e a sua?”
- Era assim mesmo! – eu ri e deitei na grama.
Ela estava geladinha, talvez porque tenham acabado de regar a grama. Espera aí, as gramas são regadas? Ou só as flores?
- Ei, você rega a grama?
- Porque, ela tá molhada? – perguntou Dougie.
- Um pouquinho. – eu olhei para ele, de cabeça para baixo.
- Ah, é que eu acabei de dar uma cuspida aí...
- ECA! – eu levantei e percebi que meu cabelo estava cheio de fiapo de grama.
- Eu só joguei um pouco de água da mangueira, porque a grama estava meio seca.
- Você sempre faz essas coisas?
- Que coisas? – ele disse, deitando na grama.
- Sabe, você rega a grama, cuida da Louise, do Júpiter, da casa. E sua mãe quase não está em casa, deve ser cansativo às vezes.
- É, bastante. Mas a minha saída é música. Quando tenho tempo, eu fico ouvindo música. No toca discos, fita cassete e rádio aqui em casa, na radio do carro, no walkman...
- Só? Você só ouve música? Não gosta de ver filmes? Ou, sei lá. – fechei os olhos.
- Eu consigo ficar ouvindo música, direto, sem parar. Eu não enjôo de música. Posso até enjoar de uma música, ou de uma banda, mas, tem uma loja de CD aqui perto, que tem um milhão de bandas com dez milhões de músicas diferentes.
Uau, o cara é viciadão mesmo.
- E você... Toca alguma coisa, além de piano?
- Aham. – ele sorriu. – Toco baixo, guitarra e violão.
- Caraca. – eu disse devagar. – Como? Como você tem cabeça pra tudo isso? Eu já acho meio complicado violão, imagina... Guitarra.
- Mas é quase a mesma coisa que violão, só que o som é diferente.
- No começo, quando eu te conheci, eu já achei você meio estranho. Mas Dougie, agora eu to começando achar você um... Gnomo.
- Gnomo?
- É, sabe, tipo E.T.
- Ah, Alien?
- É...
- Quer ouvir uma coisa mais alienígena? – ele riu. – Consigo tirar uns acordes de música, só de ouvir.
- Você não deveria ter falado isso. Antes você era um alien, agora você é um monstro. – Abri os olhos e olhei para o céu. Estava fácil de olhar, pois o Sol estava longe, e eu conseguia ver o céu “inteiro” sem o Sol atrapalhar. E percebi uma coisa estranha.
- Dougie. – eu disse devagar. – Já percebeu que o céu parece uma cápsula redonda que se fechou na Terra? Como uma atmosfera de verdade?
- Ahm? – ele perguntou levantando e ficando de joelho.
- É. – eu apontei para o céu. – Olhando bem, o céu é meio redondo. Eu nunca tinha percebido isso, acabei de ver agora.
Ele olhou bem para o céu, virou a cabeça de lado. E disse.
- Não. – ele riu. – Eu continuo a achar que o céu é... Só o céu.
- Esquece.
Ele não entendeu. Mas, de verdade, olhei para a direita, e para a esquerda, e vi que o céu meio que dá uma voltinha.
Ou eu estou ficando meio maluca. Céus, quando foi que eu comecei a filosofar? Eca.
- Meu filho. – gritou Valéria, entrando no jardim. – Telefone pra você.
12 - Toddy Egoísta.
Tomamos chá. URGH. Acho que não existe coisa mais horrorosa e sem sabor do que chá. Eu pensei que fosse super bom, melhor até que chocolate quente.
Coitadinho dele, depois de anos tomando chocolate quente, eu troquei ele pelo chá horroroso. Calma chocolate quente, eu ainda te amo.
Impressionante isso, eu tenho pena dos objetos! Tive uma época, em que eu só tomava Nescau. Até que resolvi mudar para o Toddy, e fiquei alguns anos tomando ele. Num dia, fui pegar pipoca no armário, e achei... o Nescau. Eu tinha até me esquecido dele, sério mesmo. Mas quando fui tomar, ele não era o mesmo. Estava com um gosto horrível. Pensei que ele estivesse estragado, mas não. Era pior do que isso. Eu tinha viciado em Toddy, e não conseguia mudar.
Toddy Egoísta.
Desculpe Toddy, eu ainda amo você também, e vou continuar a tomar você com leite quentinho todas as manhãs.
Espera aí, eu estou conversando telepaticamente com o Toddy?
Acho que na minha vida passada eu era um brinquedo abandonado, tipo o Wheezy, o pingüim abandonado na prateleira empoeirada do Toy Story 2, e agora eu não deixo nada – incluindo objetos – abandonados.
Enfim, eu estava falando sobre o chá. Ele é como água quente com terra dentro. O que, na verdade, é quase isso mesmo. Água natural já é meio ruim, agora, imagina água fervida.
Dougie, Louise e eu cuspimos o chá na pia assim que provamos. Dougie concorda que o chá não tem gosto de nada. Já Louise, disse que ele tem gosto de maçã podre. Isso só porque o chá é dela. Se eu tivesse um saquinho de chá, eu não iria sair por aí julgando ele. Até porque, acho que chamar algo de maçã podre, é um pouco melhor do que chamar de “nada”.
- Que nojo! – disse Louise lavando a boca com a água da pia. – Não sei como o chapeleiro maluco consegue beber isso a cada segundo.
- No filme da Alice, o chá parece ser tão saboroso. – eu lamentei.
- Tem leite, se quiserem. – sugeriu Dougie.
- A gente podia fingir que o leite é chá!
- Não Louise, tem uma coisa muuuito melhor, que eu vi no filme Aristogatas. – eu disse. – Tem cookie?
- Tem.
- Já molhou ele no leite?
- Já. – disse Dougie subindo na cadeira, e pegando um pote cheio de cookies, num armário lá no alto. – Mas não é nada demais. – ele pegou o leite e derramou num copo.
- Porque você tem que segurar o cookie por um tempo dentro do leite, e depois morder só a parte molhada. Cara é muito bom. - olhei para os cookies, haviam muitos. Nós poderíamos passar o dia inteiro comendo cookie.
Dougie pegou um biscoito e deixou metade uns 5 a 10 segundos dentro do leite. E então comeu. Louise fez o mesmo.
- Uau. – após engolir, Dougie molhou mais o cookie e comeu de novo. – É muito bom. Mesmo. – ele sorriu.
- É muuuuuuito bom. – Louise pegou e deu para a gatinha.
- Pára de dar comida pra Linda, Louise. Ela vai vomitar de novo. – disse Dougie, pegando mais um biscoito e molhando no leite. – É bom porque o cookie fica geladinho por dentro. Não sei. Parece que tem recheio de leite dentro. Não é nojento como os biscoitos que os bebês, como Júpiter, comem, que fica babado e papudo.
Estávamos esperando Valéria acabar de trocar a frauda de Júpiter para ir ao cinema.
Quando estávamos no jardim, foi a que tinha ligado para nos chamar para o cinema. O filme é daqui a pouco, mas teríamos que chegar um pouco cedo, já que tem que comprar ingresso na hora, e não tem lugar marcado (óbvio, só daqui a alguns anos). Vamos ver no cinema do Leblon. É engraçado ir na “versão dele” de vinte e dois anos atrás.
Nem sei que filme a gente vai ver, mas deve ser algum musical, já que Dougie não estava muito animado para ir.
- Meu tipo de filme é mais ou menos Star Wars, Indiana Jones, e O Exterminador do futuro. Não gosto muito de romances e musicais.
Ele tirou do bolso o dinheiro, que Valéria nos deu para o filme. E só agora fui perceber.
É Cruzeiro! O dinheiro não virou Real ainda! Muito estranho. Ainda não tem aqueles animais leais, agora é o rosto de alguém, que não consegui reconhecer.
- Você ia amar um filme que foi feito no lugar onde eu moro. O nome é De Volta Para O Futuro. – eu disse. Ah, eu tinha que dizer. Até porque, ele nem vai descobrir que sou de 2010, só porque disse o nome de um filme desconhecido.
- Eu posso ir com vocês? – disse Louise, ainda com o cachecol amarelo.
- Não, o filme não é pra sua idade. – disse Dougie.
- Tem sangue? Cabeças fora do corpo? Ou pior ainda... Robôs? – Louise estremeceu.
- Não. Na verdade, é só um musical. Mas não vai ter ninguém da sua idade.
- Genteeee, vamos! – chegou Valéria cantando, e então ela me olhou. – Ah, meu Deus, você não está arrumada ! Me esqueci de você. – ela sumiu, e depois voltou com umas roupas no braço. – Você pode sentir frio! Coloca essa minha jaqueta de couro, ela esquenta bem.
Minha roupa. Eu estou a própria Cindy Lauper dos anos 80. Acho que não tenho coragem de sair na rua com essa roupa.
A jaqueta é três vezes meu número! Como eles não enxergam isso?
- Vamos entrando no carro, vocês não querem se atrasar.
CONTINUA!
Nota da beta: Qualquer erro na fiction mande um e-mail para annieb.ffadd@hotmail.com
xoxo :* annie.
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